Homenagem a Lutadores do MTST
Homenagem a Lutadores do MTST
Joãozinho, presente!
A elas, o nosso muito obrigado!
Agora e sempre!
Plinião, presente!
Agora e sempre!
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 3
ÍNDICE EDITORIAL
Freio de EMERGÊNCIA
Conselho Executivo Territórios Transversais. 4 Freio de emergência
C
Debates Transversais: om enorme satisfação, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
PRA ONDE VAI O LULOPETISMO? (MTST), contando com solidariedade e confiança de leitores, apoiadores
Maria Orlanda Pinassi, professora de Sociologia Unesp de Araraquara 6 e aliados, supera as dificuldades e lança o segundo número da Revista
Valter Pomar, historiador e militante do PT.
Territórios Transversais.
No intuito de colaborar com o empenho de elaboração contido no conteúdo
Resenha: A Atualidade de ROTA 66 da edição, aproveitaremos esse espaço para compartilhar possibilidades de leitura da
Deni Ireneu Alfaro Rubbo, sociólogo, autor de “Párias da terra: o MST e 9 realidade bem como alguns de nossos desafios e inquietações. Dada a complexidade
a mundialização da luta camponesa” (Alameda, 2014)
da tarefa de apreensão crítica do capitalismo no início do século XXI, com atenção
especial para o caso brasileiro, pretendemos fornecer nossas singelas contribuições,
Anatomia da Nova Pobreza Urbana
Loïc Wacquant, professor de Sociologia na Universidade da Califórnia- 10 visando, sempre, transformações que atinjam as raízes da destrutiva lógica da
acumulação capitalista.
Berkeley e Pesquisador do Centro de Sociologia Europeia-Paris.
Os artigos que compõem esse segundo número de “Territórios Transversais”
A Escola da Revolução veiculam conteúdos de absoluta responsabilidade dos autores, a quem agradecemos e
Ana Paula, professora de sociologia, da coordenação nacional do MTST 12 reforçamos o convite para colaborarem com futuros volumes. Agradecemos também
Natália Szermeta, da coordenação estadual do MTST/SP. aos ilustrador Gus Morais, aos cartunistas e poetas envolvidos e à revisão realizada
por Pedro Rocha de Oliveira, membro do Conselho Editorial.
Carta a quem sonha em ser jogador de Futebol 14 Feitas estas considerações preliminares, mãos à obra!
Juca Kfouri, cientista social e jornalista esportivo. Com a nomeação da “velha-nova” equipe econômica do governo federal, não
precisamos ser um “caça-fantasma” para captar o espectro do formulador da “carta
Crise da ÁGUA em SÃO PAULO ao povo brasileiro” - Antonio Palocci - e, sobretudo, do principal fiador, articulador
Marzeni Pereira, trabalha há 22 anos com saneamento, tecnólogo Especial-
ista em Engenharia de Saneamento Básico e da Oposição do Sintaema.
16 e operador do projeto político-econômico contido na carta – o ex-presidente Luis
Inácio Lula da Silva. Tanto lá como cá, desponta a pretensão de “apaziguamento”
dos ânimos dos adoradores endinheirados do “Deus-mercado”, especialmente os
Ensaio: UMA NOVA PRIMAVERA rentistas/especuladores (e seus porta-vozes incrustados na grande mídia empresarial).
Gregório Bruning, fotógrafo residente do Mímesis|Conexões Artísti-
cas e militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.
18 Para assegurar a plena eficácia dessa “terapia de apaziguamento” apenas
representar os interesses não foi suficiente. Nomeou-se, então, o mercado
financeiro de forma direta para dentro do governo. Henrique Meirelles e Joaquim
A Coragem de EDSON SILVA 22
Levy “Mãos de Tesoura” personificam tal encaminhamento: altos executivos do
Edson Silva, da coordenação nacional do MTST universo das finanças, ambos professam, no século XXI, e sem rodeios, o dogma
de que o mercado sem intervenções externas geraria estabilidade econômica (e, por
EBOLA: um vírus no coração das trevas consequência, social), assim como maximizaria a criatividade e a disposição dos
Jean Batou, professor de história internacional contemporânea, em
Lausanne (Suíça) e membro do SolidaritéS.
24 agentes econômicos.
O constante “apaziguamento” dos ânimos das altas finanças tornou-se um
alicerce muito funcional da engenharia de governo inaugurada em 2003 com a
Teatro e Política: a experiência do MST vitória eleitoral do PT. Considerando o contexto capitalista de financeirização
Julian Boal e Paula Kropf entrevistam Rafael Litvin Vilas Boas, membro 26 transnacional da economia, tal engenharia de governo pretende combinar a
da Brigada Nacional de Teatro do MST e professor da UnB. relativa melhora nas condições de vida de milhões de brasileiros e brasileiras com
a preservação do funcionamento das engrenagens que catapultam a lucratividade
CRISE CAPITALISTA em perspectiva do sistema financeiro. A dimensão da rentabilidade desse setor pode ser verificada,
Felipe Brito, professor da UFF e da coordenação nacional do MTST. 27 por exemplo, no lucro somado de quatro bancos (Itaú, Bradesco, Santander e
Banco do Brasil), de aproximadamente U$ 20,5 bilhões, que superou o PIB de 83
países, em 2013 . Com isso, a busca de melhoria de vida da massa de mulheres e
A Ilusão da REFORMA URBANA homens em condições de miséria e pobreza desvinculou-se de um enfrentamento
Maria de Fátima Tardin Costa, arquiteta e urbanista. 28 (amplo, profundo e frontal) das bases da ordem social (que exigem confrontação
a grandes agenciamentos de poderes econômicos e políticos, operados por bancos,
empreiteiras, latifundiários, grande mídia etc.).
Conto: O HOMEM VENCIDO 31 A referida “terapêutica apaziguadora” também foi empregada no setor industrial.
Daniela Lima, escritora.
Foi nomeado Armando Monteiro Neto, ex-presidente da Confederação Nacional
da Indústria (CNI), para desempenhar a função, “coincidências a parte”, de Ministro
POESIA PALESTINA: Mahmoud Darwish 33
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Se na vice-presidência da
Jeff Vasques, poeta, militante do PCB. vitória eleitoral de 2002 encontrava-se o empresário industrial José Alencar, o fio de
coerência foi mantido na escolha. Como não citar também a inclusão da presidência
da Confederação Nacional da Agricultura - entidade que aglutina os 2,3% de
Ilustrações e Capa Quadrinhos/Charges proprietários de 47,2% de toda a área do país disponível para a agricultura: Kátia
Gus Morais ([Link]) Nico e André Dahmer.
Abreu é a nova Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
continua na página 4
D
empreendedoristas e “empoderadoras” Vale citar, ainda, sobre o polo da de mercadorias (incluindo serviços),
e maneira geral as medidas (que utiliza a arte e fragmentos de cultura dominância financeira, que há anos independente do nível de renda de quem
voltadas aos pobress basearam- popular como promessas de “ascensão ininterruptos ocorre uma sangria o realizou, como o ICMS (Imposto sobre
se,fundamentalmente, no econômica”). dos recursos públicos para compor circulação de mercadorias e prestação
alargamento do acesso Essas medidas conseguiram gerar o pagamento de um sistema de de serviços) e o IPI (Imposto sobre
à sociedade de consumo, que em capilaridade pelos rincões do país, que se endividamento tratado como uma lei produtos industrializados). Esse tipo de
um contexto de ampliação da lógica traduziu em densidade eleitoral entre uma irrefutável. A tesourada orçamentária imposto corresponde a quase a metade
mercadológica privatista inclui até massa urbana e rural de trabalhadores de Levy, visando a obediência à “lei de todos os tributos arrecadados no
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 5
país. O Imposto de Renda, contribui Promovido por uma empresa de maioria parlamentar identifica-se com as do empresariamento urbano (novo
com menos de 20% da arrecadação consultoria (Boston Consulting Group), propostas que carregam contra-reformas modelo de gestão de cidades que, além
tributária, enquanto que outros impostos divulgado na grande mídia (especialmente trabalhistas e previdenciárias em nome de preparar o espaço urbano para a
cobrados sobre o patrimônio têm uma em publicações voltadas ao público do tal “choque de competitividade”, produção, circulação e consumo de
representatividade irrisória no total empresarial), colocou Indonésia e Índia, postulado para a economia brasileira mercadorias, trata e gere a cidade como
arrecadado. O fato é que os tributos respectivamente, como campeã e vice- voltar a crescer. Em relação ao oligopólio uma mercadoria propriamente dita),
regridem (no lugar de progredirem) campeã; México e Tailândia, empatados, midiático, um mero aceno (ainda acelera a máquina urbana de segregação
conforme aumenta a renda, fixando um em terceiro lugar, ultrapassando a China, impreciso) de se inaugurar uma discussão e espoliação. A intensa e sofisticada
sistema predominantemente regressivo que consta no quarto lugar . É importante acerca da regulação da mídia já suscitou mercantilização urbana vende vitrines
e indireto. Logo, no Brasil pobre paga lembrar que na posse presidencial, Dilma fortes reações de parlamentares. O debate de cidade, mas não consegue “jogar para
mais tributo, proporcionalmente, do que Rousseff proclamou: “nenhum direito da reformulação do sistema político- debaixo tapete” o absurdo acúmulo de
rico: o trabalhador com até dois salários a menos, nenhum passo atrás, só mais eleitoral não passa de um “lenga-lenga” mazelas decorrentes da crise urbana.
mínimos compromete, em média, 53,9% direitos e só o caminho à frente. Esse que, como um pêndulo, transita da É possível, inclusive, avaliarmos que a
da renda com impostos, ao passo que o é meu compromisso sagrado perante pasmaceira para o cinismo, e vice- grande onda de atos de junho de 2013
endinheirado com rendimentos acima vocês”. Contudo, um grave alerta soou: versa. Por ora, enfocamos brevemente o bem como o aumento expressivo de
de 30 salários mínimos compromete a tesourada de R$ 18 bilhões em cinco Congresso Nacional, mas se ampliarmos ocupações urbanas a partir daquele
29% . No caso do Imposto de Renda benefícios previdenciários: seguro- a análise para os Legislativos estaduais e período tiveram como pano de fundo a
de Pessoas Físicas cabe, ainda, uma desemprego, abono salarial, pensão municipais o cenário não será menos crise urbana.
consideração importante: em 2013, o por morte, auxílio-doença e seguro- desolador. Um dos mais tenebrosos capítulos
montante previsto de deduções referentes defeso (benefício direcionado para os dessa crise exprime-se no homicídio
a gastos com saúde e educação privadas, pescadores). A nova rodada de arrocho em massa de mais de 1 milhão de
dentre outros, foi de R$ 37,354 bilhões fiscal estava inaugurada. O Minha Casa Minha Vida, brasileiros, em três décadas (de 1980 a
. Vale lembrar que no ano passado o alheio a um projeto de 2010). Acomodada ao funcionamento
investimento do Bolsa Família foi de transformação radical cotidiano do regime democrático em
R$ 24,5 bilhões. Assim, trabalhadores
O debate da reformulação vigor, essa mortandade é marcada pela
mais espoliados participam do do sistema político-eleitoral das cidades não gera um seletividade étnico-racial, econômica e
financiamento dos gastos privados num contexto de retrocesso enfrentamento às teias espacial: jovens negros, pauperizados e
da elite e da classe média, de onde evidente não passa de um segregadoras da especulação. moradores de áreas urbanas favelizadas
provêm, em grande parte, reprovações “lenga-lenga, um pêndulo que compõem, preferencialmente, as cifras
A
segregadoras e rancorosas de qualquer do extermínio vigente no Brasil . E
política de transferência de renda com
transita entre a pasmaceira e questão urbana (ou melhor, a é exatamente esse massivo segmento
condicionalidades, como o Bolsa o cinismo. crise urbana) também merece de seres humanos mais vulneráveis ao
Família, e de ações afirmativas, como destaque. Atualmente, cerca extermínio que superlota os presídios
as políticas de cotas nas universidades de 85% dos brasileiros e brasileiros, formando a terceira maior
públicas. Os sinais de alerta aumentam quando brasileiras moram em cidades, erguidas população carcerária do mundo, atrás
P
verificamos o perfil predominante no sobre dinâmicas cada vez mais cristalizadas apenas dos EUA e da China. Em junho de
ara seguir a análise, frisamos um Congresso Nacional eleito em 2014. de segregação e espoliação socioespaciais, 2014, o país contabilizava 715.655 presos.
indicador econômico - a balança Além disso, quando grandes obras de operadas por vias entrelaçadas do O aprofundamento da militarização
comercial. Em 2014, tivemos o infraestrutura e megaempreendimentos mercado e do Estado. O peso econômico das polícias encontra correspondência
pior déficit da balança comercial, são negociadas com os principais do capital imobiliário traduz-se em na ampliação do direcionamento das
desde 1998, no valor de U$ 3,93 bilhões. patrocinadores de campanhas eleitorais, um similar peso político, esparramado Forças Armadas à atuação no plano
Isso indica que o país está exportando o financiamento privado de campanhas pelos diversos setores e níveis do Estado. interno, em nome da “garantia de lei e
menos mercadorias e serviços; o reverso converte-se em investimento prioritário Nesse circuito espoliador e segregador, o ordem”. Governança territorial armada
da mesma moeda é que o país está e estratégico, na qual as faturas serão drama do déficit habitacional continua de territórios favelizados, como ocorre
importando mais, e é exatamente esse cobradas, e por meios diversos. Somente afetando milhões de mulheres e homens, no complexo de favelas da Maré, e
montante de importados que alimenta sete grandes empresas da construção e enquanto isso a especulação fundiária, reestruturação do Centro de Informações
o consumo interno aquecido. Esse ciclo civil, UTC, Odebrecht, Queiroz Galvão, patrimonial e imobiliária não apenas do Exército (CIE) para monitorar
contribui para o prolongamento da forte Engevix, OAS, Galvão Engenharia e prossegue nos termos tradicionais, mas movimentos sociais, demonstram que a
tendência à desindustrialização, em Camargo Corrêa foram responsáveis por propaga seu alcance às periferias urbanas, hipertrofia vigilante-repressiva-punitiva
um contexto capitalista marcado pela doações de R$ 111,4 milhões a candidatos provocando “periferias das periferias”. atinge também as lutas políticas alem de
financeirização/especulação e hipertrofia a governos estaduais e a presidência da O encarecimento do aluguel em favelas atuar diretamente na criminalização da
do setor de serviço/comércio. No caso República de vários partidos diferentes . e bairros periférico de Rio de Janeiro pobreza. Nesse contexto, tornam-se cada
do Brasil, essa tendência acompanhou a Se tomarmos como parâmetro temporal e São Paulo, por exemplo, expulsa os vez mais claro os limites e o esgarçamento
derrocada do projeto desenvolvimentista a chamada “redemocratização”, um moradores para lugares mais distantes. da acrobacia de governo que pretendia
da ditadura empresarial-militar e foi mapeamento das identidades políticas Falando na cidade do Rio de Janeiro, a dar aos pobres - e mantê-los quietos -,
aprofundada pelo receituário neoliberal dos parlamentares eleitos em 2014 propósito, de 2009 a 2014, a média de mas sem tirar dos ricos. 2015 e também
implementado pelo PSDB, que estagnou indica uma reprodução ampliada do valorização do metro quadrado chegou a os próximos anos prometem...fatgr
investimentos de infraestrutura, conservadorismo. Comportando uma 262% e dos aluguéis a 143%. Muito mais poderia ser dito. Por ora,
promoveu um escancaramento fragmentação partidária inédita de O Programa Minha Casa paramos por aqui, destacando a urgência
comercial, arremessou a taxa básica de 28 partidos (seis a mais em relação a Minha Vida, alheio a um projeto de do real combate à lógica capitalista (que
juros Selic nas alturas, assim como a taxa legislatura passada), o “novo-velho” transformação radical das cidades, destrói fundamentos naturais e sociais
de câmbio (em nome de uma dogmática Congresso revela-se majoritariamente não gera um enfrentamento às teias básicos para uma vida digna) assim
“estabilidade” monetária), dentre outras adepto ao inchaço do poder punitivo. segregadoras da especulação e à como da reinvenção radical dos modos
medidas. Mesmo assim, o Ministro Nesse caminho, por exemplo, propostas periferização das periferias. Entre os de organização social. Por isso, mesmo
Monteiro Neto e seus pares burgueses, de diminuição da maioridade penal são vários dispositivos dessa política que permeado por contradições e com
amplificados pela grande mídia, não defendidas abertamente, assim como o beneficia o grande capital imobiliário, está mediações ainda limitadas, o exercício
vacilam na defesa de um remédio massacre cotidiano contra a juventude o pagamento às empreiteiras de um valor do protagonismo popular das massas que
conservador: para injetar um “choque de negra e pauperizada não sensibiliza fixo para as construções, a atribuição de sofrem diretamente os efeitos da crise
competitividade” no país, reivindicam a grandes debates e ações no espaço dos definição dos terrenos e do tamanho das urbana é essencial. É esse o fundamento
imediata diminuição do que denominam poderes estatais. Além do mais, no unidades habitacionais. A consequência do Movimento dos Trabalhadores Sem
“custo-Brasil” e, como de costume, o bojo do conservadorismo ampliado, a é previsível: a utilização dos piores e Teto.•
foco recai sobre o barateamento da “força homofobia e as mais diversas formas de mais longínquos terrenos do banco de
de trabalho”, considerada muito cara. opressão e discriminação ganham espaço. terras dessas empresas e a construção Clarice Chacon
Logo, a pressão para a precarização das Também podemos destacar o aumento de unidades habitacionais no tamanho Felipe Brito
condições de trabalho é muito grande e das ameaças à diversidade religiosa, cujo mínimo – 39 metros quadrados. Guilherme Simões
envolve diretamente direitos trabalhistas. foco, em especial, são as manifestações de Não poderíamos deixar de registrar que Henrique Sater
Um ranking de custos de produção matrizes afrobrasileiras. Sob o compasso os badalados megaeventos esportivos Conselho Executivo
dos 25 países que mais exportam no da bancada empresarial, das entidades (como Copa e Olimpíadas), na Territórios Transversais
mundo colocou o Brasil na 22ª posição. empresariais de classe e da grande mídia, a condição de privilegiadas ferramentas
6 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
A
Territórios Trans- para com o Brasil de 1914, vê um país auxiliar das forças que defendiam um desenvolvimento capitalista no Brasil.
versais pediu que eu es- maior e mais desenvolvido. Mas este desenvolvimento capitalista democrá- Motivo pelo qual o desenvolvimento foi
crevesse um artigo sobre os crescimento/desenvolvimento foi obti- tico, contra aqueles que defendiam um e segue sendo palavra-chave na boca das
rumos do lulopetismo. do como? Longos períodos de ditadura desenvolvimento capitalista conserva- mais variadas correntes ideológicas e for-
Responder exige explicar o que aberta ou de restrições fortes às liber- dor. ças políticas. Mas qual desenvolvimento?
compreendo por cada um dos termos dades democráticas mais básicas. Uma No embate entre capitalismo de- Aí entra em cena a segunda causa das
da pergunta: o que são as “bases sociais constante dependência em relação às mocrático (que defendia desenvolver vitórias conservadoras: certo paradoxo
do Brasil”? Que transformações estão metrópoles capitalistas. E uma intensifi- ampliando a democracia, a soberania e enfrentado pelos que defendem um de-
ocorrendo em nossa sociedade? Qual o cação, pelos mais variados meios, da ex- o bem- estar) e o capitalismo conserva- senvolvimento capitalista democrático.
papel do PT e de Lula nessas transfor- ploração das clas- dor (que implicava A saber: o capitalismo, tal como existe
mações? ses trabalhadoras em desenvolver no Brasil, depende de altas taxas de de-
O Brasil é uma sociedade capitalista, (a de pequenos Os defensores do conservando os sigualdade, conservadorismo político e
como a maior parte do planeta. O que proprietários e a desenvolvimento capitalista níveis de desigual- dependência externa. Construir uma via
diferencia a formação social brasileira de de assalariados). democrático se dade, dependên- de desenvolvimento capitalista democrá-
outras éx o processo específico, históri- Este cresci- viram diante de uma cia e democracia), tica implica, portanto, em choque com
co, pelo qual o capitalismo se desenvol- mento/desenvol- encruzilhada: ou avançar quem geralmente os próprios capitalistas. Choque que só
veu aqui: dependência, desigualdade e vimento ocorreu por uma estrada que daria levou a melhor, pode resultar na vitória dos democráti-
democracia restrita. através de intensa numa transição socialista, ou até 2002, foram os cos se estes mobilizarem as camadas po-
O desenvolvimento do capitalismo luta. No Brasil, a conservadores. pulares, cujo movimento traz para o pal-
conciliar com os defensores
no Brasil, nos momentos de crescimen- história da tran- Há várias cau- co questões que entram em choque com
sição capitalista
do desenvolvimento sas para isto, mas os limites do próprio capitalismo.
to intenso e de recessão, em épocas de
(a partir de 1850) capitalista conservador. duas delas têm Por isso, os defensores do desenvolvi-
bonança internacional e de crise, foi
possível graças à manutenção de imen- e do capitalis- muito interesse mento capitalista democrático se viram
sas taxas de desigualdade social, de for- mo industrial (a para o debate da frequentemente diante de uma encruzi-
tes restrições às liberdades democráticas partir de 1930) foi marcada por duro situação atual. lhada: ou avançar por uma estrada que
(sem as quais a desigualdade seria posta enfrentamento entre duas vias de desen- A primeira causa é, exatamente, o daria numa transição socialista, ou con-
em questão) e de grande dependência volvimento capitalista. atraso relativo do desenvolvimento ca- ciliar com os defensores do desenvol-
externa (ideológica, militar, política, tec- Claro que havia setores reacionários, pitalista no Brasil. O capitalismo chegou vimento capitalista conservador. Estes
nológica, de capitais, de mercados etc.). agraristas, contrários ao desenvolvimen- ao Brasil bem depois de já estar instalado últimos nunca pagaram para ver, motivo
Em outros termos: os grandes capi- to, que foram perdendo influência à solidamente nas regiões centrais. Du- pelo qual é muito comum que promo-
talistas transformaram-se, ao longo do exata medida que o capitalismo central rante muito tempo, conviveu com uma vam golpes preventivos contra “ameaças
século XX, em classe dominante, man- passou à fase imperialista, de exportação formação social que não era hegemoni- comunistas” que, na verdade, não são
tendo e aprofundando padrões de subor- de capitais, portanto, em alguma medi- camente capitalista. E, durante todo o comunistas, mas sim democrático-capi-
dinação externa, exploração econômica da, estimulando o desenvolvimento de século XX, permaneceu existindo uma talistas.
e opressão política herdadas de períodos parte da periferia. defasagem entre o nível de desenvolvi- Em resumo: o desenvolvimentismo
pré-capitalistas. Houvesse mais demo- Claro que havia socialistas e comu- mento capitalista no Brasil e nos países conservador não apenas conta com
cracia e bem-estar social, os capitalistas nistas. Mas, até 1980, estas forças se vi- centrais. as vantagens da inércia e da força de
brasileiros não teriam enriquecido como ram diante de duas situações: ou não Qual a conclusão que a maior parte quem é dominante, mas também
enriqueceram. tinham influência relevante na luta po- das forças políticas tirou desse fato? A com uma “fragilidade estrutural”
Quem olha o Brasil de hoje e com- lítica e social; ou se convertiam em linha de que existe um grande espaço para o do desenvolvimento capitalista
continua na página 8
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 7
o lulopetismo?
õem sobre a realidade social do Brasil e do mundo com a mediação de visões distintas que estimulem a leitura
petista e Maria Orlanda Pinassi, professora universitária alinhada aos Movimentos da esquerda anticapitalista.
É
como encontrar ouro no meio do lística na França: o local do crime deve ser pre-
lixão. Rota 66: a história da Polí- servado. Mas esse é apenas um dos festivais de
cia que mata, de Caco Barcellos, irregularidades cometidos. Inverte-se sempre o
é garantia de que não haverá ar- argumento: “o morto é sempre o culpado por
rependimento na leitura, mas um incomum sua própria morte”.
êxtase com uma reportagem explosiva. Tensa,
contundente, a narrativa desse livro alcança in-
Inverte-se sempre o
tensidade e vibração, como se cada parágrafo da
argumento: “o morto é
leitura fosse o momento decisivo de um livro
que respira ofegantemente, sem pausas. Isso faz sempre o culpado por sua
dessa obra algo singular no jornalismo brasileiro própria morte”
– um jornalismo, aliás, tão amesquinhado, aco-
vardado, canalha. Munido de um banco de dados preciso e ex-
Publicado em 1992, o livro de Caco Bar- tenso, confeccionado por mais de sete anos de
cellos, um dos grandes nomes do jornalismo pesquisa, através de observações e entrevistas
investigativo brasileiro, hoje na TV Globo, foi feitas no pátio do Instituto Médico Legal de São
considerado o mais completo estudo sobre as Paulo, da leitura atenta do extinto jornal Notí-
origens da Polícia Militar. E privilegia, na sua cias Populares, e do trabalho árduo na sala em-
investigação, o trabalho das Rondas Ostensivas poeirada do IML onde estavam guardadas as in-
Tobias de Aguiar, a Rota, entre as décadas de formações para cada registro de morte, Barcellos
1970 e 1990. objetivo era extremamente ousa- chegou a uma triste constatação: o número ofi-
do e altamente perigoso: conhecer em porme- cial de civis assassinados pelo esquadrão de mor-
nores o perfil das vítimas da PM, e as circuns- te é comparável ao de uma guerra. A PM de São
tancias em que foram mortas. Estamos diante de Paulo matou mais do que em Canudos, mais do
um escritor decidido a desvendar e denunciar os que no Contestado, mais do que na Guerra da
crimes da PM. E o faz, sem subterfúgios. Vacina, mais do que nas insurreições pernam-
bucanas. Só perde para a Guerra do Paraguai.
Vinte e dois anos depois de seu lançamento,
a narrativa alcança
em que retratou com qualidade literária os ce-
intensidade e vibração, como nários e bastidores de matança da Rota, o livro
se cada parágrafo da leitura tem uma atualidade impressionante. Afinal, nos
fosse o momento decisivo últimos anos, a PM não cessou de executar ci-
de um livro que respira vis – na maioria inocentes, diga-se de passagem
ofegantemente, sem pausas –, mas potencializou a matança credenciando-
se como o mais notável bastião de incivilidade
do país. Entre 2005 e 2009, por exemplo, a PM
de São Paulo matou nove vezes mais do que
Tudo começou no dia 9 de abril de 1970, toda a polícia dos Estados Unidos. Em Rota
quando ocorreu a fusão da Polícia Civil e da 66, Barcellos não abordou a violência da polícia
Força Pública, para a criação da Polícia Militar em ações de mediação de conflitos sociais ur-
de São Paulo. Em 1969, os que seriam conheci- banos, mas apenas investigou o patrulhamento
dos como policiais militares eram treinados pelo regular da cidade. Eis aqui um tema promissor,
Exército a usar metralhadoras, não para proteger extremamente ousado e perigoso, já que as for-
a sociedade, como se costuma dizer, mas para ças policiais têm agido desproporcional e barba-
combater guerrilheiros. Desde então, essa mes- ramente em ações de reintegração de posse. Se
ma polícia decidiu garantir a segurança das ci- não colocamos de uma vez por todas, na agen-
dades brasileiras sob um conceito de segurança da pública, o debate acerca da extinção da PM
pública no mínimo questionável. É como se a ou da desmilitarização da polícia, a sociedade
população fosse um inimigo externo. Na reali- brasileira continuará condescendente não com
dade, o alvo central da PM é um setor da socie- matadores de bandidos, mas com matadores de
dade brasileira: jovem, pobre, negro ou pardo. inocentes. E não adianta dizer que isso é discur-
O autor mostra que as vítimas são escolhidas a so de militante que não tem o que fazer da vida,
partir de uma simples desconfiança. Durante os e que a polícia faria um trabalho digno. Lem-
crimes narrados, a Rota desobedece algo que brem-se: por cada morte nas periferias, mesmo
qualquer policial do mundo conhece desde o a quilômetros de distância, a responsabilidade é
final do século XIX, quando surgiu a crimina- da sociedade. •
10 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
guetos e
antiguetos:
uma anatomia da
nova pobreza urbana
Entrevista com Loïc Wacquant
E
m Urban Outcasts (“Pá- ca, aumento da segregação e criminaliza- tração da economia de mercado simul- drão do gueto. Um gueto é um enclave
rias Urbanos”; Polity ção desenfreada. taneamente à retração do Estado social. etnicamente homogêneo onde ficam
Press, 2008), você faz uma Quando você junta esses dois cho- O resultado foi uma forma urbana que contidos todos os membros e as insti-
comparação metodoló- ques, o resultado é a questão que ali- eu chamo de hipergueto, caracterizada tuições de uma categoria subordinada,
gica entre a evolução do gueto nos mentou minhas pesquisas durante uma pela dupla exclusão com base na raça e impedindo-os de circular na cidade. As
Estados Unidos e a periferia urbana década: há realmente convergência en- na classe, e reforçada por uma política de banlieues são muito misturadas, e torna-
francesa, ou banlieue, ao longo das tre os guetos dos Estados Unidos e os Estado de retração dos serviços de bem ram-se mais diversas em termos de re-
últimas três décadas. O que levou distritos de classe baixa europeus com -estar e abandono urbano. Assim, quan- crutamento étnico ao longo das últimas
você a realizar essa comparação, e o concentração de imigrantes? Se não, o do falamos sobre o gueto nos Estados três décadas. Tipicamente, são habitadas
que ela revela a respeito das mudan- que está acontecendo? Qual é a causa Unidos, é fundamental historicizá-lo, por uma maioria de cidadãos franceses, e
ças na pobreza urbana? de sua transformação? Para responder e não confundir o “gueto comunal” da imigrantes pertencentes a vinte ou trin-
Loïc Wacquant: Esse livro nasceu da àquelas questões, coletei dados estatísti- década de 1950 com seu descendente ta nacionalidades diferentes. A presença
confluência entre dois choques: o pri- cos e fiz observações de campo em uma do fim do século. O gueto comunal era crescente desses migrantes pós-coloniais
meiro, pessoal; o segundo, político. O área decadente do “Cinturão Negro” de um mundo paralelo, uma “cidade negra resulta de uma diminuição de sua sepa-
choque pessoal foi conhecer em primeira Chicago, e num subúrbio desindustriali- dentro da branca”, como disseram os so- ração espacial: eles costumavam ser im-
mão o gueto negro dos Estados Unidos – zado do “Cinturão Vermelho” de Paris, ciólogos afro-americanos St. Clair Drake pedidos de acessar moradias públicas e,
ou o que sobrou dele – quando me mu- localizado entre o aeroporto Roissy e a e Horace Cayton, na sua obra-prima portanto, eram ainda mais segregados.
dei para Chicago, onde vivi na borda do capital. Também reconstruí sua trajetó- Black Metropolis (“A metrópole negra”; Os residentes que sobem na estrutura de
South Side. Vindo da França, fiquei hor- ria histórica, porque não dá para enten- 1945). Ele servia como um reservatório classes através da educação, do mercado
rorizado com a intensidade da desolação der o que aconteceu com essas áreas na de trabalho industrial não-especializa- de trabalho, ou do empreendedorismo
urbana, segregação racial, privação social década de 1990 sem considerar o século do, e sua densa teia de organizações era rapidamente abandonam essas áreas de-
e violência de rua concentrada nessa terra XX como um todo, marcado pelo flo- como um para-choque contra a domina- gradas.
non grata que era universalmente temi- rescimento e perecimento do industria- ção branca. Com a desindustrialização e As banlieues do Cinturão Vermelho
da, evitada e denegrida por quem não lismo fordista e do Estado de bem-estar a alteração para o capitalismo financeiro, também perderam a maioria das institui-
morava lá, inclusive muitos acadêmicos. keynesiano. o hipergueto perde a função econômica ções locais ligadas ao Partido Comunista,
O choque político foi a difusão de e tem suas organizações comuniais des- ao qual devem seu apelido. Aquelas ins-
A marginalidade aumentará
um pânico moral em torno da guetiza- troçadas. Elas são substituídas por insti- tituições costumavam organizar a vida
ção na França e em boa parte da Europa
enquanto os governos insistirem tuições estatais de controle social. O hi- ao redor da tríade fábrica-sindicato-vizi-
Ocidental. Na década de 1990, a mídia, em políticas de desregulação pergueto é um instrumento de exclusão nhança, dotando as pessoas de um orgu-
os políticos e até alguns pesquisadores econômica e mercadorização nua e crua, um mero receptáculo para lho coletivo por sua classe e sua cidade.
começaram a acreditar que os bairros dos bens públicos. as frações estigmatizadas e supérfluas do A heterogeneidade étnica das banlieues,
de trabalhadores na periferia das cidades proletariado negro: os desempregados, os suas fronteiras porosas, densidade insti-
europeias estavam se transformando em dependentes de auxílio governamental, tucional decrescente e incapacidade de
“guetos”, seguindo o padrão dos Estados O que aconteceu, então, com o os criminosos, e as pessoas inseridas na criar uma identidade cultural comparti-
Unidos. Com isso, o debate público e Cinturão Negro americano e com crescente economia informal. lhada tornam essas áreas o oposto exato
a política de Estado foram reorientados o Cinturão Vermelho francês? Estão Do lado francês, a percepção que im- dos guetos: são antiguetos.
para lutar contra o crescimento desses convergindo? pera na mídia e na administração pública
assim chamados guetos, com base na Eu mostro que, no lado dos EUA, está completamente errada. Os bairros Isso tudo vai contra a imagem pin-
premissa de que a pobreza urbana estava depois dos levantes da década de 1960, o de classe baixa sofreram um processo tada pela mídia francesa, pelos po-
sendo “Americanizada”, isto é, marcada gueto negro implodiu, ou, se você quiser, de pauperização e decomposição gra- líticos de Direita e de Esquerda, e
por um aprofundamento da divisão étni- desabou sobre si mesmo, devido à con- dual que os conduziu para longe do pa- pelos ativistas mobilizados em tor-
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 11
no das questões de imigração, raça e não dizem respeito às forças que estão por Paris que estudei, era constante a queixa para o outro, e seus ocupantes são disse-
cidadania, especialmente depois da trás da crescente marginalização da peri- de que, para evitar reações negativas de minados em áreas adjacentes ou distritos
onda de levantes que varreu as ban- feria urbana europeia. E pior: servem para medo e rejeição, precisam esconder seu pobres longínquos, criando, assim, a apa-
lieues de classe baixa em novembro esconder a nova questão social do traba- endereço durante a busca de emprego, rência de que “o problema foi resolvido”.
de 2005. lho inseguro e suas consequências para a quando estão travando conhecimento Só que a dispersão dos pobres urbanos só
Essa é uma boa ilustração de como a formação do proletariado urbano do sé- com mulheres ou quando vão à univer- aumenta sua invisibilidade, diminuindo o
sociologia pode fazer contribuições im- culo XXI. sidade fora de sua cidade. Policiais são incômodo político que eles causam, sem
portantes para o debate cívico. Através da particularmente suscetíveis a tratar esses ajudá-los a obter trabalho ou alcançar um
conceituação precisa e a observação sis- No livro, você enfatiza a indignidade jovens com mais severidade quando des- status social viável.
temática, a sociologia revela os enormes pessoal sentida pelas pessoas que es- cobrem que vêm dessa cidade corrom- A segunda técnica para lidar com o
abismos – nesse caso, uma contradição tão presas ao hipergueto e à banlieue pida, amplamente percebida como um aumento da marginalidade avançada vai
total – entre a percepção pública e a rea- desindustrializada. Os residentes do “gueto” temível. O estigma territorial é na direção contrária: procura concentrar
lidade social. Os imigrantes e seus filhos, Cinturão Negro perderam seu or- mais um obstáculo no caminho da inte- e conter as desordens geradas pela frag-
nas cidades francesas, estão misturando- gulho racial, e suas contrapartes no gração socioeconômica e da participação mentação do trabalho e desestabilização
se mais, e não se separando. Em termos Cinturão Vermelho perderam seu cívica. da hierarquia étnica (ou racial ou nacio-
de perfil social e de oportunidades, os orgulho de classe. Você diz que a Observe que o mesmo fenômeno nal) lançando uma rede de contenção
imigrantes estão ficando mais parecidos “estigmatização territorial” é uma acontece na América Latina, entre ha- policial ao redor da região urbana de re-
com os franceses nativos, e não mais di- dimensão nova da marginalidade ur- bitantes de regiões de má reputação tais legação e expandindo as prisões nas quais
ferentes, ainda que ainda sofram com bana tanto nos Estados Unidos quan- como as favelas do Brasil, as poblaciones seus elementos mais rebeldes são cronica-
taxas de desemprego mais altas. Estão se to na Europa, nesse início de século. do Chile e as villas miserias da Argentina. mente exilados. Essa contenção punitiva
espalhando mais pelo espaço, e não se De fato, uma das características dis- Suspeito que os moradores de Villa del é tipicamente acompanhada, no front do
concentrado. É precisamente por estarem tintivas da marginalidade avançada é a bem-estar social, por medidas desenhadas
mais “integrados” no mainstream da vida difusão de um estigma espacial que de- A utilização da polícia, dos para empurrar os beneficiários do auxílio
social, e portanto competirem por bens precia as pessoas presas às regiões urbanas público (“welfare”) a ocupar vagas de bai-
tribunais e da prisão para
coletivos, que os imigrantes agora são de relegação. Em toda sociedade avan- xo nível na economia de serviços desre-
vistos como uma ameaça, de modo que a çada, há distritos ou cidades que se tor-
o combate à marginalidade gulada, sob a designação de “workfare”.
xenofobia vem crescendo entre as frações naram símbolos nacionais e sinônimos é custosa, ineficiente e (A invenção, nos Estados Unidos, dessa
nativas da classe trabalhadora ameaçadas de todos os males urbanos: Clichy-sou- agrava os mesmos males que nova política que combina “workfare”
pela mobilidade descendente. s-Bois (onde começaram os levantes de supostamente deveria curar. restritivo e “prisonfare” expansivo, é
As periferias urbanas da Europa Oci- novembro de 2005) na França, o Moss descrita por mim no meu próximo livro,
dental não estão sofrendo um guetização, Side em Manchester, no caso da Ingla- Bajo Flores, La Cava ou Villa de Ret’iro, Punir os pobres, publicado no Brasil em
mas uma dissolução de sua classe traba- terra, Berlin-Neuköln na Alemanha, o em Buenos Aires, devem conhecer muito 2003). Mas a política de “tolerância zero”
lhadora tradicional, causada pela norma- South Bronx em Nova Iorque, etc. Essa bem o significado da “discriminação de derrota a si mesma. Os desempregados,
lização do desemprego em massa, dos crescente difamação dos distritos inferio- endereço”. O estigma territorial é esten- subempregados e praticantes de pequenos
empregos instáveis e de meio expediente, res da metrópole é uma consequência do dido a esses distritos mais baixos da ci- delitos, ao serem jogados na cadeia, tor-
e pela difamação sistemática no debate enfraquecimento político dos afro-ame- dade Argentina segundo a mesma lógica nam-se ainda menos empregáveis, o que
público. De fato, o discurso da “gueti- ricanos na cena política dos Estados Uni- com que é imputado aos hiperguetos dos desestabiliza ainda mais as famílias e os es-
zação” contribui com a demonização dos e da classe trabalhadora no sentido Estados Unidos e os anti-guetos da Euro- paços urbanos de classe baixa. A utilização
simbólica dos bairros de classe baixa, en- político europeu. pa: a presença de migrantes sem emprego, da polícia, dos tribunais e da prisão para
fraquecendo-os socialmente e marginali- Quando um distrito passa a ser ampla- sem-teto e sem documentos, bem como o combate à marginalidade não é ape-
zando-os politicamente. mente percebido como um “buraco” ur- dos estratos mais baixos do proletariado nas enormemente custosa e ineficiente,
Urban Outcasts demonstra que a tese bano onde apenas o detrito da sociedade urbano empregado na economia de ser- como também agrava os mesmos males
da “convergência” entre a Europa e os tolera viver, quando seu nome é sinôni- viço desregulada. Além da tendência das que supostamente deveria curar. Assim,
Estados Unidos, no que diz respeito ao mo de vício e violência na discussão jor- elites estatais a se esconderem atrás das reentramos no círculo vicioso apontado
modelo do gueto negro, está errada em- nalística e política, uma mácula espacial é questões sobre o espaço, evitando encarar há tempos por Michel Foucault: o fra-
piricamente e é enganosa politicamente. superimposta ao estigma da pobreza e da os problemas enraizados na transforma- casso da prisão em solucionar o problema
E prossegue, revelando o aparecimento etnicidade – a “raça”, nos Estados Uni- ção do trabalho. da marginalidade serve como justificativa
de um novo regime de pobreza urbana dos, e a origem colonia, na Europa. Nes- para sua contínua expansão.
em ambos os lados do Atlântico, distinto se ponto, lanço mão das teorias de Er- O estigma territorial facilita a virada Além disso, na Argentina e em pa-
do regime do meio-século anterior, que ving Goffman e de meu professor Pierre para o Estado penal e a implementa- íses vizinhos que passaram por décadas
estava ancorado no trabalho industrial Bourdieu para salientar como a desgraça ção da política de “tolerância zero”, de governo autoritário no século XX, a
estável e na rede de proteção do Estado pública que aflige essas áreas desvaloriza cuja difusão global você analisou em polícia é, ela mesma, um vetor de violên-
keynesiano. Essa marginalidade avançada o sentimento de si de seus moradores, e seu livro anterior, Les prisons de la cia, e o aparato judicial está marcado pelo
é alimentada pela fragmentação do traba- corrói seus laços sociais. Em resposta à di- misère (“As prisões da miséria”, desmando. De modo que o emprego do
lho assalariado, a reorientação da política famação espacial, os moradores desenvol- 1999)? Estado penal nos setores mais baixos da
estatal para a retirada da proteção social vem estratégias de distanciamento mútuo A mácula espacial dá ao Estado mais ordem de classes e de espaços equivale a
e em favor da compulsão do mercado, e denegrecimento lateral. Retiram-se liberdade de ação para implementar polí- reestabelecer a ditadura sobre as frações
e o reaparecimento generalizado da de- para a esfera privada da família e, quando ticas agressivas de controle da nova mar- marginais da classe trabalhadora. Na
sigualdade – ou seja, é a marginalidade podem, abandonam a área. Essas práticas ginalidade. Essas políticas podem ter a prática, trata-se da violação do ideal de
produzida pela revolução neoliberal. Isso de autoproteção simbólica desencadeiam forma da dispersão ou da contenção, ou, cidadania democrática que teoricamente
significa que não se trata de algo que dei- uma profecia autocumprida através da melhor ainda, podem ser uma combina- guia as autoridades. O que o Estado pre-
xamos para trás, mas de um processo que qual as representações negativas do lugar ção dos dois. A dispersão visa espalhar os cisa combater não é o sintoma, a insegu-
está à frente. A marginalidade avançada acabam produzindo nele a anomia cul- pobres no espaço e recapturar os territó- rança criminal, mas a causa da desordem
tende a persistir e crescer enquanto os go- tural e o atomismo social que se dizia já rios tradicionalmente ocupados por eles, urbana: a saber, a insegurança social que
vernos insistam em implementar políticas existirem. sob o pretexto de que os lugares onde o próprio Estado desencadeou ao tornar-
de desregulação econômica e mercado- A estigmatização territorial não ape- moram são totalmente degradadas sem se um zeloso serviçal do despotismo do
rização dos bens públicos. Mas essa nova nas destrói a capacidade de identificação e chance de salvação. Essa política está sen- mercado.•
realidade social, gerada pela escassez e ação coletiva das famílias de classe baixa, do empregada na demolição em massa de
instabilidade do trabalho, e pela mudança como também provoca o preconceito e moradias populares no centro do gueto
no papel do Estado, é ofuscada pelo idio- a discriminação entre não-residentes tais histórico da metrópole dos Estado Uni-
ma etnicizado da imigração, da discrimi- como empregadores e burocracias públi- dos e nas periferias pauperizadas de várias
nação e da “diversidade”. É claro, essas cas. Entre os jovens de La Courneuve, a cidades europeias. Milhares de unidades Entrevista originalmente concedida à revista Thesis Eleven,
questões espelham problemas reais, mas cidade estigmatizada nos arredores de habitacionais são destruídas de um dia agosto de 2008. Tradução: Pedro Rocha de Oliveira.
12 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
Luizinho, Zé e Bahia constróem barracos na Ocupação Zumbi dos Palmares, em São Gonçalo/RJ, novembro de 2014. Foto: Mídia Ninja
Ocupar é questionar o que vale mais para a sociedade em que vivemos: a propriedade ou a vida?
A
o avistar uma ocupação da população do país; lutar por mo- se sintam irmãos defensores das mes- vivem em moradia precária, às vezes
de sem-teto, certamente radia é mais do que reivindicar par- mas causas e oprimidos pelo mesmo dividindo-a com várias outras pesso-
não ficamos desejosos em ticipar de um programa habitacional “sistema”! as, ou pagam o aluguel abusivo que
conhecê-la pela sua bela que nos proporcione um lar, é lutar As ocupações de terra não são de atinge uma imensa massa de traba-
paisagem, menos ainda por ser um pela efetivação de um direito social, fato espaços onde temos qualidade lhadores. Essas pessoas convivem
lugar agradável de visitar, com arqui- cuja garantia é de responsabilidade de vida adequada, por isso são espa- com o problema isoladamente sem
teturas incríveis ou belos restauran- do Estado desde a Constituição de ços transitórios na luta pela moradia: descobrir respostas individuais, até
tes. A curiosidade que nos desperta 1988. ocupamos terra não para reproduzir que se deparam com uma ocupação.
é tentar entender como sobrevivem Portanto, ocupar uma terra é a vida precária das comunidades, A ocupação transforma a maneira de
as pessoas nesse lugar tão precário. também questionar o direito que mas como forma de pressionar o po- resolver o problema do déficit habi-
Como podem, com tanta miséria e apenas tem validade para os proprie- der público a se movimentar diante tacional, porque apresenta a perspec-
falta de infraestrutura básica, terem tários de terra; é questionar a eficácia de tanta calamidade. Porem, é im- tiva de uma solução coletiva.
tanta esperança no que fazem? Para da constituição quando se trata de di- portante ressaltar que 48 milhões de 2) Individualmente, essas pessoas
além disso, como podem ser esses os reitos sociais que dizem respeito aos pessoas vivem em condições inade- podem existir pacificamente na so-
protagonistas de tantas lutas por di- mais pobres. Ocupar terra é questio- quadas de moradia, faltando desde ciedade. Ou seja, sozinhas, essas pes-
reitos, a ponto de terem sido a maior nar o que vale mais para a sociedade energia elétrica até coleta de lixo ou soas não causam tanto problema para
ameaça à abertura da Copa do Mun- em que vivemos: a propriedade ou a abrigando várias pessoas por cômo- os poderosos. Mas, se estão juntas, a
do no Brasil? vida? do! história é outra!
As ocupações de terra são, para o E mais, é também demonstrar que Mas há, na organização das ocu- 3) Esse empoderamento coletivo
Movimento dos Trabalhadores Sem é impossível uma relação harmoniosa pações, três elementos fundamentais proporciona uma esperança de cons-
Teto (MTST), um espaço de cons- entre aqueles que tudo têm (inclusive a serem considerado em uma análise trução do novo, permite uma cons-
trução da transformação social. Lu- as leis), e aqueles a quem tudo é ne- menos superficial. ciência crítica da sua própria vida e
tar por moradia não é privilégio de gado (inclusive seus direitos). 1) É certo que, em geral, as pesso- da sua sobrevivência, uma mudança
quem vive em situação de rua. No Para travar esta batalha, é neces- as que adentram na luta por moradia, nítida de comportamento, visível
Brasil, o problema da moradia atinge sário que os oprimidos se apropriem ocupando um terreno, vivem o dra- na apropriação de seus direitos, ir-
22 milhões de pessoas, ou seja, 10% dos seus direitos e, em movimento, ma cotidiano do déficit habitacional: radiando para outras reivindicações
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 13
que transbordam da luta pela mora- os menores problemas podem ser re-
dia! solvidos de maneira diferente!
As ocupações são espaços onde as Ao juntarmos as famílias da ocu-
contradições da sociedade capitalista pação na porta da Secretaria de Edu-
se afloram, deixam de ser naturais e cação com as crianças que estão sem
passam a ser questionadas, tornando- escola e, na semana seguinte, as vagas
se um momento importantíssimo são oferecidas, demonstramos que,
de combate à ideologia dominante. novamente, conseguimos solucionar
Coloca o combate à ideologia na coletivamente o problema que pare-
prática, desconstruindo muito do cia ser de cada mãe e pai!
que pensam sobre a luta e a própria Quando as famílias organizam as
ocupação. As pessoas passam a vida regras de convivência na ocupação,
inteira ouvindo que é errado “inva- inclusive as formas de evitar que os
dir o que é dos outros”, mas se veem problemas aconteçam, ou definindo
na situação de “invasores” e passam como tratar caso a caso as regras que
a entender porque não invadimos, e não são cumpridas, estamos demons-
sim ocupamos! trando que é possível convivermos de
E é a partir das contradições que a maneira diferente.
vida é organizada nas ocupações, não Quando tratamos as questões
como uma ilha, mas como um espa- polêmicas – drogas, aborto, violên-
ço de formação cotidiano, onde cada cia, sexualidade ou religião – sem
dia que passa é uma nova resposta moralismo, analisando as contradi-
que encontramos para os nossos pro- ções, sem condenações individuais
blemas. A opção aqui é clara: é pre- ou buscando um culpado entre nós,
ferível errar com os pobres a acertar demonstramos que é não só possível,
sozinho! mas necessário, destruirmos este sis-
Quando se junta um monte de tema!
sem-teto, que são apenas núme- Quando ousamos regar nossas
ros para o sistema, um a um, como práticas com as convicções de Carlos
humanos que reivindicam, que têm Marighella, Rosa Luxemburgo, Che
voz e opinião, abre-se um horizon- Guevara, Chico Mendes, Lênin,
te novo na vida das pessoas. Não são Marx e tantos outros, alimentamos a
raros os casos de pessoas que deixam chama da liberdade que se espraia em
de tomar medicamentos antidepres- cines sem teto, em saraus de resistên-
sivos quando se juntam às ocupações, cias, teatros de rua, músicas combati-
inúmeros são os relatos de pessoas, vas, futebol de várzea. Enfim, pouco
principalmente mulheres, que dizem a pouco as ocupações vão disputando
nunca ter tido a possibilidade de fa- a alma das pessoas com o Capital, vão
lar sobre suas histórias de vida e que despertando a fúria adormecida exis-
nunca tinham tido a sensação de se- tente em cada oprimido da periferia
rem escutadas, vistas, consultadas so- e se tornam Escolas da Revolução!
bre suas angústias. Tudo isso de forma organizada,
O sistema capitalista é muito mais tomando as principais avenidas do
do que uma rígida relação de explo- Brasil... É um processo ameaçador
ração; ele adentra nas nossas vidas, para os donos do poder. Por isso, o
dita nosso comportamento, ele toma movimento desperta reações raivosas
de assalto a nossa alma! Isso nos de- e criminalização estatal. Cada ocu-
prime; quando um movimento con- pação é um front da resistência po-
trário disputa nossa alma, bomba pular em nosso país.•
nosso sangue, dispara nosso coração,
ele alimenta nossa esperança de que
é possível, sim, um mundo melhor! Habitar
Quando construímos uma cozi- Salvio Melo
nha coletiva, onde a comida é feita
de forma voluntária, a partir de uma Olhamos para cima,
necessidade coletiva, a fome, estamos Nem teto, nem céu
dando uma resposta coletiva a um Olhamos para frente,
problema que aparentemente é indi- Poeira, bate-estaca, escavadeiras,
vidual. Quando estabelecemos que Prédios, sujeira, dinheiro
a solidariedade, o companheirismo Tua casa é logo ali
e a igualdade são valores que preser- E a nossa? Onde fica?
vamos nos nossos espaços, estamos Não queremos barracas de papelão,
buscando novas formas de responder
aos velhos problemas antes tratados
periferias e opressão,
de maneira particular.
nem muros invisíveis
Quando juntamos o lixo da
Ocupar é organizar e reunir,
ocupação e levamos até a porta da Resistir é sangue, suor, ação
subprefeitura local e, no dia seguin- Ainda sonhamos com o futuro que virá
te, o caminhão passa para recolher o Criar poder popular.
lixo, estamos mostrando que mesmo
14 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
Por
Por mais talentoso
mais talentoso que que
vocêvocê seja,que
seja, saiba saiba que os do
os bastidores bastidores
futebol sãodo futebol
podres, e quesão podres,
o jogador e que
é visto
o como
jogador
mera émercadoria,
visto como mera mercadoria,
um produto um produto
como outro qualquer como
na prateleira, queoutro qualquer
cartolas na prateleira,
e empresários veem
que cartolas e empresários vêem apenas como oportunidade de fazer grana, de for.
apenas como oportunidade de fazer grana, de lucrar, custe o que custar, submeta o jovem ao que lucrar.
de presidentes de federações e cinco de pre- para tentar dar um basta nessa situação desumana
de presidentes de federações e cinco de presi- líderes do Bom Senso FC, organização que nasceu
de presidentes
sidentes de clubes. de Sabe
federações e cinco deMesmo
o que acontece? presi- líderes
por quedopassaBom aSenso FC,dos
maioria organização
jogadores que nasceu
de futebol
dentes de clubes. Sabe o que acontece? Mesmo para tentar dar um basta nessa situação desumana
dentes
que hajade clubes.
gente Sabe o com
insatisfeita que a acontece?
direção daMesmo CBF, para tentar dar um basta nessa situação desumana
no Brasil.
que haja gente insatisfeita com a direção da CBF, por que passa a maioria dos jogadores de futebol
que haja se
ninguém gente insatisfeita
arrisca a ser um com dosa 12direção da CBF,
signatários, nin- por que passa
Insisto: a maioria
não quero matardosseujogadores
sonho, dou deforça
futebol a
ninguém se arrisca a ser um dos 12 signatários, nin- no Brasil.
ninguém
guém se se arrisca
arrisca a ser umodos
a amarrar 12 signatários,
guiso no pescoçonin- do no
ele, Brasil.
vejo a carreira de futebolista como tão digna
guém se arrisca a amarrar o guiso no pescoço do Insisto: não quero matar seu sonho, dou força a
guém se arrisca a amarrar
gato -- OK, no caso, do rato. o guiso no pescoço do Insisto: não quero
quanto qualquer umamatar seu osonho,
hoje. Mas Brasil dou
é um força
país in-a
gato -- OK, no caso, do rato. ele, vejo a carreira de futebolista como tão digna
gato
E o--queOK, isso
no caso,
tem a doverrato.
com o seu sonho? Tem ele,
justovejo
e o afutebol
carreira de futebolista
é uma das faces dessacomo moeda.
tão dignaNo
E o que isso tem a ver com o seu sonho? Tem quanto qualquer uma hoje. Mas o Brasil é um país in-
E oaque
tudo ver!isso
Porquetem éa nessa
ver com o seu sonho?
estrutura viciada T em
que quanto
Brasil, aqualquer
corrupçãoumaainda
hoje. corre
Mas o solta
Brasile,é no
umfutebol,
país in-
tudo a ver! Porque é nessa estrutura viciada que justo e o futebol é uma das faces dessa moeda. No
tudo a
você ver! Porque
entrará. é nessa estrutura
Uma estrutura em que todos viciada
os que
que justo
não éediferente.
o futebol Aé superestrutura
uma das faces do dessa moeda.
futebol No
brasi-
você entrará. Uma estrutura em que todos os que Brasil, a corrupção ainda corre solta e, no futebol,
têm poder se beneficiam, e tentam impedir queque
você entrará. Uma estrutura em que todos os os Brasil,
leiro é a corrupçãoavessa
reacionária, ainda corre solta e, corrompida
às mudanças, no futebol,
têm poder se beneficiam, e tentam impedir que os não é diferente. A superestrutura do futebol brasi-
têm poder os
jogadores, se trabalhadores
beneficiam, e do tentam impedir
futebol, que os
os artistas, não é [Link]ários
e corruptora. A superestrutura do futebol
desonestos brasi-
e explora-
jogadores, os trabalhadores do futebol, os artistas, leiro é reacionária, avessa às mudanças, corrompida
jogadores,
ponham os trabalhadores
a cabeça para [Link]í futebol,
ser tãoosraroartistas,
ver- leiro
doresé dareacionária,
boa fé eavessa às mudanças,
do trabalho corrompida
alheios contaminam
ponham a cabeça para fora. Daí ser tão raro ver- e corruptora. Empresários desonestos e explora-
ponham
mos um amovimento
cabeça para como fora.
o doDaíBomser Senso
tão raro FC,ver-
ao e corruptora.
o ambiente, e éEmpresários
necessário desonestos
não cair naeconversa
explora-
mos um movimento como o do Bom Senso FC, ao dores da boa fé e do trabalho alheios contaminam
mos um movimento
qual voltaremos adiante. como o do Bom Senso FC, ao dores da boa fé
deles, embora e do
tudo trabalho
esteja alheios
montado contaminam
para que eles
qual voltaremos adiante. o ambiente, e é necessário não cair na conversa
qual voltaremos adiante.
Normalmente, eu sei, você olha para um Neymar, o ambiente, e é necessário não cair na conversa
prevalecem.
Normalmente, eu sei, você olha para um Neymar, deles, embora tudo esteja montado para que eles
o Normalmente,
vê num carrão, eu sei,
até você
num olha
iate, para
umaum Neymar,
baita casa, deles,
Enfim,embora
e em tudo
resumo,esteja
não montado
seja ingênuoparaao que eles
tentar
o vê num carrão, até num iate, uma baita casa, prevalecem.
o pensa:
e vê num“Não carrão,
queroaté mais numnadaiate,
da uma
vida”.baita casa,
E imagina: prevalecem.
entrar neste mundo.
e pensa: “Não quero mais nada da vida”. E imagina: Enfim, e em resumo, não seja ingênuo ao tentar
e pensa:
“Como foi“Não
fácil!quero
Outromais nada daele
dia mesmo, vida”.
nãoEera imagina:
nada. Enfim, e em resumo,
E, se conseguir, levadonãopela
sejajusta
ingênuo ao tentar
aspiração de
“Como foi fácil! Outro dia mesmo, ele não era nada. entrar neste mundo.
“Como
T udo tão foirápido!”.
fácil! Outro
Não se diailuda.
mesmo,
Neymarele não
é a era nada.
exceção entrar
melhorar neste
de mundo.
vida e ajudar seus próximos, faça-o
Tudo tão rápido!”. Não se iluda. Neymar é a exceção E, se conseguir, levado pela justa aspiração de
Tudoexceções.
das tão rápido!”. TerNão se [Link]
o talento Neymaré paraé apoucos,
exceção e comE, se conseguir,
os pés no chão levado
e com pela justa aspiração
a cabeça alerta para de
das exceções. Ter o talento dele é para poucos, e melhorar de vida e ajudar seus próximos, faça-o
das a
ter exceções.
força de Ter o talento
vontade deledele é paranão
também poucos,
é para e melhorar
as [Link] vida e ajudar seus próximos, faça-o
ter a força de vontade dele também não é para com os pés no chão e com a cabeça alerta para
ter a força
qualquer um. de vontade dele também não é para comSejaosfeliz,
pés no
nãochão e com
desista, não adesespere,
cabeça alerta para
lute para
qualquer um. as armadilhas.
qualquer
Se você [Link] ter uma boa visão de como as as
fazerarmadilhas.
não só a sua vida e dos seus familiares me-
Se você quiser ter uma boa visão de como as Seja feliz, não desista, não desespere, lute para
Se você
coisas, quiser
de fato, terleia
são, uma boa do
o livro visão de André,
Paulo como as “O Seja
lhor, feliz,
mas, não desista,
também, a do seunão– adesespere,
do nosso lute
– paí[Link]
coisas, de fato, são, leia o livro do Paulo André, “O fazer não só a sua vida e dos seus familiares me-
coisas,
Jogo dede fato,Vida”,
Minha são,daleiaeditora
o livroLeya,
do Ponde
aulo André, “O
ele conta fazer não sóe aotimista
Um forte sua vida e dos do
abraço seus familiares me-
Jogo de Minha Vida”, da editora Leya, onde ele conta lhor, mas, também, a do seu – a do nosso – país.
Jogo de
tudo queMinha
teve Vida”, da editora para
de enfrentar Leya,ser onde umeleprofis-
conta lhor, mas, também, a do seu – a do nosso – país.
tudo que teve de enfrentar para ser um profis- Um forte e otimista abraço do
tudo que teve de Não enfrentar para ser um umprofis- Um forte e otimista abraço JUCA do KFOURI
sional do futebol. foi à toa que
sional do futebol. Não foi à toa que virou um dos
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JUCA
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KFOURI
líderes do futebol.
Bom Senso Não FC,
foi àorganização
toa que virou que um dos
nasceu
16 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
crise da água
em são paulo
Marzeni Pereira
Cantareira em 2014 - Projeto Conta dágua.
A
crise hídrica em São Paulo de água no Brasil: 70%, contra 22% da capitalistas e o capitalismo é que estão onde passou o Rodoanel, por exemplo,
tem despertado nossa aten- indústria e apenas 8% das residências. levando o planeta ao colapso. A necessi- e onde se registra enorme aumento da
E
ção a partir de 2014. E não A exportação de alimentos em larga dade de ganho imediato e o crescimento ocupação do solo.
é por acaso. O estado mais escala traz poucos e discutíveis benefí- econômico obrigatório explicam parte nquanto a capacidade dos sis-
rico, industrializado e populoso do Bra- cios: empregos e divisas. Empregos são da crise de abastecimento de água em temas de água cai, o lucro da
sil corre sério risco de sofrer uma crise em pequena quantidade, em função da São Paulo. Sabesp só aumenta: em 2009,
de saúde pública, ambiental, econômi- mecanização das monoculturas. Já as di- Nos últimos meses, vivenciamos era R$ 1,37 bilhões, pulando
ca e institucional sem precedentes nas visas, vão para quem? Para que servem, uma das maiores estiagens da história da para R$ 1,9 bi em 2012, e chegando
Américas. além do exercício contábil de equilíbrio região Sudeste do Brasil, com impacto próximo aos R$ 2 bilhões em 2013. Em
Recentemente, o astrofísico estadu- da balança comercial? em um dos maiores sistemas de abaste- cinco anos, o lucro total ultrapassou R$
nidense Greg Laughlin calculou o valor Já os prejuízos são imensos: destrui- cimento de água do mundo, o Sistema 8 bilhões. Segundo o jornal Valor Eco-
do Planeta Terra. No seu cálculo, a água ção dos biomas, redução e contaminação Cantareira. Diante dessa estiagem, a Re- nômico, em matéria do dia 9 de maio
doce equivale a 75% de todas as riquezas dos corpos d’água com consequências gião Metropolitana de São Paulo cor- de 2014, a Sabesp acumulou um lucro
do planeta somadas. Pode parecer absur- para a população de todo o País. Existem re sério risco de ficar inteiramente sem líquido de R$ 13,1 bilhões nos últimos
do, mas o capitalismo enxerga tudo sob vários estudos indicando que a superex- água. Outras cidades que dependem dos onze anos. Desse montante, os acionis-
a ótica do valor econômico. ploração dos recursos hídricos e o des- rios que abastecem o Cantareira já estão tas abocanharam cerca R$ 4,4 bilhões.
O Brasil é um dos países mais ricos matamento do Cerrado são responsáveis sofrendo com o desabastecimento. Aqui está um dos problemas que impe-
em água do mundo, com cerca de 13% pelo desaparecimento de vários afluentes Mas o risco de desabastecimento não dem os investimentos em mais em obras
de toda a água doce do Planeta. Tam- de importantes rios de outras regiões paira apenas sobre a área de cobertura de reservação de água, redução de per-
bém possui os maiores aquíferos subter- como, por exemplo, o São Francisco. do Cantareira. O sistema adutor me- das, reuso da água e preservar manan-
râneos: o Alter do Chão e cerca de 70% Isso, somado com o desmatamento da tropolitano de São Paulo é interligado, ciais. Os investimentos necessários em
do aquífero do Guarani. Nesse cenário, Amazônia, vem reduzindo a umidade e a água de um sistema pode abastecer reservatórios e mananciais são altos, e o
o Pais ocupa posição de grande impor- atmosférica proveniente do norte do parte do outro. Isso permitiu que a área retorno é de longo prazo. Portanto, tor-
tância na geopolítica mundial, uma vez País, chamada de “Rio Voador”. É essa de influência do Cantareira fosse reduzi- nam menos atrativas as ações no merca-
que a água doce tem se tornado cada vez umidade que possibilita grande parte das da, sobrecarregando os demais sistemas. do financeiro. Para o mercado, o retorno
mais escassa, como contrapartida à cres- chuvas no Sul e Sudeste do Brasil. Mas nenhum desses sistemas tem condi- tem que ser imediato.
cente produção de alimentos e de outras Uma hipótese bastante aceitável é ções de suprir a lacuna do Cantareira por Essa lógica privatista acompanha to-
riquezas dependentes da água. que combinação de fenômenos climá- muito tempo. dos os governos nos últimos 20 anos.
Água virtual: quantidade de litros ticos à redução das florestas e corpos Se é verdade que, até o momento, Inicialmente, a ideia era privatizar a Sa-
necessários à produção de 1 kg de alimento d’água no Norte e Centro-Oeste seja a não é possível controlar eventos climá- besp. A empresa foi, por isso, fatiada em
principal responsável pela seca extrema ticos tais como a estiagem, também é unidades de negócio e, se necessário, co-
farelo de soja 2400 littros
no Sudeste. Obviamente, isso se agrava verdade que já é possível prevê-los e to- gitou-se vendê-la por região. A tentativa
óleo de soja 5400 litros com o desmatamento da própria região mar precauções contra seus efeitos. Há de privatização não prosperou porque
soja grão 1800 litros sudeste. No Oeste do estado de São mais de uma década, especialistas vêm havia confusão jurídica sobre a concessão
carne bovina 15497 litros alertando para o colapso no sistema de do saneamento, além de alta rejeição da
carne porco 6309 litros abastecimento de água de São Paulo, de- ideia pela população. Mas isso não impe-
A água doce equivale a 75% de
vido ao simples fato de que há um cres- diu que a empresa fosse privatizada por
milho 909 litros todas as riquezas do planeta cimento substancial da demanda sem dentro, com uma administração voltada
Por outro lado, a produção de ali- somadas. Pode parecer contrapartida na oferta. Nos últimos 20 por o mercado e terceirização de quase
mentos para exportação, atividade es- absurdo, mas o capitalismo anos, não houve a construção de um tudo. Ademais, a aprovação das Parcerias
sencialmente desenvolvida pelo Agrone- enxerga tudo sob a ótica do único sistema de tratamento de água. Público-Privadas no governo Lula/PT
gócio, coloca o Brasil entre os países que valor econômico. O mais recente, o do Alto Tietê, entrou possibilitou que o governo do estadual
mais exporta água. Com base nos dados
em operação em 1993; o Cantareira, em do PSDB repassasse sistemas inteiros,
de exportação disponibilizados pelo Mi-
Paulo, a vegetação nativa foi quase que 1973; Guarapiranga, Rio Grande, Ri- como o Alto Tietê, ao setor privado, dei-
nistério do Desenvolvimento, Indústria
totalmente substituída por plantações de beirão da Estiva, Baixo Cotia, Alto Co- xando a população à mercê da gula dos
e Comércio Exterior, em 2013, levando
cana-de-açúcar, laranja, eucalipto, etc. tia e Rio Claro entraram em operação empresários.
em conta apenas soja, carne bovina e su-
O desmatamento nas regiões de manan- entre 1914 e 1973. Hoje, a maior parte dos serviços de
ína, milho e café, o país exportou cerca
ciais também não é desprezível. Assim, não é de hoje que os sistemas saneamento é executada por emprei-
de 200 trilhões de litros de água “virtu-
Atribuir esse quadro preocupante de abastecimento de água da Região teiras. Aqui reside outro problema gra-
al”, ou seja, a água necessária para a pro-
simplesmente à ação predatória do “ser Metropolitana de São Paulo vêm traba- ve, pois essas empreiteiras são grandes
dução desses itens. Esse volume equivale
humano” não é acurado, pois dilui a lhando no limite, e pouca coisa foi feita financiadoras de campanhas eleitorais
a 200 vezes o Sistema Cantareira cheio,
responsabilidade e a culpa. As terras e as para aumentar a capacidade das represas, dos partidos burgueses, aparecendo fre-
e seria suficiente para abastecer a Região
águas – e as exportações – são contro- melhorar a eficiência na distribuição, ou quentemente nas prestações de contas
Metropolitana de São Paulo por cerca de
ladas por grupos muito pequenos, mas desenvolver novas opções de abasteci- ao TSE. Serviços que deveriam ser exe-
100 anos. A agricultura como um todo
com grande influência nos governos. mento e uso diferenciado. Muito me- cutados pela Sabesp são passados para
responde pela maior fatia do consumo
Assim, seria mais preciso dizer que os nos na preservação dos mananciais, por empresas terceirizadas. Essas empresas,
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 17
para reduzir custos, não executam as pago seu salário atrasado. prazo está comprometido. do consumo, algo em torno de 5.000
obras conforme as normas de quali- Assaltos a supermercados para obten- litros por segundo. A coleta e tratamen-
dade. Quando ocorrem os esperados O governador vem insistindo, des- ção de água para sobreviver, ou êxodos to de esgoto poderia disponibilizar mais
vazamentos, as empreiteiras são contra- de dezembro de 2013, que não haverá em massa para outras regiões do Brasil de 20.000 litros por segundo de água de
tadas mais uma vez para consertar o es- rodízio de água. Essa orientação é, no parecem cenários impensáveis, mas não reuso não-potável. Se fosse reduzida em
trago que causaram. Ademais, as obras mínimo, irresponsável. Mas ela atende sabemos o que pode acontecer se o siste- 10% a perda de 30% na distribuição,
de emergência dispensam licitações, de a dois interesses: o dos acionistas, pois ma de fornecimento de águas entrar em através da substituição da tubulação e
modo que custam muito caro à popula- evita redução da lucratividade resultante colapso. Será impossível para as pessoas melhorias nos serviços de assentamento,
ção e aumentam o lucro das empreiteiras da redução da venda do produto, e o do comprar água engarrafada para suprir to- seriam economizados 2.000 litros por
ainda mais. governador, de ser reeleito. das as suas necessidades por muito tem- segundo. Somente esses itens já repre-
Assim, a terceirização exacerbada na Se depender dos acionistas, vende-se po. sentam o equivalente a um novo Siste-
Sabesp nada tem a ver com redução de até a última gota de água. E quanto mais Além disso, a incidência de doenças ma Cantareira. Será que o governo quer
custo ou melhoria na qualidade. Um raro for o produto, mais caro fica. Isso transmitas por água contaminada ou por isso?
exemplo disso é a pesquisa de vazamento ganha maior importância quando se tra- falta d’água pode ser alarmante, e a quan- O consumo de água na Região Me-
não-visível. Quando terceirizado, esse ta de um produto essencial à sobrevivên- tidade de mortes pode chegar a níveis tropolitana de São Paulo, onde há pouca
serviço custa R$ 638 por quilômetro cia. Quando acabar a água das represas, o nunca vistos. Pesquisa do Ministério da atividade agrícola, concentra-se em resi-
de rede. Se cada técnico da empreiteira bom negócio será vender água engarra- Saúde aponta que 80% das internações dências, indústria, comércio e atividade
pode fazer até 5 km por dia, ou até 110 fada. Um exemplo disso é o saneamento hospitalares no Brasil poderiam ser evita- pública. Aí, o consumo residencial re-
km/mês, o trabalho de um só técnico de Itu, que é feito por uma empresa pri- das se tivéssemos saneamento adequado, presenta a maior parte da água tratada e
pode custar para Sabesp mais de R$ 70 vada. Lá, a água praticamente acabou por e que para cada R$ 1 investido em sa- distribuída pelas companhias de sanea-
mil por mês (dos quais, evidentemente, completo. Não será surpresa se a empre- neamento economiza-se R$ 5 em saúde mento (cerca de 84%). Entretanto, mui-
apenas uma parte ínfima é realmente sa abandonar a cidade quando começar a curativa. Mas o que temos no caso de tas empresas têm poços, o que distorce
paga ao técnico). Se tal pesquisa fosse fei- ter prejuízos. São Paulo é um processo inverso, o que esses dados. Portanto, não seria absurdo
ta por um empregado da própria Sabesp, O governador Alckmin apostou na pode gerar um impacto imprevisível. sugerir que o consumo empresarial e re-
a mesma não sairia por mais de R$ 7 mil ajuda do céu para esconder a faltar de A atuação irresponsável e mentirosa sidencial têm o mesmo peso.
com todos os custos. Com a possibilidade da água aca-
Os profissionais da Sabesp têm alto bar, vários setores empresariais já falam
nível técnico e são conhecedores da re- em paralisação das atividades e demis-
alidade do saneamento, mas são substi- sões. Entretanto, existem outros seto-
tuídos por mão de obra rotativa e nem res que acharam uma oportunidade de
sempre especializada. São contratadas mercado: empresas de perfuração de
empresas que apresentam uma pequena poços, caminhões pipa, caixas de água,
equipe de profissionais que são especia- e principalmente as de água envasada
lizados, mas que não vão executar os (galões, copos, garrafas, etc.). Visan-
serviços de fato. A Sabesp deixou de ter do aumentar o lucro, empresários de
equipes especializadas em fiscalização diversos ramos estão pedindo a deso-
há muito tempo: hoje, são as empreitei- neração (PIS/Cofins) e um possível
ras que fiscalizam as empreiteiras. reajuste acima da inflação, com a jus-
N
tificativa de que precisam de mais in-
os últimos anos, portanto, vestimentos.
a Sabesp tornou-se refém É necessário desencadear uma luta
das empreiteiras. Quando imediata com as seguintes pautas:
um contrato acaba, a pró-
pria Sabesp não tem pessoal para realizar
os serviços. Tecnologias novas, de me-
planejamento e investimento em ma-
nanciais. Entretanto, a água da Região
Metropolitana de São Paulo pode aca-
do governador Geraldo Alckmin cons-
titui, assim, um duplo crime: contra a
saúde pública, colocando milhões de
1 ) Estatização imediata da Sabesp
e das empresas de saneamento,
com controle pelos trabalhadores
lhor qualidade e mais baratas, não po- bar antes de chegar o segundo semestre pessoas em risco, e contra o meio am- (hoje o que existe é o controle pelos
dem ser utilizadas quando não constam de 2015. Aí, o cenário seria catastrófico biente. O afastamento do governador empresários);
no contrato. Isso ocorre, por exemplo,
com a utilização de ferro fundido e PVC
nas tubulações de água, tecnologias anti-
para cerca de 16 milhões de pessoas que
dependem dessa água.
Do ponto de vista ambiental, os da-
deveria ocorrer o mais rápido possível,
pois não se trata de uma situação normal.
Milhões de pessoas e seres vivos podem
2 ) Criação de um Conselho de
Usuários com poder de fiscaliza-
ção e de deliberação sobre as ques-
gas que já poderiam ser substituídas pelo nos podem ser irreversíveis. A fauna e a estar ameaçadas. tões de Saneamento;
PEAD, material com menor incidência
de vazamentos.
O resultado disso é visto nas ruas:
flora da região dos mananciais estão sob
séria ameaça. A redução dos peixes já
vem ocorrendo ano a ano, mas, com a
A política de Alckmin, entretanto,
não está isolada: está afinadíssima com o
ideário neoliberal. A água e o saneamen-
3 ) Preservação dos mananciais.
Para isso é necessário um plano
habitacional sério que possa englo-
valas com péssima pavimentação, esgo- redução dos níveis de água a concentra- to estão sendo dominados pelo mercado bar todas as famílias em áreas de
to transbordando, e muitos vazamentos. ção da poluição aumenta muito, aumen- e colocados à disposição dos empresários risco e que estão sem moradia, bem
Cerca de 30% da água tratada é perdida tando a mortandade de animais aquáti- em detrimento das necessidades vitais. como o combate à especulação
nos vazamentos. Os serviços mal feitos cos. Espécies inteiras podem desaparecer Hoje, está em andamento a Parceria imobiliária;
trazem consequências financeiras, am-
bientais e de saúde pública.
A Sabesp ainda arca com a falta de
para sempre dessas regiões, provocando
efeito cascata em outras espécies e, con-
sequentemente, no ecossistema como
Público Privada do Sistema São Lou-
renço, ao custo de R$ 2,2 bilhões, para
aumentar o fornecimento de água em
4 ) Combate às perdas de água.
Fim da terceirização e do cartel
das empresas prestadores de servi-
O
compromisso das empresas terceiriza- um todo. 4.700 litros por segundo, com previsão ço;
das para com seus próprios empregados.
Milhares de trabalhadores dessas em-
presas estão acionando-as na Justiça do
risco de colapso é muito
grande, e as consequências
são maiores ainda. Se o
de término para 2018. Do montante
total, R$ 440 milhões virão da JICA,
agência de fomento do governo japonês,
5 ) 100% de coleta e tratamento do
esgoto. Reuso planejado da água
do esgoto tratado (para fins não po-
Trabalho, em processos nos quais a Sa- ritmo de queda dos níveis e o R$ 1,8 bilhão restante virá do BN- táveis ou consumo humano);
besp aparece como corresponsável. Em
março de 2014, um porteiro terceiriza-
do acorrentou-se no portão da Estação
de água continuar como está, teremos
colapso total no sistema de saneamento
em São Paulo. Mesmo que, nos próxi-
DES e da Sabesp. Mas quem vai gerir
o empreendimento é o capital privado,
que não entra com recurso algum.
6 ) Incentivo à coleta e uso de água
de chuva (distribuição de reser-
vatórios, com projetos de instala-
de Tratamento de Esgoto Parque Novo mos meses, a quantidade de chuvas seja Por outro lado, se fosse incentivado ção).•
Mundo, impedindo o acesso às depen- maior que a média dos últimos anos, o o uso de água de chuva em São Paulo,
dências da empresa, enquanto não fosse abastecimento de água a curto e médio seria possível economizar cerca de 10%
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 19
UMA NOVA PRIMAVERA
redescobrindo o povo brasileiro
A
Fotos e Texto: GREGÓRIO BRUNING
grande arte brasileira do passado sempre hor de engenho excêntrico e decadente, por quem é o mesmo. O menino do engenho veio para a cidade
teve estreita ligação com o seu povo. E despejado, mas salvo por cangaceiros. Os Capitães de e se tornou doutor, Paulo Honório é empresário do
isso, para os artistas do início do século Areia, meninos de rua auto-organizados na luta pela agronegócio e Fabiano trabalha em uma montadora
XX, significou empreender finalmente a sobrevivência, de vida e modos bárbaros, em que o no ABC. A arte, que não acompanhou o seu povo
descoberta deste imenso povo. O negro recém lib- Sem-Perna se mata para não cair. Paulo Honório, o nesta jornada, tem diante de si o desafio de redesco-
erto, o branco pobre, os caboclos dos sertões, os homem enérgico que atropela a tudo e todos para er- bri-lo.
índios, a imensa riqueza humana espalhada por este igir uma fazenda. Os retirantes Fabiano, Sinhá Vitória E irá fazê-lo, em grande parte, nas periferias das
vasto território em tipos, psicologias, culturas e mes- e os filhos. Os retirantes de Portinari. Todos eles ex- grandes e médias cidades, que concentram hoje a mas-
mo línguas diferentes constituiu o caldo do qual be- istiram. Até a cachorra Baleia existiu. Podiam figurar sa do povo trabalhador brasileiro. Povo que trouxe
beram Lima Barreto, Mário de Andrade, Graciliano nos livros de história. Aliás, foi a forma da arte dar suas heranças regionais e que cria no caos urbano
Ramos, Jorge Amado, Portinari, José Lins do Rego, nome e rosto para um povo anônimo. novas raízes para o futuro do país. Nas periferias se
Guimarães Rosa, Villa-Lobos. Vidas Secas de Graciliano Ramos é de 1938. O cruzam as diversas tradições culturais e étnicas bra-
Era preciso, em primeiro lugar, descobrir a própria Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa foi lança- sileiras, as diversas esperanças e sonhos de uma vida
língua dos brasileiros. O louvável esforço de Mário do há mais de meio século, em 1958. Sua geração de mais elevada, as diversas mãos que constroem nosso
de Andrade com Macunaíma foi, com o perdão da artistas mergulhou fundo no seio do povo, com res- país. Nelas se encontra a força viva de um novo Bra-
expressão, macunaímico; não estava o escritor ainda peito e admiração, e provou ser o caldo cultural deste sil, ainda amarrada pela dependência econômica, pelo
em condições de perceber a imensa diversidade cul- imenso Brasil popular o motor da grande arte. Em- sistema social injusto, pela ideologia da exploração.
tural regional brasileira, e por isso seu personagem é preenderam a tarefa de tal maneira que as gerações O povo brasileiro quer progredir, quer romper es-
quase uma caricatura, um tipo irreal a quem é difícil posteriores acharam que a missão estava cumprida, tas amarras. E a maior expressão deste povo que quer
conceder existência. Mas, ao olhar mais de perto, era e a mão de ferro dos militares acabou por apartar o progredir são os movimentos sociais, organizados
possível verificar que não existia um caráter brasileiro artista do seu povo. para lutar por aquilo que temos direito, o fundamen-
unívoco. Éramos um povo muito mais diverso. Seria Mesmo com o retorno da democracia, acostumar- tal para uma vida digna. Nas ocupações urbanas, a
preciso captar essa diversidade com mais realidade e am a olhar o Brasil com desdém. Teve até banda de diversidade do mundo popular brasileiro se integra de
especificidade. rock de sucesso cantando que “a terra é uma beleza, o maneira monumental para lutar e construir um novo
O moleque Ricardo, pobre vindo do campo para que estraga é essa gente”. Passaram a olhar mais para Brasil.•
se tornar operário em uma padaria e morrer na prisão as elites europeias e americanas, pois nada de novo Estas fotografias são uma mostra do trabalho em
por acreditar na revolução. O Mestre José Amaro, haveria para se encontrar nesta terra. No entanto, de- processo Uma Nova Primavera, iniciado em setem-
seleiro morador tradicional nas terras de um sen- pois de tantas décadas, o povo brasileiro não é mais bro de 2012 na Ocupação Nova Primavera, na Cidade
Industrial de Curitiba/PR.
24 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
SAÚDE
ebola
O
Filoviridae Ebola é um ví- fato, pela primeira vez, o vírus está se- matamento de áreas gigantescas, e cria Essas empresas controlam a produção de
rus composto de dez pro- guindo um novo caminho, adentran- comunidades rurais que sobrevivem da biocombustíveis, que está em rápida ex-
teínas que foi identificado do centros urbanos importantes, entre caça de animais que, anteriormente, não pansão.
pela primeira vez em 1976, eles Conakry, na Guiné, Monrovia, na tinham contato com os seres humanos. Um pequeno camponês expressou
no Zaire, hoje República Democráti- Libéria, e Freetown, em Sierra Leoa. Evidentemente, macacos, pequenos sucintamente as consequências sociais do
ca do Congo (RDC). Atualmente, são Também é importante observar que são mamíferos e morcegos foram, por muito controle da empresa malaia Sime Darby
conhecidos cinco tipos do vírus, mas as mulheres as mais afetadas, porque são tempo, parte da alimentação tradicional sobre milhares de acres de terra na Libé-
acredita-se que sejam todos mutações da sobretudo elas que estão cuidando dos dos povos dessas regiões. Mas suas neces- ria: “Agora nos falta comida. Não temos
primeira variedade conhecida, que hoje é pacientes. sidades crescentes de proteínas levaram- comida nem hospital. Nem escola. Não
encontrada na África Ocidental (Gire nos a apelar mais e mais para a caça, temos trabalho (...) então é difícil pagar
et al., Science, August 28, 2014). Não o que aumenta a exposição a novos os professores (…) Então eles vão embo-
resta dúvida de que o vírus originou- Os profissionais não têm patógenos (3). Além disso, a desorga- ra.” (5). A apropriação de terra por em-
se de morcegos frutívoros da África meios para enfrentar o nização de ecossistemas, resultante do presas privadas estrangeiras vêm na sequ-
Subsaariana. Esses mamíferos alados número de pacientes e desmatamento em larga escala nos úl- ência de décadas de ajuste estrutural que
transmitem-no a macacos e outros proteger-se e as frágeis timos anos, contribuiu para o aumento literalmente destruíram a infraestrutura
animais, mas também aos seres hu- instituições de saúde se do contato entre animais infectados e pública dos países mais pobres da África
manos, diretamente. O agente pato- grupos humanos. Particularmente, o Subsaariana, especialmente a educação e
transformam em centros de
gênico provoca epidemias recorrentes desmatamento de 40 mil quilômetros a saúde. O Ebola, agora, exacerbará essa
de uma febre mortal, cujos primeiros
propagação da epidemia. quadrados na África Subsaariana entre pobreza endêmica, causando uma nova
sintomas são parecidos com os da gri- 2000 e 2010, correspondendo a quase crise de alimentos nas áreas mais afeta-
pe, seguidos por fraqueza, diarreia, um terço do desmatamento mundial, das, como resultado direto da imposição
C
vômitos e, muitas vezes, hemorragias – A apropriação privada da terra combinou-se com o aquecimento glo- de quarentenas que interrompem o cul-
sintomas que podem ser facilmente con- omo podemos explicar a in- bal na acentuação da aridez e aumento tivo agrícola e o comércio, provocando
fundidos com os de outras doenças. Em fecção de seres humanos por da duração da estação seca, dois fatores aumento nos preços de gêneros alimen-
mais da metade dos casos, a infecção leva um vírus que, até recente- favoráveis à eclosão de epidemias, pois tícios básicos (USA Today, 28 de agosto
à morte. mente, ocorria apenas entre fazem com que animais potencialmente de 2014).
A
Desde a primeira irrupção do Ebo- animais selvagens? A resposta está na portadores de vários vírus saiam de seus Reféns da Pobreza
la na RDC, cerca de vinte epidemias já exploração cada vez mais intensa da sa- nichos ecológicos tradicionais (4). parentemente, o primeiro
afetaram dez países, primeiro na bacia do vana africana, uma vasta zona de cerca Em períodos recentes, os países afeta- surto da atual epidemia ocor-
Rio Congo – Ebola é o nome de um de de 4 milhões de quilômetros quadrados dos pela epidemia em curso foram o alvo reu em dezembro de 2013.
seus afluentes – e depois na África Oci- que vai do Senegal à África do Sul, e que preferido dos investidores internacionais, nas aldeias próximas à cida-
dental, particularmente na Guiné, na Li- a Organização das Nações Unidas para devido à abundância de terra cultivável de de Guéckédou, no sul da Guiné. Na
béria, em Serra Leoa, na Nigéria e, mais Alimentação e Agricultura e o Banco “disponível”, a vulnerabilidade de seus década de 2000 a 2010, a população de
recentemente, no Senegal (1). Contudo, Mundial descrevem como a nova El Do- pequenos produtores dedicados à agri- Guéckédou praticamente triplicou, de-
a atual epidemia do Oeste da África fará rado agricultural do mundo (2). Como cultura de subsistência, e condições polí- vido ao influxo de refugiados das guerras
mais vítimas do que todas as epidemias se sabe, o declínio da agricultura de pe- tica favoráveis (leia-se, a promoção indis- civis em Serra Leoa e na Libéria. A infra-
juntas até hoje. De 1976 a 2013, o Ébo- queno porte praticada por lavradores, em criminada do livre empreendimento e o estrutura pública é, obviamente, incom-
la causou 2.345 mortes, enquanto que a benefício do agronegócio para exporta- declínio da atividade estatal). É assim que patível com as necessidades básicas dessa
Organização Mundial de Saúde (OMS) ção, levou ao deslocamento de milhões grande interesses italianos (Nuove Inizia- população, e as autoridades estão em to-
estima, de forma otimista, que cerca de de pequenos produtores pobres, e à con- tive Industriali) e americanos (Farm Land tal descrédito. Os profissionais de saúde,
20.000 pessoas morrerão na pandemia centração de terra nas mãos de grandes of Guinea) voltaram seus olhos à Guiné. muito poucos e mal equipados, não têm
atualmente em curso. Alguns epidemio- corporações multinacionais. Essa “acu- Na Libéria, também estão presentes in- meios para enfrentar o aumento no nú-
logistas acreditam que esse número aca- mulação por expropriação” está ex- vestimentos malaios (Sime Darby), além mero de pacientes, e nem mesmo para
bará sendo pelo menos cinco vezes maior plodindo nos países afetados pelo vírus de companhias Suíças (Addax). Serra proteger-se da doença. Com isso, as frá-
(Mediapart, 2 de Setembro, 2014). De Ebola. Aquela expropriação leva ao des- Leoa é a preferida das Sino-vietnamitas. geis instituições de saúde se transformam
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 25
em centros de propagação da epidemia. ruas: o surto está começando a assumir para 228 milhões de dólares em 2014- tém uma proibição sobre a testagem de
Sob tais condições, sem que existam um caráter medieval” (The New Yorker, 2015. É um sinal dos tempos que o vacinas em seres humanos, dada a altíssi-
nem mesmo formas locais de testagem 11 de agosto de 2014). Banco Mundial tenha destinado 200 ma taxa de fatalidade dos infectados pelo
P
da infecção com Ebola – para realizar Mobilização Popular milhões de dólares para cobrir o inves- vírus. De acordo com o renomado pes-
esses testes, é preciso enviar as amostras ara uma luta eficaz contra a timento limitado da agência das Nações quisador belga Peter Piot, um dos desco-
para a Europa e a América do Norte – a epidemia, são necessários mais Unidas (The Lancet, setembro de 2014). bridores do Ebola e fundador do Comitê
epidemia saiu de controle rapidamente. recursos. Porém, também é Da mesma forma, as organizações não- para a Abolição da Dívida do Terceiro
Pouco a pouco, ela chegou a comunida- fundamental a mobilização po- governamentais, tais como os Médicos Mundo, “Depois que a epidemia ter-
des vizinhas, especialmente Guéckédou, pular e o trabalho conjunto com os pro- Sem Fronteiras (MSF), ou as ordens minar, os investimentos em pesquisa de
que é a sede de um importante mercado fissionais da saúde pública, especialmente religiosas tais como a San Juan de Dios tratamentos e vacinas serão suspensos.
regional, de onde migrou para as capitais para evitar que os doentes sejam escondi- – à qual pertencia o padre espanhol que Quando vier uma nova epidemia, nada
da Guiné, da Libéria e de Serra Leoa. É dos por suas famílias, para assegurar que recentemente foi vítima da epidemia – terá sido feito. Depois do surto de 1976,
importante dar-se conta de que, de acor- as cerimônias funerais sejam seguras – os estão à frente da intervenção de campo a OMS afirmou que criaria uma equipe
do com investigações epidemiológicas, mortos são particularmente contagiosos (7). Trata-se de uma imagem vívida da internacional de intervenção. Isso nunca
cada paciente teve contato, em média, – e também para garantir que as casas privatização dos serviços essenciais, cadaaconteceu.” Piot está solicitando apoio
com 20 a 40 pessoas, as quais, teorica- dos mortos sejam desinfetadas. Mas, para financiar a pesquisa e para ofere-
mente, teriam que ser identificadas e ras- sobretudo, aquela mobilização é neces- cer tratamento gratuito sob respon-
treadas durante 21 dias (Le Monde, 5 de sária para exigir uma política de saúde A pesquisa e a indústria sabilidade da OMS para os atingidos
agosto de 2014). que atenda às demandas das populações pela doença (Le Monde, 7 de agosto
farmacêutica não responderão
Na Europa e na América do Norte, ameaçadas. de 2014).
não seria difícil deter o contágio de uma Essas condições estão ausentes de
às necessidades da A trágica epidemia hoje em curso
doença que é principalmente transmitido muitas das comunidades afetadas, que humanidade, especialmente mostra como a busca incessante por
por contato direto com fluidos corporais têm boas razões para desconfiar de suas dos grupos mais pobres lucros é incompatível com a saúde
de pacientes (saliva, suor, vômito, uri- autoridades. A tática destas últimas tem pública, especialmente aquela das
na, fezes, sêmen, sangue, etc), embora a sido a de criminalizar as famílias que massas pobres dos países oprimi-
possibilidade de infecção por inalação do escondem parentes doentes, e empregar vez mais negligenciados pelos governos e dos. O líder de extrema-direita francês
vírus parece não ter sido excluída (Ame- as Forças Armadas para impedir que as organizações internacionais. Jean-Marie Le Pen, recentemente con-
D
rican Thinker, 24 de agosto de 2014). pessoas circulem, ao invés de aumentar A falência moral do capitalismo tribuiu para elevar o nível de barbárie
Ao contrário da AIDS, o tempo de in- o financiamento público da saúde e en- esde que a OMS declarou, ao extremo, ao afirmar que o “Senhor
cubação do Ebola é curto (em média, 10 corajar a administração coletiva da saúde bastante tarde, no dia 8 de Ebola” tem os meios para deter a explo-
dias), e os indivíduos afetados só podem (E-International Relations, 26 de julho agosto, que a epidemia da são populacional mundial em três meses.
espalhar a doença durante o breve perí- de 2014; Le Monde, 1o de agosto de África Ocidental havia se Para ir além da legítima indignação, e
odo em que aparecem os sintomas. As- 2014). tornado uma emergência internacional, realmente mudar o curso das coisas, pre-
sim, para evitar que o Ebola se espalhe, é Além disso, é difícil exigir que os ha- houve um aumento gigantesco do valor cisamos romper com a atual desordem
preciso, apenas, serviços de saúde capazes bitantes dos países em questão confiem das ações das companhias farmacêuti- mundial. Em primeiro lugar, a saúde pú-
de tratar os pacientes com um mínimo em atores internacionais que são majo- cas avançadas envolvidas no desenvolvi- blica não pode ser separada de objetivos
de segurança (uso de gorros, luvas, más- ritariamente brancos (OMS, Médicos mento de vacinas e antivirais (Tekmira, ecossocialistas, porque a saúde depende
caras, agulhas limpas, etc), evitando que Sem Fronteiras, UNICEF, Cruz Ver- Sarepta, BioCryst, NanoViricides, Mapp do ambiente em que vivemos, e o pro-
entrem em contato com suas famílias, e melha, etc), que vêm vestidos em roupas Bio e Zmapp, um coquetel de três anti- dutivismo de nossa sociedade constante-
também rastreando e informando as pes- espaciais e roubam seus mortos para co- corpos que foi administrado com sucesso mente promove o aparecimento de novas
soas com que tiveram contato. locá-los em sacos plásticos. Dado o papel para dois trabalhadores de ajuda huma- patologias somáticas e psicológicas, que o
Entretanto, em países que registram das instituições de financiamento inter- nitária dos EUA, mas que não surtiram capitalismo a qualquer custo põe na con-
menos de um médico para cada 50.000 nacional na imposição dos programas de efeito para o padre espanhol e em um ta da sociedade. A pesquisa e a indústria
habitantes, “profissionais de saúde tra- ajuste estrutural durante os últimos 30 médico da Libéria). Essas empresas de- farmacêutica não responderão às necessi-
balhando nos locais afetados (…) não anos, todos os ingredientes estão presen- senvolveram substâncias – por enquan- dades da humanidade, especialmente dos
têm acesso aos recursos básicos para pro- tes para alimentar as teorias da conspira- to, em quantidades experimentais – que grupos mais pobres, enquanto não se re-
tegerem a si mesmos e a seus pacientes. ção que afirmam que interesses racistas e estão quase prontas para a testagem em nunciar à prática de limitar a distribuição
Muitos dos hospitais estão deteriorados, neocoloniais deliberadamente causaram seres humanos (Reuters, 8 de agosto de de seus produtos aos clientes pagantes,
o controle infectológico é extremamen- surtos de AIDS e de Ebola para facilitar a 2014; Forbes, 29 de agosto de 2014). ao invés de atender necessidades sociais
te limitado, e a capacidade de rastrear os apropriação da riqueza africana (6). De acordo com o prof. Daniel Baus- democraticamente definidas. Para que
contatos é praticamente nula.” (Vox, 9 A iniciativa espontânea de artistas, ch, da Escola Tulane de Saúde Pública e isso aconteça, será preciso socializá-las e
de agosto de 2014). No total, de acor- cantores e atores, e também de bloguei- Medicina Tropical, o principal obstáculo financiá-las publicamente. Será que não
do com a OMS, quase 8% das vítimas ros, no esforça de alertar a sociedade e en- à produção desses medicamentos eficazes se poderia começar com a utilização dos
do Ebola são médicos ou enfermeiros corajar seus concidadãos a protegerem-se não é científico nem técnico, mas eco- gigantescos recursos destinados ao pa-
(The Spokesman-Review, 31 de agosto da doença, bem como o envolvimento nômico: “As companhias farmacêuticas gamentos dos serviços de dívida pública
de 2014). “Em Serra Leoa, na cidade de dos sobreviventes em campanhas de pre- não se sentem incentivadas a usar seus pelos povos do Sul e do Norte para fi-
Kenema, 18 médicos e enfermeiros que venção, sugerem que métodos melhores recursos financeiros em pesquisa e de- nanciar a assistência em saúde?•
trabalhavam na ala de infectados com estão sendo tentados (NPR, 19 de agos- senvolvimento para curar uma doença
Ebola e febre Lassa contraíram Ebola, to de 2014; ABCNews, 26 de agosto que só aparece esporadicamente em pa-
e pelo menos 5 morreram (…) Alguns de 2014). Entretanto, uma verdadeira íses africanos pobres” (nakedcapitalism. (1) Uma epidemia de menor duração também afetou a Repúbli-
ca Popular do Congo em julho último, provavelmente ligada a
enfermeiros que trabalharam com Ebola organização de base para resistir à epide- com, agosto de 2014). É por isso que uma outra cepa de Ebola.
pararam de vir ao trabalho: estavam tra- mia exige o reconhecimento de direitos o Dr. John Ashton, presidente da Fa- (2) Awakening Africa’s Sleeping Giant. Awakening Africa’s Sle-
eping Giant. Banco Mundial, 2009.
balhando em turnos de 12 horas, vestidos democráticos básicos, e sua tradução em culdade Britânica de Saúde Pública fala
(3) Mecanismos deste tipo foram recentemente estudados glo-
com roupas de proteção herméticas, e su- termos de organizações da sociedade ci- abertamente da “falência moral do capi- balmente por David Quammen.
postamente deveriam ganhar um adicio- vil, algo incompatível com a preservação talismo” (Independent on Sunday, 3 de (4) Daniel G. Bausch and Lara Schwarz, “Outbreak of Ebola Vi-
rus Disease in Guinea: Where Ecology Meets Economy,”
nal de periculosidade de 30 dólares por dos enormes privilégios das burguesias agosto de 2014). (5) The Globe and Mail, “Land Grabs in Africa: Liberia”
dia, mas o governo de Serra Leone não locais e internacionais. Até agora, o que o Ebola conseguiu (6) Ver a declaração que explica as razões pela petição lançada pelo
realizou os pagamentos (…) Na Libéria, De fato, no plano internacional, a foi despertar a atenção das Forças Arma- matemático Pascal Adjamagbo, o Dr. Guy Alovor e Kanyana
Mutombo, a qual solicita que a União Africana, associada ao
partes do sistema médico colapsaram ação hesitante e tardia da OMS é absur- das, interessadas na prevenção de bioter- Conselho de Segurança da ONU, crie uma comissão para estu-
(…) Os hospitais da capital, Monrovia, da. O orçamento disponível para lidar rorismo. As grandes companhias farma- dar as origens da AIDS e do Ebola.
lotados de pacientes com Ebola, estão com as crises de epidemia foi cortado cêuticas negam-se a financiar os testes (7) Esta ordem religiosa é parcialmente financiada pelas receitas
dos títulos públicos do Estado espanhol (La Jornada, 17 de agosto
recusando novos pacientes (…) Corpos pela metade nos últimos dois anos: de clínicos, que são caríssimos, porém es- de 2014).
infectados estão sendo abandonados nas 469 milhões de dólares em 2012-2013 senciais. A OMS, até o momento, man-
26 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
N
o período que vai de meados dos odo, trabalhou-se a expressão espontânea da como a necessidade de trabalho articula- procedimentos estéticos à serviço da crítica
anos 50 até o início dos anos 70, cultura nas ações de luta, nos acampamentos do entre Saúde e Cultura, para fortalecer o contra o fetichismo da mercadoria e, em
a intensidade das lutas populares e assentamentos. A arte era evocada como debate sobre as duas dimensões nos assenta- chave desideologizadora.
coincidiu com uma profunda re- uma necessidade orgânica do movimento, mentos e acampamentos; ou o trabalho das
novação da cena teatral no Brasil. O teatro embora ainda sem a preocupação da discus- linguagens artísticas com as turmas de edu- A experiência brasileira dos anos 60 foi
não almejava mais ser apenas um diverti- são sobre o fazer artístico e sobre a necessi- cação de jovens e adultos; o trabalho com as o grande momento político, artístico,
mento importado da Europa para consumo dade de organização da cultura como um artes nos cursos de formação de militantes; cultural, que ainda hoje traz influências
dos abastados, mas adotou para si a tarefa de elemento estratégico. Mas nos anos de 1997 o papel da Cultura no treinamento dos mili- para a criação teatral. Em que medida
botar no palco os problemas do Brasil con- e 1998 começa a produção sistemática de tantes da Frente de Massa; a discussão sobre esta herança se coloca como acúmulo,
temporâneo, buscando como interlocutor textos e o debate sobre a necessidade de uma a questão cultural no debate sobre a matriz para a elaboração de modos de enten-
os movimentos sociais. A maneira de atuar, revolução cultural interna na organização, da agroecologia, e sobre cooperação, etc. der a realidade, ou como obstáculo, no
de escrever peças, o modo como os grupos que pudesse contemplar os valores, a forma- Ao lado disso tudo, está o trabalho especí- sentido de não avançar na crítica e na
se organizavam, a relação com o publico, ção, o perfil adequado para as demandas re- fico com as linguagens artísticas: dentro do construção de alternativas que consi-
tudo foi debatido e reinventado. Foi, sem volucionárias encampadas pela organização. Coletivo de Cultura temos a estrutura das gam dialogar com as condições atuais?
dúvida, um dos momentos mais férteis da Com isso, o MST entra numa segunda frentes por linguagens para dar conta de es- A experiência teatral dos anos 1960 foi
cena brasileira. etapa. Em paralelo à reivindicação da cultura pecificidades do trabalho com cada lingua- interrompida pelo golpe de 1964 quando es-
A realidade atual nos mostra que o apro- como um direito, ou como uma derivação gem. Temos ainda eventos como a Semana tava em processo de rápido amadurecimen-
fundamento da crise social parece trazer no- conservadora dessa dimensão ampliada, da Cultura Brasileira e da Reforma Agrária, to. Há estudos que atestam que o processo
vas lutas políticas. A questão é saber como vem a reivindicação do acesso aos bens cul- que são grandes atividades culturais de pro- de formação do teatro brasileiro, enquanto
os grupos de teatro hoje podem se colocar turais. A cultura é compreendida como um paganda da Reforma Agrária e de diálogo síntese dialética das influências externas e
diante dessa nova conjuntura. A trajetória e código de acesso ao universo do consumo, com a sociedade urbana pela dimensão da do processo de acumulação interna, ocorre
a reflexão de quem viveu o teatro político no por exemplo, acesso à TV e sua programa- cultura e da arte. naquela década, sobretudo, nos anos que an-
passado, e vive-o ainda no presente, pode ção, acesso ao cinema, etc. Cultura como tecedem o golpe militar-civil de 1964.
nos ajudar a responder essa questão. Pensan- sinônimo de produto cultural. O ponto Roberto Schwarz, em um ensaio O estudo de Iná Camargo Costa, “A
do nisso, entrevistamos Rafael Villas Bôas, principal desse questionamento é a condi- sobre a atualidade de Brecht, faz duas hora do teatro épico” (Graal, 1996) é a obra
membro da Brigada Nacional de Teatro do ção de acesso como público consumidor, e afirmações que trazem implicações mais consistente sobre a questão. Nesse tra-
MST e professor da UnB. não o debate sobre apropriação dos meios de para a prática teatral na atualidade. A balho, a autora alega que o processo brasilei-
produção. primeira é a de que não haveria nada ro pulou do estágio inicial, de transferência
Julian Boal e Paula Kropf - Como nasceu a O fato disso aparecer no MST é indício mais a ser desvelado, o estado das coi- dos meios de produção, para o estágio do
ideia de uma ação cultural organizada do caráter contraditório do Movimento, sas não é mais algo que precise ser des- massacre da experiência, tendo atropelado
dentro do MST? pois ao mesmo tempo em que há consci- coberto, já o foi. A outra é a constata- o segundo estágio, que é o da apropriação
Rafael - Nasceu junto com o MST, em ência da necessidade de domínio dos meios ção de que o conhecimento, uma vez sistemática da classe trabalhadora dos meios
1984. A conquista da terra sempre signifi- de produção para o trabalho na terra con- adquirido, não instaura automatica- de produção das linguagens artísticas.
cou para os camponeses uma luta plena pela quistada pela luta, uma parte da organização mente uma passagem para a ação, não Talvez, possamos afirmar que há expe-
conquista de muitos direitos, da produção demora a compreender que, no campo da desperta um contexto revolucionário. riências, hoje em dia, nos coletivos de teatro
de alimentos, da educação, da saúde, da cul- cultura, deve valer a mesma regra. Entre Partindo destes dois pontos, qual seria político espalhados pelo país, que não dei-
tura, etc. As simbologias sempre estiveram os militantes da cultura essa consciência é hoje o papel do teatro? xam nada a dever em termos de qualidade
presentes nas ações do MST, nas ocupações, latente desde o início da parceria com Au- Sem desconsiderar a pertinência do ao que de melhor foi produzido naquele
lutas de resistência aos despejos, marchas, gusto Boal e o Centro do Teatro do Opri- argumento, cabe, todavia, lembrar que a período. Por outro lado, a associação orgâ-
noites culturais... Há influências da estética mido, em 2001, e é aprofundada e mais dinâmica de mercantilização da vida segue nica daquela experiência a uma perspectiva
religiosa, da produção artística de movimen- amplamente disseminada após a realização em processo acelerado e a arte e a cultura de construção de um projeto de país é algo
tos socialistas e comunistas, mas nenhuma do Seminário Arte e Cultura na Formação, são sempre espaços potenciais de expressão que não reapareceu nas décadas seguintes ao
delas foi assimilada sem ser ressignificada, realizado na Escola Nacional Florestan Fer- formal do problema, expressão das contra- golpe de 1964.
sem sofrer processos de sincretismo. Histo- nandes, em 2005. dições. Portanto, não apenas o que já foi O trabalho que o MST faz no campo da
ricamente, o debate sobre a cultura no MST Num terceiro momento, a cultura apa- descoberto carece ainda de ser socializado Cultura, sobretudo, a partir da parceria com
ganhou força especialmente a partir de um rece como frente estratégica de formação, para as grandes massas da população (e, logo, Augusto Boal e o CTO, e da organização
seminário realizado em 1998, que reuniu diálogo com a sociedade e organização so- a eficácia de seu potencial emancipatório ca- da produção cultural do Movimento, que
militantes de diversos setores. Dois anos de- cial. Desde a criação do Coletivo Nacional rece ainda de ser testada) como há questões já soma treze anos, desde 2001, em termos
pois desse debate, foi criado o Coletivo Na- de Cultura, aparece a discussão específica a serem descobertas, aprofundadas, questio- temporais, e de capilaridade pelo território
cional de Cultura, como desdobramento de sobre cultura e arte no Movimento. A ques- nadas, etc. nacional, levou adiante o projeto da segunda
uma frente do Setor de Educação. tão cultural passa a ser encarada como um Quanto à questão de que o conheci- fase interrompida pelo golpe, a de transfe-
A expressão de síntese de maior origina- fator importante na construção da estratégia mento ao ser adquirido não instaura uma rência dos meios de produção da linguagem
lidade e autonomia em relação às influências da organização, para o processo de formação passagem automática para a ação, estamos de teatral para a classe trabalhadora. Porém, as
da indústria cultural é a mística do MST. A de militantes e trabalho de base nos acam- acordo, pois, caso contrário, incorreríamos condições de produção dos grupos de tea-
mística é a expressão política e estética que pamentos e assentamentos, e também como numa tendência idealista, de acharmos que tro do MST não permitiram ainda que, do
articula o passado (a consciência de quais meio de diálogo com a sociedade em geral. só estamos na condição histórica de subde- ponto de vista estético, a qualidade das obras
lutas somos tributários, o aprendizado com Também é nesse momento que se com- senvolvimento, superexploração e iniquida- atinjam um nível equivalente ao padrão do
as derrotas, o legado dos valores, estratégias, preende a relação entre Indústria Cultural de por conta da falta de formação da classe que era produzido na década de 1960.
etc.), o presente (a leitura precisa da conjun- e Agronegócio. Entra em pauta a discussão trabalhadora. É certo que um processo de Entretanto, esse critério de aferição da
tura da correlação de forças) e do futuro (o sobre os padrões hegemônicos de represen- formação mais consistente pode incidir com qualidade da produção, comparando as
traçado das providências táticas, em con- tação da realidade, e o questionamento à maior vigor sobre as contradições da luta de experiências contemporâneas com o que
sonância com a estratégia, coletivamente lógica do espetáculo e seus efeitos danosos classes, mas há dimensões da infraestrutura tivemos na década de 1960, não deve ser
elaborada, e em permanente gesto de cons- para dentro do Movimento, na medida que que são decisivas para o confronto entre ca- considerado um fator limitante, porque são
trução). Além disso, é a expressão que funde esse debate nos permitia reconhecer nossa pital e trabalho. contextos diferentes, com gamas diversas
as linguagens artísticas da música, do teatro, condição de vulnerabilidade nesse flanco da O papel do teatro hoje é múltiplo, e de problemas para levarmos em conta. Há
da dança, das artes plásticas, e que torna seu luta. não é muito diferente do que foi sistema- experiências significativas, no âmbito da
gesto de produção uma ação coletiva, con- tizado por Eugenia Cassini Ropa no texto linguagem teatral, em algumas das peças do
trária ao caráter segregador e alienador da Conte um pouco das atividades que “A arma do teatro”, sobre o teatro político MST, como destaca Iná Camargo Costa, no
divisão social do trabalho no sistema capi- concretamente são desenvolvidas e de das décadas de 1920 e 1930. Para essa auto- prefácio do livro “Teatro e Transformação
talista. que modo. ra, como linguagem artística, o teatro deve Social” (2007). A questão da eficácia estética
Como você avalia a experiência passa- O setor de Cultura do MST atua em di- fornecer imagens não mercantilizadas de não deve ser analisada de forma dissociada
da e acumulada ao longo dos anos de atu- versas frentes. Nas oficinas, cursos e seminá- um mundo cujas contradições podem, e da função que o trabalho pretende cumprir
ação das frentes de cultura do movimento? rios, a militância é convocada para transmitir devem, ser superadas pela ação da humani- e das condições de produção da obra, pois,
Como você observa a relação do setor cul- o que aprendeu, com diversos objetivos. Na dade, tendo em vista a perspectiva emanci- de modo geral, quando isso ocorre, o julga-
tural com as demais esferas de organização animação e agitação em ações de luta ou patória. Como instrumento de agitação e mento estético pode vir atrelado a uma posi-
da luta dentro do movimento? grandes eventos, a militância da Cultura é propaganda, o teatro deve ser potencializado ção política de classe, mesmo quando não se
No decorrer dos seus 30 anos de exis- sempre convocada para estar nos palcos ou por meio de brigadas, no campo e na cida- manifeste claramente no discurso. Já ocor-
tência, o MST desencadeou um amplo nos carros de som durante as marchas, ou de, e nas escolas, pelo papel de educadores reu na história de críticos ligados a partidos
processo de apropriação prática e teórica do preparando a ornamentação de atividades, críticos, cientes do sentido humanizador comunistas (vide os casos alemão e soviéti-
sentido do direito à cultura. Esquematizar é e o ambiente público em que um grande que a arte pode cumprir quando associada co) desqualificarem o trabalho de trupes de
sempre um problema, mas podemos fazer a evento do MST ocorrerá. Também é pro- à dimensão da formação e educação. Como agitação e propaganda, ou das peças didáti-
seguinte periodização. Em primeiro lugar, movida a parceria com outros setores para forma de disputa com os instrumentos de cas de Brecht, com critérios burgueses, com
houve a discussão do direito à cultura como a formação de militantes: no MST, muitos persuasão e manipulação da indústria cul- pressupostos estéticos da forma dramática.•
parte do direito à terra e à vida. Nesse perí- desafios surgem de demandas concretas, tural, o teatro pode colocar em campo seus
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 27
“Quem for idêntico a si próprio, este pode ser colocado no caixão, este já não
existe mais, não está mais em movimento. Idêntico é um memorial. O que preci-
samos é do futuro, e não da eternidade do instante. Precisamos desenterrar os
mortos, mais e mais, porque só deles podemos receber o futuro.” Heiner Müller
8
NÃO encaixando-se perfeitamente no projeto do homem
– Mas você se comporta como um homem contemporâneo.
5
vencido.
– Hoje em dia, é bem visto ser um homem A MORTE DA POLÍTICA
vencido. A morte da política é consequência do nas-
Fui vencido aos poucos. Sem me dar conta de todos cimento do homem contemporâneo. Se a
os processos, até que fosse irreversível. Mas desde política é um procedimento de verdade, ou
que pude enxergar que fui vencido, me tornei um seja: uma experiência que constrói um determina-
homem sem grandes inquietudes. Ser vencido me do tipo de verdade que diz respeito ao coletivo. A
definia, era a minha borda. Um homem se torna ação política transforma em verdade aquilo que o
pleno quando se depara com as suas bordas. Quan- coletivo é capaz. Mas se uma das principais carac-
do percebe que tudo o que está para fora delas é terísticas do homem contemporâneo é agir e pensar
apenas fantasia. Esta condição permite um descan- individualmente, o seu nascimento é a morte do
so de todas as utopias. Desde que fui vencido, me coletivo. E, consequentemente, a morte da política.
4
tornei um homem sem grandes sofrimentos. Se eu
acreditasse em terapia, diria que fui curado de mim MANIFESTAÇÂO
mesmo. Curado de mim mesmo, pude finalmente Movido pela fantasia da ação política, for-
fazer parte do exército silencioso de homens ven- mulei questões fora do sistema de coorde-
cidos. nadas do possível: somos capazes de pro-
7
duzir igualdade? Somos capazes de integrar tudo
A LIBERDADE DO POSSÍVEL aquilo que é heterogêneo? E a mais perigosa das
Agora que sou um homem curado, posso perguntas: de que são capazes indivíduos a partir do
enxergar unicamente o possível; aquilo que momento em que se reúnem, se organizam e pen-
existe. Enxergar unicamente aquilo que sam? Em algum momento, o plano de felicidade do
existe me livrou de dois sentimentos parasitários: homem contemporâneo falhou e surgiu um des-
esperança e descontentamento. Perder a esperança contentamento individual, que virou descontenta-
de que as coisas sejam de outra maneira é se tornar mento coletivo. Em algum momento, a “peste de
uma peça que faz girar a engrenagem do possível. um só homem se tornasse a peste coletiva”.
3
Perder a esperança é viver no presente; naquilo que
existe. Perder a esperança significa não sentir mais DESCONTENTAMENTO
descontentamento por tudo aquilo que está fora do Não existia um discurso comum. Não
sistema de coordenadas do possível. Desta maneira, existia um consenso. Existia apenas o des-
poderei alcançar aquilo que todos os homens con- contentamento. Mas poderia a peste do
temporâneos colocam em seu mais alto patamar: a descontentamento resistir e desfazer a imagem do
felicidade. homem contemporâneo?
6 2
HOMEM CONTEMPORANEO VIOLÊNCIA
Quando deixei de dizer não, me tornei um – Somos movidos apenas por sentimentos!
homem contemporâneo. Encaixei perfeita- Ao que alguém respondeu: – Sem partido!
mente no projeto teológico-político do ho- Sem violência! Qualquer mudança é essen-
mem contemporâneo. Poderia até mesmo servir de cialmente perturbação. Violência. E não seria uma
modelo para que outros se curassem dessa indeter- violência contra a paz estabelecida, mas uma vio-
minação, que alguns chamam de Eu. Um homem lência contra a violência necessária para naturalizar
contemporâneo precisa cumprir três etapas para a violência do sistema. Se não tem violência, não
estabelecer com precisão as suas bordas: a primei- tem mudança. Se não tem mudança, o desconten-
ra é deixar de dizer não. Em outras palavras, tudo tamento persiste?
1
aceitar. As coisas são como são. As coisas sempre
foram assim. As coisas sequer te dizem respeito. AGONIA
Viva como se não estivesse no mundo: é a segunda A multidão perdia.
etapa. Essa é a maior contribuição para manter o Eu perdia.
mundo e as coisas do mundo em seus devidos lu- Todos se debatiam para evitar que a política
gares. Por fim, pense apenas nas suas questões indi- preenchesse qualquer fissura, quando a política já
viduais (a infiltração no teto do banheiro afeta mais preenchia todas as fissuras. Quando, das ruínas do
a sua vida do que qualquer criança passando fome homem contemporâneo, do homem sem bandeira,
em propagandas apelativas). Assim, você evitará se do homem não violento, surgia o homem contem-
relacionar com a tensão compartilhada da revolta, porâneo.•
28 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
N
o dia 11 de setembro quanto do minério. O Brasil recen- de domínio do mundo natural e e ex-presidente ianque Dwight Ei-
de 2014, foi noticia- temente surfou no inflacionamento sociocultural (nas mais diversas di- senhower, complexo industrial-mi-
do nos jornais que a do preço das commodities. Por trás mensões), ou seja, das condições litar. Assim, a finalidade desvairada
commodity minério da predominância delas na pauta ex- objetivas e subjetivas da nossa vida de multiplicar, incessantemente, di-
de ferro atingiu o menor preço dos portadora do Brasil e de muitos ou- em sociedade. A rigor, em resposta nheiro em mais dinheiro, gera não
últimos cinco anos. Essa sucessão tros países, encontra-se o que David aos obstáculos estruturais da acumu- apenas sobreacumulação monetária
de baixas nos preços provocou o fa- Harvey denominou de acumulação lação capitalista em tempos de crise de mercadorias e serviços, de força
migerado Goldman Sachs a soltar por despossessão: uma reedição e crônica, restabeleceu-se um regime de trabalho e de maquinaria: engen-
um relatório que veicula o “fim da ampliação da pilhagem dos recursos de espoliação aberta, direta, crua, dra também superacumulação de
Idade do Ferro”, com estimativas naturais e socioculturais, incluindo imediata, que, na esteira do próprio meios vigilantes, repressivos, puniti-
de encerramento, em 2015, de 110 a rapinagem privada dos fundos pú- Harvey e outros formuladores críti- vos. Nessa linha, a corporação trans-
milhões de toneladas em capacidade blicos, a expansão da privatização, as cos, como Arantes e Menegat, pode nacional Hitachi, autoproclamada
de produção anual do minério no contrarreformas que corroem direi- ser tratada como a (re)ativação, por como uma empresa “que reúne di-
planeta, além de mais 75 milhões, tos, além do avanço da terceirização meios high-tech, da metodologia da versas medidas para tornar as cidades
em 2016. Seguindo os rastros da crí- que amplia e institucionaliza a pre- acumulação primitiva do capitalis- mais inteligentes”, por meio de um
tica da Economia Política elaborada carização nas relações de trabalho. mo. espaço comprado numa revista bra-
por Karl Marx, que, grosso modo, A despossessão inclui também mais A superprodução ou supera- sileira voltada ao público empresa-
identifica na superacumulação o de- extravasamento da racionalidade cumulação, tendência imanente à rial, veiculou um novo equipamento
tonador das crises econômicas no (irracional) econômica para as es- contradição em processo do capi- tecnológico “a serviço da seguran-
capitalismo, podemos apontar para feras constitutivas da vida cotidiana tal, manifesta-se, também, em um ça”: um sistema que consegue regis-
a correlação entre a superprodução na chamada “globalização”, expres- segmento estratégico à acumulação trar 36 milhões de rostos em menos
da indústria chinesa de aço e o exor- sando, assim, uma monstruosa pre- capitalista: a indústria bélica ou, de 1 segundo – repito: 36 milhões de
bitante estocamento, tanto do aço, tensão (potencialmente) totalitária conforme expressão do ex-general rostos em menos de 1 segundo!
U
ma onda de indignação,
insubordinação e pro-
testo que tomou conta
de Fergusson, no esta-
do de Missouri, EUA, arrancou da
invisibilidade o assassinato do jovem
Mike Brown, alvejado por tiros des-
feridos por um policial militar em 9
de agosto de 2014. Brown era negro
e pauperizado, morador de periferia,
tal como, não coincidentemente, a
maioria esmagadora de mortos por
agentes da lei estadunidense ou por
na “guerra às drogas” e, inclusive, no pela primeira vez durante as inves- crescente entrelaçamento envolven-
seguranças privados. Segundo o re-
combate a outros tipos penais. tigações e audiências acerca do es- do o exercício do poder de polícia e
latório Malcolm X Grassroots Mo-
É possível localizarmos no cha- cândalo do Irã-Contras, no mesmo o fazer bélico das Forças Armadas.
vement, a cada 28 horas um homem
mado Programa 1033, fabricado ano. Resumidamente, o programa Pertence também aos solavancos da
negro é assassinado por um policial,
pelo perdulário lobby do complexo Rex 84 consiste na instalação e ma- superprodução/superacumulação a
segurança privado ou patrulheiro
industrial-militar, um catalisador da nutenção preventivas de campos de proliferação das medidas de exceção
nos Estados Unidos. Aproveitan-
militarização interna num país que concentração (em quantidade sigilo- como tecnologia de governo, na es-
do esse triste ensejo, vale destacar
exporta guerras, no bojo do acú- sa) para confinamento em massa, vi- teira da também marcante tendência
também a megalomaníaca política
mulo de medidas de exceção de- sando casos de conflagrações sociais. do regime democrático se reprodu-
de encarceramento, na casa dos dois
sencadeado no pós-11 de setembro. Originalmente, segundo consta, foi zir, pelo menos em alguma medida,
milhões de indivíduos. Pautando-se
Somente no ano de 2013 a “monta- concebido para conter um projeta- como “Estado de Exceção”.
em projeções rebaixadas, em 2020,
nha” de dólares destinada à compra do êxodo em massa de estrangei- Chegamos a um momento opor-
pelo menos 1 em cada 4 jovens ne-
das mercadorias bélicas para as forças ros que cruzassem ou forçassem o tuno para expormos e analisarmos
gros estará no cárcere. Logo, a má-
policiais alcançou cerca de 450 mi- cruzamento das fronteiras norte-a- brevemente características marcan-
quina mortífera e encarceradora da
lhões de dólares. Eis um estratégico mericanas, no caso de uma invasão tes de um significativo laboratório
democracia de mercado norte-ame-
escoadouro para a superprodução militar ostensiva dos EUA em países de regulação social armada de terri-
ricana é marcada pela seletividade
de mercadorias bélicas (ainda que da América Central e América La- tórios em curso na cidade do Rio de
econômica, racial e espacial.
insuficiente frente ao produtivismo tina. Tais campos (ou, pelo menos, Janeiro.
No calor da ocupação das ruas
N
desvairado do capital). Linhas sub- a maioria deles) estariam preparados
pela revoltada e atônita população,
sidiadas de crédito foram criadas o final de novem-
profissionais da grande mídia em-
e canalizadas especificamente para Nos dias de hoje, a aparição bro de 2010, todos
presarial depararam-se com um
municípios comprarem o arsenal bé- os tipos de polícias
opulento cortejo bélico, em grande contínua de militares das
lico superacumulado das Forças Ar- existentes por aqui,
parte empregado na chamada “guer- Forças Armadas numa
madas, independente dos índices de a Guarda Municipal da cidade do
ra do Golfo”, nas invasões do Iraque cidade como o Rio de Janeiro
criminalidade registrados. O estado Rio de Janeiro e as três Forças Ar-
e Afeganistão (dentre outras mais ou virou um (naturalizado)
do Missouri, por exemplo, recebeu madas planejaram e executaram,
menos clandestinas). O cortejo era componente da paisagem
cerca de 69 milhões de dólares nos conjuntamente a maior megaope-
composto por veículos blindados an- urbana cotidiana
últimos cinco anos para efetuar a es- ração policial/militar (ou militar/
timinas, lançadores de granada, fuzis
calada de compras. policial) em áreas urbanas faveli-
e rifles automáticos de infantaria, vi-
zadas do país, mobilizando vin-
seiras de raio-x, dentre outros, que
para abrigar 20 mil prisioneiros. A te e dois mil indivíduos, com uma
juntavam-se aos já mais conhecidos
Pertence aos solavancos da FEMA (Federal Emergency Ma- grande variedade de armamentos e
gás lacrimogênio, spray de pimenta,
superprodução e da nagement Agency), supostamente utensílios bélicos. Esse contingente
cassetete, etc. Não se tratava apenas
superacumulação a voltada à “gestão de emergências” representava quase o dobro do total
da Guarda Nacional (formada prin-
proliferação das medidas de provocadas por eventos naturais ex- de militares empregados, à época, na
cipalmente por reservistas das For-
exceção como tecnologia de tremos, como furacões, tufões, ter- intervenção do Haiti – 11.449 mili-
ças Armadas), convocada para tirar
governo remotos, inundações etc., operaria tares, de 31 países – e um quinto do
a multidão das ruas e restabelecer a
tais campos, cujo funcionamento contingente militar dos EUA mo-
“ordem”, mas, sobretudo, de poli-
dependeria da decretação da Lei bilizado na invasão do Afeganistão.
ciais locais portando o mencionado
Marcial (e consequente suspensão Além das sanguinárias tropas de elite
aparato. A discrepância de se depa-
A superacumulação de meios vi- da Constituição federal) por obra de das polícias militar e civil do estado
rar em Ferguson com policiais lo-
gilantes/repressivos/punitivos (cor- uma mera assinatura presidencial, do Rio de Janeiro, respectivamente
cais usando aparato voltado à guerra,
relata à sobreacumulação monetária, complementada por uma megalo- BOPE (Batalhão de Operações Es-
executando operação de guerra, las-
de mercadorias e serviços, de força maníaca ordem de prisão (anexada peciais da Polícia Militar do Estado
treou um elucidativo exagero (for-
de trabalho e de maquinaria) expres- de uma “lista de nomes”) do Procu- do Rio de Janeiro) e CORE (Coor-
mulado como interrogação, mas, até
sa-se também no sombrio Rex 84, rador Geral. Aproveitando o ensejo, denadoria de Recursos Especiais da
mesmo, como afirmação): o “Iraque
abreviatura de Readiness Exercise vale lembrar das prisões secretas vin- Polícia Civil do Estado do Rio de Ja-
é aqui”!? Os agentes da grande mí-
1984, fabricado pelo governo nor- culadas a CIA, instaladas em, pelo neiro), participaram tropas de elites
dia, que em maior ou menor grau
te-americano depois do susto com a menos 54 países, espalhados por to- das Forças Armadas, como o Corpo
acompanham o desmoronamento
sublevação dos negros das periferias dos os continentes do mundo. Parte de Fuzileiros Navais da Marinha e
do Iraque, bem sabem que os EUA
capitaneada pelos Black Panthers, dessas prisões secretas, inclusive, é a Brigada de Infantaria Paraque-
não são o Iraque. Com um olhar um
das mobilizações contra a guerra instalada em navios. dista do Exército. Acompanhando
pouco mais atento do funcionamen-
do Vietnã, de experiências político- Compondo a superprodução/ as informações oficiais e, sobretu-
to da maior democracia de mercado
culturais mais radicalizadas advindas superacumulação de dispositivos do, as frenéticas imagens televisivas
do mundo, o exagerado enuncia-
da chamada “contracultura”, dentre vigilantes-repressivos-punitivos, transmitidas, muitas vezes ao vivo,
do encontra ainda um lastreamento
outros temores conservadores. De- desponta não apenas a tendência foi possível constatar variados tipos
maior, posto que o emprego de ar-
nunciado pelo jornal Miami Herald, marcante de militarização da lógica de armamentos, carros de combate,
mamentos e táticas de combate an-
em 5 de julho de 1987, foi revelado policial, mas, de modo correlato, um helicópteros etc. No tocante aos car-
titerroristas passou a ser corriqueiro
30 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
ros de combate, como exemplo elen- as casas. Vulneráveis a tal generalis- de lei e ordem”. A propósito, no fi- a expressão pejorativa “esquerda ca-
camos o M-113, de fabricação nor- mo judicial, encontra-se uma popu- nal de 2008 o Ministério da Defesa viar”. Tal classificação não aconteceu
te-americana, utilizado na guerra do lação numericamente superior à de anunciou a Nova Estratégia de Defesa em um momento informal, mas sim
Vietnã, e ainda muito requerido nas 5530 municípios brasileiros, de um Nacional, composta por uma regula- num ato judicial. No Rio de Janeiro,
guerras em curso do Oriente Médio; total de 5570. Apontamos aqui para mentação da Garantia de Lei e Or- a bizarra prisão em massa por supos-
o Mowag Piranha, de fabricação suí- um modelar exemplo de uma medi- dem que confere mais espaço para as tos flagrantes de 84 manifestantes no
ça, amplamente usado pela MINUS- da de exceção: instaurando-se uma Forças Armadas “combaterem a cri- dia 15 de outubro de 2013 foi enqua-
TAH; o CFN Anfíbio 7A1, também espécie de “legalização da inconsti- minalidade”, exercendo o “papel de drada na Lei das Organizações Cri-
conhecido como CLAnf (“Carro tucionalidade”, viola-se/suspende-se polícia” nas ruas das cidades brasilei- minosas (Lei 12.085/2013), além da
de Lagarta Anfíbio”), de fabricação a ordem normativa em nome da de- ras. Nesse registro, por exemplo, a já deliberação explícita de estabelecer
norte-americana, incorporado nas fesa da ordem normativa, num qua- citada Brigada de Infantaria Paraque- fianças estratosféricas para dificultar
diversas incursões ao redor do mun- dro de intervenção que abdica de um dista do Exército direciona seu ades- tanto quanto possível a soltura de ati-
do; o SK 105 adaptado, produzido decreto de intervenção. Conforme tramento de elite para “atuar com ra- vistas. Não poderia deixar de figurar
na Áustria e modificado pela tecno- já mencionado, podemos identificar pidez nas ações de defesa externa e na nessa seleção de exemplos a proposta
logia industrial-militar brasileira; o a vigência de uma tecnologia de go- garantia de lei e da ordem em qual- de uma tipificação criminal genérica
Urutu, blindado de origem nacional, vernança assentada na proliferação de quer parte do território nacional”. de “terrorismo”, contida na proposta
também muito usado pela MINUS- medidas de exceção. Sem a pretensão legislativa de “lei anti-terrorismo”,
TAH. Em relação aos helicópteros, ingênua e equivocada de identificar As commodities e armas que pode resvalar nas lutas popula-
sobressaíram-se, nas coberturas mi- uma regra geral, é possível lembrar (superacumuladas) res. Vale elencar, ainda, a detenção
diáticas, os da Aeronáutica, principal- que, há um tempo atrás (e nem tanto perfazem o modo capitalista de advogados, ou melhor, a triviali-
mente o H-1H (já usado na Guerra tempo assim), a exibição frequente de produção material e zação da detenção de advogados no
do Vietnã) e o H-34 Super-Puma. do arsenal militar no espaço urbano cumprimento de suas atribuições
simbólica da vida social
Esse aparato bélico serviu para recru- era sinal de que a ordem normativa profissionais, constitucionalmente
descer o arsenal das polícias militar estava, no mínimo, ameaçada. Nos
alienada, num contexto global contempladas. Na ondulação puni-
e civil do Rio de Janeiro, composto, dias de hoje, a aparição contínua de de crise econômica. tiva, advogados também passaram
por exemplo, por fuzis 7.62, 5.56 e militares das Forças Armadas numa a ser capturados nas detenções em
M-16, pistolas .380 e 9 mm, o Cavei- cidade como o Rio de Janeiro virou massa.
J
rão, o Caveirão-aéreo – um helicóp- um (naturalizado) componente da Voltando o foco, mais diretamen-
tero de 3,5 toneladas, com 240 quilos paisagem urbana cotidiana, tornan- unto à violência e criminali- te ao laboratório carioca de regulação
de blindagem capaz de suportar tiros do-se um veículo de manutenção da zação dos setores pauperiza- social armada de territórios, pode-
de calibre “ponto 30”, e capacidade ordem normativa enquanto tal, sobre dos, agrega-se a violência e mos captar não somente o aprofun-
para 15 tripulantes. E por aí vai. Do a qual se ergue o regime democrático criminalização das mobiliza- damento da militarização da polícia,
lado do comércio varejista de drogas de mercado. ções e lutas populares. O Centro de mas também um entrelaçamento en-
ilícitas, foram encontrados fuzis AR- Com efeito, vale destacar que Informações do Exército (CIE) está tre o exercício do poder de polícia e
15 e 7.62, uma bazuca AT-4, utiliza- o atual comandante das tropas do sendo profundamente reestrutura- o fazer bélico das Forças Armadas,
da pelo Exército ianque na guerra do Exército responsáveis pela governan- do e reativado, segundo informações num contexto de aplicação de medi-
Iraque, uma submetralhadora 9 mm ça territorial armada na Maré, Gene- divulgadas na mídia, com foco nas das de exceção como tecnologia de
de origem italiana, granadas, bombas ral Roberto Escoto, comandou tanto áreas de inteligência e contra-inteli- governança. Com isso, resguardan-
caseiras, pistolas 9 mm, revólveres ca- a Brigada de Infantaria Paraquedista gência voltadas ao monitoramento de do as singularidades, consideramos
libre 38, etc. do Exército quanto a MINUSTAH. movimentos sociais. Para isso, mili- plausível inserir tal laboratório num
A área atingida é composta por No mesmo compasso, é importante tares que atuaram nas áreas de inteli- contexto mais amplo, com resso-
uma espécie de conurbação de fa- salientar que, não por um acaso, o gência e de operações especiais, hoje nâncias em várias partes do mundo,
velas incrustadas em morros e es- comandante da megaoperação de no- na reserva, estão sendo convocados de normalização e normatização de
praiadas também por terrenos planos vembro de 2010 e da posterior gestão para treinar novos quadros do CIE. operações de polícia como incur-
– o Complexo do Alemão e a Vila territorial militarizada no Complexo Como reação aos atos de rua de ju- sões bélicas, e vice-versa. Seja lá o
Cruzeiro. Essa megaoperação, é in- do Alemão e Vila Cruzeiro, General nho de 2013, despontou uma atuação que for: “guerra assimétrica”, “guer-
dispensável frisar, inaugurou uma Fernando Sardemberg foi também intersetorial, que pode ser identifica- ra irregular”, “novíssima guerra”,
governança territorial armada do comandante da MINUSTAH. Com da em alguns episódios ilustrativos, “guerra molecular”, “pós-guerra”
Exército por mais de 2 anos, sem a isso, identificamos vasos comunican- dentre vários. Em São Paulo, polícia ou “estados de violência” distintos da
decretação de Estado de Defesa, Es- tes entre as mencionadas megaopera- e Ministério Público evocaram a Lei “guerra”, o fato é que commodities
tado de Sítio ou intervenção federal ção e governanças territoriais arma- de Segurança Nacional para enqua- e armas (superacumuladas) perfazem
(conforme prescrição constitucional), das com a incursão militar no Haiti, drar manifestantes. Nesse mesmo o modo capitalista de produção ma-
que foi substituída por uma Unidade que apresentou uma ímpar oportu- estado, palco recente de ostentação terial e simbólica da vida social alie-
de Polícia Pacificadora (UPP), em 30 nidade para a refuncionalização das (reeditada) de uma cultura de elite nada, num contexto global de crise
de maio de 2012, quando começaram Forças Armadas, no sentido de ades- autoritária e antipopular (que cos- econômica. E quem comprar a mer-
a se manifestar indícios do envolvi- tramento da tropa para as crescentes tumeiramente clama, inclusive, por cadoria securitária nova da Hitachi
mento da tropa com o chamado “ar- intervenções em “conflitos urbanos uma ditadura militar), um juiz de di- poderá registrar 36 milhões de rostos
rego” e sucessivas contestações dos internos”, em nome da tal “garantia reito classificou ativistas presos com em menos de 1 segundo. •
moradores.
E por falar em governança terri-
torial armada do Exército (também
sem a decretação de Estado de Defe-
sa, Estado de Sítio ou intervenção fe-
deral), está em curso no complexo de
favelas da Maré algo do tipo,sem data
precisa para terminar, tratado como
um preâmbulo à instauração de uma
prometida UPP. A implementação
de tal governança contou com a atu-
ação do Poder Judiciário: um juiz do
Rio de Janeiro expediu mandado de
busca e apreensão coletivo para todas
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 31
R
eforma urbana, já! Esta é uma que Ermínia Maricato chama de “Impasse A luta por reforma sa ser suprimido o direito democrático do
A
reivindicação ainda comum da política urbana no Brasil”. urbana no Brasil voto. A reforma urbana que, no momen-
em manifestações organiza- Na lógica da produção capitalista da ci- lenta e gradual transição de- to do Congresso Constituinte, é resultado
das por movimentos sociais dade, no atual estágio de desenvolvimento mocrática brasileira dos anos do movimento social, representa, hoje, um
de luta por terra e moradia nas cidades bra- do capitalismo, em sua fase de amadureci- 1980 garantiu a continuidade impedimento à luta emancipatória e é um
sileiras. Mas o que está pressuposto neste mento e esgotamento, predominam a es- da ordem existente, e muitas projeto factível para o gerenciamento da
direito reclamado? Que expectativas e que peculação e a fusão do cultural com o eco- expectativas foram frustradas nesse percur- crise.
compreensão das formas simbólicas da re- nômico nos moldes da cidade-mercadoria, so, como é o caso do fracasso da campa- Perante a realidade da regressão social
forma urbana têm as massas que sofrem o movida a boas oportunidades e grandes nha das “Diretas Já” seguido da eleição de que se efetiva no conjunto de processos de
processo de espoliação urbana e acreditam eventos, considerados atrativos de vanta- Tancredo Neves. Mas havia a ilusão de que gentrificação, em que a cidade-mercado-
que este pode ser o caminho? Propomos gens econômicas e geopolíticas. Nesse pe- os problemas urbanos eram decorrentes, ria é meio fundamental de acumulação de
neste artigo trazer questões que contribuam ríodo do fetiche total, da perda da materia- especialmente, da falta de um regime de- capital e o espaço urbano se torna o esteio
para pensar a historicidade da bandeira da lidade da reprodução do capital, o dinheiro mocrático. Na segunda metade da década desta acumulação por espoliação, a reforma
reforma urbana e sua influência sobre mo- se transforma em mais dinheiro, sem a me- de 1980, mais especificamente em 1987, urbana tem como premissa um rebaixa-
vimentos sociais urbanos. diação do trabalho e sem acréscimo real de parte das massas urbanas de espoliados pelo mento de expectativas, e faz parte daquilo
O projeto de reforma urbana no Brasil valor. Um exemplo bem visível nas gran- capital organizaram-se e articularam-se que Leonardo Boff define como “utopia
fundamenta-se num ideário que parte da des cidades dessa realidade especulativa é a no processo constituinte, mobilizados em mínima”, a política de inserção de mi-
possibilidade de um Estado forte e da exis- especulação imobiliária, que permite que torno da discussão e da coleta de assinatu- lhões de brasileiros no mercado de consu-
tência de um espaço de lutas por ampliação um imóvel sofra uma variação de seu valor ras da emenda popular da reforma urbana. mo. Destaca-se, nesse contexto, o Minha
de direitos sociais referentes ao direito à ci- de compra e venda de mais de 100%, sem Esse enquadramento das lutas populares Casa Minha Vida, um dos principais pro-
dade justa e igualitária, que pressupõe uma qualquer investimento material, no período no contrato social, ou seja, a juridicização gramas do atual governo, e que promove
gestão democrática da cidade. Entretanto, de um ano ou, até, em poucos meses. O ca- das lutas pela constituinte, já era uma ma- a produção habitacional nos moldes mais
estes pressupostos não se realizaram na so- pital especulativo atinge de forma perversa a nifestação de um processo funcional para tradicionais e conservadores, reproduzindo
ciedade brasileira e, diante das transfor- o desenvolvimento capitalista periféri- e aprofundando as desigualdades e injusti-
mações decorrentes da reestruturação co, na redemocratização conservadora. ças socioterritoriais históricas do Brasil. Ele
do capitalismo mundializado, essa arena A especulação imobiliária Segundo Baldez, havia um momento tem reduzido a discussão sobre conflitos de
de disputa da cidade democrática versus permite que um imóvel sofra rico de politização da discussão urbana, terra urbana à positivação da moradia como
os interesses da produção capitalista da variação de seu valor em e a possibilidade de elaboração de emen- mercadoria. Não obstante, o FNRU se po-
cidade mostrou-se inviabilizada. A re- das populares desviou o debate político sicionou favoravelmente a esse programa,
mais de 100% sem qualquer
forma urbana não se constituiu como para a abstração da lei. Passado o processo afirmando que representa um “avanço” na
uma forma de enfrentamento contra o investimento material constituinte e, sendo o Estado o eixo das agenda econômica do país por incluir a ha-
capital e a especulação imobiliária, nem ações do projeto da reforma urbana, fica bitação na estratégia de investimento para o
como instrumento de organização de evidente que o projeto não incluía uma desenvolvimento do país.
modos de sociabilidade para a luta libertária vida nas cidades. O preço dessa ordem ur- ação política estratégica de mobilização po- Inserida nesse contexto, a bandeira da
e por emancipação humana. bana é a desigualdade cada vez maior. Num pular que desse sentido à continuidade da reforma urbana foi se tornando um fetiche
Por sua atuação no processo Consti- movimento de destruir para construir e luta, para além de esperar que a lei se cum- para a luta por terra e moradia na cidade.
tuinte, nos anos 1987 e 1988, o Movimento destruir novamente, o processo de transfor- prisse. Para ter direito a acessar diretamente os re-
Nacional por Reforma Urbana (MNRU) mação do espaço urbano vem sendo feito a A reforma urbana no Brasil, portanto, cursos do Fundo Nacional de Habitação
teve importante papel histórico. Nas últi- uma velocidade sem precedentes. se insere no campo abstrato do direito e do de Interesse Social, movimentos populares
mas décadas, o Fórum Nacional da Refor- O colapso urbano da sociedade capi- poder estatal, um conceito que não “reflete criaram seus CNPJs e tornaram-se ONGs.
ma Urbana (FNRU) se colocou no papel talista em sua face mais evidente, que é a apenas uma ideologia, mas, também a rea- Teóricos, por sua vez, renderam-se ao po-
de interlocutor para o debate crítico relacio- exponencial favelização do planeta, como lidade objetiva da formação de uma esfera sitivismo jurídico, prestando-se ao papel de
nado à questão urbana no Brasil, e condu- descreve Botelho , é resultado de uma concentrada de dominação.” Some-se a mediadores de conflitos sociais que cum-
ziu a sua relação com os movimentos sociais história relativamente recente. Embora a isso, a herança patrimonialista do Estado prem a função de formatar a participação
que o compõem, a partir do enquadramen- primeira favela no Rio de Janeiro (Morro brasileiro. Historicamente, nos dois mo- social aceita pelo Estado. Tal despolitização
to destes a ações limitadas a lutas por avan- da Providência) tenha surgido no final do mentos em que surgiu uma articulação por da reforma urbana insere-se na crise da so-
ços institucionais e regulatórios. Na medida século XIX, a grande maioria das favelas reforma urbana no Brasil – em 1963 (refor- ciedade capitalista e de uma determinada
que tais movimentos sociais enquadraram do mundo cresceu a partir da década de mas de base) e em 1987 (processo consti- forma de luta política e social que naturaliza
suas potencialidades ao positivismo jurídi- 1960. No Brasil, no século XX, as popu- tuinte) – buscava-se estabelecer uma forma fatos como manifestações de apoio ao “fim
co, houve o distanciamento do ideário da lações expulsas do campo e atraídas pela jurídica excepcional para as relações sociais dos despejos forçados” feitas pelo FNRU,
reforma urbana construído pelas lutas da crescente industrialização dos centros urba- da realidade objetiva das massas excluídas não obstante este se apresente com um
década de 1980. Diante das transformações nos, no papel de exército de reserva de mão do direito à cidade, num momento em que discurso apologético em favor do governo,
ocorridas na sociedade no curso da déca- de obra, exerceram a prática de ocupações a luta política fazia crer que seria viável a dis- que financia, em grande parte, esses despe-
da de 1990 (crise estrutural do capitalismo de terras em áreas que ainda não interessa- puta pelo “caráter insurgente do direito”, jos. E esta não é uma questão apenas moral
mundial, as políticas neoliberais de privati- vam ao capital, formando cortiços, favelas e ou seja, como toda ideia reguladora, estava ou que se resolva com reforma política.
zação, desregulamentação e desconstrução loteamentos irregulares. Movidas pela ne- relacionada aos processos em desenvolvi- Como afirma Burnett, na construção
de direitos sociais, constitutivas do processo cessidade, essas massas de espoliados pelo mento. das relações sociais no âmbito da luta por
de globalização), o esgarçamento do tecido capital, em fins da década de 70 e início Em uma transmutação das condições uma cidade justa e igualitária, o “Movi-
social e os limites históricos de bandeiras de dos anos 80, se organizaram em diversas sociopolíticas da sociedade brasileira, prin- mento da Reforma Urbana” assume “valo-
luta dos anos 80 foram revelados. Hoje, nos cidades enquanto movimentos populares cipalmente a partir da terceira revolução res da democracia burguesa” e submete “a
limites de sua existência como projeto de contra a carência de condições de habitabi- tecnocientífica, com o predomínio da acu- luta urbana aos procedimentos institucio-
mudanças jurídico-institucionais, não há lidade e de urbanização dessas áreas. Foram mulação por espoliação, as bandeiras da nais do planejamento”, comprometendo
lugar para os elementos democráticos de lutas sociais contra o Estado, por água, luz, reforma social vão se transformando em a autonomia das organizações populares e
modernização que estavam na origem do transportes, creches, etc., que contavam técnicas de gestão de uma situação social contribuindo para acumulação e reprodu-
projeto da reforma urbana. O seu ideário, com o apoio de amplos setores da esquerda em estado de calamidade. Os processos que ção capitalista no espaço urbano, “agravan-
como as propostas programáticas e as for- e de setores liberais que pediam o fim do se desenvolveram a partir daí nos colocam te da tragédia das cidades”. Os movimen-
mas de ação dele decorrentes, não dão con- regime militar. diante da gravidade do quadro de estado de tos que compõem o FNRU criaram um
ta de permitir vislumbrar a superação do exceção – numa forma em que não preci- círculo vicioso de dependência dos espaços
32 • Territórios Transversais - resistência urbana em movimento
institucionais, e alimentam a ilusão de que antes na sociedade não prevalecem, apenas a norma. Portanto, se os instrumentos da despolitização da economia é regra.
é possível fazer a luta por direitos na barbá- a realidade na consciência que é a norma reforma urbana, que garantiriam o direito Nesse tempo despolitizado, é a uto-
rie civilizada que é o Estado de Bem-Estar como ordem jurídica objetiva. Esta assimi- do morador que ocupa as favelas, cortiços pia que pode ocupar o espaço do vazio da
Social. Entretanto, o processo histórico de lação ilusória do Estado Democrático tem e prédios vazios nas cidades, não se efe- política, no sentido de que a construção de
desenvolvimento do capitalismo no Brasil gerado consequências devastadoras no que tivam, ou pior, produzem efeito inverso diagnósticos, trajetórias e críticas à condição
conduziu a sociedade brasileira à impossi- diz respeito às massas urbanas espoliadas: quando utilizados, a conclusão deveria ser de alienação da sociedade, em relação à sua
bilidade de produção desse tipo de Estado. enquanto buscam e aguardam decisões da tratar aqueles instrumentos como se fossem existência, seja um movimento utópico de
Justiça, muitas vezes caminham enfeitiça- inexistentes. Como, apesar disso, se insiste desalienação e de reconstrução de uma his-
A natureza ideológica do das pela lógica da participação social aceita, em afirmar sua existência, foi fundamental toricidade que não invisibilize as massas de
A
Estado e a fetichização da norma disputando espaço político em conferências fetichizar a norma e, neste caso, seu ins- subalternizados. Na vida cotidiana, utopia
constatação da natureza ideoló- e conselhos de mediação, e transformando trumento principal, o Estatuto da Cidade. é pensar este mundo sem horizonte; esta-
gica do Estado não nos autori- suas bandeiras de luta em agenda governa- Nesta tarefa, empenham-se muitas teorias belecer o nexo entre a impossibilidade da
za a abrir mão da obrigação de mental. do direito, que a fundamentam com “con- política e a necessidade da utopia; entre o
estudar a realidade objetiva no Nas experiências das prefeituras petis- siderações metodológicas muito sutis”. fracasso da política e a presença da utopia.
mundo exterior e não apenas nas ideias. Da tas, no final dos anos 1980, no que concer- Dada a sua não efetividade, a ideia da Agora é o momento exato dela. O pensa-
mesma forma, não nos autoriza a espe- reforma urbana, hoje, só é possível na mento utópico é o que nos leva ao diagnós-
rar a negação de sua condição original imaginação de uma “realidade” que tico do fracasso desta sociedade, ao diag-
coerciva de classe, e nem a acreditar que Nesse tempo despolitizado, é poderia existir: “se” houvesse gestão de- nóstico de que o capitalismo não promove
exista alguma contradição entre o Estado mocrática, “se” o Estado do Bem-estar o que promete: a emancipação humana, a
a utopia que pode ocupar o
e o mercado. Ao estabelecer os limites da se efetivasse, “se” os instrumentos de liberdade, a justiça, e o bem-estar.
legalidade e possuir o monopólio da vio- espaço do vazio da política recuperação de mais-valias fundiárias Aberturas no horizonte surgem quan-
lência, o Estado cumpre função decisiva não estivessem sendo apropriados como do há perspectiva de se imaginar um futuro
no apoio e na promoção dos processos de facilitadores do livre funcionamento do que não seja repetir o passado. A mediação
acumulação capitalista. ne às políticas urbanas, o Projeto da Re- mercado de terras urbanas, etc. Portanto, se crítica é uma condição para o irrompimen-
No caso do Brasil, todo o desenvolvi- forma Urbana viveu seu ápice e pode “se as condições de produção e reprodução do to de impulsos utópicos ou, ao menos, para
mento da economia é compatível, hoje, efetivar” apenas como “avanços” no campo espaço urbano não se alteram, e só fizeram o surgimento de projetos coletivos que con-
com uma forma de administração da socie- da institucionalidade e no campo profissio- piorar nesses vinte e seis anos de Constitui- siderem o presente como parte da história,
dade em dissolução. Como afirma Harvey, nal, ocupando o vazio da política, através ção, não cabe mais que militantes organiza- e um futuro que não seja a reprodução ou
a condição ideal para a reprodução do capital do FNRU. Neste início do que chamamos dos em movimentos sociais em luta contra o aperfeiçoamento do que já existe. De-
“é um Estado burguês em que instituições de profissionalização da reforma urbana, as desigualdades socioterritoriais inerentes à senvolver formas cognitivas desta realidade
de mercado e regras contratuais (...) sejam ocorre, fundamentalmente, um processo cidade capitalista adotem como horizonte e novos modos de organização de sociabi-
legalmente garantidas e em que se criem es- de inserção das perspectivas e ideias desse reformar a cidade capitalista, porque isso lidade já é um começo importante. Neste
truturas de regulação para conter conflitos campo profissional à lógica do sistema. À implica no círculo vicioso do enquadra- sentido, os espaços de resistência da luta
de classes e arbitrar entre as reivindicações medida que isso acontece, ocorre também mento de sua luta na lógica da reprodução urbana são fissuras dessa lógica sistêmica, e
de diferentes facções do capital.” Na reali- a conversão do ideário da reforma urbana desta sociedade produtora de mercadorias potencialidades para o surgimento de mo-
dade brasileira, desde uma perspectiva his- às possibilidades do desenvolvimento das que os exclui. vimentos contra o capitalismo que, tendo
tórica, mercado e Estado não constituem forças produtivas do mercado capitalista No contexto da crise urbana global, é atingido seus limites lógicos, atingiu sua
realidades conflitantes, pois atuam e impul- periférico, ou seja, à economia de mercado. de fundamental importância a formação de fase de acumulação por espoliação de re-
sionam de forma complementar o mesmo A partir de 2003, com Lula presidente, movimentos sociais anticapitalistas de re- cursos naturais e de direitos sociais.•
processo de exploração e destruição. e com a criação do Ministério das Cidades, sistência à barbárie. Entretanto, o domínio Este artigo traz reflexões desenvolvidas na tese de douto-
rado “Ideologia e utopia no ocaso da Reforma Urbana no
No campo político-intelectual do de- o programa da reforma urbana, concebido completo da mercadoria anula a política e a Brasil” e na pesquisa História Oral da Reforma Urbana no
bate sobre política urbana, o Estatuto da pelo FNRU, passa a ser o discurso de refe- autonomia da cultura. Para a práxis eman- PPGPS/UERJ entre 2008 e 2012.
O Forum Nacional da Reforma Urbana (FNRU), em
Cidade é um parâmetro e um referencial rência na condução das políticas desenvol- cipatória, essa falta de horizontes é fatal.
sua trajetória, articula a passagem de uma situação em que
enquanto marco regulatório da Reforma vidas pelo novo ministério. Desde então, Portanto, para imaginar potencialidades o projeto de Reforma Urbana , em 1988, era tema ignorado
Urbana. Entretanto, também é o teto. Os respaldado no capital simbólico que o cons- utópicas para além dos limites desta forma pelo PT, passa, nos anos 90, a fazer parte da coordenação
das Campanhas presidenciais; e, a partir do Governo Lula,
instrumentos jurídico-urbanísticos da re- tituiu como autoridade política-intelectual social produtora de mercadorias, cabe per- assume a institucionalidade
forma urbana, mais amigáveis ao capital, nesse campo, o FNRU se mantém como guntar: que práxis social pode ser concebida BALDEZ, Miguel Lanzellotti. Desapropriação (verbete).
foram implementados como indutores do força hegemônica na gestão social da crise na situação de condicionamento da subje- In Dicionário da Educação do Campo.
BOTELHO, Maurílio. Favelização Mundial. O colapso
desenvolvimento urbano e garantia da es- nos governos do PT e nos Conselhos das tividade fetichizada dos agentes sociais na urbano da sociedade capitalista. Revista Territórios Trans-
tabilidade das relações de dominação sob Cidades. barbárie contemporânea, se a eliminação versais. Ano1. N. 1. Jun. 2014.
o comando liberal do Estado Democráti- de todas as possibilidades de transformação BURNETT, Carlos Frederico Lago. Da Tragédia Urbana
à Farsa do Urbanismo Reformista: a fetichização dos planos
co de Direito. Este, por meio do contrato Potencialidades utópicas é o horizonte histórico para nós? diretores participativos.
S
social, das leis ordinárias, e do uso legal da da luta urbana Os movimentos sociais não elaboram HARVEY, David. O Novo Imperialismo. Loyola. São
força, tem a função de defender o direito e faz sentido o que expomos, por suas lutas de forma autônoma. Diante da Paulo, 2004.p.80
KURZ, Robert. Razão Sangrenta: Ensaios sobre a crítica
“natural” de propriedade, sem interferir na certo a reforma urbana não se cons- demanda produzida pela necessidade de- emancipatória da modernidade capitalista e de seus valores
vida econômica dos proprietários, que de- tituiu como práxis anticapitalista. O corrente do processo de espoliação, eles his- ocidentais. São Paulo: Hedra, 2010. p. 296.
vem ter a liberdade de estabelecer as regras que justifica, então, que persona- toricamente se apropriam do que é armaze- PASUKANIS, Eugeny Bronislanovich. A teoria geral do
direito e o marxismo. Rio de Janeiro. Renovar, 1989.
das atividades econômicas, e de garantir a gens desse campo, desde sua origem, ve- nado socialmente. Com o tecido social cada
ordem pública, julgando e decidindo sobre nham repetindo os mesmos argumentos e vez mais fragmentado e fundamentado em
os conflitos existentes na sociedade civil. a mesma ladainha sobre os benefícios que valores do indivíduo, a sociedade burguesa
Como suporte desse contexto, há a “tradi- as cidades teriam “se” fossem aplicados os contemporânea, permeada por práticas de
ção positivista” da tecnocracia, que atua sob instrumentos jurídico- urbanísticos previs- uma subjetividade sem historicidade, reme-
a proteção da racionalidade do Estado. Essa tos na Constituição em 1988 e regulamen- te os movimentos a mobilizarem, na grande
condição também inclui aqueles gestores tados pelo Estatuto da Cidade há mais de maioria das vezes, formas “convencionais”
públicos, agentes do direito e urbanistas, treze anos? e conservadoras de se fazer política – através
que creem nos “procedimentos institucio- Para além da justificativa de que a ques- da busca de apoio a parlamentares, partidos
nais” e “nos processos educativos, capazes tão da reforma urbana se transformou em políticos, sindicatos e através das eleições –,
de instrumentalizar a todos para uma atua- uma profissão e que há muitas empresas formas que hoje evidenciam seus limites
ção cientifica” rumo à “solução para a con- nessa atividade humana produtiva , para lógicos. Além disso, pouco conhecimento
tradição urbana capitalista, isto é, o atendi- uma compreensão do sentido da reforma retiram de suas ações coletivas para que pos-
mento dos interesses dos explorados.” urbana no Brasil hoje, cabe retomar Pa- sam ser transformadas em práxis inovadoras
Pela natureza ideológica do Estado, sukanis quando diz que, na realidade ma- e emancipatórias. Nessa lógica, as diferen-
portanto, a realidade objetiva das forças atu- terial, a relação social deve prevalecer sobre ças entre esquerda e direita desaparecem e a
Territórios Transversais - resistência urbana em movimento • 33
E
les são muitos, e estão desabrigados, expulsos de seu lugar, va- Mahmoud Darwish (Palestina, 1941-2008)
gando à procura de sua terra, sobrevivendo em barracos, estran- Em 1948, quando mais de 700 mil palestinos foram expulsos de seus
geiros em sua própria pátria, humilhados, massacrados... Essas lares, Darwish tinha apenas sete anos. Sua família, da Galileia, viu-se obri-
palavras bem poderiam representar os sem-teto do Brasil em sua gada a fugir, mas retornou, em 1949, apesar do risco de serem assassinados
luta diária, mas refletem a agonia de um povo distante, o povo palestino. pelas milícias israelenses. Foram viver numa colina de onde observavam
Essa semelhança não é coincidência, a luta dos trabalhadores é uma só em aqueles que invadiram suas terras. Mais tarde, aos 12 anos, Darwish, já re-
todo o mundo. Sofremos os mesmos despejos, fervemos na mesma revol- conhecido como poeta, foi cobrado a escrever um poema sobre o “Dia da
ta e sonhamos as mesmas transformações. Reconhecendo isso, o MTST, Independência” de Israel. Mas o poema que fez descrevia os sentimentos
num gesto de solidariedade ao povo palestino, batizou duas de suas ocupa- de uma criança que volta à sua cidade e descobre outras pessoas dormindo
ções com os nomes de “Nova Palestina” e “Faixa de Gaza”. em sua cama e cultivando as terras de seu pai. Em resposta, o governo mi-
Você pode pensar que isso pouco significa, que são apenas palavras, litar ameaçou proibir seu pai de trabalhar caso continuasse escrevendo ma-
nomes numa tabuleta. Mas palavras não são só palavras, companheiros. terial subversivo. Assim, desde cedo, Darwish conhece o poder da palavra.
Quem nunca as sentiu, como facas, vindo da boca de um inimigo? Quem Entre 1961 e 1976, foi preso cinco vezes, e Israel acabaria por tirar de
nunca se arrepiou com a força-fera de uma palavra-de-ordem gritada em Darwish sua “cidadania”, o que o obrigou a vagar como muitos outros
uma só voz? Palavras podem agir, estremecer o peito, brilhar os olhos, palestinos pelo Egito, Jordânia, Líbano. Em 2002, o ministro da Educação
podem estender a mão, abraçar e acolher, unir os distantes, preparar para a de Israel tentou incluir cinco poemas de Darwish num currículo escolar
luta, podem denunciar, conspirar, dar corpo à memória... podem, enfim, “multicultural”. O parlamento israelita recusou totalmente a proposta.
se fazer poesia revolucionária na boca coletiva do povo. É preciso, por- Darwish comentou: “Eles ensinam aos estudantes que o país estava va-
tanto, ocupar as terras, os tetos, mas também as palavras, torná-las nosso zio. Se ensinassem os poetas palestinos, romperiam esse conhecimento.
instrumento de resistência e combate. A maior parte da minha poesia fala do amor pelo meu país.” E acrescen-
Na Palestina, a poesia popular, de luta, cumpre um papel fundamental e tou: “É difícil acreditar que o país militarmente mais poderoso do Médio
permanente no fortalecimento da combatividade de seu povo. Escritas por Oriente seja ameaçado por um poema”. Até o fim, o governo de Israel
poetas, muitas vezes anônimos, essa poesia corre de mão em mão, de boca considerou Mahmoud Darwish um perigoso inimigo.
em boca, numa corrente vulcânica subterrânea, mantendo a memória do Darwish, dentre muitos feitos, foi o autor da Declaração de Indepen-
povo palestino viva, compartilhando dores e sonhos, homenageando seus dência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat
mortos, e permitindo que refugiados dispersos se reencontrem nessa pátria quando declarou a criação do Estado Palestino. Darwich foi membro do
clandestina da palavra que os chama a resistir e lutar. Partido Comunista de Israel e da OLP (Organização para Libertação da
O governo israelense sabe do poder de fogo das palavras, por isso mes- Palestina), da qual se afastou, em 1993, por discordâncias referentes aos
mo muito dos poetas palestinos foram assassinados, exilados, presos e si- Acordos de Oslo. Seu funeral contou com a presença de milhares de pes-
lenciados. Uma das vozes poéticas que rompeu essas barreiras e se fez co- soas, tornando-se o maior acontecimento político de massas na Cisjordâ-
nhecido em todo o mundo é a de Mahmoud Darwish, o mais importante nia desde o funeral de Arafat.•
poeta da causa palestina.
(fonte: [Link] e “Poesia Palestina de Combate”, editora Achiamé;
traduções de Jaime W. Cardoso e José Carlos Godim)
Carteira de Identidade
(Mahmoud Darwish, tradução de Jeff Vasques)
Registra-me “A poesia de resistência, tal como a concebo, é
sou árabe
o número de minha identidade é cinquenta mil a expressão da recusa ao fato consumado, um
tenho oito filhos
e o nono… virá logo depois do verão
instrumento total de mobilização que deve levar
vais te irritar por acaso? à tomada de consciência do absurdo desta ordem,
registra-me da necessidade de mudá-la e da possibilidade dessa
sou árabe mudança. (...) O grito do homem oprimido, não
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira importa em que país, é, antes de tudo, um grito que
tenho oito filhos
arranco pedras interessa a todos os homens.” Mahmoud Darwish
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?
registra-me
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes…
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai… da família do arado
e não dos senhores do Nujub*
e meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum
registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos… negros
olhos… castanhos
sinais particulares
um kuffiah e uma faixa na cabeça**
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido… esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens… no campo e na pedreira
amam o comunismo***
vais te irritar por acaso?
registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados Confissão de um terrorista
e da terra que cultivava (Mahmoud Darwish, tradução de Jeff Vasques)
com meus filhos
e não os deixaste Ocuparam minha pátria,
nem a nossos descendentes expulsaram meu povo,
mais que estes seixos anularam minha identidade
que nosso governo tomará também e me chamaram de terrorista.
como se diz