Capítulo 6 — Coisas Que Não Voltam Inteiras
Luísa aprendeu que sobreviver não era o mesmo que retornar.
O corpo funcionava. Os exames diziam isso com clareza. O traumatismo havia deixado
cicatrizes internas, algumas dores de cabeça persistentes, lapsos de memória seletivos.
Nada grave. Nada que impedisse uma vida considerada normal. Ainda assim, havia uma
diferença difícil de explicar — como se parte dela tivesse ficado do outro lado de uma porta
que se fechara sem fazer barulho.
O mundo seguiu adiante com a eficiência cruel de quem não pede opinião.
Os dias passaram em blocos organizados: acordar, trabalhar, comer algo rápido, dormir.
Luísa trocou a lanchonete por um emprego administrativo qualquer, onde ninguém fazia
perguntas pessoais e o café tinha gosto de papel. O ambiente era limpo demais, previsível
demais. Seguro. E talvez fosse isso que mais a incomodava.
Às vezes, no meio da rotina, ela tinha a sensação estranha de estar sendo observada —
não por alguém, mas por algo. Não vinha acompanhada de medo. Era mais como um
desconforto lógico, semelhante a perceber um erro num cálculo que ninguém mais notou. O
mundo parecia correto demais. Bem encaixado demais.
As noites eram piores.
Os sonhos não tinham narrativa. Não havia monstros, nem perseguições, nem versões
alternativas de pessoas conhecidas. Eram apenas espaços vastos e silenciosos, cheios de
expectativa. Luísa acordava com a sensação de que algo estava prestes a acontecer — e
nunca acontecia. O corpo despertava, mas a mente ficava suspensa por alguns segundos,
como se ainda estivesse esperando autorização para voltar completamente.
Ela tentou falar sobre isso uma vez, em consulta. O médico anotou algo, assentiu com
empatia treinada e usou palavras como “processo de adaptação” e “resíduo traumático”.
Luísa concordou. Era mais fácil aceitar explicações funcionais do que insistir em algo que
não tinha vocabulário adequado.
A antiga lanchonete permaneceu fechada por semanas antes de reabrir sob nova direção.
Luísa passava em frente quase todos os dias, sempre do outro lado da rua. Não sentia
pânico. Não sentia saudade. Sentia apenas a estranha certeza de que entrar ali seria uma
forma de desrespeito — como visitar um lugar que já não a reconhecia.
Marina nunca apareceu.
Luísa viu seu nome uma única vez, mencionado por alguém que comentava sobre
ex-funcionários. Nada além disso. Não houve reencontro. Não houve encerramento
simbólico. E, surpreendentemente, isso não doeu como ela imaginara. Algumas histórias
não pedem conclusão. Apenas cessam.
Certa noite, ao chegar em casa, Luísa percebeu algo diferente no próprio reflexo. Não foi
imediato. Foi um atraso mínimo, quase imperceptível, entre o gesto e a imagem. Um
segundo em que os olhos no espelho pareceram brilhar em um tom que não existia na
iluminação do quarto.
Ela piscou.
Tudo voltou ao normal.
Ainda assim, o coração acelerou — não por medo, mas por reconhecimento. Como ouvir
um nome antigo sendo pronunciado por engano.
No banho, reparou numa marca discreta no braço. Iridescente demais para ser cicatriz.
Suave demais para ser tinta. Ao tocá-la, sentiu um arrepio que percorreu a espinha com
familiaridade desconfortável. Não havia dor. Não havia surpresa. Apenas a confirmação de
que algo realmente não tinha voltado inteiro.
Luísa cobriu a marca com a manga do pijama.
Sentou-se à mesa da cozinha, abriu um caderno novo e ficou alguns minutos olhando para
a página em branco. Não pensou muito antes de escrever. As palavras simplesmente
surgiram, como se estivessem esperando por aquele espaço.
Alguns mundos não terminam.
Eles apenas aprendem a caber dentro da gente.
Ela fechou o caderno.
Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. Carros passavam. Pessoas riam. Nenhum uivo
cortava o ar. Nenhuma fada observava dos postes. Nada denunciava o extraordinário.
Ainda assim, Luísa teve a sensação clara — quase tranquila — de que algo permanecia
acordado.
E, dessa vez, ela não soube dizer se isso era um aviso…
ou apenas companhia.