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Casamento Arranjado e Descontentamento

A princesa Sienna se vê forçada a se casar com Martin Abulquerque, um homem que não ama e mal conhece, enquanto lida com a pressão de sua mãe e as expectativas da corte. Durante um jantar, ela tenta descobrir mais sobre seu noivo, que parece esconder segredos, e planeja investigar sua verdadeira identidade. Sienna se sente presa em um casamento arranjado, lutando contra a rigidez das tradições familiares e suas próprias emoções.

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Casamento Arranjado e Descontentamento

A princesa Sienna se vê forçada a se casar com Martin Abulquerque, um homem que não ama e mal conhece, enquanto lida com a pressão de sua mãe e as expectativas da corte. Durante um jantar, ela tenta descobrir mais sobre seu noivo, que parece esconder segredos, e planeja investigar sua verdadeira identidade. Sienna se sente presa em um casamento arranjado, lutando contra a rigidez das tradições familiares e suas próprias emoções.

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1 CAPITULO

O ABELHUDO SR. ABULQUERQUE

Sabia que esse fatídico dia iria chegar, mas havia um fio de esperança restante em mim
que me dizia que conseguiria me livrar dessa sina. “Sentada ao lado do homem que
vou me casar” uma frase que seria romântica se o tal homem não fosse um senhor que
não conheço e que não amo. Odeio a forma que suas mãos suadas estão segurando as
minhas, tudo isso em frente de uma grande plateia, me sinto como uma atração de
circo.

Minha mãe faz um discurso longo e mentiroso, me pergunto se alguma alma viva na
plateia acredita nas palavras que diz.

Eles aplaudem e gritam. Acho que acreditam.

_logo quem governará e regerá nosso povo será minha filha, princesa Sienna e seu
noivo Martin, eles reinarão com sabedoria e dividirão com vocês o amor que
compartilham um com o outro! _diz sorrindo, ela é tão sínica, penso

Já deve estar acabando, penso, mas no mesmo segundo a rainha chama meu noivo
para discursar. Ele se levanta exibindo um sorriso convencido, e anda em passos leves
até o púlpito.

_obrigado majestade, povo de Adarlan, primeiramente gostaria de agradecer por vocês


me acolherem e permitirem que eu case com a sua princesa, ou melhor, a nossa
princesa _de repente todos os olhares recaem sobre mim, e me vejo na obrigação de
sorrir para toda minha plateia_ podem ter certeza de que cuidarei muito bem dela,
assim como de vocês! Espero ser o mais incrível rei e marido que nosso reino já viu
_ele volta ao seu lugar e assenta sua mão incrivelmente macia (porém suada) em
minha perna, estremeço. Tem como isso piorar.

Eu literalmente conheci meu futuro marido a duas semanas, consigo contar nos dedos
quantas palavras já trocamos, mesmo assim consigo odiá-lo com todas as minhas
forças.

***

Apesar de já estar no meu quarto, ainda sinto o toque terrível do sr. Abulquerque por
todo meu corpo, mas como se não fosse o suficiente ainda terei de atura-lo durante o
jantar, aturar seus toques, a forma que cochicha com meus pais como se escondesse
algo, seu sorriso falso e sua risada forçada. Meus pensamentos são interrompidos pela
dama de companhia feérica de minha mãe.
_ alteza, vossa majestade pediu que eu te passasse a mensagem a seguir “filha,
arrume-se, e vista seu vestido verde de babados, hoje é um dia especial e tem que
estar bonita para seu marido”

_diga a ela que já estou indo tomar uma ducha para me arrumar, por favor Janet _
sorri.

_ claro, alteza! _ retribuiu meu sorriso com outro, revelando covinhas.

Janet sempre cuida de mim já que não tenho uma dama de companhia, gosto dela, ela
é gentil.

Assim que fico sozinha novamente, vou até a banheira, onde provavelmente há um
banho preparado para mim, sento na água fumegante de cor leitosa, desfaço o
penteado elaborado que Janet fez mais cedo, só assim reparo o quão seco está o meu
cabelo, o mergulho na água e esfrego com xampu, molhados eles me lembram os
cabelos de minha mãe, ruivo escuro.

O terminar, me enrolo em uma toalha branca, e caminho até meu quarto onde visto o
vestido que minha mãe sugeriu, me olho no espelho e “odiei” não gosto desse vestido,
então visto um azul de tecido leve, com flores bordadas em dourado, uso um salto
branco delicado, e por um momento esqueço por que ou melhor para quem, estou me
arrumando. Alguns minutos depois Janet bate na porta.

_pode entrar!

_ alteza vim arrumar seu cabelo _ meu cabelo seco volta ao seu tom normal, ruivo
médio, nem tão escuro como os de minha mãe, nem tão claro ao ponto de parecer
loiro.

Me sento em frente à minha penteadeira, Janet penteia meus fios suavemente.

_está ansiosa querida? _a mulher de estatura baixa sorri

_para o que? _ digo enquanto meu cabelo é enrolado e trançado.

_para jantar com o sr. Albulquerque? _seus dedos longos roçam meu coro cabeludo.

_para ser sincera, não! _eu ri sem graça

_ não o ama não é, alteza? _ deslizou os dedos finos e pálidos pela minha cabeça.

_como sabe? _dei um sobressalto.

_querida, te conheço desde que nasceu, ouso dizer que te conheço melhor do que
ninguém, sei como fica quando está apaixonada! _ disse ela doce, me encarando no
espelho.
Assim que meu penteado fica pronto, sinto minha cabeça pender para traz com o peso
do cabelo e dos milhares de grampos.

O jantar começa as vinte horas, olho no relógio e já são 19:40.

_só tenho mais vinte minutos de liberdade _digo em meus pensamentos.

Diante do tempo que me resta, sento-me no parapeito da janela e olho para paisagem,
“posso passar esses vinte minutos aqui”.

Dali a pouco vejo uma carruagem, sem dúvidas mais chique que já vi em toda minha
vida, se aproximando, quem sai dela é o abelhudo do sr. Albulquerque. Tenho minhas
dúvidas a respeito dele, como: na primeira vez que nos vimos ele disse que não era da
realeza, nem de família nobre, mas, se ele não é rico, como tem uma carruagem dessa?
E além do mais sei que os ultrapassados dos meus pais, jamais arranjariam um
casamento para mim com um homem que não é rico.

É hoje que eu acabo com essa história fajuta, tenho certeza que é tudo mentira, nada
faz sentido.

Desço as escadas desejando que eu tropece em um obstáculo imaginário, e me


espatife no chão de modo que sofra alguma fratura grave que me impeça de jantar
com meu noivo (pensar que tenho um noivo ainda me enjoa).

Ao chegar na sala de jantar noto que todos estavam a minha espera, a comida estava
posta a mesa, mas ninguém sequer tocara nela.

_não precisavam me esperar, comam por favor! _faço uma reverencia torta.

_e não íamos, porém, seu futuro marido solicitou que esperancemos. _tenho que falar
com meus pais de forma extremamente culta, não me parece certo falar com eles de
outra forma.

_de qualquer maneira agradeço a espera_ sento-me em frente ao sr. Abulquerque, ele
me lança um olhar indecifrável.

_vamos comer! _disse meu pai

Odeio o clima de jantares em família, é tudo tão rígido, e bom a presença do


presunçoso sr. Abulquerque, não ajuda em nada. Quando tinha oito anos, lembro-me
de certa vez fingir vomitar para fugir de um jantar, enchi minha boca de comida e suco
discretamente, e cuspi no chão, meus pais acreditaram de início, mas quando tentei
fazer de novo eles perceberam, fiquei de castigo por um bom tempo, nunca vou me
esquecer do que meu pai disse aquele dia:

_ como pode mentir para sua família? Como pode dizer tão abertamente que o motivo
era porque odeia jantar conosco? Se acha que somos ruins com você é por que não
sabe como seus avos nos tratavam, tenha o mínimo de respeito com seus pais! Agora
sente na mesa e não ouse dizer uma palavra.

As vezes ele é bem severo.

A comida estava ótima, ao contrário de todo o resto.

Fomos nos sentar na sala de estar, meu “queridíssimo” noivo se sentou ao meu lado.

_ sr. Abulquerque, já tem planos para o governo de nosso povo? _ minha mãe diz, meu
pai não costuma a falar pouco perto dela, pois o casamento deles foi arranjado, e esse
tipo de união tem certas regras, chamam-se “regras nupciais posicionadas ao noivo(a)”
mas acho que deveriam ser chamadas de “regras absurdas que nenhum ser vivo deve
seguir”, nessa baboseira existe o seguinte regulamento.

Artigo 1.2 coluna *A designada noiva deve seguir as ordens a quem está sendo
entregue.

No casamento arranjado há dois indivíduos:

1. A pessoa que está sendo entregue pelos pais, nesse caso meu pai, lembrando
que pode ser a mulher também.

2. A pessoa que “ganhou” a mão do cônjuge, normalmente o mais velho, esse


indivíduo que vai dar ordens.

Claro que tem suas exceções já que os casamentos arranjados de agora não usam esse
sistema ultrapassado, entretanto é mais do que obvio que meus pais estão usando esse
essa asneira no meu casamento.

Minutos se passam, e de repente minha mãe lança um olhar severo para mim, fico
confusa, observo minha postura, minha forma de fingir interesse, se estou respirando
alto, “o que está a incomodando?”.

_filha, vamos buscar algumas bebidas para os cavalheiros? _ eu só concordo. Assim


como meu pai, tenho medo de minha mãe.

Andamos lado a lado até a cozinha, minha postura parece ridiculamente torta perto da
de minha mãe, ela é tão delicada e branda, pelo menos é o que tenta aparentar,
quando eu era menor queria ser como ela, no momento tudo que não quero é ser
como ela, é claro que se minha postura parecesse um pouco mais reta minha
autoestima subiria pelo menos uns quarenta porcento! Todavia quando digo que não
quero ser como ela, é no quesito personalidade.

Entramos na adega, meu nariz coça por conta de toda poeira acumulada. Minha mãe
vira para mim e pigarreia:
_ que vestido é esse, Sienna Joel Legrand? _ meu nome inteiro, porque ela está tão
brava? _não te pedi para colocar o outro?

_pediu, mas... _tenho que pensar em uma desculpa rápido, ela não irá aceitar a
verdade do porque não vesti o vestido que ela queria, tenho certeza de que se eu
disser “não vesti porque acho aquele vestido horrível” ela viraria um tapa em meu
rosto _ele está apertado.

_ trate de emagrecer, ora _ porque ela quer tanto que eu use esse vestido tosco?

_ se me permite a pergunta, porque quer tanto que eu use esse vestido?

_ porque foi seu marido que te presenteou com ele! _ ela posicionou a mão na testa,
massageando as têmporas. Faz sentido, aquela roupa apareceu de repente dentro do
meu armário, bom agora que sei que foi o maçante sr. Abulquerque quem me deu.

_ ah, eu não sabia _ não fazia a menor ideia do que responder.

_ bom, agora pegue as taças de vinho na cozinha! _ ela ordenou.

Peguei as taças e levei até a sala, onde me sentei.

Eu me sentia deslocada, eles conversavam sobre terras, dinheiro e reclamavam de


feéricos, dizendo como eles são abomináveis e criaturas selvagens. Foi quando resolvi
colocar meu plano de extrair informações do mentiroso sr. Abulquerque em ação:

_sr. Abulquerque, em nosso primeiro encontro o senhor disse que não era rico nem da
realeza, mas vi que chegou em uma carruagem super sofisticada, como? _ meus pais
não pareceram nem um pouco felizes com minha pergunta.

_ oh meu amor... seus pais me enviaram aquela carruagem para que eu viesse. _ ele
não parecia nem um pouco nervoso, porem a informação não parecia real, meus pais
não tem nenhuma carruagem como aquela.

_estou curiosa, como você conheceu meus pais? _ tinha que tirar alguma informação
dele, algum desencontro na história.

_deixe de ser enxerida Sienna! _ minha mãe exclamou.

_pode deixar majestade, ela é apenas uma jovem curiosa _claramente ele também não
gostou da pergunta _ nos conhecemos quando seus pais viajaram para Draconia, lá nos
encontramos em um baile dos governantes do reino, eu era assistente real do rei, eu
sou como um irmão para ele, e bom parece que ele falou muito bem de mim para seus
pais, ao ponto de eles quererem me casar com você! _ele segurou minhas mãos e as
beijou, “tire esses lábios mentirosos de mim!” era o que eu tinha vontade de dizer,
invés disso abri minha boca para fazer mais uma pergunta:
_só mais uma pergun... _ fui interrompida por minha mãe.

_chega, Sienna! Damas não devem ser tão inconvenientes! _ ela quer agarrar meu
pescoço, tenho certeza.

_ sim, senhora_ de qualquer forma me calo, não quero ter minha cabeça arrancada por
minha mãe, seria trágico.

CAPITULO 2:

ADMIRAÇÃO

Peguei uma folha de papel, caneta e nanquim, os coloquei com cuidado sobre minha
penteadeira. Já deve beirar uma da manhã, mas não consigo dormir, pois minha mente
está inquieta, só consigo pensar no sr. Enfatuado, mais conhecido como meu noivo, no
entanto não penso nele de forma romântica, acho que jamais pensarei nele dessa
forma, penso no quanto ele é duvidoso. Ele aparece de repente em minha vida com
aquele sorriso presunçoso, cabelos pretos, aos poucos se tornando cinza, com cheiro
de charuto e uísque, e espera que eu o ame...ele é mesmo muito convencido.

Se eu disser a alguém que acho meu futuro marido é contestável, irão dizer que sou
maluca, já que nem o conheço e não há provas que comprovem o que digo, e
realmente não há motivos para eu não confiar nele. Ele não fez nada que o torne
suspeito, mas o que sinto quando estou perto dele que me faz desacreditar de suas
palavras.

Seguro a caneta com punho firme. “é hora de planejar!” penso. Não paro de pensar em
como desmascarar o sr. Albulquerque, por isso vou colocar no papel.

O que sei até agora:

Nome: Martin Albulquerque

Cargo: braço direito do rei de Oliázio, no entanto não é da realeza nem elite.

Idade:

Não sei a idade dele. Sei que quando nos encontramos pela primeira, ele me informou
sua idade, mas não prestei atenção, ou melhor não conseguia prestar atenção, eu
estava em choque, o que é plausível já que tinha acabado de descobrir que iria me
casar com meus plenos dezenove anos. Era uma linda quinta feira ensolarada, mas o
céu se fechou para mim quando soube que o homem de cara carrancuda, parado na
porta de minha casa, seria meu marido.
Vou deixar a idade dele em branco.

Como conheceu meus pais: em uma viagem até o reino de Draconia.

Acredito que não sei mais nada sobre ele, isso é bem decepcionante.

De início planejava investigar sozinha, mas tenho a impressão que me falta capacidade
para fazer isso sem que meus pais descubram. Odeio ter que trabalhar com alguém,
mas, será necessário.

Contratar um detetive não vai ser uma tarefa fácil, se meus pais apoiassem a
investigação, poderia chamar o detetive marcos, o detetive de confiança da família,
mas mesmo sem perguntar se apoiam, já sei que a resposta é não. Logo, vou ter que
contratar sozinha.

Detetive encarreg

Ouço a porta branca de meu quarto ranger, tem alguém entrando. Pego um livro
qualquer em mesa para cobrir minha escrita. Minha caneta traiçoeira, cai no chão,
causando um barulho muito mais alto do que eu imaginava que uma caneta faria, ela
esparrama tinta nanquim preta por todo chão de madeira.

Minha mãe entra sem aviso prévio, torço para que ela não veja a enorme mancha preta
no chão. É estranho o fato dela estar acordada a essa hora, normalmente ela se deita
em plenas nove da noite, algo deve a estar incomodando, espero que não seja eu. Fico
impressionada por sua elegância até mesmo quando está prestes a se deitar, acho que
o pijama dela ajuda muito neste aspecto, já que ele não é nada modesto, cheio de
rendas e feito de seda na cor roxa.

_querida, o que faz de pé a esta hora da noite?

_estou lendo, fiquei sem sono e resolvi ler _ a mentira deixa um sabor amargo na boca.

_deite-se filha, do contrário ficará com olheiras fundas como as de seu pai! _Movo-me
lentamente mais para trás na tentativa de esconder o nanquim.

_está bem, mas vá dormir também mãe. _Ela mante o olhar firme em mim, eu disse
algo errado? Eu estou tensa e ela cansada, eu me sinto tensa pois estou escondendo
informações sobre minha investigação, mas ela... porque ela está tão cansada?

_ boa noite. _ ela diz, enquanto sai do quarto devagar, sinto minha musculatura relaxar,
normalmente fico meio sem ar perto de minha mãe, mas, dessa vez parecia que estava
com uma corda da garganta e qualquer deslize me enforcaria.

Ela tem razão, acho que é melhor eu dormir. Levanto da cadeira, e olho para a poça de
tinta preta, “cuido disso amanhã.” Digo em pensamento. Abro meu armário e pego
meu pijama favorito, de tecido listrado na cor rosa, tiro meu sapato, o vestido e o
espartilho, só deus e as mulheres sabem o quão bom é tirar o espartilho! Visto a roupa,
e me jogo na cama, me escondendo no edredom florido, ele tem cheiro cítrico do
sabão que usam para lava-lo, amo o cheiro de edredom limpo, assim como o de chuva,
livros, pudim com calda de caramelo e lírios.

*****

Acordo com um feixe de luz em meu rosto. Muitas pessoas dizem não gostar de
acordar cedo e outras não gostam de acordar tarde, mas, suspeito que eu odeio
acordar, independente do horário.

Choramingo, resmungo e reclamo, mas sei que ninguém vai me ouvir por entre as
paredes e deixar que eu durma mais meia hora ou o dia todo. Levanto da cama e me
troco, tenho que acordar cedo para a aula de pintura, minha mãe insistiu que eu
aprendesse a pintar ou a bordar ou tocar piano, já que segundo a mesma, são
atividades e talentos indispensáveis para casar uma mulher, na época nunca me
interessei por nenhum deles, mas acabei escolhendo a pintura, a ideia de passar tinta
sobre uma tela não me pareceu tão aborrecente, e realmente não é, acabei pegando
gosto por pintar, e apesar de não ser tão boa quanto artistas renomados, acredito que
minhas pinceladas não sejam ruins, as vezes só me falta inspiração.

Visto minha pantalete por cima do chemise, já sinto um calor subir pelas minhas
pernas só de vestir essas peças. Com minha nuca ficando úmida, calço as meias, visto o
corset, puxo os fitilhos até minha cintura ficar fina como um graveto, em seguida
coloco uma anágua, meu corpo pesa por debaixo de tanta roupa. Agora é a hora do
vestido, adoro colocar um vestido e me sentir glamurosa. Pego uma peça na cor
purpura, com mangas estreitas, cintura baixa e acentuada, com detalhes em linha
dourada e uma amarração atrás, a qual trazia um ar adorável para o visual, é com ele
que passarei o dia. A roupa é fabulosa, no entanto as camadas de roupa por baixo dele,
deixavam meu corpo pesado como uma bigorna, bom, não há o que fazer a respeito
disso, as regras de etiqueta e vestimenta são claras a respeito disso, ainda mais quando
se é da realeza.

Ouço três batidas na porta, somente pela leveza do toc-toc-toc, sei que é Janet e suas
mãos de pluma.

_pode entrar! _ sorrio para Janet ao ver seu rosto na porta, ela parece se assustar com
algo _ oque foi? Tem algo no meu cabelo? Se tiver diga, nunca vou me esquecer do
incidente com a abelha.
Certa vez estávamos eu e Janet no jardim andando com uma sombrinha, olhando as
flores que tinham acabado de desabrochar, o pólen se espalhava pelo ar. Em algum
momento olhei para a feérica de pele azulada e rosto gentil ao meu lado que me
olhava com a face amedrontada:

_Janet, o que está acontecendo, você parece pálida _ eu disse em tom de


preocupação.

A mulher não respondeu, ela apenas apontou para o meu cabelo, assustada, eu
coloquei a mão na cabeça, senti algo pequeno subir em minha mão, quando vi, era
uma abelha que balançava sua bundinha felpuda, zumbindo com pólen nas patinhas,
ela voou feliz na direção de Janet, como se ela fosse a flor mais bonita do jardim. Eu
nunca vi uma moça correr tanto. O que acontecia era que, ela é alérgica a abelhas e
tem um medo irracional das pequeninas. A dama de companhia passou o resto do dia
de lábios coloridos com um tom preocupante de roxo.

_ Não é nada alteza, é só que você parece cansada! Passou a noite pensando em
alguém? _ ela sacudiu a cabeça como se voltasse a realidade, e sorriu com malicia.

_ nossa Janet, eu pareço tão ruim assim? _ eu parecia. Meus olhos estavam profundos
como poços, minha boca seca e sem cor, sem contar o cabelo que parecia um ninho de
andorinhas. _ e respondendo sua pergunta, meio que passei a noite pensando em
alguém, só não do jeito que você pensa _eu realmente passei a noite pensando em
uma pessoa, em meu noivo, passei a noite pensando em desmascara-lo.

_ oh meu deus santíssimo! Quando você está com essa cara, quer dizer que você e essa
sua cabeça pensante, estão aprontando algo. Quero nem saber! _ ela riu.

Janet sabe muito bem que não sou nenhuma santa.

_ sou velha de mais para “aprontar”, digamos que estou trabalhando em uma ideia _
falo me sentando na penteadeira em frente ao espelho.

_para mim você sempre vai ser minha garotinha! _ ela me olha com doçura. Pega a
escova e lentamente desembaraça meus fios acobreados.

Com cuidado a mulher trança meu cabelo, em duas tranças grossas e com uma ruga na
testa de concentração, ela prende minhas madeixas atrás da cabeça. Gosto quando ela
faz esse penteado, acho que ela aprendeu com minha antiga baba, não lembro muito
vividamente dela, mas sei que ela e Janet eram muito amigas.

Em menos de dez minutos minha cabeça já está enfeitada com as grossas tranças
laranjas. Mas quando penso que acabou, a dama de companhia tira algo do bolso
enrolado em um guardanapo branco, tento me controlar, mas meu instinto de curiosa
fala mais alto, arregalo os olhos, estreitando-os para as mãos fininhas dela, aos poucos
o objeto se revela ser uma presilha, cravejada de pedrinhas brancas e brilhantes, nela
uma pequena borboleta de ferro também cravejada nas bordas me chama a atenção. É
linda, tão cintilante que me cegaria se olhasse por mais de um minuto.

_ minha querida, sabe que não tenho filhos, mas te considero como minha filha, minha
amiga e família. Quero te dar esse grampo, ganhei de minha mãe quando tinha sua
idade, e naquela época decidi que daria a presilha para minha futura filha, acontece
que nunca nem sequer me casei, muito menos tive filhos, mas encontrei você, desde
que vi você e suas bochechas gordinhas, soube que era deus agindo na minha vida,
dando a mim a filha que sempre sonhei _ ela dá uma breve pausa e respira fundo _
melhor do que sempre sonhei _ meus olhos lacrimejam, sinto meu nariz arder e minha
garganta se contorce em um nó. Segurei o choro o máximo que pude, mas meu esforço
foi por água abaixo, quando vi Janet chorar colocando o adereço na ponta das tranças _
sei muito bem que não devia dizer isso ou fazer o que estou fazendo, já que se alguém
descobrir estou na rua, mas senti que estava na hora de te dar meu pequeno tesouro, é
bem simples, mas é de coração, considere como meu presente de casamento.

Eu levanto e me viro para Janet, minha canela acerta o banco o qual estava sentada,
mas pouco me importa só quero abraçar a dama de companhia que mais se parece
com minha mãe do que a própria, é isso que faço, pulo nos braços da mulher que
cambaleia para trás como se fosse cair. Ela me abraça tão forte que quase paro de
respirar, no entanto se meus pulmões parassem naquele exato momento, pelo menos
morreria nos braços da mulher que me criou.

_ obrigada Janet! _ digo com a voz rouca de choro.

_ está chorando? _ela se afasta de mim me olhando atentamente, de repente ela


estende sua mão até meu rosto, e seca minhas lágrimas.

***

Assim que Janet sai procuro meus sapatos loucamente, pois já estou atrasada para
minha aula, corro em passos curtos até em frente da minha mesa e... tem algo
molhado em meu pé, paro instantaneamente, olho para baixo e me vejo em cima da
poça de tinta que derramei ontem à noite.

_ como isso não secou? _murmuro e solto uma palavra que minha mãe não aprovaria.

Agora estou atrasada e com meu pé coberto de tinta.

Vou pulando em um pé só, me equilibrando nos móveis a minha volta. Ao me apoiar na


pia do banheiro, desequilibro, e seguro na cuba da pia, bom só não contava com o fato
dela estar molhada, meus dedos escorregaram e de repente, me vi no chão, com os
pés para cima. E de uma hora para outra sinto meus quadris doerem, já era de se
esperar, eu bati com tanta força no chão que ou de alguma forma rachei o chão, ou fiz
meus pais pensarem que um meteorito acabou de aterrissar no andar de cima. Levanto
meio desengonçada, mas com o cabelo intacto, ando até a banheira já sabendo que
hoje não é meu dia, lavo meu pé com fogo nos olhos até a mancha preta sumir.

Desço as escadas tão rápido que pensei que acabaria torcendo meu tornozelo, mas no
fim não torci. Corro até o jardim onde a tela inacabada, as tintas e a srta. Butler,
certamente me esperam.

_desculpa a demora srta. Butler! _ digo meio ofegante colocando o avental.

_ melhore. _ela diz sem me olhar nos olhos.

Ela está pintando algo, eu espio e nem reconheço sua forma de pintar, tão pragmática,
nem parece a mesma mulher doce a qual tanto me inspirava. Ela exalava alegria por
onde passasse, vivia com os cabelos castanhos soltos se mexendo ao vento e com as
bochechas vermelhas feito morangos.

Ela era diferente das mulheres que costumo ver, com vestidos volumosos e cabelos
super trabalhados, não que não goste disso, mas ela era diferente.

Minha mãe odiava quando a Abigail (era como eu a chamava antes de sua vida
desmoronar), aparecia vestindo calças ou até mesmo sem espartilho, a rainha a achava
depravada eu a achava audaz. As vezes vinha ao castelo com o rosto sujo de tinta,
minha mãe a chamava de suja e eu a chamava de livre.

Olho para a forma que srta. Butler segura o pincel, não é como antes, antes ela a
segurava com leveza e fluência, agora segura como se fosse pesado, como se fosse um
fardo. Antes ela transcrevia sentimentos em telas, seus quadros carregavam a essência
de sua alma, contavam uma estória, despertava algo em mim... agora simplesmente
não fazem nada, são monótonos, são como olhar para uma parede cinza.

Ela me olha de forma tão sem vida, nem parece os mesmos olhos brilhantes e
sonhadores da Abigail.

Para mim Abigail e srta. Burtler são pessoas diferentes.

Abigail era radiante, livre, jovem, confiante e sonhadora.

Srta. Burtle é maçante, arrogante, inflexível e apática.

Ela se tornou essa pessoa sem vida quando seu marido morreu, acho que parte dela se
foi com ele.

Ela o amava tanto, estava sempre pintando seu rosto e dizia que era ele quem sempre
a incentivava a ser quem era, dizia:

_sei que os outros não ficam felizes com a forma como ajo, e sinceramente fico triste
com tudo o que dizem, mas graças ao bom deus tenho um marido maravilhoso que
sempre me mostra que a única pessoa a quem eu realmente tenho que fazer feliz, é a
mim mesma, e a forma que achei para me sentir alegre, foi sendo livre, e bom meu
John me apoiou e o mais importante me incentivou a ser como sou, acho que não
suportaria tudo sem ele, não suportaria se não tivesse seus braços para me esconder
do mundo. Sabe Sienna, casamento é sobre isso, não é somente se submeter a alguém,
é ter seu cônjuge como seu abrigo, como seu ponto de apoio é ter uma fonte de amor
ao seu lado.

***

Pego um pouco de tinta preta e branca, misturo no godê, gera um tom de cinza
fumaça.

Srta. Burtler me fez começar a pintar a paisagem nas aulas anteriores, e ainda não
terminei, normalmente já teria acabado, mas estou pintando de má vontade, acredito
que por isso não termino nunca. Não queria estar pintando o castelo, queria pintar algo
que carrega mais sentimento.

Não vejo a hora disso acabar, estar na presença da mulher de preto com o cabelo mais
bem preso que já vi me deixa desmotivada.

***

A aula acaba e vejo a mulher que em certo período foi minha inspiração, que foi um
símbolo de liberdade, sair do castelo com o corset tão apertado que acho que está
esmagando seus órgãos, ela sai sem nem se despedir, despedaçando o meu coração
em mil pedaços.

CAPITULO 3

Idosas são adoráveis

Não desgosto de muitas coisas, mas acho que uma das que mais odeio é almoçar com
meus pais. O olhar penetrante deles sobre mim quase faz um buraco em meu rosto,
não digo nada, ainda estou elaborando o que vou falar.

Bom primeiramente tenho que seguir o plano que criei ontem à noite.

1. Sair de casa sem levantar suspeitas {pensei em dizer agora mesmo aos meus
pais que vou sair para comprar vestidos}

2. Andar pelas ruas e anotar todas as agências de detetives

3. Analisar todos os detetives e decidir qual será o mais vantajoso


4. Mandar uma carta ao respectivo detetive {obs.: a palavra “respectivo” soa de
forma muito formal, não sei se gosto dela}

5. Encontrar com o detetive para a contratação em um lugar vazio e discreto {não


quero que ninguém saiba disso}

6. Contratar e começar a investigar {a parte interessante}

Repasso o discurso que escrevi em minha mente, tomo um gole de suco, pigarreio e
começo a falar:

_ vou sair hoje, quero comprar alguns vestidos.

_ pode deixar que chamarei a costureira. _diz minha mãe acida.

_NÃO! _digo mais alto do que eu gostaria _não precisa, quero sair para comprar os
vestidos, estou a tanto tempo sem ir ao centro que sinto saudade.

_oh, se eu pudesse ficaria para sempre sem ir a aquele lugar... _ela suspira _ bom, tem
certeza que não quer que eu chame a costureira?

_tenho. _ falo com certeza em minha voz.

_está bem, ao menos leve um guarda, ou melhor, deixe que eu chame um guarda, ele
vai estar te esperando nos portões.

Danço por dentro, é uma pequena, mas feliz vitória.

***

Ao comer, quero imediatamente correr aos portões e começar a busca, mas tenho que
ir ao meu quarto buscar minhas coisas, subo até o quarto e pego um lápis e uma
caderneta.

Vou a saída do castelo, esperando por um guarda alto e forte, mas acabo encontrando
um homem mirrado, seguro o riso soltando um suspiro.

_vossa alteza, acompanharei você hoje, a carruagem está logo em frente. _ ele se vira,
mas eu o interrompo.

_quero ir a pé, se não houver problema é claro _ acredito que caminhando conseguir
analisar melhor a cidade.

_é claro alteza, como quiser _ ele concorda.

O homem é tão magro que é mais fácil eu protege-lo do que ele me proteger.

Ando alguns metros e já me arrependo de não ter aceitado a carruagem.

_devia ter pego uma garrafa d’agua_ penso em tom de tristeza e arrependimento
profundo.
***

Está tão quente que por alguns momentos penso no aconteceria se eu simplesmente
ficasse nua, cheguei em muitas conclusões como:

1- Sentiria vergonha e começaria a chorar.


2- Me sentiria livre e me tornaria uma selvagem que assombra as florestas,
pelada.
3- Todos me olhariam horrorizados.

De qualquer maneira, acredito que nunca farei isso.

***

Na cidade há três agencias de investigação, o que é muito comparado a população do


reino, mas tenho duas disponíveis pois uma das três é a de confiança de meus pais,
estou dizendo isso porque acabei de achar a primeira, ela se chama Sherlock Holmes,
uma clara homenagem ao personagem literário. Ela parece ser popular, é situada em
um prédio bonito e está com movimento constante de pessoas dentro do
estabelecimento, com toda certeza essa não será a agencia escolhida.

Durante algum tempo até me esqueço que estou sendo seguida por um guarda de
meio metro, tanto que até me assusto ao olhar para traz e vê-lo na minha cola, ele não
parece perceber meu susto, está ocupado demais observando as belas moças
passearem na rua. Esse susto fez com que eu ficasse um pouco mais atenta a presença
do guardinha, e me faz lembrar que tenho que fingir que vim ao centro para fazer
compras, por esse motivo entro na primeira loja de roupas que vejo, é uma lojinha
simples, diria que é tão pequena que chega ser aconchegante, há um cheiro estranho
pairando no ar, uma mistura de mofo, cigarro e pano, digamos que não seja uma das
minhas fragrâncias favoritas. O lugar é fresco, o que me traz um grande alivio, o local
tem a temperatura regulada por magia, acredito. De traz do balcão sai uma senhorinha
corcunda como um tatu, com cabelos grisalhos de aspecto tão macio e fino que me
lembram nuvens, suas orelhas pontudas indicam que a senhora é uma feérica, seus
óculos estão pendurados na ponta do nariz e sua pele é enrugada como uma uva
passa.

_olá, seja bem vinda, o que deseja hoje? _ sua voz soa rouca.

_ olá senhora, estou procurando por algum vestido _ pode ser a velhice, mas posso
jurar que já te vi em algum canto. _ela se vira e me conduz a uma arara cheia de
vestidos _ te vi no jornal hoje... oh meu Deus! O que faz aqui princesa? Devo me curvar
ou já estou corcunda o suficiente? _ ela ri da própria piada _ perdão por não ter
notado que era você, não sei como não percebi, já vi seu rosto tantas vezes estampado
nos jornais que se eu fechar meus olhos com força consigo vê-lo gravado nas minhas
pálpebras.
_sem problemas! _ sorrio.

_bom vamos ao que interessa, não posso ficar aqui tomando seu tempo. _ ela é tão
frágil, que tenho medo de respirar um pouco mais forte e ela quebrar, idosos feéricos
me intrigavam muito quando eu era criança, quer dizer todos sabem que feéricos são
tecnicamente imortais, só morrem com coisas extremamente especificas, logo eles não
envelhecem e não morrem de velhice, então como existem feéricos idosos? Acontece
que no auge de meus seis aninhos descobri que existem alguns tipos de feéricos,
existem os que envelhecem e não tem magia e os que não envelhecem e possuem
magia, a senhorinha em minha frente é do primeiro tipo que descrevi, o que me leva a
crer que o que mantem a temperatura do ambiente agradável é algum tipo de feitiço _
vestidos, certo? Estão todos aqui!

_ muito obrigada senhora!

Começo a observar as peças, não pretendo ficar muito tempo, mas não quero comprar
qualquer coisa, seria burrice comprar algo que não usaria, por isso olho com atenção.
De repente ouço um barulho agudo vindo de trás, um barulho que soa como um
rangido, viro-me depressa e vejo a razão de tal som, é a dona da loja movendo uma
escada de madeira, ela a carrega com certo esforço, eu observo pensando em como
uma idosa de pele tão macia empurra com tanta força uma escada com o dobro de seu
tamanho, é como uma formiga.

“ela vai aguentar levar isso?” no mesmo momento que penso nessas palavras, noto o
joelho da formiguinha fraquejar, com isso solta um grunhido baixinho, “não, ela não vai
aguentar”, apresso-me para ir até ela, tiro a escada de suas mãos cansadas, o objeto é
muito mais pesado do que eu esperava.

_senhora, o que está fazendo? Deixe-me te ajudar. _ digo

_me dê isso garotinha, sou velha, mas não sou mole não! _a mulher diz soltando uma
risada rouca, clássica de quem fuma cigarro.

_tenho certeza de que não é! Mas eu também não sou, então me deixe te ajudar
_sinto que talvez uma farpa de madeira tenha entrado no meu dedo, normalmente
diria “ai”, mas acabei de afirmar que não sou mole, logo acredito que será meio
contraditório se eu fazer drama por uma farpinha.

_bom, querida, é meio estranho colocar a princesa para trabalhar, mas já que está se
dispondo, preciso que troque a lâmpada pra mim, ela queimou hoje, por isso tenho
que trocar até o anoitecer, do contrário ficará um breu tão grande que não enxergarei
meus clientes nem de óculos _ a velha cujo o nome ainda não sei, anda até o balcão
que a pouco estava sendo ocupado por ela, abre uma gaveta e tira uma lâmpada.

Posiciono a escada, e começo a subir os degraus da escada aparentemente bamba,


digamos que eu não tenha muita pratica em trocar lâmpadas, mas não deve ser difícil,
é só subir a escada, girar a lâmpada, tirar a lâmpada e colocar uma nova, acho que sou
capaz de executar essa simples porem inusitada tarefa. Enquanto rosqueio a lâmpada
velha, sinto a escada balançar de um lado para o outro, como uma cadeira de balanço
encima de um muro de três metros, e eu sou uma velha radical e de espirito jovial, se
aventurando ao se balançar na cadeirinha, estou a um passo de um braço, perna ou um
fêmur fraturado.

Tarefa cumprida, estou inteira, com exceção da pequenina farpa no dedo, que a essa
altura do campeonato já até me esqueci da existência.

_tem mais algo em que eu possa ajudar? _ eu pergunto

_ah alteza, você é tão gentil, tem certeza de que quer me ajudar? _a doce vovó é tão
fofa que sinto que poderia guardá-la em um potinho, não tem como deixar ela fazer
todas essas coisas perigosas sozinha.

E foi assim que passei uma hora inteira ajudando a senhora, e conheci a mais agradável
mulher, ela me contou sua juventude inteira, com as estórias dela descobri que não
estou vivendo o suficiente minha “era de ouro” (era assim que a idosa se referia a
juventude dela), enquanto ela ia para festas, pulava a janela de casa e ria a noite inteira
com seus amigos, eu , no auge dos meus dezenove anos , a coisa mais radical que já fiz
foi brigar com um garoto insuportável na escola, em minha defesa ele despertava o
pior em mim.

Ao terminar o serviço, a velhinha com uma felicidade evidente no olhar, me entrega


um copo d’agua e diz:

_ princesa, já que ajudou esta tarde, quero que escolha um vestido, por minha conta!

_ não precisa Amália _ esse é o nome dela e ela odeia ser chamada de sr. Amália

_ por favor, eu imploro! Você foi uma querida comigo, e alias tenho um vestido especial
para você, venha me siga! _ eu a obedeço curiosa, enquanto ela me conduz até uma
porta no final da sala, uma salinha com uma mesa, uma cadeira ambos de madeira,
uma máquina de costura e muito pano e alfinetes espalhados em cima da mesa, as
paredes são em um tom de rosa queimado.

A senhorinha tira de cima da mesa de madeira rubra, um vestido bege, cheio de contas
e miçangas costuradas no corset, a saia é longa e reta, apesar de não ser volumosa, há
uma fina camada de tule bege por cima do mesmo tecido usado no corset, nas costas,
uma amarração de laço de cetim toma a cena, é lindo, provavelmente o mais lindo que
já vi.

_fiz esse vestido recentemente para a noiva do meu filho, mas ela o deixou, e além do
mais o vestido é muito bonito para ela, que sinceramente era de beleza medíocre!
Nunca gostei da menina, te conheço a no máximo uma hora, e já gosto muito mais de
você do que jamais gostei dela durante todo o tempo que a tinha por perto. _ ela
segura o vestido e bate de leve na saia para espantar todo o pó dela, meu nariz coça
um pouco, acredito que o dela também. _ experimente, acho que caberá
perfeitamente! _ a idosa nem tentou esconder o seu sorriso ao me oferecer a roupa.

_você é quem fez? É magnifico, acho que o vestido mais lindo que já vi.

_vou sair do quarto para você se trocar, meu amor _ Amália deixa o vestido em minhas
mãos, e sai do quarto murmurando uma canção.

Tento vestir a roupa o mais rápido possível, mas não obtenho grande sucesso, pois
sofro um pouco para refazer a amarração no dorso. O vestido cai feito uma luva, desliza
sob cada curva de meu corpo de forma perfeita, como se fosse feito para mim, deslizo
as mãos pelo corset, sentido cada miçanga costurada firmemente, a saia arrasta
levemente no chão de tabuas, “vou ter que usar com salto “reflito.

_já vestiu princesa? _a voz rouca da idosa me assusta, estava tão concentrada me
admirando que sinto que esteja demorando um pouco.

_sim, é perfeito! _exclamo.

_posso ver? _ já diz enquanto abre a porta devagar.

_claro! _viro-me para a porta, os olhos da senhora se iluminam ao ver sua criação em
um manequim de carne e osso.

_oh, querida! Você está tão linda! Se encaixa tão bem em você, se fosse você casava
com ele! _ ela solta uma gargalhada fofa, se aproxima _ estou brincando, venha cá ver!
_ Amália me leva até o salão onde troquei a lâmpada, onde consta um espelho, ela me
põe em frente ao meu reflexo.

Olho nos meus olhos, olhos meu corpo de frente para mim, observo o jeito que o
vestido me torna não só uma princesa como também uma rainha, me sinto imponente,
delicada e linda de doer, é estranho estar usando essa expressão para descrever a mim
mesma, mas é como me sinto, me sinto outra pessoa. A cor do tecido faz meus olhos
brilharem, minhas bochechas se tornarem rosadas e meu cabelo vibrante como fogo,
estou admirada com o poder de um vestido sobre mim.

_ o que achou, alteza? _ a mulher questionou entusiasmada.

_eu adorei! _ me senti uma verdadeira noiva vestindo isso.

_que bom! Já vou embalar para você, assim que você o tirar. _ ela se virou e foi até o
balcão, buscar uma sacola.

Ando pelo espaço até chegar ao cômodo o qual me troquei, entro e visto minhas
roupas, com o vestido em mãos vou até a senhora, que escrevia algo em um cartão.
_quanto custa o vestido, Amália? _ entrego o próprio nas mãos enrugadas da
senhorinha.

_pra você é de graça, minha querida. _ela sorri com doçura e coloca a vestimenta
dentro da sacola.

_ não, não posso aceitar, sei que deve ter demorado muito tempo para fazê-lo de
forma tão minuciosa! _ me recusei a aceitar a oferta.

_ não se preocupe com isso! Fico lisonjeada de uma mulher de coração e face tão
bonitos, usar o que foi feito por minhas mãos. _ ela me entrega a sacola, desvia o olhar
e diz _ só tenho um pedido, quando o usar lembre-se de mim, está bem? _ seus olhos
sorriem, quase se fechando, e em um movimento rápido ajeita os óculos no rosto.

_pode deixar! _ abro meu maior sorriso.

Ela me acompanha até a porta, e coloca seu braço envolta de meus ombros me
envolvendo em um abraço, ela tem uma temperatura corporal fria e cheiro de roupa
limpa e cigarro, de alguma forma sei que esse simples movimento de me acompanhar
até a porta, vai se tornar uma daquelas fotos mentais, uma daquelas memórias tão
vividas que conseguimos nos lembrar de cada detalhe, foi um ato tão simples, mas que
de afetou de um jeito inexplicável.

_ volte logo! _ a senhora abana as mãos para mim da porta de sua loja.

_eu vou! _ digo imitando o movimento dela.

Passei mais tempo do que desejava na loja, mas acabou valendo a pena.

CAPITULO 4

Real pesadelo

Ao sair encontro o guardinha quase dormindo encostado no muro, mas sente meu
movimento e interrompe meus passos dizendo:

_ alteza, acho melhor voltarmos para o palácio, sua mãe, a rainha, deve estar
preocupada.

_voltaremos daqui a pouco, não vou entrar em mais nenhuma loja, quero só explorar
um pouco mais a cidade. _digo, ele não parece abominar a ideia de ficar aqui
passeando mais um pouco.

Começo a andar, não conheço muito bem as ruas, logo, terei de seguir meus instintos
para achar a agencia, acredito que eles não sejam os mais confiáveis, mas é o que eu
tenho disponível. Meio preocupada com o fato de ter uma probabilidade muito grande
de não achar o que procuro, continuo pela rua dos pinus dançantes, pelo menos é o
que diz a placa, ando em passos largos porque estou com pressa.

Caminhei por mais uns cinco minutos até achar uma rua muito movimentada e aposto
em seguir nela, está tão cheia que trombo em algumas pessoas, não sei como não me
reconhecem, mas tenho uma hipótese, tanto as mulheres amarguradas quanto os
homens cinzas de chapeis, não se entreolham, por isso em momento algum alguém viu
meu rosto, a não ser uma criança com, por volta de seus seis anos de idade, puxa a saia
de sua mãe e diz para ela cheia de entusiasmo:

_mãe, olhe é a princesa! É a princesa!

E a mãe sem nem olhar diz com um tom de gozação:

_filha, não é a princesa, acha mesmo que ela estaria no meio de gente como nós?

Talvez soubessem que sou eu, se andasse mais perto de meu guarda, ou o próprio
chamasse mais atenção, mas de certa forma agradeço por não me reconhecerem,
porque assim posso caminhar livremente.

Em meio a tamanha muvuca, noto que todas as lojas e restaurantes estão abarrotados
de pessoas, feéricos e outras criaturas, menos uma do outro lado da rua, atravesso de
supetão, e suspeito quase ter sido pisoteada por um cavalo que relincha e retorna a
trotar puxando uma carruagem, assim que chego ao outro lado da rua. Me aproximo
da vitrine da única loja deserta, noto olhando o interior através do vidro, uma mulher
jovem de cabelos loiros e face entediada, quase dormindo em cima do balcão, eu a
encaro durante alguns minutos, mas ela não parece notar. De repente ouço alguém
atrás de mim dizer algo:

_princesa, por que encara essa agencia de detetives? _ olho para trás rapidamente, e
quem fala é meu guardinha, mas espera... agencia de detetives? Olho para a vitrine da
loja e está escrito “Detetive particular: ALCANTRA” quando leio essas palavras, uma
onda de empolgação me atinge de forma tão agressiva que quase me faz esquecer de
responder o homem.

_é que todas as lojas estão cheias menos essa, não acha esquisito? _ essa foi a resposta
mais rápida na qual consegui pensar.

_acredito que esteja desértica desse jeito pois o detetive que trabalha aí, não faz um
bom trabalho _ele diz gesticulando de forma exagerada.

_ como constatou isso? _ questionei, me pergunto se devo contratar um detetive ruim.

_ constatei com base naquele papel colado na vitrine, estão falindo _ele aponta para o
papel
_entendi, mas as vezes não estão falindo por causa de serviço ruim, existem outros
motivos _ digo com ainda um pingo de esperança em contratar o suposto “detetive
ruim”

_até pode ser, mas isso não justifica a escassez de clientes _ o silencio é minha
resposta, no entanto, ainda não desisti porque tive muito trabalho para achar a
agencia, e além do mais seria vantajoso ter um detetive sem outros clientes pois assim
ele poderia focar somente no meu caso e além disso em uma agência muito cheia o
risco de mais pessoas ficarem sabendo o que estou fazendo, incluindo meus pais é
maior.

Meu plano é mandar uma carta para a agencia Alcantra mas para isso precisarei do
endereço daqui. Tento olhar o endereço em alguma placa por perto, todavia, a rua está
tão abarrotada de gente que se torna difícil a visualização, é nesse momento que me
arrisco perguntar ao meu acompanhante

_ aqui é r. cafofo dos anjos_ ele diz e eu pego minha caderneta e minha caneta de
dentro de minha mochila transversal, para anotar o endereço da agencia _ porque
vossa alteza anota? _ ele pergunta e eu congelo, o que devo dizer?

_é que... nessa rua tem umas lojas que eu gostaria de visitar, mas hoje já esta tarde,
então para eu não esquecer, estou anotando! _ essa foi a resposta mais rápida e
convincente que consegui dar no momento, espero que ele não consiga enxergar o
nervosismo em meu sorriso forçado.

_muito sensata, princesa! _ o homem diz e concorda com a cabeça.

_ obrigada, o que acha de já partirmos? _ digo, aliviada.

_ está bem, me siga, sei um atalho para chegar ao castelo.

***

O que se deve escrever em uma carta como essa? “olá, quero te contratar, mas não
vou revelar minha identidade ainda, me encontre no escurinho para saber mais” NÃO!
Tenho a impressão de que se escrever assim ficarei parecendo um assassino maluco
atrás de sua próxima vítima, fazer isso é uma tarefa mais difícil do que parece. Me
sento na cadeira de minha escrivaninha e penso com mais calma, talvez não seja tão
difícil escrever isso, acho que estou apenas muito ansiosa, não tem que ser algo tão
formal pois, não estou escrevendo para meus pais, por isso pode ter uma escrita mais
descontraída, até porque, estou dirigindo essa carta a um detetive falido, que não vai
recusar um trabalho, ainda mais se eu oferecer um bom preço. Molho a pena no
tinteiro e finalmente começo a escrever.

Caro(a) detetive,
Escrevo essa carta para lhe fazer uma proposta. Sei bem que está falido, por
esse motivo acredito que não está em posição de recusar meu pedido, apesar
de que você terá de correr alguns riscos ao aceitar, riscos os quais ficara
sabendo hoje as 23 horas, em frente à sua agencia se você comparecer, estou
ciente que a esse horário não será mais permitido sair de casa, no entanto, lhe
garanto que nós não seremos pegos e que valerá a pena o risco e a
adrenalina.
Nessa carta não direi o que você investigará, pois, se trata de um assunto
delicado e que se parar em mãos erradas, pode gerar grande confusão,
todavia vou te informar o valor a ser pago pelo seu serviço. Há várias opções
de pagamento, desde eu manter sua agencia viva, pagando seu alugar, suas
dívidas e te arranjando muitos clientes e popularidade, pois acredite ou não
sou uma pessoa bastante influente, até mesmo posso te pagar tanto dinheiro
que nunca mais terá de trabalhar, pois o valor será o suficiente para te
manter vivo, contudo, se o senhor(a) quiser fazer uma exigência ou oferta, a
tal será aceita.
Agradeço sua atenção e espero que entremos em acordo em breve!
Não assinei meu nome, acredito ser mais seguro dessa forma.

Normalmente levaria dias para essa carta chegar, mas, o local é próximo daqui, logo
hoje mesmo a carta chegará ao seu destino.

Dobro o papel assim que a escrita seca e a coloco em um envelope, agora só falta sela-
lo. Abro a gaveta ao meu lado, para achar minha vela vermelha de selagem, minha
caixa de palitos de fósforos e minha sinete de flor de lavanda, então começo a revirar a
gaveta em busca dos objetos, de repente meus dedos tocam o metal gelado da sinete,
logo em seguida a aspereza da caixa de fosforo e a textura gosmenta da vela, eu a
acendo e a deixo pingar no papel, com pressa antes que a cera seque, carimbo a sinete,
faço pressão para que o desenho da flor fique bem definido, então ao tirar o carimbo
do papel vejo o selo perfeitamente colado no envelope, confesso que selar a carta é
minha parte favorita.

Pedi para um dos guardas que fica na entrada do castelo enviar a carta para o
destinatário com urgência. Pedi justamente para um guarda porque os guardas de
cavalaria não costumam conversar com ninguém, muito menos com meus pais. Envio a
carta mais ou menos umas 18:30, acredito que a carta chega nas mãos do detetive em
torno de trinta minutos e eu terei de ficar ansiosa durante quatro horas e meia, como
vou aguentar?

Para passar o tempo tento retomar a leitura que estava tendo a uns dias atrás, esses
dias não consegui ler muito, então talvez esse seja o momento para isso, pego o livro
de cima de minha cômoda, ele tem a capa vermelha com o título em relevo “orgulho e
preconceito” , com o livro em mãos me sento em minha cama e começo a ler, mas as
palavras começam a perder o sentido enquanto me perco em pensamentos
alternativos relacionados ao meu encontro secreto mais tarde, me vejo tendo que ler
várias vezes o mesmo trecho pois esquecia de prestar atenção no que dizia, fico
fazendo isso durante um tempo até que desisto, e fecho o livro com um movimento
rápido e para falar a verdade até meio agressivo já que estava sem paciência. De
repente me vejo ansiosa novamente, pesando em voz alta:

_ será que o detetive vai aceitar? Preciso que ele aceite! Quer dizer eu consigo fazer
isso sozinha caso ele ou ela não aceite... só vai sair um trabalho um pouco mais porco
do um que ficaria com um detetive...sou uma boa detetive, eu daria conta sozinha _
digo em uma tentativa falha de autoengano _ não, não sou mesmo!_ Lembro da escola
quando faziam dinâmicas de caça ao tesouro, nas quais tínhamos de encontrar pistas
com charadas e desvenda-las para acharmos doces, eu era horrível, e nunca achava os
doces, então minhas amigas dividiam os delas comigo. Pode ser que eu tenha
melhorado, mas duvido muito! No entanto se o detetive não aceitar, terei de me tornar
boa em investigar, de um jeito ou de outro.

Meu dialogo comigo mesma é interrompido por Janet, ela aparece na porta, me
deixando cheia de vergonha “porque ela apareceu bem quando eu estava falando
sozinha?”, eu finjo naturalidade e Janet, graça a Deus, finge não ter presenciado meu
monologo dramático.

_ está na hora do jantar, seus pais já jantaram. _ sempre janto depois de meus pais
para evitar o constrangimento que é estar em um ambiente fechado com eles.

_ está bem, já descerei!

Em minutos já estou jantando, “graças a Deus, algo para ocupar minha mente!” penso
aliviada.
O jantar hoje é macarrão ao molho branco, é surreal de tão bom, a massa derrete e o
molho é de um tempero excepcional! Assim que termino o prato, subo as escadas sem
pressa, quando chego em meu quarto me pego ensaiando o que vou dizer a o ver o ou
a detetive, mas paro assim que percebo que estou parecendo uma esquisita falando
sozinha em um volume anormal e andando pelo quarto, então me sento e respiro
fundo “porque eu estou tão ansiosa?” reflito, olho para o relógio em cima de minha
cômoda.

20:46

“daqui quatorze minutos vão trancar meu quarto” cochicho.

Todo dia as nove da noite, os guardas trancam a minha porta a pedido de meus pais, já
que a partir desse horário já não é permitido a saída de casa de nenhum cidadão e
quando passa desse horário os guardas vigiam a cidade com os cavalos infernais, eles
podem ser bem agressivos ao verem pessoas desconhecidas, há vários casos de
animais como esses matarem até mesmo seus próprios domesticadores, sua aparência
é de certa elegância, eles são pretos como carvão, suas crinas são da cor de seu pelo,
além de serem lisas com fios grossos e pesados, costumam ser magros pois por vezes,
seus donos tem medo de entrar em seu celeiro para alimentá-los, dizem que seus
olhos são profundos e negros com cílios enormes, mas poucos os viram, pois para tirar
a vida de alguém basta olhar para a escuridão de seus olhos e sua alma será tirada, por
isso sempre estão com tampões nos olhos, no entanto o ato de vendar os cavalos não é
muito eficaz, por que mesmo sem enxergar podem ser bem agressivos atacando com
coices. Meu pai já foi atacado por um quando mais jovem, ele diz que por sorte
sobreviveu, ele estava invadindo o celeiro dos cavalos da cavalaria com uns amigos e
deu de cara com um, segundo seus relatos bastou o relincho da besta para seu rosto
rachar como porcelana, hoje em dia ele tem uma cicatriz que atravessa seu rosto de
um lado ao outro diagonalmente, atravessando seu olho, ele é cego do mesmo por
causa disso.

Acredito que vigiem a cidade de noite devido a uma série de ataques noturnos na
época que a grande guerra surgiu, foi avassalador o resultado que gerou na cidade,
casas destruídas, famílias extintas, sonhos destruídos e lagrimas perdidas em meio de
sangue, a batalha foi chamada de mar de lagrimas, devido a tamanha tristeza da
população. Bom, eu não me lembro de absolutamente nada, já que tinha acabado de
nascer, e tudo que disse agora foi o conhecimento que adquiri na aula de história na
escola.

Meus pais mandam trancar minha porta para que eu não possa sair durante a noite, e
nunca pensaram que eu seria capaz de fazer uma acrobacia para sair pela janela, na
verdade nem eu pensei, mas é o que me resta, meus pais poderiam muito bem selar o
castelo com magia, mas abominam de tal forma feéricos que se recusam a mexer com
magia, algo que para falar bem a verdade, sempre achei interessante, Meus pais só se
relacionam com feéricos quando são seus empregados.

Já tenho o plano completo de como farei isso, marquei com o detetive


estrategicamente o horário, pois os cavalos passam em turnos nas ruas, então roubei
uma programação de horários e rotas da metade A do reino, e segundo consta na
programação, os cavalos infernais passam na rua cafofo dos anjos, as 22:00, 00:00,
02:00 e as 04:00, então com essas informações, saio de casa 22:47, porque
provavelmente levarei entorno de dez minutos para abrir a janela, pular no galho da
arvore que fica em frente à minha janela e descer a arvore, e para chegar a agencia vou
usar o atalho que o guarda de meio metro me ensinou, então levarei mais cinco
minutos para chegar na porta as 23:02, porque se eu chegasse as 23 em ponto eu
correria o risco de encontrar com os cavalos saindo da rua, agora é só torcer para os
guardas e suas ferinhas serem tão pontuais quanto eu, acho que dará tudo certo
porque fica um guarda cuidando de cada metade da cidade então como vou usar só a
metade A, quando estarei saindo de casa os cavalos vão estar saindo da cafofo dos
anjos, e quando eu chegar lá eles vão estar entrando na rua rainha Martha Leonils.

Assim que as 22:30 bate no relógio, começo a me arrumar para sair, abro o armário e
pego um vestido vinho simples que não chama muita atenção, desenterro do fundo do
armário uma capa preta com capuz, calço botinas pretas e luvas de couro, e ao estar
devidamente preparada paro em frente ao espelho na parede, o penteado que uso
está destruído por isso resolvo desmancha-lo, um grampo de cada vez meu cabelo se
solta, foram tantos que sinto minha cabeça leve. Como não tenho o dom de fazer
penteados, faço uma simples trança grossa e quando termino, faltam cinco minutos
para eu sair.

Abro a janela e uma brisa gelada entra, olho para baixo e o chão é muito mais longe do
que eu me lembrava, respiro fundo e procuro o galho mais próximo, ele está acerca de
uns quatro metros de mim, e a queda aqui de cima é de uns quinze metros, engulo em
seco e sinto minhas mãos soarem dentro da luva. Coloco o capuz e fico de cócoras em
cima do parapeito, e com um impulso pulo com a certeza de que esse é o meu último
segundo o galho está cada vez mais perto e eu me preparo para abraça-lo, o impacto
da madeira em meu tórax me deixa com falta de ar, a adrenalina toma conta de mim,
de repente sinto o sangue em minhas veias e meu coração acelerado, sinto cada parte
do meu corpo viva. Começo a me arrastar pelo galho para chegar ao tronco, ele
balança um pouco com cada movimente me tirando um pouco de ar, mas conforme
avanço a madeira engrossa e se torna mais firme, quando fico bem próxima do troco,
me sento, coloco o pé no galho de baixo e depois em outro, até não haver mais galhos
somente uma distância de mais ou menos sete metros, logo para me equilibrar e
conseguir descer, encaixo meu pé dentro de um buraco na arvore e desço abraçada no
tronco, preciso ficar pelo menos mais uns dois metros próxima do chão, olho em minha
volta e encontro um relevo na madeira, logo piso ali, minha bota escorrega, mas logo
me equilibro, agarrada na arvore, me vejo em uma distância perfeita para pular, é isso
que faço, em um salto estou agachada no cimento.

Tiro de dentro na bolsa meu relógio de bolso, ele marca 22:54, eu estou adiantada, isso
quer dizer que posso ir até a agencia com mais calma.

Olho em volta

_então é assim que é a rua de noite?

A rua é deserta e assustadora, os postes iluminam com uma luz alaranjada, mas
mesmo assim não são capazes de matar a escuridão azulada e profunda que deixa cada
sombra mais escura, a escuridão que faz nossas mentes criarem todo o tipo de terror e
fantasia, a escuridão que faz as mentes brilhantes reluzirem como estrelas. Uma garoa
fina cai por cima das plantas, o silencio é tão absurdo que quase me ensurdece, ouço
com clareza minha respiração, meus passos, o farfalhar de minhas roupas e o uivar do
vento, a noite densa envolve cada espaço do reino, me abraçando em um terror
gelado.

Eu ando pela rua sentindo um frio na barriga muito grande, estou com medo, muito
medo. Andando aqui corro o risco de alguém me ver e me dedurar, ou um dos cavalos
resolver que sou uma ótima janta ou simplesmente o detetive não aparecer, ou ele
pode aparecer, mas recusar a oferta, aí terei de reformular todos os meus planos.
Deus, existe muitas variáveis!

Estou na esquina da rua cafofo dos anjos, e consigo sentir o cheiro de enxofre vindo
das criaturas negras, o medo quase me congela, fazendo minhas mãos tremerem e
minha nuca pingar suor mesmo eu estando com frio até nos ossos. Puxo o relógio de
bolso e são 22:59, só mais um minuto, me encosto no muro de tijolos e espio a rua
para ver se as feras já se foram e graças a Deus a única coisa que sobra deles é o cheiro
de morte.

Finalmente chego a agencia, puxo o relógio e são exatamente 23:02, agora é só esperar
que o ou a detetive chegue, para isso me escoro na vitrine e puxo de leve o capuz para
frente. Estabeleci que esperarei até 23:15 nem um minuto a mais, mas até lá tenho
algum tempo livre, o qual uso para lembrar o que tenho que falar, mas não dura muito
tempo pois sou interrompida pelo barulho da porta abrindo e do sino que fica em cima
tinindo.

Sinto a presença de alguém, mas antes de olhar respiro fundo, e subo o olhar
lentamente, vejo seus sapatos sociais marrom, suas calças de alfaiatarei bege, em seu
quadril há um cinto marrom com fivela prateada e subindo mais olhar vejo uma camisa
social branca com as mangas arregaçadas, noto que a camisa está com os primeiros
botões desabotoados deixando a vista sua pele pálida. Seus ombros são largos me
deixando com completa certeza de que é um homem que está na minha frente, e
finalmente vejo o rosto, seu maxilar é desenhado e seus lábios finos e rosados com o
arco do cupido bem desenhado, suas bochechas são de tom corado com aspecto
macio, suas orelhas pontiagudas, seus olhos são profundos e inclinados, de um tom
profundo de castanho, seus cílios são cheios e escuros e sua sobrancelha é posicionada
de forma que o faça parecer irônico mesmo naturalmente, seu cabelo é ondulado e cai
em ondas perfeitas quase como desenhadas, os fios são de uma cor como avelã ou
castanho claro, ele é lindo de uma forma inacreditável, é como se fosse uma pintura ou
um sonho(está mais para um pesadelo), tão bonito que chega a parecer falso(mas
infelizmente é real), é uma pena que eu saiba exatamente quem ele é, é triste que eu
conheça cada detalhe zombeteiro daquele rosto.

CAPITULO 5

Promessas

Quase no final do expediente, minha amiga e recepcionista, safira, entra em meu


escritório sem aviso prévio.

_Aidan, chegou uma carta pra você _ a mulher coloca a correspondência em minha
mesa e olha com expectativa para mim.

_pra mim? _ acho esquisito, quem me mandaria uma carta? Eu seguro a carta
observando o selo sofisticado _ que envelope chique.

_vai abre logo que eu quero ver, nunca vi um selo tão bonito! _ a mulher loira me
apressa.

_ parece que você está mais animada que eu, safira _ eu dou risada e começo a abrir a
carta.

_ vai logo e vê se lê em voz alta! _ ela se aproxima e senta em uma das cadeiras.

_ta bom, mas só vou conseguir ler se você ficar calada! _ eu caçoo dela que me olha
com desaprovação

Tiro de dentro do envelope um papel, o qual desdobro e leio o conteúdo em voz alta,
assim como safira exigiu com tanto entusiasmo, e por algum motivo a letra me é
familiar, desde as voltas do “O” aos pontos finais.

Ao terminar de ler, Safira me olha com certo horror, acho que não era isso que nós
esperávamos de um envelope chique, o que pensamos que fosse um convite para um
baile se parece mais com uma tentativa de sequestro ou homicídio.
_eu achei meio ameaçador _eu digo.

_meio? Essa pessoa acha mesmo que você vai arriscar sua vida aceitando essa loucura?
_ ela diz soltando uma lufada de ar, incrédula de um jeito que chega a ser meio cómico.

_ é né, quem aceitaria isso?... que horas essa pessoa marcou mesmo? _ dou uma
risada de canto e coço minha cabeça.

_você não está pensando em comparecer, não é?! _ a expressão dela está cada vez
mais desacreditada e decepcionada.

_ talvez..., mas é uma bela oferta, e estou precisando do dinheiro! _ eu digo antes de
saber a resposta da garota.

_ você está sem dinheiro, mas tem vida, o que você talvez perca, caso você se encontre
com a tal pessoa! Além disso já pensou que o horário em que esse assassino marcou
com você, é no horário proibido? Você vai mesmo arriscar sua vida por um dinheiro
que talvez nem exista? E também se você não for morto pelo escritor da carta, vai ser
morto pelos cavalos infernais! E sinceramente não quero ter que cuidar de um funeral
esse mês! _safira dá um chilique, acho que só está com medo da minha morte _ Aidan,
você sabe muito bem que você é a única pessoa que me resta, por favor só dessa vez
não de uma de suicida, tabom? _ ela não tem familiares, não sabe quem são seus pais
e cresceu em um orfanato o qual ficou durante dezesseis anos de sua vida, ela é mais
uma vítima da pobreza da classe inferior, a mãe engravida, o pai entra em desespero e
não tem dinheiro nem tempo para cuidar de um filho, então os abandonam, bom hoje
em dia isso já não acontece com tanta frequência, já que muitas da pessoas das classes
inferiores migraram daqui na época da guerra, logo o reino encolheu em população,
assim tendo menos pessoas para trem filhos e os abandonar, mas confesso que por
mais que digam que a pobreza diminuiu, acredito que não de maneira significativa e
infelizmente isso não é um problema que pode ser resolvido com magia, e mesmo que
pudesse, acho que a realeza não deixaria que um feérico resolvesse o problema.

Sinto pena de safira, sei como está sendo difícil para ela, se sustentar sozinha e ainda
recebendo uma mecharia, mesmo assim ela não se demitiu para não me deixar
sozinho, também não posso deixa-la.

_tudo bem, não vou, você tem razão é loucura demais, até mesmo para mim _ sorrio

_obrigada, e fica tranquilo está bem? Vamos conseguir dinheiro e daremos um jeito de
manter a agencia viva.

Eu concordo com a cabeça, mesmo não acreditando tanto nas palavras de minha
amiga.

***
O expediente acaba e me despeço de safira que vai embora rápido, eu finjo que já
estou indo também, mas assim que vejo ela dobrar a rua eu volto para dentro do
escritório, para esperar o autor da carta. Disse para safira que não faria isso, no entanto
também disse que não a deixaria, e não menti ao dizer isso, já que não vou morrer,
tenho certeza. A recepcionista mencionou os cavalos, porém eles não passam aqui a
essa hora, sei disso porque já dormi aqui algumas vezes, e digamos que o vidro da
vitrine não seja um ótimo isolante sonoro, já que ouço os cavalos trotando as vinte e
duas horas e saem daqui no máximo as vinte e três.

Agora são vinte horas, tenho duas horas de espera, mas por incrível que pareça não
estou ansioso, pois não estou com muitas esperanças, até porque a pessoa diz na carta
que é influente e por isso tem bastante dinheiro, apesar de ser meio contraditório
porque se ela é tão rica assim porque procuraria um detetive falido?

Enquanto espero, aproveito que estou sozinho e relaxo um pouco, tiro a gravata e
desabotoo alguns botões da camisa, para passar o tempo leio o jornal de hoje, que
fiquei com preguiça de ler mais cedo.

GAZETA NANQUIM

Casamento da jovem princesa está próximo!

Hoje (22/07) a jovem princesa, Sienna, apareceu com seu noivo, Martin Albulquerque, em público, o casal ficou
de mãos dadas comprovando a todos seus amores. O futuro rei fez um discurso emocionante, e agora temos
certeza que nosso reino está em boas mãos, já que Martin parece ser um homem de personalidade única e
simpatia contagiante!

A princesa ainda não se pronunciou sobre assumir o reino, no entanto mostra-se evidentemente contente e
ansiosa para governar...

Solto uma lufada de ar, debochado, “está de brincadeira?”, fecho o jornal no mesmo
momento e vou ler algo que preste, pego um livro de minha estante e começo a ler.

Passam-se duas horas, e eu nem percebi, ouço algo bater na vitrine, logo vou averiguar,
noto alguém encostado no vidro, e os cavalos já se foram, fico meio apreensivo, visto
que a pessoa está inteira de capuz o que me impede de ver a sua face, mas não parece
estar armada, toco na maçaneta e hesito durante alguns segundos, mas agora já estou
longe demais para desistir, abro a porta de uma vez, fazendo os sinos tinirem, ao tocar
do som, o indivíduo se vira para mim após alguns segundos de êxito. O capuz ainda
cobre seu rosto, estou pronto para ser baleado e morto ali mesmo, toda aquela certeza
de que não iria morrer se dissipou por completo. A pessoa encapuzada me olha de
baixo para cima de forma lenta, enquanto ela sobe o olhar noto que o indivíduo é uma
mulher, só quero ver seu rosto e acabar com esse mistério. Essa garota olha cada parte
de meu corpo atentamente, até chegar em meu rosto, penso se ela refletindo sobre me
esquartejar, ela paralisa, seus olhos ficam estagnados, assim como os meus ao
finalmente ver o rosto bochechudo da garota de olhos grandes e amendoados de um
tom de verde profundo, lábios delicados e carnudos, sobrancelhas finas e nariz como o
de um coelho, seu rosto é coberto sardas como o céu estrelado, é como se seu corpo
inteiro fosse um pedaço do céu, já que seu cada parte dele é cheio de sardas, tão
incontáveis quanto grãos de areia, ela é linda, sempre foi, uma pena nós causarmos
aversão um no outro, sinceramente, penso que levar um tiro teria sido menos pior.

_princesa, pensei que nossa estória de amor já tivesse chegado ao fim! _ faço uma
reverencia torta, só para provoca-la _mas acho que você só vai largar do meu pé
quando eu morrer.

_bom te ver também Aidan! _ao dizer isso vejo o brilho que cintilava em seus olhos ao
explorar meu corpo sumir

_ se estava com saudade era só falar, não precisava escrever uma carta elaborada para
chamar minha atenção! _eu digo sorrindo com desdém.

_acha mesmo que mandaria a carta se soubesse que era você quem iria receber? _ ela
questiona, tirando o capuz, deixando uma trança laranja cair sobre seu ombro.

_eu acho, você sempre foi obcecada por mim, alteza_ me apoio na vitrine cruzando os
braços.

_nunca seria obcecada por um homem desajeitado, que anda por aí com a camisa
desabotoada, o cabelo bagunçado e a gravata jogada no ombro! _claramente ela
começou a ficar irritada de verdade.

_ tudo bem, você tem um ponto, digamos que no momento eu não esteja muito
apresentável, mas não é como se você pudesse falar muita coisa, estava encapuzada
até agora!

_ nossa, já estou me arrependendo de ter arriscado minha vida para estar aqui! _ ela
solta uma lufada de ar.

_ o que veio fazer aqui? _ pergunto meio decepcionado por saber que sairei daqui hoje
sem dinheiro algum.
_ vim completar a proposta feita na carta, mas acho que se você ainda quiser falar
sobre minha proposta é melhor entrarmos_ ela aponta para a porta a qual minutos
atrás eu sai.

_não tenho certeza se quero colocar uma pessoa como você para dentro da minha
agencia_ apesar de não demonstrar fico feliz que a proposta seja verdadeira.

_tudo bem, podemos discutir aqui fora, pelo menos desse jeito morreremos de
hipotermia antes mesmo de começarmos a negociar. _ ela tem razão, os dias tem sido
quentes, mas as noites gélidas.

Eu abro a porta e sinalizo com a cabeça para que Sienna entre, ela percebe o sinal e
entra, eu vou logo atrás dela.

_pode deixar sua capa aqui, _aponto para o chapeleiro ao lado da porta _ não precisa
fingir ser misteriosa na minha frente.

_ fala como se soubesse muita coisa sobre mim! _ela resmunga enquanto tira a capa e
as luvas.

_Sienna, eu sei exatamente o tipinho de pessoa que você é, te conheço muito bem_
pego a capa de suas mãos e penduro-a.

_não o suficiente para eu parar de ser misteriosa _ essas palavras tiram uma risada
sincera de meus lábios o que faz a princesa me encarar confusa.

_ você não é misteriosa, princesa! Literalmente todos do reino conhecem informações


particulares suas, porque elas saem em letras garrafais no jornal, e além do mais, você
não é a pessoa mais discreta do mundo! _ digo tirando sarro da garota que me olha
com a sobrancelha arqueada.

_Sinceramente acho muito melhor mostrar o que sinto do que os esconder por debaixo
de piadas e ironias, como algumas pessoas nessa sala _ ela dá uma pausa e balança a
cabeça desacreditada _ você não me conhece mesmo, não é? Para pensar que as
informações que saem nos jornais e na imprensa são reais _ela se vira e diz _ vamos
logo!

Eu a obedeço a levando-a para meu escritório, acho estranho ela ter dito essas coisas,
já que na escola fazia questão de provar que a vida dela era tão perfeita quanto como
era panfletada por aí.

Entramos em meu escritório, confesso que não está muito organizado, então assim que
ela entra começo a tirar alguns livros de cima da mesa e coloca-los na prateleira. O
cômodo está meio escuro então assim que coloco os livros na prateleira, estalo os
dedos acendo as velas com o pingo de magia que possuo, digamos que eu não seja o
feérico mais poderoso.
_pode sentar, fica à vontade! _ela se senta em uma das cadeiras e eu sento em frente
a ela com a mesa nos separando. Pego uma caderneta e uma pena para anotar tudo o
que puder, faz tempo que não recebo um caso, por isso, estou bem animado _ me diga
o que devo investigar.

_ que legal, finalmente vou mandar em você e você vai obedecer _ela ri, mas
claramente não está confortável aqui, talvez não fique confortável em falar sobre o
assunto que terei de investigar ou não fica confortável na minha presença, ou somente
a cadeira que ela está sentada seja muito dura para seus glúteos reais_ mas antes de
eu falar sobre o que você vai investigar, quero que prometa que não falará a ninguém o
que vou dizer a você, porque se eu descobri que você falou um piu sobre isso juro que
dou um jeito de te perseguir até te matar! _ e voltamos aos velhos tempos, em que ela
fazia ameaças frequentes contra mim.

_ assim como jurou que me mataria quando tirei uma nota mais alta que você na prova
de matemática no nono ano? _eu a provoquei com deboche.

_não, na época não tinha coragem, mas agora sinto que sou capaz de fazer qualquer
coisa. _ela diz com tanta convicção que me deixa um pouco assustado, mas tenho
certeza de que ela está blefando _e pode deixar que vou descobrir onde você estiver,
mesmo se fugir, tenho olhos em tudo, Aidan, sou literalmente a futura rainha e meu
reinado está mais próximo do que nunca, tenho cada cidadão na minha mão, não
importa como, mas vou descobrir e vou te matar. _ela diz com uma sombra
aterrorizante no olhar. Talvez ela não esteja blefando, depois de como tudo acabou,
imagino que ela deva ter um desgosto enorme em me ver respirando. De qualquer
maneira, é reciproco.

_ só mais uma pergunta, porque não posso dizer a ninguém? _essa é uma dúvida
genuína.

_ porque se as minhas palavras e minhas ações chegarem aos ouvidos dos meus pais,
tenho certeza de que serei punida _Sienna diz com a expressão ainda seria, como se
estivesse em um funeral _ vá em frente, prometa!

_eu prometo _digo meio desatento.

_ não, quero que prometa de verdade, olhe nos meus olhos e diga com convicção!
_Sienna sempre sendo exigente.

_quer que eu faça promessa de dedinho também, Sienna? _ debochei enquanto me


endireitava na cadeira.

_hum, na verdade não é uma má ideia, venha, me de seu dedo _ela finalmente sorriu
ao ver minha cara de choque.
Eu coloco meu mindinho junto ao dela, nós os cruzamos, e eu fui rapidamente me
soltando dela, mas a princesa puxa meu dedo com uma delicadeza de elefante, me
deixando confuso.

_você não selou_ o que eu deveria selar?

_como se sela isso? _ ela vê a confusão em meu olhar e logo me ajuda a fazer o
movimento, com a outra mão segura meu polegar e o junta ao meu por cima de nossos
mindinhos.

_pronto, agora não tem mais volta.

_agora pode me dizer o que devo investigar, alteza, ou tem mais alguma cerimonia
para realizar?

_bom, por onde eu começo... eu estou noiva...

_ah sim, fiquei sabendo, parabéns! _eu a interrompo, e por algum motivo ela não
parece feliz com o noivado, sabia que ela não queria assumir o trono, já que aos
dezesseis anos ela ficou tão irritada comigo que teve um acesso de raiva, nunca vi
alguém ficar tão vermelha em tão pouco tempo, foi naquele dia que descobri que ela
tem uma dicção dos deuses e a habilidade de mudar de cor. No meio de seu acesso de
raiva, a garota disse que o que menos queria era governar, mas não falou o motivo,
mas o noivado... realmente pensei que ela queria se casar, pois ela parecia feliz nas
fotos ao lado do noivo, mas pelo jeito ela estava mentindo, ela sempre foi boa nisso.

_obrigada, mas meu noivado é justamente o problema, quero investigar meu noivo e
meus pais_ seus pais? A realeza? Não estou louco o suficiente para investiga-los _sei
que soa estranho já que tecnicamente eles eram para ser minhas pessoas de confiança,
mas é o contrário, sabe, você sempre teve razão quando dizia que eu mentia pra os
outros e para mim dizendo que minha vida era perfeita, ela nunca foi e nunca será, e é
justamente por isso que estou aqui_ ela suspira _ por enquanto não tenho provas do
que digo, no entanto preciso provar para todos que é real, não posso me casar com
aquele homem. É esquisito, minha mãe sempre me dizia que eu era um caso perdido,
que homem nenhum iria me amar e que já havia desistido de mim, mas de um dia para
o outro ela me aparece com um homem de um reino distante que será meu noivo, mas
sabe o que é o mais estranho? Meus pais dizem que ele é pobre, o que é muito
estranho porque JAMAIS minha família me casaria com um homem que não é da
realeza! _ ouço com atenção, mas para mim tudo isso soa como uma birra por não
querer se casar com um pobre _ meu noivo diz ser amigo muito próximo do rei do
reino de Ottokar, e em uma viagem conheceu meus pais, então eles decidiram que o
homem seria um bom marido para mim, mas essa história parece mal contada, por que
ele seria pobre se é amigo próximo do rei? O rei não daria dinheiro e terras para ele?
“Acho que ele e meus pais compartilham algo, pois sempre estão cochichando e nunca
me disseram sobre o que falavam. Outra coisa que observei foi que, esses dias o sr.
Albulquerque foi a um jantar no castelo, mas apareceu em uma carruagem
extremamente chique, que segundo ele foi enviada pelos meus pais, o que não faz
sentido, pois conheço cada carruagem e cada cavalo que são pertencentes a minha
família, mas essa, essa eu NUNCA vi! É isso que tenho por enquanto, sei que parece
loucura porque você terá de investigar a realeza e correra muitos riscos, mas juro que
valerá a pena_ investigar a realeza? Como? É loucura, se for pego serei morto das
formas mais cruéis, agora vejo que estou me enfiando em um buraco sem volta, agora
é o momento para desistir.

_ não tenho certeza de que vale a pena, tem noção de que se eu for pego serei morto?
Não é vantajoso, além do mais como posso ter certeza de que você irá me pagar,
Sienna? Preciso muito do dinheiro, mas, preciso mais ainda de estar vivo_ no final das
contas talvez safira estivesse correta.

_ e você vai ficar vivo! Aidan, preciso de você mais do que nunca, e você sabe disso,
porque sabe que nunca imploraria por sua ajuda igual faço agora! Preciso de sua ajuda
para mostrar que estou certa pelo menos uma vez, não posso me casar com ele, eu o
odeio, odeio a forma que ele me toca, a forma que ele me olha, eu o odeio mais do
que já te odiei em toda minha vida_ ela parece tão vulnerável quanto nunca, jamais
pensei que a veria assim, com uma expressão de desespero estampada no rosto, os
olhos brilhando, a boca contraída e a respiração ofegante _ Aidan, prometo que não
deixarei que te matem, assim como posso te matar, posso te manter vivo em meio de
um mar de pessoas tentando lhe tirar a vida.

Lembro do porque quero dinheiro, do motivo de eu trabalhar, nossos olhos se


encontram e vejo verdade em suas palavras.

Bom, talvez vá valer a pena esse sacrifício. Fico surpreso de como ela me fez mudar de
ideia tão rápido, ela é realmente boa com as palavras.

_tudo bem, mas prometa que não me deixara morrer em circunstancia alguma!

Ela me olha meio confusa com o fato de aparentemente eu ter tanto medo de morrer.

_tudo bem, quer que eu prometa de dedinho? _um sorriso escapou no canto de sua
boca.

_não precisa, não sou malvado igual você! _digo.

Ela levanta a cabeça e olha nos meus olhos, seu olhar é tão penetrante que poderia me
cegar, o olhar atravessando os cílios longos, me senti amedrontado.

_ eu prometo! Como vai querer que eu pague? Como dizia, posso te pagar o suficiente
para você nunca mais trabalhar, mas te conhecendo acredito que não deixaria de
trabalhar tão fácil, então existe outra opção de pagamento, posso dar popularidade e
clientes para você.

_ você tem razão em dizer que não deixaria meu trabalho tão fácil, amo o meu
trabalho, mas também amo dinheiro, logo quero que me pague dos dois jeitos! _
trabalhei muito para conquistar meu espaço como detetive, e não vou deixar tudo que
eu conquistei para trás.

_não sabia que era tão ganancioso, Aidan _ela debochou enquanto desenhava com os
dedos as ranhuras na madeira da mesa.

_não diria ganancioso, mas não posso negar que gosto de ter um dinheiro no bolso _
“também amo ver gente rica se dar mal” penso em dizer, mas ignoro o impulso_ e
então? Você vai me dar o que eu quero?

_ tudo bem, se esse é o seu preço_ ela faz uma pausa _ o que acha de mil moedas de
ouro?

_ vou arriscar minha vida por essa mixaria? Não mesmo! _ eu a provoco, na verdade
pensei que ela pagaria muito menos, quer dizer MIL MOEDAS DE OURO! Isso é muito
dinheiro, mas quero extorqui-la só mais um pouco, só para ver se ela pagaria mais pelo
meu trabalho, só pra ver se ela realmente precisa de mim e se vale a pena ajuda-la.

_tudo bem..._ela pensa olhando para o teto mordendo o lábio inferior _ o que acha de
cem moedas de priolina?

Meus olhos saltam para fora do rosto, nunca tive em mãos uma sequer moeda de
priolina, já que ela equivale a cem moedas de ouro, ter apenas uma dela já é um
sonho.

CAPITULO 6

Família

Acabei dormindo no escritório, estirado em um banquinho de couro na sala de espera,


banquinho o qual nem deu tempo de ser gasto, eu o comprei com meu último salário
antes de abrir meu próprio negócio. Ser um detetive sempre foi o emprego dos meus
sonhos, me esforçava muito na escola pra conquistar isso, e durante certo tempo eu
consegui, mas, graças a recomendações da família real, a agencia de detetives rastro
raro roubou meus poucos clientes, não sei como a agencia Sherlock Holmes conseguiu
se manter popular e ativa, como sempre Sienna Joel Legrand e sua família me gerando
problemas, segundo ela dessa vez me trouxe uma solução. Ontem assinamos um
contrato, o qual dizia que eu teria que manter total sigilo sobre o assunto falado e faria
tudo que está em meu alcance para investigar a realeza e o noivo de Sienna, além disso
ela prometeu me proteger custe o que custar e me pagar em dinheiro e trazer
popularidade para meu negócio

Passo as mãos pelo rosto e cabelos esfregando os olhos e bocejando, quando levanto,
minha visão escurece, cambaleio uma pouco para frente e bato meu pé na mesa da
recepção, um choque de dor atinge meus dedos, piscando em lampejos ardidos.

_merda! _meu corpo se curva com a dor.

Eu calço meus sapatos e abotoo os botões da camisa, pego meu casaco no cabideiro e
saio pelas ruas frescas que logo mais tarde estarão muito quentes.

O sol nasce lentamente, pintando o céu em um degrade de azul, rosa e amarelo, há


poucas pessoas na rua para admirar a cena e apesar de eu estar presente não tenho
tempo para olhar a paisagem já que chegar em casa, no momento é minha prioridade.
Eu caminho apressadamente, com uma leve brisa soprando meu rosto e meu
estomago ronca de fome ao sentir o cheiro de café recém passado e pão assando.

Eu dobro milhares de esquinas, até chegar em uma parte afastada do centro da cidade,
caminho até o final da rua e entro no casebre de madeira simples, minha casa. Ao
entrar vejo apenas minha irmã na cozinha passando um café novinho, ela me olha com
um leve sorriso, seus olhos idênticos aos meus, nossa face inteira é muito parecida,
tirando as cicatrizes alarmantes espalhadas pela superfície do rosto dela, seu cabelo é
mais claro que o meu, quase loiro, os fios estão presos em um coque rigoroso e firme.
Me dói ver as ranhuras na face de minha irmã mais velha, mas dói mais ainda ver, ou
melhor não ver seu braço direito, ela o perdeu na guerra, graças aos nossos amados rei
e rainha Legrand, na época morávamos em uma cidade próxima daqui, a qual, em
certo período, se tornou pivô de disputa entre Adarlan e Barbarian, graças a isso
muitas famílias foram assassinadas a sangue frio, não queríamos morrer, é obvio, logo
resolvemos migrar para o reino mais próximo e seguro, o Adarlan, o que ainda moro
hoje em dia, aqui era mais seguro pois foi o primeiro a ser bombardeado, então já não
era mais o centro das ações dos inimigos, mas houve um imprevisto, a realeza proibiu a
entrada de feéricos no reino, porque segundo os próprios, nós éramos uma ameaça, já
que o exército inimigo era em grande parte, composto por feéricos, e não havia como
saber que não fazíamos parte do inimigo, o rei e a rainha simplesmente abriram mão
de todo o resto de seu povo e território para se manterem a salvo, alegando que a
família real devia ser protegida a qualquer custo, pois tinham uma filha pequena, o que
me deixa cheio de dúvidas, já que várias crianças como ela, como a mim, estavam
morrendo brutalmente. Ficamos na frente de um guarda implorando para que nos
deixasse entrar, mas sem sucesso, estávamos todos exaustos e ao ponto de desistir e
encarar nosso destino, encarar e cavar nossas covas, porem minha irmã não parou de
insistir, chegando ao ponto de simplesmente correr para dentro da zona do reino, no
entanto os guardas a seguraram antes que ela conseguisse entrar, apenas seu braço
direito entrou, o mesmo foi cortado fora no mesmo momento pelo guarda impaciente,
ela gritou e agonizou, arranhando seu próprio rosto que nunca mais seria o mesmo,
nós todos gritamos aos pés do guarda, que por um momento sentiu culpa por ter
decepado o braço de minha irmã e nos levou às pressas a um centro de atendimento
dentro do território do reino, a dor dela nos colocou em segurança.

Ela é sete anos mais velha que eu, na época da guerra eu tinha apenas dois anos, logo
tudo que sei sobre a guerra, foram os conhecimentos que adquiri durante os anos. Essa
guerra simplesmente nunca foi esclarecida, disseram que seu motivo foi disputa
territorial. O reino inimigo era novo e pequeno, e estava tentando expandir para os
lados de Adarlan, o que desencadeou essa guerra, só deus sabe como esse tal reino
conseguiu ter uma tropa de soldados tão forte em tão pouco tempo.

Quando estava no oitavo ano, entrei na mesma escola que Sienna e comecei a implicar
com ela porque tinha raiva de seus pais, da guerra, de terem impedido que
entrássemos, mas logo entendi que Sienna não tinha culpa alguma do que aconteceu,
ela era apenas um criança, como eu, percebi que a história da guerra a machucava
tanto quanto me machucava, acho que se sentia culpada pelas vidas perdidas nos
limites da cidade, já que seus pais alegaram que somente selaram as entradas do reino
para protege-la, então pedi perdão para Sienna, mas já era tarde demais, ela já não
gostava de mim, e parecia que justamente pelo fato de eu ter visto sua culpa e ter visto
que sua vida não era perfeita como dizia nos jornais, ela começou a me desprezar mais
ainda. De qualquer forma, parei de tocar no assunto guerra quando estava com ela,
mas não deixei de perturba-la, assim como ela não deixou de me perturbar,
começamos a competir academicamente, porque um dia eu a desafiei a tirar uma nota
maior que a minha em história, já que ela tinha dito que era melhor do que eu em tudo
que fazia, então desde aquele dia até nosso último ano, competíamos em todas as
provas, lembro de todas as vezes em que Sienna esfregava seu A+ na minha cara, foi
naquela época que começamos a nutrir repulsa um pelo outro, tentei ao máximo
ontem não enrugar minha face inteira quando vi Sienna, confesso que olhar seus olhos
ainda me deixa com uma fúria ardente.

_passou a noite na agencia ou na casa de uma mulher, irmão? _ela me provoca


enquanto me olha com os olhos inchados de sono.

Eu solto uma gargalhada desenfreada.

_em plenas seis da manhã você falando essas baixarias? _ eu a olho servir café.

_não fica com vergonha, sei que você vive dormindo com mulheres _ela ri com
escarnio_ cada noite uma diferente, né garanhão?

Eu continuo rindo.

Vou até o armário da cozinha e pego uma caneca branca lascada, e me sirvo de café
quentinho. Eu e minha irmã nos sentamos a mesa, um de frente para o outro, essa é
nossa rotina quase todos os dias, levantamos e tomamos café juntos, nossa mãe acaba
acordando um pouco mais tarde, então só a vejo quando volto do trabalho. É muito
doloroso ver minha mãe ficando a cada dia mais magra, ver as bochechas dela ficarem
mais fundas a cada dia, assistir seus olhos caírem e os cabelos afinarem, isso vem
acontecendo desde a morte de meu pai a dois anos, ela começou a adoecer, de
repente não tinha mais forças para trabalhar e sustentar a casa, então isso virou tarefa
minha e de minha irmã, é por elas que quero ganhar bastante dinheiro, quero que
Eleonor tenha a vida de seus sonhos, pare de trabalhar tanto em algo que não a faz
feliz para colocar comida na mesa, quero que minha mãe, Lyana, fique bem e que
consiga pagar o tratamento de sua doença e comprar todos os romances que sentir
vontade de ter, mesmo que não vá ler, mesmo que queira somente deixar de enfeite na
prateleira, quero retribuir as duas mulheres da minha vida, tudo o que elas já fizeram
por mim, cada sacrifício, quero poder recompensar cada gota de suor e lagrima que
elas perderam durante toda nossa vida. Desejo honrar todo o trabalho que meu pai
teve ao sofrer tanto por nossa família e morrer a mantendo viva.

_Aidan, agora é sério, o que você ficou fazendo a noite toda? _ ela diz tentando não
parecer preocupada, mas só pelo tom de voz consigo perceber o contrário

_passei no escritório, estava lendo e acabei perdendo a noção do tempo, por isso
resolvi passar a noite lá _ eu menti, mas é melhor assim, não vou dar esperanças para
ela.

_ vê se toma banho antes de voltar pro escritório, você tá fedendo.

***

Minha irmã trabalha como diarista, ela limpa desde casas de ricaços e mercenários á
feéricos vigaristas e criminosos.

_acorda a mãe antes de sair! _as terças e quintas Eleonor, chega mais tarde, por que
trabalha em dois casarões.

Ela olha de supetão para o relógio, arregala os olhos e entorna a caneca de café
fazendo uma careta e sai tropeçando até o sofá. Ela senta e cata as suas botas marrons
surradas, as coloca com força afobada, a bota esquerda trava e Eleonor levanta seu pé
e chuta o ar, colocando a bota em um impulso. Solta uma lufada de ar.

_tá atrasada, né? _digo tomando goles generosos de café.

Ela sorri sem graça.


_já estou saindo_ minha irmã levanta rapidamente e anda apressadamente até a porta
_ da próxima vez que for passar a noite aos beijos com alguém, me avisa, fico
preocupada com seu sumiço _a mulher dá uma piscadela.

_ hoje vou chegar um pouco mais tarde, mas não vou atrasar fazendo o que pensa... ou
talvez acabe rolando também _digo com escarnio, esperando os ciúmes de uma irmã
superprotetora entrar em ação.

Não menti ao dizer que iria passar a noite fora. Eu e Sienna marcamos de nos
encontrar no mesmo horário para discutir como vou investigar a família dela, já a parte
do que eu disse que poderia acabar rolando, não vai acontecer, a não ser que a Sienna
enlouqueça e imponha seu poder de ser extremamente assustadora contra mim.

Ela revira os olhos e sai pela porta.

***

Ao abrir o registro do chuveiro, a água gelada atinge minhas costas fazendo cada pelo
se arrepiar.

Estamos sem água quente.

Um banho gelado não faz mal a ninguém, na verdade acho que vai me ajudar a acordar
um pouco.

Esfrego meu cabelo e meu corpo, me certificando de que estou completamente limpo.
O sabonete deixa minha pele com odor de alecrim e sálvia.

Saio do banheiro enrolado em minha toalha verde com manchas de tinta de cabelo, as
quais se devem a um dia em que minha irmã resolveu pintar o cabelo de preto e usou
minha toalha para proteger suas roupas. Ao abrir a porta, vejo minha gatinha sentada,
ela começa a se esfregar nas minhas pernas e quando começo a andar, Olivia corre
atrás, mexendo seu rabo de um lado para o outro e miando.

Entro em meu quarto, minha cama ainda está feita já que nem passei a noite nela, a
janela está levemente aberta, deixando entrar um raio de sol matinal e uma leve brisa.
Abro meu armário e visto uma camisa social azul e uma calça da mesma cor, porém
bem mais escura, calço meu sapato preto, é igual ao marrom que usava ontem. Meu
cabelo está um desastre, mas não tenho tempo pra pensar nele, então só jogo os fios
molhados para trás com os dedos.

Antes de sair de casa, ando pelo corredor até chegar ao quarto de minha mãe. Eu abro
a porta com um ranger estridente, vejo sua silhueta enrolada nos lençóis, eu me
aproximo devagar, então vejo o rosto de minha mãe, vê-la assim, tão sensível, a faz
com que ela pareça tão saudável que não há doença que a afete. Eu a cutuco
levemente, mas ela nem se meche, então cutuco novamente colocando um pouco
mais de pressão, Lyana dá um pulo e puxa uma lufada de ar.

_mãe, eu tô saindo agora, tá bom? _ eu sussurro.

_uhum_ ela murmura esfregando os olhos

_tem café na cozinha, e não esquece de tomar seu remédio, viu? _ falo vendo os olhos
de minha mãe se abrindo e aos poucos perdendo o brilho dos sonhos que teve.

Eu fico a olhando por algum tempo sentado no pé da cama,

_vai trabalhar filho senão você vai chegar atrasado! _ ela diz com a voz rouca.

Eu a obedeço e saio para a rua.

CAPITULO 7

Você acha mesmo que ela vai te proteger?

Passei o dia inteiro em quietude, sentado em minha cadeira com a cabeça enfiada em
alguns livros, tentando ao máximo nem olhar para safira, que logo percebeu meu
modo estranho de agir e no final do dia entrou em minha sala batendo a porta.

_Aidan, o que está acontecendo com você? _ ela coloca as mãos nos quadris.

Eu olho para os lados meio perdido.

_nada, porque? _tento parecer o mais casual possível, mas tenho quase certeza de que
falho. Não quero contar a ela porque sei que se eu contar ela vai surtar comigo, e além
do mais Sienna me pediu pra não explanar nossa conversa, por isso não vou dizer nada.

Safira inclina a cabeça e cruza os braços.

_olha pra mim e diz que não aconteceu nada _eu levanto a cabeça e me sinto muito
culpado por não contar a ela, conto tudo pra ela e em algum momento ela vai
descobrir. Nem tem motivo pra sentir culpa, não sou obrigado a contar tudo que faço
pra ela, mas ontem eu disse que não me encontraria com meu possível sequestrador e
me encontrei _me conta o que se passa

Não posso contar.

_ Aidan, você sabe que se você não me contar eu vou descobrir, e não tem como você
ficar me evitando o tempo todo.

Não vou contar.


_você está escondendo alguma coisa de mim? Você quebrou a lâmpada do meu abajur
de novo? Olha eu sei que dá outra vez fiquei irritada, mas juro que vou manter a calma
dessa vez.

Não posso contar.

_você não precisa me falar, mas se for algo importante me conta, e se não for... me
conta também! Eu fiz alguma coisa? Porque você tá me ignorando o dia inteiro? Se
aconteceu algo, te juro que não fui eu! Ou talvez tenha sido..., mas não lembro de ter
feito nada.

Eu confio nela, mas não posso contar

Mas se eu contar só dessa vez...

Não é como se a Sienna fosse me matar, não é?

Eu quero que ela saiba que vai ficar rica!

Mas ela vai brigar comigo

Ou vai comemorar comigo!

Só vou saber se contar

Desculpa Sienna, mas você também já mentiu pra mim muitas vezes.

_safira, eu não devia te falar, mas ontem eu me encontrei com a pessoa que me
mandou a carta, e ela não tentou me matar, na verdade eu a conheço _ safira
permaneceu em silencio, nem parece a mesma pessoa que estava metralhando
palavras a menos de um minuto _ela me ofereceu muito dinheiro para que eu
investigasse alguém, e eu aceitei.

Fiquei esperando a lição de moral, com frases do tipo “você poderia ter morrido!” ou
“você é maluco?” mas elas nunca chegaram.

_quem era? _a loira estava inexpressiva

_eu vou te contar, mas você não vai poder contar a ninguém _me sinto uma criança
depois dessa frase sair de meus lábios _a mulher que mandou a carta era a Sienna, a
princesa Sienna.

Safira ficou alguns segundos em silencio antes de gargalhar muito alto, colocando as
mãos no estomago.

_sienna? A PRINCESA Sienna veio aqui pedir para você investigar algo pra ela? Fazia
muito tempo que eu não ria assim, você me assustou sabia? Achei que tivesse sido
pago por um vigarista ou sei lá, você realmente sabe me fazer rir
_safira, é sério, inclusive ela me ameaçou caso eu contasse a alguém, então pelo amor
de Deus não conte a ninguém! Ela veio escondida dos pais porque são eles e ao noivo
que ela quer investigar. Ela procurou uma agencia desconhecida para não chamar
atenção. _ o sorriso começa a sumir do rosto da mulher _ eu estudei com a Sienna, e
digamos que não nos dávamos muito bem... bom, você sabe de tudo que aconteceu,
né? Então quando ela apareceu aqui foi um choque, e o fato de ela estar disposta a
trabalhar comigo me mostrou que ela está desesperada por ajuda. Eu aceitei a
proposta e ela ofereceu um valor absurdo, se tudo der certo vamos ficar ricos.

Silencio, silencio maçante e esmagador

Paro de respirar durante um tempo.

_você vai investigar a realeza?! Ficou maluco?! _ agora sim parece minha amiga, lá vem
sermão _ se te pegarem você vai ser morto, tem noção disso?!

_não vou morrer, Sienna prometeu me proteger das autoridades _ ao ouvir isso, a
garota ri com escarnio.

_e você acha que uma princesa, que nem rainha é ainda, vai ser capaz de proteger
você? Você mesmo disse que ela não gosta de ti! Quando começar a dar errado ela vai
te entregar, e quem vai terminar decapitado nessa história é você! _ela para e olha nos
meus olhos como se imaginasse meu corpo sem cabeça _ Aidan, porque você fez isso?
Você sabe muito bem qual o fim de pessoas como nós quando se revoltam contra
humanos, ainda mais se forem da realeza. Não é como se precisasse fazer isso pra
sobreviver, já que é sua irmã quem sustenta a casa desde que seu pai se foi, já que
você tem o privilégio de seguir seus sonhos enquanto ela banca seus luxos. Aidan se
você morrer, vai se tornar tão inútil quanto pensa que é agora, não vem bancar o herói
de repente e se sacrificar como um idiota pela sua família, se realmente quer ajuda-los,
vai trabalhar como diarista como sua irmã ou trabalhar em lavouras igual seu pai. Você
não precisa mais fazer isso!

Essas palavras mexem em uma ferida muito profunda e safira sabe disso.

Ela sabe muito bem. Tão bem que até se cala e balbucia algo como “desculpa”, mas
som nenhum sai.

_eu preciso fazer isso. Preciso do dinheiro e você também! Fiz isso por nós, pela minha
família, para que minha irmã não tenha que se sacrificar para manter a casa, para
pagar os remédios da minha mãe, para poder finalmente te pagar um salário digno,
para provar que os sacrifícios do meu pai foram validos! Você pode até pensar que sou
louco por arriscar minha cabeça pela minha família, mas eu acho que nunca estive tão
lucido quanto agora _ normalmente eu não diria nada, porque normalmente safira não
vai tão longe nos sermões _ porque foi tão longe nisso? Vou simplesmente estar
fazendo meu trabalho, algo que não faço a um bom tempo, não porque sou ruim, mas
porque não tive chance de simplesmente trabalhar! Não entendo porque você foi tão
longe no sermão, sendo que vou simplesmente fazer meu trabalho.

_porque não quero que você morra, investigar é seu trabalho, mas investigar a realeza
é muito perigoso! Desculpa, por ter falado que você devia ajudar trabalhando com
outras coisas, o que realmente você pode fazer, mas também pode ajudar fazendo o
que ama, investigando. Olha, eu acho perigoso, eu acho que você é maluco, mas vou
apoiar, se você quiser fazer isso, vá em frente. Desculpa, eu realmente passei dos
limites, acho que tenho muito medo de te perder.

***

Mesmo horário do dia anterior.

Faltam dez minutos pra ela chegar

Ouço os cascos dos cavalos infernais, eles causam arrepios em minha espinha.

Cinco minutos

Os cavalos já saíram, olho através das persianas na vitrine, a rua está deserta.

Dois minutos

Silencio, eu giro na cadeira de safira, até que ouço os sininhos da porta tinirem, eu
levanto o olhar e vejo a mulher encapuzada familiar. Me levanto e vou em sua direção.

_te assustei? _ela diz tirando a capa e as luvas.

_ porque me assustaria? Sua entrada invasiva foi uma tentativa de susto? _me
aproximo com as mãos no bolso da calça.

_foi, mas acho que na próxima vou ter que me esforçar mais, talvez eu apareça com
uma faca, tenho certeza de que eu segurando uma faca é o seu pior pesadelo.

_pode deixar que na próxima eu te assusto! Não tô afim de ver você e uma faca no
mesmo ambiente.

Ela pendura a capa e seguimos para meu escritório. Sienna veste um vestido discreto
em um tom profundo de verde, seus cabelos estão novamente presos em uma trança.

Quando entramos no escritório, ela se senta na mesma cadeira do dia anterior, e me


sento na frente dela.

_o que tem pra mim hoje, princesa? Além de uma tentativa de me assustar, é claro.
_uma entrevista de emprego! _ela coloca um papel em cima da mesa e desliza ele para
mim, eu o pego e leio as seguintes palavras “convocação de soldados para a futura
rainha”

_Sienna, sei que eu ficaria lindo de farda_ a ruiva revira os olhos_ mas você sabe muito
bem que não sou e nunca fui soldado.

_então espero que já tenha sido ator, porque você vai ter que fingir que é um soldado
_já atuei algumas vezes na escola, inclusive nas mesmas peças que a garota em minha
frente.

_lá vem mais uma das suas maravilhosas ideias! _digo com escarnio

_pois é, uma pena que você assinou um contrato que diz que você vai ter que ouvir
minhas sugestões! _ela diz com um tom de desdém na voz, um tom irritante de
desdém.

_não quer dizer que vou aceitar suas sugestões, não sou igual seus súditos que te
obedecem de cabeça baixa, lembra que para mim você é só mais uma pessoa normal.

_você fala como se fosse muito superior a mim _ela revira os olhos e tensiona o
maxilar.

_qual a sua ideia? _pergunto segurando o panfleto.

_você tem que investigar meus pais e meu noivo, para isso vai ter que estar dentro do
castelo, essa entrevista é a oportunidade perfeita de te colocar pra dentro do castelo,
infelizmente ou felizmente ainda não sou rainha para te contratar sem ter que passar
pela entrevista.

_porque achou que eu aceitaria entrar nessa? _eu levantei uma das sobrancelhas.

_ porque é o único jeito de te botar para dentro do castelo de forma segura! A


entrevista é daqui uma semana, então durante essa semana vou descobrir o que vai
ser perguntado e te ajudar a bolar as respostas.

_acho que você já decidiu que vou fazer isso, não é? Tenho a impressão de que não
tenho escolha

_ olha, você entendeu isso mais rápido do que eu esperava.

_desde sempre mandona, acho que realmente nasceu para mandar nos outros igual
uma rainha _eu a provoco enquanto guardo o panfleto na gaveta da escrivaninha
bagunçada.

_será que eu que sou mandona ou você que cede para mim muito rápido? _ vejo em
seu rosto a familiar faísca de irritação se tornando uma chama. Ela começa a mexer na
ponta da trança.
Eu, ceder para ela facilmente?

_porque? Você quer que eu seja menos flexível? _eu falo em um tom áspero.

_não, por mim está ótimo assim! _ ela devolve mais áspera ainda _quero começar seu
treinamento amanhã, não podemos perder tempo. Vou arrumar uma farda pra você.

Deixo um riso escapulir por entre os lábios. Sienna me encara confusa.

_tô começando a achar que seu sonho é me ver de farda, é assim que me imagina nas
fantasias que cria antes de dormir? _vejo o rosto dela se enrugar em uma careta de
nojo e raiva, passei muitos anos pegando no pé dela, então agora já sei perfeitamente
o que a tira do sério.

_ vai descobrir se aceitar minha proposta e vestir a farda, sabe eu tinha dito que você
não recusaria, mas acho que é mais burro do que eu imaginava. Duvido que aceite se
arriscar tanto a o ponto de ser um agente infiltrado, e mesmo que aceite não vai durar
uma semana lá dentro_ ela sorri com malicia. Ela sabe muito bem o que está fazendo,
sabe que não recuso um desafio, principalmente vindo dela. Isso me lembra a escola,
dói um pouco lembrar, sinto um espinho de ressentimento surgir _sempre cheia de
joguinhos, não é? _passo a mão pelo cabelo, inclinando meu rosto para trás.

_sei que você não recusa nenhum! _ Sienna dá de ombros.

_ tem razão, mas você também não _eu a olho de soslaio.

_porque diz isso? Está tentando me desafiar a algo? _ela inclina a cabeça, como um
felino pronto para atacar.

_talvez, mas vou pensar em algo mais cruel depois. Eu vou aceitar sua proposta e o
desafio de durar mais de uma semana no castelo.

_então, tá bom!

_Sienna, você sabe que não precisava ter me desafiado para eu aceitar dessa vez, né?
Normalmente o desafio seria o motivo de eu aceitar, mas dessa vez eu não tinha outra
opção. _estou praticamente perguntando se ela é burra, e claramente ela percebe isso.

_é, eu sei, mas quis deixar as coisas um pouco mais... divertidas! _ela se lembra da
peça que fizemos juntos, vejo um pouco de raiva genuína brilhar nos seus olhos, ela se
lembra de tudo que aconteceu, tenho certeza de que ela falou isso só para lembrar que
não somos amigos.

De repente me lembro das palavras que safira disse mais cedo, “e você acha que uma
princesa, que nem rainha é ainda, vai ser capaz de proteger você? Você mesmo disse
que ela não gosta de ti! Quando começar a dar errado ela vai te entregar, e quem vai
terminar decapitado nessa história é você!” e se ela estiver certa? Quer dizer, porque
ela me protegeria? Afugento esses pensamentos, ela assinou um contrato, é obrigada a
cumpri-lo, assim como eu era obrigado a não contar a ninguém, mas isso não vem ao
caso, se ela acabar quebrando o contrato como eu fiz, eu conto para todos os planos
dela.

CAPITULO 8

Competições

Três anos atrás...

O pátio está lotado de alunos, o sol banha as peles dos feéricos puros, fazendo elas
reluzirem como cristais, enquanto os feéricos inferiores exibem suas orelhas pontudas
que despontam dos cabelos sedosos, todos eles riem em uma cacofonia absurda. Saio
andando pela grama em busca de minha amiga Vanessa, estico o pescoço para acha-la
até mesmo me coloco na ponta dos pés, mas não a encontro, “logo vou para sala e lá
encontro ela” penso. Continuo andando pelo pátio do mesmo jeito, a maioria dos
grupinhos de alunos me cumprimentam e me chamam para conversar, então eu migro
de pessoa em pessoa trocando palavras, minha mãe estaria bem feliz com isso, ela
adora quando eu converso com bastante gente, ela diz que fazendo isso consigo
conquistar o coração de meu povo e manter uma imagem agradável da família real.

Assim que me liberto de toda conversa, o intervalo já chegou ao fim. Volto para sala
subindo duas escadas caracol feitas de pedra, ao entrar na sala, noto que poucos
alunos chegaram, Vanessa não chegou, então me sento na minha carteira e observo os
adolescentes entrarem na sala, alguns entram rindo outros sozinhos e silenciosos.
Ainda faltam muitas pessoas chegarem na sala, incluindo Vanessa. Enquanto olho para
a porta, um jovem entra com os olhos fixados em mim, os lábios curvados em um
sorriso cheio de malicia. Aidan. Ele anda na minha direção e eu reviro os olhos ao vê-lo
chegando cada vez mais perto.

_mais um ponto pra mim! _ele diz com a voz em um tom de orgulho irritante e desliza
um papel pela minha mesa, eu o pego e leio “audições abertas!” é sobre a peça de
teatro que estão organizando para o solstício de primavera, a escola organiza algum
tipo de apresentação todo solstício, no último foi uma palestra entediante.

_o que você está tentando dizer? _eu o olho com o desdém de costume.

_ consegui o papel do principal masculino, ou seja, mais um ponto pra mim, vou ter
uma nota maior que a sua graças a essa atividade extra curricular _ provocação brilha
em seu rosto. Ele está falando na nossa competição escolar, parei de contar os pontos a
tempos, mas sei que ele nesse momento está na minha frente na contagem.
Começamos essa competição idiota pouco tempo depois de nos conhecermos, bom, e
apesar de ser idiota, ela é uma das coisas que mais me ocupa a mente, toda vez que
ele me vence, sinto meu orgulho rachando.

_mentiroso _digo baixinho sem nem olhar para o garoto

_o que? _ele franziu o cenho.

_disse que você é mentiroso, o resultado vai sair somente segunda, então como já sabe
que vai ser o protagonista? Pelo menos é o que está escrito no folheto que você me
deu _ viro a folha pra ele e indico com o dedo o exato lugar onde a informação consta.
O garoto sorri com escarnio, passando a língua pela parte de dentro de suas
bochechas.

_ tem razão, mas tenho quase certeza que passei, foi o que a senhora Molleize me
disse, ela falou que minha atuação é excelente e que o papel principal é meu _ ele
apoia os braços nos cantos de minha carteira se inclinando em minha direção, na
tentativa de me desafiar.

Talvez ele esteja conseguindo.

_bom pra você! Uma pena mesmo que a senhora Molleize me tem como aluna
preferida _ eu o encaro com imponência, o olhando de cima para baixo.

_não por muito tempo! _ele sorri para mim, quero socar aquele rosto maldito e
arrancar aqueles dentes irritantemente brancos de sua boca. Ele está na frente de mim
na contagem de pontos, graças a última prova de história, ele venceu por meio ponto,
não posso deixa-lo à mercê em minha frente e muito menos deixa-lo roubar a senhora
Molleize de mim, ela conhece meus pais e se deixar de gostar de mim tanto quanto
gosta, eles vão saber que falhei e além do mais, Aidan não vai parar de me encher o
saco enquanto eu continuar permitindo que ele me vença tão facilmente. Tenho que
passar nessa audição também.

_você é quem pensa, pois vou passar nessa audição também! _ digo com um
divertimento falso no rosto, tentando esconder o medo de não passar

_então acho bom ir logo _ele diz jogando o cabelo para trás como sempre faz _porque
as audições acabam hoje!

Eu sinto uma pontada no estomago ao ver o quão confiante Aidan esta, tenho certeza
que ele pensa que não vou conseguir papel algum, mas tenho que passar, só pra
esfregar na sua cara, e tirar esse sorriso irritante de seu rosto. O professor entra na
sala. Acabou o jogo de provocações, pois Aidan tem que ir se sentar.

_boa sorte, princesa! _me dá uma piscadela que faz com que eu sinta uma veia salte
em minha testa.
CAPITULO 9

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