Capítulo 7 — O Mundo Seguiu Sem Testemunhas
Luísa demorou a aceitar que o mundo não devia explicações.
Durante semanas — talvez meses — ela aguardou algum tipo de confirmação tardia. Não
um evento grandioso, nem uma ruptura visível, mas algo mínimo: um sonho mais nítido,
uma sensação mais insistente, um erro claro na lógica do cotidiano. Nada veio. A realidade
se manteve estável, correta demais para ser questionada, e isso a desconcertou mais do
que qualquer absurdo que já tivesse vivido.
A vida se organizou ao redor dessa estabilidade. O trabalho ocupava horas suficientes para
manter os pensamentos alinhados. As pessoas ao redor eram funcionais, previsíveis,
educadas. Conversas tinham começo, meio e fim. Ninguém parecia carregar mundos nas
costas. Luísa aprendeu a imitar isso com competência.
Ainda assim, havia falhas discretas.
Não eram memórias. Eram resíduos.
Às vezes, ao segurar um objeto quente, seu reflexo era soltar antes da dor chegar — como
se o corpo se lembrasse de regras antigas que não valiam mais ali. Outras vezes, percebia
padrões em coisas banais: símbolos repetidos em anúncios, curvas familiares em fachadas,
um tipo específico de silêncio que surgia em lugares abandonados.
Ela não investigava.
Entendera, enfim, que procurar respostas era uma forma de permanecer presa.
Certa noite, voltando para casa depois de um dia especialmente comum, Luísa parou diante
de um semáforo fechado. Enquanto esperava, teve a sensação estranha de que o tempo
havia se expandido ligeiramente. Não parou. Não quebrou. Apenas demorou um pouco
mais para seguir adiante.
Nesse intervalo mínimo, lembrou-se de Marina.
Não da versão idealizada. Não da mulher transformada. Lembrou-se da Marina real: do
desdém, da rigidez, do jeito pouco gentil de existir. E percebeu, com uma clareza tranquila,
que nunca fora sobre amor. Fora sobre projeção. Sobre enxergar no outro uma
possibilidade de si mesma que ainda não tinha forma.
O semáforo abriu.
Luísa atravessou.
Dias depois, sonhou pela última vez.
No sonho, não havia cenário definido. Apenas uma sensação de presença — não
observadora, não ativa. Algo que simplesmente existia junto dela. Não houve diálogo. Não
houve escolha. Apenas coexistência breve, suficiente para que Luísa entendesse que não
estava sendo chamada.
Acordou sem sobressalto.
O corpo parecia inteiro. Não curado — inteiro. A diferença era sutil, mas essencial. Não
havia mais expectativa de retorno. Não havia porta entreaberta. O que restara não exigia
ação.
Passando pela antiga lanchonete semanas depois, percebeu que o prédio fora vendido.
Operários removiam o interior, desmontando balcões, arrancando fios, apagando marcas de
uso. Aquele espaço, que um dia parecera centro de tudo, agora era apenas estrutura.
Luísa observou por alguns minutos.
Não sentiu perda.
Sentiu fechamento.
Seguiu andando.
O mundo não tremeu. Nenhuma fenda se abriu. Nenhum monstro escolheu atravessar. As
ruas continuaram cheias, o céu manteve sua cor previsível, e o tempo avançou como
sempre fizera.
Luísa compreendeu, enfim, que o extraordinário não havia sido o outro mundo — mas o fato
de ter voltado sem precisar se despedaçar para isso.
Algumas experiências não deixam lições claras.
Deixam limites.
Ela aprendeu o seu.
E, com isso, viveu.
Sem testemunhas.
Sem promessas.
Sem necessidade de voltar a dormir para existir.