Resistência Urbana e Lutas Sociais
Resistência Urbana e Lutas Sociais
ÍNDICE
MÍDIA NINJA
Conselho Executivo Territórios Transversais. 3
entrevista:
CULTURA NEGRA ANTI-RACISMO 4
Salloma Salomão, historiador, professor, músico e compositor
Debates Transversais:
SOLIDARIEDADE CONTRA A BARBÁRIE 7
José Arbex Jr., jornalista e escritor
Debates Transversais:
A direção majoritária de Syriza sucumbiu 11
Valério Arcary, historiador, militante trotskista e membro da CSP-Conlutas
Forjado na LUTA 22
Josué Rocha, da coordenação estadual do MTST-SP
POESIA SEM-TETO
Jeff Vasques, poeta, militante do PCB.
Jussara Basso, da coordenação estadual do MTST-SP
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entrevista:
O DOCUMENTÁRIO QUE LEVA À VINGANÇA 30
Adirley Queirós, cineasta de Ceilândia (DF) e diretor de “Branco Sai Preto Fica”
“U
m dia chegaremos a Por falar em financeirização, o lu- As Medidas Provisórias 664 (que corta em outras figuras penais); projeto de lei
um estágio em que cro dos quatro maiores bancos do país, direitos da pensão de morte) e 665 (que do Estatuto da Família que, restringindo a
será possível determi- já exorbitantes, cresceram mais de 40% dificulta o seguro-desemprego), formu- definição de núcleo familiar à união entre
nar se um bebê, ainda no primeiro semestre de 2015, na com- ladas logo no início do mandato da pre- um homem e uma mulher, pode, inclusi-
no útero, tem tendências criminosas e. se paração com o mesmo período de 2014. sidente Dilma Rousseff, já anunciavam ve, impedir a adoção de crianças por casais
isso acontecer. a mãe não terá permissão Isso não foi um acaso: vivemos em um que a lógica da subserviência ao mercado homoafetivos e por mulheres e homens
para dar a luz”. Nesse final de primei- contexto marcado pela proeminência do (em especial, o mercado financeiro) e à solteiros; proibição do aborto nos únicos
ro semestre do ano de 2015, tivemos o mundo das finanças, mantido com altas tal “governabilidade” daria o tom. En- dois casos previstos em lei (estupro e gra-
profundo mal-estar de ler essa declara- doses de especulação financeira. Nesse quanto isso, no rastro do crescimento do videz comprovadamente de risco); e por
ção, emitida pelo relator da Proposta de contexto, o chamado “lulismo” buscou desemprego e da inflação, o antipetismo aí vai. Respaldando essa investida conser-
Emenda Constitucional da redução da concatenar melhoria nas condições de insuflado pela grande mídia ultrapassa os vadora/reacionária, podemos identificar
maioridade penal (PEC 171/93), Deputa- vida dos trabalhadores pobres com a pre- setores conservadores e reacionários da um alargamento da permissividade so-
do Federal Laerte Bessa (PR-DF), a um servação das engrenagens econômicas que classe média e penetra também nas perife- ciocultural para comportamentos, ações
famoso jornal do Reino Unido – The empurram a margem de lucro do sistema rias (embora estas, pelo menos até agora, e representações autoritários, que tratam
Guardian. Um ano antes, o ex-governa- financeiro às alturas. não compareçam nos atos de rua dos co- a diversidade como ameaça e insulto. O
dor do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, de- Apostar que esse “GANHA-ganha” xinhas e, não se prestem ao papel ridículo rol de monstruosidades exibido nos atos
fendeu a legalização do aborto, mas como (desproporcional) do lulismo se manteria de bater panelas junto com as madames de ruas dominicais dos coxinhas revela
mecanismo de controle de natalidade dos inabalável diante dos efeitos corrosivos da nas “revoltas das varandas”). os muitos “ovos da serpente” fascistas (ou
pobres, para interromper o que denomi- crise estrutural do capitalismo seria uma Intensificando as dificuldades decor- neofascistas) espalhados pela sociedade ci-
nou de “fábrica de produzir marginal”. grande ilusão. O lulismo sustentou-se em rentes da crise econômica mundial e da vil (bem como pelas instituições do país).
Disse o ex-governador: “tem tudo a ver um (relativo) terapia re- Para os setores acima mencionados
com violência. Você pega o número de crescimento cessiva do (e os ditos partidos de oposição, como o
filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Frei- e c onôm ic o, Num contexto de crise ajuste fis- PSDB, DEM e congêneres), a mescla de
tas, Tijuca, Méier e Copacabana, padrão impulsiona- econômica que aprofunda cal, desta- turbulência econômica e a debilidade do
sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão do, em grande ca-se uma governo é muito funcional. As iniciati-
Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de parte, pela ex-
a crise política, os pobres a gressiva vas e ameaças de impeachment que se
produzir marginal”. portação das e marginalizados sofrerão atuação anunciam desde março aí se encaixam.
Essas duas afirmações monstruosas, mercador ias cortes nos poucos ganhos legislativa As elites brasileiras e setores médios con-
pinçadas aleatoriamente, expressam um denominadas de caráter servadores/reacionários possuem o DNA
contexto marcado pela permanência da commodities sociais que tiveram. Sem conserva- golpista. Por isso, intenções e iniciativas
matança e do encarceramento seletivo de (minério, soja, organização popular, será dor/rea- golpistas (incluindo os chamados “golpes
jovens negros, pauperizados e moradores petróleo etc.) cionário, brancos” ou “silenciosos”, como os que
de favelas. Entre os anos de 1980 e 2010, com preços
impossível resistir e apontar que é ca- estão sendo projetados, sem disfarce, por
houve pouco mais de 1 milhão e noven- inflacionados novos caminhos nessa luta. pitaneada setores do Legislativo e Judiciário) não
ta mil mortos por homicídio no país, ou e especulados. pelo pre- devem nunca ser subestimados. Ao mes-
seja, 4 vidas dizimadas por hora. Segundo Esse (relativo) sidente da mo tempo, manter o governo federal “nas
a Anistia Internacional, no período entre crescimento derreteu-se com o desaque- Câmara de Deputados, Eduardo Cunha. cordas”, perpetuando a debilidade, tam-
2004 e 2007, matou-se mais no Brasil do cimento da economia mundial (incluindo Vale registrar uma lista (incompleta) de bém é funcional para os objetivos políticos
que nas doze maiores zonas de guerra do a China, consumidora voraz de commo- medidas tenebrosas já aprovadas no Con- espúrios. Deixar o impeachment na car-
mundo. O número de presos no Brasil dities, que diminuiu seu crescimento, gresso Nacional, na iminência de serem tucheira serve como um poderoso instru-
ultrapassou a casa de 715.000, a terceira ainda que se mantenha acima dos padrões aprovadas ou, pelo menos, desengaveta- mento para lançar com mais facilidade os
maior população carcerária do mundo. mundiais). A média de crescimento do das e suscetíveis de aprovação a qualquer tentáculos fisiológicos.
Essas referências banhadas a sangue Brasil entre 2007 e 2010 foi de 4,5%; momento. Diminuição da maioridade Em suma, num contexto de crise eco-
são todas oriundas da chamada era de “re- em 2014, o crescimento foi de 0,1%; em penal; terceirização; contrarreforma polí- nômica que aprofunda a crise política, o
democratização” brasileira, a qual, apesar 2015, projeções indicam retração econô- tica (que constitucionaliza financiamento setor social que sempre sofreu mais na
do nome, não se baseou em transforma- mica. Para tentar esticar o “GANHA-ga- empresarial de campanha, dentre outras história – os pobres e marginalizados –
ções estruturais da sociedade ou em canais nha”, o governo federal implementou as nocivas medidas); relativização e afrou- sofrerão cortes nos poucos ganhos sociais
efetivos de participação popular. Além do chamadas “medidas econômicas anticícli- xamento da caracterização de trabalho es- que tiveram. As crises evidenciam a falên-
extermínio e do encarceramento, perce- cas”, como isenções e alívios diversos de cravo, retirando da definição de trabalho cia dos velhos caminhos, e mostram quais
bemos o quanto as cidades permanecem impostos, financiamentos de longo prazo escravo os termos “jornada exaustiva” e são os interesses em disputa na sociedade.
segregadas e segregadoras, empurrando via BNDES, relaxamento do pagamento “condições degradantes de trabalho”; fim Sem organização popular, será impossível
os pobres para as periferias das periferias, das parcelas de dívidas contraídas por es- ou, se não for possível, abrandamento do resistir e apontar novos caminhos nessa
e produzindo sem-teto aos montes. A ló- tados e municípios perante a União, entre Estatuto do Desarmamento; transferência luta.•
gica da especulação fundiária e imobiliária outras. da prerrogativa de demarcar Terras Indí- Clarice Chacon
continua sem freios, dentro de um quadro Diante da corrosão das bases econô- genas do Poder Executivo para o Con- Felipe Brito
de aprofundamento geral da mercantiliza- micas para o prolongamento dessas me- gresso; lei “antiterrorismo” (com uma Guilherme Simões
ção urbana, onde o solo urbano transfor- didas, o caminho adotado pelo governo tipificação aberta do que seria “terroris- Henrique Sater
mou-se em assunto tratado em bolsa de federal foi o ajuste fiscal, cujo ônus recai mo”, e criminalização de condutas que Conselho Executivo
valores e fundos de investimento. pesado nos ombros dos trabalhadores. já possuem tipificação no Código Penal, Territórios Transversais
cultura
negra
anti-
racismo
TT: Em primeiro lugar, fale sobre também tocava e cantava. Nós éramos seis cendentes de africanos e indígenas e, sendo nitenciário, além do sistema de segurança
sua trajetória da maneira que achar homens e quatro mulheres. A biografia é assim, é específico. Tem nome e sobreno- que também opera de forma seletiva a vio-
melhor. essa. me. As duas formas coloniais do racismo, lência cotidiana, e também a morte.
SS: Sou Salomão Jovino da Silva sou nós podemos designar racismo anti-negro
mineiro, tenho 53 anos, sou filho do seu TT: Você faz questão de mostrar sua e anti-indígena. E, no momento posterior, TT: A ocupação do território urbano
Antonio e da Dona Ana, lavradores no in- identidade negra, também por isso podemos também pensar que uma vez também manifesta isso?
terior de Minas, na região Sudoeste onde pensamos em seu nome para essa en- tendo sido utilizado pra justificar a domi- SS: Além dessas ferramentas todas, tem
os seus ancestrais também viveram na trevista. Queremos ouvi-lo a respei- nação dos senhores, dos traficantes contra as práticas discriminatórias que vêm da tra-
condição de escravizados e forros. Migrei to do racismo no Brasil, já que é por os seus capturados e seus escravos, foi ne- dição. Hoje consistem, por exemplo, na
pra São Paulo na década de 70, fui morar onde passa a questão de ser negro. O cessário alimentá-lo pra justificar a domi- ocupação e na distribuição do território.
inicialmente na região da Vila Santa cata- que é o racismo e como ele se mani- nação das elites brancas que herdaram o Os negros e os descendentes de indígenas
rina, depois fui pro Parque Santo Antonio, festa aqui? Por que ele não é algo su- sistema colonial nas Américas, na África estão confinados nas zonas onde não há
depois voltei pra Minas, fiquei dois anos. perado? Indique para nós alguns de e no Oriente Médio e Extremo Oriente. atendimento público. Então, essa consti-
e em 1980 voltei pra São Paulo, já sem seus aspectos. O que é o racismo manifesto na so- tuição do espaço urbano, essa constitui-
meus pais, morando em casa de parentes SS: Defender o óbvio, né? O racismo ciedade brasileira contemporânea? Ele se ção das cidades, esse processo avassalador
e amigos até me casar com a Ana Cristi- consiste objetivamente na desumanização traduz no controle pelos eurodescendentes que ocorreu no país de industrialização
na, minha companheira com quem tenho de um grupo de pessoas em função de suas de todas as instituições públicas e privadas. dependente do capital e da tecnologia es-
quatro filhos (Gabriel, Ana Raquel, Luisa origens e de seus traços biológicos e físicos. Esse controle é feito através de mecanismos trangeira, também serviu às elites brancas
e Flavia Jovino). Meus netos, o congênito E essa desumanização é uma decorrência legais, institucionais, jurídicos, mas ele é para colocar os negros, em sua maioria
chama-se Miguel e o que veio de presente de um processo mundial que a gente pode feito também através da tradição. É parte pobres, nas regiões mais afastadas dessas
e foi muito bem assimilado, é uma figura chamar de tráfico negreiro e de escravidão da tradição das sociedades colonizadas que cidades. E esses negros e indígenas (mes-
estupenda, chama-se Otavio. Eu sou ne- sistêmica. Então podemos dizer que não é os descendentes de europeus tenham o mo os indígenas que não se veem como
gro, periférico, professor de história com que os europeus fossem racistas e por isso controle dos instrumentos jurídicos, políti- tal, aqueles indígenas que são socializados
doutorado na PUC-SP com extensão no eles escravizaram os negros, mas nós po- cos, econômicos, culturais e educacionais. como se brancos fossem) efetivamente es-
Instituto de Ciências Sociais da Univer- demos dizer que ao escravizar os negros e Isso é uma tradição. Portanto, os grupos tão às margens das cidades. A presença do
sidade de Lisboa, em 2004. Tenho uma transformar esses seres humanos em má- humanos que se rebelam contra essa for- racismo estrutural aplicado à habitação e
atividade musical autoral há uns 14 anos, quinas produtivas, e criar uma pedagogia ma institucional, tradicional e estrutural de à ocupação urbana se traduz na profunda
que começou pelo fato de que minha fa- pra que isso ocorresse, os europeus desen- dominação, são rapidamente colocados à distribuição desigual entre os descendentes
mília era bastante musical. Meu pai tocava, volveram simultaneamente uma ideologia margem, são rapidamente anulados através de indígenas e negros no território.
meu irmão Jansen cantava e tocava canções que desse sustentação e legitimidade pra das ferramentas que o próprio mando e o Também no território rural, sabe-se
afinadas à negritude, com um discurso de isso. Então, o racismo é simultaneamente poder racial instituíram, ou seja, o sistema que os descendentes de africanos – mes-
etnicidade. Dedé, meu irmão mais velho, o destrato interpessoal e grupal dos des- jurídico, o sistema político e o sistema pe- mo aqueles que ocupam terras há mais de
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 5
150 anos, e que pela lei de 1888 deveriam cer e a raça superior branca vai prevalecer. efetivamente as formas de lazer urbano que em cassinos e casas noturnas no Rio de Ja-
receber a titulação dessas terras – foram Olha só: nós chegamos em 2000 com os são os negros que vão promover. O que é neiro. Estamos falando da constituição de
confinados pelos interesses dos fazendeiros negros e mestiços autodeclarados como a o Teatro de Revista? O que é a companhia um mercado mundial fundamentado no
e donos de terra nas áreas rurais cujas terras maioria da população! de revista Tudo Preto? É um grupo do comércio de estéticas musicais africanas.
têm poucas propriedades adequadas para a Pixinguinha e de outro cara chamado de Quando eles chegam em Paris, o que eles
produção agrícola. Então, é preciso pensar TT: Erraram... Chocolate que faz pequenos espetáculos encontram? Outros negros. Quais? Afri-
também, efetivamente, no que hoje nós SS: Há pessoas que foram socializadas no fim de tarde no centro do Rio de Ja- canos e estadunidenses tocando ragtime e
chamamos de terras quilombolas. como brancas e que estão diante desse mo- neiro, pra onde vão operários e uma classe jazz. Eles piram! Quando eles voltam, vol-
Esse regime de segregação urbana e vimento cultural e dessa dinâmica identitá- média tomar café, trocar ideia, tomar uma tam com um banjo, que serve de modelo
rural foi alimentado, sustentado tanto pelas ria, se descobrindo indígenas e afirmando biritinha... Esses caras vão ouvir música pra eles construírem outros instrumentos.
instituições que conhecemos como cartó- a sua origem indígena como imprescindí- negra! Aqui, em Chicago, Nova Orleans, Porque o banjo? É o único instrumento
rios, como também pela manipulação das vel. Todo esse argumento é apenas pra di- Havana, Montevidéu... Isso pode ser vis- africano que ficou na cultura musical es-
forças de seguranças pública e privada. zer que os teóricos da identidade nacional to hoje como efetivamente uma mudança tadunidense. Entre os negros estaduniden-
brasileira foram errando, e os ideólogos da cultural mundial mais setorizada nas Amé- ses não sobreviveram os tambores. Apenas
TT: Falávamos antes sobre a ques- nação mestiça, embora tenham sido mui- ricas, sobretudo naquelas regiões em que algumas flautas, e sobretudo os tambores
tão da invisibilidade das populações to eficazes pra produzir uma ideologia da até o ano passado eram escravistas. que foram “sintetizados” nesse instrumen-
negras e indígenas como um aspecto miscigenação como forma de se atingir a Mas os brancos estão lá. Os cientistas to chamado bateria, que também é trazi-
do racismo estrutural. Recentemen- branquitude também erraram, porque eles norte-americanos e europeus estão crian- do pelos oito batutas. É um conjunto de
te, temos visto um movimentação não contavam com o fato de que os descen- do tecnologias que permitem que essas tambores que se “mixa”: tem o tambor de
na grande mídia um tanto diferente dentes de africanos num dado momento formas culturais possam ser potenciali- guerra, a caixa clara, tem o bumbo e tem
de seu comportamento tradicional reivindicassem essa origem e conectassem zadas. Inicialmente, queriam, por exem- os tam-tans, termos genérico pra se desig-
de invisibilizar. Falo especificamente essa origem a uma agenda de cidadania e plo, com a difusão do rádio, que apenas a nar tambor.
da TV Globo e seu programa “Es- inserção social. Ao mesmo tempo, os mo- música erudita, europeia, fosse veiculada, De qualquer forma, o entretenimento
quenta”, além das telenovelas “I love dernistas achavam efetivamente que era vendida. Mas o que o capitalismo quer é urbano criou um espaço de mobilidade
Paraisópolis” e “Babilônia”. Como possível contornar as coisas incluindo uma gerar dinheiro. Quando se observa as pos- e de integração cultural e social pros ne-
você enxerga isso? A invisibilidade adesão simbólica de negros e indígenas ao sibilidades de trocas econômicas através gros que não estava previsto. Claro que,
deve ser vista sob uma outra chave? projeto português lusitano de superiori- dessas sonoridades marginalizadas, vistas da atividade radiofônica, os negros foram
Ou trata-se de um avanço para a su- dade cultural. Entretanto, os intelectuais como menores, como inferiores, coisa de apartados, então você vai ver pouquíssimos
peração do racismo, o fato de os ne- negros, desde o final gente selvagem, negros cantores de grandes sucesso. O ra-
gros e os favelados aparecerem mais do século XIX estão “as práticas primitiva, mas que cismo imperou seletivamente sobre isso.
na TV, principalmente depois do fil- dizendo, denuncian- tem um apelo de Eles vão ser compositores, mas não serão
me Cidade de Deus? do, apontando, às ve- discriminatórias, consumo, a indús- incorporados como figuras de proa. Ex-
SS: Puxa! Interessante, né?! As elites zes não de uma forma hoje consistem, tria cultural assimi- cepcionalmente, Ataulfo, Ismael, mais pra
brasileiras no início do século XX com- política tradicional, por exemplo, na la essa produção. frente Carmen Costa, Wilson Simonal...
preenderam que a presença negra oferecia não de forma de parti- E que produção é mas ainda são figuras excepcionais. A regra
algum entrave para o projeto de moderni- do, não em um grupo
ocupação e na essa? É o choro, é é cantores brancos e compositores negros.
dade no padrão europeu. Essa é a primeira dissidente ou rebel- distribuição de o samba, é o ragti- Francisco Alves é um exemplo de compra
coisa. Os intelectuais brasileiros do final de. Às vezes dentro territórios” me, é o tango. São de composições. Então, os negros tinham
do século XIX e início do XX se viram da ordem: um André formas negras. E vai uma linha de produção de música, mas a
diante desse dilema. A quantidade de ne- Rebouças tá dizendo criar um espaço de cara social do artista urbano é branca.
gros na constituição da sociedade brasileira “ó, essas coisa de imaginar que eu por ser trabalho pra esse homem e pra essa mulher Enfim, o que quero dizer é que os siste-
e efetivamente os graus de miscigenação negro seja inferior a outro pela minha ori- negra que não tinha outra que não fosse o mas de comunicação tiveram que lidar com
não permitiriam fazer o que fizeram os gem, isso não existe”. E ao mesmo tempo, serviço doméstico mais baixo, o serviço o fato de que conteúdos da cultura urbana
argentinos pós-independência, que elimi- quando é expulso pela família real e vai pra nas docas, o descarregar os trens na Barra negra são profundamente assimilados pela
naram os negros fisicamente. Enquanto África, ele é o primeiro intelectual negro Funda ou em Santos... E, ao mesmo tem- sociedade, e eles tiveram que faturar com
argentinos e chilenos tiveram menos tra- brasileiro a dizer que a África era o futuro. po, são esses mesmos homens e mulheres isso. A indústria do entretenimento teve
balho pra fazer esse serviço de eliminação que vão ver circular esses conteúdos mu- que lidar como fato de que os conteúdos
racial dos negros e dos indígenas, as elites sicais novos e vão incorporá-lo. Então, são estéticos, musicais, teatrais, cinematográfi-
brasileiras, por conta da demografia e do TT: Como isso ocorre no campo da conteúdos musicais estéticos, são culturas cos produzidos pelos negros efetivamente
território, não tinham como fazer isso. E produção cultural? de origem africana que começam a circular comunicavam pra setores da sociedade que
daí vem a criatividade intelectual que foi SS: Com as mudanças culturais do ca- no Atlântico. Por isso, você vai encontrar não eram só os negros. A televisão teve que
converter algo que seria negatividade: a pitalismo, e com o surgimento de ativida- tangos brasileiros no início do século. lidar com o fato de que um grande artis-
noção pra uma sociedade muito mestiça, des novas não previstas, como no caso da No caso brasileiro, tem historias ex- ta e grande conhecedor de mídia como o
a mestiçagem era vista como degeneração. indústria de entretenimentos e do lazer, cepcionais: um mestiço, um afro-brasileiro Gilberto Gil conseguiu manipular muito
Então, eles interpretam da seguinte manei- que são decorrentes do próprio processo de tez clara que vai fazer excursões tocando bem essa tecnologia que nós chamamos
ra: a mestiçagem está posta, os negros estão de urbanização, vão surgir algumas ativi- e cantando em cassinos parisienses, um tal de televisão. O racismo estrutural teve que
aqui, mas nós devemos usar a ciência pra dades que os brancos desprezam. A música de Duque. Esse cara é o primeiro bailarino lidar com isso. E, de certa forma, assimilar
que os negros e os mestiços desapareceram. é uma atividade que os brancos desprezam. profissional, o cara que vai sobreviver dan- artistas negros nos seus quadros contribuía
Não podemos esperar que a natureza e as E os negros têm grandes habilidades mu- çando. Ele vai dançar em lugares provavel- para a mistificação da própria inexistência
relações sociais espontâneas resolvam isso sicais, não inatas, isso não vem no DNA, mente frequentados por gente como Ger- do racismo. Pra provar que o racismo não
selecionando os mais capacitados – e os vem de um labor. A África e suas civili- trude Stein, em Paris. São essas mulheres existe, era necessário mostrar as exceções,
brancos são os mais capacitados do ponto zações produziram grandes conhecimen- que estão lá promovendo arte, literatura, e tratá-las como naturais. E isso muito cedo.
de vista humano, era essa a interpretação tos musicais em forma de instrumentos, uma proximidade dessas elites intelectuais Eu estou me referindo ao Gilberto Gil nos
do século XIX baseada na eugenia e no tecnologias, saberes e esses que são man- brancas com esses artistas negros. E esse anos 60, mas isso já estava lá em Luís Gon-
darwinismo social. Só os brancos vão so- dados pra diáspora trarão esses objetos, Duque é o mesmo cara que vai preparar zaga nos anos 30. Nos anos 60 isso já está
breviver. Os negros, os indígenas e os mes- tecnologias e conhecimentos. Com o ra- a ida do Pixinguinha, do João da Baiana posto. Esse lugar das exceções negras em
tiços vão desaparecer. Mas se o estado fizer cismo estrutural que está no processo de e dos demais oito batutas em 1922, quer quadros brancos já está colocado.
isso objetivamente, trazendo mais brancos, urbanização que os mantém à margem, dizer, já tinha um cara expandindo, dan- Evidente que os negócios do entreteni-
e fazendo com que esses brancos se espa- que seleciona sempre os brancos e manda çando e tocando maxixe na França, negro, mento não estão nas mãos dos negros ou
lhem pelas regiões onde estão os negros vir mais brancos da Europa, quais são as afro-brasileiro, no início do século XX. apenas excepcionalmente. O racismo es-
e se misturem com esses negros, em cem possibilidades que eles têm pra se deslocar Esse cara vai organizar a viagem para a Eu- trutural se apresenta aí, ou seja, os negros
anos os negros e os mestiços vão desapare- nesse espaço urbano? Começam a existir ropa de músicos excepcionais que tocam podem e participam de várias atividades
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sobretudo nesse campo do entretenimento, maniza. Enquanto você tem os programas Outro me trouxe um material de um ativis- ou outro intelectual. Amigos da esquerda
do lazer e da cultura urbana, mas o controle da Globo, SBT e outros canais que produ- ta negro que se candidatou por um partido tradicional me chamam de culturalista para
sobre a produção, veiculação e o caixa está zem um estigma e uma negatividade em socialista embrionário por volta de 1918. me desqualificar.
na mão, prioritariamente dos brancos. relação às periferias, esses jovens periféricos Negros: o que me leva a entender que os Olhando para a história do século XX,
Bom, Regina Casé. Há uma demanda constroem uma contra-ideologia, com um negros brasileiros (assim como os caribe- não há a possibilidade de unir a luta da
reprimida do Movimento Negro através discurso, capacidade de mobilização, des- nhos e estadunidenses) entenderam que esquerda tradicional com a luta contra o
de uma denúncia que vem se acumulando construção da própria visão midiática dos havia uma mensagem no socialismo e no racismo, mas podemos dizer que o pen-
desde os anos 60 que é a ausência de negros periféricos como classes perigosas. Então, anarquismo que poderia servir à plataforma samento de esquerda trouxe uma espécie
nesses veículos de comunicação de massa, e esses executivos e intelectuais ligados aos de sua luta politica. Mas me parece que, ao de deslocamento que permitiu aos ativis-
a TV foi uma grande disseminadora da na- sistemas de comunicação vão perceber essa longo do século XX, os brancos tiveram tas negros colocarem os conteúdos ligados
turalização do racismo. Como é que pode- mudança cultural. E ao mesmo tempo tem que reafirmar o seu domínio mesmo nessas à dominação colonial e ao apartheid social
ria num país de maioria negra e mestiça ter intelectuais negros que vêm com uma nova formas dissidentes de pensar o mundo. Nós na América. Ofereceu repertórios analíti-
uma TV que parece uma TV alemã? De tal sensibilidade. sabemos que, quando chega nos anos 30, a cos para compreender realidades coloniais e
forma que até figuras da elite política como A questão da marginalização já estava hegemonia branca já está consolidada, e os pós-coloniais nas Américas. Mas são mais
o próprio FHC mencionar que nossa TV é posta na literatura lá em Lima Barreto. Re- ativistas negros vão ser cada vez menos pre- movimentações no campo intelectual que
uma TV suíça que reproduz a ostentação da aparece na figura da Carolina Maria de Je- sentes nessas formas organizativas clandes- político. De qualquer forma, talvez ainda
brancura e da branquitude que chega a ser sus, mas é diferente dessa coisa contundente tinas, marginais, dissidentes. Entre 1934 e seja uma ferramenta política e intelectual
do ponto de vista simbólico uma agressão que é a literatura de um Férrez e as escritu- 1937, na primeira experiência partidária ne- importante, não pra reproduzir o dogma de
pros não brancos. Ao mesmo tempo, é ne- ras que um Racionais, o Potencial 3, RZO, gra, a Frente Negra Brasileira, foi a primei- uma utopia teleológica que já está desenha-
cessário pensar que há umas válvulas de es- MV Bill, ou Black Alien trazem. É uma ra experiência partidária a apresentar uma da. Mas, para fazer isso, tem que fazer um
cape, algumas figuras negras que podem ser outra forma. Tem uma coisa aí que é real- pauta de reivindicação especificamente das balanço para saber quais ganhos e perdas da
assimiladas. Então, no telejornalismo, você mente nova, mix dessa cultura negra mun- populações negras brasileiras. Foi cassada esquerda em relação às questões específicas
vai ter um homem e uma mulher negra em dial, atlântica, que tá circulando, e ao mes- em 1937 junto com todas as outras organi- dos africanos e descendentes de africanos. É
uma emissora de mais de 50 anos. Então, mo tempo os pés muito fincados em suas zações com a decretação do Estado Novo. um balanço difícil, e certamente os ativistas
tendo dois negros, os outros não devem re- realidades sociais. Então, música e literatura De qualquer maneira, os jovens negros negros poderão fazer entre si, mas as elites
clamar porque eles estão representados. periférica, Sérgio Vaz e todos os outros re- que assumiram as bandeiras da esquerda brancas não estão preparadas e/ou dispostas
A Globo, nos anos 90, criou um progra- velam uma nova sensibilidade e, ao mesmo não foram contabilizados como negros. a fazer. Nas teses e materiais dos partidos de
ma de samba. O samba está quase sempre tempo, do ponto de vista da literatura, um É preciso dizer que Helenira Rezende, esquerda existem menções vagas e genéricas
relacionado à população negra. Esse ter- encontro dessa expressão que antes era ma- Oswaldão, Marighella são negros. Bem... a à questão do racismo.
mo, a palavra samba, tem origem africana, nipulada apenas pelos mais escolarizados, política tem sido um lugar de exclusividade
é nome próprio. Os intelectuais ligados com uma forma dos brancos. E mesmo TT: Em relação a esses temas, o que
à questão da brasilidade inventaram essa de falar de mun- a dissidência das elites mais tem chamado sua atenção na so-
ideia de que “samba” deriva de “semba”, dos que a própria “a musica é uma tradicionais também ciedade brasileira hoje?
mas é pouco provável. O mais provável é literatura negaria atividade que os são brancas e operam SS: A questão da comunicação tem me
que efetivamente o Samba fosse alguém a existência. Es- brancos desprezam” dentro da mesma chave mobilizado bastante. Como produzir uma
que tivesse grandes habilidades musicais na sas figuras são jo- de compreensão da so- contra-mídia capaz de comunicar conteú-
primeira metade do século XIX, vivendo vens que fizeram ciedade brasileira: a de dos que possam de alguma forma dialogar
entre Recife e Salvador. Alguém de nome no máximo o segundo grau, mas estimam que os negros representam um problema. com a juventude que está interessada? Por-
Samba, por suas grandes habilidades mu- muito a escola, porque sabem que eles fo- Não é que o brancos brasileiros não com- que há setores da juventude urbana muito
sicais, passou a ser associado aos batuques ram evadidos por ela. Qual escola? Essa da preendam o que é o racismo historicamente interessados no país e em seus rumos, mas
de uma maneira geral. Esse termo não era redemocratização, que será cada vez mais ao longo do século XX, eles sabem o que às vezes não tem canal de diálogo, porque
globalmente utilizado no país até meados precária, cada vez mais segregada, depósi- é. Mas, ao reconhecer o racismo, eles re- as formas de organização política são bas-
do século XIX, mas já no final do século to, escola-fábrica que se entope de jovens e conheceriam também o seu próprio lugar. tante excludentes, trabalham com formato
XIX ele já designa qualquer atividade festi- ao mesmo tempo está sendo acessada. Está Um descendente de africano de tez escu- de participação disciplinar, militar, exclu-
va, musical, onde os negros estejam envol- mais precária mas ao mesmo tempo é tida ra não pode sentir-se como um negro por dente. A esquerda desenvolveu, ao longo do
vidos. Isso pode ser verificado em um jornal como quase a salvação. Então, você vai ver empatia. É uma condição dada por sua apa- tempo, uma série de chavões, bordões que
de 1848 em Pernambuco, na primeira vez no Sacolinha e no Vaz que o que salva é a es- rência e traços fenotípicos. O máximo que continuam operando e não mobilizando
que esse termo é grafado. cola. Eles próprios são pouquíssimos escola- ele pode fazer, em algumas circunstâncias, ninguém. Penso que, talvez, fosse necessá-
De qualquer maneira, a Globo, num rizados, mas têm essa ideia de que a escola é operar com um discurso de esvaziamento rio a gente construir ferramentas e formas
dado momento abriu um programa de sam- salva. E o que é a escola? É o único lugar da negritude para que os brancos o assimi- de intervenção política onde a beleza, o es-
ba com artistas como apresentadores. Esse que vai trazer os resquícios do humanismo lem. O Celso Pitta, por exemplo, foi eleito tar junto, a sociabilidade, a sobrevivência e a
programa não sobreviveu. O momento do que o Ocidente jogou no lixo. Quem está com o discurso: “não votem em mim por- existência pudessem ser alvo de reflexão, de
Esquenta é na verdade o desdobramento da revalorizando o humanismo somos nós, os que sou negro, não deixe de votar porque o celebração.
ascensão de um estudioso da cultura urbana negros, os indígenas e os marginalizados. sou”. Inventou a não-cor numa sociedade
brasileira que é o Hermano Vianna, e tam- Entretanto, não é o humanismo iluminis- profundamente racista. Mas quando entra TT: O humanismo que os marginali-
bém de pesquisas um tanto mistificadoras ta que criou uma hierarquia entre as raças em nosso ról de prefeitos corruptos, ele não zados tem resgatado?
da brasilidade entendida como miscigena- e colocou o branco no topo, valorizando a é só corrupto, ele é um corrupto negro. E SS: Sim, o humanismo reconfigurado
ção. Essa chave interpretativa é confortável, história, a estética e a cultura ocidental de ele não é um negro só. Ele representa todos dentro de novos padrões. Então, pensar a
pois traz o mais do mesmo, e comunica para uma forma quase biologizante, criando a os negros. política como criação contínua, e não como
a sociedade brasileira que não há conflito, e ideia de raça. É o humanismo negro, indí- O racismo criou esse lugar pro negro o congelamento de dogmas e princípios
que as tensões sociais são mais fruto das de- gena, periférico e marginal que pega o lixo que tem visibilidade. Wilson Simonal, não filosóficos. Pensar ações que sejam plausí-
sigualdades mais gerais do que do racismo do Ocidente pra reconfigurar. Esses que são é só um cagueta, a jornalista Maria Julia veis, factíveis nessas circunstâncias. Trazer
estrutural. o próprio lixo... Coutinho sabe que não é só ela. Há entre a política pro cotidiano; discutir relações
os negros uma frustração muito grande interpessoais e grupais; discutir relações afe-
TT: Tentam capturar a produção pe- TT: Então, como essa luta cultural ligada à questão da visibilidade. Quando tivas, amor; saber porque os meninos que se
riférica? pode se relacionar com as formas de uma mulher negra ascende a uma posição transfiguram em meninas não têm lugar.
SS: A ascensão do Hermano Vianna luta política existentes? como essa, parece que todos nós estamos Eles é que estão preparados pra nos ensi-
tem a ver com a ascensão dessas formas SS: Um aluno meu, anarquista, me ali, como positividade, porque a mídia causa nar sobre as mudanças afetivas! Isso está no
culturais negras urbanas que é o funk e o trouxe uma série de cópias de jornais anar- essa impressão. Agora, a esquerda brasileira campo afetivo e ao mesmo tempo no polí-
hiphop. Isso vai construir um discurso e quistas brasileiros do início do século XX. historicamente não produziu nenhuma so- tico! Precisamos ampliar e requalificar as re-
uma contra-ideologia que positiva as formas Entre eles, a chegada da ideologia anarquista lidariedade com os negros no que tange ao lações afetivas. Isso tem dimensão política.•
culturais periféricas de existência e as reu- entre os trabalhadores portuários da Bahia. racismo. A não ser excepcionalmente, um
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 7
DEBATES TRANSVERSAIS
U
ma das principais dificul- instituto da medida provisória explicita processos tecnológicos liberam gás e pe- ricos do planeta somam uma fortuna
dades colocadas para aque- o fato de que o poder executivo legisla tróleo do xisto, penetrando nos lençóis equivalente à da metade mais pobre da
les que tentam refletir sobre por meios excepcionais, mas preser- freáticos e envenenando-os, expulsando população mundial. Nos Estados Uni-
a “renovação da esquerda” vando a aparência do funcionamento famílias de suas terras, contaminando dos, o nível de desigualdade é o mesmo
- talvez a maior delas -, consiste em normal do equilíbrio entre os poderes; os pastos e os produtos da agricultura, que existia antes da Grande Depressão,
enxergar claramente o mundo em que no campo social propriamente dito, elevando a níveis epidêmicos as taxas de e o contingente dos mais ricos, formado
vivemos. É uma tarefa bem mais com- os agentes do Estado, como a polícia, câncer. A manipulação genética dos ali- por 1% da população, abocanhou 95%
plexa do que parece à primeira vista. O exorbitam absolutamente de suas prer- mentos, anunciada como a solução para dos ganhos sobre a renda, enquanto
principal obstáculo consiste no fato de rogativas, como demonstra a política de a fome no mundo, cria uma catástrofe 90% ficaram mais pobres. Na Índia, o
que os conceitos políticos construídos extermínio sistemático da população de grandes proporções, por alterar radi- número de bilionários foi multiplicado
ao longo dos séculos XIX e XX, ende- negra e jovem das periferias. A “novi- calmente a relação da agropecuária com por doze em quinze anos, o suficiente
reçados aos problemas colocados pelo dade” está na proporção assumida pela a natureza, sem que se saiba exatamente para eliminar duas vezes o nível de po-
Estado-nação – incluindo “soberania”, exceção, isto é, na velocidade, na pro- quais as consequências para o meio am- breza absoluta naquele país.” É absolu-
“democracia”, “representatividade”, fundidade e na amplitude do processo biente e para a saúde humana. Alguns tamente inacreditável: 85 = 3,5 bilhões
“partido”, “vanguarda”, “classes so- de desagregação do tecido social dentro dos maiores lençóis freáticos do planeta – é a equação da barbárie.
ciais” e “revolução” – devem ser colo- de cada país, e no desabamento de qual- estão irreversivelmente contaminados Sobre o pano de fundo da “guerra
cados sob uma nova perspectiva, capaz quer “ordem” internacional regulada por produtos químicos, ou esgotados ao terror” – uma guerra de tipo com-
de dar conta das transformações políti- por leis construídas pelo consenso entre por uso predatório descontrolado, como pletamente novo, infinita, travada de
cas, econômicas, sociais, tecnológicas, as nações. A contrapartida é a ausência no caso do norte da Índia, colocando forma difusa, o tempo todo e em todos
religiosas e culturais anunciadas no final de qualquer projeto alternativo de futu- concretamente a possibilidade de faltar os lugares, contra inimigos invisíveis e
dos anos 70, pela profeta do neolibera- ro. A barbárie não é mais um prognós- água potável para bilhões de seres hu- incertos, não raro inexistentes e fabri-
lismo Margaret Thatcher, e aceleradas tico formulado por Karl Marx. Ela está manos, dentro de algumas décadas. Até cados - a “ordem mundial”, ou o que
após a queda do Muro de Berlim, em instalada. a Igreja Católica, em encíclica papal di- resta dela, se desintegra. O delírio mili-
novembro de 1989. Vivemos uma cri- Metade da humanidade está faminta vulgada em junho, alerta para a “guerra tarista de Beniamin Netanyahu aponta
se civilizatória, um mundo em franco e ou subnutrida, de acordo com os dados pela água” que ameaça a humanidade, para um conflito de grandes proporções
acelerado processo de desagregação, ra- estatísticos divulgados pela FAO (órgão dado o fato de que grandes corporações com o Irã, ameaçando envolver todo
dicalmente distinto daquele aberto por das Nações Unidas responsável pelo se- adquirem o controle e o monopólio da o Oriente Médio, a Ásia Central e o
1789, quando emergia o Estado-nação tor de agricultura). A fome não ocorre exploração do recurso natural. A lista de norte da África, agitando ainda mais a
como entidade política legítima, porta- por falta de alimentos. Nada tem que horrores pode ser aumentada quase que já tensa comunidade de 1,5 bilhão de
dora da representação da soberania do ver com as predições de Thomas Mal- indefinidamente, incluindo a destrui- muçulmanos espalhados pelo mundo.
povo, e quando as conquistas da Razão thus. Ao con- ção das úl- A Europa é levada à beira do choque
e do Iluminismo enchiam a humanida- trário, nunca se timas gran- entre as grandes potências pela pro-
de de entusiasmo e esperança. Mais do estocou tanto.
As guerras, os conflitos des reservas vocação montada pela OTAN, com
que nunca, tudo o que é sólido se dis- Em 1950, o to- e as tensões regionais ambientais, a tentativa de apertar o cerco à Rússia
solve no ar - afirmação que, no entan- tal de comida jogaram aos campos de como a mediante a eventual incorporação da
to, não se confunde com a geleia geral produzido pela Amazônia Ucrânia, como já aconteceu no caso
ideológica proposta pelo chamado pós- hum anid ade, refugiados cerca de 50 e o Ártico das repúblicas bálticas (Letônia, Estônia
modernismo, para o qual tudo é relativo dividido por 2,5 milhões de seres humanos, – em maio e Lituânia) e dos integrantes do antigo
a tudo, e nunca se afirma nada de coisa bilhões de seres último, Pacto de Varsóvia (incluindo Polônia
alguma. humanos equi-
em 2014, ou o equivalente contrarian- e Hungria). Em junho, Vladimir Pu-
No mundo contemporâneo, as valia a 2.250 ao número total de vítimas do todas as tin anunciou a agregação de mais 40
instituições democráticas que povo- calorias diárias da Segunda Guerra. evidências e mísseis balísticos intercontinentais ao
avam o imaginário do Iluminismo, e por habitante; alertas dis- arsenal nuclear russo, com capacidade
alimentavam a fábula da “democracia cinco décadas parados por destrutiva sem precedentes.
ocidental”, preservam sua integridade depois, apesar da população mundial cientistas ambientalistas, Barack Oba- A “perplexidade” percorre todos
e eficácia apenas no discurso dos polí- ter saltado para 7 bilhões, o total era de ma autorizou a empresa Shell a explorar os cantos no planeta. Na Europa, os
ticos e ideólogos do capital, propagado 2.750 calorias. A fome e a subnutrição petróleo no mar de Chukchi, costa do grandes vencedores das eleições ao Par-
e sustentado pela mídia, sem qualquer são um resultado direto da miséria: só Alasca. lamento da União Europeia, em 25
realidade efetiva. O Estado-nação só come quem pode pagar. O capital não O quadro é tão trágico e explosivo de maio de 2014, foram os grupos que
existe hoje como miragem, não por- produz alimento, mas mercadoria na que mesmo a “perigosa comunista” mais se opõem à existência da própria
que a globalização dissolveu as frontei- forma de comida. Em 2000, a ONU Christine Lagarde, diretora do FMI, UE, com destaque para dois extremos
ras, criou a “aldeia global” e dissipou as criou a meta de, em 15 anos, erradicar fez o seguinte alerta, em 27 de maio ideologicamente antagônicos: à direta,
perspectivas nacionais, como querem os a fome no mundo. Depois, a meta foi de 2014, durante uma Conferência do a anti-islâmica Frente Nacional (que
ideólogos do imperialismo e do mundo reduzida para a metade. Finalmente, os Capitalismo Inclusivo, promovida por abocanhou 25% dos votos franceses),
pós-moderno, mas porque as estruturas especialistas da FAO (órgão da ONU ninguém menos que a família Roths- e à esquerda o valente Syriza (que con-
institucionais do Estado-nação sucum- encarregado da comida e agricultura) child e outros “esquerdistas incurá- quistou 26,5% dos votos gregos, ven-
biram à pressão voraz do capital finan- concluíram, em 2010, que sequer atin- veis”, incluindo o príncipe Charles e o cendo, no início de 2015, as eleições
ceiro transnacional. O poder executivo giriam metade da metade do objetivo ex-presidente Bill Clinton: “Explosão parlamentares). Na Espanha, o partido
foi reduzido a porta-voz e instrumento inicial. Enquanto isso, especulação com demográfica e degradação ambiental Podemos, com apenas quatro meses de
das grandes corporações, liquidando de o preço dos grãos e commodities, e o são duas tendências de longa duração, existência e inspirado pelo programa e
uma vez por todas o sonho iluminista desvio da produção de comida para a e a desigualdade da renda é a terceira. táticas de luta do Syriza, obteve 8% dos
do equilíbrio institucional entre os po- indústria do etanol, elevaram o preço Trata-se de um antigo problema que votos; na Grã-Bretanha, o nacionalista
deres. dos alimentos a níveis sem preceden- novamente vem à tona. Estamos to- e xenófobo Ukip, com 30%, derro-
Claro, não há nada de rigorosamen- tes, aprofundando o abismo da fome e dos conscientes de que a desigualdade tou, pela primeira vez em um século, os
te novo nisso tudo. Walter Benjamin produzindo grandes revoltas, como foi cresce na maioria dos países. Sete entre dois partidos tradicionais, Conservador
já havia detectado o fato de que, no o caso da Primavera Árabe. dez pessoas vivem em países onde a de- e Trabalhista; na Áustria, o neonazista
século XX, o “estado de exceção” ha- O desastre ambiental leva ao colap- sigualdade cresceu nas últimas três dé- Partido da Liberdade ficou com 21%,
via virado a norma, isto é, a democra- so regiões inteiras, inclusive nos países cadas. Alguns números são assustado- um avanço de 8 pontos percentuais em
cia tornara-se mera ilusão de ótica. No mais ricos: mesmo nos Estados Unidos, res – de acordo com a Oxfam [Comitê relação a 2009 (Adolf dá gargalhadas).
Brasil contemporâneo, por exemplo, o do estado da Virgínia ao Texas, novos de Oxford contra a Fome], os 85 mais No Oriente Médio, desaba o con-
8 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
junto da estrutura geopolítica que co- pping centers. pública: o grupo de doenças que mais reza permitiriam abrigar os 7 bilhões de
meçou a ser criada durante a 1ª Guerra O capital relega a maior parte da matam no mundo está relacionado com seres humanos em habitações cômodas,
(Tratado Sykes-Picot, de 1916), ganhou humanidade a uma situação crônica de o coração; em seguida, vem a depressão decentes e ecologicamente sustentáveis.
contornos definidos ao final da 2ª Guer- fome, indigência, miséria e morte. Mas (que já caminha para ocupar o primeiro As conquistas da medicina já permitem
ra, e permaneceu quase estável durante a “exclusão” – melhor seria: a inclusão lugar, segundo a OMS). prolongar significativamente a expecta-
a Guerra Fria, quando foi repetidamen- da miséria na estrutura do sistema global O neoliberalismo, portanto, não é a tiva média de vida humana. As tecnolo-
te desafiada pelo expansionismo ter- - não mais ocorre apenas na “periferia mera postulação da supremacia do mer- gias de comunicação instalaram as bases
ritorial israelense e pelo pan-arabismo do sistema”. O desemprego estrutural cado como meio e fim da atividade pro- da “aldeia global”, com a comunicação
nasserista. A brava aventura ianque de que atinge particularmente a juventude, dutiva, mas sim um sistema completo, instantânea, em tempo real, propiciada
2003 destruiu o Iraque, cujo território em grande parte provocado pelas ino- total, fechado, em que o poder se con- pela Internet. Mas o imperativo do lucro,
é agora disputado por sunitas jihadistas vações tecnológicas, a superexploração centra nas mãos de algumas centenas de da concentração de renda, da exploração
(incluindo o Estado Islâmico), xiitas e da mais-valia, a destruição ambiental e corporações – as tais 85 famílias mais da mais valia impõe a lógica perversa da
curdos; a anunciada saída do exército a precarização da vida ocorrem também ricas - que controlam o mercado mun- exclusão. Sob pressão do capital, diz
estadunidense do Afeganistão, em 2016, no coração do mundo capitalista. Em dial e que constituem o verdadeiro cen- Marx em A ideologia alemã, as forças
estimula a Al-Qaeda e o Talibã, que agi- síntese, Thatcher, por enquanto, triun- tro das decisões que afetarão os destinos produtivas tenderão, inevitavelmente, a
tam também o vizinho Paquistão; não fou, mas é preciso analisar com cuidado do planeta. A aparência de democracia se transformar em forças destrutivas. O
há solução, no horizonte previsível, para o que significa isso que se costuma de- é assegurada pela mídia, que, diaria- avanço da técnica e da ciência coloca-se
a guerra civil na Síria; Israel alimenta a nominar neoliberalismo. A premissa de mente, transmite a impressão de que os a serviço do aniquilamento do ser, que é,
fogueira, com a contínua instalação de que não existem sociedades, mas apenas congressos nacionais, os parlamentos, as no final da contas, a principal força pro-
assentamentos ilegais na Palestina e com indivíduos e suas famílias, não postula organizações plurilaterais (como as Na- dutiva, aquela que realmente conta.
a retórica belicosa contra o Irã; a depo- apenas uma concepção de economia ou ções Unidas, a Organização dos Estados Em síntese, uma oligarquia finan-
sição de Muhamar Gadafi, em 2011, mercado, mas sim uma maneira de ver o Americanos, a União Europeia e tantas ceira manda no mundo, devidamente
criou um vazio de poder sem solução mundo, com todas as suas implicações outras) refletem, de fato, o livre jogo da auxiliada pela mídia planetária. Cálculos
na Líbia, que se tornou fonte de armas, éticas, morais e, claro, econômicas, po- opinião pública e concentram em suas feitos pelas mais diversas organizações
dinheiro e ideologia para os grupos fun- líticas e sociais. Propõe um mundo que mãos o poder de decidir democratica- apontam que cerca de 500 corporações
damentalistas que atuam no norte da abole qualquer vestígio de solidariedade mente qualquer coisa. São as “agências dominam a economia mundial. O nú-
África e no Sahel; no Egito, os militares para dar lugar à concorrência de todos classificadoras de riscos” que decidem as mero é ainda menor, quando se consi-
ainda tentam se recuperar do terremoto contra todos, o tempo todo. Marca o rotas assumidas pelos fluxos de capitais, dera as relações de sociedade, conver-
que teve como epicentro a praça Tahrir. fim do Estado-nação erguido sobre uma e são os fluxos de capitais, orientados gência de interesses e laços familiares
Na Ásia, a coisa vai muito mal, obri- base conceitual que acolhia a utopia de para a especulação, concentração e lu- entre os que dirigem as corporações. Aí
gado. Inflado pelos Estados Unidos e uma sociedade baseada na liberdade, cro, que detêm o poder de tornar mais está, de fato, o poder soberano, não no
Grã-Bretanha, o Japão assume uma igualdade e fraternidade, cujos princí- ou menos instáveis as economias nacio- Estado nacional. Não há configuração
retórica abertamente bélica: o primei- pios foram consagrados na Carta dos nais, com todas as consequências para a democrática capaz de resistir à fórmu-
ro-ministro Shinzo Abe quer revogar o Direitos do Homem, para erigir as re- vida dos indivíduos. Não há democracia la 85 famílias = 3,5 bilhões. O capital
artigo 9º da Constituição, imposta pelos gras da concorrência como norteadoras alguma. destrói e devora todas as estruturas po-
aliados no pós-Guerra, que limita a sua da ação do estado, que passa a funcionar Como uma reação possível a esse líticas, sociais, culturais e estéticas, e as
capacidade militar. Alega ter o direito de como uma espécie de administrador ge- quadro de absoluta opressão, de abolição metaboliza, de modo a reconfigurá-las à
se defender do poderio de Pequim - que ral ou gerente da competição entre cor- do futuro, de desesperança e frustração, sua imagem e semelhança. O capital fi-
reclama o controle sobre os mares ao sul porações. crescem e ga- nanceiro transformou o estado em mera
e leste da China – e da suposta ameaça Precisa- nham cada caricatura, incapaz de sustentar até mes-
representada pelo garoto mimado Kim mente por O capital destrói e devora vez maior mo a miragem de sua suposta função de
Jong-Un, da Coreia do Norte. Pequim, f r a g m ent a r todas as estruturas força as orga- porta-voz garantidor dos interesses uni-
em rota de hostilidade diplomática com ao máximo políticas, sociais, culturais nizações reli- versais de determinada sociedade. Daí a
Washington, instala ilhas artificiais no a vida dos giosas funda- perplexidade daqueles que se indagam,
mar da China meridional, além de en- indivíduos, e estéticas, e as metaboliza, mentalistas, hoje, sobre o futuro da política em geral,
frentar crescentes manifestações contra encapsulados de modo a reconfigurá- não apenas e dos partidos, em particular. Racioci-
o desemprego e a miséria dentro do em suas pró- no mundo nam segundo categorias de representa-
próprio país. prias carên- las à sua imagem e islâmico, mas ção que já não se aplicam. A história, de
As guerras, os conflitos e as tensões cias diárias semelhança. também nos fato, acabou, pelo menos a história tal
regionais jogaram aos campos de re- de bens, di- Estados Uni- como a conhecíamos. Não acabou pela
fugiados cerca de 50 milhões de seres nheiro, lazer, dos (onde suposta vitória do capital sobre outros
humanos, em 2014, ou o equivalente amores e amigos; por transformar os reforçam as características teocráticas modos de organização econômica, mas
ao número total de vítimas da Segunda indivíduos em animais tensos e agressi- puritanas dos estados da federação, e pela implosão bárbara do próprio capital.
Guerra. São seres que vivem em con- vos, a representação completa do “lobo ambicionam entronar um novo Calvi- A resistência contra o capital não
dições absolutamente inaceitáveis, sem do homem” imaginado por Thomas no em Washington), na Europa (onde a pode se desenvolver plenamente, en-
comida, medicamentos e infraestrutura Hobbes, dispostos a (quase) tudo para Igreja Católica fornece o alimento dou- quanto alimentar o mito da represen-
sanitária minimamente adequadas. Nos atingir determinados fins; por instalar trinário da mentalidade cruzadista con- tatividade democrática que condiciona,
centros urbanos de todo o planeta, a vida a competição desenfreada que ignora tra o Islã) e em Israel (onde Netanyahu disciplina e limita a luta às instituições
humana foi reduzida – quando muito – os princípios e zomba das virtudes; por expressa o desejo de instalação definitiva tradicionais, permitidas pelo próprio
a um dado estatístico. O racismo flores- levar ao limite extremo aquilo que Karl de um Estado puramente judeu, base- capital. A disputa eleitoral por cargos
ce na Europa (contra imigrantes e refu- Marx e Friedrich Engels previam no ado no apartheid e na negação absoluta no poder executivo não apenas é inútil,
giados) e nos Estados Unidos (negros e Manifesto de 1848 – a completa mer- dos direitos de outras religiões). O fun- como é perigosa. As eleições parlamen-
hispânicos). Na América Latina (Brasil, cantilização das relações entre pais e damentalismo, qualquer que seja sua tares, por outro lado, têm uma natureza
Colômbia, México), o estado move filhos, entre amantes e amigos, do con- origem, oferece certezas, assegura um distinta, e até abrem um espaço possível
guerra sem quartel contra os habitantes junto, enfim, das relações sociais; por futuro luminoso aos que obedecerem de propaganda, além de propiciar um
das periferias, a pretexto de combater o tudo isso, o capital é obrigado a trans- à letra do livro sagrado, protege o indi- “palanque” para a esquerda, mas nada
tráfico de drogas. No Brasil, em parti- formar as sociedades em presídios a céu víduo das angústias produzidas por um muito além disso. Não foi por “fraque-
cular, as pressões pela diminuição da aberto, fisicamente enjaulando uma par- mundo que se despedaça. za ideológica” ou por alguma maldade
maioridade penal pretendem recusar o te delas (a mais pobre, indefesa e exposta Voltemos a Karl Marx. Nada disso intrínseca aos seus dirigentes que o Par-
direito à infância aos negros e aos seus à máquina policial-jurídica do Estado) e é decorrência de um processo histo- tido dos Trabalhadores foi capturado
filhos, levando o país ao estágio anterior submetendo a imensa maioria aos siste- ricamente inevitável. Ao contrário. O pelo modo tradicional de fazer política
ao da Lei do Ventre Livre, promulgada mas de vigilância, como o criado pelo crescimento das forças produtivas (ci- - reacionário, conservador e corrupto -,
em 28 de setembro de 1871. Em todas NSA, parcialmente exposto por Edward ência e tecnologia) permitiria, hoje, eli- mas sim pelo mero fato de que o Estado
as grandes metrópoles, para se proteger Snowden, e também graças à captura e minar a fome: em média, como vimos, contemporâneo foi integralmente cap-
contra o “lixo do mundo”, os mais ricos controle da vida privada de bilhões de a agricultura mundial produz quase 3 turado pelo poder do capital financeiro,
vivem aprisionados em condomínios de seres humanos, possibilitada por redes mil calorias por dia por habitante, mais independentemente de quem esteja no
luxo, usam carros blindados, frequen- sociais como o Facebook. Trata-se de do que o suficiente para manter todo o poder. Um partido sozinho – mesmo
tam locais exclusivos, sonham com a uma realidade perfeitamente traduzi- mundo muito bem alimentado. As téc- o “partido de quadros” leninista – não
limpeza asséptica dos hospitais e sho- da pelos indicadores mundiais de saúde nicas de construção e manejo da natu- tem a capacidade de subverter essa lógi-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 9
ca, a menos que seja ampla e vastamente pelo FMI e pela Comissão Europeia)? na deslumbrante vitória do “não” (oxi). para utilizar uma analogia – que, como
apoiado por um movimento de massas Ou, dito de outra forma, para onde Mas, aqui, voltamos à questão central: toda analogia, tem os seus limites e âm-
em ascensão, que lhe permita afrontar iria essa mesma classe média grega, se e até que ponto a vitória eleitoral, e mes- bito de validade bem determinados -, o
e derrotar o poder do capital. Em ou- quando o Syriza fosse levado a uma situ- mo a do “não” representavam uma real PT não conseguiu distinguir-se, subs-
tros termos, como observa Vito Letiza, ação de confronto de fato com o capital disposição do povo grego ir até o fim no tancialmente, das ações do governo fe-
um velho dirigente marxista brasileiro, europeu? processo de ruptura com a Troika e com deral. Ao contrário, funcionou como
a disputa eleitoral pelo poder executi- As respostas, evidentemente, depen- o euro? Pesquisas de opinião indicavam, seu ponto de apoio e “amuleto” ideoló-
vo, por parte dos trabalhadores, só deve diam muito mais da capacidade de mo- claramente, que pelo menos 85% da gico, a tal ponto que o partido se tornou
acontecer numa situação em que as suas bilização do Syriza, como partido e mo- população queriam se manter na Zona indistinguível da própria estrutura do
organizações estiverem ancoradas num vimento, com o objetivo de transformar do euro. Não é um dado qualquer. O aparelho de Estado, a não ser por alguns
movimento tão forte e poderoso, que o a simpatia eleitoral em apoio orgânico problema, aqui, é que não houve, entre setores bastante minoritários que ain-
momento da posse seja também o mo- da população, do que das atitudes do 25 de janeiro e 5 de julho, um processo da mantêm um discurso ancorado nos
mento em que se declaram extintos os governo Tsipras / Varoufakis. Nova- de mobilização permanente, por par- princípios que orientaram a fundação
partidos tradicionais da burguesia. mente: a experiência do Syriza mostrou, te do Syriza como movimento – e não do PT.
Algumas situações excepcionais, sobretudo, que a disputa eleitoral passou como governo – capaz de armar a popu- Em qualquer hipótese, se a crise
como a da Grécia, pareciam sugerir um muito mais pelo sentimento difuso de lação grega, do ponto de vista político, grega ensinou algo, consiste no fato de
cenário distinto. Ao assumir o gover- revolta da população contra uma situ- social e ideológico, bem como convocar que em oposição ao discurso do capital,
no grego, em 25 de janeiro de 2015, o ação percebida como humilhante, do a solidariedade internacional contra a a esquerda deve avançar propostas que
Syriza aparentava oferecer um exemplo que por projetos de futuro e mobiliza- rapinagem de Angela Merkel e compa- partam do grau zero de reivindicações,
de disputa bem sucedida do controle ções ideologicamente motivadas. Claro nhia. O governo - não o povo - passou em defesa da democracia real e da digni-
do poder executivo por um partido de que também participaram da campa- a ser o protagonista das ações, e nisso dade humana. O direito a uma vida sem
esquerda. É preciso analisar com muita nha os grupos radica o ver- pânico nem terror é o mais básico de
cautela aquilo que aparecia como a ex- tr adicion ais dadeiro nó todos; o direito à alimentação decente
cepcionalidade grega. de esquerda,
Não sabemos se a da questão. e a uma moradia digna; ao atendimento
Na Grécia, a vontade eleitoral da ju- for temente sociedade do futuro será Distante das rápido e qualificado no posto de saúde e
ventude e dos trabalhadores coincidiu, ancorados na socialista, comunista ou mobiliza- hospital; ao transporte urbano gratuito e
numa situação absolutamente ímpar, ideologia, mas ções popu- a todas as outras reivindicações básicas,
com a vontade da maioria da nação, não foram eles marciana, mas sabemos lares, e preso já bem conhecidas. É preciso dizer e re-
mesmo daqueles que, tradicionalmente, que deram o que, certamente, não será às armadi- petir à exaustão: no caso brasileiro, não
votavam nos partidos de direita. O Syri- tom da dis- lhas postas há democracia enquanto a juventude
za não foi eleito, em janeiro, pelas forças puta eleitoral.
capitalista, pois o capital no caminho negra é massacrada nas periferias, quem
de esquerda. Foi catapultado ao poder A defesa da está destruindo o ser pelas nego- não tem dinheiro morre ou padece nas
por uma situação de frustração e de- própria dig- humano e a natureza. ciações de filas do SUS, e persiste a crescente dis-
sesperança, após anos de “austeridade”, nidade foi um cúpula, Tsi- paridade de renda entre ricos e pobres.
sinônimo de humilhações e frustrações, motor muito pras assumiu Isso não é democracia, é uma farsa, não
ao mesmo tempo em que nenhuma or- mais forte do que qualquer projeto po- o caminho do suposto “mal menor”: importa o partido que esteja ocupando
ganização tradicional dos trabalhadores lítico coerente e escatológico. O Syriza permanecer na Zona do euro, ainda o poder. A esquerda deve, portanto, re-
(comunistas e social-democratas) con- articulou o discurso que estava “fora que desrespeitando os resultados do cuperar o sentido mais radical do con-
seguiu capturar os anseios da socieda- de moda”, proscrito pela mídia e pelo plebiscito. Poderia, por exemplo, ter re- ceito de democracia e escapar à armadi-
de. Nesse sentido, aliás, o Syriza guarda neoliberalismo em geral: os valores hu- nunciado? Poderia. Isso talvez resolvesse lha hipnótica e fatal da disputa eleitoral.
uma certa semelhança com o PT bra- manos e universais existem, a prática da um dilema moral, permitindo-lhe sair Mas não deve parar por aí. É preciso
sileiro dos anos 70, que surgiu e se de- solidariedade é uma necessidade intrín- de cabeça erguida, mas sem qualquer promover o sentimento de solidarieda-
senvolveu à revelia do e em oposição ao seca ao ser humano, não são os trabalha- consequência econômica prática para o de e pertencimento aos trabalhadores
PCB e outras organizações tradicionais dores e jovens gregos que representam povo grego. e jovens, por meio de atividades que se
dos trabalhadores. O desafio colocado uma ameaça à Europa, mas, ao contrá- Os dados ainda estão rolando. Na alimentem de arte, cultura, esportes,
pelo Syriza, algo integralmente novo no rio, são os bancos e o capital financeiro melhor das hipóteses, a excepcionali- lazer, recreação. Esta era uma prática
cenário grego (e europeu), tocava direta que dividem os jovens e trabalhadores dade grega, apesar dos resultados catas- comum aos grupos anarquistas e de jo-
e imediatamente o coração do capital. europeus de todos os países. tróficos das negociações, alimentará os vens socialistas, no final do século XIX
O discurso que afirmava a recusa ao pa- Não por acaso, Tsipras iniciou o dis- movimentos de resistência na Espanha e início do século XX, graças a quem,
gamento da dívida, cujos maiores cre- curso da vitória, na praça Sintagma, em (Podemos) e em toda a Europa. Na aliás, Adolf Hitler entendeu perfeita-
dores são os bancos alemães e franceses, 25 de janeiro, com a frase: “A nossa vi- pior, produzirá uma tragédia política e mente bem a necessidade de organizar
ameaçava explodir a União Europeia. E tória é a de todos os povos da Europa”. humana de grandes proporções. Não se a juventude nazista. Os saraus de poe-
apenas por isso o Syriza obteve a vitória. E tampouco é secundário, nesse con- trata, aqui, de tirar a conclusão de que sia na periferia são um bom exemplo
É essa a característica que, em janeiro texto, o fato de Tsipras ter se recusado foi um erro disputar o poder na Grécia de socialização solidária, assim como a
de 2015, tornava a situação grega abso- a usar terno e gravata, o “uniforme” dos – conclusão que, de resto, seria pedante, organização de bibliotecas nos bairros
lutamente excepcional e única: o fato de tecnocratas da Troika. O seu estilo, ali- como mostra o bom e velho Mouro, ao – com o chamamento à participação
mostrar tão clara e explicitamente que ás, contaminou o governo. Varoufakis discutir as circunstâncias da tomada do de professores e intelectuais dispostos a
a realização dos lucros de meia-dúzia ia trabalhar de moto e tinha o dom de poder pela Comuna de Paris, em 1871. contribuir com o processo -, lançamen-
de bancos dependia da contínua humi- deixar os burocratas da Troika furiosos, Mas é necessário enxergar tanto as con- to de campanhas de alfabetização (não
lhação e empobrecimento de todo um com suas declarações bombásticas. Em dições excepcionais que permitiram a por acaso, a ditadura odiava Paulo Freire
povo. Poucas vezes a oposição entre Paris, por exemplo, comparou o tra- disputa, quanto os limites em que ela e sua pedagogia do oprimido), festivais
o capital financeiro e o ser humano se tamento dado pela Troika à Grécia ao se dá. Para não ficar refém do capital, de viola e música de raiz (sem descartar,
mostrou de forma tão imediata e cris- “waterboarding” - técnica de tortura Tsipras teria que ir até o fim na ruptura obviamente, o funk, o hip hop e outros
talina aos olhos de toda a população. O empregada pelos serviços secretos dos com a Troika, mas, para isso, o Syriza gêneros). A lista de atividades possíveis
Syriza venceu justamente por ter sus- Estados Unidos para obter confissão. não poderia ter sido reduzido à condi- pode se prolongar indefinidamente,
tentado um discurso radical contra os Em Londres, disse que não tinha ne- ção de mero espectador das ações do pois o limite é a criatividade e o senti-
bancos e os compromissos de austerida- nhuma razão para se reunir com buro- governo. Muito ao contrário. mento de urgência.
de. Perderia, se tentasse contemporizar cratas da Troika, pois eles não haviam Qualquer proposta de mobilização Não se trata unicamente de travar a
ou conciliar, se sequer ensaiasse produ- sido eleitos, mas simplesmente nome- que aceite os limites institucionais elei- “batalha ideológica”, afirmar a “nossa”
zir algo ainda que remotamente similar ados, ao contrário do governo que ele torais está fadada ao fracasso. O Syri- cultura, arte e esportes contra os “de-
à “Carta ao povo brasileiro” divulgada representava. za fracassará como movimento, caso se les”. Não é isso. Não se trata de criar um
por Luís Inácio Lula da Silva, em 2002, Do ponto de vista das ações do go- mantenha como um suporte ao gover- “discurso socialista” contra o “discurso
no Brasil. Assim, a própria situação ob- verno, portanto, o Syriza foi até onde no, separado da mobilização popular. capitalista”. Nem se trata de cultivar a
jetiva do país empurrou o Syriza para o poderia ir, incluindo a realização de As primeiras informações oriundas da “arte didática”, isto é, a mera transfor-
poder. Mas, até que ponto Alexis Tsi- uma auditoria da dívida grega, que Grécia após a “capitulação” de Tsipras mação de panfletos em músicas e peças
pras e o seu ministro da economia Yanis demonstrou sua total e absoluta ilegi- indicam um movimento de ruptura de de teatro. Essa prática tende a empobre-
Varoufakis poderiam sustentar um dis- timidade, e a convocação do plebiscito parte do Syriza, mas é ainda difícil sa- cer a política e a arte, sem resultar em
curso de enfrentamento contra a Troika contra a aceitação dos termos impostos ber com exatidão suas dimensões e des- nada realmente significativo. Trata-se
(formada pelo Banco Central Europeu, pela Troika, em 5 de julho, que resultou dobramentos. No caso do Brasil, ainda de entender que a construção de laços
10 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
de solidariedade é um processo abso- diametralmente opostas às oferecidas da sociedade, e mesmo de criar laços das”, por meio das mesmas telenove-
lutamente indispensável e fundamental pelo próprio capital. Não há “espon- internacionais. las, minisséries, noticiários etc., além
num mundo entregue à barbárie e à taneísmo”, mas tampouco há uma A título de exemplo, houve um de, eventualmente, comprarem a cons-
fragmentação do ser humano. É uma atitude profética e escatológica, como momento importante na história do ciência de antigas lideranças de movi-
providência exigida pela autodefesa a tradicionalmente consagrada pela es- MST, logo após o massacre de Eldo- mentos e comunidades. Com grande
da classe trabalhadora e da juventude. querda revolucionária. Há uma aposta rado dos Carajás (17 de abril de 1996), competência técnica e ideológica, cap-
É uma questão de sobrevivência. De na construção, nos limites do possível, quando o movimento foi capaz de, turam e subvertem conceitos como
nada adianta organizar manifestações de seres humanos integrais que, como momentaneamente, romper a barreira o de “comunidade solidária”, “cida-
que, encerradas, abandonam cada indi- tais, vão desenvolver a luta contra o ca- do isolamento e atingir positivamente dania” e outros semelhantes, utiliza-
víduo à sua própria sorte, sem oferecer pital da melhor maneira ao alcance de vastos setores da sociedade brasileira dos, invariavelmente, para promover a
alternativas de socialização, sem abrir a suas possibilidades. (a ponto de obrigar a Rede Globo a conciliação de classes - a ideia de que
possibilidade de conviver num mundo Nada disso significa deixar de lado fabricar um MST domesticado e ino- o pacifismo, a mansidão, a subservi-
não regido pela competição, pela frus- as reivindicações materiais. Muito, fensivo, com a novela O Rei do Gado). ência aos patrões, a obediência às leis e
tração e pelo medo. Não há cimento muito ao contrário. Procura-se, aqui, A Marcha a Brasília, realizada pelo aos princípios religiosos são o caminho
político mais forte e mais efetivo do acentuar o vínculo indissolúvel entre movimento um ano após o massacre, para criar “cidadãos responsáveis” e
que o relacionamento entre camaradas o combate pelas reivindicações e a luta angariou um impressionante apoio das “bem sucedidos”. Claro. “Cidadãos”,
de luta. As correntes evangélicas enten- mais ampla pela construção de uma populações que viviam nas cidades por segundo a Rede Globo e congêne-
deram isso melhor do que a esquerda. esquerda de novo tipo. Mais do que onde passava. Não é o caso de discutir, res, são seres humanos fragmentários,
Eles oferecem ao povo a “alma de um nunca, é preciso organizar combates aqui, em detalhes, o desenvolvimento competitivos, preocupados unica-
mundo sem alma” (que é como Marx que atinjam o capital no seu coração: posterior do MST, mas apenas de assi- mente com o seu próprio bem estar;
entendia a religião, o ópio do povo). o poder das corporações que mandam nalar a possibilidade de construir vín- “solidariedade” é sinônimo de assis-
Nesse contexto de negação da bar- no mundo. É preciso identificar e mi- culos com a sociedade, ou pelo menos tencialismo e/ou caridade. Nada disso
bárie, e de afirmação de um processo rar no alvo dos interesses corporativos, com uma parte significativa dela. tem qualquer coisa que ver com uma
civilizatório, os debates sobre racismo, como acon- Já a luta perspectiva da esquerda, cujo ponto de
questões de gênero, violência domésti- teceu com a da organi- partida é a construção da solidariedade
ca, consumo de drogas e de convivên- luta contra o A construção de uma zação Mães entre iguais na luta contra o capital.
cia entre amigos e amantes adquirem aumento dos de Maio, A construção de uma nova es-
uma importância fundamental. Nova- 20 centavos, nova esquerda implica no c r i a d a querda implica, por fim, o desafio da
mente: não se propõe, aqui, a realiza- que desem- desafio da superação dos em 2006, superação dos próprios preconceitos e
ção de “psicoterapia de grupo”, nem bocou nas próprios preconceitos e oferece sectarismo. Faz parte da formação da
um discurso psicologizante incapaz de Jornadas de um outro esquerda tradicional a ideia de que so-
oferecer respostas a demandas imedia- Junho. Em sectarismo. exe m pl o , mente o programa revolucionário será
tas, nem de adesão a um feminismo escala inter- de como capaz de derrotar o capital e conduzir
dissociado da luta por direitos, mas de nacional, não é difícil o proletariado ao socialismo. Só que
cultivar sentimentos de camaradagem por acaso, nenhuma mobilização em construir os tais vínculos. Qualquer ser há vários programas revolucionários
tão necessários e vitais para sustentar defesa do povo palestino atingiu mais humano decente imaginaria que a mãe em oferta; um deles é o correto (claro,
uma luta sem tréguas contra o capital. É resultados do que a campanha de boi- que denuncia a execução do próprio aquele que eu defendo), ao passo que
preciso disseminar redes de informação cote universal aos produtos israelenses filho inocente e desarmado pela polí- os demais são “revisionistas”, “capi-
capazes de provocar reflexão. As rádios (BDS), classificada em junho, por Be- cia contaria com a simpatia imediata tuladores”, “reformistas”, “centristas”
comunitárias, as web-rádios e web-tvs niamin Netanyahu, como uma ameaça da sociedade à sua volta. Não é o que e outros bichos mais. É uma postura
podem ocupar um lugar central nesse “mais séria do que o programa nuclear acontece. Embora as Mães de Maio, incapaz de conviver com a diferen-
processo. Algumas favelas de Niterói, do Irã” ao futuro do estado sionista. ao longo dos nove longos anos que se ça, com o outro, com a ideia de que,
por exemplo, tiveram uma experiência De fato, o primeiro-ministro israelense passaram desde que a organização foi num mundo em desagregação, a tare-
muito boa com a divulgação de uma chegou a comparar o movimento BDS criada, tenham conseguido acumular fa urgente é a de recompor as relações
radionovela feita com a participação de ao holocausto nazista. Trata-se de pro- um imenso capital de dignidade e res- sociais e humanas com base em parâ-
gente da própria comunidade, que teve mover ações de boicote, denúncia, blo- peito, o apoio e simpatia por sua causa metros que se opõem ao individualis-
como tema central a violência policial queio e golpes diretos ao lucro e ao po- não é automático nem garantido. Mes- mo, em sentido estrito, e ao capital, em
e doméstica. A radionovela, muito der das grandes empresas e corporações mo descartando-se os setores mais fas- sentido amplo. Claro, posso defender
bem produzida, foi capaz de provocar – como, aliás, foi o grande movimento cistas, racistas e inclassificáveis, há uma todas as concepções programáticas que
discussões no âmbito das famílias e de iniciado por Rosa Parks, em dezembro parte da classe média e mesmo de seto- quiser, mas não posso exigir que o ou-
toda a comunidade. de 1955, e sustentado por Martin Lu- res da própria periferia que têm que ser tro pense pela mesma cartilha, como
Claro que se trata de um proces- ther King Jr, em Montgomery (Alaba- convencidos. Muitos preferem acre- condição para construir algo conjun-
so lento, muito difícil, não raro dolo- ma), que, ao cabo de um ano em que ditar que “alguma coisa eles fizeram” tamente.
roso, mas em todo caso necessário e a população negra se recusou a pegar para merecer o tiro. Mas não adianta Torna-se irresistível, neste ponto,
inadiável. A perspectiva de futuro que ônibus, pôs um fim jurídico ao sistema apontar o dedo acusador para os “co- evocar, por analogia, os conceitos is-
nascerá desse processo é a perspectiva de segregação racial nos Estados Uni- xinhas” e gritar: “Reacionários! Ig- lâmicos de “grande jihad” e “peque-
de futuro que nascerá desse processo. dos – ou a “marcha do sal” liderada por norantes! Idiotas!” É preciso entender no jihad”. O “pequeno jihad” (aqui
Com isso, quer-se dizer que não há Mahatma Gandhi, na Índia, em 1930, que eles sofrem a influência deforma- traduzido como esforço) consiste em
um programa de vanguarda capaz de, contra o império britânico. dora da mídia (por meio de noticiários, converter o mundo para as concepções
aprioristicamente, indicar um “fim”. Mas essas lutas enfrentam o desafio novelas e programas policiais de rádio islâmicas; o “grande jihad”, o esforço
Isso nascerá do próprio processo, com de ganharem a adesão da sociedade in- e televisão), de “especialistas” regia- mais árduo e quase irrealizável, é ga-
a participação coletiva. Não sabemos teira. Não basta que eles sejam justas. mente pagos para disseminar opiniões nhar a si próprio – isto é, deixar de lado
se a sociedade do futuro será socialista, Elas precisam aparecer como sendo “científicas”, de lideranças religiosas e o ego e se submeter ao que é necessário
comunista ou marciana, mas sabemos justas. É uma tarefa muito difícil, es- de políticos que faturam prestígio, di- ser feito.
que, certamente, não será capitalis- pecialmente num processo de desagre- nheiro e poder para criminalizar a po- A “nova esquerda” deve partir das
ta, pois o capital está destruindo o ser gação social como o que vivemos hoje, breza e gerar consensos absolutamente reivindicações mais básicas, mais ur-
humano e a natureza. É preciso liqui- e quando todo o edifício midiático se reacionários e equivocados sobre as gentes, mais necessárias à dignidade do
dar o capital. O resto será construído opõe aos movimentos sociais. Mas é origens, as causas e as reponsabilidades ser humano, dentro de um processo de
pelo próprio movimento. Não há nes- uma luta inevitável. Quanto mais co- pela prática da violência assassina. O interlocução respeitoso e democrático
sa formulação nenhum “espontane- esa for uma comunidade, quanto mais problema é construir os caminhos para com todas as forças capazes de, mini-
ísmo”. Ao contrário, o trabalho é ár- ela for unida por laços de solidariedade furar o bloqueio. mamente, opor resistência à barbárie.
duo, perigoso (pois terá que enfrentar e camaradagem, mais capaz ela será de O bloqueio, por outro lado, não é É uma condição sine qua non para
as pressões da polícia, do narcotráfico, apresentar a defesa de suas reivindica- feito apenas de truculência e acusações construir um movimento que, se bem
das denominações evangélicas etc.), e ções ao resto da sociedade, superando propagadas pela mídia. Os intelectuais sucedido, saberá encontrar por conta
tem um sentido muito bem definido, o isolamento e o estigma do “vanda- orgânicos do capital, dos quais o prin- própria todas as respostas necessárias e
que o anima e o inspira: a luta contra lismo” e do “radicalismo”. Inversa- cipal, no Brasil, é a Rede Globo, não suficientes ao desenvolvimento da luta.
o capital. Trata-se de uma luta com- mente, mais capaz a comunidade será se limitam a criminalizar a pobreza e É mais fácil falar do que fazer, claro.
pleta, sem tréguas, pois mobiliza forças também de oferecer alternativas para a justificar o extermínio da juventude Mas é preciso fazer.•
para construir socialmente referências os problemas que afetam o conjunto negra. Eles oferecem também “saí-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 11
DEBATES TRANSVERSAIS
D
euro? Ou não o fez porque esse nunca frações internas com distintos programas
uas notícias nos chegam da foi o projeto da direção de Syriza? A res- por algum tempo, mas não quando se tem relevância porque o importante
Europa. Uma animadora posta a esta pergunta dividirá a esquerda chega ao governo. Aldo Sauda pesqui- é “romper com o capitalismo”. Além
e a outra desanimadora. A mundial. sou a composição interna do Syriza: disso, à esquerda de Syriza e do gover-
boa notícia é que a crise da Em Agosto de 1914, a maioria das O melhor e mais sólido indicati- no de coalizão liderado por Tsipiras, se
socialdemocracia abriu, em alguns paí- direções dos partidos da II Internacio- vo das diferentes alas que compõem o posiciona o Antarsya, uma coligação de
ses do Mediterrâneo mais atingidos pela nal votou os créditos de Syriza e suas organizações marxistas, cujo nome sig-
destruição das condições de vida da ju- guerra e se associou aos forças foi o nifica “rebelião” em grego. Essa frente
ventude e da classe trabalhadora, um es- seus respectivos governos
Os gregos votaram congresso de política foi formada em 2009 a partir da
paço para a reorganização da esquerda. na escalada que terminou no Syriza e 2013. Nele, integração de organizações que vinham
de rupturas com o KKE e outras de ori-
Essa reorganização se expressou primei- na tragédia que vitimou referendaram o Oxi organizaram- gem maoísta, trotskista e ecologista. Nas
ro no terreno da ação direta e depois no dez milhões de vidas, a se mais de
eleitoral. A social democracia desmoro- Primeira Guerra Mun- porque não querem 3.500 delega- últimas eleições, obteve menos de 1%
nou na Grécia e Espanha. Essa ruptura dial. A esquerda se dividiu ser uma colônia dos represen- dos votos, não superando a barreira dos
tem dimensão histórica. para sempre entre social tando cerca 3% necessários para entrar no parlamen-
A Grécia conheceu mais de quinze democracia e interna-
alemã. de 40.000 to, mas já obteve votações superiores a
greves gerais nos últimos sete anos. Pou- cionalistas. Guardadas as filiados. A 2% em eleições para o Parlamento Eu-
cas nações têm uma classe trabalhadora devidas proporções – que são grandes, “ala majoritária” do Syriza, que gira em ropeu. Tem alguma presença nas admi-
com esta capacidade de ação indepen- é claro – a direção do Syriza viveu em torno de Tsipras, ganhou as votações nistrações municipais da zona de Ate-
dente. O PASOK (Movimento Socia- julho de 2015 o seu momento “agosto programáticas com uma maioria de dois nas; faz parte dos movimentos sindical
lista Pan-Helênico) na Grécia e o PSOE de 1914”. Tsipiras sabia, desde que foi terços. Ela é composta pelo antigo setor e estudantil e sua militância participou
(Partido Socialista dos Trabalhadores eleito em janeiro de 2015, que a saída do majoritário do Synapismos, os maoístas ativamente nas greves e nas lutas contra
Espanhol) no Estado Espanhol foram euro exigiria a suspensão do pagamento do KOE e alguns setores autonomistas a austeridade. A hegemonia dentro do
deslocados pelo fortalecimento de novos da dívida e a nacionalização da banca. O “pôs-marxistas”. Todos estes grupos se Antarsya é dos grupos maoístas. Posi-
instrumentos eleitorais, como o Syri- plano da direção majoritária do Syriza foi dissolveram durante o início do con- cionou-se categoricamente contra a ex-
za e o Podemos. Mas o processo ainda desde sempre procurar uma negociação gresso, com seus integrantes identifican- tensão do Memorando anunciada pelo
está em curso, e pode ir mais à esquerda, com a Troika para a renegociação da dí- do-se apenas como membros do Syriza. governo Tsipras e chama a continuar
além do Syriza e do Podemos. vida. Essa estratégia fracassou porque não O maior grupo da oposição chama-se as mobilizações contra a chantagem da
A má notícia é que a espetacular vitó- há disposição do Banco Central Europeu “Corrente de Esquerda”. Tinham por UE. Além disso, denuncia que não são
ria do Syriza em janeiro deste ano não se para um alongamento da dívida. volta de 800 delegados no congresso, possíveis acordos dentro da UE e que a
traduziu em uma ruptura com a Troika Comecemos pelo principio. O Syriza representando cerca de 9 mil filiados. alternativa é a ruptura. Há um importan-
(Banco Central Europeu/União Euro- é um partido/frente que nasceu da evolu- O grupo vem da antiga ala esquerda do te debate interno sobre o apoio ou não
peia/Fundo Monetário Internacional). ção de grupos de diferentes origens, com Synapismos, que sempre foi plural e des- ao governo. Atualmente, mantém uma
Se tivesse acontecido, seria uma referên- lideranças que evoluíram de rupturas dos centralizado. Maioria dos sindicalistas posição de independência em relação a
cia poderosa de resistência para os tra- Partidos Comunistas e, entre outros, do partido, eles romperam com Tsipras Tsipras.
balhadores de toda a Europa, sobretudo uma organização trotskista, a DEA (Es- ao longo do próprio congresso de 2013. Vale lembrar que o atual governo gre-
em Portugal e no Estado Espanhol. Ao querda Internacionalista dos Trabalha- Inicialmente, tentavam uma conciliação go, além do Syriza, é formado também
contrário, mesmo depois da vitória do dores), articulados em torno a programas com a maioria, porém, ao depararem-se pelo ANEL, o “Anexartitoi Ellines”,
Oxi (o Não às chantagens da Troika), o antiausteridade e, portanto, anti-Troika. com reformas programáticas que redu- ou “Gregos independentes”. Trata-se
governo liderado por Tsipiras sucumbiu O Syriza é uma formação sem definição ziam a intensidade do confronto com a de uma organização de direita naciona-
à pressão da Alemanha. Compreender programático-estratégica, unindo refor- Troika, foram para a oposição. Depois lista que nasceu de uma cisão da “Nova
como aconteceu a ruína do Syriza tem mistas, revolucionários, e centristas que da Corrente Esquerda, vem o Projeto R, Democracia” do ex-premiê Samaras.
importância estratégica. oscilam entre um polo e outro, em um que tinha por volta de 100 delegados. A Nas últimas eleições, obteve 4,75% dos
12 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
votos, e 13 cadeiras no Parlamento. Posi- suspensão do pagamento da dívida pública cidas maldições bíblicas foram evocadas pena. De minha parte, PEÇO DESCUL-
ciona-se contra a austeridade imposta pela e a nacionalização da banca. Tal disposição no último referendo de julho, bem lati- PAS ao povo grego, porque também fui parte
Europa, mas principalmente contra a imi- inexiste na direção majoritária de Syriza. no-americanizado, que ainda assim deu a da criação dessa ilusão (...) Alguns argumentam
gração e o multiculturalismo, em defesa O “reformismo sincero” não é um con- vitória ao Não. O que foi extraordinário, que, para fazer um acordo, tem de se recuar. Em
dos valores patrióticos e religiosos da Igreja ceito marxista, é uma fantasia ideológica, mas não suficiente para que a direção do primeiro lugar, entre opressores e oprimidos, não
Grega Ortodoxa, a qual tem peso social como se pode confirmar nesta reporta- Syriza avançasse até à ruptura. pode haver nenhum compromisso, da mesma
muito relevante no país. Mas o que é im- gem de Valerio Torre : Acontece que milhões de gregos têm forma que entre escravos e conquistadores. A li-
portante destacar é que o seu líder, Kam- Já em Janeiro de 2013, o jovem líder dívidas de empréstimos feitos em euros, berdade é a única solução possível.
menos, é uma garantia da relação com os grego começou um longo tour pelas ca- sobretudo para a compra da casa própria, e Se quiser permanecer na Zona Euro,
militares. pitais mais importantes, mostrando uma terão muitas dificuldades de pagar as pres- a Grécia terá que aceitar o ajuste fiscal,
Na Grécia, a burguesia e seus partidos imagem de si mesmo tranquilizadora e tações em dracmas, se for recriada a mo- ou seja, o plano de austeridade. Syriza já
aterrorizam o povo com a ideia de que nada radical. “Espero que tenha conse- eda nacional, o que exige do governo do concordou em aceitar um terrível plano
a saída do euro seria um apocalipse. E o guido convencê-los que não sou perigoso Syriza um plano. É bom lembrar que não de austeridade fiscal que tranquiliza os
governo do Syriza defendeu que era pos- como alguns pensavam (...). Quem quer foi preciso que a Espanha saísse da zona credores da dívida com a busca de superá-
sível um “compromisso honesto” com o assustá-los dirá que se o nosso partido euro para que meio milhão de espanhóis vit primário - a mesma obsessão de Levy/
BCE, sugerindo que o FMI colaboraria chegar ao poder, rasgará os acordos com a perdessem suas casas a partir de 2008. Isso Dilma no Brasil - para controlar a fuga de
na mediação das negociações. O gover- União Europeia e o FMI, levará o país para mesmo, meio milhão de famílias tiveram capitais sem ter que avançar na direção de
no não só não preparou os trabalhadores fora da eurozona, [mas] o nosso objetivo é que entregar suas residências aos bancos medidas emergenciais que teriam como
para um eventual cenário de ruptura, mas, salvar o País e mantê-lo dentro da eurozo- e, pela incrível lei espanhola, ainda assim desenlace quase inevitável a nacionaliza-
pior, prometeu que haveria um acordo . na.” Essas foram as suas declarações para a mantém dívidas com os bancos. ção dos bancos.
Enquanto o governo de coalizão do Syriza plateia em um encontro na Brookings Ins- A carta da renegociação do prazo das Qual será o destino do governo do
com o ANEL, pequeno partido da direita titution em Washington, o mais influente dívidas para permanecer na zona do euro, Syriza? Dar um passo atrás, e apresentá-lo
grega, se dedicava a alimentar negociações organismo de análise política dos Estados uma espécie de ressurreição do plano Bra- como um passo em frente, não é muito
com a Troika, a Aurora Dourada, um par- Unidos. Dois meses depois, Tsipras estava dy dos anos noventa para a América La- sério. Na luta política, recuar, quando as
tido de extrema direita, incendiava o mal na London School of Economics tranqui- tina, com um alongamento de médio e condições são difíceis, não diminui nin-
estar social e político. lizando o auditório, garantindo que não longo prazo do perfil da dívida, só seria guém. Mas apresentar recuos como avan-
A Aurora Dourada é liderada por era a intenção do Syriza romper com o possível com uma mudança de 180 graus ços não é honesto. Ganhar tempo em
Nikolaus Michaloliakos, um veterano euro ou repudiar a dívida. Passados pou- da política do Banco Central europeu, que negociações, quando a relação de forças é
político grego, vinculado desde sua ado- cos meses, em setembro, participando do teria que sinalizar a disposição de estender desfavorável, é uma tática legítima, desde
lescência à extrema-direita e ao ultrana- Kreisky Forum, de Viena, teve o cuidado a mesma possibilidade para Espanha, Por- que seja somente uma tática no contexto
cionalismo pan-helênico. O partido con- de ilustrar para as burguesias europeias que tugal, etc. Não o fizeram com Chipre. de uma estratégia de confronto em um
solidou-se nas eleições nacionais como a o seu partido era contrário ao desmantela- Até agora, dependendo de Frankfurt e do momento posterior.
terceira força mais votada, com 6,3% dos mento da União Europeia e que o projeto Banco Central europeu, necas de pitibiri- Não há uma saída progressiva para a
votos e 17 parlamentares. Nas últimas elei- era apenas o de reprojetar a união monetá- ba. crise da Grécia que não seja a ruptura com
ções europeias (maio 2014) chegou a obter ria, estabilizando a eurozona e colocando Os líderes do Syriza estiveram tentando o plano de austeridade imposto pela Troi-
o 9,4% dos votos e, nas anteriores eleições em campo “um Plano Marshall europeu explorar as contradições dentro da União ka. Até as pedras da Praça Sintagma em
ao parlamento grego, 6,9% (18 deputa- que compreenda uma verdadeira união Europeia, e entre os alemães e os EUA. Atenas sabem disso. Tsipiras evitou a polê-
dos). É o primeiro partido de caráter aber- bancária, uma gestão centralizada do dé- Estas contradições já apareceram mais de mica sobre a possível saída do euro duran-
tamente nazista com influência de massas bito por parte do BCE uma vez. Estão te a campanha eleitoral, o que já foi uma
desde a II Guerra Mundial. Michaloliakos e (...) uma conferência na mesa, como decisão complicada, porque essa carta era
e outros 5 deputados da Aurora Dourada extraordinária sobre a Não há uma saída hipóteses, vá- e continua sendo a mais poderosa que o
estão presos esperando julgamento desde dívida europeia de toda progressiva para a rios planos de Syrisa tinha e tem na mão. Uma possível
setembro de 2013, acusados de integrar a periferia. (...) o meu e m er g ê nc i a . saída da Grécia da Zona Euro abriria uma
uma organização criminosa. Outros 12 partido, Syriza, está com- crise da Grécia que Alguns lem- situação desafiadora para o Governo lide-
parlamentares e 54 membros do partido prometido em promover não seja a ruptura bram muito rado pelo Syriza.
neonazista também enfrentam acusações um plano europeu para com o plano de as fórmulas de Mas como nós, no Brasil, já mudamos
criminais. Até outubro de 2013, atuaram a salvação da eurozona”. transição de de moeda quatro vezes, sabemos que não
com total impunidade. Suas selvagens Enfim, a peregrinação austeridade imposto moeda usa- é o fim do mundo. Por outro lado, não
agressões aos imigrantes eram toleradas de Tsipras concluiu-se na pela Troika. Até as das no Brasil: a devemos esquecer que uma possível saída
pelo governo da Nova Democracia. Itália, onde, em setembro URV que me- da Grécia da zona euro teria, também,
No complicado cenário onde jogam de 2014, registrou-se a pedras da Praça diou a passagem graves consequências para o euro e, por-
todas essas forças políticas é que se colo- sua presença - recebida Sintagma em Atenas da moeda in- tanto, para a União Europeia.
cou o problema do Syriza. Romper com calorosamente pela elite sabem disso. flacionária para O acordo assinado por Tsipiras, in-
o neoliberalismo, para retornar ao pacto do capitalismo italiano o real. Com ou felizmente, já deixou claro que a direção
social keynesiano do pleno emprego e ser- - no Fórum Ambroset- sem estatização do Syriza não quer uma ruptura com a
viços públicos gratuitos? Ou romper com ti de Cernobbio (o cenáculo da grande dos bancos é a questão central. Os gregos União Europeia. Mas o que sobrou dessa
a Troika, e mobilizar os trabalhadores e a burguesia italiana) , no qual flertou com votaram no Syriza e referendaram o Oxi União é o Tratado de Maastricht. Ou seja,
juventude da Grécia para apoiar medidas Mario Monti, em uma enxurrada de elo- porque não querem ser uma colônia ale- as políticas de austeridade para recuperar
anticapitalistas? As duas estratégias exis- gios mútuos. E então, alguns dias depois, a mã. Não aceitam mais a crescente pobre- a competitividade da economia capitalista
tem dentro do partido, mas a primeira visita ao Papa.” za. Nas urnas, derrotaram os partidos que europeia em um mercado mundial mais
está no governo com Tsipiras, e a segunda A Grécia perdeu, desde 2008, uma querem reduzir sua nação a um quintal de saturado a cada dia.
em minoria em setores revolucionários da capacidade produtiva que corresponde a, Berlim. Uma parcela da oposição de esquerda
Plataforma de Esquerda dentro do partido. pelo menos, 20% do seu PIB, talvez até Não é possível deter a catástrofe social ao governo Dilma no Brasil romantizou a
A primeira romantiza, nostalgicamente, mais. Trata-se de uma regressão histórica. grega, se a condição é manter-se no euro: possibilidade da direção do Syriza ir além.
a situação do pós-guerra, no século pas- Um desastre que fez o país mergulhar em quem o denunciou publicamente foi Ma- Justificavam essa aposta com a fórmula
sado. A segunda olha para o futuro, para decadência, com todas as consequências nolis Glezos, eurodeputado do Syriza e “disputar a consciência das massas no ter-
Madri e Lisboa. A diferença estratégica se previsíveis da decomposição social: queda símbolo da resistência grega à ocupação reno de suas ilusões”. A experiência trá-
concretiza em um dilema tático, porém do salário médio, falência dos pequenos nazi, que publicou, ainda em fevereiro, gica da capitulação, poucos dias depois da
incontornável. Ir ou não ir além do euro. negócios, aumento do desemprego, da uma nota muito crítica sobre o acordo fir- espetacular vitória do Não no referendo,
Essa é a questão central para a esquerda pobreza extrema, da emigração em massa, mado pelo Syriza com a União Europeia: demonstrou o quanto é perigoso apostar
grega. Acontece que mesmo uma estra- da delinquência. Renomear a Troika como ‘instituições’ e ao em ilusões, para não contrariar os humo-
tégia keynesiana de retomada do cresci- As notícias que chegam de Atenas con- memorando como ‘acordo’, e aos credores como res da maioria. As ilusões são sempre a
mento com redução do desemprego não firmam que se acelerou a fuga de capitais, ‘sócios’, da mesma forma que chamar de pescado antessala da desmoralização. Olhar a re-
é possível sem uma ruptura com Berlim e mesmo depois da aceitação do programa a carne, não muda a situação anterior. Tampou- alidade como ela é, dizer as coisas como
Bruxelas. A crise do capitalismo europeu de austeridade. As hipóteses colocadas na co muda, é claro, o sentido do voto do povo grego elas são, ter a paciência para saber que a
exige “reformistas sinceros” – ou seja, dis- mesa são poucas. A chantagem da União nas eleições de 25 de janeiro de 2015. O povo condição de minoria é transitória, são
postos a realizar de verdade um programa Europeia é clara. Ou aceitam pagar a dí- votou no que o Syriza havia prometido (...) No condições necessárias para poder disputar
reformista, o que envolve a disposição para vida aprofundando a austeridade, ou terão entanto, passou um mês, e isso não se converteu a consciência de milhões de trabalhadores
iniciativas radicais: a ruptura com o euro, a que sair da zona do euro. Todas as conhe- ainda em realidade. Uma pena, uma verdadeira para um programa anticapitalista.•
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 13
A
curiosa sensação de da dívida, em 1981, o capitalis- de direitos (como o de greve na pulação. Se não nos prendermos
estar assistindo a um mo entrou numa fase em que, no ditadura militar). Essas condições aos dados oficiais, o número de
sinistro fim de festa mundo inteiro, assegurar direitos nunca foram superadas, entre ou- indivíduos da população econo-
se apodera de todos conquistados, quando possível, tros motivos, devido às bases res- micamente ativa (PEA) desem-
aqueles que procuram entender teve o sabor de amarga vitória. É tritas de acumulação interna de pregados, que sequer procuram
o significado dos protestos da essa situação que fica encoberta capital, de tal modo que, quando emprego, é alarmante, mesmo de-
classe média predominantemen- no teatro conservador das ruas e a competição passou a ser direta pois do crescimento da economia
te branca iniciados ainda durante nas respostas débeis que a elas dá ae a privilegiar as bases tecnocien- no último lustro . As populações
os jogos da copa de 2014 e con- esquerda tradicional – governista tíficas da produção, as vantagens de algumas regiões do país, como
tinuados nas manifestações de ou na oposição. relativas do salário baixo desapa- o Nordeste, apenas são rentáveis
A
março e abril de 2015. Diferente receram como pó. no atual quadro da concorrência
dos protestos de 2013, estes têm globalização ou mun- O caráter dramático dessa si- mundial a partir de um comér-
um perfil conservador dominante dialização imediata do tuação fica mais nítido quando se cio de bens de consumo popular
e são essencialmente premonitó- mercado, em que as acrescenta que, desde 1940, hou- financiados por transferência de
rios: não sabem o que dizem, mas mediações e barreiras ve um êxodo rural gigantesco, rendas estatais como o Bolsa Fa-
sabem o que fazem. Essa sensação dos Estados Nacionais foram de- que transferiu, em 40 anos, para mília, ou trabalhos temporários
precisa ser explicada, pois trata- tonadas pela concorrência - insu- um conjunto não muito grande em ramos fortemente ancorados
se de uma intuição coletiva de primível enquanto o processo da de regiões metropolitanas, mais em atividades precárias, como o
que, terminado o tempo das vacas acumulação ampliada de capital de 70% da população. A reprodu- corte de cana em São Paulo - aliás
gordas, tudo que antes foi sagra- ainda se sustentar, mesmo que ção dessa massa humana urbana já em vias de supressão –, confec-
do deve ser agora profanado. Para com forças pro- nos padrões ele- ções por peças, etc.
isso, se procurarmos uma defini- dutivas que não mentares de uma Há muito se vêm viralizando,
ção sintética do significado histó- cabem mais nas É o início da moderna socie- nas redes sociais, declarações de
rico dos governos do PT, não es- estreitas mar- verbalização de dade produtora ódio a setores específicos da po-
taremos longe de um acerto se os gens da produ- de mercadorias pulação, como os nordestinos, os
algo que em breve
definirmos como os anos impro- ção de merca- é impossível sem negros ou, mais abstratamente, os
váveis de uma bem sucedida ges- dorias -, cria se sedimentará em um forte setor pobres. O ex-presidente Fernan-
tão da barbárie. Pois é o arsenal relações de in- movimentos com industrial. Com do Henrique, modelo acabado
dessas políticas e suas técnicas de terdependência violência crescente: o seu desmoro- da estupidez sem freios em que a
dialética do iluminismo se reali-
‘governabilidade social’ que serão incontornáveis,
livrar-se fisicamente namento, tanto
profanadas, mas não por razões pr incipalmen- o desemprego za, durante a eleição de 2014 foi
meramente ideológicas, destas te em socieda- dos perdedores da passou a níveis o arauto de uma destas boutades.
que poderiam dividir esquerda e des periféricas. competição global. insupor t áveis, A conexão entre o porta-voz e,
direita numa luta cheia de glórias, Nesse sentido, como as impor- para voltarmos às manifestações
e sim pela disputa pequena de o capitalismo tações começa- obscurantistas acima comentadas,
como se deve organizar a próxima é a crise e não ram a forçar cada as classes médias predominante-
etapa do desmoronamento da so- há, por enquanto, qualquer pers- vez mais os déficits da balança co- mente brancas, é o início da ver-
ciedade brasileira dentro da crise pectiva de um se livrar do outro. mercial. Para ficarmos apenas nos balização de algo que em breve se
mundial – e, nesse cenário, nem (Esse é um dos lados cômicos da anos 1990, estima-se em mais de sedimentará em movimentos com
o PT nem a direita apresentam ou farsa que se espetaculariza nas 10 milhões de empregos fechados violência crescente: livrar-se fisi-
significam saídas. manifestações, pois nem o PT e . A corrente que anima o sistema camente dos perdedores da com-
Essa situação histórica esd- a corrupção são causas da crise, de produção e reprodução social petição global.
E
rúxula se apresenta minada por nem a Petrobras estaria preparan- passou a circular em baixa inten-
formas ideológicas fantasmagóri- do as condições históricas de um sidade e, por isso, a cada novo ci- qual foi o corte conjun-
cas que, num espetáculo de gos- novo futuro para a nação). Acon- clo econômico, novas quebras ou tural que avivou tanta
to duvidoso, parecem encenar tece que, com a imposição de no- modernizações de empresas re- bestialidade? O segre-
os verdes anos da velha luta de vos patamares de concorrência presentaram quantidades maiores do pode estar na forma
classes. De repente, 1964 passa pelo mercado global, boa parte de indivíduos excluídos das con- como vivemos nos últimos anos.
a rondar a imaginação de todos do esforço de industrialização do dições elementares de existência Poucos se perguntaram neste pe-
como se pudesse ser novamente Brasil ficou rapidamente obso- por meio de um salário (mesmo ríodo como podia um país que já
revivido – com direito a cicatrizes leto. Em duas décadas, a desin- que, devido ao pauperismo, esse passava a habitar o brejo das almas
antecipadas. Uma farsa des-gra- dustrialização tornou-se uma re- fenômeno se assemelhe àquele do das nações quebradas pela corri-
ciosa. A sociedade brasileira que alidade que desafia o pensamento baixo salário da superexploração, da da globalização manter uma
desmorona desde os anos 1980 é de todos aqueles que concebem que funcionou como vantagem balança comercial superavitária
o resultado de mais de um século essa questão como um problema relativa no período anterior, tra- exportando predominantemen-
bem sucedido da internalização redutível à vontade política. A ta-se de algo bastante diferente te commodities? O ‘bilhete da
do capital e, a partir de então, de verdade é que as bases técnicas do em termos estruturais). sorte’ do governo Lula foi tirado
seus limites lógicos internos. Em desenvolvimento do capitalismo Por certo, já é perceptível que em 2002, quando se iniciou uma
1964, talvez, ainda fosse possí- no Brasil sempre foram defasa- estamos descrevendo uma socie- bolha especulativa com o pre-
vel realizar uma expansão desse das em relação aos países centrais; dade colapsada. O sistema de pro- ço das commodities . Os preços
processo social a partir de ‘re- porém, durante muito tempo, foi dução não permite as condições não pararam de subir entre esse
formas de base’ com distribuição possível compensar essa diferença de realização das necessidades de ano e 2008 – quando, em razão
de riqueza. Mas, depois da crise com salários baixos e restrições contingentes crescentes da po- do estouro da bolha imobiliária
14 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
nos EUA e do agravamento da crise seu fundamento na base técnica sobre da globalização. Dessa maneira, foi
mundial, os preços caíram, para voltar a qual se realiza a concorrência no ca- induzido um aquecimento do consu-
a subir rapidamente em 2010, e voltar pitalismo globalizado. Como ela eli- mo no mercado interno – note o leitor
a cair desde 2012. Esses movimentos mina quantidades imensas de trabalho que esse aquecimento esteve presente
dão uma base mais consistente para se vivo, aumentando o peso do trabalho desde o início, e não como resultado
entender diversos fenômenos, como morto na composição orgânica do ca- de um ciclo de maturação de investi-
a popularidade dos governos do PT pital, a produção de valor vai ficando mentos produtivos que, por sua vez,
nesse período e a razão sem volta do fraca, insuficiente para valorizar o ca- teriam induzido o consumo através
dissenso atual. pital acumulado sedento por investir- de novos empregos e do aumento dos
Bolhas financeiras são sintomas se. Por essa razão, a especulação não é salários por conta do aquecimento do
agudos de crise. Elas consistem no uma ‘livre escolha’ dos agentes econô- mercado de trabalho, etc. – por meio
emprego do capital excedente que cir- micos, mas uma ‘fuga para frente’ do de ganhos reais do salário mínimo e
cula no mercado mundial, resultante sistema, ou seja, é mais um sintoma farta oferta de crédito (o consignado,
de uma superacumulação que já não do agravamento da crise do que uma por exemplo). Esse aquecimento le-
encontra oportunidades rentáveis de saída. Esse fenômeno já está posto, sob vou o setor de serviços a uma verda-
aplicação na produção em nenhum o ponto de vista lógico dessa análise, deira apoteose, criando rapidamente
lugar do mundo. Dinheiro quente como a causa da desindustrialização milhões de empregos de baixa remu-
desesperado ante a possibilidade imi- comentada acima; o que ocorre agora neração e qualificação . Num primei-
nente de desvalorização. Elas são uma é que o circuito de baixa intensidade ro momento, como o Estado voltou
exacerbação e ampliação do chamado que dali resultava foi artificialmente a ter recursos para investir, devido ao
capital fictício observado por Marx intensificado, sem dele resultar um superávit da balança comercial, criou-
ainda no século XIX. Segundo esse novo processo de expansão e desen- se – além de políticas de assistência
conceito, o dinheiro excedente des- como o Bolsa Família e o Fome
tinado ao crédito tende a se reprodu- Zero, que discutiremos mais à fren-
zir a partir dele mesmo, ou seja, a se
A existência momentânea te – o Programa de Aceleração do
transformar na fórmula simplificada de milhões de indivíduos Crescimento, PAC-I, que tinha
de D-D’. Para quem toma esse di- já descartados pelo principalmente o modesto objetivo
nheiro emprestado, seria fundamental processo de reprodução, de reconstruir a infraestrutura de
fazer seu emprego produtivo, para que estradas, portos etc., reduzindo os
o ciclo de reprodução do capital pos-
como fantasmas custos de exportação. Em 2007, po-
sa continuar a se realizar sem rupturas portadores de crédito, rém, a Petrobras anunciou a desco-
bruscas. Se assim for, no seu retorno ou trabalhadores berta do pré-sal. Com ela, o feitiço
para o emprestador, pouco lhe impor- precarizados do setor tornou-se inebriante.
ta, imediatamente, o uso que foi fei- Com o crash da bolsa de valores
to do dinheiro. Essa questão somente
de serviços – que pouco americana em 2008, foram postas
aparecerá na reprodução total do ca- acrescentam à difícil em andamento, nos anos seguin-
pital. Caso o seu emprego tenha sido rentabilidade do capital . tes, no Brasil, políticas anticíclicas
apenas em consumo não-produtivo para evitar já naquele momento
(como é o caso de um processo espe- um desastre maior. O planejamen-
culativo), na perspectiva do capital to- volvimento sobre o qual se pudesse to ganhou contornos astronômicos e
tal, o seu valor inicial declinante e o erguer um projeto de nação – como fez-se um mega esforço de capitaliza-
mais-valor – que de fato não se produ- ilusoriamente o petismo sustentou. ção da Petrobras para tornar o Brasil
ziu - se perdem. Ou seja, dele não re- Contudo, enquanto o artificio du- um grande produtor de petróleo. Essa
sulta a fórmula ampliada D-M-D’, e, rou – 2002-2008; 2010-12 – os gover- foi, talvez, a aposta mais alta do pro-
por conseguinte, a desvalorização que nos lulo-petistas colocaram em anda- jeto lulo-petista, porque a extração de
parecia ter sido evitada se realiza com mento toda energia destrutiva, tanto petróleo, mais do que a produção de
força maior, pois arrastará uma cadeia ecológica quanto social, do desenvol- commodities agrícolas e a extração
fictícia de valores que alimentou falsa- vimentismo. A exportação de ferro, mineral, tem a potencialidade de ali-
mente a reprodução social. Ela passou soja, milho, açúcar, etc., financiou mentar uma cadeia produtiva comple-
a criar uma realidade que, não obs- uma inversão na tendência de déficit xa e com capacidade de criar um pu-
tante ser uma objetivação das formas da balança comercial causados pela nhado de empregos industriais maior
abstratas que a sustentam, é constituí- perda de competitividade da indústria que os demais setores. A revitalização
da de uma objetividade impossível de nacional. Esses recursos resultavam da indústria naval devia compensar o
manter sua existência sob o ponto de de uma valorização do preço dessas fechamento de tantas outras no mes-
vista da valorização do valor (Marx). commodities devido não a ganhos de mo período.
O absurdo desse real ao mesmo tem- produtividade – se bem que houve al- A capitalização da Petrobras via
po irreal é que ele viabiliza a existên- gum ganho em pequena escala –, ou a BNDES foi paralela ao financiamento
cia momentânea de milhões de indi- um aumento excepcional da deman- de grandes empresas brasileiras com
víduos já descartados pelo processo da – se bem que isso também ocorreu, vistas a ocupar posições mais vanta-
de reprodução, reincluindo-os como sem que justifique preços tão altos –, josas na economia mundial. Dinheiro
fantasmas portadores de crédito, ou mas a uma ascensão aos céus dos pre- emprestado para aquisições, essencial-
trabalhadores precarizados do setor de ços devido a uma bolha especulativa. mente, com pouco investimento em
serviços – que pouco acrescenta à di- Enquanto seu ar quente enchia balões, novos meios de produção. A presença
fícil rentabilidade do capital –, e daí o governo tratou de desengavetar o daquele banco em empresas brasileiras
por diante. planejamento estratégico, legítimo faz dele proprietário ou financiador de
As duas formas, por excelência, de esqueleto de armário do falecido Es- parcela significativa do PIB! A essa al-
que se investe a assombrosa ação do tado Nacional, e encenou a realização tura, o feitiço já começava a se voltar
capital fictício são as dívidas públicas de um projeto nacional em plena fa- contra o feiticeiro. A primeira onda
e o mercado de ações. Tal quadro tem gocitose dessa forma em decorrência da bolha estoura em 2008. No en-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 15
tanto, por conta da Copa do Mundo esforço de transição (para onde?) é mesmo as polícias serão desmonta-
de 2014 e das Olimpíadas de 2016, tão somente uma das formas fantas- das pela crise e, em grande medida,
iniciou-se uma bolha imobili- magóricas da ideologia desse perío- formarão, junto com outras forças
ária interna , com repercussão do histórico. Em toda sua arquitetu- militares e criminosas, milícias au-
em boa parte das grandes ci- ra, as políticas sociais passaram a sertônomas que passam a viver da ex-
dades. Novamente, o Estado concebidas como uma linha auxiliar tração de rendas por meio de violên-
entrou como facilitador da da tentativa de reanimação econô- cia direta e ameaças à população). As
indução artificial, e pas- mica do gigante combalido. técnicas de gestão da barbárie, além
sou, com o PAC-II, a fi- Os circuitos que a transferência da concepção de integração econô-
nanciar uma série de obras de renda deveria percorrer sempre mica, pressupunham também o fi-
cosméticas em mobilidade estiveram integrados a uma expec- nanciamento, que passará a ser cada
urbana, construção e refor- tativa de que, em algum momento, vez mais difícil no próximo período.
ma de estádios, e o Progra- o mecanismo autômato e declinante O fim da festa pregou uma peça na
ma Minha Casa, Minha Vida, da economia voltasse aos tempos de prepotência ideológica do progresso
fortalecendo a ilusão de que o au- outrora e crescesse por suas próprias sem fim da esquerda tradicional (eis
mento repentino e astronômico forças. (Esse é outro momento tra- outra convergência trágica entre os
do preço dos imóveis tinha uma gicômico das manifestações obscu- manifestantes de classe média e o PT
base real. Porém, nada foi como rantistas de 2015. Seus participantes – se bem que a esquerda oposicionis-
a primeira onda da bolha, de enxergam nas técnicas de gestão da ta, sobre esse tema, em nada se di-
2002-2008. Dada a gravidade da barbárie apenas um aspecto opor- ferencie). Sobram canteiros de obras
crise mundial, de 2010 em dian- tunista - e o creditam a uma mani- inacabadas por todos os lados, índios
te as premonições começaram a pulação com vistas à perpetuação no removidos para sempre de suas ter-
A
se formar. ras ancestrais, e hidrelétricas sem
ntes de analisar- fios para conectar a eletricidade
mos novamente Sobrará apenas com os centros urbanos e as fá-
as precipitações o braço punitivo bricas que nunca existirão. O
recentes desse desemprego voltou a crescer e,
hipertrofiado com
quadro de tensões, fazem-se por um bom tempo, não encon-
necessários alguns comentá- prisões abarrotadas e as trará obstáculos que o limite. A
rios sobre o que se quer dizer polícias superarmadas. A violência também seguirá novos
com “gestão da barbárie” . violência também seguirá rumos. Casos como o ‘justiça-
Desde 1981, as dívidas pesam mento’ - por uma horda de jo-
novos rumos, com casos
sobre o Estado de tal forma vens brancos de classe média - de
que inviabilizam a manuten- como os ‘justiçamentos’. um garoto negro, deixado preso
ção de diversas de suas fun- pelo pescoço a um poste no bair-
ções vitais – entre elas, além poder. Porém, tanto o PT como os ro do Flamengo, Rio de Janeiro, em
dos investimentos (comenta- manifestantes pensam que em algum fevereiro de 2014, serão mais e mais
do acima), o financiamento momento essas massas se tornarão comuns. Essa população de brancos
de políticas públicas. Na dé- de novo economicamente viáveis). enraivecidos que se despe na Aveni-
cada de 1990, o ‘desmonte da Observe o leitor que as politicas da Paulista como se estivessem ‘na
nação’, a partir dos primeiros de assistência estavam diretamente maior’ intimidade já avisou que “fará
choques da abertura da eco- ligadas e subordinadas ao contex- justiça com as próprias mãos”.
nomia, foi verdadeiramente to mais geral de gestão econômica. A dívida pública deve crescer aos
catastrófico. Um estado de Isso se deve ao fato de que, como a saltos. O financiamento do PAC-II,
emergência social se espa- economia é uma esfera autônoma da principalmente com as capitaliza-
lhava em todas as regiões do sociedade burguesa, que predomina ções do BNDES, junto às políticas
território nacional. A violên- em sua dinâmica sobre as demais es- anticíclicas (com isenções de impos-
cia passou a ser endêmica e o feras de produção da vida social, se tos e subvenções), deixou um rom-
número de mortes por causas ocorrer o desmoronamento dessa, bo nos cofres públicos. O desmonte
externas e de encarcerados ela leva consigo, portanto, todas as do Brasil entrará num outro ciclo de
chegou a índices de guerra ci- formas de vida em comum. Assim, estagnação endividada. O futuro já
vil. Diante desse estado de ca- governabilidade social é, em gran- acabou. Mas contra o que mesmo
lamidade, ao vencer as eleições de medida, fazer com que refugos se voltam os protestos? Sem simpli-
em 2002, o PT se credenciava econômicos sejam reaproveitáveis. ficar diferenças, fundamentalmente
para a gestão dessa crise social Em outros termos, o horizonte so- não tivemos dois mundos separados
com uma longa ficha corrida cial, nesses casos, não vai nunca além pelo antes e depois dos governos lulo
de experiências (principal- da intenção de manter os indivídu- -petistas. Os elementos de continui-
mente em prefeituras). Nes- os ligados a um sistema produtor dade com o período anterior ficam
sas experiências, o partido foi de mercadorias, justamente quando agora mais nítidos do que suas des-
criando para si outro lugar na este nada mais pode fazer para a re- continuidades. As descontinuidades
história, distinto das antigas produção daqueles. dependeram de um instrumento de
polêmicas sobre ser um par- Como a bolha estourou, também politica econômica produzido pela
tido revolucionário ou de re- esse aspecto do projeto lulo-petista própria crise que teve como conse-
formas. Seu sentido histórico ficou a ver navios. A sinergia que quência aprofundar mais ainda a cri-
último será mesmo o de ter a gestão econômica da crise social se. Não foi o PT quem o inventou,
construído um sistema original deveria produzir não se efetivará mas o PT não foi capaz de discernir
de gestão de uma socieda- jamais. De tudo isso, sobrará ape- que dele não resultaria nenhuma sa-
de que desmorona. Que nas o braço punitivo hipertrofiado ída.•
esse sistema seja conce- com prisões abarrotadas e as polícias
bido como parte de um superarmadas (a bem da verdade,
16 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
Caetano Manenti
E
la insiste que nem reparou sim, a Prefeitura prejudica a gente no estado do Rio. Naquele mês de Beth havia sido responsável por ou-
quando, na pista da BR que tá lá de frente, porque a maioria vitória, conversei com Beth pela pri- tros encontros: por exemplo, quan-
101, no trecho conhecido do povo não pode entrar e ficar cara meira vez. do um pastor evangélico, vindo de
como Niterói-Manilha, a cara com eles. - Eu não conhecia o movimento. Belém do Pará, no afã de construir
um fotógrafo a flagrou de punhos O compromisso em que Beth Quando eles chegaram lá, ficamos uma igreja na favela, a procurou. Ou
cerrados para o alto. Seus profundos “tá de frente” é a construção de mil escabreados. Pensamos que era coi- quando jovens boleiros a convocaram
olhos negros, escondidos pelo boné. apartamentos em parte de um imen- sa de eleição. Pediram até um tem- para ser técnica do Esperança, time
Seu corpo negro, magro, coberto so terreno no bairro Maria Paula, po para passar as eleições. Quando de futebol da comunidade. Até mes-
por uma camisa duas vezes seu tama- onde São Gonçalo encontra Niterói. passou, fomos ver que tudo era de mo quando foi procurada por uma
nho. Era a “pose” perfeita para aque- O acordo não foi um presente, claro: verdade mesmo. Aí nos juntamos e estelionatária, que pretendia enganar
la quarta-feira na qual, como Beth, nasceu do suor deixado na terra e do começamos a nossa luta. o povo do Cano, o motivo se repe-
o povo pobre de São Gonçalo vestiu peso do bambu carregado nas costas O grupo insistiu. Sabiam que tia, muito embora o envolvimento
as cores do MTST para pressionar os por Beth e seus vizinhos. Esforço que Beth, liderança inconteste no Cano com a comunidade e as intenções
governos municipal e federal. levantou, em novembro de 2014, no Furado, seria de extrema importân- fossem diversas: todos reconheciam
- Eles tem que cumprir! Tão bairro Santa Luzia, bem perto da fa- cia na construção daquele proces- a liderança e o respeito adquiridos
meio lentos! Ou você deixa as coi- vela do Cano Furado, na zona norte so de luta que havia começado pela por Beth, um fenômeno forjado na
sas fervendo, ou em banho maria. O de São Gonçalo, a ocupação Zumbi demanda de outros moradores, mas comovente dureza da vida.
povo não quer o banho maria. As- dos Palmares, a primeira do MTST que inevitavelmente chegara nela.
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 17
E
lisabeth dos Santos Celes- mesmo que solta. Sofrimento não Sem dinheiro para tijolos e cimento, sionar o prefeito. Beth foi eleita para
tino nasceu há 52 anos em leva ninguém a fazer desgraça. Eu Beth os substituiu por barro. Levan- subir ao gabinete de Neílton Mulim,
Nova Friburgo, na Ser- tava cansada de só comer pelanca. tou seu barraco de pau-a-pique. Foi na comissão de negociação. Sentado
ra Fluminense. Deixou o Não gosto nem de lembrar... aque- ali que ela deixou de ser uma jovem à imensa mesa de vidro da luxuosa
ventre de uma adolescente menor de le sebo... Eu ia no açougue pedir. comum e virou a mais conhecida fi- sala, Beth percebeu quão longe havia
idade para se tornar a fundamental Botava num saco e ia toda feliz. Co- gura da favela. ido em sua vida. O próximo desafio
F
primogênita do que viria ser uma mia pelanca no feijão, comia pelanca era falar algo que balançasse o polí-
família de mais duas irmãs. Seu pai com macarrão de lacinho. Eu e mi- oram precisos dois dias de tico.
morreu cedo, de um ataque do cora- nhas irmãs catamos muito ferro ve- ocupação, com muita barra- - Eu pedia: ‘Senhor, me dá pala-
ção, quando ela ainda tinha por volta lho a conta de comprar o macarrão ca surgindo, para Beth per- vra’. Eu nem me lembro da pergunta
de 8 anos de idade. A morte de “um de lacinho. der o receio e entrar de ca- que me fizeram, mas lembro bem o
homem de muito compromisso com Beth só chegara aos 13 anos, mas beça na luta por uma casa legalmente que respondi: ‘eu tô aqui represen-
a família” , única fonte de renda da já suportara dificuldade para uma sua. Afinal, o terreno recebido do tando o povo, o povo que confiou no
casa, desmoronou a vida da mãe de vida toda quando começou a traba- velho amigo, assim como quase todo senhor, o povo que votou no senhor.
Beth e, por consequência, a sua tam- lhar como babá. Agora já estavam o Cano Furado, não está garanti- A gente tá aqui para levar uma res-
bém. em Santa Luzia, do fim da década do sob documentos. Foi somente posta de verdade. Não estamos para
- Quando meu pai adoeceu, não de 70, com lama por todos os lados. quando ela chegou, acompanhada levar meia taça’. Depois, ele ficou
procurou o médico. Trabalhava Conseguiram alugar um quarto de por quase 20 pessoas - entre filhos toda hora me olhando. Os secretá-
numa firma de roupas e, no domin- barro, “do tamanho de um banheiro de santo e parentes de sangue, como rios, tudo de gravata, ficaram todos
go, não descansava, trabalhava ainda pequeno”. Nele, cabia apenas uma seu casal de filhos - que a ocupação me olhando. Mandei bem.
mais. Meu pai morreu e ficamos sem cama, um fogão a lenha e a família Zumbi dos Palmares teve certeza de - Sinto saudade da gente no ter-
chão. Não deu tempo para fazer uma de cinco pessoas. que aquela luta era para valer. reno, fazendo aquela cavação. Não
casa para a gente. Minha mãe, com - E era ótimo! Uma beleza! Para quem viveu na rua e em bar- importava da onde você era, que
23 anos e três filhas, não sabia fazer - Era ótimo?! raco de barro, lutar por moradia não tipo, que raça, se era preto, se era
nada. Ela brigou com o mundo, vi- - Não tinha briga, não tinha es- era jornada inédita, claro. Muito an- pobre, da onde era. A gente junta-
rou alcoólatra, não queria saber de pancamento. tes de saber o que é o MTST, Beth va comida, a gente arrastava bambu,
nada. Passamos necessidade. Só isso também... O resto... já ajudava seus vizinhos. Certo dia, parece que até hoje tem um pedaço
A família agora se socorria de O resto, em uma palavra, era a acordou disposta a dar fim no lixão da gente ali. Sabe por quê? Porque
uma minúscula pensão do INSS. fome. O custo do aluguel rareava que apodrecia na mata fechada em caiu nosso suor ali.
Além da miséria, o trio de filhas ti- a comida. A salvação era o filho da frente à sua casa. Limpou, capinou, Tudo o que se passou naquele
nha que sobreviver outro problema proprietária, que desviava um único pediu reforço dos homens da família terreno é guardado com carinho. Era
grave: a extrema violência do padas- prato a ser dividido pelas três crian- e cercou o terreno. Em vez de tomá domingo quando a ocupação Zumbi
tro de Beth, que espancava a compa- ças. A mãe sofria com o álcool, in- -lo para si, o dividiu entre os neces- dos Palmares promoveu um evento
nheira por qualquer motivo. A vida ecumênico. Beth confessa que fi-
tornara-se um inferno tão insupor- - Sinto saudade da gente cou nervosa ao ser a responsável por
tável que o quarteto resolveu fugir da celebrar a umbanda à frente de tan-
no terreno, fazendo aquela
serra. O destino: esmolar ao relento ta gente - alguns católicos, muitos
nas ruas de São Gonçalo, região me- cavação. Não importava da onde evangélicos. Engoliu a timidez e ba-
tropolitana do RJ. você era, que tipo, que raça, se teu forte o tambor. Saiu do terreiro
Não tardou para o padrasto des- era preto, se era pobre, da onde improvisado ainda mais relevante do
cobrir o paradeiro. Para reconquis- que entrou.
tar a família, o homem revelou que
era. A gente juntava comida, a A crença africanista de Beth sur-
detinha um terreno em São Gonçalo gente arrastava bambu, parece giu depois de uma extensa procura
mesmo, onde poderiam construir que até hoje tem um pedaço da por resolver seu “problema espiritu-
um barraco de barro. Prometeu que gente ali. Sabe por quê? Porque al”. Já ajudou até mesmo a levantar
não iria mais ser violento. Meses de- uma igreja evangélica em sua rua,
pois, as agressões aumentaram... caiu nosso suor ali. mas, dentro de uma outra, recebeu
- Ela levantou de novo e tome, uma entidade e percebeu que o ca-
tome, tome. Minha mãe desmaiou, vertendo com Beth os papéis de sitados da região, para “não deixar minho era outro. Hoje é mãe de san-
muito sangue pelo nariz e pela boca. quem cuidava de quem. ninguém dormir na rua”. Foi amea- to de um barracão em homenagem a
Joguei ela nas costas para levar para o Agarrando-se em Deus, Beth çada por autoridades armadas, quase Zé Pilintra da Estrada. A cada dois
pronto-socorro de Alcântara. Nin- sempre evitou as drogas e o crime. morreu de medo, foi corajosa, bateu sábados, lidera um culto que reúne
guém queria ajudar porque ela esta- Era intransigente até mesmo com o pé e escapou dessa. Todos seguem cerca de 25 pessoas. Mais do que
va ensanguentada. Aí eu tô ouvindo seus amigos: criticava, tentava con- lá. isso, a religião deu a Beth uma pro-
uma pessoa assobiar atrás de mim. sertar, mesmo que fossem “brabos”. Pouco tempo depois, o santo pro- funda responsabilidade: a de receber,
Minha mãe disse ‘corre, Beth, ele tá Na época, rejeitou oferta de duas co- tetor de Beth teve que trabalhar duro às vezes em sua própria casa, as filhas
vindo me matar’. Eu respondi: ‘vou legas pra ir à Suiça trabalhar. novamente. Procurada por uma mu- de santo que ainda não têm teto ade-
morrer aqui com você’. Mas não era - Acho que por debaixo do pano lher “muito arrumada e muito es- quado. Tanta responsabilidade quase
ele. Era um moço que vinha ajudar. era uma imundice de prostituição. tudada”, foi enganada. A conversa não cabe no corpo frágil de Beth.
Depois do socorro, da queixa Intimidei. Pensei ‘não tô pronta fiada era de que se tratava da possibi- - Eu não queria ser quem eu sou.
na delegacia, de novas brigas e mais para isso’. Elas falavam: ‘Vem, Beth, lidade de regularizar casas e terrenos Eu queria ser livre. Não posso errar.
quebra-quebra, Beth e sua mãe fi- você tem tudo em cima. Você é in- em troca de algumas centenas de re- Acho muito pesado: “só você pode
nalmente conseguiram expulsar sua teligente, vai se sobressair bem’. Não ais. A verdade é que a moça era uma me ajudar”. Eu não gosto, tira a mi-
sina de casa. Mas a vida sem dinhei- fui. Elas partiram. Hoje moram em estelionatária. A decepção daqueles nha liberdade. Tira o meu eu. Você
ro não melhorava. Não havia escola, mansão. dias só seria superada ao ver tanta vai precisar ser carrancuda, outras
não havia estudo. A rotina de Beth De maneira indireta, o sucesso gente unida na ocupação Zumbi dos vezes carinhosa.
era correr atrás de comida, na sobra das amigas na Europa também aju- Palmares. Beth pode até não querer ser ela
das feiras, na caridade de açougues e dou a vida de Beth. Elas compraram O dia mais marcante foi o 5 de mesma. Mas, certamente, tem muita
vizinhos. uma casa para o irmão, e ele con- novembro. Naquela quarta-feira, o gente que gostaria de ter a força que
- Eu achava que era melhor pe- cedeu à ela a guarda de um terreno povo da Zona Norte de São Gonçalo ela tem.•
dir do que roubar. A pessoa honesta que ele cercara não muito longe do desembarcou em peso no centro da
anda livre. A desonesta anda presa, cano furado que dá nome à favela. cidade. Era dia de, cara a cara, pres-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 19
Jerry Batista
Jerry Batista é mais um artista
original do Grajaú, extremo sul
de São Paulo. Em 1995, iniciou
sua trajetória como grafiteiro
e hoje, já como artista plástico
especializado na linguagem do
graffiti, é uma das referências da
arte paulistana. Em seu trabalhos
usa materiais como tinta a óleo,
látex, spray, madeiras a elementos
poucos convencionais como ferro
e solda.
22 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
forjado
Hoje um dos movimentos ur- energia elétrica, esses terrenos vazios porte e infraestrutura pública. Um programa que a princípio
banos de maior expressão no país, eram diretamente beneficiados e se Esse é o cenário dominante em prometia atacar de frente o problema
o Movimento dos Trabalhadores valorizavam rapidamente. As gran- diversas regiões metropolitanas do do déficit habitacional mostrou-se
Sem-Teto teve grande atuação nas des construtoras, que não por acaso país. O setor imobiliário, com seu o grande salvador das empreiteiras.
lutas que sacudiram o Brasil nos úl- já eram grandes proprietárias de ter- poder econômico, tornou-se um É claro, não podemos negar que o
timos dois anos. Com uma trajetória ras, viram seu patrimônio aumentar dos principais direcionadores da po- MCMV voltou a construir habita-
pautada na autonomia e na mobili- e, com o tempo, tornaram-se uma lítica urbana. Avança sobre a terra na ção popular no Brasil. No entanto,
zação popular conseguiu aproveitar das principais forças, influenciando cidade que se torna cada vez mais a cuidadosa análise das unidades ha-
o contexto de ebulição dos meses de as decisões no espaço urbano. cara, influencia decisivamente na bitacionais contratadas e construídas
junho de 2013 e 2014 para crescer e A atuação do setor imobiliário é construção dos planos diretores, se no MCMV 1 mostra que 59% foram
se preparar para os desafios do próxi- tão marcante que lutas históricas dos envolve em esquemas de corrupção destinadas a famílias com renda su-
mo período. movimentos sociais, quando conse- para garantir seus projetos. É assim perior a 3 salários mínimos, ou seja,
guem fazer com que suas reivindica- que, em outubro de 2013, foi desco- a menor porcentagem destinou-se às
O contexto da moradia em ções se tornem leis, imediatamente berta uma máfia em São Paulo que famílias realmente de baixa renda.
A
junho de 2013 viram letra morta. E mesmo a apro- atuou durante o governo de Gil- Essa lógica se repetiu no MCMV 2.
s cidades brasileiras, em vação do Estatuto das Cidades , em berto Kassab desviando recursos do Num primeiro momento, fica a
especial as grandes regi- 2001, que propunha instrumentos Imposto Sobre Serviços (ISS) para impressão de que as 410 mil unida-
ões metropolitanas, são interessantes de controle da especu- facilitar a regularização de empreen- des construídas para população de
alvo da atuação agressiva lação imobiliária, tais como o IPTU dimentos para construtoras. baixa renda no MCMV 1 já foram
do mercado imobiliário. No passa- progressivo e a desapropriação por É claro que o reinado do setor um grande passo e certamente con-
do, a população mais pobre era ex- títulos da dívida pública, não foi su- imobiliário se sustenta no apoio ir- tribuíram para a queda do déficit ha-
cluída das regiões centrais e a pro- ficiente para conter o domínio do restrito de diversos governos nas es- bitacional das grandes cidades. Mas,
liferação de ocupações irregulares e mercado sobre a cidade. feras federal, estadual e municipal. se olharmos os dados da última pes-
loteamentos clandestinos nas peri- Hoje, não só o centro das gran- Essa promiscuidade tem sua base, quisa divulgada pela Fundação João
ferias acontecia com a permissão do des cidades, mas também áreas que em grande parte, no fato das em- Pinheiro , referente a 2012, verifica-
Estado e sem grande interferência no passado eram consideradas de- preiteiras figurarem entre as maio- mos que o déficit habitacional nas
do mercado. Desse modo, diversas gradadas e desvalorizadas são alvos res financiadoras de campanhas do principais regiões metropolitanas do
comunidades foram levantadas do de operações urbanas com o intui- país. Após a vitória de um ou outro país só aumentou. O maior aumen-
chão, tijolo após tijolo, pelas mãos to de expandir os negócios do setor candidato, durante o governo, be- to foi em Belo Horizonte de 28,8%,
dos próprios moradores e aos finais imobiliário. E, nesse jogo, vale tudo: nefícios não faltam para agradecer a seguido por Curitiba, 26,1% e São
de semana. A falta de políticas públi- incêndios suspeitos que fazem cen- generosidade das empresas. Paulo 18,2%, chegando a um total
cas que enfrentassem de fato a ques- tenas de barracos sumirem do mapa Em 2008, por exemplo, quan- de 700.259 famílias sem moradia.
tão da moradia popular numa cidade do dia para a noite, e despejos vio- do o mundo atravessava uma crise Em primeiro lugar, é importante
que via sua população crescer a taxas lentos em locais onde famílias intei- econômica de grandes proporções, compreender que o déficit habita-
recordes, somada à falta de incre- ras construíram suas vidas durante as maiores construtoras do Brasil, cional não é só calculado levando em
mento na renda do trabalhador para décadas, não são mais novidades nos como a Camargo Correa, a Norber- consideração as famílias que não têm
dar conta de uma necessidade básica noticiários. to Odebrecht e a MRV, enfrentavam onde morar. Também contribuem
que é a moradia, foram os combustí- Desse modo, as periferias tor- quedas importantes nos lucros. Não para o cálculo habitações precárias
veis desse período. nam-se valorizadas, e o que num tardou para que o governo federal sa- ou que apresentam riscos, coabita-
É claro que, também nesse mo- primeiro momento poderia signifi- ísse em socorro das empreiteiras. O ção familiar (quando mais de uma
mento, o mercado imobiliário apro- car novos investimentos e melhorias anúncio do Minha Casa Minha Vida família divide a mesma residência
veitou importantes oportunidades. para o bairro, mostra-se uma realida- (MCMV) em março de 2009, com por falta de opção), ônus excessivo
Enquanto a periferia crescia em áre- de cruel para os trabalhadores e tra- o orçamento de 34 bilhões, para a com aluguel (quando mais de 30%
as bem distantes do centro, grandes balhadoras da região. Com a valori- construção de 1 milhão de unidades da renda familiar é comprometida
terrenos ficavam livres. Quando o zação, são obrigados a se mudar para habitacionais, como resposta à crise com pagamento do aluguel) e ex-
poder público era forçado a estender áreas ainda mais distantes do centro internacional, mudou o rumo do cesso de moradores em domicílios
até as comunidades uma infraestru- e de seu local de trabalho, tendo que setor imobiliário no país. 2009 tor- alugados.
tura mínima de ruas, avenidas, água e enfrentar piores condições de trans- nou-se o ano das construtoras. De fato, o fator que mais contri-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 23
buiu para o aumento do déficit habi- Grajaú. pautas para além do transporte pú- imobiliário.
tacional no último período foi o au- Se, para muitos, a nova onda de blico. A primeira região onde esse fato
mento do aluguel. Entre 2007 e 2012, protestos chegaria ao fim sem suces- A redução das passagens em São foi percebido de maneira massiva foi
o número de famílias nessa situação so, como havia acontecido nos anos Paulo provocou uma reação em cas- o Grajaú. Com crescimento popula-
aumentou em 35,3% em São Paulo. de 2010 e 2011, o aumento crescente cata em todo o Brasil. No dia se- cional acima da média da cidade, a
Não é difícil concluir que a especu- de manifestantes nas ruas e a adesão guinte, o Rio de Janeiro também sua população triplicou desde a dé-
lação imobiliária e a valorização de de outras cidades com a mesma pauta anunciou a redução e, na mesma se- cada de 80, contabilizando 456.777
áreas da periferia com os avanços do mostraram que 2013 seria diferente. mana, a luta foi vitoriosa em mais de pessoas, e se tornando o maior bairro
mercado influenciaram decisivamen- Após seis grandes atos, o prefei- cem cidades. de São Paulo. Até o final de agosto
te nesse contexto. to da cidade de São Paulo, Fernando Após a vitória, as manifestações de 2013, as comunidades contavam
Esse é o cenário que os trabalha- Haddad, e o governador do estado, que se seguiram não reuniram con- com 14 ocupações com menos de 2
dores da periferia têm que enfrentar. Geraldo Alckmin, anunciaram no dições para que novas pautas popu- meses de vida.
Um programa habitacional incapaz dia 19 de junho, em coletiva de im- lares emergissem. E as ruas foram O fenômeno não ficou restrito ao
de dar conta da demanda das gran- prensa, o retorno das passagens ao tomadas por setores conservadores Grajaú, e o MTST se viu diante de
des cidades, e um mercado imobili- valor de R$ 3,00. que reivindicavam a saída das ban- um desafio. Mais e mais comunida-
ário cada vez mais feroz, estendendo Entre o último grande ato na re- deiras de partidos e temas reacioná- des passaram a procurar o movimen-
seu domínio sobre o espaço urbano. gião central, na noite do dia 18 de rios como a redução da maioridade to em busca de auxílio para organizar
Para cada família de baixa renda que junho, e o anúncio da vitória da mo- penal e o retorno da ditadura. ocupações. E assim surgiram a Faixa
consegue ter acesso a uma moradia bilização na tarde do dia seguinte, Independente da falta de conti- de Gaza, em Paraisópolis, no dia 23
própria, três veem sua renda compro- aconteceram novos fatos que, apesar nuidade nas manifestações, e para de agosto, a Dona Deda, no Parque
metida com o aumento do aluguel. de pouco explorados, certamente além da vitória especifica relativa à Ipê, no dia 11 de outubro, e a Capa-
Nessa situação, são obrigadas a es- foram decisivos. Na manhã do dia redução de 20 centavos nas passagens dócia, no Morro da Lua, no dia 18
colher: ou passam por privações, re- 19 de junho, diversas comunidades de ônibus em São Paulo, a jornada de outubro, as duas últimas no Cam-
duzindo o gasto com alimentos para da periferia em toda cidade de São de junho de 2013 trouxe uma men- po Limpo.
manter o pagamento do aluguel, ou Paulo saíram às ruas para manifestar. sagem bem clara e que foi bem as- Na região do M’Boi-Mirim, local
passam a dividir o mesmo domicílio Além de manifestações organizadas similada pela população da periferia: em que o MTST organiza há anos
com outras famílias, ou ainda se mu- pelo MTST com o apoio do MPL na A luta leva à conquista. um trabalho comunitário consisten-
dam para regiões mais distantes do Avenida do M’Boi-Mirim, Rodovia Segundo semestre de 2013 e a ex- te, a situação não foi diferente. Co-
centro e de seus empregos tendo, que Régis Bittencourt e Anchieta, outros plosão de ocupações munidades que vivem uma situação
enfrentar piores condições de vida. A tantos pontos foram travados na ci- A questão da moradia nas regi- de acesso precário aos serviços pú-
novidade, a partir de junho de 2013, dade. O número foi tão grande que, ões metropolitanas do Brasil, como blicos, como Jardim Capela, Jardim
é que mais e mais comunidades, mes- tempos depois, era comum receber a já discutido anteriormente, leva a Vera Cruz, Boulevard da Paz, Par-
mo sem nenhuma atuação de movi- notícia de que alguma comunidade população da periferia a ter poucas que Novo Santo Amaro e Aracati,
mento social organizado, começaram havia se manifestado durante a ma- alternativas. A vitória expressiva das não tardaram em aderir à proposta
a perceber que havia outra alternativa. nhã do dia 19. mobilizações de junho foi um grande de uma grande ocupação na região.
Certamente, esse fator foi leva- exemplo, e centenas de famílias em No dia 29 de novembro, entraram
Junho de 2013: do em conta pelos governantes e, na toda região de São Paulo começa- no terreno que mais tarde seria cha-
A
A luta leva à conquista mesma tarde, o Brasil todo recebeu ram a apostar nas ocupações e na luta mado de Vila Nova Palestina. Ao fi-
manifestação organiza- a notícia de uma das mais expressi- como saída. Ao invés de se mudar nal do primeiro mês, a ocupação já
da no dia 6 de junho de vas vitórias do movimento popular para regiões cada vez mais distan- contabilizava mais de 8000 famílias.
2013 pelo Movimen- no último período. Calcularam que tes do centro em busca de aluguéis Mesmo de forma espontânea,
to Passe-Livre na região o avanço das lutas também na peri- mais baratos, ou esperar por anos a regiões da Zona Norte e da Zona
central da Cidade de São Paulo não feria, com pautas claras da classe tra- promessa de um atendimento habi- Leste foram também tomadas
foi a primeira pela redução do preço balhadora, poderia ser o ingrediente tacional, morando de favor, optaram por ocupações. O ano de 2014 se
das passagens. Dias antes, a periferia que faltava para que as mobilizações pela tomada de terrenos vazios como iniciou com uma forte luta por
da Zona Sul já havia inaugurado essa se ampliassem com maior permeabi- forma de pressionar o poder públi- moradia em toda a cidade de São
jornada com um ato na região do lidade popular, e com a proposta de co e disputar espaço com o mercado Paulo.
24 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
2014, Copa do Mundo para uso do estádio, o outro continua aos movimentos sociais, o estímulo no país e garantir que as famílias não
E
e o exemplo de Itaquera abandonado, e a comunidade deve ser ao turismo sexual e o lucro das cons- fossem removidas de forma violenta
m seu avanço pelo espaço completamente removida para con- trutoras. e sem a possibilidade de um atendi-
urbano, o capital imobiliá- juntos habitacionais bem distantes. Em maio de 2014, quando a Fren- mento habitacional.
rio aproveita oportunidades Os despejos, com cenas marcantes te de Resistência Urbana anunciou Em São Paulo, as manifestações
para estender seu domínio de violência policial e de desespero sua nova jornada de lutas com o começaram com a ocupação das se-
e firmar novos negócios. Os megae- das famílias, são a face mais marcan- tema “Copa sem Povo, Tô na Rua des das construtoras que mais se be-
ventos, como a Copa do Mundo e as te da segregação territorial em curso de Novo”, já estava dado para os mo- neficiaram com as obras da Copa. No
Olimpíadas, cumprem perfeitamen- para a organização de um megaeven- vimentos que, além de denunciar as dia 08 de maio de 2014, as sedes da
te esse papel. Aliando a necessidade to. Porém, de maneira silenciosa, mas irregularidades relacionadas a copa, Odebrecht, da Camargo Correa e da
de obras de grande porte e regras de não menos cruel, a valorização imo- era necessário cobrar dos governan- OAS foram tomadas por sem-teto.
exceção, esses eventos remodelam as biliária, que segue os investimentos tes conquistas para os trabalhadores e Nas semanas seguintes, as ruas das
cidades e ampliam a segregação ter- em determinado local, também força trabalhadoras da periferia. cidades foram cobertas de vermelho
ritorial. milhares de famílias a se deslocarem Em Itaquera, aconteceu a pri- diversas vezes. Vale ressaltar a marcha
Segundo relatório da urbanista para regiões cada vez mais periféri- meira ação nesse sentido. Encurra- que seguiu do Largo do Batata até a
Raquel Rolnik, na ocasião relatora cas, enfrentando piores condições de ladas pelo aumento expressivo do Ponte Estaiada no dia 22 de maio,
da Organização das Nações Unidas vida. aluguel, e inconformadas com o fato com aproximadamente 25 mil pesso-
para o Direito à Moradia Adequada, Se pegarmos o exemplo de Ita- de terem de se mudar do lugar onde as, e a marcha que seguiu do metrô
a organização da Copa da FIFA na quera, após o anúncio da Copa da cresceram, famílias organizadas pelo Vila Matilde até o Estádio de Itaquera
África do Sul, em 2010, e das Olim- FIFA no Brasil, em janeiro de 2008, MTST ocuparam, no dia 03 de maio no dia 04 de junho, com 20 mil pes-
píadas em Pequim, em 2008, remo- até junho de 2014, o valor do m² su- de 2014, um terreno a pouco mais de soas, as maiores manifestações orga-
veram, respectivamente, 15 mil e 1,5 biu 166,1%, saindo de R$ 1.400,00 3 km da Arena Corinthians. A ocu- nizadas em São Paulo desde as jorna-
milhão de famílias nesses locais. Essas para R$ 3.726,00. Essa valorização pação recebeu o nome de Copa do das de junho de 2013.
remoções ocorreram para dar lugar a também foi seguida pelos aluguéis, Povo e virou símbolo de resistência As mobilizações foram vitoriosas,
estádios, estruturas esportivas, obras que aumentaram 86,6% de janeiro de da população aos avanços do setor e o mês de junho de 2014 começou
viárias e até mesmo para colaborar 2011 a junho de 2014, segundo índi- imobiliário na região. assim como o mês de junho de 2013
com a valorização de novos centros ces Fipe-Zap. É claro que a relevância O terreno de 150 mil m², que es- terminou: mostrando que, quando o
de oportunidades para o mercado. desses dados não pode ser mensurada tava abandonado há mais de 20 anos, povo luta, a conquista vem. No dia 09
Essa lógica, implementada em sem levar em conta o contexto geral era propriedade de uma grande em- de junho, o governo federal anunciou
outros países em desenvolvimento, do setor imobiliário. Porém, é inegá- preiteira e, apesar de estar localizado o atendimento das famílias da ocupa-
também se firmou no Brasil. Desde vel o fato de que o que transformou a em área urbana, pagava imposto ter- ção Copa do Povo. Também foram
o anúncio da aprovação do país como região de Itaquera em um novo polo ritorial rural no valor de R$ 57,00 atendidas as propostas de mudança no
sede da Copa, diversas capitais ex- de investimentos foi a construção do anuais. Tratava-se de um exemplo Minha Casa Minha Vida, que serão
perimentaram reformulações de seu estádio, assim como das obras de in- claro da atuação das construtoras nas incorporadas a partir do MCMV 3,
espaço urbano. Aproveitando de um fraestrutura viária. grandes cidades: a manutenção de e foi criada a Comissão de Mediação
sentimento nacional de paixão pelo grandes faixas de terra, sem qualquer de Conflitos Fundiários Urbanos.
futebol, os governos divulgaram os “Copa Sem Povo função social para fins de especulação
P A
principais legados para a população. Tô na Rua de Novo” imobiliária, e muitas vezes com paga- Os desafios que estão por vir
Esqueceram de mencionar que, para ara o MTST, era claro o fato mento irregular de impostos. s conquistas das intensas
que as obras saíssem do papel, comu- de que a Copa seria apenas A partir daí, seguiram em São lutas de 2014 ainda são
nidades inteiras seriam alvo de despe- mais uma oportunidade Paulo e em outras capitais do país comemoradas pelo movi-
jos. para que grandes empresas uma série de atos com uma pauta ge- mento. No início do mês
Estimativas organizadas pela Ar- nacionais e internacionais amplias- ral centrada na questão da moradia. de julho de 2015, foi assinado pelo
ticulação Nacional dos Comitês Po- sem seu lucro. Por isso, desde agosto Para o movimento, era importante Ministério das Cidades a compra do
pulares da Copa, ainda em junho de de 2011, com a ocupação do Ministé- aproveitar o momento proporciona- terreno da Ocupação Copa do Povo
2013, previam a remoção de 250 mil rio dos Esportes em Brasília, o movi- do pela Copa, quando as contradi- de Itaquera, um passo importante
pessoas em todo o país. Ficou co- mento travou lutas relacionadas a esse ções da cidade se tornaram mais evi- para a construção das moradias das
nhecido o caso da Comunidade Vila tema. No mesmo sentido, seguiram a dentes, ao mesmo tempo em que os famílias.
da Paz , localizada aproximadamente ocupação das obras do Itaquerão, em olhos internacionais se voltavam para Mas talvez a conquista mais im-
a 500 metros do estádio de Itaquera, 04 de abril de 2012, em uma Jornada o Brasil, para arrancar dos governos portante desses dois anos tão intensos
local de abertura da Copa do Mundo. Nacional de Lutas da Frente de Re- conquistas dos trabalhadores. tenha sido preparar o povo para a luta.
Antes mesmo das obras começarem, sistência Urbana , e o ato realizado na As pautas em disputa tratavam de Tudo que foi alcançado até aqui teve a
as famílias já sofriam todo tipo de as- Av Paulista em 14 de junho de 2013 melhorias no Programa Minha Casa marca dos pés cansados de tanta mar-
sédio para deixarem o local. Passaram em conjunto com o Comitê Popular Minha Vida, com o objetivo de am- cha, das narinas ardentes de tanto gás,
meses com água e luz cortadas. Sem da Copa para denúncia dos crimes re- pliar o acesso ao programa de famí- e das vozes roucas de tanto gritar.
possibilidade de negociação, foram lacionados a realização do evento. lias de baixa renda, que ganham de Um movimento que foi forjado na
forçadas a aceitar um auxílio aluguel O objetivo dessas ações, e de tan- 0 a 3 salários mínimos, e fortalecer luta não ficará parado num cenário
mensal de R$ 300. Algumas famílias tas outras que se seguiram, não era a modalidade Entidades. O MCMV de tanta injustiça e de novos desafios.
se renderam à pressão, porém a maio- inviabilizar a realização do evento. Entidades se mostrou a modalidade Lutaremos com vigor contra o ajuste
ria decidiu permanecer e lutar. Cons- Num primeiro momento, apon- capaz de construir as unidades ha- econômico que retira direitos dos tra-
truíram, com o apoio de movimentos tou-se a necessidade de realização bitacionais com melhor qualidade e balhadores, e corta verbas da saúde,
sociais, um projeto alternativo popu- de um plebiscito nacional para que maior tamanho para famílias de baixa educação e moradia, retardando ain-
lar de urbanização da comunidade, a população pudesse opinar se estava renda. Apesar disso, segundo dados da mais o lançamento do Minha Casa
que previa o reassentamento de fa- de acordo com a Copa da FIFA no do Ministério das Cidades, contou Minha Vida 3. Também não nos ca-
mílias em terrenos vizinhos e a im- Brasil. Quando se confirmou que o com apenas 1% de todos os recursos laremos diante do avanço dessa direi-
plementação de estrutura de sanea- campeonato aconteceria de qualquer destinados ao MCMV 1. ta conservadora que toma conta do
mento, vias públicas e energia elétrica maneira, intensificaram-se as ações Além disso, foi pautada a neces- Congresso Nacional. E certamente
para as famílias que permanecessem de denúncia dos crimes que estavam sidade de criação de uma Comissão entraremos 2016 fincando a bandeira
na área. Hoje, um dos terrenos que envolvidos em sua organização. Era Nacional de Mediação de Conflitos vermelha na cidade do Rio de Janeiro
deveria ser utilizado para construção preciso mostrar que o principal le- Urbanos, que seria responsável por e denunciando os crimes cometidos
de moradias virou estacionamento gado seriam os despejos, a repressão acompanhar as situações de despejos para a realização das Olimpíadas.•
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 25
Plínio Marcos (1935-1999) foi de tudo. De palhaço a
funileiro, de jogador de futebol a escritor e dramaturgo.
Autor de Navalha na Carne e Dois Perdidos numa
Noite Suja, Plínio, uma das mais importantes figuras do
teatro e da literatura marginal brasileira, faria 80 anos
em 2015. Seu tema quase invariável foi o cotidiano do
“povão lesado da sociedade”. Personagens e histórias
que identificam-se com a formação segregadora,
racista, discriminatória e punitiva das cidades
brasileiras. Ficção e realidade embaraçadas. Neste
número, reproduzimos o conto “Nivaldo Cabeleira” do
livro Histórias das Quebradas do Mundaréu que, em
1973 anunciava a violência crua contida na urbanização
brasileira.
Nivaldo Cabeleira
O
leite das crianças anda valdo deu passagem fácil pras ideias de deu as ordens: de grande movimento. Então, começo
custando os olhos da jerico. Elas começaram a brotar em -Freguesia do Ó, meu chapa. a trabalhar de madrugada e vou só até
cara. Aliás, não é só leite sua cachola gira nessa altura do cam- O chofer resmungou unstroços as oito da manhã. O dinheiro que te-
que anda machucando o peonato. No princípio, o aperreio que o Nivaldo não compreendeu. nho aqui é uma mixaria que trago pra
bolso do povão; tudo está pelo preço era uma marola. Piava na cuca man- Mas, pra não dar pala pro motorista fazer troco.
do desespero. Uma gronga de abilolar samente e logo o Nivaldo afastava o desconfiar dele, meteu uma cascata: E, sem esperar mais nada, o moto-
qualquer majura. E é por essas e outras pensamento mau. Depois, virou onda. -Vamos rapidinho, meu chapa. rista meteu a mão no bolso, tirou um
que, muitas vezes, o nego se endoida Vinha mais forte e era considerada. Amanhã é dia de batente e eu ainda pacote de notas velhas e ofereceu ao
de repente e apronta um esquinapon- Mas, por medo ou por falta de jeito, o tou aqui, flanando. Já viu a batalha que ladrão:
que não dá pra ninguém entender. Nivaldo acabava desbaratinando. Por vai ser pra levantar às seis da matina. -É tua. Pode levar. Deve ter uns
Com o Nivaldo Cabeleira, o lance fim, virou pororoca. Veio num dia Sem dar muita atenção pro freguês, vinte contos aí.
se deu quando menos se esperava. Até em que o desespero era muito gran- o coroa bocejou, ligou a carangola tão Desesperado, o Nivaldo se ouriçou
então, ele tinha fama de bom moço e de e derrubou as barreiras do Nivaldo. velha quanto ele e saiu sacolejando pe- e gritou:
tal e coisa. Seu crepe é que pegou uma Inundou-o até as entranhas. Picado de las ruas da cidade, rumo à Freguesia -Não complica, velho. Dá o resto
rebordosa na fábrica onde se chegava raiva, ele resolveu botar pra quebrar. do Ó. A viagem foi corrida pra chu- do dinheiro. Senão, te meto chumbo.
ao batente e levou um passa-fora do Na sua ligação doentia, a visão chu. O Nivaldo estava imaginando Tranquilo, o motorista deu de om-
patrão. No começo do desemprego, o que aparecia com mais frequência era que, naquele andamento, o negócio ia bros:
Nivaldo se escorou no Fundo de Ga- pra ele afanar um chofer de táxi. Não engrossar. Iam chegar no destino com -Quer atirar, atira. Que posso fa-
rantia; mas logo a grana acabou e ele se acreditava o Nivaldo que, num estarro dia claro, com muita gente saindo de zer? Mais, não tenho.
viu a perigo perpétuo. desse, pudesse dar crepe. Bastava meter casa pro trabalho, e o estarro ia se com- Espumando de fúria, o Nivaldo
Sem especialização, sem estudo, as armas na facha do motorista, limpar plicar. A caranga só tinha três marchas: encabulou. Se sentiu lesado. Se o re-
não arrumava vaga pra trabalhar em o bruto e adiantar seu lado. Porém, devagar, devagarinho e parado. Deva- vólver fosse de verdade, atirava mes-
lugar algum. E a filharada, que não o Nivaldo estava tão mal com Deus gar era nas descidas da ladeira. Deva- mo. Mas era de plástico, não dava pra
quer saber das mumunhas (e nem que não tinha revólver, nem navalha, garinho, nas subidas. E parado, nos fazer façanha. Encrespado, ainda ten-
pode), se botou a estrilar de fome. nem mesmo um canivete de limpar sinais de trânsito. O velho motorista tou assombrar o chofer:
Quatro pivetes a reclamar que o pan- as unhas. E aí o plano enguiçava. No brecava o carrão e, pra fazê-lo andar -Passa a grana, se não te estouro os
dulho está vazio entornam qualquer braço, o Nivaldo não se acreditava. E de novo, era um custo. Mesmo assim, miolos.
patuá. E a mulher do Nivaldo não sabia bem que, no seu estado, nem o chegaram num esquisito dos mais de- O velho continuou na sua:
aguentou o repuxo. Sem dizer até-lo- maia apavorado chofer iria botar fé na sertos e escuros. Com receio que não -Não tenho. E o resto, é tu quem
go, abandonou o lar, que era uma tre- sua briga. Mas nem por isso se aca- aparecesse lugar melhor pro afano, o sabe.
menda canoa furada. Se picou em dei- nhou. Se lembrou de um quás-quás- Nivaldo sacou o revólver de plástico e Com tanta frieza por parte do cho-
xar a direção. O Nivaldo tremeu nas quás que escutou ou que viu no cine- deu seu alô: fer, o Nivaldo se descontrolou. Sem
bases com o sumiço da mulher. Mas ma. A história de um tal de Dellinger, -Pára o carro, velho. É um assalto. poder atirar com a arma de plástico,
segurou as pontas. De um jeito ou de que com um revólver de pau rendeu Sem demonstrar bronca, o chofer caiu mordendo em cima do velho.
outro, havia de se aprumar. Gostava uma tropa de tiras e se mandou da ca- obedeceu. Freou a caranga e só mur- Assustado e se doendo com as denta-
paca dos filhos e não ia largá-los entre- deia onde estava guardado. Achando murou: das do ladrão, o velho botou a boca no
gues às traças. E, enquanto matutava que as coisas da vida sempre têm repe- -Comecei mal o dia. trombone. Pediu socorro com todas
pra encontrar um pedal, ia tenteando. teco, o Nivaldo arrumou um revólver Azedo e nervoso, o Nivaldo bron- as forças de sua caixa de catarro. Em
Fuçava em toda parte. Foi na Macum- de plástico e foi pra luta. queou: respostas aos gritos aflitos, a vizinhan-
ba pra firmar seu ponto. Se rezou da Ficou plantado no centro da cida- -Não adianta choradeira. Passa a ça apareceu e pegou o gaturama no
cabeça aos pés. Tomou mil banhos de de, assim como quem não quer nada e grana pra cá. flagra. Deram-lhe umas boas biabas
descarga. Se defumou. Mas continuou está cozinhando o galo em água mor- Pro motorista, a dura não dizia antes que a cana chegasse. E só não o
na mesma. Matando jacaré a beliscão, na. De esguelha, o Nivaldo espiava o nada. Sem se afobar, foi explicando: enforcaram no poste porque o cho-
cachorro a grito e dando nó em pin- movimento dos táxis pra ver se adivi- -Vai levar uns pixulés. Essa é a pri- fer, ao descobrir que a arma do assalto
go d’água. Varejava em tudo que era nhava um chofer com pinta de otário. meira corrida que faço hoje. era fajuta, não deixou. Fez o povão se
pesqueiro. Batia perna desde onde o Não demorou muito pra se engraçar Empalidecendo de raiva, o ladrão acalmar e entregar o Nivaldo pra po-
vento encosta o lixo e as pragas botam com um velhote de um carrão antigo. apertou: lícia.
os ovos até onde o vagau pisa devaga- Foi bater as botucas em cima do coroa -Que conversa é essa, velho? Não Ele foi em galera. Mais um bandi-
rinho e neca de achar emprego. e ver no velho seu bilhete premiado, vem com truque. do da bandeira dois que entra em pua.
Marcando bobeira pra baixo e pra o seu cartão da Esportiva com tereze Com sinceridade, o chofer escan- Mas, em pua mesmo, quem vai entrar
cima, atucanado pela saudade da mu- pontos. E foi firme. carou o lance: são as quatro crianças, que já não ti-
lher e pela situação ruim dos filhos, Sem pedir licença, se instalou no -Acontece que tou velho. Não nham mãe e agora estão sem pai. Vão
fraco de fome e de esperança, o Ni- carango, ao lado do velho chofer, e gosto de enfrentar o trânsito em hora se danar sem arreglo.•
26 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
D
e 7 a 9 de Janeiro deste os termos reais da paz escaldante do mando em argumento político “de ro, articular a frase “não sou Charlie”
ano, em Paris, três ho- pretenso conflito de civilizações que direita”, destinado hoje em dia a des- ou soltar piada de mau gosto acerca
mens jovens, de nacio- sucedeu à guerra fria. qualificar as opiniões políticas de cer- dos atentados passou a ser tido como
nalidade e naturalidade tos cidadãos franceses, os muçulma- um delito de opinião (“apologia ao
N
francesas, os irmãos Chérif e Saïd A tal laicidade “à francesa” nos (sem jamais precisar “etnicizar” terrorismo”), delito esse que levou
Kouachi, e seu amigo Amedy Cou- ão faltou comentarista as discussões), sob o pretexto que à suspensão de professores, ou à en-
libaly, assassinaram 17 pessoas em para, a partir do perfil essas opiniões seriam incompatíveis trevista de uma criança de 8 anos de
nome de organizações islamistas se- dos terroristas, associar com a república. Exemplo: em janei- idade durante 4 horas numa delegacia
diadas a 4 mil quilômetros da cida- suas ações com o mal
de-luz, no Iêmen e na Síria. Entre -estar socioeconômico que afeta boa
suas vítimas: os clientes de um super- parte dos jovens “periféricos”, em sua
mercado kosher, dois policiais, assim maioria filhos ou netos de imigran-
como vários jornalistas, desenhistas e tes, moradores das “cités” (palavra
funcionários duma revista satírica, a que significa “cidades”, mas passou
Charlie Hebdo. Em 11 de janeiro, 4 a designar os bairros mais pobres do
milhões de franceses (e várias deze- país; um pouco como a palavra “co-
nas de chefes de Estado) foram para munidade” hoje em dia no Brasil).
as ruas do país manifestar seu repú- Tal “mal-estar” se manifestou logo
dio à violência terrorista e seu apoio após os atentados, quando dezenas de
à liberdade de expressão. Muitos ves- jovens dessas “cités”, se recusaram a
tiam uma camiseta preta estampada observar o minuto de silêncio em ho-
da formula “JE SUIS CHARLIE” menagem às vítimas dos terroristas.
(“eu sou Charlie”), que invadiu as re- Não cabe negar que essas recusas se-
des sociais logo depois dos atentados jam significativas; entretanto, não são
para se tornar o lema dos “democra- mais significativas do que o gosto evi-
tas”. dente com o qual os autoproclamados
O presente artigo não visa articu- “peritos” as destacaram na imprensa:
lar hipóteses sofisticadas para contes- ao invés de diagnosticarem (porque
tar as conclusões das investigações: os não?) mais uma evidência do espírito
irmãos Kouachi e Coulibaly são, sim, crítico destemido, digno de Voltaire,
os culpados; não houve conspiração de certos jovens franceses, esses “pe-
institucional para dissimular a verda- ritos” escolheram interpretar as ditas
deira identidade dos atiradores ou de recusas como ações de apoio à guerra
seus mandantes oficiais. santa muçulmana. O nexo da argu-
Isso posto, é impossível negar a mentação desses jornalistas, sociólo-
perplexidade que ganha grande par- gos, e analistas políticos é a crise da
te da opinião pública francesa, não só laicidade “à francesa” (laicidade que
frente aos atentados, como também equivale, ao contrário de suas ho-
ao teor dos debates que sucederam. mólogas britânica e estadunidense,
Pois, quem leu a imprensa do país nos a uma invisibilidade das tendências
meses que se seguiram aos atentados, religiosas no espaço público, garantia
não conseguiu evitar o estranhamen- da neutralidade do mesmo). Decerto,
to diante da tendência predominante essa temática não brotou em 2015.
das análises: com efeito, é dificílimo Durante as discussões infindáveis so-
reconhecer os filhos espirituais de Le- bre a proibição do véu islâmico nas
vi-Strauss, Sartre ou Foucault entre escolas públicas, uns 10 anos atrás,
os jornalistas, sociólogos, e “peritos” não faltou historiador emérito para
de tudo quanto é disciplina ou capela lembrar a quem estivesse com pena
que, por meses, entregaram-se apai- dos muçulmanos que, por volta de
xonadamente à explicação de textos 1905, a república mandara o exército
corânicos a fim de contextualizar os “atirar para matar”, dentro dos espa-
atentados através da compatibilidade, ços de culto cristãos, a fim de impor
segundo eles limitada, do recado de a separação entre o Estado e a Igreja.
Maomé com a democracia. O que Outrossim, os partidários da proibi-
propomos, assim, é relativizar essas ção do véu ressaltavam que não eram
explicações psicologizantes e exces- preconceituosos e sim igualitaristas:
sivamente abstratas, em prol de uma de fato, na França, a laicidade é tida
investigação mais pé-no-chão da como parte integrante do ideário re-
política internacional atual da Fran- publicano tradicional.
ça. Isso nos levará a desbravar certos Entretanto, assim como ocorreu a
“territórios transversais” da mitolo- partir do final do século XIX, com
gia ocidental, bem longe das conside- a ideia de nação (outra noção revolu-
rações literárias acima mencionadas. cionária), é inegável que, de 20 anos
Somente assim lograremos entender para cá, a laicidade está se transfor-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 27
de polícia. Outro exemplo dessa evo- é figura de autoridade moral, política da publicação. que de Villepin, ministro francês das
lução política da laicidade é a própria ou religiosa. Desse ponto de vista, ela A partir de 2001, no contexto do relações exteriores, fez um discurso
história editorial de Charlie Hebdo. era representativa do espírito anticle- “pós-torres gêmeas”, a revista desa- na sede da ONU para vetar o pro-
rical e provocativo que, de Voltaire tou a retratar pregadores islâmicos jeto estadunidense de intervenção
O
“Eu fui Charlie” a Sartre, do primeiro-ministro Clé- vociferando no meio de moscas, e, militar no Iraque. 12 anos depois, ta-
presente autor “foi menceau ao cantor e poeta Georges em 2007, não hesitou em se solida- manha cena, tipicamente “gaullista”,
Charlie” quando jo- Brassens, caracterizava grande parte rizar com as charges publicadas por seria impensável: assim que Nicolas
vem, como a maioria da ideia que um filho da república uma revista dinamarquesa de extre- Sarkozy, candidato da direita, foi elei-
dos atuais quaren- francesa tinha da liberdade. Char- ma-direita que tinha gerado furor to presidente da república em 2007,
tões franceses de es- lie Hebdo foi à falência em 1982; e no mundo muçulmano ao caçoar do iniciou um processo de alinhamento
querda. A revista satírica simbolizava ressuscitou – talvez graças a dinheiro profeta Maomé. Depois dos atenta- total da política estrangeira da França
certa concepção, muito francesa, da doado pela presidência da república dos, muita gente afirmou que Char- às posições norte-americanas. O pais
liberdade de expressão e de deboche. – no início da década seguinte, com lie Hebdo zombava imparcialmente reintegrou a OTAN e, desde então,
Desde o início dos anos 1970, a revista um elenco renovado pela metade, e de todas as religiões... Todavia, um fornece soldados e equipamentos
zombava impiedosamente – e muitas supervisionado por uma personalida- ano depois da publicação das charges em quase todas as frentes importan-
vezes num tom alegremente escatoló- de polêmica, Philippe Val, que redi- de Maomé, em 2008, em decorrên- tes abertas pelos Estados Unidos no
gico-pornográfico – de tudo quanto recionou aos poucos a linha editorial cia duma piada inócua relativa à con- Oriente Médio.
versão ao judaísmo do filho do então Em 2008, a visita oficial do di-
presidente da república Sarkozy, a re- tador da Líbia, Muhamar Gaddafi,
vista demitiu Siné, um dos chargistas chegou a ostentar um fausto rara-
que a tinha fundado mais de 4 déca- mente vislumbrado, até na França. O
das antes, embora ele fosse pouquíssi- então presidente Sarkozy não media
mo suspeito de antissemitismo. esforços para agradar seu controver-
A luta constante da revista contra so convidado. Três anos depois, essa
o Islã, e a favor da laicidade, a levava lua-de-mel já parecia nunca ter exis-
a adotar posições próximas às da ex- tido: em razão da ameaça hipotética
trema-direita francesa (mesmo que os que o exército líbio representava para
desenhistas de Charlie Hebdo sempre a população civil de Bengazi, uma das
tenham sinceramente rejeitado essa principais cidades do país, agitada por
aproximação). Sinal do estranho ca- uma onda de protestos contra Gadda-
minho ideológico adotado pela revis- fi, a França liderou o apoio ocidental
ta: quando o atentado ocorreu, ela es- aos rebeldes, entregando material, ar-
tava à beira de uma falência definitiva. mas, logística e instrutores militares,
Os leitores tradicionais de esquerda se e favorecendo a progressão daqueles
recusavam cada vez mais a achar graça que a mídia europeia apresentava en-
em desenhos cujo intuito aparentava tão como “combatentes da liberda-
ser alheio ao niilismo de boteco, meio de”. A captura do ditador, seu pron-
anarquista, meio colegial, muito sim- to linchamento, a “libertação” das
pático por ser imparcialmente intole- cidades de Bengazi e Tripoli, foram
rante, que a caracterizara outrora. É saudados pelos governos ocidentais
que, na França, os novos caminhos da como sinais da vitória da democracia
laicidade convergem desagradavel- na Líbia.
mente com a teoria neoconservadora O contexto, desde o final de
do “choque de civilizações”. Por isso, 2010, era de “primaveras árabes”:
agora está na hora de mudarmos de ondas de manifestações populares se
foco: o que será que a laicidade fran- espalhavam da Tunísia à Síria. A Lí-
cesa 2.0 esconde? bia era mais uma nação que se livrava
dum autocrata sanguinário. Claro,
Um “Caminho para Damasco” algumas imagens eram suscetíveis
2
que passa pela OTAN de ponderar tamanho entusiasmo: a
007 foi um marco na políti- exterminação de milhares de negros,
ca estrangeira da França: foi a imposição imediata da charia (lei
o ano em que as elites do país muçulmana), a volta subsequente à
se converteram oficialmente “ordem” tribal e a anarquia genera-
ao chamado “atlantismo”, a doutrina lizada que desta decorreu (e dura até
que constitui o paralelo, no campo hoje...) eram dificilmente retratáveis
ideológico, do que a OTAN repre- como indícios de progresso. Até por-
senta no campo militar. É verdade que se tratava de um país que, sem
que, desde a guerra fria e o governo dúvida, era uma ditadura implacável,
do General De Gaulle, na década de ignorante dos direitos humanos bá-
1960, a França se destacava pela in- sicos, assim como da mera noção de
transigência melindrosa das expres- oposição política, mas que, em 2009,
sões de sua soberania política. Tendo apresentava uma taxa de homicídios
saído da OTAN em 1966, apesar de por habitante invejável, assim como
ser indubitavelmente membro do o maior IDH da África, e o quarto
bloco ocidental, a França envidava maior PIB por cabeça do continente.
esforços constantes para reconstruir Com a deposição de Gaddafi, a
sua indústria e seu exército sobre ba- mesma esquizofrenia tomou conta
ses nacionais, o que não raramente a dos comentários ocidentais acerca
levava a adotar posturas críticas em da “primavera tunisiana”, que viu
relação à política internacional dos a fuga do ditador laico Ben Ali e o
estadunidenses. triunfo eleitoral dum partido islamis-
Em fevereiro de 2003, Domini- ta financiado por príncipes do Gol-
fo Pérsico, que planejava acabar com Líbia e na Síria. Assim como Saddam Quando a França acha que a Al- Estado Islâmico ser liderado por ex-
a igualdade entre homem e mulher, Hussein fora (falsamente) acusado de Qaeda faz um bom trabalho... generais do exército derrotado de
imposta no país desde os anos 1980. possuir armas de destruição em mas- Isso gerou certas contradições Saddam. E também deve ter relação
Todavia, a opinião pública france- sa em 2002-2003, e assim como Mu- gritantes. Em dezembro de 2012, com o fato de que uma vitória mili-
sa teria a oportunidade de se depa- ammar Gaddafi fora duvidosamente Laurent Fabius exaltou o “bom tra- tar de al-Assad teria sido inaceitável
rar com mais algumas contradições acusado de querer empregar armas balho” da... Frente al-Nusra, que é o para a OTAN, Israel (já que al-Assad
instigantes poucos meses depois da não-convencionais contra bolsões de braço da al-Qaeda que opera no Lí- é aliado do Hezbollah xiita), e para as
vitoriosa operação líbia: pois, de re- resistência à sua autoridade, o ditador bano e na Síria. Outro exemplo: en- monarquias tribais do Golfo Pérsico.
pente, as próprias milícias islâmicas sírio foi acusado de ter perpetrado trevistado em julho de 2013, o então Tampouco se pode dizer que tudo
que a França armara e treinara, graças ataques químicos sobre um subúrbio ministro da polícia (e hoje primei- isso é indiferente à diabolização re-
ao dinheiro dos déspotas (mais es- da capital Damasco, favorável aos re- ro-ministro) Manuel Valls, se “en- pentina, de 2011 para cá, de Vladimir
tarrecedores do que esclarecidos) da beldes. Embora as imagens gravadas rolou” a ponto de assumir que havia Putin, aliado de al-Assad, e opositor
península arábica, desataram a invadir do ocorrido sejam até hoje objetos combatentes franceses na Síria, e de contumaz da política expansionista
alguns países situados na África sub- das maiores indagações quanto à sua chamar o combate deles de “justo”, da OTAN no Oriente Médio e na
saariana, nomeadamente o Mali. O autenticidade e proveniência, os prin- sem contudo deixar de condenar toda Ucrânia. Moral da história: é mais
exército francês foi enviado ao Mali e cipais líderes ocidentais não se furta- forma de terrorismo islamista... Pala- do que evidente a participação das
reestabeleceu a ordem. Resumindo: ram a exigir a capitulação imediata vras assaz espantosas, já que a imen- potências ocidentais na criação do
uma dezena de militares franceses de Bashar al-Assad. Em poucos dias, sa maioria dos rebeldes “sírios” são Estado Islâmico que elas combatem
morreram no Mali para acabar com o ministro francês das relações exte- terroristas alistados nas organizações e, inclusive, passaram a bombardear:
o terrorismo de milicias equipadas e riores, Laurent Fabius, político expe- acima mencionadas, sendo, inclusive, só não se sabe o porquê exato dessas
treinadas pela França alguns meses riente (pois foi primeiro-ministro en- dezenas de milhares deles recruta- aparentes contradições...
antes, na Líbia. tre 1984 e 1986), se destacou como o dos e doutrinados fora do país, e, até Milhares de jovens ocidentais via-
A eleição presidencial de 2012, e mais intransigente dos partidários da 2014, notoriamente financiados pelo jaram para a Síria para se juntar àque-
a vitória do candidato da “esquerda”, destituição do ditador sírio, chegando ministro-príncipe saudita Bandar a las milicias terroristas que midiatizam
François Hollande, não resultaram inclusive a proferir publicamente pa- pedido de... cerimoniais macabros de decapitação
em mudanças geopolíticas importan- lavras pouquíssimo condizentes com Aqui, chegamos ao limite do cog- na internet. Alguns dos degoladores
tes. Típico representante da esquer- sua função: “Bashar al-Assad não noscível pelo comum dos mortais. se expressam num árabe péssimo e
da “ambidestra” contemporânea, o merece estar vivo na Terra”... Contudo, uma vez que é mais do que com forte sotaque inglês ou francês.
Partido Socialista francês (cujo pro- Algumas se- notório o pró Assim como franceses mataram fran-
grama econômico, de 30 anos para manas depois, o As mesmas potências -americanis- ceses em janeiro em Paris, ingleses
cá, parece bastante com o dos tuca- governo francês mo visceral degolaram ingleses na Síria. A títu-
nos brasileiros), prolongou o trabalho já estava pres- que cultivam a máxima do príncipe lo de epifenômeno, a “internacional
da direita. Pior, ele o radicalizou: ao tes a lançar uma tolerância para com as Bandar (que, terrorista” ecoa a globalização da
alinhamento da política externa fran- operação militar ditaduras medievais diga-se de sociedade civil. Isso significa con-
cesa sobre os requisitos da OTAN contra o governo passagem, cretamente que a questão da volta de
durante o mandato de Sarkozy, suce- sírio, no âmbito
e assumidamente deixou de milhares desses milicianos para sua
deu, desde os primórdios do mandato de uma ação con- escravagistas do Golfo ocupar car- terra natal já constitui um problemão:
de Hollande, a vontade constante do junta com estadu- Pérsico, passaram a gos oficiais pois, depois de alguns meses lá, mui-
governo francês em assumir o papel nidenses e britâ- considerar inaceitável de um ano tos querem sinceramente abrir mão
de carrasco de vanguarda em prol do nicos. Porém, em para cá), é do “combate justo” contra al-Assad e
“bloco ocidental”. Tamanha postura setembro de 2013, a vontade de Bashar al- possível en- voltar para a Europa; porém, alguns
desembocou, não raramente, em si- os americanos re- Assad de permanecer no tender por- desses terroristas aposentados e arre-
tuações perigosamente ridículas para lutaram a acom- poder. que, em pendidos fingem tal postura para po-
a autoimagem dos belicistas fran- panhar a França 2014, al- der cometer atentados em seu país de
ceses, sobretudo quando o grande nessa aventura, o que não deixou de guém tão moderado como o ex-pri- nascença. Como aconteceu com Saïd
irmão norte-americano resolveu se descredibilizar a postura belicosa de meiro-ministro francês Dominique Kouachi, que voltou do Iêmen para
dessolidarizar das bravatas de Hollan- Paris. A partir daí, a França fez “cara de Villepin chegou a declarar que aplicar em Paris o que aprendera por
de durante a “crise síria”... de paisagem” quando centenas de nós, ocidentais, “parimos o Estado lá, com armas fornecidas por não se
E eis que, de repente, em 2012, a jovens, delinquentes fanatizados na Islâmico”. De fato, o desdobramen- sabe quem, graças ao dinheiro de não
impossibilidade de exportar o mode- cadeia ou nas “cités”, passaram a to de certas ofensivas é mais do que sei quem e em prol dos interesses de
lo “democrático” das demais prima- deixar o país para se alistar no Es- esquisito: assim, em agosto de 2014, sabe-se lá quem. Será que ele mesmo
veras árabes até a Síria incomodou as tado Islâmico, na Frente Al-Nusra parecia que, graças ao apoio do Irã sabia, aliás?
grandes potências ocidentais. As mes- ou na Al-Qaeda. A partir daí, o e da Rússia, Bashar al-Assad estava Estamos longe dos debates sobre
mas potências que cultivam a máxima governo francês também apoiou conseguindo derrotar as milícias ter- a crise da laicidade, e do maniqueís-
tolerância para com as ditaduras me- abertamente a entrega de armas roristas. Entretanto, parte dessas mi- mo da “guerra de civilizações”, que o
dievais e assumidamente escravagistas aos rebeldes, eufemisticamente re- lícias fugiu para o Iraque vizinho e se premiê francês acabou de pleitear em
do Golfo Pérsico, passaram a consi- batizados de “opositores a Bashar apoderaram de algumas centenas de 28 de Junho de 2015...
C
derar inaceitável a vontade de Bashar al-Assad” para amenizar o fato de milhões de dólares de material militar Post-scriptum
al-Assad de permanecer no poder. que, a essa altura, a quase totalida- sofisticado que fora entregue, alguns aro leitor, se esbarrar
Pois é... De 15 anos para cá, o noti- de dos opositores não islamistas e meses antes, pelos Estados Unidos ao com uma foto dos che-
ciário internacional pode ser resumi- não fanáticos já tinham sido exter- exército iraquiano... fes de Estado reunidos
do pelo anúncio seguinte: “Urgente! minados ou obrigados a se exilar. Como assim, “se apoderaram”? na passeata de janeiro
Ocidente busca saco de pancada”. O que sobrava já não era mais do Aparentemente, num movimento es- em Paris para prestar homenagem
Bashar al-Assad sucedeu a Gaddafi que um amontoado de milícias tratégico inédito na história militar, às vítimas, lembre-se que, naqueles
no papel do “Hitler do sécúlo XXI”, terroristas, financiadas por padri- divisões inteiras do exército do Ira- dias, no país de Voltaire, rir ou ficar
assim como o ditador líbio tinha re- nhos prestigiosos da Arábia Saudita que abandonaram todo seu material indignado poderia lhe valer uma con-
vezado Saddam Hussein nesse papel. ou do Qatar sunitas, com o intui- aos islamistas, sem sequer combater. denação por apologia ao terrorismo.•
Isso seria até engraçado, se não fossem to derrotar o poder sírio, alauita e Com essas armas, as milícias volta-
os mais de 2 milhões de mortos, entre apoiado pelo inimigo absoluto das ram para a Síria, e já estão acampan- Esse artigo é dedicado à me-
os quais mais de 1 milhão de crianças, ditaduras do Golfo Pérsico: a “re- do nas imediações de Damasco no mória do cartunista Naji Salim
que resultaram dessas reformulações pública” ditatorial e xiita do Irã. momento em que estou escreven- al-Ali, assassinado pelo Mossad
sucessivas do “choque de civiliza- do essas linhas. Claro, esse episódio em Londres, em 1987.
ções”, no Afganistão, no Iraque, na deve ter algo a ver com o fato de o
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 29
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ara Marx, a classe trabalhadora é po- Algo semelhante pode ser dito sobre a produção que a arte desceu de seu pedestal, ou melhor, foi ar-
tencialmente revolucionária, ou seja, da arte revolucionária: é da classe trabalhadora e, rancada de lá, e começa a falar com outro linguajar,
os trabalhadores seriam os únicos com em especial, de seus lutadores e lutadoras, de onde outras gírias, e agora fala de coisas que antes não
possibilidade, vontade – e necessidade! nascerá a arte, a literatura e a poesia revolucionárias, dizia, deixou de ser eterna e intocável, que anda no
– de destruir as estruturas de exploração da socie- pois são esses que sustentam, cotidianamente, o peso chão de terra, no asfalto, que dorme em barracos de
dade capitalista para construir um novo mundo, de nossa época às costas, em seus corações, e cons- lona, e que grita, chora, canta, goza e mira... mira
troem o novo, desde já, na luta coletiva. São esses seu inimigo.
sem classes, com igualdade plena, real, não essa
artistas, de vida revolucionária, que cantam e gritam A luta de classes gesta no ventre da classe tra-
igualdade de fachada na qual vivemos. Os traba-
a palavra necessária, a “boa nova”, trazendo o fu- balhadora os lutadores revolucionários e também a
lhadores possuem esse potencial revolucionário
turo na garganta, rompendo os muros entre boca e arte e a poesia revolucionária, de luta. No Brasil,
pois: 1) não possuem nada além de sua força de mãos, já que sua poesia age, dá lágrimas, suor, gozo vemos, nos últimos tempos, renascendo nas peri-
trabalho, logo eles não têm nada a perder com e carne aos versos, que cantam a possibilidade do ferias, nos movimentos, nas lutas coletivas, uma
o fim do capitalismo; 2) são os que mais sofrem “impossível”. As artes deste mundo já não servem poesia e literatura rebeldes, que não pedem mais a
com esse sistema (pesa em seu peito uma infini- a eles, pois não representam suas alegrias, tristezas benção à dita grande literatura, e afirmam sua pró-
dade histórica de opressões, abusos, explorações, e sonhos, sua luta. Por isso, assumem sua própria pria voz, a voz do povo preto e pobre, das mulheres,
violências, humilhações); 3) os trabalhadores são palavra, mesmo com dificuldade, mesmo ouvindo dos homossexuais e transexuais, dos sem-terra, dos
fundamentais para o funcionamento desta socie- continuamente que o que fazem “não é arte”, ou sem-teto, enfim, dos trabalhadores e trabalhado-
dade (sem eles, o mundo para). “é arte menor”. Os que dizem isso, não entendem ras.•
o documentário
que leva à vingança
Entrevista com Adirley Queirós
TT: Adirley, a gente quer falar so- gava futebol e recebia para isso. Aí me entendimento da cidade enquanto his- mas eu nunca tinha visto um documen-
bre cidade, periferia, sobre esse nos- contundi e fui pro cinema, que foi um tória, que só surgiu para mim quando tário na minha vida, eu só via filmes de
so lugar. Falar sobre cinema na pe- acaso na minha vida. eu fui para a universidade. Eu tinha sen- sessão da tarde e os filmes clássicos de
riferia, a recepção do seu trabalho, a timentos em relação à cidade, mas não cinemão.
sua relação com os movimentos de TT: Já tinha se formado? tinha clareza a respeito dela. Quando
Ceilândia, a interferência que isso Não. Eu voltei a estudar com 25 eu fui para a universidade, eu estranhei TT: No cinema, o que você já tinha
tem na sua produção. Comece con- anos, fiz supletivo noturno de 1994 em a universidade, a universidade me es- visto?
tando um pouco de sua trajetória. diante, quando parei de jogar futebol. tranhou. Eu quase larguei o curso nos Em Ceilândia, tinha duas salas de
Eu moro em Ceilândia desde 1977. Nessa época jogava mais amador, mas seis primeiros meses. Porque, para mim, cinema, uma sala que passava sessão de
Quando fui para lá tinha 7 anos de ida- recebia para isso também, vivia disso. era o lugar mais horrível do mundo, eu pornô e outra de caratê, a gente fala-
de. Meus pais são de origem rural, de E, vivendo na Ceilândia, não tinha re- não conseguia me comunicar com nin- va “sexyatê”. A nossa cinefilia era isso.
Goiás. O local onde a gente morava ti- lação nenhuma com o que seria cultura, guém, não me encontrava em lugar ne- Então, cresci assim, tudo que eu tinha
nha conflito de terra. Os Caiado toma- e nem relação com os movimentos so- nhum. Ali, eu estranhei as pessoas e me como referência era dado pela cultu-
ram a região, é o mesmo processo em ciais. O que tinha era a experiência com reconheci, tive uma reflexão de onde a ra popular, não no sentido que a gente
todo lugar. Meu pai trabalhava na terra, a cidade. gente estava. fala hoje, popular de militância, da ter-
eles chegaram e começaram a jogar a Eu comecei a enxergar a Ceilândia ra. Não era isso, eu tinha uma cultura
gente para outro lugar. Nós fomos pri- TT: Mas você conhecia as popular urbana, filme de aventura,
meiro para um lugar chamado Incra 8, pessoas dos movimentos de de pornografia, de caratê, e fute-
em 1973, se não me engano. Em 1977 Ceilândia, o pessoal dos In-
Eu comecei a enxergar a bol. Para mim foi fantástico isso,
começou a Ceilândia, em 1979 o P Sul cansáveis? Ceilândia como um lugar porque, aí, eu me localizo também
e o P Norte. Aquela área todinha, na Conhecia, mas não nessa cha- muito potente. Aquele lugar com as pessoas. Na minha cabeça,
época, era a Nova Ceilândia. Quando ve de militância. A gente vivia não existia hierarquia de lugar de
chegamos lá, erámos uma família de 6 junto, jogava bola, dominó, tinha não é um lugar-comum, é conhecimento. Obviamente, tem
irmãos, meu pai, minha mãe. A minha uma experiência coletiva ali, na um lugar extraordinário em hoje, falar que não tem seria men-
mãe teve filhos muito cedo, com 16, 18. esquina, mas só. A gente não se tira. Mas não existia na época. Por
Ela tinha 20 anos quando nasci, e com encontrava para militância, mas
relação à cidade, um lugar isso, me interessou o rap. Eu acha-
26 anos já tinha 6 filhos. Então, foi assim como pessoas comuns que iam com história. A Ceilândia va que o rap era de fato a música
que a família chegou na Ceilândia. comer, beber, jogar. A gente se é um lugar surgido de um popular brasileira.
sentia sensibilizado com a ideia Eu ouvia muito rap, os caras
TT: Saindo de um processo de ex- dos caras, da polícia bater neles, de processo violento. eram os meus amigos de boteco,
pulsão de terra? que as casas podiam ser perdidas, mas eu não os reconhecia como
Meu pai nunca falou sobre isso, na mas não eram coisas orgânicas. artistas. Jamaica, Marquinho, o
verdade é uma reflexão que eu tenho como um lugar muito potente. Aque- Ex... O Ex era um símbolo, era um
hoje. As terras foram tomadas, griladas TT: E como foi a criação da le lugar não é um lugar-comum, é um cara de muita presença, que andava pe-
pelo povo dos Caiado, eles comandam CEICINE? lugar extraordinário em relação à cida- las ruas, tinha gravado um LP, muitas
aquela área todinha de Goiás. As pessoas A CEICINE veio só em 2006. Era de, um lugar com história. Ficou muito mulheres olhavam para ele, todo mun-
ou foram expulsas, ou foram trabalhar um grupo que estava se organizando e mais clara a relação de classes, de como do queria ser o Ex, era o cara, a nossa
na fazenda deles. Acho que meu pai ti- tinha afinidades e sensibilidades em co- a gente, a narrativa, o povo, tudo é dife- figura de cultura popular que represen-
nha um ressentimento grande com isso, mum. Éramos amigos, filhos, parentes, rente, e como as pessoas criam sobre a tava o nosso lugar. E quando eu falei do
para ele era uma vergonha ser expulso de foi uma relação que se estabeleceu pela gente narrativas e cortes diferentes. Nes- rap, não me interessava muito cinema,
um lugar, então ele não conta sobre isso. amizade e pelo lugar. Não era movi- se contexto da universidade, eu comecei me interessava falar da Ceilândia. Já ti-
Em Ceilândia, meu pai trabalhava fa- mento organizado. Quando começa- a entender o que era Ceilândia, o nome, nha 7 anos de universidade, tinha que
zendo pão, bolo, e vendendo na rodovi- mos a trabalhar com cinema, aí, sim, a as invasões. A gente ouvia muitas histó- terminar o curso. Então a Dafne, minha
ária. Na nossa infância, eu e meu irmão gente criou um discurso. Em 2005, a rias, mas nunca parou para entender o orientadora, falou assim: “termina, faz
mais velho vendíamos coisa na rodoviá- gente começou a pensar. Eu estava na processo todo. A Ceilândia é um lugar qualquer coisa”.
ria também. Minha relação com o cine- universidade, e fiz o “Rap, o canto da surgido de um processo violento. Eu brigava muito na universidade,
ma foi muito mais tarde, só com 33, 35 Ceilândia” (15’, 35mm, cor, 2005), que Mas entrar na universidade foi um não tinha amigos, porque tinha muito
anos. Antes, jogava bola, era apaixonado era um filme sobre a formação da cida- acaso, não fazia parte dos meus planos. claro para mim o lugar deles, que tinham
por futebol e joguei profissionalmente de, muito com a ideia de Ceilândia, do Eu entrei por uma coisa de zoar, na um discurso do cinema muito asséptico,
por 10, 12 anos. Dos 14 aos 25 anos, eu rap, era tentar o rap enquanto discurso, minha cabeça universidade era para na- era o momento do cinema que pensava
recebi dinheiro pelo futebol, fui profis- sabe? morar. Eu sou servidor da secretária de que não tinha um lugar político legíti-
sional no Ceilândia, no Taguatinga, no saúde de Brasília, sou maqueiro, estou mo. As pessoas de Brasília faziam filmes
Gama. Joguei em 13 times pequenos, só TT: O “Rap, canto da Ceilândia” de licença não remunerada há dois anos muito claros, a gente odiava aqueles
segunda, terceira divisão. Então, minha foi seu primeiro filme? por conta do cinema. Passei em cinema filmes, falávamos toda hora “que filme
primeira relação de trabalho foi essa, jo- Foi. Quando fiz o “Rap” tive um porque era o corte mais baixo que tinha, horrível”. Era filme de apartamento.
Era tipo o cara arruma uma crise exis- teira? lombiana, de que o que ele vê de cinema la pública, no Brasil de hoje, por mais
tencial, sobre no prédio, mas não pula, Total. As pessoas se empoderaram é homens e mulheres brancas. E quando merda que seja, é um lugar em que exis-
não tem coragem nem para se matar. Eu com isso, de achar que podem construir chega um filme assim, o moleque acha te preto, mulher, e também na univer-
tinha muita vontade de enfrentar esse uma narrativa. Cinema, imagens, som, que “pô, esse é o melhor filme de ação sidade pública. Isso não tinha na minha
cara desse mundo, de pegar esses filmes diversão, um discurso. A CEICINE que eu já vi”. época: as minas da minha rua, negras,
como não-referência. nasceu de um encontro nosso para falar Para mim, foi o maior orgulho do estão na universidade pública. Daqui a
Então, já tinha o lugar de enfrenta- sobre o filme e pensar nisso. Então, foi mundo, porque o filme de ação te cria cinco anos, vai ser uma explosão, porque
mentos dos filmes, da forma deles, tava criar equipamento, narrativa própria, os possibilidades. Eu posso tacar, eu posso elas vão criar confiança e vão criar uma
tudo ali. Mas eu não sabia como seria. atores da cidade. A ideia de criar, de se fe- fazer uma guerra, e isso não é inconse- narrativa que vai atropelar a gente. E eu
Me aprofundei na história da Ceilândia, char sobre o território. A gente começou quente. Isso em Brasília não é incon- acho lindo que exista um país que, por
tanto que eu tenho muito mais que 80 a compreender muito a cidade, falar de sequência. Vários moleques de escola mais problemático que seja, construiu
horas de material gravado até hoje: vários formas, fotografia. A gente pôde imagi- pública falam isso, é possível destruir um lugar possível, porque a universi-
depoimentos das pessoas, Dona Branca, nar, confabular, pôde fazer versão. Tudo Brasília. E é isso, é um ato terrorista, por dade é um lugar possível. Como essas
Dona Rosa, Eurides. Saí conversando isso começou a entrar na nossa cabeça e a mais que seja no papel, num filme, uma meninas que vão ocupar a universidade,
com todo mundo da cidade, pedi uma gente construiu aquele momento como coisa muito simples, ele é um ato terro- as revistas, a militância, a escola pública,
câmera, porque eu não tinha. A Dafne um lugar muito político. O “Branco sai, rista que tem uma relação simbólica da- a diretoria, enfim, os espaços de poder.
me arrumava uma câmera no final de preto fica” foi um encerramento disso. qui a 20 anos. Isso não é irrelevante. É muito relevante,
semana, pela qual ela se responsabilizava. igual ao cinema que eu fiz que, em um
Porque não podia sair com a câmera da TT: Encerramento da CEICINE? TT: Sobre o estilo dos seus filmes. certo momento, pelo lugar histórico, era
UNB: se perdesse a câmera, ela pagava. Eu pensando hoje, depois de um ano Tem uma estética de periferia, por quase uma exceção. Imagina isso agora
Durante um ano, fiquei gravando do “Branco sai”... Foi o encerramento da você ser quem você é, vir de onde que vai vir, o quanto vai ser relevante da-
o filme sábado e domingo. Eu, Léo, o CEICINE, no sentido de que tudo que veio? qui a cinco, dez anos. Entrar na univer-
Chico, íamos, entrevistávamos de qual- a gente tinha construído está ali, e que Na minha cabeça, existe uma procu- sidade pública gratuita foi um privilégio
quer maneira, em qualquer lugar. A explodiu, já era, é outra coisa. Inclusive, ra pela estética da periferia, é muito claro na minha época, a UNB é um espaço
gente ia e filmava. Cada história me le- a gente tem que explodir. Porque você hoje em dia. Os filmes para mim só têm privilegiado. Eu tive acesso a lugares que
vava para outro lugar, só que ai eu tinha imagina, era um grupo, que criou, fez sentido se eu achar um lugar do perso- me empoderaram, a universidade, o ci-
que fazer um recorte, e o meu recorte três filmes, e dentro do cinema brasileiro nagem de periferia, é o que mais me nema, amigos, conversas, isso é o poder
foi o rap. Para mim, no “Rap, o canto a gente ganhou dois prêmios. Se a gen- interessa. O corpo-periferia tem que se e é disso que eu tô falando. Não dá para
da Ceilândia”, o canto não é música, é te continuar com a CEICINE, pode ser comunicar com o cinema, quase como ficar nesse lugar-comum de que a gente
território, o canto é lugar, o canto que mais opressor que libertador. Como um um bicho. Monstros: “a gente comunica é exceção e que somos geniais. Geniais
canta território, espaço. Era muito mais cara pode pensar cinema na Ceilândia se entre a gente, mas não consegue diálogo nada, estamos ocupando um lugar de
a ideia de pensar o canto como espaço do ele fica preso a essa referência? Tem que com os outros”. Isso seria incrível, por- disputa política.
que o canto como música. Tanto que eu se livrar da CEICINE. No momento, que colocaria uma estética própria, e a
fui buscar os caras enquanto desempre- era muito importante. Hoje, é opressor. estética seria ofensiva. TT: Como você vê a produção do
gados, o filme era sobre o desemprego. Imagina como as pessoas vão fazer ci- É como você é nomeado, você é no- cinema brasileiro de hoje?
Os caras, na época com 35 anos, todos nema tendo a CEICINE como referên- meado bicho, feio, horrível. O cinema O cinema, o audiovisual, no Brasil,
em crise. Me interessava o lugar o rap cia, como um lugar de exceção? Nem te nomeia. Momeia o corpo feminino é lei de Estado, hoje em dia. Faz parte
enquanto lugar de trabalho. O recor- vão tentar criar uma narrativa porque enquanto estética, sensual, erótico. A da pauta de governo. Assim como tem
te era muito simples: peguei caras que eles ficam presos à Ceilândia. “Os filmes gramática correta. Então, se a gente, en- questão de terra, questão de moradia,
chegaram na Ceilândia juntos, todos eles da Ceilândia são assim”. Não, não são! quanto cinema, conseguisse dar nomes questão de saúde, tem questão do audio-
chegaram no primeiro ano da Ceilândia. Os filmes que eu faço são assim, mas a ao que a gente pensa, seria uma repre- visual. O audiovisual tem sua bancada.
Fiz o recorte da idade também. Existiam Ceilândia é imensa, várias pessoas po- sentação política. Minha ideia, nos meus O Brasil faz seis filmes com dinheiro pú-
vários rappers, ai peguei os que tinham a dem produzir e várias narrativas podem filmes, é ter que renomear a periferia, o blico, e são 100 milhões de reais, é muito
idade da Ceilândia, que eram os quatro. ser feitas, a minha é só mais uma. Pen- corpo. O corpo fala rápido, e os filmes dinheiro. É importante e é pouco, pela
Naquele filme, o que me in- tinham que falar rápido, tinham demanda que tem. Para você fazer um
teressava era tocar o terror. Era que ser mais agressivos, mais sa- filme grande, você faz milhões de acor-
óbvio, ninguém ia ver o nosso fil- As conversas de periferia canas, tinham que casar mais com dos. É como uma empresa. Então, por
me. Então, colocamos palavrão no são invariavelmente de a montagem, estética, fotografia, exemplo, todos esses caras que fazem fil-
filme, tínhamos uma relação de
muita liberdade com eles, bebía-
aventuras. Como é a conversa com o corpo de mulher que não
pode ser da Globo, que não pode
mes hoje, esses velhos que a gente acha
lindo, estão fazendo acordos escrotos, só
mos muito. E eles tocavam o ter- do MTST quando foge do ser europeu. que o discurso deles é de vanguarda. Eles
ror também, até que eles falavam discurso político? Não é A gente tem que achar esse têm todos os slogans: inclusive, o comu-
assim “isso não vai entrar mesmo corpo. Que corpo é esse, de pe- nista. O discurso deles ainda é o discurso
no filme!” Mas, espera aí, vai en- de aventura, talvez? Da riferia? É igual ao do centro? Seria do partidão. Eles falam de proletário, de
trar! Então, vendo hoje, eu acho o pescaria, do jogo de futebol. incrível um corpo desconstruir classe.
filme muito simples, até simplório isso: um corpo que falasse coisas
na forma, mas era um filme que incompreensíveis e loucas. No ci- TT: Alguns deles você ainda acha
tinha um discurso muito claro para a sando que isso é explodir, outros autores nema, a fala não sendo compreensível, a firmeza?
gente. produzirão, outras coisas surgirão. Se- forma daria uma experiência, o cara pen- O André Tonacci, que nunca fez dis-
A gente tinha muita clareza de que não, vira um grupo reacionário. saria: “que filme é esse? Não sei, mas me curso. Ele fez um filme chamado “Serra
Brasília era uma coisa, Ceilândia outra. impactou, pode ser um monte de coisa e da desordem”, que é o filme mais incrí-
O filme fala só isso. A gente criou um TT: A CEICINE era uma organiza- com o tempo eu vou assimilando”. Não vel do mundo: um filme que tem ban-
lugar simbólico de falar “nós somos esse ção política? ser didático, afirmativo somente, é uma g-bang na marginal paulista. Tem cara
lugar”, e acho que a gente conseguiu. Na nossa cabeça, era. Eu fui numa forma que pode construir um monte de assim. Mas, no resto, parece que esses di-
Tanto que esse filme foi feito há 10 anos escola passar o “Branco sai” esses dias e coisas. Esse corpo periferia deveria fa- retores são imaculados. Eles são incríveis,
e ainda é o filme mais visto em escola foi incrível. Tinha mais de cem meninos lar menos e ter mais corpo, mais ação. as trajetórias deles também, mas esse res-
pública no DF. Muita gente viu o filme de 14, 15 anos. E eles falaram, depois: A palavra é menos importante, porque peito exagerado por eles é besteira. Eu
quando estava na 7º série, quando estava “Cara, então é possível fazer cinema de a palavra é a gramática, e a gramática é quero dizer que o slogan não quer dizer
se formando, e fala, “quando eu vi esse ação na Ceilândia?”. Olha o quanto isso opressora. mais nada para mim. Eu quero ver é o
filme eu comecei a entender o não-sei- é incrível! “Então, quer dizer que eu pos- Os meninos têm narrativas muito filme que ele faz, e se a forma do filme é
quê”. Para você ver como é um filme so quebrar Brasília no papel?” “Pode!” poderosas hoje em dia. Eu vou muito reacionária, é uma merda.
muito simples: era como se fosse uma Entendeu como é poderoso? em escola pública passar filme, falar. E
poeira levantada. Alguém ia falar aquilo. Você imagina, eu passei meu filme essa fala que eu tenho contigo é a mes- TT: Você pode falar um pouco do
Era um discurso que estava na cabeça de na Colômbia e foi incrível. Eu passei no ma que eu tenho em escola pública. Os “Branco Sai, Preto Fica”?
todo mundo. A minha sorte foi falar. O gueto, na quebrada, na escola pública, e a professores acham que eu tenho uma fala O “Branco sai” é o filme brasileiro
filme só foi jogado no ar. reação foi incrível, dos moleques, assim: muito desorganizada com os meninos. que mais foi visto em festivais. Tem mui-
“ah, eu pensava que no Brasil só tinha Mas acho que o lugar de uma construção ta coisa dele que a gente fez que é uma
TT: Então, quando você ganha o branco”. Para você ver como isso é forte, de cinema tem que passar por uma outra discussão de 10 anos e tá ali. Ele é o fil-
festival, é uma coisa da Ceilândia in- para um moleque negro da quebrada co- forma de organização formal. Na esco- me que fechou o ciclo, os personagens,
32 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
os atores, a equipe, o Marquinhos. É um que as mulheres saem do filme e estão caras mais incríveis de todos os tempos, tário também deu essa liberdade, a pos-
filme de geração, de homens que têm 44, loucas por ele, um objeto erótico do fil- o Racionais é o maior evento da músi- sibilidade daquelas coisas acontecerem
45 anos. Mas, para mim, é um filme in- me. Não quero reafirmar que os meus ca popular brasileira. Mas não é porque em cena, que existe muito mais força das
completo. A gente não filmou ele todo, amigos são uns fodidos, para quem eu o Mano Brown é uma das pessoas mais coisas acontecerem. Porque era docu-
não tem o que a gente pensou no filme. vou falar isso? Eles não querem ver isso, incríveis que eu não vou falar que o Ma- mentário, mas não existia realidade lá, era
É um filme possível: a gente tinha mui- eles ficam putos com isso. ringhella foi feito claramente por um dis- tudo construído, escada, elevador, pedra.
to mais para gravar, e não conseguiu. Por Eu também já ouvi aquela crítica que curso acadêmico de um grupo de esquer- Aquela casa a gente alugou, Marquinhos
falta de tudo: grana, relacionamento... você disse. Para mim, é uma gala reacio- da acadêmico. Ou você acha que alguém não mora, nunca morou ali. Aquela rá-
O filme demorou dois anos para gravar, nária e de direita. O cinema não é o lugar em baile ouve Marighella, ou você acha dio não existia, a gente conseguiu aquela
imagina? As pessoas desacreditam, foi di- da realidade. Ele pode passar pela realida- que em baile os homens choram ouvindo rádio, só que as falas foram construídas a
ficílimo. A gente fez um filme de ficção de. Eu tô falando de corpos amputados. Marighela? Os caras choram com “Um partir da memória dele, das músicas que
sem dinheiro, tendo que inventar. E tinha Enquanto cinema, o filme fala para eles, homem na estrada”, “Opala 21”; eu já ele ouvia. Então, tudo é uma construção.
um confronto muito claro, de um diretor o filme o chama e fala: “nós vamos fa- vi cara no show chorando com “Negro Mas, quando a gente chegava nos sets, era
branco que dirigia homens negros, não bular”, eu fabulo de cá e você de cá. E Drama”, mas com “Marighella” os ca- aberto para que se pudesse fabular.
é simples. Porque, por mais que eu fale fabular é se sentir herói, e a fala deles era ras encostam no muro e... sacou? É isso Tudo ali era uma relação muito de
tudo isso de “Branco Sai, Preto Fica”, eu invariável: “eu quero ser herói”. É uma que eu tô falando, a intermediação do amizade e de acreditar, eu acreditava e
sou branco e o poder é meu. Eu ainda sou forma de ganhar, mesmo sabendo que o audiovisual é horrível, a forma que é feita acredito que o Marquinho é o melhor
um homem de experiência branca, isso corpo tá lá, a opressão do Estado tá lá, a é reacionária. Não os Racionais, mas a ator brasileiro. Quando Marquinho co-
não tem como mudar. É a contradição. opressão territorial tá lá, a racial tá lá, a da forma do “Marighella” é uma forma rea- meçou a atuar, eu falava assim: “Mar-
Enquanto a gente fazia o filme, a gen- fala tá lá, o silêncio tá lá. cionária. Mas ninguém fala isso porque é quinho é um ator incrível, e ele tem que
te achava o filme massa, criando mesmo, Esse silêncio diz muito mais que a o Mano Brown. Para mim, o lugar mais falar o que ele quiser”. Para mim era
e a gente provou para nós mesmos que é palavra. Quando o Marquinhos faz uma político é a forma e não o conteúdo. claro. “Marquinho fala, fabula, conta a
possível, sim, um filme de ficção a partir cena fumando, quando tira o gesso tua história”. Porque aí ele narra a
de Ceilândia. E isso é político, porque as da perna dele, que é real para mim, A primeira conversa que história, o que ele fala é ele. É ele
pessoas ficam putas, porque o filme de ele diz tudo. Quando ele senta, que narra a história e ele é um cara
periferia é sempre colocado no lugar dos fuma e olha. Quando ele coloca
eu tive com Marquinho, ele incrível. Mais que a direção, ali é
coitadinhos. Nunca se coloca o filme de uma música para a namorada dele, falava para a gente: “eu não ele. Talvez a direção, a equipe toda,
periferia como um lugar que é possível de para mim é muito forte. Porque eles quero falar da minha vida, a sonografia e tal, tenha um domí-
enfrentar as pessoas, de disputa de poder, tiraram aquilo que ele tinha de mais nio em cena, mas quando ele entra,
aí consideram o cinema sem disputa. E forte: quero dançar, quero ser boni- foda-se a minha vida. Eu tô ele é uma figura única que tem uma
agora, a gente disputa a mesma coisa que to, quero ser erótico. Ele fala sobre de saco cheio de falar que eu narrativa própria, que ele acredita
o Walter Salles, que o Cacá Diegues, e isso, e ao mesmo tempo ele fala “fo-
para eles a gente não é amiguinho mais. da-se, eu faço sexo com essa cadei-
levei um tiro e tô na cadeira que ele pode contar qualquer coisa
que funciona. E a gente dava liber-
A gente era amiguinho quando a gente ra, eu pego as meninas com essa ca- de rodas”. dade para ele, não cortava momento
se colocava no lugar de periferia, porque deira, minha vida é essa cadeira, eu nenhum. Então isso era documen-
é um lugar de exceção. Quando a gente me relaciono nas festas com essa cadeira. Todos os filmes de conteúdo brasilei- tário, se a gente tivesse domínio claro que
disputa o mesmo edital, a gente ocupa um Eu tenho que ser forte com ela, não pos- ro, todos reivindicam a esquerda. Até o aquele filme seria aquilo, talvez começas-
lugar político. Para a gente, isso é massa, a so ser coitadinho, tenho que ser bonito”. filme, a novela da Globo, reivindica a es- se a cortar, “não fala isso Marquinho, que
gente disputa um lugar de representação Mas tem que ter esse lugar de fala, querda quando fala da periferia. Tem um o texto não é esse”.
política, nós somos um grupo como ou- que é o mais importante que existe. E a milhão de pessoas vendo, e entre elas tem Presta atenção no seguinte, essa histó-
tro qualquer. Tanto é que eu não sou tão forma mais reacionária que existe é en- o oprimindo, o trabalhador. O primeiro ria é a mais surreal do mundo. A polícia
queridinho, já fui mais queridinho. quadrar o cara de periferia em um filme lugar que fala que existe homossexual no do DF quer me processar. O documen-
realista. Quer um filme mais realista do futebol é a novela, não o cinema. Na- tário mostra violência da polícia. Mas o
TT: Ainda no “Branco Sai”, eu ouvi que o “Lixo Extraordinário”, que é um quela novela que tinha o homossexual, documentário tem um cara do futuro.
umas críticas de gente que esperava filme horrível que fala da vida do pobre? Avenida Brasil, o filho do cara era gay, A polícia do DF acha que documentá-
um documentário que fosse mais Como o pobre é falado em periferia? O isso é vanguarda. Então, o conteúdo é rio não pode mentir, e têm desconfiança
duro... pobre nada mais é que o deleite dos caras extremamente vanguarda, mas a forma de que o cara do futuro não é do futu-
Eu acho que isso reflete uma ideali- ricos, é o deleite de uma certa classe de vai adocicando, e vira reacionário. Então, ro. Quando eu acuso a polícia do DF,
zação de periferia. De quem não ocupa entender o Brasil. Não tem que ver um de novo, a novela tem conteúdo, e um os caras piram, eles acham assim: “como
aquele espaço de periferia. Se ocupas- filme para saber isso, que as pessoas sa- filme horrível que tem na sua essência assim, isso não é verdade, esse documen-
se, não falaria isso. É um corpo que vê bem, é só sair na rua. Então, o deleite é um discurso de esquerda. Qual filme que tário não é verdade”. Mas não é verdade
a periferia de longe, que também é im- meio que esse mesmo. O documentário não tem um discurso mais de esquerda? porque vem o cara do futuro, e não existe
portante, mas não é o corpo de periferia. é o espaço do sofrimento porra nenhu- Esquerda no sentido de um lugar que o cara do futuro em documentário, esse
Porque, para esse pessoal, a periferia só ma, quem disse que é isso? Para mim, o discute a realidade brasileira e blá blá cara do futuro é falso! E não porque a po-
é legítima quando fala o real, a possibi- documentário é o que leva à vingança: blá. Por exemplo, na literatura brasileira, lícia não fez a violência. Entendeu como
lidade de fabular é de classe. Para mim, é fabular e tocar o terror. Falar: “velho, esse os textos que reivindicam o lugar de es- a forma é incrível? Sem saber – e eles não
muito claro: existe uma classe que pode lugar que para gente é construído não é querda, a forma é horrível em quase to- sabem disso – a forma pode provocar os
fabular e uma que não pode, e a classe natural”. Então, porque em filme de cara dos, porque é cansativo, quer dizer nada, lugares mais estabelecidos da sociedade.
que fabula projeta que existem filmes e rico os caras não sofrem tanto? Até no é uma chatice. Para ver Globo Repór- A forma é incrível, não é o conteúdo. Se
existem documentários. A primeira con- documentário deles, o sofrimento é exis- ter, eu assisto Globo Repórter, que tem o cara questiona se o cara do futuro é ou
versa que eu tive com Marquinho, ele fa- tencial, não é de corpo. Eles se divertem, milhões de grana, tem know-how, sabe não é, isso é o cúmulo do ridículo, mas a
lava para a gente: “eu não quero falar da eles fabulam, mas nos documentários de fazer aquilo. Para assistir novela, eu assis- polícia falar isso é incrível. Queria justa-
minha vida, foda-se a minha vida, eu já periferia tem que ser a realidade de peri- to na Globo. Para fazer isso, os caras já mente ter esse debate. Como ia chamar
perdi, eu quero dar tiro, eu quero zoar. feria. Aí eu te pergunto: de que periferia fazem. A forma deles de fazer é que é re- para discussão o genocídio dos jovens ne-
Vocês não fazem cinema, seus filhos da você está falando? acionária. Eu acho que o lugar da gente, gros nos anos 1980, e hoje também?
puta? Eu tô de saco cheio de falar que eu O que é o rap? O que é um baile bla- talvez, é o mudar a forma. No filme que eu tô fazendo agora, o
levei um tiro e tô na cadeira de rodas”. ck, se não os caras que criavam toda uma Nesse sentido, dos meus filmes, eu Marquinhos é ator e vai morrer sete ve-
Entendeu? É quase um sadismo reafir- dinâmica de aventura no baile black, a gosto mais de “Branco sai”. O “Branco zes e sempre ressuscita no filme. Quero
mar o lugar dele, eu vou reafirmar no ci- fantasia, que a partir da gangue a gente sai” é muito mais interessante por causa fazer uma representação do genocídio da
nema que ele é sofrido! É muita falta de pode construir símbolos, representações? do lugar a que eu quero chegar. Como o juventude jovem e negra que a polícia as-
sensibilidade a pessoa ver um filme e não As conversas de periferia são invariavel- absurdo vira filme? Como acontece uma sassina. Morto sete vezes na esquina por
imaginar que aquele corpo do Marqui- mente de aventuras. Como é a conversa coisa que vai destruir Brasília? Só acon- um alienígena vestido de policial, os caras
nho ainda é o corpo do Marquinho, ele do MTST quando foge do discurso polí- teceu o filme porque partia de uma ideia perseguem ele, ele vai morrer, a polícia
fabula, ele tem sonhos, ele quer ser boni- tico? Não é de aventura, talvez? Da pes- de documentário. Talvez, se eu tivesse o chega, mata ele sete vezes e ele levanta.
to. Então a gente filmou o Marquinhos caria, do jogo de futebol. roteiro pronto, a pretensão de fazer um Ele vai morrer sete vezes, como se fosse
como se ele fosse um ator de Hollywood. Assistiram ao clipe do Marighella? Eu filme pra contar uma história, eu ia cair um gato. E, no final, vai matar a polícia.•
Marquinhos é lindo nesse filme, tanto é acho o Mano Brown e os Racionais os no lugar comum. A ideia do documen-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 33
D
esde o levante popu- vestimentos” em infraestrutura de Lula. Um fenômeno de des-
lar e juvenil de junho do governo federal, o PIL2, fica O crescimento da moralização dessa velha esquerda
O
de 2013, está evidente ainda mais evidente a captura do direita no Brasil que expressa, no terreno político,
o descrédito das ins- PT e seus aliados de turno à re- crescimento da ban- o que o ajuste expressa no terre-
tituições, partidos e formas tradi- ceita econômica da direita e aos cada conservadora no econômico: a total capitulação
cionais de representação política. interesses do empresariado. Os no Congresso brasi- do PT, sua completa adaptação ao
Aquele evento colocou o Brasil investimentos são, na realidade, leiro, e as manifesta- modelo tradicional de governar.
na rota dos indignados do mun- privatizações apelidadas de parce- ções impulsionadas pela direita, Exatamente o oposto do que os
do inteiro. Das mobilizações na rias público-privadas (PPPs). criaram um clima de justa preo- petistas e eleitores do PT espera-
Praça Tahir e nas grandes cida- O que ocorre aqui no Brasil cupação em parte da vanguarda vam quando viram, em 2003, “a
des do norte da África, que pro- com o PT não é muito diferente lutadora. Agora, já está claro que esperança vencer o medo”.
tagonizaram a Primavera Árabe, do que ocorreu na Europa com os a ameaça de impeachment funcio- A direita personificada no
às lutas urbanas europeias - como partidos da esquerda tradicional. nou, na verdade, como uma arma Presidente da Câmara, Eduardo
as das ocupações de praças pelo A crise de 2008 desnudou essa es- apontada contra uma presidente Cunha, também está atolada na
movimento dos Indignados es- querda rendida, que se jogou na que, depois de anunciar um pro- lama da corrupção, mas o PT não
panhóis -, passando pelo Occupy implementação dos ajustes contra grama que parecia mais o do seu tem mais condições de apontar o
Wall Street ou pelas mobilizações o povo, idênticos aos aplicados pe- adversário, viu erodir sua base so- dedo contra eles. Assim, ao invés
turcas, a questão democrática e los partidos da direita tradicional. cial. Com essa cartada, o PSDB de se enfraquecer com as revela-
os problemas urbanos estiveram Assim, eles foram se revezando no tratou de garantir a submissão dela ções de seu envolvimento nos es-
no centro das disputas políticas e poder e seguindo as políticas em aos interesses capitalistas de modo cândalos da Petrobrás, Eduardo
da elaboração de novas formas de defesa do capital. O descontenta- cabal e irreversível. E conseguiu. Cunha foi para a ofensiva, colo-
ação popular. A luta por demo- mento do povo cresceu em todos O PL das terceirizações é fruto cando em votação a redução da
cracia real e a luta por uma cida- os países, o que fez com que quem dessa fraqueza do governo e do maioridade penal de 18 para 16
de que responda aos interesses da governava perdesse as eleições. A interesse do PMDB em sinalizar anos. Uma proposta muito popu-
maioria se combinam, fazendo esquerda tradicional perdeu para à burguesia seu compromisso em lar, pois a ideia de que os jovens que
eclodir movimentos como os de a direita, e a direita perdeu para garantir o crescimento da taxa de cometem crimes ficam impunes é
junho de 2013, e também ocupa- a esquerda tradicional. Mas a al- lucro através do rebaixamento do muito disseminada, com a mesma
ções urbanas das praças, das ruas, ternância é fictícia, pois o modelo custo da mão de obra. Isto é, atra- força daquelas mentiras que ve-
de prédios e terrenos, os bloqueios econômico aplicado é o mesmo. vés de uma exploração ainda mais mos crescer nas redes sociais e que
de estradas e grandes avenidas dos A vontade popular é sistematica- brutal da classe trabalhadora. O muitos acreditam sem questionar.
centros urbanos. O processo bra- mente ignorada. que a burguesia quer, e aparente- A informação básica dificilmente
sileiro é parte de um fenômeno Mas não foi assim em todos mente vai conseguir, é a aplicação aparece: milhares de jovens entre
mundial. os países. Na Grécia, o povo em- do ajuste que garanta o pagamento 12 e 17 anos estão encarcerados
pobrecido foi às ruas, fez greves de juros da dívida pública, assim cumprindo “medidas socioedu-
A
A luta por democracia real e protestos, ocupou as praças. como na Europa. Basta ver que só cativas” em condições nada edu-
guinada à direita do Como resultado, depois de muita o aumento da taxa de juros desde cativas. Não se diz também que
PT vem de muitos crise política, durante a qual se al- as eleições elevou as despesas do apenas 0,5% dos homicídios no
anos, mas o que ocor- ternaram os partidos da esquerda governo em R$ 45 bilhões ao ano. Brasil são cometidos por inimpu-
reu após as eleições de e da direita tradicionais, ganhou Nessa despesa, não há ajuste, há táveis, enquanto que 53,3% dos
2014 marcou o ápice deste proces- o Syriza. Ganhou sem alianças reajuste. E os arautos da necessi- homicídios têm por vítimas estes
so e revelou de forma inconteste espúrias, sem financiamentos dade de “equilibrar” o orçamento jovens. Assim, os políticos vão ali-
a ausência de democracia real. suspeitos, sem abrir mão do seu nada dizem sobre isso. mentando a confusão entre o sen-
O povo vota, mas quem decide programa, cujo eixo é não aceitar O PSDB esperneia, por que timento de vingança com o dever
são os mercados. Após confron- mais o ajuste nas costas do povo. quer ele mesmo governar, mas é de fazer justiça. Fazem isso para
tar o PSDB no segundo turno e Não sabemos ainda se vão conse- “responsável” o suficiente para continuar roubando descarada-
conquistar a reeleição, Dilma e o guir resistir às pressões para que saber que não pode colocar seus mente, e oferecem para a socieda-
PT renderam-se completamente, cedam, mas estão tentando. Na interesses políticos acima das ne- de, em uma tentativa de “acordo
aplicando uma política econômi- Espanha, onde também essa alter- cessidades do capital. Por isso, não de leniência”, o encarceramento
ca perversa, que tem como único nância fictícia vinha ocorrendo, querem derrubar Dilma, querem, de adolescentes infratores, ven-
objetivo garantir os interesses do vieram as lutas dos Indignados, sim, que ela aplique o ajuste, ga- dendo a ilusão de conseguir mais
capital financeiro. que tomaram as ruas e praças em rantindo o superávit primário para segurança através de mais presos e
Ao mesmo tempo em que apli- grandes protestos, e surgiu o Po- pagar os juros da dívida, e espe- penas mais duras. Mas o sistema
ca uma política econômica que demos, que, hoje, é uma força po- ram que o descontentamento po- carcerário é tão cruel que os pre-
vai aumentar o desemprego, o lítica poderosa, tendo conquista- pular os leve a vencer as próximas sos saem de lá mais violentos do
governo propõe uma nova legis- do a prefeitura de Barcelona com eleições. O PT, ao mudar de lado, que quando entraram.
lação para deixar milhões de no- uma candidata que esteve à frente permitiu que o PSDB se fizesse Diante disso, é preciso dizer: a
vos desempregados sem nenhum da luta contra os despejos. O Po- passar por defensor das mudanças velha esquerda que se iguala à di-
auxílio. A bancada do PT votou demos tem o mesmo eixo progra- desejadas pelo povo. Exatamente reita na aplicação do ajuste e nos
praticamente unida a favor dessa mático da Syriza: não ao ajuste; como ocorreu na Europa. métodos corruptos de governar
medida cruel. A simbologia que que os de cima paguem pela crise. Somado a tudo isso, temos a é a responsável por esse fortale-
essa política constrói é inegável. Na Grécia, e possivelmente na Es- corrupção, que levou para a ca- cimento da direita que ameaça
Para quem ainda não havia per- panha, se abre a possibilidade de deia os dois últimos tesoureiros os direitos trabalhistas com o PL
cebido, ficou evidente que o PT construir outro caminho, no qual do PT, além de um ex-presidente das terceirizações, e propõe o au-
passou para o outro lado. Com o o poder, de fato, seja exercido pelo da legenda e de um dos principais mento do encarceramento juvenil
anúncio do novo pacote de “in- povo. ministros do primeiro governo como resposta à violência urbana.
34 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
Estamos, agora, em um mo- esse processo expulsava os traba- não o da habitação social. tico, por colocar como seu centro
mento de travessia. Os próximos lhadores sem-terra dos latifúndios A prefeitura, comandada pelo a luta por direito à cidade, isto é,
anos serão muito importantes na frequentemente improdutivos, por PDT e pelo PMDB, vetou o pro- reivindicar-se como parte funda-
construção do desfecho desse pro- outro, nos centros urbanos, acabou jeto. Contudo, após uma intensa mental da elaboração do projeto
cesso. É preciso construir urgente- assegurando em porções territo- mobilização, na qual o nosso ca- de cidade, do tecido urbano como
mente uma alternativa de esquerda riais centralizadas e mais vantajo- marada Juliano Fripp foi uma das um todo. Junto com as lideranças
coerente para o Brasil. O PSOL já sas aos negócios a concentração de lideranças fundamentais, os vere- da ocupação, como os companhei-
tem um acúmulo de 10 anos nessa equipamentos públicos e privados adores foram obrigados a ceder à ros Raposão e Bruno Magalhães,
construção. Somos muito orgu- essenciais para o bem estar nas ci- pressão popular e a derrubar o veto o geógrafo e dirigente do PSOL
lhosos das decisões que tomamos lá dades. da prefeitura, garantindo que a lei Maurício Costa acompanhou todo
atrás, em 2003, quando nos rebela- As minorias que se construíram se tornasse realidade. Infelizmente, o processo.
mos e fomos expulsos do PT por como dominantes a partir desses a Justiça acabou garantindo uma li- Foi na esteira da retomada des-
não aceitar assistir passivamente “centros” econômicos foram as minar à prefeitura e suspendendo ses amplos movimentos urbanos
esse processo de autodestruição do que também estabeleceram as re- temporariamente a medida. Se- que o MTST alcançou um prota-
PT que, sabíamos, seria fatal para gras, normas e leis que definiam guimos na luta política, jurídica e gonismo muito grande da luta so-
toda a esquerda se uma alternativa o crédito imobiliário, o acesso à social para que a lei das AEIS seja cial que, de São Paulo, se espalhou
não começasse a ser construída. propriedade e as estratégias de ur- cumprida. para o país. Impuseram na pauta da
Mesmo após 10 anos, sabemos banização. Por seu turno, à maio- Apesar dos revezes no Judiciário discussão do Plano Diretor muni-
que estamos no começo. Sabemos ria do povo restou as terras mais – que ainda parece ter dificuldades cipal uma série de reivindicações
também, entretanto, que o pro- distantes, à margem dos melhores em compreender a complexidade de Zonas Especiais de Interesse
cesso político não é linear: saltos projetos desenvolvidos pelos em- da questão da moradia nos grandes Social (ZEIS) que atenderiam áre-
e recuos estão sempre à espreita. preendimentos imobiliários e da centros urbanos –, o processo po- as de ocupações do movimento,
O Podemos na Espanha surgiu legalidade urbanística e ambien- lítico vivido em Porto Alegre de- além de outros dispositivos de de-
há dois anos e já tem a uma for- tal. Assim, proliferaram-se as fa- monstrou a força e a importância mocratização do solo urbano que
ça enorme. Tudo depende da luta velas, assentamentos informais, da luta por moradia e por reforma atenuassem o Plano que foi diri-
de classes e da movimentação das loteamentos irregulares, precários urbana. No Brasil inteiro, os mo- gido prioritariamente às grandes
forças políticas e sociais. A organi- ou clandestinos, construídos pe- vimentos sociais vêm demonstran- empresas do mercado imobiliário.
zação das lutas e mobilizações uni- los trabalhadores com as próprias do que a reforma urbana possui um Em 2014, o MTST pautou tam-
tárias, como foi o último dia 29 de mãos, a partir de sua condição de papel central na luta pelo direito à bém a agenda da Copa do Mundo
maio, é fundamental no desenho baixos salários e falta de recursos cidade, devendo estrar presente com manifestações e grandes ocu-
desse futuro. técnicos. As ocupações urbanas de forma estruturante nos debates pações, com destaque para a ocu-
em defesa da moradia e o fortale- eleitorais de 2016. pação Copa do Povo que, a poucos
As eleições municipais cimento do MTST são elementos Outro exemplo que acompa- quilômetros do estádio da abertura
É
e o problema urbano fundamentais na resistência a esse nhei de perto foi a ocupação Zum- do megaevento, transformou-se
claro que os problemas processo. O PSOL está empenha- bi dos Palmares, em São Gonçalo, em manchete da imprensa inter-
crônicos e estruturais do no fortalecimento dessas lutas e no Rio de Janeiro, que também nacional, evidenciando as enormes
do capitalismo não po- eu, pessoalmente, acompanhei al- contou com a participação ativa contradições do desenvolvimento
dem ser resolvidos a guns desses processos. do PSOL, através do apoio mi- urbano brasileiro, desmascarando
partir da formulação de modelos Em Porto Alegre, onde vivo, litante do companheiro Josemar a propaganda de desenvolvimento
de gestão presos aos limites estatais existe um déficit habitacional bru- Carvalho, junto com o Eduardo social do governo federal.
das fronteiras municipais. Esse foi tal: mais de 38 mil pessoas não têm Eletricista, uma das lideranças que Estes são apenas alguns exem-
justamente o erro que contribuiu onde morar e pelo menos 54 mil iniciou a luta. Essa ocupação du- plos de lutas pela moradia que es-
bastante para a adaptação do PT se inscreveram no programa Mi- rou 12 dias, e se retirou após uma tão ocorrendo no Brasil inteiro.
à velha política, ao fisiologismo e nha Casa, Minha Vida em 2009. negociação com a Prefeitura e com Juntamente com outras, como o
ao vale tudo para se manter como Até hoje, menos de 2 mil unidades o Governo Federal. Conquistou- caso do Ocupe Estelita em Recife,
administrador dos negócios capi- foram entregues. Por conta disso, se uma importante vitória política, pautam não só a questão da mora-
talistas das cidades que governou. proliferam-se pela cidade dezenas pois a Prefeitura se comprometeu a dia, mas também a luta pelo direito
Contudo, se pensarmos em uma de ocupações urbanas nas mais indicar o terreno, o governo fede- à cidade, pois o “desenvolvimen-
luta política anticapitalista que se diversas regiões. São pessoas que ral, via Caixa Econômica, a com- to” capitalista descontrolado tem
desenvolva em escalas maiores – buscam, em terrenos desabitados prá-lo, e o MTST a montar o pro- se apropriado dos terrenos urbanos
nacionais e internacionais -, é ine- há anos, uma vida distante do pe- jeto para construção. para garantir a acumulação desen-
gável que a disputa pela cidade é sadelo de alugueis exorbitantes e Mas foi principalmente em São freada de capital, financiando a ex-
parte da construção de um novo do limbo em que se converteu o Paulo que os movimentos urba- pansão interminável e desordena-
projeto de poder. programa federal de moradia. nos e de moradia – que historica- da do crescimento urbano, sejam
E
Assim, construir um modelo mente foram base importante da quais forem suas consequências
político de transição entre a barbá- m dezembro de 2014, configuração da metrópole – vi- sociais, ambientais ou políticas.
rie capitalista cotidiana e um país a bancada do PSOL na veram uma grande retomada após Nosso desafio é constituir um
onde a justiça prevaleça a partir de Câmara Municipal con- as jornadas de junho de 2013. Nos tipo totalmente novo de cidade,
uma organização verdadeiramente seguiu aprovar um pro- três meses seguintes, dezenas de mas isso só pode ocorrer a partir
democrática da maioria, passa ne- jeto de lei cuja elaboração contou ocupações espontâneas de terre- de um vigoroso movimento an-
cessariamente por elaborar sobre com a participação decisiva da ar- nos vazios espalharam-se pela ci- ticapitalista cujo objetivo central
que tipos de cidades teremos. Isto quiteta Claudia Favaro e do IAB, dade. Só no distrito periférico do seja a transformação da vida urba-
é, passa pela discussão central de determinando que 14 ocupações Grajaú, o maior da capital, foram na como um todo. Como afirma
como mobilizar os trabalhadores urbanas passariam a ser declaradas mais de 30 ocupações. Delas sur- David Harvey, reivindicar o direi-
urbanos para construir seu projeto Áreas Especiais de Interesse Social giram experiências importantes to a cidade é uma estação inter-
independente de vida. (AEIS). A iniciativa beneficia 25 de movimentos sociais, como é o mediária na estrada que conduz ao
No centro do rápido movimen- mil pessoas e permite que os terre- caso do Nós da Sul que, a partir de objetivo de derrubar a totalidade
to que levou uma enorme quanti- nos onde elas estão possuam acesso uma articulação de movimentos do sistema capitalista e suas estru-
dade de pobres a transformarem-se regular a energia elétrica, abasteci- de educação em escolas públicas turas de poder e de exploração.•
em força de trabalho urbana, está o mento de água e esgoto. Além dis- e de moradia, constituiu-se como
pilar fundamental da concentração so, assegura que a propriedade não movimento independente não só
de propriedade. Se, por um lado, será utilizada para outro fim que reivindicativo, mas também polí-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 35
E
u estava certo de que o chamado da telefonista anuncian-
do uma paciente às cinco e oito da manhã seria mais uma
das vezes que atenderia alguma senhora de meia idade com
formigamento nos braços e dor de cabeça, queixas para
as quais a minha pobre medicina não tem argumento nem razão,
quando cheguei ao consultório e vi inscrito na ficha oitenta e nove
anos, procurei a dona da ficha e fui avisado que já estava na sala de
emergência.
Entrei e encontrei uma senhora bastante magra, negra e marcada pelo
tempo, acompanhada de outra mulher, bem mais jovem também
negra, de olhar profundo e terno, vestida com uma blusa muito
colorida e com um nó na altura do umbigo, me suplicou ajuda
com olhos já marejando de lágrimas, apresentei-me, comecei a
conversar, ela pediu a deus que sua mãe ficasse bem, a vida pulsan-
do naquela relação de cuidado e ternura, eu submetendo cada gota
da minha técnica para dar algum tipo de resposta, a precariedade do
meu ser e das minhas certezas perante o amor que transbordava entre as
duas, examinei-a com o máximo de delicadeza que meus olhos e mãos
insones permitiram, realizei os procedimentos necessários e, antes de sair
da sala, peguei nas mãos da filha e parabenizei-a pela relação de cuidado
que eu vi que tinha com sua mãe.
Pouco tempo depois, uma mulher branca, de jaleco, olhar vazio, voz
estridente, anunciou-se dona daquele hospital, entrou no consultório,
avistou a radiografia da senhora atendida na sala de emergência,
holografou a gravidade do quadro com um anúncio tão mono-
cromático quanto as cores da imagem examinada, cada palavra
proferida em nossa conversa exalou a morte, reafirmou que a
senhora deveria ser internada, quase comemorou mais uma
cliente, disse-me que conhecia a filha, mandou um dos seus
empregados chamá-la e aguardou silenciosamente enquan-
to a buscavam.
O silêncio se quebrou, irrompeu na sala aquela linda
mulher negra e com olhar triste, cumprimentou a mu-
lher por “doutora”, contou que sua mãe estava ali, a mé-
dica disse que sabia, levantou-se e foi até ela, investigou seu
rosto, mediu seu corpo, perguntou que cara de velório era
aquela, que roupa colorida estranha usava, reprovou a altura da
blusa no umbigo, desceu o nó da blusa de maneira violenta, a filha
ficou desconcertada, deu um sorriso de agonia, a médica retomou
o assunto da mãe como se falasse da previsão do tempo, anunciou
que sua mãe ficaria internada, proferiu que pela relação que
tinham tudo seria feito sob as melhores condições e o preço
mais acessível e dispensou a conhecida como uma criada.
A conversa com a médica finalmente terminou, passei
na sala de emergência, encontrei a senhora negra deitada
em uma das macas, sua filha deitada na maca ao lado,
soluçava e passava mal, fui até ela, peguei novamente
em suas mãos, tentei falar palavras evasivas sobre a si-
tuação de sua mãe, ela me olhou nos olhos, me abraçou
chorando, me disse que sua mãe era a pessoa mais importante
do mundo, que não estava preparada para viver sozinha, que
deus não a preparou para a ausência de sua mãe, meus olhos
se encheram de um misto de admiração e ódio, disse-lhe que
sua mãe era uma senhora linda e cheia de amor, fui até o leito
ao lado, coloquei as mãos em seus cabelos brancos e seu rosto
febril, repeti mais uma vez que sua mãe ficaria bem, saí dali
com o ódio daquela velha médica, com um pouco da ternura
da filha, com toda a minha precariedade, minha falta de razão,
meu vazio de argumento, entrei no carro, olhei-me no retro-
visor e chorei.•