Capítulo 4 — O Mundo Não Gira em Torno de Ninguém
Nada se quebrou de uma vez.
Foi isso que mais assustou Luísa.
As rachaduras surgiram aos poucos, como quando se percebe tarde demais que uma casa
antiga sempre esteve cedendo. A praça onde encontrara Clara já não existia. No lugar,
havia um lago profundo demais para refletir o céu. A lanchonete surgia e desaparecia
dependendo do ângulo — às vezes intacta, às vezes tomada por heras, às vezes
completamente vazia, como se nunca tivesse sido construída.
— Isso é normal? — Luísa perguntou.
— Normal aqui é palavra de risco — Marina respondeu. — Mas não… isso é sinal de
instabilidade.
— Minha culpa?
Marina hesitou. O silêncio foi resposta suficiente.
As criaturas também mudaram. Os lobos já não apenas observavam; seguiam à distância.
Vampiros circulavam como comerciantes educados demais, oferecendo ajuda em troca de
favores vagos. As fadas haviam sumido quase por completo — um detalhe pequeno, mas
inquietante. Quando até o absurdo abandona um lugar, algo sério está prestes a acontecer.
O corpo de Luísa reagia mal àquele colapso lento. As escamas agora apareciam mesmo
quando ela estava calma. Havia momentos em que sua visão duplicava, mostrando duas
versões do mesmo cenário: uma mais sólida, outra tremida, como se estivesse sendo
lembrada em vez de vivida.
— Eu estou ficando presa aqui — disse, mais como constatação do que medo.
— Não exatamente — Marina respondeu. — Você está ficando… compatível.
Isso deveria soar como elogio. Não soou.
Elas caminharam até um bar improvisado dentro de um prédio que claramente já fora uma
biblioteca. Livros serviam de mesas. Um aquário com sereias ocupava o balcão, e uma
delas reclamava em voz alta sobre direitos trabalhistas. O humor absurdo retornava em
lampejos, mas agora parecia deslocado, como riso em velório.
Foi ali que Luísa a viu.
A mulher estava sentada perto da janela quebrada, cabelos escuros presos de forma
descuidada, jaqueta pesada sobre os ombros. Tinha um sorriso tranquilo — o tipo de sorriso
que não precisava provar nada. Quando Marina se aproximou, o mundo pareceu ajustar o
foco.
— Você demorou — disse a mulher, sem acusação.
— As rotas mudaram — Marina respondeu, automaticamente mais suave.
Luísa sentiu o estômago afundar antes mesmo de entender por quê.
A conversa entre elas fluía com naturalidade irritante. Olhares compartilhados. Piadas
internas. Um toque breve no pulso que não precisava durar mais para ser íntimo. Não havia
segredo — e isso tornava tudo pior. Era evidente que aquilo não era novidade. Não era algo
que surgira naquele mundo.
— Quem é ela? — Luísa perguntou, quando Marina finalmente se virou.
— Íris — respondeu. — Ela… trabalha comigo. Aqui.
Claro. Sempre trabalho.
Íris cumprimentou Luísa com educação genuína, curiosidade leve, nenhum sinal de
ameaça. O tipo de pessoa impossível de odiar sem culpa.
— Então você é a nova variável — disse Íris, observando as escamas com interesse
técnico. — Faz sentido.
— Nada disso faz — Luísa retrucou.
Íris sorriu.
— Faz mais do que você gostaria.
O mundo tremeu. Literalmente. Copos caíram, livros deslizaram das mesas, uma sereia
xingou alguém em outra língua. Marina ficou imediatamente alerta.
— Eles sentiram — disse ela. — O núcleo está reagindo.
— Ao quê? — Luísa perguntou.
Marina olhou para ela com algo entre pena e sinceridade.
— À sua resistência.
A frase atravessou como lâmina cega.
Luísa entendeu, finalmente, o que aquele lugar exigia. Não amor. Não coragem. Aceitação.
Aceitar o que sempre esteve desalinhado. Aceitar que Marina nunca fora fria — apenas
distante do que não desejava. Aceitar que aquela versão idealizada não era um presente,
mas um espelho cruel.
Íris tocou o ombro de Marina, gesto simples, seguro.
— Você não precisa decidir agora — disse. — O mundo aguenta mais um pouco.
Marina assentiu. Não olhou para Luísa.
Do lado de fora, o lago começou a transbordar, e das águas surgiam formas indefinidas —
monstros que ainda não tinham escolhido o que seriam. O colapso se aproximava, mas
ninguém parecia com pressa de salvá-la.
Luísa percebeu, com uma clareza dolorosa, que aquele mundo não estava ruindo por
maldade. Estava apenas deixando de se sustentar em algo que nunca foi suficiente.
Ela não era o centro da história.
Era só o ponto de tensão.
E, pela primeira vez desde que acordara ali, isso doeu mais do que o medo de nunca mais
acordar em lugar nenhum.