O cenário era simples: uma sala vazia, duas janelas quebradas e um ventilador velho girando devagar.
Nada ali parecia ter algum propósito claro. As marcas no chão indicavam que alguém tinha movido
móveis recentemente, mas os móveis não estavam mais lá. A poeira acumulada formava pequenos
montes nos cantos, como se o tempo tivesse parado de propósito. Do lado de fora, dava para ouvir um
cachorro latindo sem parar, e isso deixava o ambiente ainda mais desconfortável. Não havia cheiro forte,
mas um leve odor de madeira úmida dominava o ar. O relógio na parede estava parado às 03h14, e
ninguém sabia quando tinha travado. Um papel amassado no chão trazia apenas uma frase escrita à
caneta: “Volto quando der”. Nenhuma assinatura, nenhuma explicação. A porta dos fundos estava
destrancada, mas não totalmente aberta. Era como se alguém tivesse saído com pressa e sem olhar para
trás. A luz fraca da rua entrava pelas janelas quebradas e projetava sombras irregulares nas paredes. A
sensação era de abandono, mas não abandono antigo; parecia recente, como se a vida tivesse passado
ali até ontem. O ventilador continuava girando, rangendo a cada volta. Nada respondia às perguntas que
surgiam na cabeça de quem entrava ali pela primeira vez. E, mesmo assim, a sala transmitia uma
estranha sensação de que algo prestes a acontecer ainda estava preso no ar.
O ônibus parou no ponto errado, e ninguém percebeu. O motorista estava distraído ouvindo um jogo
pelo rádio, e os passageiros simplesmente desceram como se tudo estivesse normal. A rua era estreita,
com muros altos dos dois lados, e um cheiro forte de fritura escapava de uma casa no fim da quadra.
Uma senhora perguntou a um rapaz onde ficava a avenida principal, mas ele também estava perdido. A
sinalização estava apagada, os postes tinham lâmpadas queimadas e não havia movimento de carros. O
silêncio deixava tudo mais estranho. Um vendedor ambulante apareceu empurrando um carrinho com
garrafas de água e salgadinhos baratos. Ele disse que nunca tinha visto aquele ônibus parar ali. Um
cachorro magro atravessou a rua devagar, ignorando todos. O piso irregular fazia alguns tropeçarem. A
cada minuto que passava, mais pessoas percebiam que estavam no lugar errado, mas ninguém sabia
para onde ir. Um anúncio colado em um poste mostrava a foto de um gato desaparecido há meses. Um
vento leve levantou poeira e espalhou sacolas plásticas pelo chão. O ambulante sugeriu que todos
seguissem para a esquerda, mas ninguém confiou totalmente na ideia. Ainda assim, começaram a
caminhar. A sensação coletiva era de deslocamento total, como se a cidade tivesse mudado de lugar
enquanto dormiam.
A praia estava quase vazia, mesmo sendo fim de tarde. O mar batia forte, com ondas que se quebravam
de forma irregular. O vento trazia areia no rosto, tornando difícil manter os olhos abertos por muito
tempo. Uma criança tentava erguer uma pipa, mas o vento era instável demais para manter o fio firme.
Um vendedor de milho passava empurrando seu carrinho enferrujado, reclamando baixo sobre a maré
alta. O céu estava cinza, sem qualquer traço de cor vibrante. Dois pescadores puxavam uma rede pesada,
cheia de algas e quase nenhum peixe. Uma garça pousava perto deles, observando tudo com calma. Lá
no fundo, uma embarcação pequena balançava mais do que deveria. O barulho das ondas abafava
conversas, passos e até os gritos distantes de turistas que insistiam em entrar na água. Não havia cheiro
forte de maresia, apenas o suficiente para lembrar que o lugar estava vivo apesar do clima estranho. Um
guarda-vidas observava tudo sentado em uma cadeira alta, mas parecia mais cansado do que atento. O
vento diminuía e aumentava sem aviso. Cada detalhe daquele cenário reforçava a impressão de que algo
estava fora do ritmo natural, como se o mar estivesse tentando avisar alguma coisa, mas ninguém
conseguia entender.