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Revista Gestão em Análise - Edição 2019

A Revista Gestão em Análise - ReGeA, publicada semestralmente pelo Centro Universitário Christus, apresenta uma coleção de artigos e estudos de caso focados em temas relevantes da administração e ciências contábeis. A edição atual inclui discussões sobre a influência da nova estrutura fiscal de Angola, recuperação judicial de empresas e comportamento do consumidor em mercados de moda. O editorial enfatiza a importância da palavra e da inovação em um contexto econômico desafiador.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Revista Gestão em Análise - Edição 2019

A Revista Gestão em Análise - ReGeA, publicada semestralmente pelo Centro Universitário Christus, apresenta uma coleção de artigos e estudos de caso focados em temas relevantes da administração e ciências contábeis. A edição atual inclui discussões sobre a influência da nova estrutura fiscal de Angola, recuperação judicial de empresas e comportamento do consumidor em mercados de moda. O editorial enfatiza a importância da palavra e da inovação em um contexto econômico desafiador.
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Editoração / Publishing

Altieres de Oliveira Silva


ISSN 1984-7297 [impresso]
Editor Técnico – Consultivo / Tecnical Consulting Editor
e-ISSN 2359-618X [online]
Fátima Kattiana Coelho Gomes / Patrícia Vieira Costa
CENTRO UNIVERSITÁRIO CHRISTUS - UNICHRISTUS Assistente Editorial / Editorial Assistant
José Lima de Carvalho Rocha - Reitor / Rector Edson Alencar, Elzenir Coelho,
Revisão Técnica de Linguagem e Tradução /
Comitê de Política Editorial / Editorial Policy Committee Technical Language Revision and Translation
Estevão Lima de Carvalho Rocha - Pró-Reitor e Diretor do Comitê /
Provost and Director of the Committee Patrícia Vieira Costa, Tusnelda Barbosa
Normalização / Normalization
Fayga S. Bedê; José L. Crisóstomo; Laodicéia A. Weersma; Luciano
Pamplona de G. Cavalcanti; Maurício L. C. Rocha; Marcos Kubrusly; Agência Studio - Capa / Cover Design
Nicole de A.V. Soares - Membros do Comitê / Members of the Committee Gráfica e Editora LCR Ltda. / Editoração e
Projeto Gráfico / Publishing and Graphic Design
Francisca Íris Cavalcante Costa
Editora Edição - Convidada / Issue Guest Editor Matérias assinadas são de responsabilidade dos
autores. Direitos autorais reservados. Citação
Arnaldo F. M. Coelho, Universidade de Coimbra, Portugal parcial permitida, com referência à fonte.
Laodicéia A. Weersma, UNICHRISTUS / Universidade de Coimbra
Editores - ReGeA / Editors - ReGeA Revista Gestão em Análise – ReGeA
JOURNAL OF MANAGEMENT ANALYSIS
Alketa Peci, EBAPE/FGV, RJ, Brasil
Alzira Maria Ascensão Marques, IPLEIRIA, Portugal Centro Universitário Christus - UNICHRISTUS
André M. Xavier de Lima, UBC, Canadá Av. Dom Luis, 911 Fortaleza/CE - Brasil
Ana Augusta F. de Freitas, UECE, CE, Brasil CEP 60.160-230 Fone: 55 85 3457.5300
AnaPatrícia Morales Vilha, UFABC, SP, Brasil E-mail: revistagestaoemanalise@[Link]
Ana Shirley França Moraes, ESTÁCIO, RJ, Brasil
Ahmad Etebari, University of New Hampshire, USA Acesso online / online access
Beatriz Elena Plata, UCES, Argentina Portal de Revistas Unichristus
Cláudia de Salles Stadtlober, UNISINOS, RS, Brasil <[Link]
Cláudia Terezinha Kniess, UNINOVE, SP, Brasil
Cristela Maia Bairrada, Universidade de Coimbra, Portugal Indexadores / Indexing
Diogo Z. Manenti, Fac. Fátima, RS, Brasil DOAJ – Directory of Open Access Journals <[Link]>
Evandro Luiz Echeverria, UNIC, MS, Brasil EBSCO – EBSCO’s research collections
Fábio Chaves Nobre, URFESA, RN, Brasil <[Link]>
Fábio Ytoshi Shibao, UNINOVE, SP, Brasil Google Scholar - Google Acadêmico <https://
Felipe Zambaldi, FGV-EAESP, SP, Brasil [Link]>
Filipe J. Fernandes Coelho, Universidade de Coimbra, Portugal QUALIS – CAPES <[Link]
Flávio Luiz M. Barboza, UFU, MG, Brasil REDIB - Red Iberoamericana de Innovación y
Francisca Íris Cavalcante Costa, SINE|IDT, CE, Brasil Conocimiento Científico <http:[Link]>
Francisco Roberto Pinto, UECE, CE, Brasil SUMÁ[Link] - sumários de revistas
Gelso Pedrosi Filho, UFRR, RR, Brasil brasileiras <[Link]
Helano Diógenes Pinheiro, UESPI, PI, Brasil
Henrique Jorge A. Holanda, UERN, RN, Brasil Diretórios / Directories
Ismael Rocha Junior, UNIFESP, SP, Brasil CiteFactor - < [Link]
Jesuína Maria Pereira Ferreira, UNIFBV, PE, Brasil Diadorim- <[Link]>
Joaquim Luís M. Alcoforado, Universidade de Coimbra, Portugal IBICT- <[Link]>
João Alexandre Lôbo Marques, USJ, Macau, China Latindex - Sistema Regional de Información en
Josep Pont Vidal, UFPA, PA, Brasil Línea para Revista Científica para a América Latina,
Kely César M. de Paiva, UFMG, MG, Brasil Caribe, Espanha e Portugal <[Link]>
Laércio de Matos Ferreira, IFCE, CE, Brasil LIVRE – Revistas de Livre Acesso
Leonel Góis Lima Oliveira, ESMEC, CE, Brasil <[Link]
Luciano Alves Nascimento, UEMG, MG , Brasil informacoes-nucleares/livre>
Luciano Maciel Ribeiro, UNISINOS, RS, Brasil Sherpa/Romeo <[Link]/romeo>
Lydia Maria Pinto Brito, UNP, RN, Brasil PKP - Public Knowledge Project <[Link]
Marcos A. M. Lima, UFC, CE, Brasil ROAD - <[Link]
Maria do Carmo Assis Todorov, Sescoop, SP, Brasil
Mário A. G. Augusto, Universidade de Coimbra, Portugal EDITORA Centro Universitário Christus –
Mauro Kreuz, ANGRAD, RJ, Brasil Unichristus Rua Vereador Paulo Mamede, 130. Cocó.
Milton Shintaku, IBICT/SEDF, DF, Brasil Fortaleza – Ceará. Brasil. Tel.: +55 (85) 3265.8100.
Roberto Luiz A. Salazar, ESMP-SUL, RS, Brasil
Rogério de Moraes Bohn, ESMP-SUL, RS, Brasil Versão Impressa / Printed Version
Rogério Tadeu de O. Lacerda, UFSC, SC, Brasil Gráfica e Editora LCR Ltda. Fone: 55 85 3105.7900
Sandeep Kumar Gupta, Sharda University, Greater Noida, India Site: [Link]
Sílvio Bitencourt da Silva, UNISINOS, RS, Brasil e-mail: atendimento01@[Link]
Taiguara de Freitas Langrafe, FECAP, SP, Brasil
Tassiara Baldissera Camatti, PUC, RS, Brasil Revista Filiada à Associação Brasileira de
Tomás M. Banegil, UNEX , Espanha Editores Científicos – ABEC.
Vicente Lima Crisóstomo, UFC, CE, Brasil
Publicação Semestral
Centro Universitário Christus - UNICHRISTUS

Journal of Management Analysis


v. 8 n. 2 maio/agosto 2019

Fortaleza

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X

R. Gest. Anál. Fortaleza v. 8 no. 2 p. 1-184 maio./ago. 2019


Revista Gestão em Análise - ReGeA
®2019 Copyright by Unichristus

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


Unichristus

Revista Gestão em Análise - ReGeA


Vol. 8, no. 2 (maio/ago. 2019) – Fortaleza: Unichristus, 2019.

Semestral

ISSN 1984-7297
e-ISSN 2359-618X

1. Administração - Periódicos. 2. Ciências Contábeis - Periódicos


I. Centro Universitário Christus - Unichristus.

CDD 658

Ficha catalográfica elaborada por Patrícia Vieira Costa. CRB 3/1341

Impressão
Gráfica e Editora LCR Ltda.
Rua Israel Bezerra, 633 - Dionísio Torres - CEP 60.135-460 - Fortaleza – Ceará
Telefone: 85 3105.7900 - Fax: 85 3272.6069
Site: [Link] – e-mail: atendimento01@[Link]
Revista Gestão em Análise - ReGeA

SUMÁRIO / CONTENTS / SUMARIO

Editorial
Francisca Íris Cavalcante Costa; Arnaldo F. Matos Coelho; Laodicéia Amorim Weersma.......7-10

Artigos / Articles / Artículos

Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas


do município do Lobito = The influence of the new Angolan tax system on the private school
management at the city of Lobito
Armando Carlos Hombo Nogueira, Luís Miguel Pacheco, Marcus Antonio Almeida Rodrigues,
João Alexandre Lobo Marques ............................................................................................... 11-30

É possível sobreviver a uma recuperação judicial? evidências em empresas listadas na


BM&FBovespa = Survival after judicial recovery? Evidence in brazilian companies listed on
the Stock Exchange
Sinara Jaroseski, Mirray Muneretto de Andrade, Alex Eckert, Graciela Bavaresco da Silva, Marlei
Salete Mecca............................................................................................................................31-45

Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBovespa


= Level of disclosure of contingent liabilities: a study of banks listed on BM & FBovespa
Camila Silva Nascimento, Jorge Alberto de Saboia Arruda ...................................................46-60

Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto =


efficiency in supplying materials in a multiproduct assembly line
Diego Quevedo Costa, Daniel Hank Miri, Cassiane Chais, Juliana Matte, Paula Patrícia Ganzer,
Pelayo Munhoz Olea................................................................................................................61-76

Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso = Process and
strategy as practice in decision-making: a case study
Nathalia Berger Werlang, Rosália Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto..........77-93

Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da Universidade Federal


Rural do Semiárido do Rio Grande do Norte = social representations on merit: a study with
students of the federal University of Rio Grande do Norte
Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal.....................................................94-106

Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das


consumidoras Plus Size no segmento varejista de vestuário = influence of sales promotion
strategies on consumer purchase behavior Plus Size in the clothing retail segment
Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente.......................................107-122

Análise Bibliométrica do Panorama de Publicações sobre Métodos, Modelos, Processos e


Sistemas de Gestão da Performance Organizacional = Bibliometric analysis of the publications
panorama on organizational performance methods, models, processes and systems
Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner............................................................................123-138

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, maio/ago. 2019


Revista Gestão em Análise - ReGeA

Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias = Incentive plan


implementation to sales on a retail pharmacy chain
Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige
Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez................................................................................139-148

Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal = Behavior of


consumer purchase in informal fashion markets
Rosângela Andrade Pessoa, Letícia Sousa Fialho, Zaíla Maria de Oliveira, Célio Gomes de Lima
Júnior...................................................................................................................................149-162

Casos de Ensino / Case Studies / El Estudio de Casos

Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias = Bizcool: the case of an accelerator of ideas
Gustavo Clemente Valadares, Galo Andrés Suasnavas Lamboglia, Joel Yutaka Sugano, João Paulo
Nascimento da Silva............................................................................................................163-173

Linha Editorial / Editorial Line / Línea Editorial..............................................................174-176

Instruções aos Autores / Instructions to Authors / Directrices para autores/as................177-182

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X


Editorial | Editorial 7

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p7-10.2019

EDITORIAL

A
palavra, seja ela no âmbito da literatura ou da ciência, tem o poder social de
transformar o pensamento vigente e abrir vórtices para a inovação. Esse é um
dos propósitos da Revista Gestão em Análise – ReGeA (Qualis B3), a qual está
inserida em um cenário que tende ao silenciamento da palavra e sua reflexão crítica.
Tal argumentação é traduzida pelo fato de que, atualmente, confrontamo-nos com certa
fragilização das instituições e, por vezes, até com o uso equivocado da palavra, o que
nos leva a supor que algumas instituições não habitam o mesmo lugar na coletividade,
infringindo o princípio da horizontalidade, quando deveriam proporcionar a igualdade e
o bem-estar social.
A palavra, em seu papel político-social, deve apresentar-se com clareza pelos for-
madores de opinião e pelos que representam os anseios da cidadania. Corroborando essa
reflexão, advinda de nossa experiência no universo literário, a expressividade e o alcance
dos artigos da ReGeA apresentam um contexto econômico em movimento com direção
necessária para a sobrevivência no mercado: a inovação e a exploração das possibilida-
des de um mundo cada vez mais tecnológico e mutante.
Vozes que se insurgem em caráter experimental, em uma economia em situação de
vulnerabilidade, com baixos níveis de fomentos públicos, muitas vezes se redesenham
em experiências exitosas, como apresentado no trabalho “Bizcool: o caso de uma acele-
radora de ideias”.
Pela perspectiva do jornalista e escritor Adauto Novaes: Os intelectuais precisam
aproveitar essa situação para apontar algo novo. Esse é o papel fundamental deles. Pri-
meiro, é preciso identificar e, em seguida, colaborar na construção de outro caminho
(Ciclo de Conferência – 2005: O silêncio dos intelectuais). Passados alguns anos, re-
conhecemos a assertividade dessa análise e o quanto a nossa classe de intelectuais das
letras ou da ciência avançou e continua avançando de forma a contribuir para um planeta
inclusivo, sustentável e, economicamente, viável.
Convidamos, então, os pesquisadores, os docentes, os discentes e os demais inte-
ressados para a leitura desta edição, que é composta por dez artigos inéditos e um caso de
ensino. A edição se inicia com um trabalho proveniente de um afazer colaborativo entre
pesquisadores de universidades da China, de Angola e do Brasil, que trata do impacto
dos impostos no desempenho das escolas privadas. Um tema muito pertinente em vista
das recentes alterações na estrutura de impostos de Angola e a severa crise econômica
e financeira que o país atravessa, o que faz que o Estado estabeleça medidas que visem
contribuir para o aumento das receitas públicas, sendo o sistema fiscal uma das áreas
estratégicas.
A edição chega a seu final com o caso de ensino que visa estimular a discussão e a
tomada de decisão acerca de modelo de negócios, notadamente, mediante o entendimento
do modelo da Bizcool, uma aceleradora de startups inovadora, que utiliza a metodologia
de compartilhamento do conhecimento para ampliar e acelerar os negócios das empresas
clientes.

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 7-10, maio/ago. 2019
8 Editorial | Editorial

Ademais, agradecemos o apoio ao nosso trabalho e desejamos uma leitura provei-


tosa e significativa, alinhada ao contínuo da Ciência e da Ética.

Francisca Íris Cavalcante Costa


Instituto de Desenvolvimento do Trabalho - IDT
Finalista - 60º Prêmio Jabuti em 2018
Editora Convidada – ReGeA | Edição 2019-2

Arnaldo Fernandes Matos Coelho | Laodicéia Amorim Weersma


Editores da Revista Gestão em Análise – ReGea

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 7-10, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Editorial | Editorial 9

EDITORIAL

T
he word, whether within the scope of literature or science, has the social power
to transform current thinking and open vortices for innovation. This is one of the
purposes of Journal of Management Analysis - ReGeA (Qualis B3), which is inser-
ted in a scenario that tends to silence the word and its critical reflection. This argument
is translated by the fact that these days we´re confronted with a certain weakening of
institutions and sometimes even with the misuse of the word, which leads us to suppose
that some institutions do not share the same place in community, infringing the principle
of horizontality, instead of providing equality and social welfare.
The word, in its political and social role, must be clearly presented by the opinion
makers and those who represent the yearnings of citizenship. Corroborating this reflec-
tion, based on our experience in the literary universe, the expressiveness and scope of
ReGeA articles present a moving economic context leading to the necessity for market
survival: innovation and exploration of the possibilities of an increasingly technological
and mutant world.
Voices that are emerging on an experimental basis, in a vulnerable economy with
low levels of public funding, often redesign themselves into successful experiences, as
presented in the work “Bizcool: The case of an accelerator of ideas”.
From the perspective of journalist and writer Adauto Novaes: Intellectuals need
to take advantage of this situation to point out something new. That is their fundamen-
tal role. First they need to identify and after that collaborate in constructing a new way
(Conference Cycle of 2005: The Silence of Intellectuals). Some years have passed since
then and we recognize the assertiveness of this analysis and how much the class of in-
tellectuals of literature and science has advanced and continues to advance in order to
contribute to an inclusive, sustainable and economically viable planet.
We invite researchers, teachers, students and other interested parties to read this
edition which is composed of ten unpublished articles and one case study. The issue be-
gins with an article presenting the results from a collaborative work among researchers
from universities in China, Angola and Brazil, addressing the impact of taxes on private
schools performance. A very pertinent subject, especially regarding the recent changes in
the tax structure of Angola and the severe economic and financial crisis that the country
is going through, forcing the Government to establish measures that aim to contribute to
the increase of public revenues, being the fiscal system one of the strategic areas.
The edition comes to an end presenting a case study that aims to stimulate the dis-
cussion and decision making about business models, notably by understanding the model
of Bizcool, an innovative startup accelerator, which uses the methodology of knowledge
sharing to expand and accelerate the business of client companies.

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 7-10, maio/ago. 2019
10 Editorial | Editorial

Finally, we appreciate the support to our work and wish you a useful and meaning-
ful reading, aligned with the continuum of Science and Ethics.

Francisca Íris Cavalcante Costa


Instituto de Desenvolvimento do Trabalho - IDT
Finalist - 60º Prêmio Jabuti in 2018
Guest Editor – ReGeA | Edition 2019-2

Arnaldo Fernandes Matos Coelho | Laodicéia Amorim Weersma


Editors of the Journal Management in Analysis – ReGeA

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 7-10, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Armando Carlos Hombo Nogueira, Luís Miguel Pacheco, Marcus Antonio Almeida Rodrigues, João Alexandre Lobo Marques 11

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p11-30.2019

ARTIGOS

INFLUÊNCIA DA NOVA ESTRUTURA FISCAL DE


IMPOSTOS DE ANGOLA NA GESTÃO DE ESCO-
LAS PRIVADAS DO MUNICÍPIO DO LOBITO

THE INFLUENCE OF THE NEW ANGOLAN TAX


Armando Carlos Hombo Nogueira
SYSTEM ON THE PRIVATE SCHOOL MANAGE-
armandonogueira1981@ MENT AT THE CITY OF LOBITO
[Link]
Mestre em Finanças pela
RESUMO
Universidade Porrucalense.
Docente com a categoria
de assistente estagiário da O impacto dos impostos no desempenho das escolas privadas é um
Universidade Katyavala Bwila tema muito pertinente em vista das recentes alterações na estrutu-
de Angola. ra de impostos de Angola e a severa crise econômica e financeira
Luís Miguel Pacheco
que o país atravessa, o que faz que o Estado estabeleça medidas
luisp@[Link] que visem contribuir para o aumento das receitas públicas, sendo o
PhD em Economia pela sistema fiscal uma das áreas estratégicas. O presente trabalho tem
Universidade Técnica de como objetivo avaliar a influência dos impostos na gestão de escolas
Lisboa. Mestre em Monetary
privadas no Município do Lobito, em Angola, de forma a compre-
and Financial Economics.
Professor Universitário desde ender o impacto dos impostos e as obrigações fiscais nas decisões
1994 em cursos de Graduação, de gestão, bem como a influência decorrente do atual regime fiscal
Pós-graduação e Mestrado em e as exigências tributárias. Por meio da revisão bibliográfica, pre-
Finanças e Economia. tende-se fornecer informação e conteúdos referentes à informação
Marcus Antonio Almeida
contabilística e o seu papel na gestão empresarial, além de abordar a
Rodrigues complementaridade entre a contabilidade, a fiscalidade e a gestão. A
[Link]@ temática da gestão fiscal é abordada com realce para o sistema fiscal
[Link] angolano. Relativamente ao tipo de atividade em estudo, apresenta-
Mestre em Ciências da
-se uma abordagem sobre a realidade atual do país, destacando-se a
Computação pela UFRJ-Brasil.
Graduado em Ciências da importância das escolas privadas como principal parceiro do estado
Computação pela UFC. Diretor na luta do analfabetismo e na redução de crianças fora do sistema de
de Operações do Instituto Alto ensino e analisando as vantagens e as desvantagens de tal parceria.
Desempenho no Brasil. No estudo empírico, realiza-se um diagnóstico relativo ao tema em
João Alexandre Lobo Marques
estudo por meio de questionários enviados a trinta e quatro escolas
[Link]@[Link] privadas do Município do Lobito, o que se permite chegar à con-
PhD em Engenharia. Professor clusão de que os impostos influenciam, positivamente, a gestão das
Associado da University of Saint escolas privadas, incentivando a organização e a melhoria do con-
Joseph e da Universidade da
trolo interno, e de que os gestores têm certo domínio da legislação
Academia Chinesa de Ciências.
Coordenador do Bachelor fiscal, procurando entidades que os apoiem quando surgem dúvidas.
of Business Administratio/ Recomentações são propostas tanto para as entidades empresariais
USJ. Desenvolve pesquisa quanto para a estrutura fiscal do país, visando auxiliar nos desafios
em diversos países e coordena que surgem com a implantação da nova estrutura fiscal de Angola.
um projeto multi institucional
de Neurociências aplicada a
Educação e Gestão envolvendo Palavras-chave: Impostos. Gestão fiscal. Complementaridade
Brasil, EUA, Angola e China obrigatória. Escolas privadas. Legislação fiscal.

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 11-30, maio/ago. 2019
12 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO

The impact of taxes on private schools perfor- A influência dos impostos na gestão das
mance is a very pertinent subject, especially escolas privadas em Angola é um tema muito
now that the country is facing an economic and pertinente e de extrema importância para os
financial crisis, and the Government is search- gestores, os contabilistas, os auditores, os eco-
ing for ways to increase public incomings, the nomistas e a administração fiscal (Estado), vis-
fiscal system has been one of the strategic ar- to que os impostos são elementos intrusivos,
eas. The objective of this work is to evaluate com os quais as empresas devem contar, que
the influence of taxes on private schools man- afetam as suas transações e, consequentemente,
agement in Lobito Municipality, in Angola, in a tomada de decisões. São custos que as empre-
order to understand the impact of taxes and sas suportam durante o exercício econômico e
fiscal obligations in management decisions, as requerem um tratamento especial de maneira a
well as the influence of the current fiscal re- não incorrer em multas e penalizações.
gime and tributary obligations. The literature Em um atual contexto de crise econó-
review aimed at providing information and mica e financeira, o Estado angolano procura
contents related to accounting information and direcionar as atenções ao sistema fiscal de uma
its role in business management in this century. forma especial, pois será possível aumentar as
It also shows theoretically a compulsory com- receitas públicas por intermédio dos impostos,
plementarity between accounting, taxation and visto que eles constituem uma das maiores e
management. The subject of fiscal management mais seguras fontes de receitas para o país.
is deeply discussed and is preceded by sever- Vive-se em Angola, desde o ano de
al concepts about taxation and fiscal system, 2015, uma época de escassos recursos para in-
highlighting Angolan fiscal system. The con- vestimentos, o que faz que cada gestor procu-
tent of this study is about presenting the real- re minimizar os custos e, consequentemente, o
ity of Angola and it highlights the importance impacto da carga de impostos torna-se cada vez
of private schools as the main partners of the mais significativo. Diferentemente de alguns
Government in the fighting against illiteracy anos atrás, o mercado angolano conta hoje com
and reduction of children out of the educational uma concorrência elevada, em alguns setores
system, analyzing the advantages of that part- de atividade e particularmente no setor privado
nership. A diagnosis related to the subject at da educação, em que o número de escolas pri-
study was done in an empirical study through vadas cresceu de forma significativa na última
questionnaire sent to thirty four private schools década. Essa realidade desencadeia situações
of Lobito Municipality, it allows us to reach the de impacto fiscal, financeiro e contabilístico,
conclusion that taxes affect positively private desde a tributação das receitas, o reconheci-
schools management, encouraging and improv- mento dos custos e as várias especificidades
ing organization internal control, and managers que são de interesse geral o seu estudo.
possess some knowledge on the fiscal legis- Ao efetuar uma pesquisa científica sobre
lation, trying to obtain external support when a influência dos impostos na gestão de escolas
needed. Recommendations are also proposed to privadas no Munícipio do Lobito, tem-se em
private the companies and to the Government consideração que existe a possibilidade de se
fiscal institutions, with the aim of helping the organizar a informação contabilístico-financei-
creation of the new fiscal structure in Angola. ra, gerir os atos patrimoniais de modo a que se
consiga otimizar a carga fiscal, porém de forma
Keywords: Taxes. Fiscal management. Com- legalmente aceita em Angola.
plementarity obligation. Private schools. Fiscal Angola saiu de uma situação de guerra
legislation. civil, que perdurou desde logo após sua inde-

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 11-30, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Armando Carlos Hombo Nogueira, Luís Miguel Pacheco, Marcus Antonio Almeida Rodrigues, João Alexandre Lobo Marques 13

pendência de Portugal, em 1975, até o ano de vez mais acentuada no país, as escolas privadas
2002, quando foi assinado o acordo de paz. A surgem como principal parceiro do Estado na
situação social no país, como se pode esperar luta para a redução do número de crianças e jo-
após 30 anos de conflitos internos, era crítica vens fora do sistema de ensino.
(UNOCHA, 2002). Havia a necessidade de Aliado a isso, existe um esforço por par-
restruturação nas mais diversas áreas, desde o te do Estado e também da iniciativa privada em
governo até as instituições privadas. impulsionar o investimento para alavancar a re-
Com isso, a estrutura fiscal do país, construção nacional, após a guerra civil acima
bem como a adequação das empresas a esta mencionada.
tiveram que ser recriadas e reestabelecidas Verifica-se, em Angola, um tempo em
nos anos subsequentes, o que levou a desafios que os empresários e gestores procuram as exi-
tanto em nível de estruturação das instituições gências atuais e são obrigados por elas a pau-
governamentais na área fiscal, quanto em nível tar pela excelência na gestão, adquirindo uma
das empresas, que foram criadas com uma falta reputação e imagem capazes de manter e con-
de controle fiscal. quistar a sua quota de mercado. Pode-se, ainda,
No período de guerra civil citado, da verificar um elevado volume de informação não
mesma forma, as instituições de ensino uni- dominada por aqueles que manuseiam a conta-
versitárias foram extremamente prejudicadas, bilidade e tomam decisões nas empresas, bem
levando a, praticamente, uma concentração como por aqueles que devem prestar contas
no nível de ensino superior básico, deixando a relativas à atividade desenvolvida, constituin-
pesquisa e a extensão paralizadas (CAVAZZI- do-se como uma razão positiva para a elabora-
NI, 2012). ção deste estudo, quer para a classe acadêmica,
Com esse panorama, existe uma grande quer para os profissionais ligados às matérias
lacuna na investigação científica focada nos ce- em estudo e até para o próprio Estado como
nários de Angola e, somente nos últimos anos, sujeito ativo e detentor do Poder Legislativo e
é que sua comunidade acadêmica iniciou di- da autonomia para fiscalizar e multar os incum-
versos projetos de investigação científica em pridores. Não menos importante, importa dizer
diferentes vertentes como gestão, economia, que, desde cedo, a problemática do tratamento
engenharia e saúde. do tributo despertou interesse de estudo, princi-
Ressalta-se, em face do exposto, não te- palmente porque envolve várias áreas de estu-
rem sido encontradas, na literatura científica, do, desde a contabilidade, a gestão empresarial,
as investigações com foco na nova legislação a economia, ou seja, um conjunto de discipli-
fiscal angolana, aplicada para instituições de nas que se associam para tratar desta matéria.
ensino educacional básico, sendo o presente Trata-se de uma questão moral, bem como de
trabalho uma publicação pioneira, com o ob- um cumprimento à obrigação legal por parte
jetivo principal de investigar de que forma os dos contribuintes, mas, ao mesmo tempo, pode
impostos influenciam as decisões dos gestores originar falência em casos de má gestão e pro-
de escolas privadas, tendo como foco um estu- vocar iliquidez para a empresa.
do de caso realizado no Município do Lobito, Para o alcance do objetivo proposto,
em Angola. utilizaram-se métodos de investigação empí-
Com isso, o artigo tem como objeto de in- ricos (inquérito) e teóricos (análise de docu-
vestigação os impostos e as obrigações fiscais e, mentação e recolha de dados). A obtenção de
como campo de ação, as informações contabilís- dados foi feita por meio da amostragem alea-
ticas e fiscais de algumas das escolas avaliadas. tória simples, ou seja, do universo de 35 esco-
A realização do presente estudo, em An- las privadas existentes no município do Lobito
gola, é de extrema relevância, uma vez que, em (população) foram selecionadas, de forma ale-
um momento em que a crise econômica é cada atória, 34 escolas.

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14 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

O presente estudo encontra-se organi- presas, sendo, reconhecidamente, uma fonte de


zado em mais três seções: na seção 2, faz-se a geração de valor. O desempenho empresarial
apresentação e abordagem dos principais con- passa cada vez mais, também, pela eficácia e
ceitos teóricos resultantes da revisão de literatu- eficiência da gestão fiscal.
ra relativos à gestão empresarial, contabilidade De acordo com a mesma autora, os ges-
e fiscalidade/gestão fiscal e ainda concernente tores têm um papel a desempenhar que consiste
à complementaridade obrigatória desses ramos, em procurar as soluções fiscais mais vantajo-
com uma descrição detalhada da situação das sas para a empresa. Uma boa gestão comercial,
escolas privadas em Angola e, mais especifica- financeira e fiscal implica, necessariamente, o
mente, na província de Benguela; na seção 3, a dever de utilizar todas as medidas disponíveis
metodologia utilizada é apresentada; em segui- com vista ao máximo lucro, nem que seja por
da, na seção 4, estão apresentados os resultados meio da poupança fiscal.
e as respectivas discussões referentes ao estudo Um interessante estudo foi realizado por
empírico realizado e uma abordagem compa- (GASIOR et al., 2018) ao avaliar o efeito das
rativa, avaliativa e metodológica; por fim, na políticas públicas relacionadas a impostos e be-
seção 5, são apresentadas as conclusões, um nefícios em seis países africanos, mais especi-
conjunto de recomendações tanto para as insti- ficamente Etiópia, Gana, Moçambique, África
tuições privadas de ensino, quanto para a estru- do Sul, Tanzânia e Zâmbia, nos quais foram
tura governamental fiscal angolana. realizadas microssimulações de cenários, ava-
liando o suporte realizado a diferentes subgru-
2 REVISÃO DE LITERATURA pos populacionais. Este estudo pode ser de im-
portante relevância para o recente sistema fiscal
2.1 A GESTÃO FISCAL COMO PAR- angolano.
TE INTEGRANTE DA GESTÃO
DE EMPRESAS 2.1.2 Planeamento fiscal

2.1.1 Conceito de gestão fiscal Segundo Azevedo (2011), o planeamen-


to fiscal é entendido como um estudo e uma im-
A gestão fiscal consiste na ativida- plementação de opções lícitas a serem tomadas
de que, em face de um determinado pelo sujeito passivo potencial da relação jurí-
objetivo, analisa de forma crítica e dica tributária, no que tange a evitar a ocorrên-
comparativa os meios disponíveis e cia de eventos que o coloquem na posição de
o seu tratamento fiscal, com vista à sujeito passivo (pagar imposto) ou não sendo
identificação das opções disponíveis possível evitá-los, deve-se reduzir o seu impac-
e à escolha da mais adequada, segun- to econômico.
do uma lógica de maximização da
eficiência fiscal (SEQUEIRA, 2016, O planeamento fiscal é uma poupança
p. 31). fiscal em que o contribuinte procura
aproveitar o conhecimento das leis
A gestão fiscal “consiste no estudo e para concretizar as soluções que lhe
planeamento do acesso aos benefícios fiscais e são mais favoráveis. Este conjunto
incentivos financeiros e no uso de alternativas de comportamento dos sujeitos tri-
fiscais, permitida pela lei, de modo a que sejam butários é orientado por um quadro
prosseguidos os objetivos da empresa.” (AZE- de licitudes, validade e conformida-
VEDO, 2011, p. 2). de com a lei e tem por objetivo um
De acordo com Fernandes (2013, p. 6), a resultado de eliminação, redução ou
diferimento tributário (AZEVEDO,
gestão e o planeamento fiscal revelam-se como
2011, p. 15).
elementos essenciais na gestão global das em-

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Segundo Sequeira (2016), o planeamen- 2.2 SISTEMA FISCAL ANGOLANO


to fiscal ou tributário é a análise do conjunto de E GARANTIAS DOS CONTRI-
atividades atuais ou dos projetos de atividades BUINTES
econômico-financeiras do contribuinte (pessoa
física ou jurídica), em relação a seu conjunto de O sistema fiscal constitui um dos meios
obrigações fiscais com o escopo de organizar para assegurar o desenvolvimento do aparelho
as suas finanças, os seus bens, negócios, ren- de Estado. Em outubro de 2014, a Assembleia
dimentos e as demais atividades com repercus- da República de Angola aprovou o novo Regi-
sões tributárias, de modo a que venham sofrer me Tributário, com a criação de novos impos-
o menor ônus fiscal possível. tos e a reestruturação da estrutura existente.
O planeamento fiscal “é a atividade de- Destaque pode ser dado para o Imposto
senvolvida pelo administrador em caráter pre- sobre o Rendimento do Trabalho (IRT); o Im-
ventivo, com o objetivo de conhecer, entre as posto Industrial (II), que representa o imposto
opções legais existentes, qual a que traz o me- sobre o rendimento das empresas; o Imposto
nor ônus tributário para a empresa.” (SEQUEI- sobre Aplicação de Capitais (IAC), referente
RA, 2016, p. 55). a remunerações do capital (juros, dividendos e
Segundo Vasco (2015), qualquer decisão outros rendimentos) e o Imposto de Consumo
empresarial tem sempre implicações fiscais. A (IC), que incide sobre a produção e as ativida-
fiscalidade afeta a poupança das empresas (au- des de importação.
tofinanciamento), na medida em que influencia
os fluxos financeiros, reduz os cash-flows dis- 2.2.1 Princípios gerais e garantias dos
poníveis para aplicação e condiciona as deci- contribuintes
sões de investimento.
Segundo Martinez (2002), procurar for- No contexto angolano, estão fundamen-
mas lícitas para reduzir o pagamento de tributos talmente inscritos na Constituição os seguintes
e, ao mesmo tempo, estar atento às mudanças princípios gerais relativos aos impostos.
da legislação é uma necessidade imprescindí-
vel para a maximização dos lucros das empre-
[Link] Princípio da função econômica e
sas, para a manutenção dos negócios e para me-
lhorar os níveis de emprego. social do fisco
As empresas de média e grande di-
mensão são as que, normalmente, efetuam O sistema fiscal, de acordo com o artigo
planejamento fiscal recorrendo a serviços de 101° da Constituição da República de Angola
profissionais especializados, como consulto- (CRA, 2010), visa à satisfação das necessida-
res e gestores fiscais. Refira-se que, é lícito às des financeiras do Estado e outras entidades
empresas e aos contribuintes, efetuar o plane- públicas, assegurando a realização da política
amento fiscal e aproveitar os conhecimentos econômica e social do Estado e a proceder a
das leis para pagarem menos impostos (SAN- uma repartição justa dos rendimentos e da ri-
CHES; GAMA, 2010). queza nacional.
De acordo com Fernandes (2013), exis-
tem diferentes vias de atuação que permitem ao [Link] Princípio da legalidade fiscal
contribuinte obter uma diminuição de sua carga
fiscal: Intra Legem (planeamento fiscal legíti- De acordo com o artigo 102° da CRA, os
mo), Extra Legem (planeamento fiscal abusivo impostos só podem ser criados por lei, que deter-
ou elisivo) e Contra Legem (planeamento fiscal mina a sua incidência, taxas, benefícios fiscais
ilícito ou fraude). e garantias dos contribuintes. No Código Geral
Tributário, serão, obrigatoriamente, determina-

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16 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

das por lei a incidência, as isenções e as taxas de Vasco (2015, p. 37) afirma que “o
cada imposto, bem como as formas processuais exercício fiscal em Angola coincide com o
de atacar a ilegalidade dos atos tributários (artº. ano fiscal que compreende o período de 1º
4°. do CGT) (CRA, 2010; CGT, 2014). de janeiro a 31 de dezembro [...]”.
Segundo Vasco (2015), a Segurança
[Link] Princípio da igualdade dos cida- Social, a entrega da folha de remuneração
dãos perante a lei e da não discri- e o pagamento das contribuições ao Estado
minação têm de ser feitos até ao dia 12 do mês se-
guinte ao do processamento da remunera-
À luz do artigo 23°. da CRA, todos os
cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos ção. Em relação aos outros impostos.
mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos a) Imposto sobre Rendimento do Tra-
deveres, sem distinção de sua cor, raça, etnia, balho (IRT): até ao último dia útil do
sexo, lugar de nascimento, religião, ideologia, mês, apresentação do Documento de
grau de instrução, condição econômica ou so- Liquidação de Imposto (DLI) e paga-
cial (CRA, 2010). mento do imposto retido na fonte no
mês anterior;
b) Imposto de Consumo: até o último dia
[Link] Princípio da estabilidade do fisco
útil do mês, apresentação do Documen-
to de Liquidação de Imposto (DLI) e
A definição do sistema fiscal e a criação
pagamento do imposto relativo ao vo-
de impostos são da competência da Assembleia
lume de operações do mês anterior;
Nacional, podendo, igualmente, ser o do Chefe
c) Imposto de Selo: até o último dia útil
do Executivo desde que autorizado por lei pas-
do mês, apresentação do Documento
sada por aquela. Os deputados e os grupos par-
de Liquidação de Imposto (DLI) e
lamentares não podem apresentar projetos de
pagamento do imposto relativo aos
lei que envolvem, no ano econômico em curso,
recebimentos efetivos de vendas do
aumento das despesas ou diminuição das recei-
mês anterior;
tas do Estado fixadas no orçamento.
d) Imposto Industrial: nos meses de ju-
lho e agosto, apresentação do DLI e
[Link] Princípio da não retroatividade da pagamento do imposto relativo à li-
lei fiscal quidação provisória referente a 2%
das vendas do 1º semestre do exercí-
As normas tributárias só dispõem para cio em referência, para os contribuin-
o futuro e nos termos regulados pela constitui- tes dos grupos B e A, respetivamente.
ção da República de Angola (artº. 8°. do CGT) A liquidação definitiva desse imposto
(CGT, 2014). está reservada para os meses de abril e
maio do ano seguinte a que o imposto
[Link] Princípio da territorialidade da lei diz respeito, para os contribuintes dos
fiscal Grupos B e A, respetivamente;
e) Imposto Predial Urbano: até o dia 31
As normas tributárias aplicam-se ape- de janeiro, apresentação da declaração
nas a fatos tributários ocorridos em território modelo 5, dos prédios não arrendados
nacional, salvo disposição legal em sentido e da declaração modelo 1 relativa às
contrário e sem prejuízo do direito interna- rendas recebidas no ano transato e pa-
cional a que o Estado angolano esteja vincu- gamento do imposto respetivo.
lado (artº. 9°. do CGT) (CGT, 2014).

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2.3 A INFLUÊNCIA DOS IMPOSTOS base de cálculo, redução de alíquota,


NA GESTÃO EMPRESARIAL abatimentos e deduções, crédito pre-
sumido, entre outros;
Segundo Nabais (2011), os indivíduos c) redução dos gastos tributários,via
ligados à gestão empresarial devem, além de mecanismos simplificados de apura-
dominar procedimentos de gestão e recursos hu- ção do tributo;
manos, ter bases de interpretação da informação d) postergação da extinção do crédito
contabilística, bem como de legislação fiscal vi- tributário, via diferimento e suspen-
gente em sua área fiscal. A complementaridade são do pagamento do tributo.
entre gestão, contabilidade e fiscalidade implica A realidade mundial demonstra que a
a necessidade de os empresários e os gestores questão do tributo (imposto) é muito discutida,
dominarem conceitos básicos de todas. relevando o seu impacto na gestão e, muitas
Ainda segundo Nabais (2011), adminis- vezes, na maximização dos resultados ou ainda
tração fiscal, por outro lado, como um dos prin- maximização dos prejuízos, alguns procurando
cipais interessados na informação contabilística, contornar a Lei Fiscal de forma a obter bene-
a fim de obter dados que lhe possibilitem cobrar fícios próprios (Elisão Fiscal), outros tentan-
os diversos impostos, não se limita apenas à li- do evadir-se ou fugir à Lei (evasão ou fraude
quidação e à cobrança dos impostos, procedendo fiscal). Esses caminhos devem ser desencora-
em seu papel como fiscal a análise e a verifica- jados, assegurando-se a expansão do conheci-
ção das contas, em busca de erros ou mesmo mento das vantagens que se pode obter com os
possíveis atos de fraude fiscal. É por isso impor- procedimentos legais.
tante que, na preparação da informação conta-
bilística (demonstrações financeiras e relatórios 2.3.1 Procedimentos de gestão fiscal para
de gestão), tenham-se em conta as perspectivas escolas privadas
financeira, fiscal e de gestão, agregando em si
dados claros e concisos sobre tais abordagens. Segundo Gonçalves (2011), os proce-
A relação entre gestores e impostos é po- dimentos para a gestão fiscal são genéricos,
pularmente considerada como adversativa. A ou seja, são aplicáveis à maioria dos ramos
primeira resposta que se obteria ao se pergun- de atividade e também são válidos para o
tar a qualquer gestor sobre o que poderia fazer
ramo da educação privada, destacando-se al-
em relação aos impostos, caso tal oportunidade
guns que são relevantes. Nessa senda, o primeiro
lhe fosse concedida, seria, certamente, eliminá-
procedimento de gestão fiscal realiza-se na cons-
-los ou baixá-los para a mínima taxa possível.
tituição da empresa (GONÇALVES, 2011).
Mas essa é uma afirmação baseada em senso
Em Angola, na constituição da empresa,
comum, porque se acredita que muitos gestores
é necessário definir o objeto social e o setor de
e empresários têm noção da importância dos
atividade, em função da especificidade e, no
impostos para o desenvolvimento do país e,
caso particular, do nosso país, a ANIP (Agência
consequentemente, de seus próprios negócios.
Nacional para o Investimento Privado) estabe-
Ferreira e Duarte (2005) detalham, em
lece prioridades de incentivos (Lei dos Incen-
seu artigo, a importância da gestão fiscal ou
tivos Fiscais e Aduaneiros). A lei estabelece
planeamento tributário e apontam quatro ca-
prioridade de incentivos por zonas de desenvol-
minhos legais para alcançar a otimização dos
vimento estratégicas, sendo maiores em zonas
gastos tributários.
cuja necessidade de investimento se sente com
a) afastamento da incidência do tributo
maior impacto.
via imunidade ou não incidência;
Outro procedimento consiste na necessi-
b) redução, total ou parcial, do crédito
dade de conhecer os impostos a que a empresa
tributário, via isenção, redução de
ficará sujeita, quer sejam tributados sobre a em-

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18 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

presa, quer por simples retenção na fonte (pelos capaz de conciliar o crescimento sustentável da
clientes aos fornecedores de serviços). A aná- riqueza nacional, com a sua distribuição mais
lise de cada operação e do seu impacto fiscal justa e melhoria dos serviços públicos essen-
antes de sua ocorrência exige conhecimento e ciais ao bem-estar das populações.
domínio da própria Legislação Fiscal (GON- O setor privado exerce uma função fun-
ÇALVES, 2011). damental na economia de um país, na conces-
Ainda segundo o mesmo autor, um ter- são de empregos, na oferta de bens e serviços
ceiro procedimento resume-se na organização e contribui para a resolução de problemas so-
de todos os documentos afeitos às operações, ciais, tendo um lugar essencial na formação e
independentemente do valor monetário que tal no desenvolvimento de mercados inclusivos.
documento agregue. O mau tratamento dos do- Além de fomentar o crescimento econômico e a
cumentos pode levar a interpretações erradas na redução da pobreza, representa um papel muito
contabilização e pôr em causa a fiabilidade da relevante para o bem-estar social.
informação. Na realidade, gestão fiscal ou pla- O Governo de Angola tem apostado se-
neamento fiscal resumem-se na avaliação ante- riamente na educação e na formação de seus
cipada do fato gerador do tributo e na verificaçãocidadãos. Tal fato cria sinergias entre empreen-
da possibilidade de redução da carga fiscal antes dedores particulares, e o governo intituciona-
da ocorrência do fato gerador. Esses possíveis lizou o ensino particular em Angola pela Lei
procedimentos, ou qualquer outro que se apre- nº 18/91 de 18 de maio, acabando, assim, com
sente, baseiam-se nessa avaliação antecipada. a exclusividade do Estado no setor da educa-
ção e criando uma economia de custos. Pelo
2.4 INVESTIMENTO DO ESTADO Decreto 21/91, de 22 junho, surge o primeiro
NO ENSINO PRIVADO E SUA regulamento para a abertura e o funcionamento
CONTRIBUIÇÃO PARA O PAÍS de estabelecimentos de ensino particular não
superior (ANEP, 2014).
Nenhum Estado, quer tenha caracte- Passaram-se mais de 25 anos desde a li-
rísticas de país subdesenvolvido, quer em de- beralização do mercado de ensino particular e,
senvolvimento, poderá sair desse estágio se a sequencialmente, o surgimento das primeiras
educação do homem não for atenciosamente escolas privadas no país. O ensino particular em
cuidada. Para tal, institucionalizam-se sistemas Angola ganhou muita credibilidade, tendo pas-
educativos, uns com cunhos excessivamente sado de alternativa à opção. Nos anos noventa
estatais, outros marcadamente privados e, em do século passado, o ensino particular era apenas
outros, a coexistência de ambos sob a orienta- uma alternativa, porque o país vivia períodos de
ção do Estado. greve no ensino e, então, os colégios eram vistos
Segundo o relatório econômico do ano como uma boa alternativa. Depois da década de
2016, a economia de Angola está assente no 2000, o quadro inverteu-se, porque os colégios
petróleo, e o setor petrolífero continua a repre- propuseram-se à mudança e passaram de alter-
sentar mais de 50% do Produto Interno Bruto nativa à opção. Atualmente, os estabelecimentos
(PIB) nacional. O crescimento da economia particulares de ensino concorrem entre si com as
não petrolífera tem sido, cada vez mais, ex- escolas estrangeiras existentes em Angola e, ob-
pressivo, confirmando que o setor empresarial viamente, com o próprio Estado.
privado passou a exercer um papel a cada dia Esses colégios passaram a ser impulsio-
mais dinâmico no processo do desenvolvimen- nadores da qualidade e da diferença na educa-
to econômico do país (UCAN, 2017). ção, e existem muitos que passaram a receber os
Não obstante o crescimento do setor em- alunos da elite em Angola, o que trouxe alguma
presarial privado, cabe ao Estado o papel basi- confiança ao sistema, visto que oferecem o mes-
lar na edificação de uma economia de mercado, mo nível de ensino das escolas internacionais.

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Desde 1991, tem-se verificado grande Benguela possui um clima tropical seco,
crescimento de número de escolas privadas em uma extensão territorial de 39.827 km2 e, segun-
toda a Angola. Esse aumento prova a aposta do os dados do censo populacional (RGPH) de
séria do governo angolano na educação e, em 2014, residiam na província 2.036.662 pessoas
particular, no ensino privado. O aumento des- distribuídas por 10 municípios (ver tabela nº. 3).
sas escolas contribui, seriamente, na luta pela
alfabetização e na redução do número de cida- 2.5.1 Escolas existentes na província de
dãos fora do sistema de ensino. Benguela
O investimento no ensino privado é bem
visível em quase todo o território nacional, O setor da Educação na Província de Ben-
pois existem universidades privadas, institutos guela vem conhecendo melhorias nos níveis de
superiores privados, bem como escolas com- prestação de serviços como resultado dos inves-
participadas, sendo a gestão delas conjunta, ou timentos no quadro do programa do Governo e
seja, o Estado paga salários aos professores que da contribuição dos parceiros, consubstanciados
trabalham nessas escolas e, às vezes, disponi- no aumento do número de salas, extensão da
biliza as instalações, metas e outras condições rede escolar e ingresso de novos professores.
necessárias para o processo de ensino e apren- De acordo com dados da Direção Pro-
dizagem. Apesar de os salários dos professores vincial de Educação, Ciência e Tecnologia
serem pagos pelo Estado, as instituições de en- (DPECT) de Banguela, a província conta com
sino privadas, comparticipadas, cobram propi- um universo de 1268 escolas, a educação reali-
nas simbólicas que ajudam na gestão adminis- za-se por meio de um sistema unificado, cons-
trativa da escola. tituído pelos seguintes subsistemas de ensino.
O surgimento das escolas privadas em
Angola significou a abertura de mais oportu- 2.5.2 Alunos matriculados
nidades de emprego para os jovens. Tal fato
se justifica, visto que um dos requisitos para a Segundo os dados da Direção Provincial
abertura de uma escola privada é contar com de Educação Ciências e Tecnologia de Bengue-
um quadro docente com 60% de docentes efe- la, o universo estudantil para o ensino não uni-
tivos, o que faz que as escolas privadas con- versitário na província de Benguela, no ano lec-
tribuam para a redução do número de jovens tivo de 2017, é de 847.564 alunos distribuídos,
desempregados. em 817.085 para escolas públicas e compartici-
As escolas privadas empregam muitos jo- padas e 30.479 para escolas privadas.
vens, e as contribuições fiscais feitas por diversas
escolas privadas e comparticipadas contribuem 2.5.3 Escolas privadas da província de
certamente para a economia de Angola, reduzin-
Benguela
do os custos do governo na educação do cidadão.
A província de Benguela conta com um
2.5 A EDUCAÇÃO NA PROVÍNCIA universo de 85 escolas privadas, distribuídas
DE BENGUELA em 5 (cinco) municípios, sendo 41 no muni-
cípio de Benguela, 7 no município da Catum-
A província de Benguela situa-se na re- bela, 1 (uma) no município do Cubal, 1 (uma)
gião central e oeste de Angola, e a sua capital no município da Ganda e 35 no município do
é a cidade de Benguela. Ela tem como limites Lobito. Essas escolas oferecem diversos cursos
o oceano Atlântico (a oeste), a província do em todos os níveis de ensino e contam com um
Kwanza Sul (a norte), a província do Huambo total de 834 salas de aulas, direção (Provincial
(a este), a da Huíla (a sudeste) e, por último, a de Educação Ciencias e Tecnologia de Bengue-
província do Namibe (a sul). la, 2017).

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20 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

Note-se que, relativamente ao Lobito, é 2.7 INÍCIO DA ATIVIDADE DE UMA


incluída a informação sobre o número de alu- ESCOLA PRIVADA NO MUNICÍ-
nos por escola, dado que é o município que irá PIO DO LOBITO
ser estudado a seguir. O município do Lobito
agrega, aproximadamente, 41% das salas de A província de Benguela possui direções
aula e 54% do total de alunos da província. municipais de educação, uma vez que o registo
das escolas privadas é feito apenas na direção
2.6 ESTUDO EMPÍRICO: A EDUCA- provincial. Reconhece-se, porém, que um ele-
ÇÃO NO SETOR PRIVADO NO vado número de escolas privadas não se regista
MUNICÍPIO DO LOBITO na instituição de tutela. Para exercer a ativida-
de de ensino e aprendizagem, as escolas devem
Neste capítulo, apresenta-se o resultado ter os requisitos exigidos pelo Ministério da
do estudo empírico realizado no município do Educação, passando, inicialmente, pela fase da
Lobito a algumas escolas privadas, por inter- criação e do funcionamento do estabelecimento
médio de questionários. O capítulo inicia-se de ensino privado.
com uma breve descrição do município do Lo- As escolas privadas encontraram no Lo-
bito, seguindo-se a descrição do questionário bito, como em todo o território nacional, uma
realizado, a apresentação de seus resultados e janela de oportunidade de negócio, principal-
a sua análise. mente a partir de 2002. O ramo da educação é
o setor que mais emprega, apesar de se tratar,
2.6.1 Descrição geral da cidade do Lobito maioritariamente, de contratos por tempo de-
terminado.
O Lobito é uma cidade relativamente Parte da população ativa é jovem em
jovem em relação à de Benguela e à Vila da fase de formação e encontram, na docência, um
Catumbela. O município possui 107,56 Km² e emprego para auferir algum dinheiro e conti-
encontra-se a cerca de 30 km a norte da cidade nuar com a formação acadêmica. Desse modo,
de Benguela. as escolas privadas contribuem diretamente na
Com o seu cais mineiro recentemente redução de desemprego, bem como na estabi-
ampliado e modernizado, o Porto do Lobito lidade econômica e social dos lobitangas. O
está em sintonia com os Caminhos de Ferro papel dessas empresas estende-se ainda à larga
de Lobito (CFB), facilitando o escoamento de participação nas receitas públicas por meio do
mercadorias para o interior de Angola e até pagamento de impostos.
para países limítrofes, como a República De-
mocrática do Congo e a Zâmbia, que também 3 METODOLOGIA
se servem para o escoamento de seus minérios.
Estruturas como o Porto do Lobito e o No processo de execução dos objetivos
Caminho de Ferro tornam-se uma alavanca específicos expostos, utilizaram-se métodos de
eficaz para o crescimento da rede comercial e investigação empíricos (inquérito) e teóricos
consequente desenvolvimento industrial, ao (análise de documentação e recolha de dados).
facilitar a importação e a exportação de pro-
dutos e mercadorias. Esses fatores certamente 3.1 POPULAÇÃO E AMOSTRA
colocam a cidade do Lobito em uma posição
de referência em nível nacional em termos de Para a obtenção de dados, foram envia-
desenvolvimento social e industrial. dos questionários a todo o universo de trinta e
cinco escolas privadas existentes no município
do Lobito (população), tendo sido obtidas 34
respostas completas.

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O estudo em causa é uma pesquisa de • Complexo Escolar Horizonte


caráter descritivo e explicativo. Além de ob- • Instituto Médio Politécnico Privado IMJ
servar, registrar, analisar e interpretar os dados • Complexo Escolar Isaac Newton
como um levantamento socioeconômico (des- • Complexo Escolar Joe Alex
critiva), procura, também, identificar fatores • Complexo Escolar Onilka
determinantes dessa ou daquela decisão dos • Complexo Escolar Pim Pam Pum
gestores (explicativa). • Complexo Escolar Pró Saber
• Complexo Escolar Quenha
3.2 INQUÉRITO • Complexo Escolar Renascença
• Complexo Escolar Sagrado coração de Jesus
O inquérito representa um instrumento • Complexo Escolar Sapungo
de coleta de dados constituído por uma série • Complexo Escolar Silva Madalena e Filhos
de perguntas ordenadas, que devem ser res- • Complexo Escolar Chipandeca
pondidas pelo informante sem a presença do • Complexo Escolar Chiputia
investigado. Marconi e Lakatos (2011) enqua- • Complexo Escolar Tchissola
dram o inquérito como uma técnica de obser- • Instituto Médio Politécnico Privado E.F.T.P.S
vação direta extensiva, aquela que se realiza • Complexo Escolar Vida Graça de Deus
por meio do questionário, do formulário, das • Complexo Escolar Zacarias de Castro
medidas de opinião e atitudes e das técnicas
mercadológicas. O inquérito procurou obter informações
O presente inquérito foi realizado nas sobre duas questões fundamentais:
escolas privadas do município do Lobito, após
a obtenção de dados e informações da direção a) analisar a influência que os impostos
provincial de Educação e da Administração têm nas decisões dos gestores de es-
Municipal do Lobito. Foi feita a distribuição do colas privadas e;
questionário às seguintes 35 escolas privadas, b) avaliar o domínio e os conhecimentos
ou seja, a toda a população: das políticas fiscais em vigor no nos-
so país por parte dos gestores.
• Complexo Escolar Adventista da Bela Vista
• Complexo Escolar Adventista da Santa Cruz 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
• Complexo Escolar Adventista do 7º dia
Ebenezer O município do Lobito possui um total
• Complexo Escolar Adventista do Litoral de 35 (trinta e cinco) escolas privadas, distribu-
• Complexo Escolar Arautos do Rei ídas pelos diferentes graus de ensino (primário
• Complexo Escolar Bueia e Filhos e secundário). Para o nosso estudo, apresenta-
• Complexo Escolar CEFAC -se um universo ou população de 35 (trinta e
• Complexo Escolar Chiambula cinco) escolas privadas, tendo sido distribuí-
• Complexo Escolar Chimbanda dos, ao total, 35 (trinta e cinco) questionários
• Complexo Escolar DAP às escolas privadas situadas nas diversas áreas
• Complexo Escolar Dozinha do município do Lobito, entre os quais, volta-
• Complexo Escolar Eletuluko ram devidamente preenchidos apenas 34 (trinta
• Instituto Médio Politécnico Privado Ma- e quatro) inquéritos, que constituem para este
ria Elizeth trabalho a amostra.
• Complexo Escolar Escadinha da Vida O inquérito foi constituído por 10 ques-
• Complexo Escolar Esperança e Fé tões, dirigidas às direções das escolas privadas,
• Complexo Escolar Piturca de forma a poder obter informações sobre a in-
• Complexo Escolar Gustave Eifel fluência dos impostos na gestão.

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22 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

Apresentam-se a seguir as diferentes questões colocadas, o seu objetivo e os resultados obtidos:


Pergunta nº. 1: como se caracterizam as escolas privadas no município do Lobito?
Objetivo: caracterizar a rentabilidade das escolas privadas no município do Lobito.
A maioria dos gestores considera a atividade de ensino privado rentável no município do Lo-
bito, aliciando, cada vez mais, o investimento neste ramo, conforme pode ser avaliado pela análise
dos resultados apresentados na tabela 1.

Tabela 1 - Resultados para a 1ª questão


Frequência Percentagem (%)
Muito Rentáveis 11 31%
Rentáveis 17 51%
Pouco Rentáveis 6 18%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Refere-se que um dos gestores comenta que essa é uma das razões pelas quais o Lobito é o
município com mais escolas privadas na província de Benguela. Porém, aproximadamente 18% dos
gestores consideram, por outro lado, que a atividade é pouco rentável, principalmente devido à crise
econômica, pois os encarregados de educação encontram dificuldades em pagar as propinas.
Pergunta nº. 2: qual a influência dos impostos na gestão de sua empresa?
Objetivo: conhecer a influência dos impostos na gestão de escolas privadas.
Conforme pode ser avaliado por meio da tabela 2, a maioria dos gestores considera que
os impostos, e certamente a atualização do sistema de fiscalização, incentivam a organização.
Segundo alguns gestores, obrigam a ter uma contabilidade e um controle internos rigorosos e
permitem partilhar o sucesso da empresa com o desenvolvimento do nosso país.

Tabela 2 - Resultados para a 2ª questão


Frequência Percentagem (%)
Dificulta 6 18%
Incentiva a organização 21 62%
Não influencia em nada 7 20%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Tal pensamento leva a crer que a mentalidade dos gestores de escolas privadas no município do
Lobito em relação aos impostos não é tão cética como se tem pensado por mero senso comum. Ainda as-
sim, alguns gestores consideram que os impostos dificultam a gestão principalmente porque temos muitos
impostos e, em alguns, verifica-se a dupla tributação, e outros consideram que não influencia em nada.
Pergunta nº. 3: como se caracteriza a relação entre a Repartição Fiscal e os Contribuintes/Empresas?
Objetivo: caracterizar a relação entre a repartição fiscal e os contribuintes/Empresas.

Tabela 3 - Resultados para a 3ª questão


Frequência Percentagem (%)
Muito Boa 0 0%
Boa 21 62%
Má 13 38%
Muito má 0 0%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

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A relação entre a Administração Fiscal e os contribuintes é caracterizada como boa por


62% das entidades questionadas, tendo algumas dessas entidades, considerado que o problema
tem sido a falta de organização e a tentativa de fuga ao fisco por muitas empresas, de modo que
a Administração Fiscal tem apenas feito, e bem, o seu trabalho. Porém, conforme apresentado na
tabela 03, aproximadamente 38% das entidades questionadas consideram a relação como má, de-
vido à falta de condições especiais e à calma da Repartição Fiscal e ainda porque se preocupam
mais com as receitas fiscais do que com o benefício dos contribuintes. Relacionado a esse ponto,
questionaram-se as entidades como acham que devia ser essa relação, e, entre as muitas respostas
obtidas, destacam-se:
a) os contribuintes olham para a Repartição Fiscal como inimigos. Devia em vez disso
haver mais explicação em relação aos impostos;
b) uma vez que as receitas fiscais dependem das empresas, a relação devia ser boa e com
mais flexibilidade por parte da Administração Fiscal e;
c) as finanças deviam promover palestras e atualizações para os contribuintes em relação
aos impostos e às suas diversas fases.
Pergunta nº. 4: já foi sujeito ao pagamento de multas fiscais?
Objetivo: averiguar se a empresa já foi sujeita ao pagamento de multas.
Parte das escolas inquiridas já foi sujeita ao pagamento de multas fiscais, e entre as causas,
foram apontados erro dos contabilistas, pouco esclarecimento sobre as normas de incidência do
IAC, falta de conhecimento da Legislação, atraso do pagamento do imposto no prazo devido e
correções aos exercícios anteriores. Apenas 25% das empresas ainda não foram sujeitas ao pa-
gamento de multas. Dadas as principais causas da aplicação de multas fiscais, conforme pode ser
avaliado na tabela 4, o que nos leva a refletir na falta de informação e esclarecimento dos proce-
dimentos contabilísticos e fiscais.

Tabela 4 - Resultados para a 4ª questão


Frequência Percentagem (%)
Sim 26 75%
Não 8 25%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Pergunta nº. 5: conhece e domina a legislação fiscal de Angola?


Objetivo: averiguar se os gestores têm domínio da legislação fiscal.
Na tabela 5, estão apresentados os resultados referentes à percepção do conhecimento da
legislação fiscal.

Tabela 5 - Resultados para a 5ª questão


Frequência Percentagem (%)
Muito Bem 0 0%
Bem 26 75%
Mal 8 25%
Muito Mal 0 0%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Quanto ao grau de conhecimento da legislação fiscal de Angola, a maior parte dos gestores
entende que domina bem, por conhecer os principais aspectos e impostos ligados às empresas do

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setor. Ainda assim, 25% dos gestores consideram dominar mal a legislação fiscal do país, devido
à pouca informação possuída pelos gestores das empresas escolares. Na realidade, a maioria con-
sidera que a informação não circula. As atualizações e os diários não estão disponíveis a todos, o
que dificulta o domínio desejado da legislação fiscal.
Em um comparativo entre as tabelas 4 e 5, pode-se levantar a questão se esta percepção de
elevado grau de conhecimento reflete-se na realidade, uma vez que grande parte das causas das
multas fiscais está relacionada ao desconhecimento dos processos, aos atrasos nos recolhimentos
e à falta de informação por parte dos empresários.
Pergunta nº. 6: qual a razão pela qual não domina muito bem a legislação fiscal?
Objetivo: averiguar as razões pelas quais os gestores não dominam muito bem a legislação fiscal.

Tabela 6 - Resultados para a 6ª questão


Frequência Percentagem (%)
Pouca informação 26 75%
Falta de interesse 0 0%
Falta de esclarecimento 8 25%
Falta de boas formações na área 0 0%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Na realidade, a maioria considera que a informação não circula, as atualizações e os diá-


rios não estão disponíveis a todos, o que dificulta o domínio desejado da Legislação Fiscal. Uma
pequena parte ainda considera que há informação, mas faltam esclarecimentos e pessoas que
possam prestar esses esclarecimentos.
Pergunta nº. 7: entre os demais, quais os impostos que mais dificultam em termos de incidência
e liquidação para a sua empresa?
Objetivo: averiguar quais dos impostos dificultam mais a liquidação.
Entre os vários impostos existentes em Angola, o que mais dificulta em termos de incidên-
cia e liquidação, segundo as empresas inquiridas, é o imposto sobre os rendimentos do trabalho,
conforme está apresentado na tabela 7. Afigura-se como um imposto em que as escolas têm difi-
culdades em proceder ao pagamento, em virtude da própria dificuldade em enquadrar os profes-
sores colaboradores e eventuais.

Tabela 7 - Resultados para a 7ª questão


Frequência Percentagem (%)
Imposto sobre Rendimento de Trabalho 30 87%
Imposto Industrial 2 7%
Imposto de Selo 0 0%
Imposto de Consumo 1 3%
Imposto Predial Urbano 1 3%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Pergunta nº. 8: como se classifica o tratamento e o arquivo da documentação na sua empresa?


Objetivo: classificar o tratamento e o arquivo da documentação na empresa.

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Tabela 8 - Resultados para a 8ª questão


Frequência Percentagem (%)
Muito bom 4 13%
Bom 30 87%
Mau 0 0%
Muito mau 0 0%
Imposto Predial Urbano 1 3%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Como seria expectável, grande parte dos gestores considera existir boa organização, trata-
mento e arquivo da documentação em sua empresa.
Com nenhuma autoavaliação apresentada nas duas categorias inferiores, conforme apre-
sentado na tabela 8, vale ressaltar que essa pergunta representa uma percepção do ambiente em
uma entrevista conduzida por um agente externo, e não necessariamente a realidade nas empresas,
que não era objeto do presente trabalho.
Pergunta nº. 9: como classifica o trabalho dos contabilistas para a sua empresa?
Objetivo: classificar o trabalho dos contabilistas na empresa.

Tabela 9 - Resultados para a 9ª questão


Frequência Percentagem (%)
Muito bom 12 35%
Bom 22 65%
Mau 0 0%
Muito mau 0 0%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Parte dos gestores considera que os seus contabilistas desempenham um trabalho bastante acei-
tável, conforme apresentado na tabela 9. Vale ressaltar que o trabalho realizado pelos contabilistas em
Angola sofreu grandes mudanças com o programa PERT citado anteriormente, e isso acarretou uma
necessidade, cada vez maior, de a empresa confiar nas decisões realizadas por tais profissionais.
Pergunta nº. 10: com a criação do PERT (Reforma Fiscal do Estado Angolano), como classifica
o processo fiscal no país?
Objetivo: classificar a Reforma Fiscal do Estado angolano.

Tabela 10 - resultados para a 10ª questão


Frequência Percentagem (%)
Melhorou 30 87%
Piorou 0 0%
Permaneceu a mesma coisa 4 13%
Fonte: dados da pesquisa (2018).

De acordo com a tabela 10, com a criação da reforma fiscal do Estado angolano, parte dos
gestores considera que o processo fiscal melhorou no país.
Entre as várias sugestões apresentadas pelos gestores, para a revisão dos impostos atual-
mente existentes, destacamos as seguintes:

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26 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

a) haver mais flexibilidade e esclareci- realidade comprova a complementaridade obri-


mento quanto à Lei 7/97 e quanto aos gatória das três disciplinas, nomeadamente a
subsídios que se tributam em sede do Contabilidade, a Gestão e a Fiscalidade. A ges-
IRT; tão fiscal nos tempos modernos caracteriza-se
b) tal como aconteceu na Europa, seria por uma postura ativa da parte do contribuinte
melhor a implementação do IVA (Im- que procura inserir a variável fiscal em suas de-
posto sobre o Valor Acrescentado) em cisões. Mais do que procurar reduzir os custos
Angola, incidindo sobre as despesas com impostos, trata-se, principalmente, de evi-
ou consumo; tar, antecipadamente, a incidência fiscal antes
c) diminuição das taxas de impostos; da ocorrência do fato gerador. É importante
d) que os impostos fossem encarados considerar que todo o planeamento fiscal exige
com mais rigor, para que os contri- bom senso da parte do planejador, análise da
buintes tenham preocupação no cum- relação custo/benefício e considerar que não
primento das regras estabelecidas. há mágicas, apenas alternativas que dependem
da relação custo/benefício.
Portanto, após a análise dos resultados, O presente trabalho teve como objetivo
pode-se inferir que a atividade de ensino privado analisar de que forma os impostos influenciam
é um negócio bem rentável mesmo em época de a gestão de empresas, mais particularmente, em
crise; pode-se também afirmar que os impostos instituições privadas de ensino, e os resultados
influenciam, positivamente, na gestão das esco- apresentados pelo estudo empírico demons-
las, porquanto os gestores estão, cada vez mais, traram que, apesar de tamanha reclamação no
preocupados com a planificação tributária, con- círculo empresarial, os impostos e o rigor no
siderando-a como condição essencial não unica- sistema de fiscalização incentivam a organiza-
mente para sua sobrevivência, mas para o suces- ção e despertam a necessidade de organização
so em um mercado muito competitivo. e responsabilidade social. Relativamente ao
domínio da legislação fiscal pelos empresários
5 CONCLUSÕES E RECOMENDA- e gestores dessas empresas, conclui-se que há
ÇÕES certo grau de conhecimento e domínio da le-
gislação fiscal, na medida em que, para aspetos
A gestão empresarial remete-nos à ideia mais específicos, recorrem a entidades espe-
de tomada de decisões, e as decisões são toma- cializadas; entretanto, essa percepção deve ser
das com base em informações relevantes para cuidadosamente avaliada, uma vez que houve
determinada situação. Ao abordar-se, neste tra- um aumento significativo nas multas fiscais
balho, a maneira como os impostos influenciam com a implantação da nova legislação.
a gestão das escolas privadas, comprova-se que A dependência maioritária das escolas
a informação contabilística é a base de atuação privadas em relação ao pagamento das men-
das políticas tributárias. A informação produ- salidades (localmente chamadas de propinas,
zida pela contabilidade é a base para aplicação sem nenhuma relação com o termo utilizado no
das taxas e posterior cálculo da coleta. Hoje, Brasil, que remete ao pagamento indevido de
pelos níveis de qualificação que a gestão exige, vantagens) é uma realidade não só de Angola.
há necessidade de o gestor dominar os concei- Entende-se que as escolas privadas precisam
tos básicos sobre contabilidade e fiscalidade, encontrar métodos para incentivar o pagamento
o contabilista tem de ter conhecimentos rela- dessas mensalidades, de modo a manter atuali-
tivos à gestão empresarial e à fiscalidade, e o zada a contabilidade da empresa.
representante da Administração Fiscal deve ter Apesar de o princípio da especialização
conceitos básicos sobre gestão e contabilidade, ou acréscimo estabelecer que os custos ou pro-
para não incorrer em erros de interpretação. Tal veitos devem ser reconhecidos quando ocorrem

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independentemente do momento de seu paga- xas de impostos.


mento ou recebimento, quando a abordagem Relativamente à Administração Fiscal,
é inerente a pagamentos de propinas, há que recomenda-se:
adequar a aplicação da norma com a necessi- a) que haja maior flexibilidade em re-
dade de fiabilidade da informação bem como lação ao incumprimento dos contri-
ao princípio da comparabilidade. Devem, por- buintes nos exercícios anteriores a
tanto, ser observados os métodos de reconhe- 2012, dada a falta de esclarecimento
cimento dos proveitos. Os procedimentos de e acesso à legislação, diferente do que
gestão fiscal para escolas privadas consistem, se verifica atualmente;
de forma concisa, em incluir a variável fiscal b) promover palestras e atualizações
logo na constituição da empresa, conhecer os para os contribuintes relativamente
impostos a que a empresa ficará sujeita, tanto aos impostos e às demais obrigações
os que recaem sobre ela, como os que se re- fiscais;
ferem a retenções, e ainda o bom tratamento c) que as correções sejam contínuas de
e o arquivo de toda a documentação afetam a forma a permitir que os contribuintes
movimentação de valores (circuito monetário), organizem as suas informações con-
pois estes melhor esclarecem qualquer opera- tabilísticas, e;
ção contabilística. d) procurar estabelecer uma relação
Uma vez que o estudo empírico foi rea- saudável com os contribuintes de
lizado a escolas privadas, e estas, por sua vez, forma que estes se sintam no direito
deram sugestões e opiniões relativas ao atual de questionar e se informar quanto às
sistema fiscal, as recomendações são direcio- suas obrigações fiscais.
nadas às empresas (gestores e empresários do
ramo) e também à Administração Fiscal. TRABALHOS FUTUROS
Assim, recomenda-se às entidades em-
presariais: Diversos trabalhos futuros podem ser re-
a) incluir a variável fiscal na tomada de alizados a partir dos resultados apresentados e
decisões, desde a constituição, e rea- também das recomendações propostas. Em re-
lizar profundo estudo do sistema fis- lação ao nível de percepção dos empresários,
cal angolano relativamente aos incen- um estudo pertinente seria uma investigação
tivos fiscais, benefícios e exigências; aprofundada do nível de conhecimento deles e
b) o melhor tratamento possível de toda de seus contabilistas referentes às novas estru-
a documentação e ter todas as opera- turas fiscais propostas pelo sistema PERT.
ções documentadas, de acordo com o Além disso, um estudo longitudinal da es-
regime de faturas atualmente em vi- truturação do aparelhamento fiscal do estado e
gor, bem como os prazos de arquivo dos resultados obtidos não somente na província
de documento exigidos; de Benguela, mas, em todo o país, poderá per-
c) assumir a responsabilidade de liqui- mitir avaliar os efetivos benéficos, tanto para a
dar e pagar os impostos devidos, nos melhor gestão das empresas privadas com a faci-
prazos estabelecidos, contribuindo, litação da gestão fiscal, como para o efetivo au-
desse modo, para a realização de fins mento das receitas fiscais do Estado Angolano.
públicos; Por fim, com este trabalho, os autores
d) recorrer a Administração Fiscal para esperam ter contribuído para a melhoria da pla-
dirimir possíveis dúvidas que possam nificação tributária, de modo que os impostos e
surgir na incidência, liquidação ou a tributação, em geral, venham influenciar po-
pagamento dos impostos, bem como sitivamente na gestão das escolas privadas em
solicitar legislação de suporte às ta- Angola.

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28 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

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GONÇALVES, Fernando. Fiscalidade para


Contabilistas. Angola: Texto Editores, 2011.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS,

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 11-30, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
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ANEXO A - INQUÉRITO APLICADO ÀS ESCOLAS

PARTE 1 - CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA

1.1. Ano de abertura da empresa: _________


1.2. Ensino abrangido pela escola (marcar todos os que se aplicarem):
_____ Infantário _____ Pré _____ Primeiro Ciclo _____ Segundo Ciclo _____ Ensino Médio
1.3. Enquadramento Fiscal da Empresa: Tipo ________
1.4. Quantidade de sócios: ______
1.5. Quantidade de funcionários da área pedagógica: ______
1.6. Quantidade de funcionários da área administrativa/financeira: ______
1.7. A escola possui site próprio e redes sociais (facebook): ____ Sim ____ Não
1.8. Quantidade aproximada de alunos: __________

PARTE 2 - PERCEÇÃO DA ESCOLA QUANTO À FISCALIDADE

1. Como se caracterizam as escolas privadas no município do Lobito?


• Muito Rentáveis___
• Rentáveis___
• Pouco Rentáveis___
2. Qual a influência dos impostos na gestão de sua escola?
• Dificulta___
• Incentiva a organização___
• Não influencia em nada___
3. Como se caracteriza a relação entre a Repartição Fiscal e os Contribuintes/ Empresas?
• Muito boa___
• Boa___
• Má___
• Muito má___
4. Já foi sujeito ao pagamento de multas fiscais?
• Sim___
• Não___
5. Domínio da Legislação Fiscal: conhece e domina a legislação Fiscal de Angola?
• Muito bem___
• Bem___
• Mal___
• Muito mal___

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30 ARTIGOS | Influência da nova estrutura fiscal de impostos de Angola na gestão de escolas privadas do município do Lobito

6. Razão pela qual não domina muito bem a Legislação Fiscal. Qual a razão pela qual não
domina muito bem a Legislação Fiscal?
• Pouca informação___
• Falta de interesse___
• Falta de esclarecimento___
• Falta de boas formações na área ___
7. Quais os impostos que mais dificultam em termos de incidência e liquidação para a sua
empresa?
• Imposto sobre Rendimento de Trabalho___
• Imposto Industrial___
• Imposto de Selo___
• Imposto de Consumo___
• Imposto Predial Urbano___
8. Como se classifica o tratamento e o arquivo da documentação em sua empresa?
• Muito bom___
• Bom___
• Mau___
• Muito mau ___
9. Como se classifica o trabalho dos contabilistas para a sua empresa?
• Muito bom___
• Bom___
• Mau___
• Muito mau ___
10. Com a criação do PERT (Reforma Fiscal do Estado Angolano), como classifica o processo
fiscal no país?
• Melhorou ___
• Piorou ___
• Permaneceu a mesma coisa___

ALGUMA CONSIDERAÇÃO FINAL SOBRE A FISCALIDADE PARA A EM-


PRESA EDUCACIONAL:

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 11-30, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Sinara Jaroseski, Mirray Muneretto de Andrade, Alex Eckert, Graciela Bavaresco da Silva, Marlei Salete Mecca 31

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p31-45.2019

ARTIGOS

É POSSÍVEL SOBREVIVER A UMA RECUPERAÇÃO


JUDICIAL? EVIDÊNCIAS EM EMPRESAS
LISTADAS NA BM&FBOVESPA

SURVIVAL AFTER JUDICIAL RECOVERY? EVI-


DENCE IN BRAZILIAN COMPANIES LISTED ON
THE STOCK EXCHANGE

RESUMO

A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação


da situação de crise econômico-financeira da empresa, a fim de
permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos tra-
Sinara Jaroseski balhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a
sjaroseski@[Link] preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade
Mestra em Contabilidade e econômica. Desse modo, a efetividade do regime de recuperação
Controladoria (UNISINOS). judicial é de interesse comum da sociedade. Assim, a presente
Professora da
Universidade de Caxias do Sul.
pesquisa objetivou avaliar o desempenho econômico, financeiro e
Caxias do Sul - RS - BR. operacional das companhias de capital aberto, que negociam suas
ações na bolsa de valores brasileira e pleitearam a recuperação
Mirray Muneretto de Andrade judicial para superação da situação de crise econômico-financei-
mmandrade@[Link]
ra. A pesquisa aborda os procedimentos técnicos documentais, os
Bacharel em Ciências Contábeis
pela Universidade de Caxias do levantamentos bibliográficos, com particularidades de pesquisa
Sul. Caxias do Sul - RS - BR. qualitativa e objetivos exploratórios, visando proporcionar maior
familiaridade com o problema. A partir da análise dos resultados
Alex Eckert encontrados, foi possível constatar que apenas uma empresa mos-
[Link]@[Link]
Doutor em Administração -
trou sinais claros de recuperação da situação de crise econômico-
PUCRS/UCS. Professor da -financeira.
Universidade de Caxias do Sul.
Caxias do Sul - RS - BR. Palavras-chave: Análise de desempenho. Recuperação judicial.
Lei 11.101/05.
Graciela Bavaresco da Silva
gracibavaresco@[Link]
Especialista em Gestão Finan- ABSTRACT
ceira, Controladoria e Auditoria
- FGV. Professora da Universi-
A judicial recovery has the objective to make feasible the overco-
dade de Caxias do Sul. Caxias
do Sul - RS - BR. ming the economic-financial crisis of the company, allow a main-
tenance of the source of workers’ job and the interests of creditors,
Marlei Salete Mecca thus promoting a preservation of the company, its social function
msmecca@[Link] and stimulus to economic action. In this way, the effectiveness of
Doutora em Engenharia da Pro-
dução – UFSC. Professora da
the judicial recovery regime and the common interest of the com-
Universidade de Caxias do Sul. pany. Thus, the research aimed to evaluate the economic, finan-
Caxias do Sul - RS - BR. cial and operational performance of publicly traded operations,

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which negotiate their actions on the Brazilian pequeno a grande porte a recorrerem à recupe-
stock exchange and pleaded for judicial reco- ração judicial como instrumento para superar a
very to overcome the situation of economic and crise econômico-financeira.
financial crisis. Taking into account concepts, a Conforme pesquisa do Serasa (2017),
research sought to analyze through the accoun- em 2016, foram protocolados 1.863 pedidos
ting indicators the effectiveness of the judicial de recuperação judicial, 44,8% a mais do que
recovery of 12 companies in the sample. From o registrado em 2015, sendo esse resultado o
the analysis of the results found, it was possible maior para o acumulado do ano desde 2006,
to verify that only one company showed clear quando da entrada em vigor da Lei 11.101/05,
signs of recovery of the situation of economic a lei brasileira que prevê a recuperação judicial
and financial crisis. e a falência de empresas.
Dessa forma, faz-se necessário analisar
Keywords: Performance analysis. Judicial re- a efetivação desse processo para as empresas,
covery. Law 11.101/05. uma vez que poucas alcançam a almejada recu-
peração. Nesse sentido, há a notícia publicada
1 INTRODUÇÃO em 2013 pelo Jornal Estadão referente a uma
análise do período de fevereiro de 2005 a outu-
O presente estudo traz o resultado da bro de 2013, em que apenas 1% das empresas
análise do desempenho econômico, financeiro que pediram recuperação judicial no Brasil sai
e operacional das empresas listadas na bolsa de do processo recuperada.
valores brasileira BM&FBOVESPA (B3) em Em 2016, o Jornal Estadão publicou ma-
processo de recuperação judicial, com o pro- téria referente à dificuldade enfrentada por al-
pósito de diagnosticar por meio dos indicado- gumas empresas brasileiras em cumprir o plano
res contábeis, se o processo de recuperação no de recuperação. De acordo com a notícia, a im-
Brasil está, de fato, viabilizando a superação da previsibilidade econômica é o argumento para
situação de crise econômico-financeira. Ainda, a revisão dos acordos originalmente aprovados
buscou-se investigar o processo de recupera- em assembleia.
ção judicial regulamentado pela Lei 11.101/05, Conforme o desembargador do Tribu-
além de fazer uma reflexão quanto à efetivação nal de Justiça de São Paulo, Carlos Henrique
da legislação brasileira no tocante ao incentivo Abrão, a dívida das empresas que entraram em
da atividade econômica. recuperação judicial soma em torno de R$ 250
O objetivo principal da presente pesqui- bilhões. Desse valor, apenas 25% serão pagos
sa foi avaliar o desempenho econômico, finan- efetivamente, segundo levantamento do Ins-
ceiro e operacional das companhias de capital tituto Nacional da Recuperação Empresarial
aberto, que negociam suas ações na bolsa de – INRE. Uma parte será reduzida durante o
valores brasileira e pleitearam a recuperação processo de recuperação; outra parte conver-
judicial para superação da situação de crise tida em ações para os investidores; o restante
econômico-financeira. Entende-se que o tema se perde com o processo falimentar de algumas
apresentado está em evidência na atual conjun- empresas (CORREÇÃO..., 2016).
tura econômica do Brasil, sendo importante seu Para Francisco Filho (2015), a recupe-
aprofundamento para fins acadêmicos, científi- ração judicial tem como meta tornar possível
cos e profissionais. a superação da situação de crise econômico-fi-
De acordo com os economistas da Sera- nanceira das empresas, permitindo que conti-
sa Experian (2016), o prolongamento e a am- nuem produzindo, empregando trabalhadores e
pliação do atual quadro recessivo da economia mantendo relações econômicas com credores.
brasileira, aliada à elevação dos custos opera- Portanto, com base na atual conjuntura econô-
cionais e financeiros, tem levado empresas de mica vislumbrada nos noticiários, faz-se ne-

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cessário um aprofundamento tanto acadêmico, pelas Leis nº 11.638/2007 (BRASIL, 2007) e


como científico da presente pesquisa. 11.941/2009 (BRASIL, 2009):
Quanto à relevância social, avaliou-se o a) balanço patrimonial (BP);
desempenho econômico, financeiro e operacio- b) demonstração do resultado do exercí-
nal das empresas listadas na B3, com atuação cio (DRE);
em múltiplas áreas da economia, e de grande c) demonstração de lucros ou prejuízos
relevância no cenário econômico brasileiro. acumulados (DLPA);
A presente pesquisa visa corroborar o d) demonstração das mutações do patri-
conhecimento acerca da execução da legisla- mônio líquido (DMPL);
ção quanto à recuperação judicial, no tocante e) demonstração dos fluxos de caixa
ao incentivo da atividade econômica. Neste (DFC);
sentido, Salomão e Santos (2015) afirma que f) demonstração do valor adiciona-
a Lei 11.101/05, que regulamenta a recupera- do (DVA), apenas para companhias
ção judicial, foi inspirada em ditames de ordem abertas;
constitucional, como o princípio da função so- g) notas explicativas às demonstrações
cial da propriedade e a diretriz segundo a qual contábeis (NE).
o Estado, como agente regulador e normativo, De acordo com Eckert (2013), as de-
exerce incentivo da atividade econômica, na monstrações contábeis evidenciam diferentes
forma da Lei. informações provenientes da contabilidade das
empresas, servindo aos mais diferentes usuá-
2 REFERENCIAL TEÓRICO rios das informações, sejam estes internos ou
externos.
2.1 DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS
2.2 ANÁLISE DAS DEMONSTRA-
Viceconti e Neves (2013) conceitua a ÇÕES CONTÁBEIS
Contabilidade como uma ciência que desenvol-
veu metodologia própria, com a finalidade de A análise das demonstrações contábeis,
controlar o patrimônio das entidades, apurar o de acordo com Lins e Francisco Filho (2012),
resultado e prestar informações às pessoas que assume destacada importância no processo
tenham interesse na avaliação da situação patri- decisório, constituindo-se em um relevante
monial. Para Quintana (2014), a Contabilidade instrumento de avaliação de desempenho, ofe-
pode ser definida como a ciência social que re- recendo indicadores das perspectivas econômi-
gistra as transações ocorridas em uma entidade, cas, financeiras e operacionais da empresa.
com a finalidade de resumir esses fatos em de- Silva (2012) descreve que, a partir dos
monstrações que possam expressar a situação relatórios contábeis, é possível avaliar o com-
patrimonial, com o objetivo principal de gerar portamento da gestão, realizar comparações
informações que contribuam para a tomada de com as tendências regionais ou dos segmentos,
decisões. determinando as perspectivas futuras de renta-
O Código Civil Brasileiro, por meio da bilidade ou continuidade dos negócios. Essas
Lei 10.406/02 (BRASIL, 2002), regulamenta informações oferecem subsídios aos gestores
que todas as instituições têm obrigatoriedade de em sua tomada de decisão quanto a financia-
escrituração contábil e elaboração de demons- mentos ou investimentos, na avaliação de mu-
trações contábeis. Dos inúmeros relatórios pre- danças de práticas, caso as tendências não se-
parados com base em informações contábeis, jam favoráveis.
destacam‐se aqueles que são obrigatórios, de De acordo com Silva (2012), para a aná-
acordo com a legislação brasileira, elencados lise das demonstrações contábeis, podem-se
na Lei nº 6.404/76 (BRASIL, 1976), alterada utilizar várias metodologias, de acordo com os

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objetivos a serem alcançados, tais como análise horizontal, análise vertical, análise por meio de
índices ou quocientes e outras metodologias complementares.
A presente pesquisa aborda uma série de indicadores ou quocientes a serem apurados por
meio da relação entre contas ou grupos de contas que integram as demonstrações contábeis das
empresas objeto de estudo. No Quadro 1, está descrita a correlação entre as informações aborda-
das e os grupos de índices analisados.

Quadro 1 - Correlação dos segmentos abordados x Indicadores contábeis


Informações Grupos de Índices
Liquidez
Situação financeira
Estrutura de capital
Situação econômica Rentabilidade
Rotação/Prazos médios
Situação operacional
Alavancagem operacional
Fonte: (MONTOTO, 2014, p. 931).

2.3 INDICADORES DE ROTATIVIDADE/ATIVIDADE (PRAZOS MÉDIOS)

Lins e Francisco Filho (2012) afirmam que os indicadores de atividade, obtidos a partir
de dados extraídos do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do Exercício, evi-
denciam a velocidade com que determinados elementos do ativo e do passivo giram, ou ainda se
renovam, durante o período contábil.
No Quadro 2, apresentam-se os índices de atividade, as fórmulas, as definições e as avalia-
ções elencados por Saporito (2015).

Quadro 2 - Índices de atividade


Índice Fórmula Significado e Avaliação
Indica o tempo estimado para o
recebimento das vendas, ou seja, por
Clientes x 360
Prazo Médio do Recebimento quanto tempo, em média, a empresa
de Vendas (PMRV) financia seus clientes. A resposta é obtida
Vendas em número de dias. Quanto menor o
PMRV, melhor.
Estoques x 360 Indica o tempo estimado necessário para
Prazo Médio da Renovação de que a empresa renove seus estoques. A
Estoques (PMRE) resposta é obtida em número de dias.
CPV Quanto menor o PMRE, melhor.

Indica o tempo estimado para o


Fornecedores x 360 pagamento de compras, ou seja, por
Prazo Médio do Pagamento de quanto tempo, em média, a empresa
Compras (PMPC) é financiada por seus fornecedores. A
Compras resposta é obtida em números de dias.
Quanto maior o PMPC, melhor.

Fonte: adaptado pelos autores deste trabalho com base em Saporito (2015, p. 195).

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2.3.1 Ciclo operacional x ciclo financeiro a liquidação/extinção de suas dívidas (passivos).


Padoveze e Benedicto (2011) ressaltam
Assaf Neto (2010) descreve que as em- que os indicadores de liquidez são considerados
presas na consecução de suas atividades ope- estáticos, pois são extraídos do balanço patrimo-
racionais, sistematicamente, produzem bens ou nial. Assim, cabe ao analista avaliar “quais as pos-
serviços, vende-os para, posteriormente, obter sibilidades futuras da empresa de gerar novos lu-
os valores referentes a seu pagamento, com o cros, aumentar ou diminuir seus ativos realizáveis
intuito de obter lucros, para que possam satis- e aumentar ou diminuir seus passivos exigíveis.”
fazer às expectativas de retorno de suas fontes (PADOVEZE; BENEDICTO, 2011, p. 148).
de financiamento.
Segundo Silva (2012), cada empresa pos- 2.5 INDICADORES DA ESTRUTURA
sui um ciclo operacional próprio, sendo assim, DE CAPITAL (ENDIVIDAMENTO)
um período de tempo necessário para desenvol-
ver suas atividades, tais como a aquisição de Braga (2012) afirma que as empresas
mercadorias ou matéria-prima, a estocagem, possuem um limite de endividamento, que está,
a produção, a distribuição e o recebimento do proporcionalmente, ligado à capacidade de ge-
valor correspondente às suas vendas. De acor- rar recursos necessários para o pagamento de
do com Matarazzo (2010), os índices de prazos suas obrigações dentro dos prazos estipulados.
médios avaliados em conjunto resultarão na Silva (2012) complementa afirmando
análise do ciclo operacional e de caixa, os quais que os indicadores da estrutura de capital, além
se caracterizam como elementos que indicam o de conexos à composição dos capitais (próprios
fracasso ou o sucesso de uma empresa. ou de terceiros), apontam os níveis de imobili-
O ciclo de caixa é determinado, basica- zação de recursos, que buscam apontar diversas
mente, pela diferença entre o número de dias do relações na composição da dívida da empresa.
ciclo operacional e o prazo médio de pagamen-
to a fornecedores dos insumos (ASSAF NETO, 2.6 INDICADORES DE
2010). Para Padoveze e Benedicto (2011), o RENTABILIDADE
acompanhamento rotineiro dos ciclos é impor-
tante, pois permite o gerenciamento do capital de Para Padoveze e Benedicto (2011), a análise
giro e aponta a necessidade de investimento em da rentabilidade objetiva aponta o retorno do capi-
ativos, possibilitando, assim, “uma visão muito tal investido, bem como os fatores que conduzem a
expressiva do andamento das operações da em- essa remuneração. A saúde financeira da empresa é
presa e o seu impacto financeiro e patrimonial.” decorrente da obtenção de sua rentabilidade. Assim,
(PADOVEZE; BENEDICTO, 2011, p. 174). uma empresa rentável e adequadamente administra-
da não terá problemas de solvência ou capacidade
2.4 INDICADORES DE LIQUIDEZ de pagamento. Segundo Griffin (2012), os indicado-
res de rentabilidade mensuram a capacidade da em-
Gitman e Zutter (2010) ressaltam a im- presa de gerar lucros e aponta a eficácia da aplicação
portância de mensurar a liquidez, relacionada à dos recursos investidos na empresa.
solvência das entidades, demostrando o grau de Assaf Neto (2010) afirma que o risco de
capacidade da empresa em pagar suas dívidas. inadimplência das empresas é estudado a par-
Padoveze e Benedicto (2011) explicam que li- tir do potencial da geração de fluxos de caixa
quidez em finanças denota disponibilidade em decorrentes de suas operações. Assim, quanto
moeda corrente para fazer pagamentos, ou seja, maior a capacidade de geração de caixas de
extinguir obrigações. Desse modo, os indicado- uma empresa, mais segura será sua capacidade
res de liquidez mensuram se, de fato, os bens e os de pagamento; por conseguinte, promove uma
direitos da empresa (ativos) são suficientes para redução em seu risco de inadimplência.

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2.7 RECUPERAÇÃO JUDICIAL processo de recuperação judicial, já que a Lei


11.101 de 2005 (BRASIL, 2005) prevê, após a
Martins (2016) conceitua a Recuperação deferimento do pedido de recuperação judicial
Judicial como um procedimento corretivo em junto ao Poder Judiciário, a concessão de pra-
que se objetiva reestruturar e recuperar uma ati- zos e condições especiais para o pagamento de
vidade empresarial em crise, mantendo a fonte obrigações, mediante o cumprimento de ações
de produção de emprego, atendendo aos inte- de reestruturação da empresa.
resses dos credores e garantindo a preservação De acordo com Fazzio Júnior (2015), o
da função social da empresa. plano de recuperação judicial, além de descre-
Para Carter e Van Auken (2006), o esco- ver as medidas necessárias e oportunas para su-
po envolvido em um processo de recuperação peração da situação de crise do devedor, deve
judicial geralmente está centrado na falta de co- ser condicionado ao interesse social, assim
nhecimento sobre gerenciamento, precificação atendendo ao interesse dos seus credores.
e equivocadas projeções futuras. Adicional-
mente, mencionam que o clima econômico ex- 2.7.1 Plano de recuperação
terno tem ligação com o insucesso de um negó-
cio, representado por dificuldades relacionadas Conforme descrito por Ayoub e Cavalli
aos clientes, à economia e aos concorrentes. (2016), o plano de recuperação judicial deverá
O instrumento de recuperação judicial, conter a descrição detalhada dos meios de recu-
previsto na Lei nº 11.101 de 2005 (BRASIL, peração, a demonstração da viabilidade econômi-
2005), conhecida como “Lei de recuperação judi- ca da atividade, o laudo econômico-financeiro e o
cial e falência de empresas”, tem os objetivos de laudo de avaliação dos bens e ativos do devedor.
proteger a atividade da empresa, manter o empre- Para Mamede (2016), o plano de recu-
go dos trabalhadores e os interesses dos credores. peração é o elemento chave para a superação
No art. 50 do instrumento legal que regu- da situação de crise da empresa: “é o projeto
lamenta a recuperação judicial, estão elencados e o caminho que o devedor propõe aos credo-
alguns exemplos de medidas que podem ser res para sair da situação caótica, deficitária, e
utilizados como forma de superar a crise, assim chegar a um estado saudável da atividade ne-
sumarizados por Toledo e Abrão (2012): gocial.” (MAMEDE, 2016, on-line).

Sistematizando-os, pode-se classifi- 2.7.2 Credores incluídos na recuperação


cá-lós em meios de reestruturação: a)
judicial
do poder de controle; b) financeira; c)
econômica; d) administrativa; e) so-
cietária; e f) complexa ou híbrida ou Estão sujeitos ao plano de recuperação
mista, que a LRE instituiu com o “ob- judicial, nos termos da Lei 11.101/05 (BRASIL,
jetivo de viabilizar a superação da si- 2005), credores trabalhistas ou por acidentes de
tuação de crise econômico-financeira trabalho; credores com garantia real; credores en-
do devedor” (art. 47), uns emprega- quadrados como microempresas ou empresas de
dos diretamente na empresa, outros, pequeno porte, além dos credores quirografários,
em sua controladora, sobrelevando com privilégio especial, geral, ou subordinados.
notar, desde logo, que, em geral, será́ Importa mencionar que, para os credo-
importante utilizar vários meios de
res da espécie trabalhista, há regras específicas
recuperação ao mesmo tempo para
alcançar a salvação da empresa (TO-
para a negociação de seus créditos, definidas
LEDO; ABRÃO, 2012, p. 190). nos termos do art. 54. da Lei 11.101/05 (BRA-
SIL, 2005). Em síntese, o referido artigo dispõe
Alguns benefícios podem ser alcançados que o plano de recuperação judicial não poderá
pelas empresas que optam em ingressar em um prever prazo superior a um ano para pagamento

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dos créditos derivados da legislação do traba- siste no requerimento do benefício por parte do
lho, bem como prazo superior a trinta dias para empresário ou sociedade empresária, na forma da
o pagamento das verbas estritamente salariais, petição inicial e termina com o despacho do juiz,
referentes aos três últimos meses, limitadas a deferindo o prosseguimento do pedido. Nesta eta-
cinco salários mínimos por trabalhador. pa, tem-se como objetivo a verificação da presen-
ça dos requisitos formais da recuperação.
2.7.3 Órgãos previstos pela Lei Na segunda fase, descrita por Coelho
(2014) como deliberativa, são verificados os
Segundo Abrão e Toledo (2016), ao juiz créditos envolvidos no processo, em que os cre-
é dada a função de presidir o processo jurídico, dores atingidos discutem e aprovam o plano de
ao Ministério Público, a função de atuar como recuperação, tendo como início o despacho de
fiscal da Lei, em nome do interesse coletivo. prosseguimento, e, como encerramento, a deci-
Assim, no desempenho de suas funções, tanto o são concessiva do benefício.
magistrado, quanto o membro do Ministério Pú- Por fim, a fase de execução compreende
blico terão a participação dos seguintes órgãos o período de cumprimento do plano de recupe-
ou auxiliadores: administrador judicial, o comitê ração, bem como a fiscalização por parte dos
de credores e a assembleia geral de credores. órgãos ou dos auxiliadores. Essa fase parte da
a) administrador judicial: poderá ser decisão concessiva do benefício e é concluída
pessoa física ou jurídica, que dispõe pela sentença de encerramento.
de condições técnicas para auxiliar no De acordo com Salomão (2015), após
processo, preferencialmente, advoga- mais de dez anos de vigência da Lei 11.101/05
dos, economistas, administradores de (BRASIL, 2005), serão necessários mais alguns
empresas ou contadores; anos para que a jurisprudência e a doutrina se
b) comitê de credores: órgão de repre- posicionem sobre algumas questões, o que vem
sentação, criado para acompanhar o de encontro com os objetivos da presente pes-
cotidiano do procedimento jurídico quisa, que consistem em avaliar o desempenho
de recuperação judicial, com atribui- das companhias de capital aberto listadas na
ções consultivas e fiscalizatórias, o B3 que pleitearam o processo de recuperação
qual deverá ser composto por repre- judicial para superação da situação de crise
sentantes das classes de credores; econômico-financeira, com vistas a verificar a
c) assembleia geral de credores: órgão que efetividade da Lei 11.101/05, como forma de
agrega todos aqueles que têm créditos incentivo à atividade econômica.
contra a sociedade empresária. Sua prin-
cipal função é apreciar o plano de recupe- 2.7.5 Contexto internacional
ração judicial, com o intuito de aprovar,
modificar ou ainda rejeitar o mesmo. Roberts et al. (2010) apontam que, na
Espanha, os legisladores espanhóis aprovaram
2.7.4 Processo de recuperação judicial um conjunto de decretos e leis reais (geralmente
conhecidos como Plano E) para estimular uma
Descritos os requisitos, as formas de re- economia fraca. Esses decretos contêm, em suas
cuperação, bem como os órgãos que fazem par- orientações e textos, medidas urgentes de legis-
te desse processo, passa-se a apresentar como lação tributária, financeira e de falências que se
esses pilares se integram durante o processo de adaptam ao desenvolvimento da situação econô-
recuperação judicial. Para Coelho (2014), esse mica atual do país. Essas ações vão de encontro
procedimento pode ser descrito em três fases: a com a estabilização dos mercados financeiros,
postulatória, a deliberativa e a executória. oferecendo às empresas com problemas de liqui-
Para esse autor, a fase denominada con- dez um acesso mais fácil ao dinheiro.

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Nota-se, também, que desde a aprovação rios, dados estatísticos, entre outros relacionados
dessas leis e decretos, vários acórdãos assinala- à recuperação judicial. Para atingir os objetivos
ram as suas insuficiências, cujo objetivo é reduzir
propostos, buscou recolher um grande número
os custos processuais, facilitar o refinanciamentode dados dos processos de recuperação judicial
de empresas viáveis, melhorar a situação jurídi- das empresas no período delimitado.
ca dos trabalhadores afetados pela falência ou Quanto ao levantamento, Siqueira (2013)
recuperação judicial da sua empresa, estimular afirma que esse método busca realizar uma des-
acordos antecipados com credores e expandir os crição, relato ou levantamento dos fenômenos,
procedimentos acelerados a empresas com res- seguido de interpretação. Portanto, buscaram-se
ponsabilidades inferiores a 10 milhões de euros. pesquisar as empresas em situação de dificulda-
A legislação de insolvência russa mudou, des econômico-financeiras, listadas na B3, com o
dramaticamente, desde 1992, quando a primei- propósito de avaliá-las nos aspectos econômico,
ra lei foi adotada. As primeiras disposições em financeiro e operacional, a fim de apontar as difi-
matéria de insolvência tinham, essencialmente, culdades do processo de recuperação judicial regu-
natureza declarativa e aplicação prática míni- lamentado no Brasil diante dos casos analisados.
ma. Desde então, o foco da legislação de insol- A pesquisa bibliográfica busca o levan-
vência russa mudou, significativamente, para tamento bibliográfico sobre o tema, com o pro-
proteger os interesses dos credores e para esta- pósito de identificar informações e subsídios
belecer um equilíbrio entre os interesses destes para definição dos objetivos, determinação do
e seus devedores. Uma das alterações mais sig- problema e definição dos tópicos do referencial
nificativas diz respeito aos procedimentos sim- teórico (MICHEL, 2015). Logo, as descobertas
plificados para iniciar a falência/recuperação. e as constatações foram elaboradas a partir de
Anteriormente, os credores podiam apresen- materiais já publicados, constituídos por livros,
tar uma petição a um tribunal por declarar um artigos de periódicos, entre outros que se rela-
devedor falido ao término de trinta dias após cionam com os processos de recuperação judi-
a entrega de um mandado de execução para o cial das empresas escolhidas para o estudo.
serviço judicial e uma cópia para o devedor. As Da abordagem do problema, trata-se de
alterações permitem aos credores apresentar uma pesquisa qualitativa, descrita por Pereira
um pedido a partir da data de entrada de uma (2012) como aquela que pode trazer a interpreta-
decisão judicial contra o devedor. ção dos fenômenos e a atribuição de significados.
Do ponto de vista dos objetivos, a pes-
3 MÉTODO DE PESQUISA quisa caracteriza-se por exploratória, pois, de
acordo com Ramos (2009), esse modelo visa
3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA proporcionar maior familiaridade com o pro-
blema, tornando-o explícito. Levando-se em
Para a realização da presente pesquisa, consideração esses aspectos, analisou-se o de-
utilizou-se de procedimentos técnicos docu- sempenho econômico, financeiro e operacional
mentais e de levantamento, além de uma pes- das empresas com processo de recuperação ju-
quisa bibliográfica. dicial, listadas na B3 até dezembro de 2016.
Pereira (2012) argumenta que a pesquisa
documental tem por finalidade reunir, classificar 3.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA
e distribuir os documentos de todo gênero dos di-
ferentes domínios da atividade humana. Assim, Akanime e Yamamoto (2013) definem
os dados da presente pesquisa foram elaborados população como a totalidade de indivíduos
a partir de materiais que não receberam trata- ou objetos que possuem ao menos uma carac-
mento analítico, tais como notícias, demonstra- terística em comum, sendo o subconjunto de
ções contábeis das empresas pesquisadas, relató- uma população, a amostra. Para Mascarenhas

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(2012), a amostra é caracterizada por um pedaço da população que se pretende pesquisar. Portan-
to, a população desta pesquisa abrange as 24 empresas listadas na B3 até dezembro de 2016 com
processo de recuperação judicial ativo.
A amostra é composta por doze companhias, com registro regular na bolsa de valores bra-
sileira, devidamente aptas a desenvolver suas atividades operacionais; empresas com processo
falimentar foram excluídas. Para a seleção da amostra, foi levada em consideração também a data
de aprovação do plano de reestruturação – foram eliminadas as companhias com plano de recu-
peração aprovado em assembleia geral de credores apenas em 2016, pois pretende-se verificar a
efetividade do processo de recuperação judicial, e, nesses casos, os dados para embasamento da
pesquisa seriam escassos.
O Quadro 3 demonstra a relação de empresas que serviram de amostra para esta pesquisa.

Quadro 3 - Amostra de companhias em recuperação judicial listadas na B3


Empresa Fundação Sede Atividade principal
Companhia Industrial Produção e comercialização de produtos
17/8/1966 Brusque (SC)
Schlosser S.A têxteis.
Fibam Cia Industrial São Bernardo do Fabricação de peças e acessórios para veículos
26/10/1970
S.A Campo (SP) automotores.
Fabricação e fornecimento de bens de capital
Inepar Equipamentos
31/10/1997 São Paulo (SP), sob encomenda, sistemas em regime “Turn-
e Montagens S.A
Key” (Pacotes).
Fabricação de equipamentos e sistemas
Inepar S.A Indústria e
20/12/1971 São Paulo (SP) elétricos, de torres e acessórios para
Construções
transmissão de energia e telecomunicações.
Kosmos Comércio de Comércio por atacado e varejo, desenvolvido
05/12/1994 São Paulo (SP)
Vestuários S.A em lojas e magazines.
Produção e venda de rodas automotivas de
Mangels Industrial São Bernardo do
06/7/1966 alumínio, de recipientes de Gás Liquefeito de
S.A Campo (SP)
Petróleo (GLP) para ônibus e caminhões.
Pesquisa, lavra, refino, processamento,
OGX Petróleo e Gás Rio de Janeiro comércio e transporte de petróleo e gás natural
27/6/2007
S.A (RJ) e de outros hidrocarbonetos, e atividades
correlatas.
Participação no capital de outras sociedades,
Óleo e Gás Rio de Janeiro que atuam no segmento de petróleo e gás,
10/4/2006
Participações S.A (RJ) nacionais ou estrangeiras, constituídas sob
qualquer tipo societário.
Participação no capital social de outras
sociedades, dedicadas ao setor de
Rio de Janeiro
OSX Brasil S.A 03/9/2007 equipamentos e serviços para a indústria
(RJ)
offshore de óleo e gás natural, com atuação
integrada nos segmentos de construção naval.
Participação no capital de outras empresas,
tendo como base a atividade de distribuição
Rede Energia S.A 17/8/1966 São Paulo (SP)
e geração de energia elétrica, e atividades
correlatas.

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40 ARTIGOS | É possível sobreviver a uma recuperação judicial? Evidências em empresas listadas na BM&FBOVESPA

Atividades ligadas à mecânica de solos,


Rio de Janeiro sondagens, fundações e contenções de
Tecnosolo S.A 17/10/1957
(RJ) encostas, controle tecnológico de qualidade e
construção civil.
Teka Tecelagem Produção e comercialização de produtos
21/1/1966 Blumenau (SC)
Kuehnrich S.A têxteis.
Fonte: adaptado pelos autores B3 (2017).

4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RE- cambiais e abruptas oscilações de juros prati-


SULTADOS cados no mercado financeiro, além de outros
fatores pontuais, que levaram todas essas em-
Para a realização desta pesquisa, optou- presas a se socorrerem na possibilidade da re-
-se em analisar as demonstrações contábeis das cuperação judicial. Por exemplo, as empresas
empresas, compreendendo o ano antes do pedi- voltadas para o setor têxtil e de vestuário, que
do de recuperação judicial e todos os anos pos- enfrentaram problemas com a redução do fatu-
teriores ao pedido. Para tanto, foram calculados ramento em função da concorrência externa; a
os indicadores contábeis contemplados na pes- dificuldade de adaptação do custo fixo à nova
quisa por meio de planilha eletrônica, com base realidade mercadológica; a corrosão do capital
nas demonstrações contábeis das companhias, próprio em decorrência do acúmulo de resul-
obtidas por meio de download no site da B3. tados econômicos negativos e consequentes
Partindo da premissa de que a finalidade aumentos do endividamento e redução da capa-
da análise das demonstrações contábeis é de for- cidade de pagamento; a dificuldade de acesso
necer bases para inferir o que poderá acontecer às fontes de financiamentos, pela total ausência
no futuro e identificar tendências para tomadas de crédito e a alta do preço de suas principais
de decisões, a pesquisa traz a análise dos indica- matérias primas.
dores que apontam a situação econômica, finan- As empresas do setor metal mecânico e
ceira e operacional das companhias listadas na automobilístico sofrem com o reflexo da crise
B3, com processo de recuperação judicial, a fim mundial desde 2008, iniciada na Europa e nos
de contribuir com a verificação do desempenho Estados Unidos. Embora o governo brasileiro
desse incentivo à atividade econômica. tenha auxiliado o setor com medidas que busca-
Partindo da análise das demonstrações vam minimizar o impacto da crise econômica,
financeiras das empresas abrangidas na amos- como o Programa Inovar-Auto, visando reduzir
tra, a pesquisa buscou investigar o processo de os impostos para o setor automobilístico, essas
recuperação judicial, quanto a seu objetivo de benesses não foram suficientes para alavancar
viabilizar a superação da situação de crise eco- as vendas de veículos, tendo em vista a falta
nômico-financeira. de crédito e a confiança do consumidor, razão
Outras informações econômicas e finan- pela qual a situação econômica das empresas
ceiras, relacionadas ao processo de recupera- do segmento agravou-se gradativamente nos
ção judicial, foram extraídas dos Relatórios de anos posteriores.
Auditoria, além de informações adicionais dis- Dos fatores pontuais que levaram as em-
ponibilizadas no site da Comissão de Valores presas de energia à situação de crise econômi-
Mobiliários – CVM. co-financeira, pode-se citar a complexidade do
De fato, a amostra objeto da pesquisa setor energético brasileiro, que, desde 1995,
abrange empresas em crise econômico-finan- vem passando por profundas transformações. A
ceira, as quais vêm enfrentando dificuldades edição de leis e regulamentos vem sendo ins-
recorrentes da atividade produtiva, como hipe- tituída em relação ao regime de concessão, à
rinflação, congelamento de preços, variações operacionalização de revisões tarifárias, à co-

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AUTORES | Sinara Jaroseski, Mirray Muneretto de Andrade, Alex Eckert, Graciela Bavaresco da Silva, Marlei Salete Mecca 41

mercialização de energia, às regras para atendi- Da análise econômica e financeira das


mento aos consumidores cativos e livres, e tam- empresas citadas na pesquisa, pode-se concluir
bém à criação de novos agentes institucionais, que prazos estendidos para o pagamento de
além daqueles já existentes. passivos, embora bastante favoráveis em um
Das empresas voltadas para o setor de in- primeiro momento, podem não ser suficientes
fraestrutura, bem como para o setor petrolífero, se não houver aumento no faturamento e na
as principais causas da instaurada crise econô- redução nos custos e ainda podem dar a ideia
mico-financeira são a recessão da economia, os de que a empresa esteja trabalhando com pra-
vultosos resultados negativos de projetos frus- zos alongados para pagamento de suas dívidas,
trados de extração de óleo e gás, que, embora a quando, na verdade, estas estão em atraso por
investigação técnica empreendida inicialmente falta do cumprimento da obrigação. Empresas
tenha resultado em previsões de produção sig- em recuperação judicial precisam se tornar ca-
nificativas, a exploração mostrou-se comercial- pazes de obter rentabilidade sobre os ativos in-
mente inviável em alguns casos, além das ques- vestidos, produzindo efeito, ao longo dos anos,
tões políticas relacionadas às investigações na sobre a liquidez, bem como um bom posiciona-
empresa Petrobras. mento do endividamento, de modo a rentabili-
Depois de constatada a crise econômico- zar o acionista e não onerar a atividade com o
-financeira, as empresas abrangidas na amos- custo financeiro dessa operação.
tra concluíram que a recuperação judicial lhes Portanto, ainda que a renegociação da dí-
proporcionaria mecanismos para viabilizar a vida com prazos estendidos seja um ponto posi-
superação da situação de crise econômico-fi- tivo da recuperação judicial, deve-se ter cautela
nanceira. Os objetivos para tanto permeiam a com esse mecanismo, conforme as circunstân-
necessidade de equilibrar o interesse social, a cias já mencionadas.
satisfação dos credores e o respeito aos direitos Outro ponto que deve ser analisado re-
do devedor, promovendo, assim, a preservação fere-se ao crédito tributário, considerado um
da empresa, sua função social e o estímulo à grande problema para as empresas que buscam
atividade econômica. sua recuperação. Como é de conhecimento, a
De acordo com decisões do Superior Lei 11.101/05 (BRASIL, 2005), que dispõe so-
Tribunal de Justiça – STF, após cumpridas as bre a recuperação judicial, entrou em vigor em
exigências legais da Lei 11.101/05 (BRASIL, 8 de junho de 2005. Todavia, somente ao final
2005), o juiz deve conceder a recuperação judi- do ano de 2014, foi instituído parcelamento de
cial do devedor, cujo plano tenha sido aprova- dívidas fiscais no âmbito federal, especialmen-
do em assembleia geral dos credores, pois não te para as sociedades em recuperação judicial,
cabe a este julgar quanto ao aspecto da viabili- regulamentado pela Lei 13.043/2014.
dade econômica da empresa, uma vez que tal O que poderia ser considerado um pon-
questão é de exclusiva apreciação dos credores. to positivo, todavia, em linha de princípio,
Das empresas abrangidas na amostra, este parcelamento não representa um direito,
75% aguardaram mais de seis meses para ter propriamente dito, para o contribuinte, tendo
seu plano de recuperação judicial aprovado em vista que a possibilidade de parcelamento
pela assembleia geral dos credores, havendo está subordinada a condições onerosas para a
casos em que esse prazo chegou próximo a dois sociedade em recuperação, em desacordo com
anos. Ou seja, em média, as empresas ficaram o princípio da preservação da empresa. Neste
um semestre sem o efetivo pagamento aos cre- ponto, cabe mencionar que compete ao judici-
dores, além de gozarem de privilégios para o ário equilibrar os interesses em conflito, nota-
pagamento de suas dívidas, por meio de prazos damente entre a reestruturação pretendida pela
estendidos com deságio sobre estes, emissão de empresa que busca a recuperação (empregos,
debêntures perpétuas, entre outros. aquecimento econômico) e o interesse público

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42 ARTIGOS | É possível sobreviver a uma recuperação judicial? Evidências em empresas listadas na BM&FBOVESPA

para recebimento dos tributos devidos (saúde, no fluxo de pagamento da dívida durante o pe-
educação, segurança, por exemplo). ríodo. Conforme os indicadores abordados na
De fato, o instituto da recuperação judi- pesquisa, a empresa ainda não emitia sinais
cial possibilita às empresas em crise econômi- claros de recuperação. Cabe mencionar que o
co-financeira diversas formas para se recuperar, fim do acompanhamento judicial não restringi-
todavia, de acordo com os dados desta pesqui- rá a duração do plano, o qual deverá perdurar o
sa, verifica-se que esse processo é longo, sendo tempo descrito e aprovado na assembleia geral
assim, necessária a revisão das medidas inicial- dos credores.
mente assentidas no plano de recuperação. Ain- Outro ponto a se destacar é o fato de que
da que aprovada a viabilidade econômica das essas empresas, ao longo de suas dificuldades
empresas por seus credores, há outros fatores enfrentadas na esfera econômica e financeira,
que influenciam sua recuperação. Por exemplo, foram perdendo a credibilidade junto a seus
a queda do faturamento é um fator mercadoló- credores. Como o objetivo é recuperar a ati-
gico imprevisível que prejudicou e ainda preju- vidade, muitas vezes elas esbarram na falta de
dica a recuperação de muitas empresas. crédito, prazos e fornecimento para assegurar
Das análises abordadas, constata-se que sua continuidade.
apenas a empresa Rede Energia apontou resul- De acordo com a Lei 11.101/05 (BRASIL,
tados satisfatórios para concluir que está em via 2005), a recuperação judicial deve ser um incen-
de se recuperar, enquanto as demais continuam tivo à atividade econômica, entretanto, diante dos
trabalhando com um ciclo financeiro desfavo- casos analisados, entende-se que a lei deve ser
rável, má estrutura do endividamento e baixa revista para que esse procedimento seja rápido
rentabilidade sobre os ativos. e eficaz para as grandes companhias do País. O
Em agosto de 2016, a Rede de Energia grande objetivo dessa regulamentação é viabilizar
obteve decisão decretando o encerramento da a superação da situação de crise econômico-finan-
recuperação judicial, uma vez que cumpriu to- ceira do devedor, a fim de permitir a manutenção
das as obrigações previstas no plano de recupe- da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores
ração dentro do período de dois anos, confor- e dos interesses dos credores, promovendo, as-
me disposto no artigo 61, da Lei 11.101/2005 sim, a preservação da empresa, sua função social
(BRASIL, 2005). Contra essa decisão, alguns e o estímulo à atividade econômica.
credores apresentaram embargos de declara-
ção, os quais foram devidamente rejeitados 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
pelo juízo da recuperação em decisão datada de
11/10/2016. Na sequência, um dos credores da O peculiar quadro atual da economia
companhia interpôs apelação contra a decisão brasileira demanda cautela para toda a socieda-
de encerramento. Aguarda-se o processamento de. É notório como o mercado de capitais reage
do recurso e o seu julgamento pelo Tribunal de a cada notícia fornecida pela mídia, que, con-
Justiça de São Paulo. sequentemente, afeta a inflação, restringe os
Do mesmo modo, a empresa Mangels investimentos e faz que o dólar oscile. Enfim,
S.A teve decretado o fim do acompanhamen- uma série de fatores que, implacavelmente, afe-
to judicial sobre sua recuperação em março de tam a economia brasileira.
2017. Todavia, o encerramento da recuperação Diante disso, a pesquisa buscou abordar
judicial ocorreu três meses depois de a Mangels aspectos relevantes da recuperação judicial,
ter aprovado um aditivo alterando as condições com a finalidade de apontar, por meio dos indi-
de pagamento estabelecidas no plano inicial, cadores contábeis, o desempenho das empresas
aumentando a carência para mais dois anos dos que recorreram a esse procedimento jurídico,
pagamentos das dívidas repactuadas, a fim de como forma de viabilizar a superação da situa-
possibilitar melhor redistribuição e equilíbrio ção de crise econômico-financeira.

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AUTORES | Sinara Jaroseski, Mirray Muneretto de Andrade, Alex Eckert, Graciela Bavaresco da Silva, Marlei Salete Mecca 43

De fato, a recuperação judicial propor- abordadas na pesquisa, com vistas a verificar


ciona diversos meios que podem ser utilizados o desfecho do desempenho econômico, finan-
pelas empresas para superar a situação de crise. ceiro e operacional de suas atividades, a fim de
Todavia, diante dos casos analisados na pesqui- constatar quando e como irão se recuperar eco-
sa, pode-se concluir que apenas uma empresa nômica e financeiramente, e se um dia alcança-
teve sinais claros de recuperação, e ainda as- rão a almejada reestruturação.
sim, aguarda o desfecho de procedimentos ju-
rídicos, para então obter o fim do acompanha- REFERÊNCIAS
mento judicial sobre sua atividade econômica.
A Lei 11.101/05 (BRASIL, 2005), que re- ABRÃO, Carlos Henrique; TOLEDO, Paulo F.
gulamenta a recuperação judicial no Brasil, pos- C. de. Comentários à lei de recuperação de
sui vários pontos positivos e negativos para as empresas e falência. 6. ed. São Paulo: Saraiva,
empresas que recorrem a esse procedimento jurí- 2016.
dico. Assim, cabe aos gestores avaliar se, de fato,
esse procedimento irá reestruturar seu negócio, AKANIME, Carlos Takeo; YAMAMOTO, Ro-
ou apenas protelar um processo falimentar. berto Katsuhiro. Estudo dirigido de estatísti-
É notório que a crise econômico-finan- ca descritiva. 3 ed. São Paulo: Érica, 2013.
ceira das empresas listadas na pesquisa advém
de fatores pontuais da economia brasileira, uma ASSAF NETO, Alexandre. Estrutura e análi-
série de questões que não poderão ser solucio- se de balanços: um enfoque econômico-finan-
nadas apenas com os meios disponibilizados ceiro. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
na Lei 11.101/05 (BRASIL, 2005). Conclui-se,
portanto, que não há efetivação da legislação AYOUB, Luiz Roberto; CAVALLI, Cássio.
brasileira no tocante ao incentivo da atividade FGV - A Construção Jurisprudencial da Re-
econômica, sendo que a recuperação judicial cuperação Judicial de Empresas. 2. ed. Rio
representa, atualmente, em escala nacional, o de Janeiro: Forense, 2016. Disponível em: ht-
único incentivo legislativo à preservação das tps://[Link]. Acesso
empresas em crise econômico-financeira. em: 20 out. 2016.
Essas questões são de interesse comum
da sociedade. A geração de emprego e renda BRAGA, Hugo Rocha. Demonstrações con-
depende da boa saúde financeira, econômica tábeis: estruturação, análise e interpretação. 7.
e operacional das empresas; porém, estas tam- ed. São Paulo: Atlas, 2012.
bém dependem de normas e regulamentos que
agilizem os processos, quando suas situações BRASIL. Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de
não estiverem conforme o planejado. O que se 1976. Dispõe sobre as Sociedades por Ações.
percebe é uma morosidade do sistema judicial Brasília, DF: Presidência da República, 1976.
no despacho dos processos de recuperação ju- Disponível em: [Link]
dicial, o que pode deixar a empresa em um ris- ccivil_03/leis/[Link]. Acesso em:
co maior do que o atualmente vivido. 20 out. 2016.
As limitações encontradas na realização
desta pesquisa foram relativas ao período ava- BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de
liado, pois, devido ao contexto socioeconômico 2002. Institui o Código Civil. Brasília, DF:
peculiar de recessão no País, inibe o isolamento Presidência da República, 2002. Disponível
das causas da efetividade ou não do regime de em: [Link]
recuperação judicial. leis/2002/[Link]#art2044. Acesso em: 20
Assim, para estudos futuros, sugere-se out. 2016.
um acompanhamento contínuo das empresas

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 31-45, maio/ago. 2019
44 ARTIGOS | É possível sobreviver a uma recuperação judicial? Evidências em empresas listadas na BM&FBOVESPA

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CORREÇÃO: ‘Imprevisibilidade econômica’ é MARTINS, Adriano de Oliveira. Recuperação


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ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 31-45, maio/ago. 2019
46 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p46-60.2019

ARTIGOS

NÍVEL DE DIVULGAÇÃO DO PASSIVO


CONTINGENTE: UM ESTUDO NOS BANCOS
LISTADOS NA BM&FBOVESPA

LEVEL OF DISCLOSURE OF CONTINGENT LIA-


BILITIES: A STUDY OF BANKS LISTED ON BM
& FBOVESPA

RESUMO

O presente estudo objetiva avaliar o nível de divulgação do pas-


sivo contingente dos bancos listados nos segmentos diferenciados
de governança corporativa da BM&FBovespa nos demonstrativos
financeiros de 2014 a 2016. Este estudo consiste em uma pesquisa
qualitativa, classificada como descritiva. O procedimento metodo-
lógico adotado para a coleta de dados foi a análise documental. A
amostra foi composta por dez companhias, e os resultados apon-
tam que a média do nível de divulgação foi de 63%. Constatou-se
que, das dez empresas analisadas, seis apresentaram o nível acima
da média e quatro ficaram abaixo. Para este artigo, priorizou-se a
descrição de seis empresas, três com nível acima da média e três
com nível abaixo. Observou-se que os passivos contingentes mais
encontrados foram tributários, trabalhistas e cíveis, respectiva-
mente. Percebeu-se que as companhias ainda não estão cumprindo
adequadamente as exigências estabelecidas pelo CPC 25 (2009);
porém, a maioria apresentou níveis de divulgação satisfatórios.

Palavras-chave: Passivos Contingentes. Divulgação. CPC 25.


Governança Corporativa.
Camila Silva Nascimento
[Link]@[Link]
Graduada em Ciências
ABSTRACT
Contábeis pelo Centro
Universitário Christus The present study aims to evaluate the level of disclosure of the
(Unichristus). Fortaleza - CE contingent liabilities of listed banks in the differentiated segments
- BR.
of corporate governance of BM&FBovespa in the financial state-
Jorge Alberto de Saboia ments from 2014 to 2016. A qualitative research, classified as
Arruda descriptive. The methodological procedure adopted for the data
[Link]@[Link] collection was documental analysis. The sample consisted of ten
Mestre em Economia. Graduado companies and the results indicate that the average level of disclo-
em Administração. Professor do
Centro Universitário Christus
sure was 63%. It was verified that of the 10 companies analyzed,
(Unichristus). Fortaleza - CE six were above average and four were below. For this article, we
- BR. prioritized the description of 6 companies, 3 with above average

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Camila Silva Nascimento, Jorge Alberto de Saboia Arruda 47

level and 3 with level below. It was observed e da preocupação dos usuários da contabili-
that the most frequent contingent liabilities dade com a qualidade das informações con-
were tax, labor and civil, respectively. It was tábeis, o passivo ganhou destaque devido à
noticed that the companies are not yet adequate- necessidade de demonstrar a real situação
ly complying with the requirements established líquida da entidade e da avaliação dos ris-
by CPC 25 (2009), however, the majority pre-
cos inerentes à atividade da entidade (CA-
sented satisfactory levels of disclosure.
ETANO et al., 2010; SUAVE et al., 2013).
Keywords: Contingent Liabilities. Disclosure. Assim, este artigo tem como objetivo ava-
CPC 25. Corporate Governance. liar o nível de divulgação do passivo con-
tingente dos bancos listados nos segmentos
1 INTRODUÇÃO diferenciados de governança corporativa da
BM&FBovespa nos demonstrativos finan-
No Brasil, a adequação às normas in- ceiros de 2014 a 2016.
ternacionais de contabilidade veio com as Os segmentos diferenciados de go-
Leis 11.638/2007 e 11.941/2009, que de- vernança corporativa (Novo Mercado, Ní-
terminaram a adoção dos pronunciamentos vel 1 e Nível 2) são direcionados às compa-
técnicos emitidos pelo Comitê de Pronun- nhias que se comprometem com a adoção
ciamentos Contábeis (CPC). Essas normas de práticas de governança corporativa
têm o objetivo de direcionar o modo como adicionais às exigidas em lei (BM&FBO-
as empresas divulgam as demonstrações VESPA, 2016). Fonteles et al. (2013) cons-
financeiras, proporcionando maior com- tataram que as empresas listadas no Novo
parabilidade e qualidade nas informações Mercado e nos Níveis 1 e 2 de Governança
prestadas e, assim, tornando o processo de Corporativa apresentam nível de disclosure
tomada de decisão mais eficiente (CAS- mais elevado quando comparado com as de-
TRO JUNIOR, 2013; SUAVE et al., 2013). mais empresas. Castro Junior (2013) afirma
O pronunciamento técnico CPC 25 que as empresas listadas nesses segmentos
trata, entre outros aspectos, dos critérios possuem critérios mais rígidos de eviden-
de reconhecimento e base de mensuração ciação. Dessa maneira, optou-se, nesta pes-
apropriada às provisões, ao passivo e ati- quisa, por restringir a análise às instituições
vo contingente e da divulgação em notas financeiras listadas nos segmentos diferen-
explicativas de informações relacionadas à ciados de governança corporativa.
sua natureza, oportunidade e valor (COMI-
TÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁ- 2 REVISÃO DE LITERATURA
BEIS, 2009). Quanto às companhias aber-
tas, a Deliberação nº 594/2009 da Comissão 2.1 PASSIVO
de Valores Mobiliários (CVM) tornou obri-
gatória a aplicação do Pronunciamento O passivo refere-se a compromissos
assumidos com terceiros, que devem ter seus
Técnico CPC 25, a partir de 2010. Enquan-
valores reconhecidos e destacados no Balan-
to em relação às instituições financeiras, o ço Patrimonial da entidade. O Pronunciamen-
Banco Central do Brasil (BACEN) emitiu to Conceitual Básico CPC 00 R1, emitido em
a Resolução nº 3.823/2009 que determina 2011 pelo CPC para fundamentar a elaboração
a observância do CPC 25 a partir de 2010. e a divulgação das demonstrações contábeis, no
Diante da publicação dessas normas item 4.4 b, define o passivo como “uma obriga-

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48 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

ção presente da entidade, derivada de eventos da entidade; e (b) o item tiver custo ou valor
passados, cuja liquidação se espera que resul- que possa ser mensurado com confiabilidade.
te na saída de recursos da entidade capazes de A primeira condição para o reconhecimen-
gerar benefícios econômicos.” (COMITÊ DE to é que o elemento atenda a definição de passi-
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011, vo. A segunda é que ele possua valor que possa
p. 23). A definição apresenta três características ser mensurado com confiabilidade ou possa ser
essenciais: uma obrigação presente da entidade, estimado com razoabilidade, pois o uso de esti-
resultado de transações ou eventos passados, e mativas razoáveis não altera sua confiabilidade.
a liquidação implicará a saída de recursos ge- A falta de reconhecimento não é corrigida pela di-
radores de benefícios futuros (COMITÊ DE vulgação de notas explicativas e outros materiais
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011; explicativos nem das práticas contábeis adotadas
NIYAMA; SILVA, 2013). (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON-
As obrigações são criadas a partir de um TÁBEIS, 2011; NIYAMA; SILVA, 2013).
evento, que faz que a entidade não tenha nenhu- Quanto à classificação, os passivos po-
ma alternativa realista senão liquidar a obrigação. dem ser classificados quanto à sua ocorrência
A não liquidação pode gerar penalidades signifi- (normais ou contingentes), quanto à sua liquida-
cativas para a entidade (COMITÊ DE PRONUN- ção (monetários ou não monetários) e quanto à
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009; NIYAMA; sua evolução (onerosos ou não onerosos) (FA-
SILVA, 2013). Uma obrigação pode ser legal ou RIAS, 2004). Dessa maneira, serão apresentados
não formalizada. Obrigação legal é oriunda de um a seguir os passivos contingentes e as provisões.
contrato, de uma legislação ou de outra ação da
lei. A não formalizada decorre de ações da entida- 2.2 PROVISÕES E PASSIVOS CON-
de que indicam a outras partes que aceitará certas TINGENTES
responsabilidades e cria expectativas válidas de
que cumprirá com essas responsabilidades (CO- Deve-se ressaltar que, inicialmente, o
MITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁ- CPC 25 (COMITÊ DE PRONUNCIAMEN-
BEIS, 2009). Para ser considerado um passivo, a TOS CONTÁBEIS, 2009) define provisão
obrigação deve ser resultado de um evento passa- como um passivo de prazo ou de valor incer-
do (FARIAS, 2004). tos. Logo, as provisões são diferenciadas dos
A existência de um passivo indica que, passivos quando há incerteza sobre os prazos
futuramente, a entidade deverá utilizar recursos ou os valores que serão desembolsados ou exi-
incorporados de benefícios econômicos para gidos para sua liquidação. Dessa forma, uma
sua liquidação. De acordo com o CPC 00 R1 provisão deve ser reconhecida quando atender
(COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON- ao conceito de passivo e puder ser feita uma
TÁBEIS, 2011), isso pode ocorrer de diversas estimativa confiável do montante da obrigação.
formas, como, por meio de pagamento em cai- O valor reconhecido como provisão deve ser a
xa, transferência de ativos, prestação de servi- melhor estimativa, valor requerido na hipótese
ços, substituição de uma obrigação por outra, de a entidade pagar ou transferir a obrigação
conversão da obrigação em item do patrimônio para terceiros na data do balanço (COMITÊ DE
líquido, renúncia por parte do credor ou pela PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009;
perda de seus direitos. GELBCKE et al., 2013).
O CPC 00 R1 (COMITÊ DE PRONUN- O passivo contingente é um tipo de passi-
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011) destaca vo que, para sua efetivação, depende da ocorrên-
que os elementos patrimoniais serão reconhe- cia ou não de um evento no futuro. Esse evento
cidos na demonstração contábil se: (a) for pro- pode resultar em ganhos ou perdas para a entida-
vável que algum benefício econômico futuro de e não está totalmente sob o controle (COMI-
associado ao item flua para a entidade ou flua TÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS,

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2009; CAETANO et al., 2010). É, também, uma 2.3 TEORIA DA DIVULGAÇÃO


obrigação presente derivada de eventos passados
que não é reconhecida porque não é provável a A evidenciação ou disclosure contá-
saída de recursos para sua liquidação, ou seu bil trata de uma das etapas do processo con-
valor não pode ser estimado com confiabilida- tábil; diz respeito à apresentação ordenada
de suficiente. Adicionalmente, o termo passivo
das transações e aos eventos ocorridos no
contingente é usado para passivos que não sa-
tisfaçam os critérios de reconhecimento (COMI- patrimônio das organizações, propiciando
TÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, uma base de informações adequada (CAS-
2009; GARCIA, 2015). A partir do quadro 1, é TRO JUNIOR, 2013). Neste estudo, os ter-
possível observar a definição e o tratamento con- mos evidenciação, disclosure e divulgação
tábil direcionado a cada classificação. serão tratados como sinônimos, e signifi-
Quadro 1 - Tipos de passivo contingente e tratamento contábil
Possibilidade Definição Tratamento Contábil
Provavelmente, requer uma saída de Será reconhecida a provisão e divulgada em
Provável
recursos. notas explicativas.
Pode requerer, mas, provavelmente, Não será reconhecida nenhuma provisão, mas o
Possível não irá requerer uma saída de passivo contingente deve ser divulgado em notas
recursos. explicativas.
Remota probabilidade de uma saída Não será reconhecida nenhuma provisão, nem
Remota
de recursos. deve ser divulgado em notas explicativas.
Fonte: adaptado do CPC 25 (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009).

Percebe-se, por meio das informações cam tornar algo evidente e público, no que se
contidas no Quadro 1, que, quando a contingên- refere às informações contábeis.
cia é considerada provável, há o reconhecimen- A divulgação de informações contá-
to da provisão e o item aparece no Balanço Pa- beis tem o objetivo de auxiliar os usuários na
trimonial complementado por nota explicativa. tomada de decisão. Para isso, as informações
No entanto, quando é considerada possível, não precisam ser relevantes e completas. Segundo
deve ser feito o registro contábil, embora deva Hendriksen e Van Breda (1999), para se conse-
ser divulgada em notas explicativas. Quando a guir uma divulgação apropriada, é necessário
possibilidade é remota, não ocorre nem o re- responder a três perguntas fundamentais: para
gistro nem a divulgação em notas explicativas. quem divulgar? Qual a finalidade da informa-
Já as estimativas devem levar em consi- ção divulgada? Quanto divulgar?
deração os riscos e as incertezas que, inevita- As demonstrações contábeis têm a fina-
velmente, estão ligados aos eventos ocorridos. lidade de fornecer informações úteis à tomada
O risco descreve a variabilidade de desfechos de decisão que devem ser divulgadas, princi-
possíveis, e a incerteza não deve justificar a es- palmente, a seus usuários primários: acionis-
colha do desfecho mais adverso. O desfecho a tas, outros investidores e credores. As decisões
ser considerado deve ser o mais provável. As tomadas por esses grupos são bem definidas e
provisões devem ser reavaliadas e ajustadas a simples: os investidores decidem, basicamen-
cada data de balanço para refletir a melhor esti- te, sobre compra, manutenção ou venda, e os
mativa corrente. A provisão deve ser revertida credores sobre conceder crédito ou não. Porém,
caso deixe de ser provável a saída de recursos existem os destinatários secundários, dos quais
para a liquidação da obrigação (COMITÊ DE não se conhecem as decisões: funcionários,
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009). clientes, governo e público em geral (COMITÊ
DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS,

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50 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

2011; HENDRIKSEN; VAN BREDA, 1999). Por meio do quadro 2, pode-se perceber
A Orientação Técnica OCPC 07 (CO- que a divulgação baseada em Associação veri-
MITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON- fica a existência de associação entre o disclo-
TÁBEIS, 2014) esclarece e reforça que, nas sure e as variáveis de mercado, por exemplo,
demonstrações contábeis e respectivas notas o preço das ações da empresa. Já a Divulgação
explicativas, sejam divulgadas informações baseada em Eficiência engloba a divulgação de
relevantes que, de fato, façam a diferença nas informações preferíveis quando não se conhece
decisões que possam ser tomadas pelos usuá- a informação anterior. Na Divulgação baseada
rios. A contabilidade deve expressar, de forma em Julgamento, o gestor exerce sua discricio-
apropriada, a situação patrimonial e financeira nariedade, decidindo divulgar ou não determi-
da entidade e as mutações ocorridas no perí- nadas informações. Desse modo, este estudo se
odo por meio da divulgação das demonstra- enquadra, de forma adaptada, como Divulgação
ções contábeis exigidas pelo artigo 176 da Lei Baseada em Associação, pois trata de analisar a
6.404/1976 (BRASIL, 1976). São obrigatórias divulgação da informação, mas sem relacionar
as seguintes demonstrações: balanço patrimo- com os efeitos causados nos agentes.
nial, demonstração dos lucros ou prejuízos As informações sobre o passivo con-
acumulados, demonstração do resultado do tingente devem ser divulgadas em notas ex-
exercício, demonstração dos fluxos de caixa plicativas, que, além de fornecer informações
e demonstração do valor adicionado. O CPC adicionais sobre as demonstrações contábeis,
26 R1 (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS oferecem descrições narrativas ou segregações,
CONTÁBEIS, 2011) acrescenta a divulgação abertura de itens divulgados nessas demons-
da demonstração do resultado abrangente e a trações e informação acerca de itens que não
demonstração das mutações do patrimônio lí- se enquadram nos critérios de reconhecimen-
quido, que inclui a demonstração dos lucros ou to nas demonstrações contábeis (COMITÊ DE
os prejuízos acumulados. PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2011).
O disclosure pode ser apresentado de A divulgação das informações sobre as contin-
forma obrigatória ou voluntária. A divulgação gências de uma organização contribui para me-
obrigatória corresponde à abrangência das infor- lhor avaliação da entidade no mercado.
mações exigidas por lei, envolvendo os requeri- A Divulgação do Passivo Contingente é
mentos de informações para registro das compa- importante para o mercado de capitais, no qual
nhias abertas e as demais informações periódicas as empresas estão inseridas, pois essa eviden-
exigidas pelas comissões de valores mobiliários, ciação demonstra a forma como as empresas li-
como a publicação das demonstrações contábeis. dam com os riscos potenciais ligados à sua ati-
Quanto à divulgação voluntária, ela se refere à vidade. Essas informações, se adequadamente
veiculação de toda informação que seja útil para divulgadas, impactam os modelos de avaliação
a tomada de decisões pelos diversos usuários, en- das empresas, reduzindo as incertezas, dimi-
volve informações que não são exigidas por lei, nuindo a assimetria de informações, interferin-
mas que oferecem maior transparência (LIMA, do no valor de mercado da empresa e podendo
2007; OLIVEIRA; BENETTI; VARELA, 2011). dar aos usuários condições de escolher entre
Quadro 2 - Tipos de Disclosure
Tipos de Disclosure Definição
Baseada em Associação Examinam-se a relação e os efeitos nos agentes durante o evento do disclosure.
Analisa-se a existência de arranjos eficientes no disclosure que seriam preferidos
Baseada em Eficiência
incondicionalmente.
Examina-se a discricionariedade que os gestores exercem com relação às
Baseada em Julgamento
decisões do disclosure.
Fonte: elaborado a partir de Verrecchia (2001 apud MURCIA; SANTOS, 2009).

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estabelecer ou manter relações com a organiza- a provisão e o passivo contingente. E, caso al-
ção (PRADO, 2014). guma das informações exigidas não forem di-
Conforme mencionado, as provisões e os vulgadas por não ser praticável, a entidade deve
passivos contingentes devem ser divulgados nas divulgar esse fato.
demonstrações contábeis e em notas explicati- O Sistema de Governança Corporativa
vas (HENDRIKSEN; VAN BREDA, 1999). A traz alguns princípios básicos: transparência,
divulgação do passivo contingente está prevista que consiste na divulgação de informações de
no artigo 176 da Lei 6.404/1976, no parágrafo interesse dos envolvidos e não apenas os exigi-
referente às notas explicativas, assim, descrito: dos nas leis e nos regulamentos; equidade, trata-
“§ 5o As notas explicativas devem: [...] IV – in- mento justo de todos os sócios e demais partes
dicar [...] d) os ônus reais constituídos sobre interessadas; prestação de contas, os agentes de
elementos do ativo, as garantias prestadas a ter- governança devem prestar contas de modo claro,
ceiros e outras responsabilidades eventuais ou compreensivo, preciso e tempestivo, assumindo
contingentes; [...].” (BRASIL, 1976, on-line). a consequência de seus atos e agindo com res-
Assim, conforme as exigências dos itens ponsabilidade; e responsabilidade corporativa,
84 a 92 do CPC 25 (COMITÊ DE PRONUN- que é o zelo pela viabilidade econômico-finan-
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009), para cada ceira da organização, minimizando os impactos
classe de provisão, a entidade deve divulgar o negativos e aumentando os positivos inerentes
valor contábil no início e no fim do período; as às suas operações (IBGC, 2017).
provisões adicionais feitas no período, incluindo A BM&FBovespa criou os segmentos
aumentos nas provisões existentes; os valores especiais de listagem das ações após perceber
utilizados (ou seja, incorridos e baixados contra que era necessário ter segmentos adequados
a provisão) durante o período; os valores não uti- aos diferentes perfis de empresas, para que o
lizados revertidos durante o período; e o aumento mercado de capitas se desenvolva. Os segmen-
durante o período no valor descontado ao valor tos especiais são: Bovespa Mais, Bovespa Mais
presente, proveniente da passagem do tempo, e o Nível 2, Novo Mercado, Nível 2 e Nível 1.
efeito de qualquer mudança na taxa de desconto. Além desses segmentos, a BM&FBovespa pos-
Não é exigida informação comparativa. sui, ainda, o Segmento Básico, que não conta
A entidade deve divulgar, em notas ex- com regras diferenciadas de governança corpo-
plicativas para cada classe de passivo contin- rativa (BM&FBOVESPA, 2017).
gente, na data do balanço, uma breve descrição O Novo Mercado estabeleceu um pa-
da natureza do passivo contingente (trabalhista, drão altamente diferenciado de governança
tributária, cível e ambiental) e, quando praticá- corporativa. Tornou-se o padrão exigido pelos
vel, a estimativa do seu efeito financeiro, con- investidores para novas aberturas de capital,
forme as regras de mensuração, considerando recomendado para empresas que pretendem
a melhor estimativa, os riscos e as incertezas; fazer ofertas grandes e direcionadas a qual-
a indicação das incertezas relacionadas ao va- quer tipo de investidores. A listagem nesse
lor ou ao momento de ocorrência de qualquer segmento acarreta a adoção de um conjunto de
saída e a possibilidade de qualquer reembolso regras societárias que ampliam os direitos dos
(COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CON- acionistas, além da adoção de uma política de
TÁBEIS, 2009). divulgação de informações mais transparente e
O CPC 25 (COMITÊ DE PRONUN- abrangente (BM&FBOVESPA, 2017).
CIAMENTOS CONTÁBEIS, 2009) estabelece O Nível 2 é semelhante ao Novo Mer-
ainda que, quando a provisão e o passivo con- cado, com algumas exceções. Por exemplo, ele
tingente surgirem do mesmo conjunto de cir- permite a existência de ações ordinárias e pre-
cunstâncias, a entidade deve fazer a divulgação ferenciais com direito a voto em situações crí-
exigida de forma que evidencie a ligação entre ticas. No Novo Mercado, somente são permiti-

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52 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

das ações ordinárias. Para ser classificada nesse ser classificada como descritiva, uma vez que
nível, a empresa precisa atender às exigências visa identificar, relatar e comparar o nível de
do Nível 1, além disso, adotar outras práticas divulgação do passivo contingente dos bancos
de governança (BM&FBOVESPA, 2017). listados nos segmentos diferenciados de gover-
As companhias listadas no Nível 1 de- nança corporativa da BM&FBovespa nos de-
vem adotar práticas que favoreçam a transpa- monstrativos financeiros de 2014 a 2016.
rência e o acesso às informações, divulgando Quanto aos procedimentos, esta pesquisa
informações adicionais às exigidas em lei. A é documental, pois se baseia em materiais que
classificação nesse nível permite a existência ainda não receberam um tratamento analítico
de ações ordinárias e preferências, conforme ou que podem ser reelaborados de acordo com
a legislação societária, a manutenção de uma os objetivos da pesquisa; por exemplo, as de-
parcela mínima de ações em circulação, a me- monstrações financeiras e as notas explicativas
lhoria nas informações trimestrais e a divulga- observadas neste estudo. Isto é, esse tipo de in-
ção de informações sobre partes relacionadas vestigação visa selecionar, tratar e interpretar a
(BM&FBOVESPA, 2017). informação bruta, buscando extrair algum sen-
tido (ALMEIDA, 2014; BEUREN, 2006).
3 METODOLOGIA Este estudo tem como universo a ser in-
vestigado os bancos listados na BM&FBoves-
Em relação à natureza, este estudo pode pa, classificados nos segmentos diferenciados
ser considerado qualitativo, por utilizar a aná- de Governança Corporativa em 2 de dezembro
lise de conteúdo ao coletar os dados nas notas de 2016. Dessa maneira, a população desta pes-
explicativas. Michel (2015, p. 40) destaca que quisa é composta por 10 empresas listadas no
“a pesquisa qualitativa se propõe a colher e a Setor Financeiro, subsetor Intermediários Fi-
analisar dados descritivos obtidos diretamente nanceiros, Bancos, conforme Quadro 3:
da situação estudada; enfatiza o processo mais
que o resultado, para o que precisa e retrata a
perspectiva dos participantes.”
Quanto aos objetivos, esta pesquisa pode
Quadro 3 - População da Pesquisa
Razão Social Código Governança Corporativa
Banco ABC Brasil S.A. ABC BRASIL Nível 2
Banco Bradesco S.A. BRADESCO Nível 1
Banco Brasil S.A. BRASIL Novo Mercado
Banco Estado do Rio Grande do
BANRISUL Nível 1
Sul S.A.
Banco Indusval S.A. INDUSVAL Nível 2
Banco Pan S.A. BANCO PAN Nível 1
Banco Pine S.A. PINE Nível 2
Itausa Investimentos Itaú S.A. ITAUSA Nível 1
Itaú Unibanco Holding S.A. ITAUUNIBANCO Nível 1
Paraná Banco S.A. PARANA Nível 1
Fonte: dados da pesquisa (2017).

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Para a análise de dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo. Segundo Michel


(2015), esta é uma técnica de levantamento de dados que utiliza informações já coletadas. Desen-
volveu-se o instrumento para verificação das informações divulgadas pelas entidades. Destarte, o
checklist possui 13 itens, sendo nove referentes à divulgação de provisões e quatro itens referentes
à divulgação do passivo contingente, conforme quadro 4:

Quadro 4 - Checklist de Divulgação de Provisões e Passivos Contingentes


Item
Classe Itens Descrição
CPC
84 (a) 1 Valor contábil no início e no fim do período
Provisões adicionais feitas no período, incluindo aumentos nas
84 (b) 2
provisões existentes.
Valores utilizados (ou seja, incorridos e baixados contra a provisão)
84 (c) 3
durante o período.
Provisões 84 (d) 4 Valores não utilizados revertidos durante o período.
84 (e) 5 Aumento durante o período no valor descontado a valor presente.
85 (a) 6 Breve descrição da natureza da obrigação.
85 (a) 7 Cronograma esperado de saídas.
85 (b) 8 Indicação das incertezas sobre o valor ou o cronograma das saídas.
85 (c) 9 Valor de qualquer reembolso esperado.
86 10 Breve descrição da natureza do passivo contingente.
86 (a) 11 Estimativa de seu efeito financeiro.
Passivos
Contingentes 86 (b) Indicação das incertezas relacionadas ao valor ou ao momento de
12
ocorrência de saídas.
86 (c) 13 Possibilidade de qualquer reembolso.
Fonte: elaborado a partir do CPC 25 Comitê de Pronunciamentos Contábeis (2009), Silva (2012), Castro
Júnior (2013) e Garcia (2015).

Para identificar o nível de divulgação, adotou-se a estratégia de escores, no qual se atribuiu


o valor 1 (um) para a empresa que divulga o item apontado no checklist e 0 (zero) para aquela
que não divulga. Assim, para identificar o nível de divulgação do passivo contingente, optou-se
por levantar a soma dos itens de divulgação e dividi-lo pelo número total de itens definidos no
checklist (13). Desse modo, a soma dos escores pode chegar a 13, correspondendo, portanto, ao
nível de divulgação de 100%. No Quadro 5, estão elencadas características, medidas adotadas e
fonte de dados utilizadas.

Quadro 5 - Características, medidas adotadas e fonte de dados


Característica Medida adotada Fonte de dados
Tamanho Valor do Ativo total Balanço Patrimonial em 31/12/2016
Diferença entre o ano base e Formulário de Referência 2016 – item - Dados
Idade
o ano de constituição cadastrais – Dados gerais
Nível de Governança Novo Mercado, Nível 1 e Boletim Diário de informações em 2/12/2016
Corporativa Nível 2 disponível no website BM&FBovespa
Auditoria Firma de Auditoria Relatório de Auditoria 31/12/2016
Fonte: elaborado pelos autores deste trabalho (2017).

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54 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

Conforme quadro 5, o tamanho da em- de divulgação).


presa é definido pelo valor do Ativo Total, em Entre as empresas com os maiores níveis
milhares de reais, em 31/12/2016; e a idade da de divulgação, está o BANRISUL, que apre-
empresa é dada pela diferença entre o ano-base senta o terceiro maior nível de divulgação de
(2016) e o ano de sua constituição. Em relação 69%. A entidade possui o quarto maior ativo,
ao nível de governança corporativa, adotou-se com o valor de R$ 70,15 bilhões. Foi fundada,
a classificação apresentada no Boletim Diário em 1928, e, até 2016, estava com 88 anos. Está
de Informações (BDI) da BM&FBovespa de listada no Nível 1 de governança corporativa.
02/12/2016. A característica auditoria será ve- Em 2014 e 2015, suas demonstrações financei-
rificada no Relatório de Auditoria divulgado ras foram auditadas pela firma de auditoria Er-
pela companhia em 31 de dezembro de 2016 nst & Young; porém, em 2016, foi audita pela
por meio de identificação da firma de auditoria KPMG Auditores Independentes. A KPMG
que realiza o serviço na empresa. destacou, em seu parecer, o assunto sobre Pro-
Foram examinados os tipos e a frequ- visões e Passivos Contingentes devido à rele-
ência de divulgação dos passivos contingentes vância dos valores e julgamentos envolvidos
evidenciados, considerando-se, para tal verifi- na avaliação e na mensuração das provisões e
cação, o item 10 do checklist. Desse modo, por passivos contingentes. Ao concluir a auditoria,
meio da técnica de análise de conteúdo, foram consideraram adequado o nível de provisiona-
analisadas nas notas explicativas dos exercí- mento e divulgação das demonstrações contá-
cios encerrados em 31 de dezembro de 2014, beis consolidadas.
2015 e 2016, a natureza de passivos contingen- A organização apresenta três tipos de
tes, podendo ser classificados como trabalhis- passivos contingentes durante o período com a
tas, tributários, cíveis e ambientais (FARIAS, mesma frequência de evidenciação: cível, tri-
2004), além da frequência de ocorrência para butário e trabalhista. As contingências fiscais
cada tipo. decorrem, principalmente, de impostos mu-
nicipais e federais. Os processos trabalhistas
4 DISCUSSÃO E RESULTADOS referem-se, principalmente, a pedidos de ho-
ras extras, reintegração e equiparação salarial.
4.1 ANÁLISE POR EMPRESA As ações cíveis referem-se, principalmente, a
ações de danos morais, repetição do indébito,
A análise dos dados balizou-se no estudo cadernetas de poupança e financiamento imo-
por empresas. Foram pesquisadas em ordem: biliário. Durante o período analisado, a com-
ABC Brasil, Bradesco, Brasil, Banrisul, In- panhia manteve o nível de divulgação em 69%.
dusval, Banco Pan, Pine, Itausa, Itauunibanco A empresa não divulgou informações sobre o
e Paraná. Para fins deste artigo, apresenta-se: aumento durante o período no valor descontado
BANRISUL; ITAUUNIBANCO; BRASIL (ní- a valor presente, o cronograma esperado de sa-
veis maiores de divulgação); ABC BRASIL; ídas dos recursos e o valor ou possibilidade de
BANCO PAN; BRADESCO (níveis menores qualquer reembolso esperado.

Quadro 6 - Nível de divulgação Banrisul

Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível

2014 1 1 1 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 69%
2015 1 1 1 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 69%
2016 1 1 1 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 69%
Fonte: dados da pesquisa (2017).

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Camila Silva Nascimento, Jorge Alberto de Saboia Arruda 55

O Itauunibanco e o Brasil apresenta- da, contribuição social, imposto sobre serviços,


ram o mesmo nível de divulgação de 77%. O PIS e COFINS. As contingências trabalhistas
Itauunibanco possui o segundo maior ativo to- têm relação com processos em que se discutem
tal com o valor de R$ 1,35 trilhão. Até 2016, pretensos direitos trabalhistas, relativos à legis-
estava com 73 anos de idade. Está classificada lação trabalhista específica da categoria profis-
no Nível 1 de governança corporativa, e suas sional, como horas extras, equiparação salarial,
demonstrações financeiras são auditadas pela reintegração, adicional de transferência, com-
PricewaterhouseCoopers (PwC). Os auditores plemento de aposentadoria e outros.
independentes consideraram que os critérios e Não houve a divulgação sobre o aumen-
as premissas adotados pela Administração para to durante o período no valor descontado a va-
a determinação da provisão para passivos con- lor presente, cronograma esperado de saídas e
tingentes, bem como as divulgações efetuadas, possibilidade de qualquer reembolso. O ban-
foram apropriados. co reconhece Ativos Dados em Garantia de
A companhia apresentou os três tipos de Contingências, que são relativos a processos
passivos contingentes durante o período: tribu- de passivos contingentes e estão vinculados
tário, trabalhista e cível. As ações cíveis refe- a Títulos e Valores Mobiliários, basicamente
rem-se a ações indenizatórias por danos morais Letras Financeiras do Tesouro ou depósitos
e materiais ou de cobranças. Os processos tri- em dinheiro.
butários são relativos a INSS, imposto de ren-

Quadro 7 - Nível de divulgação Itauunibanco


Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível
2014 1 1 1 1 0 1 0 1 1 1 1 1 0 77%
2015 1 1 1 1 0 1 0 1 1 1 1 1 0 77%
2016 1 1 1 1 0 1 0 1 1 1 1 1 0 77%
Fonte: dados da pesquisa (2017).

O BRASIL possui o maior ativo total, e representação e outros. A maioria das


entre as empresas da amostra, com o valor de
ações tributárias estão relacionadas com
R$ 1,38 trilhão. É a única desta pesquisa lista-
da no Novo Mercado e também a mais antiga,
imposto sobre serviços, imposto de renda,
fundada em 1808; e, em 2016, completou 208 contribuição social, PIS, COFINS e con-
anos. Suas demonstrações financeiras são audi- tribuições previdenciárias. Entre as ações
tadas pela firma KPMG Auditores Independen- cíveis, destacam-se as de cobrança de dife-
tes. A auditoria considerou adequado o nível de rença de correção monetária de cadernetas
provisionamento e a divulgação das provisões de poupança e depósitos judiciais relativos
e passivos contingente. ao período dos Planos Econômicos (Plano
A organização apresenta três tipos Bresser, Plano Verão e Planos Collor I e II).
de passivos contingentes durante o período Durante o período analisado, a em-
com a mesma frequência de evidenciação: presa apresentou um nível de divulgação de
cível, tributário e trabalhista. Os proces- 77%. Foi a única que pontuou no item 7 do
sos trabalhistas são movidos, em grande checklist, divulgando o cronograma espe-
maioria, por ex-empregados ou sindicatos rado de saída dos benefícios. A companhia
da categoria com reclamações sobre inde- não apresentou informações relacionadas
nizações, horas extras, descaracterização ao ajuste a valor presente dos valores regis-
de jornada de trabalho, adicional de função trados e a possibilidade ou valor de qual-

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019
56 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

quer reembolso esperado. O banco efetua depósitos judiciais em garantia no Banco ou em


outra instituição financeira oficial, como meio de pagamento ou como meio de garantir
o pagamento de condenações, indenizações, acordos e demais despesas decorrentes de
processos judiciais.

Quadro 8 - Nível de divulgação Brasil


Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível
2014 1 1 1 1 0 1 1 1 0 1 1 1 0 77%
2015 1 1 1 1 0 1 1 1 0 1 1 1 0 77%
2016 1 1 1 1 0 1 1 1 0 1 1 1 0 77%
Fonte: dados da pesquisa (2017).

Entre os bancos contidos na amostra deste estudo, que possuem os menores níveis de divul-
gação, está o ABC Brasil, que apresenta o terceiro pior nível de divulgação. A entidade possui o
quarto menor ativo total, com o valor de R$ 25,4 bilhões. É uma empresa considerada jovem, com
33 anos de idade, fundada em 1983. Está listada no segmento Nível 2 de governança corporativa,
e suas demonstrações são auditadas por uma das firmas de auditoria classificadas como Big Four,
a Ernst & Young.
Constatou-se, por meio da análise das notas explicativas da empresa em estudo, que os
tipos de passivos contingentes de maior frequência de divulgação são cíveis e tributários, uma
vez que as contingências trabalhistas só foram consideradas como perda possível em 2016. Os
processos fiscais são referentes a imposto de renda, contribuição social, imposto sobre serviços,
encargos previdenciários e compensações não homologadas de tributos. As ações cíveis referem-
-se a pedidos de anulação de débitos referentes a operações de crédito e solicitação de pagamento
de diferença no preço de venda de títulos oferecidos para pagamento de empréstimos.
Em 2014 e 2015, o nível de divulgação foi 46%. Em 2016, o nível de divulgação reduziu
para 38%. Isso ocorreu porque a companhia realizou a divulgação em conjunto dos valores
referentes à constituição e à reversão, não sendo possível identificar os valores relativos a cada
item separadamente.

Quadro 9 - Nível de divulgação ABC Brasil


Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível
2014 1 1 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 46%
2015 1 1 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 46%
2016 1 0 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 38%
Fonte: dados da pesquisa (2017).

O BANCO PAN é a companhia que apresenta o segundo pior nível de divulgação. A orga-
nização possui o quinto menor ativo total entre as empresas analisadas, com o valor de R$ 27,77
bilhões. A empresa foi fundada em 1966 e, em 2016, estava com 50 anos. Está classificada no Nível
1 de governança corporativa. Suas demonstrações financeiras são auditadas pela firma de auditoria
PricewaterhouseCoopers (PwC). Os passivos contingentes classificados como perda possível, divul-
gados pela empresa, são apenas do tipo tributário. Eles são referentes a processos sobre imposto de
renda, contribuição social, imposto de renda retido na fonte e imposto sobre serviços.
Durante o período analisado, a companhia apresentou o mesmo nível de divulgação, 38%.
A empresa divulgou, em conjunto, os valores referentes à constituição e à reversão, não sendo

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Camila Silva Nascimento, Jorge Alberto de Saboia Arruda 57

possível identificar os valores relativos a cada item separadamente. Nesse caso, foi atribuído 0
(zero) aos itens 2 e 4 do checklist.

Quadro 10 - Nível de divulgação Banco Pan


Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível
2014 1 0 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 38%
2015 1 0 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 38%
2016 1 0 1 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 38%
Fonte: dados da pesquisa (2017).

O BRADESCO apresenta o pior nível de divulgação entre as empresas analisadas. A com-


panhia possui o terceiro maior ativo total, com o valor de R$ 1,19 trilhão. Foi fundada em 1943
e, até 2016, estava com 73 anos de idade. Está listada no Nível 1 de governança corporativa da
BM&FBovespa, e suas demonstrações financeiras são auditadas pela KPMG Auditores Indepen-
dentes. No Relatório de Auditoria de 2016 da companhia, os auditores destacaram as provisões
e os passivos contingentes como um dos principais assuntos de auditoria devido à relevância, à
complexidade e ao julgamento envolvido na avaliação, mensuração, definição do momento para o
reconhecimento e a divulgação. Os auditores consideram adequados os níveis de provisionamen-
to e de divulgação apresentados pela empresa.
A organização é parte em processos judiciais de natureza trabalhista, cível e fiscal, decor-
rentes do curso normal de suas atividades. O tipo de passivo contingente com maior frequência
de divulgação é o tributário. Não foram descritos processos trabalhistas ou cíveis, como passivos
contingentes. Os principais processos tributários com risco de perda possível estão relacionados
com imposto de renda, contribuição social, imposto sobre serviços, PIS e COFINS.
Durante o período analisado, o nível de evidenciação das contingências se manteve em
31%, o mais baixo nível entre as empresas analisadas. Esse nível deve-se, entre outros aspectos,
ao fato de a companhia realizar a divulgação em conjunto dos valores referentes à constituição, à
reversão e às baixas, não sendo possível identificar os valores relativos a cada item separadamen-
te. Nesse caso, foi atribuído 0 (zero) aos itens 2, 3 e 4 do checklist.

Quadro 11 - Nível de divulgação Bradesco


Item/Ano 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Nível
2014 1 0 0 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 31%
2015 1 0 0 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 31%
2016 1 0 0 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 31%
Fonte: dados da pesquisa (2017).

Foi verificada a existência de diferenças no nível de divulgação entre os segmentos de Go-


vernança Corporativa Novo Mercado, Nível 2 e Nível 1. Durante o período, o segmento Nível 1
manteve o nível de 59%, e o Novo Mercado permaneceu com o nível de 77%. Porém, o Nível 2
apresentou os níveis de 54%, 54% e 51% nos anos de 2014, 2015 e 2016, respectivamente. Após
a comparação entre as médias globais dos segmentos, observou-se que existe uma diferença rele-
vante entre o Novo Mercado (77%) e o Nível 1 (59%) e Nível 2 (53%).

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019
58 ARTIGOS | Nível de divulgação do passivo contingente: um estudo nos bancos listados na BM&FBOVESPA

5 CONCLUSÃO rença relevante, de 46 pontos percentuais, entre


o nível mais alto e o mais baixo. A média do
As exigências relacionadas à eviden- nível de divulgação apresentada pelas compa-
ciação de contingências, provisões e passivos nhias durante o período analisado foi de 63%.
contingentes não são recentes. Pode-se citar, Levando em consideração essa média, seis em-
por exemplo, que a Lei 6.404/1976 já previa presas apresentaram níveis acima da média e
a divulgação das contingências. Contudo, a quatro empresas ficaram abaixo.
orientação quanto à forma de divulgação e ao Como limitação da pesquisa, não foi possí-
conteúdo a ser divulgado está prevista no CPC vel afirmar se as empresas omitiram a divulgação
25 (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS de determinados itens ou se eles não eram apli-
CONTÁBEIS, 2009). cáveis. Destaque-se, também, o fato de as con-
Foram levantadas algumas característi- clusões deste estudo se limitarem apenas às em-
cas dos bancos para diferenciar melhor a amos- presas da amostra. Recomenda-se a realização de
tra analisada. As cinco empresas com mais de estudos abordando outros setores da economia e
50 anos possuem os maiores ativos totais e es- outros segmentos de governança corporativa.
tão classificadas no Nível 1 ou no Novo Mer-
cado. A maior parte é auditada pelas quatro REFERÊNCIAS
maiores empresas de auditoria do mundo, co-
nhecidas como Big Four. Brasil, a maior com- ALMEIDA, M. de S. Elaboração de projeto,
panhia e mais antiga, foi uma das que obteve TCC, dissertação e tese: uma abordagem sim-
o melhor nível de evidenciação, seguida da se- ples, prática e objetiva. 2. ed. São Paulo: Atlas,
gunda maior companhia, Itauunibanco. 2014.
Foram examinados os tipos de passivos
contingentes divulgados e a frequência com BEUREN, I. M. Como elaborar trabalhos
que eles eram evidenciados. Constatou-se que monográficos em contabilidade: teoria e prá-
os passivos contingentes com maiores relevân- tica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2006.
cias foram os de natureza tributária, trabalhista
e cível, respectivamente. Nenhuma das empre- BM&FBOVESPA. Evolução dos segmentos
sas apresentou passivos contingentes ambien- especiais. Disponível em: [Link].
tais nas demonstrações financeiras, e isso mos- [Link]/pt_br/listagem/acoes/segmentos-de-lis-
tra que essas empresas não têm a apresentação tagem/sobre-segmentos-de-listagem/evolucao-
do dano causado ao meio ambiente. -dos-segmentos-especiais/. Acesso em: 2 nov.
Percebeu-se que as empresas não vêm 2016
cumprindo as exigências estabelecidas no CPC
25 (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS BM&FBOVESPA. Segmentos de listagem.
CONTÁBEIS, 2009) em sua totalidade, apesar Disponível em: [Link]
de estarem listadas nos segmentos diferencia- br/ pt_br/listagem/acoes/segmentos-de-lista-
dos de governança corporativa, que prezam por gem/sobre-segmentos-de-listagem/. Acesso
transparência e abrangência nas informações em: 15 jan. 2017.
divulgadas. Ao avaliar o nível de divulgação
do passivo contingente dos bancos, concluiu- BRASIL. Lei no 6.404, de 15 de dezembro de
-se que duas empresas apresentaram o melhor 1976. Dispõe sobre as Sociedades por Ações.
nível de disclosure, o Brasil e o Itauunibanco. Brasília, DF: Presidência da República, 1976.
Ambas obtiveram a mesma média de eviden- Disponível em: [Link]
ciação durante o período. Observou-se que o vil_03/LEIS/[Link]. Acesso em: 15
Bradesco apresentou o nível mais baixo de evi- jan. 2017.
denciação durante o período. Houve uma dife-

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Camila Silva Nascimento, Jorge Alberto de Saboia Arruda 59

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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 46-60, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Diego Quevedo Costa, Daniel Hank Miri, Cassiane Chais, Juliana Matte, Paula Patrícia Ganzer, Pelayo Munhoz Ole 61

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p61-76.2019

ARTIGOS

EFICIÊNCIA NO ABASTECIMENTO DE
MATERIAIS EM UMA LINHA DE MONTAGEM
Diego Quevedo Costa MULTIPRODUTO
diegoqcosta@[Link]
Graduado em Administração EFFICIENCY IN SUPPLYING MATERIALS IN A
pela Universidade de Caxias do
Sul. Caxias do Sul - RS - BR. MULTIPRODUCT ASSEMBLY LINE

Daniel Hank Miri RESUMO


dhmiri@[Link]
Bolsista PROSUC/CAPES
no curso de Mestrado em Apesar de alguns avanços, a logística continua sendo uma área
Administração pelo Programa relativamente inexplorada no que concerne ao aumento de produ-
de Pós-Graduação em tividade. Diante disso, o tema deste trabalho consiste na logística
Administração da Universidade
interna de materiais e no abastecimento da linha multiproduto de
de Caxias do Sul. Caxias do Sul
- RS - BR. uma fábrica de tratores localizada em Caxias do Sul, Rio Grande
do Sul. Objetivou-se, assim, identificar oportunidades de melhoria
Cassiane Chais nos processos, a fim de aumentar a eficiência na logística interna
cassichais@[Link] do abastecimento de materiais na linha de montagem. Para alcan-
Doutoranda em Administração
na Universidade de Caxias
çar o objetivo proposto, procedeu-se a uma pesquisa qualitativa e
do Sul com Bolsa PROSUC/ exploratória, por meio de um estudo de caso único, fundamentado
CAPES. Caxias do Sul - RS - em entrevistas individuais em profundidade com dez profissionais
BR. diretamente ligados ao tema em questão. Após a análise de conte-
údo das entrevistas, identificaram-se oportunidades de melhorias
Juliana Matte
ju.cxs1@[Link] nos processos de logística de abastecimento, como a falta de con-
Doutoranda em Administração fiabilidade nos sistemas utilizados, a necessidade de treinamentos
no Programa de Pós-Graduação e as informações disponibilizadas.
em Administração - PPGA da
Universidade de Caxias do Sul
- UCS com bolsa FAPERGS/
Palavras-chave: Logística interna. Linha multiproduto. Abasteci-
CAPES. Caxias do Sul - RS - mento de materiais.
BR.
ABSTRACT
Paula Patrícia Ganzer
[Link]@[Link]
Pós-Doutoranda em Despite some advances, logistics remains a relatively unexplored
Administração no Programa area of ​​increased productivity. Therefore, the theme of this work
de Pós-Graduação em is the internal logistics of materials and the supply of the multipro-
Administração na Universidade
duct line of a tractor factory located in Caxias do Sul, Rio Grande
de Caxias do Sul. Caxias do Sul
- RS - BR. do Sul. The objective was to identify opportunities for improve-
ment in the processes, in order to to increase the efficiency in the
Pelayo Munhoz Ole internal logistics of the supply of materials on the assembly line.
[Link]@[Link] To reach the proposed objective, a qualitative and exploratory re-
Doutor em Administração e
Direção de Empresas. Professor
search was carried out, through a single case study, based on indi-
da Universidade de Caxias do vidual in-depth interviews with ten professionals directly related
Sul. Caxias do Sul - RS - BR. to the subject in question. After analyzing the content of the inter-

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62 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto

views, opportunities were identified for impro- visava aumentar a eficiência operacional do
vements in supply logistics processes, such as processo de logística de abastecimento de ma-
the lack of reliability in the systems used, the teriais de uma linha de montagem de tratores
need for training and the information available. multiproduto, efetuou-se uma pesquisa quali-
tativa com dez profissionais da área produtiva.
Keywords: Internal Logistics. Multiproduct O objetivo deste estudo consistiu, por-
line. Supply of materials. tanto, em identificar oportunidades de melhoria
nos processos, com o propósito de aumentar a
1 INTRODUÇÃO eficiência na logística interna do abastecimento
de materiais nessa linha de montagem. A se-
Devido ao aumento da concorrência, guir, apresenta-se o referencial teórico que em-
um desafio presente nas indústrias brasileiras basa esta pesquisa, subdividido em cadeia de
é buscar diferenciação competitiva em fatores, suprimentos, logística e sistemas de controle de
como preço e qualidade, o que tem levado as produção, assim como a metodologia emprega-
empresas a reavaliarem atitudes e processos e a da para o alcance do objetivo proposto, os re-
criarem novos paradigmas voltados à obtenção sultados da pesquisa e as considerações finais.
de melhorias e vantagens competitivas (BAR-
CELOS JÚNIOR, 2002). Com o processo de 2 REFERENCIAL TEÓRICO
globalização e uma oferta maior que a deman-
da, as empresas precisaram adaptar-se a uma 2.1 CADEIA DE SUPRIMENTOS
realidade de competição em escala global, o
que implicou uma revisão significativa de suas A cadeia de suprimentos constitui um
prioridades competitivas, especialmente em tema central dentro das empresas há pelo me-
termos de custo e qualidade (PIRES, 2009). nos 80 anos, tendo proporcionado diversas ino-
Nesse cenário, a cadeia de suprimentos vações gerenciais ao longo do tempo. Como
e o gerenciamento de operações amadureceram exemplo dessas inovações, podem-se citar
a partir de mudanças na forma de abordar as Henry Ford na Primeira Guerra Mundial, Al-
questões operacionais e econômicas, que pas- fred Sloan na década de 1930, Toyota nas dé-
sou a levar em conta o ambiente mais amplo e cadas de 40 a 70 e o Consórcio da Volkswagen
os aspectos sociais que integram as organiza- em Resende na década de 90 (FIGUEIREDO;
ções contemporâneas. A integração bem-suce- FLEURY; WANKE, 2013).
dida de fatores econômicos e ambientais e as A cadeia de suprimento consiste em uma
metas de sustentabilidade social têm sido, as- abordagem que engloba todos os processos,
sim, o objetivo das principais cadeias de supri- tanto diretos, quanto indiretos, para atender ao
mentos e operações (FENG; ZHU; LAI, 2017). pedido de um cliente. Nesses processos, estão
A cidade de Caxias do Sul abriga 20 das incluídos fabricantes, fornecedores, transporta-
500 maiores empresas da região Sul do Brasil, doras, armazéns, varejistas e até mesmo o con-
assim como diversas indústrias entre as maio- sumidor final, envolvendo áreas como marke-
res no seu campo de atuação no país. A indús- ting, desenvolvimento de produto, produção,
tria constitui o maior segmento econômico da distribuição e atendimento ao cliente (CHO-
cidade: com 2.332 empresas metalúrgicas e PRA; MEINDL, 2016).
mecânicas instaladas, gera 17.658 empregos Para Paoleschi (2014), a gestão da cadeia
diretos e representa 53,40% dos segmentos de suprimentos requer a integração dos proces-
econômicos municipais (SIMECS, 2017). sos internos, que engloba o departamento de
Situada nessa cidade, está a fábrica de produtos, e externos, que abarca o departamento
tratores da empresa Agrale S.A., local em que de compra/suprimentos e as relações com os for-
foi aplicada esta pesquisa. Como essa fábrica necedores. A gerência tem, dessa maneira, a res-

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ponsabilidade de controlar fortemente as prin- os sistemas de controle de produção em dois


cipais cadeias de suprimentos para melhorar os tipos: produção empurrada e produção puxa-
processos de manufatura, a logística e o plane- da. A produção empurrada procura prever as
jamento da produção (YAZDANI et al., 2017). necessidades do cliente, baseando-se em uma
previsão de demanda; caso essa demanda não
2.2 LOGÍSTICA ocorra ou demore a se confirmar, gerará o acú-
mulo de estoque. Já a produção puxada, base da
A área da logística busca, sobretudo, filosofia Just in Time (JIT), entende que a pre-
cumprir os requisitos dos clientes, ofertando os visão de demanda puxa a produção, partindo da
bens ou serviços no local e no tempo correto. lógica de que a produção começa no término da
Como parte dos negócios vinculados à empre- linha de produção, ou seja, no cliente; assim, só
sa, a logística é constituída de cinco atividades começa a produzir a partir da necessidade do
primordiais: gerenciamento de estoque, trans- cliente, não ocasionando estoques em excesso.
porte, armazenagem ou estocagem, tecnologia Já Wang, H., Gong e Wang, S. (2017) fa-
da informação e gerenciamento da produção ou zem uma comparação entre os principais siste-
operação (GRANT, 2013). mas de controle de produção. Enquanto o JIT é
Para Nogueira (2012), um dos tópicos adequado para um pequeno lote com produção
mais importantes da cadeia logística é a arma- de grande variedade, o MRP (Manufacturing
zenagem, que apresenta, como principal fun- Resources Planning) é apropriado para um lote
ção, a administração do espaço e do tempo. Um grande com produção de pequena variedade.
sistema de armazenagem, quando bem aplica- Além disso, os autores ressaltam que uma es-
do, pode evitar e solucionar diversos problemas trutura organizacional otimizada de proces-
que influenciam diretamente o processo produ- samento de informações é capaz de reduzir o
tivo e a distribuição dos produtos, otimizando atraso na tomada de decisões.
espaços e recursos, diminuindo o custo final do
produto e aumentando a competitividade. 3 METODOLOGIA
O processo operacional logístico de pe-
ças, conforme Boysen et al. (2015), é dividido Para esta pesquisa, usou-se a abordagem
em logística externa, logística interna e logísti- qualitativa de natureza exploratória (LAKA-
ca reversa. A logística externa implica todas as TOS; MARCONI, 2011), com aplicação de en-
atividades necessárias para fornecer as peças trevistas estruturadas (DIEHL; TATIM, 2004).
advindas do fornecedor (externo ou interno). Já O roteiro das entrevistas foi elaborado a partir de
a logística interna assume todos os passos ine- uma adaptação dos estudos de Teixeira (2008) e
rentes à produção, desde o recebimento até a dis- Rodrigues (2016), sendo aplicado o mesmo ro-
tribuição e a organização na borda da linha. E a teiro a todos os participantes da pesquisa.
logística reversa, por sua vez, requerida no final Constituindo um estudo de caso único
do processo, engloba aspectos como devolução (GIL, 2010) na montadora de tratores Agrale
e retorno de peças defeituosas e embalagens va- S.A., foram realizadas entrevistas com dez pro-
zias. A movimentação de materiais é uma ativi- fissionais relevantes do processo produtivo des-
dade que demanda esforço, sendo necessários sa empresa durante o mês de março de 2017. As
equipamentos adequados para cada tipo de ma- entrevistas geraram um total de três horas de
terial (CAXITO, 2014; YAZDANI et al., 2017). gravação de áudio e 50 páginas de transcrição.
Para apurar os resultados, procedeu-se à análi-
2.3 SISTEMAS DE CONTROLE DE se de conteúdo, conforme proposta por Bardin
PRODUÇÃO (2004); dessas entrevistas, que foram divididas
em categorias e subcategorias com o auxílio do
Moreira (2012) divide, genericamente, software NVivo 11®.

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3.1 OBJETO DE PESQUISA

A Agrale iniciou suas atividades em 14 de dezembro de 1962. Atualmente, é composta por


cinco unidades, das quais três situam-se na cidade de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, uma fica
localizada em São Mateus, Espírito Santo, e outra está em Mercedes, Argentina. Cada unidade
tem suas peculiaridades no que diz respeito aos processos produtivos, possuindo processos de
fabricação e montagem de diferentes produtos (AGRALE, 2014).
O foco deste estudo foi a unidade I (matriz), que fica localizada na BR 116, km 145, n.º
15.104, bairro São Ciro, CEP 95059-520, no município de Caxias do Sul. Nessa unidade da Agra-
le, concentram-se a linha de montagem de tratores e motores estacionários, o centro administrati-
vo, o centro de fabricação de peças e componentes para manufatura, um centro de distribuição de
peças de reposição e um centro de desenvolvimento de novos produtos (AGRALE, 2014).
Essa unidade conta com 662 funcionários. Ao todo, a Agrale possui 1.083 funcionários
distribuídos em suas cinco unidades (AGRALE, 2014).

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

A primeira questão das entrevistas buscou identificar as funções e as atividades desempe-


nhadas por cada um dos participantes na empresa-foco deste estudo. A seguir, no quadro 1, apre-
sentam-se a descrição das funções e as respectivas atividades dos entrevistados.

Quadro 1 - Funções e atividades dos funcionários entrevistados


Função Atividade desempenhada
Coordenador de “Fazer a gestão das equipes, melhorar e desenvolver novos processos que visam à
logística otimização do fluxo logístico, o abastecimento de linha e à acurácia de estoques”.
“Como gestor de almoxarifado, técnico de almoxarifado, minha função hoje é gerenciar
Técnico de
o sistema de WMS [Warehouse Management System], a parte de efetividades, inventá-
logística
rios tanto cíclicos como os pontuais e a parte de leilão e vendas de materiais obsoletos”.
Técnico de
planejamento e “Atualmente exerço a função de técnico em PCP, responsável pela programação dos
controle da pro- setores de usinagem e estamparia na unidade 1”.
dução (PCP)
Técnico da linha “Responsável técnico das linhas de montagem de motores e tratores, processos de
de montagem montagem, PCP e o administrativo da linha”.
“[...] sou responsável pela logística interna, para disponibilizar as peças que os
Almoxarife espe-
montadores precisam, na quantidade correta e nos estágios corretos, sempre
cializado
procurando manter a acurácia dos estoques; também cuido da lista de faltas de peças”.
“O foco maior nosso como almoxarife é abastecimento de linha, manter os estoques
Almoxarife 1
alinhados tanto na linha de montagem quanto no almoxarifado”.
“[...] trabalho como almoxarife, minha função desempenhada é na parte do recebi-
Almoxarife 2 mento, toda entrada de materiais, conferência do material, quantidades, volumes,
notas fiscais; enfim, tudo que envolve a quantidade de materiais dentro da empresa”.
“[...] trabalho com separação de peças, atendimento do DPER, que é um setor que
Almoxarife 3
trabalha com peças de reposição que é para mercado externo e interno”.
Almoxarife 4 “Separação e envio de peças entre fábricas”.
Inventarista “Responsável pelos inventários realizados na empresa”.
Fonte: elaborado pelos autores (2018).

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Já a segunda questão das entrevistas pro- WMS, que consegue visualizar toda a parte do
curou identificar o entendimento dos entrevis- processo e trabalhar em cima para ir ajustando
tados sobre os objetivos da logística. As respos- e vendo o que é possível melhorar no processo,
tas dos participantes demonstraram que não são tornando mais rápido e assertivo.”
todos que conhecem, com clareza, os objetivos No roteiro de entrevistas, a quarta ques-
da empresa. tão destinou-se a averiguar se o entrevistado
Em relação às metas da logística, o coor- tinha alguma sugestão de melhoria nos proces-
denador de logística afirmou que se trata do sos da logística. Para o técnico de PCP, essa era
“[...] atendimento das entregas do produto certo uma falha e uma oportunidade de melhoria no
nas quantidades certas, atrelado ao Just in Time. processo, uma vez que o sistema utilizado pela
Toda a logística tem por objetivo ter o menor logística permite esse tipo de situação. Para o
estoque necessário, atender, com a maior asser- técnico da linha de montagem, o trabalho para
tividade possível, à demanda do cliente interno melhorar o processo poderia ser realizado com
e prezando pela qualidade do produto e a acu- base nos indicadores de abastecimento da linha
rácia do estoque.” de montagem. Segundo ele, “[...] devem ser
A terceira questão das entrevistas, por mais bem trabalhados esses indicadores, pois
sua vez, visou averiguar a existência de progra- dá para avaliar os pontos de abastecimento que
mas nos processos logísticos que possibilitem precisam melhorar [...].”
avaliar todo o processo de produção, desde o Aspectos como logística e armazena-
recebimento até o abastecimento da linha de gem, conforme ressaltam Dubey et al. (2017),
montagem. O processo operacional logístico também devem ser aprimorados, tendo em vis-
de peças, para Boysen et al. (2015), pode ser ta que mudanças particulares nessas operações
dividido em logística externa, interna e reversa. permitirão que organizações e cadeias de su-
No caso da empresa analisada, nem todas as pe- primentos tornem-se melhores ambientalmen-
ças passam por um processo idêntico, uma vez te, auxiliando na viabilidade e na estabilidade
que este varia conforme o fornecedor e o modo econômica. Tendo isso em vista, a quinta ques-
como é entregue no ponto de consumo interno. tão das entrevistas versou sobre a identificação
O almoxarife 2 destacou dois sistemas dos pontos críticos e gargalos da logística. Essa
responsáveis pelos processos logísticos: “[...] o análise dos pontos críticos e gargalos é uma
ABT, e o WMS, esses sistemas são suficientes categoria a posteriori da pesquisa que surgiu
para identificar todas as entradas, hora, data, durante a análise das entrevistas.
descrição do produto até o processamento e Para o técnico de PCP da empresa, o
saída, mas não é totalmente usada.” Já o téc- ponto crítico consiste na dificuldade do ge-
nico de PCP demonstrou outra visão: “[...] tan- renciamento dos estoques: “[...] percebo que
to o ABT, quanto o WMS controlam o nosso nós temos muita dificuldade no gerenciamen-
processo e nos pontuam como ele funciona, se to dos estoques, por diversos motivos, não
está funcionando bem ou se existem algumas só por responsabilidade da logística, mas por
falhas, a única forma que eu vejo para controlar responsabilidade por estrutura de produto,
isso é por meio desses dois sistemas.” falhas de movimentação, setores que permane-
O almoxarife especializado citou o WMS, cem abertos [...].” O tema abordado pelo técni-
programa específico da logística, como respon- co de PCP da empresa vai ao encontro do que
sável por analisar o processo: “[...] WMS, siste- declara Castiglioni (2013) acerca do gerencia-
ma que acompanha desde o recebimento, quando mento de estoque, uma vez que o gerenciamen-
vem para o almoxarifado, os locais de alocação, to de materiais constitui um dos pontos mais
os pickings múltiplos na linha e pulmões no vitais da logística, exigindo técnicas específicas
almoxarifado [...].” O técnico dos almoxarifa- para alcançar a eficiência da racionalização e
dos também enfatizou o mesmo programa: “[...] da economia desejada.

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Nesse sentido, é possível afirmar que tro do sistema produtivo acabaria gerando es-
os pontos críticos dos sistemas utilizados pela toques, contrariando a premissa da empresa de
empresa afetam diretamente o desempenho da reduzir os estoques ao máximo:
logística. Para Nogueira (2012), um sistema
de armazenagem, quando bem aplicado, pode [...] trabalhamos bastante forte a redu-
evitar e solucionar diversos problemas que in- ção de estoques ao máximo possível
fluenciam, diretamente, o processo produtivo e e a ordem de produção dentro do sis-
a distribuição dos produtos, otimizando espa- tema. Agrale trabalha no Just in Time.
Conforme as necessidades da linha,
ços e recursos, diminuindo o custo final do pro-
nós temos um período para produzir
duto e aumentando, assim, a competitividade. e entregar isso; o fato de nos agregar
A sexta questão feita aos entrevistados um sistema de Kanban dentro do nos-
abordou os pontos críticos e os gargalos entre so processo, vamos estar falando de
logística e produção na visão de cada entrevis- estoque, vamos ter que alimentar um
tado. Já os pontos críticos e gargalos entre lo- sistema intermediário e criar pontos de
gística e linha de montagem foram abordados estoques, gerando custos para empresa
na sétima questão do instrumento de pesquisa. (ENTREVISTADO - TÉCNICO PCP).
Para o coordenador de logística, o garga-
lo entre essas duas áreas estava na “[...] gestão Kanbans são cartões de autorização de
da informação da produção com a logística, que produção que sinalizam às estações o montante
tem por prioridade em movimentar e abastecer e o tempo adequado para reabastecer o estoque
a linha [...].” Para o almoxarife 1, “é a falta de de estações a jusante. Os Kanbans viajam com
comunicação, a logística e produção deveriam um lote de produtos/componentes, continuando
trabalhar ambas com o mesmo objetivo e com sua jornada por meio de vários estágios de fa-
uma comunicação clara.” Outro aspecto citado bricação (PIPLANI; ANG, 2018).
como ponto crítico pelos entrevistados foi “as
embalagens que eles distribuem as peças pro 4. 1 ANÁLISE DE GERENCIAMENTO
nosso setor, porque geralmente gera retrabalho DE ESTOQUES
pra gente colocar de uma forma apropriada,
para alocar no nosso estoque”, como afirmou 4.1.1 Gerenciamento de inventários para
o almoxarife 3. Já o almoxarife 4 disse que a os entrevistados
falta de um mesmo conhecimento de todo o
processo criava um gargalo. Segundo ele, os O gerenciamento de inventários foi abor-
“funcionários não têm o mesmo conhecimento dado na nona questão do roteiro de entrevista,
em torno do processo.” que interrogou sobre as metas para redução
A oitava questão do roteiro de entrevista de estoques e giro de matérias e a existência
abordou a existência de ferramentas para auxi- de programas de gerenciamento. O técnico
liar na produção puxada dentro da empresa. Os de logística responsável pelos inventários da
entrevistados mencionaram o que já existe na empresa relatou a metodologia existente para
empresa e as oportunidades de implementação atender os inventários: “[...] sim, existe. Hoje,
de ferramentas para puxar a produção. trabalhamos com inventários cíclicos, em que
Para Moreira (2012), na produção puxa- são trabalhados a curva ABC, e depois há os
da, base de filosofia JIT, a previsão de demanda pontuais, e ainda existem os inventários anuais
puxa a produção. A lógica desse modelo é que realizados no final de cada ano.”
a produção inicia com a necessidade do clien- Já o inventarista enfatizou o trabalho re-
te, de maneira que não são produzidos estoques alizado, dissertando acerca da forma de reali-
em excesso. zação dos inventários e da nova metodologia
Para o técnico de PCP, o Kanban den- aplicada na empresa:

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[...] quando eu entrei, nós não tínha- uma auditoria de materiais [...]. No transporte in-
mos nenhuma planilha, recebíamos terno e na expedição não são feitas auditorias.”
os códigos em um papel de pão [...]. A O coordenador mencionou, ainda, as ações cor-
partir daí, começou a fazer uma plani- retivas dentro da logística: “procura-se estabe-
lha de erros de inventários e todos os
lecer alguns planos de contenções ou planos de
problemas que temos, e, com o passar
do tempo, começamos a programar o
ações, então depende de cada caso, mas, sim,
inventario cíclico; este inventário cí- existe uma ação corretiva.”
clico ajuda muito, seria nossa melhor Para o técnico de logística, o sistema
ação [...] (ENTREVISTADO - IN- WMS usado pela logística realizava auditorias
VENTARISTA). no recebimento de materiais, “[...] com uma
contagem cega, chega o material, dá entrada
Para o almoxarife especializado, são fei- na nota fiscal, [...] e o WMS manda contar, ge-
tos os inventários cíclicos e os inventários pon- rando tarefa de contagem cega. O operador não
tuais; esses são realizados quando se percebe a [...] vai apontar se deu certo; com a nota ok, se-
falta de um item na montagem. O almoxarife 1 gue à frente, se não der, gera uma divergência.”
citou “o inventário geral, feito uma vez ao ano”.
E o técnico de logística comentou sobre o traba- 4.1.3 Não conformidades nos processos
lho realizado dentro da empresa para a redução logísticos pelos entrevistados
de estoques: “nós temos metas para reduzir os
estoques, sim, estamos trabalhando muito em No roteiro de entrevista, a décima pri-
cima disto aí [...]. Estamos trabalhando em cima meira questão tratou das ações relativas às não
de itens que não têm movimentação [...].” conformidades dentro do processo logístico. A
A esse respeito, cabe mencionar o efeito esse respeito, enquanto o técnico da linha de
chicote, por exemplo, que se refere a um fenô- montagem afirmou que desconhece ações para
meno no qual baixas variações na demanda cau- evitar reincidências de não conformidades na
sam mudanças significativas na produção para logística, o almoxarife especializado disse que
fornecedores, com custos associados. Enquanto “não existe nada implementado para evitar
a previsão tem um impacto direto na geração reincidências de não conformidades; sempre
de pedidos, a visibilidade do prazo de entrega é quando acontece algo nesse aspecto, é feita a
essencial para projetar uma produção/distribui- correção pontual do problema.” O almoxarife 3
ção de alta qualidade (LIN et al., 2017). também falou que não existe nada nesse senti-
do e complementou: “[...] geralmente acontece
4.1.2 Auditorias na área de logística para reincidências de não conformidade em algumas
os entrevistados peças [...]”. E o almoxarife 1 reiterou que, “na
verdade, não existe um processo específico para
O processo da logística interna começa no evitar reincidências no processo logístico.”
recebimento e vai até o abastecimento na borda Verificou-se, assim, uma divergência
da linha. Tendo isso em vista, a décima questão entre os entrevistados sobre auditorias e pro-
do roteiro de entrevista buscou averiguar a exis- cedimentos para evitar não conformidades. Ao
tência de procedimentos de auditorias e os des- passo que o coordenador e o técnico de logísti-
dobramentos das auditorias dentro da logística. ca confirmaram a existência de procedimentos
O coordenador de logística explicou que implementados, os demais entrevistados que
não existem auditorias em todos os proces- trabalhavam na logística desconheciam ações
sos, salientando que, “nos almoxarifados, são para combater as não conformidades no proces-
realizadas as auditorias de endereçamento e so logístico, evidenciando uma falha na comu-
eventualmente algumas contagens que são feitas nicação dentro da área da logística.
pelos inventários cíclicos pois não deixam de ser

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4.2 ANÁLISE DE EMBALAGENS O técnico de logística, por sua vez, enfa-


tizou o desenvolvimento dos novos produtos:
A décima segunda pergunta do roteiro de “hoje temos todo um cuidado no desenvolvi-
entrevista questionava se os entrevistados tinham mento de novos produtos, com uma pessoa da
conhecimento da existência de um manual de em- logística, participando diretamente do processo
balagem da empresa. O almoxarife especializado, de criação de embalagens, o que não acontecia
o técnico da linha de montagem e o técnico de PCP tempo atrás.” No que concerne ao melhoramen-
afirmaram desconhecer a existência de um manual to das embalagens, o almoxarife 2 acredita que
de embalagem dentro da empresa. Percebe-se, assim, existe a necessidade de uma “[...] negociação
que pessoas envolvidas diretamente com a fabrica- com fornecedores, para uma padronização das
ção, a movimentação e o uso final das peças desco- embalagens, [...] para que venha em uma em-
nheciam esse manual. Alguns entrevistados sabiam balagem que atenda à linha de montagem.” Tal
de sua existência, mas desconheciam seu conteúdo, aspecto é relevante, uma vez que, no sistema da
evidenciando, dessa forma, uma falha na troca de in- cadeia de suprimentos, as embalagens são ca-
formações dentro da empresa, o que dificulta o traba- pazes de exercer um impacto direto nos resul-
lho e o bom desempenho organizacional. tados de desempenho (ZAILANI et al., 2012).
A décima terceira questão também tra-
tou de embalagens, perguntando aos entrevis- 4.3 ANÁLISE DAS MOVIMENTAÇÕES
tados se existia uma metodologia ou um pro-
cedimento com o intuito de eliminar as não Com o objetivo de reduzir os desperdí-
conformidades, bem como se tinham alguma cios em movimentações que não agregam valor
sugestão de melhoria nesse quesito. ao produto, a décima quarta questão do roteiro
Para o técnico de PCP, falta retorno da linha de entrevista visou conhecer o que já existia e
de montagem e da logística sobre quais são as emba- o que poderia ser melhorado no que concerne
lagens corretas que devem ser usadas para cada item: às movimentações. O coordenador da logística
falou que hoje não existe um projeto específico
[...] as necessidades devem partir di- dentro da logística: “[...] não tem uma equipe
reto das linhas, [...] cliente final é a que faça a avaliação desse excesso de movi-
linha de montagem. Ele tem um pro- mentação, e este excesso de movimentação está
cesso de armazenamento na linha, [...]
dentro das sete perdas logísticas; então nós não
as linhas de montagem, nos últimos
anos, sofreram muitas mudanças, mas
temos ainda implementado.”
as mudanças da linha não evoluíram A esse respeito, o técnico da linha de
na questão embalagens (ENTREVIS- montagem afirmou que, “[...] para reduzir a mo-
TADO - TÉCNICO DE PCP). vimentação de pessoas e empilhadeiras, seria
necessário agrupar o máximo de peças possível
O técnico de PCP também abordou a im- próximo à área de trabalho, [...] as peças têm que
portância de discutir esse assunto dentro da em- estar próximas ao montador.” Além disso, men-
presa: “[...] precisamos urgente tomar decisões cionou um agravante para a movimentação e o
que determinem que tipos de embalagens que va- armazenamento na borda de linha, pois o fato de
mos usar para cada produto.” Segundo ele, deve- a linha de montagem ser uma linha multiproduto
riam ser definidos parâmetros de embalagens para afeta bastante as movimentações dentro da linha
cada produto fabricado, levando em consideração devido à grande variedade de peças: “[...] como
o local de armazenamento e a sua utilização: “[...] nós temos uma linha só, para todos os modelos
este processo deve ser todo revisto, e determinar desde o 4100, que é o menor, até o 7215, que é
embalagens que acompanhe os itens no processo o maior de 215cv, isso acarreta uma quantidade
produtivo até o abastecimento sem a necessidade muito grande de itens dentro da linha.”
de manuseio durante os processos.” O técnico de PCP, quando questionado

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sobre o tema, citou algumas mudanças que se- Com a décima oitava questão das entrevis-
rão realizadas nos processos, como melhorias tas, buscou-se conhecer as melhorias implemen-
para redução de movimentações dentro da em- tadas na logística nos últimos anos, bem como a
presa. Segundo ele, percepção dos entrevistados sobre essas melhorias.
tem um projeto em andamento de co- O coordenador de logística destacou os principais
locar nas empilhadeiras um display, projetos de melhorias realizadas na logística:
onde os pontos de coletas vão ter um
botão, onde a pessoa, quando largar Implementamos a questão do Kanban
uma determinada carga para ser cole- de fixadores, [...] nós não tínhamos
tada, vai apertar este botão, e o dis- um Kanban que trabalhava de tal for-
play que está anexado na empilha- ma como a ferramenta exige, este foi
deira vai dizer para o motorista que um primeiro projeto. Foi realizada a
naquele ponto ele tem uma determi- adequação de alguns layouts dos al-
nada carga para coletar (ENTREVIS- moxarifados que vieram a somar na
TADO - TÉCNICO DE PCP). redução de movimentações principal-
mente (ENTREVISTADO - COOR-
4.4 ANÁLISE DE SUGESTÕES DE DENADOR DE LOGÍSITICA).
MELHORIAS NA LOGÍSTICA
O técnico da linha de montagem, por
A décima quinta questão do roteiro de sua vez, disse que “o layout foi remodelado
entrevista destinava-se a saber se os entrevista- na logística, no sistema CKD foram realizadas
dos eram incentivados a apresentar sugestões de muitas melhorias e também a redução de esto-
melhorias e o grau de implementação dessas su- ques de normalizados com a reestruturação dos
gestões dentro da logística. O técnico do PCP da Kanban.” Ele mencionou, ainda, as melhorias
empresa não trabalhava, diretamente, na logística, “do Entreposto, do WMS, melhorias em re-
mas acreditava que existiam sugestões de melho- lação ao bloco K, são as melhorias que estão
rias, pois “[...] a logística, nos últimos anos, vem mais relacionadas à logística e produção”.
evoluindo bastante na questão de melhorias, feitas A décima nova pergunta do roteiro de en-
dentro do seu próprio setor, tanto em questão de trevistas questionou os entrevistados sobre su-
layout, organização, sistemas de armazenamento. gestões para melhorar o desempenho da logísti-
São perceptíveis diversas melhorias as quais fo- ca. As principais propostas por eles apresentadas
ram feitas dentro do processo logístico.” podem ser visualizadas a seguir, no Quadro 2.
Quadro 2 - Sugestões de melhorias
Função Sugestões
“Buscar valorizar as pessoas, para que se sintam valorizadas para que realizem e
Técnico de logística
deem ideia para sempre estar melhorando com treinamentos e valorização”.
Almoxarife especia- “Na área do CKD, está meio defasado, não está estruturado, falta computadores
lizado para o pessoal trabalhar; o CKD é a área com mais dificuldade da logística hoje”.
“Mostrar para cada colaborador deste setor e das outras áreas como funciona
Almoxarife 2 todos os procedimentos da logística, a movimentação de materiais, as movimen-
tações no sistema, como é feito a entrada e a baixa dos materiais”.
“Com treinamentos, maior diálogo, uma participação maior da gestão com os
Almoxarife 3 funcionários [...] maior utilização dos sistemas WMS e ABT que estão aí para
nos ajudar e facilitar nosso trabalho”.
Almoxarife 4 “Treinamentos para melhorar o desempenho do pessoal”.
“Ter um acompanhamento mais de perto nesta área de abastecimento; na lo-
Técnico da linha de
gística, deveria ser feito um estudo para avaliar os parâmetros dos itens com a
montagem
disponibilidade do que estava disponível, o plano de montagem semanal”.

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70 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto

Fonte: elaborado pelos autores (2018). importância, explicar as informações necessá-


Todas as contribuições trazidas pelos en- rias se os funcionários tivessem um maior co-
trevistados buscam melhorar o desempenho da nhecimento do programa WMS.”
logística – entre essas sugestões, está o com- Evidencia-se, assim, que faltam infor-
bate aos desperdícios. Isso evidencia a neces- mações básicas para alguns entrevistados, prin-
sidade de melhorias nos treinamentos e de in- cipalmente no que concerne aos sistemas uti-
formações mais confiáveis, a fim de aprimorar lizados pela empresa. Trata-se de um ponto a
a logística interna na empresa (BUONAMICO; ser bastante trabalhado para melhorar a área da
MULLER; CAMARGO, 2017). logística organizacional.
A décima sétima questão do roteiro de
4.5 ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES entrevista visou conhecer a percepção dos
E DOS TREINAMENTOS NA LO- entrevistados sobre os treinamentos necessá-
GÍSTICA rios para a logística. Conforme o coordena-
dor de logística,
Nesta seção, são abordadas as principais
informações necessárias para desempenhar um ver os principais pontos que são gar-
galos, não só em nível de logística,
bom trabalho dentro da logística e quais os trei-
mas em nível de empresa, e que a
namentos fundamentais para esse tipo de traba- logística, muitas vezes, ela consegue
lho. Assim, a décima sexta questão do roteiro fazer com que esses gargalos sejam
de entrevista destinou-se a perguntar aos entre- eliminados por meio de uma logística
vistados quais informações julgavam necessá- diferente ou de uma interação dife-
rias para desempenhar um bom trabalho – esse rente com a fábrica ou qualquer outra
aspecto ficou definido como uma subcategoria área (ENTREVISTADO – COOR-
a posteriori na pesquisa. DENADOR DE LOGÍSTICA).
Para o coordenador de logística, as prin-
cipais informações são “o planejamento de Para o técnico da linha de montagem,
produção, planejamento de compras e entre- precisa-se de “treinamentos de sistemas de lo-
gas [...], uma visão do que tem produzido e o gística mesmo, como o Kanban, como funciona
que tem a receber para que as pessoas que são um Kanban, tempos de transportes, tempos de
o miolo do processo consigam se organizar espera e itens que precisam passar por inspeção
para fazer um bom dimensionamento na parte da qualidade.”
do recebimento e de abastecimento.” Já o al- E a vigésima questão, última do roteiro
moxarife 1 afirmou “nossa principal limitação de entrevista, buscou saber se os participantes
é informações relacionadas a sistema; eu acre- acreditam que o processo da logística pode ser
dito que nós deveríamos ter mais informações executado de uma forma melhor que a atual.
e acessos aos sistemas utilizados, para conse- A seguir, no quadro 3, apresenta-se um resumo
guirmos realizar um trabalho mais eficiente.” das respostas dadas pelos entrevistados.
O inventarista, por sua vez, disse: “[...] como
funciona sistema, como o WMS e ABT, nesta
questão nos pecamos na logística.”
Já o almoxarife 4 salientou que “todas
as informações que estão diretamente relacio-
nadas à área de logística” são muito importan-
tes. E o almoxarife 3 mencionou ser necessária
“uma boa integração sobre o nosso processo
manual de orientação, [...] conseguir explicar
sua função, porque dela está fazendo parte e a

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Quadro 3 - Opiniões sobre o processo logístico


Funções Ações
“Hoje tem muitas ferramentas, muitos softwares, onde tem muitos conceitos que
Coordenador de podem transformar a logística, tornando-a muito mais enxuta, muito mais produtiva,
logística auxiliando o fornecedor, olhando toda a cadeia, ajudando a ter um processo muito
mais limpo, muito mais direto, que visa a reduzir o custo logístico”.
“Integrar melhor os sistemas e não trabalhar somente com a confiança no ser hu-
mano [...] integrar o conhecimento logístico com o conhecimento de montagem e
Técnico de PCP
com o conhecimento de manufatura, [...] existe um potencial muito grande dentro de
todos os processos de montagem e produção”.
Técnico de
“O processo de logística já foi bom, melhorou bastante e tem muito que melhorar”.
logística
“No recebimento, na forma como as peças chegam, nas questões dos estrados, das embala-
Almoxarife 3
gens, de como o WMS funciona, facilitaria a entrada das peças e a nossa movimentação”.
Técnico da linha “Todo o processo pode ser melhorado e deve ser melhorado, a melhoria contínua
de montagem como o caminho a seguir”.
“O caminho da melhoria contínua, hoje fizemos um processo que talvez daqui a um
Inventarista
ano não atenda nossas necessidades”.
Fonte: elaborado pelos autores (2018).

Para Bardin (2004, p. 111), a “categori- ele propostas: aberta, axial e seletiva. Por meio
zação é uma operação de classificação de ele- da estrutura de nós do software, foram obtidas
mentos constituídos de um conjunto, por dife- as categorias e subcategorias que formam a co-
renciação e, seguidamente por reagrupamento dificação aberta e a codificação axial. Já a inte-
segundo o gênero (analogia) com critérios pre- gração das subcategorias da codificação axial
viamente definidos.” Nesta pesquisa, foram de- proporcionou a história do estudo de caso, que
finidas a priori as seguintes categorias: metas resultou na codificação seletiva.
e objetivos da pesquisa, gerenciamento de es- Na codificação aberta, criaram-se as
toques, mentalidade enxuta, produção puxada categorias, que depois foram codificadas
e movimentações. No decorrer das entrevistas, (nós). Formaram-se, assim, categorias a prio-
definiram-se a posteriori mais algumas cate- ri, listadas com base no referencial teórico,
gorias: embalagens, pontos críticos e gargalos, buscando alcançar o objetivo proposto nesta
informações e treinamentos e melhorias. pesquisa, e categorias a posteriori, elencadas
com base nos dados obtidos de cada entrevis-
4.6 ANÁLISE COM AUXÍLIO DE tado, de acordo com as questões do roteiro
SOFTWARE das entrevistas.
Na codificação axial, foram identificadas
Nesta seção, apresenta-se a análise das as subcategorias dentro de cada nó da codifi-
entrevistas realizadas. Os dados obtidos foram cação aberta. Dentro de alguns nós, criaram-se
importados para o software NVIVO 11®, sen- subcategorias para auxiliar na análise e facilitar
do posteriormente codificados e extraídos para o alcance do objetivo proposto na pesquisa. As-
análise. Esse processou possibilitou a execução sim, foram fixadas categorias a priori, definidas
de duas análises: uma realizada a partir dos com base em cada etapa do processo logístico
nós, e outra efetuada com base nas fontes das da empresa: gerenciamento de estoques, metas
pesquisas (entrevistas). e objetivos da logística, movimentações, aná-
A partir da estrutura de nós criada, pro- lise dos processos, mentalidade enxuta e pro-
cedeu-se, também, à codificação teórica de Fli- dução puxada. Além disso, foram definidas ca-
ck (2009), sendo utilizadas as três etapas por tegorias a posteriori, estabelecidas no decorrer

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72 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto

das entrevistas: embalagens, pontos críticos e gargalos, informações e treinamentos na logística.


Na codificação seletiva, foi desenvolvida a história do estudo de caso, permitindo a inte-
gração de todas as categorias e subcategorias. No quadro 4, exposto a seguir, consta a codificação
teórica deste estudo.

Quadro 4 - Codificação teórica


CODIFICAÇÃO TEÓRICA
CODIFICAÇÃO
CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL
SELETIVA
ANÁLISE DA MENTALIDADE ANÁLISE DA MENTALIDADE
ENXUTA ENXUTA
DESPERDÍCIO DESPERDÍCIO
MENTALIDADE ENXUTA MENTALIDADE ENXUTA
ANÁLISE DA PRODUÇÃO PUXADA ANÁLISE DA PRODUÇÃO PUXADA
ANÁLISE DAS EMBALAGENS ANÁLISE DAS EMBALAGENS
ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES E ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES E O estudo de caso desenvolvido
TREINAMENTOS TREINAMENTOS nesta pesquisa refere-se a uma
INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS empresa montadora de trato-
res localizada em Caxias do
TREINAMENTOS NECESSÁRIOS TREINAMENTOS NECESSÁRIOS
Sul, Rio Grande do Sul. Para
ANÁLISE DAS MOVIMENTAÇÕES ANÁLISE DAS MOVIMENTAÇÕES a coleta de dados, foram entre-
ANÁLISE DAS SUGESTÕES DE ANÁLISE DAS SUGESTÕES DE vistadas dez pessoas: o coor-
MELHORIAS MELHORIAS denador de logística, o técnico
de PCP, o técnico da linha de
MELHORIAS IMPLEMENTADAS MELHORIAS IMPLEMENTADAS
montagem, o técnico de logís-
SUGESTÕES DE MELHORIAS SUGESTÕES DE MELHORIAS tica, o almoxarife especiali-
ANÁLISE DOS PONTOS CRÍTICOS ANÁLISE DOS PONTOS CRÍTICOS zado, o inventarista e quatro
E GARGALOS E GARGALOS almoxarifes que trabalham
PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS diretamente com o abasteci-
DA LOGÍSTICA DA LOGÍSTICA mento da linha de montagem.
O objetivo geral do estudo foi
PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS identificar oportunidades de
ENTRE LOGÍSTICA E LINHA DE ENTRE LOGÍSTICA E LINHA DE melhoria na logística interna
MONTAGEM MONTAGEM de abastecimento de uma linha
PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS de montagem. Como catego-
ENTRE LOGÍSTICA E PRODUÇÃO ENTRE LOGÍSTICA E PRODUÇÃO rias a posteriori, elencaram-se
ANÁLISE DOS PROCESSOS LOGÍS- ANÁLISE DOS PROCESSOS LOGÍSTI- embalagens, pontos críticos da
TICOS COS logística e informações e trei-
MELHORIAS NOS PROCESSOS MELHORIAS NOS PROCESSOS namentos.
LOGÍSTICOS LOGÍSTICOS
PROCESSOS LOGÍSTICOS AUDITORIAS NOS PROCESSOS
GERENCIAMENTO DE ESTOQUES GERENCIAMENTO DE INVENTÁ-
AUDITORIAS NOS PROCESSOS RIOS
GERENCIAMENTO DE INVENTÁRIOS NÃO CONFORMIDADES NA LOGÍS-
NÃO CONFORMIDADES NA LO- TICA
GÍSTICA METAS E OBJETIVOS DA LOGÍS-
METAS E OBJETIVOS DA LOGÍSTICA TICA
Fonte: elaborado pelos autores (2019).

4.6.1 Análise dos nós

As entrevistas realizadas com o coordenador da logística, o técnico de logística, o técnico


de PCP, o técnico da linha de montagem, o almoxarife especializado, o inventarista e quatro almo-

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xarifes foram transcritas e importadas para o software NVIVO 11®, possibilitando a codificação
em “nós”. Essa estrutura de nós foi criada a partir das fontes (entrevistas) e referências (quanti-
dade de vezes que foi codificado algum trecho da entrevista em determinado nó), como se pode
observar no quadro 5.

Quadro 5 - Estrutura de nós no software NVIVO 11 ®


NÓS Fontes Referências
ANÁLISE DA MENTALIDADE ENXUTA 0 0
DESPERDÍCIO 9 9
MENTALIDADE ENXUTA 9 10
ANÁLISE DA PRODUÇÃO PUXADA 10 12
ANÁLISE DAS EMBALAGENS 10 22
ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES E TREINAMENTOS 0 0
INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS 10 10
TREINAMENTOS NECESSÁRIOS 10 10
ANÁLISE DAS MOVIMENTAÇÕES 10 10
ANÁLISE DAS SUGESTÕES DE MELHORIAS 0 0
MELHORIAS IMPLEMENTADAS 10 12
SUGESTÕES DE MELHORIAS 10 27
ANÁLISE DOS PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS 0 0
PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS DA LOGÍSTICA 10 10
PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS ENTRE LOGÍSTICA E LINHA DE
10 10
MONTAGEM
PONTOS CRÍTICOS E GARGALOS ENTRE LOGÍSTICA E PRODUÇÃO 10 11
ANÁLISE DOS PROCESSOS LOGÍSTICOS 0 0
MELHORIAS NOS PROCESSOS LOGÍSTICOS 9 9
PROCESSOS LOGÍSTICOS 10 10
GERENCIAMENTO DE ESTOQUES 0 0
AUDITORIAS NOS PROCESSOS 10 11
GERENCIAMENTO DE INVENTÁRIOS 10 12
NÃO CONFORMIDADES NA LOGÍSTICA 10 10
METAS E OBJETIVOS DA LOGÍSTICA 10 10
Fonte: extraído do software NVIVO 11® (2019).

A partir da estruturação dos nós e da codificação das entrevistas, com as ferramentas do


software NVIVO 11® foi possível estabelecer algumas relações entre as palavras. Nesse sentido,
analisou-se, por exemplo, a frequência de palavras, que aponta a contagem de palavras relevantes
na análise, possibilitando observar se os termos relacionados ao objetivo da pesquisa foram citados
durante as entrevistas. Na nuvem de palavras, exposta a seguir, na figura 1, são demonstrados os
termos mais relevantes da análise no que concerne à frequência em que esses termos foram usados.

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74 ARTIGOS | Eficiência no abastecimento de materiais em uma linha de montagem multiproduto

Figura 1 - Nuvem de palavras dos “nós” que trabalham com o abastecimento das linhas,
aspecto evidenciado, por exemplo, pelo fato de
desconhecerem os planos de montagem da se-
mana, a previsão de chegadas das peças e as
peças que precisam ser produzidas com maior
agilidade por estar em falta e serem necessárias
para finalizar produtos posicionados no final da
linha de montagem. Esses quesitos impactam
diretamente a montagem, de forma que a logís-
Fonte: extraído do software NVIVO 11 ® (2017). tica da empresa precisa criar meios efetivos para
disseminar as informações aos profissionais que
O software indicou relações entre termos trabalham diretamente no abastecimento.
como “almoxarifado” (citado 40 vezes) e “mo- Além disso, ficou evidente, nas entrevis-
vimentação” (citado 37 vezes), evidenciando tas, que as embalagens utilizadas na empresa
o impacto que as movimentações de materiais não atendem à logística e ao abastecimento na
ocasionam no almoxarifado. Para Castiglioni borda de linha, gerando retrabalho no recebi-
(2013), a movimentação de materiais pode ser mento, na armazenagem, no abastecimento das
definida como todo o deslocamento físico de peças e na montagem dos produtos. As em-
materiais dentro de uma instalação. balagens devem partir do fornecedor e passar
Os “estoques” (citado 79 vezes) de “ma- por todos os processos da empresa até chegar à
teriais” (citado 22 vezes) estão relacionados a borda de linha, a fim de evitar movimentações,
“metas” (citado 25 vezes) e a “inventário” (cita- retrabalhos e danos nos materiais.
do 19 vezes), termos esses que mostram a rele- Embora a empresa tenha criado, recente-
vância dos inventários de materiais para alcançar mente, um manual de embalagem com todas as
as metas de redução dos estoques dentro de uma informações relacionadas às embalagens, esse
empresa. Já “trabalho” (citado 35 vezes) está li- manual não era conhecido pelos técnicos de
gado a “tempo” (citado 30 vezes), evidenciando PCP e da linha de montagem, que são o princi-
a relevância do tempo para o trabalho e o quanto pal fornecedor e o principal cliente da logística
o fato de estar no tempo certo e no ponto de uso interna da empresa. As embalagens constituem
impacta os materiais, afetando diretamente o tra- um ponto crítico dentro da empresa, que pode
balho efetuado em determinado processo. ser trabalhado para aumentar o desempenho da
Por fim, destaca-se, conforme prevê logística e diminuir os custos dos produtos, oti-
Moura (1999), que a “produção” (citado 46 ve- mizando recursos e aumentando qualidade.
zes) da “empresa” (citado 48 vezes) pode uti- Ressalta-se, ainda, a falta de confiabili-
lizar o “Kanban” (citado 22 vezes) como uma dade nos fluxos de informações entre as áreas
das técnicas para puxar a produção. de logística, PCP e linha de montagem, fator
apontado pelos entrevistados. A deficiência nos
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS fluxos de informações está atrelada aos sistemas
usados pela empresa, uma vez que não há cone-
Considerando que a proposta desta pes- xão entre esses sistemas no controle das infor-
quisa consistiu em identificar oportunidades de mações. Também foi destacada a ineficiência do
melhoria na logística interna do abastecimento sistema WMS da logística, pois as informações
de uma linha de montagem multiproduto em não são confiáveis, e as pessoas que trabalham
uma empresa de tratores de Caxias do Sul, é no operacional da logística não têm os acessos
possível afirmar que o objetivo em questão foi necessários para desempenhar suas funções,
atendido. Constatou-se, inicialmente, uma fal- acarretando ineficiência do trabalho executado.
ta de informações básicas para os profissionais Diante disso, cabe mencionar que a gestão

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zenagem e no abastecimento de materiais e no
fluxo de informações, demonstrando a relevância BOYSEN, N. et al. Part logistics in the auto-
da pesquisa desenvolvida. Neste estudo de caso, motive industry: decision problems, literature
foram identificadas oportunidades de melhorias review and research agenda. European Journal
por meio das sugestões e opiniões dos funcioná- of Operational Research, v. 242, p. 14, 2015.
rios entrevistados, possibilitando ações de acordo
com as necessidades específicas do processo lo- BUONAMICO, N.; MULLER, L.; CAMAR-
gístico interno da empresa Agrale S.A. GO, M. A new fuzzy logic-based metric to
Conclui-se que a empresa não possui ali- measure lean warehousing performance. Sup-
nhamento operacional entre funcionários do ply Chain Forum: An International Journal.
mesmo setor, aspecto identificado pela falta de Taylor & Francis, v. 18, n. 2, p. 96-111, 2017.
informações básicas para os profissionais que tra-
balham com o abastecimento das linhas. Dessa CASTIGLIONI, J. A. M. Logística operacio-
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desempenho de sua função, ocasionando perdas.
É preciso citar, ainda, algumas limita- CHOPRA, S.; MEINDL, P. Gerenciamento
ções desta pesquisa, com destaque ao fato de da cadeia de suprimentos: estratégia, plane-
que o estudo de caso único não permite fazer jamento e operações. 6. ed. São Paulo: Pearson
generalizações quanto aos resultados apresen- Education do Brasil, 2016.
tados. Em relação a pesquisas futuras, suge-
re-se uma análise sobre outra área da empresa, DIEHL, A. A.; TATIM, D. C. Pesquisa em
uma vez que esta pesquisa limitou-se a identifi- ciências sociais aplicadas: métodos e técnicas.
car oportunidades na área da logística com foco São Paulo: Pearson, 2004.
na ótica da própria logística. Assim, este estudo
pode ser aplicado, por exemplo, sob a ótica dos DUBEY, R. et al. Sustainable supply chain
setores de produção e linha de montagem, po- management: framework and further research
dendo, também, ser realizado a partir de uma directions. Journal of Cleaner Production, v.
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 61-76, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 77

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p77-93.2019

ARTIGOS

PROCESSO E ESTRATÉGIA COMO PRÁTICA NA


TOMADA DE DECISÃO: UM ESTUDO DE CASO

PROCESS AND STRATEGY AS PRACTICE IN DE-


CISION-MAKING: A CASE STUDY

RESUMO

Este estudo teve como objetivo compreender como ocorre o pro-


cesso de tomada de decisão, a partir da análise das práticas estra-
tégicas e da ação dos praticantes, em uma indústria de confecção.
Para isso, foi realizada uma pesquisa qualitativa, por meio de um
estudo de caso. Os dados coletados nas entrevistas semiestrutura-
das, observação direta e análise documental foram tratados com
a técnica de análise da narrativa e pela triangulação de dados. Os
resultados apontam que diferentes formas de análise do contexto
organizacional têm gerado práticas importantes, como a adoção
de ferramentas estratégicas, a exemplo da análise SWOT, planeja-
mento estratégico e pesquisas de mercado. Essas práticas articula-
das pelos praticantes da estratégia têm proporcionado à organiza-
ção maior assertividade no processo de tomada de decisão.

Palavras-chave: Contexto Organizacional. Estratégia como Práti-


ca. Tomada de Decisão. Ação dos Praticantes.

ABSTRACT
Nathalia Berger Werlang
nathaliabw@[Link] This study aimed to understand how the decision-making process
Doutora em Administração. occurs through the analysis of strategic practices and practitioners’
Centro Universitário FAI - action in a confection industry. For this, a qualitative study was
UCEFF. Itapiranga, Santa carried out, through a case study. The data collected in the se-
Catarina, Brasil.
mistructured interviews, direct observation and documental analy-
Rosalia Aldraci Barbosa sis were treated with the technique of narrative analysis and data
Lavarda triangulation. The results point out that different forms of analysis
rblavarda@[Link] of the organizational context have generated important practices
Universidade Federal de Santa
like the adoption of strategic tools such as the SWOT analysis,
Catarina, UFSC. Florianópolis,
Santa Catarina, Brasil. strategic planning and market research. These practices articulated
by the practitioners of the organization have given greater respon-
Liara Letícia Lorenzatto siveness in the decision-making process.
liara_lorenzatto@[Link]
Bacharela em Administração.
Centro Universitário FAI -
Keywords: Organizational context. Strategy as practice. Decision
UCEFF. Itapiranga, Santa making. Action of the practitioners.
Catarina, Brasil.

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78 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

1 INTRODUÇÃO resultado a essas demandas do ambiente (BUR-


GELMAN et al., 2018).
A elaboração das estratégias empresa- A prática, como um movimento social,
riais é formada por meio de uma série de fatores começou a ganhar força entre os anos de 1970 e
internos e externos. Devido às contínuas trans- 1980, uma vez que a relação entre teoria e prá-
formações, que ocorrem na sociedade, os ne- tica ganhou destaque nas Ciências Sociais, es-
gócios sofrem pressões de todos os lados, para pecialmente no que se refere aos estudos orga-
que consigam adaptar-se aos contínuos novos nizacionais. Isso ocasionou uma “virada” para
cenários que se apresentam, a fim de continua- a ênfase à prática social (SCHATZKI, 2001),
rem competitivos no mercado. Entretanto, não que se tornou uma alternativa em relação às
existe um modelo único de estratégia, que deve teorias clássicas (RECKWITZ, 2002; FELD-
ser seguido por todas as empresas, há, sim, que MAN; ORLIKOWSKI, 2011).
se observarem as características internas e os Diferente das abordagens reducionis-
fatores externos, que incidem sobre cada uma tas e individualistas, que buscam explicar os
delas. Esses são elementos de preocupação fenômenos sociais, a partir da ação individual
central do campo da estratégia (CHAKRA- ou na estrutura, a prática social considera que
VARTHY; DOZ, 1992), tanto nas pesquisas os indivíduos e as práticas são fenômenos que
relacionadas ao conteúdo, quanto àquelas rela- carregam um contexto histórico e social (RE-
cionadas ao processo estratégico. CKWITZ, 2002; FELDMAN; ORLIKOWSKI,
A concepção de que não existe uma úni- 2011; SCHATZKI, 2005).
ca forma de gestão de todas as empresas surge Assim, a virada da prática parte do pres-
com a teoria contingencial, a partir dos anos de suposto de que as organizações precisam ser
1970 e 1980, ou seja, cada empresa precisa en- analisadas como um processo contínuo, um
contrar a melhor forma de se organizar a fim de acontecimento, bem como do resultado das di-
alcançar seus objetivos (LAWRENCE; LORS- ferentes interações sociais, que surgem a partir
CH, 1967). do processo de organizar (CZARNIAWSKA,
Etzioni (1989) corrobora, ao afirmar que 2004, 2008, 2013; SCHATZKI, 2006).
as organizações são unidades sociais, que com- No contexto dos estudos acerca da es-
preendem diferentes objetivos organizacionais a tratégia, Jarzabkowski, Balogun e Seidl (2007)
partir de suas funções, que podem ser baseadas destacam que eles vêm sendo apresentados a
na busca pela legitimação a fim de justificar suas partir da perspectiva da estratégia como prática,
atividades, construção de padrões que possam sendo esta a intersecção entre prática (ativida-
avaliar sua eficiência, rendimento e análise de de), praxis (ações pelas quais as atividades são
unidades de medida para justificar sua produtivi- desenvolvidas) e praticantes responsáveis pelo
dade. Assim, a razão de ser da organização está desenvolvimento da ação estratégica. Ademais,
baseada na resposta a esses objetivos, o que vai Jarzabkowski et al. (2015) destacam a influên-
exigir a definição de diferentes estratégias. cia do ambiente nas práticas estratégicas que,
Dessa forma, esse alinhamento e ajuste de acordo com o “como” serão desenvolvidas
da estratégia organizacional com o ambiente pelos praticantes, irão contribuir para o alcance
podem ser compreendidos como um fenôme- dos resultados pretendidos.
no social, um conjunto de práticas organizadas Diante do exposto, este estudo teve como
que estão sempre em (re)construção (CZAR- objetivo compreender como ocorre o processo
NIAWSKA, 2004, 2008, 2013; SCHATZKI, de tomada de decisão, a partir da análise das
2006), além do que a perspectiva de processo práticas estratégicas e da ação dos praticantes
permite compreender em nível micro os as- em uma indústria de confecção. Para alcançar
pectos relevantes de como as estratégias são esse objetivo, realizou-se uma pesquisa qua-
moldadas e implementadas, na prática para dar litativa, por meio de um estudo de caso único

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AUTORES | Nathalia Berger Werlang, Rosalia Aldraci Barbosa Lavarda, Liara Letícia Lorenzatto 79

(STAKE, 2003) em uma indústria do setor de o chão de fábrica (emergentes) e decisões, que
confecções. O caso selecionado atende aos ocorrem no nível intermediário, porém, com
critérios de acessibilidade e intencionalidade a participação de todos os níveis hierárquicos
(EISENHARDT, 1989), uma vez que a organi- (integradores) (ANDERSEN, 2004).
zação apresentou as características necessárias No modelo deliberado, somente o gestor
para a viabilização do estudo proposto. da alta direção é capaz de ser habilitado a ob-
As técnicas de coleta de dados foram ter informações, que orientam a aplicação ou
entrevistas semiestruturadas, observação direta a execução (HAMBRICK, 1987). Aqui, uma
e análise de documentos disponibilizados pela pessoa sozinha não é responsável pelo sucesso
organização. Para análise dos dados, foi adota- na estratégia, mas, sim, o trabalho de uma equi-
da a técnica de análise da narrativa (LIEBLI- pe bem preparada e qualificada. Nesse modelo,
CH; TUVAL-MASHIACH; ZILBER, 1998) e o ambiente oferece oportunidades e ameaças
comparação dos dados coletados. para as organizações, que estabelecem os cri-
O trabalho está estruturado da seguinte térios de escolha.
forma: após essa introdução, buscou-se aporte Apesar de as pesquisas em estratégia
teórico para dar sustentação à coleta e à análise aparecerem focadas em um modelo de tomada
de dados, tratando-se da estratégia como pro- de decisão na alta direção (top-down), outras
cesso (de tomada de decisão) e como prática. perspectivas começam a ter ênfase na literatura,
A seguir, apresentam-se os aspectos metodo- as quais estão centradas na base da organização
lógicos da pesquisa. Posteriormente, são apre- e são formadas pelo modelo bottom-up, por um
sentados os resultados da pesquisa e, nas con- lado e pelo modelo middle-up-down, por outro
siderações finais, são abordadas as principais lado, possuindo uma visão mais empreendedo-
contribuições do estudo, limitações e sugestões ra e democrática com uma estrutura hierárqui-
de futuras pesquisas. ca horizontal, ou seja, do meio e de baixo para
cima e com ênfase nas pessoas. O processo na
2 TOMADA DE DECISÃO E ESTRA- tomada de decisão é considerado descentraliza-
TÉGIA COMO PRÁTICA do e possui um ambiente orgânico, ou seja, com
uma visão mais participativa (ANDERSEN,
As estratégias estão, cada vez mais, pre- 2004; LAVARDA; GINER; BONET, 2011;
sentes nas organizações atuais, sendo observada MIRABEU; MAGUIRE; HARDY, 2018).
sua importância nas ações das organizações, em Assim, o campo de estudos em estratégia
curto, médio e longo prazo. Isso corrobora sua vem sendo (re)demarcado por múltiplas abor-
presença como um elemento fundamental para a dagens teóricas, entre as quais se tem destacado
sobrevivência e o desenvolvimento da empresa, o dualismo entre processo e conteúdo (BUL-
conforme os objetivos que ela persegue. GACOV et al., 2007), a depender do modo
O processo de tomada de decisão estra- como se entende o praticante, pois é ele quem
tégica vem sendo discutido e pesquisado desde irá dizer o sentido que a estratégia possui. Des-
os primeiros estudos de estratégia, até as abor- sa forma, olhar a estratégia como uma prática
dagens da renovação dos conceitos corporati- social é olhar como ela é; como as pessoas fa-
vos (CHAKRAVARTHY; DOZ, 1992; BUL- zem e como ela está situada. A estratégia passa
GACOV et al., 2007). a ser compartilhada, reproduzida ao longo do
A tomada de decisão ocorre por meio de tempo, e as pessoas pressupõem que, para fa-
diferentes perspectivas, que podem ser consi- zer negócios, é preciso estratégia; isso significa
deradas como as decisões que são deliberadas, uma prática social. Assim, a perspectiva que se
são tomadas de cima para baixo, como um pro- passa a analisar para entender a estratégia é a
cesso centralizador; decisões do nível opera- da prática social, ou seja, considera-se a vira-
cional, a partir de definições e demandas desde da da prática para analisar a estratégia a par-

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80 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

tir da perspectiva micro, do dia a dia, da ação interação entre os atores envolvidos nas ações
(SCHATZKI, 2001; RECKWITZ, 2002; OR- episódicas, que geram interação entre os prati-
LIKOWSKI, 2007; NICOLINI, 2012; CZAR- cantes no decorrer da execução da estratégia.
NIAWSKA, 2013). Justamente por isso, essa vertente de in-
O tema estratégia como prática ou stra- vestigação de estratégias recebeu o nome de
tegizing surgiu nos estudos de estratégia, nos estratégia como prática, uma vez que compre-
anos de 1990, com Whittington (1996) e vem ende que a estratégia é construída, diariamente,
sendo discutido e expandido em diversos es- pelos atores envolvidos no processo durante
tudos contemporâneos, como Balogun, Huff e suas atividades e rotinas de trabalho (WHIT-
Johnson (2003), Jarzabkowski, Balogun e Seidl TINGTON, 2006). Assim, a estratégia pode
(2007), Chia e Mackay (2007), Rasche e Chia ser definida pelas atividades que os membros
(2009), Jarzabkowski (2010), Lavarda, Canet- executam e não apenas como uma atividade de-
-Giner e Peris-Bonet (2010), Cardoso e Lavar- finida pela alta direção (VAN DE VEN; JOHN-
da (2015), Jarzabkowski, Burke e Spee (2015), SON, 2006).
Iasbech e Lavarda (2018). Bulgacov et al. (2007) corroboram a vi-
O estudo de Whittington (1996) foi res- são micro-organizacional da estratégia como
ponsável por disseminar o conceito de “strategy prática, uma vez que o foco de investigação se
as practice”, por meio da definição do conceito concentra tanto no processo de formulação e
como prática social, voltando os olhares para implementação da estratégia, quanto nas ativi-
os praticantes das estratégias e suas interações. dades diárias dos funcionários, à medida que se
Jarzabkowski (2003) ampliou o conceito relacionam as atividades habituais aos resulta-
de estratégia como prática, ao afirmar que ela dos organizacionais.
é composta por um agrupamento de interações De acordo com Jarzabkowski, Balogun e
e interpretações dos colaboradores, que estão à Seidl (2007), o strategizing ocorre por meio da
frente de atividades estratégicas de uma empre- interação de três elementos, que são as práticas,
sa. Assim, as ações do dia a dia passam a ser a práxis e os praticantes, figura 1. As práticas
valorizadas e investigadas, a partir da estraté- são caracterizadas pelas rotinas, pelos procedi-
gia como prática, que são resultantes das ativi- mentos e pelas normas que surgem da estratégia;
dades habituais de uma empresa (JOHNSON; entretanto, acontecem de uma forma relaciona-
MELIN; WHITTINGTON, 2003). da à cultura organizacional, ou seja, surgem da
A partir desses estudos, a estratégia vem cultura já enraizada na organização (JARZA-
sendo vista como atividade micro- BKOWSKI; BALOGUN; SEIDL 2007).
-organizacional, ou seja, como atividades diá- Ainda, para Whittington (2006), as práti-
rias dos membros da organização que podem cas são compreendidas como rotinas e procedi-
ser consideradas estratégicas para qualquer mentos comportamentais que envolvem ques-
empresa (JOHNSON; MELIN; WHITTING- tões da cultura organizacional, como tradições
TON, 2003; JARZABKOWSKI, 2003; VAN e normas das organizações.
DE VEN; JOHNSON, 2006).
Jarzabkowski (2004) define a estratégia
como prática por um conjunto de atividades
que envolvem normas, regras, rotinas, hábitos
e processos que os atores desenvolvem a par-
tir de demandas. Além disso, a autora sugere
que as práticas podem ser classificadas como
racionais e administrativas, relativas a ativida-
des organizacionais e direção; discursivas, rela-
tivas aos símbolos e aos resultados gerados na

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Figura 1 - Strategizing: um modelo conceitual para analisar a Estratégia como Prática

Fonte: (JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007, p. 11).

A práxis é definida por Jarzabkowski, cias, vividas pelos praticantes no ambiente ex-
Balogun e Seidl (2007) como as interligações terno, passam a integrar o ambiente interno da
que existem entre as ações dos atores envolvi- empresa, a partir das práticas.
dos na instituição, assim como as ações desem- Sendo assim, a partir da visão da estraté-
penhadas por eles, a fim de alcançar as metas gia como prática, acredita-se que a identidade
previamente definidas. das pessoas da organização afeta a forma de
Já os praticantes são representados pelos como as estratégias são definidas. Nesse con-
atores, que desenvolvem essas ações. São in- texto, os estrategistas (praticantes), a partir de
divíduos que fazem parte da organização, em seu conhecimento e experiências, auxiliam no
que, diariamente, são realizadas as práticas es- desenvolvimento e no molde das estratégias,
tratégicas. São considerados praticantes todos fugindo do processo deliberado e de atribuição
os atores organizacionais, sejam eles da base, de responsabilidades (JARZABKOWSKI; BA-
intermediários, sejam do topo da pirâmide LOGUN; SEIDL, 2007).
organizacional (JARZABKOWSKI; BALO- Adicionalmente, Canhada e Bulgacov
GUN; SEIDL, 2007). (2011) reafirmam que a estratégia, como prática
Dessa forma, Whittington (2006) destaca social, tem como foco as atividades realizadas
que os atores podem ser considerados os ele- pelos indivíduos em nível micro-organizacional,
mentos-chave na abordagem da estratégia como que, ao interagirem e estarem envolvidos com
prática, uma vez que são eles quem estão inse- relações de poder complexas, podem trazer os
ridos nas organizações e realizam as práticas. resultados esperados ou não pela organização.
Sendo assim, são eles que auxiliam na formação Whittington, Cailluet e Yakis-Douglas
e na implementação das estratégias. Além deles, (2011) adotam uma abordagem diferente para a
os consultores e outros atores externos que pos- estratégia, como prática, na qual ela não é con-
sam contribuir com a organização também po- siderada deliberada e, sim, emergente, ou ain-
dem ser considerados praticantes, uma vez que da, aberta, uma vez que aumenta a flexibilidade
contribuem para a estratégia organizacional. e a inclusão de atores e processos, à medida que
Por isso, Whittington (2006) destaca que se desenvolve na prática. Assim, ela envolve a
o ambiente interno e externo da organização se participação de todos os atores na troca de in-
une, a partir do momento em que as experiên- formações e na aceitação de diferentes pontos

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82 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

de vista, a fim de tornar a estratégia mais ali- veis de cinco níveis hierárquicos da IES. Assim,
nhada com todos os níveis organizacionais. os resultados apontam que a prática estratégica
O estudo realizado por Teixeira e Costa na instituição ocorre a partir de seu contexto
(2012) buscou compreender a realidade de uma histórico-social, da relação de poder dos dife-
empresa multinacional catarinense do setor rentes estrategistas, das vozes dos praticantes e
moveleiro a fim de identificar como a estraté- de seu processo de decisão.
gia, como a prática é relevante nesse contexto. Diante do exposto, percebe-se que inú-
Sendo assim, a empresa que evoluiu de uma meros estudos vêm apresentando resultados
organização de fundo de quintal para uma mul- decorrentes da interação da estratégia, como
tinacional, parceira com uma empresa italiana, processo e prática, podendo ilustrar como é
utilizou-se da estratégia como prática uma vez possível que decisões estratégicas possam ser
que o modelo de produção, a incorporação da tomadas, considerando o dia a dia da organi-
tecnologia italiana e os atores organizacionais, zação. Dessa forma, buscando responder à
que foram treinados na Itália, contribuíram, questão de pesquisa inicialmente proposta, ela-
fortemente, para a transformação da empresa. borou-se a proposição decorrente da revisão te-
Este estudo corrobora os achados de Jar- órica realizada, para guiar a pesquisa de campo
zabkowski et al. (2015), os quais enfatizam a e ser comparada com os dados coletados em-
importância de estudar a prática no momento em piricamente. A tomada de decisão estratégica é
que ela acontece e, da mesma forma, acompanha definida a partir da análise do contexto organi-
as atividades, à medida que elas ocorrem, a fim zacional (ambiente) e da ação dos praticantes
de evidenciar se existem lacunas entre a prática (práticas estratégicas).
que foi formalizada e o que realmente acontece
no dia a dia e, assim, evidenciar o que se chama 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGI-
de improvisações, ou ainda, escolhas alternativas. COS
Ao analisar o sucesso de fenômenos, que
ocorrem ao longo do processo, Tureta e Júlio Para justificar as diferentes abordagens
(2015) afirmam que todos os desafios enfren- epistemológicas, quando estamos tratando de
tados antes e durante o desfile de uma escola estratégia como processo e estratégia como
de samba foram superados a partir do momento prática (BURGELMAN, 2017; BURGEL-
em que os praticantes foram superando os desa- MAN et al., 2018), a metodologia adotada se
fios ao longo do percurso e conseguiram atingir apoia na fronteira de paradigmas, apresentada
o resultado esperado no fim do desfile. por Silva e Roman Neto (2006), considerada
Ainda, quando se analisa a importância perspectiva multiparadigmática, defendendo
dos atores externos para o sucesso das estra- que existe uma zona de transição entre os para-
tégias organizacionais, D`avila et al. (2016) digmas funcionalista e interpretativo, os quais
analisaram quais membros externos seriam re- apresentam similaridades mais que diferenças
levantes a partir da visão dos empresários e o em seu cruzamento.
trabalho realizado por eles para as estratégias Para atender ao objetivo do presente es-
organizacionais. tudo, realizou-se uma pesquisa qualitativa, des-
Dias, Rossetto e Marinho (2017) realiza- critiva, sendo orientada pelo método de estudo
ram um estudo a fim de compreender como as de caso. De acordo com Stake (2003), o estudo
práticas discursivas contribuíram no fazer es- de caso favorece a pesquisa empírica em que se
tratégia de uma instituição de ensino superior estuda um fenômeno contemporâneo em pro-
comunitária. Partindo de um estudo de caso fundidade e em seu contexto de vida real. Com
único, os dados foram coletados por observa- esse método, buscou-se obter experiências de
ções em reuniões de planejamento estratégico, empresários gestores de uma empresa de con-
análise documental e entrevista com responsá- fecção situada em um polo têxtil no sul do Bra-

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sil, a partir da narrativa de tomada de decisão riormente, transcritas para facilitar a análise.
em diferentes episódios estratégicos relevantes, Assim, a coleta de dados priorizou o
considerando a busca em compreender, de for- processo de tomadas de decisões estratégicas
ma aprofundada, o fenômeno no contexto em e como as vozes dos praticantes são utilizadas
que ele ocorre, por meio do ponto de vista e para a formação das estratégias. Além das en-
do entendimento dos atores envolvidos (prati- trevistas, foram realizadas observações diretas
cantes). O estudo de caso foi desenvolvido a em três reuniões de planejamento estratégico
fim de aprofundar a questão de pesquisa; para da empresa, nas quais se procurou observar o
isso, buscou-se verificar diferentes fontes de padrão de comportamento, a formação das de-
evidências. O caso foi selecionado, seguindo cisões e a forma de atuação in loco. As observa-
os critérios de acessibilidade e intencionalidade ções buscaram responder à questão de pesquisa
(EISENHARDT, 1989), uma vez que a orga- que orientou o estudo (Como ocorre o processo
nização apresenta as características necessárias de tomada de decisão a partir da análise das prá-
para viabilizar o estudo proposto. ticas estratégicas e da ação dos praticantes?).
A empresa do setor têxtil, já está, há mais Foi também realizada a análise docu-
de 25 anos, no mercado, possui quatro unida- mental a partir de relatórios de crescimento da
des produtivas no estado catarinense, além de empresa e das atas de reuniões de decisões es-
escritórios corporativos em São Paulo. A sele- tratégicas fornecidas para o estudo.
ção do caso em estudo no setor têxtil justifica- Com base nas diferentes fontes de cole-
-se pelo fato de o Brasil ser, atualmente, o 2º ta de dados, foi possível realizar a triangulação
maior empregador da indústria de transforma- dos dados (MINAYO; ASSIS; SOUZA, 2005).
ção e 2º maior gerador do primeiro emprego; é Esse procedimento permite a integração de di-
o 4º maior parque produtivo de confecção do ferentes fontes de evidência, proporcionando a
mundo; 5º maior produtor têxtil do mundo; 4º minimização dos vieses e ampliando a confia-
maior produtor de malhas do mundo e faturou, bilidade dos dados.
em 2015, US$ 39,3 bilhões (ABIT, 2016). Para a tabulação dos dados, foi utilizada
Sendo assim, buscou-se compreender a técnica de análise da narrativa, que procura
o processo de tomada de decisão, a partir da entender a totalidade do fenômeno, a partir de
análise das práticas estratégicas e da ação dos suas peculiaridades (GODOI; BANDEIRA-
praticantes em uma indústria de confecção. -DE-MELLO; SILVA, 2006). As narrativas são
Em relação à técnica de coleta de dados transcritas com intuito de representar as evi-
utilizada, foram empregadas três diferentes dências encontradas no campo.
fontes de investigação, proporcionando, assim, Assim, passa-se para a apresentação e a
a triangulação dos dados, por meio da realiza- análise dos resultados, desenvolvidas de forma
ção de entrevistas, observação direta e análise conjunta (resultados das entrevistas, observa-
documental. As entrevistas semiestruturadas ção e documentos), considerando-se a aborda-
foram realizadas com quatro gestores de nível gem indutiva proposta por Trochim (1989) em
médio da empresa, uma vez que eles possuem que se apresentam os dados empíricos e volta-
relação direta com os gestores do topo da pirâ- -se à teoria, contemplando e corroborando (ou
mide, assim como com os praticantes da base. não) os achados da pesquisa.
O instrumento de coleta de dados, que foi uti-
lizado nesta pesquisa, foi adaptado do instru- 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE
mento de Krakauer (2011). DOS RESULTADOS
Por questões éticas, os participantes fo-
ram convidados, previamente, a participar da A empresa, em estudo, está localizada no
pesquisa, assinando um termo de aceite. Além Município de São Carlos – SC (matriz) e possui
disso, as entrevistas foram gravadas e, poste- mais cinco unidades no Brasil. Sua conjuntura

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84 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

societária é formada por dois sócios e está atu- e tecnologia em primeira instância e
ando no mercado há 25 anos. São 536 funcio- também referente à população e suas
nários diretos, mais 68 representantes comer- características, onde nós estamos pro-
ciais; apresentou, em 2014, um faturamento duzindo, então, qual é a disponibilida-
de de mão de obra, qual é o tipo de mão
acima de R$ 3.600.000,00. O setor de atuação é
de obra, vou ter que ter treinamento,
o do ramo de confecção. automação ela me ajuda a reduzir essa
Os gestores foram identificados como dependência (Entrevistado D);
Entrevistado A, Entrevistado B, Entrevistado Levamos todas as variáveis em consi-
C e Entrevistado D. Inicialmente, os gestores deração, não tem como trabalhar essas
foram questionados acerca das decisões estra- variáveis separadamente, a gente sem-
tégicas mais relevantes, que tiveram que ser pre tem que estar com a visão da flores-
tomadas nos últimos seis meses. O quadro 01 ta, a gente usa muito isso, olhar e en-
apresenta estes resultados.

Quadro 1 - tomada de decisão estratégica


Gestores Cargo Tomada de decisão estratégica
Entrevistado A Gerente de recursos humanos Planejamento, implementação e gestão do
programa de cargos e salários
Entrevistado B Gerente comercial Reestruturação da área de mercado
Entrevistado C Sócia-proprietária e gerente administrativa Investimentos na infraestrutura
Entrevistado D Gerente de infraestrutura Ampliação do parque fabril
Fonte: elaboração própria
xergar uma floresta não somente uma
Ao analisar o ambiente externo, que é le- árvore e uma floresta têm esses quatro
vado em consideração para a tomada de decisão, itens, todas essas variáveis, são impor-
os gestores destacam alguns fatores principais, tantes de serem analisadas, aí claro, na
tomada de decisão a gente compunha,
como análise de variáveis do governo, variáveis
liquidifica isso e toma a decisão que a
da população e características demográficas, re- gente certamente fazendo uma escolha
alização de pesquisa de concorrentes, fornece- a gente vai priorizar uma variável e
dores, clientes e tecnologia, que influenciam na vai, talvez, deixar as outras um pouco
tomada de decisão, para o que ressaltaram: mais de lado (Entrevistado A).

Verificamos o conjunto de todos, A partir da narrativa dos entrevistados,


porque a gente olha cenário políti- pode ser examinado que todos os gestores le-
co, cenário econômico, cenário de
vam em consideração um conjunto de variáveis
consumo, como é que está o varejo
que é a nossa área de atuação, que
externas para a tomada de decisão, evidencian-
pacote de valor vamos levar para o do a influência do ambiente (contexto) no pro-
mercado, que pacote de valor vamos cesso interno, que vai ser moldado pelas ações
levar para o colaborador, porque ele dos gestores (praticantes), podendo resultar em
também precisa desejar trabalhar em diferentes escolhas estratégicas ou em melhores
nossa empresa, olhamos concorrên- práticas, conforme proposto por Jarzabkowski
cia, olhamos comportamento de con- et al. (2015, p.15) traduzido na figura 2.
sumo, porque a gente trabalha com a Acerca dos fatores relevantes, para a for-
renda discricionária do consumidor mação das estratégias, os respondentes ainda
(Entrevistado C);
afirmam que: “os fatores considerados para a
Basicamente variáveis relacionadas a
concorrentes, fornecedores, clientes
formação das estratégias são aumento da pro-

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dutividade, redução de custos e melhoria da mento, porque a gente tinha um estudo de merca-
qualidade do produto final.” O entrevistado (A) do que dizia que a marca poderia crescer, mas que
alegou que “números, resultados, fatos e dados, precisava realmente buscar essas adequações”.
feeling não adianta, é muito indicador, se lá De maneira complementar, o entrevista-
apresenta que deve ser, assim será”, confirman- do C afirma que o principal fator para a forma-
do o que pode ser encontrado em Mirabeau e ção da estratégia organizacional é o mercado
Maguyrre (2014) quando apresentam a relação consumidor, “existe potencial de mercado a
entre estratégia como processo e como prática ser coberto, nós fizemos um mapeamento de
com as diferentes manifestaões da estratégia mercado no Brasil todo, com alguns indicado-
(desde deliberada, passando por emergente até res externos, em nível de IBGE, índice de po-

ser realizada).
Figura 2 - Modelo integrativo de estratégia como prática

tencial de consumo das regiões e das cidades e


mapeamos o perfil das cidades, onde a empresa
poderia estar presente”.
Quando questionados sobre a importân-
cia da tecnologia para a tomada de decisão, o
entrevistado D alegou que sempre usa recursos
tecnológicos e discussões com a equipe. Os de-
mais entrevistados destacaram que

Para a tomada de decisão se considera


tudo, é a visão da equipe, pois são eles
que acompanham os indicadores e es-
ses indicadores obviamente só alguns
são tratados em nível de diretoria; não
se vem aqui tratar diretamente sobre
absenteísmo, pois isso eu trato na mi-
Fonte: (JARZABKOWSKI et al., 2015, p. 15). nha equipe, crio o plano de ação lá junto
O entrevistado B enfatizou que “foi a ques- com os ambientes onde estão com maior
tão da posição que a empresa quer seguir, que é defasagem, a gente trata, por exemplo, o
ter a cabeça de mercado, a necessidade de cresci- indicador de rotatividade, esse é tratado

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86 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

em diretoria, então, a gente alinha tudo, as estratégias são as pessoas. [...] às


precisa do recurso tecnológico, com vezes o dono tem uma intenção, mas
base em BI, RP, planilha também, excel, os dirigentes (nós) definem por outro
percepção da equipe (Entrevistado A); direcionamento, obviamente apresen-
A gente discute muito com a equipe, nós tando fatos e dados.
temos banco de dados, BI, planilhas de
Excel, gráficos, pesquisas. É discutido De maneira complementar, o entrevista-
com a equipe e as decisões são comparti- do D afirma que é preciso ouvir o operador do
lhadas, a gente discute tudo que tem que chão de fábrica, que conhece, de fato, o proces-
discutir antes de escolher, depois que es-
so, já que a teoria nasce da prática. Entretanto,
colheu, parte para a cobrança, cada um
assume um pedaço da tarefa. Há uma o mesmo entrevistado ainda afirma que “não
discussão muito intensa para a tomada por isso se deve abrir mão de ferramentas de
de decisão, quando o grupo escolheu análises, como investimentos, retornos, etc”.
um caminho, todo mundo dá as mãos e Percebe-se, aqui, que a empresa possui
segue para o mesmo foco (Entrevistado uma forma de gestão bastante participativa, vis-
C). to que são levadas em consideração as opiniões
“Sim, muitas planilhas, muitas discus- de todos os níveis hierárquicos no momento de
sões com a equipe, pesquisas também, a gente tomada de decisões, aproximando, na realidade
tem também sistemas próprios, como BI inter- estudada, o processo de tomada de decisão da
no, onde a gente consegue montar alguns cená- prática diária, da ação, conforme previsto em
rios específicos para análise e cruzamento de Burgelman et al. (2018).
dados específicos.” (Entrevistado B). Quando indagados sobre os fatores que
Diante do exposto, entende-se que todos influenciam na formação da estrutura da em-
os gestores analisam as informações do am- presa para tomada de decisões, o entrevistado
biente considerando os recursos tecnológicos A apontou que a tomada de decisão é toda rea-
e ferramentas (estratégicas em uso), segundo lizada por meio de processos mais formais que
Jarzabowski e Kaplan (2015), como planilhas, informais. Os demais entrevistados citaram que
cenários, sistemas integrados, BI, discussões
com a equipe, as quais favorecem, contribuem Nós sempre trabalhamos muito com
para o processo de tomada de decisão. consultoria na empresa, então, a gente
A partir das ferramentas utilizadas para segue métodos academicamente com-
análise e discussão das ideias, o entrevistado C provados, a exemplo do BSC, dos
evidencia que a equipe consegue, por exemplo, indicadores econômicos financeiros,
benchmarking, etc. A gente contrata
mapear as novas estratégias a serem seguidas
programas de fora, contratamos con-
pela empresa, por meio do desdobramento de sultores, professores, ficamos de olho
uma diretriz. Nesses momentos, a empresa con- por onde vai a política, por onde vai a
segue traçar estratégias para o lançamento da economia, como está o câmbio. Então,
nova coleção, preço, custo, em que o produto não dá para seguir somente pesquisas
será fabricado, quem vai produzir, a qual preço e orientação acadêmica, tem que ter
e como será feita a comunicação no mercado. um pouco de percepção de mercado,
Quanto à forma de gestão praticada pela para poder acertar mais. Se você não
empresa, perante seus empregados, para melhor se cercar de alguns indicadores o erro
tomada de decisão, o entrevistado A afirmou que é maior, e por isso que a empresa pre-
cisa muito do planejamento estratégi-
co e orçamentário, tem muita técnica
Todas as decisões são tomadas de
no nosso trabalho sim, não é amador
forma colegiada, o RH participa
(Entrevistado C).
efetivamente no planejamento estra-
tégico, porque quem conduz todas

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De acordo com as narrativas, verifica-se lo que a gente aprende na faculdade a


que o processo de identificação da necessida- empresa aplica, mas algumas coisas
de da informação pareceu ser formal e pou- tem que respeitar a intuição, tem que
co intuitivo em todas as decisões descritas. sentir a hora de dar o salto e a hora
de puxar o freio de mão [...]. Se você
Entretanto, os autores Eisenhardt e Zbaracki
não se cercar de alguns indicadores o
(1992) acreditam que a intuição está presente erro é maior, por isso que a empresa
no processo de decisão e age como comple- precisa muito do planejamento estra-
mentar a racionalidade. tégico e orçamentário.
Corroborando essas afirmações, Keeney
(2004) destaca que um bom tomador de decisão Ao refletir sobre a narrativa dos entrevis-
sempre avalia, em qualquer nível de decisão, tados, verificou-se que a empresa utiliza o mé-
todas as informações de que dispõe sobre o as- todo BSC (Balanced Scorecard), que, de acor-
sunto. É muito difícil utilizar a intuição para to- do com Kaplan e Norton (1997), oferece aos
das as decisões complexas, como é o caso das executivos os instrumentos necessários para
estratégias, apesar de ser necessário empregar alcançar o sucesso futuro. Hoje, as empresas,
certo grau de subjetividade. Faraco, Lavarda e competem em ambientes bastante complexos.
Gelbcke (2019) destacam as dimensões objeti- É fundamental que exista uma perfeita com-
vas e (inter)subjetivas no processo de tomada preensão de metas e métodos para alcançá-los.
de decisão estratégica, assim como a comple- O BSC traduz a missão e a estratégia das em-
xidade dos papéis estratégicos dos gestores in- presas, em um conjunto abrangente de medidas
termediários diante de situações deliberadas e de desempenho que serve de base para um sis-
emergentes, apontando a necessidade, em espe- tema de medição e gestão estratégica.
cial, de aprimoramento cotidiano das concep- Além disso, o planejamento estratégico
ções incrementais (conhecimento, experiência, definido, as avaliações mensais e as medidas sis-
sensibilidade, julgamento, entre outras). temáticas dos resultados são outros fatores utili-
Ao analisar a tomada de decisão estra- zados pela empresa para auxiliar nas tomadas de
tégica na empresa, a partir das ferramentas decisões. A utilização dessas ferramentas tam-
estratégicas: BSC, Planejamento estratégico, bém ficou evidente no momento em que foi rea-
Planejamento orçamentário e Medidas mensais lizada a observação direta na empresa, quando
sistemáticas de todos os resultados, o entrevis- se pode acompanhar uma das reuniões mensais
tado C afirmou que realizadas pela equipe de gestores, na qual são
tomadas decisões futuras para a empresa, com
Nós fazemos uma reunião mensal, base nos indicadores de resultados mensais.
chamada AGIR (Avaliação Gerencial
Nessa oportunidade, também foi eviden-
de Indicadores de Resultados) com
os gerentes e cada gerente faz com
ciada a existência de um Planejamento Estraté-
suas equipes, mensalmente, há uma gico definido e estruturado, assim como o BSC
disseminação de resultados, para que e o Mapa estratégico da empresa. Essas ferra-
ele permeie todos os níveis da orga- mentas evidenciam dois pontos: a formação da
nização, então, acho que isso foi uma estratégia, que é deliberada (formalmente nos
habilidade que a empresa construiu e planos expostos) e emergente quando são dis-
que tem nos trazido esses resultados cutidos para ser revisados em função de mu-
positivos [...] e é isso que vai levar a danças do ambiente interno ou externo, como
empresa em um posicionamento de mostra a teoria (MIRABEAU; MAGUYRRE;
destaque ao longo dos anos, a cons-
HARDY, 2018) e, simultaneamente, a estraté-
trução dessa cultura, dessa discipli-
na, desse compartilhar da gestão.
gia como prática evidenciada nas ações e na
Trabalhamos com balanço, com to- participação dos praticantes nos episódios es-
das as ferramentas acadêmicas, aqui- tratégicos, como a reunião em si ou a participa-

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88 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

ção traduzida nas ações diárias para consecução dos planos (BURGELMAN et al., 2018).
Ao buscar compreender quem são os praticantes nessa organização, identificou-se quem
são os atores responsáveis pelas tomadas de decisões, quadro 02.

Quadro 2 - Praticantes (desenvolvem a prática radores foram consultados a respeito


estratégica) de qual o melhor padrão tecnológico,
- Colegiada (acionistas, direção, presidência, diretoria e ejuntos
aí a gente
tinhamtambém
alguns confrontou
gestores, dacom
área de mercado, da área de operações, RH); fatos e dados, ouvimos de forma bas-
Atores tante ativa eles, ouvimos a opinião do
- Próprios gestores;
- Gestores e operacional. pessoal da manutenção dos operado-
res e do gerente de produção que tem
Fonte: elaboração própria
uma larga experiência em confecção,
Nos relatos dos gestores, identificou-se então, toda essa vivencia a gente tem
que: “Foram em reuniões que começamos a fa- que respeitar, e utilizar do seu conhe-
zer junto com a fundação Dom Cabral e aí as cimento, agora isso não quer dizer
coisas começaram se construir, foi junto obvia- que você tem que abrir mão de fer-
mente com os acionistas, direção, presidência, ramentas de análises, fatos e dados
diretoria e juntos tinham alguns gestores, da (Entrevistado D).
área de mercado, da área de operações” (Entre-
vistado B); ademais Subsequentemente ao exposto, ficou
evidente que as decisões são tomadas em reu-
Na verdade todas as decisões são fei- niões e de forma colegiada. Corroboram este
tas de forma colegiada, o RH partici- olhar, por um lado, os estudos de Hart (1992)
pa efetivamente no planejamento es- e Andersen (2004), os quais identificaram que
tratégico, porque quem conduz toda a estratégia é estabelecida por distintos tipos
as estratégias são as pessoas, isso é ou modos, desde a tomada de decisão pela
recente, a empresa já trabalha o pla-
alta administração e, portanto, implementada
nejamento estratégico há mais tem-
no sentido de cima para baixo, indicando que
po, mas há dois anos que eu estou na
empresa, logo em seguida, uns quatro as demais pessoas da organização devem agir
meses depois a gente conversou sobre somente pelo acatamento e pelo cumprimento
isso para inserir efetivamente a área das ordens, sem espaço para discussão do plano
de recursos humanos no planejamen- ou sugestões de melhoria. Assim como, modos
to não somente na execução, então, o mais participativos e que funcionam de forma
RH participa efetivamente. Todas as mais integrativa e participativa, em que os dife-
decisões na verdade não vem do dono, rentes praticantes tomam parte da decisão e das
às vezes é até o contrário, o dono tem mudanças estratégicas.
uma vontade uma intenção, mas os
Ainda nesse sentido, finalizando a análise
dirigentes, os colegiados como a gen-
dos praticantes, pode-se referir a Jarzabkowski,
te chama definem por outro direcio-
namento, obviamente apresentando Balogun e Seidl (2007) os quais afirmam que as
fatos e dados (Entrevistado A); ações estratégicas, normalmente, são tomadas em
Você tem que ouvir a intuição do ope- um conjunto, mas também a formação da estraté-
racional, porque na realidade a teoria gia pode ultrapassar o interesse inerente à orga-
nasce da prática, quando você pratica, nização e passa a ser construída a partir dos inte-
observa os fenômenos e extrai algum resses de cada tomador de decisão nas empresas.
conhecimento que pode ser replicado; Assim, considerando a perspectiva teórica
[...] o pessoal da manutenção, os ope- e as evidências encontradas nos dados empíricos,

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em que se pode relacionar o processo e a estraté- As práticas estratégicas utilizadas pela


gia como prática (BURGELMAN et al., 2018), organização, como reuniões, análise SWOT,
pode-se voltar a aceitar a proposição elaborada planejamento estratégico definido, pesquisas
inicialmente que: a tomada de decisão estratégi- de mercado e adoção de ferramentas de análise
ca é definida a partir da análise do contexto or- do ambiente externo vêm agregando valor para
ganizacional (ambiente) e da ação dos praticantes ela, visto que esta consegue ampliar seu merca-
(práticas estratégicas), no caso analisado. do por meio de decisões mais precisas.
Diante disso, considerando a análise A partir da utilização em conjunto com
dos dados, evidenciou-se que todo o processo pessoas de diferentes níveis hierárquicos da
de tomada de decisão estratégica é realizado organização e das ferramentas citadas acima,
a partir de uma exaustiva análise do contexto evidenciou-se que a empresa consegue traba-
organizacional, no qual é levado em conside- lhar na definição de estratégias importantes, as
ração variáveis de mercado, política, recursos quais envolvem, principalmente, o lançamento
tecnológicos, entre outros, além da participa- de novas coleções e marketing.
ção e das inferências dos praticantes que atuam Constatou-se ainda que as práticas estra-
no desenvolvimento e na implementação da es- tégicas utilizadas pela empresa visam ao melhor
tratégia; quando é necessária a tomada de uma aproveitamento dos recursos disponíveis, bem
decisão estratégica, os praticantes possuem como levam em consideração a opinião das pes-
forte influência nas escolhas, uma vez que eles, soas de diferentes níveis hierárquicos da empresa.
por meio da sua experiência e troca de conheci- Isso proporciona à empresa uma van-
mento com os demais integrantes da empresa, tagem competitiva, visto que todos os funcio-
realizam reuniões, pesquisa de mercado e aná- nários também se sentem parte importante na
lise do ambiente, definindo qual a melhor deci- estratégia e, consequentemente, não medem es-
são estratégica a ser tomada. Ademais, já que as forços para que os objetivos sejam alcançados.
práticas são caracterizadas pelas rotinas, proce- A contribuição teórica está centrada no
dimentos e normas que surgem da estratégia avanço dos estudos acerca de como as práticas
acontecem de uma forma relacionada à cultura estratégicas e a ação dos praticantes contribuí-
organizacional, ou seja, surgem da cultura já ram para a construção do marketing empresarial,
enraizada na organização (JARZABKOWSKI; aliando isso à análise do contexto organizacional
BALOGUN; SEIDL, 2007). e da participação colegiada de pessoas de dife-
rentes níveis hierárquicos de uma organização.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Essa contribuição corresponde ainda ao avanço
de estudos de estratégia, como processo e prática
O objetivo deste estudo foi compreender apontado por Burgelman et al., (2018).
como ocorre o processo de tomada de decisão, Como contribuição prática, gestores de
a partir da análise das práticas estratégicas e da empresas podem evidenciar e usar este caso,
ação dos praticantes em uma indústria de con- resguardando suas peculiaridades, como exem-
fecção. Pode-se afirmar que esse objetivo foi al- plo para a organização de sua empresa no que
cançado, visto que foi possível identificar como se refere a como as práticas estratégicas podem
a análise do contexto organizacional, somada à ser desenvolvidas por meio da ação dos prati-
ação dos praticantes, teve influência nas toma- cantes. As pessoas que compõem o ambiente
das de decisões dos gestores do caso em estudo. organizacional são peças-chave da empresa,
As diferentes formas de análise do con- são praticantes que podem trabalhar conjunta-
texto organizacional que os gestores realizam mente para construir estratégias mais acertivas.
têm gerado práticas interessantes à empresa, a As limitações desta pesquisa estão rela-
qual, assim, consegue tomar suas decisões es- cionadas às dificuldades de operacionalização
tratégicas de forma mais acertada. do estudo, refletidas no reduzido número de

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90 ARTIGOS | Processo e estratégia como prática na tomada de decisão: um estudo de caso

entrevistas e documentos analisados, os quais BURGELMAN, R. A. Complex strategic in-


estão vinculados à limitação do tempo de imer- tegration at nike: strategy process and strate-
são no campo. gy-as-practice combined. In: FLOYD, S. W.;
Como sugestões de futuras pesquisas, WOOLDRIDGE, B. (ed.). The handbook of
destaca-se, além de um tempo maior em campo middle management strategy process re-
para exploração em profundidade de entrevis- search. Cheltenham, U.K.: Edward Elgar Pub-
tas e análises de documentos, a necessidade de lishing, 2017. p. 197-242.
estudar, em uma realidade como esta, as ações BURGELMAN, R. et al. Strategy Process-
individuais dos colaboradores, como as ações es and Practices: Dialogues and Intersections.
autônomas (ANDERSEN, 2000) e as táticas Strategic Management Journal, v. 39, n. 3, p.
encobertas (covert tatics) (PRETORIUS, 2016) 531-558, 2018.
as quais contribuem para maior participação
dos praticantes, correpondendo à abertura da CANHADA, D. I. D.; BULGACOV, S. Práticas
estratégia (YAKIS et al., 2017). sociais estratégicas e resultados acadêmicos: o
A exploração deste tema é instigante e doutorado em Administração na USP e UFR-
segue sendo de relevância para a academia e GS. RAP, v. 45, n. 1, p. 7-32, jan./fev. 2011.
para as organizações, pois a evolução das teo-
rias e das práticas, dos processos e das ações do CARDOSO, F. E.; LAVARDA, R. B. Perspec-
dia a dia são elementos que contribuem para o tiva da estratégia-como-prática e o processo de
crescimento e para o fortalecimento das orga- formação da estratégia articulada pelo middle
nizações e das pessoas; servem de combustível manager. REAd. Revista Eletrônica de Ad-
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94 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p94-106.2019

ARTIGOS

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE O


MÉRITO: UM ESTUDO COM ESTUDANTES
DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO
SEMIÁRIDO DO RIO GRANDE DO NORTE

SOCIAL REPRESENTATIONS ON MERIT: A STUDY


WITH STUDENTS OF THE FEDERAL UNIVERSITY
OF RIO GRANDE DO NORTE

RESUMO

O estudo analisa as representações sociais sobre o mérito dos estudan-


tes graduandos do Curso de Administração da Universidade Federal
Rural do Semiárido (Ufersa), em Mossoró, RN. O artigo discute, com
base na teoria das representações sociais, o mérito, a educação e o
sistema de cotas sociais e raciais, que foi implementado, de forma
integral, na Ufersa em 2013.1. Foram realizadas entrevistas semies-
truturadas com discentes dos semestres 2013.1 e 2015.1, devidamente
transcritas e analisadas por análise de conteúdo. Os resultados indi-
caram que o desempenho individual foi o cerne das representações
sociais acerca do mérito e da educação entre os estudantes cotistas
e não cotistas ingressantes em 2013.1 e 2015.1. Observou-se, ainda,
Nayara Katryne Pinheiro a presença da responsabilidade individual como base para rejeição,
Serafim por parte dos entrevistados, das cotas raciais. Pode-se concluir que o
naykatrynne@[Link] desempenho,a partir da ideia de mérito e da responsabilização indivi-
Mestre em Administração dual, são os cernes das representações sociais dos estudantes.
pelo PPGA/UFPB. Professora
substituta da UFERSA. Mossoró
- RN - BR. Palavras-chave: Mérito. Ações Afirmativas. Representações So-
ciais. Ensino Superior.
Diogo Henrique Helal
diogohh@[Link]
Doutor em Ciências Humanas,
ABSTRACT
com concentração em
Sociologia, pela UFMG. The study analyzes the social representations on the merit of un-
Administrador e Mestre em dergraduating students of the Course of Administration of the
Administração pela UFPE.
Federal Rural Semiarid University (Ufersa), located in the city
Pesquisador Adjunto da
Fundação Joaquim Nabuco of Mossoró, RN. In this debate, we will discuss the social repre-
(FUNDAJ/MEC). Professor sentations of merit, education and the system of social and racial
Permanente do Programa quotas implemented integrally in Ufersa in 2013.1. Semistruc-
de Pós Graduação em tured face-to-face interviews were conducted with students from
Administração (PPGA/UFPB)
e Professor Titular do Centro
the semesters 2013.1 and 2015.1. The data were analyzed based
Universitário FBV (UniFBV/ on the content analysis. The findings point out that the precepts
Adtalem). of meritocratic ideology, based on personal performance, are at

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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 95

the heart of social representations about mer- as representações sociais dos ingressantes em
it and education among quota and non-quota 2013.1 e em 2015.1, da Universidade Federal
students. It was also observed the presence of Rural do Semiárido, acerca do mérito e da edu-
individual accountability as the basis for rejec- cação. É também objetivo deste estudo com-
tion, by the interviewees, of racial quotas. We preender como se estas representações muda-
can conclude that performance from the idea of​​ ram após a implementação do sistema de cotas
merit and individual accountability are at the sociais e raciais na universidade.
heart of social representations. A criação do sistema de cotas sociais e
raciais tem provocado a intensificação das dis-
Keywords: Merit. Affirmative Actions. Social cussões acerca da relação entre mérito e educa-
Representations. Higher Education. ção, dado o caráter compensatório da política
em meio às desigualdades de oportunidades de
1 INTRODUÇÃO alguns grupos desfavorecidos da sociedade em
relação à parcela privilegiada, que cobra um
O ensino superior no Brasil representa, de tratamento igualitário entre ambos.
forma transparente, o contexto das desigualda- Nesse esteio, a abordagem das repre-
des sociais associadas a questões econômicas e sentações sociais possibilita compreender os
agravadas pela herança histórica e cultural que contextos e o fenômenos sociais nos quais os
expõe a necessidade de aplicação de políticas sujeitos estão inseridos e suas interações.
de ação afirmativa voltadas para o seu ingresso. Neste estudo, debruça-se sobre a temá-
Esse contexto é justificado pela presença tímida tica das representações sociais a respeito do
das populações de baixa renda, representadas, mérito dos estudantes cotistas e não cotistas,
em sua maioria, pela população negra e parda, graduandos do curso de Administração, ingres-
residente nas áreas periféricas dos grandes cen- santes do semestre 2015.1 e ingressantes do se-
tros populacionais (IBGE, 2010). Neste cená- mestre 2013.1, em que ocorreu o primeiro pro-
rio, a adoção de políticas educacionais de ex- cesso seletivo com a utilização do sistema de
pansão do ensino superior no Brasil na última cotas sociais e raciais, na Universidade Federal
década tem contribuído para a construção de Rural do Semiárido do Rio Grande do Norte,
um novo contexto nas universidades do país, localizada na cidade de Mossoró, no Rio Gran-
em decorrência do aumento expressivo no nú- de do Norte, Brasil.
mero de vagas oferecidas. Acredita-se que tal estudo possa contri-
Vários autores (GUIMARÃES et al., buir para o debate acerca das políticas de ação
2011; ROSEMBERG, 2010), contudo, des- afirmativa no ensino superior, em função da
tacam a necessidade de políticas de ação afir- baixa frequência de estudos sobre a temática,
mativa que possibilitem a esses grupos menos principalmente, na região Nordeste do país.
favorecidos acesso à educação superior. Intenciona-se, também, contribuir com os estu-
Apesar de se tratar de um importante tema, a dos sobre relações raciais no Brasil, conforme
área de administração tem dedicado pouco esforço sugere Rosa (2014).
para compreendê-la. Em pesquisa no portal Spell,
em junho de 2019, identificou-se a existência de 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
apenas seis artigos sobre ações afirmativas (MAR-
CHESAN; OLIVEIRA, 2018; SILVA, 2018; VA- 2.1 POLÍTICAS DE AÇÕES AFIRMATI-
RELLA, 2010; PAULO, 2010; PINTO; ANDRA- VAS EM EDUCAÇÃO SUPERIOR
DE JÚNIOR; LUZ, 2009; XAVIER, E.; XAVIER,
S., 2009), sendo apenas 2 deles, no ensino superior. A história de desenvolvimento da socie-
Este artigo, em especial, busca compre- dade brasileira está marcada pelos altos níveis
ender, a partir de uma perspectiva comparativa, de desigualdades sociais entre os diversos gru-

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96 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte

pos populacionais, enraizados, inclusive, na estruturação e Expansão das Universidades


história do País. As diferenças nas oportuni- Federais (REUNI). Destacam-se, também, as
dades de acesso à educação transparecem nas parcerias com as instituições privadas de en-
análises de suas origens sociais por meio dos sino superior, por meio de programas como o
níveis de renda e origem de classe (BARBO- Programa Universidade para Todos (PROUNI)
SA, 2014). e o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES),
Os resquícios de uma história de margi- que ampliaram o acesso também à rede privada
nalização e exclusão da população negra são de ensino superior.
intensificados por questões de ordem estrutural Cumpre destacar que as medidas de
do próprio desenvolvimento econômico, e ain- ampliação de oferta ao ensino superior foram
da se fazem presentes no desenho da sociedade acompanhadas de outras que visavam ao de-
brasileira (ROSEMBERG, 2010). Estudos na- senvolvimento do processo de democratização
cionais mostram que os negros representam o do acesso ao ensino superior, com base nas di-
grupo populacional que lidera todas as estatísti- retrizes do Estatuto da Igualdade Racial. Des-
cas e indicadores sociais de vulnerabilidade so- sas, a mais importante foi a Lei nº 12.711/2012
cial (e.g. FERNANDES; HELAL, 2011), sendo (BRASIL, 2012), que instituiu o regime de co-
os que possuem os menores níveis de renda e tas sociais e raciais para o ingresso nas univer-
escolaridade, concentram-se nas periferias das sidades e institutos federais, assegurando que,
grandes capitais do Brasil (IBGE, 2010). no mínimo, 50% das vagas serão destinadas
Essa realidade de desigualdades tem fo- aos estudantes que tenham cursado integral-
mentado ações afirmativas, assim compreendi- mente o ensino médio em escolas públicas.
das: A lei garante, ainda, que, desse percentual de
vagas, a metade deverá ser reservada aos estu-
O termo Ação Afirmativa refere-se dantes oriundos de famílias com renda igual ou
a um conjunto de políticas públicas inferior a 1,5 salário-mínimo per capita, e ha-
para proteger minorias e grupos que, verá reserva de vagas para indivíduos autode-
em uma determinada sociedade, te- clarados pretos, pardos e índios em proporção,
nham sido discriminados no passado.
no mínimo, igual à de pretos, pardos e índios
A ação afirmativa visa remover bar-
reiras, formais e informais, que im- na população do estado onde está localizada a
peçam o acesso de certos grupos ao instituição, segundo o último Censo do IBGE.
mercado de trabalho, universidades e Para Guimarães et al. (2011), o sistema
posições de liderança. Em termos prá- de cotas sociais e raciais representa uma alter-
ticos, as ações afirmativas incentivam nativa cuidadosa, responsável e ágil por utili-
as organizações a agir positivamente zar outros critérios, que não apenas os direcio-
a fim de favorecer pessoas de seg- nados ao mérito acadêmico, para aqueles que
mentos sociais discriminados a terem obtenham o grau necessário para ingresso no
oportunidade de ascender a postos de ensino superior. Os critérios baseados em méri-
comando (OLIVEN, 2007, p. 30).
to acadêmico, somados aos critérios sociais, vi-
sam à busca pela equidade por meio da justiça
Desde meados de 2003, com a chegada
social e racial com os segmentos da sociedade
de governos do presidente Luiz Inácio Lula
que estão em situação de vulnerabilidade em
da Silva e Dilma Rousseuf, a adoção de me-
relação às suas condições sociais.
didas em prol da democratização do acesso ao
As ações afirmativas possibilitam a bus-
ensino superior se intensificou. Essas ações
ca por soluções para amenizar a questão das de-
fomentaram a reestruturação das universidades
sigualdades nos níveis de oportunidade. Dessa
federais existentes, o aumento do número de
forma, elas atuam como medidas que possuem
vagas e a criação de novas universidades por
um caráter compensatório e reparador para in-
meio do Programa de Apoio a Planos de Re-

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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 97

divíduos que estão em situação desfavorável correto para toda e qualquer ordena-
perante a sociedade por particularidades rela- ção social, principalmente no que diz
cionadas à etnia, raça, cor, condição social, gê- respeito à posição socioeconômica
nero e renda (MOEHLECKE, 2004). das pessoas. Ou seja, num universo
social fundado em uma ideologia me-
ritocrática, as únicas hierarquias le-
2.1.1 As concepções de mérito e o contex- gítimas e desejáveis são baseadas na
to brasileiro seleção dos melhores (BARBOSA,
1996, p. 68).
A finalidade do sistema educacional na
sociedade contemporânea está relacionada à Barbosa (2003) considera que a ideolo-
questão do destino final dos indivíduos no mer- gia meritocrática está baseada em um conjunto
cado de trabalho, caracterizado por demandar de valores que rejeita toda e qualquer forma de
um modo de produção que preserva suas dispa- privilégio hereditário e corporativo e que valo-
ridades por meio dos mecanismos de separação riza e avalia as pessoas independentemente de
entre trabalho e capital (FRIGOTTO, 2010). suas trajetórias e biografias sociais.
Diante disso, a educação é um fator de desen- Nessa dimensão, a meritocracia não
volvimento das capacidades que possibilitam atribui importância a variáveis sociais como
oportunidades concretas de desenvolvimento origem, posição social, econômica e poder po-
social (SEN, 2001). Em uma sociedade meri- lítico no momento em que se está pleiteando
tocrática, caracterizada pela valoração de altos ou competindo por uma posição. Essa inter-
níveis de escolarização, a educação se transfor- pretação refere-se à hipótese funcionalista, ao
ma em uma ferramenta de busca pela ascensão enfatizar o esforço individual e diminuir a im-
social e de perspectivas de melhores remu- portância da origem social nas realizações dos
nerações no ingresso ao mercado de trabalho indivíduos.
(BARBOSA, 2014), como também evidencia o A ideia de mérito defendida por meio de
papel da hierarquia de desempenho como crité- uma perspectiva neoliberal está associada às
rio de ordenação social hegemônico. noções de igualdade do ponto de vista jurídico,
Para Barbosa (2003), do ponto de vista ou seja, perante as leis e as normas, por meio
cultural, a ideia do desempenho é uma catego- da valoração das liberdades individuais (SEN,
ria central à sociedade e organizações moder- 2001). As liberdades individuais defendidas
nas. A autora (BARBOSA, 2003) contextualiza pela lógica neoliberal são avaliadas a partir das
a ideia do desempenho dentro do sistema de va- perspectivas de consumo dos indivíduos e da
lores a que pertencem e que se constitui em um extensão desse conjunto de oportunidades, uma
dos principais sistemas de hierarquização so- vez que a hegemonia do critério de desempe-
cial das sociedades modernas: a meritocracia. nho como fator de ordenação das hierarquias
Barbosa (2003, p. 22) define meritocra- sociais corrobora a valorização da competitivi-
cia, no nível ideológico, “[...] como um conjun- dade por meio da seleção dos melhores a partir
to de valores que postula que as posições dos das hierarquias de desempenho. Os mais com-
indivíduos na sociedade devem ser consequên- petentes conquistam, assim, o prestígio social e
cia do mérito de cada um. Ou seja, do reconhe- a capacidade de consumo (BARBOSA, 2003).
cimento público da qualidade das realizações Helal (2008) considera que os preceitos
individuais.” pautados na ideologia meritocrática pregam a
Ainda, de acordo com a autora, a ideolo- avaliação de desempenho como principal for-
gia meritocrática é ma de julgamento de competências e capacida-
des, sem considerar as variáveis sociais que le-
[...] o valor globalizante, o critério vam os indivíduos a não estarem em condições
normal e considerado moralmente de equidade de oportunidades.

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98 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte

A busca pela dissociação de critérios bem como reflete um mecanismo de reprodu-


subjetivos se propõe a extinguir a predominân- ção da relação de classes sociais.
cia dos aspectos culturais e subjetivos nas ava- A educação, nesse sentido, pode ser
liações, priorizando as qualificações e a capa- considerada uma ferramenta de transmissão
cidade técnica (COSTA; KOSLINSKI, 2006). da dominação social e de suas especificidades
Assim, o mérito atribuído ao desempenho culturais na reprodução dos paradigmas hege-
pessoal é considerado um critério de avaliação mônicos. Desse modo, a própria metodologia
igualitário e objetivo, fundamentado nos ideais utilizada nas escolas dispõe-se a reproduzir os
da burocracia weberiana que priorizam os cri- preceitos da ordem social dominante; em tese,
térios de ordem técnica e elimina a subjetivida- o ambiente escolar é tido como um espaço
de dos processos, reafirmando a valoração dos neutro e de igualdade de condições, porém re-
níveis de escolaridade e instituindo a educação produz a lógica baseada na responsabilização
como protagonista de um novo paradigma na dos desempenhos sociais ao âmbito individual
sociedade moderna (HELAL, 2008). Esse para- (BARBOSA, 2003; BOURDIEU, 2011).
digma hegemônico baseia-se na valoração das Esse debate se associa à discussão da
hierarquias de desempenho como modelo de gestão da diversidade, sendo, de acordo com
ordenação social. Alves e Galeão-Silva (2004), mais efetiva para
Esse paradigma não se associa ao cenário o enfrentamento das desigualdades sociais por
de oportunidades educacionais e ocupacionais possibilitar atingir benefícios econômicos para
no Brasil. As limitações nos níveis de oportu- os indivíduos e as empresas.
nidade no cenário nacional decorrem de várias
perspectivas. Os grupos vulneráveis estão rela- 2.2 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
cionados aos aspectos históricos ligados à popu-
lação negra e de baixa renda, e/ou às diferenças As representações sociais explanam a
regionais (COSTA; KOSLINSKI, 2006). realidade social por meio da interação de seus
No Brasil, essa noção de igualdade subs- atores em seus mais diversos níveis e grupos
tantiva associada ao paradigma meritocrático de atuação, desde os grupos primários, consti-
acaba por “empurrar o eixo da responsabilida- tuídos pela família aos demais grupos do con-
de social pelos resultados individuais, centrado vívio social. Os aspectos advindos das socie-
principalmente nas condições históricas e so- dades modernas, pautadas no individualismo,
ciais, em direção ao eixo da responsabilidade fazem refletir acerca do papel da ação coletiva e
individual.” (BARBOSA, 2014, p. 101). Assim, compartilhada de experiências dos sujeitos po-
ocorre a responsabilização dos indivíduos pelos líticos e sociais. Para tanto, as representações
seus desempenhos, sem se considerar as condi- sociais indicam alternativas estratégicas para o
ções, os aspectos sociais que impactam no seu desenvolvimento de ações que visam a enfren-
desempenho, e as diferenças de capital cultural. tar a diversidade e mobilidade de um espaço
De acordo com Bourdieu (2011), o ca- coletivo que também carrega peculiaridades
pital cultural estaria associado aos valores, aos individuais nos seus espaços públicos (JOV-
preceitos e aos fundamentos transmitidos aos CHELOVITCH, 1995). Desse modo, as repre-
indivíduos e à postura que eles apresentam em sentações sociais expressam um agregado de
relação a suas predisposições para se adequar representações individuais no tocante a grupos
às ordens sociais. Essas reflexões nos reme- sociais que não se resumem apenas a um agre-
tem a compreender a postura atrelada aos me- gado de indivíduos. Diante disso, partir-se-á do
nos favorecidos nos espaços. Bourdieu (2011) entendimento acerca das representações sociais
considera que a própria estrutura educacional de acordo com Garay (2011, p. 95):
desenvolve esse aspecto de reprodução das es-
truturas sociais emanadas pelo capital cultural, A representação social constitui uma

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AUTORES | Nayara Katryne Pinheiro Serafim, Diogo Henrique Helal 99

‘rede’ de ideias e imagens que ex- disso, a importância do papel das experiências
pressam a realidade comum de um pessoais dos indivíduos nos grupos sociais com
determinado conjunto social e que os quais interagem contribui para a propagação
são construídas pelos sujeitos como e para a aquisição de conhecimentos, além de
forma de expressar o conteúdo dessas
auxiliar na construção das identidades indivi-
relações sociais e a maneira pela qual
são estabelecidas.
duais e sociais dos atores (GUERRA; ISHI-
KAWA, 2013; GARAY, 2011).
Garay (2011) também esclarece a impor- As representações sociais exprimem os
tância dos compartilhamentos coletivos entre aspectos que possibilitam a compreensão da re-
os indivíduos na construção de preceitos, sig- alidade social vivenciada por uma parcela da
nificados e valores comuns. Essas experiências sociedade, extraída de acordo com a represen-
e interações são partilhadas graças às constru- tação social a ser interpretada por meio de estu-
ções sociais que ocorrem nos espaços públicos dos e análise de um grupo específico da socie-
(JOVCHELOVITCH, 1995; MINAYO, 2007). dade. O seu processo de construção e formação
Nessa perspectiva, a maneira como as está relacionado às dinâmicas desenvolvidas
representações sociais são construídas estará entre os sujeitos, relações simbólicas e contex-
vinculada à forma, como os objetos e atores tos sociais (MINAYO, 2007).
sociais irão dispor dos seus valores para ex- Para Moscovici (2003), o processo de
pressarem para a comunidade e indivíduos o construção das representações sociais pode ser
caráter de orientação ou dominação dos meios subdividido por meio de duas etapas: objetiva-
e espaços sociais e materiais (GUERRA; ção e ancoragem. Na etapa da objetivação, ocor-
ISHIKAWA, 2013). Dessa forma, as repre- re a assimilação dos conhecimentos abstratos,
sentações sociais estabelecem parâmetros que imagens, símbolos e códigos que serão mate-
auxiliam na compreensão das construções so- rializados na realidade concreta pela linguagem
ciais de seus atores em torno dos grupos e de nos processos de interação e de comunicação
suas simbologias e significados. entre os grupos e indivíduos. Entretanto, a trans-
Para tanto, a interação entre os sujeitos, formação do conhecimento em real e concreto
o ambiente e os grupos proporcionam a criação só ocorrerá na etapa de ancoragem, na qual os
de um espaço dinâmico. De acordo com Viei- conhecimentos serão compartilhados entre os
ra, Flores-Pereira e Macadar (2012), as repre- diversos grupos e sistemas, adquirindo a fami-
sentações sociais retratam leituras das relações liarização e a obtenção de um papel regulador
sociais entre indivíduos, grupos e sociedade e funcional da representação. Por fim, ocorre a
que permitem descrever e analisar, por meio de ancoragem na realidade social a ser representa-
comportamentos e estruturas, a forma como os da socialmente. Assim, quando se compreende a
atores sociais vivenciam e transmitem a reali- questão central que está sendo ancorada, tem-se
dade dos seus contextos sociais. o entendimento dos significados e dos conhe-
Jovchelovitch (1995) relata que a atua- cimentos gerais. Portanto, a ancoragem é uma
ção dos atores por meio de suas relações sociais etapa essencial para a consolidação de uma re-
com os demais indivíduos ocasiona a criação presentação nos seus grupos e membros.
de novos espaços, símbolos e estratos da reali- Partindo desses pressupostos, a teoria das
dade social que contribuem para a construção representações sociais é utilizada como pano de
do sentido e dos cenários nos quais emergem fundo para compreender a percepção da relação
as representações sociais. Minayo (2007) tam- entre mérito e educação por parte dos grupos de
bém corrobora a visão de que as representações estudantes que ingressaram nas universidades
sociais se expressam em emoções e condutas e federais pelo sistema de cotas sociais, e para
se concretizam a partir do entendimento das es- a percepção da maneira como esses conceitos
truturas e dos comportamentos sociais. Diante são vistos pelos grupos de estudantes cotistas e

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100 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte

não cotistas da Universidade Federal Rural do de três partes: a parte 1 tratou do perfil socio-
Semiárido, localizada no interior do Nordeste. econômico dos entrevistados, parte 2, das con-
cepções sobre o mérito e a terceira parte, ações
3 METODOLOGIA afirmativas e representações sociais. O roteiro
de entrevista foi inspirado nos propostos por
Com base nos objetivos propostos para Pinho (2006) e Plá (2009), com 20 quesitos de
a realização deste trabalho e resolução da pro- ordem subjetiva e objetiva.
blemática descrita, o presente trabalho objetivou O método de análise de dados utiliza-
analisar as representações sociais dos discentes do foi a análise de conteúdo de Bardin (1977),
da Universidade Federal Rural do Semiárido subdividida em três etapas: na primeira etapa,
(UFERSA), localizada na cidade de Mossoró, pré-análise, foi realizada a transcrição das en-
Rio Grande do Norte, graduandos do Curso de trevistas e leitura flutuante; na segunda etapa
Administração ingressantes 2013.1 decorrentes de exploração do material foram criadas cate-
da implementação integral do sistema de cotas na gorias temáticas a partir que emergiram a par-
universidade e os discentes do semestre 2015.1 tir dos dados, e na terceira etapa, as análise,
têm, sobre o mérito, o sistema de cotas sociais e interpretação e inferências acerca do conteúdo
raciais implementadas nas instituições de ensino das entrevistas. Optou-se por utilizar análise
federal brasileiras com o intuito de promover um de conteúdo, por possibilitar o entendimento
estudo comparativo entre as representações dos de forma objetiva e sistematizada dos dados
discentes cotistas e não cotistas. descritos nas entrevistas, além de proporcio-
Optou-se por utilizar uma abordagem nar o entendimento em torno das representa-
qualitativa de pesquisa, evidenciada pelo seu ções dos indivíduos.
caráter descritivo. Como método de coletas de
dados, utilizaram-se a entrevista semiestrutura- 4 RESULTADOS
da pelo seu caráter informal e a consulta docu-
mentos oficiais. 4.1 A UNIVERSIDADE FEDERAL
Foram realizadas 20 entrevistas com os RURAL DO SEMIÁRIDO DO RIO
estudantes ingressantes nos cursos de Adminis- GRANDE DO NORTE
tração do semestre 2013.1 (cotistas, 4 entrevis-
tas; não cotistas, 5 entrevistas) e 2015.1 (cotis- A Universidade Federal Rural do Semiá-
tas, 6 entrevistas; não cotistas, 5 entrevistas). O rido implementou, de forma integral, o sistema
critério de seleção dos entrevistados foi tipici- de cotas sociais e raciais tendo em vista o con-
dade – semestre matriculado e acessibilidade. texto regional em que estava inserida na região
A ideia inicial era trabalhar com ingres- do semiárido do Rio Grande do Norte no Nor-
santes e egressos após implementação do sistema deste do Brasil. Foi criada no ano de 2005 a par-
de cotas; no entanto, os primeiros egressos foram tir da lei Nº 11.155, que assegurou a transforma-
conhecidos apenas em 2016.2 – período posterior ção da ESAM- Escola Superior de Agricultura
à realização da pesquisa, devido aos atrasos no de Mossoró em Universidade Federal Rural do
cronograma acadêmico da universidade. Semiárido (UFERSA). Os primeiros cursos da
Com o intuito de compreender as repre- instituição eram voltados para as ciências agrá-
sentações dos ingressantes 2013.1, os primei- rias (agronomia, zootecnia, veterinária). Com a
ros que participaram do processo após a imple- transformação em universidade foram implan-
mentação do sistema de cotas sociais e raciais, tados novos cursos de áreas diversas ao longo
e dos ingressantes do semestre 2015.1, decidiu- do seu processo de desenvolvimento, contando
-se realizar um estudo comparativo entre estes atualmente 24 cursos de graduação presenciais
dois contingentes de alunos. diurnos e noturnos, e 4 cursos na modalidade
As entrevistas foram estruturadas a partir a distância. Seu campus central está localizado

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na na cidade de Mossoró e há outros três campi 4.2 AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS


avançados nas cidades potiguares de Angicos, DOS DISCENTES COTISTAS E
Caraúbas e Pau dos Ferros. NÃO COTISTAS SOBRE O MÉRITO
Como descrito em trechos de sua propos-
ta político-institucional, a Ufersa tem como ob- Dos entrevistados discentes, de 2013.1,
jetivo possibilitar o acesso ao ensino superior foram cinco mulheres e quatros homens, em
aos jovens do semiárido, atuando como uma faixa de idade de 20 a 28 anos. Entre os dis-
ferramenta de inclusão social e auxílio para o centes não cotistas ingressantes do semestre
desenvolvimento da região, por meio do seu tri- 2013.1, o nível de renda observado variou en-
pé institucional – pesquisa, ensino e extensão. tre R$ 1.550,00 a R$ 7.000,00; e dos discentes
Com a criação do sistema de cotas so- cotistas do semestre 2013.1, os rendimentos
ciais e raciais, a Ufersa definiu, em conjunto variaram em torno de R$ 788,00 a R$ 1.550,00.
com seus conselhos universitários, a adesão de Observou-se, também, o nível de esco-
forma integral ao sistema, tendo em vista as pe- laridade dos pais dos discentes. Dos discentes
culiaridades sociais, políticas e econômicas que cotistas matriculados em 2013.1, verificou-se
evidenciam o caráter intenso de disparidades que apenas um dos estudantes possui um dos
sociais na região em que está inserida. pais com nível superior. Os pais dos demais
O ingresso na Universidade Federal Rural possuem apenas o primeiro grau completo ou o
do Semiárido acontece por meio das seguintes primeiro grau incompleto.
modalidades: Exame Nacional de Ensino Mé- Entende-se que as variações de renda
dio (ENEM/SISU), realizado pelo Ministério da entre os pais dos estudantes cotistas e não co-
Educação; Transferência Voluntária; Transferên- tistas evidenciam o cenário de oportunidade de
cia Ex Officio; Portadores de Diploma, Convê- acessibilidade ao ensino superior. Sabe-se que
nio Cultura ou Mobilidade Estudantil. há impacto dos fatores econômicos nos níveis
Para o semestre 2015.1, foram oferta- de formação dos indivíduos, sendo importante
das 1.255 vagas pela Ufersa. De acordo com a existência de políticas de inclusão social vol-
o sistema de cotas sociais e raciais, adotado de tadas para a população de baixa renda (GUI-
forma integral pela universidade, foram dispo- MARÃES et al., 2011).
nibilizadas 50% das vagas, o que representou Dos estudantes ingressantes em 2015.1
um total de 628 vagas. entrevistados, 7 foram do sexo feminino e 4 do
O curso de Administração foi um dos sexo masculino, em uma faixa de idade entre
primeiros cursos instalados na instituição no 18 e 34 anos. Nesse grupo, 9 estudantes auto-
ano de 2006. O seu projeto político e pedagógi- declararam-se pardos, 2 negros, 1 amarelo e 2
co (PPC) propõe uma formação crítica e refle- brancos. Em relação à renda dos discentes in-
xiva. No entanto, observou-se que a quantidade gressantes em 2015.1 não cotistas, essa variou
de disciplinas obrigatórias que realizam algum de R$ 1.550,00 a R$ 7.000,00. Já a renda dos
debate acerca da sociedade é muito tímida e cotistas variou de R$ 788,00 a R$ 3,000,00.
restrita, havendo, assim, prioridade para a for- Observou-se, também, que os estudan-
mação tecnicista. tes cotistas, em sua maioria, autodeclararam-se
Para o curso de Administração foram pardos – apenas três discentes declararam-se
ofertadas, em 2015.1, 50 vagas de ingresso pelo como negros, um do sexo masculino perten-
SiSu, sendo, deste total de vagas, 25 destinadas cente ao semestre 2013.1 e duas mulheres do
aos estudantes que se autodeclararam cotistas semestre 2015.1.
e possuiam os pré-requisitos demandados - ad- A segunda parte do roteiro de entrevista
vindos de escolas públicas. tratou das representações sobre o curso e sobre
mérito. Questionados em relação à escolha do
curso de Administração, os discentes relataram

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102 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte

o seguinte: identificação pessoal; formação Observou-se que, para os discentes de


ampla que proporcionava atuação em diversas ambos os semestres, o fato de compartilharem
áreas; busca por qualificação para atuar em ne- os mesmos professores e metodologias colo-
gócios familiares ou por já trabalhar na área: ca-os em nível de igualdade de condições, não
“Eu sempre tive vontade de fazer administra- importando a sua origem social ou condição
ção, pois vejo o desarranjo das pessoas com di- econômica: “É preciso estudar, se dedicar e
nheiro.” (Cotista 2015.1). “No emprego que eu se esforçar. Assim todo mundo pode tirar uma
estava, na gerência de uma empresa de frutas, nota boa, só estudar.” (Não cotista 2, 2015.1).
eu senti essa necessidade. E sempre foi um cur- “Ela tem que estudar o conteúdo, se dedicar.
so que eu tive afinidade. E aí casou com minha Não deixar para estudar em cima, ela tem que
primeira formação.” (Não cotista 2015.1). “Eu buscar entender o conteúdo e ir acompanhan-
sempre gostei da área de Administração e resol- do.” (Não cotista 3, 2015.1).
vi fazer o curso.” (Cotista 2013.1). “Primeira- As falas acima denotam a presença de
mente eu queria uma ciência humana ou social uma noção de mérito predominante, conforme
que eu me identifico. Das opções que eu tinha, Barbosa (2014), uma vez que os alunos atrelam
era a que eu mais me identifico. Era a minha se- o mérito principalmente ao desempenho pesso-
gunda opção, eu passei e estou feliz no curso.” al, pondo, em evidência, as capacidades e habi-
(Não cotista 2013.1). lidades de cada indivíduo em adaptar-se aos ce-
É evidente a influência da maneira como nários, ao mesmo tempo em que negligenciam
a profissão de administrador é compreendida as desigualdades resultantes de suas origens.
pela sociedade entre os discentes do semestre A seguir, perguntou-se, diretamente, aos
2015.1, já que se trata de área tida como volta- estudantes o que eles entendem por mérito. No-
da para pessoas que sonham em possuir o pró- vamente, as respostas foram unânimes, em todos
prio negócio, o que leva muitos a atrelar sua os grupos pesquisados: a ideia de mérito estava
identificação pessoal a esse propósito. Ressal- novamente associada ao desempenho pessoal (es-
ta-se que os ingressantes obtiveram pouquíssi- forço) dos indivíduos na execução de qualquer
mo contato com a matriz curricular do curso e atividade em prol do alcance de um objetivo.
ainda estão concluindo as primeiras disciplinas. Diante disso, observou-se que a repre-
Já em relação aos discentes do semestre sentação social de mérito está ancorada em
2013.1, percebe-se que há uma heterogeneida- uma perspectiva relacionada à predominância
de em relação às razões para a escolha do curso, da ideologia meritocrática, intensamente pre-
entre os cotistas e não cotistas. Acredita-se que sente na sociedade, fato decorrente das hierar-
as diferenças estão relacionadas às experiências quias de desempenho como critério-base de
profissionais acumuladas por meio de estágio e ordenação social (BARBOSA, 2014). Nessa
também do contato com a matriz curricular ao ideologia, o critério de ordenação social está
longo do curso. centrado na seleção dos melhores, ou seja, na
No questionamento seguinte, os discen- hierarquia dos desempenhos.
tes foram indagados acerca do que precisaria Assim, compreende-se que a representa-
ser feito para conseguir um excelente resultado ção social de mérito predominante nas percep-
em uma avaliação durante o curso. Os discen- ções dos respondentes cotistas e não cotistas
tes cotistas e não cotistas de ambos os semestres 2013.1 e 2015.1 é atribuída ao desempenho
pesquisados foram unânimes: faz-se necessário pessoal. Verificou-se ainda a crença na (auto)
esforço individual e a dedicação para a con- responsabilização dos indivíduos acerca de suas
cretização do objetivo de obter uma nota 10. O trajetórias, que independeriam da influência de
sucesso em tirar uma nota boa foi visto como fatores externos e sociais inerentes aos sujeitos.
resultado do esforço e da dedicação que cada in- A seguir, as perguntas versaram sobre
divíduo tem, não importando as origens sociais. as ações afirmativas. Os entrevistados foram

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questionados se tinham conhecimento sobre Eu acho mais justo. Vejo que não tem
a política de cotas sociais e raciais na univer- um par de igualdade principalmen-
sidade. Todos os discentes afirmaram ter tido te em questão de educação. Eu vejo
contato com a temática. Em seguida, questio- muito déficit nas escolas públicas,
nados de que maneira obtiveram o primeiro claro que não são em todas. Mas,
contato com a questão, os discentes cotistas nem sempre todo mundo está tendo
uma aula de qualidade, às vezes, fal-
do semestre 2013.1 afirmaram que obtive-
ta professor. Diferente da gente que
ram contato com a política de cotas sociais
estuda em escola particular, que não
e raciais, pela primeira vez, por meio da te- falta professor, não tem aula vaga.
levisão. Entre os não cotistas, predominou o Eu concordo mais com as sociais,
contato por meio de conversas informais na do que com as raciais. Em questão
escola ou com amigos acerca da temática, se- de cor, todo mundo é igual. Eu sei
guido pelo contato por meio de revistas, jor- que teve um histórico de opressão e
nais e internet. desigualdade. Mas hoje eu acho que
Em relação aos estudantes ingressantes todo mundo era pra ser considerado
no semestre 2015.1, cotistas e não cotistas, a igual em questão de cor. Eu acho que
deveria ter apenas cotas sociais (Não
opção mais prevalente foi o contato por meio
cotista 1, 2015.1) .
de conversas informais nos tempos de escola,
seguido pelo contato via televisão. Tais res-
“Na verdade, pela raça da pessoa você
postas indicam que a mídia possui importante
não pode definir nível de escolaridade e inteli-
papel na formação de opinião dos estudantes
gência.” (Cotista 3, 2015.1).
acerca do tema.
Destaque-se que os discentes cotistas e
No questionamento seguinte, os respon-
não cotistas do semestre 2013.1, em sua maio-
dentes foram assim indagados: para você, o sis-
ria, consideram que o sistema de cotas torna o
tema de cotas sociais e raciais torna o processo
processo seletivo de ingresso mais justo, por
seletivo de ingresso no ensino superior mais
causa das disparidades existentes entre a qua-
justo ou desigual? As respostas dos responden-
lidade do ensino público e privado, somadas ao
tes foram enumeradas em duas categorias: os
quadro de desigualdades sociais vivenciadas
discentes que consideram que a implementação
no país. Esses discentes acreditam ainda que
torna o processo de ingresso mais justo e os dis-
a qualidade do ensino público e as desigualda-
centes acreditam que a implementação torna o
des sociais tornam o sistema de cotas sociais
ingresso mais desigual.
um mecanismo de justiça social paliativo. No
Os discentes do semestre 2015.1, cotis-
mesmo sentido do observado no outro grupo
tas e não cotistas, acreditam que o processo de
de entrevistados, os discentes do semestre de
ingresso no ensino superior se torna mais justo,
2013.1 consideram que as cotas raciais são
se realizado a partir das cotas sociais. Para eles,
desnecessárias, uma vez que acreditam que os
os critérios de renda contemplam toda a popu-
critérios de renda contemplariam as pessoas de
lação que está em situação de vulnerabilidade,
baixa renda.
não necessitando das cotas raciais. Acreditam
Entende-se que a representação social dos
também que os critérios étnico-raciais contri-
discentes cotistas e não cotistas em relação ao
buem para proliferar a discriminação racial en-
processo seletivo de ingresso por meio de cotas
tre os indivíduos, e que a cor da pele não define
sociais e raciais está associada à isonomia de
a capacidade dos indivíduos. Tais respostas in-
oportunidade e busca pela justiça social. Com-
dicam que os preceitos da ideologia meritocrá-
preendem que os critérios étnico-raciais não são
tica são predominantes, conforme o que se vê
efetivos na resolução do problema da desigual-
nas falas a seguir:
dade de condições e oportunidades e consideram
apenas os critérios de renda como efetivos.

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104 ARTIGOS | Representações sociais sobre o mérito: um estudo com estudantes da universidade federal rural do semiárido do Rio Grande do Norte

Os discentes cotistas e não cotistas são 5 CONCLUSÃO


cientes das desigualdades em níveis de oportu-
nidade associadas à qualidade do ensino públi- Os resultados da pesquisa indicaram o
co; no entanto, não exploram em suas respostas predomínio da representação social acerca do
aspectos ligados aos cenários sociais, políticos mérito atrelada ao desempenho pessoal. Assim,
e econômicos que também contribuem para a entende-se que as propensões dessas repre-
criação desse contexto de desigualdade dos ní- sentações exprimem a ideologia meritocrática
veis de oportunidade, como a questão étnico- enraizada na sociedade, vivenciadas pelos indi-
-racial relacionada à origem social e cultural víduos a partir das hierarquias de desempenho
dos indivíduos. instituídas como critério de ordenação social.
Esperava-se que, entre os discentes do Ainda que reconheçam a presença de
semestre 2013.1, fosse constatado um avanço desigualdades sociais e econômicas impacte
maior sobre o debate em torno da política de nas trajetórias pessoais, os discentes associam
cotas, tendo em vista que possuem um tempo predominantemente que seu desempenho está
de permanência maior na universidade, período associado ao esforço individual, em uma pers-
em que os debates deveriam ter sido construí- pectiva descontextualizada. Verificou-se a exis-
dos. No entanto, as percepções permanecem si- tência de representações semelhantes entre co-
milares a dos discentes ingressantes em 2015.1. tistas e não cotistas de ambos os semestres de
Para os respondentes, os critérios da cota ingresso, na concordância da adoção das cotas
social contemplam todos os indivíduos em situ- sociais, reafirmando o caráter de justiça social
ação vulnerável, visualizando, assim, nas cotas inerente a elas, uma vez que consideram que
raciais um elemento desnecessário por supos- a má qualidade do ensino púbico produz uma
tamente atuar na disseminação do preconceito competitividade desleal entre estudantes oriun-
racial. Cumpre destacar que esse pensamento é dos de escola privada e pública.
comum a cotistas ou a não cotistas. Destaca-se, Contudo, em relação às cotas étnico-ra-
também, como elemento similar o posiciona- ciais, os estudantes cotistas e não cotistas de
mento dos cotistas em relação às cotas raciais, ambos os semestres afirmaram que elas são
ao demonstrarem ausência de construção de uma desnecessárias e que reforçam a promoção do
identidade cultural e social em torno dos espaços preconceito. Assim, acreditam que a adoção
e grupos sociais nos quais vivenciam, fato que de cotas sociais já contempla todos os precei-
pode decorrer da marginalização da cultura de tos baseados na inclusão social dos indivídu-
origem afro-brasileira, bem como pela ausência os para os discentes. Recomenda-se, contudo,
de espaços de discussão que possibilitem a fa- para além da adoção de programas de ações
miliarização desses sujeitos com a políticas liga- afirmativas, a criação de centros de convivên-
das a questões étnicas e raciais (ROSEMBERG, cia nas universidades, que discutam as questões
2010; GUIMARÃES et al., 2011). raciais, conforme indica Jesus (2013).
Em geral, após a análise dos dados des- Os resultados deste estudo, apesar de rele-
critos nas entrevistas, nota-se, no discurso dos vantes, limitam-se aos estudantes entrevistados,
entrevistados, que as representações sociais sendo necessários novos estudos com públicos
acerca do mérito dos estudantes cotistas e não mais diversos. Recomenda-se a realização estu-
cotistas de ambos os semestres estão funda- dos posteriores, incluindo alunos egressos (uma
mentadas na questão do desempenho individu- vez que, devido ao atraso no semestre letivo não
al ilustrado na figura do esforço e da responsa- foi possível fazê-lo neste estudo). Sugere-se,
bilização dos indivíduos de acordo com a visão também, a realização de estudos que investi-
predominante, destacada por Barbosa (2014). guem o tema, considerando os docentes e outros
atores institucionais, de modo a compreender o
contexto de forma mais ampla.

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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 107

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p107-122.2019

ARTIGOS

INFLUÊNCIA DAS ESTRATÉGIAS DE


PROMOÇÕES DE VENDAS NO COMPORTAMENTO
DE COMPRA DAS CONSUMIDORAS PLUS SIZE NO
SEGMENTO VAREJISTA DE VESTUÁRIO

INFLUENCE OF SALES PROMOTION STRATEGIES


ON CONSUMER PURCHASE BEHAVIOR PLUS
SIZE IN THE CLOTHING RETAIL SEGMENT

RESUMO

O presente estudo tem por objetivo investigar a influência das pro-


moções de vendas ofertadas pelo segmento varejista de vestuário
no comportamento de compra das mulheres plus size. A pesquisa é
de cunho quantitativo e utilizou dados coletados a partir de ques-
tionários estruturados individuais, aplicados em uma amostra de
117 mulheres plus size, escolhidas aleatoriamente. As informações
coletadas foram submetidas a técnicas de análise descritivas, ao
cruzamento de variáveis (crosstabs) e ao teste de associação Qui-
-quadrado. Os principais achados indicam que as estratégias de
promoção de vendas que mais influenciam o comportamento de
compra de mulheres plus size no segmento varejista de vestuário
são as que envolvem desconto no preço e a exposição das peças
em vitrines. Outras variáveis de promoção de vendas também in-
fluenciam, positivamente, o comportamento de compra das con-
sumidoras plus size e devem ser consideradas nas estratégias de
marketing para esse público específico.

Palavras-chave: Plus Size. Promoções de Vendas. Varejista. Ves-


tuário.

Vanessa Aparecida David Pires ABSTRACT


piresvd@[Link]
Graduada em Administração This study aims to investigate the influence of sales promotions
Universidade Federal de
offered by the clothing retail segment on the purchase behavior of
Uberlândia. Uberlândia - MG
- BR. plus size women. The research is quantitative and used data col-
lected from individual structured questionnaires, applied to a sam-
Victor Manuel Barbosa Vicente ple of 117 randomly selected plus size women. The information
[Link]@[Link] collected was submitted to descriptive analysis techniques, cross-
Doutor em Administração.
Professor Adjunto C Nível 2 da
tabs and Chi-square association test. The main findings indicate
Universidade Federal de Uber- that the sales promotion strategies that most influence the buying
lândia. Uberlândia - MG - BR. behavior of plus size women in the clothing retail segment are

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108 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

those that involve price discounts and display incremento das vendas em diversos setores
exposure. Other sales promotion variables also da economia e pela atração dos clientes, as-
positively influence the purchasing behavior of sim como pelo fortalecimento das empresas
plus size consumers and should be considered no mercado, tornando-se uma importante fer-
in marketing strategies for this specific public. ramenta de sobrevivência às empresas no ce-
nário econômico atual, justificando, assim, sua
Keywords: Plus Size. Sales Promotions. Retai- crescente utilização no varejo brasileiro a fim
ler. Clothing. de driblar os efeitos das crises que, geralmente,
afetam o setor.
1 INTRODUÇÃO Com 78,9% das empresas brasileiras
atuando no setor de comércio varejista, de
Estudos sobre o comportamento do acordo com o IBGE (2015), o setor vem re-
consumidor têm trazido resultados importan- gistrando quedas expressivas em seu volume
tes para vários nichos de mercado, a exemplo, de vendas. Em maio de 2016, por exemplo, a
o segmento varejista de vestuário plus size, queda registrada em todo o segmento foi da
conforme evidenciado por Miranda e Furlan ordem de 9% em relação a maio de 2015, a dé-
(2015) ao destacar quão promissor e oportuno cima quarta taxa negativa consecutiva segun-
pode ser esse mercado, desde que seja dada a do IBGE (2016a, 2016b); e, ao se considerar,
devida atenção às necessidades e aos desejos especificamente, o segmento de vestuário (que
dos consumidores que fazem parte desse nicho. engloba tecidos, peças de vestuário e calça-
Surgindo como tendência, o segmento de dos), a queda registrada é ainda maior, 13,5%
vestuário plus size, que, de acordo com Marcelja no mesmo período.
(2015) e corroborado por Prado (2016), se refere Estudos acerca dos efeitos das promo-
às pessoas que usam manequim a partir da nu- ções sobre o aumento do volume de vendas em
meração 44, e que buscam peças que valorizem empresas varejistas e da eficiência delas como
seus atributos, imprimam sua identidade e lhe vantagem competitiva sustentável, como o de
façam sentir bem, apresentou um crescimento Davies (1992) e Semedo (2014), sugerem que
médio aproximado de 4,5% ao ano, ao se con- as promoções de vendas têm efeito direto so-
siderar o período 2013-2015, conforme Prado bre os resultados positivos da empresa, ainda
(2016), movimentando cerca de 2,5 bilhões de que em graus diferentes, indicando sua contri-
reais anualmente no segmento em questão. buição para o sucesso empresarial dos vários
Esses dados, aliados ao fato de que segmentos varejistas do mercado.
53,9% dos brasileiros, considerando os adul- Entre os diversos segmentos existentes
tos, encontram-se acima do peso ideal, de no varejo que utilizam as promoções como fer-
acordo com o Ministério da Saúde (2016), ramenta de incentivo à venda, o setor de vestu-
demonstram todo o potencial de crescimento ário se destaca como um segmento importante
desse nicho de mercado, indo na contramão para a economia nacional. De acordo com Mota
do segmento de varejo de moda, conforme (2013), o varejo de moda no Brasil alcançou o
enfatiza Prado (2016). Dessa forma, visando patamar de US$ 42 bilhões em vendas, consi-
atender a esse nicho de mercado e manter seu derando o período 2003-2013, fazendo o Brasil
crescimento, é necessária a utilização de fer- subir para a 5ª posição na classificação mundial
ramentas que sejam capazes de aumentar as dos maiores consumidores de roupas.
vendas, configurando-se em vantagem com- Esse volume de vendas pode ser atri-
petitiva sustentável. buído ao fato de serem os artigos de vestuário
Nesse sentido, podem-se citar as pro- um dos itens mais consumidos pelas famílias
moções de vendas que, conforme Fernandes brasileiras, com um ticket médio de R$ 118,20
(2013), são métodos eficientes na busca pelo mensais, de acordo com SEBRAE (2013), con-

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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 109

sumo que, em sua maioria, é atribuído aos con- 2 REVISÃO DA LITERATURA


sumidores do sexo feminino, justificado pela
relação existente entre as mulheres e a moda 2.1 PROMOÇÕES DE VENDAS
(SCUSSEL et al., 2016).
De acordo com o Ministério do Desen- Conforme Churchill e Peter (2000),
volvimento, Indústria e Comércio Exterior corroborado por Boschetti (2012), as pro-
(BRASIL, 2014), 53% dos consumidores do moções de vendas nada mais são que a força
segmento de vestuário no Brasil são mulheres, exercida sobre o consumidor, visando estimu-
fato explicado pelo aumento da participação lar a experimentação e a aquisição de produ-
desse público no mercado de trabalho, aliado tos específicos.
ao fato de elas estarem assumindo um papel O estímulo à demanda (aquisição de
de controle no processo de decisão de compra, produtos) a que se refere Churchill e Peter
conforme Giglio (2005), resultando em novas (2000) só será possível se houver, por parte
perspectivas para o comércio varejista, fazendo dos varejistas, a concessão de alguns tipos
que a compreensão de seu comportamento seja de benefício, incentivos extras ao cliente,
de extrema importância para que as empresas que sejam capazes de agregar valor ao pro-
se sobressaiam no mercado, compreensão que cesso de compra, influenciando o comporta-
se torna ainda mais essencial ao se tratar, es- mento do consumidor, visão compartilhada
pecificamente, da mulher plus size, conforme por Laroche et al. (2003), podendo eles ser
enfatiza Scussel et al. (2016). classificados em benefícios monetários, vol-
Diante do cenário apresentado, surge a tados ao preço do produto, e benefícios não
seguinte questão: qual a influência das pro- monetários, voltados diretamente ao produ-
moções de vendas ofertadas pelo segmento to, em que cada um oferece vantagens de
varejista de vestuário no comportamento de uso (CHANDON; WANSINK; LAURENT,
compra das mulheres plus size? Assim posto, 2000; SANTINI et al. 2013).
o objetivo geral desta pesquisa é investigar a Os benefícios, ou promoções de ven-
influência das promoções de vendas ofertadas das monetárias, de acordo com Santini et al.
pelo segmento varejista de vestuário sobre (2013) são usuais para se obter resultados
o comportamento de compra das mulheres em curto prazo, incentivando a experimenta-
plus size, justificado pelo visível crescimento ção e a aquisição de novos produtos, poden-
desse nicho de mercado na atualidade, pelos do ser identificadas como promoções, en-
resultados favoráveis que podem ser obtidos volvendo cupons, descontos e abatimentos.
ao se utilizar as promoções de vendas como Em contrapartida, as promoções de vendas
ferramenta de incentivo às vendas, pela im- não monetárias são indicadas para a obten-
portância do segmento varejista de vestuário ção de resultados em longo prazo, pois pro-
para o país e pela ‘relação’ existente entre as movem a imagem da marca, do produto ou
mulheres e a moda, tendo sua importância da empresa, podendo ser identificadas como
atribuída ao âmbito acadêmico, no sentido de promoções que envolvem displays, brindes
expandir as pesquisas sobre o tema, e ao âm- ou prêmios, concursos e sorteios, amostras
bito mercadológico, no sentido de direcionar grátis e degustação.
as empresas em sua forma de atuação nesse Os cupons, promoções de vendas mo-
nicho de mercado. netárias, podem ser definidos, conforme
Em complemento, estabeleceu-se como Churchill e Peter (2000), como vales contidos
objetivo específico a esta pesquisa verificar em encartes de revistas, panfletos, jornais,
qual o tipo de promoção de vendas é conside- sites, entre outros, que oferecem redução no
rado como o mais atrativo às integrantes desse preço de determinada mercadoria no ato da
nicho de mercado. compra. Por sua vez, as promoções que en-

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110 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

volvem desconto de preço, de acordo com influenciar o comportamento de compra do


Belch, G. e Belch, M. (2014), referem-se à consumidor, podendo ser aplicadas por mi-
redução do valor do produto em si, sendo di- croempresas, estendendo-se às empresas de
ferente do abatimento, que se refere à resti- grande porte, mas, preferencialmente, as in-
tuição de parte do valor da compra ao cliente dicadas às micro e pequenas empresas, tanto
(uma espécie de reembolso a ser utilizado em pela facilidade de uso, como pelo baixo custo
compras futuras), pelo fato de conceder-lhe o para seu desenvolvimento.
benefício no ato da compra, conforme exem-
plifica Churchill e Peter (2000). 2.2 COMPORTAMENTO DE COMPRA
Em se tratando das formas de promo-
ções de vendas não monetárias, os displays Costa et al. (2012) buscam identificar o
são definidos por Churchill e Peter (2000) comportamento de compra dos consumidores,
como expositores, mostruários destinados a que pode ser definido em como ele escolhe
lançar e/ou promover o produto, tendo o ‘po- (avaliação de alternativas na pré-compra),
der’, se bem feitos, de despertar o desejo do compra (efetivação da compra), usa (consu-
consumidor por aquele produto, efeito tam- mo) e descarta produtos ou serviços (descar-
bém atribuído, conforme complementa Belch, te), conforme os estímulos a que é exposto,
G. e Belch, M. (2014), aos brindes ou prê- a saber, o mix de marketing (produto, preço,
mios que são produtos grátis oferecidos aos promoção e praça), habitualmente utilizado
clientes pela compra ou oferecidos a um valor para estimular o comportamento de compra
mais baixo que o comum. dos consumidores.
Os concursos e sorteios são colocados Alguns fatores internos e externos são
em um mesmo patamar dentro das promoções influenciadores do comportamento de com-
de vendas não monetárias. Enquanto o pri- pra; entre eles, segundo Fassina (2014), os
meiro, de acordo com Belch, G. e Belch, M. fatores econômicos (fator externo) e emo-
(2014), são promoções voltadas à concessão cionais (fator interno). Os fatores externos,
de prêmios aos consumidores, de acordo com de acordo com Costa et al. (2012), podem
suas capacidades, o segundo são aquelas pro- ser classificados em fatores econômicos,
moções em que os ganhadores não dependem como comprar menos ou mais de acordo
de habilidades específicas para ganhar, são com o preço do produto, fatores políticos,
escolhidos ao acaso, bastando se inscrever como os impostos que compõem o valor dos
para participar. produtos, e tecnológicos, como as inovações
Por fim, as promoções que envolvem tecnológicas incluídas no produto, que po-
amostras grátis e degustações são menciona- dem conferir maior qualidade a eles. Já os
das por Churchill e Peter (2000) e corrobora- fatores internos, que exercem ligação direta
das por Belch, G. e Belch, M. (2014) como com os influenciadores contidos no mix de
o ato de oferecer um produto ao cliente de marketing, são classificados por eles como
forma gratuita para que ele o experimente e fatores sociais e situacionais.
o eleja como sua primeira opção, sendo muito Associados a esses fatores internos e
eficazes no que tange a influenciar o compor- externos influenciadores de compra estão os
tamento de compra do consumidor. fatores ampliados por Kotler e Keller (2006)
Zimmer e Reinert (2005), corrobora- entre eles: os fatores culturais, sociais, pesso-
dos por Kuazaqui, Correa Júnior e Volpato ais e psicológicos.
(2015), mencionam que, frequentemente, são Com base em todo o exposto por
as promoções que envolvem cupons, brindes, Kotler e Keller (2006), complementado pe-
concursos e sorteios, amostras grátis, degus- los relatos de Zamberlan, Corte e Weger-
tações, e descontos as mais utilizadas para mann (2009), entende-se o quão importan-

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AUTORES | Vanessa Aparecida David Pires, Victor Manuel Barbosa Vicente 111

te é para as empresas, independente de seu 3 PROCEDIMENTOS


porte, segmento e/ou nicho de atuação, aten- METODOLÓGICOS
tar-se para o comportamento de compra no
que se refere a seus fatores influenciadores,
pois o nível de influência desses fatores se 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA
modifica de acordo com o tipo de produto
De acordo com o exposto neste es-
a ser adquirido, gênero e características do
indivíduo, entre outros. tudo, esta pesquisa objetiva investigar os
efeitos das promoções de vendas ofertadas
pelo segmento varejista de vestuário sobre o
2.3 O MERCADO PLUS SIZE
comportamento de compra das mulheres plus
size. Optou-se, para isso, por uma pesquisa
No Brasil, 17,7% das lojas de varejo
de natureza quantitativa do tipo descritiva,
trabalham com moda plus size, mas apenas
caracterizada pelo emprego da mensuração e
3,5% delas são especializadas nesse nicho
objetividade, tanto nas modalidades de coleta
de mercado. Essa limitada parcela conhe-
de informações, quanto no tratamento delas
cedora do público plus size não tem sido
por meio de técnicas estatísticas. A intenção
capaz de suprir a carência de itens no setor,
da pesquisa foi encontrar, aferir e classificar a
principalmente no que diz respeito a vesti-
relação de causalidade entre a influência das
dos de festa, calças e lingeries, sinalizando
variáveis de promoção de vendas no compor-
a capacidade expansiva do segmento (SE-
tamento de compra de consumidoras plus size
BRAE, 2016).
no âmbito nacional.
Diversos estudos foram empreendidos
A pesquisa utilizou duas técnicas im-
para entender a necessidades do universo plus
portantes de coleta de dados: a pesquisa docu-
size, como os de Zanette, Lourenço e Brito
mental (caracterizada, conforme Gil (2002),
(2013, p. 539) que buscaram identificar o
pelo uso de documentos sem trato crítico) e a
“conceito de identidade sob a ótica do con-
pesquisa bibliográfica (caracterizada, confor-
sumo feminino de moda plus size”; ou os de
me Gil (2002), por publicações de periódicos
Winter e Moraes (2013, p. 1), que tinham por
científicos, livros de leitura corrente e disser-
objetivo estudar o “comportamento da consu-
tações) que serviram de apoio para este estu-
midora de moda plus size, em relação às ques-
do, norteando a qualidade dos dados obtidos
tões da vaidade, autoestima e autoconceito”;
junto à amostra pesquisada.
os estudos de Marcelja (2015, p. 1) que pro-
Para o cumprimento do objetivo ge-
curaram “investigar o processo de construção
ral desta pesquisa, o estudo do problema de
e o que está por trás do termo plus size”, ou
pesquisa proposto foi feito com base na di-
ainda os estudos de Scussel et al. (2016) que
mensão da análise e respectivas variáveis,
tinham por objetivo “investigar a experiência
ambas estipuladas, exclusivamente, pela
de consumo das consumidoras de moda plus
revisão de literatura realizada para este es-
size”, tornam-se necessários ainda às em-
tudo, conforme apresentado no quadro a se-
presas estudos que relacionem os efeitos das
guir (quadro 1).
promoções de vendas realizadas no segmento
varejista de vestuário sobre o comportamen-
to de compra das mulheres plus size, objetivo
desse estudo, tornando visível aos interessa-
dos o que esse público valoriza ao se tratar de
promoções de vendas.

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112 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

3.2 MODELO DE ANÁLISE trumento de coleta de informações um questio-


nário com questões de múltipla escolha e em
No modelo a seguir, expõem-se as vari- escala tipo likert de importância ou concordân-
áveis que foram analisadas dentro da dimensão cia, visando captar as opiniões e as atitudes das
comportamento de compra, e que serviram de consumidoras plus size da maneira mais obje-
base para o alcance do objetivo geral proposto. tiva possível. Foi realizada uma pesquisa quan-

Quadro 1 – Modelo de Análise


DIMENSÃO VARIÁVEIS FOCO DE ANÁLISE
Vales e cupons Avaliar se a disponibilização de vales e cupons de desconto para
de desconto utilização em uma próxima compra estimula uma nova compra.
Preço Avaliar se a redução de preço dos itens de vestuário estimula a compra.
Avaliar se a concessão de brindes, mediante um valor pré-determinado para
Brindes
compras, estimula a aquisição de produtos e/ou aumenta o ticket médio de compra.
COMPORTAMENTO

Exposição Avaliar se a exposição dos itens de vestuário em vitrines estimula a


(vitrines) experimentação e a compra.
COMPRA

Concursos e Avaliar se a concessão de cupons para a participação de concursos e


DE

sorteios sorteios estimula o aumento do ticket médio de compra.


Atributos do Avaliar a importância dos atributos dos produtos ofertados durante a
produto promoção de vendas e qual a que mais estimula a compra.
Grupos de Avaliar se os grupos de referências, como família e amigos, interferem
referência na compra durante as promoções.
Item de Avaliar que item de vestuário, na promoção, é de maior interesse para
vestuário as mulheres plus size.
Avaliar se uma peça que não valoriza os atributos da compradora tem
Autoestima
venda garantida pelo fato de estar na promoção.
Fonte: elaboração própria a partir da revisão de literatura.

O quadro 1 mostra a dimensão compor- titativa com uma amostra de 117 consumidoras
tamento de compra, coluna 1, como dependente plus size, a qual foi definida por meio de uma
das variáveis da coluna 2, que abrange cinco calculadora amostral online1, tendo por base a
variáveis relacionadas diretamente às promo- população das mulheres brasileiras adultas com
ções de vendas e quatro variáveis relacionadas características relevantes a este estudo, e como
aos fatores influenciados internos e externos, percentual mínimo, as mulheres com a caracte-
em que se buscou estabelecer a influência da rística de ser plus size.
segunda sobre a primeira, de acordo com o foco Para a delimitação das mulheres pesqui-
de análise estabelecido. sadas, foi definido, no questionário apresentado
Sendo definidos as variáveis a serem no Apêndice A, um filtro de pesquisa contendo
pesquisadas e o foco de sua análise, será possí- as seguintes questões:
vel passar a próxima etapa deste estudo, a cole- a) tem idade maior ou igual a 18 anos?;
ta e o tratamento dos dados. b) tem manequim maior ou igual a 44?;
c) é do sexo feminino? e;
3.3 COLETA E TRATAMENTO DE DADOS d) compra ou já comprou peças de moda
indicadas como plus size?
Com o objetivo de coletar os dados a se-
rem analisados e agrupá-los de forma a facilitar 1 Disponível em: [Link]
uma posterior análise, foi utilizado como ins- [Link]/calculoamostral/

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Inicialmente, no mês de abril, foi feito 4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO


um pré-teste do questionário a ser aplicado DOS RESULTADOS
com cinco consumidoras plus size escolhidas
ao acaso. O objetivo deste pré-teste foi verifi- 4.1 CARACTERIZAÇÃO DA AMOS-
car se todas as questões contidas no questio- TRA E SUMARIZAÇÃO DOS RE-
nário estavam claras e objetivas, assim como SULTADOS
se não havia falhas nele.
Por fim, 245 questionários foram co- A amostra foi composta, exclusivamen-
letados, sendo 240 de forma online, utilizan- te, por mulheres (117), maiores de 18 anos,
do-se, para esse fim, as redes sociais, como com manequim a partir da numeração 44, e
o Facebook e o Whatsapp (por meio de um que já tenham adquirido peças de vestuário
link2 gerado por um aplicativo de execução de indicadas como plus size.
pesquisas3), por meio de grupos voltados para Desse modo, a amostra pode ser assim
o público plus size de todo o Brasil, como o caracterizada: a maioria das respondentes
grupo “Desapego Plus Size Sjc e Região4” por com idade entre 36 e 45 anos, com 37,6% de-
exemplo, e cinco de forma física, possibilitan- las nessa faixa etária; pós-graduação comple-
do que a base populacional para extrairmos ta como nível de escolaridade predominante,
a amostra fosse em nível nacional, atividade com 27,4% das respondentes nessa categoria;
esta realizada entre os meses de maio e junho, casada/união estável como o estado cível da
com uma coleta de corte transversal. maioria delas, com 54,7% das respondentes
Do total de questionários coletados, nessa categoria; e com relação à numeração
128 foram invalidados, ora pelos responden- do manequim, prevalecem as que tanto para
tes não possuírem as características delimita- peças, como calças e saias, assim como para
das no estudo, ora por falha durante seu pre- blusas e casacos, vestem entre as numerações
enchimento, estes correspondendo a 52,24% 48/50, sendo 35% e 36,8% respectivamente.
dos questionários, ocasionando, então, em Caracterizada a amostra, apresenta-se a
uma taxa de retorno útil de 47,76%, o que seguir (gráfico 1), em suma, o resultado per-
equivale a 117 observações válidas. cebido sobre a influência das promoções de
Os dados coletados pelos questionários vendas, assim como de três variáveis do Mo-
foram tabulados por meio do software SPSS delo de Análise (quadro 1), no comportamen-
(versão 20.0), auxiliando-se nas técnicas de to de compra das consumidoras plus size no
estatística descritiva (frequência e média); segmento varejista de vestuário.
cruzamento de variáveis (crosstabs); e teste
de associação Qui-quadrado com o auxílio
das variáveis propostas no modelo de análise,
possibilitando, assim, a análise e a discussão
dos resultados.

2 Disponível em: [Link]


com/r/GKWS736; [Link]
com/r/9M8Y7H7; [Link]
M8SWR58
3 Disponível em: [Link]
4 Disponível em: [Link]
groups/592201277616517/

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 107-122, maio/ago. 2019
114 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

Gráfico 1 – Influência das Variáveis do Modelo de Análise sobre o Comportamento de Compra de Mulheres
Plus Size
Influência da Auto Estima
84,60% Influência Média do Preço
78,63% 78,63%
Influência da Exposição (vitrines)

Influência Média dos Atributos do


Produto
58,47% Influência dos Concursos e
Sorteios
Influência Média dos Vales e
Cupons de Desconto
Influência Média dos Brindes
35,04%
32,91% Influência Média dos Grupos de
Referência
22,22% 20,46%

Fonte: elaboração própria através dos dados coletados.

O gráfico 1 traz como variável de maior fluência dos mesmos sobre o comportamento
influência sobre as consumidoras plus size a de compra das mulheres “plus size” na hora da
variável “autoestima”, que influencia 84,60% compra, sendo esta de apenas 20,46%.
das consumidoras plu size na hora da compra.
Em seguida, apresenta-se a influência média 4.2 PROMOÇÃO MAIS ATRATIVA PARA
das ações promocionais, envolvendo o “preço”, AS CONSUMIDORAS PLUS SIZE
mensurada em 78,63%, assim como a influên-
cia da variável “exposição (vitrines)”. Infere- Antes de tratar sobre os resultados das
-se, portanto, que as três variáveis apresentadas variáveis do modelo proposto (quadro 1), cabe
exercem uma elevada influência sobre a mulher apresentar os resultados apurados para o obje-
plus size na hora de realizar suas compras. tivo específico a este estudo, que consistiu em
Por fim, no que se refere à variável “gru- verificar qual o tipo de promoção é a mais atra-
pos de referência”, percebe-se uma baixa in- tiva para as consumidoras plus size.

Tabela 1- Ação promocional mais atrativa para a consumidora plus size


Vales e cupons Desconto Abatimento
Cupons para
de desconto para (redução de no valor final Brindes TOTAL
concursos/sorteio
próxima compra preço) na peça da compra
Frequência 2 85 27 2 1 117
% 1,7 72,6 23,1 1,7 9 100
Fonte: elaboração própria por meio dos dados coletados.

O resultado encontrado, conforme tabela resultados de estudos já existentes, como os


1, mostra que, para 72,6% das respondentes, a encontrados por Santini, Lübeck e Sampaio
promoção mais atrativa são as que envolvem (2015, p. 25) que mencionam que esse tipo
descontos no valor das peças, corroborando os de promoção “impacta, positivamente, na in-

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tenção de compra.” Em segundo aparecem as produto, grupos de referência, item de vestuá-


promoções que envolvem abatimento no valor rio e autoestima.
final da compra, considerada a promoção mais
atrativa para 23,1% das respondentes. 4.3 EFEITOS DAS PROMOÇÕES DE
Os dois tipos de promoções, considera- VENDAS NO COMPORTAMEN-
dos os mais atrativos pelas consumidoras plus TO DE COMPRA DAS CONSUMI-
size, são promoções do tipo monetárias, aquelas DORAS PLUS SIZE
que envolvem o preço do produto, e a preferen-
cia delas por esse tipo de promoção ratifica os
4.3.1 Influência da Concessão de Vales e
resultados encontrados por Costa et al. (2012,
Cupons de Desconto no Comporta-
p. 10) que enfatizam que “o preço influencia a
consumidora na hora de comprar uma determi- mento de Compra das Consumido-
nada roupa”. ras Plus Size
Vale ressaltar que, entre as respondentes
que consideraram as promoções envolvendo A variável nomeada como “vales e
o preço como o tipo de promoção mais atrati- cupons de desconto”, classificada como pro-
va, 53,3% delas gastam, em uma média men- moção de venda de natureza monetária, buscou
sal, entre R$101,00 e R$500,00 com peças de avaliar se o fato de uma empresa atuante no
vestuário. Assim posto, passa-se a analisar as segmento de vestuário conceder esse benefício
variáveis do modelo proposto para determinar para ser utilizado em uma compra futura esti-
sua influência sobre o comportamento de com- mula na consumidora plus size o comportamen-
pra das consumidoras plus size, a saber: vales e to de realizar essa compra, ainda que não esteja
cupons de desconto, preço, brindes, exposição planejada. Os resultados obtidos para os dois
(displays), concursos e sorteios, atributos do casos apresentados foram semelhantes, confor-
me mostra a tabela 2.
Tabela 2 – Cupons de descontos: influência nas compras futuras
CASO 1 - Você recebe um cupom de CASO 2 - Você recebe um cupom de
desconto para ser usado em uma próxima desconto para ser usado em uma próxima
compra a partir de um determinado compra, independente do valor dela.
valor. Porém, você não tem a intenção de Porém, você não tem a intenção de
realizar essa nova compra imediatamente, realizar essa nova compra imediatamente,
mas, diante desse novo fato, você: mas, diante desse novo fato, você:
Permanece com
a decisão de não Frequência % Frequência %
realizar uma 92 78,6 65 55,6
nova compra
Muda de opinião
Frequência % Frequência %
e realiza uma
25 21,4 52 44,4
nova compra
Fonte: elaboração própria por meio dos dados coletados.

Tanto no caso da concessão de um cupom vales descontos não faria que as consumidoras
de desconto para ser utilizado em compras fu- em questão realizassem uma nova compra, sen-
turas a partir de um determinado valor, como do que, no primeiro caso, 78,63% das respon-
no caso de sua concessão para se utilizar em dentes não realizariam a compra e, no segundo
compras futuras de qualquer valor, o resultado caso, 55,56% delas não realizariam a compra.
da análise indica que a concessão de cupons e

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116 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

4.3.2 Influência da Redução do Preço no 4.3.3 Influência da Concessão de Brin-


Comportamento de Compra das des no Comportamento de Compra
Consumidoras Plus Size das Consumidoras Plus Size

A variável nomeada como “preço”, A variável nomeada “brindes”, perten-


promoção de natureza monetária, assim cente ao conjunto de promoções de vendas não
como os vales e cupons de desconto, visava monetárias, assim como os displays (exposição
avaliar, por meio de duas situações propos- das peças) e os sorteios/concursos, avaliou se o
tas, se a redução dos preços dos itens de ves- fato de oferecer brindes como prêmio nas com-
tuário estimula as consumidoras plus size a pras de vestuário, a partir de um valor pré-de-
adquirir os produtos. terminado, estimula a aquisição dos produtos e/
Na primeira situação apresentada, em ou aumenta o ticket médio de compra.
que, basicamente, a consumidora plus size de- Para as duas situações apresentadas, a res-
via optar entre comprar ou não em uma loja posta encontrada foi de que os brindes não esti-
de vestuário com preços promocionais, ainda mulam a compra nem o aumento do ticket médio
que não conhecesse a loja, 85,74% das res- de compra. No primeiro caso, considerando a
pondentes optaram por comprar nas lojas com média, as respondentes tendem a discordar total-
preços promocionais, resultado que pode ser mente da afirmação “eu realizo uma compra de
relacionado, conforme Rojo (2003), ao fato roupas não planejada se derem brindes” (média
de, em muitos casos, os consumidores terem = 4,87), e, no segundo caso, também consideran-
preferência pelos produtos, consequentemen- do a média, as respondentes igualmente tendem
te pelas lojas, que apresentem produtos com a discordar totalmente da afirmação “aumento o
preços menores, sugerindo, então, que este valor que ia gastar em uma compra de roupas
seja um dos pontos fundamentais ao se esco- quando vejo que estão dando brindes pelas com-
lher onde comprar, fato, também, observado pras de um determinado valor”(média = 4,65).
por Boschetti (2012) em seus estudos quan- Portanto, na contramão dos estudos de
do menciona que as promoções envolvendo o Boschetti (2012, p. 87) por exemplo, em que,
preço foram as primeiras a ser consideradas embora voltado ao segmento financeiro e às pro-
pelos consumidores. moções envolvendo sorteios, conclui-se que “as
Na segunda situação proposta, em que ferramentas de promoção de vendas não mone-
as respondentes deveriam expressar seu nível tárias [...] impactam o comportamento de compra
de concordância para a afirmativa “eu compro dos consumidores”, os resultados aqui encontra-
mais roupas quando elas ficam mais baratas”, dos sugerem que a concessão de brindes mediante
35,04% das respondentes declaram concordar um valor pré-determinado para compras de itens
totalmente que compram mais roupas quando de vestuário não estimula a aquisição do produto
elas estão mais baratas, 27,35% delas declara- nem o aumento do ticket médio de compra; logo,
ram que concordam parcialmente com a afir- nesse caso, conceder brindes pela compra parece
mativa, e 9,40% delas declararam apenas que não ter influência significativa sobre comporta-
concordam com a afirmativa. Em uma média, mento de compra das consumidoras plus size.
as respondentes tendem a concordar parcial- Essa discrepância nos resultados pode
mente com a afirmação proposta (média = ser explicada por as pesquisas possuírem tanto
2,42). O resultado encontrado reforça, confor- o público, como o segmento de estudo diferente
me conclui Santini, Lübeck e Sampaio (2015, um do outro, pois a influência de uma ação pro-
p. 33) a “reafirmação empírica da eficácia da mocional tem a ver tanto com o tipo de produto
promoção de desconto no aumento da inten- ofertado, como com o público a quem a ação
ção de compra.” promocional é direcionada, conforme destaca-
do por Malacarne, Galão e Viana (2015).

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4.3.4 Influência da Exposição das peças compra. Os atributos conforto, qualidade, bele-
em vitrines (displays) no Compor- za/estilo e ser atual (da moda) foram analisados
tamento de Compra das Consumi- por todas as respondentes quanto à importância
doras Plus Size deles para si, e, considerando a média, tendem
a ser atributos muito importantes para as con-
A variável nomeada como “Exposição sumidoras, com exceção de o atributo ser da
(displays)” buscou avaliar se o fato de as peças moda/atual que tende a ser somente importan-
de vestuário plus size serem exibidas em vitri- te, sendo as médias, respectivamente (média =
nes é capaz de influenciar a consumidora plus 1,15; 1,43; 1,41; 1,97).
size a entrar na loja, experimentar e comprar Vale ressaltar que o fato de todos os atri-
o produto. Os resultados apontam que, na si- butos apresentarem algum nível de importância
tuação em que a consumidora é exposta a uma para as consumidoras pesquisadas pode ser as-
vitrine e gosta do que vê, a reação de 78,63% sociado com a autoestima, com destaque para o
das respondentes, a maioria, seria a de entrar na atributo conforto, ‘votado’ como muito impor-
loja, experimentar o produto e comprar se gos- tante pela maioria das consumidoras plus size
tasse dele, resultado que corrobora com os de pesquisadas, que está intimamente associado
outras pesquisas, como as de Prado, G. e Pra- à autoestima (0 < p < 0,1 em que p = 0,061),
do, K. (2009), que enfatizam o nível de retorno pois, como bem conclui Frederico et al. (2015,
positivo das ações promocionais envolvendo p. 174), “a consumidora de tamanhos espe-
displays. Portanto, os resultados sugerem que ciais quer produtos bonitos, atuais e, se possí-
expor as peças de vestuário em vitrines é atra- vel, confortáveis; o mais importante é que eles
ente a essas consumidoras, exercendo influên- consigam deixar a mulher se sentir bonita”, ou
cia sobre elas e estimulando a experimentação seja, que eles a façam se sentir bem.
e a aquisição do produto. Ao considerar os mesmos atributos den-
Nesse sentido, corroborando o exposto tro de uma ação promocional qualquer, visando
por Zamberlan, Corte e Wegermann (2009), apurar qual deles influencia a compra, a maio-
cabe mencionar que os resultados apontam que ria das respondentes - 46,15% - alega que todos
há uma forte associação (0,8 ≤ p < 1 em que p = os atributos apresentados (conforto, qualidade,
0,994) entre o fato de a maioria das responden- beleza/estilo, ser atual/da moda) são importan-
tes se sentir influenciadas pelas vitrines e ida- tes na hora da compra.
de das respondentes, que, em média, possuem Esse resultado pode ser facilmente com-
entre 26 a 35 anos (média = 3,5), com 37% das preendido ao levar-se em consideração o que
consumidoras plus size que alegaram entrar concluem Frederico et al. (2015) sobre os atri-
na loja, experimentar e comprar o produto por butos dos produtos ao mencionarem que um atri-
gostar do que viu na vitrine pertencentes a essa buto sozinho, por mais importante que seja, não
faixa etária, em conjunto com as pertencentes à é capaz de incentivar por si só a compra, e, sim,
faixa etária de 36 a 45 anos de idade, também o conjunto de todos os atributos apresentados.
com 37% das respondentes.
4.3.6 Influência dos Grupos de Referên-
4.3.5 Influência dos Atributos do Produ- cia no Comportamento de Compra
to no Comportamento de Compra das Consumidoras Plus Size
das Consumidoras Plus Size
A variável nomeada como “grupos de re-
A variável nomeada atributos do produto ferência” buscou avaliar se os grupos sociais dos
visou, objetivamente, avaliar a importância dos quais as respondentes participam, a saber: pais/
atributos das peças de vestuário para a consu- irmãos; conjugue/filhos e amigos, influenciam na
midora plus size, e qual deles mais estimula a hora da compra durante uma promoção de vendas.

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118 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

Com relação ao grupo de referência deno- Embora não se tenham encontrado estu-
minado pais/irmãos, a maioria das respondentes - dos que buscassem investigar quais os tipos de
41,03% delas - alegam que, de maneira nenhuma, peças de vestuário são prioridades de compra
são influenciadas por eles durante uma promoção para as mulheres plus size, vale mencionar os
de vendas sobre que tipo de roupa comprar, di- estudos de Scussel et al. (2016), que revelam
ferentemente do que ocorre com o grupo de re- o dilema existente na tentativa de se encontrar
ferências denominado conjugue/filhos, em que roupas para trabalho (com tecidos mais sofisti-
apenas 29,06% das respondentes declararam que cados e/ou alfaiataria) e vestidos, quarto item
não são influenciadas por eles, de maneira nenhu- na preferência de compra das respondentes
ma, sobre o tipo de roupa a comprar durante uma desse estudo, para as mulheres tamanho plus
promoção, sendo seguidas por aquelas que ale- size; e os estudos de Miranda e Furlan (2015, p.
gam somente que não são influenciadas pelo dito 21), nos quais se salienta a dificuldade de se en-
grupo durante uma promoção, que corresponde a contrar, especificamente, lingeries voltadas ao
24,79% das respondentes. público desse nicho de mercado, sexto item na
Considerando a média sobre cada um preferência de compra das respondentes deste
dos grupos apresentados, (média = 5,15; 4,74; estudo, enfatizam a necessidade de que as “as
e 4,98 respectivamente) assim como o resulta- empresas brasileiras de moda [...] se inspirem
do individual de cada um deles, os resultados nas marcas internacionais, por exemplo [...]
apontam que, para as mulheres plus size, os H&M, GUESS, e ZARA, que trabalham com
grupos de referência não interferem em sua de- tamanhos maiores em todas as suas coleções.”
cisão na hora da compra; portanto, parecem não
exercer influência sobre elas no ato da compra 4.3.8 Influência da Autoestima no Com-
das peças de vestuário durante as promoções, portamento de Compra das Consu-
resultado oposto ao de uma investigação seme- midoras Plus Size
lhante, proposta por Costa et al. (2012, p. 9),
que observou, naquele caso, que “o convívio A variável nomeada como “autoestima”
familiar ou o grupo de amizades influenciam buscou, em termos gerais, investigar se uma
a mulher na hora de comprar suas roupas”, roupa tem venda garantida somente por estar na
conforme os resultados obtidos nos estudos de promoção. Essa variável envolve a escolha entre
Prado, Ferreira e Aquino (2011, p. 10), em que comprar ou não comprar peças mais baratas que,
os grupos de referência também não exercem simplesmente, sirvam ao manequim, mas não
influência sobre o comportamento de compra possuam atributos como ser da moda, ter um bom
das mulheres pelo simples fato de elas serem “caimento” ou um bom tecido, por exemplo.
mais influenciadas por outros fatores, como “o Scussel et al. (2016, p. 11) enfatizam
atendimento [...] acompanhado pela comodida- que as frustrações ocorridas durante a compra,
de [...] e o preço.” como não encontrar peças com cores e tecidos
que agradam ou com modelagens que valori-
4.3.7 Prioridade dos Itens de Vestuário zem o corpo, “acarretam impactos na autoes-
para as Consumidoras Plus Size tima, caracterizando essas experiências, como
emocionais e pessoais, dadas as consequências
Avaliar qual o item de vestuário ao ser percebidas na autoestima”, o que pode explicar
colocado em promoção seria prioridade para a o fato de 84,6% das respondentes afirmarem
consumidora plus size; isso foi o que buscou que, em uma situação na qual se deparasse com
avaliar a variável nomeada “itens de vestuá- peças que em nada lhe agradassem, não com-
rio”, que investigou a prioridade de interesse prariam nenhuma peça, pois, apesar de servi-
delas em relação a calças, blusas, saias, vesti- rem ao manequim, elas não vão sentir-se bem
dos, macaquinhos e lingeries. ao usá-las.

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Os resultados sugerem que o simples Indubitavelmente, as promoções que en-


fato de uma roupa ter seu preço reduzido não volvem o preço do produto, especificamente os
garante sua venda, pois, nesse caso, a autoesti- descontos, são as que apresentam um maior nível
ma parece exercer uma maior influência sobre de influência sobre o comportamento das mulhe-
o comportamento de compra dessas consumi- res plus size na hora de realizar suas compras no
doras do que o preço em questão, em conso- segmento varejista de vestuário, sendo eficazes
nância com os resultados obtidos por Winter e no que tange a estimulá-las a mudar a loja onde
Moraes (2013) e corroborados por Frederico et realizar as compras e a aumentar o ticket médio
al. (2015, p. 174), que enfatizam a influência de compra. No entanto, entende-se que essa mu-
da autoestima no comportamento de compra dança só será possível por meio de métodos que
das mulheres ao concluir que “o vestuário tem atraiam a atenção da consumidora, em que entra
caráter simbólico e emocional [...] o mais im- a exposição do produto, mas não qualquer pro-
portante é deixar a mulher se sentir bonita, con- duto, o produto certo (aquele que a consumidora
fiante e sensual.” mais preza) com os atributos certos.
Após a análise dos resultados encontra- Nesse sentido, expor o produto em vitri-
dos, é possível agora prosseguir com este estu- nes mostrou-se eficiente no que tange a atrair
do e apresentar as considerações finais. a consumidora plus size para entrar na loja e
comprar o produto se este lhe agradar, e fica
5 CONSIDERAÇÃOES FINAIS claro, neste estudo, que esse ‘agradar’ significa
ter os atributos que elas consideram importan-
Diante de todo o exposto, o que se per- tes, sendo estes: a qualidade, o conforto, a bele-
cebe é que o fator crítico para se ter sucesso em za e a atualidade das peças.
qualquer nicho de mercado é conhecer o com- Verifica-se, nos resultados, que, além da
portamento de compra de seu público-alvo, ou influência que os atributos do produto exercem
seja, saber exatamente o que o cliente quer e sobre o comportamento de compra da consu-
como ele quer que isso seja feito, propondo, as- midora plus size, quando uma peça reúne em si
sim, mudanças necessárias para se manter no todos os atributos considerados como importan-
segmento em questão. tes por elas, a tendência é de que elas comprem
A partir do objetivo geral desta pesquisa, mais, pois consideram essas peças como com-
que foi de investigar a influência das promoções pletas fato que aponta a importância de se inves-
de vendas ofertadas pelo segmento varejista de tir em peças que se enquadrem nessa categoria.
vestuário no comportamento de compra das Cabe ressaltar que as peças que tenham
mulheres plus size, os resultados mostram que, todos os atributos que as caracterizam como
apesar das estratégias de promoções de vendas completas para as mulheres plus size passam a
exercerem certa influência sobre o comporta- imagem de serem peças que as vestem bem, e
mento de compra das consumidoras plus size, esse fato, vestir bem, faz que elas se sintam bo-
algumas variáveis promocionais de vendas não nitas, com a autoestima elevada, condição que
são tão atrativas em se tratando desse nicho de pode influenciar a compra até mais que o preço.
mercado, especialmente, as que envolvem brin- Em suma, apurou-se que, em se tratando
des, vales e cupons de desconto e concursos e de estratégias promocionais, não são os brin-
sorteios, indicando, para os varejistas atuantes des, os cupons de descontos ou as que envol-
neste nicho, a necessidade de um maior empe- vem os concursos e os sorteios que influenciam
nho em outros tipos de promoções que, real- as consumidoras plus size na hora da compra
mente, influenciam o comportamento de com- no segmento de vestuário, e, sim, as estratégias
pra dessas mulheres, a saber: preço (descontos) que envolvem o desconto do preço das peças
e exposição do produto, conforme as evidên- e as que envolvem a exposição delas; e, em se
cias empíricas deste estudo demonstraram. tratando dos fatores influenciadores ao com-

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120 ARTIGOS | Influência das estratégias de promoções de vendas no comportamento de compra das consumidoras plus size no segmento varejista de vestuário

portamento de compra dessas mulheres, com BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, In-


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Por fim, vale ressaltar que a principal li-
mitação a essa pesquisa foi a escassez de estudos CHANDON, Pierre; WANSINK, Brian; LAU-
que analisam o comportamento de compra de RENT, Gilles. A benefit congruency frame-
mulheres plus size, e isso acabou transforman- work of sales promotion effectiveness. Journal
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nicho de mercado em que é desafiador encontrar CHURCHILL JUNIOR, Gilberto A.; PETER, J.
o tamanho certo, já que as modelagens não são Paul (comp.). Promoção comunicação integra-
padronizadas, bem como encontrar peças de ten- da de marketing: administrando a comunicação
dências de moda e com preço acessível. E como de marketing. In: CHURCHILL JUNIOR, Gil-
recomendações a pesquisas futuras, sugere-se berto A.; PETER, J. Paul. Marketing Criando
aplicar esse estudo ao público plus size masculi- valor para os clientes. Tradução Cid Knipel
no. Outra indicação interessante a uma pesquisa Moreira. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. cap.
futura seria a de investigar se existem diferenças 18, p. 489 - 494.
respeitáveis em termos de influência das estraté-
gias de promoções de vendas no segmento va- COSTA, Marconi Freitas da et al. Como ocor-
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 107-122, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 123

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p123-138.2019

ARTIGOS

ANÁLISE BIBLIOMÉTRICA DO PANORAMA DE


PUBLICAÇÕES SOBRE MÉTODOS, MODELOS,
PROCESSOS E SISTEMAS DE GESTÃO DA
PERFORMANCE ORGANIZACIONAL

BIBLIOMETRIC ANALYSIS OF THE


PUBLICATIONS PANORAMA ON
ORGANIZATIONAL PERFORMANCE METHODS,
MODELS, PROCESSES AND SYSTEMS

RESUMO

Esta pesquisa teve como objetivo delinear um panorama da produ-


ção científica sobre gestão de performance, para analisar métodos,
modelos, processos e sistemas. Utilizou-se a análise bibliométrica
como método de pesquisa. Os dados foram extraídos da base de
dados denominada Web of Science. Os resultados apontam que os
anos com mais publicações são 2009 e 2013, e que não há auto-
res que concentram um expressivo número de publicações, exis-
te, sim, uma distribuição quase igualitária entre as universidades
cujos autores mais estudaram o assunto. Estados Unidos, Ingla-
terra e Bélgica são os países em que houve maior quantidade de
Juliana Duarte Ferreira
julianadf03@[Link] publicação dos artigos. O periódico que detém o maior número de
Acadêmica do Curso de publicações é o International Journal of Human Resource Mana-
Bacharelado em Administração gement; os editores que mais tiveram publicações são Routledge
do Instituto Federal de Journals e Emerald Group Publishing Limited, e todos os artigos
Educação, Ciência e Tecnologia
Farroupilha - Campus Santa
se encontram na categoria Management e na área Business & Eco-
Rosa. Santa Rosa - RS - BR. nomics da Web of Science.

Adriano Wagner Palavras-chave: Gestão de performance. Web of Science. Análise


adrianowagner76@[Link]
Bibliométrica.
Doutor em Engenharia de
Produção pela Universidade
Federal de Santa Catarina. ABSTRACT
Mestre em Engenharia de
Produção pela Universidade
This research aimed to outline an overview of the scientific pro-
Federal de Santa Maria.
Especialista em Comércio duction on performance management, aiming to analyze me-
Exterior e Bacharel em thods, models, processes and systems. Bibliometric analysis was
Administração. Professor used as a research method. The data were extracted from the
e pesquisador do Instituto database called Web of Science. The results indicate that the ye-
Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia Farroupilha -
ars with the most publications were 2009 and 2013, there are no
Campus Santa Rosa. Santa Rosa authors that concentrate an expressive number of publications,
- RS - BR. there is an almost equal distribution among the universities who-

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019
124 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

se authors studied the most, the United States, Conforme Pinto (2006), a demanda pela
England and Belgium are the countries in whi- diferenciação induz os gestores à adoção de
ch there was greater quantity of publication of inovações que garantam bons níveis na perfor-
the articles, the newspaper that holds the lar- mance das organizações e a crescente preocu-
gest number of publications is the Internatio- pação em relação à implementação de soluções
nal Journal of Human Resource Management, alternativas e, se possível, inovadoras em seus
the publishers that most had publications are serviços e produtos, de modo a buscar orientar
Routledge Journals and Emerald Group Pu- a gestão para resultados e melhorias de desem-
blishing Limited and all articles are in the penho. Diante desses aspectos, fica evidente a
category Management and in the Business & importância do gerenciamento da performance
Economics area of the Web of Science. organizacional, uma vez que proposições da
gestão de performance proporcionam uma al-
Keywords: Performance management. Web of ternativa de soluções diversificadas às deman-
Science. Bibliometric Analysis. das que o mercado apresenta.
A gestão de performance se caracteriza
1 INTRODUÇÃO por direcionar seus esforços à integração de
diversas ferramentas e soluções com base em
É perceptível que as mudanças modelos de gestão de qualidade. Cokins (2004)
verificadas no âmbito dos aspectos sociais, explica que, por meio dela, são estabelecidos
dos negócios, da economia e da política reper- e monitorados objetivos organizacionais,
cutem direta ou indiretamente na gestão e no enfatizando o desenvolvimento constante, a fim
desempenho organizacional. A atual economia de conduzir equipes para a conquista do melhor
global, caracterizada pela competitividade e desempenho e do alcance dos objetivos, por
pela busca de soluções inovadoras, requer dos meio da execução da estratégia global da em-
gestores a utilização de novas práticas de ges- presa. Portanto, a gestão de performance busca
tão aplicadas nas diferentes áreas, capacitando gerenciar a execução da estratégia ou a forma
as organizações a se adaptar às transformações como os planos organizacionais são traduzidos
externas e impulsionar seus resultados. Desse em resultados.
modo, “configura-se como desafio às organi- Dessa forma, a partir da gestão de per-
zações desenvolver e utilizar instrumentos de formance, são criados ambientes empresariais
gestão que lhes garantam um certo nível de de contínua melhoria, visando ao sucesso da or-
competitividade atual e futuro.” (BRANDÃO; ganização por meio do melhor desempenho de
GUIMARÃES, 2001, p. 9). execução de seus processos internos. Conforme
Essa realidade demanda às organizações Pinto (2006), a gestão de performance é uma
o desenvolvimento de novos processos e téc- tendência crescente nas organizações de diver-
nicas que incorporam ao ambiente empresarial sos portes e setores, sendo tratada como um
tecnologias e modelos de gestão alternativos, conceito abrangente e integrador de diversas
uma vez que as imprevisões do cenário externo metodologias e processos de melhorias, muitas
podem alterar o planejamento organizacional. vezes apoiados em soluções tecnológicas.
No ambiente organizacional, monitorar e ava- À vista disso, a questão de estudo desta
liar os resultados dos processos desenvolvidos pesquisa foi compreender qual o panorama das
é um fator imprescindível para o alcance dos publicações sobre métodos, modelos, processos
objetivos, bem como dos resultados planejados e sistemas de gerenciamento de performance.
(SOBRAL, 2013). Por meio dessas práticas de O objetivo foi realizar uma pesquisa bibliomé-
gestão, é possível realizar a identificação dos trica para analisar o panorama das publicações
pontos fortes e das necessidades de melhorias referente aos métodos, modelos, processos e
existentes no contexto organizacional. sistemas de gerenciamento da performance or-

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AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 125

ganizacional, a partir de artigos selecionados renovadas na ótica da gestão de performance,


na Web of Science. visando à utilização criteriosa e eficaz dos re-
A análise bibliométrica se caracteri- cursos disponíveis à produção de bens e servi-
za como a aplicação de métodos estatísticos ços com qualidade. Nesse sentido, Pinto (2006)
e matemáticos na análise de obras literárias entende que se torna possível o alcance de uma
(PRITCHARD, 1969). Tem como princípio melhoria contínua dos níveis de performance
analisar a atividade científica ou técnica pelos organizacional por meio da orientação da ges-
estudos quantitativos das publicações (SILVA; tão aos resultados e melhorias de performance.
HAYASHI, C.; HAYASHI, M., 2011). Como O termo gestão de performance, traduzi-
consequência à utilização da análise biblio- do do inglês como performance management,
métrica, via produção e interpretação de indi- é um conceito abrangente, que integra diver-
cadores bibliométricos, tem-se a avaliação da sas metodologias e processos de melhoria, que
atividade científica em determinada área do estão sendo desenvolvidos nas organizações,
conhecimento. muitas vezes apoiados em soluções tecnológi-
Justifica-se a realização deste trabalho cas (PINTO, 2006). Poister (2010) argumenta
pela utilidade em se conhecer o panorama das que a gestão de performance é o processo de
publicações referentes à gestão de performan- estabelecer metas para uma unidade social, ou
ce no contexto organizacional. Além disso, seja, uma instituição ou empresa e gerenciar
este estudo provoca a proposição de melho- efetivamente, objetivando atingir essas metas
rias na gestão de performance, uma vez que para gerar os resultados desejados.
esta acarreta um melhor desempenho organi- Considera-se que a gestão de performan-
zacional (CHO; LEE, 2012; LIU et al., 2007) ce enfatiza a melhoria e o desenvolvimento
e fomenta a importância da sua aplicação nas constante, por meio da condução de equipes
organizações, quando projetada e aplicada de organizacionais de alto desempenho, tendo em
forma efetiva. vista o alcance da estratégia global da empre-
sa. Portanto, é constituída por um conjunto de
2 REFERENCIAL TEÓRICO processos que buscam gerenciar a execução da
estratégia de uma organização ou a forma como
2.1 PRECEITOS DA GESTÃO DE PER- os planos organizacionais são traduzidos em re-
FORMANCE sultados, os quais se conduzem às estratégias
(COKINS, 2004).
No contexto econômico atual, o aumen- Barrows e Neely (2011) expressam que
to da concorrência força as organizações a a gestão de performance consiste em definir
encontrar formas de melhorar a performance de os objetivos da organização e confirmar que as
seus negócios, de modo a buscar olhar além dos ações tomadas assegurem o cumprimento des-
limites tradicionais, a fim de se obterem me- ses objetivos, bem como a estratégia geral. Para
lhorias nos seus diversos âmbitos (MCIVOR et esses autores, a gestão de performance é defini-
al., 2009). A partir dessa necessidade, a gestão da como um processo ou uma prática relaciona-
de performance tornou-se um fator fundamen- da à gestão ou supervisão da execução de uma
tal para enfrentar as pressões externas, inovar ação organizacional. Desse modo, nota-se que
e melhorar a eficiência e a eficácia das orga- a gestão de performance permite o alinhamento
nizações, mantendo a quantidade e a qualida- dos objetivos às metas de cada área organiza-
de dos produtos desenvolvidos e dos serviços cional e as competências e as responsabilidades
prestados. a serem demandadas a cada profissional.
Gunasekaran e Kobu (2007) expõem que Nesse sentido, os resultados e os proces-
uma nova visão do mundo e a superação dos sos provenientes da gestão de performance são
novos padrões atuais requerem ferramentas fatores essenciais para o desenvolvimento das

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126 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

organizações, quando elas se encontram bem performance é ser empregada no gerenciamento


estabelecidas. Isso porque seu foco é desen- do nível de desempenho dos colaboradores.
volver e ampliar os resultados organizacionais. Os modelos e sistemas provenientes
Contudo, para que seja implantada e conduzida da gestão de performance resultam em inú-
com eficácia e de forma constante dentro da or- meros benefícios para as organizações que os
ganização, resultando em impactos positivos a implementam; porém, também possuem al-
ela, é fundamental que seja projetado e adotado gumas fraquezas quando aplicados na prática
um método de gestão de performance transpa- (DAHLGAARD et al., 2013; TOMAZEVIC;
rente, imparcial, estruturado e efetivo (ISHI- SELJAK; ARISTOVNIK, 2015). Essas fraque-
ZAKA; PEREIRA, 2016). zas e problemáticas podem ser explicadas pela
A gestão de performance é utilizada nas importância em se criar links entre os efeitos
organizações por meio de diversas ferramen- do desempenho em diferentes níveis ou traçar
tas e modelos de gerenciamento de qualidade esses efeitos, e isso requer uma visão ampla do
e excelência empresarial. Tomazevic, Tekavcic que constitui gestão de performance (DENISI;
e Peljhan (2015) apresentam que os modelos SMITH, 2014).
de gestão de performance têm crescido em so- Portanto, é importante projetar e imple-
fisticação. Inicialmente, assemelhavam-se à mentar um método de gestão de performance
auditoria de desempenho, com o objetivo de estruturado e efetivo, que realize processos efe-
apontar quebras nos controles operacionais e tivos de gerenciamento de mudanças, atenda às
na implementação de responsabilidades funcio- necessidades organizacionais e respeite o com-
nais e áreas de redução de custos e melhorias portamento humano e a cultura organizacional.
operacionais. Atualmente, deixaram de focar na Caso contrário, sua implementação pode não
medicação da performance e passaram a focar entregar os resultados esperados (MENTO;
no gerenciamento da performance (HOLLIN- JONES; DIRNDORFER, 2002; WADDELL;
GS, 1996). SOHAL, 1998). Mesmo assim, a gestão de per-
As empresas precisam medir e melho- formance é uma tendência crescente nas orga-
rar seus desempenhos em todas as áreas de nizações de diversos portes e setores, que estão
negócios se quiserem permanecer competi- buscando orientar a sua gestão para resultados
tivas (ISHIZAKA; PEREIRA, 2016). Toda a e melhorias de performance.
tomada de decisões e planejamento de nível As práticas, os métodos e as medições
organizacional depende de uma medição pre- de desempenho são multidimensionais e com-
cisa do desempenho no indivíduo, equipe e ní- plexos, o que faz que seja necessário que se
vel organizacional (WILDMAN et al., 2011). apoiem em princípios de boa gestão (ISHI-
Portanto, sendo a gestão de performance um ZAKA; PEREIRA, 2016). Um método de ges-
processo cíclico e interativo (BECKER; AN- tão de performance efetivo, estruturado, con-
TUAR; EVERETT, 2011), é perceptível que, sistente e transparente tem um impacto positivo
em grande parte das organizações, a perfor- em indivíduos, equipes e organização, resultan-
mance individual interage e modifica a perfor- do em recursos valiosos e raros, o que garante
mance organizacional. uma vantagem competitiva para as empresas
Denisi e Smith (2014) expõem que a (ISHIZAKA; PEREIRA, 2016).
maioria dos modelos de gestão de performance À vista desses aspectos, percebe-se a im-
se concentra em mudar o desempenho individu- portância do desenvolvimento e aplicação da
al ou em equipe para melhor alinhá-lo com os gestão de performance na configuração organi-
objetivos corporativos, com a suposição de que, zacional, bem como no desempenho das pes-
uma vez que esses estão alinhados, o desempe- soas que a compõem. A utilização de métodos,
nho corporativo será melhorado. Sendo assim, modelos, processos ou sistemas voltados ao
uma das principais propriedades da gestão de gerenciamento da performance organizacional

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 127

impacta diretamente na eficiência das opera- cionados com base no escopo deste estudo. A
ções, procurando garantir a qualidade dos pro- pesquisa se dividiu em etapas nas quais foram
dutos desenvolvidos e dos serviços prestados e apresentados e analisados diversos fatores em
o estabelecimento eficaz no mercado em que a relação aos documentos obtidos. A estruturação
organização atua. Devido a isso, analisar o pa- da análise em etapas se baseou nos preceitos do
norama das pesquisas voltadas à proposição e à trabalho realizado por Maia, Sergio e Alves Fi-
utilização dos métodos, aos modelos, aos pro- lho (2015). A sequência das etapas é a seguin-
cessos ou aos sistemas sugeridos pelos estudos te: etapa 1: consulta a fonte de dados; etapa 2:
justifica o uso dos referidos termos na pesquisa aplicação de filtros; etapa 3: análise descritiva
bibliométrica desenvolvida. e temporal dos documentos selecionados; etapa
4: análise descritiva de autores e instituições;
3 METODOLOGIA etapa 5: análise de periódicos e áreas; etapa 6:
análise de palavras-chave e termos e etapa 7:
Objetivando classificar a pesquisa, uti- análise e conclusão dos resultados.
lizaram-se os parâmetros de classificação ex- A pesquisa bibliométrica realizada foi
postos por Gil (2002). Quanto a área do co- desenvolvida a partir de documentos identi-
nhecimento, o estudo se enquadra nas Ciências ficados na base de dados denominada Web of
Sociais Aplicadas, especificamente na subárea Science. De acordo com a Universidade do
da Administração. Referente a sua finalidade, Porto (2005), Web of Science é a designação
a pesquisa se caracteriza como do tipo básica comum dada a um conjunto de bases de dados
estratégica, voltada para a construção de co- conhecida como Science Citation Indexes e se
nhecimentos direcionados ao entendimento e caracteriza por ser uma ferramenta que permite
utilização diante de situações práticas. Pelos a pesquisa habitual por ocorrência de palavras
seus objetivos gerais, a pesquisa se classifica no registro, a pesquisa de artigos relacionados e
como exploratória, pois sua realização objeti- o estabelecimento de ligações entre artigos que
vou proporcionar maior familiaridade com a citam outros ou são citados por outros.
temática de estudo, a fim de tornar seu entendi- Para a coleta dos dados, foram identifica-
mento mais explícito. Em relação aos métodos dos artigos a partir de buscas de palavras-chave
empregados, é definida como uma pesquisa bi- previamente definidas de acordo com o escopo
bliográfica, pelo fato de ter sido desenvolvida a do estudo. As palavras-chave foram pinçadas
partir da análise de materiais já elaborados por em duas línguas: no Português e no Inglês. Du-
outros autores. rante a busca na Web of Science, para os termos
Classifica-se, também, quanto à sua com mais de uma palavra, utilizou-se o uso de
abordagem, como uma pesquisa quantitativa. aspas, visando especificar o que foi pesquisado;
Essa classificação remete a utilização da aná- para buscar dois termos ao mesmo tempo, utili-
lise bibliométrica como método de estudo e zou-se o operador booleano “AND”.
tratamento dos dados. A análise bibliométri- No Português, buscou-se o termo “Ges-
ca é caracterizada como um método de análi- tão de Performance”, que, posteriormente, foi
se quantitativa para a pesquisa científica, por somado com as palavras “método, “modelo”,
meio da qual são elaborados dados estatísticos “processo” e “sistema”. No Inglês, buscou-se
(SOARES et al., 2016). Esse tipo de análise o termo “Performance Management”, o qual
visa construir indicadores em relação à produ- também foi somado com as palavras “method”,
ção científica de determinado assunto, a partir “model”, “process” e “system”.
da utilização de critérios para avaliar autores e Para tabulação e análise dos dados co-
áreas do conhecimento. letados, utilizou-se o aplicativo de planilhas
A análise bibliométrica realizada visou de cálculo Excel. Esse software permitiu a
identificar os trabalhos mais relevantes sele- construção de tabelas, quadros e gráficos que

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128 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

constam os dados sobre os artigos obtidos e 4.2 ETAPA 2: APLICAÇÃO DE FILTROS


as fases da pesquisa bibliométrica, bem como
facilitou a análise dos dados e a execução das Nesta etapa, realizou-se uma nova bus-
etapas desse tipo de pesquisa. Para a elaboração ca com as mesmas palavras-chave utilizadas
deste artigo, fez-se uso do software Mendeley, na etapa 1, porém, com a aplicação de filtros
em que foram compilados trabalhos utilizados disponíveis na Web of Science. O quadro 2 de-
como referências deste estudo. monstra os novos resultados obtidos.
Os filtros aplicados nesta etapa de busca
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES foram os seguintes:
a) terminológico – pesquisa por: título;
4.1 ETAPA 1: CONSULTA GERAL À b) cronológico – tempo estipulado: 2006
FONTE DE DADOS a 2016;
c) documental – tipo de documento: artigo;
Na consulta inicial à fonte de dados, pes- d) categórico – categorias da Web of
quisou-se o termo “Gestão de Performance”, Science: Management.
somado no operador booleano “AND” com as
palavras “método, “modelo”, “processo” e “sis- Quadro 2 – Aplicação de filtros na busca
tema” e o termo “Performance Management”, Busca Resultados
somado no operador booleano “AND” com as “Performance Management” 115
palavras “method”, “model”, “process” e “sys- “Performance Management” AND Method 1
“Performance Management” AND Model 7
tem”. Objetivou-se, nesse primeiro momento,
“Performance Management” AND Process 5
quantificar os resultados gerais encontrados, os
“Performance Management” AND System 24
quais se encontram apresentados no quadro 1.
Fonte: dados da pesquisa (2018).
Quadro 1 – Consulta à fonte de dados utilizando palavras-chave
Busca Resultados Busca Resultados
“Gestão de Performance” 0 “Performance Management” 4200
“Gestão de Performance” “Performance Management”
0 827
AND Método AND Method
“Gestão de Performance” “Performance Management”
0 1310
AND Modelo AND Model
“Gestão de Performance” “Performance Management”
0 1290
AND Processo AND Process
“Gestão de Performance” “Performance Management”
0 2210
AND Sistema AND System
Fonte: dados da pesquisa (2018).
Percebe-se que, na língua portuguesa, Observa-se que, após a aplicação dos filtros,
não foram encontrados artigos, de forma que a a quantidade dos resultados diminuiu. Dessa quan-
totalidade da busca se concentrou em publica- tidade, para prosseguir a análise bibliométrica, fo-
ções na língua inglesa. Por meio dessa caracte- ram considerados somente as publicações obtidas
rística, depreendeu-se que trabalhos realizados pelas buscas que utilizaram o operador booleano
em Português foram traduzidos e publicados “AND”. Isso porque se supõe que os artigos que
em outros idiomas, a exemplo do Inglês. utilizam esse operador encontram-se incorporados
ao termo geral de busca, isto é, performance ma-
nagement. Esse fator também se deve pelo fato de

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 129

que esta pesquisa objetiva analisar o panorama das 4.3 ETAPA 3: ANÁLISE DESCRITIVA
publicações sobre métodos, modelos, processos e E TEMPORAL
sistemas de gestão de performance.
Essa exclusão do termo geral, em que se Com base na busca realizada, essa etapa
considerou somente os termos que foram somados, apresenta uma análise descritiva e temporal dos
caracteriza-se como solapamento dos resultados. A 35 artigos selecionados, na qual são expostos
partir do solapamento, obtiveram-se 37 artigos. os resultados em relação à quantidade de publi-
Com a realização de uma análise parcial do conteú- cações por ano e referências de outros autores
do desses trabalhos, notou-se que dois desses eram a esses artigos. O gráfico 1 demonstra o ano de
repetidos. Portanto, na seleção final, restaram 35 publicação dos artigos, visando ilustrar a pro-
artigos para serem analisados nas etapas seguintes. dução de pesquisa no período de tempo consi-
derado na busca, isto é, de 2006 a 2016.
Gráfico 1 – Quantidade de publicações por ano
7

6 6
6

5
5
Número de publicações

4
4

3 3
3

2 2 2
2

1 1
1

0
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
Anos

Fonte: dados da pesquisa (2018).

Nota-se que os anos com a maior quan- mentando no decorrer dos anos.
tidade de publicações são 2009 e 2013, em que Acrescentado a isso, a partir da ferramen-
foram publicados seis artigos em cada um dos ta denominada como Rede de Citações, elemen-
anos. Além disso, é possível considerar que a to que permite a visualização de quantas vezes,
quantidade de publicações sobre o assunto au- onde e por quem determinado documento foi ci-
mentou a partir de 2013, se for comparado com tado, disponível no portal da Web of Science, ob-
períodos anteriores. Visualiza-se uma média de teve-se a quantidade de citações para os artigos
4,5 publicações por ano de 2013 em diante, o da pesquisa ao longo de cada ano considerado. O
que não se visualiza nos anos anteriores, em gráfico 2 apresenta essa relação entre a quantida-
que a média se aproxima de 2,4 publicações por de de citações aos artigos por ano.
ano. Essa realidade possibilita a compreensão
de que o estudo sobre essa temática vem au-

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019
130 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

Gráfico 2 – Número de citação aos artigos da pesquisa por ano

Fonte: dados da pesquisa (2018).


Observa-se que a maior quantidade de cita- infere que a quantidade de publicações referentes
ções aos artigos ocorreu em 2016, com 69 citações. a assuntos que tangenciam o tema de estudo está
Nota-se que, nos últimos cinco anos, a média de aumentando.
citações por ano é de, aproximadamente, 39, en- A fim de acrescentar informações a esses
quanto nos períodos anteriores essa média se apro- dados, o quadro 3 relata a quantidade de cita-
xima de seis citações a cada ano. O gráfico também ções para cada um dos 10 artigos mais citados
demonstra que houve um crescimento no número por outros autores, apresentando informações
de citações para os artigos ao longo dos anos, o que sobre eles.
Quadro 3 – Publicações com maior número de citação à amostra
Nº de
Ran-
cita- Autores Título Publicação
king
ções
Management Accounting Research.
Jane Broadbenta; Performance management
1 39 Vol. 20, N. 1, P. 283–295, DOI:
Richard Laughlin systems: A conceptual model
10.1016/[Link].2009.07.004
Obstacles to supply chain International Journal of
integration of the performance Operations & Production
Helena Forslund;
2 31 management process in buyer- Management. Vol. 29,
Patrik Jonsson
supplier dyads: The buyers’ N. 1, P. 79-95, DOI:
perspective 10.1108/01443570910925370
Cristiano Managing the tensions in Management Accounting
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Robert W. Scapens management systems mar.2008.02.001
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5 12 A. Srinivasa Rao
empirical study in Indian V. 18, N. 10, P. 1812-1840, DOI:
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 131

Karen Becker; Implementing an Employee Nonprofit Management &


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7 10 management process of on-time
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delivery with suppliers
10.1080/13675561003712799
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Angelo Denisi; Annals. V. 8, N. 1, P. 127-179,
8 9 Firm-Level Performance: A
Caitlin E. Smith DOI: [Link]
Review, a Proposed Model, and
9416520.2014.873178
New Directions for Future Research
The transfer of HRM policies and The International Journal of
practices to a transitional business Human Resource Management.
Anne Voa; Pauline
9 9 system: the case of performance V. 22, N. 17, P. 3513-3527, DOI:
Stanton
management practices in the US and [Link]
Japanese MNEs operating in Vietnam 192.2011.560876
The relationship between the level International Journal of
André de Waal; of completeness of a strategic Operations & Production
10 9 Karima Kourtit; performance management system Management. V. 29, N.
Peter Nijkamp and perceived advantages and 12, P. 1242-1265, DOI:
disadvantagens 10.1108/01443570911005983
Fonte: dados da pesquisa (2018).
O gráfico 3 expõe a representação do citações; 2014 - 17 citações; 2013 - 19 citações;
quadro 3, desdobrando a quantidade de citações 2012 - 23 citações; 2011 - nove citações; 2010
por ano. Assim, pode-se visualizar que 2016 foi - 17 citações; e 2009 - duas citações. Esses re-
o ano de maior número de citações para os ar- sultados demonstram que, entre 2010 e 2015,
tigos, totalizando 45 citações, enquanto, entre houve certo equilíbrio entre a quantidade de au-
2006 e 2008, esse resultado encontra-se zera- tores que trataram desse assunto ao citarem os
do. Em relação ao total de citações nos demais artigos, enquanto 2009 e 2016 são os anos que
anos, têm-se os seguintes resultados: 2015 - 28 apresentaram características particulares.
Gráfico 3 – Número de citação aos artigos da pesquisa por ano
10 Jane Broadbenta; Richard
Laughlin
Helena Forslund; Patrik
Jonsson
8
Cristiano Buscoa; Elena
Giovannonid; Robert W.
Scapens
Ronan McIvor; Paul
Humphreys; Alan
Quantidade de citações

6 McKittrick; Tony Wall


A. Srinivasa Rao

Karen Becker; Nicholas


Antuar; Cherie Everett
4
Helena Forslunda; Patrik
Jonsson
Angelo Denisi; Caitlin E.
Smith
2
Anne Voa; Pauline Stanton

André de Waal; Karima


0
Kourtit; Peter Nijkamp
2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
Anos

Fonte: dados da pesquisa (2018).


ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019
132 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

Nesta etapa, buscou-se realizar um levan- cações oriundas de uma mesma universidade.
tamento da análise descritiva e temporal dos 35 As únicas universidades que publicaram dois
artigos selecionados, isto é, tratou-se da descri-
artigos são Chalmers (Suécia), Vlerick Leuven
ção desses artigos e de aspectos relacionados aosGent Management (Bélgica), University Colle-
anos em que eles foram publicados e citados. En- ge Ghent (Bélgica) e Maastricht School Mana-
tre os principais resultados, têm-se a explanaçãogement (Países Baixos), enquanto os demais ar-
dos anos em que mais houve publicações, entre tigos são provenientes de outras 27 instituições.
o período de estudo definido e dos artigos que A tabela 1 demonstra os principais países
mais foram citados por outros autores. onde 35 artigos foram mais publicados. A situ-
ação representada, nessa tabela, estabelece que
4.4 ETAPA 4: ANÁLISE DESCRITIVA existe uma distribuição de conhecimento nesta
DE AUTORES E INSTITUIÇÕES área de pesquisa, posto que não há uma con-
centração elevada de trabalhos em um só país.
Esta etapa apresenta uma análise descri-
tiva dos principais autores e instituições dos Tabela 1 – Países em que os artigos mais foram
35 artigos selecionados. Descrevem-se dados publicados
sobre os autores que mais publicaram sobre o Países Número de Trabalhos %
assunto em questão, sobre as principais univer- Estados Unidos 4 11
sidades das quais os artigos são originados e, Inglaterra 4 11
também, os principais países em que esses arti- Bélgica 4 11
gos foram publicados. Índia 3 9
Em relação aos principais autores, obser- Itália 2 6
vou-se que não existe um autor que se destaca
República Checa 2 6
na quantidade de publicações, mas pode-se
estabelecer que existe um grupo de autores que Suécia 2 6
mais publicaram nessa amostra de trabalhos. Austrália 2 6
Helena Forslund e Patrik Jonsson realizaram Holanda 2 6
dois trabalhos juntos, uma vez que cada um Outros 10 28
elaborou dois trabalhos, demonstrando uma Fonte: dados da pesquisa (2018).
porcentagem de 2,86% para a representação
de cada um dos autores entre o total. Koen Nesta etapa, buscou-se apresentar uma
Dewettinck publicou dois artigos sozinho, o análise dos principais autores dos 35 artigos
que representa 5,71% do total de artigos. Ade- em estudo, bem como as principais instituições
lien Decramer, Carine Smolders, Alex Vanders- das quais os artigos são provenientes e os prin-
traeten e André de Waal publicaram um artigo cipais países em que foram publicados. A par-
juntos, porém os três primeiros publicaram um tir desses resultados, percebeu-se que não há
segundo artigo juntos, enquanto o último pu- uma concentração de informações em nenhum
blicou um segundo artigo separado. Logo, cada desses aspectos em análise.
um desses últimos quatro publicaram dois arti-
gos, contudo, tem-se Adelien Decramer, Carine 4.5 ETAPA 5: ANÁLISE DE PERIÓDI-
Smolders e Alex Vanderstraeten possuem uma COS E ÁREAS
representação de 1,9% do total e André de Waal
uma representação de 2,86% do total. Nesta etapa, relatam-se os principais pe-
No que se refere às universidades em que riódicos em que os artigos foram publicados, os
os artigos foram elaborados, observou-se uma quais são apresentados na tabela 2. Visualiza-se
distribuição entre as instituições, de modo que que o periódico que mais publicou artigos foi o
não foram percebidas concentrações de publi- International Journal of Human Resource Ma-

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Juliana Duarte Ferreira, Adriano Wagner 133

nagement, em que foram publicados seis tra- da gestão de performance. Os demais artigos
balhos do total de 35. Essa revista enfoca suas apresentam uma distribuição de publicação
publicações nas tendências futuras da gestão de quase igualitária em outros periódicos.
recursos humanos, uma das áreas de aplicação
Tabela 2 – Principais periódicos que publicaram os artigos
Periódico Número de Trabalhos %
International Journal of Human Resource Management 6 17
International Journal of Operations & Production Management 3 8
Management Accouting Research 2 6
Systemic Practice and Action Research 2 6
Outros 22 63
Fonte: dados da pesquisa (2018).
Analisou-se, também, o fator de impacto Revistas de Distinção), publicam pesquisas
na área de estudo desses periódicos, por meio da originais e melhor executadas, têm alta taxa de
utilização do Guia ABS (Association Business submissão e baixas taxas de aceitação.
Schools). O Guia ABS reflete as percepções e Tendo em vista esses parâmetros, foram
os julgamentos editoriais e de especialistas, bem analisadas as classificações no Guia ABS dos qua-
como informações estatísticas, quanto à avaliação tro principais periódicos que publicaram os artigos
das publicações e a posição relativa dos periódi- deste estudo bibliométrico. O International Jour-
cos em cada área temática publicada, classifican- nal of Human Resource Management está enqua-
do-os em quatro categorias: 1, 2, 3 e 4 (ASSOCI- drado na categoria ABS 3, e o Systemic Practice
ATION BUSINESS SCHOOLS, 2015). and Action Research encontra-se na categoria ABS
Na categoria 1, estão classificadas as 2, o que expõe que essas revistas publicam pesqui-
revistas que publicam pesquisas de padrão re- sas originais e bem consideradas em suas áreas.
conhecido, mas modesto em seu campo, con- Para os periódicos International Journal of Ope-
sideradas, relativamente, leves nas convenções rations & Production Management e Management
aceitas. Os periódicos enquadrados na catego- Accouting Research não existem classificações
ria 2 publicam pesquisas originais de um pa- nos rankings, uma vez que pertencem a áreas mais
drão aceitável e são revistas respeitadas em abrangentes à gestão organizacional.
suas áreas. A categoria 3 engloba periódicos Outra análise realizada, nesta etapa,
que publicam pesquisas originais, bem execu- refere-se aos principais editores dos artigos,
tadas e altamente consideradas, têm boas taxas apresentados na tabela 3. A partir dessa tabela,
de envio e são muito seletivos no que publicam. percebe-se que Routledge Journals e Emerald
Os periódicos classificados como 4, incluídos Group Publishing Limited concentram mais da
ou não na categoria Journal of Distinction (4*, metade dos trabalhos encontrados na busca.
Tabela 3 – Principais editores que publicaram os artigos
Editores Número de Trabalhos %
Routledge Journals 9 26
Emerald Group Publishing Limited 9 26
Wiley-Blackwell 3 8
Elsevier Science BV 3 8
Springer/Plenum Publishers 2 6
Outros 9 26
Fonte: dados da pesquisa (2018).

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134 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

Esta etapa também apresenta a distribui- de assunto compartilhado por todas as bases de
ção dos artigos por categorias e áreas da Web dados de produtos da Web of Science.
of Science. Todos os periódicos e livros cober- O quadro 4 demonstra as categorias das
tos pela Principal Coleção da Web of Science quais os artigos fazem parte. Ressalta-se que
são atribuídos a, pelo menos, uma categoria de todos os artigos se enquadram na categoria
assunto, de forma que todas as categorias são Management, posto que esse foi um dos filtros
associadas a uma área de pesquisa. As áreas de aplicados na etapa 2 da seleção dos documen-
pesquisa formam um esquema de categorização tos, e alguns em outras categorias além desta.
Quadro 4 – Distribuição dos artigos por categoria da Web of Science
Categorias da Web of Science Número de Trabalhos
Management 35
Management; Business 3
Management; Industrial Relations & Labor 3
Management; Business, Finance 2
Management; Public Administration 2
Management; Multidisciplinary Sciences 1
Management; Economics 1
Management; Operations Research & Management Science 1
Management; Hospitality, Leisure, Sport & Tourism 1
Fonte: dados da pesquisa (2018).

O quadro 5 expõe as áreas das quais os cados na área Business & Economics e alguns
artigos fazem parte. Do mesmo modo que no também participam de outras áreas além desta.
aspecto da categoria, todos os artigos são alo-
Quadro 5 – Distribuição dos artigos por áreas da Web of Science
Áreas da Web Of Science Número de Trabalhos
Business & Economics 35
Business & Economics; Social Sciences - Other Topics 2
Business & Economics; Public Administration 2
Business & Economics; Operations Research & Management Science 1
Business & Economics; Science & Technology - Other Topics 1
Fonte: dados da pesquisa (2018).

Nesta etapa, apresentou-se um compilado 4.6 ANÁLISE DE PALAVRAS-CHA-


dos principais periódicos, editores, categorias e VE E TERMOS
áreas das quais os artigos são provenientes. Foi
verificado que diferentes periódicos e editores Esta etapa da pesquisa bibliométrica faz
publicaram sobre o assunto em estudo, uma vez uma análise da frequência de ocorrência das
que os artigos foram originados em diversas uni- principais palavras-chave encontradas nos ar-
versidades, bem como publicados em vários paí- tigos. Foram compiladas todas as palavras-cha-
ses, como exposto na etapa anterior. Sendo assim, ve expostas nos estudos e selecionadas as mais
perceberam-se baixos índices de concentração na citadas. O gráfico 4 revela as palavras-chave
grande maioria dos fatores considerados. mais utilizadas nos artigos em estudo.

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Gráfico 4 – Frequência das palavras-chave


20
18
18

16

14

12

10

8
6
6 5
4
4
2 2 2 2 2 2 2 2 2
2

Fonte: dados da pesquisa (2018).


Observa-se, no gráfico, uma potencial nou que, entre 2009 e 2013, houve uma maior
participação do termo performance manage- quantidade de publicações por ano sobre o as-
ment como a principal palavra-chave encontra- sunto gestão de performance. Do mesmo modo,
da, sendo esse um resultado já esperado, uma notou-se um acréscimo, ao longo dos anos, no
vez que o estudo se baseia na análise desse número de citações de outros autores para es-
termo e seus aspectos. Nota-se que excluindo ses artigos da busca. Tais informações induzem
esse termo principal, os demais se dividem em a ideia de que estudos sobre este assunto vêm
várias outras categorias, ressaltando-se que, no aumentando ao passar do tempo, fomentando a
gráfico, apenas foram apresentadas as palavras- produção científica nesta área.
-chave que se repetem entre os artigos. Diante do estudo realizado na etapa 4,
em relação a autores, a universidades e a paí-
4.7 ANÁLISE DOS RESULTADOS ses, foi possível perceber que o estudo sobre o
assunto gestão de performance não se encontra
Observando-se os resultados da etapa 1 concentrado em um determinado grupo de es-
e da etapa 2 da análise bibliométrica, notou-se tudiosos. Notou-se que são vários os pesquisa-
que a quantidade de artigos encontrados teve dores que publicam sobre esse tema, bem como
uma grande queda entre a busca geral e a busca as publicações são provenientes de diferentes
em que se utilizaram filtros. Isso porque o ob- universidades e países, mostrando relativa dis-
jetivo da utilização dos filtros é refinar a busca, tribuição do tema pelo mundo científico.
tornando-a mais específica em relação ao as- Por meio da etapa 5 desta análise biblio-
sunto que se estuda. Além disso, considerando métrica, percebeu-se uma distribuição de publi-
os primeiros resultados obtidos na busca, a pes- cações quase igualitária em diferentes periódi-
quisa foi finalizada com uma pequena quanti- cos, sendo que apenas um periódico concentra
dade de artigos, isto é, 35 artigos para serem uma maior quantidade de publicações, isto é,
utilizados na análise bibliométrica. seis do total de 35. Por outro lado, em relação
Na etapa 3 desta análise, o estudo reali- aos editores, notou-se uma concentração no
zado em função dos anos considerados determi- número de trabalhos em dois editores, os quais

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136 ARTIGOS | Análise bibliométrica do panorama de publicações sobre métodos, modelos, processos e sistemas de gestão da performance organizacional.

somam 18 trabalhos do total de 35. Ainda nes- interessante sobre a aplicação da gestão de
ta etapa, constatou-se que todos os artigos da performance em estudos na área das Ciências
busca se incluem na categoria Management Sociais Aplicadas, de modo que o problema da
da Web of Science, do mesmo modo que se in- pesquisa foi respondido. Isso porque foi pos-
cluem na área de Business & Economics desta sível concluir que se compreendeu, de forma
base de dados. quantitativa, qual o panorama das publicações
Por fim, na etapa 6, na qual foi realiza- sobre métodos, modelos, processos e sistemas
do um estudo sobre a frequência das palavras- de gerenciamento de performance, no período
-chave constadas nos 35 artigos, foi obtida uma compreendido entre 2006 a 2016.
maior incidência do termo performance mana- De modo semelhante, destaca-se que o
gement. Contudo, mostrou-se uma vasta dis- objetivo proposto neste estudo foi alcançado.
tribuição de diversas palavras-chave entre os Reconhece-se isso pelo fato de que foi con-
artigos, uma vez que o estudo sobre gestão de cluída uma análise abrangente dos aspectos
performance abrange diferentes questões. quantitativos que compõem os artigos analisa-
dos, bem como uma análise completa do que
5 CONCLUSÕES eles relatavam, a partir de uma leitura integral
dos documentos. Com isso, foram percebidos
Esta pesquisa teve como objetivo realizar métodos, modelos, processos e sistemas, de-
um estudo sobre o tema gestão de performance, senvolvidos pelos autores em estudo, em que a
por meio do método de análise bibliométrica, a gestão de performance é aplicada.
partir de publicações coletadas na base de dados Por fim, considera-se fundamental a re-
Web of Science. Nesse sentido, a pesquisa visou alização deste trabalho, uma vez que fomenta
quantificar as publicações que permeiam esse dois vieses de estudo, ou seja, a pesquisa sobre
assunto, analisando diferentes aspectos referen- assuntos pertinentes à gestão de performance,
tes aos artigos selecionados. Com esse objetivo, aspecto organizacional fundamental para as no-
a análise bibliométrica realizada se dividiu em vas tendências da atualidade e a disseminação
etapas, de forma que cada uma delas abrangeu da técnica da análise bibliométrica. Esse tipo
questões específicas a serem quantificadas. de método de pesquisa fomenta a movimenta-
A partir do método de análise bibliomé- ção da atividade científica, apresentando “indi-
trica utilizado, foi possível avaliar, de forma cadores quantitativos como instrumento para
sistemática, a produção da atividade científica representação da utilidade e potencial da ciên-
voltada para a gestão de performance. Os resul- cia.” (MUGNAINI, 2006, p. 25) ao avaliar a
tados obtidos colaboraram para a representação própria ciência e a atividade científica realizada
das tendências atuais dessa temática, visto que pelos pesquisadores.
apresentaram os aspectos mais relevantes per- Sugere-se, para trabalhos futuros, a rea-
tinentes a essas publicações, como principais lização de uma análise com viés comparativo
autores, anos em que houve mais publicações, entre os estudos apresentados nesta análise bi-
principais periódicos que publicaram sobre o bliométrica. Para isso, pode ser realizada uma
assunto, entre outros. Diante disso, compreen- revisão sistemática dos conteúdos expostos, a
de-se que tais indicadores de produção cientí- partir da comparação entre suas metodologias,
fica possuem um papel importante nos estudos seus objetivos e seus principais resultados, en-
científicos, pois ao se conhecer o que já foi pu- tre outros aspectos pertinentes, para compreen-
blicado, pode-se identificar temas para pesqui- der pontos em comum, bem como diferenças
sas futuras, a fim de preencher lacunas existen- nas abordagens da gestão de performance.
tes no campo do conhecimento que se estuda.
Portanto, afirma-se que os resultados
desta pesquisa ofereceram uma quantificação

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 123-138, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez 139

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p139-148.2019

ARTIGOS

IMPLANTAÇÃO DE PLANO DE INCENTIVO ÀS


VENDAS EM UMA REDE DE DROGARIAS

INCENTIVE PLAN IMPLEMENTATION TO SALES


ON A RETAIL PHARMACY CHAIN

RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi determinar a variação das vendas de


medicamentos da classe de genéricos e similares em uma rede de
drogarias, em relação ao fornecimento de incentivo cultural aos
colaboradores. As lojas foram denominadas A, B, C e D. Aos fun-
cionários da loja A foram dados dois ingressos de cinema para
cada colaborador e foi pedido empenho nas vendas de medica-
mentos da classe genéricos e similares, mas sem uma meta. Aos
funcionários da loja B, foram prometidos dois ingressos para cada
Wagner Alexandre Gabriel colaborador caso houvesse aumento de vendas. As lojas D e C
wagnergabriel@[Link]
Mestre Profissional em Ciência
formaram o grupo-controle. Ao final, foi feita uma entrevista qua-
e Tecnologia em Saúde. litativa exploratória com o proprietário das lojas. Os resultados
Empresário. São Paulo - SP - BR. mostraram que a loja A teve aumento de vendas em relação ao
grupo-controle, mas a loja B não. O proprietário informou que
Luiz Teruo Kawamoto Júnior
existem vários outros fatores que influenciam as vendas.
luizteruo@[Link]
Doutor em Engenharia
Biomédica. Bolsista de Palavras-chave: Vendas. Benefício. Recursos Humanos.
Produtividade em Pesquisa
CNPq. Professor IFSP. São
ABSTRACT
Paulo - SP - BR.

Niube Ruggero The objective of this research was to determine if a system to im-
niube@[Link] prove the sale of drugs of the generic and similar class in a drugs-
Doutora em Letras. Diretora tore chain, providing cultural incentive to employees increases sa-
Acadêmica Braz Cubas. São
Paulo - SP - BR.
les. The stores were named A, B, C and D. Shop A employees were
given two movie tickets for each employee and an effort was made
Eduardo Seige Ianaguivara to sell generic and similar class drugs, but without a goal. To em-
eduardo_seige@[Link] ployees of store B, two tickets were promised to each employee in
Doutor em Engenharia
case of increased sales. Stores D and C formed the control group.
Biomédica. Professor
Universidade Brasil. São Paulo At the end, a qualitative exploratory interview with the owner of
- SP - BR. the stores was made. The results showed that store A had increased
sales relative to the control group, but store B did not. The owner
Wagner Marcelo Sanchez reported that there are several other factors that influence sales.
wagner@[Link]
Doutor em Engenharia
Biomédica. Diretor Acadêmico Keywords: Sales. Benefit. Human resources.
FIAP. São Paulo - SP - BR.

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 139-148, maio/ago. 2019
140 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias

1 INTRODUÇÃO fator relevante no insucesso relativo de alguns


programas de motivação.
Apesar dos esforços empreendidos, a Apesar da citação de que os benefícios
área da assistência farmacêutica básica de- podem melhorar o desempenho dos funcioná-
monstra lacunas gerenciais a serem enfrenta- rios, como também sua qualidade de vida, fica
das: estruturas físicas precárias, recursos hu- a dúvida se a concessão dos benefícios real-
manos pouco qualificados, inadequação da mente melhora a produtividade dos funcioná-
execução dos procedimentos técnico-geren- rios, e/ou qual benefício melhor contribui para
ciais e técnico-assistenciais e ações focadas na essa melhoria.
logística de medicamentos e insumos com au- O objetivo desta pesquisa foi determi-
sência na orientação aos usuários dos serviços nar a variação das vendas de medicamentos da
de saúde (RODRIGUES, 2016). classe de genéricos e similares em uma rede de
Algumas farmácias estão utilizando téc- drogarias, em relação ao fornecimento de in-
nicas de marketing de outros setores, porém centivo cultural aos colaboradores.
pesquisa de Van Lin e Gijsbrechts (2016) reve-
laram que os efeitos de promoções de vendas 2 MÉTODO
são muito maiores para o supermercado do que
as redes de farmácias, porque a acessibilidade A pesquisa se caracteriza como aplica-
à informação promocional de preços é muito da. Conforme Gil (2010), esse tipo de pesquisa
maior em supermercados uma vez que são vi- abrange estudos elaborados com a finalidade de
sitados com mais frequência do que drogarias. resolver problemas identificados no âmbito da
Além disso, pesquisa de Kotecki (2002) sociedade em que os pesquisadores vivem.
revelou que as recomendações de profissionais Segundo o Conselho Nacional de Desen-
da área farmacêutica foram, significativamente, volvimento Científico e Tecnológico (CNPq,
mais importantes para influenciar as decisões 2017), esta pesquisa se enquadra no grupo de
do que as forças sociais e de marketing. conhecimento das ciências sociais aplicadas,
Segundo Pak, Loskutova e Dorofeeva no campo da administração pública, especifica-
(2013), a dinâmica das mudanças no ambiente mente na área de administração de pessoal.
externo aumentou a concorrência no mercado Esta pesquisa teve enfoque qualitativo.
farmacêutico e levou a um aumento do papel Segundo Minayo (2016), a pesquisa qualitativa
da equipe de farmácia da organização, exigindo responde a questões particulares, ela se preocu-
uma redefinição de abordagens para a gestão de pa com os motivos, os significados, os valores
recursos humanos. e as atitudes.
Uma das formas de melhoria da gestão é A pesquisa foi experimental e correlacio-
o aumento de produtividade gerada por incenti- nal pelo fato de os pesquisadores conseguirem
vos aos funcionários. medir as variações, considerando como possí-
Os benefícios estimulam a produtividade veis os efeitos da ocorrência natural das vari-
e melhoram o relacionamento humano no tra- áveis. Não se considera uma investigação ex-
balho (CHIAVENATO, 2010). ploratória nem descritiva (VERGARA, 2009).
Alguns planos de compensação mais Não foi uma amostragem probabilística
conhecidos são salários, comissão, bônus, con- porque não se referiu a procedimentos que utili-
curso de vendas e muitos benefícios pessoais, zaram alguma forma de seleção aleatória de seus
que são os mais desejados atualmente pelos membros. As lojas participantes do incentivo fo-
funcionários (HILLMANN, 2013). ram definidas pelo proprietário da empresa.
Segundo Tamayo e Paschoal (2003), Fez-se um corte transversal, que, segundo
a desvinculação entre metas do trabalhador e Cooper e Schindler (2016), representam uma “fo-
estratégias de motivação laboral pode ser um tografia da situação de determinado momento.”

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AUTORES | Wagner Alexandre Gabriel, Luiz Teruo Kawamoto Júnior, Niube Ruggero, Eduardo Seige Ianaguivara, Wagner Marcelo Sanchez 141

Primeiro foi elaborada revisão bibliográ- tos genéricos e similares no período em estudo,
fica em livros, Periódicos CAPES, Scielo e em quando comparado com os resultados de ven-
artigos científicos. das do mês de dezembro de 2017.
O meio de estudo é uma rede de droga- Foi solicitado aos gerentes das lojas A e
rias, uma empresa da região do Alto Tietê – SP, B que fizessem uma reunião com toda equipe
com 21 anos no mercado, a qual se dispôs a de trabalho, explicando o incentivo cultural que
participar deste projeto 120 dias (período de estava sendo oferecido pela empresa e as regras
estudo). Nesse período, foi solicitada, e aceita do projeto. A equipe foi solicitar a não divulga-
pelo proprietário, a não realização de mudanças ção do benefício prometido para outras lojas.
no quadro de colaboradores nem quaisquer mo- Ao término da aplicação do projeto, reali-
dificações para não comprometer os resultados. zou-se uma reunião com o proprietário da rede de
A empresa possui, ao total, 45 colabora- drogarias, estabelecendo como seriam coletados
dores que atuam nos setores de caixa, atendi- os dados para análise e conclusão dos resultados.
mento e vendas. Cada loja possui dois farma- Com a informação de que o proprietário
cêuticos, no mínimo, ajudantes gerais, setores possui um sistema de informática integrado en-
de estoque e logística. Há quatro lojas, denomi- tre as lojas, obteve-se acesso à análise de rela-
nadas para esta pesquisa de A, B, C e D, sendo tórios mensais em que os dados apresentados
que as lojas C e D juntas constituíram o gru- ao pesquisador podem ser observados na tabela
po-controle deste estudo, devido à localização e gráfico nos resultados deste trabalho.
próxima uma da outra, o que poderia fazer que Depois do levantamento de todas as lo-
as informações da pesquisa fossem trocadas jas sobre as vendas da classe de medicamentos
entre os funcionários. Em um experimento, o genéricos e similares, compararam-se as ven-
grupo-controle é aquele que se submete à com- das de cada mês com o mês de referência. Essa
paração com outros para julgar resultados. Nele análise apresentava a variação mês a mês em
há indivíduos que não recebem qualquer trata- cada loja da rede. No mês de maio de 2018, o
mento especial, para que possam servir como pesquisador recebeu do proprietário da empre-
referência padrão às variáveis a que se submete sa todos os dados referentes às variações sobre
o grupo experimental. as vendas no período em estudo.
A pesquisa iniciou-se após a autorização Por fim, apresentou-se a comparação de
do proprietário para procedimentos na empre- resultados das vendas por meio de gráfico, ta-
sa, sendo solicitado sigilo sobre o faturamen- bela, discussões e conclusões.
to das lojas. Por isso apresentou-se apenas às
variações percentuais de vendas em todos os 3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
meses do estudo.
O plano de ação inicial deu-se no dia 3.1 PROGRAMAS DE INCENTIVOS
28/12/2017. O proprietário da empresa reali-
zou uma reunião com o gerente da loja A em A remuneração e os demais incentivos,
Guararema, SP, oferecendo dois ingressos de financeiros ou não, devem ser concedidos em
cinema para cada colaborador que demonstras- função daquilo que se deseja estimular nas pes-
se empenho nas vendas de medicamentos da soas. Ao montar seu plano de remuneração, a
classe genéricos e similares, mas sem colocar empresa deve perguntar ou saber o que deseja
meta. Então, os ingressos foram entregues sem alcançar com esse plano de ação e saber como
contrapartida em cada mês subsequente ao fe- vinculá-lo ao plano de recursos humanos. O
chamento das vendas. método de administração por objetivos tende
Na loja B, foram oferecidos dois ingres- a focalizar nos resultados de curto prazo, que
sos de cinema para cada colaborador em troca podem ser adaptados para estimular processos
do aumento de vendas mensais de medicamen- de longo prazo com resultados efetivos. Incen-

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142 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias

tivos anuais ou de curto prazo encorajam o uso de remuneração (GUIRRO; JARDINETTE;


eficiente dos ativos existentes, e os de longo GASPAROTTE, 2013).
prazo, o desenvolvimento de novos processos Os benefícios sociais constituem um im-
(LACOMBE, 2011). portante aspecto do pacote de remuneração. O
Os sistemas de incentivos individuais benefício é uma forma de remuneração indireta
escapam das armadilhas da avaliação de de- que visa oferecer aos colaboradores das empre-
sempenho, utilizando medidas objetivas como sas uma satisfação de suas necessidades pesso-
base de cálculo, por exemplo, comissões sobre ais. Os itens mais importantes são transporte
as vendas. Nesse caso, o desempenho é medi- do pessoal, alimentação, assistência médico-
do individualmente, e o aumento no pagamento -hospitalar, assistência odontológica, seguro de
não é adicionado à base salarial. Mesmo que o vida em grupo, planos de empréstimos pesso-
aumento desse plano de incentivos seja maior ais, serviço social, assistência jurídica, planos
do aquele do sistema de mérito, ele não muda de seguridade social ou de competência de apo-
a base da remuneração (MILKOVICH; BOU- sentadoria e, por fim, grêmio ou clube de recre-
DREAU, 2010). ação e divertimento (CHIAVENATO, 2015).
Em uma era de competitividade, a remu- Quando o empregado percebe que a em-
neração fixa tornou-se insuficiente para motivar presa possui critérios definidos para a remune-
e incentivar as pessoas, promover o comporta- ração de cada cargo, que possui uma política
mento proativo e empreendedor na busca de de salários e benefícios coerente com a reali-
metas e resultados excelentes. Algumas empre- dade do ambiente empresarial, geralmente re-
sas estão utilizando planos de incentivos para tribui com o comprometimento nas atividades
estreitar ou melhorar o relacionamento com que desenvolve, melhora a produção e torna a
seus colaboradores, e os principais são o plano empresa mais competitiva (GUIRRO; JARDI-
de bonificação anual, as distribuições de ações NETTE; GASPAROTTE, 2013).
da organização aos colaboradores, a opção de As principais etapas para a implantação
compra de ações da empresa, a participação dos do programa de cargos e salários em uma or-
resultados alcançados, a remuneração por com- ganização são planejamento e divulgação do
petência e a distribuição dos lucros aos colabo- plano, análise e avaliação de cargos, pesquisa
radores (CHIAVENATO, 2009). salarial, estrutura e política salarial (HENRI-
Remunerar é uma das principais funções QUE, 2017).
da organização; por essa razão, esta sempre Programa de benefícios integram vanta-
mereceu especial atenção dos acionistas, diri- gens como aumento da motivação e dedicação
gentes e administradores de empresas. Com o dos colaboradores, redução do absenteísmo,
passar do tempo, contudo, a remuneração ga- retenção de talentos, aumento da produtivida-
nhou maior relevância; levando a administra- de, qualificação dos trabalhadores, melhoria do
ção dessa área a adquirir um matiz todo espe- clima organizacional e da saúde dos colabora-
cial, à medida que se foi percebendo a grandeza dores, economia de recursos, conquista do pú-
dessa figura no contexto geral do trabalhador blico interno e externo por meio de programas
(MARRAS, 2013). de benefícios (CHIAVENATO, 2015).
Já há algum tempo, somente o salário Muitos benefícios deixam as pessoas
básico deixou de ser atrativo dos profissionais mais estimuladas e garantem um trabalho me-
que atuam no mercado, surgindo, assim, uma lhor e um aumento da segurança e da proteção
série de benefícios e incentivos que as empre- da família do colaborador. Muitos benefícios
sas acabam agregando ao pagamento de seus saem baratos para a empresa e deixam os fun-
colaboradores, a fim de complementar seus cionários felizes, há, atualmente, uma tendên-
rendimentos, transformando esse conjunto cia das empresas estudarem novos programas
de itens no que se costuma chamar de pacote que possam gerar estímulo para o crescimento

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e o avanço da força de trabalho (MEU MUN- Porém, Fante, Davis e Kempt (2013)
DO RH, 2017). fizeram uma pesquisa em uma farmácia, para
A concessão de benefícios exige mais investigar os efeitos do feedback gráfico e o es-
planejamento e organização da equipe de Re- tabelecimento de metas na conclusão da tarefa
cursos Humanos da empresa, pois, sem o devi- de fechamento do funcionário. Com isso, ve-
do acompanhamento, a empresa fica suscetível rificou-se que isso possibilitou a conclusão da
a riscos, e pode acontecer alguma contestação tarefa de fechamento de funcionários.
legal sobre a validade do pacote de benefícios
oferecido aos funcionários (MARRAS, 2013). 3.2 MOTIVAÇÃO
Em drogarias, há bonificações em di-
nheiro para vendas de medicamentos e cos- De acordo com Herzberg (2003), na Teo-
méticos que podem levar ao estímulo de um ria dos Dois Fatores, consideram-se os aspectos
processo chamado de “empurroterapia”, que é ligados à gestão como fatores higiênicos e fato-
uma prática irregular em que os funcionários de res motivacionais. Os primeiros são localizados
farmácias e drogarias forçam os consumidores no ambiente externo e envolvem os benefícios
a trocar os medicamentos prescritos, indicando que a organização propõe a seus empregados,
ou incentivando a compra de outros não solici- como a política e a administração da empresa, o
tados, que são vendidos sobre efeito de comis- status, a segurança, o relacionamento com cole-
são, ou seja, os similares. Isso é um ponto ne- gas e chefes, as condições de trabalho, a super-
gativo quando incluídos como benefícios para visão e o salário. De acordo com o autor, eles
colaboradores desse ramo de atividade profis- são considerados higiênicos por terem a função
sional (CANUTO, 2015). de prevenir; pois, quando não estão presentes e
Segundo Plagakis (2011), em algumas far- adequados, podem causar insatisfação. Contudo,
mácias, a única preocupação é vender o produto, o autor percebeu que essa troca não conduz à sa-
e um farmacêutico veterano fiel e confiável é ape- tisfação; porém, evita a não satisfação. Os fato-
nas uma forma e melhorar sua lucratividade. res motivacionais são os que trazem informação
Ainda de acordo com Canuto (2015), sobre o conteúdo do trabalho. Esses fatores são
mudar esse tipo de conduta no Brasil não é tare- responsáveis pela permanência de satisfação e
fa fácil, pois muitas drogarias estimulam metas da alta produtividade. Envolve sentimentos de
de vendas sobre esses produtos similares com o realização, crescimento e reconhecimento pro-
pagamento de altas comissões, e, para que essa fissional, manifestados por meio do exercício
realidade seja alterada, é necessário que pro- das tarefas e atividades que oferecem um sufi-
prietários dessas empresas tenham uma visão ciente desafio e significado para o trabalhador.
ampla do negócio e não visem lucro somente Motivação é a disposição de exercer um
em uma linha de produtos e, sim, em toda a nível elevado e constante de esforço em favor
gama de produtos existentes dentro desse âm- das metas da empresa, sob a condição de que o
bito empresarial. esforço é capaz de satisfazer alguma necessida-
Segundo Tamayo e Paschoal (2003), o de individual. O elemento esforço é uma medi-
conhecimento do perfil motivacional do traba- da de intensidade. Uma pessoa motivada não
lhador possibilita o desenvolvimento de pro- desiste facilmente de algo ou alguma tarefa.
gramas diferenciados de motivação para aten- A persistência é seguir adiante ou perseverar.
der a metas de diversos grupos de funcionários. As pessoas que são persistentes sustentam seu
Porém, não é necessário desenvolver um pro- alto nível de esforço a despeito de barreiras e
grama específico para cada funcionário, mas dificuldades. Uma necessidade insatisfeita cria
que os programas motivacionais devam consi- tensão, que estimula impulsos dentro do indiví-
derar as especificidades de diferentes equipes e/ duo. Esses impulsos geram um comportamento
ou setores organizacionais. de busca para alcançar objetivos ou metas que,

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144 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias

se atingidas, resultarão na redução dessa tensão grantes, deficientes físicos, cidadãos idosos e
(ROBBINS, 2000). outros grupos diferentes não são as mesmas de
De acordo com Maslow (1954), em sua um homem americano branco com três depen-
Teoria da Hierarquia das Necessidades, exis- dentes. Se você vai maximizar a motivação de
tem cinco categorias de necessidades dentro de seus empregados, você tem que compreender
cada indivíduo. A primeira é fisiológica e cuida e responder a essa diversidade. Como? A pala-
de satisfazer o corpo em suas necessidades bá- vra-chave para guiá-lo deve ser a flexibilidade.
sicas. A segurança ocupa o segundo lugar, ten- Esteja pronto para planejar horários de traba-
do como finalidade proteger de danos físicos e lho, plano de compensação, benefícios, am-
emocionais. A terceira é social, mais ampla, bientes físicos de trabalho e coisas assim para
envolvendo as necessidades de afeto, aceita- refletir as necessidades variadas de seus empre-
ção, amizade e levando o indivíduo a se sentir gados (ROBBINS, 2005).
inserido no meio. A quarta está associada aos O alvo de seu esforço pode ser qualquer
fatores interno e externo de estima. A quinta pessoa, afinal, todos podem ser motivados, e
está relacionada com a autorrealização. Segun- você pode ser a pessoa a fazê-lo. O potencial
do a teoria de Maslow (1954), só depois de um para a motivação começa no interior da própria
nível ser satisfeito é que o outro se apresenta, pessoa. A automotivação é essencial; mas, em-
seguindo, assim, uma hierarquia. bora existam algumas implicações com a moti-
A psicologia da motivação é complexa e, vação das pessoas, será, provavelmente, mais
de fato, o que se desvendou com algum grau de bem tratada caso seja lidada separadamente,
certeza é muito pouco. Tendo isso em mente, em conjunto com outras técnicas de autodesen-
podem-se analisar algumas práticas positivas volvimento, como a assertividade (CLEGG;
desenvolvidas para estimular a motivação, que CUNHA, J.; CUNHA, M., 2002).
são a de reduzir a jornada de trabalho, aplicar A motivação intrínseca é caracterizada
remuneração de salários em espiral, pois ir à pela automotivação, ou seja, os responsáveis
busca do próximo aumento de salário é um de- pelas organizações precisam ter em mente
safio, inclusão de benefícios, treinamento em que ninguém motiva ninguém. Desse modo,
relações humanas, comunicação assertiva e bi- o que devem fazer é proporcionar condições
direcional, participação dos colaboradores no que satisfaçam ao mesmo tempo necessida-
trabalho junto aos gestores e aconselhamento des, objetivos e perspectivas das pessoas e da
aos funcionários (VROOM, 1997). organização, e, por intermédio das habilidades,
A motivação cobre grande variedade de e competências de ambas, alcançarão maior e
formas comportamentais, e a diversidade de melhor desenvolvimento (ARAUJO; GAR-
interesses percebida entre os indivíduos permi- CIA, 2009).
te aceitar, de forma razoavelmente clara, que Algumas práticas motivacionais resul-
as pessoas não fazem as mesmas coisas pelas tantes das teorias de motivação são encontrar
mesmas razões. É importante que se leve em recompensas individuais significativas, vincu-
consideração a existência das diferenças in- lar recompensas ao desempenho, remodelar o
dividuais e culturais entre as pessoas quando trabalho, fornecer avaliação crítica e esclarecer
se fala em motivação. Esse diferencial não só expectativas e objetivos. Todas as teorias de
pode afetar, significativamente, a interpretação conteúdo propõem que os indivíduos variam
de um desejo, mas também o entendimento da em termos daquilo que consideram fator moti-
maneira particular como as pessoas agem em vador. Isso significa que, ao adequar as recom-
busca de seus objetivos (BERGAMINI, 1997). pensas às necessidades e aos desejos de cada
Nem todos os colaboradores são motiva- indivíduo, as empresas podem criar uma vanta-
dos por dinheiro ou por um trabalho desafiador. gem competitiva em atrair e motivar funcioná-
As necessidades das mulheres, solteiros, imi- rios (HITT; MILLER; COLELLA, 2015).

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Infelizmente, em muitas empresas ou or- dos funcionários, mas o velho problema logo
ganizações, é muito comum encontrar um gran- aparece. Esforços para enriquecer cargos, con-
de contingente de colaboradores que não nutrem cedendo aos colaboradores maior responsabili-
a menor motivação por aquilo que desempenha dade apresentam resultados encorajadores, que
em suas atividades no trabalho. Porém, esses desaparecem quando os funcionários tentam
funcionários não experimentam nenhuma satis- influenciar a política da empresa e são ignora-
fação ou realização pessoal gerada por aquilo dos pela gerência (VROOM, 1997).
que fazem em seu trabalho. O emprego, nesse Uma coisa que pode causar estranheza
caso, passa a ser entendido como uma forma quando se começa a avaliar que tipo de fatores
de angariar recursos para que possam sentir-se realmente motiva e quais deles apenas supri-
felizes fora dele. Dessa forma, o trabalho deixa mem a desmotivação é o fato de que a maioria
de exercer o papel como referencial de autoes- das formas que as empresas utilizam para pre-
tima e valorização pessoal, passando a ser fonte miar sua equipe não tem caráter motivacional
de sofrimento (BERGAMINI, 1997). (CLEGG; CUNHA, J.; CUNHA, M., 2002).
As empresas são reorganizadas, repeti-
damente, a conselho de consultores gerenciais, 4 RESULTADOS
mas com poucos benefícios em longo prazo.
Dispositivos gerenciais, como a semana de Os resultados de aumento das vendas de
trabalho de quatro dias e a transformação de medicamentos genéricos e similares estão mos-
funcionários horistas em assalariados, são alar- trados na tabela 1 e gráfico 1.
deados por seu efeito na motivação e na moral
Tabela 1 - Percentual de aumento de vendas de medicamentos genéricos e similares em uma rede de
drogarias, entre os meses de janeiro a abril de 2018, em relação a dezembro de 2017

Lojas Janeiro Fevereiro Março Abril


A (ingressos para cinema sem meta) 8% -1% 29% 29%
B (ingressos para cinema caso aumentassem as vendas) -3% -16% -2% -2%
C e D (grupo controle) 0% -9% 6% 20%
Fonte: elaborado pelos autores.

Gráfico 1 - Percentual de aumento de vendas de medicamentos genéricos e similares em uma rede de


drogarias entre os meses de janeiro a abril de 2018, em relação a dezembro de 2017
35%
30%
25%
20%
15%
10%
5%
0%
-5% Janeiro Fevereiro Março Abril
-10%
-15%
-20%

A (ingressos para cinema sem meta)


B (ingressos para inema caso aumentassem as vendas)
C e D (grupo controle)

Fonte: elaborado pelos autores.

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146 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias

Ao término da pesquisa, realizou-se uma en- planejar horários de trabalho, plano de com-
trevista entre o pesquisador e o proprietário da em- pensação e benefícios, e analisar se realmente
presa em que foram obtidas algumas informações. aquilo que está sendo oferecido como incenti-
O proprietário ressaltou que, por sua ex- vo será realmente relevante para um grupo de
periência, na loja A, ao receber qualquer incen- colaboradores. O resultado desta pesquisa mos-
tivo sobre as vendas, os colaboradores alcan- trou que o incentivo cultural foi relevante para
çam todas as metas propostas. Um dos fatores a equipe da loja A e não para a loja B.
de êxito seria que essa loja está localizada em Segundo Araújo e Garcia (2009), a mo-
uma região em que não há concorrência, e isso tivação intrínseca é caracterizada pela automo-
facilita as vendas dos medicamentos estudados tivação. Ninguém motiva ninguém a melhorar
nesta pesquisa. o desempenho e a relação com os funcionários;
Por sua vez, observou-se que a loja B sofreu é necessário atender ao mesmo tempo suas ne-
mais concorrência e cotações de preços na classe cessidades básicas, objetivos e perspectivas
de produtos definidos na pesquisa, fator que, mui- que são relações humanas, trabalhistas e gestão
tas vezes, impediu o aumento das vendas. de pessoas. O estudo de incentivo à cultura não
As lojas C e D, grupo-controle, cresce- se preocupou com esses fatores, e o insucesso
ram nas vendas nos meses de março e abril, de- da loja B pode ser decorrente da falta de algu-
vido à estação do ano (outono), aumentando-as, ma necessidade comum aos colaboradores.
sobretudo pelo fato de serem localizadas próxi- De acordo com Bergamini (1997), as pes-
mo a um pronto-socorro. soas podem comportar-se a estímulo vindo do
De maneira geral, no mês de fevereiro de meio ambiente, com informações que guardam
2018, foi verificada a diminuição das vendas, em seu consciente ou por impulsos desconheci-
por causa de efeitos climáticos (tempo chuvo- dos, e esses três fatores dão origem ao comporta-
so). Assim, ao ser comparado o faturamento de mento humano. Com base nisso, é justo concluir
fevereiro de 2018 com dezembro de 2017, ob- que, com o passar do tempo, a motivação huma-
servou-se uma queda dos resultados esperados. na adquiriu diferentes interpretações, o que tor-
na difícil entender o que cada colaborador deseja
5 DISCUSSÕES como benefício nas empresas.
Apesar do sucesso na loja A, deve-se
De acordo com Maslow (1954), existe ter cuidado com o problema citado por Canuto
uma hierarquia de necessidades a ser atendida, (2015): ao dar benefício por aumento de vendas,
talvez alguma necessidade anterior à diversão não pode-se estar incentivando os funcionários a em-
tenha sido atendida aos colaboradores da rede de purrar produtos desnecessários aos clientes.
drogarias, analisando os resultados da loja B. Segundo Tamayo e Paschoal (2003),
Segundo Herzberg (2003), fatores higi- deve-se conhecer o perfil motivacional do tra-
ênicos envolvem os benefícios que a organiza- balhador antes de desenvolver programas de
ção propõe a seus empregados, e fatores moti- benefícios. Nesta pesquisa, não foi feita, pre-
vacionais são os que trazem informação sobre o viamente, uma pesquisa sobre quais benefícios
conteúdo do trabalho; porém, quando não estão os funcionários gostariam de receber. Pode ser
presentes ou adequados, podem causar insatis- que alguns não se interessaram pelos ingressos
fação na equipe de trabalho. Algum fator higiê- de cinema; e se os benefícios fossem outros, os
nico ou motivacional ausente pode ter influen- resultados também poderiam ser outros.
ciado no resultado da pesquisa sobre incentivo
cultural na loja B. 6 CONCLUSÕES
De acordo com Robbins (2005), nem to-
dos os colaboradores são motivados por dinhei- Este estudo apresentou dados sobre pro-
ro ou trabalho desafiador. Uma empresa deve gramas de incentivos, benefícios para colabo-

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radores, motivação, estudos similares de incen- CHIAVENATO, Idalberto. Remuneração,


tivos culturais, bem como mostrou, na prática, benefícios e relações de trabalho. 7. ed. São
um procedimento para análise e obtenção de Paulo: Elsevier, 2015.
resultados sobre vendas de medicamentos em
uma rede de drogarias. CLEGG, S. R.; CUNHA, J. V. da; CUNHA, M.
Sob a perspectiva da revisão bibliográfi- P. Management Paradoxes: a Relational View.
ca, diante do problema levantado, notou-se que Human Relations, v. 55, n. 5, p. 483-503,
um mesmo benefício pôde, na mesma empre- 2002.
sa, influenciar equipes de trabalho de maneiras
diferentes, como se percebeu nas lojas A e B CONSELHO NACIONAL DE DESENVOL-
deste estudo. VIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO
Por meio desta pesquisa, conclui-se que (CNPQ). Acesso à informação. Dados abertos.
a implantação de incentivo às vendas de me- Homepage da instituição. Disponível em:
dicamentos a classe de genéricos e similares [Link] Acesso em: 25
aos colaboradores de uma rede de drogarias set. 2017.
influenciou no aumento das vendas na loja A.
Com relação à loja B, observou-se que a meta COOPER, Donald R.; SCHINDLER, Pamela
de aumento nas vendas de medicamentos não S. Métodos de Pesquisa em Administração.
foi alcançada quando comparada ao grupo- 12. ed. Porto Alegre: AMGH Editora, 2016.
-controle. O estudo de caso realizado comprova
parte da literatura da área de incentivos e moti- FANTE, R.; DAVIS, O. L.; KEMPT, V. Im-
vação do funcionário. proving Closing Task Completion in a Drug-
Para futuras pesquisas, pode-se estudar a store. Journal of Organizational Behavior
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148 ARTIGOS | Implantação de plano de incentivo às vendas em uma rede de drogarias

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AUTORES | Rosângela Andrade Pessoa, Letícia Sousa Fialho, Zaíla Maria de Oliveira, Célio Gomes de Lima Júnior 149

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p149-162.2019

ARTIGOS

COMPORTAMENTO DE COMPRA DO
CONSUMIDOR EM MERCADOS DE MODA
INFORMAL

BEHAVIOR OF CONSUMER PURCHASE IN


INFORMAL FASHION MARKETS

RESUMO

Este estudo tem por objetivo analisar os fatores que influenciam o


comportamento de compra do consumidor de mercados de moda
informal. Adotou-se a metodologia quantitativa, com a utilização
de um questionário estruturado, tendo ele sido dividido em um
bloco com seis perguntas sobre o perfil sociodemográfico e ou-
tro com 11 perguntas acerca do comportamento do consumidor e
as variáveis influenciadoras no processo de compra, aplicado de
forma presencial, sendo a abordagem direcionada aos consumi-
dores que apresentassem algum produto de compra. A pesquisa
Rosângela Andrade Pessoa de campo foi realizada no Centro Fashion da cidade de Fortaleza,
rosangelapessoa@[Link] somando um total de 320 questionários válidos. O processo de
Doutoranda e mestra em análise constou das fases: levantamento das estatísticas descriti-
Administração de Empresas
vas iniciais, verificação da confiabilidade e validade das escalas,
- Universidade de Fortaleza
(Unifor). Fortaleza - CE - BR. usando a consistência interna (Alpha de Cronbach), e por fim, foi
conduzida uma Análise Fatorial Exploratória (AFE) para reduzir
Letícia Sousa Fialho o número de variáveis. Os resultados alcançados mostram que a
leticiafialho25@[Link] maioria das variáveis trabalhadas influencia a escolha do consu-
Doutoranda e mestra em
Administração de Empresas
midor. Algumas variáveis realçam, no entanto, a importância que
- Universidade de Fortaleza é dada ao fator econômico e ao poder de compra (fator preço),
(Unifor). Fortaleza - CE - BR. tornando evidente que o modelo do centro de moda informal re-
presenta a opção de o consumidor ter a oportunidade de compra
Zaíla Maria de Oliveira
além das necessidades básicas.
zailaoliveira@[Link]
Mestre em Marketing. Doutoranda
no curso de Doutoramento em Palavras-chave: Comportamento do Consumidor. Consumo de
Ciências Empresariais pela Moda. Decisão de Compra. Teoria do Comportamento Planejado
Faculdade de Economia da – TCP.
Universidade do Porto - Portugal.

Célio Gomes de Lima Júnior ABSTRACT


celiogomesdelima@[Link]
Mestre em Administração pela This study aims to analyze the factors that influence the consu-
Universidade de Fortaleza
(Unifor). Professor do Centro
mer buying behavior in informal fashion markets. It was adop-
Universitário Católica de Quixadá ted a quantitative methodology, using a structured questionnaire,
– Unicatólica. Quixadá - CE - BR. was divided into a block with 6 questions about the sociodemo-

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 149-162, maio/ago. 2019
150 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal

graphic profile and another one with 11 ques- O crescimento observado no setor deve-se, em
tions about consumer behavior and variables parte, à ampliação do número de indústrias de
influencing the purchase process, applied in a confecções de vestuário, à extensão dos espaços
way the approach aimed at the consumers who de comercialização, à expansão da produção e
presented some product of purchase. The field à geração de trabalho e de rendimentos para a
research was conducted at the Fashion Cen- população periférica (ALVES et al., 2009).
ter of the city of Fortaleza, totaling 320 valid Nos dias atuais, o consumo apresenta
questionnaires. The analysis process consisted novas configurações provocadas pela instabi-
of the following phases: survey of the initial lidade dos comportamentos dos consumidores
descriptive statistics, verification of the reliabi- e a economia do país. Dessa forma, faz-se ne-
lity and validity of the scales using the internal cessário compreender o panorama peculiar da
consistency (Cronbach’s alpha), and finally, an sociedade moderna, com relação ao comporta-
Exploratory Factor Analysis (EFA) was con- mento de compra do consumidor em mercados
ducted to reduce the number of variables. The de moda popular brasileira.
results show that most of the variables worked O mercado da moda está em constante
influence consumer choice. Some variables evolução, e a força que a moda tem conquis-
emphasize, however, the importance given to tado no decorrer dos últimos anos no Brasil
the economic factor and purchasing power (pri- vem representando um elemento importante de
ce factor), making it clear that the model of the identidade individual e expressão social. Em
informal fashion center represents the option of um contexto social e cultural, essa força confi-
the consumer to have the opportunity to pur- gura-se por meio de mudança nas escolhas de
chase beyond basic needs. um grupo de indivíduos. Esses grupos aderem
ou não ao que a moda propõe de acordo com
Keywords: Consumer Behavior. Fashion Con- o poder aquisitivo real de cada ser humano.
sumption. Buying decision. Theory of Planned Como fator cultural, a moda reflete o status de
Behavior - TPB. uma pessoa em relação à outra; portanto, alte-
ra a identidade mundial e a identidade pessoal
1 INTRODUÇÃO dentro da sociedade de consumo.
A moda é responsável por segmentar a
O comportamento humano tem sido mo- sociedade em grupos de aceitação da transfor-
tivo de estudos, tanto práticos quanto teóricos, mação gerada por ela. O setor da moda am-
objetivando um entendimento das ações reali- pliou o mundo dos negócios, o aumento da
zadas pelos indivíduos em situações específi- oferta de produtos e serviços, a concorrência
cas. Observa-se que, com as necessidades bá- acirrada entre as empresas, as mudanças eco-
sicas satisfeitas, como segurança, alimentação nômicas e o aumento do poder de compra das
e higiene, os indivíduos procuram atender as classes B, C, D e E. Acontecimentos diversos
necessidades de status e autorrealização. Nesse desencadearam mudanças no comportamento
contexto, os produtos pertencentes ao segmen- dos consumidores e, consequentemente, no po-
to do luxo atendem aos anseios e às necessida- sicionamento de algumas empresas mais aten-
des de realização pessoal. tas ao mercado.
Contudo, no segmento dos centros de Diante da complexidade da relação entre
vestuário popular no Brasil, as investigações o mercado de moda popular brasileira e o com-
realizadas têm vindo a demonstrar grandes mo- portamento do consumidor de classe média, a
vimentações econômicas em várias regiões do Teoria do Comportamento Planejado (TCP)
País. Na região Nordeste, os estados que têm baseia-se no pressuposto de que os indivíduos
apresentado maior destaque são Pernambuco e tomam suas decisões de forma eminentemente
Ceará (BRAGA; ABREU; OLIVEIRA, 2015). racional e utilizam, sistematicamente, as infor-

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AUTORES | Rosângela Andrade Pessoa, Letícia Sousa Fialho, Zaíla Maria de Oliveira, Célio Gomes de Lima Júnior 151

mações que estão disponíveis, considerando as ou serviço ocorre por meio de um processo de
implicações de suas ações antes de decidirem tomada de decisão pela qual o consumidor opta
se devem ou não se comportar de determina- por adquirir ou não um produto ou serviço, le-
da forma. Assim, a TCP proposta por Ajzen e vando em consideração as diversas variáveis
Fishbein (1975) pode contribuir para entendi- e percepções. O processo de compra inicia-se
mento dessa relação. quando o consumidor sente a necessidade da
A perspectiva desta pesquisa é encontrar aquisição de algo, e esse processo possui etapas
respostas para o questionamento: quais as variá- por que o consumidor passará antes, durante e
veis que influenciam o comportamento de com- pós-compra de algum bem ou serviço.
pra de pessoas de classe média em mercados de O processo de compra é dado em etapas:
moda informal? Para tal, o objetivo principal é a etapa do julgamento é caracterizada pela in-
analisar os fatores que influenciam o comporta- fluência de representações sociais que valori-
mento de compra do consumidor de mercados zam ou não a intenção da compra e as expecta-
de moda informal. E, como objetivos específi- tivas a que a ela se refere; a etapa da compra é
cos, (i) descrever o perfil do consumidor (a) de definida como um jogo de negociação no qual
moda informal do Centro Fashion em Fortaleza algumas variáveis, como o tempo disponível e
(ii), avaliando os motivos que levam o consu- o conhecimento das partes envolvidas, moldam
midor a comprar em centros de moda informal. a dinâmica da negociação; a etapa do uso é o
Abordando a influência do comporta- momento em que a adequada operação do pro-
mento de compra de pessoas de classe média duto leva aos resultados esperados; por fim, na
em mercados de moda informal, o presente es- etapa de avaliação pós-compra, o consumidor
tudo pretende preencher essa lacuna, analisan- conclui se suas expectativas foram satisfeitas,
do consumidores de um centro comercial popu- em uma comparação entre o que se esperava e
lar. O propósito é que o resultado da pesquisa o que foi obtido (GIGLIO, 2005).
fornecerá informações para os gestores do seg- Essas etapas certificam que, até o mo-
mento, contribuindo, dessa forma, para o de- mento da compra, o consumidor passa por
senvolvimento de novas estratégias comerciais. outras etapas anteriores, ocorrendo, ainda, o
O Centro Fashion está situado em Forta- processo pós-compra. De posse dessa conclu-
leza (CE) e se configura como um dos maiores são, faz-se necessário saber alguns fatores que
centros atacadistas de moda popular do Norte e influenciam o processo de decisão de compra
Nordeste; possui 74 mil metros quadrados de área dos consumidores.
construída, com, aproximadamente, 5.500 mil Segundo Kotler e Keller (2012), o mo-
boxes, lojas e megalojas em que o foco é o comér- delo do processo de decisão de compra do
cio de peças no atacado, sem dispensar o varejo. consumidor desenvolve-se em três estágios:
pré-compra, estágio do consumo, estágio de
2 REVISÃO DA LITERATURA pós-compra, que, por conseguinte, dão ori-
gem a cinco etapas: reconhecimento do pro-
2.1 PROCESSO DE COMPRA DO blema, busca de informações, avaliação das
CONSUMIDOR alternativas, decisão de compra e comporta-
mento pós compra.
De acordo com Kotler e Keller (2012),
o processo de compra inicia-se quando o con-
sumidor sente a necessidade de ter algo, e esse
processo possui algumas etapas pelas quais o
consumidor passará antes, durante e depois da
compra de algum bem ou serviço.
A compra de um determinado produto

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152 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal

Figura 1 - Modelo das etapas do processo de decisão de compra

Fonte: Kotler e Keller (2012, p. 179).

2.1.1 Reconhecimento do problema rimentais (manuseio, exame e o próprio uso do


produto (KOTLER; KELLER, 2012)
Segundo Kotler e Keller (2012, p. 179), Segundo Kotler e Keller (2012, p. 180),
“o processo de compra começa quando o com- “a quantidade relativa e a influência dessas
prador reconhece um problema ou uma neces- fontes de informação variam de acordo com
sidade desencadeada por estímulos internos e a categoria de produtos e as características do
externos.” Os estímulos internos vêm das ne- comprador.” Com isso, o consumidor recebe a
cessidades da pessoa, tornando-se um impulso, maior parte das informações sobre um produto
e os estímulos externos são provocados pelo por meio de fontes informações comerciais.
ambiente. Daí a importância da identificação
das circunstâncias que determinam essas ne- 2.1.3 Avaliação das alternativas
cessidades pelas empresas. Conforme Kotler
e Keller (2012), os profissionais de marketing Com a avaliação de alternativas, o consu-
precisam identificar as circunstâncias que de- midor determina qual ou quais os produtos ele
sencadeiam determinada necessidade pela co- tem a intenção de comprar. Na visão de Kotler
leta de informações entre vários consumidores. e Keller (2012, p. 181), “não existe um processo
A identificação dessas circunstâncias pode de- único usado por todos os consumidores, nem por
senvolver estratégias de marketing que desper- um consumidor em todas as situações de com-
tem o interesse do consumidor. pra.” Os modelos mais atuais consideram que o
consumidor forma julgamentos, principalmente
2.1.2 Busca de informações em uma base racional e consciente. Na maio-
ria dos casos, ao avaliar alternativas de compra
Segundo Schiffman e Kanuk (2009, p. entre concorrentes distintos e produtos com ca-
383), “a busca da pré-compra começa quando racterísticas e benefícios diferentes, as pessoas
o consumidor percebe uma necessidade que refletem nessa avaliação suas crenças e atitudes.
pode ser atendida pela compra e pelo consumo As crenças e as atitudes são aprendi-
de um produto.” É comum ao consumidor inte- zados e experiências vividas ao longo da sua
ressado buscar maiores informações sobre pos- vida, que alguém as mantém a respeito de algu-
síveis produtos a serem comprados. Esse nível ma coisa, influenciando as decisões de compra.
de interesse se divide em duas diferentes formas: Em relação à atitude, os autores afirmam que
na primeira, o consumidor é mais receptível às correspondem às avaliações, aos sentimentos e
informações que chegam até ele e, na segunda, às tendências de ações duradouras, que podem
o próprio consumidor busca informações em di- ser favoráveis ou não a algum objeto ou ideia.
versas fontes. As fontes são as seguintes: pesso- Segundo Schiffman e Kanuk (2009, p.
ais (incluem família, amigos, vizinhos e outros 385), “fazer uma seleção a partir de uma amos-
conhecidos); comerciais (propaganda, vendedo- tra de marcas (ou modelos) possíveis é uma
res, representantes, embalagens e mostruários), característica humana que ajuda a simplificar o
públicas (meios de comunicação em massa, or- processo de tomada de decisão”, ou seja, o con-
ganizações de classificação de consumo); expe- sumidor escolhe, entre uma marca ou outra, as

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AUTORES | Rosângela Andrade Pessoa, Letícia Sousa Fialho, Zaíla Maria de Oliveira, Célio Gomes de Lima Júnior 153

que têm preferência e, a partir delas, determina Segundo Kotler e Keller (2012), essa sa-
os critérios para avaliar cada marca. tisfação do cliente deriva da proximidade entre
suas expectativas e o desempenho percebido do
2.1.4 Decisão de compra produto; se o produto não atende, plenamente, às
expectativas, o cliente fica desapontado. Na in-
Normalmente, os consumidores não ado- satisfação do consumidor em relação ao produ-
tam uma regra no momento da decisão de com- to, ele toma ações que correspondem ao resulta-
pra. Muitas vezes, são levados pela emoção; do que obteve. Um consumidor satisfeito voltará
porém, durante a avaliação, mesmo que o com- a comprar o produto e provavelmente o indicará
prador decida por determinada marca ou mode- para amigos e familiares como algo satisfatório.
lo, dois fatores podem interferir entre a intenção Já o cliente insatisfeito com o produto, além de
e a decisão de compra. Ao formar a intenção de procurar devolvê-lo, pode recorrer a ações públi-
compra, ele pode passar por cinco subdecisões: cas, redes sociais e advogados que representam,
decisão por marca, decisão por revendedor, de- atualmente, uma ameaça para as empresas por
cisão por quantidade, decisão por ocasião e de- sua rápida repercussão na sociedade.
cisão pela forma de pagamento. Logo, os consu- Compreender o consumidor não é tarefa
midores não adotam, necessariamente, um único fácil, pois não depende apenas das ações das
tipo de regra de escolha em suas decisões de empresas, mas do conhecimento sobre suas
compra (KOTLER; KELLER, 2012). motivações, das preferências, atitudes, classes

Figura 2 - Etapas entre a avaliação de alternativa e a decisão de compra

Fonte: Kotler e Keller (2012, p. 184).

2.1.5 Comportamento pós-compra sociais, dos grupos a que pertence, das neces-
sidades, dos comportamentos na decisão de
Depois da compra do produto, o consu- compra e de outros fatores que atuam sobre ele
midor o avalia por meio de suas expectativas. (SOLOMON, 2011).
Existem três possíveis resultados dessas ava-
liações: 1) o desempenho real atende às expec- 2.2 MODA E CONSUMO
tativas, levando a um sentimento neutro; 2) o
desempenho supera as expectativas, causando O consumo apresenta-se como um fenôme-
o que se conhece como a não confirmação po- no-chave para a compreensão da sociedade con-
sitiva das expectativas (que leva à satisfação) temporânea. Na vida social cotidiana, o consumidor
e 3) o desempenho fica abaixo das expectati- ganha visibilidade por meio de traços no espírito do
vas, causando a não confirmação negativa das tempo, como, moda, objetos, produtos, serviços, de-
expectativas e insatisfação (SCHIFFMAN; sign, marcas, grifes, shoppings, televisão, publicida-
KANUK, 2009, p. 393). de e comunicação de massa (ROCHA, 2005).

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154 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal

Na moda, o consumo acontece pela neces- da divisão de classes, ela ocupa, frequentemen-
sidade de o indivíduo se expressar e pela neces- te, as camadas consecutivas de classes sociais.
sidade de se sentir aceito dentro de grupo social. De acordo Simmel (1988, p. 101), quando as
Os consumidores compram de acordo com sua classes inferiores começam a imitar as classes
renda. Segundo Frings (2012, p. 44), “A quan- superiores e a se apropriar da sua moda, estas
tidade de dinheiro que os consumidores gastam últimas passam a declinar daquelas preferências
com moda e outras mercadorias depende de sua para adotarem outras novas. Contudo, ao mesmo
renda. Uma vez que a renda afeta o consumo, ela tempo, na modernidade, a impaciência e o vai-e-
é medida de três maneiras: renda pessoal, renda -vem fazem mudar a moda muito rapidamente
disponível e renda discricionária.” entre as camadas sociais, arriscando abolir seu
A renda pessoal é a renda bruta do con- próprio sentido por uma difusão geral.
sumidor; a renda disponível é a renda bruta
menos os impostos, e a renda discricionária é o 2.3 TEORIA DO COMPORTAMENTO
que resta depois de o consumidor ter pagado por PLANEJADO – TCP
suas necessidades básicas, como alimentação,
moradia e transporte. O que sobra o consumidor A teoria do Comportamento Planejado
pode gastar com outras necessidades ou desejos. (TCP), de forma geral, é o modelo social psico-
Geralmente, as pessoas que gostam de roupas lógico mais adequado para prever o comporta-
da moda são aquelas com poder aquisitivo alto mento humano (AJZEN; COTE, 2008), pois é
e vontade de comprar marcas de luxo. Segun- baseada em poucas variáveis explicativas (AJ-
do Gaultier (1992 apud FRINGS, 2012, p. 66), ZEN, 2002). A TCP baseia-se no pressuposto
“as vítimas da moda são as pessoas que seguem de que as pessoas fazem suas escolhas de forma
cega e estupidamente uma marca sem qualquer sensata, utilizando as informações disponíveis
discernimento e sem qualquer análise.” e considerando as implicações de suas ações
Os consumidores estão buscando a última antes de tomarem suas decisões. Vale enfatizar
moda, compram sem pensar em adaptá-las para que a TCP pode ser considerada um avanço da
si. É possível, também, analisar os motivadores Teoria da Ação Racionalizada, visto que esta
da compra do consumidor. Antigamente, a maio- última apresentava uma limitação no que tan-
ria das pessoas comprava roupas novas apenas ge ao tratamento de comportamentos sobre os
quando surgia a necessidade, para uma ocasião quais as pessoas tinham controle volicional in-
especial ou porque as roupas estariam velhas ou completo (AJZEN, 2002).
desgastadas. Em média, a pessoa, simplesmente, Segundo Hoppe et al. (2012), a TCP é
não tinha condições de comprar mais do que as estruturada em três pontos: (i) nas crenças com-
necessidades básicas. Atualmente, na sociedade portamentais; (ii) nas crenças normativas, e (iii)
ocidental, a renda discricionária é maior, e as nas crenças sobre o controle. As crenças com-
pessoas podem comprar roupas novas com fre- portamentais tratam de uma atitude favorável
quência (FRINGS, 2012, p. 70). ou desfavorável em relação ao comportamento.
Os fatores analisados pelo consumidor Já as crenças normativas referem-se às pres-
para comprar um produto de moda são ser atra- sões sociais, ou seja, as expectativas do com-
ente, estar na moda, impressionar os outros, ser portamento percebido sobre outros indivíduos
aceito por amigos, ser multiuso, ter conveniên- (amigos, familiares). Essas crenças normativas,
cia e ter um valor percebido razoável. Atual- combinadas com a motivação pessoal em obe-
mente, o desafio do profissional de moda está decer a diferentes regras, determinam a norma
na criação, nas tendências e na satisfação dos subjetiva que justifica a compra. Por último, as
desejos e expectativas do consumidor sobre um crenças sobre o controle se referem aos fatores
só produto, tornando-o comercial. que podem facilitar ou impedir o desempenho
Considerando que a moda é um produto do comportamento.

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Na Teoria do Comportamento Planejado, consumo feminino de moda no cenário brasi-


o controle comportamental percebido influen- leiro; testar as propriedades psicométricas e
cia a intenção e o comportamento de compra. a validade da mensuração do instrumento no
Assim, segundo Ajzen e Fishbein (1980), a mercado brasileiro; e, por fim, testar o modelo
importância coerente da atitude, da norma sub- escolhido, verificando seu poder de explicação
jetiva e do controle comportamental percebido dos antecedentes do comportamento da consu-
na predição da intenção sofre uma variedade midora de moda.
condizente com os diferentes comportamentos Por fim, vale afirmar que a TCP é, hoje,
e situações. Cada uma dessas crenças gera, res- o modelo dominante das relações atitude-com-
pectivamente, a atitude em relação ao compor- portamento, possibilitando a previsão acurada
tamento, à norma subjetiva e ao controle com- do comportamento das pessoas, a partir de um
portamental percebido (AJZEN, 2002; AJZEN; conjunto reduzido de variáveis antecedentes
COTE, 2008). A combinação desses três cons- – atitude relativa ao comportamento, à norma
trutos conduz a formação de uma intenção subjetiva e ao controle percebido do comporta-
comportamental, que, segundo o modelo, é o mento (ARMITAGE; CHRISTIAN, 2003).
influenciador direto do comportamento huma-
no. Desse modo, admite-se que o poder da ati- 3 METODOLOGIA
tude, conforme a norma subjetiva e o controle
percebido, é determinante da intenção do com- Visando alcançar o objetivo proposto,
portamento (AZJEN; COTE, 2008). A figura 3 foi realizada uma pesquisa exploratória. Desen-
mostra a proposta de Ajzen e Fishbein (1975). volveu-se uma pesquisa de caráter quantitativo,

Figura 3 - Teoria do Comportamento Planejado – TCP

Fonte: Ajzen e Fishbein (1975).

Um exemplo de pesquisa que utilizou a quanto à abordagem do problema e, descritivo,


teoria do comportamento planejado para ava- quanto a seus objetivos (MALHOTRA, 2012),
liar o comportamento do consumidor de moda visando identificar os fatores que influenciam
feminina foi o de Lima (2016). A pesquisa bus- no processo de compra dos consumidores no
cou identificar os antecedentes que explicam mercado de moda informal.
o comportamento do consumidor feminino O procedimento de amostragem não
de moda segundo a teoria escolhida; elaborar probabilística, por conveniência, foi utilizado
um modelo de questionário adequado à Teoria junto a consumidores (as) que realizam com-
do Comportamento Planejado, direcionado ao pras no Centro Fashion da cidade de Fortaleza,

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156 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal

somando um total de 320 questionários válidos. identificar os fatores representativos dos conjun-
Na amostragem por conveniência, segundo Ma- tos de variáveis, ou seja, dos construtos em es-
lhotra (2012), a seleção das unidades amostrais tudo. A utilização de softwares de pesquisas per-
é determinada principalmente pelo pesquisa- mite o aumento da qualidade do estudo devido
dor, buscando obter uma amostra de elementos ao uso de computadores, que facilita e melhora
convenientes ao desenvolvimento do propósito a demonstração dos resultados (FLICK, 2004).
do estudo, o que se demonstrou adequado, visto Para verificar a adequação da utilização
que o foco é a mensuração de comportamentos da AFE, foram realizados os testes de Kaiser-
de um grupo específico. -Meyer-Olkin (KMO) e de esfericidade de Bar-
O instrumento de coleta utilizado foi o lett. O teste de KMO permite verificar a ade-
questionário estruturado dividido em dois blocos: quação dos dados; os valores maiores que 0,6
sendo o primeiro, com 6 perguntas, para identifi- indicam análise fatorial satisfatória; os valores
car o perfil do entrevistado, e o segundo, compos- entre 0,7 e 0,8 são bons; os valores entre 0,8 e
to por 11 perguntas de múltipla escolha utilizando 0,9 são ótimos, e os valores acima de 0,9 são
a escala de likert de 5 pontos, sobre o comporta- excelentes (HUTCHESON; SOFRONIOU,
mento do consumidor e as variáveis influenciado- 1999). Já o teste de esfericidade de Barlett tes-
ras no processo de compra. Dessa forma, o instru- ta a inexistência de correlação perfeita entre as
mento de pesquisa enquadra-se como um survey variáveis (MALHOTRA, 2012). Em seguida,
do tipo corte transversal (FREITAS et al., 2000). realizou-se a análise das comunalidades que
Importante salientar que tal instrumento passou identifica a proporção da variância que uma
por uma fase de pré-teste com professores da área variável compartilha com todas as demais va-
e clientes do Centro Fashion. riáveis e, como regra, deve atingir valor supe-
A coleta de dados foi realizada no mês rior a 0,6 e análise da variância total explicada
de maio de 2018, de forma presencial, uma vez que representa o quanto as variáveis explicam o
que os autores optaram por abordar consumi- construto, esperando-se valores acima de 60%
dores (as) que apresentassem alguma evidência (HAIR JUNIOR et al., 2009).
de compra efetuada. Dessa forma, a verificação Após a definição dos fatores, verificou-
de questionários com data missing foi realizada -se a confiabilidade de coerência interna dos
no momento da aplicação da pesquisa. Depois construtos, por meio do coeficiente Alfa de
da coleta e a digitação dos questionários em Cronbach, que assume valores a partir de 0,7
uma planilha de dados, as seguintes etapas fo- como aceitáveis (HAIR JUNIOR et al., 2009).
ram adotadas durante as análises: levantamento
das estatísticas descritivas iniciais, verificação 4 RESULTADOS
da confiabilidade e validade das escalas usan-
do a consistência interna (alpha de Cronbach), O Centro de moda Informal em Fortale-
e, por fim, foi conduzida uma Análise Fatorial za recebe, em média, 4 mil pessoas por semana
Exploratória (AFE) para reduzir o número de vindas de todo o País, em especial, de estados
variáveis, agrupando-as em fatores representa- como Piauí, Pernambuco, Maranhão, Pará,
tivos das originais que foram usadas como in- Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ama-
sumo para as análises desta pesquisa. zonas, entre outros. Com um mix de produtos
Para as análises estatísticas, foram utili- que varia de moda feminina, moda masculina,
zados os softwares Statistical Package for the moda praia, calçados, moda infantil, moda ín-
Social Sciences® - SPSS 21.0. Inicialmente, tima e acessórios, funciona sempre das 6h da
realizaram-se, no SPSS, estatísticas descritivas manhã, nas quartas-feiras, ao meio-dia das
simples (cálculo da frequência e percentuais de quintas-feiras; 14h da tarde a 23h da noite da
respostas) para identificar o perfil dos respon- sexta; e 6h da manhã dos sábados ao meio-dia
dentes e a Análise Fatorial Exploratória, visando dos domingos.

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O empreendimento possui uma ampla segundo o levantamento realizado em maio


praça de alimentação com restaurantes e lan- de 2018, observou-se uma predominância de
chonetes, salão de beleza, estacionamento para respondentes do gênero feminino, com 78%.
carros, motos, bicicletas e 130 vagas exclusivas Quanto ao estado civil, a maioria dos respon-
para ônibus, hotel com 370 leitos, ambulatório, dentes eram solteiros (54%). A segunda maior
farmácia, caixas eletrônicos, banheiros, seguran- fatia foi a dos casados, que correspondeu a 39%
ça, circuito interno de TV, rádio e disponibiliza da amostra. Viúvos e divorciados somaram
carrinho de compras para os clientes. O objetivo apenas 7% de representatividade na amostra. A
é contribuir para o turismo de compra local. O maior parte dos respondentes não tinham filhos
empreendimento possui hospedagem própria, (53%). Em seguida veio a parcela de respon-
com 370 leitos, com o intuito de atender aos dentes que tinham apenas um filho (26%). Em
clientes do interior e de outros estados, que vêm termos de escolaridade, a maior parte dos res-
a Fortaleza comprar mercadorias para a revenda. pondentes indicou estar no ensino superior in-
O empreendimento conta, ainda, com completo, com 35%, seguido dos respondentes
pavimento completo de praça de alimentação, com ensino superior completo (25%). No que
salão de beleza, lotéricas, caixas eletrônicos, se refere à renda mensal familiar, 36% afirma-
lojas de aviamentos, lojas de tecidos, escritório ram possuir entre 1 e 3 salários-mínimos (de R$
virtual, espaço para desfiles, entre outros ser- 974,01 até R$ 2.922,00). Os respondentes com
viços. Outro diferencial é a disponibilidade de renda familiar entre 3 e 6 salários-mínimos (de
130 vagas exclusivas para ônibus, além de va- R$ 2.922,01 até R$ 5.844,00) ocuparam a se-
gas para carros, motos e bicicletas (CENTRO gunda posição de participação na amostra, as
FASHION, 2018). ocupações dos participantes da pesquisa tam-
No que tange ao perfil dos respondentes, bém são expostos abaixo na tabela 1.

Tabela 1 - Perfil dos respondentes do estudo


Variáveis Qtde. % Variáveis Qtde. %
Masculino 70 22% Estudante 64 20%
Gênero

Feminino 250 78% Professor 22 7%


Solteiro 173 54% Comerciante 17 5%
Estado Civil

Casado 124 39% Auxiliar administrativo 15 5%


Divorciado 20 6% Empresário 14 4%
Viúvo 3 1% Servidor público 13 4%
Ensino Fundamental 7 2% Vendedor 13 4%
Ocupação
Escolaridade

Ensino Médio 61 19% Esteticista 11 3%


Ensino Superior Incompleto 112 35% Administrador 10 3%
Ensino Superior Completo 79 25% Militar 9 3%
Pós-Graduação 61 19% Representante Comercial 7 2%
Até 1 salário-mínimo 34 11% Assistente Administrativo 7 2%
Renda Familiar

De 1 A 3 salários 115 36% Dona de casa 7 2%


De 3 A 6 salários 78 24% Pedagogo 6 2%
De 6 A 9 salários 46 14% Secretário 6 2%
De 9 A 12 salários 47 15% Outros 99 31%
Fonte: elaborado pelos autores (2019).

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158 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal

Conhecido o perfil dos respondentes, mento, a amostra de 320 respondentes utilizada


realizou-se a análise dos fatores representa- nesta pesquisa.
tivos dos conjuntos de variáveis, ou seja, dos Inicialmente, realizou-se uma análise
construtos em estudo, isto, por meio da AFE. preliminar das 11 perguntas que compuseram o
A confiabilidade da análise dos fatores depen- segundo bloco do questionário sobre o compor-
de, também, do tamanho da amostra (FIELD, tamento do consumidor e as variáveis influen-
2009). Tabachnick e Fidell (2007) concordam ciadoras no processo de compra. A tabela 2
que o ideal é ter, no mínimo, uma amostra de mostra a mediana das afirmações das perguntas
300 respondentes para cada análise fatorial. do segundo bloco do questionário.
Tais parâmetros validam, em um primeiro mo-
Tabela 2 - Frequências das ocupações dos respondentes
Variáveis Mediana
P1. Eu compro produtos no Centro Fashion porque meus familiares também compram. 3
P2. Eu compro produtos no Centro Fashion porque minhas amigas também compram. 3
P3. Eu compro produtos no Centro Fashion porque meus colegas de trabalho também compram. 3
P4. Eu compro produtos no centro Fashion porque as pessoas que são importantes para mim
3
também compram.
P5. Eu compro produtos no Centro Fashion porque os preços são mais acessíveis. 5
P6. Eu compro produtos no Centro Fashion porque considero uma vantagem a relação
5
preço/qualidade.
P7. Eu compro produtos no Centro Fashion por priorizar quantidade e não qualidade. 1
P8. Eu compro produtos no Centro Fashion por conseguir comprar mais peças que estão
4
dentro da moda e da tendência.
P9. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion por ser um local próximo à minha residência. 3
P10. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion pela comodidade do estacionamento? 3
P11. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion por a marca do produto não influenciar
4
a minha decisão de compra.
Fonte: elaborado pelos autores (2019).

Em seguida, realizou-se uma análise fa- comunalidade entre um grupo de variáveis é


torial exploratória pelo método de componen- um indício de que elas não estão linearmente
tes principais, com o intuito de determinar o correlacionadas e, por isso, não devem ser in-
número mínimo de fatores que respondam pela cluídas na análise fatorial (FIGUEIREDO FI-
máxima variância das opiniões coletadas para LHO; SILVA JÚNIOR, 2010). Neste estudo,
cada uma das onze diferentes afirmações apre- excluíram-se as variáveis: P7 (comunalidade=
sentadas no questionário da pesquisa. 0,249); P8 (comunalidade= 0,398) e P11 (co-
Na AFE, realizou-se a exclusão das va- munalidade= 0,343); em seguida, foi realizada,
riáveis não representativas, tomando como cri- novamente, a análise fatorial.
tério de exclusão a análise das comunalidades, A conveniência do modelo foi justificada
assumindo que valores menores que 0,5 são pelo teste de esfericidade de Bartlett que obte-
insatisfatórios para a análise fatorial e, portan- ve um valor da estatística qui-quadrado aproxi-
to, devem ser excluídos do modelo. Entre as 11 madamente em 796,825, com significância de
variáveis, 3 delas apresentaram comunalidade 0,000, rejeitando-se a hipótese nula de que não
abaixo desse patamar. As variáveis foram ex- há correlação entre as variáveis, e a medida de
cluídas, e a análise fatorial deve ser realizada adequação da amostra de Kaiser-Meyer-Olkin
novamente (SCHAWB, 2007), pois a baixa (KMO), cujo alto valor 0,761, indica que a téc-

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nica é apropriada para a análise dos dados (MA- cujos valores indicam as correlações entre as
LHOTRA, 2012; HAIR JUNIOR et al., 2009). afirmações apresentadas no questionário e os
A extração dos fatores rotacionados pelo fatores extraídos pela técnica de análise. Para
processo Varimax resultou na seleção de três fa- garantir a confiabilidade interna dos três cons-
tores principais, os quais, de acordo com o cri- tructos resultantes, extraiu-se o coeficiente alfa
tério da raiz latente, possuem, individualmente, de Cronbach (α) para cada um deles. Todos os
autovalores superiores a um. Em conjunto, os coeficientes calculados são adequados, uma
três fatores identificados correspondem a 71% vez que, sendo α > 0,700, segundo Hair Junior
da variância total dos dados coletados. et al. (2009) e Malhotra (2012), torna possível
A tabela 3, além das informações expos- a utilização da escala somada dos itens que
tas anteriormente, apresenta as cargas fatoriais compõem um fator.
Tabela 3 - Resultados da análise fatorial exploratória e confiabilidade interna dos fatores gerados
Teste de Esfericidade de Bartlett Qui-quadrado Medida de Adequação da amostra (KMO) =
aproximado = 796,825, significância = 0,00 0,761

Cargas
Fator Componentes Principais
Fatoriais
P1. Eu compro produtos no Centro Fashion porque meus familiares também compram. 0,845
P2. Eu compro produtos no Centro Fashion porque minhas amigas também compram. 0,840
P3. Eu compro produtos no Centro Fashion porque meus colegas de trabalho
Social 0,792
também compram.
P4. Eu compro produtos no centro Fashion porque as pessoas que são
0,850
importantes para mim também compram.
Percentual de variância total explicada = 39%
Alfa de Cronbach = 0,864

Cargas
Fator Componentes Principais
Fatoriais
P5. Eu compro produtos no Centro Fashion porque os preços são mais acessíveis. 0,885
Preço P6. Eu compro produtos no Centro Fashion porque considero uma vantagem a
0,881
relação preço/qualidade.
Percentual de variância total explicada = 17%
Alfa de Cronbach = 0,696

Cargas
Fator Componentes Principais
Fatoriais
P9. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion por ser um local próximo
0,852
Comodidade à minha residência.
P10. Eu prefiro comprar produtos no Centro Fashion pela comodidade do estacionamento. 0,71
Percentual de variância total explicada = 15%
Alfa de Cronbach = 0,413
Fonte: elaborado pelos autores (2019).

5 CONCLUSÕES composto por mulheres solteiras, com escola-


ridade no ensino superior incompleta, e renda
Os resultados deste estudo sugerem que, mensal familiar entre um e três salários-mí-
em termos de perfil, o consumidor de moda nimos. Em número menor, estão os indivíduos
informal do Centro Fashion, em Fortaleza, é casados, com ensino superior completo e rendi-

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160 ARTIGOS | Comportamento de compra do consumidor em mercados de moda informal

mento entre três e seis salários-mínimos. adotar, necessariamente, uma única regra de es-
Revisitando os objetivos de investiga- colha em suas decisões de compra (KOTLER;
ção, identificou-se que o comportamento de KELLER, 2012).
compra dos consumidores de mercados de A pesquisa traz a contribuição do empre-
moda informal é influenciado, de forma signifi- go da Teoria do Comportamento Planejado na
cativa, pelo fator preço, uma vez que as variá- área de moda informal no mercado da cidade
veis que apresentam as maiores médias são “eu de Fortaleza. Uma vez que os estudos do com-
compro produtos no Centro Fashion porque os portamento dos consumidores são, por regra,
preços são mais acessíveis” e “eu compro pro- sujeitos a alterações em função da amostragem
dutos no Centro Fashion porque considero uma e do período em que são realizados, os resulta-
vantagem a relação preço/qualidade”. Por outro dos obtidos apenas se aplicam no contexto das
lado, verificou-se que a comodidade representa características demográficas dessa amostra e
um fator de importância atribuída, sendo a vari- não podem ser generalizados.
ável relativa à proximidade com a residência e Contudo, este estudo fornece algumas
a facilidade de estacionamento como motivo de pistas aos gestores para reconhecer a importân-
escolha para o consumidor comprar em locais cia e o impacto potencial dos espaços de com-
como os centros de moda informal. pras no mercado da moda informal associado a
No que concerne ao fator social, para o uma adequada abordagem da oferta.
consumidor de moda informal, os familiares, Finalmente, será válido apresentar su-
amigos e pessoas com significativa importância gestões de investigação futura. Sugere-se, por-
têm efeito positivo, contribuindo, assim, com a tanto, replicar a investigação a uma amostra
atitude em face da escolha do local para realizar representativa do consumidor que realiza suas
suas compras. Para esse fator, a variável menos compras para revenda, aprofundando o estudo
relevante se refere à influência dos colegas de sobre os impactos que o Centro Fashion tem na
trabalho em sua escolha. economia informal.
Em síntese, os resultados alcançados
mostram que a maioria das variáveis aqui tra- REFERÊNCIAS
balhadas influencia, de alguma maneira, a esco-
lha do consumidor. Algumas variáveis realçam, AJZEN, Icek. Perceived Behavioural Control,
no entanto, a importância que é dada ao fator Self-Efficacy, Locus of Control and the Theory
econômico e ao poder de compra (fator preço), of Planned Behaviour. Journal of applied so-
tornando evidente que o modelo do centro de cial psychology, v. 32, p. 665-683, 2002.
moda informal representa a opção de o consu-
midor ter a oportunidade de gastar com neces- AJZEN, Icek; COTE, N. Gilbert. Attitudes and
sidades além das básicas, como alimentação e the prediction of behavior. In: CRANO, Wil-
saúde. liam D.; PRISLIN, Radmila (ed.). Attitudes
Vale ressaltar que as atitudes das pessoas and attitude change. New York: Psychology
são formadas pelas experiências de vida, e que Press, 2008. p. 289-311.
o respeito e a credibilidade que o consumidor
tem por alguém representa um fator de influên- AJZEN, Icek; FISHBEIN, Martin. Belief, atti-
cia em suas decisões de compra. Tal como foi tude, intention and behavior: an introduction
evidenciado na revisão da literatura, ao formar to theory and research. [S. l.: s. n.], 1975.
a intenção de compra, o consumidor pode pas-
sar por cinco subdecisões: decisão por marca, AJZEN, Icek; FISHBEIN, Martin. Under-
decisão por revendedor, decisão por quantida- standing attitudes and predicting social be-
de, decisão por ocasião e decisão pela forma haviour. [S. l.: s. n.], 1980.
de pagamento; não significa, porém, que irá

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CASOS DE ENSINO | Gustavo Clemente Valadares, Galo Andrés Suasnavas Lamboglia, Joel Yutaka Sugano, João Paulo Nascimento da Silva 163

doi:10.12662/2359-618xregea.v8i2.p163-173.2019

CASOS DE ENSINO

BIZCOOL: O CASO DE UMA ACELERADORA DE


IDEIAS

BIZCOOL: THE CASE OF AN ACCELERATOR OF


IDEAS

RESUMO

Esse Caso de Ensino visa estimular a discussão e tomada de de-


cisão acerca de Modelo de Negócios, notadamente, mediante o
entendimento do modelo da Bizcool, uma aceleradora de startups
inovadora, que utiliza a metodologia de compartilhamento do
conhecimento para ampliar e acelerar os negócios das empresas
clientes. Este estudo se configura como forma de um caso e apre-
senta os nove blocos do Canvas da empresa e, com isso, propõe
o radar de inovação da Bizcool, apresentando o alinhamento dos
cursos para desenvolvimento das ideias dos clientes e a criação de
laços entre empreendedores.

Palavras-chave: Canvas. Radar de Inovação. Aceleradora. Star-


tups. Modelo de Negócios.
Gustavo Clemente Valadares
[Link]@[Link] ABSTRACT
Doutorando em Administração
pela Universidade Federal de This Case study aims to stimulate the discussion and decision
Lavras. Lavras - MG - BR. making about Business Models, especially through the understan-
Galo Andrés Suasnavas Lamboglia
ding of the Bizcool model, an innovative startup accelerator that
galo.suasnavas89@[Link] uses a methodology of knowledge sharing to expand and accele-
Mestre em Administração. rate the clients’ businesses. This study is configured as a case and
Lavras - MG - BR. presents the nine blocks of the company’s Canvas, with which it
proposes the innovation radar of Bizcool, presenting the alignment
Joel Yutaka Sugano
[Link]@[Link] of courses for the development of customer ideas and a creation of
Doutorado em Doctoral ties between entrepreneurs.
Program in Japanese Economy
and Business. Mestrado em Keywords: Canvas. Innovation Radar. Accelerator. Startups. Bu-
Administração. Professor
da Universidade Federal de
siness Model.
Lavras. Lavras - MG - BR.
1 INTRODUÇÃO
João Paulo Nascimento da Silva
jpnsilvas@[Link]
Doutorando em Administração
Este estudo aborda o caso da empresa Bizcool, anterior-
pela Universidade Federal de mente conhecida como Ginga e fundada em 2015, que é uma ace-
Lavras. Lavras - MG - BR. leradora escola da empresa do Instituto Inovação (2002) e da Tro-

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 163-173, maio/ago. 2019
164 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias

posLab (2012), localizada em Belo Horizonte. -motivo relevantes e autoexplicativos. Kohler


A Bizcool é uma aceleradora que visa capacitar (2016) afirma que as startups estão na vanguarda
os empresas incubadas com uma metodologia das grandes inovações e substituindo tecnologias
própria, para desenvolvimento de negócios e modelos de negócio atualmente existentes no
dentro do próprio programa e realização capita- mercado. Assim, as startups são tidas como em-
ção de investimentos para sustentabilidade das preendimentos com capacidade de resolver al-
empresas aceleradas (BIZCOOL ACELERA- gum tipo de problema ou necessidade insatisfeita
DORA ONLINE, 2015), alcançando 35 pro- através de tecnologias e processos inovadores.
gramas de aceleração e mais de 530 empresas A diferença entre as incubadoras e as
aceleradas desde a fundação (TROPOSLAB aceleradoras está no fato de que as primeiras
ACELERADORA, 2018). dão suporte às empresas nascentes na fase ini-
As aceleradoras de empresas nascem com cial do ciclo de negócios e por períodos mais
o propósito de desenvolver o ecossistema local, longos (dois ou três anos), enquanto as acelera-
enxergando assim, uma oportunidade para trans- doras preparam as startups para o crescimento
formar sua experiência em algo útil que benefi- durante um período menor de tempo (até seis
ciasse um grande número de outras potenciais meses), fazendo investimento de risco (venture
empresas (RIBEIRO; PLONSKI, 2015). Segun- capital) para adquirir uma parte (5 a 15%) das
do Carneiro, Zilinksi e Costa (2017), os recentes ações da empresa (LIMEIRA, 2014).
programas de aceleração são oportunidades para Nesta busca por constituir um ambiente
unir grandes empresas e startups, de modo a inovativo, incubadoras e aceleradoras têm atra-
potencializar suas capacidades e qualidades de ído a atenção de empresas e investidores que
inovação para buscarem juntas satisfazer opor- reconhecem nas startups oportunidades para
tunidades existentes no mercado. inovar ou para realizar parcerias (CARNEI-
Os modelos de aceleradoras de startups RO; ZILINKSI; COSTA, 2017). Dessa forma,
surgem nos Estados Unidos, com as pioneiras este ambiente é fundamental para construção
Y Combinator (fundada em 2005) e Techstars do atual ecossistema de inovação das empresas
(fundada em 2006), pautadas em programas de inseridas, e que têm se transformado em im-
duração de 12 semanas em que compareciam portante ferramenta para a criação de empresas
investidores potenciais interessados no portfólio inovadoras intensivas em tecnologia e conheci-
das empresas aceleradoras. O objetivo das mes- mento (BRUNEEL et al., 2012).
mas é de é oferecer o suporte necessário para as Dessa forma, as aceleradoras de empresas
empresas desenvolverem seu modelo de negó- nascem com o propósito de desenvolver o ecos-
cios e alinharem-se com eficiência em seus de- sistema local, criados por empreendedores que
vidos mercados (RIBEIRO; PLONSKI, 2015). perceberam a dificuldade que a comunidade local
O desenvolvimento de startups no Brasil de empreendedores tinha para criar seus negó-
é um fenômeno recente, segundo a Associação cios e enxergaram, assim, uma oportunidade para
Brasileira de Startups (2017), em 2011 as star- transformar sua experiência em algo útil que be-
tups ainda eram novidade no Brasil. Alguns neficiasse um grande número de outras potenciais
marcos importantes só vieram a ser consolida- empresas (RIBEIRO; PLONSKI, 2015).
dos a partir do final da década de 90, como é Partindo da constituição do ecossistema
o caso da estruturação da indústria de venture inovativo a que as aceleradoras estão instaladas,
capital (investimento de risco) e a promulgação o conceito de compartilhamento do conheci-
da Lei de Inovação que permite o investimento mento deve ser definido, de modo que é o cerne
público em empreendimentos inovadores. da existência das incubadoras e aceleradoras. O
Segundo Kawasaki (1954), uma empresa compartilhamento do conhecimento é considera-
startup deve declarar de modo inequívoco a sua do por Jian e Wang (2012, p. 2) como o processo
razão de existência, além de buscar problemas- de “passagem do conhecimento pelos estágios

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de socialização, internalização, externalização e nanceiros, são descritas as Fontes de Receita


combinação sob os princípios e normas de coo- gerada pelo negócio, e a Estrutura de Custos
peração, a fim de alcançar a difusão do conhe- que envolve a manutenção da atividade da em-
cimento e a geração de novos conhecimentos.” presa, o que constitui uma estrutura de receitas e
A importância do compartilhamento do despesas através dos outros blocos.
conhecimento por parte das empresas nasce da O Radar de Inovação, ferramenta propos-
necessidade de inovação e de circulação de co- ta originalmente por Sawhney, Wolcott e Arro-
nhecimentos diversos, que, por sua vez, aumenta niz (2006) e adaptado por Bachmann (2009)
a capacidade produtiva da empresa, assim como para o contexto de micro e pequenas empresas,
reduz custos e a velocidade para a implementa- visa apontar em quais dimensões as empresas
ção de inovações (JIAN; WANG, 2012). de tem inovado , assim como suas dimensões
Assim, a Bizcool se mostrou muito inova- poucos exploradas, de forma a constituir uma
dora desde sua concepção até seus momentos atu- vantagem competitiva no mercado. Segundo
ais, trabalhando na geração de novos profissionais Sawhney, Wolcott e Arroniz (2006), a ferra-
imbuídos na criação e desenvolvimento de star- menta auxilia na realização de um autodiag-
tups. Assim, as empresas aceleradoras de startups nostico das inovações das empresas e também
contribuem para a criação e desenvolvimento da- na identificação de oportunidades de inovação.
quelas organizações em fase de expansão através Este estudo apresenta como contribuição
de estratégias de crescimento acelerado. os conceitos de uma empresa inovadora e as
Dessa forma, foi realizada uma entrevis- reflexões acerca de possíveis estratégias que a
ta in loco através de um questionário semiestru- empresa poderia implementar para desenvolver
turado, que continha um roteiro com perguntas seu modelo de negócio, em especial com o jeito
que permitiram a construção do quadro do Can- de difusão de seus serviços como também da
vas (OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010) e, necessidade do Brasil de investir na criação e
posteriormente, por meio da ferramenta Radar desenvolvimento de ideias inovadoras.
da Inovação, que auxilia na realização de um
diagnóstico geral das inovações nos negócios 2 A EMPRESA
e de oportunidades de inovação (SAWHNEY;
WOLCOTT; ARRONIZ, 2006) a identificação Com sede na cidade de Belo Horizonte/
dos epicentros de inovação da empresa. MG, a Bizcool, é uma empresa de aceleração
O quadro Canvas, segundo Osterwalder colaborativa, já tendo acelerado mais de 450
e Pigneus (2003), é a proposta de um mode- negócios nos últimos cinco anos. Sua ativi-
lo de negócios para criação de valor. Descrita dade principal consiste no desenvolvimento e
em blocos, o modelo Canvas apresenta o bloco troca de experiências entre novos empreende-
de Relacionamento com o Cliente, onde o autor dores, estudantes e pessoas ligadas à iniciativa
descreve os principais Segmentos de Clientes privada e que buscam uma nova alternativa de
atingidos pelo negócio, e os Canais de Comu- desenvolvimento. Estas pessoas participam de
nicação para construção de Relacionamento workshops, palestras e treinamentos onde po-
com Clientes. No bloco de Inovação do Produ- dem obter conhecimentos relacionados aos no-
to, o autor descreve a Proposta de Valor que vos modelos de negócios e as principais ferra-
motiva a constituição do negócio. No Bloco de mentas disponíveis no mercado para a criação,
Gerenciamento de Infraestrutura são descritas desenvolvimento e aceleração das chamadas
as Principais Atividades desempenhadas pela Startups.
empresa, os Principais Recursos necessários A empresa oferece um programa de edu-
para desempenho das atividades e os Principais cação intensiva, a qual foi desenvolvida a fim
Parceiros para desenvolvimento dos negócios. de compartilhar conhecimentos acerca do tema
No último bloco, relacionado ao Aspectos Fi- empreendedorismo. O modelo de negócios da

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empresa é sustentado pelo conceito de econo- para gerar ideias”, “Canvas da proposta de va-
mia colaborativa, o que torna a realização dos lor” até “mundo em 2050” dentre outras trilhas.
diversos eventos mais facilmente realizados. O
custo para a participação é relativamente bai- 3 O CANVAS
xo se comparado aos modelos disponíveis no
mercado, isso ocorre devido à rede de compar- Os dados colhidos durante a entrevista
tilhamento de conhecimentos entre alunos, em- foram cruciais para o desenvolvimento do mo-
preendedores, mentores e facilitadores. delo Canvas. A entrevista de forma presencial
A metodologia é bem simples: são cur- foi importante, pois proporcionou uma maior
sos rápidos e com viés prático, no qual os par- interação entre entrevistador e entrevistado, de
ticipantes obtém uma breve introdução teórica forma que, enquanto a entrevista se desenvol-
e são convidados a aplicar estes conhecimentos via, o modelo de negócios da empresa era cons-
adquiridos através de projetos que desenvolvi- truído dentro do Canvas de forma simultânea,
dos ao decorrer das aulas, o que permite uma o que contribuiu para uma maior fidedignida-
maior congruência entre o conhecimento teóri- de entre o modelo desenhado e a realidade da
co e o prático dos temas propostos. empresa. Segundo a opinião do empresário, a
A empresa já ofereceu mais de 60 cursos, Bizcool é uma empresa em fase de maturidade
mas hoje se concentra em 16 cursos divididos em que ainda são realizados testes em determi-
em 7 módulos diferentes: Financeiro, Gestão, nadas áreas do Canvas. Os tópicos a seguir vão
Inspiração, Marketing, Planejamento, Produto apresentar passo a passo cada uma das nove
e Vendas. O participante opta por um pacote dimensões do Canvas, conforme figura 1, e a
com certo número de cursos e os temas tra- forma com que a empresa conceitua cada uma
balhados vão desde “criando ideias com dife- delas dentro do seu modelo de negócios.
renciais”, passando por “como usar seu cliente

Figura 1- Canvas da empresa Bizcool

Fonte: adaptado de Osterwalder e Pigneur (2011, p. 138-139).

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3.1 SEGMENTO DE CLIENTES Com este formato de negócios, a Bizcool


propõe o ensino e democratização do conheci-
Os clientes da empresa podem ser seg- mento empreendedor dentro de um modelo de
mentados em 3 tipos: economia compartilhada, utilizando uma plata-
a) os Empreendedores iniciais, compos- forma de construção colaborativa do conheci-
to por empreendedores que já pos- mento, onde empreendedores participam com-
suem um negócio em mente ou em partilhando seus conhecimentos e experiências,
desenvolvimento, e que procuram tudo isso amparado pela presença de mentores
capacitação para desenvolver sua e facilitadores que juntos realizam a geração do
ideia; ou ainda por pessoas que tem conhecimento em cursos e workshops, com isso
o desejo de empreender, porém, não obtendo bons resultados em termos de geração
tem ideias em seu horizonte de curto de conhecimento, aliada a proposta da realiza-
prazo acerca do tipo de negócio; ção desta geração a um custo acessível a todos.
b) os Jovens Universitários, formado
por estudantes de ensino superior 3.3 RELACIONAMEN-
de instituições públicas ou privadas, TO COM CLIENTES
que buscam formação complemen-
tar à apresentada por suas escolas de Apesar de possuir pouco tempo de atua-
origem, entendendo que somente os ção no mercado, a empresa pratica boas ações
conceitos aprendidos em sala de aula para atração e retenção de clientes. Uma vez
não seriam suficientes e que a busca introduzido a uma rodada de cursos, o cliente
por uma aprendizagem mais prática; passa a fazer parte de uma rede de relaciona-
c) os Profissionais, alocados nas mais mentos gerada pela própria empresa, que busca
diversas organizações que se sentem sempre realizar a manutenção para que esta se
de certa forma “incomodados” com a mantenha como elo principal para o desenvol-
sua situação atual, seja por salários, vimento de novos conhecimentos. O intuito é
autonomia na execução de suas ativi- criar comunidades virtuais ou físicas, em que
dades, por conflito de valores, etc., ou os clientes possam discutir e aprimorar os as-
desempregados que em virtude de sua suntos aprendidos nos cursos oferecidos.
situação buscam como forma alterna- Outra via de relacionamento diz respei-
tiva o desenvolvimento de um novo to à manutenção do contato da Bizcool com
negócio e encontram na Bizcool uma as mais diversas startups onde, através desta
oportunidade de se desenvolver e se relação contínua, são gerados novos conheci-
recolocar no mercado. mentos de forma cíclica, o que permite novas
experiências em futuras rodadas de cursos.
3.2 PROPOSTA DE VALOR
3.4 CANAIS
A grande aposta do modelo de negócios
da empresa está em sua proposta de valor. A Para chegar ao público alvo, a Bizcool
empresa parte do pressuposto que existe um utiliza principalmente dos meios digitais, liga-
gap na formação de empreendedorismo inerte dos diretamente ao público pretendido, facil-
no modelo formal de educação do Brasil, uma mente metrificáveis e também de baixo custo.
vez que em função do despreparo de formação A estratégia de Permission Marketing com o
de nossos empreendedores, a empresa acaba envio de newsletter converge para um mailing
por desanimar frente aos desafios que são apre- de pessoas com interesses relacionados aos te-
sentados principalmente nos primeiros anos do mas de empreendedorismo e startups.
desenvolvimento do novo negócio. Outra forma utilizada para atrair novos

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168 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias

estudantes e parceiros, é a realização de palestras nham a necessidade de melhorar investimentos


que resumem de forma compacta todo o sistema em P&D ou ainda que queiram desenvolver ha-
educacional da Bizcool. Estas palestras geram bilidades empreendedoras em seu quadro exe-
uma nova fonte de receitas (apesar de não ser o cutivo podem participar como patrocinadores,
objetivo principal), e ainda criam novas relações o que gera maiores receitas para a Bizcool, que
de Networking e a geração de mais cadastros de em troca, pode fomentar melhores cursos for-
contatos a um baixo custo e efetivo resultado. madores e ainda gerar melhorias na imagem da
São utilizados ainda meios tradicionais empresa patrocinadora perante o mercado.
de comunicação como a afixação de cartazes em
universidades, com o intuito de atrair aquele pú- 3.6 ATIVIDADES PRINCIPAIS
blico universitário que busca um conhecimento
extra ao praticado nas salas de aula tradicionais. As atividades principais para o pleno
Por fim, a Bizcool trabalha com um sis- funcionamento da empresa envolvem basi-
tema de economia compartilhada, ela busca ex- camente as relacionadas com a execução dos
-alunos que desenvolveram suas empresas, e os cursos, desde a sua concepção, montagem dos
usa como disseminadores dos cursos ofereci- módulos e programas, percorrendo todas as
dos como cases de sucesso. Para isso a empresa atividades relacionadas à captação dos clien-
oferece em troca horas de mentoria a esses em- tes até a execução propriamente dita dos cur-
preendedores e consequentemente reduz seus sos e workshops e as atividades de aceleração
custos para aquisição de novos clientes. de startups com o intuito de obter sucesso nos
projetos em desenvolvimento, a fim de se de-
3.5 FONTES DE RECEITA senvolver novas experiências que poderão ser
utilizadas como estudos de caso nas rodadas
A principal origem de receitas da Bizco- posteriores de cursos oferecidos.
ol é oriunda das taxas de inscrição dos diversos
cursos e workshops oferecidos. Ao optar por 3.7 RECURSOS PRINCIPAIS
um dos pacotes, o cliente está disposto a pagar
um valor abaixo do valor de mercado e podem Por se tratar de um modelo bem especí-
ser escolhidos de acordo com suas preferências fico de negócios, os recursos necessários para
pessoais. Os pacotes oferecidos dividem-se nas o funcionamento da empresa envolvem basi-
modalidades de 5, 10 ou 15 cursos, ou ainda um camente a utilização dos recursos humanos,
passaporte, que dá direito ao cliente de partici- sendo que as despesas principais (ou quase glo-
par de todos os cursos oferecidos. bais) da empresa são relacionadas à pessoal.
Esporadicamente, a empresa realiza a Outro recurso utilizado para o bom fun-
chamada “Open Experience” que é uma reu- cionamento do negócio é a utilização da mar-
nião informal em horário alternativo para clien- ca Bizcool como ativo pela empresa. Durante
tes potenciais, na qual, através de temas chama- 100% do tempo a marca é trabalhada como ele-
tivos, estes clientes são atraídos para participar mento fundamental de marketing, o que a posi-
de uma palestra descontraída acompanhada ciona de forma estratégica no mercado.
de um bom bate-papo e possibilidades de ne-
tworking. A participação neste evento também 3.8 PARCERIAS PRINCIPAIS
é condicionada ao pagamento de uma taxa, o
que constitui outra fonte de receita da empresa. Os principais parceiros da organização
O modelo de negócios da empresa per- são os empreendedores, ex-participantes ou
mite ainda, por fim, que o projeto seja altamen- não dos cursos da Bizcool, mas que possuem
te patrocinável. Isso porque grandes empresas Know-How em determinados conhecimentos
que buscam profissionais inovadores, que te- específicos e que podem, de certa forma, con-

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tribuir para a geração de conhecimentos ao Tendo detalhado os blocos do Canvas da


partilharem suas experiências positivas ou não, atual Blizcool, é importante apresentar a cons-
aos novos empreendedores. trução do Radar de Inovação, com intuito de
diagnosticar as oportunidades estratégicas de
3.9 ESTRUTURA DE CUSTO inovação e negócios da empresa.

Por se tratar de uma empresa ainda em 4 ANÁLISE DO RADAR DA INOVA-


desenvolvimento, porém de visão estratégica ÇÃO
emergente e criativa, a estrutura de custos da
Bizcool se apresenta de forma bastante pecu- Os fatores do radar de inovação que con-
liar. A empresa se localiza em um espaço mul- tribuíram com maior intensidade para a inova-
tiuso no centro da cidade de Belo Horizonte que ção de atividades da empresa foram encontrados
possui, além da empresa, um bar e restaurante, graças à entrevista realizada com o dono da Bi-
e um cinema, o que funciona como um espaço zcool. Estes fatores estão focados nos clientes
de co-working onde as pessoas podem criar um dos cursos oferecidos, a fim de que, através do
maior convívio social, desenvolver parcerias compartilhamento de conhecimentos, eles con-
ampliar o seu relacionamento com outras pes- sigam se desenvolver para dar forma a sua ideia
soas e empresas. Como forma de atração de pú- empreendedora e inovadora. A empresa procura
blico e por uma parceria muito bem arquiteta- atender nichos de clientes específicos para ofe-
da, a Bizcool faz parte deste espaço multiuso de recer um serviço acima das expectativas do mer-
forma gratuita, o que de certa forma é benéfico cado, estes nichos são: empreendedores iniciais
tanto para a empresa (que por ainda estar em e jovens universitários, profissionais.
desenvolvimento precisa de uma estrutura de O segundo fator encontrado no radar
custos enxuta), quanto para os proprietários do contribui na proposta do valor que a Bizcool
espaço, uma vez que veem o aumento do fluxo oferece com seus cursos, graças à participação
de pessoas no lugar de forma significativa, e de empreendedores que obtiveram êxito em di-
consequentemente a oportunidade de desenvol- ferentes projetos consigam compartilhar seus
ver novas atividades lucrativas no espaço. conhecimentos e experiências em conjunto com
A empresa possui ainda um acompanha- mentores da empresa para aqueles empreende-
mento e metrificação de custos e resultados de dores iniciais, jovens universitários, estudantes
todas as suas ações, tanto da aquisição quanto de escolas públicas e profissionais insatisfeitos,
da retenção de clientes. Cada ação de marketing consigam encontrar um norte nas suas ideias
executada para divulgação de novos cursos ou para desenvolvê-las e materializá-las.
compartilhamento de ideias é cuidadosamente Por outro lado, as atividades relaciona-
metrificada a fim de se chegar a números conci- das aos esforços financeiros e aos recursos da
sos e exatos dos custos da organização. Bizcool são aspectos que figuram como ativi-
Existem ainda os custos para a realização dades inovadoras ocasionais, já que a apesar
efetiva dos cursos, que consistem basicamente de que a empresa gere lucros através da venda
nos custos com pessoal, divididos em três fun- de cursos e que seu modelo de negócio tenha a
ções básicas que permeiam o modelo: o agente capacidade para ser altamente patrocinável, a
de aceleração, o agente de experiência e o ges- empresa foi criada pela necessidade que o gru-
tor da Bizcool. Desta forma meticulosa e eficaz, po “Troposlab” tinha de gerar fluxo de caixa e
a Bizcool consegue trabalhar de forma compac- a criação da Bizcool foi uma solução imediata.
ta e assim poder oferecer o valor que propõe ao A empresa pretende divulgar seus servi-
cliente final, a um custo extremamente baixo se ços através de campanhas de marketing digitais
comparado a formatos tradicionais de educação mais inovadoras que lhes permitam a expansão
corporativa existentes no mercado. do negócio, já oferecendo hoje um programa de

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170 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias

aceleração online para inovação. Cabe recalcar


novamente que a Bizcool não tem atualmente ati- Dessa forma, é possível compreender
vidades inovadoras permanentes nos âmbitos de que o epicentro para inovações da Bizcool par-
recursos e de esforços econômicos pelo fato de te dos pontos da Proposta de Valor e Clientes,
ser uma empresa aceleradora de startups nova. todos com uma característica de inovação em
Por meio de um roteiro com uma escala relação às propostas do mercado e que são a
tipo Likert de 1 a 4 pôde-se identificar os epi- fonte de diferenciação da aceleradora.
centros de inovação da Bizcool. As questões
versavam sobre os principais motivos que le-
varam a empresa a inovar, passando pelo de- 5 CONSIDERAÇÕES
senvolvimento do projeto, as principais inten-
ções no seu desenvolvimento até fatores que Após a construção do modelo Canvas e
inspiraram o nascimento e desenvolvimento da do Radar e Epicentro da inovação da acelera-
empresa (Pra quem? Como faço? Quanto de- dora de startups para entender as capacidades
mandará? O que vou propor?). de inovação neste tipo de empresas, identifi-
O roteiro desenvolvido permitiu chegar ao cou-se que estas aceleradoras ajudam os negó-
resultado em que houve uma igualdade entre dois cios a definir e construir seus produtos iniciais,
epicentros principais de inovação que, conforme identificar segmentos de clientes promissores e
figura 2, de certa forma se complementam: Clien- recursos seguros, incluindo seu capital e equi-
tes e Proposta de Valor. Uma vez que a empresa pe (COHEN, 2013 apud RIBEIRO; PLONSKI,
foi concebida inicialmente para empreendedores 2015). Especificamente no caso da Bizcool,
que buscavam maiores conhecimentos e/ou o de- através do compartilhamento de conhecimen-
senvolvimento de suas startups, o resultado obti- tos entre os usuários dos cursos, foi possível
do vem totalmente de encontro com a realidade, compreender como, através de atividade inten-
uma vez que a todo momento os empresários en- siva de mentores, tornou-se possível em pouco
trevistados se mostravam preocupados em buscar tempo direcionar startups com modelos de ne-
os reais desejos e necessidades de seus clientes gócios empreendedores e inovadores.
e transformá-los e criar produtos que viessem a Observou-se que o alinhamento dos cur-
propor o valor buscado por eles. sos da empresa permite a seus usuários espe-
cializarem-se nas questões de desenvolvimento
Figura 2 - Gráfico de Radar Individual para os de suas ideias, e adaptar modelos de negócios
Epicentros de Inovação inovadores em seus projetos como também
criar laços com outros empreendedores para
criar parcerias que lhes permitam trabalhar em
projetos futuros no Brasil.
Por outro lado, analisa-se que a Bizcool
ainda precisa utilizar melhores canais de informa-
ção para divulgação dos serviços que estão ofere-
cendo pelo fato de ser uma empresa nova no mer-
cado. A expansão da empresa por todo o Brasil
com sua metodologia de aceleração online pode
ser muito útil para o empreendedorismo do país e
para a criação e desenvolvimento de pequenas e
médias empresas do país, o que resolveria o pro-
blema de desenvolvimento de setores produtivos
inovadores que atravessa o Brasil.
Estes resultados podem contribuir para
Fonte: elaborado pelos autores.

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CASOS DE ENSINO | Gustavo Clemente Valadares, Galo Andrés Suasnavas Lamboglia, Joel Yutaka Sugano, João Paulo Nascimento da Silva 171

programas futuros de incentivos de startups e


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172 CASOS DE ENSINO | Bizcool: o caso de uma aceleradora de ideias

NOTAS DE ENSINO Possíveis tarefas a propor aos alunos


• Elaboração do modelo de negócios.
As notas de ensino aqui elaboradas, possuem • Qual a importância da elaboração de um
como objetivo direcionar como os professores modelo de negócios para as organiza-
podem aplicar o Modelo Canvas em casos de ções?
ensinos práticos com seus alunos. • Existe diferença entre plano de negócios
e modelo de negócios?
Objetivo de ensino • Qual a vantagem da utilização da ferra-
Proporcionar a aprendizagem dos seus leitores menta Canvas na elaboração de um pla-
em uma situação de planejamento estratégico e no de negócios?
inovação utilizando uma ferramenta que permi- • Uma organização serve a um ou diversos
te desenvolver e esboçar modelos de negócios segmentos de clientes? No caso estudado
novos ou existentes a partir de um mapa visual. quais formas de segmentação que a em-
presa utiliza?
Fontes e Métodos de coleta • O que se pode entender por proposta de
Como fonte de coleta de dados utilizou-se o valor de uma organização?
método de entrevistas semi-estruturado. A en- • As fontes de receita resultam de propos-
trevista na organização estudada aconteceu de tas de valor oferecidas com sucesso aos
forma presencial na cidade de Belo Horizonte- clientes. Quais aspectos influenciam no
-MG com proprietário da empresa, o que auxi- que o cliente está disposto a pagar?
liou na obtenção dos dados de forma fidedigna. • Quais são os custos mais importantes
À medida que o entrevistado respondia a cada inerentes ao modelo de negócios estuda-
questão, o Canvas era desenvolvido de maneira do?
conjunta e isso foi crucial para a elaboração do • Como as parcerias com outras empresas
mapa visual do modelo de negócios da organi- pode ser vista como uma estratégia no
zação. Outra fonte utilizada para coleta de da- caso apresentado?
dos foi o website da empresa. • Quais lições úteis para outras empresas
podem ser tiradas do caso realizado no
Relações com os objetivos de um curso ou que diz respeito ao seu modelo de negó-
disciplina cios?
Este caso envolve as áreas de empreendedo-
rismo, plano de negócios e gestão estratégica. Outras questões possíveis
Tal estudo pode se apresentar como uma forma • A elaboração de modelo de negócios tem
de roteiro a ser seguido por parte de alunos e efeito significativo apenas em grandes
professores de como elaborar um modelo de organizações?
negócios de uma organização. O caso é sugeri- • Quais aspectos empreendedores foram
do para os cursos de Administração e Sistemas possíveis de identificar no caso?
de Informação em disciplinas que envolvam os • Quais elementos e práticas são conside-
conceitos de empreendedorismo, plataforma e rados como pontos inovadores no caso
modelo de negócios e inovação empresarial. apresentado?
• Quais os desafios enfrentados por uma
Disciplinas sugeridas para uso do caso: Pla- organização para conseguir elaborar um
taforma e Modelo de negócios, Empreendedo- modelo de negócios?
rismo, Administração Estratégica e Inovação • Destaque as principais estratégias de
Empresarial. marketing utilizadas pela empresa estu-
dada com intuito de atingir seu segmento
de clientes.

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CASOS DE ENSINO | Gustavo Clemente Valadares, Galo Andrés Suasnavas Lamboglia, Joel Yutaka Sugano, João Paulo Nascimento da Silva 173

Possível organização da aula para uso do negocios (No. LE-0146). Cuatro Media, 2008.
caso
TRIMI, S.; BERBEGAL-MIRABENT, J.
Inicialmente os alunos devem realizar Business model innovation in entrepreneurship.
uma pesquisa inicial sobre plano e modelos de International Entrepreneurship and Mana-
negócios, os resultados dessa pesquisa serão gement Journal, v. 8, n. 4, p. 449-465, 2012.
discutidos em sala de aula. No início da aula
será apresentada a teoria sobre a ferramenta
Canvas, onde será explicado os 9 blocos usa-
dos para esboçar modelos de negócios novos
ou existentes. Posteriormente será apresentan-
do o estudo de caso realizado na empresa Biz-
cool, no qual será possível explicitar como essa
ferramenta foi utilizada para a elaboração do
modelo de negócios dessa empresa.
Após o professor analisar o estudo de
caso com a turma, os alunos irão responder as
perguntas sugeridas nestas notas de ensino. Em
uma segunda etapa, com base nas considera-
ções tiradas no estudo de caso, os alunos irão
escolher uma empresa de sua preferência para
esboçar o modelo de negócios dessa empresa
com base no mapa visual Canvas. Na etapa fi-
nal, os alunos irão apresentar esses resultados
para a turma, onde será realizado um debate de
forma a fixar melhor o conteúdo.

Sugestões de bibliografia

BARRIENTOS, J. W.; RUMIANY, D. Mode-


lo de negócios. Buenos Aires: Universidad de
Buenos Aires, 2005.

BROWN, T.; KATZ, B. Change by design.


Journal of Product Innovation Manage-
ment, v. 28, n. 3, p. 381-383, 2011.

MONEIMNE, W.; HAJDUL, M.; MIKOŁA-


JCZAK, S. Seamless Communication in Sup-
ply Chains Based on M2M Technology. Log-
Forum, v. 12, n. 4, 2016.

OLIVEIRA, D. D. P. R. Planejamento estra-


tégico: conceitos, metodologia e práticas. São
Paulo: Atlas, 1986.

TENNENT, J. Cómo delinear un modelo de

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 163-173, maio/ago. 2019
174 Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial

LINHA EDITORIAL PROCESSO DE AVALIAÇÃO PE-


LOS PARES
FOCO E ESCOPO
Dá-se a conhecer que o processo de ava-
A Revista de Gestão em Análise – Re- liação dos estudos submetidos à publicação na
GeA – tem como missão a publicação dos re- ReGeA consiste em duas etapas: inicialmente
sultados de pesquisas científicas com o foco tem-se a triagem realizada pela editora-chefe,
de fomentar e disseminar o conhecimento em que examina a adequação do trabalho à linha
administração e ciências contábeis, pautada em editorial da revista e seu potencial para publi-
ética e compromisso orientados para a inova- cação; posteriormente, a avaliação por pares,
ção dos saberes junto à comunidade acadêmica por meio de sistema blind review, que consiste
e à sociedade interessada em geral. Os traba- na avaliação de dois pareceristas ad hoc, es-
lhos que constituem o periódico são de âmbitos pecialistas duplo-cega que, ao apreciarem os
nacional e internacional, versando acerca de di- trabalhos, fazem comentários e, se for o caso,
versos domínios do conhecimento em institui- oferecem sugestões de melhoria. Depois de
ções privadas e públicas, notadamente: gestão aprovados, os trabalhos são submetidos à edi-
empreendedora e estratégica; gestão da infor- ção final, a qual consiste na fase de normaliza-
mação e inovação; gestão de marketing, pro- ção e revisão linguística (ortográfica, gramati-
dução e logística; gestão socioambiental e sus- cal e textual).
tentabilidade; comportamento organizacional;
direito empresarial; gestão financeira e contábil PERIODICIDADE – QUADRIMES-
alinhadas à governança corporativa. TRAL

POLÍTICAS DE SEÇÃO POLÍTICA DE ACESSO LIVRE -


Esta revista oferece acesso livre imediato ao
– Artigos - Textos destinados a divul- seu conteúdo, seguindo o princípio de que dis-
gar resultados de pesquisa científica, ponibilizar gratuitamente o conhecimento cien-
pesquisa tecnológica e estudos teóri- tífico ao público proporciona maior democrati-
cos [no mínimo 12 e no máximo 18 zação mundial do conhecimento.
laudas].
– Ensaios - Exposições feitas a partir ARQUIVAMENTO - Esta revista utili-
de estudos apurados, críticos e con- za o sistema LOCKSS para criar um sistema
clusivos, sobre determinado assunto, de arquivo distribuído entre as bibliotecas par-
nos quais se destaca a originalidade ticipantes e permite às mesmas criar arquivos
do pensamento do autor [no mínimo permanentes da revista para a preservação e
08 e no máximo 13 laudas]. restauração.
– Casos de Ensino - Relatos de casos
reais de empresas com o propósito de
consolidar o método de caso como
ferramenta de ensino e aprendizado,
proporcionando estímulo aos estu-
dos, pesquisas e debates nas áreas ci-
tadas [no mínimo 08 e no máximo 13
laudas].

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 174-176, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial 175

EDITORIAL LINE PEER REVIEW PROCESS

FOCUS AND SCOPE The evaluation process of the submitted


articles and other contributions for publica-
The mission of the Journal of Manage- tion in ReGeA consists of two steps: first the
ment Analysis - ReGeA – is the publication of screening performed by the chief editor, whi-
scientific research results with the purpose of ch examines the adequacy of the work to the
promoting and disseminating the knowledge magazine’s editorial line and its potential for
in Administration and Accounting, guided by publication; later, peer review, through a blind
ethics and commitment oriented by the innova- review system, which is the evaluation of two
tion of knowledge in the academic community ad hoc, double-blind experts, when considering
and the society in general. The national and in- the work, make comments and, where appro-
ternational papers that make part of the journal priate, offer suggestions for improvement.
deal with various fields of knowledge in private Once approved, the work will undergo the final
and public institutions, in particular: entrepre- editing, which consists of the standardization
neurial and strategic management; information and the linguistic revision.
management and innovation; marketing mana-
gement, production and logistics; social-envi- PUBLICATION FREQUENCY -
ronmental management and sustainability; or- QUARTERLY
ganizational behavior; business law; financial
and accounting management aligned to corpo- OPEN ACCESS POLICY - This jour-
rate governance. nal will provide immediate open access to its
content, abiding by the principle of providing
SECTION POLICIES free public scientific knowledge with the pur-
pose of contributing to a greater democratiza-
– ARTICLES - Texts for the promo- tion of worldly knowledge.
tion of scientific research results, te-
chnological research and theoretical ARCHIVING - This journal will use the
studies (minimum=12; maximum=18 LOCKSS system in order to create an archiving
pages). system which can be made available among
– ESSAY - Exhibitions of issues made participating libraries allowing them to create
from established studies, critical and a permanent archive of the Journal for future
conclusive, in which is highlighted preservation and eventual restoration.
the originality of the thinking of the
author (minimum 8; maximum = 13
pages).
– CASE STUDY - Actual case reports
of companies with the purpose of
consolidating the case method as a
teaching and learning tool, providing
stimulus for studies, research and
debate in the mentioned areas (mini-
mum=8; maximum=13).

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 174-176, maio/ago. 2019
176 Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial

LÍNEA EDITORIAL PROCESO DE EVALUACIÓN POR


PARES
ENFOQUE Y ALCANCE
Se informa que el proceso de evalua-
La Revista de Gestão em Análise – Re- ción de los estudios sometidos para publica-
GeA tiene como misión publicar los resultados ción en ReGeA se constituye por dos etapas:
de investigaciones científicas con el enfoque de inicialmente, la editora de la revista hace una
fomentar y diseminar el conocimiento en admi- selección previa, examinando la adecuación
nistración y ciencias contables, basada en ética del trabajo a las áreas temáticas del periódico
y compromiso orientado para la innovación de y el potencial del artículo para publicación; ul-
los saberes junto a la comunidad académica y teriormente, hay la evaluación por pares, por
a la sociedad interesada, en general. Los traba- medio del sistema de blind review, cuando dos
jos que constituyen el periódico son de ámbitos evaluadores ad hoc, especialistas en la materia,
nacional e internacional, examinando muchos analizan los trabajos, haciéndole comentarios
dominios del conocimiento en instituciones pri- y, si lo entiendan necesario, ofreciendo suges-
vadas y públicas, en especial: gestión empren- tiones para su mejoría. Una vez aprobados, los
dedora e estratégica; gestión de la información trabajos son sometidos a la edición final, o sea,
e innovación; gestión de marketing, producción al proceso de normalización y de revisión lin-
y logística; gestión socio ambiental y sustentabi- güística (ortográfica, gramatical y textual).
lidad; comportamiento organizacional; derecho
empresarial; gestión financiera y contable apli- FRECUENCIA DE PUBLICACIÓN
cada a la administración corporativa. – CUADRIMESTRE

POLÍTICAS DE SECCIÓN POLÍTICA DE ACCESO ABIERTO


– Esta revista ofrece libre acceso inmediato a
– Artículos – Textos destinados a di- su contenido, de acuerdo con el principio de
fundir resultados de investigación propiciar al público acceso gratuito al conoci-
científica, investigación tecnológica miento científico proporciona una más grande
y estudios teóricos [mínimo 12 pági- democratización mundial del conocimiento.
nas y máximo 18 páginas].
– Ensayos – Trabajos hechos a partir ARCHIVAR – Esta revista utiliza el sis-
de estudios apurados, críticos y con- tema LOCKSS para crear un sistema de archi-
clusivos acerca de determinado tema, vos distribuido entre las bibliotecas participan-
en que se destaca la originalidad del tes, lo que les permite la creación de archivos
pensamiento del autor [mínimo 8 pá- permanentes de la revista para preservación y
ginas y máximo 13 páginas]. restauración.
– Casos de enseñanza – Relatos de
casos reales de empresas con el pro-
pósito de consolidar el método de es-
tudio de casos como herramienta de
enseñanza y aprendizaje, propiciando
estímulo a los estudios, a la investiga-
ción y al debate en las áreas mencio-
nadas [mínimo 8 páginas y máximo
13 páginas].

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 174-176, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as 177

DIRETRIZES PARA AUTORES de acordo com as normas serão rejeitadas.

Aceitam-se colaborações do Brasil e do 1. Os textos poderão ser apresentados em por-


exterior, os textos completos podem ser sub- tuguês, espanhol ou em inglês. Os trabalhos
metidos nos idiomas português, espanhol ou escritos em inglês e espanhol devem conter o
inglês. Recomenda-se demonstrar uma lingua- título, o resumo e as palavras-chave em língua
gem clara e objetiva e seguir as normas edito- portuguesa.
riais que regem esse periódico. As submissões
eletrônicas dos trabalhos devem ser encaminha- 2. Os textos em língua portuguesa deverão ser
das para o editor da ReGeA, exclusivamente, redigidos conforme as normas da Associação
no seguinte endereço: [Link] Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) – NBR
[Link]/[Link]/gestao/index, em 6022:2003, e NBR 14724:2011. Para os artigos
arquivo [doc], em conjunto com o documento em inglês, se utilizará a norma ISO equivalente.
de Declaração de Cessão de Direitos Autorais.
Por meio do Portal, os autores podem subme- 3. Características Técnicas:
ter o trabalho e acompanhar o status do mesmo • formato de papel = A4;
durante todo o processo editorial. Essa forma • editor de texto: Word for Windows 6.0
de submissão garante maior rapidez e seguran- ou posterior;
ça na submissão do seu manuscrito, agilizando • margens: superior e esquerda de 3 cm,
o processo de avaliação. As pesquisas devem direita e inferior de 2 cm;
relatar os resultados de estudos em andamento • fonte: Times News Roman, corpo 12, en-
ou já concluídos, conforme o estilo de trabalhos trelinhas 1,5;
informados a seguir: • número de páginas: ARTIGO [no míni-
• ARTIGOS – textos destinados a divul- mo 12 e no máximo 18 laudas]; ENSAIO
gar resultados de pesquisa científica, [no mínimo 08 e no máximo 13 laudas];
pesquisa tecnológica e estudos teóricos; e CASO DE ENSINO [no mínimo 08 e
• ENSAIOS – exposições feitas a partir de no máximo 13 laudas].
estudos acurados, críticos e conclusivos
sobre determinado assunto, nos quais se 4. Características Específicas:
destaca a originalidade do pensamento • o título e o subtítulo (se houver) do texto
do autor; devem ser apresentados em português e
• CASOS DE ENSINO – relatos de ca- em inglês;
sos reais de empresas com o propósito • o título e o subtítulo (se houver) devem
de consolidar o método de caso como expressar de forma clara a ideia do tra-
ferramenta de ensino e aprendizado, pro- balho;
porcionando estímulo aos estudos, pes- • resumo e abstract: redigidos de acordo
quisas e debates nas áreas citadas. com a NBR6028 ou norma ISO equiva-
lente com no máximo 150 palavras. O
INSTRUÇÕES AOS AUTORES resumo deve ressaltar o objetivo, o mé-
todo, os resultados e as conclusões;
Os trabalhos devem ser encaminhados à • as palavras-chave e key-words: devem
redação da Revista Gestão em Análise – ReGeA contar de três a cinco palavras-chave;
– conforme orientações de submissão contidas • o conteúdo dos artigos e ensaios deve
na Linha Editorial deste periódico. É indispen- apresentar, sempre que possível: introdu-
sável que os autores verifiquem a conformidade ção; revisão da literatura; metodologia;
da submissão em relação a todos os itens lista- resultados; conclusões (com recomenda-
dos a seguir. As submissões que não estiverem ções de estudo) e referências;

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019
178 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as

• o conteúdo dos casos deve contemplar, Ressalva: Para as pesquisas provenien-


sempre que possível: introdução; contexto tes de trabalhos apresentados em congressos e
com caracterização do mercado; apresen- simpósios científicos que forem submetidas à
tação da empresa; as ações empreendidas edição especial de fast track, é obrigatório aos
pela empresa; o dilema e as argumenta- autores indicarem a origem do artigo e as res-
ções com respectivas evidências; as no- pectivas referências do evento.
tas de ensino contemplando os objetivos
educacionais, as questões para discussão/ IMPORTANTE: As informações de au-
decisão; o referencial teórico que embasa toria devem ser cientificadas apenas no corpo
o texto e, finalmente, as referências. do e-mail, contendo os seguintes dados: no-
me(s) do(s) autor (es), afiliação; e-mail, cidade,
5. As citações no corpo do texto deverão ser estado, país de cada autor e título do trabalho.
redigidas de acordo com a norma ABNT NBR Para garantir o anonimato no processo de ava-
10520 ou norma ISO equivalente. liação do trabalho, o(s) autor (es) não deve(m)
identificar-se no corpo do estudo. Caso seja
6. O uso de notas, citações, gráficos, tabelas, fi- identificado, o trabalho ficará automaticamente
guras, quadros ou fotografias deve ser limitado fora do processo de avaliação. A Equipe Edito-
ao mínimo indispensável; esses textos devem rial da ReGeA segue as sugestões contidas no
ser apresentados conforme norma ABNT NBR Manual de Boas Práticas da Publicação Cientí-
15724, de 2011, em tamanho 10. As imagens fica da ANPAD.
devem estar em jpg. A ReGeA não se responsa-
biliza por imagens de baixa qualidade inseridas NOTA: Revise minuciosamente o traba-
no trabalho. lho com relação às normas da ReGeA, à cor-
reção da língua portuguesa ou outro idioma e
7. As Referências deverão seguir o sistema au- aos itens que devem compor a sua submissão.
tor-data, conforme norma ABNT NBR 6023, Verifique se o arquivo apresenta sua identifica-
de 2002, ou norma ISO equivalente. ção. Trabalhos com documentação incompleta
ou não atendendo às orientações das normas
INEDITISMO – EXCLUSIVIDADE – adotadas pela Revista não serão avaliados. O(s)
DIREITOS AUTORAIS autor(es) serão comunicados na ocasião da con-
firmação de recebimento.
Os trabalhos submetidos à publicação na
ReGeA devem ser inéditos, além de não pode-
rem estar em avaliação paralela em outra revis-
ta (Nota – Os trabalhos podem ter sido apresen-
tados em congressos anteriormente, desde que
referenciados). As matérias assinadas são de
total e exclusiva responsabilidade dos autores,
declaradas por meio de documento – Declara-
ção de Originalidade e Cessão de Direitos Au-
torais. Outrossim, a cessão de direitos autorais
é feita a título gratuito e não exclusivo, passan-
do a ReGeA a deter os direitos de publicação
do material, exceto quando houver a indicação
específica de outros detentores de direitos auto-
rais. Em caso de dúvidas, ficamos à disposição
para esclarecimentos.

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as 179

AUTHOR GUIDELINES Spanish or in English. The articles written in


English should contain the title, abstract and
Collaborations of Brazil and abroad are key-words in Portuguese.
accepted. The full texts can be submitted in
Portuguese, Spanish or in English. It is recom- 2. The texts in Portuguese must be written ac-
mended to establish clear and objective lan- cording to the standards of presentation of arti-
guage and follow the editorial rules governing cles and academic papers as established by the
this journal. Electronic submission of articles Brazilian Association of Technical Standards
will only be accepted at the following address: (ABNT) - NBR 6022: 2003 and NBR 14724:
http:// [Link]/index. 2011. For articles in English, the equivalent
php/gestao/ index, in a file with the document ISO standard will be used.
file format [doc], together with the Copyright
Assignment Form. Through the Portal the au- 3. Technical Characteristics
thors can submit articles and track their status • = A4 paper size;
throughout the editorial process. This way the • text editor: Word for Windows 6.0 or later;
submission ensures a quick and safe submission • margins: top and left 3 cm, right, bottom
of your manuscript, streamlining the evaluation 2 cm;
of the process. • Source: Times New Roman, size 12, 1.5
The studies should report the results of line
research, in progress or completed, in confor- • The number of pages: ARTICLE (mini-
mation with the writing genres listed below: mum=12; maximum=18 pages); ESSAY
• ARTICLES - texts for the promotion of (minimum 8; maximum = 13 pages); and
the research results of scientific, techno- CASE (minimum=8; maximum=13 pages).
logical and theoretical studies;
• ESSAY - accurate, critical and conclu- 4. Specific Features:
sive exposure of issues from studies on • the title and subtitle (if any) of the text
a given subject, in which is highlighted should be presented in Portuguese and in
the originality of thinking of the author; English;
• CASE STUDY - actual case reports of • the title and subtitle (if any) should ex-
companies with the purpose of consoli- press clearly the idea of the work;
dating the case method as a teaching and • summary and abstract: written according
learning tool, providing stimulus for stu- to the NBR6028 or equivalent ISO stan-
dies, research and debate in the mentio- dard with a maximum of 150 words. The
ned areas. abstract should outline the purpose, me-
thod, results and conclusions;
INSTRUCTIONS FOR AUTHORS • key-words: there must be from three to
five key-words;
Entries must be submitted to the Journal • the content of articles and essays shall,
of Management Analysis - ReGeA – in accor- wherever possible, include introduction;
dance with the submission guidelines contai- literature review; methodology; results;
ned in the Editorial Line of this Journal. It is conclusions (with recommendations of
essential that the authors verify the conformi- study) and references;
ty of submission for all the items listed below. • the contents of the cases should include,
Submissions that are not in accordance with the where possible: introduction; context
rules will be rejected. with characterization of the market; pre-
sentation of the company; the actions un-
1. The texts may be submitted in Portuguese, dertaken by the company; the dilemma

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019
180 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as

and the arguments with supporting evi- IMPORTANT: Information on the au-
dence; the notes of education contempla- thor should be conveyed only in the e-mail
ting the educational objectives, matters body, containing the following data: name (s)
for discussion / decision; the theoretical (s) of author (s), affiliation; e-mail, city, state,
framework that supports the text and, fi- country of each author and title of the work.
nally, references. The work should be attached to the same
e-mail. To ensure anonymity in the process of
5. The citations in the text should be written evaluation of the work, the author (s) (s) should
in accordance with the ABNT NBR 10520 or not (m) be identified in the study of the body.
equivalent ISO standard. If identified, the work will be automatically out
of the evaluation process. The Editorial Team
6. The use of notes, quotes, charts, tables, fi- of ReGeA follows the suggestions contained in
gures, charts or photographs should be limited the Manual of Good Practices of Scientific Pu-
to a minimum; these texts must be submitted blication ANPAD.
according to ABNT NBR 15724, 2011 in size
10. Images must be in jpg. The ReGeA is not res- NOTE: The works should be thoroughly
ponsible for poor quality images inserted at work. reviewed in order to see whether they have
been organized
7. References should follow the author-date in accordance with the standards of Re-
system, according to ABNT NBR 6023, 2002, GeA, the correction of the Portuguese langua-
or equivalent ISO standard. ge or languages should be carefully certified.
There must be a strict care about the adequate
ORIGINALITY - EXCLUSIVE – identification of the author before submissions
COPYRIGHT are handed in. Works with incomplete docu-
mentation or not meeting the guidelines of the
The papers submitted for publication standards adopted by the magazine will not be
in ReGeA must be original, and can not be in evaluated. The author(s) shall be duly informed
parallel review in another journal (Note - The upon receipt of the submissions.
work may have been previously presented at
conferences, provided they were referenced).
The signed declarations are the sole and
exclusive responsibility of the authors as decla-
red through document - Declaration of Origina-
lity and Assignment of Copyright. Furthermore,
the assignment of copyright is made on a free
non-exclusive basis, from the ReGeA which
holds the rights to publish the material, except
when there is a specific indication of otherco-
pyright holders. In case someone should need
any kind of clarification, we remain at the dis-
posal for answering any eventual questions.

Exception: For the researches originated


from papers presented at scientific congresses and
symposia that are submitted to the special fast tra-
ck issue it´s required that authors indicate the ori-
gin of the article and the references of the event.

R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as 181

DIRECTRICES PARA AUTORES/AS to a todos los ítems enumerados abajo. Las su-
misiones que no respeten las normas serán re-
Se aceptan colaboraciones desde Brasil y chazadas.
del extranjero, y los trabajos pueden ser some-
tidos en portugués, en español o en inglés. Se 1. Los textos podrán ser presentados en portu-
recomienda hacer uso de lenguaje claro y obje- gués, español o inglés. Los trabajos en español
tivo y seguir las normas editoriales aplicables o en inglés deben incluir también el título, el
a este periódico. Las sumisiones electrónicas resumen y las palabras-clave en portugués.
de los trabajos deben ser enviadas al editor de
la ReGeA, exclusivamente por medio del sitio 2. Los textos en portugués deberán ser escritos
web <[Link] en conformidad con las normas de la Associa-
[Link]/gestao/index>, en archivo [doc], ção Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) –
juntamente con el documento de Declaración NBR 6022:2003, y NBR 14724:2011. Para los
de Cesión de Derechos Autorales. Por medio artículos en inglés, se utilizará la norma ISO
del sitio web, los autores pueden someter su equivalente.
trabajo y observar su status durante todo el pro-
ceso editorial. Esa forma de sumisión garantiza 3. Características técnicas:
que el procesamiento de su manuscrito sea más • Formato del papel: A4;
rápido y más seguro, agilizando también el pro- • Editor de texto: Word for Windows 6.0 o
ceso de evaluación. Las investigaciones deben más reciente;
relatar los resultados de estudios en desarrollo • Márgenes: superior e izquierda de 3 cm,
o ya concluidos, de acuerdo con los estilos aba- derecha e inferior de 2 cm;
jo descritos: • Tipo de letra: Times New Roman, de
• ARTÍCULOS – textos destinados a di- talla 12, espacio entre líneas 1,5;
fundir resultados de investigación cientí- • Número de páginas: ARTÍCULO [míni-
fica, investigación tecnológica y estudios mo 12 y máximo 18 páginas]; ENSAYO
teóricos [mínimo 8 y máximo 13páginas]; y
• ENSAYOS – trabajos hechos a partir de CASO [mínimo 8 y máximo 13 páginas].
estudios apurados, críticos y conclusivos
acerca de determinado tema, en que se 4. Características específicas:
destaca la originalidad del pensamiento • El título y el subtítulo (si existir) del tex-
del autor. to deben ser presentados en portugués y
• CASOS DE ENSEÑANZA – relatos de en inglés;
casos reales de empresas con el propósi- • El título y el subtítulo deben expresar de
to de consolidar el método de estudio de manera clara las ideas del trabajo;
casos como herramienta de enseñanza y • El resumen y el abstract deben ser es-
aprendizaje, propiciando estímulo a los critos de acuerdo con la normativa
estudios, a la investigación y al debate en NBR6028 o la norma ISO equivalente,
las áreas mencionadas. en 150 palabras o menos. El resumen
debe resaltar el objetivo, el método, los
INSTRUCCIONES A LOS AUTORES resultados y las conclusiones;
• Deben ser apuntadas entre tres y cinco
Los trabajos deben ser enviados a la ofi- palabras-clave, que deben ser traduzidas
cina de la Revista Gestão em Análise – ReGeA, también al inglés y apuntadas como ke-
de acuerdo con las directrices de sumisión de ywords;
este periódico. Es indispensable que los autores • El contenido de los artículos y ensayos
verifiquen que sus sumisiones dan cumplimien- debe presentar, siempre que sea posible:

ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019
182 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as

introducción; revisión de la literatura; cesión de derechos autorales es hecha a título


metodología; resultados; conclusiones gratuito y non exclusivo, por lo que la ReGeA
(incluyendo recomendaciones de estu- pasa a detener los derechos de publicación del
dio) y referencias; material, excepto cuando haya indicación espe-
• El contenido de los casos debe incluir, cífica de otros detenedores de derechos auto-
siempre que sea posible: introducción, rales. Quedamos a su disposición para aclarar
contexto y caracterización del mercado; la situación, en caso de duda.
presentación de la empresa; las acciones
emprendidas por dicha empresa; el dile- Observación: para las investigaciones que
ma y las argumentaciones con las respec- provengan de trabajos presentados en congresos
tivas evidencias; las notas de enseñanza, y simposios científicos que hayan sido sometidas
contemplando los objetivos educaciona- a la edición especial de fast track, es obligatorio a
les, las cuestiones para discusión/decisi- los autores que indique la origen del artículo y las
ón; el referencial teórico que fundamenta respetivas referencias del evento.
el texto y, finalmente, las referencias.
IMPORTANTE: Las informaciones de
5. Las citaciones a lo largo del texto deberán autoría deben ser apuntadas solamente en el cor-
ser hechas de acuerdo con la normativa ABNT reo electrónico, conteniendo: nombre(s) del(os)
NBR 10520 o la norma ISO equivalente. autor(es), institución a la cual pertenece(n), cor-
reo electrónico, ciudad, estado, país de cada autor
6. El uso de notas, citaciones, gráficos, tablas, y título del trabajo. Para garantizar el anonima-
figuras, cuadros o fotografías debe ser limitado to en el proceso de evaluación, el(los) autor(es)
a lo que sea indispensable; eses textos deben no debe(n) estar identificado(s) en el texto del
ser presentados en conformidad con la norma trabajo. Caso contenga identificación, el trabajo
ABNT NBR 15724, de 2011, en talla 10. Las quedará automáticamente fuera del proceso de
imágenes deben estar en jpq. La revista no es evaluación. El Equipo Editorial de la ReGeA si-
responsable por imágenes de baja calidad inser- gue las sugestiones del Manual de Boas Práticas
tada en el trabajo. da Publicação Científica da ANPAD (Manual de
Buenas Prácticas de la Publicación Científica de
7. Las referencias deberán seguir el sistema la Asociación Nacional de Posgrado e Investiga-
autor-data, en conformidad con la normativa ción en Administración).
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 8, n. 2, p. 177-182, maio/ago. 2019 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X

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