"Deus só conseguiu criar o mundo em 7 dias.
No primeiro ele criou o
Orgulho, no segundo criou a Avareza, no terceiro a Luxúria, no quarto fez-
se Ira, a Gula veio no quinto, no sexto a Inveja, e finalmente no sétimo
criou a Acídia.
Consumido então pela sua própria incompetência, ele descansou. E
enjaulou os mortais em um ciclo infinito de estagnância. Fruto do seu
próprio fracasso, não finalizou o que criara no último dia: A Carnalidade.
O mundo foi criado com pecado suficiente para desejar, mas sem carne
suficiente para viver. Deus dorme, e nós herdamos este sono.
Dai-me o pecado, dai-me a fruta, dai-me a capacidade de usufruir dos
desejos que o senhor queimou na minha consciência! Cortarei cada
pedaço imperfeito da minha pele até livrar me de todo sangue impuro, até
as estrelas e a lua me verem, e me conceberem o direito de viver!
Dai-me,
Carnis Mortis.”
1. O Homúnculo
27 de Maio, 2017
Daniel nunca soube de onde veio realmente, quase ninguém ali sabia na verdade.
Era uma comunidade pequena no interior de São Paulo, cercado de montanhas
cercadas por água, distante de qualquer outra civilização. As pessoas só apareciam ali,
como se sempre estiveram. Sua memória mais antiga é de seis anos de idade, quando
foi obrigado a cortar a cabeça de um gado com o machado do seu pai. Todos que ele
conhecia eram profundamente religiosos, extremamente. Desde pequeno já tinha
decorado os oito mandamentos em ordem: Silêncio, Castidade, Calma, Paciência,
Apatia, Obediência, Capacidade e Medo. Desde que consiga lembrar, “tenha medo do
divino” é a frase mais falada pela sua mãe, e medo ele tinha. Extremamente.
Como esse dia era um sábado, ele iria ter que matar os insetos do porão. Seu tio,
Abraão, chegou batendo na porta com uma força capaz de fazer o quarto tremer.
“ACORDA! Sabado de manhã!” Ele então puxou o sobrinho pelo braço até a parte de
trás da casa, onde tinham as escadas que levavam pra baixo, dentro do porão. “Vai
conseguir fazer sozinho dessa vez né? Vai fazer que nem o tio combinou?” O sol nem
tinha nascido ainda naquela madrugada fria, mas essas palavras ja queimavam a nuca.
Então, ele fez que nem o pai dele ensinou: fechou um olho, respirou fundo, e
respondeu: “Sim.”
Daniel abriu as portas do porão que pareciam pesar mais do que um bode, e rangiam
como o berro de um corvo, alto o suficiente pra Deus escutar. Seu tio então fechou as
portas. A lâmpada tinha estragado aquela semana, então Daniel pegou a lanterna
empoeirada na estande ao lado, junto com o balde que iria colocar os insetos. O porão
era velho, tinha chão de terra e minhocas, mas parecia um labirinto extendendo
quilômetros, mesmo que aparentemente era do tamanho da casa. Mesmo que
insistissem que era errado, ainda aos 12 anos de idade, ele era apavorado pelo escuro.
Especialmente nesse porão maldito com cheiro de lodo. O sino da igreja tocou, seis da
manhã.
Era sempre o mesmo canto com a infestação, a parede ao lado do velho açogue. O
que pensando bem não tinha motivo pra existir, porque ninguém da família era
açogueiro. Mas quando Daniel foi olhar, o açogue não estava mais ali. Nem nenhuma
marca de sua existência. O menino então foi procurando outros lugares com
infestação, mas não achou nada, mesmo escutando o barulho das pragas. Que estava
sendo suavizado pelo barulho de seu pai batendo na esposa. Ficou horas procurando
naquele porão gigantesco. Até que, depois de tropeçar numa pedra, se lembrou. Tinha
um cômodo que jamais em sã consciência ele se atrevia a entrar. Era diretamente em
baixo e acoplado ao escritório do seu pai. Se preocupando mais com areação do seu
tio se ele voltasse com o balde vazio, ele se decidiu.
Então, denovo, fez como seu pai ensinou, fechou o olho esquerdo, respirou fundo,
olhou para baixo. Quando ele se virou pra frente viu a silhuetta de um homem na porta,
um homem pálido, parecia estar segurando uma corrente. Quase berrou de susto, mas
ainda estava sem ar. “Pai? É você?” O homem não deu resposta, apenas entrou na
sala. O menino rapidamente seguiu atrás, tendo quase certeza de que era seu pai. Mas
quando entrou não tinha ninguém, nem nenhum inseto, apenas uma unica barata
caminhando tonta em círculos pelo chão. De novo, ouviu o sino bater lá fora, meio-dia.
O cômodo era… estranho. Como se de uma época diferente, um tempo distante. O
chão era pintado de azul e vermelho, com um simbolo gigante de uma estrela
octogonal diagramada no centro. Entre as coisas espalhadas pelo chão estavam: um
coelho com o peito aberto, uma túnica azul, um grimório de anatomia aberto e
rabiscado, um vial branco escrito “semente”, luvas, e uma poça de alcatrão do lado da
escrivaninha. Quando Daniel ouviu passos vindo do andar de cima, saiu correndo.
Deixou a lanterna e levou apenas o balde com uma única barata. Quando voltou, viu
que a lâmpada estava acesa, e a porta do açogue aberta, infestada de insetos. Ouviu o
sino bater novamente, seis da manhã.
31 de Maio 2017
A família sempre se reunia para almoçar. A mãe, o pai, o tio, a tia (que também era
prima), o vô, as duas vós, e os três primos. Muita comida para muita gente. Felizmente
ninguém precisava cozinhar. De onde a comida saía meio que não importava. Só tinha
comida, e isso era suficiente. A tia serviu os pratos: Dedo de cavalo com arroz de
farofa. Algo que Daniel nunca gostou muito, mas reclamar é pecado sua mãe dizia.
Todos comiam em silêncio até perguntar “Pai, por que tem um açogue no porão?” O
seu pai, um homem grisalho, olhou com um desprezo frio, ele odiava responder
perguntas. Era falta de educação.
A mãe do garoto, sentado do lado, deu um tapinha na mão dele, “não faça essas
perguntas idiotas meu filho.” O pai interrompeu, com sua voz grossa como uma tábua
“Ele terá que aprender um dia mesmo.” Ele largou os talheres, tossiu, puxou as
mangas, e mostrou as cicatrizes no seu braço. Eram em formato de cavalos. Ele
respondeu “Como o padre José comentará hoje na comunhão, o papel do homem é se
livrar da própria humanidade o máximo que poder, isso é a purificação. O açogue não é
só um lugar de cortar carne, é um lugar de cortar carne. Fez sentido?.”
Não, não fez o menor sentido na verdade. Mas questionar também é pecado. Ele
apenas balançou a cabeça e fingiu que sim de uma maneira não muito convincente.
Sem nem pensar, uma pergunta se escapou novamente de sua boca. “Quem é o
homem pálido no porão?” Sua mãe lhe deu outro tapa. E dessa vez seu pai não
interviu. O restante da refeição foi em silêncio, como sempre. Os dedos não estavam
muito apetitosos.
O trajeto da ida à igreja era sempre um ponto de ruminação, ele era apavorado pela
carroça e o fato de não fazer ideia como ela funcionava. Sua mãe e seu pai entravam,
fechavam as janelas, e mandavam ele não fazer nenhum barulho. E sobre nenhuma
condição ele deverá olhar para fora. A carroça balançava, tremia, estrondos
coagulavam ao redor. O pior de tudo eram as vozes, berros, sussurros, cantigos.
Daniel ficava ofegante, seu coração pulsando para fora da cocheira, tentava fechar os
olhos e ignorar. A caçamba brilhava com um vermelho rutilante, como se fosse
incendiar a qualquer momento, quando de repente, parava. E seus pais abriam a janela
para mostrar a igreja.
Era uma igreja pequena, branca, simples mas bonita e sofisticada. Ele sempre se
sentiu em paz na igreja, muito mais tranquilo do que na viagem do estábulo. Os outros
membros da comunhão, que incluíam os vizinhos da família Lorena, Castro e Borges, a
congregação das irmãs do Vale, e mais uns trinta desconhecidos, todos chegavam no
exato mesmo horário. Os irmãos desligavam as luzes e o padre ia acendendo as oito
velas um por um, começando o cantigo. “Hic iacet vetus peccatum primordiale.”
Acendia a outra vela, “Hic lacrimam carnalem accendimus.” Outra. “Ad praeconem
doloris et creatorem rerum”. Levantava a voz. “Elegia vitae nostrae martyrio scribetur.”
Agora era vez da comunhão.
“Demiurgus, progenies flagelli et timoris.
Imperfectionem nostram castrare et carnis mortis concede.
Divinum confige et cum improbo concube.
Velum terebrare.”
Com as oito velas acesas, o padre começou.
"Irmãos e Irmãs."
Seco, sem afeto, mas melódico, quase que acolhedor, sedutor.
"A virtude do Flagelo se entranha diretamente no caminho da Carnalidade. O Flagelo
é amargo, dissonante, libertador, já viveu por inúmeras tragédias até chegar em vocês.
A Carnalidade é salgada, distante, harmoniosa, um mar negro de memórias e choros
pótumos entre o homem e o criador. Desta forma, o presságio que leremos hoje foi
zelado em um pesadelo, mas um pesadelo repleto de significado."
Ele abriu o grimório vermelho na frente do altar. Tirou seu manto e fez-se nu,
instruindo todos a fazerem o mesmo, antes de se ajoelhar frente ao livro, e amarrar
uma corda de ferro entre as coxas.
"No fim do mundo, Caim caminhava com o corpo de seu irmão nas suas costas.”
Seu pai sussurrou, “Para isso serve o açogue. Abscindir.”
A comunhão orou em silêncio por mais 8 minutos. Depois, o sino tocou. Esperando o
silêncio, o Padre gritou: “A HORA CHEGOU! SAUDEM O MARTÍRIO!”
“REGE O MÁRTIR! VIDA ETERNA AO MÁRTIR!” Todos gritaram em conjunto, em
instinto.
Silêncio. “O Diabo está aqui” O padre fala baixo. Uma pergunta escapa da boca do
menino mais uma vez. “O Diabo?” Seu pai cobre sua boca com força, até tampando a
respiração. “Ele quer… Ele quer… Um lampião, uma baliza… Ele quer-”
Um braço pulsa pra fora das costas do Padre. Ele grita no exato mesmo tom. “UM
MÁRTIR. ELE QUER UMA OFERENDA CARNAL!” Todos novamente: “REGE O
MÁRTIR! VIDA ETERNA AO MÁRTIR!” As oito velas se apagam. O chão treme. E de
repente acendem novamente. Abraão, tio do Daniel, desaparece. O padre se vira, e o
buraco no seu peito se fecha sozinho. “Vistam se, manterei-me despido. É hora de
comer a fruta.” Todos se enfileiraram, esperando a vez de cada um sentar no colo do
padre e comer a maça do sacrilégio. Sempre o mesmo gosto sem gosto.
Após o fim do rito, a comunhão se encontrou fora da igreja, pois tinham novos cidadãos
chegando na comunidade. De longe um carro velho e acabado vinha acelerando de maneira a
quase queimar as rodas. Saiu dali um homem de meia-idade segurando sua mulher mais nova,
que parecia apavorada, mas fingia um sorriso. O padre nu chegou na frente, “Que bom
conhecê-los, eu sou o Padre José, nós acolheremos vocês com a maior saúde. Quais os
nomes de vocês?” O homem, aparentemente sem perceber o temor de sua companheira,
respondeu: “Boa tarde! Me chamo Abel, essa é minha mulher Lu. Minha oferenda está no
porta-mala.” O padre caminha lentamente à parte de trás do carro e abre o compartimento.
“Perfeito. É seu irmão não é?”
2. O Direito de Chorar
22:19, 19 de Junho, 2022
Na metade dos invernos infernais acima daquele morro, Daniel haverá nascido 18
anos antes. Realizando seu aniversário no dia que o Sol morre, o solstício de 21 de
junho. Seu pai disse durante sua vida inteira, que a verdade de todas as perguntas
serão reveladas na noite do seu batizado. Marcando o início da sua idade adulta. Seu
pai prometeu finalmente o levar ao açogue dois dias antes, em preparação para sua
iniciação à carnalidade. Ele mal conseguiu dormir, esperou a vida inteira por isso. Não
sabia exatamente o que esperar. Quando o sol começou a nascer, Daniel saiu do seu
quarto e encontrou seu pai na entrada do porão, seus passos afundando na neve.
“Oi Pai.”
“Bom que já acordou.” Ele falou com uma frieza clínica. Tirou seu casaco e botou sua
mão reto no seu rosto, separando-o. “Você vai entrar, se ajoelhar, botar as mãos para
trás, ficar em silêncio, e sobre condição nenhuma você abre os olhos. Entendeu?”
“Sim.”
“Repita. Você não vai abrir os olhos. Nem uma espiada. Sua mãe não está mais aqui
para te proteger.”
“Não vou abrir os olhos sobre condição alguma.”
“Tire a roupa. Jogue na neve. Desça.”
Após se despir, Daniel abriu as portas e desceu ao porão. Sujando seus pés de lodo,
caminhou ao açogue e entrou, a porta já destrancada. A sala era fria, mais do que a
própria neve. O ferro gélido queimava os pés através da sujeira. O jovem então fez
como ensaiado, ajoelhou-se, botou os braços para trás, e fechou os olhos com uma
força dolorosa. Nuncasentia muitas emoções. Reprimir elas foi uma das poucas coisas
que seu pai ativamente ensinava. Mas naquele momento, tinha algo maior que ele,
maior que a o porão, maior que a própria lua: O medo. Ele tinha certeza de que queria
isso. Mas não tinha certeza o que era realmente querer.
Ele esperou, e esperou, até que o frio tomasse conta do seu corpo, não conseguindo
sentir sua pele. Foi aí que a ele ouviu. Uma sombra escura, vazia, sussurando no seu
ouvido com o choro de mil mariposas queimadas. Passos que andavam lentamente à
sua volta tremiam levemente o chão, e insetos subiam pelas suas costas. Correntes se
mexiam ao seu lado, eventualmente chegando nas mãos, prendendo seus braços para
trás. A sombra trepidou, após para na sua frente, e começou a contar, baixo ao ponto
de ser inaudível. “unus, duo, tres, quattuor, quinque, sex, septem, octo.”
Silêncio.
A pele de Daniel começou. E os cortes se fizeram presentes. No meio da sua coluna,
a dor traçou um desenho. A dor era excruciante, mesmo através do frio, Daniel não
conseguia conter o silêncio. Soltou um berro curto, humilde. As aranhas na sua testa
tentavam abrir seus olhos, mesmo balançando a cabeça, outros apareciam. O chão
batia como tambores, cada vez mais rápidos, e o chão subia levemente a cada batida,
sem parar. Daniel arqueou a coluna para trás, seu peito encostando no teto. Seu corpo
desgastado, sendo esmagado, logo iria perder a consciência. A última coisa que ouviu
foi mais um sussurro: “Deus te hic non audit. Ride.”
03:41, 20 de Junho 2022
Ele acorda no seu quarto. Levantando-se rápido, ofegante. Sem nenhuma dor.
Encostou a mão nas costas, e estava ali, sua marca. Ele tira a camisa frente ao
espelho, e vira de costas. Ourobouros. O jovem parou, encarando suas costas, até
uma felicidade fulminante emergir de seu peito. Orgulho. Tranquilidade. Realização.
Como se um pedaço faltando foi finalmente encaixado. Ele sai correndo na neve e
entra no porão. Onde não encontra nenhum traço do açogue, como esperado. Daniel
riu, e voltou ao seu quarto sorridente, algo que não fazia em anos. Deitou na sua cama,
e foi dormir, interrompido pela batida de seu pai na porta. “Levante. Vamos ao
santuário, nas montanhas.” Tinha algo errado, seu filho tomou um susto: Seu pai
estava sorrindo.
Os dois foram à carroça, tranquilos. Pela primeira vez, a carroça ficou quieta. Em
silêncio. Um silêncio que era tranquilo. Silencioso. SILÊNCIO. Era para ser tranquilo.
Um pouco ensurdecedor só. Daniel, imovel, uma estátua. Sua mente correndo e se
jogando em diagonais, uma multidão, um parto. Imaginando o que é que está
acontecendo. Seu pai abriu as janelas, revelando a linda paisagem montanhosa,
coberta de neve delicada e árvores perenes. “Bonito, não é?”. O trajeto até o santuário
era longo, durando mais de duas horas. Seu pai segurou o seu cordão com uma cruz
diretamente ao rosto, e disse: “Quando chegarmos, espere para falar com a irmã
Anastasia, não fale com mais ninguém.”
Chegaram logo ao sino bater, uma coelho encarando-o ao sair da cabine. O santuário
era construido diretamente na montanha mais íngreme da região, então era repleto de
escadas e rampas. As paredes eram feitas de rochas negras brilhantes, pareciam
schorlita. No topo tinha uma unica casa com uma janela vidrada retratando um lírio
vermelho, que capturou a atenção do jovem, que foi abruptamente interrompida por
uma irmã perguntando: “Qual o propósito da visita hoje senhores?”
“Bom dia irmã Natalia, vim trazer meu filho para ver a sua Anastasia.”
“Ah… os cortes dele se abriram? O que a carne revelou?”
“Nas suas costas.” O homem grisalho chega perto e sussurra: “A serpente.”
A irmã faz um rosto de pavor, após correr para dentro e abrir a porta. “A sétima
virtude estará com você. Suba até o topo” Daniel entrou sozinho, seu pai aguardando
na entrada. O interior do santuario era antigo, úmido, a única fonte de luz era vermelha,
os vários braseiros pendurados do teto com correntes pouco estáveis. Não parecia
muito um santuário, mais uma forja, um útero. As irmãs cochichavam entre si vendo-o
passar pela capela, o refeitório, os dormitórios, até chegar no corredor de escadas que
levavam ao topo. O corredor era longo, com vitrais alternando entre os lados. Eles
retratavam animais em situações diferentes, com um título embaixo.
1. O Cavalo caindo de um penhasco. “O Orgulho.”
2. O Rato roendo o cabelo do cavalo. “A Avareza.”
3. A Lebre trepando em cima do rato. “A Luxúria.”
4. O Lobo caçando a lebre. “A Ira.”
5. O Abutre comendo os restos da Lebre. “A Gula.”
6. A Barata comendo os restos dos restos. “A Inveja.”
7. A Lesma passando ao lado da barata. “A Acídia.”
8. O oitavo vitral está incompleto, retrata que parecia ser a lesma caindo de um
buraco na boca de uma criatura. Está sem título.
A porta ja estava aberta. Não sabia o que esperar, nem o que falar, mas entrou. E
fechou a porta. Era uma sala vazia. Um chão e paredes de concreto, sem textura, salvo
o vitral que viu quando chegou. Era uma sala muita longa, quase que um corredor, bem
maior do que parecia por fora. No fim sentava uma mulher sentada com as pernas
cruzadas, vestindo um véu branco que cobria quase todo corpo, exceto os pés
descalços. Ele andou cautelosamente para frente, tentando espiar o rosto da mulher.
“Sétima Virtude? É você?” Sem resposta. Apenas se levanta, e vira para o vitral. Ela
encostou a mão no vidro, e disse, em metade sussurro metade fala: “Eu sonhei com o
seu medo. O barco lhe chamou, você se recusou a atender. Por que?”
O garoto dessa vez, em silêncio. “Foi por causa dos choros? As lágrimas dos que
atenderam o chamado? Elas ainda estão no seu rosto.” Uma gota de sangue escorre
do olho esquerdo de Daniel. Ele entendeu. “Eu não abri os olhos por obediência. É a
sexta virtude. Meu pai me alertou a não abrir.” A mulher recua o braço, e levanta um
pouco a voz: “Você é como o céu. Mente para si mesmo. Porque você escolheu
Obediência? Você sabe a resposta.”
“Eu… nunca desobedeci. Foi o que-”
“SILÊNCIO!” A mulher bate a cabeça contra o vidro, rachando.
O jovem se espanta. Da um passo pra trás. Ele entendeu.
“Medo.”
A mulher tirou o véu, vestindo um vestido branco modesto, sua nuca cheia de cortes.
Uma lesma em espiral. “Venha meu pequeno, mostre-me suas feridas.” Daniel
caminha, cada passo uma incerteza. A sétima virtude se vira, seus olhos brancos,
incapaz de enxergar. Ela estende o braço delicadamente, Daniel tira a camisa, e
encosta nela a cicatriz. A Anastasia ofega, suspirando curto. “A Serpente… A Serpente!
REGE O MARTIR! VIDA ETERNA AO MÁRTIR!” Escapa uma pergunta: “Mártir…?” A
sétima virtude não reage, mas prepara um ritual.
“O spiralis mortis et convergentia temporis, libera me a forma mortali et revela mihi
desiderium!” Daniel sente um braço entrando dentro das suas costas, seu corpo
moldando para acomodar o novo espaço. Ele grita, espasma, mas não consegue se
mexer. “Confie em mim pequeno. Não se mova.” Lágrimas descem de seus olhos
brancos. Ela coloca a outra mão sobre a testa do jovem. E repete a mesma
encantação, ao contrário. O corpo dele convulsa, sua cabeça puxada para trás, seus
olhos negros. A mulher inspira. Conta até oito. E para.
Daniel cai pro chão. Sem dor. Sem ar. A sétima virtude encosta a testa no seu
ouvido, e diz: “Você faz parte de um sistema maior. Maior que qualquer um de nós. O
Mal já chegou perto, mas você não é dele. Você é fruto do barco. Da caravela. Do mar.
Voe meu pombo, antes que podara as asas, a espiral me mostrou; O seu inteiro
chegara na realização total do seu início e fim. A lua sangrar. O ciclo se iniciar, e tudo
acabar. A carne se desfazer, e a sua alma inteira. Solene. Finalmente. É lindo. É uma
pena.”
Ondas de pensamentos e emoções quebram na costa do pensar do menino. Talvez
ele queria. Queria se sentir especial. Talvez essa era a primeira vez que algo pareceu
certo. Talvez ele queria saber o que era querer. Talvez. O litoral dentro do seu peito
nunca esteve tão vivo. Tão cheio. Quase chorou. Mas não se permitiu. Ainda não.
Talvez ele quisesse. Talvez uma gota caiu no seu sorriso. Talvez.
Daniel rastejou para fora e caminhou fracamente pelas escadas, quase caindo. Sua
visão ainda um pouco borrada e seu senso de direção alterado, sentiu seu braço ser
puxado fortemente por uma irmã encapuzada, que levou o jovem correndo pela porta
dos fundos até o fundo do clareiro atrás do santuário.
Resumo do resto:
Ao deixar o santuário, Daniel é puxado para fora por uma das irmãs. Ela o conduz às
pressas para a encosta mais desolada da montanha, longe das escadas, longe dos
sinos. Lá, finalmente se apresenta: Lu, a mulher de Abel.
Ela explica que se tornou uma irmã depois que seu marido foi levado. Era o único jeito
de não desaparecer também. Embora ela seja perturbada pelos dogmas da igreja, ela
aprendeu bastante ao longo dos anos, o suficiente para saber o que a marca da
serpente significa.
"Ela aparece a cada 8 anos, e o seu receptáculo (portador) é transformado em um
objeto de culto. Mantido à beira da morte durante a sua estadia, até seu corpo não
aguentar mais e sucumbir. Tendo assim que encontrar outro vestígio da Carnalidade."
Ela mostra uma foto, uma mulher com as mãos pregadas nos pés por trás, uma venda
nos olhos, cortes pelo seu corpo em forma de runas, sua mandibula deslocada e corpo
suspenso no ar, preso em quatro correntes amarrados nos braços e nas pernas.
"Ela morreu há um mês. Você tem que fugir."
O jovem vomita, chora, nega, mas acaba por acreditar. A foto está ali.
Ambos tentam fugir pela floresta, mas o pai do Daniel encontra eles ali.
Eles tentam disfarçar, e o pai acredita, até que a irmã deixa cair a foto. O velho,
revoltado, saca sua espingarda e dispara contra a Lu. Seu filho fica paralisado, não
conseguindo tirar os olhos do corpo da mulher.
"Filho, não escute esta pútrida herege. Você tem que ser corajoso, entender que a vida
vai muito além do corpo. Acredite em mim. Feche um olho e respira fundo."
Daniel hesita, mas ja se decidiu. "Não.... Não vou. Não quero me tornar esse...
monstro."
O jovem chora.
"Você perdeu o direito de chorar Daniel."
O homem pega uma faca e corta o olho esquerdo do seu filho. Manchando sua camisa
de sangue. Ele berra, esperneia, cai no chão. Seu pai o levanta pelo pescoço, mas olha
pra trás, assustado. Um barulho, vindo.
O jovem acorda, no açogue. Ele levanta, tenta abrir a porta, mas não consegue.
Trancada por fora. Ele se vira.
Uma catedral escura, alta, de magnitude a tocar no céu. Do teto ao altar, uma corrente,
com um gancho preso em um corpo. O corpo de Daniel.
Sua mandíbula deslocada, sua coluna aberta, presa na corrente. Um prego enorme
fincado em cada mão, uma gosma preta pelas pernas, e uma cor azulada na sua pele
pálida. O corpo olhou com seu único olho para o jovem. E sorriu.
Daniel sai correndo, bate na porta do açogue até abrir, e foge do porão. O céu estava
preto, a lua vermelha, e não tinha sequer uma pessoa à vista. Ele corre em direção ao
cavalo da família e cavalga o mais longe que conseguir. Passando pela floresta até
chegar no lago e achar um barco na sua frente. Ele rema por quase uma hora, até
começar a chover, uma tempestade. Causando seu barco a naufragar, e Daniel se
afogar.
Ele tosse água, seu corpo encharcado e frio. Ele abre os olhos, e ali estava. O Homem
Pálido, o seu próprio cadaver. Daniel não conseguiu nem se mexer, seu corpo
tremendo contra a costa de terra. O Homem abre a boca, sua voz saindo rouca e
dissonante:
"Deus não te ouve aqui menino. Nunca te ouviu. Nunca foi ele. A espiral do tempo é
absoluta, o seu destino arcado, e a minha morte feita. Ria."
O sol começou a nascer. O Homem saiu.
O menino berra.
Ele caminha para dentro, logo encontrando uma cidade pequena. Ele vive ali, primeiro
como mendigo, depois como lenhador. Não contou a ninguém, mas as pessoas
percebiam. Ele falava coisas estranhas, constantemente olhava pro nada, nunca
conseguiu ser normal. Ele só apareceu na cidade, como se sempre estivesse.
Um agente da ordem passando pela cidade, notou immediatamente as peculiaridades
do jovem. A energia do outro lado fluindo pelo seu corpo. Ele trouxe o novo recruta
para conhecer a sua esquadrão, sabendo que ele não tinha identidade nem algum
registro.
Daniel se sentiu bem na ordem, talvez finalmente teria um proposito em vez de viver
em medo constante do seu proprio futuro.
Foi aí que O Homem apareceu de novo.
"Eles te deixaram fugir, Daniel.”