0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações3 páginas

O Encontro de Luísa e Marina na Lanchonete

No capítulo, Luísa trabalha na Lanchonete do Sol, onde a dinâmica com a colega Marina é marcada por desdém e uma defesa emocional disfarçada. Uma noite, um assalto transforma a rotina, levando Luísa a um estado de inconsciência e a um novo mundo, onde encontra uma versão diferente de Marina, cheia de poder e mistério. A história explora a transição de Luísa para esse novo ambiente, repleto de criaturas fantásticas e uma nova realidade que desafia suas percepções.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações3 páginas

O Encontro de Luísa e Marina na Lanchonete

No capítulo, Luísa trabalha na Lanchonete do Sol, onde a dinâmica com a colega Marina é marcada por desdém e uma defesa emocional disfarçada. Uma noite, um assalto transforma a rotina, levando Luísa a um estado de inconsciência e a um novo mundo, onde encontra uma versão diferente de Marina, cheia de poder e mistério. A história explora a transição de Luísa para esse novo ambiente, repleto de criaturas fantásticas e uma nova realidade que desafia suas percepções.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Capítulo 1 — O Fim do Turno

A Lanchonete do Sol parecia, ao cair da noite, uma caixa de fósforos acesa num mapa de
concreto. O neon anunciava um café quentinho e duas horas de Wi-Fi que não funcionava
direito; as mesas escondiam migalhas de conversas e um cardápio que jurava perdoar a
gula. Luísa sabia as marcas de cada assadeira, cada xícara com marcas de dedo, o horário
exato em que o telefone do entregador tocava e a expressão que Marina fazia quando
alguém pedia maionese extra sem pagar. Sabia também que Marina tinha a precisão de um
relógio sujo: chegava sempre dez minutos atrasada, fazia comentários ácidos e parecia
certa de que o mundo era uma comédia escrita sem piadas. Tinham dez anos de diferença
— Marina trinta, Luísa vinte — e essa distância se traduzia, na prática, em olhares frios por
parte de ambas.

“Você poderia, sei lá, tentar menos,” Marina dizia às vezes, mexendo no caixa como se o
dinheiro fosse um enigma pessoal. Luísa respondia com um sorriso que tentava ser mais
ácido do que era — não dava certo. A lanchonete exigia performatividade: clientes queriam
sorrisos fáceis; as louças, resistência; a rotina, paciência. O desdém que trocavam era, na
verdade, uma defesa: afeto disfarçado de desprezo, uma economia de calor humano que as
duas racionavam sem saber.

Naquela noite, o turno noturno trouxe uma clientela que os horários costumavam esquecer:
estudantes famintos, um casal ensaiando confidências e um homem com um sobretudo que
parecia ter vindo de outro tempo. Ele entrou como quem foi convidado pelo vento, olhos
escuros, mãos com nada a perder. Pediu um café, olhou a decoração e sorriu de um jeito
que não alcançou os olhos de Marina, que o observava com a calma de quem já vira
assalto em filme duas vezes.

As coisas aconteceram rápido. Um grito cortou a música baixa; o homem puxou algo do
bolso — uma arma que parecia mais um pedaço de ferro nervoso. Marina reagiu como
alguém que nascia para enfrentar perigo: um movimento seco, tentativa de empurrar o
cliente, exigência de calma. Mas o indivíduo era desesperado ou maluco; empurrou alguém
no corredor com mais força do que a etiqueta da lanchonete recomendava. Luísa foi o alvo.
Sentiu um impacto, calor e um som abafado — como se o próprio corpo tivesse batido
numa porta interior. O mundo virou uma vitrine de vidro: tudo se multiplicou, as luzes, os
rostos, as palavras “fica calma” repetidas numa língua de fazer bebê dormir.

A queda foi curta. O golpe, longo o suficiente para que o sangue desenhasse uma história
tímida na nuca, e o mundo, antes tão crível, virou platô de teatro. Luísa ouviu passos
apressados, um murmúrio que corrigia a discórdia e um cliente que declarou que chamaria
a polícia — ou que não chamaria, não ficou claro. Sentiu o chão frio e a pressão no crânio
como se um gato tivesse decidido morar ali por um segundo. Antes de apagar, ela teve
tempo de enxergar Marina ajoelhada ao seu lado, olhos arregalados e, pela primeira vez,
sem máscara: havia medo, sinceridade e uma mão que trêmula segurou a dela. Um
momento, um lampejo, e then: escuro.

Acordar às vezes é um procedimento técnico; outras, uma pitada de absurdo gastronômico.


Luísa abriu os olhos num lugar que tinha cheiro de maresia e óleo de fritura — frases
incompatíveis, que dançavam no nariz dela. Tinha nuvens com ponta de palha e uma lua
que piscava com soberba de quem sabia de segredos. Havia uma trilha sonora de algo
entre gaita e sintetizador, e o chão sob seus pés era mais macio do que concreto: parecia
um tapete de restos de sonhos bem varridos.

Ela não estava na lanchonete.

As pessoas que apareceram primeiro tinham familiaridade: Dona Ama, a senhora do bolo
que sempre pedia algo sem açúcar; o entregador com o sorriso torto; até o pequeno gato
preto que vivia na cozinha. Todos com olhos um pouco maiores, cores ligeiramente
deslocadas, como se alguém tivesse mexido nos filtros do mundo. E então, no meio do
estranho desfile, estava Marina — mas não a Marina que ela conhecia. Não mais a
balconista condescendente; ali estava Marina com jaqueta de couro, unhas pintadas, cabelo
cortado em franja rebelde. Tatuagens dançavam como partituras pelo antebraço. Havia um
colar com um amuleto que piscava; ela caminhava como se o chão fosse um palco e as
pessoas, instrumentos.

Marina olhou para Luísa — e a expressão foi, pela primeira vez desde que se conheciam,
um convite claro. Não era o desprezo habitual. Era dominância, calor e algo que Luísa não
sabia nomear, mas que fez o peito dela desacelerar apenas o suficiente para notar o perigo:
sombras entre as árvores que se moviam com dentes. Lobos? Talvez. Seres noturnos que
cheiravam a ferro e romance de filme ruim. Havia uma atmosfera perigosa e engraçada ao
mesmo tempo, como se a própria morte tivesse decidido ser irônica.

Luísa deveria ter perguntado onde estava, qual era a regra, como voltar. Deveria se
preocupar. Mas Marina, nessa versão, era tão incrivelmente — absurdamente — a
encarnação de tudo que Luísa admirava em segredo que a pergunta escapou. Em vez
disso, ona se deixou prender no detalhe: o jeito como Marina mordia o lábio quando falava,
a forma autoritária com que manda em todo mundo, e o sotaque que não existia antes.
Perguntas foram deixadas para depois; curiosidade, que é sempre traiçoeira, tomou conta.

E então, sem aviso elegante, a transformação: um arrepio quente percorreu a pele de Luísa,
como se tivessem ligado um fio invisível ligado à sua nuca. Pétalas de luz tocaram os seus
braços e, num momento que teria sido cômico se não fosse assustador, ela sentiu uma
cócega dolorosa e um crescimento suave — como se alguém tivesse colado pequenas
escamas iridescentes sob a pele. O mundo tilintou, as criaturas ao redor estalaram os
dedos e uma fada riu — uma risada que sabia de piadas antigas. Luísa olhou para as mãos
e viu que algo nelas havia mudado; não era monstruoso: era pagão, belo e absolutamente
errado.

Marina sorriu, um sorriso que era convite e aviso. “Bem vinda à festa,” disse ela, e o som da
voz fez com que o coração de Luísa esquecesse por um segundo que existia perigo real à
espreita. A primeira regra daquele lugar — que ninguém contou — era simples: quando
você chega, algo chega com você.

Luísa estava presa dentro da própria cabeça, presa também num mundo em que os
monstros eram reais e onde a pessoa que menos esperava ser o seu porto
transformava-se, de modo escandaloso, no imã das suas atenções. Não era hora de
entender a dimensão; era hora de aprender a respirar com as novas asas. E, enquanto as
sombras lamuriavam ao longe e as risadas das fadas se misturavam ao cheiro do café que
nunca foi bom na lanchonete, Luísa sorriu. Era um sorriso por nervosismo, por atração, por
medo e por algo absurdamente próximo do riso.

Você também pode gostar