Revista Gestão em Análise - Edição 2019
Revista Gestão em Análise - Edição 2019
Fortaleza
Semestral
ISSN 1984-7297
e-ISSN 2359-618X
CDD 658
Impressão
Gráfica e Editora LCR Ltda.
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Revista Gestão em Análise - ReGeA
Editorial
Francisca Íris Cavalcante Costa; Arnaldo F. Matos Coelho; Laodicéia Amorim Weersma.......7-10
Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso = Process and
strategy as practice in decision-making: a case study
Nathalia Berger Werlang, Rosália Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto..........77-93
Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias = Bizcool: the case of an accelerator of ideas
Gustavo Clemente Valadares, Galo Andrés Suasnavas Lamboglia, Joel Yutaka Sugano, João Paulo
Nascimento da Silva............................................................................................................163-173
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p7-10.2019
EDITORIAL
A
palavra, seja ela no âmbito da literatura ou da ciência, tem o poder social de
transformar o pensamento vigente e abrir vórtices para a inovação. Esse é um
dos propósitos da Revista Gestão em Análise – ReGeA (Qualis B3), a qual está
inserida em um cenário que tende ao silenciamento da palavra e sua reflexão crítica.
Tal argumentação é traduzida pelo fato de que, atualmente, confrontamo-nos com certa
fragilização das instituições e, por vezes, até com o uso equivocado da palavra, o que
nos leva a supor que algumas instituições não habitam o mesmo lugar na coletividade,
infringindo o princípio da horizontalidade, quando deveriam proporcionar a igualdade e
o bem-estar social.
A palavra, em seu papel político-social, deve apresentar-se com clareza pelos for-
madores de opinião e pelos que representam os anseios da cidadania. Corroborando essa
reflexão, advinda de nossa experiência no universo literário, a expressividade e o alcance
dos artigos da ReGeA apresentam um contexto econômico em movimento com direção
necessária para a sobrevivência no mercado: a inovação e a exploração das possibilida-
des de um mundo cada vez mais tecnológico e mutante.
Vozes que se insurgem em caráter experimental, em uma economia em situação de
vulnerabilidade, com baixos níveis de fomentos públicos, muitas vezes se redesenham
em experiências exitosas, como apresentado no trabalho “Bizcool: o caso de uma acele-
radora de ideias”.
Pela perspectiva do jornalista e escritor Adauto Novaes: Os intelectuais precisam
aproveitar essa situação para apontar algo novo. Esse é o papel fundamental deles. Pri-
meiro, é preciso identificar e, em seguida, colaborar na construção de outro caminho
(Ciclo de Conferência – 2005: O silêncio dos intelectuais). Passados alguns anos, re-
conhecemos a assertividade dessa análise e o quanto a nossa classe de intelectuais das
letras ou da ciência avançou e continua avançando de forma a contribuir para um planeta
inclusivo, sustentável e, economicamente, viável.
Convidamos, então, os pesquisadores, os docentes, os discentes e os demais inte-
ressados para a leitura desta edição, que é composta por dez artigos inéditos e um caso de
ensino. A edição se inicia com um trabalho proveniente de um afazer colaborativo entre
pesquisadores de universidades da China, de Angola e do Brasil, que trata do impacto
dos impostos no desempenho das escolas privadas. Um tema muito pertinente em vista
das recentes alterações na estrutura de impostos de Angola e a severa crise econômica
e financeira que o país atravessa, o que faz que o Estado estabeleça medidas que visem
contribuir para o aumento das receitas públicas, sendo o sistema fiscal uma das áreas
estratégicas.
A edição chega a seu final com o caso de ensino que visa estimular a discussão e a
tomada de decisão acerca de modelo de negócios, notadamente, mediante o entendimento
do modelo da Bizcool, uma aceleradora de startups inovadora, que utiliza a metodologia
de compartilhamento do conhecimento para ampliar e acelerar os negócios das empresas
clientes.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 7-10, maio/ago. 2019
8 Editorial | Editorial
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Editorial | Editorial 9
EDITORIAL
T
he word, whether within the scope of literature or science, has the social power
to transform current thinking and open vortices for innovation. This is one of the
purposes of Journal of Management Analysis - ReGeA (Qualis B3), which is inser-
ted in a scenario that tends to silence the word and its critical reflection. This argument
is translated by the fact that these days we´re confronted with a certain weakening of
institutions and sometimes even with the misuse of the word, which leads us to suppose
that some institutions do not share the same place in community, infringing the principle
of horizontality, instead of providing equality and social welfare.
The word, in its political and social role, must be clearly presented by the opinion
makers and those who represent the yearnings of citizenship. Corroborating this reflec-
tion, based on our experience in the literary universe, the expressiveness and scope of
ReGeA articles present a moving economic context leading to the necessity for market
survival: innovation and exploration of the possibilities of an increasingly technological
and mutant world.
Voices that are emerging on an experimental basis, in a vulnerable economy with
low levels of public funding, often redesign themselves into successful experiences, as
presented in the work “Bizcool: The case of an accelerator of ideas”.
From the perspective of journalist and writer Adauto Novaes: Intellectuals need
to take advantage of this situation to point out something new. That is their fundamen-
tal role. First they need to identify and after that collaborate in constructing a new way
(Conference Cycle of 2005: The Silence of Intellectuals). Some years have passed since
then and we recognize the assertiveness of this analysis and how much the class of in-
tellectuals of literature and science has advanced and continues to advance in order to
contribute to an inclusive, sustainable and economically viable planet.
We invite researchers, teachers, students and other interested parties to read this
edition which is composed of ten unpublished articles and one case study. The issue be-
gins with an article presenting the results from a collaborative work among researchers
from universities in China, Angola and Brazil, addressing the impact of taxes on private
schools performance. A very pertinent subject, especially regarding the recent changes in
the tax structure of Angola and the severe economic and financial crisis that the country
is going through, forcing the Government to establish measures that aim to contribute to
the increase of public revenues, being the fiscal system one of the strategic areas.
The edition comes to an end presenting a case study that aims to stimulate the dis-
cussion and decision making about business models, notably by understanding the model
of Bizcool, an innovative startup accelerator, which uses the methodology of knowledge
sharing to expand and accelerate the business of client companies.
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10 Editorial | Editorial
Finally, we appreciate the support to our work and wish you a useful and meaning-
ful reading, aligned with the continuum of Science and Ethics.
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AUTORES | Armando Carlos Hombo Nogueira, Luís Miguel Pacheco, Marcus Antonio Almeida Rodrigues, João Alexandre Lobo Marques 11
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ARTIGOS
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12 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito
ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO
The impact of taxes on private schools perfor- A influência dos impostos na gestão das
mance is a very pertinent subject, especially escolas privadas em Angola é um tema muito
now that the country is facing an economic and pertinente e de extrema importância para os
financial crisis, and the Government is search- gestores, os contabilistas, os auditores, os eco-
ing for ways to increase public incomings, the nomistas e a administração fiscal (Estado), vis-
fiscal system has been one of the strategic ar- to que os impostos são elementos intrusivos,
eas. The objective of this work is to evaluate com os quais as empresas devem contar, que
the influence of taxes on private schools man- afetam as suas transações e, consequentemente,
agement in Lobito Municipality, in Angola, in a tomada de decisões. São custos que as empre-
order to understand the impact of taxes and sas suportam durante o exercício econômico e
fiscal obligations in management decisions, as requerem um tratamento especial de maneira a
well as the influence of the current fiscal re- não incorrer em multas e penalizações.
gime and tributary obligations. The literature Em um atual contexto de crise econó-
review aimed at providing information and mica e financeira, o Estado angolano procura
contents related to accounting information and direcionar as atenções ao sistema fiscal de uma
its role in business management in this century. forma especial, pois será possível aumentar as
It also shows theoretically a compulsory com- receitas públicas por intermédio dos impostos,
plementarity between accounting, taxation and visto que eles constituem uma das maiores e
management. The subject of fiscal management mais seguras fontes de receitas para o país.
is deeply discussed and is preceded by sever- Vive-se em Angola, desde o ano de
al concepts about taxation and fiscal system, 2015, uma época de escassos recursos para in-
highlighting Angolan fiscal system. The con- vestimentos, o que faz que cada gestor procu-
tent of this study is about presenting the real- re minimizar os custos e, consequentemente, o
ity of Angola and it highlights the importance impacto da carga de impostos torna-se cada vez
of private schools as the main partners of the mais significativo. Diferentemente de alguns
Government in the fighting against illiteracy anos atrás, o mercado angolano conta hoje com
and reduction of children out of the educational uma concorrência elevada, em alguns setores
system, analyzing the advantages of that part- de atividade e particularmente no setor privado
nership. A diagnosis related to the subject at da educação, em que o número de escolas pri-
study was done in an empirical study through vadas cresceu de forma significativa na última
questionnaire sent to thirty four private schools década. Essa realidade desencadeia situações
of Lobito Municipality, it allows us to reach the de impacto fiscal, financeiro e contabilístico,
conclusion that taxes affect positively private desde a tributação das receitas, o reconheci-
schools management, encouraging and improv- mento dos custos e as várias especificidades
ing organization internal control, and managers que são de interesse geral o seu estudo.
possess some knowledge on the fiscal legis- Ao efetuar uma pesquisa científica sobre
lation, trying to obtain external support when a influência dos impostos na gestão de escolas
needed. Recommendations are also proposed to privadas no Munícipio do Lobito, tem-se em
private the companies and to the Government consideração que existe a possibilidade de se
fiscal institutions, with the aim of helping the organizar a informação contabilístico-financei-
creation of the new fiscal structure in Angola. ra, gerir os atos patrimoniais de modo a que se
consiga otimizar a carga fiscal, porém de forma
Keywords: Taxes. Fiscal management. Com- legalmente aceita em Angola.
plementarity obligation. Private schools. Fiscal Angola saiu de uma situação de guerra
legislation. civil, que perdurou desde logo após sua inde-
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AUTORES | Armando Carlos Hombo Nogueira, Luís Miguel Pacheco, Marcus Antonio Almeida Rodrigues, João Alexandre Lobo Marques 13
pendência de Portugal, em 1975, até o ano de vez mais acentuada no país, as escolas privadas
2002, quando foi assinado o acordo de paz. A surgem como principal parceiro do Estado na
situação social no país, como se pode esperar luta para a redução do número de crianças e jo-
após 30 anos de conflitos internos, era crítica vens fora do sistema de ensino.
(UNOCHA, 2002). Havia a necessidade de Aliado a isso, existe um esforço por par-
restruturação nas mais diversas áreas, desde o te do Estado e também da iniciativa privada em
governo até as instituições privadas. impulsionar o investimento para alavancar a re-
Com isso, a estrutura fiscal do país, construção nacional, após a guerra civil acima
bem como a adequação das empresas a esta mencionada.
tiveram que ser recriadas e reestabelecidas Verifica-se, em Angola, um tempo em
nos anos subsequentes, o que levou a desafios que os empresários e gestores procuram as exi-
tanto em nível de estruturação das instituições gências atuais e são obrigados por elas a pau-
governamentais na área fiscal, quanto em nível tar pela excelência na gestão, adquirindo uma
das empresas, que foram criadas com uma falta reputação e imagem capazes de manter e con-
de controle fiscal. quistar a sua quota de mercado. Pode-se, ainda,
No período de guerra civil citado, da verificar um elevado volume de informação não
mesma forma, as instituições de ensino uni- dominada por aqueles que manuseiam a conta-
versitárias foram extremamente prejudicadas, bilidade e tomam decisões nas empresas, bem
levando a, praticamente, uma concentração como por aqueles que devem prestar contas
no nível de ensino superior básico, deixando a relativas à atividade desenvolvida, constituin-
pesquisa e a extensão paralizadas (CAVAZZI- do-se como uma razão positiva para a elabora-
NI, 2012). ção deste estudo, quer para a classe acadêmica,
Com esse panorama, existe uma grande quer para os profissionais ligados às matérias
lacuna na investigação científica focada nos ce- em estudo e até para o próprio Estado como
nários de Angola e, somente nos últimos anos, sujeito ativo e detentor do Poder Legislativo e
é que sua comunidade acadêmica iniciou di- da autonomia para fiscalizar e multar os incum-
versos projetos de investigação científica em pridores. Não menos importante, importa dizer
diferentes vertentes como gestão, economia, que, desde cedo, a problemática do tratamento
engenharia e saúde. do tributo despertou interesse de estudo, princi-
Ressalta-se, em face do exposto, não te- palmente porque envolve várias áreas de estu-
rem sido encontradas, na literatura científica, do, desde a contabilidade, a gestão empresarial,
as investigações com foco na nova legislação a economia, ou seja, um conjunto de discipli-
fiscal angolana, aplicada para instituições de nas que se associam para tratar desta matéria.
ensino educacional básico, sendo o presente Trata-se de uma questão moral, bem como de
trabalho uma publicação pioneira, com o ob- um cumprimento à obrigação legal por parte
jetivo principal de investigar de que forma os dos contribuintes, mas, ao mesmo tempo, pode
impostos influenciam as decisões dos gestores originar falência em casos de má gestão e pro-
de escolas privadas, tendo como foco um estu- vocar iliquidez para a empresa.
do de caso realizado no Município do Lobito, Para o alcance do objetivo proposto,
em Angola. utilizaram-se métodos de investigação empí-
Com isso, o artigo tem como objeto de in- ricos (inquérito) e teóricos (análise de docu-
vestigação os impostos e as obrigações fiscais e, mentação e recolha de dados). A obtenção de
como campo de ação, as informações contabilís- dados foi feita por meio da amostragem alea-
ticas e fiscais de algumas das escolas avaliadas. tória simples, ou seja, do universo de 35 esco-
A realização do presente estudo, em An- las privadas existentes no município do Lobito
gola, é de extrema relevância, uma vez que, em (população) foram selecionadas, de forma ale-
um momento em que a crise econômica é cada atória, 34 escolas.
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das por lei a incidência, as isenções e as taxas de Vasco (2015, p. 37) afirma que “o
cada imposto, bem como as formas processuais exercício fiscal em Angola coincide com o
de atacar a ilegalidade dos atos tributários (artº. ano fiscal que compreende o período de 1º
4°. do CGT) (CRA, 2010; CGT, 2014). de janeiro a 31 de dezembro [...]”.
Segundo Vasco (2015), a Segurança
[Link] Princípio da igualdade dos cida- Social, a entrega da folha de remuneração
dãos perante a lei e da não discri- e o pagamento das contribuições ao Estado
minação têm de ser feitos até ao dia 12 do mês se-
guinte ao do processamento da remunera-
À luz do artigo 23°. da CRA, todos os
cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos ção. Em relação aos outros impostos.
mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos a) Imposto sobre Rendimento do Tra-
deveres, sem distinção de sua cor, raça, etnia, balho (IRT): até ao último dia útil do
sexo, lugar de nascimento, religião, ideologia, mês, apresentação do Documento de
grau de instrução, condição econômica ou so- Liquidação de Imposto (DLI) e paga-
cial (CRA, 2010). mento do imposto retido na fonte no
mês anterior;
b) Imposto de Consumo: até o último dia
[Link] Princípio da estabilidade do fisco
útil do mês, apresentação do Documen-
to de Liquidação de Imposto (DLI) e
A definição do sistema fiscal e a criação
pagamento do imposto relativo ao vo-
de impostos são da competência da Assembleia
lume de operações do mês anterior;
Nacional, podendo, igualmente, ser o do Chefe
c) Imposto de Selo: até o último dia útil
do Executivo desde que autorizado por lei pas-
do mês, apresentação do Documento
sada por aquela. Os deputados e os grupos par-
de Liquidação de Imposto (DLI) e
lamentares não podem apresentar projetos de
pagamento do imposto relativo aos
lei que envolvem, no ano econômico em curso,
recebimentos efetivos de vendas do
aumento das despesas ou diminuição das recei-
mês anterior;
tas do Estado fixadas no orçamento.
d) Imposto Industrial: nos meses de ju-
lho e agosto, apresentação do DLI e
[Link] Princípio da não retroatividade da pagamento do imposto relativo à li-
lei fiscal quidação provisória referente a 2%
das vendas do 1º semestre do exercí-
As normas tributárias só dispõem para cio em referência, para os contribuin-
o futuro e nos termos regulados pela constitui- tes dos grupos B e A, respetivamente.
ção da República de Angola (artº. 8°. do CGT) A liquidação definitiva desse imposto
(CGT, 2014). está reservada para os meses de abril e
maio do ano seguinte a que o imposto
[Link] Princípio da territorialidade da lei diz respeito, para os contribuintes dos
fiscal Grupos B e A, respetivamente;
e) Imposto Predial Urbano: até o dia 31
As normas tributárias aplicam-se ape- de janeiro, apresentação da declaração
nas a fatos tributários ocorridos em território modelo 5, dos prédios não arrendados
nacional, salvo disposição legal em sentido e da declaração modelo 1 relativa às
contrário e sem prejuízo do direito interna- rendas recebidas no ano transato e pa-
cional a que o Estado angolano esteja vincu- gamento do imposto respetivo.
lado (artº. 9°. do CGT) (CGT, 2014).
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18 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito
presa, quer por simples retenção na fonte (pelos capaz de conciliar o crescimento sustentável da
clientes aos fornecedores de serviços). A aná- riqueza nacional, com a sua distribuição mais
lise de cada operação e do seu impacto fiscal justa e melhoria dos serviços públicos essen-
antes de sua ocorrência exige conhecimento e ciais ao bem-estar das populações.
domínio da própria Legislação Fiscal (GON- O setor privado exerce uma função fun-
ÇALVES, 2011). damental na economia de um país, na conces-
Ainda segundo o mesmo autor, um ter- são de empregos, na oferta de bens e serviços
ceiro procedimento resume-se na organização e contribui para a resolução de problemas so-
de todos os documentos afeitos às operações, ciais, tendo um lugar essencial na formação e
independentemente do valor monetário que tal no desenvolvimento de mercados inclusivos.
documento agregue. O mau tratamento dos do- Além de fomentar o crescimento econômico e a
cumentos pode levar a interpretações erradas na redução da pobreza, representa um papel muito
contabilização e pôr em causa a fiabilidade da relevante para o bem-estar social.
informação. Na realidade, gestão fiscal ou pla- O Governo de Angola tem apostado se-
neamento fiscal resumem-se na avaliação ante- riamente na educação e na formação de seus
cipada do fato gerador do tributo e na verificaçãocidadãos. Tal fato cria sinergias entre empreen-
da possibilidade de redução da carga fiscal antes dedores particulares, e o governo intituciona-
da ocorrência do fato gerador. Esses possíveis lizou o ensino particular em Angola pela Lei
procedimentos, ou qualquer outro que se apre- nº 18/91 de 18 de maio, acabando, assim, com
sente, baseiam-se nessa avaliação antecipada. a exclusividade do Estado no setor da educa-
ção e criando uma economia de custos. Pelo
2.4 INVESTIMENTO DO ESTADO Decreto 21/91, de 22 junho, surge o primeiro
NO ENSINO PRIVADO E SUA regulamento para a abertura e o funcionamento
CONTRIBUIÇÃO PARA O PAÍS de estabelecimentos de ensino particular não
superior (ANEP, 2014).
Nenhum Estado, quer tenha caracte- Passaram-se mais de 25 anos desde a li-
rísticas de país subdesenvolvido, quer em de- beralização do mercado de ensino particular e,
senvolvimento, poderá sair desse estágio se a sequencialmente, o surgimento das primeiras
educação do homem não for atenciosamente escolas privadas no país. O ensino particular em
cuidada. Para tal, institucionalizam-se sistemas Angola ganhou muita credibilidade, tendo pas-
educativos, uns com cunhos excessivamente sado de alternativa à opção. Nos anos noventa
estatais, outros marcadamente privados e, em do século passado, o ensino particular era apenas
outros, a coexistência de ambos sob a orienta- uma alternativa, porque o país vivia períodos de
ção do Estado. greve no ensino e, então, os colégios eram vistos
Segundo o relatório econômico do ano como uma boa alternativa. Depois da década de
2016, a economia de Angola está assente no 2000, o quadro inverteu-se, porque os colégios
petróleo, e o setor petrolífero continua a repre- propuseram-se à mudança e passaram de alter-
sentar mais de 50% do Produto Interno Bruto nativa à opção. Atualmente, os estabelecimentos
(PIB) nacional. O crescimento da economia particulares de ensino concorrem entre si com as
não petrolífera tem sido, cada vez mais, ex- escolas estrangeiras existentes em Angola e, ob-
pressivo, confirmando que o setor empresarial viamente, com o próprio Estado.
privado passou a exercer um papel a cada dia Esses colégios passaram a ser impulsio-
mais dinâmico no processo do desenvolvimen- nadores da qualidade e da diferença na educa-
to econômico do país (UCAN, 2017). ção, e existem muitos que passaram a receber os
Não obstante o crescimento do setor em- alunos da elite em Angola, o que trouxe alguma
presarial privado, cabe ao Estado o papel basi- confiança ao sistema, visto que oferecem o mes-
lar na edificação de uma economia de mercado, mo nível de ensino das escolas internacionais.
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Desde 1991, tem-se verificado grande Benguela possui um clima tropical seco,
crescimento de número de escolas privadas em uma extensão territorial de 39.827 km2 e, segun-
toda a Angola. Esse aumento prova a aposta do os dados do censo populacional (RGPH) de
séria do governo angolano na educação e, em 2014, residiam na província 2.036.662 pessoas
particular, no ensino privado. O aumento des- distribuídas por 10 municípios (ver tabela nº. 3).
sas escolas contribui, seriamente, na luta pela
alfabetização e na redução do número de cida- 2.5.1 Escolas existentes na província de
dãos fora do sistema de ensino. Benguela
O investimento no ensino privado é bem
visível em quase todo o território nacional, O setor da Educação na Província de Ben-
pois existem universidades privadas, institutos guela vem conhecendo melhorias nos níveis de
superiores privados, bem como escolas com- prestação de serviços como resultado dos inves-
participadas, sendo a gestão delas conjunta, ou timentos no quadro do programa do Governo e
seja, o Estado paga salários aos professores que da contribuição dos parceiros, consubstanciados
trabalham nessas escolas e, às vezes, disponi- no aumento do número de salas, extensão da
biliza as instalações, metas e outras condições rede escolar e ingresso de novos professores.
necessárias para o processo de ensino e apren- De acordo com dados da Direção Pro-
dizagem. Apesar de os salários dos professores vincial de Educação, Ciência e Tecnologia
serem pagos pelo Estado, as instituições de en- (DPECT) de Banguela, a província conta com
sino privadas, comparticipadas, cobram propi- um universo de 1268 escolas, a educação reali-
nas simbólicas que ajudam na gestão adminis- za-se por meio de um sistema unificado, cons-
trativa da escola. tituído pelos seguintes subsistemas de ensino.
O surgimento das escolas privadas em
Angola significou a abertura de mais oportu- 2.5.2 Alunos matriculados
nidades de emprego para os jovens. Tal fato
se justifica, visto que um dos requisitos para a Segundo os dados da Direção Provincial
abertura de uma escola privada é contar com de Educação Ciências e Tecnologia de Bengue-
um quadro docente com 60% de docentes efe- la, o universo estudantil para o ensino não uni-
tivos, o que faz que as escolas privadas con- versitário na província de Benguela, no ano lec-
tribuam para a redução do número de jovens tivo de 2017, é de 847.564 alunos distribuídos,
desempregados. em 817.085 para escolas públicas e compartici-
As escolas privadas empregam muitos jo- padas e 30.479 para escolas privadas.
vens, e as contribuições fiscais feitas por diversas
escolas privadas e comparticipadas contribuem 2.5.3 Escolas privadas da província de
certamente para a economia de Angola, reduzin-
Benguela
do os custos do governo na educação do cidadão.
A província de Benguela conta com um
2.5 A EDUCAÇÃO NA PROVÍNCIA universo de 85 escolas privadas, distribuídas
DE BENGUELA em 5 (cinco) municípios, sendo 41 no muni-
cípio de Benguela, 7 no município da Catum-
A província de Benguela situa-se na re- bela, 1 (uma) no município do Cubal, 1 (uma)
gião central e oeste de Angola, e a sua capital no município da Ganda e 35 no município do
é a cidade de Benguela. Ela tem como limites Lobito. Essas escolas oferecem diversos cursos
o oceano Atlântico (a oeste), a província do em todos os níveis de ensino e contam com um
Kwanza Sul (a norte), a província do Huambo total de 834 salas de aulas, direção (Provincial
(a este), a da Huíla (a sudeste) e, por último, a de Educação Ciencias e Tecnologia de Bengue-
província do Namibe (a sul). la, 2017).
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20 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito
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22 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito
Refere-se que um dos gestores comenta que essa é uma das razões pelas quais o Lobito é o
município com mais escolas privadas na província de Benguela. Porém, aproximadamente 18% dos
gestores consideram, por outro lado, que a atividade é pouco rentável, principalmente devido à crise
econômica, pois os encarregados de educação encontram dificuldades em pagar as propinas.
Pergunta nº. 2: qual a influência dos impostos na gestão de sua empresa?
Objetivo: conhecer a influência dos impostos na gestão de escolas privadas.
Conforme pode ser avaliado por meio da tabela 2, a maioria dos gestores considera que
os impostos, e certamente a atualização do sistema de fiscalização, incentivam a organização.
Segundo alguns gestores, obrigam a ter uma contabilidade e um controle internos rigorosos e
permitem partilhar o sucesso da empresa com o desenvolvimento do nosso país.
Tal pensamento leva a crer que a mentalidade dos gestores de escolas privadas no município do
Lobito em relação aos impostos não é tão cética como se tem pensado por mero senso comum. Ainda as-
sim, alguns gestores consideram que os impostos dificultam a gestão principalmente porque temos muitos
impostos e, em alguns, verifica-se a dupla tributação, e outros consideram que não influencia em nada.
Pergunta nº. 3: como se caracteriza a relação entre a Repartição Fiscal e os Contribuintes/Empresas?
Objetivo: caracterizar a relação entre a repartição fiscal e os contribuintes/Empresas.
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Quanto ao grau de conhecimento da legislação fiscal de Angola, a maior parte dos gestores
entende que domina bem, por conhecer os principais aspectos e impostos ligados às empresas do
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24 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito
setor. Ainda assim, 25% dos gestores consideram dominar mal a legislação fiscal do país, devido
à pouca informação possuída pelos gestores das empresas escolares. Na realidade, a maioria con-
sidera que a informação não circula. As atualizações e os diários não estão disponíveis a todos, o
que dificulta o domínio desejado da legislação fiscal.
Em um comparativo entre as tabelas 4 e 5, pode-se levantar a questão se esta percepção de
elevado grau de conhecimento reflete-se na realidade, uma vez que grande parte das causas das
multas fiscais está relacionada ao desconhecimento dos processos, aos atrasos nos recolhimentos
e à falta de informação por parte dos empresários.
Pergunta nº. 6: qual a razão pela qual não domina muito bem a legislação fiscal?
Objetivo: averiguar as razões pelas quais os gestores não dominam muito bem a legislação fiscal.
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Como seria expectável, grande parte dos gestores considera existir boa organização, trata-
mento e arquivo da documentação em sua empresa.
Com nenhuma autoavaliação apresentada nas duas categorias inferiores, conforme apre-
sentado na tabela 8, vale ressaltar que essa pergunta representa uma percepção do ambiente em
uma entrevista conduzida por um agente externo, e não necessariamente a realidade nas empresas,
que não era objeto do presente trabalho.
Pergunta nº. 9: como classifica o trabalho dos contabilistas para a sua empresa?
Objetivo: classificar o trabalho dos contabilistas na empresa.
Parte dos gestores considera que os seus contabilistas desempenham um trabalho bastante acei-
tável, conforme apresentado na tabela 9. Vale ressaltar que o trabalho realizado pelos contabilistas em
Angola sofreu grandes mudanças com o programa PERT citado anteriormente, e isso acarretou uma
necessidade, cada vez maior, de a empresa confiar nas decisões realizadas por tais profissionais.
Pergunta nº. 10: com a criação do PERT (Reforma Fiscal do Estado Angolano), como classifica
o processo fiscal no país?
Objetivo: classificar a Reforma Fiscal do Estado angolano.
De acordo com a tabela 10, com a criação da reforma fiscal do Estado angolano, parte dos
gestores considera que o processo fiscal melhorou no país.
Entre as várias sugestões apresentadas pelos gestores, para a revisão dos impostos atual-
mente existentes, destacamos as seguintes:
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30 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito
6. Razão pela qual não domina muito bem a Legislação Fiscal. Qual a razão pela qual não
domina muito bem a Legislação Fiscal?
• Pouca informação___
• Falta de interesse___
• Falta de esclarecimento___
• Falta de boas formações na área ___
7. Quais os impostos que mais dificultam em termos de incidência e liquidação para a sua
empresa?
• Imposto sobre Rendimento de Trabalho___
• Imposto Industrial___
• Imposto de Selo___
• Imposto de Consumo___
• Imposto Predial Urbano___
8. Como se classifica o tratamento e o arquivo da documentação em sua empresa?
• Muito bom___
• Bom___
• Mau___
• Muito mau ___
9. Como se classifica o trabalho dos contabilistas para a sua empresa?
• Muito bom___
• Bom___
• Mau___
• Muito mau ___
10. Com a criação do PERT (Reforma Fiscal do Estado Angolano), como classifica o processo
fiscal no país?
• Melhorou ___
• Piorou ___
• Permaneceu a mesma coisa___
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ARTIGOS
RESUMO
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32 ARTIGOS | É possível sobreviver a uma recuperação judicial? Evidências em empresas listadas na BM&FBOVESPA
which negotiate their actions on the Brazilian pequeno a grande porte a recorrerem à recupe-
stock exchange and pleaded for judicial reco- ração judicial como instrumento para superar a
very to overcome the situation of economic and crise econômico-financeira.
financial crisis. Taking into account concepts, a Conforme pesquisa do Serasa (2017),
research sought to analyze through the accoun- em 2016, foram protocolados 1.863 pedidos
ting indicators the effectiveness of the judicial de recuperação judicial, 44,8% a mais do que
recovery of 12 companies in the sample. From o registrado em 2015, sendo esse resultado o
the analysis of the results found, it was possible maior para o acumulado do ano desde 2006,
to verify that only one company showed clear quando da entrada em vigor da Lei 11.101/05,
signs of recovery of the situation of economic a lei brasileira que prevê a recuperação judicial
and financial crisis. e a falência de empresas.
Dessa forma, faz-se necessário analisar
Keywords: Performance analysis. Judicial re- a efetivação desse processo para as empresas,
covery. Law 11.101/05. uma vez que poucas alcançam a almejada recu-
peração. Nesse sentido, há a notícia publicada
1 INTRODUÇÃO em 2013 pelo Jornal Estadão referente a uma
análise do período de fevereiro de 2005 a outu-
O presente estudo traz o resultado da bro de 2013, em que apenas 1% das empresas
análise do desempenho econômico, financeiro que pediram recuperação judicial no Brasil sai
e operacional das empresas listadas na bolsa de do processo recuperada.
valores brasileira BM&FBOVESPA (B3) em Em 2016, o Jornal Estadão publicou ma-
processo de recuperação judicial, com o pro- téria referente à dificuldade enfrentada por al-
pósito de diagnosticar por meio dos indicado- gumas empresas brasileiras em cumprir o plano
res contábeis, se o processo de recuperação no de recuperação. De acordo com a notícia, a im-
Brasil está, de fato, viabilizando a superação da previsibilidade econômica é o argumento para
situação de crise econômico-financeira. Ainda, a revisão dos acordos originalmente aprovados
buscou-se investigar o processo de recupera- em assembleia.
ção judicial regulamentado pela Lei 11.101/05, Conforme o desembargador do Tribu-
além de fazer uma reflexão quanto à efetivação nal de Justiça de São Paulo, Carlos Henrique
da legislação brasileira no tocante ao incentivo Abrão, a dívida das empresas que entraram em
da atividade econômica. recuperação judicial soma em torno de R$ 250
O objetivo principal da presente pesqui- bilhões. Desse valor, apenas 25% serão pagos
sa foi avaliar o desempenho econômico, finan- efetivamente, segundo levantamento do Ins-
ceiro e operacional das companhias de capital tituto Nacional da Recuperação Empresarial
aberto, que negociam suas ações na bolsa de – INRE. Uma parte será reduzida durante o
valores brasileira e pleitearam a recuperação processo de recuperação; outra parte conver-
judicial para superação da situação de crise tida em ações para os investidores; o restante
econômico-financeira. Entende-se que o tema se perde com o processo falimentar de algumas
apresentado está em evidência na atual conjun- empresas (CORREÇÃO..., 2016).
tura econômica do Brasil, sendo importante seu Para Francisco Filho (2015), a recupe-
aprofundamento para fins acadêmicos, científi- ração judicial tem como meta tornar possível
cos e profissionais. a superação da situação de crise econômico-fi-
De acordo com os economistas da Sera- nanceira das empresas, permitindo que conti-
sa Experian (2016), o prolongamento e a am- nuem produzindo, empregando trabalhadores e
pliação do atual quadro recessivo da economia mantendo relações econômicas com credores.
brasileira, aliada à elevação dos custos opera- Portanto, com base na atual conjuntura econô-
cionais e financeiros, tem levado empresas de mica vislumbrada nos noticiários, faz-se ne-
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34 ARTIGOS | É possível sobreviver a uma recuperação judicial? Evidências em empresas listadas na BM&FBOVESPA
objetivos a serem alcançados, tais como análise horizontal, análise vertical, análise por meio de
índices ou quocientes e outras metodologias complementares.
A presente pesquisa aborda uma série de indicadores ou quocientes a serem apurados por
meio da relação entre contas ou grupos de contas que integram as demonstrações contábeis das
empresas objeto de estudo. No Quadro 1, está descrita a correlação entre as informações aborda-
das e os grupos de índices analisados.
Lins e Francisco Filho (2012) afirmam que os indicadores de atividade, obtidos a partir
de dados extraídos do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do Exercício, evi-
denciam a velocidade com que determinados elementos do ativo e do passivo giram, ou ainda se
renovam, durante o período contábil.
No Quadro 2, apresentam-se os índices de atividade, as fórmulas, as definições e as avalia-
ções elencados por Saporito (2015).
Fonte: adaptado pelos autores deste trabalho com base em Saporito (2015, p. 195).
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dos créditos derivados da legislação do traba- siste no requerimento do benefício por parte do
lho, bem como prazo superior a trinta dias para empresário ou sociedade empresária, na forma da
o pagamento das verbas estritamente salariais, petição inicial e termina com o despacho do juiz,
referentes aos três últimos meses, limitadas a deferindo o prosseguimento do pedido. Nesta eta-
cinco salários mínimos por trabalhador. pa, tem-se como objetivo a verificação da presen-
ça dos requisitos formais da recuperação.
2.7.3 Órgãos previstos pela Lei Na segunda fase, descrita por Coelho
(2014) como deliberativa, são verificados os
Segundo Abrão e Toledo (2016), ao juiz créditos envolvidos no processo, em que os cre-
é dada a função de presidir o processo jurídico, dores atingidos discutem e aprovam o plano de
ao Ministério Público, a função de atuar como recuperação, tendo como início o despacho de
fiscal da Lei, em nome do interesse coletivo. prosseguimento, e, como encerramento, a deci-
Assim, no desempenho de suas funções, tanto o são concessiva do benefício.
magistrado, quanto o membro do Ministério Pú- Por fim, a fase de execução compreende
blico terão a participação dos seguintes órgãos o período de cumprimento do plano de recupe-
ou auxiliadores: administrador judicial, o comitê ração, bem como a fiscalização por parte dos
de credores e a assembleia geral de credores. órgãos ou dos auxiliadores. Essa fase parte da
a) administrador judicial: poderá ser decisão concessiva do benefício e é concluída
pessoa física ou jurídica, que dispõe pela sentença de encerramento.
de condições técnicas para auxiliar no De acordo com Salomão (2015), após
processo, preferencialmente, advoga- mais de dez anos de vigência da Lei 11.101/05
dos, economistas, administradores de (BRASIL, 2005), serão necessários mais alguns
empresas ou contadores; anos para que a jurisprudência e a doutrina se
b) comitê de credores: órgão de repre- posicionem sobre algumas questões, o que vem
sentação, criado para acompanhar o de encontro com os objetivos da presente pes-
cotidiano do procedimento jurídico quisa, que consistem em avaliar o desempenho
de recuperação judicial, com atribui- das companhias de capital aberto listadas na
ções consultivas e fiscalizatórias, o B3 que pleitearam o processo de recuperação
qual deverá ser composto por repre- judicial para superação da situação de crise
sentantes das classes de credores; econômico-financeira, com vistas a verificar a
c) assembleia geral de credores: órgão que efetividade da Lei 11.101/05, como forma de
agrega todos aqueles que têm créditos incentivo à atividade econômica.
contra a sociedade empresária. Sua prin-
cipal função é apreciar o plano de recupe- 2.7.5 Contexto internacional
ração judicial, com o intuito de aprovar,
modificar ou ainda rejeitar o mesmo. Roberts et al. (2010) apontam que, na
Espanha, os legisladores espanhóis aprovaram
2.7.4 Processo de recuperação judicial um conjunto de decretos e leis reais (geralmente
conhecidos como Plano E) para estimular uma
Descritos os requisitos, as formas de re- economia fraca. Esses decretos contêm, em suas
cuperação, bem como os órgãos que fazem par- orientações e textos, medidas urgentes de legis-
te desse processo, passa-se a apresentar como lação tributária, financeira e de falências que se
esses pilares se integram durante o processo de adaptam ao desenvolvimento da situação econô-
recuperação judicial. Para Coelho (2014), esse mica atual do país. Essas ações vão de encontro
procedimento pode ser descrito em três fases: a com a estabilização dos mercados financeiros,
postulatória, a deliberativa e a executória. oferecendo às empresas com problemas de liqui-
Para esse autor, a fase denominada con- dez um acesso mais fácil ao dinheiro.
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38 ARTIGOS | É possível sobreviver a uma recuperação judicial? Evidências em empresas listadas na BM&FBOVESPA
Nota-se, também, que desde a aprovação rios, dados estatísticos, entre outros relacionados
dessas leis e decretos, vários acórdãos assinala- à recuperação judicial. Para atingir os objetivos
ram as suas insuficiências, cujo objetivo é reduzir
propostos, buscou recolher um grande número
os custos processuais, facilitar o refinanciamentode dados dos processos de recuperação judicial
de empresas viáveis, melhorar a situação jurídi- das empresas no período delimitado.
ca dos trabalhadores afetados pela falência ou Quanto ao levantamento, Siqueira (2013)
recuperação judicial da sua empresa, estimular afirma que esse método busca realizar uma des-
acordos antecipados com credores e expandir os crição, relato ou levantamento dos fenômenos,
procedimentos acelerados a empresas com res- seguido de interpretação. Portanto, buscaram-se
ponsabilidades inferiores a 10 milhões de euros. pesquisar as empresas em situação de dificulda-
A legislação de insolvência russa mudou, des econômico-financeiras, listadas na B3, com o
dramaticamente, desde 1992, quando a primei- propósito de avaliá-las nos aspectos econômico,
ra lei foi adotada. As primeiras disposições em financeiro e operacional, a fim de apontar as difi-
matéria de insolvência tinham, essencialmente, culdades do processo de recuperação judicial regu-
natureza declarativa e aplicação prática míni- lamentado no Brasil diante dos casos analisados.
ma. Desde então, o foco da legislação de insol- A pesquisa bibliográfica busca o levan-
vência russa mudou, significativamente, para tamento bibliográfico sobre o tema, com o pro-
proteger os interesses dos credores e para esta- pósito de identificar informações e subsídios
belecer um equilíbrio entre os interesses destes para definição dos objetivos, determinação do
e seus devedores. Uma das alterações mais sig- problema e definição dos tópicos do referencial
nificativas diz respeito aos procedimentos sim- teórico (MICHEL, 2015). Logo, as descobertas
plificados para iniciar a falência/recuperação. e as constatações foram elaboradas a partir de
Anteriormente, os credores podiam apresen- materiais já publicados, constituídos por livros,
tar uma petição a um tribunal por declarar um artigos de periódicos, entre outros que se rela-
devedor falido ao término de trinta dias após cionam com os processos de recuperação judi-
a entrega de um mandado de execução para o cial das empresas escolhidas para o estudo.
serviço judicial e uma cópia para o devedor. As Da abordagem do problema, trata-se de
alterações permitem aos credores apresentar uma pesquisa qualitativa, descrita por Pereira
um pedido a partir da data de entrada de uma (2012) como aquela que pode trazer a interpreta-
decisão judicial contra o devedor. ção dos fenômenos e a atribuição de significados.
Do ponto de vista dos objetivos, a pes-
3 MÉTODO DE PESQUISA quisa caracteriza-se por exploratória, pois, de
acordo com Ramos (2009), esse modelo visa
3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA proporcionar maior familiaridade com o pro-
blema, tornando-o explícito. Levando-se em
Para a realização da presente pesquisa, consideração esses aspectos, analisou-se o de-
utilizou-se de procedimentos técnicos docu- sempenho econômico, financeiro e operacional
mentais e de levantamento, além de uma pes- das empresas com processo de recuperação ju-
quisa bibliográfica. dicial, listadas na B3 até dezembro de 2016.
Pereira (2012) argumenta que a pesquisa
documental tem por finalidade reunir, classificar 3.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA
e distribuir os documentos de todo gênero dos di-
ferentes domínios da atividade humana. Assim, Akanime e Yamamoto (2013) definem
os dados da presente pesquisa foram elaborados população como a totalidade de indivíduos
a partir de materiais que não receberam trata- ou objetos que possuem ao menos uma carac-
mento analítico, tais como notícias, demonstra- terística em comum, sendo o subconjunto de
ções contábeis das empresas pesquisadas, relató- uma população, a amostra. Para Mascarenhas
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(2012), a amostra é caracterizada por um pedaço da população que se pretende pesquisar. Portan-
to, a população desta pesquisa abrange as 24 empresas listadas na B3 até dezembro de 2016 com
processo de recuperação judicial ativo.
A amostra é composta por doze companhias, com registro regular na bolsa de valores bra-
sileira, devidamente aptas a desenvolver suas atividades operacionais; empresas com processo
falimentar foram excluídas. Para a seleção da amostra, foi levada em consideração também a data
de aprovação do plano de reestruturação – foram eliminadas as companhias com plano de recu-
peração aprovado em assembleia geral de credores apenas em 2016, pois pretende-se verificar a
efetividade do processo de recuperação judicial, e, nesses casos, os dados para embasamento da
pesquisa seriam escassos.
O Quadro 3 demonstra a relação de empresas que serviram de amostra para esta pesquisa.
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para recebimento dos tributos devidos (saúde, no fluxo de pagamento da dívida durante o pe-
educação, segurança, por exemplo). ríodo. Conforme os indicadores abordados na
De fato, o instituto da recuperação judi- pesquisa, a empresa ainda não emitia sinais
cial possibilita às empresas em crise econômi- claros de recuperação. Cabe mencionar que o
co-financeira diversas formas para se recuperar, fim do acompanhamento judicial não restringi-
todavia, de acordo com os dados desta pesqui- rá a duração do plano, o qual deverá perdurar o
sa, verifica-se que esse processo é longo, sendo tempo descrito e aprovado na assembleia geral
assim, necessária a revisão das medidas inicial- dos credores.
mente assentidas no plano de recuperação. Ain- Outro ponto a se destacar é o fato de que
da que aprovada a viabilidade econômica das essas empresas, ao longo de suas dificuldades
empresas por seus credores, há outros fatores enfrentadas na esfera econômica e financeira,
que influenciam sua recuperação. Por exemplo, foram perdendo a credibilidade junto a seus
a queda do faturamento é um fator mercadoló- credores. Como o objetivo é recuperar a ati-
gico imprevisível que prejudicou e ainda preju- vidade, muitas vezes elas esbarram na falta de
dica a recuperação de muitas empresas. crédito, prazos e fornecimento para assegurar
Das análises abordadas, constata-se que sua continuidade.
apenas a empresa Rede Energia apontou resul- De acordo com a Lei 11.101/05 (BRASIL,
tados satisfatórios para concluir que está em via 2005), a recuperação judicial deve ser um incen-
de se recuperar, enquanto as demais continuam tivo à atividade econômica, entretanto, diante dos
trabalhando com um ciclo financeiro desfavo- casos analisados, entende-se que a lei deve ser
rável, má estrutura do endividamento e baixa revista para que esse procedimento seja rápido
rentabilidade sobre os ativos. e eficaz para as grandes companhias do País. O
Em agosto de 2016, a Rede de Energia grande objetivo dessa regulamentação é viabilizar
obteve decisão decretando o encerramento da a superação da situação de crise econômico-finan-
recuperação judicial, uma vez que cumpriu to- ceira do devedor, a fim de permitir a manutenção
das as obrigações previstas no plano de recupe- da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores
ração dentro do período de dois anos, confor- e dos interesses dos credores, promovendo, as-
me disposto no artigo 61, da Lei 11.101/2005 sim, a preservação da empresa, sua função social
(BRASIL, 2005). Contra essa decisão, alguns e o estímulo à atividade econômica.
credores apresentaram embargos de declara-
ção, os quais foram devidamente rejeitados 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
pelo juízo da recuperação em decisão datada de
11/10/2016. Na sequência, um dos credores da O peculiar quadro atual da economia
companhia interpôs apelação contra a decisão brasileira demanda cautela para toda a socieda-
de encerramento. Aguarda-se o processamento de. É notório como o mercado de capitais reage
do recurso e o seu julgamento pelo Tribunal de a cada notícia fornecida pela mídia, que, con-
Justiça de São Paulo. sequentemente, afeta a inflação, restringe os
Do mesmo modo, a empresa Mangels investimentos e faz que o dólar oscile. Enfim,
S.A teve decretado o fim do acompanhamen- uma série de fatores que, implacavelmente, afe-
to judicial sobre sua recuperação em março de tam a economia brasileira.
2017. Todavia, o encerramento da recuperação Diante disso, a pesquisa buscou abordar
judicial ocorreu três meses depois de a Mangels aspectos relevantes da recuperação judicial,
ter aprovado um aditivo alterando as condições com a finalidade de apontar, por meio dos indi-
de pagamento estabelecidas no plano inicial, cadores contábeis, o desempenho das empresas
aumentando a carência para mais dois anos dos que recorreram a esse procedimento jurídico,
pagamentos das dívidas repactuadas, a fim de como forma de viabilizar a superação da situa-
possibilitar melhor redistribuição e equilíbrio ção de crise econômico-financeira.
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RESUMO
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Camila Silva Nascimento, Jorge Alberto de Saboia Arruda 47
level and 3 with level below. It was observed e da preocupação dos usuários da contabili-
that the most frequent contingent liabilities dade com a qualidade das informações con-
were tax, labor and civil, respectively. It was tábeis, o passivo ganhou destaque devido à
noticed that the companies are not yet adequate- necessidade de demonstrar a real situação
ly complying with the requirements established líquida da entidade e da avaliação dos ris-
by CPC 25 (2009), however, the majority pre-
cos inerentes à atividade da entidade (CA-
sented satisfactory levels of disclosure.
ETANO et al., 2010; SUAVE et al., 2013).
Keywords: Contingent Liabilities. Disclosure. Assim, este artigo tem como objetivo ava-
CPC 25. Corporate Governance. liar o nível de divulgação do passivo con-
tingente dos bancos listados nos segmentos
1 INTRODUÇÃO diferenciados de governança corporativa da
BM&FBovespa nos demonstrativos finan-
No Brasil, a adequação às normas in- ceiros de 2014 a 2016.
ternacionais de contabilidade veio com as Os segmentos diferenciados de go-
Leis 11.638/2007 e 11.941/2009, que de- vernança corporativa (Novo Mercado, Ní-
terminaram a adoção dos pronunciamentos vel 1 e Nível 2) são direcionados às compa-
técnicos emitidos pelo Comitê de Pronun- nhias que se comprometem com a adoção
ciamentos Contábeis (CPC). Essas normas de práticas de governança corporativa
têm o objetivo de direcionar o modo como adicionais às exigidas em lei (BM&FBO-
as empresas divulgam as demonstrações VESPA, 2016). Fonteles et al. (2013) cons-
financeiras, proporcionando maior com- tataram que as empresas listadas no Novo
parabilidade e qualidade nas informações Mercado e nos Níveis 1 e 2 de Governança
prestadas e, assim, tornando o processo de Corporativa apresentam nível de disclosure
tomada de decisão mais eficiente (CAS- mais elevado quando comparado com as de-
TRO JUNIOR, 2013; SUAVE et al., 2013). mais empresas. Castro Junior (2013) afirma
O pronunciamento técnico CPC 25 que as empresas listadas nesses segmentos
trata, entre outros aspectos, dos critérios possuem critérios mais rígidos de eviden-
de reconhecimento e base de mensuração ciação. Dessa maneira, optou-se, nesta pes-
apropriada às provisões, ao passivo e ati- quisa, por restringir a análise às instituições
vo contingente e da divulgação em notas financeiras listadas nos segmentos diferen-
explicativas de informações relacionadas à ciados de governança corporativa.
sua natureza, oportunidade e valor (COMI-
TÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁ- 2 REVISÃO DE LITERATURA
BEIS, 2009). Quanto às companhias aber-
tas, a Deliberação nº 594/2009 da Comissão 2.1 PASSIVO
de Valores Mobiliários (CVM) tornou obri-
gatória a aplicação do Pronunciamento O passivo refere-se a compromissos
assumidos com terceiros, que devem ter seus
Técnico CPC 25, a partir de 2010. Enquan-
valores reconhecidos e destacados no Balan-
to em relação às instituições financeiras, o ço Patrimonial da entidade. O Pronunciamen-
Banco Central do Brasil (BACEN) emitiu to Conceitual Básico CPC 00 R1, emitido em
a Resolução nº 3.823/2009 que determina 2011 pelo CPC para fundamentar a elaboração
a observância do CPC 25 a partir de 2010. e a divulgação das demonstrações contábeis, no
Diante da publicação dessas normas item 4.4 b, define o passivo como “uma obriga-
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ção presente da entidade, derivada de eventos da entidade; e (b) o item tiver custo ou valor
passados, cuja liquidação se espera que resul- que possa ser mensurado com confiabilidade.
te na saída de recursos da entidade capazes de A primeira condição para o reconhecimen-
gerar benefícios econômicos.” (COMITÊ DE to é que o elemento atenda a definição de passi-
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011, vo. A segunda é que ele possua valor que possa
p. 23). A definição apresenta três características ser mensurado com confiabilidade ou possa ser
essenciais: uma obrigação presente da entidade, estimado com razoabilidade, pois o uso de esti-
resultado de transações ou eventos passados, e mativas razoáveis não altera sua confiabilidade.
a liquidação implicará a saída de recursos ge- A falta de reconhecimento não é corrigida pela di-
radores de benefícios futuros (COMITÊ DE vulgação de notas explicativas e outros materiais
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011; explicativos nem das práticas contábeis adotadas
NIYAMA; SILVA, 2013). (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON-
As obrigações são criadas a partir de um TÁBEIS, 2011; NIYAMA; SILVA, 2013).
evento, que faz que a entidade não tenha nenhu- Quanto à classificação, os passivos po-
ma alternativa realista senão liquidar a obrigação. dem ser classificados quanto à sua ocorrência
A não liquidação pode gerar penalidades signifi- (normais ou contingentes), quanto à sua liquida-
cativas para a entidade (COMITÊ DE PRONUN- ção (monetários ou não monetários) e quanto à
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009; NIYAMA; sua evolução (onerosos ou não onerosos) (FA-
SILVA, 2013). Uma obrigação pode ser legal ou RIAS, 2004). Dessa maneira, serão apresentados
não formalizada. Obrigação legal é oriunda de um a seguir os passivos contingentes e as provisões.
contrato, de uma legislação ou de outra ação da
lei. A não formalizada decorre de ações da entida- 2.2 PROVISÕES E PASSIVOS CON-
de que indicam a outras partes que aceitará certas TINGENTES
responsabilidades e cria expectativas válidas de
que cumprirá com essas responsabilidades (CO- Deve-se ressaltar que, inicialmente, o
MITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁ- CPC 25 (COMITÊ DE PRONUNCIAMEN-
BEIS, 2009). Para ser considerado um passivo, a TOS CONTÁBEIS, 2009) define provisão
obrigação deve ser resultado de um evento passa- como um passivo de prazo ou de valor incer-
do (FARIAS, 2004). tos. Logo, as provisões são diferenciadas dos
A existência de um passivo indica que, passivos quando há incerteza sobre os prazos
futuramente, a entidade deverá utilizar recursos ou os valores que serão desembolsados ou exi-
incorporados de benefícios econômicos para gidos para sua liquidação. Dessa forma, uma
sua liquidação. De acordo com o CPC 00 R1 provisão deve ser reconhecida quando atender
(COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON- ao conceito de passivo e puder ser feita uma
TÁBEIS, 2011), isso pode ocorrer de diversas estimativa confiável do montante da obrigação.
formas, como, por meio de pagamento em cai- O valor reconhecido como provisão deve ser a
xa, transferência de ativos, prestação de servi- melhor estimativa, valor requerido na hipótese
ços, substituição de uma obrigação por outra, de a entidade pagar ou transferir a obrigação
conversão da obrigação em item do patrimônio para terceiros na data do balanço (COMITÊ DE
líquido, renúncia por parte do credor ou pela PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009;
perda de seus direitos. GELBCKE et al., 2013).
O CPC 00 R1 (COMITÊ DE PRONUN- O passivo contingente é um tipo de passi-
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011) destaca vo que, para sua efetivação, depende da ocorrên-
que os elementos patrimoniais serão reconhe- cia ou não de um evento no futuro. Esse evento
cidos na demonstração contábil se: (a) for pro- pode resultar em ganhos ou perdas para a entida-
vável que algum benefício econômico futuro de e não está totalmente sob o controle (COMI-
associado ao item flua para a entidade ou flua TÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS,
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Percebe-se, por meio das informações cam tornar algo evidente e público, no que se
contidas no Quadro 1, que, quando a contingên- refere às informações contábeis.
cia é considerada provável, há o reconhecimen- A divulgação de informações contá-
to da provisão e o item aparece no Balanço Pa- beis tem o objetivo de auxiliar os usuários na
trimonial complementado por nota explicativa. tomada de decisão. Para isso, as informações
No entanto, quando é considerada possível, não precisam ser relevantes e completas. Segundo
deve ser feito o registro contábil, embora deva Hendriksen e Van Breda (1999), para se conse-
ser divulgada em notas explicativas. Quando a guir uma divulgação apropriada, é necessário
possibilidade é remota, não ocorre nem o re- responder a três perguntas fundamentais: para
gistro nem a divulgação em notas explicativas. quem divulgar? Qual a finalidade da informa-
Já as estimativas devem levar em consi- ção divulgada? Quanto divulgar?
deração os riscos e as incertezas que, inevita- As demonstrações contábeis têm a fina-
velmente, estão ligados aos eventos ocorridos. lidade de fornecer informações úteis à tomada
O risco descreve a variabilidade de desfechos de decisão que devem ser divulgadas, princi-
possíveis, e a incerteza não deve justificar a es- palmente, a seus usuários primários: acionis-
colha do desfecho mais adverso. O desfecho a tas, outros investidores e credores. As decisões
ser considerado deve ser o mais provável. As tomadas por esses grupos são bem definidas e
provisões devem ser reavaliadas e ajustadas a simples: os investidores decidem, basicamen-
cada data de balanço para refletir a melhor esti- te, sobre compra, manutenção ou venda, e os
mativa corrente. A provisão deve ser revertida credores sobre conceder crédito ou não. Porém,
caso deixe de ser provável a saída de recursos existem os destinatários secundários, dos quais
para a liquidação da obrigação (COMITÊ DE não se conhecem as decisões: funcionários,
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009). clientes, governo e público em geral (COMITÊ
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2011; HENDRIKSEN; VAN BREDA, 1999). Por meio do quadro 2, pode-se perceber
A Orientação Técnica OCPC 07 (CO- que a divulgação baseada em Associação veri-
MITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON- fica a existência de associação entre o disclo-
TÁBEIS, 2014) esclarece e reforça que, nas sure e as variáveis de mercado, por exemplo,
demonstrações contábeis e respectivas notas o preço das ações da empresa. Já a Divulgação
explicativas, sejam divulgadas informações baseada em Eficiência engloba a divulgação de
relevantes que, de fato, façam a diferença nas informações preferíveis quando não se conhece
decisões que possam ser tomadas pelos usuá- a informação anterior. Na Divulgação baseada
rios. A contabilidade deve expressar, de forma em Julgamento, o gestor exerce sua discricio-
apropriada, a situação patrimonial e financeira nariedade, decidindo divulgar ou não determi-
da entidade e as mutações ocorridas no perí- nadas informações. Desse modo, este estudo se
odo por meio da divulgação das demonstra- enquadra, de forma adaptada, como Divulgação
ções contábeis exigidas pelo artigo 176 da Lei Baseada em Associação, pois trata de analisar a
6.404/1976 (BRASIL, 1976). São obrigatórias divulgação da informação, mas sem relacionar
as seguintes demonstrações: balanço patrimo- com os efeitos causados nos agentes.
nial, demonstração dos lucros ou prejuízos As informações sobre o passivo con-
acumulados, demonstração do resultado do tingente devem ser divulgadas em notas ex-
exercício, demonstração dos fluxos de caixa plicativas, que, além de fornecer informações
e demonstração do valor adicionado. O CPC adicionais sobre as demonstrações contábeis,
26 R1 (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS oferecem descrições narrativas ou segregações,
CONTÁBEIS, 2011) acrescenta a divulgação abertura de itens divulgados nessas demons-
da demonstração do resultado abrangente e a trações e informação acerca de itens que não
demonstração das mutações do patrimônio lí- se enquadram nos critérios de reconhecimen-
quido, que inclui a demonstração dos lucros ou to nas demonstrações contábeis (COMITÊ DE
os prejuízos acumulados. PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011).
O disclosure pode ser apresentado de A divulgação das informações sobre as contin-
forma obrigatória ou voluntária. A divulgação gências de uma organização contribui para me-
obrigatória corresponde à abrangência das infor- lhor avaliação da entidade no mercado.
mações exigidas por lei, envolvendo os requeri- A Divulgação do Passivo Contingente é
mentos de informações para registro das compa- importante para o mercado de capitais, no qual
nhias abertas e as demais informações periódicas as empresas estão inseridas, pois essa eviden-
exigidas pelas comissões de valores mobiliários, ciação demonstra a forma como as empresas li-
como a publicação das demonstrações contábeis. dam com os riscos potenciais ligados à sua ati-
Quanto à divulgação voluntária, ela se refere à vidade. Essas informações, se adequadamente
veiculação de toda informação que seja útil para divulgadas, impactam os modelos de avaliação
a tomada de decisões pelos diversos usuários, en- das empresas, reduzindo as incertezas, dimi-
volve informações que não são exigidas por lei, nuindo a assimetria de informações, interferin-
mas que oferecem maior transparência (LIMA, do no valor de mercado da empresa e podendo
2007; OLIVEIRA; BENETTI; VARELA, 2011). dar aos usuários condições de escolher entre
Quadro 2 - Tipos de Disclosure
Tipos de Disclosure Definição
Baseada em Associação Examinam-se a relação e os efeitos nos agentes durante o evento do disclosure.
Analisa-se a existência de arranjos eficientes no disclosure que seriam preferidos
Baseada em Eficiência
incondicionalmente.
Examina-se a discricionariedade que os gestores exercem com relação às
Baseada em Julgamento
decisões do disclosure.
Fonte: elaborado a partir de Verrecchia (2001 apud MURCIA; SANTOS, 2009).
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estabelecer ou manter relações com a organiza- a provisão e o passivo contingente. E, caso al-
ção (PRADO, 2014). guma das informações exigidas não forem di-
Conforme mencionado, as provisões e os vulgadas por não ser praticável, a entidade deve
passivos contingentes devem ser divulgados nas divulgar esse fato.
demonstrações contábeis e em notas explicati- O Sistema de Governança Corporativa
vas (HENDRIKSEN; VAN BREDA, 1999). A traz alguns princípios básicos: transparência,
divulgação do passivo contingente está prevista que consiste na divulgação de informações de
no artigo 176 da Lei 6.404/1976, no parágrafo interesse dos envolvidos e não apenas os exigi-
referente às notas explicativas, assim, descrito: dos nas leis e nos regulamentos; equidade, trata-
“§ 5o As notas explicativas devem: [...] IV – in- mento justo de todos os sócios e demais partes
dicar [...] d) os ônus reais constituídos sobre interessadas; prestação de contas, os agentes de
elementos do ativo, as garantias prestadas a ter- governança devem prestar contas de modo claro,
ceiros e outras responsabilidades eventuais ou compreensivo, preciso e tempestivo, assumindo
contingentes; [...].” (BRASIL, 1976, on-line). a consequência de seus atos e agindo com res-
Assim, conforme as exigências dos itens ponsabilidade; e responsabilidade corporativa,
84 a 92 do CPC 25 (COMITÊ DE PRONUN- que é o zelo pela viabilidade econômico-finan-
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009), para cada ceira da organização, minimizando os impactos
classe de provisão, a entidade deve divulgar o negativos e aumentando os positivos inerentes
valor contábil no início e no fim do período; as às suas operações (IBGC, 2017).
provisões adicionais feitas no período, incluindo A BM&FBovespa criou os segmentos
aumentos nas provisões existentes; os valores especiais de listagem das ações após perceber
utilizados (ou seja, incorridos e baixados contra que era necessário ter segmentos adequados
a provisão) durante o período; os valores não uti- aos diferentes perfis de empresas, para que o
lizados revertidos durante o período; e o aumento mercado de capitas se desenvolva. Os segmen-
durante o período no valor descontado ao valor tos especiais são: Bovespa Mais, Bovespa Mais
presente, proveniente da passagem do tempo, e o Nível 2, Novo Mercado, Nível 2 e Nível 1.
efeito de qualquer mudança na taxa de desconto. Além desses segmentos, a BM&FBovespa pos-
Não é exigida informação comparativa. sui, ainda, o Segmento Básico, que não conta
A entidade deve divulgar, em notas ex- com regras diferenciadas de governança corpo-
plicativas para cada classe de passivo contin- rativa (BM&FBOVESPA, 2017).
gente, na data do balanço, uma breve descrição O Novo Mercado estabeleceu um pa-
da natureza do passivo contingente (trabalhista, drão altamente diferenciado de governança
tributária, cível e ambiental) e, quando praticá- corporativa. Tornou-se o padrão exigido pelos
vel, a estimativa do seu efeito financeiro, con- investidores para novas aberturas de capital,
forme as regras de mensuração, considerando recomendado para empresas que pretendem
a melhor estimativa, os riscos e as incertezas; fazer ofertas grandes e direcionadas a qual-
a indicação das incertezas relacionadas ao va- quer tipo de investidores. A listagem nesse
lor ou ao momento de ocorrência de qualquer segmento acarreta a adoção de um conjunto de
saída e a possibilidade de qualquer reembolso regras societárias que ampliam os direitos dos
(COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON- acionistas, além da adoção de uma política de
TÁBEIS, 2009). divulgação de informações mais transparente e
O CPC 25 (COMITÊ DE PRONUN- abrangente (BM&FBOVESPA, 2017).
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009) estabelece O Nível 2 é semelhante ao Novo Mer-
ainda que, quando a provisão e o passivo con- cado, com algumas exceções. Por exemplo, ele
tingente surgirem do mesmo conjunto de cir- permite a existência de ações ordinárias e pre-
cunstâncias, a entidade deve fazer a divulgação ferenciais com direito a voto em situações crí-
exigida de forma que evidencie a ligação entre ticas. No Novo Mercado, somente são permiti-
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52 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA
das ações ordinárias. Para ser classificada nesse ser classificada como descritiva, uma vez que
nível, a empresa precisa atender às exigências visa identificar, relatar e comparar o nível de
do Nível 1, além disso, adotar outras práticas divulgação do passivo contingente dos bancos
de governança (BM&FBOVESPA, 2017). listados nos segmentos diferenciados de gover-
As companhias listadas no Nível 1 de- nança corporativa da BM&FBovespa nos de-
vem adotar práticas que favoreçam a transpa- monstrativos financeiros de 2014 a 2016.
rência e o acesso às informações, divulgando Quanto aos procedimentos, esta pesquisa
informações adicionais às exigidas em lei. A é documental, pois se baseia em materiais que
classificação nesse nível permite a existência ainda não receberam um tratamento analítico
de ações ordinárias e preferências, conforme ou que podem ser reelaborados de acordo com
a legislação societária, a manutenção de uma os objetivos da pesquisa; por exemplo, as de-
parcela mínima de ações em circulação, a me- monstrações financeiras e as notas explicativas
lhoria nas informações trimestrais e a divulga- observadas neste estudo. Isto é, esse tipo de in-
ção de informações sobre partes relacionadas vestigação visa selecionar, tratar e interpretar a
(BM&FBOVESPA, 2017). informação bruta, buscando extrair algum sen-
tido (ALMEIDA, 2014; BEUREN, 2006).
3 METODOLOGIA Este estudo tem como universo a ser in-
vestigado os bancos listados na BM&FBoves-
Em relação à natureza, este estudo pode pa, classificados nos segmentos diferenciados
ser considerado qualitativo, por utilizar a aná- de Governança Corporativa em 2 de dezembro
lise de conteúdo ao coletar os dados nas notas de 2016. Dessa maneira, a população desta pes-
explicativas. Michel (2015, p. 40) destaca que quisa é composta por 10 empresas listadas no
“a pesquisa qualitativa se propõe a colher e a Setor Financeiro, subsetor Intermediários Fi-
analisar dados descritivos obtidos diretamente nanceiros, Bancos, conforme Quadro 3:
da situação estudada; enfatiza o processo mais
que o resultado, para o que precisa e retrata a
perspectiva dos participantes.”
Quanto aos objetivos, esta pesquisa pode
Quadro 3 - População da Pesquisa
Razão Social Código Governança Corporativa
Banco ABC Brasil S.A. ABC BRASIL Nível 2
Banco Bradesco S.A. BRADESCO Nível 1
Banco Brasil S.A. BRASIL Novo Mercado
Banco Estado do Rio Grande do
BANRISUL Nível 1
Sul S.A.
Banco Indusval S.A. INDUSVAL Nível 2
Banco Pan S.A. BANCO PAN Nível 1
Banco Pine S.A. PINE Nível 2
Itausa Investimentos Itaú S.A. ITAUSA Nível 1
Itaú Unibanco Holding S.A. ITAUUNIBANCO Nível 1
Paraná Banco S.A. PARANA Nível 1
Fonte: dados da pesquisa (2017).
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Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível
2014 1 1 1 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 69%
2015 1 1 1 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 69%
2016 1 1 1 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 69%
Fonte: dados da pesquisa (2017).
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Entre os bancos contidos na amostra deste estudo, que possuem os menores níveis de divul-
gação, está o ABC Brasil, que apresenta o terceiro pior nível de divulgação. A entidade possui o
quarto menor ativo total, com o valor de R$ 25,4 bilhões. É uma empresa considerada jovem, com
33 anos de idade, fundada em 1983. Está listada no segmento Nível 2 de governança corporativa,
e suas demonstrações são auditadas por uma das firmas de auditoria classificadas como Big Four,
a Ernst & Young.
Constatou-se, por meio da análise das notas explicativas da empresa em estudo, que os
tipos de passivos contingentes de maior frequência de divulgação são cíveis e tributários, uma
vez que as contingências trabalhistas só foram consideradas como perda possível em 2016. Os
processos fiscais são referentes a imposto de renda, contribuição social, imposto sobre serviços,
encargos previdenciários e compensações não homologadas de tributos. As ações cíveis referem-
-se a pedidos de anulação de débitos referentes a operações de crédito e solicitação de pagamento
de diferença no preço de venda de títulos oferecidos para pagamento de empréstimos.
Em 2014 e 2015, o nível de divulgação foi 46%. Em 2016, o nível de divulgação reduziu
para 38%. Isso ocorreu porque a companhia realizou a divulgação em conjunto dos valores
referentes à constituição e à reversão, não sendo possível identificar os valores relativos a cada
item separadamente.
O BANCO PAN é a companhia que apresenta o segundo pior nível de divulgação. A orga-
nização possui o quinto menor ativo total entre as empresas analisadas, com o valor de R$ 27,77
bilhões. A empresa foi fundada em 1966 e, em 2016, estava com 50 anos. Está classificada no Nível
1 de governança corporativa. Suas demonstrações financeiras são auditadas pela firma de auditoria
PricewaterhouseCoopers (PwC). Os passivos contingentes classificados como perda possível, divul-
gados pela empresa, são apenas do tipo tributário. Eles são referentes a processos sobre imposto de
renda, contribuição social, imposto de renda retido na fonte e imposto sobre serviços.
Durante o período analisado, a companhia apresentou o mesmo nível de divulgação, 38%.
A empresa divulgou, em conjunto, os valores referentes à constituição e à reversão, não sendo
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possível identificar os valores relativos a cada item separadamente. Nesse caso, foi atribuído 0
(zero) aos itens 2 e 4 do checklist.
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60 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA
2007. 118 f. Tese (Doutorado em Controlado- SILVA, Thássia Souza da. Análise do cum-
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Diego Quevedo Costa, Daniel Hank Miri, Cassiane Chais, Juliana Matte, Paula Patrícia Ganzer, Pelayo Munhoz Ole 61
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p61-76.2019
ARTIGOS
EFICIÊNCIA NO ABASTECIMENTO DE
MATERIAIS EM UMA LINHA DE MONTAGEM
Diego Quevedo Costa MULTIPRODUTO
diegoqcosta@[Link]
Graduado em Administração EFFICIENCY IN SUPPLYING MATERIALS IN A
pela Universidade de Caxias do
Sul. Caxias do Sul - RS - BR. MULTIPRODUCT ASSEMBLY LINE
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 61-76, maio/ago. 2019
62 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto
views, opportunities were identified for impro- visava aumentar a eficiência operacional do
vements in supply logistics processes, such as processo de logística de abastecimento de ma-
the lack of reliability in the systems used, the teriais de uma linha de montagem de tratores
need for training and the information available. multiproduto, efetuou-se uma pesquisa quali-
tativa com dez profissionais da área produtiva.
Keywords: Internal Logistics. Multiproduct O objetivo deste estudo consistiu, por-
line. Supply of materials. tanto, em identificar oportunidades de melhoria
nos processos, com o propósito de aumentar a
1 INTRODUÇÃO eficiência na logística interna do abastecimento
de materiais nessa linha de montagem. A se-
Devido ao aumento da concorrência, guir, apresenta-se o referencial teórico que em-
um desafio presente nas indústrias brasileiras basa esta pesquisa, subdividido em cadeia de
é buscar diferenciação competitiva em fatores, suprimentos, logística e sistemas de controle de
como preço e qualidade, o que tem levado as produção, assim como a metodologia emprega-
empresas a reavaliarem atitudes e processos e a da para o alcance do objetivo proposto, os re-
criarem novos paradigmas voltados à obtenção sultados da pesquisa e as considerações finais.
de melhorias e vantagens competitivas (BAR-
CELOS JÚNIOR, 2002). Com o processo de 2 REFERENCIAL TEÓRICO
globalização e uma oferta maior que a deman-
da, as empresas precisaram adaptar-se a uma 2.1 CADEIA DE SUPRIMENTOS
realidade de competição em escala global, o
que implicou uma revisão significativa de suas A cadeia de suprimentos constitui um
prioridades competitivas, especialmente em tema central dentro das empresas há pelo me-
termos de custo e qualidade (PIRES, 2009). nos 80 anos, tendo proporcionado diversas ino-
Nesse cenário, a cadeia de suprimentos vações gerenciais ao longo do tempo. Como
e o gerenciamento de operações amadureceram exemplo dessas inovações, podem-se citar
a partir de mudanças na forma de abordar as Henry Ford na Primeira Guerra Mundial, Al-
questões operacionais e econômicas, que pas- fred Sloan na década de 1930, Toyota nas dé-
sou a levar em conta o ambiente mais amplo e cadas de 40 a 70 e o Consórcio da Volkswagen
os aspectos sociais que integram as organiza- em Resende na década de 90 (FIGUEIREDO;
ções contemporâneas. A integração bem-suce- FLEURY; WANKE, 2013).
dida de fatores econômicos e ambientais e as A cadeia de suprimento consiste em uma
metas de sustentabilidade social têm sido, as- abordagem que engloba todos os processos,
sim, o objetivo das principais cadeias de supri- tanto diretos, quanto indiretos, para atender ao
mentos e operações (FENG; ZHU; LAI, 2017). pedido de um cliente. Nesses processos, estão
A cidade de Caxias do Sul abriga 20 das incluídos fabricantes, fornecedores, transporta-
500 maiores empresas da região Sul do Brasil, doras, armazéns, varejistas e até mesmo o con-
assim como diversas indústrias entre as maio- sumidor final, envolvendo áreas como marke-
res no seu campo de atuação no país. A indús- ting, desenvolvimento de produto, produção,
tria constitui o maior segmento econômico da distribuição e atendimento ao cliente (CHO-
cidade: com 2.332 empresas metalúrgicas e PRA; MEINDL, 2016).
mecânicas instaladas, gera 17.658 empregos Para Paoleschi (2014), a gestão da cadeia
diretos e representa 53,40% dos segmentos de suprimentos requer a integração dos proces-
econômicos municipais (SIMECS, 2017). sos internos, que engloba o departamento de
Situada nessa cidade, está a fábrica de produtos, e externos, que abarca o departamento
tratores da empresa Agrale S.A., local em que de compra/suprimentos e as relações com os for-
foi aplicada esta pesquisa. Como essa fábrica necedores. A gerência tem, dessa maneira, a res-
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64 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto
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Já a segunda questão das entrevistas pro- WMS, que consegue visualizar toda a parte do
curou identificar o entendimento dos entrevis- processo e trabalhar em cima para ir ajustando
tados sobre os objetivos da logística. As respos- e vendo o que é possível melhorar no processo,
tas dos participantes demonstraram que não são tornando mais rápido e assertivo.”
todos que conhecem, com clareza, os objetivos No roteiro de entrevistas, a quarta ques-
da empresa. tão destinou-se a averiguar se o entrevistado
Em relação às metas da logística, o coor- tinha alguma sugestão de melhoria nos proces-
denador de logística afirmou que se trata do sos da logística. Para o técnico de PCP, essa era
“[...] atendimento das entregas do produto certo uma falha e uma oportunidade de melhoria no
nas quantidades certas, atrelado ao Just in Time. processo, uma vez que o sistema utilizado pela
Toda a logística tem por objetivo ter o menor logística permite esse tipo de situação. Para o
estoque necessário, atender, com a maior asser- técnico da linha de montagem, o trabalho para
tividade possível, à demanda do cliente interno melhorar o processo poderia ser realizado com
e prezando pela qualidade do produto e a acu- base nos indicadores de abastecimento da linha
rácia do estoque.” de montagem. Segundo ele, “[...] devem ser
A terceira questão das entrevistas, por mais bem trabalhados esses indicadores, pois
sua vez, visou averiguar a existência de progra- dá para avaliar os pontos de abastecimento que
mas nos processos logísticos que possibilitem precisam melhorar [...].”
avaliar todo o processo de produção, desde o Aspectos como logística e armazena-
recebimento até o abastecimento da linha de gem, conforme ressaltam Dubey et al. (2017),
montagem. O processo operacional logístico também devem ser aprimorados, tendo em vis-
de peças, para Boysen et al. (2015), pode ser ta que mudanças particulares nessas operações
dividido em logística externa, interna e reversa. permitirão que organizações e cadeias de su-
No caso da empresa analisada, nem todas as pe- primentos tornem-se melhores ambientalmen-
ças passam por um processo idêntico, uma vez te, auxiliando na viabilidade e na estabilidade
que este varia conforme o fornecedor e o modo econômica. Tendo isso em vista, a quinta ques-
como é entregue no ponto de consumo interno. tão das entrevistas versou sobre a identificação
O almoxarife 2 destacou dois sistemas dos pontos críticos e gargalos da logística. Essa
responsáveis pelos processos logísticos: “[...] o análise dos pontos críticos e gargalos é uma
ABT, e o WMS, esses sistemas são suficientes categoria a posteriori da pesquisa que surgiu
para identificar todas as entradas, hora, data, durante a análise das entrevistas.
descrição do produto até o processamento e Para o técnico de PCP da empresa, o
saída, mas não é totalmente usada.” Já o téc- ponto crítico consiste na dificuldade do ge-
nico de PCP demonstrou outra visão: “[...] tan- renciamento dos estoques: “[...] percebo que
to o ABT, quanto o WMS controlam o nosso nós temos muita dificuldade no gerenciamen-
processo e nos pontuam como ele funciona, se to dos estoques, por diversos motivos, não
está funcionando bem ou se existem algumas só por responsabilidade da logística, mas por
falhas, a única forma que eu vejo para controlar responsabilidade por estrutura de produto,
isso é por meio desses dois sistemas.” falhas de movimentação, setores que permane-
O almoxarife especializado citou o WMS, cem abertos [...].” O tema abordado pelo técni-
programa específico da logística, como respon- co de PCP da empresa vai ao encontro do que
sável por analisar o processo: “[...] WMS, siste- declara Castiglioni (2013) acerca do gerencia-
ma que acompanha desde o recebimento, quando mento de estoque, uma vez que o gerenciamen-
vem para o almoxarifado, os locais de alocação, to de materiais constitui um dos pontos mais
os pickings múltiplos na linha e pulmões no vitais da logística, exigindo técnicas específicas
almoxarifado [...].” O técnico dos almoxarifa- para alcançar a eficiência da racionalização e
dos também enfatizou o mesmo programa: “[...] da economia desejada.
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66 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto
Nesse sentido, é possível afirmar que tro do sistema produtivo acabaria gerando es-
os pontos críticos dos sistemas utilizados pela toques, contrariando a premissa da empresa de
empresa afetam diretamente o desempenho da reduzir os estoques ao máximo:
logística. Para Nogueira (2012), um sistema
de armazenagem, quando bem aplicado, pode [...] trabalhamos bastante forte a redu-
evitar e solucionar diversos problemas que in- ção de estoques ao máximo possível
fluenciam, diretamente, o processo produtivo e e a ordem de produção dentro do sis-
a distribuição dos produtos, otimizando espa- tema. Agrale trabalha no Just in Time.
Conforme as necessidades da linha,
ços e recursos, diminuindo o custo final do pro-
nós temos um período para produzir
duto e aumentando, assim, a competitividade. e entregar isso; o fato de nos agregar
A sexta questão feita aos entrevistados um sistema de Kanban dentro do nos-
abordou os pontos críticos e os gargalos entre so processo, vamos estar falando de
logística e produção na visão de cada entrevis- estoque, vamos ter que alimentar um
tado. Já os pontos críticos e gargalos entre lo- sistema intermediário e criar pontos de
gística e linha de montagem foram abordados estoques, gerando custos para empresa
na sétima questão do instrumento de pesquisa. (ENTREVISTADO - TÉCNICO PCP).
Para o coordenador de logística, o garga-
lo entre essas duas áreas estava na “[...] gestão Kanbans são cartões de autorização de
da informação da produção com a logística, que produção que sinalizam às estações o montante
tem por prioridade em movimentar e abastecer e o tempo adequado para reabastecer o estoque
a linha [...].” Para o almoxarife 1, “é a falta de de estações a jusante. Os Kanbans viajam com
comunicação, a logística e produção deveriam um lote de produtos/componentes, continuando
trabalhar ambas com o mesmo objetivo e com sua jornada por meio de vários estágios de fa-
uma comunicação clara.” Outro aspecto citado bricação (PIPLANI; ANG, 2018).
como ponto crítico pelos entrevistados foi “as
embalagens que eles distribuem as peças pro 4. 1 ANÁLISE DE GERENCIAMENTO
nosso setor, porque geralmente gera retrabalho DE ESTOQUES
pra gente colocar de uma forma apropriada,
para alocar no nosso estoque”, como afirmou 4.1.1 Gerenciamento de inventários para
o almoxarife 3. Já o almoxarife 4 disse que a os entrevistados
falta de um mesmo conhecimento de todo o
processo criava um gargalo. Segundo ele, os O gerenciamento de inventários foi abor-
“funcionários não têm o mesmo conhecimento dado na nona questão do roteiro de entrevista,
em torno do processo.” que interrogou sobre as metas para redução
A oitava questão do roteiro de entrevista de estoques e giro de matérias e a existência
abordou a existência de ferramentas para auxi- de programas de gerenciamento. O técnico
liar na produção puxada dentro da empresa. Os de logística responsável pelos inventários da
entrevistados mencionaram o que já existe na empresa relatou a metodologia existente para
empresa e as oportunidades de implementação atender os inventários: “[...] sim, existe. Hoje,
de ferramentas para puxar a produção. trabalhamos com inventários cíclicos, em que
Para Moreira (2012), na produção puxa- são trabalhados a curva ABC, e depois há os
da, base de filosofia JIT, a previsão de demanda pontuais, e ainda existem os inventários anuais
puxa a produção. A lógica desse modelo é que realizados no final de cada ano.”
a produção inicia com a necessidade do clien- Já o inventarista enfatizou o trabalho re-
te, de maneira que não são produzidos estoques alizado, dissertando acerca da forma de reali-
em excesso. zação dos inventários e da nova metodologia
Para o técnico de PCP, o Kanban den- aplicada na empresa:
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[...] quando eu entrei, nós não tínha- uma auditoria de materiais [...]. No transporte in-
mos nenhuma planilha, recebíamos terno e na expedição não são feitas auditorias.”
os códigos em um papel de pão [...]. A O coordenador mencionou, ainda, as ações cor-
partir daí, começou a fazer uma plani- retivas dentro da logística: “procura-se estabe-
lha de erros de inventários e todos os
lecer alguns planos de contenções ou planos de
problemas que temos, e, com o passar
do tempo, começamos a programar o
ações, então depende de cada caso, mas, sim,
inventario cíclico; este inventário cí- existe uma ação corretiva.”
clico ajuda muito, seria nossa melhor Para o técnico de logística, o sistema
ação [...] (ENTREVISTADO - IN- WMS usado pela logística realizava auditorias
VENTARISTA). no recebimento de materiais, “[...] com uma
contagem cega, chega o material, dá entrada
Para o almoxarife especializado, são fei- na nota fiscal, [...] e o WMS manda contar, ge-
tos os inventários cíclicos e os inventários pon- rando tarefa de contagem cega. O operador não
tuais; esses são realizados quando se percebe a [...] vai apontar se deu certo; com a nota ok, se-
falta de um item na montagem. O almoxarife 1 gue à frente, se não der, gera uma divergência.”
citou “o inventário geral, feito uma vez ao ano”.
E o técnico de logística comentou sobre o traba- 4.1.3 Não conformidades nos processos
lho realizado dentro da empresa para a redução logísticos pelos entrevistados
de estoques: “nós temos metas para reduzir os
estoques, sim, estamos trabalhando muito em No roteiro de entrevista, a décima pri-
cima disto aí [...]. Estamos trabalhando em cima meira questão tratou das ações relativas às não
de itens que não têm movimentação [...].” conformidades dentro do processo logístico. A
A esse respeito, cabe mencionar o efeito esse respeito, enquanto o técnico da linha de
chicote, por exemplo, que se refere a um fenô- montagem afirmou que desconhece ações para
meno no qual baixas variações na demanda cau- evitar reincidências de não conformidades na
sam mudanças significativas na produção para logística, o almoxarife especializado disse que
fornecedores, com custos associados. Enquanto “não existe nada implementado para evitar
a previsão tem um impacto direto na geração reincidências de não conformidades; sempre
de pedidos, a visibilidade do prazo de entrega é quando acontece algo nesse aspecto, é feita a
essencial para projetar uma produção/distribui- correção pontual do problema.” O almoxarife 3
ção de alta qualidade (LIN et al., 2017). também falou que não existe nada nesse senti-
do e complementou: “[...] geralmente acontece
4.1.2 Auditorias na área de logística para reincidências de não conformidade em algumas
os entrevistados peças [...]”. E o almoxarife 1 reiterou que, “na
verdade, não existe um processo específico para
O processo da logística interna começa no evitar reincidências no processo logístico.”
recebimento e vai até o abastecimento na borda Verificou-se, assim, uma divergência
da linha. Tendo isso em vista, a décima questão entre os entrevistados sobre auditorias e pro-
do roteiro de entrevista buscou averiguar a exis- cedimentos para evitar não conformidades. Ao
tência de procedimentos de auditorias e os des- passo que o coordenador e o técnico de logísti-
dobramentos das auditorias dentro da logística. ca confirmaram a existência de procedimentos
O coordenador de logística explicou que implementados, os demais entrevistados que
não existem auditorias em todos os proces- trabalhavam na logística desconheciam ações
sos, salientando que, “nos almoxarifados, são para combater as não conformidades no proces-
realizadas as auditorias de endereçamento e so logístico, evidenciando uma falha na comu-
eventualmente algumas contagens que são feitas nicação dentro da área da logística.
pelos inventários cíclicos pois não deixam de ser
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sobre o tema, citou algumas mudanças que se- Com a décima oitava questão das entrevis-
rão realizadas nos processos, como melhorias tas, buscou-se conhecer as melhorias implemen-
para redução de movimentações dentro da em- tadas na logística nos últimos anos, bem como a
presa. Segundo ele, percepção dos entrevistados sobre essas melhorias.
tem um projeto em andamento de co- O coordenador de logística destacou os principais
locar nas empilhadeiras um display, projetos de melhorias realizadas na logística:
onde os pontos de coletas vão ter um
botão, onde a pessoa, quando largar Implementamos a questão do Kanban
uma determinada carga para ser cole- de fixadores, [...] nós não tínhamos
tada, vai apertar este botão, e o dis- um Kanban que trabalhava de tal for-
play que está anexado na empilha- ma como a ferramenta exige, este foi
deira vai dizer para o motorista que um primeiro projeto. Foi realizada a
naquele ponto ele tem uma determi- adequação de alguns layouts dos al-
nada carga para coletar (ENTREVIS- moxarifados que vieram a somar na
TADO - TÉCNICO DE PCP). redução de movimentações principal-
mente (ENTREVISTADO - COOR-
4.4 ANÁLISE DE SUGESTÕES DE DENADOR DE LOGÍSITICA).
MELHORIAS NA LOGÍSTICA
O técnico da linha de montagem, por
A décima quinta questão do roteiro de sua vez, disse que “o layout foi remodelado
entrevista destinava-se a saber se os entrevista- na logística, no sistema CKD foram realizadas
dos eram incentivados a apresentar sugestões de muitas melhorias e também a redução de esto-
melhorias e o grau de implementação dessas su- ques de normalizados com a reestruturação dos
gestões dentro da logística. O técnico do PCP da Kanban.” Ele mencionou, ainda, as melhorias
empresa não trabalhava, diretamente, na logística, “do Entreposto, do WMS, melhorias em re-
mas acreditava que existiam sugestões de melho- lação ao bloco K, são as melhorias que estão
rias, pois “[...] a logística, nos últimos anos, vem mais relacionadas à logística e produção”.
evoluindo bastante na questão de melhorias, feitas A décima nova pergunta do roteiro de en-
dentro do seu próprio setor, tanto em questão de trevistas questionou os entrevistados sobre su-
layout, organização, sistemas de armazenamento. gestões para melhorar o desempenho da logísti-
São perceptíveis diversas melhorias as quais fo- ca. As principais propostas por eles apresentadas
ram feitas dentro do processo logístico.” podem ser visualizadas a seguir, no Quadro 2.
Quadro 2 - Sugestões de melhorias
Função Sugestões
“Buscar valorizar as pessoas, para que se sintam valorizadas para que realizem e
Técnico de logística
deem ideia para sempre estar melhorando com treinamentos e valorização”.
Almoxarife especia- “Na área do CKD, está meio defasado, não está estruturado, falta computadores
lizado para o pessoal trabalhar; o CKD é a área com mais dificuldade da logística hoje”.
“Mostrar para cada colaborador deste setor e das outras áreas como funciona
Almoxarife 2 todos os procedimentos da logística, a movimentação de materiais, as movimen-
tações no sistema, como é feito a entrada e a baixa dos materiais”.
“Com treinamentos, maior diálogo, uma participação maior da gestão com os
Almoxarife 3 funcionários [...] maior utilização dos sistemas WMS e ABT que estão aí para
nos ajudar e facilitar nosso trabalho”.
Almoxarife 4 “Treinamentos para melhorar o desempenho do pessoal”.
“Ter um acompanhamento mais de perto nesta área de abastecimento; na lo-
Técnico da linha de
gística, deveria ser feito um estudo para avaliar os parâmetros dos itens com a
montagem
disponibilidade do que estava disponível, o plano de montagem semanal”.
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Para Bardin (2004, p. 111), a “categori- ele propostas: aberta, axial e seletiva. Por meio
zação é uma operação de classificação de ele- da estrutura de nós do software, foram obtidas
mentos constituídos de um conjunto, por dife- as categorias e subcategorias que formam a co-
renciação e, seguidamente por reagrupamento dificação aberta e a codificação axial. Já a inte-
segundo o gênero (analogia) com critérios pre- gração das subcategorias da codificação axial
viamente definidos.” Nesta pesquisa, foram de- proporcionou a história do estudo de caso, que
finidas a priori as seguintes categorias: metas resultou na codificação seletiva.
e objetivos da pesquisa, gerenciamento de es- Na codificação aberta, criaram-se as
toques, mentalidade enxuta, produção puxada categorias, que depois foram codificadas
e movimentações. No decorrer das entrevistas, (nós). Formaram-se, assim, categorias a prio-
definiram-se a posteriori mais algumas cate- ri, listadas com base no referencial teórico,
gorias: embalagens, pontos críticos e gargalos, buscando alcançar o objetivo proposto nesta
informações e treinamentos e melhorias. pesquisa, e categorias a posteriori, elencadas
com base nos dados obtidos de cada entrevis-
4.6 ANÁLISE COM AUXÍLIO DE tado, de acordo com as questões do roteiro
SOFTWARE das entrevistas.
Na codificação axial, foram identificadas
Nesta seção, apresenta-se a análise das as subcategorias dentro de cada nó da codifi-
entrevistas realizadas. Os dados obtidos foram cação aberta. Dentro de alguns nós, criaram-se
importados para o software NVIVO 11®, sen- subcategorias para auxiliar na análise e facilitar
do posteriormente codificados e extraídos para o alcance do objetivo proposto na pesquisa. As-
análise. Esse processou possibilitou a execução sim, foram fixadas categorias a priori, definidas
de duas análises: uma realizada a partir dos com base em cada etapa do processo logístico
nós, e outra efetuada com base nas fontes das da empresa: gerenciamento de estoques, metas
pesquisas (entrevistas). e objetivos da logística, movimentações, aná-
A partir da estrutura de nós criada, pro- lise dos processos, mentalidade enxuta e pro-
cedeu-se, também, à codificação teórica de Fli- dução puxada. Além disso, foram definidas ca-
ck (2009), sendo utilizadas as três etapas por tegorias a posteriori, estabelecidas no decorrer
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xarifes foram transcritas e importadas para o software NVIVO 11®, possibilitando a codificação
em “nós”. Essa estrutura de nós foi criada a partir das fontes (entrevistas) e referências (quanti-
dade de vezes que foi codificado algum trecho da entrevista em determinado nó), como se pode
observar no quadro 5.
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74 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto
Figura 1 - Nuvem de palavras dos “nós” que trabalham com o abastecimento das linhas,
aspecto evidenciado, por exemplo, pelo fato de
desconhecerem os planos de montagem da se-
mana, a previsão de chegadas das peças e as
peças que precisam ser produzidas com maior
agilidade por estar em falta e serem necessárias
para finalizar produtos posicionados no final da
linha de montagem. Esses quesitos impactam
diretamente a montagem, de forma que a logís-
Fonte: extraído do software NVIVO 11 ® (2017). tica da empresa precisa criar meios efetivos para
disseminar as informações aos profissionais que
O software indicou relações entre termos trabalham diretamente no abastecimento.
como “almoxarifado” (citado 40 vezes) e “mo- Além disso, ficou evidente, nas entrevis-
vimentação” (citado 37 vezes), evidenciando tas, que as embalagens utilizadas na empresa
o impacto que as movimentações de materiais não atendem à logística e ao abastecimento na
ocasionam no almoxarifado. Para Castiglioni borda de linha, gerando retrabalho no recebi-
(2013), a movimentação de materiais pode ser mento, na armazenagem, no abastecimento das
definida como todo o deslocamento físico de peças e na montagem dos produtos. As em-
materiais dentro de uma instalação. balagens devem partir do fornecedor e passar
Os “estoques” (citado 79 vezes) de “ma- por todos os processos da empresa até chegar à
teriais” (citado 22 vezes) estão relacionados a borda de linha, a fim de evitar movimentações,
“metas” (citado 25 vezes) e a “inventário” (cita- retrabalhos e danos nos materiais.
do 19 vezes), termos esses que mostram a rele- Embora a empresa tenha criado, recente-
vância dos inventários de materiais para alcançar mente, um manual de embalagem com todas as
as metas de redução dos estoques dentro de uma informações relacionadas às embalagens, esse
empresa. Já “trabalho” (citado 35 vezes) está li- manual não era conhecido pelos técnicos de
gado a “tempo” (citado 30 vezes), evidenciando PCP e da linha de montagem, que são o princi-
a relevância do tempo para o trabalho e o quanto pal fornecedor e o principal cliente da logística
o fato de estar no tempo certo e no ponto de uso interna da empresa. As embalagens constituem
impacta os materiais, afetando diretamente o tra- um ponto crítico dentro da empresa, que pode
balho efetuado em determinado processo. ser trabalhado para aumentar o desempenho da
Por fim, destaca-se, conforme prevê logística e diminuir os custos dos produtos, oti-
Moura (1999), que a “produção” (citado 46 ve- mizando recursos e aumentando qualidade.
zes) da “empresa” (citado 48 vezes) pode uti- Ressalta-se, ainda, a falta de confiabili-
lizar o “Kanban” (citado 22 vezes) como uma dade nos fluxos de informações entre as áreas
das técnicas para puxar a produção. de logística, PCP e linha de montagem, fator
apontado pelos entrevistados. A deficiência nos
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS fluxos de informações está atrelada aos sistemas
usados pela empresa, uma vez que não há cone-
Considerando que a proposta desta pes- xão entre esses sistemas no controle das infor-
quisa consistiu em identificar oportunidades de mações. Também foi destacada a ineficiência do
melhoria na logística interna do abastecimento sistema WMS da logística, pois as informações
de uma linha de montagem multiproduto em não são confiáveis, e as pessoas que trabalham
uma empresa de tratores de Caxias do Sul, é no operacional da logística não têm os acessos
possível afirmar que o objetivo em questão foi necessários para desempenhar suas funções,
atendido. Constatou-se, inicialmente, uma fal- acarretando ineficiência do trabalho executado.
ta de informações básicas para os profissionais Diante disso, cabe mencionar que a gestão
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AUTORES | Diego Quevedo Costa, Daniel Hank Miri, Cassiane Chais, Juliana Matte, Paula Patrícia Ganzer, Pelayo Munhoz Ole 75
da logística tornou-se uma vantagem competitiva dle/123456789/83498. Acesso em: 4 set. 2016.
para as empresas por tratar de um processo estra- BARDIN, L. Análise de conteúdo. 3. ed. Lis-
tégico na aquisição, na movimentação, na arma- boa: Edições 70, 2004.
zenagem e no abastecimento de materiais e no
fluxo de informações, demonstrando a relevância BOYSEN, N. et al. Part logistics in the auto-
da pesquisa desenvolvida. Neste estudo de caso, motive industry: decision problems, literature
foram identificadas oportunidades de melhorias review and research agenda. European Journal
por meio das sugestões e opiniões dos funcioná- of Operational Research, v. 242, p. 14, 2015.
rios entrevistados, possibilitando ações de acordo
com as necessidades específicas do processo lo- BUONAMICO, N.; MULLER, L.; CAMAR-
gístico interno da empresa Agrale S.A. GO, M. A new fuzzy logic-based metric to
Conclui-se que a empresa não possui ali- measure lean warehousing performance. Sup-
nhamento operacional entre funcionários do ply Chain Forum: An International Journal.
mesmo setor, aspecto identificado pela falta de Taylor & Francis, v. 18, n. 2, p. 96-111, 2017.
informações básicas para os profissionais que tra-
balham com o abastecimento das linhas. Dessa CASTIGLIONI, J. A. M. Logística operacio-
forma, mesmo que a empresa, além de comprar nal: guia prático. 3. ed. São Paulo: Érica, 2013.
os insumos, planeje a mão de obra e a produção, Disponível em: [Link]
os funcionários que executam as tarefas não re- [Link]/#/books/9788536505770/. Acesso
cebem todas as informações necessárias para o em: 1 nov. 2016.
desempenho de sua função, ocasionando perdas.
É preciso citar, ainda, algumas limita- CHOPRA, S.; MEINDL, P. Gerenciamento
ções desta pesquisa, com destaque ao fato de da cadeia de suprimentos: estratégia, plane-
que o estudo de caso único não permite fazer jamento e operações. 6. ed. São Paulo: Pearson
generalizações quanto aos resultados apresen- Education do Brasil, 2016.
tados. Em relação a pesquisas futuras, suge-
re-se uma análise sobre outra área da empresa, DIEHL, A. A.; TATIM, D. C. Pesquisa em
uma vez que esta pesquisa limitou-se a identifi- ciências sociais aplicadas: métodos e técnicas.
car oportunidades na área da logística com foco São Paulo: Pearson, 2004.
na ótica da própria logística. Assim, este estudo
pode ser aplicado, por exemplo, sob a ótica dos DUBEY, R. et al. Sustainable supply chain
setores de produção e linha de montagem, po- management: framework and further research
dendo, também, ser realizado a partir de uma directions. Journal of Cleaner Production, v.
abordagem quantitativa. 142, p. 1119-1130, 2017.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 61-76, maio/ago. 2019
76 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto
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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 77
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p77-93.2019
ARTIGOS
RESUMO
ABSTRACT
Nathalia Berger Werlang
nathaliabw@[Link] This study aimed to understand how the decision-making process
Doutora em Administração. occurs through the analysis of strategic practices and practitioners’
Centro Universitário FAI - action in a confection industry. For this, a qualitative study was
UCEFF. Itapiranga, Santa carried out, through a case study. The data collected in the se-
Catarina, Brasil.
mistructured interviews, direct observation and documental analy-
Rosalia Aldraci Barbosa sis were treated with the technique of narrative analysis and data
Lavarda triangulation. The results point out that different forms of analysis
rblavarda@[Link] of the organizational context have generated important practices
Universidade Federal de Santa
like the adoption of strategic tools such as the SWOT analysis,
Catarina, UFSC. Florianópolis,
Santa Catarina, Brasil. strategic planning and market research. These practices articulated
by the practitioners of the organization have given greater respon-
Liara Letícia Lorenzatto siveness in the decision-making process.
liara_lorenzatto@[Link]
Bacharela em Administração.
Centro Universitário FAI -
Keywords: Organizational context. Strategy as practice. Decision
UCEFF. Itapiranga, Santa making. Action of the practitioners.
Catarina, Brasil.
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78 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 79
(STAKE, 2003) em uma indústria do setor de o chão de fábrica (emergentes) e decisões, que
confecções. O caso selecionado atende aos ocorrem no nível intermediário, porém, com
critérios de acessibilidade e intencionalidade a participação de todos os níveis hierárquicos
(EISENHARDT, 1989), uma vez que a organi- (integradores) (ANDERSEN, 2004).
zação apresentou as características necessárias No modelo deliberado, somente o gestor
para a viabilização do estudo proposto. da alta direção é capaz de ser habilitado a ob-
As técnicas de coleta de dados foram ter informações, que orientam a aplicação ou
entrevistas semiestruturadas, observação direta a execução (HAMBRICK, 1987). Aqui, uma
e análise de documentos disponibilizados pela pessoa sozinha não é responsável pelo sucesso
organização. Para análise dos dados, foi adota- na estratégia, mas, sim, o trabalho de uma equi-
da a técnica de análise da narrativa (LIEBLI- pe bem preparada e qualificada. Nesse modelo,
CH; TUVAL-MASHIACH; ZILBER, 1998) e o ambiente oferece oportunidades e ameaças
comparação dos dados coletados. para as organizações, que estabelecem os cri-
O trabalho está estruturado da seguinte térios de escolha.
forma: após essa introdução, buscou-se aporte Apesar de as pesquisas em estratégia
teórico para dar sustentação à coleta e à análise aparecerem focadas em um modelo de tomada
de dados, tratando-se da estratégia como pro- de decisão na alta direção (top-down), outras
cesso (de tomada de decisão) e como prática. perspectivas começam a ter ênfase na literatura,
A seguir, apresentam-se os aspectos metodo- as quais estão centradas na base da organização
lógicos da pesquisa. Posteriormente, são apre- e são formadas pelo modelo bottom-up, por um
sentados os resultados da pesquisa e, nas con- lado e pelo modelo middle-up-down, por outro
siderações finais, são abordadas as principais lado, possuindo uma visão mais empreendedo-
contribuições do estudo, limitações e sugestões ra e democrática com uma estrutura hierárqui-
de futuras pesquisas. ca horizontal, ou seja, do meio e de baixo para
cima e com ênfase nas pessoas. O processo na
2 TOMADA DE DECISÃO E ESTRA- tomada de decisão é considerado descentraliza-
TÉGIA COMO PRÁTICA do e possui um ambiente orgânico, ou seja, com
uma visão mais participativa (ANDERSEN,
As estratégias estão, cada vez mais, pre- 2004; LAVARDA; GINER; BONET, 2011;
sentes nas organizações atuais, sendo observada MIRABEU; MAGUIRE; HARDY, 2018).
sua importância nas ações das organizações, em Assim, o campo de estudos em estratégia
curto, médio e longo prazo. Isso corrobora sua vem sendo (re)demarcado por múltiplas abor-
presença como um elemento fundamental para a dagens teóricas, entre as quais se tem destacado
sobrevivência e o desenvolvimento da empresa, o dualismo entre processo e conteúdo (BUL-
conforme os objetivos que ela persegue. GACOV et al., 2007), a depender do modo
O processo de tomada de decisão estra- como se entende o praticante, pois é ele quem
tégica vem sendo discutido e pesquisado desde irá dizer o sentido que a estratégia possui. Des-
os primeiros estudos de estratégia, até as abor- sa forma, olhar a estratégia como uma prática
dagens da renovação dos conceitos corporati- social é olhar como ela é; como as pessoas fa-
vos (CHAKRAVARTHY; DOZ, 1992; BUL- zem e como ela está situada. A estratégia passa
GACOV et al., 2007). a ser compartilhada, reproduzida ao longo do
A tomada de decisão ocorre por meio de tempo, e as pessoas pressupõem que, para fa-
diferentes perspectivas, que podem ser consi- zer negócios, é preciso estratégia; isso significa
deradas como as decisões que são deliberadas, uma prática social. Assim, a perspectiva que se
são tomadas de cima para baixo, como um pro- passa a analisar para entender a estratégia é a
cesso centralizador; decisões do nível opera- da prática social, ou seja, considera-se a vira-
cional, a partir de definições e demandas desde da da prática para analisar a estratégia a par-
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80 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
tir da perspectiva micro, do dia a dia, da ação interação entre os atores envolvidos nas ações
(SCHATZKI, 2001; RECKWITZ, 2002; OR- episódicas, que geram interação entre os prati-
LIKOWSKI, 2007; NICOLINI, 2012; CZAR- cantes no decorrer da execução da estratégia.
NIAWSKA, 2013). Justamente por isso, essa vertente de in-
O tema estratégia como prática ou stra- vestigação de estratégias recebeu o nome de
tegizing surgiu nos estudos de estratégia, nos estratégia como prática, uma vez que compre-
anos de 1990, com Whittington (1996) e vem ende que a estratégia é construída, diariamente,
sendo discutido e expandido em diversos es- pelos atores envolvidos no processo durante
tudos contemporâneos, como Balogun, Huff e suas atividades e rotinas de trabalho (WHIT-
Johnson (2003), Jarzabkowski, Balogun e Seidl TINGTON, 2006). Assim, a estratégia pode
(2007), Chia e Mackay (2007), Rasche e Chia ser definida pelas atividades que os membros
(2009), Jarzabkowski (2010), Lavarda, Canet- executam e não apenas como uma atividade de-
-Giner e Peris-Bonet (2010), Cardoso e Lavar- finida pela alta direção (VAN DE VEN; JOHN-
da (2015), Jarzabkowski, Burke e Spee (2015), SON, 2006).
Iasbech e Lavarda (2018). Bulgacov et al. (2007) corroboram a vi-
O estudo de Whittington (1996) foi res- são micro-organizacional da estratégia como
ponsável por disseminar o conceito de “strategy prática, uma vez que o foco de investigação se
as practice”, por meio da definição do conceito concentra tanto no processo de formulação e
como prática social, voltando os olhares para implementação da estratégia, quanto nas ativi-
os praticantes das estratégias e suas interações. dades diárias dos funcionários, à medida que se
Jarzabkowski (2003) ampliou o conceito relacionam as atividades habituais aos resulta-
de estratégia como prática, ao afirmar que ela dos organizacionais.
é composta por um agrupamento de interações De acordo com Jarzabkowski, Balogun e
e interpretações dos colaboradores, que estão à Seidl (2007), o strategizing ocorre por meio da
frente de atividades estratégicas de uma empre- interação de três elementos, que são as práticas,
sa. Assim, as ações do dia a dia passam a ser a práxis e os praticantes, figura 1. As práticas
valorizadas e investigadas, a partir da estraté- são caracterizadas pelas rotinas, pelos procedi-
gia como prática, que são resultantes das ativi- mentos e pelas normas que surgem da estratégia;
dades habituais de uma empresa (JOHNSON; entretanto, acontecem de uma forma relaciona-
MELIN; WHITTINGTON, 2003). da à cultura organizacional, ou seja, surgem da
A partir desses estudos, a estratégia vem cultura já enraizada na organização (JARZA-
sendo vista como atividade micro- BKOWSKI; BALOGUN; SEIDL 2007).
-organizacional, ou seja, como atividades diá- Ainda, para Whittington (2006), as práti-
rias dos membros da organização que podem cas são compreendidas como rotinas e procedi-
ser consideradas estratégicas para qualquer mentos comportamentais que envolvem ques-
empresa (JOHNSON; MELIN; WHITTING- tões da cultura organizacional, como tradições
TON, 2003; JARZABKOWSKI, 2003; VAN e normas das organizações.
DE VEN; JOHNSON, 2006).
Jarzabkowski (2004) define a estratégia
como prática por um conjunto de atividades
que envolvem normas, regras, rotinas, hábitos
e processos que os atores desenvolvem a par-
tir de demandas. Além disso, a autora sugere
que as práticas podem ser classificadas como
racionais e administrativas, relativas a ativida-
des organizacionais e direção; discursivas, rela-
tivas aos símbolos e aos resultados gerados na
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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 81
A práxis é definida por Jarzabkowski, cias, vividas pelos praticantes no ambiente ex-
Balogun e Seidl (2007) como as interligações terno, passam a integrar o ambiente interno da
que existem entre as ações dos atores envolvi- empresa, a partir das práticas.
dos na instituição, assim como as ações desem- Sendo assim, a partir da visão da estraté-
penhadas por eles, a fim de alcançar as metas gia como prática, acredita-se que a identidade
previamente definidas. das pessoas da organização afeta a forma de
Já os praticantes são representados pelos como as estratégias são definidas. Nesse con-
atores, que desenvolvem essas ações. São in- texto, os estrategistas (praticantes), a partir de
divíduos que fazem parte da organização, em seu conhecimento e experiências, auxiliam no
que, diariamente, são realizadas as práticas es- desenvolvimento e no molde das estratégias,
tratégicas. São considerados praticantes todos fugindo do processo deliberado e de atribuição
os atores organizacionais, sejam eles da base, de responsabilidades (JARZABKOWSKI; BA-
intermediários, sejam do topo da pirâmide LOGUN; SEIDL, 2007).
organizacional (JARZABKOWSKI; BALO- Adicionalmente, Canhada e Bulgacov
GUN; SEIDL, 2007). (2011) reafirmam que a estratégia, como prática
Dessa forma, Whittington (2006) destaca social, tem como foco as atividades realizadas
que os atores podem ser considerados os ele- pelos indivíduos em nível micro-organizacional,
mentos-chave na abordagem da estratégia como que, ao interagirem e estarem envolvidos com
prática, uma vez que são eles quem estão inse- relações de poder complexas, podem trazer os
ridos nas organizações e realizam as práticas. resultados esperados ou não pela organização.
Sendo assim, são eles que auxiliam na formação Whittington, Cailluet e Yakis-Douglas
e na implementação das estratégias. Além deles, (2011) adotam uma abordagem diferente para a
os consultores e outros atores externos que pos- estratégia, como prática, na qual ela não é con-
sam contribuir com a organização também po- siderada deliberada e, sim, emergente, ou ain-
dem ser considerados praticantes, uma vez que da, aberta, uma vez que aumenta a flexibilidade
contribuem para a estratégia organizacional. e a inclusão de atores e processos, à medida que
Por isso, Whittington (2006) destaca que se desenvolve na prática. Assim, ela envolve a
o ambiente interno e externo da organização se participação de todos os atores na troca de in-
une, a partir do momento em que as experiên- formações e na aceitação de diferentes pontos
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82 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
de vista, a fim de tornar a estratégia mais ali- veis de cinco níveis hierárquicos da IES. Assim,
nhada com todos os níveis organizacionais. os resultados apontam que a prática estratégica
O estudo realizado por Teixeira e Costa na instituição ocorre a partir de seu contexto
(2012) buscou compreender a realidade de uma histórico-social, da relação de poder dos dife-
empresa multinacional catarinense do setor rentes estrategistas, das vozes dos praticantes e
moveleiro a fim de identificar como a estraté- de seu processo de decisão.
gia, como a prática é relevante nesse contexto. Diante do exposto, percebe-se que inú-
Sendo assim, a empresa que evoluiu de uma meros estudos vêm apresentando resultados
organização de fundo de quintal para uma mul- decorrentes da interação da estratégia, como
tinacional, parceira com uma empresa italiana, processo e prática, podendo ilustrar como é
utilizou-se da estratégia como prática uma vez possível que decisões estratégicas possam ser
que o modelo de produção, a incorporação da tomadas, considerando o dia a dia da organi-
tecnologia italiana e os atores organizacionais, zação. Dessa forma, buscando responder à
que foram treinados na Itália, contribuíram, questão de pesquisa inicialmente proposta, ela-
fortemente, para a transformação da empresa. borou-se a proposição decorrente da revisão te-
Este estudo corrobora os achados de Jar- órica realizada, para guiar a pesquisa de campo
zabkowski et al. (2015), os quais enfatizam a e ser comparada com os dados coletados em-
importância de estudar a prática no momento em piricamente. A tomada de decisão estratégica é
que ela acontece e, da mesma forma, acompanha definida a partir da análise do contexto organi-
as atividades, à medida que elas ocorrem, a fim zacional (ambiente) e da ação dos praticantes
de evidenciar se existem lacunas entre a prática (práticas estratégicas).
que foi formalizada e o que realmente acontece
no dia a dia e, assim, evidenciar o que se chama 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGI-
de improvisações, ou ainda, escolhas alternativas. COS
Ao analisar o sucesso de fenômenos, que
ocorrem ao longo do processo, Tureta e Júlio Para justificar as diferentes abordagens
(2015) afirmam que todos os desafios enfren- epistemológicas, quando estamos tratando de
tados antes e durante o desfile de uma escola estratégia como processo e estratégia como
de samba foram superados a partir do momento prática (BURGELMAN, 2017; BURGEL-
em que os praticantes foram superando os desa- MAN et al., 2018), a metodologia adotada se
fios ao longo do percurso e conseguiram atingir apoia na fronteira de paradigmas, apresentada
o resultado esperado no fim do desfile. por Silva e Roman Neto (2006), considerada
Ainda, quando se analisa a importância perspectiva multiparadigmática, defendendo
dos atores externos para o sucesso das estra- que existe uma zona de transição entre os para-
tégias organizacionais, D`avila et al. (2016) digmas funcionalista e interpretativo, os quais
analisaram quais membros externos seriam re- apresentam similaridades mais que diferenças
levantes a partir da visão dos empresários e o em seu cruzamento.
trabalho realizado por eles para as estratégias Para atender ao objetivo do presente es-
organizacionais. tudo, realizou-se uma pesquisa qualitativa, des-
Dias, Rossetto e Marinho (2017) realiza- critiva, sendo orientada pelo método de estudo
ram um estudo a fim de compreender como as de caso. De acordo com Stake (2003), o estudo
práticas discursivas contribuíram no fazer es- de caso favorece a pesquisa empírica em que se
tratégia de uma instituição de ensino superior estuda um fenômeno contemporâneo em pro-
comunitária. Partindo de um estudo de caso fundidade e em seu contexto de vida real. Com
único, os dados foram coletados por observa- esse método, buscou-se obter experiências de
ções em reuniões de planejamento estratégico, empresários gestores de uma empresa de con-
análise documental e entrevista com responsá- fecção situada em um polo têxtil no sul do Bra-
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sil, a partir da narrativa de tomada de decisão riormente, transcritas para facilitar a análise.
em diferentes episódios estratégicos relevantes, Assim, a coleta de dados priorizou o
considerando a busca em compreender, de for- processo de tomadas de decisões estratégicas
ma aprofundada, o fenômeno no contexto em e como as vozes dos praticantes são utilizadas
que ele ocorre, por meio do ponto de vista e para a formação das estratégias. Além das en-
do entendimento dos atores envolvidos (prati- trevistas, foram realizadas observações diretas
cantes). O estudo de caso foi desenvolvido a em três reuniões de planejamento estratégico
fim de aprofundar a questão de pesquisa; para da empresa, nas quais se procurou observar o
isso, buscou-se verificar diferentes fontes de padrão de comportamento, a formação das de-
evidências. O caso foi selecionado, seguindo cisões e a forma de atuação in loco. As observa-
os critérios de acessibilidade e intencionalidade ções buscaram responder à questão de pesquisa
(EISENHARDT, 1989), uma vez que a orga- que orientou o estudo (Como ocorre o processo
nização apresenta as características necessárias de tomada de decisão a partir da análise das prá-
para viabilizar o estudo proposto. ticas estratégicas e da ação dos praticantes?).
A empresa do setor têxtil, já está, há mais Foi também realizada a análise docu-
de 25 anos, no mercado, possui quatro unida- mental a partir de relatórios de crescimento da
des produtivas no estado catarinense, além de empresa e das atas de reuniões de decisões es-
escritórios corporativos em São Paulo. A sele- tratégicas fornecidas para o estudo.
ção do caso em estudo no setor têxtil justifica- Com base nas diferentes fontes de cole-
-se pelo fato de o Brasil ser, atualmente, o 2º ta de dados, foi possível realizar a triangulação
maior empregador da indústria de transforma- dos dados (MINAYO; ASSIS; SOUZA, 2005).
ção e 2º maior gerador do primeiro emprego; é Esse procedimento permite a integração de di-
o 4º maior parque produtivo de confecção do ferentes fontes de evidência, proporcionando a
mundo; 5º maior produtor têxtil do mundo; 4º minimização dos vieses e ampliando a confia-
maior produtor de malhas do mundo e faturou, bilidade dos dados.
em 2015, US$ 39,3 bilhões (ABIT, 2016). Para a tabulação dos dados, foi utilizada
Sendo assim, buscou-se compreender a técnica de análise da narrativa, que procura
o processo de tomada de decisão, a partir da entender a totalidade do fenômeno, a partir de
análise das práticas estratégicas e da ação dos suas peculiaridades (GODOI; BANDEIRA-
praticantes em uma indústria de confecção. -DE-MELLO; SILVA, 2006). As narrativas são
Em relação à técnica de coleta de dados transcritas com intuito de representar as evi-
utilizada, foram empregadas três diferentes dências encontradas no campo.
fontes de investigação, proporcionando, assim, Assim, passa-se para a apresentação e a
a triangulação dos dados, por meio da realiza- análise dos resultados, desenvolvidas de forma
ção de entrevistas, observação direta e análise conjunta (resultados das entrevistas, observa-
documental. As entrevistas semiestruturadas ção e documentos), considerando-se a aborda-
foram realizadas com quatro gestores de nível gem indutiva proposta por Trochim (1989) em
médio da empresa, uma vez que eles possuem que se apresentam os dados empíricos e volta-
relação direta com os gestores do topo da pirâ- -se à teoria, contemplando e corroborando (ou
mide, assim como com os praticantes da base. não) os achados da pesquisa.
O instrumento de coleta de dados, que foi uti-
lizado nesta pesquisa, foi adaptado do instru- 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE
mento de Krakauer (2011). DOS RESULTADOS
Por questões éticas, os participantes fo-
ram convidados, previamente, a participar da A empresa, em estudo, está localizada no
pesquisa, assinando um termo de aceite. Além Município de São Carlos – SC (matriz) e possui
disso, as entrevistas foram gravadas e, poste- mais cinco unidades no Brasil. Sua conjuntura
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84 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
societária é formada por dois sócios e está atu- e tecnologia em primeira instância e
ando no mercado há 25 anos. São 536 funcio- também referente à população e suas
nários diretos, mais 68 representantes comer- características, onde nós estamos pro-
ciais; apresentou, em 2014, um faturamento duzindo, então, qual é a disponibilida-
de de mão de obra, qual é o tipo de mão
acima de R$ 3.600.000,00. O setor de atuação é
de obra, vou ter que ter treinamento,
o do ramo de confecção. automação ela me ajuda a reduzir essa
Os gestores foram identificados como dependência (Entrevistado D);
Entrevistado A, Entrevistado B, Entrevistado Levamos todas as variáveis em consi-
C e Entrevistado D. Inicialmente, os gestores deração, não tem como trabalhar essas
foram questionados acerca das decisões estra- variáveis separadamente, a gente sem-
tégicas mais relevantes, que tiveram que ser pre tem que estar com a visão da flores-
tomadas nos últimos seis meses. O quadro 01 ta, a gente usa muito isso, olhar e en-
apresenta estes resultados.
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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 85
dutividade, redução de custos e melhoria da mento, porque a gente tinha um estudo de merca-
qualidade do produto final.” O entrevistado (A) do que dizia que a marca poderia crescer, mas que
alegou que “números, resultados, fatos e dados, precisava realmente buscar essas adequações”.
feeling não adianta, é muito indicador, se lá De maneira complementar, o entrevista-
apresenta que deve ser, assim será”, confirman- do C afirma que o principal fator para a forma-
do o que pode ser encontrado em Mirabeau e ção da estratégia organizacional é o mercado
Maguyrre (2014) quando apresentam a relação consumidor, “existe potencial de mercado a
entre estratégia como processo e como prática ser coberto, nós fizemos um mapeamento de
com as diferentes manifestaões da estratégia mercado no Brasil todo, com alguns indicado-
(desde deliberada, passando por emergente até res externos, em nível de IBGE, índice de po-
ser realizada).
Figura 2 - Modelo integrativo de estratégia como prática
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86 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
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88 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
ção traduzida nas ações diárias para consecução dos planos (BURGELMAN et al., 2018).
Ao buscar compreender quem são os praticantes nessa organização, identificou-se quem
são os atores responsáveis pelas tomadas de decisões, quadro 02.
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90 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 91
COOREN, F. (org.). Organization and orga- HART, S. L. An integrative framework for stra-
nizing: materiality, agency and discourse. tegy-making processes. Academy of Manage-
New York: Routledge, 2013. p. 3-22. ment Review, v. 17, n. 2, p. 327-351, 1992.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 77-93, maio/ago. 2019
92 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso
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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 93
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94 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p94-106.2019
ARTIGOS
RESUMO
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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 95
the heart of social representations about mer- as representações sociais dos ingressantes em
it and education among quota and non-quota 2013.1 e em 2015.1, da Universidade Federal
students. It was also observed the presence of Rural do Semiárido, acerca do mérito e da edu-
individual accountability as the basis for rejec- cação. É também objetivo deste estudo com-
tion, by the interviewees, of racial quotas. We preender como se estas representações muda-
can conclude that performance from the idea of ram após a implementação do sistema de cotas
merit and individual accountability are at the sociais e raciais na universidade.
heart of social representations. A criação do sistema de cotas sociais e
raciais tem provocado a intensificação das dis-
Keywords: Merit. Affirmative Actions. Social cussões acerca da relação entre mérito e educa-
Representations. Higher Education. ção, dado o caráter compensatório da política
em meio às desigualdades de oportunidades de
1 INTRODUÇÃO alguns grupos desfavorecidos da sociedade em
relação à parcela privilegiada, que cobra um
O ensino superior no Brasil representa, de tratamento igualitário entre ambos.
forma transparente, o contexto das desigualda- Nesse esteio, a abordagem das repre-
des sociais associadas a questões econômicas e sentações sociais possibilita compreender os
agravadas pela herança histórica e cultural que contextos e o fenômenos sociais nos quais os
expõe a necessidade de aplicação de políticas sujeitos estão inseridos e suas interações.
de ação afirmativa voltadas para o seu ingresso. Neste estudo, debruça-se sobre a temá-
Esse contexto é justificado pela presença tímida tica das representações sociais a respeito do
das populações de baixa renda, representadas, mérito dos estudantes cotistas e não cotistas,
em sua maioria, pela população negra e parda, graduandos do curso de Administração, ingres-
residente nas áreas periféricas dos grandes cen- santes do semestre 2015.1 e ingressantes do se-
tros populacionais (IBGE, 2010). Neste cená- mestre 2013.1, em que ocorreu o primeiro pro-
rio, a adoção de políticas educacionais de ex- cesso seletivo com a utilização do sistema de
pansão do ensino superior no Brasil na última cotas sociais e raciais, na Universidade Federal
década tem contribuído para a construção de Rural do Semiárido do Rio Grande do Norte,
um novo contexto nas universidades do país, localizada na cidade de Mossoró, no Rio Gran-
em decorrência do aumento expressivo no nú- de do Norte, Brasil.
mero de vagas oferecidas. Acredita-se que tal estudo possa contri-
Vários autores (GUIMARÃES et al., buir para o debate acerca das políticas de ação
2011; ROSEMBERG, 2010), contudo, des- afirmativa no ensino superior, em função da
tacam a necessidade de políticas de ação afir- baixa frequência de estudos sobre a temática,
mativa que possibilitem a esses grupos menos principalmente, na região Nordeste do país.
favorecidos acesso à educação superior. Intenciona-se, também, contribuir com os estu-
Apesar de se tratar de um importante tema, a dos sobre relações raciais no Brasil, conforme
área de administração tem dedicado pouco esforço sugere Rosa (2014).
para compreendê-la. Em pesquisa no portal Spell,
em junho de 2019, identificou-se a existência de 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
apenas seis artigos sobre ações afirmativas (MAR-
CHESAN; OLIVEIRA, 2018; SILVA, 2018; VA- 2.1 POLÍTICAS DE AÇÕES AFIRMATI-
RELLA, 2010; PAULO, 2010; PINTO; ANDRA- VAS EM EDUCAÇÃO SUPERIOR
DE JÚNIOR; LUZ, 2009; XAVIER, E.; XAVIER,
S., 2009), sendo apenas 2 deles, no ensino superior. A história de desenvolvimento da socie-
Este artigo, em especial, busca compre- dade brasileira está marcada pelos altos níveis
ender, a partir de uma perspectiva comparativa, de desigualdades sociais entre os diversos gru-
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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 97
divíduos que estão em situação desfavorável correto para toda e qualquer ordena-
perante a sociedade por particularidades rela- ção social, principalmente no que diz
cionadas à etnia, raça, cor, condição social, gê- respeito à posição socioeconômica
nero e renda (MOEHLECKE, 2004). das pessoas. Ou seja, num universo
social fundado em uma ideologia me-
ritocrática, as únicas hierarquias le-
2.1.1 As concepções de mérito e o contex- gítimas e desejáveis são baseadas na
to brasileiro seleção dos melhores (BARBOSA,
1996, p. 68).
A finalidade do sistema educacional na
sociedade contemporânea está relacionada à Barbosa (2003) considera que a ideolo-
questão do destino final dos indivíduos no mer- gia meritocrática está baseada em um conjunto
cado de trabalho, caracterizado por demandar de valores que rejeita toda e qualquer forma de
um modo de produção que preserva suas dispa- privilégio hereditário e corporativo e que valo-
ridades por meio dos mecanismos de separação riza e avalia as pessoas independentemente de
entre trabalho e capital (FRIGOTTO, 2010). suas trajetórias e biografias sociais.
Diante disso, a educação é um fator de desen- Nessa dimensão, a meritocracia não
volvimento das capacidades que possibilitam atribui importância a variáveis sociais como
oportunidades concretas de desenvolvimento origem, posição social, econômica e poder po-
social (SEN, 2001). Em uma sociedade meri- lítico no momento em que se está pleiteando
tocrática, caracterizada pela valoração de altos ou competindo por uma posição. Essa inter-
níveis de escolarização, a educação se transfor- pretação refere-se à hipótese funcionalista, ao
ma em uma ferramenta de busca pela ascensão enfatizar o esforço individual e diminuir a im-
social e de perspectivas de melhores remu- portância da origem social nas realizações dos
nerações no ingresso ao mercado de trabalho indivíduos.
(BARBOSA, 2014), como também evidencia o A ideia de mérito defendida por meio de
papel da hierarquia de desempenho como crité- uma perspectiva neoliberal está associada às
rio de ordenação social hegemônico. noções de igualdade do ponto de vista jurídico,
Para Barbosa (2003), do ponto de vista ou seja, perante as leis e as normas, por meio
cultural, a ideia do desempenho é uma catego- da valoração das liberdades individuais (SEN,
ria central à sociedade e organizações moder- 2001). As liberdades individuais defendidas
nas. A autora (BARBOSA, 2003) contextualiza pela lógica neoliberal são avaliadas a partir das
a ideia do desempenho dentro do sistema de va- perspectivas de consumo dos indivíduos e da
lores a que pertencem e que se constitui em um extensão desse conjunto de oportunidades, uma
dos principais sistemas de hierarquização so- vez que a hegemonia do critério de desempe-
cial das sociedades modernas: a meritocracia. nho como fator de ordenação das hierarquias
Barbosa (2003, p. 22) define meritocra- sociais corrobora a valorização da competitivi-
cia, no nível ideológico, “[...] como um conjun- dade por meio da seleção dos melhores a partir
to de valores que postula que as posições dos das hierarquias de desempenho. Os mais com-
indivíduos na sociedade devem ser consequên- petentes conquistam, assim, o prestígio social e
cia do mérito de cada um. Ou seja, do reconhe- a capacidade de consumo (BARBOSA, 2003).
cimento público da qualidade das realizações Helal (2008) considera que os preceitos
individuais.” pautados na ideologia meritocrática pregam a
Ainda, de acordo com a autora, a ideolo- avaliação de desempenho como principal for-
gia meritocrática é ma de julgamento de competências e capacida-
des, sem considerar as variáveis sociais que le-
[...] o valor globalizante, o critério vam os indivíduos a não estarem em condições
normal e considerado moralmente de equidade de oportunidades.
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98 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte
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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 99
‘rede’ de ideias e imagens que ex- disso, a importância do papel das experiências
pressam a realidade comum de um pessoais dos indivíduos nos grupos sociais com
determinado conjunto social e que os quais interagem contribui para a propagação
são construídas pelos sujeitos como e para a aquisição de conhecimentos, além de
forma de expressar o conteúdo dessas
auxiliar na construção das identidades indivi-
relações sociais e a maneira pela qual
são estabelecidas.
duais e sociais dos atores (GUERRA; ISHI-
KAWA, 2013; GARAY, 2011).
Garay (2011) também esclarece a impor- As representações sociais exprimem os
tância dos compartilhamentos coletivos entre aspectos que possibilitam a compreensão da re-
os indivíduos na construção de preceitos, sig- alidade social vivenciada por uma parcela da
nificados e valores comuns. Essas experiências sociedade, extraída de acordo com a represen-
e interações são partilhadas graças às constru- tação social a ser interpretada por meio de estu-
ções sociais que ocorrem nos espaços públicos dos e análise de um grupo específico da socie-
(JOVCHELOVITCH, 1995; MINAYO, 2007). dade. O seu processo de construção e formação
Nessa perspectiva, a maneira como as está relacionado às dinâmicas desenvolvidas
representações sociais são construídas estará entre os sujeitos, relações simbólicas e contex-
vinculada à forma, como os objetos e atores tos sociais (MINAYO, 2007).
sociais irão dispor dos seus valores para ex- Para Moscovici (2003), o processo de
pressarem para a comunidade e indivíduos o construção das representações sociais pode ser
caráter de orientação ou dominação dos meios subdividido por meio de duas etapas: objetiva-
e espaços sociais e materiais (GUERRA; ção e ancoragem. Na etapa da objetivação, ocor-
ISHIKAWA, 2013). Dessa forma, as repre- re a assimilação dos conhecimentos abstratos,
sentações sociais estabelecem parâmetros que imagens, símbolos e códigos que serão mate-
auxiliam na compreensão das construções so- rializados na realidade concreta pela linguagem
ciais de seus atores em torno dos grupos e de nos processos de interação e de comunicação
suas simbologias e significados. entre os grupos e indivíduos. Entretanto, a trans-
Para tanto, a interação entre os sujeitos, formação do conhecimento em real e concreto
o ambiente e os grupos proporcionam a criação só ocorrerá na etapa de ancoragem, na qual os
de um espaço dinâmico. De acordo com Viei- conhecimentos serão compartilhados entre os
ra, Flores-Pereira e Macadar (2012), as repre- diversos grupos e sistemas, adquirindo a fami-
sentações sociais retratam leituras das relações liarização e a obtenção de um papel regulador
sociais entre indivíduos, grupos e sociedade e funcional da representação. Por fim, ocorre a
que permitem descrever e analisar, por meio de ancoragem na realidade social a ser representa-
comportamentos e estruturas, a forma como os da socialmente. Assim, quando se compreende a
atores sociais vivenciam e transmitem a reali- questão central que está sendo ancorada, tem-se
dade dos seus contextos sociais. o entendimento dos significados e dos conhe-
Jovchelovitch (1995) relata que a atua- cimentos gerais. Portanto, a ancoragem é uma
ção dos atores por meio de suas relações sociais etapa essencial para a consolidação de uma re-
com os demais indivíduos ocasiona a criação presentação nos seus grupos e membros.
de novos espaços, símbolos e estratos da reali- Partindo desses pressupostos, a teoria das
dade social que contribuem para a construção representações sociais é utilizada como pano de
do sentido e dos cenários nos quais emergem fundo para compreender a percepção da relação
as representações sociais. Minayo (2007) tam- entre mérito e educação por parte dos grupos de
bém corrobora a visão de que as representações estudantes que ingressaram nas universidades
sociais se expressam em emoções e condutas e federais pelo sistema de cotas sociais, e para
se concretizam a partir do entendimento das es- a percepção da maneira como esses conceitos
truturas e dos comportamentos sociais. Diante são vistos pelos grupos de estudantes cotistas e
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100 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte
não cotistas da Universidade Federal Rural do de três partes: a parte 1 tratou do perfil socio-
Semiárido, localizada no interior do Nordeste. econômico dos entrevistados, parte 2, das con-
cepções sobre o mérito e a terceira parte, ações
3 METODOLOGIA afirmativas e representações sociais. O roteiro
de entrevista foi inspirado nos propostos por
Com base nos objetivos propostos para Pinho (2006) e Plá (2009), com 20 quesitos de
a realização deste trabalho e resolução da pro- ordem subjetiva e objetiva.
blemática descrita, o presente trabalho objetivou O método de análise de dados utiliza-
analisar as representações sociais dos discentes do foi a análise de conteúdo de Bardin (1977),
da Universidade Federal Rural do Semiárido subdividida em três etapas: na primeira etapa,
(UFERSA), localizada na cidade de Mossoró, pré-análise, foi realizada a transcrição das en-
Rio Grande do Norte, graduandos do Curso de trevistas e leitura flutuante; na segunda etapa
Administração ingressantes 2013.1 decorrentes de exploração do material foram criadas cate-
da implementação integral do sistema de cotas na gorias temáticas a partir que emergiram a par-
universidade e os discentes do semestre 2015.1 tir dos dados, e na terceira etapa, as análise,
têm, sobre o mérito, o sistema de cotas sociais e interpretação e inferências acerca do conteúdo
raciais implementadas nas instituições de ensino das entrevistas. Optou-se por utilizar análise
federal brasileiras com o intuito de promover um de conteúdo, por possibilitar o entendimento
estudo comparativo entre as representações dos de forma objetiva e sistematizada dos dados
discentes cotistas e não cotistas. descritos nas entrevistas, além de proporcio-
Optou-se por utilizar uma abordagem nar o entendimento em torno das representa-
qualitativa de pesquisa, evidenciada pelo seu ções dos indivíduos.
caráter descritivo. Como método de coletas de
dados, utilizaram-se a entrevista semiestrutura- 4 RESULTADOS
da pelo seu caráter informal e a consulta docu-
mentos oficiais. 4.1 A UNIVERSIDADE FEDERAL
Foram realizadas 20 entrevistas com os RURAL DO SEMIÁRIDO DO RIO
estudantes ingressantes nos cursos de Adminis- GRANDE DO NORTE
tração do semestre 2013.1 (cotistas, 4 entrevis-
tas; não cotistas, 5 entrevistas) e 2015.1 (cotis- A Universidade Federal Rural do Semiá-
tas, 6 entrevistas; não cotistas, 5 entrevistas). O rido implementou, de forma integral, o sistema
critério de seleção dos entrevistados foi tipici- de cotas sociais e raciais tendo em vista o con-
dade – semestre matriculado e acessibilidade. texto regional em que estava inserida na região
A ideia inicial era trabalhar com ingres- do semiárido do Rio Grande do Norte no Nor-
santes e egressos após implementação do sistema deste do Brasil. Foi criada no ano de 2005 a par-
de cotas; no entanto, os primeiros egressos foram tir da lei Nº 11.155, que assegurou a transforma-
conhecidos apenas em 2016.2 – período posterior ção da ESAM- Escola Superior de Agricultura
à realização da pesquisa, devido aos atrasos no de Mossoró em Universidade Federal Rural do
cronograma acadêmico da universidade. Semiárido (UFERSA). Os primeiros cursos da
Com o intuito de compreender as repre- instituição eram voltados para as ciências agrá-
sentações dos ingressantes 2013.1, os primei- rias (agronomia, zootecnia, veterinária). Com a
ros que participaram do processo após a imple- transformação em universidade foram implan-
mentação do sistema de cotas sociais e raciais, tados novos cursos de áreas diversas ao longo
e dos ingressantes do semestre 2015.1, decidiu- do seu processo de desenvolvimento, contando
-se realizar um estudo comparativo entre estes atualmente 24 cursos de graduação presenciais
dois contingentes de alunos. diurnos e noturnos, e 4 cursos na modalidade
As entrevistas foram estruturadas a partir a distância. Seu campus central está localizado
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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 101
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102 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte
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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 103
questionados se tinham conhecimento sobre Eu acho mais justo. Vejo que não tem
a política de cotas sociais e raciais na univer- um par de igualdade principalmen-
sidade. Todos os discentes afirmaram ter tido te em questão de educação. Eu vejo
contato com a temática. Em seguida, questio- muito déficit nas escolas públicas,
nados de que maneira obtiveram o primeiro claro que não são em todas. Mas,
contato com a questão, os discentes cotistas nem sempre todo mundo está tendo
uma aula de qualidade, às vezes, fal-
do semestre 2013.1 afirmaram que obtive-
ta professor. Diferente da gente que
ram contato com a política de cotas sociais
estuda em escola particular, que não
e raciais, pela primeira vez, por meio da te- falta professor, não tem aula vaga.
levisão. Entre os não cotistas, predominou o Eu concordo mais com as sociais,
contato por meio de conversas informais na do que com as raciais. Em questão
escola ou com amigos acerca da temática, se- de cor, todo mundo é igual. Eu sei
guido pelo contato por meio de revistas, jor- que teve um histórico de opressão e
nais e internet. desigualdade. Mas hoje eu acho que
Em relação aos estudantes ingressantes todo mundo era pra ser considerado
no semestre 2015.1, cotistas e não cotistas, a igual em questão de cor. Eu acho que
deveria ter apenas cotas sociais (Não
opção mais prevalente foi o contato por meio
cotista 1, 2015.1) .
de conversas informais nos tempos de escola,
seguido pelo contato via televisão. Tais res-
“Na verdade, pela raça da pessoa você
postas indicam que a mídia possui importante
não pode definir nível de escolaridade e inteli-
papel na formação de opinião dos estudantes
gência.” (Cotista 3, 2015.1).
acerca do tema.
Destaque-se que os discentes cotistas e
No questionamento seguinte, os respon-
não cotistas do semestre 2013.1, em sua maio-
dentes foram assim indagados: para você, o sis-
ria, consideram que o sistema de cotas torna o
tema de cotas sociais e raciais torna o processo
processo seletivo de ingresso mais justo, por
seletivo de ingresso no ensino superior mais
causa das disparidades existentes entre a qua-
justo ou desigual? As respostas dos responden-
lidade do ensino público e privado, somadas ao
tes foram enumeradas em duas categorias: os
quadro de desigualdades sociais vivenciadas
discentes que consideram que a implementação
no país. Esses discentes acreditam ainda que
torna o processo de ingresso mais justo e os dis-
a qualidade do ensino público e as desigualda-
centes acreditam que a implementação torna o
des sociais tornam o sistema de cotas sociais
ingresso mais desigual.
um mecanismo de justiça social paliativo. No
Os discentes do semestre 2015.1, cotis-
mesmo sentido do observado no outro grupo
tas e não cotistas, acreditam que o processo de
de entrevistados, os discentes do semestre de
ingresso no ensino superior se torna mais justo,
2013.1 consideram que as cotas raciais são
se realizado a partir das cotas sociais. Para eles,
desnecessárias, uma vez que acreditam que os
os critérios de renda contemplam toda a popu-
critérios de renda contemplariam as pessoas de
lação que está em situação de vulnerabilidade,
baixa renda.
não necessitando das cotas raciais. Acreditam
Entende-se que a representação social dos
também que os critérios étnico-raciais contri-
discentes cotistas e não cotistas em relação ao
buem para proliferar a discriminação racial en-
processo seletivo de ingresso por meio de cotas
tre os indivíduos, e que a cor da pele não define
sociais e raciais está associada à isonomia de
a capacidade dos indivíduos. Tais respostas in-
oportunidade e busca pela justiça social. Com-
dicam que os preceitos da ideologia meritocrá-
preendem que os critérios étnico-raciais não são
tica são predominantes, conforme o que se vê
efetivos na resolução do problema da desigual-
nas falas a seguir:
dade de condições e oportunidades e consideram
apenas os critérios de renda como efetivos.
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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 105
BRASIL. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de JESUS, Jaqueline Gomes de. O desafio da con-
2012. Dispõe sobre o ingresso nas universida- vivência: assessoria de diversidade e apoio aos
des federais e nas instituições federais de ensi- cotistas (2004-2008). Psicol. cienc. prof., Bra-
no técnico de nível médio e dá outras providên- sília, v. 33, n. 1, p. 222-233, 2013 .
cias. Brasília, DF: Presidência da República,
2012. JOVCHELOVITCH, S. V. Vivendo a vida com
os outros: intersubjetividade, espaço público e
COSTA, M.; KOSLINSKI, M. C. Entre o mé- representações sociais. In: GUARESCHI, P. A.
rito e a sorte. Revista Brasileira de Educação, Textos em representações sociais. 2. ed. Pe-
v. 11, n. 31, p. 133-201, jan./abr. 2006. trópolis: Vozes, 1995. p. 63-85.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 94-106, maio/ago. 2019
106 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte
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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 107
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ARTIGOS
RESUMO
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108 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário
those that involve price discounts and display incremento das vendas em diversos setores
exposure. Other sales promotion variables also da economia e pela atração dos clientes, as-
positively influence the purchasing behavior of sim como pelo fortalecimento das empresas
plus size consumers and should be considered no mercado, tornando-se uma importante fer-
in marketing strategies for this specific public. ramenta de sobrevivência às empresas no ce-
nário econômico atual, justificando, assim, sua
Keywords: Plus Size. Sales Promotions. Retai- crescente utilização no varejo brasileiro a fim
ler. Clothing. de driblar os efeitos das crises que, geralmente,
afetam o setor.
1 INTRODUÇÃO Com 78,9% das empresas brasileiras
atuando no setor de comércio varejista, de
Estudos sobre o comportamento do acordo com o IBGE (2015), o setor vem re-
consumidor têm trazido resultados importan- gistrando quedas expressivas em seu volume
tes para vários nichos de mercado, a exemplo, de vendas. Em maio de 2016, por exemplo, a
o segmento varejista de vestuário plus size, queda registrada em todo o segmento foi da
conforme evidenciado por Miranda e Furlan ordem de 9% em relação a maio de 2015, a dé-
(2015) ao destacar quão promissor e oportuno cima quarta taxa negativa consecutiva segun-
pode ser esse mercado, desde que seja dada a do IBGE (2016a, 2016b); e, ao se considerar,
devida atenção às necessidades e aos desejos especificamente, o segmento de vestuário (que
dos consumidores que fazem parte desse nicho. engloba tecidos, peças de vestuário e calça-
Surgindo como tendência, o segmento de dos), a queda registrada é ainda maior, 13,5%
vestuário plus size, que, de acordo com Marcelja no mesmo período.
(2015) e corroborado por Prado (2016), se refere Estudos acerca dos efeitos das promo-
às pessoas que usam manequim a partir da nu- ções sobre o aumento do volume de vendas em
meração 44, e que buscam peças que valorizem empresas varejistas e da eficiência delas como
seus atributos, imprimam sua identidade e lhe vantagem competitiva sustentável, como o de
façam sentir bem, apresentou um crescimento Davies (1992) e Semedo (2014), sugerem que
médio aproximado de 4,5% ao ano, ao se con- as promoções de vendas têm efeito direto so-
siderar o período 2013-2015, conforme Prado bre os resultados positivos da empresa, ainda
(2016), movimentando cerca de 2,5 bilhões de que em graus diferentes, indicando sua contri-
reais anualmente no segmento em questão. buição para o sucesso empresarial dos vários
Esses dados, aliados ao fato de que segmentos varejistas do mercado.
53,9% dos brasileiros, considerando os adul- Entre os diversos segmentos existentes
tos, encontram-se acima do peso ideal, de no varejo que utilizam as promoções como fer-
acordo com o Ministério da Saúde (2016), ramenta de incentivo à venda, o setor de vestu-
demonstram todo o potencial de crescimento ário se destaca como um segmento importante
desse nicho de mercado, indo na contramão para a economia nacional. De acordo com Mota
do segmento de varejo de moda, conforme (2013), o varejo de moda no Brasil alcançou o
enfatiza Prado (2016). Dessa forma, visando patamar de US$ 42 bilhões em vendas, consi-
atender a esse nicho de mercado e manter seu derando o período 2003-2013, fazendo o Brasil
crescimento, é necessária a utilização de fer- subir para a 5ª posição na classificação mundial
ramentas que sejam capazes de aumentar as dos maiores consumidores de roupas.
vendas, configurando-se em vantagem com- Esse volume de vendas pode ser atri-
petitiva sustentável. buído ao fato de serem os artigos de vestuário
Nesse sentido, podem-se citar as pro- um dos itens mais consumidos pelas famílias
moções de vendas que, conforme Fernandes brasileiras, com um ticket médio de R$ 118,20
(2013), são métodos eficientes na busca pelo mensais, de acordo com SEBRAE (2013), con-
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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 109
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110 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário
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112 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário
O quadro 1 mostra a dimensão compor- titativa com uma amostra de 117 consumidoras
tamento de compra, coluna 1, como dependente plus size, a qual foi definida por meio de uma
das variáveis da coluna 2, que abrange cinco calculadora amostral online1, tendo por base a
variáveis relacionadas diretamente às promo- população das mulheres brasileiras adultas com
ções de vendas e quatro variáveis relacionadas características relevantes a este estudo, e como
aos fatores influenciados internos e externos, percentual mínimo, as mulheres com a caracte-
em que se buscou estabelecer a influência da rística de ser plus size.
segunda sobre a primeira, de acordo com o foco Para a delimitação das mulheres pesqui-
de análise estabelecido. sadas, foi definido, no questionário apresentado
Sendo definidos as variáveis a serem no Apêndice A, um filtro de pesquisa contendo
pesquisadas e o foco de sua análise, será possí- as seguintes questões:
vel passar a próxima etapa deste estudo, a cole- a) tem idade maior ou igual a 18 anos?;
ta e o tratamento dos dados. b) tem manequim maior ou igual a 44?;
c) é do sexo feminino? e;
3.3 COLETA E TRATAMENTO DE DADOS d) compra ou já comprou peças de moda
indicadas como plus size?
Com o objetivo de coletar os dados a se-
rem analisados e agrupá-los de forma a facilitar 1 Disponível em: [Link]
uma posterior análise, foi utilizado como ins- [Link]/calculoamostral/
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114 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário
Gráfico 1 – Influência das Variáveis do Modelo de Análise sobre o Comportamento de Compra de Mulheres
Plus Size
Influência da Auto Estima
84,60% Influência Média do Preço
78,63% 78,63%
Influência da Exposição (vitrines)
O gráfico 1 traz como variável de maior fluência dos mesmos sobre o comportamento
influência sobre as consumidoras plus size a de compra das mulheres “plus size” na hora da
variável “autoestima”, que influencia 84,60% compra, sendo esta de apenas 20,46%.
das consumidoras plu size na hora da compra.
Em seguida, apresenta-se a influência média 4.2 PROMOÇÃO MAIS ATRATIVA PARA
das ações promocionais, envolvendo o “preço”, AS CONSUMIDORAS PLUS SIZE
mensurada em 78,63%, assim como a influên-
cia da variável “exposição (vitrines)”. Infere- Antes de tratar sobre os resultados das
-se, portanto, que as três variáveis apresentadas variáveis do modelo proposto (quadro 1), cabe
exercem uma elevada influência sobre a mulher apresentar os resultados apurados para o obje-
plus size na hora de realizar suas compras. tivo específico a este estudo, que consistiu em
Por fim, no que se refere à variável “gru- verificar qual o tipo de promoção é a mais atra-
pos de referência”, percebe-se uma baixa in- tiva para as consumidoras plus size.
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Tanto no caso da concessão de um cupom vales descontos não faria que as consumidoras
de desconto para ser utilizado em compras fu- em questão realizassem uma nova compra, sen-
turas a partir de um determinado valor, como do que, no primeiro caso, 78,63% das respon-
no caso de sua concessão para se utilizar em dentes não realizariam a compra e, no segundo
compras futuras de qualquer valor, o resultado caso, 55,56% delas não realizariam a compra.
da análise indica que a concessão de cupons e
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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 117
4.3.4 Influência da Exposição das peças compra. Os atributos conforto, qualidade, bele-
em vitrines (displays) no Compor- za/estilo e ser atual (da moda) foram analisados
tamento de Compra das Consumi- por todas as respondentes quanto à importância
doras Plus Size deles para si, e, considerando a média, tendem
a ser atributos muito importantes para as con-
A variável nomeada como “Exposição sumidoras, com exceção de o atributo ser da
(displays)” buscou avaliar se o fato de as peças moda/atual que tende a ser somente importan-
de vestuário plus size serem exibidas em vitri- te, sendo as médias, respectivamente (média =
nes é capaz de influenciar a consumidora plus 1,15; 1,43; 1,41; 1,97).
size a entrar na loja, experimentar e comprar Vale ressaltar que o fato de todos os atri-
o produto. Os resultados apontam que, na si- butos apresentarem algum nível de importância
tuação em que a consumidora é exposta a uma para as consumidoras pesquisadas pode ser as-
vitrine e gosta do que vê, a reação de 78,63% sociado com a autoestima, com destaque para o
das respondentes, a maioria, seria a de entrar na atributo conforto, ‘votado’ como muito impor-
loja, experimentar o produto e comprar se gos- tante pela maioria das consumidoras plus size
tasse dele, resultado que corrobora com os de pesquisadas, que está intimamente associado
outras pesquisas, como as de Prado, G. e Pra- à autoestima (0 < p < 0,1 em que p = 0,061),
do, K. (2009), que enfatizam o nível de retorno pois, como bem conclui Frederico et al. (2015,
positivo das ações promocionais envolvendo p. 174), “a consumidora de tamanhos espe-
displays. Portanto, os resultados sugerem que ciais quer produtos bonitos, atuais e, se possí-
expor as peças de vestuário em vitrines é atra- vel, confortáveis; o mais importante é que eles
ente a essas consumidoras, exercendo influên- consigam deixar a mulher se sentir bonita”, ou
cia sobre elas e estimulando a experimentação seja, que eles a façam se sentir bem.
e a aquisição do produto. Ao considerar os mesmos atributos den-
Nesse sentido, corroborando o exposto tro de uma ação promocional qualquer, visando
por Zamberlan, Corte e Wegermann (2009), apurar qual deles influencia a compra, a maio-
cabe mencionar que os resultados apontam que ria das respondentes - 46,15% - alega que todos
há uma forte associação (0,8 ≤ p < 1 em que p = os atributos apresentados (conforto, qualidade,
0,994) entre o fato de a maioria das responden- beleza/estilo, ser atual/da moda) são importan-
tes se sentir influenciadas pelas vitrines e ida- tes na hora da compra.
de das respondentes, que, em média, possuem Esse resultado pode ser facilmente com-
entre 26 a 35 anos (média = 3,5), com 37% das preendido ao levar-se em consideração o que
consumidoras plus size que alegaram entrar concluem Frederico et al. (2015) sobre os atri-
na loja, experimentar e comprar o produto por butos dos produtos ao mencionarem que um atri-
gostar do que viu na vitrine pertencentes a essa buto sozinho, por mais importante que seja, não
faixa etária, em conjunto com as pertencentes à é capaz de incentivar por si só a compra, e, sim,
faixa etária de 36 a 45 anos de idade, também o conjunto de todos os atributos apresentados.
com 37% das respondentes.
4.3.6 Influência dos Grupos de Referên-
4.3.5 Influência dos Atributos do Produ- cia no Comportamento de Compra
to no Comportamento de Compra das Consumidoras Plus Size
das Consumidoras Plus Size
A variável nomeada como “grupos de re-
A variável nomeada atributos do produto ferência” buscou avaliar se os grupos sociais dos
visou, objetivamente, avaliar a importância dos quais as respondentes participam, a saber: pais/
atributos das peças de vestuário para a consu- irmãos; conjugue/filhos e amigos, influenciam na
midora plus size, e qual deles mais estimula a hora da compra durante uma promoção de vendas.
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118 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário
Com relação ao grupo de referência deno- Embora não se tenham encontrado estu-
minado pais/irmãos, a maioria das respondentes - dos que buscassem investigar quais os tipos de
41,03% delas - alegam que, de maneira nenhuma, peças de vestuário são prioridades de compra
são influenciadas por eles durante uma promoção para as mulheres plus size, vale mencionar os
de vendas sobre que tipo de roupa comprar, di- estudos de Scussel et al. (2016), que revelam
ferentemente do que ocorre com o grupo de re- o dilema existente na tentativa de se encontrar
ferências denominado conjugue/filhos, em que roupas para trabalho (com tecidos mais sofisti-
apenas 29,06% das respondentes declararam que cados e/ou alfaiataria) e vestidos, quarto item
não são influenciadas por eles, de maneira nenhu- na preferência de compra das respondentes
ma, sobre o tipo de roupa a comprar durante uma desse estudo, para as mulheres tamanho plus
promoção, sendo seguidas por aquelas que ale- size; e os estudos de Miranda e Furlan (2015, p.
gam somente que não são influenciadas pelo dito 21), nos quais se salienta a dificuldade de se en-
grupo durante uma promoção, que corresponde a contrar, especificamente, lingeries voltadas ao
24,79% das respondentes. público desse nicho de mercado, sexto item na
Considerando a média sobre cada um preferência de compra das respondentes deste
dos grupos apresentados, (média = 5,15; 4,74; estudo, enfatizam a necessidade de que as “as
e 4,98 respectivamente) assim como o resulta- empresas brasileiras de moda [...] se inspirem
do individual de cada um deles, os resultados nas marcas internacionais, por exemplo [...]
apontam que, para as mulheres plus size, os H&M, GUESS, e ZARA, que trabalham com
grupos de referência não interferem em sua de- tamanhos maiores em todas as suas coleções.”
cisão na hora da compra; portanto, parecem não
exercer influência sobre elas no ato da compra 4.3.8 Influência da Autoestima no Com-
das peças de vestuário durante as promoções, portamento de Compra das Consu-
resultado oposto ao de uma investigação seme- midoras Plus Size
lhante, proposta por Costa et al. (2012, p. 9),
que observou, naquele caso, que “o convívio A variável nomeada como “autoestima”
familiar ou o grupo de amizades influenciam buscou, em termos gerais, investigar se uma
a mulher na hora de comprar suas roupas”, roupa tem venda garantida somente por estar na
conforme os resultados obtidos nos estudos de promoção. Essa variável envolve a escolha entre
Prado, Ferreira e Aquino (2011, p. 10), em que comprar ou não comprar peças mais baratas que,
os grupos de referência também não exercem simplesmente, sirvam ao manequim, mas não
influência sobre o comportamento de compra possuam atributos como ser da moda, ter um bom
das mulheres pelo simples fato de elas serem “caimento” ou um bom tecido, por exemplo.
mais influenciadas por outros fatores, como “o Scussel et al. (2016, p. 11) enfatizam
atendimento [...] acompanhado pela comodida- que as frustrações ocorridas durante a compra,
de [...] e o preço.” como não encontrar peças com cores e tecidos
que agradam ou com modelagens que valori-
4.3.7 Prioridade dos Itens de Vestuário zem o corpo, “acarretam impactos na autoes-
para as Consumidoras Plus Size tima, caracterizando essas experiências, como
emocionais e pessoais, dadas as consequências
Avaliar qual o item de vestuário ao ser percebidas na autoestima”, o que pode explicar
colocado em promoção seria prioridade para a o fato de 84,6% das respondentes afirmarem
consumidora plus size; isso foi o que buscou que, em uma situação na qual se deparasse com
avaliar a variável nomeada “itens de vestuá- peças que em nada lhe agradassem, não com-
rio”, que investigou a prioridade de interesse prariam nenhuma peça, pois, apesar de servi-
delas em relação a calças, blusas, saias, vesti- rem ao manequim, elas não vão sentir-se bem
dos, macaquinhos e lingeries. ao usá-las.
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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 119
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 107-122, maio/ago. 2019
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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 123
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p123-138.2019
ARTIGOS
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019
124 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
se authors studied the most, the United States, Conforme Pinto (2006), a demanda pela
England and Belgium are the countries in whi- diferenciação induz os gestores à adoção de
ch there was greater quantity of publication of inovações que garantam bons níveis na perfor-
the articles, the newspaper that holds the lar- mance das organizações e a crescente preocu-
gest number of publications is the Internatio- pação em relação à implementação de soluções
nal Journal of Human Resource Management, alternativas e, se possível, inovadoras em seus
the publishers that most had publications are serviços e produtos, de modo a buscar orientar
Routledge Journals and Emerald Group Pu- a gestão para resultados e melhorias de desem-
blishing Limited and all articles are in the penho. Diante desses aspectos, fica evidente a
category Management and in the Business & importância do gerenciamento da performance
Economics area of the Web of Science. organizacional, uma vez que proposições da
gestão de performance proporcionam uma al-
Keywords: Performance management. Web of ternativa de soluções diversificadas às deman-
Science. Bibliometric Analysis. das que o mercado apresenta.
A gestão de performance se caracteriza
1 INTRODUÇÃO por direcionar seus esforços à integração de
diversas ferramentas e soluções com base em
É perceptível que as mudanças modelos de gestão de qualidade. Cokins (2004)
verificadas no âmbito dos aspectos sociais, explica que, por meio dela, são estabelecidos
dos negócios, da economia e da política reper- e monitorados objetivos organizacionais,
cutem direta ou indiretamente na gestão e no enfatizando o desenvolvimento constante, a fim
desempenho organizacional. A atual economia de conduzir equipes para a conquista do melhor
global, caracterizada pela competitividade e desempenho e do alcance dos objetivos, por
pela busca de soluções inovadoras, requer dos meio da execução da estratégia global da em-
gestores a utilização de novas práticas de ges- presa. Portanto, a gestão de performance busca
tão aplicadas nas diferentes áreas, capacitando gerenciar a execução da estratégia ou a forma
as organizações a se adaptar às transformações como os planos organizacionais são traduzidos
externas e impulsionar seus resultados. Desse em resultados.
modo, “configura-se como desafio às organi- Dessa forma, a partir da gestão de per-
zações desenvolver e utilizar instrumentos de formance, são criados ambientes empresariais
gestão que lhes garantam um certo nível de de contínua melhoria, visando ao sucesso da or-
competitividade atual e futuro.” (BRANDÃO; ganização por meio do melhor desempenho de
GUIMARÃES, 2001, p. 9). execução de seus processos internos. Conforme
Essa realidade demanda às organizações Pinto (2006), a gestão de performance é uma
o desenvolvimento de novos processos e téc- tendência crescente nas organizações de diver-
nicas que incorporam ao ambiente empresarial sos portes e setores, sendo tratada como um
tecnologias e modelos de gestão alternativos, conceito abrangente e integrador de diversas
uma vez que as imprevisões do cenário externo metodologias e processos de melhorias, muitas
podem alterar o planejamento organizacional. vezes apoiados em soluções tecnológicas.
No ambiente organizacional, monitorar e ava- À vista disso, a questão de estudo desta
liar os resultados dos processos desenvolvidos pesquisa foi compreender qual o panorama das
é um fator imprescindível para o alcance dos publicações sobre métodos, modelos, processos
objetivos, bem como dos resultados planejados e sistemas de gerenciamento de performance.
(SOBRAL, 2013). Por meio dessas práticas de O objetivo foi realizar uma pesquisa bibliomé-
gestão, é possível realizar a identificação dos trica para analisar o panorama das publicações
pontos fortes e das necessidades de melhorias referente aos métodos, modelos, processos e
existentes no contexto organizacional. sistemas de gerenciamento da performance or-
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 125
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019
126 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 127
impacta diretamente na eficiência das opera- cionados com base no escopo deste estudo. A
ções, procurando garantir a qualidade dos pro- pesquisa se dividiu em etapas nas quais foram
dutos desenvolvidos e dos serviços prestados e apresentados e analisados diversos fatores em
o estabelecimento eficaz no mercado em que a relação aos documentos obtidos. A estruturação
organização atua. Devido a isso, analisar o pa- da análise em etapas se baseou nos preceitos do
norama das pesquisas voltadas à proposição e à trabalho realizado por Maia, Sergio e Alves Fi-
utilização dos métodos, aos modelos, aos pro- lho (2015). A sequência das etapas é a seguin-
cessos ou aos sistemas sugeridos pelos estudos te: etapa 1: consulta a fonte de dados; etapa 2:
justifica o uso dos referidos termos na pesquisa aplicação de filtros; etapa 3: análise descritiva
bibliométrica desenvolvida. e temporal dos documentos selecionados; etapa
4: análise descritiva de autores e instituições;
3 METODOLOGIA etapa 5: análise de periódicos e áreas; etapa 6:
análise de palavras-chave e termos e etapa 7:
Objetivando classificar a pesquisa, uti- análise e conclusão dos resultados.
lizaram-se os parâmetros de classificação ex- A pesquisa bibliométrica realizada foi
postos por Gil (2002). Quanto a área do co- desenvolvida a partir de documentos identi-
nhecimento, o estudo se enquadra nas Ciências ficados na base de dados denominada Web of
Sociais Aplicadas, especificamente na subárea Science. De acordo com a Universidade do
da Administração. Referente a sua finalidade, Porto (2005), Web of Science é a designação
a pesquisa se caracteriza como do tipo básica comum dada a um conjunto de bases de dados
estratégica, voltada para a construção de co- conhecida como Science Citation Indexes e se
nhecimentos direcionados ao entendimento e caracteriza por ser uma ferramenta que permite
utilização diante de situações práticas. Pelos a pesquisa habitual por ocorrência de palavras
seus objetivos gerais, a pesquisa se classifica no registro, a pesquisa de artigos relacionados e
como exploratória, pois sua realização objeti- o estabelecimento de ligações entre artigos que
vou proporcionar maior familiaridade com a citam outros ou são citados por outros.
temática de estudo, a fim de tornar seu entendi- Para a coleta dos dados, foram identifica-
mento mais explícito. Em relação aos métodos dos artigos a partir de buscas de palavras-chave
empregados, é definida como uma pesquisa bi- previamente definidas de acordo com o escopo
bliográfica, pelo fato de ter sido desenvolvida a do estudo. As palavras-chave foram pinçadas
partir da análise de materiais já elaborados por em duas línguas: no Português e no Inglês. Du-
outros autores. rante a busca na Web of Science, para os termos
Classifica-se, também, quanto à sua com mais de uma palavra, utilizou-se o uso de
abordagem, como uma pesquisa quantitativa. aspas, visando especificar o que foi pesquisado;
Essa classificação remete a utilização da aná- para buscar dois termos ao mesmo tempo, utili-
lise bibliométrica como método de estudo e zou-se o operador booleano “AND”.
tratamento dos dados. A análise bibliométri- No Português, buscou-se o termo “Ges-
ca é caracterizada como um método de análi- tão de Performance”, que, posteriormente, foi
se quantitativa para a pesquisa científica, por somado com as palavras “método, “modelo”,
meio da qual são elaborados dados estatísticos “processo” e “sistema”. No Inglês, buscou-se
(SOARES et al., 2016). Esse tipo de análise o termo “Performance Management”, o qual
visa construir indicadores em relação à produ- também foi somado com as palavras “method”,
ção científica de determinado assunto, a partir “model”, “process” e “system”.
da utilização de critérios para avaliar autores e Para tabulação e análise dos dados co-
áreas do conhecimento. letados, utilizou-se o aplicativo de planilhas
A análise bibliométrica realizada visou de cálculo Excel. Esse software permitiu a
identificar os trabalhos mais relevantes sele- construção de tabelas, quadros e gráficos que
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128 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 129
que esta pesquisa objetiva analisar o panorama das 4.3 ETAPA 3: ANÁLISE DESCRITIVA
publicações sobre métodos, modelos, processos e E TEMPORAL
sistemas de gestão de performance.
Essa exclusão do termo geral, em que se Com base na busca realizada, essa etapa
considerou somente os termos que foram somados, apresenta uma análise descritiva e temporal dos
caracteriza-se como solapamento dos resultados. A 35 artigos selecionados, na qual são expostos
partir do solapamento, obtiveram-se 37 artigos. os resultados em relação à quantidade de publi-
Com a realização de uma análise parcial do conteú- cações por ano e referências de outros autores
do desses trabalhos, notou-se que dois desses eram a esses artigos. O gráfico 1 demonstra o ano de
repetidos. Portanto, na seleção final, restaram 35 publicação dos artigos, visando ilustrar a pro-
artigos para serem analisados nas etapas seguintes. dução de pesquisa no período de tempo consi-
derado na busca, isto é, de 2006 a 2016.
Gráfico 1 – Quantidade de publicações por ano
7
6 6
6
5
5
Número de publicações
4
4
3 3
3
2 2 2
2
1 1
1
0
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
Anos
Nota-se que os anos com a maior quan- mentando no decorrer dos anos.
tidade de publicações são 2009 e 2013, em que Acrescentado a isso, a partir da ferramen-
foram publicados seis artigos em cada um dos ta denominada como Rede de Citações, elemen-
anos. Além disso, é possível considerar que a to que permite a visualização de quantas vezes,
quantidade de publicações sobre o assunto au- onde e por quem determinado documento foi ci-
mentou a partir de 2013, se for comparado com tado, disponível no portal da Web of Science, ob-
períodos anteriores. Visualiza-se uma média de teve-se a quantidade de citações para os artigos
4,5 publicações por ano de 2013 em diante, o da pesquisa ao longo de cada ano considerado. O
que não se visualiza nos anos anteriores, em gráfico 2 apresenta essa relação entre a quantida-
que a média se aproxima de 2,4 publicações por de de citações aos artigos por ano.
ano. Essa realidade possibilita a compreensão
de que o estudo sobre essa temática vem au-
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130 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 131
Nesta etapa, buscou-se realizar um levan- cações oriundas de uma mesma universidade.
tamento da análise descritiva e temporal dos 35 As únicas universidades que publicaram dois
artigos selecionados, isto é, tratou-se da descri-
artigos são Chalmers (Suécia), Vlerick Leuven
ção desses artigos e de aspectos relacionados aosGent Management (Bélgica), University Colle-
anos em que eles foram publicados e citados. En- ge Ghent (Bélgica) e Maastricht School Mana-
tre os principais resultados, têm-se a explanaçãogement (Países Baixos), enquanto os demais ar-
dos anos em que mais houve publicações, entre tigos são provenientes de outras 27 instituições.
o período de estudo definido e dos artigos que A tabela 1 demonstra os principais países
mais foram citados por outros autores. onde 35 artigos foram mais publicados. A situ-
ação representada, nessa tabela, estabelece que
4.4 ETAPA 4: ANÁLISE DESCRITIVA existe uma distribuição de conhecimento nesta
DE AUTORES E INSTITUIÇÕES área de pesquisa, posto que não há uma con-
centração elevada de trabalhos em um só país.
Esta etapa apresenta uma análise descri-
tiva dos principais autores e instituições dos Tabela 1 – Países em que os artigos mais foram
35 artigos selecionados. Descrevem-se dados publicados
sobre os autores que mais publicaram sobre o Países Número de Trabalhos %
assunto em questão, sobre as principais univer- Estados Unidos 4 11
sidades das quais os artigos são originados e, Inglaterra 4 11
também, os principais países em que esses arti- Bélgica 4 11
gos foram publicados. Índia 3 9
Em relação aos principais autores, obser- Itália 2 6
vou-se que não existe um autor que se destaca
República Checa 2 6
na quantidade de publicações, mas pode-se
estabelecer que existe um grupo de autores que Suécia 2 6
mais publicaram nessa amostra de trabalhos. Austrália 2 6
Helena Forslund e Patrik Jonsson realizaram Holanda 2 6
dois trabalhos juntos, uma vez que cada um Outros 10 28
elaborou dois trabalhos, demonstrando uma Fonte: dados da pesquisa (2018).
porcentagem de 2,86% para a representação
de cada um dos autores entre o total. Koen Nesta etapa, buscou-se apresentar uma
Dewettinck publicou dois artigos sozinho, o análise dos principais autores dos 35 artigos
que representa 5,71% do total de artigos. Ade- em estudo, bem como as principais instituições
lien Decramer, Carine Smolders, Alex Vanders- das quais os artigos são provenientes e os prin-
traeten e André de Waal publicaram um artigo cipais países em que foram publicados. A par-
juntos, porém os três primeiros publicaram um tir desses resultados, percebeu-se que não há
segundo artigo juntos, enquanto o último pu- uma concentração de informações em nenhum
blicou um segundo artigo separado. Logo, cada desses aspectos em análise.
um desses últimos quatro publicaram dois arti-
gos, contudo, tem-se Adelien Decramer, Carine 4.5 ETAPA 5: ANÁLISE DE PERIÓDI-
Smolders e Alex Vanderstraeten possuem uma COS E ÁREAS
representação de 1,9% do total e André de Waal
uma representação de 2,86% do total. Nesta etapa, relatam-se os principais pe-
No que se refere às universidades em que riódicos em que os artigos foram publicados, os
os artigos foram elaborados, observou-se uma quais são apresentados na tabela 2. Visualiza-se
distribuição entre as instituições, de modo que que o periódico que mais publicou artigos foi o
não foram percebidas concentrações de publi- International Journal of Human Resource Ma-
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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 133
nagement, em que foram publicados seis tra- da gestão de performance. Os demais artigos
balhos do total de 35. Essa revista enfoca suas apresentam uma distribuição de publicação
publicações nas tendências futuras da gestão de quase igualitária em outros periódicos.
recursos humanos, uma das áreas de aplicação
Tabela 2 – Principais periódicos que publicaram os artigos
Periódico Número de Trabalhos %
International Journal of Human Resource Management 6 17
International Journal of Operations & Production Management 3 8
Management Accouting Research 2 6
Systemic Practice and Action Research 2 6
Outros 22 63
Fonte: dados da pesquisa (2018).
Analisou-se, também, o fator de impacto Revistas de Distinção), publicam pesquisas
na área de estudo desses periódicos, por meio da originais e melhor executadas, têm alta taxa de
utilização do Guia ABS (Association Business submissão e baixas taxas de aceitação.
Schools). O Guia ABS reflete as percepções e Tendo em vista esses parâmetros, foram
os julgamentos editoriais e de especialistas, bem analisadas as classificações no Guia ABS dos qua-
como informações estatísticas, quanto à avaliação tro principais periódicos que publicaram os artigos
das publicações e a posição relativa dos periódi- deste estudo bibliométrico. O International Jour-
cos em cada área temática publicada, classifican- nal of Human Resource Management está enqua-
do-os em quatro categorias: 1, 2, 3 e 4 (ASSOCI- drado na categoria ABS 3, e o Systemic Practice
ATION BUSINESS SCHOOLS, 2015). and Action Research encontra-se na categoria ABS
Na categoria 1, estão classificadas as 2, o que expõe que essas revistas publicam pesqui-
revistas que publicam pesquisas de padrão re- sas originais e bem consideradas em suas áreas.
conhecido, mas modesto em seu campo, con- Para os periódicos International Journal of Ope-
sideradas, relativamente, leves nas convenções rations & Production Management e Management
aceitas. Os periódicos enquadrados na catego- Accouting Research não existem classificações
ria 2 publicam pesquisas originais de um pa- nos rankings, uma vez que pertencem a áreas mais
drão aceitável e são revistas respeitadas em abrangentes à gestão organizacional.
suas áreas. A categoria 3 engloba periódicos Outra análise realizada, nesta etapa,
que publicam pesquisas originais, bem execu- refere-se aos principais editores dos artigos,
tadas e altamente consideradas, têm boas taxas apresentados na tabela 3. A partir dessa tabela,
de envio e são muito seletivos no que publicam. percebe-se que Routledge Journals e Emerald
Os periódicos classificados como 4, incluídos Group Publishing Limited concentram mais da
ou não na categoria Journal of Distinction (4*, metade dos trabalhos encontrados na busca.
Tabela 3 – Principais editores que publicaram os artigos
Editores Número de Trabalhos %
Routledge Journals 9 26
Emerald Group Publishing Limited 9 26
Wiley-Blackwell 3 8
Elsevier Science BV 3 8
Springer/Plenum Publishers 2 6
Outros 9 26
Fonte: dados da pesquisa (2018).
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134 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
Esta etapa também apresenta a distribui- de assunto compartilhado por todas as bases de
ção dos artigos por categorias e áreas da Web dados de produtos da Web of Science.
of Science. Todos os periódicos e livros cober- O quadro 4 demonstra as categorias das
tos pela Principal Coleção da Web of Science quais os artigos fazem parte. Ressalta-se que
são atribuídos a, pelo menos, uma categoria de todos os artigos se enquadram na categoria
assunto, de forma que todas as categorias são Management, posto que esse foi um dos filtros
associadas a uma área de pesquisa. As áreas de aplicados na etapa 2 da seleção dos documen-
pesquisa formam um esquema de categorização tos, e alguns em outras categorias além desta.
Quadro 4 – Distribuição dos artigos por categoria da Web of Science
Categorias da Web of Science Número de Trabalhos
Management 35
Management; Business 3
Management; Industrial Relations & Labor 3
Management; Business, Finance 2
Management; Public Administration 2
Management; Multidisciplinary Sciences 1
Management; Economics 1
Management; Operations Research & Management Science 1
Management; Hospitality, Leisure, Sport & Tourism 1
Fonte: dados da pesquisa (2018).
O quadro 5 expõe as áreas das quais os cados na área Business & Economics e alguns
artigos fazem parte. Do mesmo modo que no também participam de outras áreas além desta.
aspecto da categoria, todos os artigos são alo-
Quadro 5 – Distribuição dos artigos por áreas da Web of Science
Áreas da Web Of Science Número de Trabalhos
Business & Economics 35
Business & Economics; Social Sciences - Other Topics 2
Business & Economics; Public Administration 2
Business & Economics; Operations Research & Management Science 1
Business & Economics; Science & Technology - Other Topics 1
Fonte: dados da pesquisa (2018).
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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 135
16
14
12
10
8
6
6 5
4
4
2 2 2 2 2 2 2 2 2
2
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136 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
somam 18 trabalhos do total de 35. Ainda nes- interessante sobre a aplicação da gestão de
ta etapa, constatou-se que todos os artigos da performance em estudos na área das Ciências
busca se incluem na categoria Management Sociais Aplicadas, de modo que o problema da
da Web of Science, do mesmo modo que se in- pesquisa foi respondido. Isso porque foi pos-
cluem na área de Business & Economics desta sível concluir que se compreendeu, de forma
base de dados. quantitativa, qual o panorama das publicações
Por fim, na etapa 6, na qual foi realiza- sobre métodos, modelos, processos e sistemas
do um estudo sobre a frequência das palavras- de gerenciamento de performance, no período
-chave constadas nos 35 artigos, foi obtida uma compreendido entre 2006 a 2016.
maior incidência do termo performance mana- De modo semelhante, destaca-se que o
gement. Contudo, mostrou-se uma vasta dis- objetivo proposto neste estudo foi alcançado.
tribuição de diversas palavras-chave entre os Reconhece-se isso pelo fato de que foi con-
artigos, uma vez que o estudo sobre gestão de cluída uma análise abrangente dos aspectos
performance abrange diferentes questões. quantitativos que compõem os artigos analisa-
dos, bem como uma análise completa do que
5 CONCLUSÕES eles relatavam, a partir de uma leitura integral
dos documentos. Com isso, foram percebidos
Esta pesquisa teve como objetivo realizar métodos, modelos, processos e sistemas, de-
um estudo sobre o tema gestão de performance, senvolvidos pelos autores em estudo, em que a
por meio do método de análise bibliométrica, a gestão de performance é aplicada.
partir de publicações coletadas na base de dados Por fim, considera-se fundamental a re-
Web of Science. Nesse sentido, a pesquisa visou alização deste trabalho, uma vez que fomenta
quantificar as publicações que permeiam esse dois vieses de estudo, ou seja, a pesquisa sobre
assunto, analisando diferentes aspectos referen- assuntos pertinentes à gestão de performance,
tes aos artigos selecionados. Com esse objetivo, aspecto organizacional fundamental para as no-
a análise bibliométrica realizada se dividiu em vas tendências da atualidade e a disseminação
etapas, de forma que cada uma delas abrangeu da técnica da análise bibliométrica. Esse tipo
questões específicas a serem quantificadas. de método de pesquisa fomenta a movimenta-
A partir do método de análise bibliomé- ção da atividade científica, apresentando “indi-
trica utilizado, foi possível avaliar, de forma cadores quantitativos como instrumento para
sistemática, a produção da atividade científica representação da utilidade e potencial da ciên-
voltada para a gestão de performance. Os resul- cia.” (MUGNAINI, 2006, p. 25) ao avaliar a
tados obtidos colaboraram para a representação própria ciência e a atividade científica realizada
das tendências atuais dessa temática, visto que pelos pesquisadores.
apresentaram os aspectos mais relevantes per- Sugere-se, para trabalhos futuros, a rea-
tinentes a essas publicações, como principais lização de uma análise com viés comparativo
autores, anos em que houve mais publicações, entre os estudos apresentados nesta análise bi-
principais periódicos que publicaram sobre o bliométrica. Para isso, pode ser realizada uma
assunto, entre outros. Diante disso, compreen- revisão sistemática dos conteúdos expostos, a
de-se que tais indicadores de produção cientí- partir da comparação entre suas metodologias,
fica possuem um papel importante nos estudos seus objetivos e seus principais resultados, en-
científicos, pois ao se conhecer o que já foi pu- tre outros aspectos pertinentes, para compreen-
blicado, pode-se identificar temas para pesqui- der pontos em comum, bem como diferenças
sas futuras, a fim de preencher lacunas existen- nas abordagens da gestão de performance.
tes no campo do conhecimento que se estuda.
Portanto, afirma-se que os resultados
desta pesquisa ofereceram uma quantificação
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 137
GIL, A. C. Como Elaborar Projetos de Pes- PINTO, F. J. S. Gestão da performance nos se-
quisa. [S.l.: s.n.], 2002. viços públicos: modelos e abordagens para con-
cretizar a mudança. [S.l.: s.n.], 2006. p. 1-10.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019
138 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez 139
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p139-148.2019
ARTIGOS
RESUMO
Niube Ruggero The objective of this research was to determine if a system to im-
niube@[Link] prove the sale of drugs of the generic and similar class in a drugs-
Doutora em Letras. Diretora tore chain, providing cultural incentive to employees increases sa-
Acadêmica Braz Cubas. São
Paulo - SP - BR.
les. The stores were named A, B, C and D. Shop A employees were
given two movie tickets for each employee and an effort was made
Eduardo Seige Ianaguivara to sell generic and similar class drugs, but without a goal. To em-
eduardo_seige@[Link] ployees of store B, two tickets were promised to each employee in
Doutor em Engenharia
case of increased sales. Stores D and C formed the control group.
Biomédica. Professor
Universidade Brasil. São Paulo At the end, a qualitative exploratory interview with the owner of
- SP - BR. the stores was made. The results showed that store A had increased
sales relative to the control group, but store B did not. The owner
Wagner Marcelo Sanchez reported that there are several other factors that influence sales.
wagner@[Link]
Doutor em Engenharia
Biomédica. Diretor Acadêmico Keywords: Sales. Benefit. Human resources.
FIAP. São Paulo - SP - BR.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 139-148, maio/ago. 2019
140 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 139-148, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez 141
Primeiro foi elaborada revisão bibliográ- tos genéricos e similares no período em estudo,
fica em livros, Periódicos CAPES, Scielo e em quando comparado com os resultados de ven-
artigos científicos. das do mês de dezembro de 2017.
O meio de estudo é uma rede de droga- Foi solicitado aos gerentes das lojas A e
rias, uma empresa da região do Alto Tietê – SP, B que fizessem uma reunião com toda equipe
com 21 anos no mercado, a qual se dispôs a de trabalho, explicando o incentivo cultural que
participar deste projeto 120 dias (período de estava sendo oferecido pela empresa e as regras
estudo). Nesse período, foi solicitada, e aceita do projeto. A equipe foi solicitar a não divulga-
pelo proprietário, a não realização de mudanças ção do benefício prometido para outras lojas.
no quadro de colaboradores nem quaisquer mo- Ao término da aplicação do projeto, reali-
dificações para não comprometer os resultados. zou-se uma reunião com o proprietário da rede de
A empresa possui, ao total, 45 colabora- drogarias, estabelecendo como seriam coletados
dores que atuam nos setores de caixa, atendi- os dados para análise e conclusão dos resultados.
mento e vendas. Cada loja possui dois farma- Com a informação de que o proprietário
cêuticos, no mínimo, ajudantes gerais, setores possui um sistema de informática integrado en-
de estoque e logística. Há quatro lojas, denomi- tre as lojas, obteve-se acesso à análise de rela-
nadas para esta pesquisa de A, B, C e D, sendo tórios mensais em que os dados apresentados
que as lojas C e D juntas constituíram o gru- ao pesquisador podem ser observados na tabela
po-controle deste estudo, devido à localização e gráfico nos resultados deste trabalho.
próxima uma da outra, o que poderia fazer que Depois do levantamento de todas as lo-
as informações da pesquisa fossem trocadas jas sobre as vendas da classe de medicamentos
entre os funcionários. Em um experimento, o genéricos e similares, compararam-se as ven-
grupo-controle é aquele que se submete à com- das de cada mês com o mês de referência. Essa
paração com outros para julgar resultados. Nele análise apresentava a variação mês a mês em
há indivíduos que não recebem qualquer trata- cada loja da rede. No mês de maio de 2018, o
mento especial, para que possam servir como pesquisador recebeu do proprietário da empre-
referência padrão às variáveis a que se submete sa todos os dados referentes às variações sobre
o grupo experimental. as vendas no período em estudo.
A pesquisa iniciou-se após a autorização Por fim, apresentou-se a comparação de
do proprietário para procedimentos na empre- resultados das vendas por meio de gráfico, ta-
sa, sendo solicitado sigilo sobre o faturamen- bela, discussões e conclusões.
to das lojas. Por isso apresentou-se apenas às
variações percentuais de vendas em todos os 3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
meses do estudo.
O plano de ação inicial deu-se no dia 3.1 PROGRAMAS DE INCENTIVOS
28/12/2017. O proprietário da empresa reali-
zou uma reunião com o gerente da loja A em A remuneração e os demais incentivos,
Guararema, SP, oferecendo dois ingressos de financeiros ou não, devem ser concedidos em
cinema para cada colaborador que demonstras- função daquilo que se deseja estimular nas pes-
se empenho nas vendas de medicamentos da soas. Ao montar seu plano de remuneração, a
classe genéricos e similares, mas sem colocar empresa deve perguntar ou saber o que deseja
meta. Então, os ingressos foram entregues sem alcançar com esse plano de ação e saber como
contrapartida em cada mês subsequente ao fe- vinculá-lo ao plano de recursos humanos. O
chamento das vendas. método de administração por objetivos tende
Na loja B, foram oferecidos dois ingres- a focalizar nos resultados de curto prazo, que
sos de cinema para cada colaborador em troca podem ser adaptados para estimular processos
do aumento de vendas mensais de medicamen- de longo prazo com resultados efetivos. Incen-
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 139-148, maio/ago. 2019
142 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 139-148, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez 143
e o avanço da força de trabalho (MEU MUN- Porém, Fante, Davis e Kempt (2013)
DO RH, 2017). fizeram uma pesquisa em uma farmácia, para
A concessão de benefícios exige mais investigar os efeitos do feedback gráfico e o es-
planejamento e organização da equipe de Re- tabelecimento de metas na conclusão da tarefa
cursos Humanos da empresa, pois, sem o devi- de fechamento do funcionário. Com isso, ve-
do acompanhamento, a empresa fica suscetível rificou-se que isso possibilitou a conclusão da
a riscos, e pode acontecer alguma contestação tarefa de fechamento de funcionários.
legal sobre a validade do pacote de benefícios
oferecido aos funcionários (MARRAS, 2013). 3.2 MOTIVAÇÃO
Em drogarias, há bonificações em di-
nheiro para vendas de medicamentos e cos- De acordo com Herzberg (2003), na Teo-
méticos que podem levar ao estímulo de um ria dos Dois Fatores, consideram-se os aspectos
processo chamado de “empurroterapia”, que é ligados à gestão como fatores higiênicos e fato-
uma prática irregular em que os funcionários de res motivacionais. Os primeiros são localizados
farmácias e drogarias forçam os consumidores no ambiente externo e envolvem os benefícios
a trocar os medicamentos prescritos, indicando que a organização propõe a seus empregados,
ou incentivando a compra de outros não solici- como a política e a administração da empresa, o
tados, que são vendidos sobre efeito de comis- status, a segurança, o relacionamento com cole-
são, ou seja, os similares. Isso é um ponto ne- gas e chefes, as condições de trabalho, a super-
gativo quando incluídos como benefícios para visão e o salário. De acordo com o autor, eles
colaboradores desse ramo de atividade profis- são considerados higiênicos por terem a função
sional (CANUTO, 2015). de prevenir; pois, quando não estão presentes e
Segundo Plagakis (2011), em algumas far- adequados, podem causar insatisfação. Contudo,
mácias, a única preocupação é vender o produto, o autor percebeu que essa troca não conduz à sa-
e um farmacêutico veterano fiel e confiável é ape- tisfação; porém, evita a não satisfação. Os fato-
nas uma forma e melhorar sua lucratividade. res motivacionais são os que trazem informação
Ainda de acordo com Canuto (2015), sobre o conteúdo do trabalho. Esses fatores são
mudar esse tipo de conduta no Brasil não é tare- responsáveis pela permanência de satisfação e
fa fácil, pois muitas drogarias estimulam metas da alta produtividade. Envolve sentimentos de
de vendas sobre esses produtos similares com o realização, crescimento e reconhecimento pro-
pagamento de altas comissões, e, para que essa fissional, manifestados por meio do exercício
realidade seja alterada, é necessário que pro- das tarefas e atividades que oferecem um sufi-
prietários dessas empresas tenham uma visão ciente desafio e significado para o trabalhador.
ampla do negócio e não visem lucro somente Motivação é a disposição de exercer um
em uma linha de produtos e, sim, em toda a nível elevado e constante de esforço em favor
gama de produtos existentes dentro desse âm- das metas da empresa, sob a condição de que o
bito empresarial. esforço é capaz de satisfazer alguma necessida-
Segundo Tamayo e Paschoal (2003), o de individual. O elemento esforço é uma medi-
conhecimento do perfil motivacional do traba- da de intensidade. Uma pessoa motivada não
lhador possibilita o desenvolvimento de pro- desiste facilmente de algo ou alguma tarefa.
gramas diferenciados de motivação para aten- A persistência é seguir adiante ou perseverar.
der a metas de diversos grupos de funcionários. As pessoas que são persistentes sustentam seu
Porém, não é necessário desenvolver um pro- alto nível de esforço a despeito de barreiras e
grama específico para cada funcionário, mas dificuldades. Uma necessidade insatisfeita cria
que os programas motivacionais devam consi- tensão, que estimula impulsos dentro do indiví-
derar as especificidades de diferentes equipes e/ duo. Esses impulsos geram um comportamento
ou setores organizacionais. de busca para alcançar objetivos ou metas que,
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144 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias
se atingidas, resultarão na redução dessa tensão grantes, deficientes físicos, cidadãos idosos e
(ROBBINS, 2000). outros grupos diferentes não são as mesmas de
De acordo com Maslow (1954), em sua um homem americano branco com três depen-
Teoria da Hierarquia das Necessidades, exis- dentes. Se você vai maximizar a motivação de
tem cinco categorias de necessidades dentro de seus empregados, você tem que compreender
cada indivíduo. A primeira é fisiológica e cuida e responder a essa diversidade. Como? A pala-
de satisfazer o corpo em suas necessidades bá- vra-chave para guiá-lo deve ser a flexibilidade.
sicas. A segurança ocupa o segundo lugar, ten- Esteja pronto para planejar horários de traba-
do como finalidade proteger de danos físicos e lho, plano de compensação, benefícios, am-
emocionais. A terceira é social, mais ampla, bientes físicos de trabalho e coisas assim para
envolvendo as necessidades de afeto, aceita- refletir as necessidades variadas de seus empre-
ção, amizade e levando o indivíduo a se sentir gados (ROBBINS, 2005).
inserido no meio. A quarta está associada aos O alvo de seu esforço pode ser qualquer
fatores interno e externo de estima. A quinta pessoa, afinal, todos podem ser motivados, e
está relacionada com a autorrealização. Segun- você pode ser a pessoa a fazê-lo. O potencial
do a teoria de Maslow (1954), só depois de um para a motivação começa no interior da própria
nível ser satisfeito é que o outro se apresenta, pessoa. A automotivação é essencial; mas, em-
seguindo, assim, uma hierarquia. bora existam algumas implicações com a moti-
A psicologia da motivação é complexa e, vação das pessoas, será, provavelmente, mais
de fato, o que se desvendou com algum grau de bem tratada caso seja lidada separadamente,
certeza é muito pouco. Tendo isso em mente, em conjunto com outras técnicas de autodesen-
podem-se analisar algumas práticas positivas volvimento, como a assertividade (CLEGG;
desenvolvidas para estimular a motivação, que CUNHA, J.; CUNHA, M., 2002).
são a de reduzir a jornada de trabalho, aplicar A motivação intrínseca é caracterizada
remuneração de salários em espiral, pois ir à pela automotivação, ou seja, os responsáveis
busca do próximo aumento de salário é um de- pelas organizações precisam ter em mente
safio, inclusão de benefícios, treinamento em que ninguém motiva ninguém. Desse modo,
relações humanas, comunicação assertiva e bi- o que devem fazer é proporcionar condições
direcional, participação dos colaboradores no que satisfaçam ao mesmo tempo necessida-
trabalho junto aos gestores e aconselhamento des, objetivos e perspectivas das pessoas e da
aos funcionários (VROOM, 1997). organização, e, por intermédio das habilidades,
A motivação cobre grande variedade de e competências de ambas, alcançarão maior e
formas comportamentais, e a diversidade de melhor desenvolvimento (ARAUJO; GAR-
interesses percebida entre os indivíduos permi- CIA, 2009).
te aceitar, de forma razoavelmente clara, que Algumas práticas motivacionais resul-
as pessoas não fazem as mesmas coisas pelas tantes das teorias de motivação são encontrar
mesmas razões. É importante que se leve em recompensas individuais significativas, vincu-
consideração a existência das diferenças in- lar recompensas ao desempenho, remodelar o
dividuais e culturais entre as pessoas quando trabalho, fornecer avaliação crítica e esclarecer
se fala em motivação. Esse diferencial não só expectativas e objetivos. Todas as teorias de
pode afetar, significativamente, a interpretação conteúdo propõem que os indivíduos variam
de um desejo, mas também o entendimento da em termos daquilo que consideram fator moti-
maneira particular como as pessoas agem em vador. Isso significa que, ao adequar as recom-
busca de seus objetivos (BERGAMINI, 1997). pensas às necessidades e aos desejos de cada
Nem todos os colaboradores são motiva- indivíduo, as empresas podem criar uma vanta-
dos por dinheiro ou por um trabalho desafiador. gem competitiva em atrair e motivar funcioná-
As necessidades das mulheres, solteiros, imi- rios (HITT; MILLER; COLELLA, 2015).
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AUTORES | Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez 145
Infelizmente, em muitas empresas ou or- dos funcionários, mas o velho problema logo
ganizações, é muito comum encontrar um gran- aparece. Esforços para enriquecer cargos, con-
de contingente de colaboradores que não nutrem cedendo aos colaboradores maior responsabili-
a menor motivação por aquilo que desempenha dade apresentam resultados encorajadores, que
em suas atividades no trabalho. Porém, esses desaparecem quando os funcionários tentam
funcionários não experimentam nenhuma satis- influenciar a política da empresa e são ignora-
fação ou realização pessoal gerada por aquilo dos pela gerência (VROOM, 1997).
que fazem em seu trabalho. O emprego, nesse Uma coisa que pode causar estranheza
caso, passa a ser entendido como uma forma quando se começa a avaliar que tipo de fatores
de angariar recursos para que possam sentir-se realmente motiva e quais deles apenas supri-
felizes fora dele. Dessa forma, o trabalho deixa mem a desmotivação é o fato de que a maioria
de exercer o papel como referencial de autoes- das formas que as empresas utilizam para pre-
tima e valorização pessoal, passando a ser fonte miar sua equipe não tem caráter motivacional
de sofrimento (BERGAMINI, 1997). (CLEGG; CUNHA, J.; CUNHA, M., 2002).
As empresas são reorganizadas, repeti-
damente, a conselho de consultores gerenciais, 4 RESULTADOS
mas com poucos benefícios em longo prazo.
Dispositivos gerenciais, como a semana de Os resultados de aumento das vendas de
trabalho de quatro dias e a transformação de medicamentos genéricos e similares estão mos-
funcionários horistas em assalariados, são alar- trados na tabela 1 e gráfico 1.
deados por seu efeito na motivação e na moral
Tabela 1 - Percentual de aumento de vendas de medicamentos genéricos e similares em uma rede de
drogarias, entre os meses de janeiro a abril de 2018, em relação a dezembro de 2017
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146 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias
Ao término da pesquisa, realizou-se uma en- planejar horários de trabalho, plano de com-
trevista entre o pesquisador e o proprietário da em- pensação e benefícios, e analisar se realmente
presa em que foram obtidas algumas informações. aquilo que está sendo oferecido como incenti-
O proprietário ressaltou que, por sua ex- vo será realmente relevante para um grupo de
periência, na loja A, ao receber qualquer incen- colaboradores. O resultado desta pesquisa mos-
tivo sobre as vendas, os colaboradores alcan- trou que o incentivo cultural foi relevante para
çam todas as metas propostas. Um dos fatores a equipe da loja A e não para a loja B.
de êxito seria que essa loja está localizada em Segundo Araújo e Garcia (2009), a mo-
uma região em que não há concorrência, e isso tivação intrínseca é caracterizada pela automo-
facilita as vendas dos medicamentos estudados tivação. Ninguém motiva ninguém a melhorar
nesta pesquisa. o desempenho e a relação com os funcionários;
Por sua vez, observou-se que a loja B sofreu é necessário atender ao mesmo tempo suas ne-
mais concorrência e cotações de preços na classe cessidades básicas, objetivos e perspectivas
de produtos definidos na pesquisa, fator que, mui- que são relações humanas, trabalhistas e gestão
tas vezes, impediu o aumento das vendas. de pessoas. O estudo de incentivo à cultura não
As lojas C e D, grupo-controle, cresce- se preocupou com esses fatores, e o insucesso
ram nas vendas nos meses de março e abril, de- da loja B pode ser decorrente da falta de algu-
vido à estação do ano (outono), aumentando-as, ma necessidade comum aos colaboradores.
sobretudo pelo fato de serem localizadas próxi- De acordo com Bergamini (1997), as pes-
mo a um pronto-socorro. soas podem comportar-se a estímulo vindo do
De maneira geral, no mês de fevereiro de meio ambiente, com informações que guardam
2018, foi verificada a diminuição das vendas, em seu consciente ou por impulsos desconheci-
por causa de efeitos climáticos (tempo chuvo- dos, e esses três fatores dão origem ao comporta-
so). Assim, ao ser comparado o faturamento de mento humano. Com base nisso, é justo concluir
fevereiro de 2018 com dezembro de 2017, ob- que, com o passar do tempo, a motivação huma-
servou-se uma queda dos resultados esperados. na adquiriu diferentes interpretações, o que tor-
na difícil entender o que cada colaborador deseja
5 DISCUSSÕES como benefício nas empresas.
Apesar do sucesso na loja A, deve-se
De acordo com Maslow (1954), existe ter cuidado com o problema citado por Canuto
uma hierarquia de necessidades a ser atendida, (2015): ao dar benefício por aumento de vendas,
talvez alguma necessidade anterior à diversão não pode-se estar incentivando os funcionários a em-
tenha sido atendida aos colaboradores da rede de purrar produtos desnecessários aos clientes.
drogarias, analisando os resultados da loja B. Segundo Tamayo e Paschoal (2003),
Segundo Herzberg (2003), fatores higi- deve-se conhecer o perfil motivacional do tra-
ênicos envolvem os benefícios que a organiza- balhador antes de desenvolver programas de
ção propõe a seus empregados, e fatores moti- benefícios. Nesta pesquisa, não foi feita, pre-
vacionais são os que trazem informação sobre o viamente, uma pesquisa sobre quais benefícios
conteúdo do trabalho; porém, quando não estão os funcionários gostariam de receber. Pode ser
presentes ou adequados, podem causar insatis- que alguns não se interessaram pelos ingressos
fação na equipe de trabalho. Algum fator higiê- de cinema; e se os benefícios fossem outros, os
nico ou motivacional ausente pode ter influen- resultados também poderiam ser outros.
ciado no resultado da pesquisa sobre incentivo
cultural na loja B. 6 CONCLUSÕES
De acordo com Robbins (2005), nem to-
dos os colaboradores são motivados por dinhei- Este estudo apresentou dados sobre pro-
ro ou trabalho desafiador. Uma empresa deve gramas de incentivos, benefícios para colabo-
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AUTORES | Rosângela Andrade Pessoa, Letícia Sousa Fialho, Zaíla Maria de Oliveira, Célio Gomes de Lima Júnior 149
doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p149-162.2019
ARTIGOS
COMPORTAMENTO DE COMPRA DO
CONSUMIDOR EM MERCADOS DE MODA
INFORMAL
RESUMO
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150 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
graphic profile and another one with 11 ques- O crescimento observado no setor deve-se, em
tions about consumer behavior and variables parte, à ampliação do número de indústrias de
influencing the purchase process, applied in a confecções de vestuário, à extensão dos espaços
way the approach aimed at the consumers who de comercialização, à expansão da produção e
presented some product of purchase. The field à geração de trabalho e de rendimentos para a
research was conducted at the Fashion Cen- população periférica (ALVES et al., 2009).
ter of the city of Fortaleza, totaling 320 valid Nos dias atuais, o consumo apresenta
questionnaires. The analysis process consisted novas configurações provocadas pela instabi-
of the following phases: survey of the initial lidade dos comportamentos dos consumidores
descriptive statistics, verification of the reliabi- e a economia do país. Dessa forma, faz-se ne-
lity and validity of the scales using the internal cessário compreender o panorama peculiar da
consistency (Cronbach’s alpha), and finally, an sociedade moderna, com relação ao comporta-
Exploratory Factor Analysis (EFA) was con- mento de compra do consumidor em mercados
ducted to reduce the number of variables. The de moda popular brasileira.
results show that most of the variables worked O mercado da moda está em constante
influence consumer choice. Some variables evolução, e a força que a moda tem conquis-
emphasize, however, the importance given to tado no decorrer dos últimos anos no Brasil
the economic factor and purchasing power (pri- vem representando um elemento importante de
ce factor), making it clear that the model of the identidade individual e expressão social. Em
informal fashion center represents the option of um contexto social e cultural, essa força confi-
the consumer to have the opportunity to pur- gura-se por meio de mudança nas escolhas de
chase beyond basic needs. um grupo de indivíduos. Esses grupos aderem
ou não ao que a moda propõe de acordo com
Keywords: Consumer Behavior. Fashion Con- o poder aquisitivo real de cada ser humano.
sumption. Buying decision. Theory of Planned Como fator cultural, a moda reflete o status de
Behavior - TPB. uma pessoa em relação à outra; portanto, alte-
ra a identidade mundial e a identidade pessoal
1 INTRODUÇÃO dentro da sociedade de consumo.
A moda é responsável por segmentar a
O comportamento humano tem sido mo- sociedade em grupos de aceitação da transfor-
tivo de estudos, tanto práticos quanto teóricos, mação gerada por ela. O setor da moda am-
objetivando um entendimento das ações reali- pliou o mundo dos negócios, o aumento da
zadas pelos indivíduos em situações específi- oferta de produtos e serviços, a concorrência
cas. Observa-se que, com as necessidades bá- acirrada entre as empresas, as mudanças eco-
sicas satisfeitas, como segurança, alimentação nômicas e o aumento do poder de compra das
e higiene, os indivíduos procuram atender as classes B, C, D e E. Acontecimentos diversos
necessidades de status e autorrealização. Nesse desencadearam mudanças no comportamento
contexto, os produtos pertencentes ao segmen- dos consumidores e, consequentemente, no po-
to do luxo atendem aos anseios e às necessida- sicionamento de algumas empresas mais aten-
des de realização pessoal. tas ao mercado.
Contudo, no segmento dos centros de Diante da complexidade da relação entre
vestuário popular no Brasil, as investigações o mercado de moda popular brasileira e o com-
realizadas têm vindo a demonstrar grandes mo- portamento do consumidor de classe média, a
vimentações econômicas em várias regiões do Teoria do Comportamento Planejado (TCP)
País. Na região Nordeste, os estados que têm baseia-se no pressuposto de que os indivíduos
apresentado maior destaque são Pernambuco e tomam suas decisões de forma eminentemente
Ceará (BRAGA; ABREU; OLIVEIRA, 2015). racional e utilizam, sistematicamente, as infor-
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mações que estão disponíveis, considerando as ou serviço ocorre por meio de um processo de
implicações de suas ações antes de decidirem tomada de decisão pela qual o consumidor opta
se devem ou não se comportar de determina- por adquirir ou não um produto ou serviço, le-
da forma. Assim, a TCP proposta por Ajzen e vando em consideração as diversas variáveis
Fishbein (1975) pode contribuir para entendi- e percepções. O processo de compra inicia-se
mento dessa relação. quando o consumidor sente a necessidade da
A perspectiva desta pesquisa é encontrar aquisição de algo, e esse processo possui etapas
respostas para o questionamento: quais as variá- por que o consumidor passará antes, durante e
veis que influenciam o comportamento de com- pós-compra de algum bem ou serviço.
pra de pessoas de classe média em mercados de O processo de compra é dado em etapas:
moda informal? Para tal, o objetivo principal é a etapa do julgamento é caracterizada pela in-
analisar os fatores que influenciam o comporta- fluência de representações sociais que valori-
mento de compra do consumidor de mercados zam ou não a intenção da compra e as expecta-
de moda informal. E, como objetivos específi- tivas a que a ela se refere; a etapa da compra é
cos, (i) descrever o perfil do consumidor (a) de definida como um jogo de negociação no qual
moda informal do Centro Fashion em Fortaleza algumas variáveis, como o tempo disponível e
(ii), avaliando os motivos que levam o consu- o conhecimento das partes envolvidas, moldam
midor a comprar em centros de moda informal. a dinâmica da negociação; a etapa do uso é o
Abordando a influência do comporta- momento em que a adequada operação do pro-
mento de compra de pessoas de classe média duto leva aos resultados esperados; por fim, na
em mercados de moda informal, o presente es- etapa de avaliação pós-compra, o consumidor
tudo pretende preencher essa lacuna, analisan- conclui se suas expectativas foram satisfeitas,
do consumidores de um centro comercial popu- em uma comparação entre o que se esperava e
lar. O propósito é que o resultado da pesquisa o que foi obtido (GIGLIO, 2005).
fornecerá informações para os gestores do seg- Essas etapas certificam que, até o mo-
mento, contribuindo, dessa forma, para o de- mento da compra, o consumidor passa por
senvolvimento de novas estratégias comerciais. outras etapas anteriores, ocorrendo, ainda, o
O Centro Fashion está situado em Forta- processo pós-compra. De posse dessa conclu-
leza (CE) e se configura como um dos maiores são, faz-se necessário saber alguns fatores que
centros atacadistas de moda popular do Norte e influenciam o processo de decisão de compra
Nordeste; possui 74 mil metros quadrados de área dos consumidores.
construída, com, aproximadamente, 5.500 mil Segundo Kotler e Keller (2012), o mo-
boxes, lojas e megalojas em que o foco é o comér- delo do processo de decisão de compra do
cio de peças no atacado, sem dispensar o varejo. consumidor desenvolve-se em três estágios:
pré-compra, estágio do consumo, estágio de
2 REVISÃO DA LITERATURA pós-compra, que, por conseguinte, dão ori-
gem a cinco etapas: reconhecimento do pro-
2.1 PROCESSO DE COMPRA DO blema, busca de informações, avaliação das
CONSUMIDOR alternativas, decisão de compra e comporta-
mento pós compra.
De acordo com Kotler e Keller (2012),
o processo de compra inicia-se quando o con-
sumidor sente a necessidade de ter algo, e esse
processo possui algumas etapas pelas quais o
consumidor passará antes, durante e depois da
compra de algum bem ou serviço.
A compra de um determinado produto
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152 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
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que têm preferência e, a partir delas, determina Segundo Kotler e Keller (2012), essa sa-
os critérios para avaliar cada marca. tisfação do cliente deriva da proximidade entre
suas expectativas e o desempenho percebido do
2.1.4 Decisão de compra produto; se o produto não atende, plenamente, às
expectativas, o cliente fica desapontado. Na in-
Normalmente, os consumidores não ado- satisfação do consumidor em relação ao produ-
tam uma regra no momento da decisão de com- to, ele toma ações que correspondem ao resulta-
pra. Muitas vezes, são levados pela emoção; do que obteve. Um consumidor satisfeito voltará
porém, durante a avaliação, mesmo que o com- a comprar o produto e provavelmente o indicará
prador decida por determinada marca ou mode- para amigos e familiares como algo satisfatório.
lo, dois fatores podem interferir entre a intenção Já o cliente insatisfeito com o produto, além de
e a decisão de compra. Ao formar a intenção de procurar devolvê-lo, pode recorrer a ações públi-
compra, ele pode passar por cinco subdecisões: cas, redes sociais e advogados que representam,
decisão por marca, decisão por revendedor, de- atualmente, uma ameaça para as empresas por
cisão por quantidade, decisão por ocasião e de- sua rápida repercussão na sociedade.
cisão pela forma de pagamento. Logo, os consu- Compreender o consumidor não é tarefa
midores não adotam, necessariamente, um único fácil, pois não depende apenas das ações das
tipo de regra de escolha em suas decisões de empresas, mas do conhecimento sobre suas
compra (KOTLER; KELLER, 2012). motivações, das preferências, atitudes, classes
2.1.5 Comportamento pós-compra sociais, dos grupos a que pertence, das neces-
sidades, dos comportamentos na decisão de
Depois da compra do produto, o consu- compra e de outros fatores que atuam sobre ele
midor o avalia por meio de suas expectativas. (SOLOMON, 2011).
Existem três possíveis resultados dessas ava-
liações: 1) o desempenho real atende às expec- 2.2 MODA E CONSUMO
tativas, levando a um sentimento neutro; 2) o
desempenho supera as expectativas, causando O consumo apresenta-se como um fenôme-
o que se conhece como a não confirmação po- no-chave para a compreensão da sociedade con-
sitiva das expectativas (que leva à satisfação) temporânea. Na vida social cotidiana, o consumidor
e 3) o desempenho fica abaixo das expectati- ganha visibilidade por meio de traços no espírito do
vas, causando a não confirmação negativa das tempo, como, moda, objetos, produtos, serviços, de-
expectativas e insatisfação (SCHIFFMAN; sign, marcas, grifes, shoppings, televisão, publicida-
KANUK, 2009, p. 393). de e comunicação de massa (ROCHA, 2005).
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154 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
Na moda, o consumo acontece pela neces- da divisão de classes, ela ocupa, frequentemen-
sidade de o indivíduo se expressar e pela neces- te, as camadas consecutivas de classes sociais.
sidade de se sentir aceito dentro de grupo social. De acordo Simmel (1988, p. 101), quando as
Os consumidores compram de acordo com sua classes inferiores começam a imitar as classes
renda. Segundo Frings (2012, p. 44), “A quan- superiores e a se apropriar da sua moda, estas
tidade de dinheiro que os consumidores gastam últimas passam a declinar daquelas preferências
com moda e outras mercadorias depende de sua para adotarem outras novas. Contudo, ao mesmo
renda. Uma vez que a renda afeta o consumo, ela tempo, na modernidade, a impaciência e o vai-e-
é medida de três maneiras: renda pessoal, renda -vem fazem mudar a moda muito rapidamente
disponível e renda discricionária.” entre as camadas sociais, arriscando abolir seu
A renda pessoal é a renda bruta do con- próprio sentido por uma difusão geral.
sumidor; a renda disponível é a renda bruta
menos os impostos, e a renda discricionária é o 2.3 TEORIA DO COMPORTAMENTO
que resta depois de o consumidor ter pagado por PLANEJADO – TCP
suas necessidades básicas, como alimentação,
moradia e transporte. O que sobra o consumidor A teoria do Comportamento Planejado
pode gastar com outras necessidades ou desejos. (TCP), de forma geral, é o modelo social psico-
Geralmente, as pessoas que gostam de roupas lógico mais adequado para prever o comporta-
da moda são aquelas com poder aquisitivo alto mento humano (AJZEN; COTE, 2008), pois é
e vontade de comprar marcas de luxo. Segun- baseada em poucas variáveis explicativas (AJ-
do Gaultier (1992 apud FRINGS, 2012, p. 66), ZEN, 2002). A TCP baseia-se no pressuposto
“as vítimas da moda são as pessoas que seguem de que as pessoas fazem suas escolhas de forma
cega e estupidamente uma marca sem qualquer sensata, utilizando as informações disponíveis
discernimento e sem qualquer análise.” e considerando as implicações de suas ações
Os consumidores estão buscando a última antes de tomarem suas decisões. Vale enfatizar
moda, compram sem pensar em adaptá-las para que a TCP pode ser considerada um avanço da
si. É possível, também, analisar os motivadores Teoria da Ação Racionalizada, visto que esta
da compra do consumidor. Antigamente, a maio- última apresentava uma limitação no que tan-
ria das pessoas comprava roupas novas apenas ge ao tratamento de comportamentos sobre os
quando surgia a necessidade, para uma ocasião quais as pessoas tinham controle volicional in-
especial ou porque as roupas estariam velhas ou completo (AJZEN, 2002).
desgastadas. Em média, a pessoa, simplesmente, Segundo Hoppe et al. (2012), a TCP é
não tinha condições de comprar mais do que as estruturada em três pontos: (i) nas crenças com-
necessidades básicas. Atualmente, na sociedade portamentais; (ii) nas crenças normativas, e (iii)
ocidental, a renda discricionária é maior, e as nas crenças sobre o controle. As crenças com-
pessoas podem comprar roupas novas com fre- portamentais tratam de uma atitude favorável
quência (FRINGS, 2012, p. 70). ou desfavorável em relação ao comportamento.
Os fatores analisados pelo consumidor Já as crenças normativas referem-se às pres-
para comprar um produto de moda são ser atra- sões sociais, ou seja, as expectativas do com-
ente, estar na moda, impressionar os outros, ser portamento percebido sobre outros indivíduos
aceito por amigos, ser multiuso, ter conveniên- (amigos, familiares). Essas crenças normativas,
cia e ter um valor percebido razoável. Atual- combinadas com a motivação pessoal em obe-
mente, o desafio do profissional de moda está decer a diferentes regras, determinam a norma
na criação, nas tendências e na satisfação dos subjetiva que justifica a compra. Por último, as
desejos e expectativas do consumidor sobre um crenças sobre o controle se referem aos fatores
só produto, tornando-o comercial. que podem facilitar ou impedir o desempenho
Considerando que a moda é um produto do comportamento.
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AUTORES | Rosângela Andrade Pessoa, Letícia Sousa Fialho, Zaíla Maria de Oliveira, Célio Gomes de Lima Júnior 155
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156 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
somando um total de 320 questionários válidos. identificar os fatores representativos dos conjun-
Na amostragem por conveniência, segundo Ma- tos de variáveis, ou seja, dos construtos em es-
lhotra (2012), a seleção das unidades amostrais tudo. A utilização de softwares de pesquisas per-
é determinada principalmente pelo pesquisa- mite o aumento da qualidade do estudo devido
dor, buscando obter uma amostra de elementos ao uso de computadores, que facilita e melhora
convenientes ao desenvolvimento do propósito a demonstração dos resultados (FLICK, 2004).
do estudo, o que se demonstrou adequado, visto Para verificar a adequação da utilização
que o foco é a mensuração de comportamentos da AFE, foram realizados os testes de Kaiser-
de um grupo específico. -Meyer-Olkin (KMO) e de esfericidade de Bar-
O instrumento de coleta utilizado foi o lett. O teste de KMO permite verificar a ade-
questionário estruturado dividido em dois blocos: quação dos dados; os valores maiores que 0,6
sendo o primeiro, com 6 perguntas, para identifi- indicam análise fatorial satisfatória; os valores
car o perfil do entrevistado, e o segundo, compos- entre 0,7 e 0,8 são bons; os valores entre 0,8 e
to por 11 perguntas de múltipla escolha utilizando 0,9 são ótimos, e os valores acima de 0,9 são
a escala de likert de 5 pontos, sobre o comporta- excelentes (HUTCHESON; SOFRONIOU,
mento do consumidor e as variáveis influenciado- 1999). Já o teste de esfericidade de Barlett tes-
ras no processo de compra. Dessa forma, o instru- ta a inexistência de correlação perfeita entre as
mento de pesquisa enquadra-se como um survey variáveis (MALHOTRA, 2012). Em seguida,
do tipo corte transversal (FREITAS et al., 2000). realizou-se a análise das comunalidades que
Importante salientar que tal instrumento passou identifica a proporção da variância que uma
por uma fase de pré-teste com professores da área variável compartilha com todas as demais va-
e clientes do Centro Fashion. riáveis e, como regra, deve atingir valor supe-
A coleta de dados foi realizada no mês rior a 0,6 e análise da variância total explicada
de maio de 2018, de forma presencial, uma vez que representa o quanto as variáveis explicam o
que os autores optaram por abordar consumi- construto, esperando-se valores acima de 60%
dores (as) que apresentassem alguma evidência (HAIR JUNIOR et al., 2009).
de compra efetuada. Dessa forma, a verificação Após a definição dos fatores, verificou-
de questionários com data missing foi realizada -se a confiabilidade de coerência interna dos
no momento da aplicação da pesquisa. Depois construtos, por meio do coeficiente Alfa de
da coleta e a digitação dos questionários em Cronbach, que assume valores a partir de 0,7
uma planilha de dados, as seguintes etapas fo- como aceitáveis (HAIR JUNIOR et al., 2009).
ram adotadas durante as análises: levantamento
das estatísticas descritivas iniciais, verificação 4 RESULTADOS
da confiabilidade e validade das escalas usan-
do a consistência interna (alpha de Cronbach), O Centro de moda Informal em Fortale-
e, por fim, foi conduzida uma Análise Fatorial za recebe, em média, 4 mil pessoas por semana
Exploratória (AFE) para reduzir o número de vindas de todo o País, em especial, de estados
variáveis, agrupando-as em fatores representa- como Piauí, Pernambuco, Maranhão, Pará,
tivos das originais que foram usadas como in- Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ama-
sumo para as análises desta pesquisa. zonas, entre outros. Com um mix de produtos
Para as análises estatísticas, foram utili- que varia de moda feminina, moda masculina,
zados os softwares Statistical Package for the moda praia, calçados, moda infantil, moda ín-
Social Sciences® - SPSS 21.0. Inicialmente, tima e acessórios, funciona sempre das 6h da
realizaram-se, no SPSS, estatísticas descritivas manhã, nas quartas-feiras, ao meio-dia das
simples (cálculo da frequência e percentuais de quintas-feiras; 14h da tarde a 23h da noite da
respostas) para identificar o perfil dos respon- sexta; e 6h da manhã dos sábados ao meio-dia
dentes e a Análise Fatorial Exploratória, visando dos domingos.
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158 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
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nica é apropriada para a análise dos dados (MA- cujos valores indicam as correlações entre as
LHOTRA, 2012; HAIR JUNIOR et al., 2009). afirmações apresentadas no questionário e os
A extração dos fatores rotacionados pelo fatores extraídos pela técnica de análise. Para
processo Varimax resultou na seleção de três fa- garantir a confiabilidade interna dos três cons-
tores principais, os quais, de acordo com o cri- tructos resultantes, extraiu-se o coeficiente alfa
tério da raiz latente, possuem, individualmente, de Cronbach (α) para cada um deles. Todos os
autovalores superiores a um. Em conjunto, os coeficientes calculados são adequados, uma
três fatores identificados correspondem a 71% vez que, sendo α > 0,700, segundo Hair Junior
da variância total dos dados coletados. et al. (2009) e Malhotra (2012), torna possível
A tabela 3, além das informações expos- a utilização da escala somada dos itens que
tas anteriormente, apresenta as cargas fatoriais compõem um fator.
Tabela 3 - Resultados da análise fatorial exploratória e confiabilidade interna dos fatores gerados
Teste de Esfericidade de Bartlett Qui-quadrado Medida de Adequação da amostra (KMO) =
aproximado = 796,825, significância = 0,00 0,761
Cargas
Fator Componentes Principais
Fatoriais
P1. Eu compro produtos no Centro Fashion porque meus familiares também compram. 0,845
P2. Eu compro produtos no Centro Fashion porque minhas amigas também compram. 0,840
P3. Eu compro produtos no Centro Fashion porque meus colegas de trabalho
Social 0,792
também compram.
P4. Eu compro produtos no centro Fashion porque as pessoas que são
0,850
importantes para mim também compram.
Percentual de variância total explicada = 39%
Alfa de Cronbach = 0,864
Cargas
Fator Componentes Principais
Fatoriais
P5. Eu compro produtos no Centro Fashion porque os preços são mais acessíveis. 0,885
Preço P6. Eu compro produtos no Centro Fashion porque considero uma vantagem a
0,881
relação preço/qualidade.
Percentual de variância total explicada = 17%
Alfa de Cronbach = 0,696
Cargas
Fator Componentes Principais
Fatoriais
P9. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion por ser um local próximo
0,852
Comodidade à minha residência.
P10. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion pela comodidade do estacionamento. 0,71
Percentual de variância total explicada = 15%
Alfa de Cronbach = 0,413
Fonte: elaborado pelos autores (2019).
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160 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
mento entre três e seis salários-mínimos. adotar, necessariamente, uma única regra de es-
Revisitando os objetivos de investiga- colha em suas decisões de compra (KOTLER;
ção, identificou-se que o comportamento de KELLER, 2012).
compra dos consumidores de mercados de A pesquisa traz a contribuição do empre-
moda informal é influenciado, de forma signifi- go da Teoria do Comportamento Planejado na
cativa, pelo fator preço, uma vez que as variá- área de moda informal no mercado da cidade
veis que apresentam as maiores médias são “eu de Fortaleza. Uma vez que os estudos do com-
compro produtos no Centro Fashion porque os portamento dos consumidores são, por regra,
preços são mais acessíveis” e “eu compro pro- sujeitos a alterações em função da amostragem
dutos no Centro Fashion porque considero uma e do período em que são realizados, os resulta-
vantagem a relação preço/qualidade”. Por outro dos obtidos apenas se aplicam no contexto das
lado, verificou-se que a comodidade representa características demográficas dessa amostra e
um fator de importância atribuída, sendo a vari- não podem ser generalizados.
ável relativa à proximidade com a residência e Contudo, este estudo fornece algumas
a facilidade de estacionamento como motivo de pistas aos gestores para reconhecer a importân-
escolha para o consumidor comprar em locais cia e o impacto potencial dos espaços de com-
como os centros de moda informal. pras no mercado da moda informal associado a
No que concerne ao fator social, para o uma adequada abordagem da oferta.
consumidor de moda informal, os familiares, Finalmente, será válido apresentar su-
amigos e pessoas com significativa importância gestões de investigação futura. Sugere-se, por-
têm efeito positivo, contribuindo, assim, com a tanto, replicar a investigação a uma amostra
atitude em face da escolha do local para realizar representativa do consumidor que realiza suas
suas compras. Para esse fator, a variável menos compras para revenda, aprofundando o estudo
relevante se refere à influência dos colegas de sobre os impactos que o Centro Fashion tem na
trabalho em sua escolha. economia informal.
Em síntese, os resultados alcançados
mostram que a maioria das variáveis aqui tra- REFERÊNCIAS
balhadas influencia, de alguma maneira, a esco-
lha do consumidor. Algumas variáveis realçam, AJZEN, Icek. Perceived Behavioural Control,
no entanto, a importância que é dada ao fator Self-Efficacy, Locus of Control and the Theory
econômico e ao poder de compra (fator preço), of Planned Behaviour. Journal of applied so-
tornando evidente que o modelo do centro de cial psychology, v. 32, p. 665-683, 2002.
moda informal representa a opção de o consu-
midor ter a oportunidade de gastar com neces- AJZEN, Icek; COTE, N. Gilbert. Attitudes and
sidades além das básicas, como alimentação e the prediction of behavior. In: CRANO, Wil-
saúde. liam D.; PRISLIN, Radmila (ed.). Attitudes
Vale ressaltar que as atitudes das pessoas and attitude change. New York: Psychology
são formadas pelas experiências de vida, e que Press, 2008. p. 289-311.
o respeito e a credibilidade que o consumidor
tem por alguém representa um fator de influên- AJZEN, Icek; FISHBEIN, Martin. Belief, atti-
cia em suas decisões de compra. Tal como foi tude, intention and behavior: an introduction
evidenciado na revisão da literatura, ao formar to theory and research. [S. l.: s. n.], 1975.
a intenção de compra, o consumidor pode pas-
sar por cinco subdecisões: decisão por marca, AJZEN, Icek; FISHBEIN, Martin. Under-
decisão por revendedor, decisão por quantida- standing attitudes and predicting social be-
de, decisão por ocasião e decisão pela forma haviour. [S. l.: s. n.], 1980.
de pagamento; não significa, porém, que irá
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162 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal
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doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p163-173.2019
CASOS DE ENSINO
RESUMO
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164 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias
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166 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias
empresa é sustentado pelo conceito de econo- para gerar ideias”, “Canvas da proposta de va-
mia colaborativa, o que torna a realização dos lor” até “mundo em 2050” dentre outras trilhas.
diversos eventos mais facilmente realizados. O
custo para a participação é relativamente bai- 3 O CANVAS
xo se comparado aos modelos disponíveis no
mercado, isso ocorre devido à rede de compar- Os dados colhidos durante a entrevista
tilhamento de conhecimentos entre alunos, em- foram cruciais para o desenvolvimento do mo-
preendedores, mentores e facilitadores. delo Canvas. A entrevista de forma presencial
A metodologia é bem simples: são cur- foi importante, pois proporcionou uma maior
sos rápidos e com viés prático, no qual os par- interação entre entrevistador e entrevistado, de
ticipantes obtém uma breve introdução teórica forma que, enquanto a entrevista se desenvol-
e são convidados a aplicar estes conhecimentos via, o modelo de negócios da empresa era cons-
adquiridos através de projetos que desenvolvi- truído dentro do Canvas de forma simultânea,
dos ao decorrer das aulas, o que permite uma o que contribuiu para uma maior fidedignida-
maior congruência entre o conhecimento teóri- de entre o modelo desenhado e a realidade da
co e o prático dos temas propostos. empresa. Segundo a opinião do empresário, a
A empresa já ofereceu mais de 60 cursos, Bizcool é uma empresa em fase de maturidade
mas hoje se concentra em 16 cursos divididos em que ainda são realizados testes em determi-
em 7 módulos diferentes: Financeiro, Gestão, nadas áreas do Canvas. Os tópicos a seguir vão
Inspiração, Marketing, Planejamento, Produto apresentar passo a passo cada uma das nove
e Vendas. O participante opta por um pacote dimensões do Canvas, conforme figura 1, e a
com certo número de cursos e os temas tra- forma com que a empresa conceitua cada uma
balhados vão desde “criando ideias com dife- delas dentro do seu modelo de negócios.
renciais”, passando por “como usar seu cliente
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168 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias
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170 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias
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172 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias
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CASOS DE ENSINO | Gustavo Clemente Valadares, Galo Andrés Suasnavas Lamboglia, Joel Yutaka Sugano, João Paulo Nascimento da Silva 173
Possível organização da aula para uso do negocios (No. LE-0146). Cuatro Media, 2008.
caso
TRIMI, S.; BERBEGAL-MIRABENT, J.
Inicialmente os alunos devem realizar Business model innovation in entrepreneurship.
uma pesquisa inicial sobre plano e modelos de International Entrepreneurship and Mana-
negócios, os resultados dessa pesquisa serão gement Journal, v. 8, n. 4, p. 449-465, 2012.
discutidos em sala de aula. No início da aula
será apresentada a teoria sobre a ferramenta
Canvas, onde será explicado os 9 blocos usa-
dos para esboçar modelos de negócios novos
ou existentes. Posteriormente será apresentan-
do o estudo de caso realizado na empresa Biz-
cool, no qual será possível explicitar como essa
ferramenta foi utilizada para a elaboração do
modelo de negócios dessa empresa.
Após o professor analisar o estudo de
caso com a turma, os alunos irão responder as
perguntas sugeridas nestas notas de ensino. Em
uma segunda etapa, com base nas considera-
ções tiradas no estudo de caso, os alunos irão
escolher uma empresa de sua preferência para
esboçar o modelo de negócios dessa empresa
com base no mapa visual Canvas. Na etapa fi-
nal, os alunos irão apresentar esses resultados
para a turma, onde será realizado um debate de
forma a fixar melhor o conteúdo.
Sugestões de bibliografia
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 163-173, maio/ago. 2019
174 Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial
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Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial 175
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 174-176, maio/ago. 2019
176 Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 174-176, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as 177
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019
178 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as 179
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la ReGeA, exclusivamente por medio del sitio 2. Los textos en portugués deberán ser escritos
web <[Link] en conformidad con las normas de la Associa-
[Link]/gestao/index>, en archivo [doc], ção Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) –
juntamente con el documento de Declaración NBR 6022:2003, y NBR 14724:2011. Para los
de Cesión de Derechos Autorales. Por medio artículos en inglés, se utilizará la norma ISO
del sitio web, los autores pueden someter su equivalente.
trabajo y observar su status durante todo el pro-
ceso editorial. Esa forma de sumisión garantiza 3. Características técnicas:
que el procesamiento de su manuscrito sea más • Formato del papel: A4;
rápido y más seguro, agilizando también el pro- • Editor de texto: Word for Windows 6.0 o
ceso de evaluación. Las investigaciones deben más reciente;
relatar los resultados de estudios en desarrollo • Márgenes: superior e izquierda de 3 cm,
o ya concluidos, de acuerdo con los estilos aba- derecha e inferior de 2 cm;
jo descritos: • Tipo de letra: Times New Roman, de
• ARTÍCULOS – textos destinados a di- talla 12, espacio entre líneas 1,5;
fundir resultados de investigación cientí- • Número de páginas: ARTÍCULO [míni-
fica, investigación tecnológica y estudios mo 12 y máximo 18 páginas]; ENSAYO
teóricos [mínimo 8 y máximo 13páginas]; y
• ENSAYOS – trabajos hechos a partir de CASO [mínimo 8 y máximo 13 páginas].
estudios apurados, críticos y conclusivos
acerca de determinado tema, en que se 4. Características específicas:
destaca la originalidad del pensamiento • El título y el subtítulo (si existir) del tex-
del autor. to deben ser presentados en portugués y
• CASOS DE ENSEÑANZA – relatos de en inglés;
casos reales de empresas con el propósi- • El título y el subtítulo deben expresar de
to de consolidar el método de estudio de manera clara las ideas del trabajo;
casos como herramienta de enseñanza y • El resumen y el abstract deben ser es-
aprendizaje, propiciando estímulo a los critos de acuerdo con la normativa
estudios, a la investigación y al debate en NBR6028 o la norma ISO equivalente,
las áreas mencionadas. en 150 palabras o menos. El resumen
debe resaltar el objetivo, el método, los
INSTRUCCIONES A LOS AUTORES resultados y las conclusiones;
• Deben ser apuntadas entre tres y cinco
Los trabajos deben ser enviados a la ofi- palabras-clave, que deben ser traduzidas
cina de la Revista Gestão em Análise – ReGeA, también al inglés y apuntadas como ke-
de acuerdo con las directrices de sumisión de ywords;
este periódico. Es indispensable que los autores • El contenido de los artículos y ensayos
verifiquen que sus sumisiones dan cumplimien- debe presentar, siempre que sea posible:
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019
182 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X