EDMILSON SANTOS
“It: a coisa” (2017).
Ensaio apresentado como avaliação parcial na
disciplina de Tópicos em Cinema e Audiovisual VI.
Orientador: Prof. Lucio de Franciscis dos Reis Piedade Filho.
JUIZ DE FORA- MG
2023
Introdução
O presente ensaio acadêmico trata-se de uma análise do filme: “It: a coisa” de 2017, uma
adaptação da obra de Stephen King de mesmo nome, que foi dirigida por Andy Muschietti.
Nesse filme é exibida uma visão mais atualizada do terror e do horror artístico que rondam
na primeira parte da obra de King, dando margem para que seja possível vincular temas que
conversam muito bem com as teorias filosóficas a cerca do horror levantadas por Noel
Campbell. O maior antagonista do filme é o palhaço dançarino Pennywise, uma entidade
cósmica antiga, em um estilo de terror bem lovecraftiano, que precisa se alimentar do medo
das pessoas, e se aproveita de suas habilidades de se transformar e criar ilusões para assolar
a cidade de Derry de 27 em 27 anos, trazendo com sigo uma onda de assassinatos e
desaparecimentos.
Este ensaio busca explorar os elementos que tornam “it” uma obra tão emblemática,
investigando como o filme de 2017 incorpora aspectos do horror cósmico e da
profundidade pscicológica dos personagens em sua trama, e como a figura da ‘coisa’ se
consolidou ainda mais como um ícone dos filmes de horror.
Desenvolvimento
No verão de 1987 em Derry no estado de Maine, George Denbrough (Jackson Robert)
seria assassinado de uma forma brutal por Pennywise (Bill Skarsgard), uma criatura
misteriosa que vive nos esgotos com a aparência de um palhaço. Esses primeiros minutos já
são o suficiente para chocar o telespectador, e mostrar para ele como aquela história iria
prosseguir. A figura sinistra e desconcertante do palhaço é o que mais chama a atenção
nesse filme, ele não é simplesmente um antagonista, mas uma personificação do medo mais
primordial de todos: o desconhecido, nenhum dos membros do Clube dos Perdedores sabe
o que ele é exatamente, e isso é o que o torna tão assustador.
A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e
mais antiga de medo é o medo do desconhecido.[...] (H.P. Lovecraft.)
Com calma o filme vai nos apresentando ao grupo de protagonistas que viriam a formar
esse “Clube dos Perdedores”, grupo criado pelo irmão de George, Bill Denbrough (Jaeden
Lieberher) e seus amigos: Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer), Stan (Wyatt
Oleff), Beverly (Sophia Lilis), Ben (Jeremy Ray Taylor) e Mike (Chosen Jakobs). A
interação do grupo é bastante natural conforme ela vai se estabelecendo, e o filme ganha
muito com a interação das crianças contra o palhaço, justamente por que elas entregam esse
ar de aventura a narrativa.
Ao mesmo tempo, o longa nos faz se preocupar com a segurança dessas crianças, tendo
em vista de que elas não podem contar com a ajuda nem mesmo dos adultos, que quando
aparecem são tão ameaçadores quanto o próprio palhaço, o caso onde isso é mais agravado
é no pai de Beverly (Stephen Bogaert) que fica assediando e tenta abusar fisicamente da
própria filha. As formas que Pennywise adota para tentar amedrontar as crianças são
geralmente relacionadas com os traumas que elas possuem, para Eddie ele vira um leproso
nojento e putrefato já que ele é hipocondríaco e morre de medo de ficar doente, ele também
se transforma na “mulher do quadro” que causa pesadelos em Stan, e nessa adaptação
diferente da primeira de 1990, ele não chega a se transformar por completo em um
lobisomem para assustar o Richie, mas ele mostra suas garras durante um dos confrontos.
A coisa atacando os perdedores com a mão de lobisomem.
A coisa é, como diria Noel Campbell, um monstro, já que ela viola a ordem natural de
Derry. Ele influência diretamente a mente não só dos adultos, mas também do bully
psicopata Henry Bowers (Nicholas Hamilton), que é manipulado por Pennywise para não
só matar seu próprio pai como também é instigado a tentar assassinar todos do clube das
crianças. Bill Skarsgard consegue entregar uma excelente e aterrorizante atução enquanto
interpreta Pennywise, um ser horrendo que vive nos esgotos com os ratos e se alimenta de
forma violenta e selvagem dos corpos de crianças e jovens. Como uma entidade cósmica, a
coisa é capaz de ir contra todas as leias da natureza, ela é a representação de um medo
primordial, mas mesmo com tanto poder ela precisa se alimentar, e de acordo com o próprio
Pennywise, o melhor tempero para devorar suas vítimas é o medo, e essa é também a sua
fraqueza.
Quando Baverly é sequestrada pela coisa, o restante do Clube dos Perdedores se
direciona até seu covil para tentar mata-la de uma vez por todas. Lá eles veem diversas
crianças desaparecidas, incluindo Bev, flutuando após verem a verdadeira forma da coisa:
“as luzes da morte”, algo tão fora da compreensão humana, que faz com que qualquer um
que olhe pra elas comece a levitar e entre em um estado de transe profundo. Depois de
libertarem a garota, todos se juntam contra Pennywise, que não consegue derrotar as
crianças pois naquele momento elas já não tinham mais medo dele, ele era quem estava
assustado, já que nem o momento em que ele tenta enganar Bill com a aparência de George
funciona. Após derrotarem a coisa, o Clube dos Perdedores formam um pacto de que
voltariam para Derry para matar a entidade de uma vez por toda caso ela retornasse.
(Da esquerda para a direita) Eddie, Bill, Mike, Stan, Beverly, Ben e Richie.
Em suas obras, Lovecraft se aproveita de um horror que ultrapassa a compreensão
humana, ele trás um horror que vem de forças cósmicas e entidades antigas que desafiam a
lógica e o entendimento humano. Stephen King faz algo semelhante de forma magistral
nessa história, já que a coisa personifica muito bem esse conceito de terror inefável, que
está além das fronteiras da razão.
Conclusão
It: a coisa foi um filme que não teve medo de ser forte e pesado, ele possui cenas
envolvendo crianças que causam grande desconforto, deixando o público cada vez mais
tenso conforme o desenrolar da trama. O filme também trás um tema muito forte sobre a
amizade que existe entre as crianças que lutam para livrar Derry desse mal ancestral. A
plasticidade da figura da coisa e sua forma é um reflexo dessa imprevisibilidade que se
estabeleceu no terror, e a figura de Pennywise permanece emblemática, ameaçadora e
instigante.
Em síntese, o filme oferece uma adaptação da obra de King que vai além do horror
convencional. Ao amalgamar elementos do horror cósmico de Lovecraft e das teorias de
Campbell, o filme não só nos assusta, mas também nos leva a uma reflexão sobre os limites
da compreensão humana em relação ao desconhecido e o que está escondido diante de nós.
Assim, It: a coisa se estabelece como um bom filme de terror, que deixa em aberto a
conclusão dessa história para a sua sequência “It - Capítulo Dois”, que conclui a história do
Clube dos Perdedores e de Pennywise, o palhaço dançarino.
Bibliografia
LOVECRAFT, Howard Phillips. O horror sobrenatural na literatura. Brasil. Editora S.A.
1987. p. 1-35, 2023.
CAMPBELL, Noel. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Brasil. Papirus
Editora. 1999. p. 1-40, 2023.
CRONENBERG, David. Cinema em carne viva. Brasil. Papirus Editora. 2011. p. 12-35,
2023.