Capítulo 2 — O Corpo Não Pediu Permissão
A primeira coisa que Luísa aprendeu naquele lugar foi que andar distraída era um erro — o
segundo foi que seu corpo não obedecia mais às regras antigas.
Ela percebeu isso quando tropeçou em algo invisível e, em vez de cair, sentiu o ar
sustentá-la por um segundo a mais do que o razoável. Não foi voo. Foi hesitação. O mundo
pareceu perguntar se ela realmente queria cair antes de permitir. Quando os pés tocaram o
chão novamente, havia uma camada de brilho sob a pele de suas mãos, quase
imperceptível, como verniz antigo. As escamas — se era isso mesmo — reagiram ao susto,
retraindo-se como se tivessem vergonha.
— Ótimo — murmurou. — Agora até meu corpo improvisa.
Marina caminhava à frente, passos confiantes, ignorando deliberadamente qualquer
explicação. A jaqueta de couro rangia levemente, e o colar que ela usava pulsava num ritmo
próprio, como se estivesse sincronizado com outra coisa que Luísa ainda não conseguia
ouvir. Havia algo irritante naquela segurança toda. Algo fascinante também — o que só
tornava tudo pior.
— Você vai me dizer onde a gente tá? — perguntou Luísa, tentando parecer menos
desorientada do que estava.
— Não — respondeu Marina, sem virar o rosto. — Porque isso muda dependendo de quem
pergunta.
— Isso não faz sentido.
— Faz aqui.
O caminho se abria entre construções que lembravam a cidade real, mas montadas com
descuido proposital. A lanchonete aparecia ao longe, porém maior, torta, com o letreiro
piscando símbolos que Luísa não reconhecia. Havia pessoas — ou versões delas —
conversando com criaturas que definitivamente não eram humanas. Um casal discutia
enquanto um zumbi esperava pacientemente para atravessar a rua. Uma fada dormia
dentro de uma xícara de café gigante, roncando como um gato velho.
O absurdo era tão escancarado que parava de assustar. Virava cenário. O medo ficava
guardado nas bordas, onde sombras se acumulavam e dentes refletiam luz demais.
— Eles… sabem que estão mortos? — Luísa perguntou, apontando discretamente para um
homem de pele acinzentada que pagava algo com moedas brilhantes.
— Alguns. Outros acham que só estão cansados — Marina deu de ombros. — Igual a
gente.
Luísa riu. Um riso curto, nervoso. Era isso ou gritar. Percebeu que cada emoção mais
intensa fazia sua pele reagir: o brilho aumentava, o ar parecia mais denso, como se ela
estivesse se tornando parte daquele ecossistema sem ter sido consultada.
— O que aconteceu comigo? — perguntou, finalmente.
Marina parou. Virou-se devagar. O olhar duro vacilou por um segundo — rápido demais
para ser conforto, longo demais para ser ignorado.
— Você chegou no meio de um fluxo — disse. — Isso cobra um preço.
Antes que Luísa pudesse perguntar qual, um uivo ecoou à distância. Não era metáfora. Era
animal. Baixo, profundo, organizado. Pessoas ao redor se dispersaram com naturalidade
ensaiada. A fada acordou, bocejou e desapareceu dentro da xícara.
— Corre — Marina ordenou, puxando Luísa pelo braço.
O toque queimou. Não de dor — de reconhecimento. Algo dentro de Luísa respondeu com
entusiasmo indevido. As escamas se estenderam um pouco mais, desenhando padrões
luminosos ao longo do antebraço. O mundo acelerou.
Eles passaram por um beco onde olhos brilhavam na escuridão. Um lobo enorme surgiu,
músculos tensos, dentes longos demais para qualquer biologia respeitável. Ele não atacou.
Apenas observou, cabeça inclinada, como quem memoriza um cheiro.
— Ele não vai vir? — Luísa sussurrou.
— Vai lembrar de você depois — Marina respondeu. — É pior.
Quando finalmente pararam, ofegantes, Luísa percebeu algo que a deixou mais gelada do
que o uivo: Marina estava sorrindo. Não um sorriso divertido — um sorriso confortável.
Como alguém que pertencia àquele caos.
— Você parece… em casa — Luísa disse.
— E você parece alguém que ainda acha que isso é temporário.
A frase ficou suspensa entre elas. Pela primeira vez, Luísa sentiu que talvez aquele lugar
não fosse apenas um reflexo da sua mente ferida. Talvez fosse uma continuação. Ou uma
escolha que alguém já tinha feito por ela.
E, enquanto o brilho sob sua pele pulsava com vida própria, Luísa percebeu algo ainda mais
incômodo: não importava o quão perigoso aquele mundo fosse — o que realmente doía era
a facilidade com que Marina se encaixava nele sem precisar dela.
O erro talvez não tivesse sido acordar.
Talvez tivesse sido sentir.