Capítulo 5 — O Que Não Acontece Também Conta
O mundo não acabou com um estrondo.
Ele começou a falhar como alguém que esquece palavras no meio da frase.
As ruas perderam continuidade. Portas levavam a lugares que já tinham sido visitados, mas
com detalhes errados — uma cadeira a mais, uma janela a menos, um nome esquecido na
parede. As criaturas deixaram de fingir normalidade. Lobos atravessavam espaços sem
respeitar distância. Vampiros pararam de negociar. Zumbis, curiosamente, sentaram-se no
meio das ruas, como se aguardassem instruções que não viriam.
Luísa caminhava sozinha.
Não por abandono declarado, mas por esgotamento mútuo. Marina havia dito que precisava
resolver algo. Íris havia assentido. Nenhuma delas pediu que Luísa ficasse. Nenhuma disse
para ir embora.
A ausência de convite era, enfim, clara.
O corpo de Luísa agora brilhava sem pedir licença. As escamas cobriam braços, costas,
parte do rosto. Não doíam. Não eram castigo. Eram adaptação. Ela se perguntou quantas
versões de si mesma já tinham existido naquele mundo antes de perceberem que mudar
não significava pertencer.
Passou pela lanchonete uma última vez. O letreiro estava apagado. Dentro, tudo intacto
demais. O balcão limpo. As mesas vazias. Como um cenário esperando atores que
desistiram da peça.
Sentou-se onde costumava ficar nos intervalos. Tentou lembrar do gosto real do café. Não
conseguiu.
— Você pode ficar — disse uma voz.
Luísa se virou. Era Íris. Sozinha agora. Sem jaqueta, sem postura de segurança. Apenas
alguém cansado.
— Não é um convite — Íris continuou. — É uma constatação. O mundo já te reconhece.
— E se eu não quiser? — Luísa perguntou.
Íris sorriu de leve.
— Ele não se ofende. Só… segue sem você.
— E Marina?
Íris hesitou. Foi a primeira vez que pareceu humana demais para aquele lugar.
— Marina escolheu ficar faz tempo. Antes de você chegar.
Luísa assentiu. Não havia raiva. Nem surpresa. Apenas aquela sensação antiga de chegar
atrasada a algo que nunca foi combinado com ela.
O chão tremeu de novo. Dessa vez, diferente. Não instável — definitivo. O lago transbordou
completamente, e dele surgiram criaturas formadas, decididas. Nada caótico. Nada
absurdo. Apenas monstros completos, como se o mundo finalmente tivesse escolhido uma
forma coerente de existir.
Luísa sentiu algo puxá-la por dentro. Não dor. Um chamado reverso. Como esquecer um
nome que nunca foi seu.
— Se eu for… — começou.
— Você não vai lembrar de tudo — Íris completou. — Nem nós de você. Algumas coisas
ficam como sensação. Outras, como erro de cálculo.
Luísa riu. Um riso baixo.
— Combina.
Ela caminhou até a borda do lago. A superfície refletia dois mundos: um distorcido, outro
excessivamente comum. Luz branca demais. Sons abafados. Um cheiro de desinfetante
que não pertencia àquele lugar.
Antes de entrar, olhou para trás.
Marina estava ali agora, a alguns metros. Íris ao seu lado. Não havia drama. Não havia
pedido. Marina encontrou seu olhar por um segundo — um segundo honesto. Não
arrependido. Não cruel.
— Cuida de você — Marina disse.
Não “fica”. Não “volta”. Apenas isso.
Luísa assentiu.
E então deu um passo à frente.
A queda não foi violenta. Foi silenciosa. Como desligar uma televisão antiga.
Ela acordou com luz demais nos olhos.
Havia um bip constante. Um peso na cabeça. Um gosto metálico na boca. Alguém dizia seu
nome com cuidado, como se testasse se ele ainda funcionava. O teto era branco. Definitivo.
Real demais para discutir.
Dias depois, já em casa, Luísa passou pela lanchonete fechada. Um cartaz anunciava
mudança de funcionários. Viu Marina saindo, rindo ao telefone, acompanhada de uma
mulher de jaqueta escura. Íris? Talvez. Talvez não.
Não sentiu ciúme. Não exatamente.
Sentiu algo parecido com compreensão tardia.
Às vezes, o erro não é acordar.
É acreditar que toda história precisa continuar.
Luísa seguiu andando.
E o mundo — este, ou qualquer outro — não fez questão de impedi-la.