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Encontros e Pendências em Mundos Alternativos

Luísa encontra Clara, uma amiga de infância, em um mundo distorcido que revela pendências emocionais não resolvidas. A conversa entre elas expõe fragilidades e medos, enquanto Marina observa, revelando que o lugar mostra o que se insiste em não aceitar. Luísa percebe que nem todos os universos alternativos servem para corrigir erros, mas alguns apenas os confirmam.
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Encontros e Pendências em Mundos Alternativos

Luísa encontra Clara, uma amiga de infância, em um mundo distorcido que revela pendências emocionais não resolvidas. A conversa entre elas expõe fragilidades e medos, enquanto Marina observa, revelando que o lugar mostra o que se insiste em não aceitar. Luísa percebe que nem todos os universos alternativos servem para corrigir erros, mas alguns apenas os confirmam.
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Capítulo 3 — Pessoas Que Não Deveriam Estar Aqui

O problema de reconhecer alguém naquele mundo era perceber rápido demais o que havia
mudado — e o que não.

Luísa descobriu isso quando entrou numa praça que lembrava vagamente o
estacionamento atrás da lanchonete. Havia o mesmo poste torto, a mesma rachadura no
chão, mas no lugar do cheiro de lixo e óleo velho, sentia-se algo floral demais, quase doce,
como perfume usado para esconder ferrugem. No centro, uma fonte jorrava água escura,
refletindo o céu em tons errados.

— Não pisa na borda — Marina avisou, tarde demais.

A água se agitou, e de dentro dela emergiu alguém que Luísa reconheceu antes mesmo do
rosto aparecer por completo. O uniforme antigo da escola, o cabelo preso do jeito errado, a
postura defensiva.

— Isso não pode ser sério — Luísa murmurou.

Era Clara. Uma amiga de adolescência que havia se afastado com o tempo, não por briga,
mas por esquecimento — aquele tipo de abandono que não deixa marcas visíveis, só um
incômodo persistente.

Clara sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.

— Você demorou — disse ela. — Achei que não vinha mais.

— Eu não… — Luísa engoliu seco. — Você não está aqui.

— Nenhum de nós está — Clara respondeu, tranquila demais. — Mas isso nunca impediu
ninguém.

Marina observava à distância, braços cruzados, expressão ilegível. Não interveio. Aquilo
incomodou Luísa mais do que a aparição impossível.

A conversa avançou em círculos. Clara falava em frases quebradas, lembranças que Luísa
preferia manter borradas. Situações em que não disse o que sentia. Convites recusados por
medo. Silêncios longos demais.

— Esse lugar gosta de pendências — Marina comentou, enfim. — Ele pesca onde dói.

— Então por que você não é pescada? — Luísa retrucou, sem pensar.

O silêncio que seguiu foi pesado. Marina desviou o olhar.

— Quem disse que não sou?


Antes que Luísa pudesse insistir, um som metálico ecoou pela praça. Algo se movia entre
os prédios: passos arrastados, muitos. Zumbis surgiram aos poucos, não agressivos, mas
atentos, como fiscais de um erro administrativo.

Clara recuou para dentro da fonte, dissolvendo-se na água escura.

— Você devia ir — disse, a voz ecoando como se viesse de dentro da cabeça de Luísa. —
Antes que o lugar resolva te mostrar mais.

A fuga foi desordenada. Luísa correu sentindo o corpo responder melhor do que deveria:
pulos longos, equilíbrio improvável, uma força que não reconhecia como sua. As escamas
sob a pele agora se estendiam até o pescoço, formando desenhos que reagiam à
proximidade do perigo.

Quando se esconderam num prédio abandonado, Marina trancou a porta com um símbolo
desenhado no ar. O gesto parecia automático — íntimo.

— Você já fez isso antes — Luísa disse.

— Muitas vezes.

— Com quem?

Marina demorou a responder.

— Com pessoas que acharam que eram especiais aqui.

A frase caiu como um objeto pesado.

Luísa sentou-se no chão, tentando organizar pensamentos que se recusavam a formar linha
reta. O humor estranho daquele mundo começava a perder graça. Cada encontro parecia
arrancar algo dela, expondo fragilidades que nem sabia que ainda doíam.

— Esse lugar… — começou. — Ele mostra o que a gente quer?

— Não exatamente — Marina respondeu. — Ele mostra o que você insiste em não aceitar.

Luísa levantou o olhar. Havia algo diferente agora. Não distância. Cuidado excessivo. Como
alguém que mede palavras para não ferir — ou para não se comprometer.

— E você? — Luísa perguntou. — O que ele mostra pra você?

Marina sorriu de canto.

— Que eu não devo misturar trabalho com fantasia.

O comentário teria sido engraçado em qualquer outro contexto. Ali, doeu.


Do lado de fora, passos cessaram. O perigo imediato passara. Mas o desconforto ficou,
enraizado.

Luísa percebeu, com clareza incômoda, que aquela versão de Marina — forte, confiante,
perfeita demais — não existia para ela. Existia apesar dela. Talvez sempre tivesse existido.

E enquanto o brilho sob sua pele diminuía, como se o mundo estivesse satisfeito por ora,
Luísa entendeu algo que preferia não entender:

Nem todo universo alternativo é criado para corrigir erros.


Alguns existem apenas para confirmá-los.

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