Baixarias de Dino 7 Cordas: Análise Musical
Baixarias de Dino 7 Cordas: Análise Musical
RIO DE JANEIRO
2024
Luiz Sebastião Juttel
Rio de Janeiro
2024
Luiz Sebastião Juttel
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Prof. Dr. Bartolomeu Wiese Filho, Orientador, PROMUS/UFRJ
___________________________________________________________
Prof. Dr. Marcus de Araújo Ferrer, PROMUS/UFRJ
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Prof. Dr. Alberto Boscarino Júnior, CEFET/UFRJ
Dedico este trabalho aos meus pais, meus filhos, às minhas netas e ao grande Horondino José
da Silva, meu pai musical.
AGRADECIMENTOS
O presente trabalho tem como objetivo principal destacar e analisar elementos que
caracterizam a linguagem musical do violonista Horondino José da Silva (1918–2006),
linguagem esta diretamente ligada aos contracantos realizados em seus acompanhamentos
musicais, que definem uma identidade sonora representante de uma escola: a escola do violão
de 7 cordas de aço brasileiro. Examinando fonogramas, vídeos e registros amadores, elencamos
46 baixarias gravadas por ele que foram analisadas, comentadas e serviram como base na
composição de 9 estudos voltados para o violão de 7 cordas. Além disso, este estudo ainda
apresenta um breve histórico da vida musical de Dino 7 Cordas, como é comumente conhecido,
e discute aspectos importantes do seu idiomatismo instrumental e musical.
The main objective of this work is to highlight and analyze elements that
characterize the musical language of guitarist Horondino José da Silva (1918–2006). His
language, directly connected to the countermelody in his accompaniments, defined a musical
identity representative of the Brazilian 7-string steel guitar school. By examining phonograms,
videos, and amateur recordings, we listed 46 baixarias (bass lines) recorded by him, which
were analyzed, commented on, and served as the basis for 9 studies composed for the 7-string
guitar. Additionally, this study presents a brief history of the musical life of Dino 7 Cordas
(Dino 7 Strings), as he is commonly known, and discusses important aspects of his instrumental
and musical idiom.
Keywords: Dino 7 Cordas. 7-String Guitar. Musical Language. Baixarias. Bass lines.
Countermelody.
LISTA DE FIGURAS
LP Long Play
PROMUS Programa de Pós-Graduação Profissional em Música
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro
CEFET Centro Federal de Educação Tecnológica
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 17
REFERÊNCIAS...................................................................................................................... 73
1 INTRODUÇÃO
O violão de 7 cordas de aço faz parte dos fundamentos da música popular brasileira.
Ele está presente na formação dos gêneros musicais como o choro, a seresta e o samba.
Horondino José da Silva, ou simplesmente Dino 7 Cordas1, foi um dos seus maiores
representantes e desenvolveu uma linguagem musical específica para esse instrumento ao longo
da sua trajetória.
Dentro dessa linguagem, no seu acompanhamento polimelódico2, um dos recursos
mais utilizados pelo violonista foram as baixarias3. Por décadas, Dino aprimorou uma maneira
singular de aplicar esses contracantos, para além das suas harmonias, inversões de acorde,
formas de acordes e levadas rítmicas.
Em 1997, quando começamos a estudar o violão de 7 cordas de aço, eram escassos
os materiais didáticos pensados exclusivamente para o estudo das baixarias. Portanto, sempre
tivemos o anseio de elaborar um compêndio por meio do qual músicos interessados pudessem
encontrar informações e estudos voltados para a sua prática, sobretudo para o desenvolvimento
e para a absorção dessa maneira brasileira de acompanhar musicalmente.
Além de um pequeno número de trabalhos acadêmicos sobre Dino e alguns outros
que citam o violonista4, ao longo da nossa trajetória profissional, vimos ser lançados alguns
raros livros sobre o violão de 7 cordas — todos importantes dentro da sua perspectiva e
abordagem —, mas nenhum deles tratava exclusivamente da linguagem musical de Dino 7
1
Neste trabalho, optamos por chamar Horondino José da Silva de Dino 7 Cordas ou simplesmente Dino.
2
Empregamos o termo “acompanhamento polimelódico”, utilizado por Braga (2002), nos referindo à junção das
múltiplas melodias que se entrelaçam com as levadas rítmicas/harmônicas no violão de 7 cordas.
3
As baixarias, como são comumente descritas, são os contracantos realizados na região grave do violão de 7 cordas,
melodias secundárias que complementam, apoiam e destacam a melodia principal, ou seja, é o “Tratamento da
Linha de Baixo”, como se refere Schoenberg (1991, p. 112) em Fundamentos da Composição Musical: “Quando
não for um pedal, o baixo deve participar de cada mudança harmônica. Não se pode esquecer que ele tem de ser
tratado como uma melodia secundária, e que deverá, portanto, mover-se no âmbito de uma tessitura definida
(exceto quando há intenções especiais) e possuir um certo grau de continuidade [...]. O ouvido está acostumado a
prestar muita atenção ao baixo, e mesmo uma nota curta é percebida como uma voz ‘contínua’, até que a nota
seguinte seja executada como uma continuação (melódica). Em consideração à fluência, um baixo que não seja
um contracanto deve fazer uso de inversões, mesmo que elas não sejam harmonicamente necessárias [...]”.. Para
Gonçalves (2019, p. 28), “A linguagem do violão de 7 cordas brasileiro é frequentemente associada ao uso de
frases de contracanto, popularmente chamadas de baixarias, que são linhas melódicas executadas na região grave
do instrumento, dialogando com a melodia original da música. Ainda que, de fato, essa seja uma característica
fundamental desse estilo violonístico, o que dá origem a essas linhas contrapontísticas é a maneira de abordar a
harmonia a partir do baixo, com a utilização das inversões dos acordes.”
4
Rogério Caetano, em sua defesa de dissertação, exibe uma tabela com 10 trabalhos acadêmicos sobre o violão de
7 cordas no Brasil e também os únicos 3 livros/métodos escritos para o aprendizado do violão de 7 cordas.
Disponível em: [Link] (minutagem 20:45). Visualizado em: 1 out.
2024.
18
Cordas. Também não é de nosso conhecimento — isso tanto em relação às obras lançadas
quanto aos estudos acadêmicos a que tivemos acesso — a publicação no Brasil de algum
material didático voltado para o estudo e para a prática das suas baixarias.
Por isso decidimos nos dedicar neste trabalho a formular um caderno de estudos (e-
book) sobre as baixarias desse violonista, não sendo nosso intuito encerrar aqui todos os
assuntos que se referem a essa prática e a outros elementos característicos do seu
acompanhamento polifônico.
No segundo capítulo, apresentamos um breve histórico da trajetória musical de
Dino 7 Cordas e, a seguir, no terceiro, expomos uma breve contextualização sobre o violão de
7 cordas, para depois discutir o termo idiomatismo e explanar sobre algumas escolhas feitas
pelo referido músico ao longo da sua carreira profissional e que formam o seu idiomatismo
instrumental, escolhas estas intrínsecas à sua linguagem musical: os tipos de madeira utilizados
na construção do seu instrumento, a maneira de encordoar e o tipo de encordoamento por ele
preferido, o uso da dedeira de aço, o som trastejado que lhe é característico e a sua identidade
sonora.
Por sua vez, o capítulo quatro traz uma pequena discussão sobre o conceito de
idiomatismo musical e aponta alguns elementos que poderão ser estudados em uma outra
oportunidade. Consideramos as análises e observações de 46 tipos diferentes de baixarias como
a parte mais importante desta dissertação. Esses contracantos foram selecionados de gravações,
apresentações registradas em vídeo, fonogramas ou áudios executados por Dino 7 Cordas e
encontrados no capítulo cinco, o de maior conteúdo deste trabalho.
Na sequência, no capítulo seis, apresentamos uma breve descrição sobre os estudos
elaborados e digitalizados por nós para esta pesquisa. Já o capítulo sete relata a nossa
experiência através das composições, digitalizações das partituras, gravações dos áudios e
vídeos, assim como o trabalho de edição para a elaboração do e-book.
Neste estudo, além de alguns trabalhos acadêmicos e livros que trazem informações
sobre a linguagem musical de Dino 7 Cordas — ou tratam de assuntos ligados ao violão — e
sobre o termo idiomatismo, vamos nos embasar mais especificamente em alguns compêndios e
estudos que fazem importante diálogo com a nossa pesquisa. São eles: a tese de doutorado
Literatura para o violão de 7 cordas brasileiro solista (2019), de Marcello Gonçalves; o livro
Sete cordas: técnica e estilo (2010), de Rogério Caetano, com organização de Marco Pereira,
assim como estudos de Arnold Schoenberg (1996, 2001); Sérgio Freitas (2010); Ian Guest
19
(2006) e José Paulo da Silva5 (1937), que darão embasamento às análises musicais e a outras
questões ligadas à teoria musical. Este último nos traz um caráter histórico, por representar o
pensamento teórico da época em que Dino 7 Cordas iniciou seus estudos musicais; pelo autor
ter sido professor emérito do Instituto Nacional de Música, atual Escola de Música da UFRJ; e
por seu compêndio conter parte importante para o embasamento necessário ao tratamento das
melodias.
Como citado anteriormente, nosso método foi embasado em várias ferramentas de
pesquisa, mas também nos utilizamos da técnica de transcrição de ouvido para selecionar as
baixarias aqui analisadas através de fonogramas, vídeos e registros em áudios amadores. Para
definirmos as digitações da mão esquerda nos estudos, nos valemos da análise dos vídeos de
Dino tocando, disponíveis na Internet.
Foi de suma importância para entendermos alguns aspectos do idiomatismo
instrumental desenvolvido por Dino a entrevista realizada com dois violonistas de 7 cordas de
aço reconhecidos no Brasil, quais sejam, Luís Felipe de Lima (RJ) e João Camarero (SP).
Por fim, queremos destacar a importância do violonista Horondino José da Silva
para a escola do violão de 7 cordas brasileiro tanto para o idiomatismo instrumental quanto para
o instrumental. Assim sendo, almejamos, humildemente, que o presente estudo sirva como
material de apoio para próximas pesquisas sobre a sua obra, que, a nosso ver, é fundamental
para a continuidade da linguagem do violão 7 cordas brasileiro e, por conseguinte, da música
popular brasileira.
5
Para mais informações sobre a história do maestro e professor José Paulo da Silva, mais conhecido como Paulo
Silva, verificar o livro Paulo Silva: um contraponto nas relações raciais no Brasil [livro eletrônico], de autoria de
Amilcar Araujo Pereira, publicado pela Editora da Universidade Federal Fluminense (Eduff), em 2021, como parte
da Coleção Personagens do pós-abolição: trajetórias, e sentidos de liberdade no Brasil republicano. Disponível
em: [Link] book-pdf-
473. Acesso em: 3 de abr. 2024.
20
6
Conjuntos regionais — que se consolidaram entre as décadas de 1930–40 (era de ouro do rádio brasileira) e
acompanhavam os cantores e as cantoras de samba, seresta, baião, entre outros gêneros musicais — são as
formações características dos grupos de choro, compostas basicamente por dois violões (sendo um de 7 cordas),
cavaquinho, pandeiro e um instrumento solista, como bandolim, clarinete e flauta, podendo também ser
incorporado um outro instrumento de contracanto, seja ele trombone, sax-tenor ou acordeom.
7
Gostariamos de destacar também o violonista de 7 cordas José Antônio Azeredo Filho (1960), o Toni 7 Cordas,
que conviveu e tocou ao lado de Dino 7 Cordas por muitos anos no Conjunto Época de Ouro, vindo a substituí-lo
no conjunto após o seu afastamento das atividades musicais.
8
Dino 7 Cordas faleceu em 26 de maio de 2006, aos 88 anos, no Rio de Janeiro, vítima de pneumonia.
21
baião e seresta, das mais importantes gravadoras nacionais e para os mais célebres intérpretes
brasileiros. Deixou-nos um vocabulário imenso de baixarias, uma enorme variedade de levadas
rítmicas e uma maneira característica de montar as aberturas dos acordes e suas inversões —
sendo esta última uma das práticas mais importantes para o acompanhamento do violão, seja
de 6 ou 7 cordas, no choro, no samba, no baião e na seresta. Quer dizer, herdamos de Dino 7
Cordas um legado importantíssimo para este instrumento e para a música brasileira.
Outros elementos e características mais relevantes para a formação da sua
linguagem musical, como a escolha das madeiras na construção do seu violão, o tipo de
encordoamento, a maneira de encordoar o instrumento, a utilização da dedeira, o som trastejado
(como característica sonora, e não como um desequilíbrio nos trastes do violão) — além das
concepções musicais e instrumentais, como a preferência pela utilização das cordas soltas, a
digitação ergonômica da mão esquerda, a utilização da primeira posição no braço do violão, a
forma de acordes, as levadas rítmicas em bloco da mão direita, a forte sonoridade da mão direita,
as harmonias elaboradas que seguem a linha do baixo, a precisão e segurança no
acompanhamento rítmico-harmônico polimelódico e, por último, a escolha do momento exato
para a baixaria, enaltecendo a melodia principal — são consideradas parte substancial da
linguagem musical de Dino. Em virtude de todos esses aspectos, ele teve papel importante e
definitivo na história do violão de 7 cordas e no desenvolvimento da linguagem desse
instrumento.
22
Precisamos retomar Nascimento, pois, como podemos ver, ele levanta mais uma
questão importante para o embasamento, a delimitação e a conceituação dos termos
idiomatismo instrumental e idiomatismo musical:
Corroborando com as ideias elaboradas por este autor, justificamos nesta pesquisa
a hipótese de que é da junção do idiomatismo instrumental com o idiomatismo musical que se
forma a linguagem musical de Dino 7 Cordas.
3.3 DO SOUTO
primeiro instrumento com 7 cordas, depois de um período de 15 anos utilizando apenas violões
de 6. (Gonçalves, 2019).
Este instrumento, da marca Do Souto, foi o seu principal violão: ele foi utilizado
em praticamente todas as suas gravações, apresentações e saraus, e o acompanhou, quase que
exclusivamente, até o final da sua carreira. Construído por Silvestre Dominguez de La Mare,
um dos principais luthiers brasileiros na época, possui algumas características na sua construção
que lhe dão uma sonoridade única com um timbre muito específico e que acabaram por compor
o idiomatismo instrumental incorporado por Dino à sua linguagem musical. De acordo com o
violonista João Camarero (2022), esta sonoridade está intrinsecamente ligada à sua estética
musical, transformada em uma assinatura artística.9
Esse timbre específico facilita o destaque de cada nota das suas baixarias —
principalmente nos conjuntos regionais —, evitando, assim, a mistura de som com outros
espectros sonoros semelhantes, como do pandeiro, sax-tenor, trombone, dos baixos do
acordeom, do clarinete e de outros violões, instrumentos característicos dessas formações.
Ao que sabemos, as madeiras utilizadas para a construção do seu violão foram cedro
(braço); jacarandá (escala); pinho (tampo) e imbuia (corpo). Segundo Luís Felipe de Lima, o
que define o som característico, “tipo tuba”, do violão de Dino 7 Cordas é a madeira imbuia,
utilizada no corpo do instrumento. De acordo com ele,
a imbuia é uma madeira interessante pro violão de 7 cordas de aço, porque cria aquele
efeito meio de tuba, [...] a imbuia dá ataque, mas não dá tanto sustain no som quanto
o jacarandá e outras madeiras pra usar no corpo. [...] O próprio Dino destacava isso.
Ele sabia bem disso.10
Para além disso, tem uma estrutura interna mais reforçada que a de um violão de 6
de náilon (ou violão concertista, como muitos autores se referem). Isso para que o instrumento
suporte a tensão das cordas de aço. A esse respeito, Remo Pellegrini nos fala que,
9
Entrevista concedida por João Camarero a Luiz Sebastião Juttel, em 12 de janeiro de 2022, pela rede social
Instagram (apêndice 2). 9 min. não publicada.
10
Entrevista concedida por Luís Felipe Lima a Luiz Sebastião Juttel, em 12 de janeiro de 2022, pelo WhatsApp
(apêndice 1). 12 min. não publicada.
25
O que podemos concluir da entrevista realizada com estes dois violonitas é que este
instrumento específico tem o timbre opaco, seco, com uma leve acentuação na região médio-
grave, com um grave profundo e muita projeção sonora, mas com pouca sustentação do som.
Para Camarero, no LP Quatro Grandes do Samba (RCA Records, 1971), estão os
fonogramas que podem exemplificar com maior proximidade o som original do violão de 7
cordas de Dino. De fato, essa sonoridade descrita por Camarero e encontrada nas gravações de
Dino se torna referência para a produção fonográfica na qual o violão de 7 cordas se fazia
presente. Aliás, outros violonistas usaram instrumentos de sonoridade semelhante ao de Dino,
fazendo com que os violões da marca Do Souto também fossem visados por quem buscava seu
som específico. Inclusive, atualmente é comum encontrarmos luthiers fabricando violões com
base nos gabaritos dos violões de 7 cordas construídos por Silvestre Dominguez.
3.4 O ENCORDOAMENTO
A sonoridade do violão de Dino 7 Cordas evoluiu com o passar dos anos, sofrendo
algumas alterações, até chegar ao seu som definitivo no início dos anos de 1960, como é
possível verificar em suas gravações. Até este momento, o instrumentista ainda utilizava
encordoamento de aço comum, com um timbre mais estridente, bem metálico, sendo todas as
7 cordas de aço, tanto as primas como os bordões, o que caracterizava um timbre realmente
mais agudo e com bastante sustain.
11
Salientamos que, no momento da entrevista, João Camarero já havia vendido o referido violão a um colecionador
de São José dos Campos, conforme se pode ver na transcrição (apêndice 2).
12
Entrevista concedida por João Camarero a Luiz Sebastião Juttel, em 12 de janeiro de 2022, pela rede social
Instagram. 9 min. não publicada.
26
No início dos anos 1960, fica evidente a sonoridade seca ou de curta duração que Dino
instituiu, ao adaptar a quarta corda de violoncelo no lugar da sétima de seu violão. A
utilização das duas primeiras cordas (as mais agudas mi e si) de náilon possibilitava
uma sonoridade mais suave nas notas mais agudas dos acordes (Borges, 2009, p. 75).
O violão de sete cordas de uso mais tradicional tem estrutura e sonoridade bem
diferentes da do violão para concertista que conhecemos hoje. O primeiro tem cordas
de aço e a sua sétima corda (afinada em dó, terça maior abaixo do mi grave) é uma
corda de violoncelo — adaptação idealizada por Dino Sete Cordas [...] (Pellegrini,
2005, p. 45).
13
Não sabemos dizer se na época em que Dino passou a utilizar este encoramento o jogo de cordas já vinha com
as duas primeiras de náilon, porque nos dias atuais os jogos de cordas da marca Pyramid já contemplam as duas
primas de náilon juntamente com a 7ª corda. Sabemos disso, pois se trata do encordoamento que também
utilizamos.
27
conjunto regional. Sobre esse assunto, em entrevista, Luís Felipe de Lima nos esclarece o
seguinte:
São duas as questões das primas de náilon, das duas primas de náilon. Uma, a
principal, é não ter aquele som muito estridente. Quando você faz o saque nas cordas
de náilon, você tem um som mais arredondado. Se você faz o saque nas primas de
aço, tem um som mais estridente, mais invasivo. Ao mesmo tempo, timbrava mais
com as cordas de náilon no violão de 6, porque dos anos 60 pra cá, 70, principalmente,
o violão de 6 passou a ser usado com corda de náilon. Corda de aço era uma coisa que
já tinha ficado pra trás.14
De fato, essa maneira de encordoar o violão vai acompanhar Dino por toda sua
carreira e influenciar gerações futuras de violonistas, luthiers e produtores musicais, que
buscarão essa sonoridade em seus trabalhos.
3.5 A DEDEIRA
14
Entrevista concedida por Luís Felipe Lima a Luiz Sebastião Juttel, em 12 de janeiro de 2022, pelo WhatsApp
(apêndice 1). 12 min. não publicada.
28
Como resultante das escolhas já anteriormente citadas nesta terceira seção, Dino
cristaliza uma identidade sonora que será padronizada e preferida por várias gerações de
violonistas, chegando até os dias atuais. Somente por esse fato poderíamos dizer que ele criou
uma escola, estruturando um novo idiomatismo instrumental que está na base do
acompanhamento de violão de 7 cordas do choro e do samba, para além de outros gêneros
29
musicais brasileiros. Porém Dino vai inovar ainda mais, uma vez que se destaca na criação de
um novo idiomatismo musical para esse instrumento.
30
Denotando o quanto ainda há para ser estudado sobre a prática de Dino 7 Cordas,
salientamos que o presente trabalho não esgotará as discussões acerca de todos os elementos
relevantes da sua linguagem, quais sejam, as formas de acordes; a digitação das baixarias; o uso
da ligadura; a preferência pelas cordas soltas; as levadas rítmicas em blocos; o staccato como
bombardino; o dedo 4 da mão esquerda e a ergonomia; o violão tamborim; o (re)uso das
baixarias; o ataque trastejado na 3.ª corda no acorde no acorde E7; e a passagem cromática nas
harmonias dominantes.
31
Nesta primeira análise, vamos abordar uma das práticas mais recorrentes na
linguagem musical de Dino 7 Cordas: o uso dos arpejos.
Dino se utilizava de alguns padrões que criavam uma forma inusitada na aplicação
desse recurso no violão de 7 cordas, como, por exemplo, adicionar as notas de tensão como a
6.ª ou a 9.ª do acorde, mesmo quando não estavam cifradas15.
A questão importante aqui é que, mesmo que na cifragem não estivesse indicada a
9.ª, Dino a acrescenta, deixando a baixaria em Ré maior com uma sonoridade mais aberta e
elaborada. Ademais, conseguimos, através da transcrição de ouvido com o suporte do software
Moises, identificar que o cavaquinho desta gravação toca o acorde D sem notas de tensão (figura
2) 16, podendo, então, o trecho ter sido realmente cifrado apenas como D.
15
A cifra é um sistema de escrita musical que representa os acordes (ou seja, a harmonia da música), comumente
utilizada na música popular para instrumentos rítmicos-harmônicos, como no caso o violão de 7 cordas, ou ainda
para o cavaco, violão de 6 cordas, contrabaixo, piano etc.
16
As setas que estão abaixo da linha do cavaquinho, na figura 2, indicam o sentido da palhetada.
32
Figura 2: Arpejo em D – baixaria 1, com acompanhamento do cavaquinho (Fonte: Elaborado pelo autor).
17
O acorde escrito sobre a linha do teclado na grade (figura 4) é uma aproximação da abertura, pois não
conseguimos identificar a sua disposição com clareza.
33
Figura 4: Arpejo em D7M – baixaria 2, com acompanhamentos (Fonte: Elaborado pelo autor).
Podemos notar que estes arpejos exercem funções parecidas, pois os dois estão
concluindo uma parte da música. Porém, o primeiro nos dá a sensação de finalização, enquanto
o segundo prepara a retomada de outra seção.
Isso posto, acreditamos ser importante a audição de Mãe Solteira para uma melhor
compreensão18 das soluções musicais de Dino para os arranjos propostos, indo muito além de
aplicar escalas e arpejos. Por isso a importância da análise musical das suas baixarias.
18
Assim como todas as músicas que serão aqui citadas, pois não será possível demonstrar somente através da
escrita o ambiente sonoro de cada uma das selecionadas.
34
verde), por meio da qual ele alcança a 5.ª bemol (si bemol); após, passa pela 7.ª menor (ré),
repousando em dó# no próximo compasso, a 3.ª maior de A7, ou seja, primeira inversão.
Aqui, vale um questionamento: Dino poderia ter utilizado somente as notas de
Em7(b5), sem notas de tensão? Sim, poderia. Porém, essa abertura para as tensões disponíveis
confere uma sonoridade ímpar à baixaria.
Por fim, vamos trazer o último exemplo (figura 7), no qual Dino aplica uma
variação rítmica (destaque em amarelo) no arpejo de Em7(b5), colocando a repetição da
fundamental (nota mi) em tempo métrico forte (destaque em verde), 8.ª acima. Para além disso,
Dino expande a baixaria, finalizando-a somente no segundo tempo no fim dessa cadência
harmônica e por meio de uma suspensão no ataque da 3.ª maior (dó#), na qual vemos a aplicação
da 11.ª (nota ré — destaque em creme) em tempo métrico forte no V7 (A7), retardando a
resolução esperada da frase. O violonista ainda se utiliza de uma bordadura inferior19, dando
mais força e beleza para a nota dó# (destaque em vermelho) no último tempo.
19
As bordaduras são usadas para ornamentar uma única nota. Se a nota melódica estiver acima da nota
ornamentada, diz-se que a bordadura é superior; se estiver abaixo, inferior. As bordaduras superiores e inferiores
podem ser diatônicas ou cromáticas. Disponível em:
[Link]
20para,podem%20ser%20diat%C3%B4nicas%20ou%20crom%C3%A1ticas. Acesso em: 13 jun. 2024. Para saber
mais sobre bordaduras, visitar o livro Manual de Harmonia, mais especificamente a página 102, de José Paulo da
Silva (1937).
35
Para esta segunda análise, escolhemos a gravação de um samba que, para nós e para
alguns interlocutores, é uma das gravações mais icônicas de Dino 7 Cordas. Para tal, optamos
por trazer as suas baixarias mais significativas, não nos concentrando em um só tipo e suas
variações.
O samba escolhido faz parte do LP Gritos do Subúrbio (1972), de João Nogueira,
intitulado Meu Caminho, no qual podemos perceber que Dino está mais presente, aplicando
diversas baixarias e permanecendo em destaque praticamente por toda a gravação.
20
“Pelo conceito atual, o acorde (e seu símbolo, a cifra) não só reúne as notas que o caracterizam, chamadas notas
de acorde (n.a.), mas outras também que o enriquecem, chamadas notas de tensão (T), embora a cifragem não
indique necessariamente essas notas. As n.a. e as T, reunidas, formam uma escala de sete notas (às vezes seis ou
oito), chamada escala de acorde. A escala de acorde nunca tem dois semitons adjacentes entre seus graus, nem
saltos maiores que um tom [...]” (Guest, 2006, p. 86).
37
O terceiro exemplo (figura 10) nos traz mais um pouco da visão de como Dino
aplicava as suas baixarias. Vamos dividi-la em duas partes: frase 1 (primeiro compasso —
destacado pela linha pontilhada) e frase 2 (destaque em verde). Podemos verificar que o
instrumentista aplica na primeira um salto de 4.ª descendente para evoluir em dois conjuntos de
três notas ascendentemente, deixando-a assimétrica ou sinuosa. O objetivo dessa baixaria (com
a junção das duas partes) é alcançar o E7 na sua fundamental mais grave e, para isso, Dino aplica
a escala de Bm7. Porém, na parte 2, ele segue a ordem “natural” em graus conjuntos, utilizando
as notas disponíveis de Bm7 em sentido descendente.
O que nos chama a atenção é o contraste criado pelo violonista nesta frase, ou seja,
ele utiliza dois desenhos opostos, criando uma baixaria na qual visualizamos — para além de
ouvir — o seu movimento contrastante.
A quarta baixaria desta parte (figura 11) está presente na maioria das gravações de
Dino, sendo facilmente encontrada. Comumente utilizada sobre a harmonia dominante (V7),
38
essa baixaria é construída por meio do movimento cromático em semicolcheias, que alcança as
notas do acorde repousando sobre elas. Podemos ver que ela também possui dois movimentos:
o ascendente (em vermelho e verde) e o descendente (em creme) — este para a finalização.
Por último, salientamos que esta baixaria traz em si um movimento com muito
balanço criado pelo deslocamento do tempo forte, o que verificamos ser uma constante na
linguagem musical do violonista.
A primeira baixaria (figura 12) foi selecionada de uma gravação ao vivo21 do samba
Aperto de Mão, de autoria de Dino, em parceria com Jayme Florence22 e Augusto Mesquita23.
21
Esta gravação foi realizada em uma apresentação no “Projeto Violões”, de 1988, do qual Dino participou com o
seu violão de 7 cordas, dividindo o palco com o multi-instrumentista Zé Menezes (1921–2014). Disponível em:
[Link] Acesso em: maio 2022.
22
Conhecido como Meira, o compositor e violonista pernambucano Jayme Thomás Florence (1909–1982) foi
professor de grandes violonistas, como Maurício Carrilho, Raphael Rabello e Baden Powell. Como compositor,
uma de suas canções de grande sucesso foi Molambo, também em parceria com Augusto Mesquista, gravada por
artistas como Elizeth Cardoso, Cauby Peixoto, Emílio Santiago, Ney Matogrosso, Mart’nália.
23
Armênio Mesquita Veiga, conhecido pelo nome artístico de Augusto Mesquita, foi um compositor carioca,
nascido em 13 de agosto de 1913. Com o violonista Jayme Florence, compôs o samba-canção Molambo, de grande
sucesso.
24
No seu livro Manual de Harmonia (1937), José Paulo da Silva nos dá a definição sobre nota de passagem: “A
nota de passagem no tempo ou parte fraca; diz-se diatônica ou cromática. Pode ser empregada num só acorde ou
na passagem dum acorde ao outro.”
40
conjunto para a introdução da música. Marcello Gonçalves, em sua tese de doutorado, nos
chama a atenção para esse recurso, dizendo que
Como na baixaria 10, a 7.ª menor do acorde dominante está numa posição métrica
forte no segundo compasso, corroborando com o que acreditamos ser a principal característica
dessas baixarias: o cromatismo descendente da fundamental para a 7.ª menor, por meio de uma
nota de passagem. O que a difere do primeiro exemplo é o seu trecho acéfalo (primeiro
compasso), no qual Dino utiliza bordaduras (B) superiores sobre uma parte da escala de Ré
maior, até alcançar o cromatismo descendente característico das baixarias de preparação e de
chamada. Sua resolução também foi precedida pelo arpejo do acorde dominante, assim como
na primeira primeira baixaria desta seção.
A baixaria 11 pode ser utilizada como uma preparação nestas duas progressões
harmônicas: V – V7 – I ou V7 – I em qualquer parte da música que elas estejam, para além da
sua utilização como uma baixaria de chamada — no início da música, por exemplo. Ela foi
transcrita da música Se você me ouvisse, do LP Nos Botequins da Vida (1977), da cantora Beth
Carvalho.
Tendo uma resolução diferente das duas primeiras baixarias (que resolvem na nota
fundamental do acorde de chegada), esta baixaria finaliza na primeira inversão, ou seja, neste
caso, na 3.ª do Bb (figura 14). Esse fato amplia a sua aplicação para as tonalidades como o A:,
Bb: e B:25, mantendo, assim, a sua tessitura na região grave do instrumento para esses tons.
25
Estas nomenclaturas de “A:”, “B:”, “Bb:” etc. indicam a tonalidade da música, o que é bastante utilizado por
Sérgio Freitas na sua tese de doutorado, intitulada Que Acorde Ponho Aqui? Harmonia, práticas teóricas e o estudo
de planos tonais em música popular (2010).
41
Extraída do samba Pra fugir nunca mais, do LP Vem quem tem (1975), de João Nogueira, ela
apresenta uma variação no caráter anacrústico — o que acreditamos se tratar de uma adaptação
no arranjo proposto —, colocando a 7.ª menor do acorde em tempo fraco (destaque em creme).
Para o estudo que vamos apresentar sobre este item, propomos uma alteração:
reescrevemos a baixaria e acrescentamos uma bordadura superior (B), forçando o acento da 7.ª
menor em tempo forte (figura 15), somente por acreditarmos que, assim, ela se encaixa melhor
ao nosso propósito, pois, desse modo, a frase evidencia ainda mais a característica dominante
do acorde de V7, deixando ainda mais claro que é uma baixaria de preparação.
Voltando à característica acéfala e anacrústica, Gonçalves nos explica que
Figura 15: Baixaria de preparação – baixaria 12 modificada para o estudo (Fonte: Elaborado pelo autor).
5.4 ARPEJANDO EM G7
Como pudemos verificar até aqui, o uso dos arpejos de acorde é uma característica
importante no idiomatismo musical de Dino 7 Cordas, que cria múltiplas possibilidades,
trazendo para cada situação musical uma solução diferente. Esse é o caso das cinco baixarias
selecionadas para este quarto estudo.
42
Iniciamos pelo arpejo sobre o G7(9), extraído do samba Para fugir nunca mais, do
LP Vem quem tem (1975), de João Nogueira (figura 16).
O exemplo da figura 17, baixaria 14, que também foi extraída do samba Pra fugir
nunca mais, do LP Vem quem tem (1975), de João Nogueira, possui alguns pontos interessantes
para a nossa análise que caracterizam o idiomatismo musical de Dino 7 Cordas.
43
26
Muitos violonistas utilizam a nomenclatura de baixo cantado, ou baixo cantante, para a condução rítmico-
harmônica baseada nas inversões do acorde. Segundo Rogério Caetano (2018 apud Gonçalves, 2019, p. 30), o
baixo cantado “não é a baixaria. É a condução do baixo, condução harmônica, da levada”.
27
Já citado anteriormente, vamos repetir aqui um trecho sobre o tratamento da linha de baixo de Schoenberg (1991,
p. 112), somente para salientar a importância dessa prática na linguagem de Dino 7 Cordas: “O ouvido está
acostumado a prestar muita atenção ao baixo, e mesmo uma nota curta é percebida como uma voz ‘contínua’, até
que a nota seguinte seja executada como uma continuação (melódica). Em consideração à fluência, um baixo que
não seja um contracanto deve fazer uso de inversões, mesmo que elas não sejam harmonicamente necessárias.”
Para além disso, podemos verificar que Dino, mesmo aplicando contracantos variados, não abandona a nota do
acorde aplicada no primeiro tempo de cada compasso, desenvolvendo em segundo plano um baixo cantado, como
desmonstra a figura 18.
44
Neste terceiro arpejo, também extraído da música Pra Fugir Nunca Mais, Dino
utiliza uma divisão rítmica diferenciada sobre o G7, acrescentando apenas uma nota de
passagem para elaborar duas sextinas (figura 19).
Como já vimos em outros exemplos, ele pode ou não inserir as tensões do acorde
como em suas baixarias. Neste caso, verificamos a nota lá (P — destaque em amarelo), a 9.ª em
G7. Não sabemos se a 9.ª consta na cifra, porém ele tinha como prática acrescentar essas notas
em suas frases.
Interessante notar o efeito que esse arpejo em sextina produz, algo que soa
virtuosístico, mas, na prática, a sua tocabilidade não é das mais complexas. Mais uma vez
gostaríamos de salientar a importância da audição das músicas aqui trabalhadas.
45
A baixaria a seguir (figura 20), extraída de Seu Caminho Se Abre, do LP Vem Quem
Tem (1975), de João Nogueira, nos chama a atenção em três aspectos. Em primeiro lugar, o
emprego de fusas sobre o G7 no segundo tempo do terceiro compasso, acrescentando novamente
a 9.ª como nota de aproximação (ap – em amarelo) e nota de passagem (P – em amarelo); em
segundo, podemos observar uma bordadura superior sendo aplicada em meio à escala de Bm
(destaque em verde), criando um balanço, o que também é característico em Dino; e, por último,
a já conhecida e analisada passagem cromática descendente sobre o V7, desta vez na região
grave para alcançar a terceira inversão do acrode G7(destaque em creme).
28
Compositor e multi-instrumentista cearense, nasceu em 6 de setembro de 1921, em Jardim/CE, e faleceu em 31
de julho de 2014, em Teresópolis/RJ.
29
Músico, produtor fonográfico, arranjador e percussionista carioca.
46
Neste próximo estudo, destacamos um total de sete baixarias preparatórias para Am.
As seis primeiras foram extraídas de um vídeo caseiro gravado em um sarau ao vivo — em
comemoração ao aniversário de 76 anos de Dino 7 Cordas, no dia 4 de maio de 199430.
Nessas seis primeiras baixarias extraídas de uma única música, o choro É Do Que
Há, de Luiz Americano, podemos notar que Dino está tocando totalmente à vontade,
improvisando baixarias, indicando caminhos, dinâmica e dialogando com a melodia principal,
ou seja, ele “está no momento”, conforme observa o contrabaixista americano Buster Williams
(2018 apud Gonçalves, 2019, p. 14)31. Esse é um ponto referencial para o desenvolvimento
deste estudo. Estamos focando em gravações por meio das quais podemos verificar que não
30
Disponível em: [Link] Acesso em: jun. 2021.
31
Disponível em: [Link] Acesso em: ago. 2024.
47
houve uma elaboração detalhada de um arranjo para o violão de 7, com o intuito de captar a
linguagem e o idiomatismo musical de Dino 7 Cordas. A sétima e última baixaria foi extraída
de outra gravação distinta, mas ajuda a compor este capítulo.
Em relação à baixaria 18, uma frase de preparação (figura 22), destacamos (em
amarelo) a importância da 9.ª menor em um arpejo dominante — mesmo quando, na cifragem,
ela não está inserida —, que resolverá em um acorde menor.
Por certo, sem a utilização da 9.ª menor, o arpejo perderia um pouco da sua força
tonal, que prenuncia a resolução em um acorde menor, no caso, o Am. A presença de tal nota
de tensão é uma forte característica nas baixarias de Dino; portanto, a leitura e execução da
harmonia, feitas por ele, estão para além do que foi escrito.32
Além disso, temos a resolução em Am/C, com o baixo na 7.ª corda — uma inversão
muito comum na prática do violão de 7 cordas com a afinação tradicional.
Figura 22: Baixaria de preparação em Lá menor – baixaria 18 (Fonte: Elaborado pelo autor).
A segunda selecionada é uma baixaria de finalização. Sobre ela, Carlos Almada nos
diz que
Uma das marcas registradas de uma parte do choro é a finalização [...]. Trata-se de
um maneirismo do gênero, já que, sob um ponto de vista estritamente técnico, não
possui qualquer função importante no discurso temático. Em outras palavras, a
finalização, que poderíamos chamar de uma brevíssima coda, acontece logo após a
chegada da tônica. [...] as finalizações tornaram-se com o tempo parte indissociável
da linguagem do choro [...] (Almada, [2005?], p. 65).
32
Essa expertise é de suma importância na prática do contracanto em samba, choro e seresta.
48
Figura 23: Baixaria de finalização em Lá menor – baixaria 19 (Fonte: Elaborado pelo autor).
Dando sequência, vamos trazer uma terceira baixaria (figura 24), ainda do choro de
É Do Que Há, de Luiz Americano. Dino utiliza as notas do acorde desde a segunda metade do
compasso antecessor, o que caracteriza uma antecipação do arpejo dominante ainda em lá
menor, sendo que, para o Am, a nota ré seria uma nota de aproximação (circulado em verde),
enquanto que, para o E7, trata-se da 7.ª menor — nota característica dos acordes dominantes.
Outro fato interessante é a apresentação da 9.ª menor (destaque em rosa) em posição métrica
mais forte, dando-lhe ainda mais destaque.
Por fim, ainda podemos destacar a nota de passagem (P) dó no acorde de E7,
antecipando a resolução em Am.
Figura 24: Baixaria de preparação sobre arpejo dominante – baixaria 20 (Fonte: Elaborado pelo autor).
49
A baixaria 21 nos traz uma reflexão sobre a linguagem musical de Dino. Extraída
da mesma gravação das três baixarias anteriores, ela nos trouxe um questionamento: qual nota
Dino usaria se estivesse em uma produção/gravação de um disco profissional, uma vez que
estamos analisando uma gravação caseira na qual podemos observar a espontaneidade do
violonista ao tocar?
Referimo-nos à segunda nota fá do segundo compasso (destaque em rosa), a que
antecede o ré no último compasso (figura 25). Em uma roda informal, não chamaria a atenção,
porém, estamos aqui analisando toda a estrutura melódica das baixarias de Dino, justamente
para tentarmos compreender um pouco mais do seu pensamento musical.
Nesse aspecto, podemos dizer que, provavelmente em uma gravação oficial, ele
utilizaria a nota ré# em vez da repetição do fá (destaque em rosa), deixando a baixaria mais
homogênea e interessante, criando, assim, um tipo de resposta para o movimento cromático
ascendente do tempo anterior (destaque em amarelo), como demostra a análise na figura 25:
Figura 25: Baixaria de preparação em Lá menor com a nota fá repetida – baixaria 21 (Fonte: Elaborado pelo
autor).
Neste estudo, vamos utilizar a baixaria com a nota ré#, na qual podemos observar o
movimento cromático descendente criado por sua utilização (destaque em rosa – figura 26):
Figura 26: Baixaria de preparação em Lá menor, trocando a nota fá pela nota ré# – baixaria 22
50
[...] baixo cantado do Dino [...] não tinha equívoco. E toda hora ele fazia um caminho
diferente e sempre fazia com a aproximação cromática correta. Era um tom, meio tom,
e era isso aí, não tinha um pulo que não era musical, uma distância muito grande no
baixo cantado (Caetano, 2018 apud Gonçalves, 2019, p. 31).
33
Ronaldo Souza Silva, ou Ronaldo do Bandolim, músico carioca, integrante do conjunto Trio Madeira Brasil e
que tomou parte do Conjunto Época de Ouro por muitos anos ao lado de Dino 7 Cordas.
51
2019, p. 14) —, podemos verificar a facilidade e fluidez com que toca a baixaria em questão.
Ele usa uma simples escala para isso; porém, a sua maestria está no momento, na força e na
maneira improvisada por ele.
Por último, ressaltamos a maneira com que ele acentua as notas do acorde nos
tempos fortes da baixaria (destaque em rosa), criando, por trás da frase, uma linha condutora, o
baixo cantado.
A baixaria 25, a última deste capítulo (figura 29), foi selecionada do LP Isto é Nosso
(1968), mais especificamente do choro Mágoas, de Jacob do Bandolim. Nela, Dino consegue
aplicar em uma mesma frase um fragmento da escala de E7(b9) (destaque em verde) e o arpejo
do mesmo acorde (destaque em creme) para a resolução em Am/C.
A tonalidade da música é G:, porém o trecho em questão está no IIm (Am:). Esta
baixaria pode ser utilizada em outras situações; por esse motivo está em destaque aqui neste
estudo.
e no choro. Por serem vastos os exemplos nas gravações de Dino 7 Cordas, tentaremos trabalhar
aqui algumas das mais relevantes.
A baixaria 26 (figura 30) a ser analisada está no LP Canto das Três Raças (1976),
de Clara Nunes, mais especificamente na faixa Tenha Paciência. Vamos nos debruçar apenas
sobre três pontos específicos que fazem a diferença no idiomatismo de Dino e o põem em
destaque.
O primeiro deles é a descida cromática no compasso 1 do fá# (5.ª justa de Si) para
o mi, passando por um fá bequadro (destaque em vermelho), que estaria para o jazz e para o
blues dentro de uma escala pentatônica, classificado como uma blue note, o que, simplificando,
seria a 5.ª bemol do acorde. Interessante notar a sua aplicação em movimento descendente e o
efeito surpreendente que ele causa. Apesar de ser apenas uma nota de passagem, poderíamos
dizer que faz toda a diferença nesta baixaria. Os outros dois pontos a que nos referimos estão
destacados em azul e em verde. São uma espécie de bordadura sucessiva, deixando a baixaria
com muito “balanço”.
O segundo ponto (destaque em azul) trata-se de um movimento por onde Dino
envolve duas notas si e duas notas lá#, criando uma espécie de bordadura dupla (para não
chamarmos de repetição), que, de fato, tem, dentro de si, uma bordadura superior (lá# – si –
lá#) e o objetivo de alcançar a fundamental de F#7; porém, para isso, a frase passa pela nota de
passagem sol (nosso terceiro ponto – destaque em verde), quando o músico alcança a
fundamental fá# e, num movimento ascendente, toca novamente a nota de sol, gerando um novo
tipo de bordadura inferior com duas notas de passagem e uma nota do acorde, resolvendo em
movimento ascendente na fundamental do Bm.
Esse movimento ascendente é um elemento coringa em algumas baixarias de Dino.
Se analisarmos a sua estrutura melódica, vamos verificar que ela se desenvolve através de uma
curva, saindo da nota si 3 (para a transcrição utilizada no violão), alcançando o fá# 2
descendentemente, e passa a evoluir ascendentemente até resolver no si 2 (destacado pela linha
trastejada marrom). Esse tipo de movimento está muito presente nas baixarias do violonista.
Sobre isso, pensamos que, como Dino tocou por muitos anos com o violão de 6 cordas, várias
53
soluções do seu idiomatismo musical elaboradas para este violão permaneceram quando o
violonista passou para o violão de 7.34
Por fim, todos esses movimentos geram uma sensação de expectativa para a
resolução. Não sendo direto, e nem previsível, aplicando ferramentas simples como a bordadura
com notas auxiliares, a utilização da 5.ª bemol (blue note), fazendo-se valer do contraste, o
instrumentista construiu um contracanto primoroso e muito eficaz que vai servir de referência
para outras baixarias.
Podemos dividir o próximo exemplo (figura 31) em três partes distintas que formam
uma unidade coesa. Na sua primeira parte (destaque com a seta trastejada), Dino utiliza um
salto de 8.ª da fundamental (fá#), ascendentemente passando pela 5.ª (dó#), alcançando a
fundamental 8.ª acima e passando para o mi#. Após isso, usa a escala de acorde
descendentemente (destaque em verde), adicionando a 9.ª menor em tempo forte (destacada
pela seta em creme), para, por fim e em sentido contrário, aplicar a escala de acorde, que,
formando uma outra curva côncava (movimentos descendentes em verde e ascendente em
vermelho), alcança a resolução na fundamental de Bm.
A construção dessa frase, gravada no LP Gritos do Subúrbio (1972), de João
Nogueira, mais especificamente na faixa Mariana da Gente, nos chama muito a atenção pela
riqueza de contrastes na inversão dos sentidos e pela utilização de notas-chave, como a 5.ª
bemol e a 9.ª menor. Esses detalhes transformam um simples arpejo ou uma escala em música,
em contracanto, e é esse o idiomatismo musical de Dino de que tanto temos falado aqui.
34
Interessante perceber que Dino, para além das baixarias, conservou as formas de acordes feitas no violão de 6
cordas também no violão de 7. Ele não criou outras formas de acordes após o acréscimo da 7.ª corda, mas sim as
adaptou, incluindo somente a nota mais grave (fundamental, 3.ª, 5.ª ou 7.ª) do acorde na 7.ª corda do violão de 7
cordas. Dizemos isso, claro, de uma maneira geral, visto que não realizamos uma análise mais profunda, apenas
fizemos uma verificação através dos estudos por nós realizados.
54
Seguindo, a baixaria 28 (figura 32), que foi também selecionada da mesma gravação
de Mariana da Gente, confirma alguns pontos aqui levantados, como o movimento da
fundamental do acorde para a sua 9.ª menor, passando pela 5.ª bemol (seta trastejada em azul)
— que talvez já podemos classificá-lo como um movimento característico para as preparações
de acordes menores.35
Assim como o ataque da 9.ª menor em tempo métrico forte (seta em creme) e a
utilização da escala de acorde, desta vez, porém, Dino a utiliza somente no sentido descendente,
finalizando em Bm/D, 1.ª inversão de Bm. Acreditamos que o tenha feito para criar um contraste
com a baixaria 27, também utilizada nesta gravação — quase como uma variação do motivo.36
35
Assim como o movimento característico visto no item 5.3 desta dissertação.
36
Não cabe uma longa explicação sobre variação e motivo, pois não é o nosso objetivo aqui. Para saber mais, ver
Fundamentos da Composição Musical, de Arnold Schoenberg (1991, p. 35–42).
55
para a 7.ª menor F#7 (uma maneira já amplamente vista na seção 5.3), porém com a 7.ª em
tempo métrico fraco, sendo mais um diferencial para essa baixaria. Por fim, o violonista aplica
os movimentos ascendentes e descendentes (curva côncava) para finalizar.
A baixaria a seguir (figura 34) foi gravada por Dino no samba intitulado Mente, do
álbum Guerreira (1978), de Clara Nunes. Este exemplo, o quinto deste estudo, traz os
elementos que podemos verificar nas baixarias anteriores e também a passagem cromática da
fundamental (fa#) para a 7.ª menor (mi), passando pelo fá bequadro no F#7, e agora com a 7.ª
menor em tempo métrico forte — assim como as frases estudas na seção 7.3. Mas o seu
diferencial está na quantidade de repetições dessa baixaria executadas pelo músico nesta
gravação — foram três ao total, nos tempos 00:44, 01:55 e 02:43 —, ao contrário dos exemplos
anteriores, que não tiveram repetições nas suas respectivas gravações.
Evidenciamos que não se trata de uma baixaria especial, mas de uma repetição
programada por conta do arranjo da própria música, o que também é uma característica das
gravações de Dino 7 Cordas.
Figura 35: Frases com grupos de 5 notas – baixaria 31 (Fonte: Elaborado pelo autor).
37
Esta denominação faz referência ao grupo de cinco notas em graus conjuntos que caracterizam as baixarias
analisadas aqui nesta seção.
57
A segunda baixaria (figura 36), também extraída do choro É Do Que Há, está sobre
uma progressão harmônica diferente da primeira e mantém os mesmos padrões como entrada
(linha em verde), saída (em vermelho), porém com um menor número de séries em quintas,
desta vez apenas duas (linhas trastejadas azuis). Salientamos que a transcrevemos até o acorde
de E7/D, por entendermos que a baixaria inicia no segundo tempo do primeiro compasso e
termina na 3.ª inversão do acorde de E7, a nota ré (seta em creme).
Figura 36: Frases com grupos de 5 notas – baixaria 32 (Fonte: Elaborado pelo autor).
A terceira e última baixaria inserida neste item foi extraída da gravação do samba
Se Você Me Ouvisse, já citado anteriormente neste capítulo. Pelos apontamentos feitos na figura
37, podemos notar a presença dos elementos que compõem a estrutura das frases em quintas:
uma entrada (em verde), duas séries em quintas (setas azuis) e, por último, a saída (em
vermelho).
Concluímos, assim, que Dino mantém a estrutura da frase mesmo em outras
tonalidades, o que, para este trabalho, é muito importante, pois, desse modo, conseguimos, aos
poucos, entender como Dino pensava, como era o seu idiomatismo musical.
58
Figura 37: Frases com grupos de 5 notas – baixaria 33 (Fonte: Elaborado pelo autor).
Dino 7 Cordas foi o produtor musical e arranjador dos três primeiros LPs do grande
sambista Cartola38. Para além dos arranjos e da produção musical, o violonista tomou parte
deles também como instrumentista. Como resultado final, nos deixou, nestes três LPs, o que
para muitos interlocutores seria a bíblia da linguagem do violão de 7 cordas no samba.
Poderíamos ter selecionado apenas um deles e já teríamos material suficiente para toda a nossa
pesquisa, de tão rico e completo são esses registros.
Para o oitavo estudo, selecionamos seis tipos de baixarias em ré menor de dois
sambas diferentes. O primeiro As Rosas Não Falam, de Cartola, e o segundo Preciso Me
Encontrar, do também sambista e compositor Candeia39. Todos os dois sambas do mesmo LP,
Cartola, de 1976.
38
Um dos maiores compositores de samba brasileiro, poeta, violonista e intérprete, Angenor de Oliveira, ou
Cartola, como era amplamente conhecido, nasceu em 11 de outubro de 1908, no Rio de Janeiro, onde faleceu em
30 de novembro de 1990. Disponível em: [Link] Acesso em: abr. 2024.
39
Sambista, partideiro, compositor e intérprete, Antônio Candeia Filho, ou simplesmente Candeia, nasceu em 17
de agosto de 1935, no Rio de Janeiro, onde também faleceu, em 16 de novembro de 1978. Disponível em:
[Link] Acesso em: abr. 2024.
59
dó#, aplicando um pequeno arpejo (linha trastejada azul), para, em seguida, utilizar um
cromatismo com o objetivo de chegar à nota ré no último compasso para a resolução da frase.
Pudemos observar que a divisão rítmica em tercinas causa uma maior tensão e que,
quando Dino utiliza as colcheias no fim da baixaria, ocorre um maior relaxamento, que, com
maestria, conduz à finalização.
A quarta baixaria desta seção (figura 41) é, na verdade, uma junção de duas
baixarias de dois momentos distintos. Nós as colocamos juntas aqui para poder exemplificar
algumas características importantes da linguagem musical de Dino 7 Cordas e para compor o
estudo 8. Elas estão identificadas pela minutagem anotada logo acima do início de cada uma.
A primeira inicia em 01:48 e a segunda, em 02:33, na mesma gravação de As Rosas Não Falam.
Na primeira, vamos verificar como Dino aproveita as notas do acorde inserindo movimentos
ascendentes e descendentes dentro de uma mesma baixaria.
Acompanhando a seta marrom trastejada, vemos Dino aplicando o arpejo de E7,
iniciando pela segunda inversão (nota si) e voltando para a primeira inversão (sol#), alcançando,
ascendentemente, através do arpejo, a 9.ª menor (nota fá — destaque em vermelho), que, muito
provavelmente, não estaria cifrada. Logo, o músico desce para a nota mi e, por meio de uma
bordadura inferior (destaque em azul), chega à nota sol#.
Em contraste com a primeira parte, na qual verificamos um movimento sinuoso, o
violonista aplica um cromatismo descendente, alcançando a primeira inversão do IVm6
(destaque em verde). Em seguida, através de graus conjuntos (destaque em azul), parte para o
arpejo de A7(#5) (destaque em rosa). Evidenciamos que o efeito desse arpejo (segunda baixaria)
é muito forte e contrasta com todas as frases vistas dentro dessa gravação. Podemos verificar
61
que a sua aplicação gera um momento de suspensão, quase como um rubato, querendo
desacelerar o andamento da música. Por fim, Dino resolve em Dm através de graus conjuntos.
Enfim chegamos ao último estudo deste trabalho, do qual vamos analisar algumas
baixarias para mi menor. Começaremos pelas três primeiras juntamente.
Se olharmos a figura 43, a seguir, prontamente podemos observar uma semelhança
entre as três baixarias, que são as estruturas melódicas idênticas nos seus dois últimos
compassos, com os acordes de B7 e Em (linha trastejada azul). A primeira foi extraída da
gravação de Minha Gente do Morro, do LP Esperança (1979), de Clara Nunes, enquanto as
outras duas foram selecionadas do samba Se Você Me Ouvisse, do LP Nos Botequins da Vida
(1977), de Beth Carvalho. Essas finalizações, pelo que pudemos observar em outras gravações
de Dino, são muito recorrentes dentro da sua linguagem musical. Porém, o que as difere uma
das outras são os inícios dessas baixarias.
Na primeira baixaria, o instrumentista aplica a escala de Em para alcançar a nota
ré#, inserindo a finalização em comum. Já na segunda, ele arpeja o acorde de Am6/C, retornando
para alcançar a nota ré# e assim aplicar a mesma resolução em Em. E, por último, na baixaria
42, o violonista utiliza a escala de Ré maior, utilizando uma nota de passagem (sol#), que, em
movimento contrário, é bequadrizada, o que insere um certo “balanço” na baixaria, e assim
finaliza com a frase comum a todas as três farses (destaque em azul).
Esses três exemplos sintetizam tanto a diversidade quanto a objetividade da
linguagem musical de Dino 7 Cordas, demonstrando o quanto ele dominava a sua arte.
63
Figura 43: Baixarias em Mi menor – baixarias 40, 41 e 42 (Fonte: Elaborado pelo autor).
Figura 44: Baixarias em Mi menor – baixarias 43, 44 e 45 (Fonte: Elaborado pelo autor).
Finalizando este capítulo, vamos analisar mais duas baixarias em conjunto que
foram gravadas por Dino no LP Vem Quem Tem (1975), de João Nogueira, mais
especificamente a faixa Seu Caminho se Abre.
As entradas das duas baixarias são idênticas (figura 45). Nelas, temos o arpejo de
F#m7(b5), sendo possível de ser utilizado também sobre o acorde de Am6, uma vez que um é a
inversão do outro, como podemos verificar no primeiro compasso da segunda baixaria desta
seção. Logo após, Dino aplica a escala de B7 para finalizar no Em/G de duas maneiras
diferentes, assim sendo: na baixaria 46, o violonista aplica a escala de acorde de maneira linear
até alcançar a finalização — queremos aqui enfatizar a presença da 9.ª bemol (nota dó) em
tempo métrico forte (seta marrom); já na baixaria 47, utiliza o mesmo material escalar, porém
repetindo algumas notas para duas novas retomadas (destaques em verde) e, assim, traz mais
movimento à baixaria.
Nesse sentido, podemos observar o quão é direto e eficaz o pensamento musical de
Dino. Quer dizer, sem elucubrações e movimentos exagerados, ele consegue criar variações
sem se descuidar do material musical já utilizado. Portanto, renova a sua linguagem sem
precisar se distanciar da sua estética musical.
65
6 OS NOVE ESTUDOS
Neste capítulo, vamos falar um pouco sobre os estudos compostos para a prática e
o desenvolvimento da linguagem musical de Dino 7 Cordas através das suas baixarias
analisadas no capítulo anterior.
Nosso intuito maior com esta dissertação foi a criação de um material didático que
possibilitasse o estudo das baixarias de Dino 7 Cordas sobre um prisma prático mas que também
trouxesse questionamentos sobre o seu idiomatismo musical, ou seja, como o instrumentista
pensava a música.
Nos nove estudos apresentados, tentamos pôr em primeiro lugar as linhas melódicas
das baixarias de Dino, não nos fixando em outras questões musicais, tais como as levadas
rítmicas de mão direita, as questões timbrísticas, a técnica de mão esquerda e mão direita, as
aberturas e formas de acordes etc. Isso para que fosse possível inserir, sem muito esforço na
prática musical, as baixarias aqui selecionadas, uma vez que, por intermédio de um professor
ou sozinho, o praticante poderá obter tais informações.
Não é o nosso intuito encerrar aqui todo o conteúdo da linguagem musical de Dino
7 Cordas. Portanto, nossos estudos focaram no aprendizado e na aplicação das baixarias
analisadas no capítulo 5 deste trabalho. Contudo, todos os estudos também trouxeram a notação
das digitações de mão esquerda, sem que fosse obrigatória a utilização da nossa referência.
Destacamos, em relação aos estudos, que a digitação da mão esquerda indicada foi por nós
transcrita através de análises de vídeos, verificada em execução no violão de 7 cordas e
embasada no estudo de Marcello Gonçalves sobre a digitação das frases e baixarias que se
utilizam da forma de acorde. De acordo com ele,
rítmico/harmônico do violonista, podendo, por vezes, ser idênticas a que ele executou na
gravação.
Dino procurava reproduzir em seu acompanhamento elementos rítmicos dos
instrumentos de percussão característicos dos nossos gêneros, como o surdo e o tamborim.
Realizamos a transcrição rítmica (figura 46) básica do seu acompanhamento em
samba, muito encontrada na sua obra. Esta levada foi extraída da gravação ao vivo do programa
Ensaio, da TV Cultura (exibido em 1973), com a participação da cantora Clementina de Jesus,
que aparece logo no início do vídeo, sendo a introdução da música.40
Curioso notar que a levada com os dedos indicador, médio e anelar forma uma
unidade, com todas as notas tocadas ao mesmo tempo (por vezes junto com o polegar também),
característica comum nas levadas rítmicas de Dino. Nossa hipótese é de que, tocando assim,
dessa forma, ele se fazia mais presente nas gravações — principalmente quando ainda se
gravavam os instrumentos em grupos, ou seja, violões e cavaquinhos num mesmo microfone
devido ao pequeno número de canais disponíveis para a gravação, transformando-se em marca
registrada no seu acompanhamento.
As baixarias transcritas para o estudo deverão serem tocadas apenas pelo polegar
da mão direita (ou esquerda para os canhotos); quando for necessária a utilização dos outros
dedos, estes serão indicados na partitura, como dedo indicador (i), dedo médio (m) e dedo anelar
(a). Para além disso, os estudos que estarão no e-book e no anexos nesta dissertação trazem
algumas notas das baixarias enarmonizadas, facilitando a leitura do estudante, assim como
algumas possíveis inversões de acordes mais usuais41.
40
Vídeo disponível em: [Link] Acesso em: fev. 2019.
41
Para efeito de análise melódica e harmônica das baixarias feitas no capítulo 5 desta dissertação, seguimos as
regras convencionais, evitando, assim, outras interpretações.
68
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A primeira questão que nos vem à mente quando ouvimos atentamente algum
fonograma gravado por Dino é a certeza de que é ele mesmo quem está tocando o violão de 7
cordas. Essa conclusão se deve ao fato de que conseguimos ver nele uma assinatura, isso para
além da sonoridade já descrita e discutida neste trabalho. Tal assinatura é consequência, na
verdade, da junção do idiomatismo instrumental com o idiomatismo musical e os seus
elementos, das escolhas musicais, concepções estilísticas, cristalizadas por décadas de atuação
efetiva em gravações, apresentações, produções, ensaios e atividades pedagógicas.
De fato, Dino nos deixou cerca de cinco mil gravações42, mas, independentemente
disso, o importante aqui é salientar que, por meio da junção do idiomatismo instrumental com
o idiomatismo musical, ele criou uma assinatura pela qual pode ser reconhecido por músicos
e/ou ouvintes das suas gravações.
Enfim, durante este pequeno estudo, podemos concluir que, para além de tocar um
instrumento e entender as características de uma linguagem musical, se faz importante a análise
dos elementos dessa linguagem e a sua utilização no exercício prático. Nesse sentido,
conseguimos observar que os nativos de choro e samba têm em Dino 7 Cordas uma fonte
inspiradora — que por muitas vezes é estudado, copiado, sem que sua figura seja citada. Assim
sendo, sua criação e inovação fazem parte da história e do desenvolvimento da música brasileira
e, portanto, são de suma importância tanto para a manutenção dos estilos e dos gêneros como
para o desenvolvimento da nossa música.
42
Ao que sabemos, ainda não foi realizada uma pesquisa consistente do total de gravações que Dino fez durante
sua carreira. Conseguimos localizar apenas uma referência: em um podcast disponível no Youtube, o pesquisador
e professor Armando Andrade menciona que o violonista de 7 cordas teria gravado profissionalmente cerca de
cinco mil fonogramas. Para mais detalhes, acessar:
[Link]
73
REFERÊNCIAS
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Camden, 1968. 1 disco sonoro.
BRAGA, Luiz Otávio. O Violão de Sete Cordas. Rio de Janeiro: Lumiar, 2002.
BUARQUE, Chico. Carolina. Intérprete: Época de Ouro In: CONJUNTO Época de Ouro. São
Paulo: Continental, 1974. 1 disco sonoro.
CANDEIA, Antônio; SANTOS, Jaime. Minha Gente do Morro. Intérprete: Clara Nunes. In:
NUNES, Clara. Esperança. São Paulo: EMI-Odeon, 1979. 1 disco sonoro.
CAETANO, Rogério. Sete cordas: técnica e estilo. Texto, organização e direção de Marco
Pereira. Rio de Janeiro: Garbolights Produções Artísticas, 2010.
CARTOLA. Minha. Intérprete: Zeca Pagodinho. In: CARTOLA – Bate Outra Vez. Rio de
Janeiro: Som Livre, 1988. 1 disco sonoro.
CAVAQUINHO, Nelson; BRITO, Guilherme de. Tenha paciência. Intérprete: Clara Nunes.
In: NUNES, Clara. Canto das Três Raças. São Paulo: EMI-Odeon, 1976. 1 disco sonoro.
GUDIN, Eduardo; VANZOLINI, Paulo. Mente. Intérprete: Clara Nunes. In: NUNES, Clara.
Guerreira. São Paulo: EMI-Odeon, 1978. 1 disco sonoro.
LANCELOTTI, Ivor. Seu Caminho se Abre. Intérprete: João Nogueira. In: NOGUEIRA,
João. Vem quem tem. São Paulo: EMI-Odeon, 1975. 1 disco sonoro.
NASCIMENTO, Ismael Lima do. O idiomatismo na obra para violão solo de Sebastião
Tapajós. Dissertação (Mestrado em Música) — Universidade Estadual Paulista, São Paulo,
2013. Disponível em:
[Link]
e=1&isAllowed=y. Acesso em: 15 jul. 2023.
NOGUEIRA, João. Mãe Solteira. In: NOGUEIRA, João. Gritos do Subúrbio. São Paulo:
EMI-Odeon, 1972. 1 disco sonoro.
NOGUEIRA, João. Meu Caminho. In: NOGUEIRA, João. Gritos do Subúrbio. São Paulo:
EMI-Odeon, 1972. 1 disco sonoro.
NOGUEIRA, João. Mariana da Gente. In: NOGUEIRA, João. Gritos do Subúrbio. São Paulo:
EMI-Odeon, 1972. 1 disco sonoro.
NOGUEIRA, João; JORGE, Claudio. Pra Fugir Nunca Mais. Intérprete: João Nogueira. In:
NOGUEIRA, João. Vem quem tem. São Paulo: EMI-Odeon, 1975. 1 disco sonoro.
OLIVEIRA, Agenor de (Cartola). As Rosas Não Falam. In: OLIVEIRA, Agenor de (Cartola).
Preciso me Encontrar. São Paulo: Discos Marcus Pereira, 1976. 1 disco sonoro.
SILVA, José Paulo da. Manual de Harmonia. 2. ed. Rio de Janeiro: Carlos Wehrs & Cia.,
1937.
ANEXO 1 – ESTUDO I
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ANEXO 2 – ESTUDO II
78
ANEXO 4 – ESTUDO IV
81
82
ANEXO 5 – ESTUDO V
83
ANEXO 6 – ESTUDO VI
84
ANEXO 9 – ESTUDO IX
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Luiz Sebastião - Professor, sobre o violão do Dino, o violão de 7 cordas... Eu estou escrevendo
um artigo pro mestrado... tu sabes quais foram as madeiras que o [luthier] Silvestre [Dominguez
de La Mare] utilizou pra fazer esse violão do Dino? E tu que viu de perto, decerto tu até tocou
com ele... Se pudesse me falar o que tu achas, o que tu achava desse violão, porque em gravação
a gente tem uma percepção, mas gravação tem todo aquele questionamento da acústica do
estúdio, da mixagem, dos microfones... Então a gente não sabe qual é o real som mesmo. Eu
nunca vi o violão do Dino, assim, de perto. Se tu pudesse me falar isso... [...]. Qual era a tua
impressão do violão 7 cordas do Dino, tu que foi aluno dele... e as principais características do
violão, até de construção, pegada do braço, se era pesado pra tocar ou não... Uma outra
pergunta: o Dino nem sempre usou as duas primas de náilon, né? E uma época ele usou aquele
acordoamento de aço simples, aquele que tem ondulações. Queria saber se tu sabes me dizer
qual é o período que ele usou aquele acordoamento e quando que ele partiu para usar as cordas
pyramid com as duas primas de náilon e a sétima pyramid também. Não sei se a sétima era
pyramid, era? Ou era a de violoncelo mesmo?
Luís Felipe Lima – [...] Olha, com relação ao violão do Dino, o violão que ele usou a vida
inteira, o violão de 7 cordas, que ele usou de 1952 até as últimas gravações, os últimos shows
é um violão de imbuia, o corpo dele é de imbuia e o tampo de pinho, escala de ébano, braço de
cedro, aquele violão... [...]. Ele deve ter reformado aquela escala, eu imagino, mas eu me lembro
dela meio escavada, de tanto tocar, principalmente nas primeiras casas, naquela escala, já com
um buraco, quase, dentro, mas a imbuia é uma madeira interessante pro violão de 7 cordas de
aço, porque cria aquele efeito meio de tuba, não tem a imbuia, dá ataque, mas não dá tanto
sustain no som quanto o jacarandá e outras madeiras pra usar no corpo. Então, o próprio Dino
destacava isso. Ele sabia bem disso, e ele tinha outros violões de 7 que ele não usava,
praticamente não usava [...]. Às vezes quando tava o violão principal dele, precisava arrumar,
mandava para o luthier dele, aí usava algum outro, mas esses outros violões que ele tinha, tinha
uns dois ou três, que depois, no final, acho que o Dininho também vendeu esses outros violões,
mas ele sabia bem da diferença do som entre uma madeira e outra. Então, esse violão de imbuia
tinha essa característica, pra gravar, a gente percebe, mas ao vivo, o som acústico dele, de fato,
era esse, era um som que favorecia aquela articulação das notas, as frases tinham notas
naturalmente bem destacadas umas das outras, porque essa é a onda do som do 7 cordas no
88
Regional, com um segundo violão, até com um terceiro violão também, é não embolar, se
destacar sem embolar com os outros violões e com as outras frequências que tão eventualmente
próximos, como o próprio grave do pandeiro. Se o pandeiro tá afinado, tem uma afinação mais
grave, tá ali, de alguma certa maneira também no mesmo espectro de frequência de algumas
das notas do 7 cordas. Então essa era a onda: poder destacar as notas, ter esse violão que soa
como tum, tum, tum, tum, tum, como tuba sem que uma nota invada, uma semicolcheia não
invada outra. Com relação ao encordoamento, ele sempre falou isso “ah, não, eu que usei e tal”,
mas eu nunca consegui descobrir exatamente — e até pra biografia do Dino uma coisa que eu
estou tentando, uma das coisas que eu estou tentando rastrear, ver se algum antigo que conviveu
com ele, que ainda teja por aí, consegue falar sobre isso —, a gente ainda não sabe. O Dino
falava “não, porque fui eu que comecei a usar essas cordas”. A gente não sabe, eu também não
tive a chance de perguntar para ele no tempo que eu estudava com ele, “ah, mas isso veio de
onde? Se ele viu alguém usando, talvez sim ou talvez não, talvez ele mesmo tenha
experimentado, inventado isso, experimentado de um jeito ou de outro... São duas as questões
das primas, das duas primas de náilon. Uma, a principal, é não ter aquele som muito estridente...
Quando você faz o saque nas cordas de náilon, você tem um som mais arredondado. Se você
faz o saque nas primas de aço, tem um som mais estridente, mais invasivo. Ao mesmo tempo,
timbrava mais com as cordas de náilon no violão de 6, porque dos anos 60 pra cá, 70,
principalmente, o violão de 6 passou a ser usado com corda de náilon. Corda de aço era uma
coisa que já tinha ficado pra trás. Quando chegou o violão da bossa nova, isso o pessoal antigo
fala, quando chegou o violão da bossa nova, que era um violão de náilon, começou a varrer o
violão de aço que ainda era usado pelo pessoal mais antigo. E aí vem a segunda questão [...]: as
cordas de aço, as primas de aço acabam com as unhas, acabam... As unhas vão embora muito
mais rápido do que quem toca um violão de náilon. Então tem essa onda. Eu não sei, eu não
sei... Quando ele começou a usar isso e realmente qual foi a inspiração dele, se ele mesmo foi
usando, se ele viu alguém que usou primeiro essas duas cordas de náilon num outro violão de
7, violão de 7 também era ele que tocava, ou se ele viu isso em algum violão de 6, realmente
não sei. Tô pesquisando isso. Se eu souber, te conto.
Luiz Sebastião - Professor, mais uma pergunta [...]. Qual gravação que tu achas que ficou
mais... que o timbre do violão do Dino chegou o mais próximo do acústico [...], o Vibrações...
Eu acho que uma [baita] gravação, [baita] referência sonora, foi muito bem gravado o
Vibrações, e também aquele disco do Jair Rodrigues [...], Serestas & Serenatas... O timbre do
violão... chega a dar pra ouvir o agudíssimo da dedeira “pegando”, “ferindo” a corda de aço...
89
Luís Felipe Lima - Olha, quanto às gravações do Dino com o violão dele que mais
correspondem ao som acústico, acho que tem muitas. Imagina, o Dino gravou milhares de
fonogramas, então tem muita coisa que realmente representa com fidelidade o som acústico
dele. A gente lembra... tem gravações importantes, famosas, como tudo que ele fez no LP
Vibrações, com o Época de Ouro, Jacob do Bandolim... tem os Serestas e Serenatas do Jair
Rodrigues, mas é o que eu acho que o som dele tá muito, muito característico, muito fiel... Tinha
também uma frequência nasal um pouquinho, aquele violão, um certo médio, uma certa
frequência de médio que pintava naquele violão dele... Tinha um som brilhante, tinha aquele
grave meio tuba, mas tinha esse anasalado médio, que era muito característico. Isso aparece
bastante no LP de 74 do Cartola. O primeiro LP do Cartola também é outro registro muito
importante para a história do violão de 7 cordas brasileiro... Eu destacaria nesse disco o samba-
canção Sim, que já tem a introdução do violão de 7 cordas, e o 7 cordas se destaca bastante no
arranjo, na mixagem, e é aquele som que eu ouço o Dino tocando, que às vezes eu ia na casa
dele, eu tive aula com ele, ele não dava aula nem com violão de 7 cordas, ele dava aula com 6,
e os alunos, se quisessem, levavam o seu 7 cordas, porque, também, o violão do aluno, que
estava separado, era um violão de 6, mas na casa dele, às vezes eu ia, e aí ele tocava aquele
violão de 7 cordas, feito em 1951, que ele começou a tocar em 1952... e aí era aquele som,
nossa, realmente é um privilégio ter ouvido algumas vezes esse violão soar assim, a um metro
de distância.
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Luiz Sebastião - João Camarero, obrigado por participar da entrevista. Eu queria te perguntar...
A primeira pergunta é... Primeiro vou te parabenizar por toda a sua trajetória que você vem
fazendo [...], realmente é um ganho pro violão brasileiro tudo o que cê vem fazendo na sua
trajetória... Queria perguntar para você quanto tempo você ficou com o violão do Dino. Se você
puder falar pra gente como que você adquiriu o violão e onde que o violão tá agora, com quem
que ele tá.
João Camarero – Opa, tudo bom? Obrigado pelo convite. É um prazer poder contribuir um
pouco com o teu trabalho, que é tão importante pra gente criar essa memória a partir de agora,
que a gente não tenha esse buraco, infelizmente, na nossa história e na nossa cultura. Então eu
acho que essas iniciativas de criação de acervo, de memória são sempre muito importantes.
Bom, eu cheguei nesse violão através de um amigo de São Paulo, que é o Barão do Pandeiro,
grande figura... Quando o Dino morreu, o acervo dele ficou com o filho dele, o Dininho, e o
Barão é amigo do Dininho e comentou comigo que o Dininho tava organizando o acervo do pai
e que o violão tava no meio. E nessa época eu ainda não tinha me mudado pro Rio totalmente,
mas tava em vias de me mudar. E aí o Barão fez essa ponte, eu fui até o Dininho, vi o acervo
todo do Dino, as memórias, matéria de jornal, cadernos pessoais, enfim, muitas fotos, todos os
violões dele... Passei uma tarde lá muito especial, muito emocionante, várias vezes fiquei
emocionado mesmo, embargado, sabe? E... um determinado momento, o Dininho pegou o 7
cordas, que o Dino usava mais, e colocou uma gravação, eu comecei a tocar junto, aí a gente se
emocionou muito e tal e coisa, e começamos a conversa, porque o Dininho não queria que esse
violão ficasse parado. Ele queria que fosse para alguém que tocasse. E assim foi... Dei essa
sorte.
Luiz Sebastião – Quais são as principais características que você acha do violão do Dino? O
que você acha da sonoridade dele, do timbre... A gente sabe quais são as madeiras que ele tem,
imbuia no corpo, pinho no tampo, escala de ébano, braço de cedro... A gente tem essas
informações... e conferem essas informações?
João Camarero - Se não me engano, a escala era de jacarandá, não era de ébano, não. O violão
hoje, terminando a outra questão... tá com um colecionador de São José dos Campos, e tá em
ótimas mãos, ele conserva muito bem o instrumento, é sempre inspecionado por um luthier.
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Então o violão... porque é um violão muito antigo e muito usado. Então é uma casquinha de
ovo mesmo, por mais que a gente use, é um instrumento frágil, para ficar viajando, pra estrada
e tal... mas voltando às características do violão, é um instrumento que tem um grave muito
profundo e muito bonito, com um equilíbrio muito interessante do grave. Ele tem muito ataque
e tem um som bem percussivo, bem seco, como o Dino gostava. Claro que o instrumento já tá
antigo, então isso contribui muito. Mas tem um... tem uma magia ali mesmo, sabe? Tem um
negócio muito especial ali, nesse violão, uma coisa, claro, não só por todo o símbolo que ele
carrega, de ter sido o instrumento número 1 do Dino ao longo da vida, das gravações
antológicas, tudo feito com aquele instrumento... mas tem também o fato da referência de som
ter sido criada a partir daquele instrumento. Claro que era mão do Dino... Ninguém que pega o
violão dele vai ter o som dele, tanto é que aquele disco que ele grava com o Raphael Rabello,
aquele disco antológico Raphael Rabello & Dino 7 Cordas, ele não tá com esse violão. Ele tava
com um Do Souto mais recente, que hoje em dia tá com o André Beliene, se não me engano, e
você ouve aquilo você sabe que é o Dino na primeira nota. Então o fator humano ali fazia muita
diferença.
Luiz Sebastião - E a outra é a seguinte: qual gravação do Dino que tu acha que está mais fiel
ao timbre acústico do instrumento? Alguma referência pra gente [...] destacar essa gravação do
Dino. [...] Se quiser falar mais alguma coisa sobre esse instrumento, a gente agradece muito a
tua participação. Obrigado!
João Camarero - Olha, sobre a gravação que reflita mais naturalmente o som... Eu acho que
tem várias gravações que o som tá muito interessante, diferente. Você vê que é o mesmo cara
tocando, o mesmo violão, mas... porque, como ele gravou muito, a gente tem muita referência
do som dele, diferente... Tem um disco que é uma coisa um pouco rara de ouvir do violão do
Dino, especialmente, que é... você percebe que a corda tá nova — não que ele só usasse corda
velha, não é isso que eu quero dizer, mas quem conhece bem o trabalho dele sabe que ele tinha
uma preferência para esse som mais sequinho, mais percussivo das notas. E nesse disco as
cordas estão brilhando mais do que normal, que é um disco chamado Quatro Grandes do
Samba. E ali tem um som muito especial, muito legal mesmo, do violão dele, que tem esse fator
diferente das cordas estarem um pouco mais novas, e não só isso, o som em si do violão tá
muito equilibrado, muito bom. E aí tem várias outras gravações, desde a época antes de ele usar
essa corda lisa, que ele passou a usar na década de 70, as coisas com o Jacob do Bandolim, por
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exemplo, que era naquele corda de aço normal, sem ser esse aço liso, flatwound, que é uma
camada de níquel lisa por cima, tem uma sonoridade muito diferente também... Tudo que você
pegar com o Jacob do Bandolim, ou década de 50 e 60, especialmente segunda metade da
década de 50, que ele já estava gravando direto com 7 cordas, você vê que tem um som bem
diferente do que foi se tornando depois... Tem umas gravações mais novas também, mas aí eu
já percebo que tem um pouco mais de maquiagem no som, mais compressão, mais grave, mais...
uma coisa um pouquinho mais artificial, mas que é bonita também. Eu acho que... o interessante
é observar a mudança de som ao longo dos anos também, sabe?
Luiz Sebastião - Obrigado por contribuir [...], mas eu tenho mais uma pergunta pra ti [...],
dando continuidade. João, conversando com o Luís Felipe de Lima, nosso outro professor,
mestre do violão 7 cordas também, que fez aula com o Dino, ele levantou uma questão de que
o violão do Dino, claro, foi algumas vezes pra reforma, conserto do luthier, e a última memória
que ele tem é que a escala era de ébano. Mas aí eu acho que pode ter sido isso, cê pode ter pego
o violão já com outra escala, e ele lembra do violão com uma escala de ébano. Falou até que
tava bem fundo os primeiros trastes, de tanto o Dino tocar... Isso é uma característica, um fato,
de repente, claro, uma mudança daquela, o luthier pegou “ah, não tenho o ébano, vai o
jacarandará”... E outra coisa que eu ia te perguntar, pra tentar fazer esse bate-bola com o Luís
Felipe é que o Luís Felipe fala que o som... como você citou os Quatro [Grandes] do Samba...
que ele cita a música Sim, do 74 do Cartola, que fala que ali, pra ele, pro Luís Felipe de Lima o
som tá mais fiel ali naquela gravação do Cartola 74, o samba-canção Sim... O que que tu fala
pra gente dessas duas questões. Obrigado, João.
João Camarero – Olha, quando eu peguei o violão, ele tava assim com essa escala superfunda
já, bem usada, e eu acredito que a escala não tenha sido trocada... Acho que pode ter havido
uma troca de trastes, essas coisas, mas pra ela tá com aquele buraco pelo menos nos últimos,
muitos anos, ela não tinha sido trocada, e pode ser que eu esteja equivocado, que seja ébano,
mas eu me lembro que não era ébano, que era jacarandá, posso tá enganado... Acho que a gente
tem que falar com o atual proprietário do violão para tirar essa dúvida... mas é isso, pode ser
que eu esteja errado. Sobre o som das gravações do Cartola, eu gosto daquele som, acho que é
super-representativo. Mas ali... E aí é questão de opinião, quem sou eu pra falar alguma coisa
contra o Luís Felipe, não é isso, não, contra no sentido de opinião. Como é uma questão de
opinião, eu acho que a minha opinião é um pouco divergente da dele nesse sentido. E eu respeito
muito a dele, porque Luís é mestre, mas ali eu acho que tem uma coisa do som tá muito... ter
93
uma característica muito específica da gravação, mais do que do violão em si. Claro que dá pra
sacar muito o som do violão ali, mas essas gravações são supermédias. O violão dele tinha um
médio, sim, e tal, mas ele tinha muito mais corpo do que aquilo que a gente ouve nesse disco.
Aliás, se você parar pra prestar atenção, mesmo no LP, a região grave do violão não soa com o
peso de grave que o violão tinha; ela soa bem mais média anasalada, que esse violão também
tinha... ele tinha esse som mais ardido pro médio, mas ele era mais equilibrado do que isso...
Então, se você pega o violão e toca, ele tem um som mais redondo do que aquilo que tá nessas
gravações desse disco. Esse disco, como eu disse, o disco todo, o som dele é bem mais médio.
Se você... mesmo numa qualidade do LP, que você coloque lá e tal, você vai ver que ele tem
um som, você pega pelo pandeiro, pelos instrumentos de percussão. Não é uma coisa exclusiva
do violão. Então essa é minha opinião, claro que é super-representativo e tal, mas eu não...
minha opinião é que não é o som mais absolutamente fiel do violão, não. De novo, reforço que
isso é impressão e opinião, e que você tá me pedindo para falar sobre gravações que reflitam
um som fiel do instrumento acústico, do instrumento que você ouve ele sem tá gravado. Por
isso que eu tô falando isso, mas eu gosto muito dessas gravações e de muitas outras que têm
um som mais médio também; não é sobre não gostar. Como você me fez uma pergunta
específica sobre qual gravação reflete mais o som do violão, naturalmente, eu tô te falando
minha opinião.
Luiz Sebastião - Maravilha, João. Obrigado. Entendi tudo que você falou [...]. Tranquilo.
Obrigado mais uma vez.
94
Luís Felipe de Lima - O Dino, que é de 1918, nasceu ali no Santo Cristo, no pé do Morro do
Pinto, tomou contato com a música por meio da família. O pai era músico amador, tocava
violão, mas enfim, todo mundo tocava violão e mais alguns instrumentos... O Dino começou
com um bandolim, um cavaquinho, mas logo passou pro violão, e eles frequentavam muito as
rodas de choro e as rodas de samba que aconteciam no Morro do Pinto, nos arredores também...
E nisso o Dino foi mostrando um talento musical realmente muito forte, mas ele trabalhava,
ainda adolescente, numa fábrica de sapatos que existia no bairro, lá no Santo Cristo. E de vez
em quando ele tocava, não só nessas rodas, em casa de família, mas ele já tava começando a
defender um “cachezinho”, pequeno, ou outro, tocando em vários lugares, mas principalmente
em circo, espetáculos de circo, que eram muito comuns naquele tempo. Então, ele passa a se
apresentar com o Augusto Calheiros, ao violão, acompanhando o Augusto Calheiros, que era
um cantor nordestino, recém-chegado ao Rio, jovem também, que fazia de vez em quando uma
coisa ou outra... E lá ia o Dino já acompanhando o Augusto Calheiros... Ele também começou
a tocar em circo, com o Moreira da Silva – isso é uma coisa que pouca gente sabe, mas tem
registros, vários testemunhos de que o próprio Dino contava isso, que ele ia também em circo
se apresentar com o Moreira da Silva, muito ainda antes dessa história de samba de breque, e o
Moreira tinha mais ou menos a idade dele. Depois tem a história de como ele foi tocar com o
Regional do Benedito Lacerda, em 1937 — ele tinha 19 anos. A primeira história: ele era fã do
Benedito, do Regional do Benedito, então ele ficava ouvindo no rádio o repertório do Benedito,
às vezes tinha acesso a alguns discos também, e ele frequentava os programas de rádio muitas
vezes, que eram ao vivo, sempre... Os programas de rádio abriam para auditórios. O pessoal
gravava na frente de um pequeno auditório dentro da rádio. E o Dino começou também a
frequentar esses programas de música com auditório em que o Benedito Lacerda tocava. Então
já conhecia bastante o repertório do Benedito Lacerda. O Canhoto do Cavaquinho, mais velho
que ele, era vizinho no Santo Cristo. E uma vez o Canhoto falou “Ó eu sei que você é fã do
Benedito... vai ter uma festa na Casa Dragão...”. Casa Dragão era uma grande loja de
departamentos na época... como se fosse, sei lá, uma C&A hoje, ou até mais do que isso, porque
tinha umas coisas meio de luxo, e a Casa Dragão todo ano, na época do seu aniversário,
contratava um show de gente famosa. Então teve um ano que foi Noel Rosa, tem outras histórias
aí no meio, e naquele ano era o Regional do Benedito que ia se apresentar na festa da Casa
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Dragão, que também não era longe ali do Santo Cristo, ficava na Marechal Floriano, antiga Rua
Larga, aqui no Rio de Janeiro. E aí o Canhoto falou “Ó eu sei que você gosta do Benedito, vai
lá, vai lá pra assistir, você fica num lugarzinho ali, perto da gente, perto dos músicos...”. E assim
foi. O Dino chegou lá e ficou assistindo ao show do Benedito Lacerda e Regional durante a
festa. Quando terminou a função, o Canhoto foi lá apresentar o Dino: “Benedito, esse aqui é o
Dino, meu vizinho, garoto lá do Santo Cristo, e ele é violonista, ele é muito bom, ele conhece
seu repertório todo, ele é muito seu fã...” Aí o Benedito resolveu experimentar o Dino, porque
um dos violões lá do grupo tava de bobeira e ele falou “Vem pra esse canto aqui, me acompanha
aí, pra eu ver se você sabe mesmo as minhas coisas..”. Aí acompanhou, tocou uma primeira
música — isso é o Dino contando sempre... Então, o Dino disse.. Ele tocou uma primeira
música fácil, tranquila: “Eu fui lá, toquei, acompanhei do jeito que eu sabia, ele gostou... Aí ele
pediu pra tocar uma outra, que já era mais difícil, já tinha aquelas pegadinhas de harmonia,
menos corriqueira, algumas convenções, algumas obrigações...” Aí o Dino gabaritou. Nisso, o
Benedito tocou uma terceira daquelas assim impossíveis, do fundo do baú, cheio de encrenca,
e o Dino foi lá também e gabaritou todas. Aí o Benedito ficou muito bem impressionado. O
Canhoto tava assistindo a toda essa performance dos dois e, enfim, o Dino saiu de lá muito
feliz, tinha podido tocar com a referência dele, que era o Benedito Lacerda. Nisso passam-se
uns poucos meses, o Ney Orestes, que era um dos violonistas do Benedito, fica doente. Tem até
toda uma história de como ele fica doente, que é numa turnê pelo Uruguai, Argentina... Ele faz
uma aposta que ele ia tomar banho frio... Aí ele ganha a aposta, mas, ao mesmo tempo, ele fica
tuberculoso, enfim, volta pro Rio doente. Ele fica tuberculoso... Era uma doença que matava
com muita facilidade naquela época, não tinha penicilina ainda... E nisso o Ney Orestes foi
internado, e eles precisavam de um violonista, de um primeiro violonista, pra tocar junto com
o Carlos Lentini, que era o outro violão. E aquele Regional todo superensaiado, era difícil,
mesmo entre os violinistas profissionais, conseguir um substituto que se encaixasse, que já
conhecesse aquela linguagem toda. Nisso entra o Canhoto e fala “Ô Benedito, lembra do Dino,
aquele rapaz, que é meu vizinho? Pô, ele tocou tudo, ele sabe tudo, você viu que ele sabe todo
o seu repertório, as coisas todas mais difíceis, mais encrencadas ele também sabe, você não
quer dar uma chance pra ele? Aí falou “É, chama aí e tal...” E ele fez mais um teste... e nisso o
Benedito gostou dele, fez um contrato de boca, um contrato provisório... [inaudível] “Ó, o Ney
Arestes, quando ele melhorar, o lugar é dele, você substitui enquanto der. Nisso, mesmo com
esse contrato provisório, o Dino saiu da fábrica de sapatos onde ele trabalhava — e ele contava
isso de uma maneira muito emocionada, sempre, que ele chegou pro pai, que era um velho
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funcionário do Lloyd Brasileiro, o pai era fuzileiro, trabalhava com negócio de navio, e era uma
família muito humilde, tinham muitos irmãos... E aí o Dino disse “Ó pai, a partir de hoje, eu
vou começar a trabalhar com música mesmo, lá, o Benedito Lacerda tá me dando uma chance,
não sei o que que vai acontecer, mas eu já tô aqui encaminhado, o senhor nunca mais vai
precisar trabalhar. Eu ajudo a sustentar o senhor, minha mãe, nossa família, meus irmãos, tudo
certo”. E assim aconteceu... o Dino, com esse contrato provisório do Benedito, ganhava cinco
vezes mais do que ele ganhava na fábrica de sapatos e nessa o Dino foi seguindo em frente, e o
Ney Arestes acabou falecendo... Então o Dino foi efetivado, teve carteira de trabalho assinada
— que na época era muito comum assinar carteira de trabalho de músico. E aí começou... Aí o
salário ainda triplicou, o salário que já era mais alto que na fábrica de sapatos triplicou quando
ele foi efetivado, e ele começou a vida dele ali, isso foi em 1937. De lá pra cá, ele começou a
tocar com o Benedito, que depois virou Regional do Canhoto, quando o Benedito se aposentou,
se retirou da cena musical, isso na década de 40 ainda, final da década de 40... mas ele também
passa a tocar — que isso era uma coisa muito comum — em vários outros grupos, mas sempre
com pseudônimo, sem dizer o nome, porque feriria o contrato que ele tinha com o Benedito
num primeiro momento e depois com o Regional do Canhoto, num segundo momento. Mas
todo mundo fazia isso. Então ele também participou ativamente de gravações com cantores,
solistas, mas sem crédito, sem figurar como Regional do Canhoto, você sabia que dos anos,
enfim... Regional do Canhoto era o Dino, Regional do Benedito Lacerda era o Dino também.
Mas era tudo, a gente se lembra sempre, era tudo com violão de 6. Ele tocava violão de 6 de
uma maneira também muito peculiar. Ele tinha uma levada que era muito característica, que
depois ele abandonou quando ele passou a tocar 7 cordas, que era uma levada muito como se
fosse meio ressaltando as células do tamborim, como se fosse um violão tamborim de uma certa
forma. A gente consegue ouvir isso em algumas gravações antigas, ao mesmo tempo ele já tinha
habilidade, o domínio da linguagem das baixarias, mas ele ainda se comportava muito mais
como um violão de 6, fazendo centro e fazendo as baixarias quando eram baixarias de
obrigação, então, pequenas conduções. E ele ao mesmo tempo era um admirador do Tute, que
foi o primeiro grande violonista de 7 cordas brasileiro, ao lado do China, que era irmão do
Pixinguinha. O China e o Tute eram da mesma turma, eram amigos e tal... A diferença é que o
China morreu cedo, Tute morreu em 1951. Então, o China morreu ainda nos anos 30, por aí,
36, se eu não me engano... Mas quem se destacava mesmo como violonista tocando 7 cordas
era o Tute, era o único profissional mesmo reconhecido como cara que toca um violão diferente,
que tem um bordão a mais. E o Dino admirava muito o Tute. Acontece que o Dino, uma vez,
ele estava num corredor aí de emissora de rádio, aquela coisa, papeando com os outros músicos,
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daqui a pouco vem o Tute, que era um cara mais velho, que realmente tinha muita consideração,
muita admiração pelo Tute. E o Tute falou “Vocês viram ontem na emissora tal, no programa
tal, deve ser um desses pseudônimos, ou então não sei, deve ser um violonista novo, um cara
tocando um violão que parecia um tamborim, é muito esquisito, acho muito esquisito esse
negócio, o cara tocando um violão, muita nota no acompanhamento”. E era o Dino, era o próprio
Dino que tava tocando nessas circunstâncias de não poder assinar, não poder aparecer o nome
dele verdadeiro. Então botou um outro nome ali no grupo que ele tava tocando, [inaudível]...
tava todo mundo tocando com um pseudônimo, e o Dino ficou, assim, até um pouco
envergonhado, ele contava “Caramba, que era meu ídolo, e falando mal do violão que eu estava
tocando, mas eu não falei nada e tal, e passei a respeitar ele ainda mais, o Tute...” E aí, quando
o Tute morreu em 1951, foi então que ele encomendou, resolveu encomendar um violão de 7
cordas pro Silvestre, pro luthier Silvestre, da Casa O Bandolim de Ouro. Isso foi dito pelo
próprio Dino várias vezes. Ele resolveu esperar que o Tute saísse de cena, se aposentasse ou
mesmo morresse, como aconteceu, para ele poder então tocar o violão de 7 cordas, porque ele
gostava, achava legal e tal, mas ele também achava que ia ser um desrespeito se ele começasse
a tocar violão de 7 diante do Tute, que era o único profissional, respeitado, reconhecido e tal.
Daí então dito e feito. O Dino encomendou um violão pro Silvestre, o violão ficou pronto, e ele
contava que ele ficou quase um ano estudando em casa aquele violão com a 7.ª corda, pra
entender as frases, como é que chegava lá, como é que usava, como é que se adaptava à
mecânica daquele instrumento com uma corda a mais... Também pesquisando acordes, que
acordes ele ia montar a partir da 7.ª corda... Quando ele entra tocando nas primeiras gravações,
nas primeiras participações do programa de rádio ao vivo, já “Caramba, que violão é esse?”,
porque ele vem tocando de uma maneira diferente, usando muito mais as frases de baixo... que
muita coisa também veio da época do Pixinguinha, quando o Pixinguinha começou a tocar com
o Benedito Lacerda, no Regional do Benedito... tocava sax tenor. Embora o Dino tenha dito
isso em algumas entrevistas, ele pessoalmente, às vezes, ele abandonava essa linha de
raciocínio. Ele não dizia que a importânciado..., que ele copiou frases do sax tenor do
Pixinguinha. Isso não é verdade. Se a gente for olhar, analisar, tem muito pouca coisa, a não ser
uma ou outra obrigação dos choros do Pixinguinha, que o Pixinguinha fazia no sax, com uma
ou outra obrigação ele copiou, porque também eram obrigações que ele podia fazer no violão
no lugar do sax tenor. Mas essa fraseologia dos baixos do 7 cordas do Dino, que depois
passaram a ser reproduzidas por todo mundo, são na verdade uma elaboração do próprio Dino
a partir da linguagem das baixarias dos violões de 6, do trabalho dos dois violões, ou às vezes
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três violões dos Regionais. Muito antes do Dino tocar 7 cordas – e isso não édifícil de observar
em várias gravações (você tem, por exemplo, você vê que aquele disco do Noel Rosa cantando,
que saiu pelo Eldorado, são gravações, enfim, Noel vivo ainda, antes de 1937. Então era o
Lentini e o Ney Orestes tocando... Eles fazem coisas muito sofisticadas, não é só aquele padrão
de semicolcheia, que você cai no tempo forte do compasso [...]. Não é só isso... Eles fazem
quiáltera, eles têm motivos sincopados na apresentação das frases, das baixarias... Então, o Dino
vem daí. Ele já pegou uma escola de baixarias que também era muito virtuosística num certo
sentido, mas ele, com a sensibilidade dele, ele também foi criando, remodelando essa
fraseologia... Dino também, a gente sabe, é um músico muito... que tem o gosto pela concisão...
Então ele realmente não derramava notas toda hora, ele fazia muita condução nos baixos e
aplicava frases de efeito que aí, sim, podiam ter muitas notas... Ele começou a fazer frases em
cima de acordes alterados, tem frases de tons inteiros, como na obrigação que ele criou do
Ingênuo, do Pixinguinha, gravado pelo Jacob... Tem muita coisa ali diferente, muitos clichês
que ele vai criando, que são dele, mas que não tem a ver, embora ele tenha tido isso em... Eu
não tive tempo de perguntar pra ele se essas entrevistas que ele deu dizendo que “Ah, tinha a
ver com o Pixinguinha...”. Às vezes o entrevistador pergunta e é mais fácil pro entrevistado
dizer simplesmente que sim... Tem uma pressão, uma pequena pressão por parte do
entrevistador. Então às vezes tem mesmo um desejo do entrevistador de ver a sua teoria
confirmada. Então ele pergunta “Ah, isso foi assim, assim, assim, não foi?”. O entrevistado às
vezes por várias razões pode muitas vezes concordar, é mais fácil do que realmente descontruir
o raciocínio da pergunta e apresentar as coisas como de fato eram, pra quem foi entrevistado.
Mas nisso surge o Jacob também, ainda antes de ser criado, fundado o conjunto Época de Ouro
com esse nome, o Dino já tocava com o Jacob esporadicamente... em poucas apresentações, ao
vivo, em rádio também, em disco também, mas quando ele fundou o Época de Ouro
propriamente, ele fez questão de ter o Dino e ainda negociou com o Canhoto - que Dino fazia
parte do Regional do Canhoto. Então ele foi dando prioridade ao Regional do Canhoto sempre,
porque ele já tava no Regional do Canhoto desde que era o Regional do Benedito de Lacerda,
então ele já estava há décadas ali, mas falou “Olha, ô Jacob, eu conversei com o Canhoto,
quando eu não tiver nada lá, eu vou tocar com você, eu posso fazer parte nessas condições do
Época de Ouro”. Depois o Época de Ouro foi tocando mais, ele foi chegando mais junto, cada
vez mais junto... E assim foi. Depois passou a ser um músico já quando a fase dos Regionais,
esses Regionais importantes, essa fase de ouro já tinha passado, e ele continuou a ser um dos
músicos mais requisitados nas gravações de choro e principalmente nas gravações de samba.
Então passou a tocar com todo mundo, Bete Carvalho, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara. Dona
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Ivone Lara também tocava lá com o Losada. Ah, meu Deus, esqueci o primeiro nome, um ótimo
violonista que também morreu cedo... O Roberto Ribeiro também tocava com o Valdir 7 cordas,
Valdir Silva, mas o Dino era o cara que tocava com todo mundo, as gravações todas, da Clara
Nunes, enfim... um monte de Nelson Gonçalves, cantores veteranos naquele tempo, isso tô
falando de anos 60 para 70 e 80, quando... ele ainda grava bastante nos anos 80, então essa de
uma maneira geral é a trajetória profissional do Dino. Vale só lembrar que teve uma época que
foi quando começou a fazer sucesso o Iê Iê Iê, isso em meados dos anos 60, houve uma retração
muito grande no trabalho com choro e com samba tradicional. Então muitos músicos ficaram
assim... o Iê Iê Iê foi uma espécie de, muito mal comparando, de Covid ou de uma grande
pandemia que foi tirando o trabalho dos músicos que lidavam com samba e com choro. Então
o Dino ficou... o Dino sempre trabalhou muito, muito, muito, muito... começou a ficar sem
trabalho, que nem todo mundo, e foi um amigo dele, o cantor Paulo Barcelos, que emprestou
uma guitarra elétrica... Paulo Barcelos era cantor e dono de uma banda de baile, líder de uma
banda de baile, e aí emprestou uma guitarra pro Dino ficar tocando com ele nessa banda de
baile, que tocava Iê Iê Iê, tocava meio de tudo e tal. Então durante um ano, um ano e pouco o
Dino conseguiu pagar as contas dele tocando guitarra, mas depois nunca mais voltou, nem
gostava muito de falar nesse assunto.