Associação Nacional de História – ANPUH
XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA - 2007
O Estudo da Guerra na Formação do Oficial Militar Brasileiro1
Tânia Regina Pires de Godoy2
Resumo: Esta pesquisa faz uma análise da relevância do estudo da guerra previsto no ensino
de História na formação dos oficiais militares de carreira das Forças Armadas brasileiras e os
assuntos abordados, em linhas gerais, são comuns nas três Escolas de oficiais militares: na
Escola Naval (EN), na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e na Academia da
Força Aérea (AFA). Realizarei uma reflexão acerca de como a História é tratada na
abordagem da guerra, suas práticas educacionais, os vínculos entre a transmissão da História
Militar no reforço da Doutrina e os pareceres dos discentes quanto ao alcance da
fundamentação do pensamento militar do futuro líder guerreiro por meio de operações
militares consagradas na historiografia civil ou militar.
Palavras-chave: Identidade militar brasileira; ensino de História Militar.
Abstract: This research carries through an analysis of relevance the war study in the
education of History in the military officers of the Brazilian Armed Forces and the boarded
subjects, in general lines, are common in the three Schools of military officers: in the Naval
School (EN), in the Military Academy of Agulhas Negras (AMAN) and in the Academy of
the Air Force (AFA). I will make a reflection concerning as History are treated in the
boarding of the war, its practical educational, the bonds between the transmission of Military
History in the reinforcement of the Doctrine and they to seem of the learning how much to the
reach of the recital of the military thought of the warrior leader future by means of military
operations consecrated by the civil or military historiography.
Keywords: Brazilian military identity; Military History education.
Introdução
Na necessidade de se formar um melhor comandante, a disciplina de História
Militar sempre compôs a grade curricular com o objetivo de constituir elementos positivos e
exemplares na formação de seus líderes guerreiros, de acordo com HUNTINGTON (1996
[1957]: 66). Podemos constatar com isso que a história sempre fora utilizada como
fundamento teórico na extração dos exemplos e ensinamentos operacionais, baseados nos
sucessos ou fracassos observados nas guerras do passado. Assim,
1
As descrições das Escolas militares apresentadas neste trabalho foram coletados para a Tese de Doutorado da
autora durante o ano de 2004, mas alguns dados foram atualizados.
2
Doutora em Fundamentos da Educação pela UFSCar-SP e professora de História Militar na Academia da Força
Aérea Brasileira desde 1996. Email: taniagodoy@[Link].
2
Na visão militar, o homem só aprende pela experiência. (...) Daí o gosto do
militar pelo estudo da História. Pois a História é, na frase de Lidell Hart,
“experiência universal”, e História Militar, como disse Moltke, é “o meio
mais eficaz de ensinar guerra em tempo de paz” (ibid.: 82).
Por isso, o estudo de história militar é considerado uma ferramenta na aquisição
de experiências para o futuro líder militar a partir do exemplo de outros, encaminhando o
estudo da história numa intenção exemplar, moralizante: “Os exemplos históricos esclarecem
tudo; (...). Isso se verifica na arte da guerra mais do que em qualquer outro campo
(CLAUSEWITZ, 1979 [1832]: 191)”.
Assim, a análise do ensino de História Militar das três Escolas de formação das
Forças brasileiras contribui para melhor compreender os profissionais da farda nacionais, que
têm exercido papel relevante na história do Brasil, notadamente a partir do final do Império e
durante o século XX no período republicano.
História Naval
A Marinha possui programa curricular calcado no preparo de seus oficiais para
atender ao desempenho de sua profissão, transmitindo um conhecimento técnico-
especializado.
Escola Naval constitui um ambiente embarcado, situada na Ilha de Villegagnon,
no Rio de Janeiro, homenageando seus vultos heróicos e outros símbolos históricos
presentes3. Estimula-se a prática desportiva da vela como elemento educativo de convívio do
aspirante com o mar. A organização física da Escola busca imprimir o “espírito militar”
necessário ao desempenho do profissional que forma, conforme CASTRO (1990: passim). O
cotidiano e a linguagem reproduzem o ambiente naval, com grandes janelas voltadas para o
mar nas salas de aulas, os aspirantes alojam-se em camarotes e todos os avisos e sinais são
feitos da mesma maneira que no interior de uma belonave militar.
O curso de graduação da Escola Naval é conduzido para a área de Ciências
Navais, formando oficiais do Corpo da Armada, de Fuzileiros Navais e de Intendentes da
Marinha. A área de Ensino Militar-Naval engloba História Naval, ministrada no 4º ano,
contando com grande interesse dos aspirantes pelos conteúdos da disciplina(BRASIL – HNV,
2002)4.
3
Todas as informações apresentadas foram coletadas quando da visita à Escola Naval, nas explicações do
instrutor de História Naval, que nos mostrou as instalações, e por meio de Folheto adquirido naquela ocasião
(BRASIL – Escola Naval, s/d).
4
Os procedimentos metodológicos de coleta de dados foram os mesmos aplicados na Escola Naval e na AMAN
e os questionários junto aos alunos também foram aplicados aos cadetes da AFA. A identidade dos educadores,
oficiais de comando e discentes das Escolas será preservada.
3
O oficial instrutor de História Naval, do quadro da reserva, tem formação e
conhecimento específicos em guerra naval, pois sempre se dedicou em pesquisas na área e
exerceu vários comandos na Escola Naval e no Navio-Escola dos Guardas-Marinhas.
Realizou o curso de comando e estado-maior da Marinha e uma especialização em História
Moderna na PUC do Rio de Janeiro.
A abordagem da História é bem singular, descrevendo os teatros navais principais
dos grandes conflitos, sejam gerais ou brasileiros. A disciplina compreende 60 horas-aula e
aborda as teorias da guerra, noções de estratégia, tática e logística, os Princípios de Guerra,
enfatizando o pensamento dos estrategistas da guerra naval. Trata, também, da guerra naval
desde o século XVIII até após 1945. Quanto ao Poder Naval Brasileiro, o ensino trata desde a
formação da Marinha Imperial, as primeiras operações navais brasileiras e aspectos gerais do
poder naval Brasil no pós-guerra (BRASIL-HNV, 2002: 1-4).
No questionário aplicado aos aspirantes em minha visita à Escola Naval, alguns
deles manifestaram certa superficialidade no ensino de História Naval:
Os assuntos foram abordados de maneira clara, simples, direta e com
ganho de causa por parte do instrutor. (...) Principalmente porque é
necessário conhecer não só as batalhas, como sua evolução. (Aspirante 1
Fuzileiro Naval – EN).
As principais disciplinas foram Liderança e História Naval, porém a guerra
não é vista como “algo” e sim como um estado, pois aprendemos muito
sobre as atribuições e deveres, pois eles estão de fato em nossas mãos. Mas
as causas e objetivos estão fora do alcance do oficial (Aspirante 5 Corpo da
Armada – EN).
É uma abordagem muito mais técnica e dirigida diretamente para “como
fazer a guerra”(Aspirante 9 Intendência – EN).
Consideram de grande relevância o estudo da guerra e da História em sua
formação, notadamente no exercício de comando:
Sim, é importante, pois através da História analisamos como ocorreram as
grandes batalhas, analisando-as estratégica e taticamente, permitindo ver o
que as nações perdedoras cometeram em erros que as levaram ao fracasso, e
o que as nações vencedoras realizaram para obter êxito em suas campanhas.
Tal reflexão poderá ser útil para um futuro oficial combatente em uma
situação real (Aspirante 16 Corpo da Armada – EN).
Todavia, outros registraram que o número de aulas de História Naval é
insuficiente para fundamentar seu desempenho como futuro oficial da Força:
4
Muito importante. Na minha opinião este curso deveria se estender pelos 4
anos da EN. (...). A Marinha teve sua importância nas guerras desde os
tempos antigos, (...) que nós, futuros oficiais da Marinha de Guerra do
Brasil, conheçamos tal tipo de fatos do passado (Aspirante 12 Corpo da
Armada – EN).
... a carga horária do programa da EN não cria condições de serem
passados todos os tópicos que gostaria de ver. Essa restrição na carga
horária e o fato de só termos História, propriamente dita, no 4º ano, não
permite o estudo da História Política e Econômica do Brasil e do Mundo,
além da Militar (Aspirante 14 Intendência Marinha – EN).
O instrutor de História Naval afirmou haver dificuldades para que um docente
civil ministre suas aulas, pois, segundo sua experiência, não se pode prescindir da formação
de carreira da Força para analisar o emprego do poder naval, o desenvolvimento técnico
marítimo e militar e a experiência em manobras operativas da Marinha, que proporcionam
maior familiaridade com os conteúdos5.
A necessidade dessa experiência militar no ensino da arte da guerra (e a História
Naval contribui para isso) era verificada também por CLAUSEWITZ. Segundo ele defendia,
Seria infinitamente meritório ensinar a arte da guerra através do simples
meio de exemplos históricos, (...) mas seria pelo menos necessário
consagrar-lhe uma vida inteira se se pensar que aquele que levasse a efeito
um tal trabalho teria de começar por adquirir uma longa experiência
militar (op. cit.: 196).
Clausewitz compreendia a utilização dos exemplos do passado como ferramenta
na atividade militar, a história como meio instrutivo para a arte da guerra e que sua divulgação
seja ministrada por um agente com experiência militar real. Assim, o conhecimento militar é
auto-reprodutivo e as práticas pedagógicas em História seguem essa conduta, empregando
oficiais militares na formação dos oficiais da Marinha do Brasil.
História Militar na AMAN
O Exército é a Força politicamente mais importante e numerosa do Brasil e dá
grande relevância à formação de seus quadros de liderança. A Academia Militar das Agulhas
Negras foi estabelecida em 1944 na cidade de Resende e consolidou o preparo de seus oficiais
com forte conotação dogmática e moral, a partir da Reforma de José Pessoa nos anos 1930
quando a Escola Militar ainda se localizava em Realengo, de acordo com CASTRO (2002:
43-44).
5
Segundo instrutor de História Naval, seus antecessores também eram oficiais da Marinha.
5
A AMAN, da mesma forma que a Escola Naval, dispõe suas instalações
educativamente. A concepção da Força que traduz a nação e os pilares do patriotismo,
verificados no majestoso Portão Monumental, na grande alameda e jardins bem cuidados com
o símbolo do Exército e o Pico das Agulhas Negras ao fundo.
A denominação dos pátios, disposição de artefatos bélicos antigos nas imediações
dos prédios da Academia, repletos de símbolos históricos, enfim, todo o ambiente inspira
grandeza e orgulho em seus componentes por pertencerem à Força terrestre do Brasil6. Em
HUNTINGTON encontramos uma descrição idealizada de West Point que corresponde à
AMAN:
...O lugar está inundado de ritmo e harmonia, que aparecem quando a
vontade coletiva suplanta o capricho individual. West Point é uma
comunidade de objetivo estruturado, uma comunidade na qual o
comportamento das pessoas é governado por um código, o produto de
gerações. Há pouco espaço para a presunção e o individualismo. A unidade
da comunidade não incita nenhum homem a ser mais do que é. Na ordem
está a paz; na disciplina, a realização; na comunidade, a segurança (op.
cit.: 490).
As instalações da Academia e os termos empregados no convívio dos cadetes
vinculam-se à organicidade de um ambiente de combate, familiarizando-os na instrução
militar e no cotidiano escolar, de acordo com as intenções pedagógicas previstas. Da mesma
forma, o ensino de História Militar fundamenta o pensamento estratégico militar e
proporciona uma educação exemplar baseada nos vultos da história da Força, numa orientação
pedagógica tradicional moralizante.
São formadas cinco Armas (Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia e
Comunicações), um Serviço – o de Intendência – e um Quadro – o de Material Bélico -, em
quatro anos de curso. História Militar possui 60 aulas, ministradas no 3º ano (BRASIL –
AMAN: 2004a).
São abordados os fundamentos da arte da guerra e a História Militar desde a
Antigüidade até alguns conflitos do pós-2ª guerra; História Militar do Brasil trata desde a
Colônia até a participação na Segunda Guerra Mundial. São previstas aulas não-presenciais
para que os alunos façam pesquisas e preparem seminários (BRASIL – AMAN, 2000: a/b).
As aulas de História Militar são dadas por oficiais do quadro complementar
formados na área e por oficiais superiores da ativa, sem formação específica em História. As
6
As descrições estão amparadas pela visita realizada nesta Academia e em seu portal eletrônico (ACADEMIA
MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS, 2004).
6
principais batalhas são estudadas utilizando fundamentos da doutrina militar e são distribuídas
entre os grupos de cadetes para as pesquisas e os seminários.
O objetivo da História Militar do Brasil é o de exaltar o sentimento de patriotismo
e a versão tradicional e positiva da história do Brasil. O objetivo é preparar o futuro oficial
para divulgar as versões da história oficial no comando e preparo dos recrutas e, por isso, sua
formação encerra uma intenção muito bem estabelecida.
Os cadetes consideram a História como utilitária para sua profissão e afirmam sua
relevância:
Sim, pois são inúmeros os acontecimentos onde o líder teve de tomar
decisões importantes e vitais para a vitória no combate. E que são
ensinamentos marcantes na formação do futuro líder militar (Cadete 13
Intendência – AMAN).
Sim. (...) Por isso, estudar História Militar é de extrema importância para o
futuro oficial, seja que Força for. Os erros e acertos do passado servem
como ensinamentos para o presente (Cadete 15 Artilharia – AMAN).
Para evitar cometer erros que outros comandantes cometeram no passado,
é de fundamental importância estudar as características das batalhas e
entender o seu desdobramento tático (Cadete 20 Engenharia – AMAN).
Como o próprio meio militar hierarquizado não incentiva à prática de
questionamentos, as interpretações dos heróis do passado avaliando-os mais criticamente
gerariam desconforto e são abordados os assuntos mais exemplares. Os cadetes defendem o
ensino de História Militar recebido pela Academia, mas percebem omissões nos programas
curriculares dessas disciplinas:
O período da ditadura militar e a revolução de 1964 poderiam ser
abordados com maior minuciosidade (sic) (Cadete 18 Infantaria – AMAN).
Guerrilha do Araguaia (Cadete 20 Engenharia – AMAN).
Sim, deixaram de ministrar algumas grandes guerras como: Guerra do
Vietnã, do Golfo, Malvinas, Coréia, Irã-Iraque, Angola, Iraque-EUA,
Bósnia-Herzegovina, que são as mais recentes e que se aproximam mais da
realidade, trazendo, sobretudo, o que tem de mais moderno de materiais,
meios e doutrina (Cadete 17 Material Bélico – AMAN).
Sim. Houve uma lacuna no estudo das últimas guerras ocorridas na Idade
Contemporânea, como as ocorridas entre árabes e judeus e as do Golfo, por
exemplo (Cadete 15 Artilharia – AMAN).
Para evitar o comprometimento da imagem da Força e o questionamento da ação
de agentes militares ainda vivos, o Departamento de Ensino do Exército define um programa
curricular que evita o ensino da História mais recente. Além disso, o emprego somente de
educadores militares na AMAN e a definição do perfil profissional dogmático (e declarado)
7
constituem um pensamento histórico comprometido para a divulgação da versão institucional
da História Militar e da Força terrestre.
História Militar na AFA
A Academia da Força Aérea foi transferida para Pirassununga nos anos 1960 por
causa do aumento significativo do tráfego aéreo nos arredores da cidade do Rio de Janeiro,
comprometendo as atividades de instrução aérea dos cadetes da Escola de Aeronáutica, no
Campo dos Afonsos desde 1919.
Segundo folheto informativo, a excelente topografia para a construção de
aeródromos e as condições climáticas favoráveis em quase todo o ano, chamadas de “céu de
Brigadeiro”, determinaram a escolha da nova sede da Escola, recebendo primeiramente um
“Destacamento Precursor” e, a partir de 1969, deu-se o início da transferência das turmas,
denominando-a Academia da Força Aérea Brasileira – AFA (ACADEMIA DA FORÇA
AÉREA, 1996: 4).
São encontrados elementos educativos nas instalações da Academia, com dois
aeródromos e prédios adjacentes, torre de controle do espaço aéreo, hangares das aeronaves e
salas de instrução dos respectivos Esquadrões de Instrução Aérea (EIA)7. Aviões antigos estão
dispostos nos pátios e próximos aos prédios, há frases de reforço moral militar inscritas nas
paredes do pátio da Divisão de Ensino, na entrada do refeitório dos oficiais, nos corredores
dos parabolóides e nos prédios do Corpo de Cadetes para promover um ambiente educativo e
cultural de Força Aérea.
O risco inerente à prática do vôo leva à seleção de pessoas com certo gosto pelo
perigo. Não é categórico, mas, com o número de baixas decorrentes de acidentes aeronáuticos,
o risco das manobras aéreas e afinidade para conviver nesse cotidiano suscitam um perfil mais
flexível do oficial aviador e do cadete.
Sua doutrina é mais adaptável, pois os vetores aéreos se desenvolvem
vertiginosamente e determina maior dinamismo: “Os artefatos eletrônicos assumiram extrema
prioridade neste campo, levando a aviação, cada vez mais, a afastar-se da arte e concentrar-se
no âmbito da ciência (SANTOS, 1989: 144-145)”.
Além disso, o ambiente tridimensional das operações aéreas impõe a necessidade
de oficiais militares mais versáteis na aplicação das múltiplas perspectivas de emprego. A
7
A primeira aeronave que os cadetes voam é o Universal T-25 no 2º anos 2º Esquadrão de Instrução Aérea; no
4º ano, os cadetes aviadores voam com o Tucano T-27 e seu esquadrão é o 1º EIA.
8
Doutrina Aeroespacial da Força Aérea Brasileira define como características da Força Aérea
estes fatores:
A Força Aérea possui características marcantes que a tornam mais versátil
componente do Poder Militar. (...) Permite atacar alvos distantes, apoiar
forças de superfície e controlar o espaço aéreo, empregando os mesmos
elementos básicos de modo simples e coordenado (BRASIL – DCA 1-1,
2005: 19).
Talvez estas características da Força Aérea conduzam à dificuldade em se
estabelecer programas curriculares mais estáveis e a AFA está sempre modificando seus
cursos de formação.
A cadeira de História Militar quase sempre foi ocupada por docente civil com
formação específica. Mas as limitações impostas pelas instalações físicas da Escola, o
confinamento dos cadetes na Base, o controle sobre os cadetes no Corpo de Cadetes e o
cumprimento de extenso currículo escolar impõem obstáculos na transmissão do
conhecimento em qualquer área.
A atividade pedagógica programada e controlada coíbe a constituição de um profissional
militar criativo e autônomo, contrariando a própria Doutrina Aeroespacial, que preconiza:
O combatente moderno deseja líderes (...) que demonstrem mais inteligência
que arroubo, melhores resultados com menores baixas e, sobretudo, que
saibam obter vantagens em situações desfavoráveis (BRASIL - DCA 1-1, op.
cit.: 12).
Esses atributos exigem uma composição curricular que prevê disponibilidade para
leitura e pesquisas, como ocorre na AMAN, sem o doutrinamento lá existente.
A História Militar é distribuída em duas disciplinas de 30 aulas, ministradas no 3º
ano, para os cursos de oficiais aviadores, intendentes e de Infantaria, e com a inserção de
História Militar Brasileira desde o ano de 2006.
São abordados os conceitos de História e da guerra e o desenvolvimento do poder
aeroespacial nos conflitos do século XX. História Militar Brasileira trata dos militares desde a
formação da nação, suas contestações e exercício do poder, relações interamericanas e a
História da Força Aérea Brasileira (BRASIL – AFA, 2004).
Os cadetes da AFA são mais críticos. Manifestaram que o estudo da História é
insuficiente, pois tem uma carga menor do que a necessária com pouco tempo disponível para
aprofundar os temas de interesse e se ressentem da formação como oficiais militares de uma
maneira geral:
9
Durante o CFOAV a única disciplina que abrangeu satisfatoriamente o
tema da guerra foi História Militar, (...) este estudo não propicia ao cadete
a capacidade de avaliar, com crítica, os acontecimentos abordados, dado o
seu caráter superficial (em função dos tempos de aula alocados para tal)
(Cadete 23 do 4º ano Aviação – AFA).
É muito importante e deveria ser um curso mais extenso e detalhado, talvez
distribuído em mais de um ano (Cadete 20 do 4º ano Aviação – AFA).
Reclamam da maneira como são tratados e da subordinação inquestionável às
ordens dos mais antigos:
... A AFA não prepara os cadetes nem no conhecimento nem
operacionalmente para uma possível missão real após formado. Na AFA os
oficiais têm uma mentalidade um pouco peculiar do tipo: “Enquanto o
cadete está na Academia, ele está sob minha asa, mas depois de formado ele
que se vire” (Cadete 18 do 4º Aviação – AFA – realces do autor).
Na teoria: Manter, em tempo de paz, a força preparada para qualquer
eventualidade (...). Na prática, estamos destinados a desfilar em paradões
diários eficientemente, ter um uniforme engomado para qualquer
eventualidade de revista e destratar os subordinados quando estes erram
por inexperiência (Cadete 15 do 3º ano Aviação – AFA).
A contestação maior dos cadetes se dá pelo comprometimento operacional do
futuro oficial com as sucessivas mudanças curriculares e a inserção do curso de
Administração Geral, diminuindo disciplinas relacionadas ao preparo militar de cada
especialidade. Essas mudanças traduzem uma indefinição do perfil do futuro líder da Força e
compromete as características clássicas no cumprimento da missão precípua e constitucional
no preparo para a guerra e a defesa da soberania nacional.
Também desconsidera as definições da Política de Defesa Nacional, que não
suprime o caráter operacional da guerra, cujos oficiais são formados exclusivamente nas
Escolas castrenses de liderança. Mesmo em tempo de paz, as Forças militares não podem
prescindir do preparo para a guerra, como afirma DREW:
... As escolas civis podem ensinar gerência, operações de governo, e coisas
semelhantes, e o fazem. Somente escolas militares podem especializar-se na
arte da guerra e, mais especificamente, na arte da guerra aérea. (...) Além
disso, as circunstâncias podem exigir que a sua função de apoio se dê num
ambiente difícil de combate (1997: 57).
Dessa maneira, enquanto o ensino da História na Escola Naval é direcionado às
necessidades operativas da Força e na AMAN procura-se transmitir valores morais e culturais
do Exército, na AFA, as condições objetivas limitam o trabalho pedagógico e não o diferencia
das outras Escolas castrenses brasileiras, cujo ensino de História Militar é exercido por
10
instrutores militares engajados em divulgar a história de maneira a não contrariar a versão
oficial da instituição a que estão vinculados.
Mesmo assim, alguns elementos peculiares da Força Aérea Brasileira a diferencia
das outras Forças brasileiras. Afinal, o fato de os cadetes receberem grande parte do
conhecimento por docentes civis exerce, enfim, alguma influência em sua maneira de
perceber o mundo e seu exercício profissional.
Referências bibliográficas e documentais
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2002.
______Currículo da Escola Naval – 2004. R. Janeiro: EN, 2004.
______Perfil Profissiográfico do Concludente do Curso de Formação de Oficiais.
Resende-RJ: AMAN, 2004a.
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2004b.
______Doutrina Aeroespacial (DCA 1-1). Brasília-DF: Comando da Aeronáutica, 2005.
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OLIVEIRA, Tania R. P. de G. T. de. O Estudo da Guerra e a Formação da Liderança
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