0% acharam este documento útil (0 voto)
14 visualizações13 páginas

Mediação em Disputa de Guarda Familiar

A pesquisa investiga a mediação em disputas de guarda, destacando como suas técnicas podem ajudar na resolução de conflitos familiares. O estudo qualitativo conclui que a mediação transforma relações familiares, solidificando vínculos afetivos e melhorando a comunicação. Os objetivos incluem analisar aspectos emocionais, técnicas de mediação e seus benefícios nas relações familiares em conflito.

Enviado por

anasofiamedinag
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
14 visualizações13 páginas

Mediação em Disputa de Guarda Familiar

A pesquisa investiga a mediação em disputas de guarda, destacando como suas técnicas podem ajudar na resolução de conflitos familiares. O estudo qualitativo conclui que a mediação transforma relações familiares, solidificando vínculos afetivos e melhorando a comunicação. Os objetivos incluem analisar aspectos emocionais, técnicas de mediação e seus benefícios nas relações familiares em conflito.

Enviado por

anasofiamedinag
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

ARTIGOS

Parentalidade na mesa: a mediação em contexto de disputa de


guarda

Raquel Cavalcante dos Santos


Teresa Cristina Ferreira de Oliveira

Resumo: A presente pesquisa aborda a mediação e seus recursos no contexto de disputa de guarda, tendo como objetivo geral
identificar como suas técnicas podem auxiliar na resolução de conflitos dessa ordem. Foram objetivos específicos: analisar os as-
pectos emocionais que envolvem a dinâmica familiar em situação de conflito; apontar as técnicas que compõem um processo de
mediação; refletir acerca dos benefícios da mediação nas relações familiares que estejam enfrentando uma disputa de guarda.
É uma pesquisa de cunho qualitativo, exploratório e bibliográfico. A partir da análise dos materiais utilizados, foi possível concluir
que as técnicas de mediação podem ser transformadoras no processo de ressignificação das relações familiares, tornando seus
vínculos afetivos mais sólidos e a comunicação entre seus membros mais fortalecida.

Palavras-chave: Mediação; Relações familiares. Conflito.

Abstract: This research addresses mediation and its resources in the context of custody disputes, with the general objective of
identifying how their techniques can help in resolving conflicts of this order. The specific objectives were: to analyze the emotional
aspects that involve family dynamics in situations of conflict; point out the techniques that make up a mediation process; reflect on
the benefits of mediation in family relationships that are facing a custody dispute. It is a qualitative, exploratory and bibliographic
research. From the analysis of the materials used, it was possible to conclude that the mediation techniques can be transforming
in the process of reframing family relationships, making their affective bonds more solid and the communication between their
members more strengthened.

Keywords: Mediation; Family relationships. Conflict.

1 Introdução que é caracterizada pela negociação entre


os envolvidos a fim de se alcançar um acor-
A reestruturação familiar após um do satisfatório a ambos, com o suporte ou
contexto de separação/divórcio demanda não de uma terceira parte auxiliadora (DI-
um nível de energia emocional que muitas DIER, 2015).
vezes resulta em conflitos que interferem
na dinâmica relacional entre os pais e seus A mediação chega como instrumen-
filhos, caso os tenham. Os recursos comu- to que objetiva o empoderamento das par-
mente utilizados na comunicação entre os tes e estimula o fortalecimento do diálogo,
membros ali envolvidos nem sempre são conduzindo à construção de novos níveis de
sadios o bastante para evitarem o fortaleci- relação por meio do poder transformador
mento desses conflitos, resultando em uma que todo processo possui. A relevância e res-
desgastante disputa de guarda. pectiva justificativa para a realização da pre-
sente pesquisa evidencia-se ao se observar
A convivência com ambas as figuras os danos psíquicos e relacionais decorrentes
parentais primárias permite que a criança de uma relação familiar que está passando
tenha um desenvolvimento emocionalmen- por um contexto de reorganização pós-di-
te completo, além de ser um direito previs- vórcio e disputa de guarda.
to constitucionalmente. Entretanto, nem
sempre existe essa conscientização plena e É uma pesquisa construída a partir de
outras questões de ordem pessoal acabam revisão bibliográfica, de abordagem qua-
tomando o lugar de prioridade. Partindo-se litativa, tendo-se utilizado livros, artigos,
dessas premissas, questionamos: como a dissertações, teses e periódicos científicos
mediação pode auxiliar no processo de rees- publicados em bancos de dados entre 2015
truturação familiar em contexto de disputa e 2019, com exceção de referências concei-
de guarda? tuais e históricas.

Com a existência dos equivalentes A presente pesquisa tem como obje-


jurisdicionais, o Poder Judiciário encontra tivo geral identificar como as técnicas de
novas possibilidades para a resolução de mediação podem auxiliar na resolução de
demandas que o têm sobrecarregado, tais conflitos dessa ordem, e foram delineados
como a autotutela, a autocomposição e o como objetivos específicos: analisar os as-
julgamento de conflito por tribunais admi- pectos emocionais que envolvem a dinâmi-
nistrativos (solução estatal não jurisdicio- ca familiar em situação de conflito; apontar
nal). Destaca-se aqui a autocomposição, as técnicas que compõem um processo de

200
mediação; e refletir acerca dos benefícios da ma começou a modificar-se juntamente às
mediação nas relações familiares que este- demandas sociais emergentes, como apon-
jam enfrentando uma disputa de guarda. ta Teruya (2016, p. 1).
A História da Família, que no início da dé-
2 Breve histórico da evolução da família cada de setenta se apresentava com con-
tornos mal definidos e frequentemente
Desde tempos remotos, o ser humano confundida com o que se poderia ser con-
necessita de núcleos grupais para sobrevi- siderado alguma de suas partes, chegou
ver, de modo que seria inviável, psicologica- aos anos noventa renovada, movimentan-
mente falando, viver de forma isolada. Assim, do-se de uma visão limitada da família,
esse agrupamento de pessoas que compar- como uma unidade estática no tempo,
tilhava experiências entre si cotidianamen- para ser examinada como um processo
te passou a ser denominado de família. A ao longo da vida inteira de seus membros.
ideia de família tem origem muito anterior Passou do estudo das discretas estrutu-
à criação dos códigos, Direito e até mesmo ras domésticas para a investigação das
do poder do Estado e da Igreja, não sendo relações da família nuclear com o grupo
de parentesco mais vasto e do estudo da
associada a vínculos afetivos, inicialmente. A
família como uma unidade doméstica dis-
partir da elaboração do Código de Hamura- tinta para um exame da interação familiar
bi, a família passou a tomar forma específica com os mundos da religião, trabalho, edu-
e pré-determinada, devendo ser patriarcal cação, instituições correcionais e sociais e
e monogâmica, sendo legitimada somente com os processos tais como de migração,
após contrato (ARAÚJO et al., 2016). industrialização e urbanização.

Ao longo dos anos, as maneiras de se Assim sendo, o modelo nuclear que


pensar família têm se diversificado e am- estava sendo sustentado e percebido como
pliado suas as perspectivas de estruturação ideal de família começou a entrar em cri-
relacional se ampliado. Tantas mudanças se, visto que tal estrutura não correspon-
trouxeram, também, novas formas de con- dia mais à realidade social em mutação. As
flito que demandam muito mais que meros novas demandas do sistema social exigiam
arranjos de organização. Demandam um uma repaginada em todas as esferas, que
nível de compreensão mais flexível, escuta seguisse inflexível, ficaria para trás.
ativa constante e elaboração de novas possi-
bilidades de resolução dos conflitos ali exis- Como as definições de parentesco au-
tentes. xiliavam os indivíduos a se reconhecerem no
mundo, o modelo exclusivamente patriarcal
Após a Revolução Francesa, intensi- havia ganhado força, enquanto o Estado
ficou-se a busca pela igualdade entre ho- não estava, de fato, presente. Tal panorama
mens e mulheres, no entanto, o código de começou a modificar-se a partir do seu for-
Napoleão legitimou, mais uma vez, a supre- talecimento e execução dos seus devidos
macia do patriarcado e respectiva submis- papéis. Surgiu, então, a necessidade de am-
são das mulheres aos seus maridos. No que pliação das maneiras de se olhar a família,
se refere ao Brasil, a partir do século XIX co- que estaria, então, passando por transições
meçaram a surgir conceitos de família no di- significativas e recorrentes, conforme exigia
reito nacional, mantendo-se a concepção de o novo ritmo da estrutura social em voga.
que a mulher deveria ater-se às atividades No Brasil, as mudanças no contexto familiar
domésticas e à dedicação ao marido (ARAÚ- começaram a apontar depois de se perce-
JO et al., 2016). ber que, ao seguir rigidamente o modelo
patriarcal, outras formas de organização das
Com o desenvolvimento do poder da famílias eram desconsideradas, o que anu-
Igreja perante a sociedade, a importância laria outros arranjos ali formados que ca-
do casamento religioso obteve destaque racterizavam as maneiras de sobrevivência
nas famílias para que houvesse seu respec- encontradas pela população em constante
tivo reconhecimento, validação dos filhos e crescimento (TERUYA, 2016).
quaisquer outros ajustes que fossem neces-
sários. A existência de filhos era imprescin- Pensar família no Brasil remete a dois
dível, uma vez que sua função principal era momentos da história: o período de pós-co-
levar à geração futura os valores e a religião lonização, que enxergava a família a partir da
dos seus antecessores (MALUF & MALUF, sua relação com o Estado, tendo como foco
2018). de análise a sua estruturação como nação.
O núcleo familiar seria, então, um elemen-
No decorrer das décadas e com o ad- to básico da construção da identidade na-
vento da revolução industrial, esse panora-

Revista Eletrônica do CNJ, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2021 | ISSN 2525- 4502


201
cional. Como as classes dominantes tinham E assim é numa cultura consumista como
maior relevância para o comércio, eram os a nossa, que favorece o produto pronto
modelos de referência para as investigações para uso imediato, o prazer passageiro, a
sobre qual estrutura familiar representava o satisfação instantânea, resultados que não
exijam esforços prolongados, receitas tes-
país (MUAZE, 2016).
tadas, garantias de seguro total e devolu-
Em uma perspectiva atual, definir fa- ção do dinheiro, A promessa de aprender
mília deve ir para além da sua estrutura em a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa,
mas que se deseja ardentemente que seja
si, permeando também, aspectos afetivos
verdadeira) de construir a “experiência
que ligam os indivíduos envolvidos. Confor- amorosa” à semelhança de outras merca-
me aponta Araújo (et al. 2016, p. 186), dorias, que fascinam e seduzem exibindo
todas essas características e prometem
entidade familiar deve ser compreendida
desejo sem ansiedade, esforço sem suor e
como uma unidade envolvida por laços de
resultados sem esforço (BAUMAN, 2004, p.
afetividade, pois a família contemporânea
11).
é um grupo que busca concretizações pes-
soais e afetivas, e o indivíduo contemporâ-
Seguindo essa linha de pensamento,
neo prioriza seu bem-estar e suas relações
a estrutura do conflito também apresenta
afetivas, cabendo ao Estado e também ao
Direito ajustar-se a essa nova tendência. uma composição fluida e superficial em sua
causalidade, em que os cônjuges vivem em
A Carta Magna de 1988 considerou extremos, direcionando grandes esforços
oficialmente novas formas de união, não para evitar quaisquer tipos de conflitos (es-
exigindo como requisito o casamento pro- forço que, por si só, é gerador de mais con-
priamente dito e a Constituição Federal Bra- flito de ordem interna, mas que repercute
sileira, do mesmo ano, em seu art. 226, pará- negativamente na relação), ou, ainda, explo-
grafo 3º, afirma que “para efeito da proteção dindo em sua intolerância para os conflitos
do Estado, é reconhecida a união estável en- mais simples do cotidiano. De todo modo,
tre o homem e a mulher como entidade fa- em ambos os casos não há busca genuína
miliar , devendo a Lei facilitar sua conversão alguma para, de fato, resolvê-los.
em casamento”.
A busca pela individualidade e auto-
É a partir dos primeiros sinais do for- conhecimento também foram ideias for-
talecimento capitalista/industrial, que a afe- talecidas com os novos contextos sociais,
tividade ganha espaço, tornando-se uma comunicando que “os casamentos e desca-
espécie de alicerce para o núcleo familiar e samentos, as novas modalidades de uniões
se admitindo novas possibilidades de se re- conjugais refletem a busca da subjetividade
lacionar. (SANTOS, 2018). atual” (SANTOS, 2018, p. 24). Ainda no século
XX a chamada família moderna ganha um
Portanto, a própria transformação dos posicionamento no qual o seu núcleo é mais
modelos de família está intrinsecamente li- igualitário e inclui uma realidade sentimen-
gada às transições sociais que a sociedade tal em meio a moral e social. Mantém-se o
enfrenta. Ignorar essas transições e conti- papel da mulher como “rainha do lar”, no
nuar seguindo e exigindo um modelo ob- entanto a esfera laboral já demonstra suas
soleto de relacionamentos familiares tende novas demandas que, em breve levariam o
a gerar uma série de crises conflitivas entre patriarcado à decadência (TEIXEIRA, 2016).
ambos — família e sociedade — inviabilizan-
do o fortalecimento e a evolução destas. A família, da forma como vem se modifi-
cando e estruturando nos últimos tempos,
Com o passar dos anos e das mudan- impossibilita identificá-la como um mo-
ças em âmbito econômico-social, a ideia de delo único e ideal. Pelo contrário, se ma-
transitividade foi ganhando força, de modo nifesta como um conjunto de trajetórias
que os relacionamentos não foram imunes. individuais que se expressam em arranjos
Considerando-se que nada mais tem sido diversificados e em espaços e organiza-
ções domiciliares e peculiares (OLIVEIRA,
feito para durar e que a fluidez tão presen-
2009, p. 67).
te na contemporaneidade exige que tudo
chegue e parta com rapidez instantânea, Com o advento da possibilidade do
conforme Bauman (2004), as mais diversifi- divórcio, passou-se a ser cada vez mais fre-
cadas formas de experimentar relações têm quente modelos de famílias reconstituídas,
se evidenciado. que abarcava diversas estruturas e configu-
rações. Os papéis sociais dos homens e das
mulheres foram ressignificados e a busca
por relacionamentos satisfatórios a ambos

202
cresceu progressivamente (TEIXEIRA, 2016). turas, de maneira instantânea e multiface-
tada, de modo que acaba por influenciar na
A partir do surgimento de novas pers- dinâmica familiar, inclusive, na transmissão
pectivas de famílias, concomitantemente de valores aos seus filhos, caso os tenham.
novas interfaces de conflitos têm gerado
inquietações diferenciadas, demandando a Esses conflitos podem ter causalida-
construção de possibilidades de resolução des diversas: questões financeiras, tempo
desses conflitos que viabilizem às partes que investem em programações de lazer
uma posição de proatividade e protagonis- pessoal, filhos, responsabilidades domésti-
mo nas próprias histórias de vida. cas, etc. O adiamento na busca pela reso-
lução de cada conflito culmina em um acú-
2.1 Conflitos conjugais mulo de pendências afetivas que, ao longo
do tempo, fragiliza a relação, podendo vir a
Os conflitos na esfera conjugal tam- se romper.
bém passaram por mudanças ao longo dos
tempos e a análise destes precisa ser multi- Numa visão psicanalista, Thorstensen
fatorial, ou seja, seu estudo deve incluir a fre- (2017) comenta sobre a frequente relação
quência com que tais conflitos ocorrem, sua de amor e ódio simultâneos que se fazem
intensidade, a existência ou não de padrões, presentes em conflitos conjugais, utilizan-
entre outros fatores. Cada relacionamento do o exemplo das queixas de falta de aten-
possui sua dinâmica comunicacional, que, ção suficiente, comportamento comum de
por sua vez, interfere na maneira que as par- crianças em relação aos seus cuidadores pri-
tes lidam com os desafios cotidianos e, con- mários. Percebe-se, então, um padrão que
sequentemente, resolvem possíveis confli- aponta as “necessidades” afetivas como res-
tos. quícios das frustrações obtidas na primeira
infância, sendo tais necessidades semelhan-
A conceitualização de conflito conju- tes em ambos os momentos da vida do indi-
gal é bastante complexa, pois pode referir-se víduo no que se refere à sua expressividade.
desde discussões que podem ser resolvidas
facilmente, até situações mais graves como Essa ambivalência emocional percebi-
agressões, ameaças, entre outros. Partindo- da nas relações também comunica o medo
-se dessa premissa, Bolze (2016, p. 37) pensa do desamparo e da perda do objeto amado,
conflito conjugal como “quaisquer disputas, gerando ansiedades e conflitos aparente-
discordâncias ou expressões de emoções mente sem motivo.
contrárias aos assuntos cotidianos entre os o sentimento de desamparo que nasce
membros do casal”. junto com o humano e que se manifes-
ta desde as primeiras ansiedades de se-
O que definirá a densidade de um paração da mãe compare cerá, de
conflito serão os níveis de desacordo entre forma mais ou menos velada, nas relações
ambos, as tentativas de reparação e valida- amorosas da vida adulta, o que não é de
ção ou invalidação das colocações do côn- surpreender, dado que esta é uma substi-
juge bem como a abertura que se tem para tuição daquela. O medo da perda do ob-
elaborarem acordos. A consideração de fa- jeto amoroso é parte constituinte do vín-
tores socioculturais também é relevante, culo que se constroi (THORSTENSEN, 2017,
visto que a percepção das atribuições de p.106).
papéis na conjugalidade também influen-
Partindo-se desse pressuposto, vale
cia na gestão de conflitos (COSTA, CENCI &
ressaltar que os conflitos conjugais não são
MOSMANN, 2016).
isolados em seu conteúdo e em suas conse-
Cada conflito instalado apresenta em quências, mas possuem história pregressa
seu conteúdo aspectos de âmbito objetivo e culmina em cicatrizes futuras, a partir do
— o acontecimento em si — e emocional impacto exposto aos filhos e demais mem-
— que é o fator determinante para sua reso- bros do núcleo familiar. Assim, podemos en-
lução ou não. A criação de estratégias que tender que os conflitos, principalmente os
podem ser eficazes ou não para que tal re- não resolvidos, influenciam negativamente
solução seja alcançada com eficiência. na dinâmica relacional da família, que, por
vezes, encontra como solução final sua rees-
Como apontam Ferreira e Timbane truturação, o que nem sempre acontece de
(2019), o desenvolvimento da globalização e forma pacífica.
o aumento do uso das mídias audiovisuais e
tecnológicas estimulam o compartilhamen-
to de conteúdo vivenciado em outras cul-

Revista Eletrônica do CNJ, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2021 | ISSN 2525- 4502


203
3 Relações familiares diante do conflito podem afetar negativamente um relacio-
namento, contribuindo para que conflitos
É inevitável que haja conflitos em um se instalem de maneira mais frequente e
núcleo familiar, pois, como em qualquer ou- densa. A busca pelo equilíbrio entre a indi-
tro grupo de pessoas, sempre existirão per- vidualidade e a rotina da vida conjugal é um
sonalidades distintas com opiniões próprias exemplo de tema conflituoso recorrente e
e divergentes das de outros membros. O pa- que nem sempre os envolvidos conseguem
drão comunicacional existente nas dinâmi- encontrar um ponto de consenso minima-
cas familiares é um fator determinante para mente satisfatório a ambos.
que um conflito se perpetue ou seja resolvi-
do com brevidade. Como reflete Teixeira (2016), o ideal
contemporâneo de individualidade na vida
Padrões de comunicação que são in- conjugal, cuja perspectiva prega que não é
flexíveis a negociações ou que utilizam o necessária a existência de outra pessoa para
silêncio como recurso para “esquecer” o que sejamos completamente felizes, é so-
conflito tendem a ter maior dificuldade em mada à ideia de que sempre será possível
encontrar um denominador comum para encontrar alguém melhor, uma vez que o le-
resolvê-lo. Ao envolver outros membros da que de possibilidades é imenso e que esta-
família em discussões, como filhos, novos mos inseridos em um contexto de consumo
tipos de conflitos são iniciados. Podem-se instantâneo e sem freio em busca do novo.
usar como exemplo brigas que são presen-
ciadas por filhos, que acabam por gerar uma A partir do momento que as expectati-
situação de disputa de razão em que se ten- vas dos cônjuges não são satisfeitas eles
ta a todo custo provar quem está certo ou podem assumir uma crise conflituosa na
errado. Em momentos de tensões assim, a união, que, dependendo da maneira pela
qual os mesmos vão enfrentar esse de-
criança constrói uma imagem confusa so-
safio, podem não suportar tais questões.
bre seus pais que destoa do conceito inicial Consideramos que na atualidade é preciso
de bondade destes (FERREIRA; TIMBANE, que o casal venha a conciliar o novo modo
2019). de ser família, com a vida familiar e a rea-
lização pessoal. Isso pode não ser tarefa
O fato de problemas conjugais culmi- simples, pois é constituída por contradi-
narem em prejuízos no desenvolvimento ções e regida pela característica do neo-
dos filhos já é um conhecimento compar- liberalismo: o individualismo (OLIVEIRA,
tilhado socialmente, além de ser um fenô- 2009, p. 45).
meno estudado em diversas culturas. Em
meados dos anos de 1990, Erel e Burman Esse confronto de ideais leva, inclusi-
(1995 apud GOULART, et al., 2015) conduzi- ve, a conflitos intrapessoais, que também
ram uma pesquisa na qual se tinha como influenciam na conjugalidade. A diversida-
alvo a existência de ligação entre a qualida- de de objetivos, valores e metas pode servir
de conjugal e o comportamento parental. como um ponto positivo no relacionamento,
Tal pesquisa apontou que a afetividade con- estimulando o crescimento de ambos e seu
jugal reverbera, de fato, no relacionamento sistema familiar de modo geral, ou ainda,
dos pais para com seus filhos, sendo que tal pode servir para enfraquecer os vínculos ali
ligação foi denominada spillover. existentes por interpretarem as diferenças
como obstáculos para uma boa convivência.
Muitos dos conflitos gerados dentro
do núcleo familiar podem afetar as crianças 4 Conceito de parentalidade e
de maneira negativa não apenas dentro de multiparentalidade
casa, mas também na escola e na comuni-
dade em que vive (CHRISO, 2016). Assim, a Em um contexto histórico, a comu-
maneira como os filhos percebem que seus nidade científica conceitua parentalidade
pais lidam com os conflitos cotidianos in- como sendo “o estudo dos processos e ati-
fluencia diretamente no seu senso de segu- vidades parentais” (BARROSO; MACHADO,
rança emocional, como apontam Goulart (et 2010, p. 211), uma vez que espera-se que
al. 2015, p. 150) “Os conflitos que se expres- os genitores zelem pelo desenvolvimento
sam de uma forma construtiva promovem biopsicossocial dos seus filhos, auxiliando-
o senso de segurança emocional dos filhos, -os a tornarem-se adultos fortalecidos em
enquanto as formas negativas de manifes- suas potencialidades.
tação do conflito aumentam a insegurança
emocional”. A afetividade e sua concretização
por meio da externalização de atos é um
Uma infinidade de fatores sociais dos quesitos que se fortaleceu ao longo dos

204
anos quando o assunto é parentalidade, in- papéis parentais em si, em detrimento da
clusive no campo do Direito, que considera ligação por consanguinidade apenas, como
a proteção e os cuidados diversos direcio- lembra Vargas (2015, p. 173):
nados à criança como parte do princípio da
dignidade da pessoa humana. A noção de Foi nessa perspectiva de ampliação do
conceito de parentesco, para alcançar pes-
parentalidade advinda da perspectiva da
soas que exercem papeis parentais (ainda
Psicologia passou a fazer parte da comuni- que não ligadas por vínculos consanguí-
dade jurídica no que concerne ao exame de neos), que a noção de parentalidade foi
parentesco e filiação, referindo-se aos direi- concebida pelo Direito no contexto de fi-
tos e obrigações entre estes (VARGAS, 2015). liação socioafetiva. Essa possibilidade inte-
grou-se à concepção jurídica, no contexto
Com as constantes mudanças no ce- da proteção à criança, por meio do Decre-
nário sociocultural o modelo único de pa- to n. 99.710/90, que promulgou a Conven-
rentalidade deixou de ser exclusivo nas ção dos Direitos da Criança elaborada em
relações familiares, dando espaço a novas 20 de novembro de 1989, pela Assembleia
possibilidades, como a multiparentalidade, Geral da Nações Unidas - ONU, como Carta
que pode ser exemplificada pela existência Magna para as crianças de todo o mundo.
de três pessoas citadas no campo “filiação”
Assim, com tal inclusão pelo campo
na certidão de nascimento de uma criança,
do Direito, as mais variadas configurações
ou, ainda, o que se chama de “família re-
de família puderam desempenhar suas fun-
constituída”, na qual membros de famílias
ções com o devido reconhecimento jurídico
distintas se juntam para formar um novo
sem se prenderem a uma estrutura única
núcleo familiar.
e linear que as excluísse. Famílias monopa-
Tradicionalmente, a parentalidade rentais, homoafetivas, com pais adotivos,
era reconhecida somente com a formação padrastos e madrastas passaram a ser in-
de membros familiares unidos pelo matri- cluídas com os mesmos direitos parentais
mônio e que tivessem gerado filhos a partir tradicionais, antes delegados somente ao
deste, de modo que os direitos concedidos a modelo patriarcal.
esses não poderiam valer para demais filhos
Com relação ao contexto no qual a
gerados em outros relacionamentos, sendo
família está passando por um processo de
considerados ilegítimos (RIBEIRO & COSTA,
disputa de guarda, vale incentivar a reflexão
2018). No entanto, com a chegada da nova
acerca da possibilidade de serem construí-
Carta Constitucional, foram consideradas
das novas formas de se relacionar e seus
as conquistas das mulheres até então e as
benefícios posteriores para aquele núcleo
mudanças no panorama econômico, que,
familiar como um todo. Querer restringir os
por sua vez, interferiram nas dinâmicas de
papéis e as funções parentais a estruturas
estruturação familiar, o que consequente-
rígidas, por lei, pode ser algo que dificulte a
mente ampliou o conceito de família.
própria dinâmica relacional da família neo-
a grande transformação na família brasi- configurada, uma vez que existem variações
leira deu-se no sentido de transformar as em tais papéis e funções que não são passí-
entidades familiares, as quais abandonam veis de previsão e controle ao longo do tem-
sua principal característica de serem ape- po (VARGAS, 2015).
nas um núcleo econômico, com a finalida-
de precípua de proteger, transmitir e re- O despertar para novos níveis de per-
partir patrimônio. A família passa a existir cepção e consciência acerca do momento
enquanto lugar para a livre manifestação de remanejamento das funções parentais é
de afeto, como forma de valorizar o indiví- assumir que, embora o relacionamento con-
duo, núcleo central de proteção (RIBEIRO
jugal tenha terminado, outras formas de se
& COSTA, 2018, p. 12).
relacionar são possíveis e podem ser tão ou
Desse modo, os padrões rígidos que mais satisfatórias do que a forma anterior-
consideravam como família apenas aquela mente vivida, desde que ambos consigam
que fosse constituída por meio da paren- desenvolver a flexibilidade necessária para
talidade biológica e que visava a união de tal. A mediação pode servir como um instru-
economias foram dando espaço à multipa- mento eficiente para o desenvolvimento de
rentalidade, que prioriza a afetividade e o uma comunicação voltada à busca de solu-
indivíduo de modo integral, passando-se a ções para os conflitos vivenciados nesse nú-
considerar válidas também as famílias que cleo, como pode-se ver nas seções seguin-
tivessem formatos divergentes dos tradi- tes.
cionais, dando ênfase ao desempenho dos

Revista Eletrônica do CNJ, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2021 | ISSN 2525- 4502


205
5 A mediação como instrumento de pela mediação, tem-se um nível de satisfa-
resolução de conflitos familiares ção mais completo pelas partes envolvidas,
um processo mais célere e relações familia-
A mediação como instrumento em
res mais consistentes, mesmo em fase de
fase de desenvolvimento, focando-se aqui
mudanças tão significativas, que deman-
na esfera familiar, tem encontrado como
dam escuta e diálogo flexíveis.
desafio principal a junção das vontades dos
cônjuges em situação de separação/divórcio
e o conceito jurídico de superior interesse da 5.1 Breve histórico sobre a mediação
criança para a formulação de um acordo sa-
Desde tempos remotos, os mais varia-
tisfatório.
dos povos buscam formas alternativas de
Em um nível global, reconhece-se que, mediação para dirimir conflitos civis, políti-
apesar dos resultados positivos notórios, a cos, familiares e de outras ordens, visto que
mediação familiar necessita de maior forta- estes fazem parte das relações interpessoais
lecimento científico a fim de se aprofundar humanas. A negociação autocompositiva foi
e se firmar nos aspectos teóricos e práticos, ganhando espaço ao priorizar-se o exercício
como apontam Ribeiro, Matos & Pinto (2014), do respeito mútuo pela diversidade de opi-
uma vez que suas fontes-base se originam niões, em detrimento de guerras e disputas
da Psicologia, do Direito e do Serviço Social. que resultavam em mortes e prejuízos de
alta escala para essas populações.
De facto, perante o aumento de divórcios
e a consequente complexidade das ten- milenarmente, outras culturas, como a ju-
sões familiares, começou a constatar-se a daica, a japonesa, a cristã, a islâmica a hin-
necessidade de aliar saberes como forma du e a budista também propagaram a me-
de atender e de abordar as questões fami- diação como a forma mais adequada para
liares de uma maneira mais eficaz. Então, a solução de controvérsias. Vários grupos
alguns profissionais que desenvolviam a étnicos e minorias religiosas, no decorrer
sua atividade na área da família começa- da história se utilizaram de meios alternati-
ram, nos Estados Unidos da América, a de- vos para resolver os conflitos de interesses
senvolver projetos de Mediação Familiar, entre seus membros, com o intuito de pre-
procurando articular contributos nomea- servar seus princípios e se opor aos valores
damente dos campos do Direito e da Psi- impostos pela maioria governante (RUIZ &
cologia (RIBEIRO, MATOS & PINTO, p. 34). NUNES, 2014, p. 71).

Vale refletir que, conforme a media- As práticas mediativas extrajudiciais


ção na esfera familiar se desenvolve, mes- passaram a se desenvolver de forma mais
mo tendo como alicerce o cruzamento de significativa a partir da década de 1970, nos
conhecimentos distintos, tende-se a ganhar Estados Unidos ao perceber-se o aumento
mais espaço como campo autônomo, pois no número de litígios familiares que o sis-
suas contribuições práticas têm construído tema judiciário não estava “dando conta”,
uma nova modalidade de conhecimentos além da insatisfação por parte da população
novos no que se refere à gestão de conflitos. e até de advogados (RIBEIRO, MATOS & PIN-
TO, 2014).
O art. 165 do CPC, em seu parágrafo 3º,
prevê que o mediador deverá atuar prefe- Também, nesse momento histórico, já
rencialmente nos casos em que houver vín- havia mecanismos de resolução de contro-
culo anterior entre as partes, auxiliando-as a vérsias nas esferas trabalhista e comunitária
entenderem os interesses ali envolvidos por e seus resultados bem-sucedidos impulsio-
meio do restabelecimento da comunicação nava cada vez mais sua prática, tanto pela
e encontrem soluções consensuais benéfi- redução de custos para os envolvidos quan-
cas a ambos. to pela reparação das relações sociais (BRA-
SIL, 2016).
Ressalta-se que, em caso de disputa
de guarda, mesmo havendo acordo firmado Estava se tornando cada vez mais fre-
entre os membros parentais, existe a neces- quente a manifestação de insatisfação das
sidade de colocações do Ministério Público, partes litigantes quanto às decisões toma-
uma vez que há o envolvimento de uma das jurisdicionalmente, insatisfação esta
criança ou adolescente nesse contexto, de- que estendia-se, também, para a questão da
vendo, prioritariamente, ser assegurados os falta de celeridade e altos custos dos proces-
seus direitos (CHRISO, 2016). sos. Segundo Ruiz e Nunes (2014), inúmeros
estudos apontam que o nível de satisfação
Assim sendo, ao unir os aspectos le- das partes componentes do processo esta-
gais necessários ao resultado alcançado va diretamente relacionado com a percep-

206
ção de que estes puderam se envolver nas cação entre as partes como propulsora de
escolhas dos procedimentos utilizados para mudanças e, consequentemente, alcança-
se alcançar a solução do conflito em voga. vam-se soluções para os conflitos em pau-
ta. O modelo transformativo foi mais uma
A Lei da Mediação, n. 13.140/15, surgiu possibilidade de mediação, segundo o qual
para consolidar as técnicas de resolução de o conflito, na verdade, não se resolve, apenas
conflitos consensuais e é reconhecida com se transforma por meio da mudança nas re-
um marco no avanço desses métodos. O lações entre as partes (NETO, 2010).
novo Código de Processo Civil, em 2015, tor-
nou obrigatórias as audiências de concilia- Todos esses modelos foram sendo
ção e mediação, o que também tem incen- aperfeiçoados e representam a mediação
tivado a busca pela resolução de conflitos tal como ela é hoje e tal como continua se
autocompositiva. aperfeiçoando em busca das melhores for-
mas de empoderar a sociedade a fim de
Vale frisar que a mediação, como elemen- que consigam resolver seus impasses por
to característico dos juizados de pequenas
meio da comunicação e da escuta genuína,
causas nos Estados Unidos, fortemente in-
fluenciou o legislador brasileiro a ponto de
ativa.
este incluir a conciliação em seu sistema
dos juizados especiais. Todavia, a autocom- 5.2 As técnicas e procedimentos da
posição prevista pelo legislador brasileiro mediação
na Lei n. 9.099/1995 se distinguiu signifi-
cativamente daquela prevista no modelo O processo de mediação, embora
norte-americano em razão de dar menor tenha como uma das suas características
ênfase às técnicas e ao procedimento a principais a busca pela resolução do conflito
ser seguido bem como ao treinamento por meio de acordos construídos a partir da
(...) e, atualmente, ao maior componen- negociação entre as partes envolvidas, pos-
te transformador das mediações. Sobre sui técnicas e procedimentos norteadores.
esse componente, os professores Robert O Manual de Mediação Judicial do Conselho
Baruch Bush e Joseph Folger sustentam
Nacional de Justiça (2016, p. 20) descreve a
que deve ser considerada como objetivo
da autocomposição e, indiretamente, de
mediação da seguinte maneira:
um sistema processual, a capacitação (ou (...) uma negociação facilitada ou catalisada
empoderamento) das partes (e educação por um terceiro. Alguns autores preferem
sobre técnicas de negociação) para que definições mais completas sugerindo que
essas possam, cada vez mais, por si mes- a mediação é um processo autocomposi-
mas compor seus futuros conflitos (BRA- tivo segundo o qual as partes em disputa
SIL, 2016, p. 27). são auxiliadas por uma terceira parte neu-
tra ao conflito ou por um painel de pessoas
Embora já fosse uma prática antiga
sem interesse na causa, para se chegar a
nos meios forenses, a mediação de fato pre- uma composição. Trata-se de um método
cisava de uma regulamentação específica de resolução de disputas no qual se desen-
que validasse sua aplicação e pudesse pro- volve um processo composto por vários
porcionar maiores benefícios à sociedade, atos procedimentais pelos quais o(s) ter-
representando alternativas para os litígios ceiro(s) parcial(is) facilitam) a negociação
existentes, sem, contudo, negar o Poder Ju- entre as pessoas em conflito, habilitando-
diciário (CABRAL, 2017). -as a melhor compreender suas posições
e a encontrar soluções que se compatibi-
Ao analisar o conflito bem como as lizam aos seus interesses e necessidades.
concepções das partes sobre o ocorrido, o
processo mediativo deverá buscar nas bases Conforme direciona a Lei de Mediação
teóricas da psicologia, sociologia, antropolo- (2015), a prática da mediação deve ser regida
gia, física quântica e demais conhecimen- por determinados princípios, sendo estes,
tos afins o preparo necessário para que sua respectivamente: I) imparcialidade do me-
aplicação seja eficiente no alcance dos seus diador; II) isonomia entre as partes; III) ora-
objetivos (BACELLAR, 2016). lidade; IV) informalidade; V) autonomia da
vontade das partes; VI) busca do consenso;
O primeiro modelo de mediação era VII) confidencialidade; VIII) boa-fé.
pautado na negociação cooperativa, na
qual se buscava os interesses e as necessi- É fundamental que o mediador, ao ter
dades das partes que as colocavam em posi- seu primeiro contato com as partes em con-
ções contrárias, dificultando a resolução do flito, tenha a percepção de que ambas estão
conflito. Posteriormente, surgiu o modelo atravessando um momento de desequilí-
Circular Narrativo, que colocava a comuni- brio emocional e aja de modo a auxiliá-las

Revista Eletrônica do CNJ, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2021 | ISSN 2525- 4502


207
a reagir ao conflito de uma maneira mais entender…” ou “Pelo que entendi…”. Assim,
eficaz, voltando suas atenções à resolução entre os benefícios alcançados está o re-
deste. Se as partes mudarem suas formas conhecimento, por parte do outro, de que
de perceberem o conflito a partir da abor- naquele ambiente existe a busca para que
dagem adequada por parte do mediador, suas falas sejam ouvidas e entendidas, de
todo o processo pode se tornar mais célere modo que, se houver erros de interpretação,
e construtivo (BACELLAR, 2016). o outro poderá corrigir.

O Manual de Mediação (2016) supra- A despolarização do conflito é outra


citado, aborda, ainda, os seguintes procedi- técnica na qual o mediador conscientiza as
mentos e técnicas que irão compor as suas partes, sempre que necessário, de que am-
sessões: bas têm interesse em alcançar a solução do
conflito e a melhor forma de resolução pode
• O início da sessão – momento no qual vir delas mesmas, quebrando-se o paradig-
o mediador apresenta-se às partes e ma de que é sempre necessário que um ter-
pergunta como desejam ser chama- ceiro o faça; tem-se a técnica do afago, que
das, além de explicar o passo a passo é um recurso que pode ser utilizado tanto
da mediação, estabelecendo o tom por meio de palavras quanto por linguagem
comunicacional apropriado a ser uti- corporal, uma vez que seu objetivo é esti-
lizado por ambos; mular o avanço da formulação do acordo; e,
• Reunião de informações – quando o ainda, a técnica da inversão de papéis, que
mediador coloca em prática a escu- busca incentivar as partes a analisarem a
ta ativa das partes e, posteriormente, situação sob o ponto de vista um do outro
direciona-lhes questionamentos que (SPENGLER, 2014).
o auxiliarão a identificar possíveis as-
pectos do conflito que não estejam Ressalta-se que cada caso vai deman-
sendo evidenciados, a priori; dar um ritmo específico, com a utilização de
técnicas específicas a serem desenvolvidas,
• Identificação de questões, interes-
visto que conflito algum segue uma rota li-
ses e sentimentos – nesse momento,
near com a construção de soluções a partir
o mediador fará uma espécie de re-
de um único ponto de vista compartilhado
sumo acerca de tudo o que foi dito
harmoniosamente.
sobre o conflito, atentando-se para
manter sempre uma linguagem posi-
tiva e neutra, de modo que as partes 6 Os benefícios da mediação no aumento
verifiquem se tudo o que foi explicita- da qualidade das relações intrafamiliares
do, foi compreendido; Em uma abordagem histórica, à mu-
• Esclarecimento das controvérsias e lher sempre foi direcionada a função dos
dos interesses – por meio de técni- cuidados com a casa e os filhos, enquanto
cas específicas, o mediador elaborará aos homens cabia a função de prover ali-
perguntas às partes visando o esclare- mentos e demais bens materiais. mantendo
cimento das controvérsias existentes; um certo nível de afastamento das questões
• Resolução de questões – após o devi- afetivas familiares, o que culminou, geração
do alcance da compreensão do con- pós geração, no despreparo masculino para
flito, o mediador poderá conduzir as desempenhar funções de maternagem.
partes a construírem e analisarem
Com as mudanças no panorama fami-
possíveis soluções;
liar, o homem tem se tornado mais ativo em
• Registro das soluções encontradas – sua participação no desenvolvimento dos fi-
após as partes confirmarem a melhor lhos e o advento da guarda compartilhada
solução alcançada e satisfatória a am- como ordenamento jurídico fortalece ainda
bas, caso desejem, será redigido um mais essa participação (MELO & OLIVEIRA,
acordo escrito que, em caso de im- 2017). No entanto, tais mudanças trouxeram
passe, haverá uma nova revisão dos um novo tipo de conflito intrafamiliar que
seus interesses e questões. desafiou os padrões de relacionamento até
Entre as técnicas podemos apontar então comuns, de modo que o sistema judi-
ainda, conforme Spengler (2014), a paráfra- ciário precisou intervir cada vez mais nessas
se, que também compõe a etapa do resu- questões, resultando em um congestiona-
mo, facilitando o entendimento acerca do mento denso e contínuo.
que foi dito pelas partes. Geralmente, o me- O crescimento da mediação fami-
diador inicia com frases como “Me ajude a liar tem dado um suporte satisfatório para

208
a reestruturação da comunicação entre formas de se relacionar também precisaram
os membros da família por lhes propiciar a se repaginar, de modo que atendessem às
construção, por si só, das possíveis formas novas demandas. Como acontece em todo
de acordo e resolverem conflitos diversos, processo de mudança, o desconforto e uma
empoderando-se. Os benefícios que a me- série de conflitos surgem e requerem uma
diação pode trazer para esse campo estão solução imediata, virando uma disputa de
diretamente alinhados com o objetivo prin- razão e poder desencadeada por egos feri-
cipal da guarda compartilhada: cuidar dos dos e sentimentos frustrados. Em um con-
vínculos afetivos familiares (CHRISO, 2016). texto conflitivo que envolve a disputa pela
guarda dos filhos, por vezes, as partes estão
Desse modo, a manutenção desses tão envolvidas nos próprios pontos de vista,
vínculos por meio da comunicação estimu- tão focadas em alcançar a derrota do outro,
lada na mediação pode ser capaz de trans- que não se permitem pensar outras possibi-
formar as formas de interação intrafamiliar lidades que poderão ser satisfatórias a am-
e minimizar os conflitos não só referentes a bas.
questões de guarda, mas a outros que, por-
ventura, venham surgir. Assim, a mediação aponta como uma
ferramenta que exercita a comunicação e a
Outro benefício de extrema relevân- escuta ativa entre as partes e o mediador,
cia proporcionado pela prática da mediação que norteará de modo imparcial todo esse
nas relações familiares diz respeito ao fato processo por meio da utilização de técnicas
de que o desenvolvimento de crianças que específicas que as auxiliarão a construir o
crescem em meio a um ambiente familiar melhor acordo possível.
no qual o diálogo e a afetividade são presen-
tes é muito mais saudável, o que irá repercu- Com o exercício da autocomposição,
tir em seus futuros relacionamentos e esco- as relações familiares que se encontram em
lhas, como lembra Chriso (2016). situação de conflito pela disputa de guarda
poderão se fortalecer, uma vez que, com o
Sem dúvidas, o sistema “ganha-ga- suporte do mediador, os membros litigan-
nha” da mediação é mais um ponto positivo tes terão espaço para ouvir e serem ouvidos,
que possui, conforme Melo e Oliveira (2017, ampliarão suas percepções a respeito da si-
p. 381): tuação e elaborarão novas perspectivas de
Interessa à mediação que não exista um convivência priorizando as funções paren-
vencedor e um perdedor, pois, ao contrário tais, sem deixar de conduzirem suas vidas
do processo judicial, não trata-se de uma a partir dos seus novos objetivos, sonhos e
disputa entre oponentes. não há de se falar vontades.
numa decisão dada por uma autoridade,
tendo em vista que a solução, sendo esta Referências
agradável a ambas as partes, é por elas
convencionada. A autocomposição carac- ARAÚJO, A. et al. O pluralismo familiar e a
teriza-se por proporcionar satisfação múl- liberdade de constituição de uma comu-
tipla.
nhão da vida familiar. Judicare. Alta Floresta
Portanto, dar espaço para que os pró- - Mato Grosso, v.9, n.1, p.182-191, 2016. Disponí-
prios membros da família abordem sobre vel em: [Link]
seus sentimentos e necessidades, por vezes php/judicare/article/view/42. Acesso em: 14
escondidos atrás do conflito aparente, é per- jan. 2020.
mitir que se tornem mais abertos a novas BACELLAR, R. P. Mediação e arbitragem. 2ª
possibilidades de se relacionar sem precisar ed. São Paulo: Saraiva, 2016.
permanecer nos extremos cultivados pelo
litígio; é plantar a semente do respeito e da BARROSO, R. G. MACHADO, C. Definições,
empatia para que as gerações futuras pos- dimensões e determinantes da parenta-
sam resolver seus conflitos de uma manei- lidade. Psychologica. Portugal, v.52, n.1,
ra pacífica, visando o bem comum a todos, p.211-229, 2010. Disponível em: [Link]
sem precisar ferir o outro para satisfazer o [Link]/psychologica/article/
próprio ego. view/996. Acesso em: 12 fev. 2020.
BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilida-
6 Considerações Finais de dos laços humanos. 1ª ed. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2004.
Com as frequentes mudanças no pa-
norama familiar ao longo dos anos — des- BOLZE, S. D. A. Táticas de resolução de con-
de o modelo único aceitável patriarcal —, as flitos conjugais e parentais: uma perspecti-

Revista Eletrônica do CNJ, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2021 | ISSN 2525- 4502


209
va da transmissão intergeracional. 2016. 165 nível em: [Link]
f. Tese (Doutorado) - Universidade Federal php/fragmentos/article/view/7299. Acesso
de Santa Catarina, Florianópolis. 2016. Dis- em: 30 jan. 2020.
ponível em: [Link]
GOULART, V. R. et al. Repercussões do confli-
le/123456789/177760. Acesso em: 31 jan. 2020.
to conjugal para o ajustamento de crianças
BRASIL, Conselho Nacional de Justiça. Aze- e adolescentes: um estudo teórico. Intera-
vedo, A. G, (org.). Manual de Mediação Ju- ção em Psicologia. Curitiba, v.19, n.1, p.147-
dicial. 6ª ed. Brasília: Conselho Nacional de 159. 2015. Disponível em: [Link]
Justiça, 2016. Disponível em: [Link] br/psicologia/article/view/35713/29078. Aces-
[Link]/wp-content/uploads/2015/06/ so em: 15 fev. 2020.
[Link].
MALUF, C. A. D. MALUF, A. C. R. Curso de
Acesso em: 10 fev. 2020.
Direito de Família. 3ª ed. São Paulo: Saraiva
BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Educação, 2018.
Código de Processo Civil. Diário Oficial da
MELO, C. C. M. OLIVEIRA, I. F. B. Mediação e
União. Brasília - DF. 17 de mar. 2015. Disponí-
direito de família: a autocomposição no con-
vel em: [Link]
texto da guarda compartilhada. In: II EMPE-
ato2015-2018/2015/lei/[Link]. Acesso em:
JUD - Encontro de Pesquisas Judiciárias das
20 fev. 2020.
Escola Superior da Magistratura do Estado
BRASIL. Lei n. 13.140 de 26 de junho de 2015. de Alagoas. 2017, Alagoas. Anais eletrônicos.
Dispõe sobre a mediação entre particulares Alagoas: Poder Judiciário de Alagoas, 2017.
como meio de solução de controvérsias e Disponível em: [Link]
sobre a autocomposição de conflitos no âm- [Link]/exmpteste01/article/view/239/143.
bito da administração pública. Diário Ofi- Acesso em: 28 dez. 2019.
cial da União. Brasília - DF. 29 de jun. 2015.
MUAZE, M. Pensando a família no Brasil:
Disponível em: [Link]
ganhos interpretativos a partir da micro-
ccivil_03/_ato2015-2018/2015/Lei/[Link].
-história. Confluenze. Bolonha, v.8, n.1, p.10-
Acesso em: 20 fev. 2020.
27, 2016. Disponível em: [Link]
CABRAL, T. N. X. A evolução da conciliação [Link]/article/view/6247. Acesso em: 18 jan.
e da mediação no Brasil. Revista Fonamec. 2020.
Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.368-383. 2017. Dispo-
NETO, A. B. Mediação de conflitos: prin-
nível em: [Link]
cípios e norteadores. Revista da Facul-
tas/fonamec/volumes/volumeI/revistafona-
dade de Direito Uniritter. Porto Alegre,
mec_numero1volume1_368.pdf. Acesso em:
v. 11, p.19-46, 2010. Disponível em: https://
8 fev. 2020.
[Link]/[Link]-
CHRISO. C. M. A guarda compartilhada e ments/38763675/[Link]?res-
a mediação familiar como forma de rees- ponse-content-disposition=inline%3B%20
truturar os partícipes do núcleo familiar. filename%3DMediacao_de_Conflitos_Prin-
In: XII Seminário Nacional de Demandas cipios_e_Norte.pdf&X-Amz-Algorithm=A-
Sociais e Políticas Públicas na Sociedade WS4-HMAC-SHA25 6&X-Amz-Credential=-
Contemporânea. 2016, Santa Cruz do Sul. AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A%2F20200227%-
Anais eletrônicos. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2Fus-east-1%2Fs3%2Faws4_reques-
2016. Disponível em: [Link] t&X-Amz-Date=20200227T191545Z&X-Amz-E
br/acadnet/anais/[Link]/snpp/article/ xpires=3600&X-Amz-SignedHeaders=host&X-Amz-Signature=-
view/14699/3120. Acesso em: 22 fev. 2020. 7ce1878f1520da77d405c8e754fbf7853f2aa-
9db0a18182405d0920394b29378. Acessado
COSTA, C. B. CENSI, C. M. B. MOSMANN, C. P.
em: 10 fev. 2020.
Conflito conjugal e estratégias de resolução:
uma revisão sistemática da literatura. Te- OLIVEIRA, N. H. D. Recomeçar: família, filhos
mas em psicologia. Rio Grande do Sul, v.24, e desafios. 2009. 219 f. Tese (Doutorado) -
n.1, p.325-338. 2016. Disponível em: https:// Universidade Estadual Paulista, Franca, São
[Link]/pdf/5137/[Link]. Paulo, 2009. Disponível em: [Link]
Acesso em: 25 jan. 2020. [Link]/Home/Pos-graduacao/Ser-
vicoSocial/tese_nayara_pdf.pdf. Acesso em:
DIDIER JR., F. Curso de Direito Processual
1º fev. 2020.
Civil. 17ª ed. Salvador: Juspodivm, 2015.
RIBEIRO, A. C. R. COSTA, A. M. R. A carta
FERREIRA, L. B. TIMBANE, A. A. Relações
constitucional e o surgimento da multipa-
conjugais: conflitos e influências comporta-
rentalidade, In: MELO, A. M. MENDES, G. S.
mentais sobre os filhos. Fragmentos de cul-
C. (orgs). Ensaios e reflexões sobre o direito.
tura. Goiás, v.29, n.2, p.276-292. 2019. Dispo-

210
Volume 2. Porto Alegre - RS: Editora Fi, 2018.
RIBEIRO, M. T. MATOS, P. T. PINTO, H. R. Me-
diação familiar: contributos de investiga-
ções realizadas em Portugal. 1ª ed. Lisboa:
UCE Editora, 2014.
RUIZ, I. A. NUNES, T. Z. D. Breves reflexões
acerca da mediação segundo a regula-
mentação do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ). Revista Direitos Sociais e Políticas
Públicas. São Paulo, v.2, n.1, p.64-92, 2014.
Disponível em: [Link]
revista/[Link]/direitos-sociais-politicas-
-pub/article/view/22. Acesso em: 2 fev. 2020.
SANTOS, L. P. A família contemporânea e a
busca da compreensão de novos paradig-
mas a partir da família de Marta, Maria e
Lázaro. 2018. 80 f. Dissertação (Mestrado) -
Faculdade EST, São Leopoldo, Rio Grande
do Sul. 2018. Disponível em: [Link]
[Link]/jspui/handle/BR-SlFE/976.
Acesso em: 1º fev. 2020.
SPENGLER, F. M. Retalhos de mediação. 1ª
ed. Santa Cruz do Sul - RS: Essere nel Mondo,
2014.
TERUYA, M. T. A família na historiografia
brasileira: bases e perspectivas teóricas.
2016. Disponível em: [Link]
br/~abeporgb/publicacoes/[Link]/anais/
article/viewFile/1041/1006. Acesso em: 20 jan.
2020.
TEIXEIRA, A. Honra ao casamento: a dança
(des)compassada do “eu” com o “nós”, In:
GUIMARÃES, N. V. (org). Morte, Renasci-
mento e Honra: Psicologia Sistêmica. 1ª ed.
Itabuna - BA: Mondrongo, 2016.
THORSTENSEN, S. A indisponibilidade se-
xual da mulher como queixa conjugal: a
psicanálise de casal, o sexual e o intersubje-
tivo. 1ª ed. São Paulo: Blucher, 2017.
VARGAS, H. L. Filhos do coração: o reconhe-
cimento jurídico da multiparentalidade nas
famílias neoconfiguradas no Brasil. 2015.
284 f. Tese (Doutorado) - Universidade Ca-
tólica do Salvador, Salvador, Bahia. 2015. Dis-
ponível em: [Link]
dle/123456730/155. Acesso em: 21 fev. 2020.

Raquel Cavalcante dos Santos


Psicóloga, Especialista em Psicologia Conjugal e Familiar; Supervisora do Programa Primeira Infância no SUAS e
Presidente do Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente, ambos na cidade de Aporá, Bahia.

Teresa Cristina Ferreira de Oliveira


Advogada; Doutoranda em Família na Sociedade Contemporânea, Mestre em Família na Sociedade Contemporânea;
Mediadora de conflitos; Especialista em Família, Relações Familiares e Contextos Sociais.

Revista Eletrônica do CNJ, v. 5, n. 1, jan. / jun. 2021 | ISSN 2525- 4502


211

Você também pode gostar