Revista Gestão em Análise - Vol. 7, N. 2
Revista Gestão em Análise - Vol. 7, N. 2
Fortaleza
Semestral
ISSN 1984-7297
e-ISSN 2359-618X
CDD 658
Impressão
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Revista Gestão em Análise - ReGeA
Editorial
Cláudia de Salles Stadtlober; Arnaldo F. Matos Coelho; Laodicéia Amorim Weersma............5-10
Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES = Level of
satisfaction of management students with their courses and their IES = Nivel de satisfacción de
los discentes de administración con sus cursos e sus IES
Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira,
Pablo Marlon Medeiros da Silva..............................................................................................27-42
Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca
e na lealdade à marca = Children's consumption: the influence of peers on brand awareness, the
relationship with the brand and brand loyalty = Consumo infantil: la influencia de los pares en la
consciencia de marca, en la relación con la marca y en la lealtad a la marca
Alzira Maria Ascensão Marques, Ana Regina Rodrigues Pinho...........................................93-106
Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas sob a ótica da teoria institucional =
Considerations on the symbolic aspects of brands from the standpoint of the institutional theory
= Reflexiones sobre los aspectos simbólicos de las marcas bajo la óptica de la teoría institucional
Natalia Contesini dos Santos, Tamirez Dornelles Pires Grammatikopoulos, Camila Arantes de
Paula Medina....................................................................................................................... 107-119
Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores
formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia = Knowledge production in Science, Technology
and Innovation: an evaluation of the doctors formed by the Rede Nordeste de Biotecnologia =
Producción de conocimiento en la Ciencia, Tecnología & Innovación: una avaliación de los
doctores formados por la Rede Nordeste de Biotecnología
Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de
Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira.....................................................133-150
Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos =
Management beyond Profits: accounting control in a non-profit entity = Gerenciamiento además
de los Lucros: Controle financiero en una entidad sin fines lucrativos
Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira......................151-167
Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica = Cachaça under an historical,
cultural and symbolic = Cachaza bajo una perspectiva histórica, cultural e simbólica
Lília Paula Andrade, Mozar José de Brito, Luis Fernando Silva Andrade, André Luiz de Paiva,
Valéria da Glória Pereira Brito.............................................................................................184-201
Nominata de Avaliadores Ad Hoc 2018 / Nominata peer review panel in 2018/ Lista de
evaluadores ad hoc 2018.....................................................................................................227-228
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p5-10.2018
EDITORIAL
A
gestão organizacional é complexa e proporciona diversos desafios às equipes de trabalho. Há
de se perceber as necessidades e os anseios dos clientes, dos investidores, dos acionistas, da
sociedade, dos colaboradores e deve-se estar atualizado, buscando inovar, manter-se com-
petitivo e, ao mesmo tempo, colaborativo com a sustentabilidade e o compromisso social. Dentro
desse escopo amplo e instigante, a Revista de Gestão em Análise [ReGeA] traz, em sua segunda
edição de 2018, temas contemporâneos em diferentes áreas de abordagem da administração.
Assim, nesta edição, há onze artigos diferenciados, tanto sob a perspectiva da qualidade,
como os assuntos abordados e o próprio e rigor acadêmico; artigos que contribuem para o olhar da
Academia e das próprias práticas que evolvem a gestão, perpassando discussões do mercado, da
inovação e da cultura. Concomitantemente, a edição traz ainda três ensaios teóricos com elevada
qualificação nas discussões e nas reflexões acerca das temáticas envolventes.
Iniciou-se com o artigo “O impacto do marketing relacional e do entorno na fidelização dos
estudantes mediado por satisfação: um estudo aplicado ao CCSo da UFMA”. No artigo em questão,
verificou-se a utilidade da orientação para o estudante das IES, estudando a influência das práticas
do Marketing Relacional na satisfação e na fidelização dos estudantes. O estudo foi desenvolvido a
partir de uma amostra de 547 estudantes de graduação do Centro de Ciências Sociais (CCSo).
No segundo artigo, há a discussão do nível de satisfação dos discentes de administração
com seus cursos e suas Instituições de Ensino Superior. Esse importante estudo que pode, inclu-
sive, servir de base para outras IES replicarem, teve o objetivo de mensurar o grau de satisfação
dos discentes em administração com seus cursos e suas Instituições de Ensino Superior da cidade
de Mossoró, RN. Ao abordar temáticas como mercado de trabalho, estrutura das IESs e do curso,
o estudo foi aplicado com alunos de duas IESs públicas e duas IESs privadas.
Na sequência, há o artigo: “Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre
o positivismo de Comte”. O artigo sistematizou uma forma de estudo da epistemologia positivis-
ta, propiciando um melhor aproveitamento didático-pedagógico aos estudantes. Já o quarto artigo
“Reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária”,
traz uma análise dos ritos, dos rituais e das cerimônias de uma agência bancária com o objetivo de
compreender os significados que os membros dão aos recursos fotográficos e à entrevista com fun-
cionários. Discutindo comportamento e desenvolvimento de pessoas, o artigo seguinte traz à pauta
a temática instigante de investigação das competências gerenciais do papel de facilitador na atuação
do gestor secretarial, na visão de um grupo de profissionais secretários executivos. Esse artigo inti-
tula-se: “As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial”.
O sexto e o sétimo artigos estão ligados à temática de marketing, em que o primeiro aborda
o “Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca e na
lealdade à marca”, e o seguinte contempla as “Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas
sob a ótica da teoria institucional”. Se, no primeiro, tem-se a importante discussão da marca e
da conexão com influenciadores para crianças; no segundo texto, há a discussão institucional da
marca como estratégia.
Na sequência, há um artigo que discute economia “Por que compartilhar? um estudo sobre
a economia compartilhada na cidade de Fortaleza”. Um tema muito atual, pois tem impacto sobre
a mobilidade urbana e as formas de viver em grandes cidades. Tem o objetivo de compreender
as motivações e as atitudes dos usuários acerca do uso do sistema de bicicletas compartilhadas
na cidade de Fortaleza. No nono artigo, tem-se a discussão acerca do “Investimento em ciência,
tecnologia e inovação no Brasil: uma avaliação dos egressos da rede nordeste de biotecnologia”.
O estudo apresenta importante conclusão, pois se verifica que o programa de doutorado impacta,
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6 Editorial | Editorial
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EDITORIAL
O
rganizational management is complex and provides several challenges to work teams.
The needs and desires of customers, investors, shareholders, society and employees must
be understood and updated, seeking to innovate, remain competitive and, at the same
time, collaborative with sustainability and social commitment. Within this broad and instigating
scope, the Journal of Management in Analysis [ReGeA] brings, in its second edition of 2018,
contemporary themes in different areas of management approach.
Thus, in this edition, there are eleven differentiated articles, both from the perspective of
quality, as the subjects addressed and the proper and academic rigor; these articles contribute to
the Academy’s eyes and the practices that evolve management, permeating discussions of the
market, innovation and culture. At the same time, the edition also brings three theoretical essays
with high qualification in the discussions and reflections on the surrounding themes.
It began with the article “The impact of relational marketing and the environment on stu-
dent loyalty mediated by satisfaction: a study applied to the CCSo of UFMA”. In the article in
question, it was verified the usefulness of orientation for HE students, studying the influence of
Relational Marketing practices on student satisfaction and loyalty. The study was developed from
a sample of 547 undergraduate students from the Social Sciences Center (CCSo).
In the second article, there is the discussion of the level of satisfaction of the administration
students with their courses and their Institutions of Higher Education. This important study, which
can even serve as a basis for other HEIs to replicate, had the objective of measuring the degree
of satisfaction of the students in administration with their courses and their Institutions of Higher
Education in the city of Mossoró, RN. The study was carried out with students from two public
HEIs and two private HEIs.
Next, there is the article: “Reflecting on objectivity: a didactic experience on Comte’s po-
sitivism”. The article systematized a form of study of positivist epistemology, allowing a better
didactic-pedagogical utilization to the students. The fourth article, “Recognized and Valued: Se-
duction in Rituals, Rituals and Ceremonies in a Banking Agency”, provides an analysis of the
rites, rituals and ceremonies of a bank branch in order to understand the meanings members
give to photographic resources and interviewing employees. Discussing behavior and people’s
development, the following article brings to the agenda the exciting topic of investigation of the
managerial competencies of the role of facilitator in the work of the secretarial manager, in the
vision of a group of professional executive secretaries. This article is entitled: “The managerial
competencies of the role of the facilitator in the work of the secretarial manager”.
The sixth and seventh articles are related to the marketing theme, in which the first deals
with “Child consumption: the influence of peers in brand awareness, brand relation and brand
loyalty”, and the following refers to “Reflections on the symbolic aspects of brands from the point
of view of institutional theory”. If, in the former, there is the important discussion of the brand
and the connection with influencers for children; in the latter, there is the institutional discussion
of the brand as strategy.
Following, there is an article that discusses economics “Why share? a study on the shared
economy in the city of Fortaleza “. A very current theme, as it has an impact on urban mobility and
the ways of living in large cities. It aims to understand the motivations and attitudes of users about
the use of the shared bicycle system in the city of Fortaleza. In the ninth article, we discuss the
“Investment in science, technology and innovation in Brazil: an evaluation of the graduates of the
northeastern biotechnology network”. The study presents an important conclusion, since it is veri-
fied that the doctoral program has a positive impact on the production of knowledge and given the
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nature and mission of RENORBIO, it carries out the diffusion of knowledge, so the argument of
the triple helix finds empirical support to continue raising injections of public or private resources.
The tenth article “Management beyond profits: accounting control in a non-profit entity”
seeks to know how Third Party Entities maintain their records, control and accountability of their
resources, analyzing an Institution as a case. The last article of the magazine discusses the “Appli-
cation of lean tools in the logistics sector: a case study”, which aimed to analyze improvements in
the level of logistics service of a company from the application of lean tools.
Finally, the second section of ReGeA emphasizes discussions and reflections based on three
theoretical essays, with different themes, in which they are emphasized: “Cachaça from a histori-
cal, cultural and symbolic perspective”; “Ethnography in marketing: an anthropological view in
the studies of consumption” and “Resilience in urban retail systems”.
ReGeA, on behalf of all its editorial staff and guest writers thanks the authors and resear-
chers for their trust in the publication, as well as the evaluators who contributed to the quality and
clarity of the studies included in this edition. Lastly, to the members of the Editorial Board who, in
a collaborative way, are consolidating the journal in the scenario of scientific publications, based
upon ethics and commitment to science.
We hope that the reading of this work will provide reflections, questions, learning and,
mainly, that it will enhance motivation to go beyond research and studies.
Our special thanks to:
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EDITORIAL
L
a gestión organizacional es complexa y los conjuntos de trabajo proporcionan diversos de-
safíos. Es necesario percibir las necesidades y aspiraciones de los clientes, de los inversio-
nistas, de los accionistas, de la sociedad, de los colaboradores y hay que estar actualizado,
buscando innovar y mantenerse competitivo y al mismo tiempo colaborativo, con sustentabilidad
y compromiso social. Dentro de este fin amplio y estimulante, la Revista de Gestión en Análisis
[ReGeA] presenta su segunda edición de 2018, con temas contemporáneos en diferentes áreas de
abordaje de la administración.
Así, esta edición trae once artículos diferenciados tanto bajo a la perspectiva de cualidad,
como los asuntos abordados y el proprio y rigor académico; artículos que contribuyen para la
mirada de la academia y de las propias prácticas que evolucionan la gestión, pasando más ade-
lante por discusiones del mercado, de la innovación y de la cultura. Concomitante, la edición
presenta aún tres ensayos teóricos en elevada cualificación en las discusiones y reflexiones sobre
las temáticas envolventes.
Iniciamos con el artículo “El impacto del marketing relacional y del entorno en la fideliza-
ción de los estudiantes mediado por la satisfacción: un estudio aplicado al CCSo de la UFMA”, el
presente estudio verificó la utilidad de la orientación para el estudiante de las IES, estudiando la
influencia de las prácticas del Marketing Relacional en la satisfacción y fidelización de los estu-
diantes, el estudio fue desarrollado con una amuestra de 547 estudiantes de graduación del Centro
de Ciencias Sociales (CCSo).
En el segundo artículo, tenemos la discusión sobre el “Nivel de satisfacción de los discen-
tes de administración con sus cursos y sus Instituciones de Enseñanza Superior”. Ese importante
estudio, que incluso puede ser la base para la implantación de otras IES, tuvo el objetivo de
mensurar el grado de satisfacción de los discentes en administración con sus Instituciones de En-
señanza Superior de la ciudad de Mossoró, RN. Abordando temáticas como mercado de trabajo,
estructura de las IES y del curso, el estudio fue aplicado con alumnos de dos IES públicas e dos
IES privadas.
En la secuencia tenemos el artículo “Reflexionando sobre la objetividad: una experiencia
didáctica sobre el positivismo de Comte”. El artículo sistematizó una forma de estudio epistemo-
lógica positivista, propiciando un mejor aprovechamiento didáctico-pedagógico de los estudian-
tes. El cuarto artículo “Reconocidos y valorados: la seducción en los ritos, rituales y ceremonias
en una agencia bancaria”; presenta un análisis de los ritos, rituales y ceremonias de una agencia
bancaria con el objetivo de comprender los significados que los miembros atribuyen a los re-
cursos fotográficos y la entrevista con funcionarios. Discutiendo comportamientos y desarrollo
de personas, el artículo siguiente trae a la pauta la temática estimulante de investigación de las
competencias gerenciales del papel de facilitador en la actuación de gestor secretarial, en la visión
de un grupo de profesionales Secretarios Executivos. Ese artículo se intitula: Las competencias
gestionales del papel de facilitador en la actuación del gestor secretarial.
El sexto y séptimo están relacionados a la temática de marketing, el primero aborda el
“Consumo infantil: la influencia de los pares en la consciencia de marca, en la relación con la
marca y en la lealtad a la marca” y, el siguiente, contempla las “Reflexiones sobre los aspectos
simbólicos de las marcas bajo la óptica de la teoría institucional”. Se en el primero tenemos una
importante discusión sobre la marca y su conexión e influencia entre los niños, en el segundo
texto vemos la discusión institucional de la marca como estrategia
En la secuencia tenemos un artículo que discute economía “¿Por qué compartir? Un estu-
dio sobre la economía compartida en la ciudad de Fortaleza”. Un tema muy actual, pues, tiene
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impacto sobre la movilidad urbana y las formas de vivir en grandes ciudades, tiene el objetivo de
comprender las motivaciones y actitudes de los usuarios sobre el uso de los sistemas de bicicletas
compartimentadas en la ciudad de Fortaleza. Y, en el nono artículo, presenta la discusión sobre
el “Investimento en ciencia, tecnología e innovación en el Brasil: una evaluación de los egresos
de la rede nordeste de biotecnología”. El estudio presenta importante conclusión, pues verificase
que el programa de doctorado impacta positivamente en la producción de conocimiento y, dada
la naturaleza y misión de la RENORBIO, realiza la difusión del conocimiento, así el argumento
de la hélice tríplice encuentra respaldo empírico para continuar obteniendo nuevas inyecciones de
recursos públicos y privados.
El décimo artículo, “Gerenciamiento además de los lucros: controle financiero en una en-
tidad sin fines lucrativos”, busca conocer como Entidades de Tercero Sector se mantienen, sus
registros, controle y la prestación de cuentas de sus recursos, analizando una Institución como
caso. Y, el último artículo de la revista discute la “Aplicación de herramientas lean en el sector de
logística: un estudio de caso”. El mismo tuvo como objetivo analizar mejorías en nivel de servi-
cios logísticos de una empresa a partir de la aplicación de las herramientas lean.
Por fin, la segunda sección de la ReGeA enfatiza las discusiones y reflexiones sedimenta-
das en tres ensayos teóricos, con diferentes temáticas, donde son enfatizados: “Cachaza bajo una
perspectiva histórica, cultural y simbólica”; “Etnografía en marketing: una visión antropológica
en los estudios del consumo” y “Resiliencia en sistemas del sector minorista urbano”
La ReGeA, en nombre de toda su equipo editorial y invitados, agradece la confianza de los
autores y investigadores que destinaron sus trabajos a nuestra publicación, bien como los evalua-
dores que contribuyeron para la cualidad y clareza de los estudios que integran esa edición. Y, por
último, a los Miembros del Consejo Editorial que de forma colaborativa están consolidando el peri-
ódico en el panorama de publicaciones científicas permeado por ética y compromiso con la ciencia.
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 5-10, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Alzira Maria Ascensão Marques, Maria Raimunda Marques Mendes 11
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p11-26.2018
ARTIGOS
RESUMO
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12 ARTIGOS | O impacto do marketing relacional e do entorno na fidelização dos estudantes mediado pela satisfação: um estudo aplicado ao CCSo da UFMA
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AUTORES | Alzira Maria Ascensão Marques, Maria Raimunda Marques Mendes 13
cuidado com as promessas, pois, como já foi de modo a promover o ensino de pós-gradu-
referido anteriormente, com a mudança no am- ação, a formação contínua, a investigação e a
biente e com a adoção das novas tecnologias, os prestação de serviços à comunidade. Portan-
clientes tornaram-se mais informados e mais exi- to, as IFES devem ver o marketing como uma
gentes, obrigando as IFES a acompanharem essa oportunidade de melhorar o seu desempenho e
evolução e a manter atualizadas as informações adoptar uma abordagem híbrida do marketing
sobre o mercado em que atuam, especialmente que privilegie a captação de novos estudantes e
sobre os clientes, e a cumprir as promessas. a fidelização de seus egressos.
Nesse sentido, Tschohl e Franzmeier Nesse sentido, torna-se imprescindível
(1996) afirmaram que o serviço aumenta o va- implantar as práticas de Marketing Relacional
lor percebido de um produto tangível ou intan- nas Instituições Federais de Ensino Superior
gível, quando os consumidores percebem que (IFES). O Marketing Relacional é um eixo
o valor dele aumentou sem um correspondente estratégico de diferenciação poderosa, basea-
acréscimo no preço. Normalmente, está asso- do na focalização e nas relações com o cliente
ciado a um aumento do valor percebido, um (GRÖNROOS, 2004). Assim, entender marke-
acréscimo da lealdade do cliente à marca ou à ting de relacionamento torna-se uma necessida-
insígnia do prestador do serviço. Isso se traduz de para entender como gerir uma organização
em um impacto positivo no volume e no valor que compete no mercado dos serviços, ainda
de compras e na frequência de compra. que de ensino superior.
Se nos negócios com fins lucrativos isso
parece ser consensual, nos negócios sem fins 2.1 QUADRO CONCEITUAL: DEDUÇÃO
lucrativos, de que é exemplo o ensino superior DE HIPÓTESES DE INVESTIGAÇÃO
público, também se mantém válido. Conse-
quentemente, as Instituições de Ensino Supe- Snehota e Hakansson (1995) definem
rior têm vindo a adotar práticas de marketing relação como uma interação mútua entre dois
relacional e a apostar, na prestação de um ser- parceiros reciprocamente comprometidos.
viço de ensino de qualidade que as ajude a posi- Barroso e Martín (1999) definem-na como um
cionar-se no ranking das melhores Instituições processo de interação entre os compradores e
de Ensino Superior em uma determinada área vendedores ao longo do tempo. No que se re-
de conhecimento para, dessa forma, por um fere ao relacionamento com os clientes, Grön-
lado, captarem mais e melhores estudantes e, roos (2004) diz que um relacionamento pode
por outro, fidelizarem os seus egressos, dina- se desenvolver somente quando todos ou, no
mizando, assim, o ensino de pós-graduação e a mínimo, a maioria dos contatos e interações
aprendizagem ao longo da vida. importantes com clientes são orientados para
O Marketing Relacional apresenta-se relacionamento. O mesmo autor diz, ainda, que
como um novo paradigma que, segundo Grön- o relacionamento é merecido pelo modo como
roos (1994a, 1994b), centra-se na construção o marketing de relacionamento é implemen-
de relações estáveis e duradouras com os seus tado. Consequentemente, uma empresa deve
clientes, em contraste com a abordagem tradi- criar processos de interação e comunicação que
cional, orientada para promover transações, por facilitem um relacionamento, mas é o cliente e,
meio de um marketing de conquista de clientes não a empresa, que determina se um relaciona-
(GUMMESSON, 1998). mento foi desenvolvido ou não.
Face ao exposto, no setor do ensino su- De acordo com Dwyer Schur e Oh
perior, seja ele público ou privado, ambas as (1987), as relações com os clientes criam bene-
perceptivas de marketing são importantes. Por fícios: reduzem a incerteza no negócio, aumen-
um lado, elas visam captar novos estudantes; tam a eficiência da transação e criam satisfação
por outro lado, visam fidelizar seus egressos dos clientes. Face ao exposto, formulamos a
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14 ARTIGOS | O impacto do marketing relacional e do entorno na fidelização dos estudantes mediado pela satisfação: um estudo aplicado ao CCSo da UFMA
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16 ARTIGOS | O impacto do marketing relacional e do entorno na fidelização dos estudantes mediado pela satisfação: um estudo aplicado ao CCSo da UFMA
algo que condiciona a aplicação de uma orientação transações para as relações – não descarta que
de marketing nas IFES. A natureza do ensino e a as empresas que produzem bens de consumo
política do ensino expressa em leis e regulamentos, para mercados de massa continuem com uma
são alguns exemplos. Todavia, é sempre possível a abordagem do marketing mix, pois, mesmo
adoção de uma orientação para o mercado, particu- com a falta de relacionamento direto com os
larmente para estudantes e empregadores. clientes, tais estratégias podem continuar ren-
A Universidade Pública possui uma boa táveis. Já para as empresas de serviços ou para
imagem, pois a sociedade ainda acredita que ela indústrias que aplicam estratégias baseadas em
tem um ensino de qualidade diante da concor- relacionamentos, o marketing mix é restritivo,
rência dos privados. Então, o que falta fazer? pois o relacionamento e os contatos extrapolam
Implantar em toda a sua estrutura o marketing os domínios dos 4 Ps.
relacional. Este parece ser o seu grande desafio.
Nesse contexto, é importante que a Univer- 4 METODOLOGIA
sidade Pública aproveite para mudar seu modelo
de organização, implantar as práticas de marketing A amostra é composta por 547 estudan-
relacional, para melhor gerir os seus relacionamen- tes do CCSo da UFMA. A coleta de dados foi
tos. Necessita-se dizer que as Universidades são or- realizada em 2013, adotando método do ques-
ganizações complexas e, como tal, têm como mis- tionário. Por questionário, entende-se um con-
são, o Ensino, a Pesquisa e a Extensão, mas para junto de questões que são respondidas por es-
que ela cumpra melhor essa missão, torna-se ne- crito pelo pesquisado (GIL, 2002).
cessária a utilização das estratégias do Marketing Nesse caso, optamos por um questioná-
Relacional as quais poderão facilitar e otimizar a rio já utilizado em Portugal, por Antunes e Rita
concretização de seus objetivos organizacionais e, (2007), no contexto do setor dos serviços termais.
assim, atender com qualidade a sociedade. Fizemos as devidas adaptações tendo em consi-
Kalsbek (2000) afirmou que à medida deração sua aplicação no setor do ensino superior.
que o marketing utilizado pelas instituições de Antes de ser aplicado junto ao público-
Ensino Superior evoluir para o foco no cliente, -alvo, o questionário foi objeto de um pré-teste
nos custos, na conveniência, na comunicação de a 10 estudantes. Desse pré-teste foram colhidas
duas vias, teremos uma convergência mais nítida um conjunto de informações e sugestões que
de marketing e gestão de matrículas. As práticas orientaram suas modificações.
de pesquisa de marketing, modelagem preditiva, Os dados obtidos por meio do questionário
diferenciação de preço e marketing de relacio- foram objeto de tratamento estatístico, segundo o
namento são somente alguns exemplos de prá- “package” informático SPSS (Statistical Package
ticas de gestão emergentes que estão desafiando for Social Sciences). Começou-se por fazer uma
o futuro da gestão das instituições e da própria análise fatorial exploratória para fazer o teste do
educação superior. Essa visão sobre diferentes fator único e verificar se os dados não sofrem da
abordagens de marketing vem sendo debatida, presença de commom method bias (PODSAKO-
especialmente por autores europeus, em contra- FF et al., 2003). Os resultados não indicaram a
posição aos autores da escola norte-americana. presença de um fator único que explique a maio-
Com o advento do marketing de servi- ria da variância dos dados; por isso, prosseguiu-se
ços, autores da escola europeia defendem que o o estudo da consistência interna das variáveis, por
paradigma do marketing mix (modelo dos 4 Ps) meio da análise das correlações ITEM-Total.
está ultrapassado, cedendo ou dividindo o lugar Continuamos com a análise de fiabilidade
com uma abordagem baseada em interativi- e da validade das medidas das variáveis latentes
dade e relacionamento (GRÖNROOS, 1994a; utilizadas no questionário adotando para o efei-
GUMMESSON, 1990). Na visão de Grönroos to a abordagem tradicional de Churchill (1979).
(1994a) a mudança de foco do marketing – das Com o objetivo de encontrar um conjunto de
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itens que reflitam um conceito unidimensional dos indicadores de cada constructo teórico.
foi efetuada uma análise fatorial exploratória Este algoritmo produz uma estimativa dos
para cada escala, seguida de uma análise dos co- componentes no sentido de maximizar a alter-
eficientes alfa (CRONBACH, 1951). nância de variáveis dependentes explicadas por
Com base nesses resultados, foi dese- variáveis independentes, semelhante à forma
nhado o modelo estrutural a testar por meio como é feita a regressão (LEE et al., 2011).
dos mínimos quadrados parciais, utilizando o Na análise dos modelos estruturais procu-
software Smart PLS 2.0., cujos resultados se ra-se observar os valores dos diversos coeficientes
apresentam a seguir. identificando a dimensão e direção das relações
entre as variáveis procurando a confirmação ou
5 DISCUSSÃO DE RESULTADOS rejeição das hipóteses apresentadas. Chin (1998)
sugere que as relações entre os constructos que
O PLS permite desenvolver pathmodels com- apresentem coeficientes estruturais com valor
plexos sem colocar problemas de estimação e possi- superior a 0,2 podem ser consideradas robustas.
bilita identificar relações entre variáveis apuradas por Segundo Falk e Miller (1992) indicam que R2
meio de vários itens. Com o PLS é possível construir deve ser superior a 0,1 pelo fato que valores in-
modelos teóricos sem a existência de indicadores de feriores proporcionam muito pouca informação.
ajustamento e adequação do modelo como um todo. Neste segmento, na Figura 1, são apresentados os
O algoritmo PLS procura a estimação coeficientes entre as variáveis do modelo.
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18 ARTIGOS | O impacto do marketing relacional e do entorno na fidelização dos estudantes mediado pela satisfação: um estudo aplicado ao CCSo da UFMA
5.1 FIABILIDADE DOS ITENS E VALI- testada utilizando: o Alpha de Cronbach, que ava-
DADE CONVERGENTE E DISCRI- lia a fiabilidade através da consistência de cada
MINANTE conceito (CHURCHILL, 1951); a fiabilidade
compósita, que avalia a consistência interna de
No Quadro 1 são apresentados os resulta- todos os indicadores das variáveis latentes (BA-
dos da estimação do modelo de medidas global GOZZI, 1980); e, por último, a variância extraída
que permitem avaliar a fiabilidade dos itens e a (AVE) que avalia em que medida as variâncias
validade convergente. Os resultados suportam a dos itens das variáveis são explicadas pela variá-
validade convergente dos indicadores, (itens) rela- vel latente (FORNELL; LARCKER, 1981).
tivamente a seus conceitos. Todos os indicadores, Ainda no Quadro 1, podemos observar
sem exceção, apresentam coeficientes fatoriais que os valores alfha de Cronbach estão acima
(λ) altos e significativos (t>2,58 com p<0,01) nos do valor considerado aceitável (>0,70), tornado,
conceitos que pretendem medir (Figura 1). Além assim, as escalas confiáveis e as medidas utili-
disso, os itens associados a um mesmo conceito zadas têm validade de conteúdo (CHURCHILL,
apresentaram significativa correlação entre eles, 1979). A fiabilidade compósita também é supe-
indicando boa fiabilidade interna. Assim, a con- rior ao valor recomendado de 0,7 (BAGOZZI,
vergência das medidas, isto é, a existência de forte 1980; BAGOZZI; YI, 2012). A variância média
correlação entre medidas destinadas a mensurar o extraída (AVE) é superior ao valor de referên-
mesmo conceito foi verificada (GERBING; AN- cia de 0,5, o que significa que pelo menos 50%
DERSON, 1988; MAROCO, 2010). da variância é explicada pela variável latente
A confiabilidade dos conceitos pode ser (FORNELL; LARCKER, 1981).
Composite Cronbachs
AVE R Square
Reliability Alpha
1. Entorno- zona envolvente 0,6682 0,8579 0,0000 0,7521
2. Qualidade dos serviços 0,5500 0,8295 0,0000 0,7295
3. Compreensão das Necessidades 0,5439 0,8267 0,0000 0,7216
4. Satisfação com a escolha da escola 0,5585 0,8627 0,4384 0,8008
5. Confiança na escola 0,5977 0,8557 0,4679 0,7747
6. Fidelização 0,6037 0,8829 0,4097 0,8348
7. Interação/Orientação para o estudante 0,6679 0,8560 0,2812 0,7448
8. Relacionamento escola-estudante 0,5340 0,8504 0,0000 0,7794
Quadro 1 - Resultados da análise de fiabilidade e validade convergente
Fonte: elaboração Própria (2018).
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.
1. Entorno 0,817
2. Qualidade 0,3172 0,742
3. [Link] 0,2688 0,4359 0,737
4. Satisfação 0,4280 0,4933 0,5171 0,747
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AUTORES | Alzira Maria Ascensão Marques, Maria Raimunda Marques Mendes 19
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20 ARTIGOS | O impacto do marketing relacional e do entorno na fidelização dos estudantes mediado pela satisfação: um estudo aplicado ao CCSo da UFMA
rar corroborada a hipótese H4. De fato, as inte- CCSo tem um efeito positivo na satisfação dos
rações que o CCSo mantém com seus estudantes seus estudantes (path coeficiente (β) = 0,209,
promovem a confiança deles na IFES. p<0,001, t-value=5,270). A qualidade exige
A compreensão das necessidades dos coragem e comprometimento de toda a organi-
estudantes tem efeito positivo em sua satis- zação. As IFESIFES devem apostar em um en-
fação (path coeficiente (β) = 0,224, p<0,001, sino de qualidade, com a entrega de mais bene-
t-value=5,051). Os resultados suportam a hipó- fícios aos estudantes e de um conjunto de ações
tese H5. As IFES, se compreenderem as neces- de confiança, responsabilidade e empatia que
sidades dos estudantes em termos de formação atendam às necessidades e superem as expecta-
e as necessidades do mercado de trabalho, e se tivas dos estudantes. Desse modo, sugere-se às
promoverem e trabalharem a capacidade de res- IFESIFES mais atenção ao mercado, investin-
postas para corresponder às expectativas dos es- do na qualidade do serviço de ensino e apostan-
tudantes, estão, assim, satisfazendo às necessi- do no desenvolvimento das competências cien-
dades desses estudantes. Esses resultados estão tíficas, pedagógicas e relações humanas de seus
de acordo com os estudos realizados no âmbito professores e na qualidade das instalações e dos
do setor da educação (TINTO; GOODSELL- recursos materiais que dão suporte ao ensino.
-LOVE; RUSSO, 1993; TINTO, 1996; RO- Os fatores do meio envolvente ajudam a
DRIGUES, 2003; KOTLER, 2000; KOTLER; explicar a satisfação dos estudantes. Os resul-
FOX, 1994; RIBEIRO, 1978; HEMSLEY- tados confirmaram que a existência no meio
-BROWN; OPLATKA, 2007). Kotler e Fox envolvente do CCSo de zonas verdes e de ser-
(1994) propõem um desafio perguntando quais viços têm uma influencia positiva na satisfação
as instituições educacionais que poderão viver dos estudantes (path coeficiente (β) = 0,229,
sem a observação e o conhecimento de seus p<0,001, t-value=5,051), corroborando, assim,
mercados, sem atração de recursos suficientes a hipótese H7. Esses resultados estão em con-
e a utilização desses programas para atender às formidade com os estudos de Anderson e Paine
expectativas desse mercado. (1975) e de Smart e Vertinsky (1984). O meio
Ribeiro (1978) defende que o ensino envolvente é de grande relevância para a satisfa-
oferecido pela Universidade deve ampliar-se e ção dos estudantes. Assim, as IFES precisam do
diversificar-se para atender, simultaneamente, a meio envolvente para formular suas estratégias,
dois objetivos: a implantação de programas de nomeadamente por meio do estabelecimento de
pós-graduação que satisfaçam às necessidades parcerias que sejam do interesse dos estudantes
de seu próprio desenvolvimento como centro e que complementem a sua atividade.
cultural e a multiplicação de cursos curriculares Os resultados (Figura 1) suportam a
e de sequência que supram as amplas necessi- hipótese H8: A satisfação dos estudantes in-
dades de preparação da força de trabalho que a fluencia positivamente a sua fidelização ao
sociedade nacional exige. Diz ainda o mesmo CCSo (path coeficiente (β) = 0,443, p<0,001,
autor que a Universidade deve diversificar seus t-value=6,672). Como tal, é importante para
serviços docentes para corresponder às expec- as IFES criar e implementar estratégias rela-
tativas e necessidades do estudante de perfil cionais e medir o nível de satisfação de seus
acadêmico ou de perfil profissional. estudantes, relativamente à qualidade de ensino
Sendo assim, é fundamental para as e do relacionamento que mantêm com os estu-
IFES fazerem pesquisa de mercado no senti- dantes, levando em consideração suas necessi-
do de identificar quais são as necessidades de dades e expectativas.
formação dos estudantes, levando em conside- A satisfação dos estudantes tem um efeito
ração as necessidades do mercado de trabalho. positivo na confiança no CCSo (path coeficiente
Os resultados (Figura 1) corroboram (β) = 0,576, p<0,001, t-value=17,338). Os resul-
a hipótese H6: A qualidade do serviço do tados corroboram a hipótese H9. Além de satis-
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fazer o cliente, é necessário manter uma relação assim, como o meio envolvente, zonas verdes
de confiança para promover sua fidelidade. e serviços, do CCSo revelaram uma influência
Os resultados (Figura 1) suportam a hipó- positiva na satisfação dos alunos. Por sua vez, a
tese H10: A confiança no CCSo tem influência satisfação e a confiança têm um efeito positivo
positiva na fidelização dos estudantes (path co- na fidelização dos estudantes à insígnia.
eficiente (β) = 0,264, p<0,001, t-value=4,943). Sendo assim, recomenda-se às IFES
Para Morgan e Hunt (1994), no marketing rela- maior atenção ao mercado, assim como aos fa-
cional, a confiança é uma variável chave, sendo tores relacionados com o meio envolvente. É
determinante para criar e manter relações de importante saber quais são as necessidades de
longo prazo. formação do mercado, bem como apostar na
qualidade do ensino, sendo que os professores
6 CONCLUSÃO representam um papel importante nessa qualida-
de e na relação com os estudantes. Deve existir
Nos últimos anos, mudanças na política, um alinhamento entre as necessidades do mer-
governança, estrutura e status de ensino superior cado de trabalho e a formação ministrada pelas
têm sido realizadas em todo o mundo. São delas, IFES. A empregabilidade dos estudantes é um
por exemplo, a privatização, a diversificação, a indicador da qualidade do ensino ministrada.
descentralização, a internacionalização e o au- É, por isso, importante sensibilizar as
mento da concorrência que são comuns à maio- IFES para a importância do papel dos profes-
ria dos países. Essas mudanças têm um efeito sores na satisfação dos estudantes. Seria conve-
sobre como as IFES operam hoje em dia e como niente investir no marketing interno como meio
são percebidas por seus stakeholders, sendo vis- para melhorar e implementar comportamentos
tas como forças motrizes para a mercantilização mais orientados para a satisfação dos estudan-
do ensino superior (GUPTA; SINGH, 2010). tes, apostando na melhoria da comunicação e
Nesse contexto, as IFES estão aplican- da interação com os estudantes. Essa ideia é
do o marketing para ganhar vantagem com- consistente com Brum (1998) que acrescenta
petitiva (HEMSLEY-BROWN; OPLATKA, que são as ações que a empresa deve utilizar
2007). Despertaram para a adoção de práticas adequadamente para ‘vender’ sua imagem aos
de marketing relacional, havendo autores que funcionários e seus familiares.
defendem a ampliação e a diversificação da Para a autora, um programa de comu-
oferta educativa de modo a corresponder às nicação interna bem feito é capaz de encora-
necessidades e expectativas do estudante ten- jar ideias, diálogos, parceria e envolvimento
do por base seu perfil, acadêmico ou profissio- emocional. Tudo isso traz a felicidade das pes-
nal, e as necessidades de preparação da força soas no ambiente de trabalho, e sugere que a
de trabalho qualificada que a sociedade exige comunicação interna é capaz de instituir rela-
(RIBEIRO, 1978). cionamentos integrados entre os empregados,
Procurou-se pesquisar, neste trabalho, as usando programas participativos capazes de
práticas de marketing relacional no âmbito de propiciar o comportamento do público interno.
uma IFES, inquirindo 547 estudantes do CCSo Para Grönroos (1995, p. 280-281) “o
da UFMA-Brasil. Os resultados suportaram a mercado interno é constituído de empregados.
hipótese teórica de investigação. A compreen- Motiva-se mais para a consciência dos servi-
são das necessidades e a qualidade do ensino ços e o desempenho orientado para o cliente
revelaram-se fundamentais na explicação da se houver uma abordagem ativa de marketing,
satisfação dos estudantes. O relacionamento em que uma variedade de atividades é usada
com os estudantes, as interações, também re- internamente de forma coordenada e ativa.” O
velaram ter um impacto positivo na satisfação autor apresenta um conceito de marketing in-
e na confiança dos estudantes na instituição, terno como uma estratégia de gerenciamento e
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seu foco é desenvolver nos funcionários uma formativa e o serviço prestado às necessidades
consciência do cliente. desses públicos. Assim como é importante a
Assim, é de extrema importância que as implementação do endomarketing no que diz
gerências das IFES se envolvam e deem todo o respeito a professores, eles revelaram exercer
apoio para as equipes docentes, de modo que um papel importante na qualidade do ensino e
elas se sintam apoiadas e motivadas para man- na relação com o estudante.
ter e promover relacionamentos internos, assim Desse modo, a lealdade do estudante é
como desempenhar de forma eficaz, serviços uma consequência da prática do marketing re-
de ensino de qualidade aos estudantes. lacional. Portanto, essa prática é de extrema
Atendendo aos valores médios obtidos importância para qualquer organização, quer
para cada variável analisada, é possível fazer pública quer privada e em especial as IFES
melhorias nas práticas de marketing relacional que lidam com o saber e são responsáveis pela
do CCSo. Para isso, torna-se necessário repen- formação de pessoas, orientando-as no ensino,
sar a IFES, adequar a estratégia, processos e es- pesquisa e extensão, que se altamente qualifica-
trutura organizacional de modo a criar teias re- das, contribuirão com soluções para os proble-
lacionais com seus egressos, empregadores dos mas de suas nações.
diplomados e com os prestadores de serviço de Como qualquer outro, o presente estu-
apoio externo, não esquecendo o papel dos pro- do apresenta algumas limitações; entre elas,
fessores nessa relação. Em suma, os gestores destaca-se o fato de se tratar do estudo de um
das IFES passam a ser essencialmente gestores caso, o CCSo da UFMA-Brasil, devendo ter-se
de relacionamentos, tendo como fim último re- cuidado com a generalização dos resultados.
lacionamentos win-win, de longa duração. Sugere-se o alargamento do estudo a outras
Para tanto, as organizações e especial- instituições e o teste do modelo por meio do
mente as IFES precisam entender o conceito de LISREL ou do AMOS, softwares que permitem
marketing relacional para poderem praticá-lo e, obter medidas que sumarizem a qualidade do
consequentemente, implementar o marketing in- ajustamento do modelo estrutural.
terativo e oferecer formações que correspondam
à necessidades de formação das economias da re- THE IMPACT OF RELATIONSHIP
gião e as metodologias de ensino personalizadas MARKETING AND THE
às necessidades dos estudantes. Nessa relação, ENVIRONMENT ON THE LOYALTY
as IFES começam por satisfazer os estudantes; OF STUDENTS MEDIATED BY
entretanto, nem sempre a satisfação é suficiente
SATISFACTION: A STUDY APPLIED
para fidelizar o estudante, sendo muito impor-
tante que as IFES desenvolvam com os estudan-
TO THE CCSO AT UFMA
tes uma relação de confiança e compromisso.
Neste contexto, as IFES enfrentam novos ABSTRACT
desafios e, com eles uma necessidade crescente
de conhecer melhor o seu público-alvo, ou seja, Higher education institutions (HEIs) implement
o seu cliente, registrando-se no setor do ensino marketing to gain competitive advantage. The
uma dificuldade acrescida: serão os clientes das loyalty of their students proves to be of greater
IFES os estudantes ou os empregadores dos di- strategic importance, not only in terms of their
plomados, sendo estes “o produto qualificado” return to HEIs to new formations, but also in
das IFES. Sem querer entrar em polêmicas no terms of their recommendations. The goal of
fim do trabalho, importa salientar que, para a this study is to verify the usefulness of HEIs’
IFES é importante conhecer as necessidades students orientation, studying the influence of
desses dois públicos-alvo: estudantes e empre- Relational Marketing practices on students’ sa-
gadores; só assim, é possível adequar a oferta tisfaction and loyalty. Thus, based on a sample
of 547 students from the Centro de Ciências
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AUTOR | Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira, Pablo Marlon Medeiros da Silva 27
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p27-42.2018
ARTIGOS
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 27-42, jul./dez. 2018
28 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 27-42, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTOR | Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira, Pablo Marlon Medeiros da Silva 29
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 27-42, jul./dez. 2018
30 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
para conferir títulos e diplomas, os quais devem tativas e a satisfação do estudante é o paradig-
ser registrados por uma universidade. ma da expectância/desconfirmação. Dessa ma-
Stallivieri (2006) explica, ainda, que as neira, a necessidade é fator de motivação para
faculdades são instituições organizadas e estão a busca da satisfação e a realização de uma ex-
sob o controle de uma administração central. pectativa pode ser considerada como satisfação
As faculdades integradas, faculdades isoladas, (SOUZA; REINERT, 2010).
escolas superiores e institutos superiores não O paradigma expectância/desconfirma-
têm autonomia e devem solicitar autorização ção abrange quatro vertentes: expectativas,
ao Poder Público e ao Ministério de Educação, desempenho, desconfirmação e satisfação. A
para abrir seus novos cursos. desconfirmação surge por meio da aversão per-
cebida entre as expectativas anteriores e o de-
2.2 SATISFAÇÃO DOS DISCENTES E sempenho atual, ou seja, realidade percebida.
QUALIDADE DOS SERVIÇOS NAS IES Diante disso, existem três possibilidades: des-
confirmação positiva, desconfirmação negativa
A satisfação de um discente está liga- e nenhuma desconfirmação. Quando o desem-
da ao sentimento positivo de orgulho que ele penho atual é superior ao esperado, a descon-
desenvolveu antes de ingressar na IES, e isso firmação é positiva; quando o desempenho atu-
ocorre quando ele encontra os recursos ade- al é inferior ao esperado, a desconfirmação é
quados para cumprir suas atividades acadêmi- negativa; e quando o desempenho atual ocorre
cas (SUM; MCCASKEY; KYEYUNE, 2010). conforme o esperado, não há nenhuma descon-
Bolliger (2004) afirma que a sua satisfação firmação (SOUZA; REINERT, 2010).
pode ser definida como as expectativas que ele Percebe-se que, enquanto a desconfirma-
tem antes e durante sua experiência na IES, e ção positiva produz satisfação, a desconfirmação
a percepção do valor da educação recebida en- negativa causa a insatisfação. Por exemplo, o es-
quanto integrante dessa, tornando a satisfação tudante forma suas expectativas sobre o curso,
um fator determinante sobre a sua motivação e aulas, oportunidades no mercado de trabalho,
retenção na IES. etc., antes de ingressar na IES e, somente ao fi-
Para Botello, Salinas e Pérez (2015), a nal da experiência com ela, faz sua desconfirma-
satisfação do discente é considerada ‘elemen- ção com base naquilo que foi percebido. Desse
to-chave’ para a avaliação da qualidade da edu- modo, as expectativas formadas antes de iniciar
cação oferecida, pois reflete a eficiência dos o curso acabam influenciando os julgamentos
serviços acadêmicos como um todo. Assim, a sobre o desempenho observado ao término do
visão do aluno sobre os serviços oferecidos, curso. Essa análise entre as expectativas forma-
suas necessidades e expectativas são indicado- das e a experiência ao longo do curso dirá se as
res para o aperfeiçoamento da gestão e desen- expectativas do graduando foram ou não atendi-
volvimento de programas acadêmicos. das (SOUZA; REINERT, 2010).
Diante disso, Albrecht (1992) afirma
que, para que haja uma boa administração de 2.3 ATRIBUTO DE SATISFAÇÃO DOS
serviços, é preciso que todos os interessados DISCENTES
reúnam esforços, de forma a assegurar que esse
processo ocorra da melhor forma possível. Para Segundo Mainardes e Domingues
tanto, a organização deve buscar informações (2008), um dos caminhos que levam ao reco-
sobre os desejos e as necessidades de seu pú- nhecimento de uma IES como referência por
blico e, posteriormente, verificar se estes estão suas ações e resultados é ter valores voltados
sendo atendidos. para a satisfação de alunos e da sociedade. Para
Uma abordagem que permite observar e isso, sua gestão deve visar à qualidade e aos
compreender a relação existente entre as expec- resultados; colaboradores competentes e com-
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AUTOR | Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira, Pablo Marlon Medeiros da Silva 31
prometidos; e serviços, seja de ensino, pesquisa Existem, também, os fatores que não afetam, de
e/ou extensão com qualidade. forma significativa, a satisfação dos discentes,
Nos últimos anos, alguns estudos têm como as atividades extracurriculares esportivas
sido desenvolvidos para verificar as variáveis e sociais no campus (SOUZA; REINERT, 2010).
que influenciam no grau de satisfação dos dis- Garmaisa e Sisilia (2014) realizaram uma
centes em relação à qualidade oferecida pelas pesquisa com o objetivo de mapear os atribu-
IES. Isso porque a aplicação de pesquisas de tos de satisfação e de insatisfação dos cursos de
satisfação é uma ferramenta importante para empreendedorismo no Business Administration
a formação de um ensino, pesquisa e exten- Studies Program, na Universidade da Telkom,
são de qualidade, que permite às IES tomarem Indonésia. Os resultados mostraram que os atri-
decisões assertivas para melhorar seus pontos butos com mais influência na satisfação dos alu-
fracos e aumentar seus pontos fortes, além de nos são os que auxiliam no processo de aprendi-
possibilitar que revejam seu planejamento e zagem para práticas empresariais (por exemplo,
adaptem seus programas e serviços para aten- simulações de negócios) e os com maior influên-
der às expectativas dos discentes, pois isso po- cia sobre a insatisfação do estudante são referen-
derá aumentar a eficácia do processo educacio- tes à infraestrutura física (luz, ventilação, cadei-
nal (COSCODAI; ARBEX, 2011; BOTELLO; ras, etc.). Esses resultados corroboram o estudo
SALINAS; PÉREZ, 2015). realizado por Corso et al. (2008), com 250 dis-
Yusoff, Mcleay e Woodeuffe-Burton centes de cursos de graduação noturno em uma
(2015) abordam que a satisfação do discen- universidade federal brasileira. Segundo os au-
te se dará pela percepção que ele tem sobre a tores, com base em uma análise de regressão, os
qualidade dos serviços oferecidos pela IES. Já atributos que explicam mais de 33% do nível de
Mainardes e Domingues (2008) entendem que satisfação dos discentes são: métodos de ensino
a satisfação dos discentes pode ser influencia- e estrutura física da IES. Mainardes e Domin-
da por duas características do desempenho da gues (2008) acrescentam a esses dois atributos
IES, que são: o intelectual, que engloba o en- as variáveis Mercado de Trabalho e Imagem da
volvimento do graduando com os professores, IES. Dessa forma, para avaliar a qualidade de
administradores e outros discentes; e o ensino uma IES, faz-se necessário considerar quatro
efetivo, que envolve o grau de preparação do atributos: Mercado de Trabalho, Estrutura da
graduando para sua carreira. IES, IES e Curso.
Entre os fatores que influenciam, po-
sitivamente, a satisfação dos discentes, estão: 2.3.1 Atributo mercado de trabalho
contato dos discentes com os docentes e admi-
nistradores; disponibilidade dos docentes para O mercado de trabalho é um sistema de
orientação profissional dos discentes; vida so- oferta que procura ser constituído por organiza-
cial dos discentes no campus; relacionamento ções que ofertam oportunidades de trabalho, de
entre docentes e administradores; contato dos forma a atrair candidatos interessados para um
discentes com colegas de curso; conteúdo do determinado cargo. No entanto, com as diversas
curso; equipamentos e condições da biblioteca; mudanças advindas dos avanços tecnológicos
qualidade do ensino oferecido e do material de e da globalização, as organizações passaram a
ensino (WILKINS; BALAKRISHNAM, 2013; ser bem mais exigentes quanto à contratação de
BOLLIGER, 2004). seus empregados, que agora precisam dispor de
Em contrapartida, entre os fatores que conhecimento (SILVA; OLIVEIRA; OLIVEI-
influenciam, de forma negativa, a satisfação RA, 2015). De forma que, a qualificação pro-
dos discentes, estão as expectativas não atendi- fissional tornou-se um pré-requisito para quem
das; a falta de compromisso dos docentes com busca ingressar no mercado de trabalho (MAR-
as turmas, e a indisponibilidade dos docentes. TINS; OLIVEIRA, 2017).
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32 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
Nesse contexto, o mercado de trabalho que seja possível monitorar as estratégias ado-
exerce uma pressão cada vez mais forte sobre o tadas (HANSSEN; SOLVOLL, 2015).
perfil do profissional desejado, exigindo novos Para Mainardes, Alves e Domingues
métodos para a execução do trabalho, como o (2011), a marca é fator decisivo, forte e possui
desenvolvimento de novas habilidades. Diante influência no comportamento do público-alvo,
disso, os cursos devem oferecer aos discentes sendo importante tanto para organizações com
a possibilidade de encerrar seus estudos, pre- fins lucrativos, como para aquelas sem fins lu-
parados para exercer atividades que requeiram crativos. Isso porque a marca é um forte fator
dinamismo e conhecimento diversos e com de diferenciação, que deve ser administrada de
perspectivas concretas de inserção no mercado forma estratégica pra criar um reconhecimen-
de trabalho (MIRANDA et al., 2013). to e uma identificação única para o mercado.
Diante disso, muitas IES consideram a sua ima-
2.3.2 Atributo estrutura das IES gem um determinante da lealdade do discente
(ALI et al., 2016; NAMBI, 2014).
Todo o ambiente que envolve o processo Outro fator importante para a IES é a sua
de ensino, pesquisa e extensão, como bibliote- reputação, definida como um conjunto de per-
ca, jardins, campos desportivos, entre outros cepções desenvolvidas a partir de experiências
espaços na IES, é essencial para o processo de pessoais que se tem com determinada organiza-
aprendizagem e determina a qualidade desses ção. Uma boa reputação indica excelência nos
serviços. Assim, um dos fatores determinan- serviços, que, no caso do ensino superior, está
tes que influenciam as decisões dos discentes em estabelecer as melhores práticas pedagógi-
na escolha da IES é a infraestrutura. Isso por- cas possíveis, que melhorem o aprendizado dos
que, instalações de alta qualidade são de for- discentes. Dessa forma, “[...] se considerarmos
te impacto sobre a aprendizagem do discente, que a marca é a promessa da empresa, então a
e instalações inadequadas podem prejudicar a reputação será construída através de uma res-
sua motivação. Dessa forma, a estrutura física posta eficaz no cumprimento da promessa.”
da IES afeta a experiência do discente com a (NAMBI, 2014, p. 15). É importante ressalvar
instituição, uma vez que a estrutura física pos- que os discentes satisfeitos são mais propensos
sibilita ao discente estudar em condições de a gerar uma propaganda ‘boca-a-boca’ positi-
qualidade (RODRIGUEZ, 2011; HANSSEN; va, devendo as IES estar atentas à sua reputa-
SOLVOLL, 2015). ção (MAINARDES; ALVES; DOMINGUES,
2011; HANSSEN; SOLVOLL, 2015).
2.3.3 Atributo IES
2.3.4 Atributo curso
No atual contexto do mercado de ensino
superior, as IES devem criar estratégias para Segundo Rodrigues et al. (2012), a qua-
atrair discentes. Porém, tanto para atrair quanto lidade e melhoria do ensino superior estão liga-
para reter discentes, as IES precisam identificar das à atenção que se dá aos fatores que exercem
as necessidades e entender as expectativas de- influência no nível de qualidade das IES, tais
les. Dessa forma, o nível de satisfação dos dis- como: qualificação dos docentes e dos técni-
centes está atrelado ao nível de qualidade dos cos administrativos, relação entre discentes e
serviços prestados pelas IES; por isso, as IES docentes; processos metodológicos de ensino.
não só precisam transmitir boa imagem ao mer- Para Coscodai e Arbex (2011, p. 3), é possível
cado como também serem competitivas nele. avaliar sob três aspectos o nível de satisfação
No entanto, para atingir esse nível de qualida- dos alunos com relação ao curso: “i) dar a opor-
de, deve-se realizar uma gestão institucional tunidade para os alunos opinarem sobre melho-
adequada e avaliar como mensurá-la, de forma rias no curso; ii) incentivá-los a dar retorno so-
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AUTOR | Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira, Pablo Marlon Medeiros da Silva 33
bre os métodos de ensino e aprendizagem; iii) rização de uma das IES estudadas de expor seu
permitir que as instituições realizem buscas por nome, optou-se por não divulgar os nomes das
melhores práticas, construindo indicadores de instituições. Para tanto, foi-se necessário dar
melhoria junto ao mercado.” No entanto, para nomes fictícios a cada uma das IES, assim, os
isso, é preciso que haja uma boa relação entre termos utilizados são: IES Pública A, IES Pú-
docentes e discentes, para que seja estimulado blica B, IES privada C e IES privada D.
o debate acerca das ideias que podem melhorar De acordo com as informações obtidas
a satisfação dos discentes com os fatores envol- junto às secretarias das quatro IES, identifica-
vidos no processo de ensino e aprendizagem. ram-se 1.368 discentes matriculados no ano de
2015. Com relação ao retorno dos questioná-
3 METODOLOGIA rios, entregues, pessoalmente, à maioria dos
discentes do curso de administração em suas
O presente artigo se caracteriza como uma respectivas IES, obteve-se um retorno de 394.
tipologia descritiva (VERGARA, 2000) a fim de Dessa forma, a amostra deste estudo é repre-
mostrar as características do fenômeno investiga- sentativa no nível de 95% de confiança. Para
do, estabelecendo correlações entre as variáveis. ser válida, tal pesquisa deveria abranger, pelo
Além disso, possui cunho quantitativo, traduzin- menos, 305 discentes (erro amostral de 5%),
do-se em números as opiniões e as informações, de acordo com a fórmula do cálculo amostral
a fim de analisá-las (KAUARK; MANHÃES; extraída de Medina (2013). Tal estudo se carac-
SOUZA, 2010). O método para coleta de dados teriza por possuir uma amostra não probabilista
foi uma survey (FREITAS et al., 2000). por conveniência (MALHOTRA, 2006).
Para a realização desta pesquisa, foi No que diz respeito à análise dos dados,
utilizada a aplicação de um questionário com procedeu-se à análise descritiva e à análise in-
perguntas fechadas, embasado no questionário ferencial dos dados, por meio da técnica Teste
de Mainardes e Domingues (2008). O instru- T. A fim de proceder tais análises, fez-se o uso
mento tem como finalidade identificar os atri- do software SPSS.
butos de melhor desempenho na satisfação dos
discentes. O questionário é composto por 52 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
itens e está dividido em quatro grupos: grupo
1 - Atributos do Mercado de Trabalho (6 itens); 4.1 ANÁLISE DE CONFIABILIDADE
grupo 2 – Atributos das IES (17 itens); grupo 3 DO INSTRUMENTO
– Atributos da Estrutura da IES (8 itens); grupo
4 – Atributos do Curso (21 itens). Assim, cada Segundo Almeida, Santos e Costa
respondente atribuiu uma nota de 0 a 10 para (2010), o coeficiente alfa de Cronbach é usado
cada um desses itens, de forma que, ao final, para medir a correlação entre respostas em um
fosse possível fazer uma classificação geral de questionário, por meio das respostas dadas pelos
cada atributo. respondentes. O valor do alfa pode sofrer alte-
Com o objetivo de analisar o grau de sa- rações de acordo com o tamanho da população
tisfação dos discentes de administração, com na qual foi aplicado. Para este estudo, conforme
seus cursos e suas IES em Mossoró, escolheu- os dados apresentados na Tabela 1 e a escala de
-se como universo de pesquisa o corpo discente classificação do alfa de Cronbach de Freitas e
dos cursos de quatro IES, das quais duas são Rodrigues (2005), o atributo Mercado de Traba-
públicas, sendo uma universidade federal e ou- lho apresentou confiabilidade alta, enquanto os
tra universidade estadual; e duas são privadas, atributos Estrutura da IES, IES e Curso apresen-
uma universidade e outra faculdade. No entan- taram uma confiabilidade muito alta.
to, para garantir o sigilo dos dados que serão
apresentados nesta pesquisa, devido a não auto-
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34 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
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tou boas médias, entre as quais, destacam-se: dos cursos oferecidos pela IES (7,4) e com a es-
imagem da IES no mercado (7,9) e estágios e trutura de apoio aos estudos e ao envolvimento
empregos (7,8) e ambiente no campus, vida no dos discentes nas atividades da IES. No entan-
campus e clima no campus (7,4). Analisando o to, os serviços de computador (4,7) e segurança
atributo Estrutura da IES, os itens infraestrutu- no campus (5,2) são os fatores que obtiveram as
ra e instalações da IES (7,3), estrutura geral dos médias mais baixas dos discentes.
cursos oferecidos pela IES (7,2) e segurança Ao analisar os resultados apresentados
no campus (7,1), foram os que mais se sobres- na IES privada C, pode-se observar que os dis-
saíram; mas, no que diz respeito aos serviços centes sentem-se satisfeitos com a imagem do
de computador (6,4), os discentes estão bem curso (8,7), com a relação existente entre os
menos satisfeitos. E por último, os discentes docentes e discentes e a acessibilidade aos do-
ainda estão satisfeitos com a qualidade do cur- centes (8,6), e, também, com a qualidade dos
so (7,5), com a confiança dos discentes na IES docentes (8,7). Além desses, os discentes estão
(7,1) e com a qualidade da IES percebida pelos satisfeitos com o ambiente no campus, vida no
discentes (7,0); no entanto, quanto às ligações campus e clima no campus (8,8), estágios e
com o exterior, intercâmbios com o estrangeiro empregos (8,5) e imagem da IES no mercado
(5,5), atividades desportivas, culturais e asso- (8,3), esses fatores compõem os atributos do
ciações de discentes (6,0) e gerenciamento e Mercado de Trabalho. Contatou-se, ainda, que
solução de reclamações de discentes (6,1), os no que tange à Estrutura da IES, os discentes
discentes não demonstraram muita satisfação. sentem-se satisfeitos também com a infraestru-
Atualmente, o curso de graduação em adminis- tura e as instalações da IES (8,7), tal como com
tração da IES pública A atende às necessidades a qualidade dos docentes (8,7) e qualidade do
dos discentes quanto às questões referentes ao curso (8,7). Destaca-se a biblioteca (9,3), que
Curso e ao Mercado de Trabalho, as quais são obteve a maior média, seguidos pela confiança
consideradas as mais satisfatórias pelos discen- dos discentes na IES e nos seus funcionários
tes. Por outro lado, o atributo IES não vem ob- (8,4) e na qualidade da IES percebida pelos dis-
tendo o resultado esperado pelos discentes. centes (8,0); tais fatores influenciam diretamen-
Na IES pública B, o atributo que teve te a percepção geral dos discentes no que tange
maior média foi o Mercado de Trabalho. Dos a sua satisfação com a IES como um todo.
itens avaliados neste atributo, estágios e empre- Na IES privada D, no que diz respeito
gos (8,6) e a imagem da IES no mercado (7,9), ao Curso, os discentes mostraram-se satisfeitos
apresentaram as melhores médias, seguidos dos com os seguintes fatores: relação existente entre
fatores ligados ao ambiente universitário, vida discentes e docentes e acessibilidade aos docen-
no campus e clima no campus (7,1). Já no atribu- tes (8,1), qualidade dos docentes (8,0), respeito
to Curso, os discentes atribuíram médias maio- ao planejamento inicial e atividades marcadas
res para a qualidade do curso (8,5), imagem do no curso (7,9) e capacidade dos docentes em
curso (8,4) e capacidade dos docentes em sala sala (7,9). Sobre a Estrutura da IES, os discen-
(8,4), demonstrando mais satisfação com esses tes estão satisfeitos com a estrutura da IES para
itens. Em relação ao atributo IES, os discentes serviços pedagógicos (7,1) e com a disponibi-
mostraram-se satisfeitos com o atendimento da lidade da IES de recursos humanos e materiais
equipe administrativa da IES (7,5), o atendimen- (7,0); porém, não demonstraram tanta satisfação
to na secretaria e os serviços de apoio na IES com os serviços de computador (5,2). No atri-
(7,5) e administração do curso (7,5); contudo, buto IES, o que mais satisfaz os discentes são
não tão satisfeitos com a ligação com o exterior a administração do curso (7,6), atendimento da
e intercâmbio com o estrangeiro (5,7). Enquan- equipe administrativa da IES (7,5) e construção
to, no atributo Estrutura da IES, os discentes das relações existentes da IES com os discentes
mostraram-se satisfeitos com a estrutura geral (7,5). Destaque para a relação discente/docen-
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36 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
tes, que são os fatores mais positivos na escolha de diversas áreas do conhecimento, melhoran-
do curso e da IES, segundo estudos de Castro do, na prática, o aprendizado adquirido em sala.
et al. (2007). Em contrapartida, questões liga- Dessa forma, os discentes estão satisfeitos com
das a intercâmbio com o estrangeiro (5,1) não seu curso e com as oportunidades que o merca-
satisfazem os discentes. Já no atributo mercado do oferece aos discentes destas IES (egressos).
de trabalho, entre os itens declarados como de Fica evidente que as IES A, B e D pre-
melhor desempenho na avaliação da satisfação cisam melhorar suas infraestruturas. Isso é
dos discentes, destacam-se: estágios e empregos importante para a sua aplicabilidade e funcio-
(7,4), cursos com foco no mercado de trabalho, nalidade na prática, para não passar uma ima-
na aprendizagem profissional e nos discentes gem de algo que não funciona direito. Em uma
(7,2), tal como ambiente no campus, vida no pesquisa realizada com discentes em fase de
campus e clima no campus (7,2). No entanto, vestibular, que objetivava identificar a relevân-
a imagem da IES no mercado (6,8) não satisfaz cia de fatores como infraestrutura, instalações e
plenamente os discentes. segurança no campus, esses foram os fatores de
De forma geral, para as quatro IES estu- satisfação mais citados (CASTRO et al., 2007).
dadas, a satisfação dos discentes está voltada Em adição, Garmaisa e Sisilia (2014) e Corso
para uma graduação bem vista pelo mercado et al. (2008) apontam que o atributo infraestru-
de trabalho, e com docentes bem qualificados, tura é um dos fatores de maior impacto na ava-
sendo este um dos fatores de maior satisfação liação geral de uma IES.
para os discentes, merecendo destaque nesse Nesta pesquisa, constata-se, ainda, que
processo. Por outro lado, a baixa satisfação dos os discentes das IES A, C, e D esperam mais
discentes tem relação com a inexistência ou es- do atributo IES. Nesse atributo, os itens que
cassez de atividades desportivas, culturais e as- mais se destacam são: atendimento da equipe
sociações de discentes; de interações, na forma administrativa da IES e administração do cur-
de intercâmbios, parcerias e convênios da IES so. Castro et al. (2007) enfatizam, como fator
com instituições internacionais; e de disponibi- importante da escolha, o bom relacionamento
lidade e/ou acesso aos serviços informatizados. com a coordenação e, como fator de influência
Estes últimos são pontos que merecem atenção na marca de uma IES, o ambiente acadêmico.
e ações de melhorias por parte das respectivas Porém, os discentes mostram-se insatisfeitos
IES, na busca por soluções que minimizem ou com as ligações com o exterior, intercâmbios
eliminem essas insatisfações. com o estrangeiro. No entanto, vale salientar
Segundo Mainardes e Domingues que tais fatores não são os mais importantes,
(2008), os discentes satisfeitos com o serviço pois não estão ligados ao objetivo central das
educacional que recebem tendem a concluir o IES (MAINARDES; DOMINGUES, 2008).
curso e, até mesmo, realizar outros na mesma Em síntese, observa-se que o atributo
IES, como, também, indicar a IES e o curso a Curso alcança a melhor classificação em ter-
outras pessoas. Esses são os princípios da fide- mos de satisfação, em, pelo menos, três das
lidade dos discentes, que depende da sua satis- quatro IES mencionadas, enquanto o atributo
fação com o serviço oferecido pela IES. Dessa Mercado de Trabalho está em segunda posição,
forma, a satisfação dos discentes atuais atrai e os atributos Estrutura da IES e IES ocupam
novos discentes, afinal, a propaganda ‘boca a a terceira e a quarta posição, respectivamente.
boca’ tem forte poder no mercado. Outro item Isso significa que os discentes de administra-
que satisfaz os discentes das IES estudadas está ção das IES pesquisadas estão mais satisfeitos
ligado à facilidade para obtenção de estágios com os atributos Curso e Mercado de Trabalho
e empregos, que a graduação propicia; neste e menos satisfeitos com os atributos Estrutura
quesito, segundo Castro et al. (2007), o estágio da IES e IES.
proporciona ao discente a visão interdisciplinar
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38 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
ve-se rejeitar a hipótese de igualdade de variân- blicas tinham um nível de expectativa superior
cias (MERINO; DÍAZ, 2005). quanto à qualidade do Curso e da IES do que
No entanto, para entender se há dife- os discentes das IES privadas, antes de ingressa-
rença significativa entre as variâncias das IES rem em suas instituições e participarem de seus
públicas e IES privadas, é preciso analisar tam- cursos, tendo em vista que, como explicam Mar-
bém as médias para cada atributo dessas IES, ques, Pereira e Alves (2010), a expectativa que
contidas na Tabela 4. Isso permite saber se os o discente tem de sua instituição antes do seu
discentes das IES públicas estão mais satisfei- ingresso modera o seu nível de satisfação para
tos do que os discentes das IES privadas, ou com ela durante a sua permanência.
vice-versa com cada atributo. Comparando-se, Contudo, esses resultados, apresentados
portanto, as IES públicas com as IES privadas, em relação ao comparativo entre as IES por
verificam-se discrepâncias significativas entre constituição, devem ser tratados com cautela,
o nível de satisfação dos discentes dos dois gru- tendo em vista que outras características mar-
pos nos quatro atributos analisados: Mercado cantes e significativas, tais como: mantenedora,
de Trabalho (t = -2,57; p =0,01), IES (t = -5,74; porte e tempo de instalação, também precisam
p = 0,00), Estrutura da IES (t = -6,73; p = 0,00) ser consideradas e podem, inclusive, impossi-
e Curso (t = -3,46; p = 0,00). Ou seja, há uma bilitar um agrupamento consistente.
considerável diferença entre as IES por consti-
tuição, sendo que os discentes das IES privadas 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
apresentam maior grau de satisfação com seu
curso e sua IES do que os discentes das IES O objetivo geral do trabalho se concentra
públicas, a um nível de 99% de confiança. em mensurar o grau de satisfação dos discentes em
Tais resultados sugerem que os critérios Administração com as variáveis: Mercado de Tra-
e as expectativas dos discentes, além das dife- balho, IES, Estrutura da IES e Curso; e, em análise
renças já apresentadas, também podem variar de adicional, fazer um comparativo entre as IES pes-
acordo com a constituição da IES. Em concor- quisadas. Dessa forma, pode-se considerar que o
dância com Souza e Reinert (2010), isso poderia objetivo foi atingido à medida que se encontraram
ser um indício de que os discentes das IES pú- resultados que atenderam a tal delimitação.
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AUTOR | Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira, Pablo Marlon Medeiros da Silva 39
De modo geral, a satisfação dos discentes gree of satisfaction of the students in Adminis-
das IES investigadas se relaciona, fortemente, tration with their courses and their Institutions
com uma graduação bem vista no mercado de tra- of Higher Education in the city of Mossoró,
balho e com discentes bem qualificados. Destarte, RN. The study presents a descriptive typology,
faz-se importante destacar, ainda, que a baixa sa- with a quantitative approach, using, for purpo-
tisfação dos discentes se refere à inexistência de ses of the study, a questionnaire elaborated by
atividades culturais, esportivas, intercâmbios e Mainardes and Domingues (2008), composed
disponibilidade de sistemas informatizados. of 52 questions and divided into four attribu-
Em síntese, o atributo curso alcançou me- tes: Labour Market, IES, structure of IES and
lhor destaque dentro do ranking de satisfação, se- Course. Three hundred and ninety four students
guido do atributo mercado de trabalho. Destaca-se, of the course of administration of the four IES
ainda, que há uma diferença entre as IES por cons- of city, two public and two private, participa-
tituição, sendo que os discentes das IES privadas ted in the survey. The data collected indicate
apresentam maior grau de satisfação com seu curso that students, in general, are more satisfied with
e sua IES do que os discentes das IES públicas. the attributes related to the Course and to the
De modo geral, pode-se inferir que os discen- Labor market and less satisfied with the HEI
tes estão satisfeitos com seus cursos e com a aceitação and its physical structure. Additionally, through
de seus egressos no mercado de trabalho. Em espe- the Student t test, it was found that there is a
cial, eles reconhecem que os métodos de ensino utili- significant difference in the level of satisfaction
zados em seus cursos favorecem uma boa formação of students of public IES in relation to the stu-
profissional e que os seus docentes mostram-se quali- dents of private IES.
ficados para exercer o seu ofício. Contudo, não estão
muito satisfeitos com as instalações físicas e com os Keywords: Satisfaction. Students. IES.
serviços de relações internacionais de suas IES.
Contudo, a presente pesquisa, mesmo com NIVEL DE SATISFACCIÓN DE LOS
suas limitações de tempo e número de responden- DISCENTES DE ADMINISTRACIÓN
tes, possuem informações que podem subsidiar os CON SUS CURSOS E SUS IES
gestores das IES analisadas, bem como dos ges-
tores de IES de outras cidades, em suas análises RESUMEN
e planejamentos. A análise do nível de satisfação
com os atributos da IES e do curso possibilita aos La presente investigación tiene por objetivo
seus gestores identificar as suas forças e fraquezas mensurar el grado de satisfacción de los dis-
e traçar estratégias para explorar essas forças e/ou centes en administración con sus cursos y sus
eliminar ou amenizar as fraquezas. Instituciones de Enseñanza Superior de la ciu-
Sugere-se que outros trabalhos sejam dad de Mossoró, RN. El estudio presenta ti-
realizados tendo em vista tal temática, envol- pología descriptiva, con abordaje cuantitativa,
vendo outros fenômenos explicativos que pos- utilizando, para fines del estudio, de uno cues-
sam correlacionar-se com a satisfação discente, tionario elaborado por Mainardes e Domingues
considerando-se sua multicausalidade. (2008), compuesto por 52 cuestiones y dividido
en cuatro atributos: Mercado de Trabajo, IES,
LEVEL OF SATISFACTION OF Estructura de las IES y Cursos. 394 discentes
MANAGEMENT STUDENTS WITH del curso de administración de las cuatro IES
THEIR COURSES AND THEIR IES de la ciudad, siendo dos públicas y dos priva-
das, participaron de la investigación. Los datos
ABSTRACT colectados indican que los discentes, de forma
general, están más satisfechos con sus atributos
The present research aims to measure the de- relacionados al Curso y al Mercado de Trabajo
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40 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
y menos satisfechos con las IES y su estruc- ______. Ministério da Educação. Instituto
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Student, se comprobó que hay una diferencia nais. Censo da Educação Superior 2014.
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AUTOR | Aline Francilurdes Nery do Vale, Juliana Carvalho de Sousa, Agostinha Mafalda Barra de Oliveira, Pablo Marlon Medeiros da Silva 41
GARMAISA, A.; SISILIA, K. The analysis of Satisfação em serviços educacionais: estudo mul-
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42 ARTIGOS | Nível de satisfação dos discentes de administração com seus cursos e suas IES
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AUTORES | Leonel Gois Lima Oliveira, Carlos Eduardo Franco Azevedo, Rafael Kuramoto Gonzalez, Márcio Moutinho Abdalla 43
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p43-56.2018
ARTIGOS
RESUMO
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44 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
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46 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
Lei dos Três Estados e ao Método Positivo. Por 3.2 POSITIVISMO NO BRASIL: O LEGA-
essa razão, Lins (1964) considera Justiniano o DO POSITIVISTA NO FINAL DO SÉ-
primeiro positivista brasileiro. CULO XIX E UMA ANÁLISE DESSA
Lins (1964) comenta, ainda, que o HERANÇA COM BASE NO BINÔ-
passo mais importante, contudo, fora dado MIO RUPTURA-CONTINUIDADE
por Luís Pereira Barreto (1840 - 1923), DE BACHELARD E DE KUHN
com a obra “As Três Filosofias”, na qual
a positivista era apontada como capaz de Trata-se de uma tarefa extremamen-
substituir a tutela intelectual exercida pela te ousada analisar a herança positivista sob a
Igreja Católica. Aponta, também, que a ótica de outros filósofos. Mais ousado ainda
grande adesão, senão a principal delas, foi é inserir alguns pontos de vista dos estudos
a de Benjamin Constant Botelho de Maga- de Gaston Bachelard e de Thomas Kuhn sob
lhães (1836 - 1891), consagrado mestre da uma perspectiva comparada. O quadro se torna
mais complexo, quando se faz isso nos limites
Escola Militar, devido à sua grande compe-
de um artigo. Por esta razão, escolheu-se um
tência didática (LINS, 1964). único enfoque, uma única linha de abordagem,
Benjamin Constant nasceu em Ni- que privilegie alguns conceitos e, assim, se es-
terói. Foi militar, engenheiro, professor e tabeleça um paralelo entre as epistemologias
estadista. Adepto do positivismo, em sua de três grandes filósofos: Comte, Bachelard e
vertente filosófica e religiosa - cujas ideias Kuhn. Compreende-se que esta prática poderá
se difundiram entre a jovem oficialidade do contribuir para que professores e alunos pos-
Exército. Participou da Guerra do Paraguai, sam interligar o positivismo com outras episte-
construiu pontes, trincheiras e fez mapas. mologias, evidenciando algumas semelhanças
Pegou malária nesta Guerra e, ao voltar ao e diferenças existentes entre elas.
Brasil, a doença foi gradativamente o debi- Para facilitar o entendimento, optou-se
por fazer a análise com base nos acontecimentos
litando, o que acabou provocando sua mor-
transcorridos no final do século XIX, quando as
te, aos 55 anos, em 1891 (LINS, 1964). influências positivistas foram sentidas em todos
Apesar desse sacrifício à carreira mi- os campos do poder nacional (econômico, social,
litar, a vocação de Benjamin Constant não político e militar) e contribuíram com a queda do
era essa. Inspirado pelo pai, Constant sem- Império e com a Proclamação da República.
pre quis ser professor. E foi nesta carreira Um aspecto que contribuiu para o fim do
que Benjamin mais contribuiu com a pene- Império foi a questão militar. A posição secun-
tração das ideias positivistas no Brasil. É dária dada aos militares pelo Imperador D. Pe-
relevante ressaltar que sua ação profissional dro II, por si só, já era uma quebra de paradig-
se deu em torno das primeiras instituições ma, já que os militares tinham uma posição de
brasileiras, em que ensinou matemática de destaque no Primeiro Reinado, ocasião em que
os engenheiros militares construíram fortalezas
nível superior. Mas foi nas Escolas Milita-
com elevado grau de conhecimento científico e
res que ele se tornou o grande divulgador tecnológico. No Segundo Reinado, esse conhe-
da filosofia positivista, e um líder entre os cimento se perdeu. Além disso, após a Guerra
militares, o que acabou resultando em gran- do Paraguai, o Brasil, vitorioso, colocou-se em
des transformações políticas e educacionais posição de destaque no cenário mundial. Na vi-
no Brasil (LINS, 1964). são dos militares, que começavam a sofrer in-
fluências positivistas, difundidas por Benjamin
Constant, caberia alforriar os soldados negros
que lá combateram: “a missão do Exército era
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AUTORES | Leonel Gois Lima Oliveira, Carlos Eduardo Franco Azevedo, Rafael Kuramoto Gonzalez, Márcio Moutinho Abdalla 47
muito mais nobre do que caçar escravos fu- (monarquia, república, manutenção do Império,
jões.” (AZEVEDO, 2011, p. 10). A partir de etc.). Para Kuhn, o que houve foi uma quebra de
então, alguns militares encontraram na filoso- paradigma. Por outro lado, ao observar a popu-
fia Comtiana e nas questões que inquietavam lação (o sujeito), existiu um continuísmo da or-
o país (desordem social, crise abolicionista e dem social, já que não se modificou a condição
religiosa, etc.), o suporte para rejeitar a cultura de vida das massas. Segundo Azevedo (2011),
imperial, que se baseava nos estudos jurídicos seria muito difícil que uma população semianal-
e não nas ciências sociais e naturais. Utilizou- fabeta se convertesse e, a partir daquele momen-
-se, assim, o positivismo como um instrumento to, assumisse uma condição que favorecesse o
ideal para a formulação das exigências de uma desenvolvimento científico. Este fato corrobora
nova forma de autoridade para o Brasil. o pensamento de Kuhn, uma vez que um novo
Naquela oportunidade, as elites brasilei- paradigma conserva boa parte das realizações
ras perceberam que havia necessidade de rup- científicas passadas, e que o novo conhecimento
tura com a ordem vigente. A monarquia estava sempre resgata parte do anterior, sob nova ótica.
enfraquecida, o paradigma vigente não estava A ideia de continuidade parece ainda mais
atendendo mais às demandas sociais e, desse clara em Bachelard, uma vez que, no conceito
modo, era necessária a mudança de regime ou de perfil epistemológico, está garantida a perma-
uma ruptura provocada por todas as camadas nência das diversas doutrinas filosóficas. Desse
da sociedade. A união da questão militar, com modo, a vertente epistemológica de Bachelard
as mazelas sociais, com a perda de poder da criticaria o positivismo que não conseguiu con-
igreja e de parte da aristocracia serviram de verter a visão da população que continuou com
munição explosiva para o estopim aceso no o pensamento subalterno e não se emancipou,
seio do corpo do Exército. Era justamente o que como se ainda tivesse um senhor a obedecer. A
precisavam os jovens oficiais do Exército, para Proclamação da República foi um evento que
nortear suas decisões, em um regime imperial caracterizou muito bem o descontinuísmo histó-
em decadência. Dessa forma, Benjamin Cons- rico de Bachelard, no qual um momento históri-
tant pode ser visto como um homem que soube co na ciência não é imediatamente seguido por
unir os ideais positivistas com as aspirações da outro sem que haja cortes ou rupturas.
juventude militar. Ele chegou a ser percebido, No século XX, o positivismo foi grada-
por exemplo, como “pacificador do que revo- tivamente perdendo o ímpeto, mas deixou suas
lucionário; não destruiu, nem subverteu. Pelo marcas. Pertencem ao saldo positivo: o pensa-
contrário, poupou a Pátria da perturbação, de- mento antropológico antirracista; a exigência
sordem e morte. Em meio às espadas desnudas, sempre reiterada da austeridade financeira no
era o símbolo da concórdia: persuadia, abran- trato da coisa pública; o interesse pela humani-
dava e dirigia.” (LINS, 1964, p. 314). zação das condições de trabalho operário, que
É possível conjecturar que, na visão resultou em propostas de leis trabalhistas, im-
de Benjamin Constant e da epistemologia de plementadas quando políticos gaúchos de for-
Comte, a ruptura provocada pela nova forma de mação positivista ascenderam ao poder central
governo não poderia significar uma continuidade em 1930 (LINS, 1964).
das mazelas sociais vigentes no Império. Seria
necessária uma conversão da população, que 3.3 A ADMINISTRAÇÃO E O POSITI-
deveria caminhar de forma harmônica, ordenada VISMO
e científica para o suposto Progresso. Sob a óti-
ca de Kuhn, o advento da República também Vale ressaltar que, embora a abordagem
significaria uma ruptura com o passado. Houve positivista seja duramente criticada, é ampla-
diálogo na sociedade, tensões foram geradas. mente empregada em pesquisas de administra-
Havia defensores para diversos paradigmas ção. Contudo, o termo “positivismo” não é em-
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48 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
pregado com frequência quando a abordagem é lhos que destacam a orientação positivista de
adotada. Alguns questionamentos podem ajudar pesquisadores em administração (DALMORO
no processo de condução do encontro pedagó- et al., 2007; VERGARA; CARVALHO, 2002;
gico, levando os participantes a refletirem. Os BUELENS et al., 2008; GRIMMER; HAN-
autores sugerem as seguintes reflexões: por que SON, 2007; RODRIGUES; CARRIERI, 2001;
pesquisadores evitam o uso do termo ao usarem MACHADO; MATOS; PINHEIRO, 2013)
a abordagem? Será que eles se envergonham além de outros. É compreensível o desejo de
em assumir o uso da abordagem epistemológica pesquisadores pregarem e defenderem crenças
positivista? Haveria um recente preconceito da acadêmicas, todavia o discurso dominante, em
academia em relação a esse paradigma? O uso termos gerais, parece se distanciar da prática a
da abordagem seria suficiente para rotular um cada novo trabalho publicado.
pesquisador como um “sujeito positivista”?
No processo de construção do conheci- 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓ-
mento em administração, é comum que autores GICOS
desenvolvam argumentos equivocados sobre o
positivismo, por vezes tratando-o como uma Tendo em vista as características deste
abordagem metodológica (AZEVEDO et al., trabalho, o estudo empírico realizado foi desen-
2011). O que esses autores não levam em con- volvido a partir de uma abordagem qualitativa,
sideração é que uma pesquisa de abordagem dado que o interesse fundamental foi relatar
metodológica qualitativa, como a análise de uma experiência pedagógica, na forma de uma
conteúdo, pode empregar, sem reserva, a abor- oficina e, a partir daí, desenvolver a proposi-
dagem epistemológica positivista (DELLAG- ção. Os diversos relatos de processos de ensino
NELO; SILVA, 2005). Mesmo abordagens me- e aprendizagem em Administração da obra de
todológicas qualitativas, que não empregaram Davel, Vergara e Ghadiri (2007) serviram de re-
como paradigma epistemológico o positivismo, ferência para a elaboração deste estudo. Refor-
costumam sofrer fortes influências da corrente. ça-se, também, a utilização de filmes para am-
Chizzotti (2003, p. 228) reforça a argumenta- pliar a reflexão e o amadurecimento de ideias
ção alegando que “[...] a pesquisa qualitativa, com os estudantes de curso de Administração
ainda atada ao positivismo, empenha-se em dar conforme apresentado nas obras de Machado e
uma fundamentação rigorosa e formalizar os Matos (2012) e de Costa e Ramos (2015), em
métodos científicos qualitativos, recorrendo a especial na parte apresentação de um capítulo
algum expediente quantitativo.” Desse modo, de uma série televisiva. Porém, o presente tra-
frequentemente, é possível se deparar com pes- balho é bastante análogo da descrição apresen-
quisas que aparentam seguir um protocolo ou tada por Monteiro, Munhoz e Bertholini (2012)
uma regra geral: criticam o positivismo; apre- quando realizaram um encontro pedagógico
sentam alguma abordagem metodológica qua- com um grupo de doutorandos do curso de
litativa e, ao final, “se desculpam” pela impos- Administração para apresentar e vivenciar, de
sibilidade de seus resultados não poderem ser forma prática, os aspectos relacionados à epis-
generalizados. Ver Mattos (2006). temologia Histórica e das ideias propostas por
Mesmo sob tantas críticas, problemas e Gaston Bachelard.
lacunas, o paradigma positivista continua sendo O trabalho supre uma lacuna encontrada
amplamente utilizado. Por essa razão, perma- em estudos da área de educação e ensino de Ad-
necem as seguintes dúvidas: por que continua ministração. São poucos os relatos encontrados
sendo usado? E já que está sendo empregado, na literatura que tratam de uma estrutura siste-
por que é tão criticado? Será que tais críticas matizada de ensino na área. É possível encon-
não passam de um mero modismo? No Brasil trar estudos de mesma natureza na área de edu-
e no mundo, é possível elencar diversos traba- cação, educação física e ensino de ciências (Ex:
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50 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
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A verdade, meu amor, mora num poço Desprezastes esta lei de Augusto Comte
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz E fostes ser feliz longe de mim (duas vezes)
E também faleceu por seu pescoço
O autor da guilhotina de Paris (2x) Vai, coração que não vibra
Com teu juro exorbitante
Vai, orgulhosa, querida Transformar mais outra libra
Mas aceita esta lição: Em dívida flutuante
No câmbio incerto da vida
A libra sempre é o coração A intriga nasce num café pequeno
Que se toma pra ver quem vai pagar
O amor vem por princípio, a ordem por base Para não sentir mais o teu veneno
O progresso é que deve vir por fim Foi que eu já resolvi me envenenar
Quadro 2 - Letra da Música Positivismo
Fonte: (SANTOS; SILVA, 2010).
Em seguida, a letra da música foi distri- da, solicitou-se que os discentes formassem um
buída para cada aluno. Enquanto a música toca- quarteto, a partir da junção de duas duplas, em
va, os alunos puderam acompanhar atentamen- uma tentativa de que pudessem discutir sobre
te cada um dos versos e estrofes, que estavam uma posição distinta ou semelhante àquela já
sendo projetadas na tela. tratada nas duplas iniciais. Essa medida acabou
Em seguida, foi proposto que os alunos tornando-se uma espécie de triangulação entre
formassem duplas para discutir a letra da mú- os estudantes, para uma tentativa de consen-
sica segundo os conhecimentos adquiridos nas so na formulação de uma pergunta única pelo
leituras prévias sobre o positivismo. Sugerimos quarteto formado (ABDALLA et al., 2018).
a eles que elaborassem, em conjunto, uma per- Realizou-se um breve intervalo e, duran-
gunta para um debate proposto para a parte fi- te ele, as questões formuladas pelos quartetos
nal do encontro pedagógico. foram recolhidas e inseridas nos slides para es-
Na segunda parte do encontro, exibiu-se timular o debate posterior. Era esperado que
o capítulo do seriado americano House, episó- fossem sete perguntas devido à quantidade de
dio 14 da 7ª temporada (KELLEY; CLARCK- quartetos formados (sete). Todavia, no total, os
SON, 2011). Este foi escolhido, em especial, alunos suscitaram o debate com quatorze per-
devido ao fato de apresentar elementos positi- guntas que podem ser observadas no Quadro 3.
vistas no ambiente da medicina. No filme, ao No retorno do intervalo, foi proposto que os
buscar identificar os mecanismos para cura de alunos se sentassem formando um círculo na sala de
um paciente, a equipe médica estabelece diag- aula, preferencialmente próximos aos integrantes
nósticos a partir dos sintomas relatados pelo dos quartetos formados. Apresentou-se, no projetor,
mesmo ou por exames clínicos realizados. As- cada uma das perguntas elaboradas e solicitou-se
sim, buscam identificar a doença que origina que um representante do quarteto explicasse o que
todos os sintomas, na medida em que vai tra- levou à formulação daquele questionamento. Todos
tando o paciente, para evitar que ele sinta do- apresentaram os questionamentos formulados e es-
res ou incômodos decorrentes da patologia não cutaram o que foi proposto pelos demais colegas.
diagnosticada precisamente. A partir dos questionamentos levan-
Após a exibição do capítulo do seriado tados, iniciou-se um debate geral com toda a
editado, solicitou-se aos alunos que, ainda em turma sobre o positivismo, suas influências, se-
duplas, discutissem sobre as influências do po- melhanças e diferenças com outras epistemolo-
sitivismo no vídeo, ao mesmo tempo em que se gias e como essas questões foram apresentadas
questionava se eles gostariam de reescrever a por meio dos recursos didáticos utilizados pela
questão formulada na etapa anterior. Em segui- equipe que elaborou o encontro.
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52 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
Quarteto 1
• Até que ponto o positivismo é típico/inerente ao estudo de organizações empresariais modernas?
• Existe um vínculo entre epistemologia e o tipo de organização pesquisada?
Quarteto 2
• É possível haver uma abordagem única, de forma que se use somente o positivismo (ou a racionalidade
analítico-empírica) para resolver problemas?
• Existe papel para a intuição no processo de descoberta ou ela se dá unicamente pelas evidências
empíricas?
Quarteto 3
• O que é a verdade na ótica positivista? Não seria uma verdade muito generalizada para que possa
funcionar em uma ciência social?
• O amor pelo princípio, a ordem por base, e o progresso por fim são os únicos caminhos para a felicidade?
Noel Rosa acha que essa é uma questão relativa porque seu objetivo de amor foi feliz por outra via,
contrariando o princípio da verdade absoluta e generalizada.
Quarteto 4
• É possível a Administração prescindir do positivismo?
• E é desejável a Administração prescindir do positivismo?
• A redução de discussões complexas a testes de hipóteses pode desvincular a teoria da prática criando
uma falsa (?) dicotomia entre estas duas dimensões/aspectos?
• O criador da guilhotina morreu decapitado... Neste caso, a relação sujeito/objeto resolveu-se de forma
contundente?
Quarteto 5
• Considerando que a racionalidade analítico-empírica é orientadora das ciências sociais orientadas pelo
positivismo, como se pressupõe trabalhos cujo teor metodológico necessariamente se sustenta em
técnicas que consideram o sujeito como um sujeito cognoscente?
• O deslocamento da realidade social leva ao distanciamento da ciência para com o sujeito; propõe-se a
existência de uma verdade única; onde o sujeito está situado no desenvolvimento teórico, por exemplo?
Quarteto 6
• Até que ponto é possível a separação entre o sujeito e o objeto de pesquisa? Ainda que possível, esta
separação é ou não benéfica? Em que situações?
Quarteto 7
• Um conceito que permeia a Teoria das Organizações é o conceito de organizações reificadas.
Considerando que a organização reificada escapa do indivíduo e se estabelecem num plano além do
humano, ela não se tornaria um objeto sujeito a algum tipo de lei natural?
Quadro 3 - Perguntas formuladas pelos quartetos para o debate geral
Fonte: elaborado pelos autores com base na oficina realizada.
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aprofundados na época como os juros exorbi- didático-pedagógico dos estudantes. Para isso,
tantes e a dívida postergada pelo governo. foi apresentado um debate acerca dos princi-
Em relação ao filme, pode-se afirmar pais conceitos da epistemologia positivista, de
que, mesmo com a decisão de se apresentar um forma a fornecer insumos didático-pedagógi-
episódio que retrata um cenário do cotidiano de cos àqueles que desejam explorar encontros
um hospital, os alunos elaboraram perguntas sobre esta temática nos níveis de graduação ou
que demonstram a relação do positivismo com pós-graduação, especialmente em nível stricto
a Administração ou com os estudos das orga- sensu. Para a realização do objetivo proposto,
nizações, indo ao encontro do que foi proposto foram apresentadas, também, proposições teó-
por Carvalho e Davel (2005) e Davel, Vergara ricas que embasaram este artigo e o encontro
e Ghadiri (2007). pedagógico, assim como as ferramentas didáti-
Outras questões buscaram identificar cas, execução do encontro e os resultados gera-
elementos característicos do positivismo como dos pelos participantes condutores do encontro.
a existência de uma única verdade, a relação Tendo como pressuposto o fato de que
entre sujeito/objeto e a possibilidade de gene- um encontro pedagógico de qualidade sobre
ralização. O debate se prolongou até o final esta epistemologia exige uma profunda refle-
do horário estabelecido para a conclusão do xão teórica e conceitual, buscou-se apresentar
encontro. Vale ressaltar que todas as ativida- conceitos-chave sobre a epistemologia positi-
des foram realizadas conforme estabelecido no vista como a história do seu maior pensador e
cronograma. O recurso da verificação do tempo fundador, Auguste Comte; a história da ascen-
por meio de um cronômetro e da organização são positivista na Europa e outras regiões; a
das atividades por etapas foram realçados pe- história do positivismo no âmbito Brasil e seus
los elaboradores do encontro como forma de principais pensadores como Miguel Lemos,
demonstrar, na prática, a utilização de alguns Teixeira Mendes, Pereira Barreto e Benjamin
elementos objetivos do positivismo. Constant; uma análise da herança positivista
Desse modo, acredita-se que o objetivo brasileira com base no binômio ruptura-conti-
da realização do encontro/oficina foi alcança- nuidade de Bachelard e de Kuhn; o uso desta
do. De uma forma lúdica, leve e criativa, foram abordagem em pesquisas contemporâneas de
utilizados recursos que permitiram explorar os Administração assim como suas principais crí-
conhecimentos prévios dos alunos sobre o as- ticas; e, por fim, foram apresentadas as princi-
sunto, bem como aqueles abordados somente pais influências.
no próprio evento. Apresentou-se, também, a dinâmica do
encontro, desde a sua preparação até os resul-
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS tados obtidos. Primeiramente, elaborou-se a es-
tratégia pedagógica. Para isso, realizou-se um
A discussão da corrente epistemológica planejamento, buscando detalhar os assuntos
positivista tem grande importância na ciência abordados, as estratégias de execução e os re-
da Administração. Seu estudo e reflexão têm cursos necessários para a realização do encon-
reconhecido espaço em pesquisas de diver- tro. A seguir, foram apresentados e detalhados
sos campos da Administração: Organizações, os procedimentos da execução deste plano, en-
Estratégia, Marketing, Recursos Humanos, tre os quais se pode citar a projeção da letra
Finanças, Produção, Logística, Sistemas de da música “Positivismo”, do vídeo do seriado
Informação, Administração Pública, Ensino & House, a solicitação de elaboração de pergun-
Pesquisa, Inovação, além de outros. tas pelos participantes e o debate geral. Por fim,
Procurou-se, neste relato, sistematizar foram apresentados os resultados obtidos com
uma forma de estudo da epistemologia positi- o encontro, seus questionamentos, os principais
vista, propiciando um melhor aproveitamento pontos abordados e a metodologia utilizada.
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54 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
The Positivism emerged as one of the first Palabras-clave: Enseñanza. Posgrado. Positi-
streams of thought systematically recognized vismo. Epistemología. Administración.
as a social science epistemology. It attempted to
systematize a way to study the positivist episte-
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56 ARTIGOS | Refletindo sobre a objetividade: uma experiência didática sobre o Positivismo de Comte
(44 min.), son., color. J. C. Kelley, prod., S. J. RODRIGUES, S.; CARRIERI, A. A tradição
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 43-56, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros, Carla Daniela Silva 57
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p57-75.2018
ARTIGOS
RECONHECIDOS E VALORIZADOS:
A SEDUÇÃO NOS RITOS, RITUAIS E CERIMÔNIAS
EM UMA AGÊNCIA BANCÁRIA
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 57-75, jul./dez. 2018
58 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 57-75, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros, Carla Daniela Silva 59
jeto de estudo, esses eventos de forma especí- da perspectiva, a cultura é algo que a organiza-
fica, o que justifica a realização desta pesquisa, ção é, ou seja, a cultura é a metáfora-raiz para
além de que a abordagem interpretativa dos ri- conceituar a organização.
tuais, ritos e cerimônias faz parte dos interesses Um conceito que traduz a abordagem da
de pesquisa das autoras. cultura como variável é o de Schein (1984, p.
Inicialmente, apresentamos a introdução 3), para quem a cultura organizacional consti-
do trabalho, com suas justificativas, impor- tui-se dos “pressupostos básicos que um grupo
tância e delimitação, objetivos e procedimen- inventou, descobriu ou desenvolveu ao apren-
tos empregados. Em seguida, apresentamos der como lidar com os problemas de adaptação
os conceitos e perspectivas teóricas utilizadas externa e integração interna” que são transmi-
para análise dos resultados. Na terceira parte, tidos entre as gerações por serem considerados
descrevemos os procedimentos técnicos da como a forma correta de perceber, pensar e sen-
pesquisa. Na quarta parte, apresentamos e dis- tir em relação a esses problemas.
cutimos os resultados alcançados. Por fim, na Para explicar o conceito de cultura orga-
quinta parte, nossas considerações finais sobre nizacional, Schein (2009) propõe que essa deva
os objetivos alcançados e uma agenda de pes- ser analisada a partir de três níveis: artefatos vi-
quisa para futuros estudos encerram o trabalho. síveis, valores e crenças e pressupostos básicos.
De acordo com o conceito de Schein (1984), a
2 CULTURA ORGANIZACIONAL: cultura organizacional é algo que a organização
PERSPECTIVAS TEÓRICAS possui, ou seja, uma variável independente que
influencia os demais aspectos da organização.
O termo cultura tem sido pesquisado por Desse modo, as organizações são analisadas
várias áreas do conhecimento, como sociolo- em seus aspectos econômicos e materiais e
gia, antropologia, psicologia, comunicação, como instrumentos e mecanismos de adaptação
administração, entre outros. Em cada um des- (SMIRCICH, 1983).
ses campos, os conceitos têm enfoques diferen- Ainda considerando a cultura como va-
tes. Neste estudo, considerando que o campo riável, pode-se caracterizar a cultura organi-
da pesquisa é uma organização, orientamo-nos zacional como o conjunto de valores compar-
pelos trabalhos desenvolvidos nos estudos or- tilhados, na maioria das vezes, pressupostos
ganizacionais. Ao pesquisar o conceito de cul- transmitidos por histórias e outros meios sim-
tura organizacional nesses trabalhos, encon- bólicos, que buscam estabelecer tanto atitudes
tramos diversas conceituações, de acordo com consideradas adequadas como inaceitáveis
perspectivas diferentes (PETTIGREW, 1979; (GRIFFIN; MOORHEAD, 2007; ELSBACH;
DEAL; KENNEDY, 1982; SMIRCICH, 1983; STIGLIANI, 2018). Como exemplo, Griffin e
FLEURY, 1987; FREITAS, 1991a, 1991b; Moorhead (2007) citam o fato de ser inaceitá-
MOTTA, 1996; MARTIN, 2001; ALVESSON, vel para algumas empresas que os clientes se-
2002; ALCADIPANI; CRUBELLATE, 2003; jam responsabilizados no caso de ocorrência de
SCHEIN, 2009) entre outros. imprevistos ou problemas. Em outras empre-
Smircich (1983), por exemplo, conside- sas, segundo o autor, predomina a ideia oposta,
ra que a cultura organizacional é pesquisada a ou seja, deve-se responsabilizar o cliente por
partir de duas conceituações: (1) cultura como problemas que possam surgir ou punir os fun-
variável e a (2) a cultura como metáfora. Na cionários que cometerem erros ou, por outro
primeira perspectiva, de cunho funcionalista, a lado, tratar os funcionários como o bem mais
cultura é algo que a organização possui e, por- precioso da empresa.
tanto, pode ser gerenciada tal e qual qualquer Griffin e Moorhead (2007) complemen-
outra variável organizacional, como a tecnolo- tam que, geralmente, os valores são aceitos
gia, tarefa, pessoas e estrutura. Já para a segun- como verdadeiros, consistindo em pressupos-
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60 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
tos básicos dos funcionários da empresa, aban- acordo com as definições de que as organiza-
donando a ideia de preceitos escritos em livros ções são formas de manifestações humanas,
direcionados a programas de treinamento. Os a expressão de ideias, símbolos e interações
autores observam que, em muitos estudos, a (MARTIN, 2001). Desse modo, entende-se que
cultura organizacional é tratada como “uma as organizações têm uma dimensão simbólica,
poderosa influência sobre os funcionários exa- construídas socialmente pelos membros que
tamente porque, em vez de explícita, torna-se nela interagem (MORGAN, 1996).
uma parte implícita de seus valores e de suas Cavedon (2004, p. 4) explica o concei-
convicções” (GRIFFIN; MOORHEAD, 2007, to de cultura organizacional nessa perspectiva.
p. 400). Porém, os autores argumentam, que, Para essa autora, cultura organizacional é “a rede
apesar de as organizações articularem e disse- de significações que circulam dentro e fora do
minarem os valores que entendem representar espaço organizacional, sendo simultaneamente
sua cultura, os funcionários somente os adota- ambíguas, contraditórias, complementares, dís-
rão se os tiverem como seus, o que não aconte- pares e análogas, implicando ressemantizações
cerá se esses tiverem que consultar os manuais que revelam a homogeneidade e a heterogenei-
para lembrarem-se de quais são esses valores. dade organizacional.” Assim, esse termo é en-
Questionamentos acerca da satisfação tendido sob o ponto de vista das consciências
com o trabalho representam, em geral, o grau de individuais, significando um conjunto de inter-
satisfação dos funcionários em relação ao am- pretações da realidade pelos indivíduos.
biente de trabalho, referindo-se principalmente A construção de signos é parte elementar
à maneira como esses se sentem em relação às desse processo de verificação da dimensão sim-
expectativas da organização, às práticas de re- bólica, e esses podem constituir várias ferra-
compensas e a outros aspectos, o que, muitas mentas para uso contínuo da sociedade, sendo
vezes, leva a uma confusão conceitual de que a própria linguagem construída dessa forma. A
cultura e clima organizacional sejam sinônimos comunicação é estabelecida através de signos,
(SCHEIDER; EHRHART; MACEY, 2013). transferindo sentidos e ideias ao receptor da
Apesar de pontos congruentes entre os dois mensagem, e o meio organizacional não se es-
conceitos, a diferenciação cabe no que se refere quivaria da utilização dos símbolos até mesmo
à característica primordialmente descritiva que por não haver a possibilidade de se pactuar essa
a cultura organizacional possui e o caráter ava- reprodução social. Dessa forma, os símbolos
liativo que o clima organizacional e a satisfação criados no meio organizacional são acompa-
com o trabalho têm. Nessa perspectiva da nhados por procedimentos implícitos ou explí-
cultura como variável, há também a possibili- citos, possibilitando sua consolidação e legiti-
dade de existência de hierarquia, precisamente, mação (FLEURY, 1987; FREITAS, 1991a).
acerca de níveis de cultura organizacional. Nesse entendimento, as organizações são
Em síntese, essa perspectiva considera que a vistas como padrões de discursos simbólicos
cultura organizacional é uma variável organi- mantidos por meio de símbolos (linguagem,
zacional e, portanto, pode ser medida e geren- signos), sendo a cultura organizacional um con-
ciada a partir das orientações organizacionais junto de símbolos e significados passíveis de
quanto a objetivos e a metas, pois ela indepen- interpretação (SMIRCICH, 1983; SALAZAR;
de da percepção do indivíduo (RODRIGUES, SILVA; FANTINEL, 2015). Dessa maneira, os
1997; ELSBACH; STIGLIANI, 2018). Nesse indivíduos interpretam e compreendem esses
sentido, a cultura organizacional é gerenciada símbolos de acordo com suas experiências so-
para influenciar o desempenho organizacional ciais e históricas. Morgan (1996, p. 131), nessa
(GOCHHAYAT; GIRI; SUAR, 2017). mesma direção, afirma que “nas organizações
Já a perspectiva de que a cultura orga- existem frequentemente sistemas de valores
nizacional é a própria organização está em diferentes que competem entre si e que criam
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62 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
dade. Para Vaghetti, Padilha e Maia (2006), os lorizadas. De acordo com Motta (1996, p. 21),
padrões culturais são elaborados por amontoa- rito “é um conjunto de atividades elaborado e
dos ordenados de símbolos significantes, sendo dramatizado, que reúne num único evento ou
possível ao homem encontrar algum sentido num conjunto de eventos executados através de
nos acontecimentos, mantendo-o vivo e ativo interações sociais; são mensagens de conteúdo
socialmente. Dessa forma, ao buscar-se a com- simbólico voltadas para uma determinada au-
preensão da cultura organizacional, não só os diência.” Principalmente, os ritos contribuem
símbolos são importantes, mas é fundamental na construção do tempo e cortes nas rotinas
compreender o significado atribuído e a utiliza- sociais. Trazendo essa característica para o am-
ção que os funcionários fazem deles. biente de trabalho, observa-se a produção de
Considerando a natureza interpretativa ações que visem tornar o período de tempo a
desta pesquisa, em que o foco de estudo são os ser cumprido de forma agradável e prazerosa,
ritos, os rituais e as cerimônias organizacionais, podendo o tempo de trabalho ser representa-
cabe aqui ressaltar a conceituação dos referidos do subjetivamente e carregado de significação
termos enquanto elementos simbólicos pratica- (MARTINS, 2002).
dos nas organizações com determinados objeti- Motta (1996, p. 21) define ritual como
vos. A literatura sobre rituais nas organizações sendo “conjuntos detalhados e padronizados
considera que esses são uma função da inten- de técnicas e comportamentos que tratam com
cionalidade humana para alcançar os diversos ansiedades, mas produzem resultados de con-
objetivos organizacionais (KOSCHMANN; sequências práticas.” Para Rodrigues (2002),
McDONALD, 2015), sendo utilizados ainda rituais são considerados regras de conduta, a
para muitos outros propósitos sociais e indi- chave para a compreensão da constituição das
viduais (SMITH; STEWART, 2011). Nessa sociedades humanas e um meio eficaz para a
perspectiva, os rituais facilitam a dinâmica de interpretação de aspectos culturais.
grupos sociais (FISCHER et al., 2013), desem- Plester (2015) define os rituais como
penhando quatro funções centrais para o traba- sequências repetitivas de atividades que ex-
lho em equipe: pressam e reforçam os valores fundamentais
a) fornece marcadores confiáveis de da organização, quais objetivos são mais im-
participação em grupo; portantes, quais pessoas são importantes e
b) demonstra comprometimento com o quais são dispensáveis. Em outra perspectiva,
grupo; os rituais são convenções socialmente estipu-
c) facilita a cooperação com coalizões ladas pelo grupo (LEGARE; SOUZA, 2012;
sociais; WATSON-JONES; LEGARE, 2016). A des-
d) aumenta a coesão dos grupos so- peito das diferentes definições, o processo de
ciais (WATSON-JONES; LEGARE, ritualização implica a encarnação de símbolos,
2016). associações simbólicas, mediante gestos, ações
Esses termos (ritos, rituais e cerimônias), que apresentem um sentido especial para quem
geralmente, são utilizados como sinônimos, os pratica num determinado contexto. Da Mat-
apesar das diferenças entre eles. Trice e Beyer ta (1997) esclarece que os rituais constituem
(1985) definem que os ritos são constituídos de momentos essencialmente cotidianos na vida
um conjunto de atividades elaborado, dramáti- social que foram deslocados e adquiriram uma
co e planejado, que podem consolidar as diver- simbologia, e, conforme o contexto e o momen-
sas formas de expressão cultural em um even- to, mudam a significação para algo considerado
to, o qual é realizado por meio de interações principalmente especial.
sociais. Segundo esses autores, é por meio dos Sobre cerimônia, Motta (1996, p. 21)
ritos que as regras sociais são definidas, esti- diz que essa “refere-se a um conjunto de ritos
lizadas, convencionadas e, principalmente, va- interconectados com um evento ou ocasião
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particular.” Um casamento ou o jubileu de uma membros da empresa. Neste caso, pode-se to-
organização são uma cerimônia. Silva, Fossá mar, como exemplo, a admissão de uma pessoa
e Ramos (2013) entendem que as cerimônias, na organização e o processo de seu treinamento.
ritos e rituais constituem-se de atividades pla- Para Trice e Beyer (1984), os ritos de
nejadas que visam ilustrar de forma prática e reforço tornam públicos os resultados positi-
materializada, a cultura da empresa. Para esses vos da cultura organizacional e que reforçam
autores, trata-se de eventos coletivos que unem as identidades sociais e seu poder, tornando os
pessoas que compartilham os mesmos valores méritos individuais públicos, com o objetivo de
culturais. As cerimônias são utilizadas para estimular esforços similares e enfatizar o valor
reforçar as normas e os valores que são con- social da observância das regras. Para Silva,
siderados importantes, e que são passados por Fossá e Ramos (2013), o ritual de reforço visa
intermédio de ritos, os quais, em função da re- engradecer o resultado positivo, o êxito logra-
petição e importância, passam a ser denomina- do, colaborando na motivação tanto individual
dos rituais (SILVA; FOSSÁ; RAMOS, 2013). como grupal. Nesse caso, é colocada para os
Beals e Hoijer (1953, p. 496) diferen- funcionários a importância da coesão desses
ciam cerimônia de ritual. Para esses autores, dentro da sociedade corporativa (SILVA; FOS-
ritual é um modo prescritivo para realizar de- SÁ; RAMOS, 2013).
terminados eventos. Já a cerimônia é definida Os ritos de renovação, como Trice e
pelos autores como um evento que envolve um Beyer (1984) explicam, têm, por objetivo, a
conjunto de rituais entrelaçados e selecionados, renovação das estruturas sociais e o aperfeiço-
que ocorrem em um determinado momento e amento de sua dinâmica, utilizando, para tal,
espaço físico. Trice e Beyer (1984) também fa- programas específicos. Com isso, reafirmam
zem a distinção entre os dois termos, utilizando aos membros do grupo que ações estão sendo
o termo cerimônia para referir ao contexto em feitas para solucionar os problemas, e, dessa
que os rituais ocorrem. Considerando a discus- forma, esses ritos legitimam e reforçam os sis-
são em torno da utilização desses termos, Islam temas de poder e autoridade existentes. Para
e Zyphur (2009, p. 115) esclarecem que “estu- Silva, Fossá e Ramos (2013), o ritual de reno-
dar rituais, portanto, implica examinar vários vação está ligado às novas tendências de alte-
ritos e sua expressão em organizacionais ceri- ração comportamental esperada pelo mercado,
mônias”, incluindo como exemplos as declara- trabalhada através da apresentação de novos
ções formais da organização e jantares ofereci- produtos e comportamentos.
dos para funcionários recém-contratados. O ritual de hierarquia visa ao reforço da
Existem diferentes tipos de rituais corpo- estrutura hierárquica da empresa, sendo, geral-
rativos, variando a natureza e o caráter de um mente, realizado por meio de palavras do pre-
ritual conforme seus futuros desdobramentos. sidente da companhia (SILVA; FOSSÁ; RA-
Para Trice e Beyer (1984), os ritos de passagem MOS, 2013).
são aqueles que ajudam na transição de pesso- Para Trice e Beyer (1984), os rituais de
as para novos ambientes físicos e sociais, isto redução de conflitos procuram restabelecer o
é, nos casos de admissão e de treinamento de equilíbrio quando as relações sociais estão de-
pessoal. Assim, esses ritos podem minimizar as terioradas, amenizando, dessa forma, os níveis
mudanças relacionadas a novos papéis sociais, de conflito e de agressão. Isso porque, com
restabelecendo o equilíbrio das relações sociais esses ritos, o equilíbrio das relações sociais é
em processo. Para Silva, Fossá e Ramos (2013), reconstituído, compartimentando o conflito e
o ritual de passagem é, principalmente, utiliza- seus efeitos de ruptura. O ritual de redução de
do para a integração de um novo empregado no conflito busca possibilitar dinâmicas de grupo,
meio organizacional, ou até mesmo quando se jantares e lazeres que proporcionam maior inte-
dá a promoção de cargo ou aposentadoria dos ração entre as pessoas; e, além disso, podem-se
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tos ritualizados ocorrem mais frequentemente Esse tipo de cerimônia apresenta a finalidade
do que imaginamos e sua contribuição para a primordial de integrar e garantir a continuidade
formação da identidade e da imagem do corpo de sistemas que já estavam em funcionamento
é bem mais intensas quanto mais impregnadas antes da novidade e possui um forte atributo li-
de signos simbólicos forem as cerimônias insti- gado à preservação das estruturas constituídas
tucionais.” (IASBECK, 2013, p. 55). do poder, caracterizando-se, fortemente, por
Iasbeck (2013) acrescenta classificações atitudes conservadoras e reacionárias (CAVE-
para ritos, rituais e cerimônias. No momento DON, 2010; IASBECK, 2013).
das festividades, sejam de final ou meramente Os ritos de indefinição caracterizam-se
comemorativas no decorrer do ano, a presen- pela dúvida e pela transição, pela provisorie-
ça tácita ou estridentemente de alguns mitos dade e pela indefinição. Denominados também
de autoridade que são revividos, como o poder por ritos liminares evidenciam a posição in-
encarnado na história da empresa, na figura de termediária do objeto ritualizado, tendendo,
seus fundadores, pioneiros, principais empre- inclusive, em alguns momentos, a estabilizá-lo
endedores, é uma forma de reforçar a cultura em locais de passagem, de transição e de es-
corporativa. Já nas solenidades de despedida, pera. São rituais que tendem a ampliar o fim
imperam as emocionalidades, rememorações da situação anterior e as possibilidades futuras
de fatos e sensações passadas. Basicamente, e incertas, apresentando certo grau de garantia
ocorrem discursos consoladores, justificantes ainda que duvidosa (IASBECK, 2013, p. 58).
ou otimistas. Esses momentos apresentam a Os rituais possibilitam o fortalecimento
característica de serem bastante previsíveis re- das marcas da passagem, não deixando dúvidas
dundantes e essencialmente afirmativos. Cons- quanto à consagração de uma mudança, qual-
tituem-se de linguagens gestuais e corporais quer que seja. Isso porque os rituais têm a fun-
pouco flexíveis, alguns olhares padronizados e ção de regular as emoções, o desempenho para
ritmicamente harmonizados para produzir efei- alcançar objetivos e as interações sociais (CA-
tos diferenciados como a lástima e a alegria, VEDON, 2010; IASBECK, 2013; HOBSON et
a frustração e o otimismo. Encerram-se geral- al., 2017). A situação de ausência desses peque-
mente com resignação, conforto e consolação, nos ou grandes cerimoniais pode comprometer
superando o fato e esquecendo rapidamente as relações, afrouxar os laços de um acordo e
(IASBECK, 2013). até mesmo desacreditá-lo. Isso pode ocorrer
Em relação aos ritos de agregação, as ca- não somente em relação às leis instituídas, mas,
racterísticas predominantes constituem-se de pre- inclusive, entre as partes.
parar a organização para a novidade, procurando Nas organizações de simbolismo intensi-
preservá-la de perigos que possam desestabilizar vo, a “liderança é, essencialmente um exercício
seu funcionamento. Esse rito objetiva ainda a in- de controle dos significados por meio da mani-
tegração de indivíduos e situações novas com um pulação simbólica.” (WOOD JUNIOR, 2000,
mínimo de custo emocional/psicológico, visando p. 24). A visão da cultura como instrumento de
à preservação do equilíbrio organizacional (TRI- controle, bem como modelos e tecnologias de
CE; BEYER, 1984; IASBECK, 2013). gestão, e formas organizacionais contemporâ-
Particularizando a cerimônia de agre- neas o são, é expressa por Silva (2003, p. 809),
gação, tem-se o momento da posse de um entendendo que a liderança como um processo
novo cargo, caracterizadas, principalmente, por organizacional também se torna um poderoso
olhares e atitudes receptivas, discursos verbais mecanismo de controle.
nos quais é predominante a adesão às causas Os ritos servem ao poder instituído nas
da organização, o anúncio de mudanças suaves, organizações, visando à sua consolidação e ao
promessas de continuidade e de correspondên- êxito, sejam essas empresas, autarquias, entida-
cias às expectativas dos integrantes do grupo. des públicas, grupos informais ou organizações
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66 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
voluntárias. Os ritos apresentam a mesma ca- numéricos, o que incorre em alguns riscos, por
racterística de serem compreensivelmente efi- exemplo, a subjetividade do pesquisador, a re-
cazes de manutenção das estruturas do poder dução da compreensão do outro e a represen-
vigente. Entretanto, “os ritos só se prestam a tatividade da fala individual em relação a um
evitar atritos por estarem a serviço de uma ten- coletivo maior (MINAYO; SANCHES, 1993).
dência destacada no comportamento humano, A estratégia metodológica desenvolvida é a
qual seja a de preservação da vida, da espécie, pesquisa de campo em uma organização do se-
das rotinas e das garantias, ainda que ilusórias, tor bancário, visto que a pesquisa foi realizada
de segurança.” (IASBECK, 2013, p. 60). no local onde os fenômenos estudados ocorrem
Ademais, a atuação dos ritos nivela e (FLICK, 2009).
apazigua diferenças, fazendo com que o ne- O campo considerado para a pesquisa foi
cessário trânsito entre afinidades, diferenças e uma das agências de um Banco de origem es-
indiferenças não se dê sem cuidados especiais. panhola localizada em Uberlândia, o qual será
Para Iasbeck (2013), trata-se de uma massifica- identificado nesta pesquisa como Banco Euro
ção necessária e relevante para a operaciona- O corpus de pesquisa foi construído por meio
lidade empresarial e seu pleno funcionamento. da fonte documental, recursos fotográficos e
Para tanto, leva-se em consideração seu aspecto a técnica de pesquisa pautada nas entrevistas
organizacional tornando impossível a prosperi- semiestruturadas com dez funcionários de um
dade diante as arbitrariedades e liberalidades total de vinte e cinco pessoas que trabalham na
pertinentes nos grupos aculturados. Os ritos, agência, sendo a maioria dessas mulheres (18).
os rituais e as cerimônias conservam, em sua A documentação consiste numa forma de re-
essência, a caracterização necessária para que o gistro e sistematização de dados e informações
empregado sinta-se produto do meio, vinculado colocando-os em condições de análise mais
a uma rede coesa e segura, permitindo sua dedi- evidente (FLICK, 2009).
cação integral e plena. Buscando respaldo em Boni e Moreschi
No entanto, Koschmann e McDonald (2007), utilizamos recursos fotográficos por
(2015) desafiam a literatura sobre rituais cen- essa técnica permitir ao presente trabalho uma
trada na utilização instrumental dos rituais e no percepção visual mais eficaz, vez que se tra-
modo como esses são empregados nos ambien- ta do registro e da apropriação, utilizando-se,
tes organizacionais. Os autores consideram os prioritariamente, as fotografias que corroboram
significados latentes e efeitos não intencionais a pesquisa. A aplicação da técnica ocorreu da
dos rituais, defendendo a premissa de que esses seguinte forma: inicialmente, solicitamos ao
podem possuir agência, ou seja, não devem ser setor de pessoal da agência que nos fossem ce-
reduzidos às intenções e propósitos humanos, didas fotos produzidas nos principais eventos
visto que os rituais organizacionais têm capaci- do banco para que assim pudéssemos proceder
dade de agir e fazer a diferença. com as entrevistas, durante as quais os funcio-
Essa revisão da literatura pretendeu ofe- nários responderiam às perguntas baseando-se
recer uma visão da dimensão simbólica das na observação dessas fotografias.
organizações, concentrando-se nos conceitos e No entendimento de Boni e Moreschi
tipos de ritos, de rituais e de cerimônias e como (2007, p. 154), “em razão de seu caráter cultural,
esses operam no contexto organizacional. a fotografia, seja extraída de arquivos seja fruto
de trabalhos de campo, pode e deve ser utilizada
3 PROCEDIMENTOS DA PESQUISA como fonte de conexão entre os dados da tra-
dição oral e a memória dos grupos estudados”,
A abordagem desta pesquisa é realiza- portanto, o uso de recursos fotográficos não
da de forma qualitativa, priorizando-se os fa- ocorre, necessariamente, com a produção de fo-
tores do ambiente natural em detrimento dos tos pelo pesquisador. Fomos atendidas e recebe-
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mos 4 fotos dos seguintes eventos: Café da ma- destacando como banco de varejo na maioria
nhã em comemoração pelo Dia das Mães; Dia deles. No Brasil, o Banco Euro atende cerca de
de comemoração pela Páscoa; Dia do Gerente; 24 milhões de clientes. A rede de atendimen-
Evento de premiação dos Destaques. De pos- to é composta de 3.728 pontos de venda, entre
se dessas fotos, entramos em contato com dez agências e postos de atendimento.
entrevistados que participaram das cerimônias Na empresa, realizam-se os seguintes ri-
e mostramos-lhes as fotos. Em seguida, realiza- tos, rituais e cerimônias: reunião diária da equi-
mos as entrevistas semiestruturadas, individuais, pe comercial; reunião mensal equipe comercial
com roteiro de entrevista, permitindo, por meio e operacional; evento de premiação trimestral;
das questões, respostas também categorizáveis, comemorações pelo dia das mães, dia do ge-
contribuindo para conhecer a interpretação que rente, páscoa, festas de final de ano, conversas
os entrevistados fizeram dos eventos. individuais, café com cliente, entre outros.
Para a análise de dados, utilizamos a téc-
nica de análise de conteúdo (BARDIN, 2009), 4.1 OS SIGNIFICADOS ATRIBUÍDOS
empregada em três fases: (1) pré-análise, (2) ÀS CERIMÔNIAS
exploração do material, e (3) tratamento dos re-
sultados. Na primeira fase, organizamos as fo- Inicialmente, apresentamos o perfil socio-
tos dos eventos e a transcrição das entrevistas demográfico dos(as) entrevistados(as). No caso
realizadas, agrupando as entrevistas que faziam analisado, dos(as) dez funcionários(as) entrevis-
referências à determinada foto. Em seguida, na tados(as), há maior predominância das mulheres,
segunda fase, escolhemos a unidade de regis- que se somam sete, e os homens, em menor nú-
tro, que são as fotos dos eventos e observamos mero, três. Em relação à idade, os(as) entrevista-
as falas mais recorrentes nas entrevistas sobre dos(as) encontram-se na faixa de 23 a 54 anos e
cada uma das fotos. Ainda nessa fase, defini- o tempo de trabalho no banco varia de 1 ano e 5
mos as categorias conforme o significado atri- meses a 25 anos, contando a admissão em bancos
buído pelos entrevistados, levando em conta a adquiridos pelo Banco Euro. Os(as) entrevista-
revisão da literatura. As categorias são: (1) tipo dos(as), em sua maioria (6), têm curso superior
de rito e ritual na cerimônia do evento; e (2) completo, dois estão cursando o ensino superior e
os significados atribuídos pelos entrevistados. um dos(as) entrevistados(as) completou o ensino
Na terceira fase, que é o tratamento dos dados, médio. Os cargos ocupados são caixas (2), geren-
retomamos o marco teórico da revisão da lite- tes (7), tesoureiro (1). Ao longo das seções sub-
ratura sobre os ritos, os rituais e as cerimônias sequentes, utilizaremos nomes fictícios para nos
e seus objetivos, para interpretar o significado referirmos aos(às) entrevistados(as).
dos eventos, na perspectiva dos entrevistados. Além dos questionamentos referentes
ao perfil sociodemográfico dos entrevistados,
4 RESULTADOS indagamos a respeito da participação dos fun-
cionários em ritos, rituais ou cerimônias na ins-
Esta pesquisa foi realizada em uma tituição. As respostas seguiram-se de eventos
agência bancária do Banco Euro, localizada nos quais a fundamentação era a premiação por
em Uberlândia/MG. O grupo Euro passou a algum mérito alcançado e a comemoração de
operar no mercado brasileiro em 1957, através datas simbólicas.
de um acordo operacional com o Banco Inter- Em relação às cerimônias preponderan-
continental do Brasil S.A. Atualmente, o banco tes, essas condensam na ideia de premiação por
atinge uma grande diversificação geográfica, bons resultados, sendo citadas por 4 (quatro)
atuando em 9 principais países como, Espa- funcionários. Por outro lado, apenas 3 (três)
nha, Portugal, Alemanha, Reino Unido, Brasil, funcionários citaram as cerimônias pautadas
México, Chile, Argentina e Estados Unidos, se pela motivação da comemoração das datas sim-
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68 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
bólicas, como festas de final de ano e o Dia das pelo Dia das Mães é a mais importante dentre
Mães. Pode-se inferir o interesse motivacional as demonstradas através das fotografias, e diz
para o alcance das metas no corpo funcional, que “nele [evento] conheci os familiares dos
ao priorizar quantitativamente os eventos que meus colegas de trabalho.” Outros entrevista-
premiam um bom desempenho profissional. dos também citam a comemoração do Dia das
As cerimônias têm papel fundamental no Mães como sendo aquela que mais os marcou.
que se refere ao cunho motivacional (FREITAS, Graciela diz que “os eventos que envolvem mi-
2000). Nesse caso, a cerimônia do Dia das Mães nha família me marcaram muito como o dia das
funciona como um símbolo instituído pela orga- mães, pois vejo que o banco se preocupa com
nização a fim de internalizar os valores da empre- meu bem-estar que vai além da vida profissio-
sa, evidenciando dentre esses valores, o interesse nal.” Mariana diz ser o mais importante para
da empresa para com a participação da família no ela, quando aponta: “senti que o banco valoriza
trabalho e assim gerando satisfação para os fun- as pessoas que aqui trabalham e fizeram uma
cionários e consequentemente motivação. integração entre a família e o banco”, Fábio
Entretanto, quando responderam à per- afirma que a cerimônia foi a mais importante,
gunta sobre qual evento cerimonial os funcio- porque “além de mostrar a importância da fa-
nários consideravam mais importante, a res- mília no nosso meio profissional, nossos fami-
posta foi contraditória, uma vez que, apesar da liares se sentem homenageados por terem sido
predominância dos eventos premiativos, as ce- lembrados naquele momento”, e Laíse conside-
rimônias mais marcantes para o grupo funcio- ra esta cerimônia a mais marcante para ela e
nal concentram-se, prioritariamente, no Dia das afirma: “me sinto muito feliz ao perceber que o
Mães. Um total de cinco funcionários dos dez banco se importa com nossos familiares e com
entrevistados considerou essa cerimônia como a relação que temos com eles.”
a mais importante e citaram a participação fa- Dessa forma, pode-se verificar que o sig-
miliar como fundamental para o envolvimento nificado que a maioria dos funcionários entrevis-
nas atividades laborais. tados atribui ao evento que aconteceu em come-
A primeira foto analisada, a qual inti- moração pelo dia das mães é representado pela
tulamos “Comemoração do Dia das Mães”, necessidade desses de que a empresa em questão
apresenta 14 mulheres e 4 homens, todos sor- considere suas vidas de forma relacional e inte-
ridentes, na sala de recepção da agência. Três grada, ou seja, que haja sempre uma relação en-
mulheres, no centro da foto, seguram um cartaz tre a vida profissional e a pessoal, não deixando
com os dizeres: “Feliz Dia das Mães”. Uma das aquela ser predominante a esta, a ponto de anu-
mães, sentada em um banco, segura, em seus lá-la. Em outras palavras, os entrevistados espe-
braços, uma criança. A foto retrata um momen- ram que o banco seja sensível aos outros âmbitos
to planejado pela organização para materiali- de suas vidas, além do profissional.
zar a cultura corporativa (ALVESSON, 2002) O tipo de ritual que se observa nesse
da empresa que, nesse caso, remete ao afeto, caso é o de integração/comemoração, o qual se
aconchego e reforço dos valores culturais con- representa pelo fato de que as pessoas intera-
siderados importantes: família e tradição. girem por meio de comemorações ou confra-
Vanessa, por exemplo, considera a come- ternizações, a fim de celebrarem datas ou ob-
moração do Dia das Mães como sendo o evento jetivos comuns alcançados (SILVA; FOSSÁ;
mais importante quando afirma que isso “mos- RAMOS, 2013).
tra a preocupação e o interesse do banco em A cerimônia em comemoração pelo Dia
conhecer e homenagear pessoas extremamente da Páscoa, retratada na segunda foto analisa-
responsáveis pela educação e crescimento dos da, foi mencionada durante a pesquisa, porém
colaboradores.” O entrevistado Germano Du- nenhum dos entrevistados a considerou como
arte também considera que essa comemoração sendo a mais importante. Essa retrata 14 fun-
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cionários da agência na recepção, todos sor- vistados afirmaram ter ampliado sua motivação
ridentes, segurando um ovo de páscoa, todos e comprometimento após a participação nesses
embrulhados de forma padronizada, pois foram eventos. Observa-se como, de fato, estão pre-
distribuídos pela agência. Essa também é uma sentes a intenção motivacional e a produtivista
comemoração tipicamente familiar e tradicio- da instituição na realização das cerimônias.
nal, porém os entrevistados não demonstraram Assim como o Dia das Mães, a comemo-
que essa tenha adquirido significado importan- ração pelo Dia do Gerente representa uma inte-
te para eles. gração/comemoração, em que as pessoas cele-
bram uma data importante para elas, no intuito
também da integralização e da motivação des-
sas, pois, nesses eventos, as pessoas envolvidas
revivem sentimentos comuns e conservam o
comprometimento com a organização (TRICE;
BEYER, 1984).
A quarta foto analisada retrata 14 funcio-
nários da agência na comemoração por metas.
Entre esses, oito deles exibem a placa de ho-
menagem e dois deles portam um adereço de
premiação. Anexando os dados obtidos e as
informações decorrentes, pode-se afirmar que
Figura 1 - Celebração Dia do Gerente os eventos mais reiterados na instituição dizem
Fonte: dados da pesquisa (2016). respeito à premiação por alcance nas metas,
porém, a cerimônia mais relevante para os en-
A terceira foto analisada (Figura 1) retra- trevistados está relacionada a datas comemora-
ta a comemoração simbólica do dia do Gerente, tivas, no caso específico do dia das mães.
cujo símbolo é um cup-cake (bolo individual) Mesmo considerando essa divergência,
com um cartão contendo a inscrição: “Parabéns! as respostas referentes à última questão de-
Dia do Gerente” e a logomarca do Banco. Lean- monstram como os efeitos almejados pela insti-
dra, que é gerente empresas no banco, diz que “o tuição são reconhecidos, incluindo a motivação
evento que mais me marcou foi o dia do gerente, e o comprometimento como resultados quase
que representa o reconhecimento do meu esfor- infalíveis dos processos cerimoniais incentiva-
ço e dedicação ao trabalho”. Nesse caso, o signi- dos e executados pelo banco.
ficado que a funcionária atribuiu à homenagem A funcionária Waneska Soares, por
que o banco ofereceu a ela, através do evento de exemplo, destaca como sendo o mais relevante
comemoração pelo Dia do Gerente (Figura 1), para ela, o “evento de premiação de destaque
como forma de reconhecimento do seu trabalho trimestral, em que fui premiada diante dos co-
é maior que outro de cunho familiar. legas de trabalho. Isso me marcou muito, pois
A aproximação promovida em relação demonstra o reconhecimento do meu esforço e
não só ao funcionário como a sua própria famí- dedicação”. Além de Waneska, os funcionários
lia, vinculando uma data provida de alto teor de Ilamar Elias e Aloísio Anselmo também rela-
carga emotiva. Os elementos incentivados pos- cionam eventos de premiação como sendo os
suem um caráter afetivo, subjetivo, superando a que mais os marcaram. Ilamar diz: “o evento
ideologia presente, pelo menos objetivamente, que mais me marcou foi a premiação que re-
nas cerimônias direcionadas à premiação. cebi a nível Brasil do crédito Imobiliário [...]
Em relação ao questionamento acerca pois percebi que meu esforço não é em vão e o
da alteração nas atitudes em decorrência da par- reconhecimento com certeza não falta. Ser re-
ticipação nas cerimônias, nove dos dez entre- conhecida a nível nacional foi um orgulho pra
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70 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
mim.” E Aloísio cita: “O evento que mais me Os funcionários entrevistados consideram ser
marcou foi quando fui homenageado em São de fundamental importância a participação da
Paulo, na presença da diretoria brasileira do família no âmbito organizacional, mesmo que
Banco quando completei 25 anos de carreira no indiretamente. Observa-se que as pessoas têm
banco Euro. Houve uma cerimônia em que re- necessidade de que a empresa dê valor à fa-
cebi um pingente de ouro como símbolo, e um mília, reconhecendo esta importância também
baile de gala.” para seu desenvolvimento profissional.
Nesse caso, aplicam-se os ritos de refor- Retomando a afirmação de Wood Junior
ço, que segundo os autores Trice e Beyer (1984) (2000) quanto à utilização, por parte da empresa,
são reafirmados e tornados públicos os resulta- de rituais para construir significados simbólicos,
dos positivos relacionados a determinados pon- vemos que, na agência, as cerimônias são rea-
tos da cultura organizacional, evidenciando o lizadas com esse objetivo. Assim, confirma-se
sucesso individual e/ou organizacional, com o que nas organizações de simbolismo intensivo,
objetivo de estimular esforços similares e pro- há uma ênfase na construção de significados, o
porcionar a todos a capacidade de observância que pode ser interpretado como uma nova forma
à importância das regras que levam a esse su- de controle (SILVA, 2003; IASBECK, 2013). Os
cesso. Silva, Fossá e Ramos (2013), além de funcionários entrevistados nesta pesquisa atribu-
considerarem importante o ritual de reforço, íram significados aos eventos, e de modo geral,
pelo fato de engradecer o resultado positivo, esses significados (reconhecimento, valorização
destacam também a questão motivacional na da família) fazem com que se sintam produto do
busca desses resultados. Nesse caso, é colocada meio, o que os leva a uma dedicação integral e
para os funcionários a importância da coesão plena aos objetivos da empresa.
desses no ambiente corporativo. Os resultados desta pesquisa sinalizam
A análise das entrevistas aponta que os para as representações das organizações cons-
funcionários entrevistados atribuem signifi- truídas pelos seus empregados, tornando-se
cados aos rituais da agência, podendo-se citar praticamente impossível escapar do poder e da
integração com a família, reconhecimento do influência dessas empresas. Em um ambiente
esforço e dedicação, valorização da gerência. no qual, muitas pessoas asseguram condições
No Quadro 1, a seguir, encontram-se os físicas e psicológicas de subsistência e prazer:
ritos, rituais e cerimônias da instituição pesqui- “o prazer do reconhecimento, a retribuição e o
sada, bem como sua classificação e o significa- sucesso das estratégias de dominação consti-
do atribuído pelos entrevistados. tuem motivos mais que suficientes para perma-
Rito/ Ritual/
Classificação Significado atribuído
Cerimônia
Sensibilidade da organização quando da integração
Dia das Mães Integração/ Comemoração
familiar
Páscoa Integração/ Comemoração Não identificado
Dia do Gerente Integração/ Comemoração Valorização da figura do gerente para a empresa
Evento Metas Reconhecimento à dedicação e ao esforço dispensados
Reforço
Alcançadas para o alcance das metas e objetivos.
Quadro 1 - Resumo dos rituais analisados
Fonte: dados de pesquisa (2016).
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72 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
tema, sugerimos uma agenda de pesquisas que the concept of intensive symbolism Organiza-
considerem outros contextos organizacionais, tion (OSI).
utilizando-se da observação participante nos
rituais e nas cerimônias organizacionais, desde Keywords: Organizational culture. Rites. Ritu-
o seu planejamento, sua ocorrência e, posterior- als. Ceremonies. Symbolism.
mente, de entrevistas com as pessoas que par-
ticiparam dos eventos, com vistas a captar as RECONOCIDOS Y VALORADOS:
diferentes interpretações, histórias e expectati- LA SEDUCCIÓN EN LOS RITOS,
vas criadas. Outra questão a ser investigada é RITUALES Y CEREMONIAS EN UNA
o estudo desses eventos considerando, compa- AGENCIA BANCARIA
rativamente, as interpretações construídas por
homens e mulheres. Ainda, estudos orientados
RESUMEN
para a desconstrução dos discursos tecidos nos
rituais podem enriquecer essa agenda, contri-
La cultura organizacional es construida por valo-
buindo para ampliar a compreensão dessas prá-
res y normas derivadas de dos modelos de prác-
ticas como instrumentos de controle.
ticas que constituyen la organización: la práctica
organizacional y la práctica discursiva. Sin em-
RECOGNIZED AND VALUED: bargo, un tercero elemento hace parte del con-
THE SEDUCTION IN RITES, texto organizacional: los ritos realizados para re-
RITUALS AND CEREMONIES IN A forzar valores y creencias organizacionales. Eses
BANK AGENCY tres elementos actúan en conjunto, resultando en
diferentes actividades, incluso la realización de
ABSTRACT ciertos rituales y ceremonias. Este trabajo anali-
za los ritos, rituales y ceremonias de una agen-
The organizational culture is constructed by cia bancaria con el objetivo de comprender los
values and norms derived from two types of significados que los miembros atribuyen a estos
practices that constitute the organization: orga- eventos. Los procedimientos de la pesquisa son
nizational practice and the discursive practice. los recursos fotográficos y la entrevista con fun-
However, a third element is part of the organi- cionarios. La técnica de investigación utilizada
zational context: the rites undertaken to stren- es el análisis de contenido de las fotos y de las
gthen organizational values and beliefs. Thus, declaraciones obtenidas, buscando identificar
these three elements act together, resulting in los significados atribuidos por los funcionarios
different activities, including performing cer- a los eventos que componen la cultura de la or-
tain rituals and ceremonies. This paper analy- ganización en la cual trabajan. Los resultados
zes the rites, rituals and ceremonies of a bank indican que los entrevistados atribuyen signifi-
branch in order to understand the meanings that cativa importancia a las ceremonias realizadas
members of the organization attribute to this para la conmemoración de las metas logradas,
third element. The methodological procedu- señalizando para el concepto de organización de
res used are Photoethnography and interviews simbolismo intensivo (OSI).
with employees. The analysis technique used is
the content analysis of photos and statements Palabras-clave: Cultura organizacional. Ritos.
obtained seeking to identify the meanings at- Rituales. Ceremonias. Simbolismo.
tributed by officials to the events that make up
the organization of the culture in which they REFERÊNCIAS
work. The results indicate that respondents at-
tach greater importance to the ceremonies held ALCADIPANI, R.; CRUBELLATE, J. M. Cul-
to commemorate milestones reached, signaling tura organizacional: generalizações imprová-
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74 ARTIGOS | reconhecidos e valorizados: a sedução nos ritos, rituais e cerimônias em uma agência bancária
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76 ARTIGOS | As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p76-92.2018
ARTIGOS
RESUMO
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AUTORES | Conceição de Maria Pinheiro Barros, Joelma Soares da Silva, Túlio Feitosa Paiva 77
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 76-92, jul./dez. 2018
78 ARTIGOS | As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial
imprescindível ao sucesso das empresas, par- qualificação de um indivíduo para realizar de-
tindo do pressuposto de que este profissional terminada atividade com eficiência. É um con-
possui as habilidades e as competências neces- junto de conhecimentos, habilidades e atitudes
sárias para o alto desempenho organizacional, que garantem ao indivíduo alto desempenho na
a fim de que garanta não somente a sobrevivên- realização de algo. Para Quinn et al. (2003), as
cia, mas a ascensão dos negócios. Com base competências gerenciais correspondem às ca-
nisso e na amplitude e complexidade do tema, pacidades que os gerentes devem adquirir para
torna-se imperativo o estudo sobre as compe- transpor os desafios organizacionais. Maximia-
tências gerenciais. no (2011, p. 19), por sua vez, complementa:
“as competências desenvolvem-se por meio de
2.1 ESTUDOS ACERCA DAS COMPE- experiência profissional, educação formal e in-
TÊNCIAS GERENCIAIS formal e convivência familiar e social.”
Na compreensão de Mintzberg (1973),
Na compreensão de Ferreira (2001, p. papel gerencial é um conjunto de comporta-
374), gestão pode ser definida como o “ato ou mentos que pertencem a uma função ou posi-
efeito de gerir.” Gerir, por sua vez, é ter gerência ção. O autor teoriza que o gerente possui três
sobre algo, administrar negócios, recursos e pes- papéis básicos em uma organização: informa-
soas. Quinn et al. (2003) afirmam que a gestão cional, interpessoal e decisória. As compe-
é realizada nas organizações por indivíduos que tências essenciais para o bom desempenho do
possuem conhecimentos técnicos, espírito de li- gerente nos papéis citados, segundo Mintz-
derança e visão sistêmica da empresa, com a fi- berg (1973), agrupam-se em quatro categorias
nalidade de possibilitar o funcionamento de uma principais: intelectuais, interpessoais, técnicas
área administrativa. A função de gestão exige o e intrapessoais, as quais são divididas em ha-
desenvolvimento de planejamento, organização, bilidades específicas. O desenvolvimento per-
liderança, controle e tomada de decisões. manente dessas habilidades confere ao gerente
De acordo com Maximiano (2011), qual- as competências essenciais à sua atuação pro-
quer indivíduo que administre um conjunto de fissional: competências intelectuais, compe-
recursos é administrador, gerente ou gestor. tências interpessoais, competências técnicas e
Nas organizações, os administradores ou ge- competências intrapessoais.
rentes possuem autoridade e são responsáveis Na visão de Quinn et al. (2003), exis-
pelo desempenho de outros indivíduos, que for- tem oito papéis que o gestor deve exercer no
mam uma equipe para o alcance dos objetivos âmbito de uma organização, classificados em
organizacionais. quatro modelos: modelo das metas racionais,
Portanto, faz-se necessário o desen- dos processos internos, das relações humanas
volvimento de competências gerenciais que e dos sistemas abertos. De acordo com os mo-
viabilizem a tomada de decisão e a utilização delos apresentados por Quinn et al. (2003), os
de recursos para o alcance dos resultados. En- oito papéis do líder nas organizações são: di-
tende-se por gerente, o profissional que possui retor, produtor, monitor, coordenador, facilita-
autoridade e responsabilidade para planejar, or- dor, mentor, inovador e negociador. Para que o
ganizar, dirigir e controlar processos, recursos gerente assuma esses papéis, deve desenvolver
e pessoas na busca por resultados empresariais. competências específicas.
A fim de que cumpra com eficiência e eficácia A gestão é o ato de planejar, organizar,
todas as suas responsabilidades, o gerente deve dirigir e controlar pessoas e recursos. Para tan-
desenvolver algumas competências necessárias to, faz-se necessária a atuação do gerente, o
à sua atuação. qual é responsável por tais funções e possui os
Competência pode ser entendida, de papeis de diretor, produtor, monitor, coordena-
acordo com Fleury e Fleury (2000), como a dor, facilitador, mentor, inovador e negociador,
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AUTORES | Conceição de Maria Pinheiro Barros, Joelma Soares da Silva, Túlio Feitosa Paiva 79
no âmbito organizacional. Esses papéis somen- plinaridade, visto que “[...] não há um corpo teó-
te são exercidos de maneira produtiva quando rico-metodológico bem definido para a área. Em
o gerente desenvolve as competências intelec- outras palavras, não há teoria suficiente consoli-
tuais, interpessoais, técnicas e intrapessoais, dada, nem um método de investigação próprio,
necessárias à plena atuação deste profissional. com princípios delineadores.” (NASCIMENTO,
2012, p. 109). A criação de uma teoria se faz
2.2 AS COMPETÊNCIAS GERENCIAIS necessária para a evolução da profissão, mas
NA ATUAÇÃO DO GESTOR SE- também para que o secretário executivo tenha
CRETARIAL direcionamento quanto ao que é necessário à sua
contribuição para o alcance dos resultados nas
O perfil do secretário executivo evolui organizações contemporâneas.
continuamente e, em contraste com a antiga Estudos acerca da atuação do secretário
realidade da profissão, hoje, este profissional como gestor têm focalizado entre outros aspec-
– atuando ao lado do poder decisório das orga- tos, as competências gerenciais a serem desen-
nizações – precisa trabalhar permanentemente volvidas em sua atuação. Segundo Barros et
para o alcance de resultados (VAZ, 2013). al. (2013, p. 35), “com a transformação e o re-
A complexidade organizacional e profis- conhecimento, o profissional antigo dá lugar a
sional descentralizou muitas responsabilidades um profissional com conhecimentos ecléticos,
e funções dos gestores das empresas, os quais tanto de estrutura quanto de comportamento or-
passaram a ter necessidade de delegar com ganizacional, os quais são as bases da gestão
mais frequência algumas atribuições da gestão secretarial.” Para tanto, fez-se necessário que o
empresarial. O secretário executivo elevou seu secretário executivo desenvolvesse competên-
nível de atuação nas organizações contempo- cias necessárias à sua atuação como gestor. A
râneas, assumindo maiores responsabilidades, gestão secretarial requer o desenvolvimento de
utilizando cada vez mais seu poder intelectu- competências gerenciais.
al e conquistando maior participação ativa nos Sobre este aspecto, Barros, Braga e Silva
processos decisórios das empresas. (2011) afirmam que as competências gerenciais
A profissão de Secretariado Executivo do secretário executivo englobam o pensamen-
evoluiu significativamente em relação aos aspec- to estratégico; a capacidade de identificar opor-
tos de gestão, no entanto, o conceito da gestão tunidade de crescimento, inovar e elaborar ob-
secretarial ainda não se solidificou, em virtude jetivos na organização; e estão relacionadas à
da complexidade do tema. Tal obscuridade refe- nova postura que esse profissional assumiu nos
re-se ao fato de tratar-se de uma área que possui últimos anos. Na percepção de Lima e Canta-
múltiplos aspectos relacionados à multidiscipli- rotti (2010), as competências secretariais se
naridade e interdisciplinaridade com outras áre- referem às negociações; ao gerenciamento de
as de conhecimento, como a Administração, por informações; às funções gerenciais como pla-
exemplo, em uma relação de interdependência nejamento, organização, controle e direção; à
que necessita de melhor compreensão. gestão secretarial e à comunicação.
De acordo com Silva, Barros e Barbosa Com relação às atividades gerenciais na
(2012), as pesquisas científicas no Secretariado atuação do secretário executivo, Barros et al.
Executivo caminham para um embasamento te- (2013) destacam: participação na elaboração
órico da gestão secretarial cada vez mais funda- do planejamento da organização, organização
mentado. A elaboração do conhecimento teórico de métodos e processos de trabalho, organi-
não se ampara por um pensamento fundamen- zação da realização dos trabalhos a serem de-
tado na lógica linear (BICUDO, 2011); a área senvolvidos na área secretarial, distribuição
secretarial se sustenta em um raciocínio sinuoso de atividades dos funcionários, supervisão das
por meio da multidisciplinaridade e interdisci- atividades de funcionários, liderança, avaliação
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80 ARTIGOS | As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial
do alcance de metas e objetivos, acompanha- uma vez que deve ser o primeiro funcionário da
mento de planejamento. A gestão secretarial, organização a assimilar e a aceitar qualquer mu-
embora não possua ainda conceitos estabe- dança provinda dos níveis decisórios, para que
lecidos e abrangentes, é uma área que cresce atue como multiplicador da conscientização dos
proporcionalmente à evolução da atuação dos benefícios que tais mudanças proporcionarão à
secretários executivos nas organizações. empresa. O profissional deve ser agente facili-
No âmbito da gestão secretarial, o pro- tador no processo de comunicação corporativa.
fissional deve atuar como agente facilitador – Segundo Portela e Schumacher (2009), esse pro-
um dos papeis gerenciais citados por Quinn et fissional deve minimizar os ruídos da comuni-
al. (2003) – e, para tanto, precisa desenvolver cação com clientes internos e externos para que
as competências específicas deste papel e sa- os processos decisórios e os resultados empresa-
ber qual a melhor maneira de contribuir para riais não sofram impactos negativos.
o alcance de resultados organizacionais, como Para tanto, é indispensável que esse pro-
facilitador. De acordo com Rodrigues (2004, p. fissional desenvolva também, a cada dia, a sua
3), o secretário executivo, sobretudo no papel plena comunicação intrapessoal e interpessoal,
de gestor, é “um agente transformador de insu- que “se referem, respectivamente, às capacida-
mos para a obtenção dos resultados esperados des para fazermos importantes distinções sobre
pelos clientes.” D’elia, Amorim e Sita (2013) nós mesmos e fazer distinções sobre nossas rela-
afirmam que as atividades secretariais são defi- ções com outras pessoas” (D’ELIA; AMORIM;
nidas de maneira estratégica e mensuradas por SITA, 2013, p. 237), uma vez que, para o suces-
meio de métricas de gestão. so na sua carreira, o secretário executivo neces-
Nesta realidade, ressalta-se a atuação do sita manter boas relações com as diversas pes-
secretário como facilitador para o alcance dos soas que se comunicam com ele, todos os dias.
objetivos organizacionais. Atuando ao lado do Outra habilidade necessária à atuação do
poder decisório, o secretário executivo deve ter secretário executivo é a de liderança. Gassen-
visão global da empresa, mesclar competências ferth, Machado e Krause (2012) salientam dois
técnicas e comportamentais, exercitar habilida- modelos de liderança requeridas dos profissio-
des de relacionamento e administração de con- nais pelas organizações: a liderança situacional
flitos, trabalhar com foco e acompanhamento e a liderança transformacional. O primeiro se
de objetivos e metas e, principalmente, apri- baseia nas variáveis “comportamento do líder”,
morar suas habilidades de comunicação, a fim e “maturidade dos subordinados”. O segundo de
de que atue como agente facilitador – além da liderança – transformacional – se preocupa em
atuação como assessor, gestor e empreendedor aperfeiçoar os liderados, de modo a transformar
– função que as organizações contemporâneas as suas visões sobre a empresa e o trabalho.
também exigem do secretário executivo (POR- Sendo líder, o secretário executivo pre-
TELA; SCHUMACHER, 2009). cisa trabalhar em equipe de maneira produtiva.
Como agente facilitador, a atuação do De acordo com Rodrigues et al. (2013), uma
secretário se revela nas relações que adminis- das competências mais necessárias a um bom
tra, as quais demandam a sua percepção do am- profissional de Secretariado Executivo é saber
biente, das pessoas e dos códigos, o seu equilí- trabalhar em equipe. Além de ajudar no desen-
brio emocional, a sua flexibilidade e a filosofia volvimento das atividades, o trabalho conjunto
da organização. Portanto, a atuação deste pro- ajuda a aprimorar o convívio social no âmbito
fissional como agente facilitador tornou-se im- da empresa, o que facilita as relações interpes-
prescindível aos processos corporativos. soais desse profissional. No que se refere às
O secretário executivo deve ser um agen- competências gerenciais do secretário executi-
te de mudanças priorizando o aprendizado, vo como facilitador, Barros et al. (2013, p. 40)
quanto às constantes mudanças empresariais, afirmam que: “Ao atuar como facilitador, os
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secretários investigados apontaram como prin- Segundo Rodrigues (2007, p. 70), “po-
cipal competência a construção de equipes (re- pulação ou universo, no sentido geral, é um
alização de atividades em equipe contribuindo conjunto de elementos com pelo menos uma
para a organização das atividades.” característica comum. Essa característica deve
As tomadas de decisões pelo secretário delimitar, inequivocamente, quais elemen-
executivo acontecem a todo instante, em vir- tos pertencem ou não à população”, enquanto
tude dos muitos acontecimentos no cotidiano amostra é o subconjunto finito dessa popula-
organizacional. Tais mudanças geram, muitas ção. O Universo e a população desta pesqui-
vezes, desgaste nas pessoas envolvidas e, con- sa constituem-se de estudantes e profissionais
sequentemente, conflitos interpessoais, deman- atuantes em Secretariado Executivo, no Brasil.
dando mais uma competência do profissional Para a definição e relevância da amostra,
secretário: a administração de conflitos. utilizou-se a amostra não probabilista obtida por
O perfil desse profissional evolui conti- meio da determinação de critérios de inclusão,
nuamente e, diferentemente do secretário que que nem todos os sujeitos do universo possuem,
possuía o papel apenas de assessor executivo, o consequentemente, há uma limitação na seleção
gestor secretarial ganha espaço no mercado de dos participantes da pesquisa. Este mecanismo
trabalho e nas organizações contemporâneas, evita a generalização dos resultados obtidos
bem como adquire cada vez mais competências (BICKMAN; ROG, 1997). Nesta investigação,
gerenciais necessárias ao seu desenvolvimento. foram considerados os seguintes critérios para
demarcação amostral: ser graduado ou estar cur-
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓ- sando Secretariado Executivo, estar atuando na
GICOS área secretarial, desenvolver atividades de ges-
tão e estar acessível à pesquisa (acessibilidade).
Para o alcance dos objetivos propostos, A amostra foi composta por 100 secre-
foi desenvolvida uma pesquisa quantitativa- tários executivos atuantes nos diversos setores
-qualitativa considerando-se que “o conjunto organizacionais, das seguintes regiões brasilei-
de dados quantitativos e qualitativos, porém, ras, distribuídos da seguinte forma: 13 partici-
não se opõem. Ao contrário, se complementam, pantes da região Centro-oeste, 42 participantes
pois a realidade abrangida por eles interage di- da região Nordeste, quatro participantes da re-
namicamente, excluindo qualquer dicotomia.” gião Norte, 20 participantes da região Sul e 21
(MINAYO, 2001, p. 22). participantes da região Sudeste. Com o intuito
Essa investigação é classificada como de manter, em sigilo, a identidade dos secretá-
quantitativa por utilizar a quantificação para rios, os participantes foram identificados por
a coleta de dados e para o seu tratamento por “SECRETÁRIO EXECUTIVO” seguido de
meio de técnica estatística (RICHARDSON, um número natural que corresponde à ordem
1999). Classifica-se como qualitativa por tra- dos questionários.
duzir e expressar o sentido dos fenômenos do O instrumento de pesquisa utilizado para
mundo social, reduzindo a distância entre in- a coleta de informações foi o questionário, que
dicador e indicado, teoria e dados, contexto e “é o conjunto de questões sistematicamente ar-
ação (NEVES, 1996). ticuladas que se destinam a levantar informa-
Possui, ainda, caráter descritivo visto ções escritas por parte dos sujeitos pesquisados,
que os fatos são observados, registrados, anali- com vistas a conhecer a opinião dos mesmos
sados, classificados e interpretados sem a inter- sobre os assuntos em estudo.” (SEVERINO,
ferência do pesquisador. Neste tipo de pesquisa 2007, p. 125).
são utilizadas técnicas padronizadas de coleta O questionário dividiu-se em quatro par-
de dados, como, por exemplo, o questionário tes. A primeira parte corresponde às seis ques-
(RODRIGUES, 2007). tões de múltipla escolha, referentes ao perfil dos
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Tipo de
Pública 41% Privada 56%
empresa
Centro Oeste
Região Nordeste 42% Norte 4% Sudeste 21% Sul 20%
13%
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A maior parte dos investigados é com- ação do secretário neste papel se revela nas
posta por secretárias executivas que têm entre relações que administra, as quais demandam a
27 e 34 anos de idade; sexo feminino; gradu- sua percepção do ambiente, das pessoas e dos
adas; atuam na área de um a cinco anos; tra- códigos, o seu equilíbrio emocional, a sua flexi-
balham em empresas privadas; e residem na bilidade e a filosofia da organização.
região Nordeste do Brasil. É importante desta- Segundo Portela e Schumacher (2009),
car que outra grande parte dos pesquisados pos- esse profissional deve ter a capacidade de in-
suem entre 18 e 26 anos; atuam na área de cin- fluenciar as pessoas da organização a produzi-
co a 10 anos; e trabalham em órgãos públicos. rem de forma coerente com a cultura organiza-
Em seguida, buscou-se coletar informa- cional e se comportar como ponto de referência
ções acerca das competências gerenciais do papel aos diversos funcionários da organização, ser-
de facilitador na atuação do gestor secretarial, na vindo de exemplo para os diversos níveis. As-
visão de profissionais. Nesse intento, foi indagado sim, as respostas indiciam aspectos dos com-
aos participantes os aspectos de gestão necessá- prometimentos esperados por profissionais
rios à atuação como facilitador organizacional. contemporâneos da área estudada.
Na visão dos secretários executivos, o O trabalho em equipe proporciona possi-
trabalho em equipe, a comunicação interpesso- bilidades de engajamento, de espírito coletivo,
al, a gestão da informação e do conhecimento e de cumplicidades e de parcerias que fortalecem
as relações interpessoais são aspectos “sempre” a organização nas ações desenvolvidas por suas
necessários ao papel de facilitador. Já a partici- equipes, ao mesmo tempo em que encoraja as
pação nas tomadas de decisões; a administra- ações dos gerentes, posto que tem, nas parce-
ção de conflitos e a liderança, de acordo com rias, a legitimação de um fazer coeso, bom para
a pesquisa, são “frequentemente” necessárias a organização e para os secretários executivos.
à atuação neste papel. Verifica-se que nenhum Do mesmo modo, a participação nas tomadas
dos aspectos da questão foi assinalado pela de decisão e na gestão de conflitos. Feitos em
maioria dos pesquisados como “nunca” neces- equipe, os resultados serão mais promissores,
sários à atuação de facilitador, o que demonstra porquanto refletem a decisão comum do grupo
a necessidade do desenvolvimento de todos os e podem gerar o empoderamento das ações, mi-
aspectos citados para a atuação desse papel, no nimizando conflitos e erros futuros.
âmbito organizacional. De modo igual, os aspectos de comunica-
Essa visão dos profissionais é coerente ção e informação, bem como suas possibilidades
com a percepção de Portela e Schumacher (2009) de gestão, são mais bem enfrentados quando to-
de que, atuando ao lado do poder decisório, o se- dos participam e conhecem suas facetas e formas
cretário executivo deve ter visão global da em- de difusão. Assim, para além do fortalecimento
presa, mesclar competências técnicas e compor- da cultura organizacional, o grupo fortalece a
tamentais. Com relação às competências técnicas, comunicação organizacional. A Tabela 2 apre-
Mintzberg (1973) afirma que se referem à habili- senta uma síntese dos dados coletados.
dade de conhecer a própria atividade, bem como
a atividade da equipe e da organização.
Portela e Schumacher (2009) acrescen-
tam que o secretário executivo deve exercitar
habilidades de relacionamento e administração
de conflitos, trabalhar com foco e acompanha-
mento de objetivos e metas e principalmente
aprimorar, cada vez mais, suas habilidades de
comunicação, a fim de que atue como agente
facilitador. Segundo os citados autores, a atu-
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De acordo com Quinn et al. (2003), para mente os outros; os membros se expressem de
que uma equipe seja desenvolvida, é necessário maneira franca, honesta e objetiva; os consen-
que o líder saiba analisar a sua atuação no traba- sos a que se chegam sejam explícitos e claros,
lho em grupo, identificando seus pontos fortes bem como os conflitos sejam explorados aber-
e fracos. Após a análise, sugere-se que aprimo- tamente e administrados de maneira construti-
rem ou desenvolvam capacidades importantes va; atinjam-se os objetivos da reunião; a par-
ao desenvolvimento de equipes, tais como: ticipação de cada membro contribua para os
identificar divergências e discuti-las; contribuir resultados; e os membros se sintam satisfeitos
para reuniões de grupo; preocupar-se com os com a reunião.
outros; comprometer-se com as tarefas; dispor- Os gerentes devem ter a capacidade ne-
-se a ajudar os outros nas tarefas; compartilhar cessária para conduzir a reunião, a fim de que
a liderança com o grupo; encorajar os demais atendam a esses requisitos e garantam uma reu-
a participarem; e colocar as necessidades do nião eficaz. Além disso, eles, possuindo poder de
grupo à frente das necessidades individuais. decidir compartilhar ou não os problemas com a
Esse resultado corrobora com as considera- equipe, devem ter discernimento para escolher
ções de Barros et al. (2013), ao destacarem que a melhor alternativa com relação ao grau de en-
uma das principais aptidões desse profissional volvimento dos funcionários no processo deci-
no papel de facilitador é o desenvolvimento de sório. Quinn et al. (2003) afirmam que as vanta-
trabalho em equipe, de modo a contribuir para gens da participação da equipe nas decisões são:
a organização das atividades organizacionais. diversidade de conhecimentos; leque amplo de
Na tomada de decisões no papel de faci- valores e perspectivas; maior compromisso dos
litador, a maior parte dos secretários executivos membros com a implementação da decisão; e
afirmou que “frequentemente” utiliza todas as facilidade de os membros identificarem por si só
subcompetências e os comportamentos citados potenciais obstáculos à implementação.
na questão. Os secretários executivos partici- Na competência administração de con-
pantes da pesquisa frequentemente contribuem flitos – realizada pelo facilitador organizacio-
para o processo de tomada de decisões; geren- nal – a maior parte dos secretários executivos
ciam informações para a tomada de decisões; entrevistados afirmaram que “sempre” evitam
contribuem para a tomada de decisões de for- situações desagradáveis e “frequentemente”
ma participativa; procuram apresentar questões procuram solucionar situações de conflito; mes-
importantes e pertinentes às decisões e identi- clam suas ideias a fim de criar novas alternati-
ficam potenciais obstáculos à implementação vas para resolver controvérsias e apresentam
das decisões. Esses dados demonstram que os soluções criativas ao discutir discrepâncias.
secretários executivos da pesquisa desenvol- A maioria dos pesquisados afirmou
vem, com frequência, a competência da tomada “nunca” evitar a outra pessoa quando percebe
de decisões, embora não pratiquem esse desen- que ela pretende discutir uma discordância. Es-
volvimento todos os dias (sempre). ses dados demonstram que os secretários exe-
O primeiro tópico dessa competência, cutivos da pesquisa, embora não desenvolvam
segundo Quinn et al. (2003), corresponde à a competência da administração de conflitos
avaliação de reuniões. Para que uma reunião diariamente (sempre), desenvolvem-na com
seja eficaz, é necessário que seja agendada com frequência, viabilizando a sua atuação como
antecedência para que os membros se progra- facilitador organizacional. Quanto ao fato de
mem; os membros compreendam os objetivos a maior parte dos respondentes nunca evitar o
da reunião, bem como os resultados esperados; outro para não discutir discordâncias, demons-
cada membro compreenda o que se espera dele tra que os secretários executivos pesquisados
e dos demais participantes; seja encerrada no possuem maturidade e profissionalismo no sen-
horário agendado; os membros ouçam atenta- tido de administrar conflitos.
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lidades de entender e aceitar a diversidade das conforme afirma o Secretário Executivo 40:
pessoas; entender o processo de motivação e “Procuro organizar melhor as informações e au-
utilizar os princípios de motivação adequados a xiliar em todos os processos e setores para me-
cada pessoa; entender os princípios da lideran- lhorar o fluxo de trabalho.” Neste caso, os resul-
ça e comunicar com eficiência e eficácia. tados organizacionais são viabilizados, uma vez
É válido destacar também a colocação do que o profissional desenvolve a competência de
Secretário Executivo 15, que afirmou: “Como trabalhar em equipe, visando à produtividade
papel de facilitadora, influencio no processo de geral da organização, e não somente do setor em
tomada de decisões, uma vez que apresento argu- que se atua (D’ELIA; AMORIM; SITA, 2013).
mentos embasados. Porém, isso não me capacita O Secretário Executivo 7 demonstra
a tomar decisões próprias, juntamente à diretoria competências gerenciais do papel de facilitador
estratégica.” Tal assertiva representa o grupo dos bem desenvolvidas, pois afirma que contribui
secretários executivos que ainda buscam a plena para os resultados da organização, neste papel,
atuação como gestores e tomadores de decisões. “[...] justamente no fato de não evitar as discor-
Esses profissionais influenciam nas decisões por dâncias, mas aprender com as opiniões diversas
trabalharem ao lado do poder decisório. e experiência de terceiros.” O Secretário Exe-
No entanto, as decisões estratégicas fo- cutivo 65 expressa:
gem à sua atuação. Em contrapartida, o Secre-
tário Executivo 20 expõe: “O meu chefe sem- Contribuo de forma profissional,
pre escuta e pergunta minhas opiniões acerca onde apresento ideias viáveis à em-
dos assuntos organizacionais, uma vez que ele presa, demonstro proatividade, com-
reconhece o meu papel de mediadora na em- petência, responsabilidade, empatia, e
postura profissional, apta para ouvir e
presa e, sendo assim, tenho acesso a um grande
discutir, tomar decisões cabíveis e, o
número de informações.” Quinn et al. (2003), principal, trabalho em grupo, onde se
os gerentes aumentam o grau de participação alcança novas ideias, objetivos, metas
da equipe nas tomadas de decisões à medida e outros fatos que venha a acrescentar
que apresenta ideias e pede sugestões; sujeita a como um facilitador (SECRETÁRIO
decisão tomada a modificações; toma a decisão EXECUTIVO 65).
baseada nas sugestões da equipe; estabelece
limites e pede à equipe para tomar a decisão; Percebe-se, em tais colocações, compre-
ou permite que os subordinados ajam dentro de ensão das competências e dos comportamentos
limites determinados pelo superior. que o gestor secretarial deve desenvolver para
No tocante ao trabalho em equipe, toma- agregar valor a si e à organização. Por outro
das de decisões e gestão das informações, o Se- lado, demonstrando postura menos ativa como
cretário Executivo 35 afirma que contribui para facilitador, o Secretário Executivo 87 afirma:
o alcance dos resultados organizacionais, por “Procuro fazer a minha parte nesse processo,
meio do papel do facilitador, da seguinte forma: mesmo sabendo que depende mais da com-
“Na maioria das vezes, expondo minhas ideias preensão das pessoas do que do meu papel de
e opiniões, trabalhando em grupo, elogiando facilitador.” Em contraponto à postura passiva
ideias e trabalhos dos meus colegas de trabalho do Secretário Executivo 87 como facilitador, o
e sempre deixando disponível ao grupo e à or- Secretário Executivo 7 expõe:
ganização informações que sejam necessárias a
todos!” (SECRETÁRIO EXECUTIVO 35). Trabalho com foco em resultados,
Em complemento, destacam-se os secre- busco o aprendizado continuo e pro-
tários executivos que utilizam as habilidades curo absorver o que de melhor extraio
e competências para o trabalho em equipe de da minha equipe. Avalio frequente-
mente os nossos processos pata evitar
modo a atingir a organização como um todo,
repetir erros, potencializar o que foi
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88 ARTIGOS | As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial
positivo e mudar o que não atendeu uma vez que deve ser o primeiro funcionário
as expectativas e estou sempre aber- da organização a assimilar e a aceitar qualquer
ta a ouvir as criticas (SECRETÁRIO alteração provinda dos níveis decisórios, para
EXECUTIVO 7). que atue como multiplicador da conscientiza-
ção dos benefícios que tais transformações pro-
Outros profissionais respondentes da porcionarão à empresa. E, finalmente, o profis-
pesquisa afirmaram contribuir para o alcance sional deve atuar como agente facilitador no
dos objetivos organizacionais, por meio do pa- processo de comunicação corporativa. Segundo
pel de facilitador, de maneira distinta aos secre- Portela e Schumacher (2009), esse profissional
tários executivos anteriores, apontando contri- deve minimizar os ruídos da comunicação com
buições por meio de aspectos e competências clientes internos e externos para que os proces-
não considerados por Quinn et al. (2003) como sos decisórios e os resultados empresariais não
inerentes ao papel de facilitador. Por exemplo, sofram impactos negativos.
o Secretário Executivo 11 afirmou: “contribuo D’elia, Amorim e Sita (2013, p. 120) com-
agindo de acordo com a minha ética profissio- plementam que para a ascendência do secretário
nal.” O Secretário Executivo 23 expôs: “contri- executivo, em relação aos órgãos decisórios da
buo fazendo a assessoria com qualidade e efici- empresa, são necessários: “o conhecimento da
ência, pois sou a principal fonte para a diretoria estrutura organizacional da empresa, desenvol-
ter eficiência em seu trabalho.” O Secretário vimento da habilidade de comunicação interpes-
Executivo 13 afirmou que contribui “vestindo a soal e tomada de decisões acertadas com calma
camisa da empresa”. O Secretário Executivo 14 e bom-senso.” Para esses autores, outras carac-
aponta que se mantém atento e se envolve nos terísticas importantes que o profissional deve ter
processos da chefia, enquanto o Secretário Exe- são: “dinamismo, facilidade no trato, flexibilida-
cutivo 38 afirma que somente contribui quando de para as circunstâncias, conhecimento técnico
possui domínio sobre o assunto tratado. em relação ao ramo negocial, e ainda às multi-
Englobando a maior parte das coloca- funções empreendidas” por ele.
ções dos secretários executivos investigados,
Portela e Schumacher (2009) explicam que o 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
papel de facilitador, exercido pelo secretário
executivo, é dividido em quatro facetas indis- O desenvolvimento dessa investigação
pensáveis à plena atuação deste profissional possibilitou algumas considerações acerca dos
como tal. Primeiro, o profissional deve atuar objetivos propostos. Verificou-se que a maior
como agente de resultados – o secretário exe- parte dos secretários executivos pesquisados
cutivo deve ter o perfil de gerador de resultados considera que os aspectos de gestão necessá-
e para conquistá-lo é indispensável que esteja rios à atuação como facilitador organizacional.
comprometido com a empresa, conhecendo Percebeu-se que as competências gerenciais
suficientemente o negócio, a cultura, a filoso- utilizadas na atuação do secretário executivo
fia, a visão, a missão, os objetivos e as metas como facilitador são as três básicas ao papel de
organizacionais. Em seguida, deve funcionar facilitador – construção de equipes, tomadas de
como agente da qualidade, visto que, de acor- decisões e administração de conflitos – subdi-
do com Portela e Schumacher (2009, p. 231), vididas nos comportamentos e nas subcompe-
“sem a organização do secretário executivo, as tências citadas.
demonstrações por ocasião de auditorias para Os resultados apontaram que os secretá-
certificações ficam extremamente dificultadas.” rios executivos pesquisados contribuem como
O secretário executivo deve ser um agen- facilitadores à organização por meio da lide-
te de mudanças, priorizando o aprendizado, rança, proatividade, comunicação assertiva, re-
quanto às constantes mudanças empresariais, siliência, tomada de decisões, administração de
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AUTORES | Conceição de Maria Pinheiro Barros, Joelma Soares da Silva, Túlio Feitosa Paiva 89
LAS COMPETENCIAS
GESTIONALES DEL PAPEL DE
FACILITADOR EN LA ACTUACIÓN
DEL GESTOR SECRETARIAL
RESUMEN
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90 ARTIGOS | As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial
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AUTORES | Conceição de Maria Pinheiro Barros, Joelma Soares da Silva, Túlio Feitosa Paiva 91
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 76-92, jul./dez. 2018
92 ARTIGOS | As competências gerenciais do papel de facilitador na atuação do gestor secretarial
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AUTORES | Alzira Maria Ascensão Marques, Ana Regina Rodrigues Pinho 93
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p93-106.2018
ARTIGOS
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 93-106, jul./dez. 2018
94 ARTIGOS | Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca e na lealdade à marca
apertada com a marca, que é estimulada pelas til corresponde, efetivamente, a três mercados.
informações que as crianças recebem da mídia, Primeiro, o mercado primário em que as crian-
bem como pelos contactos familiares e sociais. ças são os consumidores finais. Em segundo lu-
As crianças estão a ser educadas para gar, os influenciadores de mercado, as crianças
saberem o que realmente querem e como con- influenciam os pais, familiares próximos e seus
vencer os pais a comprarem. Não é só um pro- pares. Em terceiro lugar, o futuremarket, as
cesso de crescimento e aprendizagem natural; crianças como compradores/clientes, à medida
é também um processo de socialização para o que se aproximam da idade adulta.
consumo. O estímulo ao consumo é o objetivo A criança assume um conjunto de papéis
do marketing infantil (ACUFF, 1997). que a tornam um elemento ativo da sociedade
Estudar o comportamento de consumo e que a obrigam a interagir com o mundo dos
infantil tem-se revelado muito importante para adultos. A criança atual não sabe mais nem me-
a comunicação e para o mercado dos produtos nos, ela sabe outras coisas e relaciona-se com
destinados às crianças, mas não só. Compreen- o mundo que a rodeia de forma diferente. Ga-
der e estudar seus hábitos, gostos e costumes nhou também um estatuto de consumidor, al-
é um tema vasto, mas de relevante interesse e guém que influencia, escolhe, compra e se de-
que pode ser abordado segundo várias perspeti- senvolve como consumidor exigente. Hoje, as
vas. Como referem Furnham e Gunter (2001) é crianças não são apenas observadores passivos,
fundamental entender a criança enquanto con- mas participantes ativos no processo de consu-
sumidora; saber em que é que acredita, o que mo (WIMALASIRI, 2004).
deseja e como se comporta. Há uma preocupação crescente das mar-
Nesse sentido, tendo por base as crianças cas em criar e manter uma relação próxima com
portuguesas com idades compreendidas entre a criança no sentido de gerir uma relação de lon-
os 8 e os 12 anos, propusemo-nos com este es- ga duração (JI, 2008). Alguns estudos (FOUR-
tudo conhecer a influência dos fatores de socia- NIER, 1998; MOORE; WILKIE; LUTZ, 2002)
lização, particularmente a influência dos pares, referem relacionamentos criados com marcas na
na consciência de marca, no relacionamento infância e que influenciam as preferências e o
com a marca e na lealdade à marca. Crê-se que comportamento de consumo no futuro.
o marketing relacional poderá ser uma opção
estratégica por parte das organizações, capaz de 2.1 OS INFLUENCIADORES DO COM-
dar resposta às novas exigências dos consumi- PORTAMENTO DE CONSUMO IN-
dores, por meio de uma abordagem mais intera- FANTIL: OS PARES
tiva e individualizada desde a infância.
Para o efeito, iniciaremos o estudo com A infância é uma fase da vida marcada
base em uma revisão da literatura de diferentes fortemente pela aprendizagem do mundo que
autores que investigam esta temática. nos rodeia, da consciencialização dos outros e
dos conceitos mais abstratos e da formação da
2 REVISÃO DA LITERATURA personalidade. Todos os contactos, estímulos e
vivências serão importantes e marcantes para a
O mercado infantil, apesar de volátil, vida atual e futura. Os agentes de socialização
tem um elevado potencial em termos de novas são qualquer pessoa ou organização diretamen-
em oportunidades de negócio e longevidade te envolvida na socialização de um indivíduo
das marcas. Para Yusuf (2007), as crianças são (MOSCHIS; BELLO, 1987) e os principais
um mercado único com grande potencial, por- agentes de socialização são os pais, os amigos
que geralmente não gastam o seu dinheiro, mas e os media (SCOTT, 1959; MOSCHIS, 1978).
têm alto poder de influenciar. A esse propósito, Os pais como agentes primários ajudam
McNeal (1992) considera que o mercado infan- na formação de comportamentos mais racio-
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nais e socialmente desejáveis face ao consumo, ta-se sobre a sensibilidade dos adolescentes a
contribuindo, assim, para atitudes menos mate- marcas, particularmente de roupa, como defen-
rialistas (MOSCHIS; CHURCHILL, 1978), até dem Beaudoin e Lachance (2006).
porque são eles os principais responsáveis pela Os grupos nos quais a criança se insere e
maioria das compras dos mais novos e pelo se relaciona influenciam sua consciência e rela-
sucesso de determinados produtos junto deste ção com as marcas, melhorando-as; consequen-
público (VALKENBURG; BUIJZEN, 2005). temente, influenciam sua lealdade a marcas
A relação entre pais e filhos, os padrões e as (McNEAL, 1992; CHAPLIN; JOHN, 2005;
regras comunicadas, o nível de autonomia e BEAUDOIN; LACHANCE, 2006). Todavia,
intervenção, assim como a interação permitida a necessidade das crianças acompanharem os
e o acesso ao consumo e exposição aos mídia seus pares no que toca ao consumo de mar-
são aspectos relevantes no desenvolvimento do cas pode refletir-se negativamente na lealdade
comportamento da criança como consumidora. à marca. Para Guber e Berry (1993), uma das
Porém, as crianças atuais não estão só dia- características principais do mercado infantil
riamente expostas a mais mensagens comerciais é sua volatilidade, ou seja, as crianças formam
diretas e indiretas como, passam menos tempo um grupo de consumidores imprevisíveis.
com os pais e mais tempo com seus pares. Os Nesse seguimento, conclui-se o seguinte:
pares são colegas que partilham uma mesma ati- H1: Os pares têm influência positiva na
vidade ou o mesmo meio social e que se encai- consciência da marca;
xam aproximadamente na mesma faixa etária. H2: Os pares têm influência positiva na
A influência dos pares tem um papel importan- relação com a marca;
te no processo de socialização e pode começar H3: Os pares têm influência negativa na
desde muito cedo, quando a criança é inserida lealdade à marca.
em um grupo. Essa influência acontece de forma
natural, mas acentua-se na fase da adolescência, 2.2 CONSCIÊNCIA, RELAÇÃO E LE-
especialmente na conduta em face do consumo ALDADE A MARCAS DAS CRIAN-
(FURNHAM; GUNTER, 2001). ÇAS
Nesse contexto, os amigos revelam-se
uma forte influência para as marcas populares Com o avanço da idade, a consciência da
(DOTSON; HYATT, 1994), assim como o re- marca por parte da criança já é assumida em
forço proveniente da prática de endorsement de um nível mais conceptual, para além da fami-
celebridades do desporto, música e entreteni- liaridade, em um sentido mais profundo, pois já
mento, por exemplo, que apelam ao reconheci- analisa o valor simbólico da marca e o que se
mento e nomeação fácil das marcas. diz sobre ela (ACHENREINER; JOHN, 2003).
Para McNeal (1992) os grupos nos quais Mesmo antes de conseguir nomear a marca,
a criança se insere e se relaciona são uma im- a criança parece já reconhecê-la pelos seus
portante fonte de informação sobre produtos sinais, essencialmente visuais (MACKLIN,
e marcas. As crianças falam sobre produtos e 1996). McNeal e Yeh (1993) referem mesmo
marcas e aprendem com os seus pares sobre as que existem pesquisas que sugerem que crian-
marcas favoritas e levam isso em conta em sua ças de 6 meses já conseguem formar e reter
aprendizagem e na relação que desenvolvem imagens mentais de logos e mascotes utilizados
com os produtos. por empresas.
Na adolescência, são importantes os sím- Chaplin e John (2005) identificam o perí-
bolos atribuídos a uma marca de acordo com os odo desde a média infância (7-8 anos de idade)
membros de um grupo ao qual pertence ou quer até ao início da adolescência (12-13 anos) como
pertencer (CHAPLIN; JOHN, 2005). Nesta a chave para entender como é que as crianças
fase, a influência dos pares é grande e manifes- se relacionam com as marcas. As crianças co-
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96 ARTIGOS | Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca e na lealdade à marca
meçam a fazer inferências sobre outras pessoas voráveis diante dela, que se podem manter até
com base nos produtos que elas usam por volta à idade adulta.
dos 7 anos de idade (BELK; BAHN; MAYER, Segundo Ji (2002), um critério funda-
1982; MAYER; BELK, 1982) e com base nas mental para determinar se há uma relação esta-
marcas por volta dos 11-12 anos (ACHEN- belecida entre a criança e uma marca é mostrar
REINER, 1995 apud JOHN, 1999; BELK; se a criança tem armazenada informação e ex-
MAYER; DRISCOLL, 1984). periências passadas em sua memória. Este cri-
Em um determinado momento, as crian- tério implica que a criança deveria saber pelo
ças começam a nomear as marcas e a usá-las menos o nome da marca para poder estabele-
em seus julgamentos de consumo. Servem não cer uma relação com o produto. Nomear uma
só para identificar o produto, mas também para marca quando é convidada a falar sobre uma
o situar em uma categoria e até para inferir ca- categoria de produto, é um requisito para o de-
racterísticas sobre os consumidores que pos- senvolvimento de uma relação com a marca.
suem determinada marca. Entender a marca do Fournier (1998) descreve um tipo de relação
ponto de vista conceptual e usar os seus signifi- com a marca como “Childhood Friendship”,
cados em julgamentos e decisões de consumo, em que o relacionamento é carregado de afeto,
é uma importante parte do processo de sociali- conforto e segurança, sentimentos que provêm
zação do consumidor (JOHN, 1999; ACHEN- de tempos passados com a marca durante a
REINER; JOHN, 2003). infância. Uma avaliação positiva da experiên-
A pesquisa demonstra que as pessoas re- cia com a marca resulta no compromisso das
correm ao uso de marcas e produtos para criar e crianças de continuarem a usar a marca (NI-
comunicar seus próprios conceitos e.g. (BELK, CHOLLS; CULLEN, 2003; KURNIAWAN,
1988; KLEINE; KLEINE; ALLEN, 1995 apud 2011). Em outras palavras, resulta em lealdade
CHAPLIN; JOHN, 2005). Como refere Ro- à marca (HARYANTO; MOUTINHO; COE-
dhain (2006), as marcas podem simbolizar LHO, 2016), definida por Aaker (1997) como
pessoas ou culturas com as quais as crianças se uma medida de proximidade que é possuída por
identificam. A marca permite afirmar e comu- um consumidor com uma marca.
nicar perante os outros e através dela, por seu Face ao exposto, aos conceitos apresen-
uso ou posse, um género, uma idade, um grupo, tados e ao modo como se relacionam, pode-se
uma família. concluir o seguinte:
O ato de consumir passou a ter um valor H4: A consciência da marca tem um efei-
simbólico, e os bens e as marcas internacionais to positivo na relação com a marca
tornam-se uma questão de status. As crianças e H5: A consciência da marca tem um efei-
os adolescentes estão a marcar sua identidade e to positivo na lealdade à marca
a delimitar seus territórios, estabelecendo suas H6: A relação com a marca tem um efei-
regras de participação neste ou naquele grupo, to positivo na lealdade à marca
por meio das marcas dos bens que consomem Assim, com base no quadro teórico e
(ESCALAS; BETTMAN, 2003). nas hipóteses formuladas, definiu-se o modelo
Entender este fenômeno pode ser provei- conceptual (figura 1) que será testado no estudo
toso para conhecer melhor o processo de for- empírico.
mação da identidade da criança com uma mar-
ca e, por sua vez, ajudar as empresas a conhecer
e a atuar sobre o mercado infantil na perspetiva
de criar relações de lealdade. Segundo McNe-
al (1992), já foi demonstrado que as crianças
conseguem desenvolver lealdade perante uma
marca desde cedo, assim como criar atitudes fa-
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Consciência da
H1 marca H4
H5
H2
Pares (fator de Relação com a
socialização) marca
H3 H6
Lealdade à marca
3 METODOLOGIA
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de interna. Assim, a convergência das medidas, explicadas pela variável latente (FORNELL;
isto é, a existência de forte correlação entre LARCKER, 1981).
medidas destinadas a mensurar o mesmo con- No quadro 1, podemos observar que os
ceito foi verificada (GERBING; ANDERSON, valores alfha de Cronbach estão acima do va-
1988; CHURCHILL, 1979; MAROCO, 2010). lor considerado aceitável (>0,70), tornado, as-
A confiabilidade dos conceitos pode ter sim, as escalas confiáveis e as medidas utiliza-
testada utilizando: o Alpha de Cronbach (AC), das têm validade de conteúdo (CHURCHILL,
que avalia a fiabilidade através da consistência 1979). A fiabilidade compósita também é supe-
de cada conceito (CHURCHILL, 1979); a Fia- rior ao valor recomendado de 0,7 (BAGOZZI,
bilidade Compósita (FC), que avalia a consis- 1980; BAGOZZI; YI, 2012). A variância média
tência interna de todos os indicadores das vari- extratida (AVE) é superior ao valor de referên-
áveis latentes (BAGOZZI, 1980); e, por último, cia de 0,5, o que significa que pelo menos 50%
a variância extraída (AVE) que avalia em que da variância é explicada pela variável latente
medida as variâncias dos itens das variáveis são (FORNELL; LARCKER, 1981).
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100 ARTIGOS | Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca e na lealdade à marca
e Larcker (1981). O quadro 2 apresenta os coe- ciência da marca, esta conjuntamente com os
ficientes de correlação entre os conceitos. Nele pares explicam 21% da relação com as marcas
pode observar-se que as correlações entre dois e as três variáveis em conjunto explicam 14,3%
conceitos diferentes são, em geral, estatistica- da lealdade das crianças a marcas.
mente significativas (p<0,05) e todas significa- Os pares, aqui tratados como um fator
tivamente inferiores a 1, sinal de que há valida- de socialização, influenciam positivamente
de discriminante dos conceitos. Além disso, os a consciência da marca, o mesmo é dizer que
valores da diagonal são maiores que os valores promovem os valores materialista nas crian-
fora da diagonal nas linhas e colunas corres- ças (path coeficiente (β) = 0,270, p<0,001,
pondentes o que indica validade discriminante t-value=4,748). Dessa forma, podemos con-
(FORNELL; LARCKER, 1981). siderar corroborada a hipótese H1 (figura 1).
Em termos gerais, os 19 itens que me- As crianças, quando já estão mais conscientes
dem os 4 conceitos (quadro 1) apresentam ní- dos grupos e da importância das ações dos seus
veis aceitáveis de fiabilidade compósita (0,7 pares, escolhem e usam as marcas em função
<fc< 1) (BAGOZZI, 1980), de variância ex- daquilo que querem mostrar e pela importân-
traída (0,5 <ve< 1) (FORNELL; LARCKER, cia de seguir o grupo, consumindo as mesmas
1981; HAIR et al., 2006) e de fiabilidade in- marcas (e.g., AAKER; FOURNIER, 1995; JI,
terna (a> 0,7) (CRONBACH, 1951). Isto evi- 2002, 2008; ROSS; HARRADINE, 2004; RO-
dencia a consistência interna entre os múltiplos DHAIN, 2006).
indicadores de uma variável, ressaltando que Como explica Rodhain (2006), por meio
estes estão de facto a medir o mesmo conceito e das marcas, as crianças identificam-se com uma
a explicar os seus respetivos conceitos latentes comunidade ou com uma cultura. As crianças
(HAIR et al., 2006). Em síntese os itens (indi- associam determinados produtos e marcas a um
cadores) foram considerados medidas adequa- mundo ideal do qual gostariam de fazer parte.
dos e fiáveis para medir as respetivas variáveis O uso e a posse de marcas conferem à criança
latentes (conceitos). um sentimento de inclusão em uma comuni-
dade e, por outro lado, podem também rejeitar
4.2 AVALIAÇÃO DO MODELO ES- uma marca, porque representa algo que ela não
TRUTURAL gosta ou não quer estar associada.
Os pares também influenciam positi-
No PLS, dado não existir uma medida vamente a relação que as crianças com idade
que sumarize a qualidade do ajustamento do semelhante mantêm com as marcas (path coefi-
modelo, é recomendada na avaliação do mode- ciente (β) = 0,190, p<0,01, t-value= 2,998). Po-
lo estrutural a utilização do R2, ou seja o nível demos considerar corroborada a hipótese H2.
de variância explicada de cada uma das vari- Os pares exercem uma influência nega-
áveis endógenas, o qual deverá ser superior a tiva na lealdade às marcas. Pela observação da
10% (FALK; MILLER, 1992). Neste estudo, figura 1 verificamos que o coeficiente de cami-
observa-se que os pares explicam 7% da cons- nho é negativo (path coeficiente (β) = -0,163,
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102 ARTIGOS | Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca e na lealdade à marca
velhas, tendem a reduzir a consciência da mar- valor que a leve à memorização da marca e ao
ca pela sua identificação afetiva com a mesma, seu consumo.
assim como pelo desejo de uso e posse de pro- Formar uma personalidade forte para a
dutos com marcas visíveis e conhecidas. marca, tal como acontece nos relacionamen-
Atualmente, sabemos que o público in- tos entre a marca e o consumidor adulto é, se-
fantil se desenvolve em um ambiente no qual os gundo Aaker (1997), um aspeto fundamental.
bens materiais e as suas respetivas marcas se fa- Mesmo nos estágios iniciais em que a criança
zem presentes e podem até mesmo possuir uma não consegue desenvolver uma relação forte
função reguladora nas interações sociais; daí ser com a marca é importante estar presente, fazer
importante perceber como é que este segmen- a criança conhecer e possuir a marca, para es-
to de mercado convive dentro desse contexto e timular um vínculo com a mesma que se pode
quais as estratégias de marketing infantil mais vir a tornar um relacionamento de longo prazo.
adequadas e socialmente responsáveis. Os resultados deste estudo trabalho con-
O comportamento de compra da criança tribuem para direcionar a atuação das marcas
consumidora tem de ser entendido pelos agen- no sentido de atuarem sobre a sua memoriza-
tes económicos e sociais como sendo um ato ção de produtos, marcas e mensagens como
comercial e também cada vez mais social, ten- referem alguns autores (ROSS; HARRADINE,
do em conta as novas condutas resultantes das 2004; VALKENBURG; BUIJZEN, 2005) e tra-
alterações decorridas na sociedade e na econo- balharem as atitudes de avaliação e escolha em
mia, como sugere Valkenburg (2000). relação ao consumo, pois este já faz parte do
Em seu processo de desenvolvimento as quotidiano, essencialmente através de mensa-
crianças aprendem também a respeitar o ponto gens trabalhadas pelo marketing, como refere
de vista dos outros. As crianças aprendem gra- Preston (2004).
dualmente o significado simbólico das marcas, Como qualquer outro, o presente estudo
por meio da observação, de interações diretas apresenta algumas limitações das quais se des-
com outros ou com o produto, ou por influên- tacam as seguintes:
cia dos meios de comunicação, como sublinha a) utilização de uma amostra de conve-
Dittmar (2008). niência com problemas de represen-
Por ser um período de descobertas, dú- tatividade da realidade portuguesa.
vidas e incertezas, existe na infância e na ado- Sendo assim, a generalização dos re-
lescência uma forte tendência para encarar a sultados deve ser feita com as devidas
posse material como uma forma de estabelecer ressalvas e precauções. Para ultrapas-
identidade própria e alcançar um certo prestí- sar essa limitação recomenda-se a
gio (BELK, 1988). A criança está a definir o replicação do estudo a uma amostra
seu caminho e, por vezes, ela tem consciência de âmbito nacional. Também seria
da marca e identifica-se com ela, mas valoriza interessante alargar a faixa etária dos
também a opinião daqueles que partilham o seu inquiridos e verificar se existem dife-
dia a dia e pertencem a seu grupo de referên- renças significativas entre elas;
cia, ouvindo a respeito e experimentando novas b) os dados utilizados no estudo tiveram
marcas, o que pode contribuir para a não exis- origem em questionários e a colabo-
tência de lealdade nesta fase da vida enquanto ração do professor na obtenção dos
consumidor ou para a volatilidade da sua leal- dados pode ter influenciado as respos-
dade. As marcas têm de implementar estraté- tas. Sugere-se, por isso, a realização
gias que mereçam a confiança das crianças e de uma investigação qualitativa, por-
promovam a sua lealdade. Para o efeito, devem que a capacidade cognitiva das crian-
insistir na presença e na captação da atenção ças é muito variável e os inquéritos
da criança, oferecendo-lhes um acréscimo de aplicados e tratados exclusivamente
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104 ARTIGOS | Consumo infantil: a influência dos pares na consciência de marca, na relação com a marca e na lealdade à marca
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AUTORES | Natalia Contesini dos Santos, Tamirez Dornelles Pires Grammatikopoulos, Camila Arantes de Paula Medina 107
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p107-119.2018
ARTIGOS
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 107-119, jul./dez. 2018
108 ARTIGOS | Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas sob a ótica da teoria institucional
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 107-119, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Natalia Contesini dos Santos, Tamirez Dornelles Pires Grammatikopoulos, Camila Arantes de Paula Medina 109
biente organizacional seja composto por ele- pecíficos de interação social (PRATES, 2000).
mentos técnicos e simbólicos e exige que as A tendência é que, em longo prazo, essas em-
organizações considerem, além dos recursos presas assumam determinadas estruturas e
materiais, tecnológicos e capitais, necessários processos como regras e construam, em torno
para seu processo produtivo, os valores ge- de si, ambientes que negligenciem a necessi-
rados a partir de elementos culturais – como dade de mudança ou até a sua possibilidade.
marcas, valores, símbolos, mitos e sistema de Assim, o processo de diversificação dentro do
crenças – e a adequação e a aceitação das nor- campo é minimizado, ocasionando o fenôme-
mas e exigências sociais (ASSIS et al., 2010). no de isomorfismo institucional, por meio de
Assim, o ambiente institucional é constituído mecanismos coercitivos, miméticos e norma-
por um sistema de elementos técnicos, valores tivos (DiMAGGIO; POWELL, 2005; GRE-
e crenças socioculturais, responsável por ditar ENWOOD et al., 2011).
parâmetros de concepção da realidade para as No primeiro caso, segundo DiMaggio
organizações (GUARIDO FILHO; MACHA- e Powell (2005), uma organização mais forte
DO-DA-SILVA; GONÇALVES, 2009). exerce pressões formais e informais sobre outra
A organização, como instituição, abran- que lhe seja dependente. Assim, o isomorfismo
ge regras informais que se seguem a partir de coercitivo decorre do problema da legitimida-
processos de socialização e expectativas social- de, provenientes das pressões do ambiente sob
mente desejáveis, conferindo valores, deveres e a organização e da influência política. Esse
responsabilidades que definem o que é certo e o mecanismo está relacionado aos rituais de con-
que é errado (CARVALHO et al., 2016). Para os formidade, às leis e aos regulamentos que, de
adeptos da abordagem institucional, uma vez que alguma maneira, permitem a padronização dos
este ambiente reflete o que a sociedade acredita comportamentos ou descrevem comportamen-
ser a maneira correta de a empresa se organizar tos esperados. Embora as pressões coercitivas
e se comportar, as organizações que atendem e, sejam frequentemente associadas a requisitos
principalmente, institucionalizam esses ditames governamentais e regulatórios, essa força tam-
técnicos e socioculturais incrementam sua le- bém pode ser decretada em organizações de
gitimidade e seus propósitos de sobrevivência. qualquer outra natureza que tenha a autoridade
Desse modo, a sobrevivência das organizações de aplicar sanções a uma organização, se não
não é garantida unicamente pelo mercado, pelos agir de acordo com as suas solicitações (WA-
ditames tecnológicos ou pela máquina pública, SHINGTON; PATTERSON, 2011).
mas também pelo conjunto de orientações téc- O ato de tomar outras organizações como
nicas e simbólicas do ambiente que foi institu- modelos, seja pela liderança, legitimação, seja
cionalizado em suas estruturas organizacionais pelo sucesso no mercado, e copiar suas prá-
(GREENWOOD et al., 2011; THORNTON; ticas levaria ao isomorfismo mimético. Esse
OCASIO; LOUNSBURY, 2012). mecanismo está ligado às organizações que se
Contudo, a partir do momento em que espelham ou imitam outras empresas com o
passam a enfrentar o mesmo conjunto de pres- propósito de minimizar temores tecnológicos,
sões ambientais, as empresas tendem a adotar atenuar conflitividades entre seus objetivos,
estruturas, comportamentos e atividades simi- driblar a falta de recursos ou atender exigências
lares e a assumir formas e práticas organizacio- institucionais (CARVALHO; VIEIRA, 2003).
nais previsíveis, controladas e/ou conservado- Por fim, o isomorfismo normativo está
ras. O conjunto de padrões de comportamento, associado a formas comuns de interpretação
de normas e de valores, de crenças e de pressu- e de ação em face dos problemas organizacio-
postos, na qualidade de elementos socialmente nais (GREENWOOD et al., 2011). Esse meca-
estáveis, impõem limitações às alternativas de nismo, por ser fruto da profissionalização e do
ações ou estabelecem roteiros adequados es- incentivo à produção de conhecimento padro-
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110 ARTIGOS | Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas sob a ótica da teoria institucional
nizado, contribui para a uniformização de pen- ou serviço, suas vantagens intrínsecas e ex-
samentos, práticas e comportamentos, sejam trínsecas, além da imagem organizacional, do
estes profissionais ou organizacionais, assim nome, da visão, da cultura, dos posicionamen-
como para o apreço pelo mesmo universo de tos, da identidade visual, entre outros. Logo,
procedimentos, estruturas e políticas. uma marca é responsável por fazer a ligação
física e simbólica entre a empresa e o consu-
3 MARCAS midor, carregando, assim, todas as lembranças,
experiências, posicionamentos e percepções
Desde a Antiguidade, já existiam diversas vividas pelos consumidores. Desse modo, as
maneiras de promoção de mercadorias e servi- marcas aparecem não como elementos agre-
ços. Segundo Pinho (1996, p. 11), “sinetes, selos, gados aos produtos e serviços de uma organi-
siglas e símbolos eram [...] utilizadas como um zação, mas como entidades cognitivas com-
sinal distintivo e de identificação para assinalar plexas, criadas pelos consumidores a partir da
animais, armas e utensílios.” Essas ‘marcas’ co- totalidade de suas experiências de uso dos bens
municavam a procedência do produto, atestando em si, de suas percepções culturais e sociais, ou
seu prestígio e sua excelência, sendo maneiras de questões de personalidade e identidade que
para os indivíduos analfabetos identificarem os lhes são proporcionadas (KELLER, 2016).
comerciantes e suas mercadorias. Aaker (2015) aponta que, ao redor de
Para Aaker (2015), marca é um nome e/ uma marca, existe um conjunto de ativos capa-
ou símbolo distintivo destinado a identificar e zes de acrescentar (ou retirar) valor a uma em-
distinguir os bens ou serviços de um vende- presa ou a seus clientes. O autor defende que a
dor de outros idênticos, semelhantes ou afins, notoriedade, a fidelidade, a qualidade percebida
de origem diversa. Contudo, Kapferer (2012) e as associações feitas à marca ajudam a alterar
explica que essa função única de identificação percepções e experiências do consumidor a res-
e diferenciação foi ampliada quando a teoria peito de um determinado produto ou serviço,
dominante de marketing sofreu influência de estando esses fatores fortemente relacionados à
aspectos da psicologia cognitiva. Nesse mo- criação de marcas organizacionais fortes e à de-
mento, enquanto buscava conhecer melhor as terminação de vantagens organizacionais. En-
formas de influenciar o comportamento dos tende-se como notoriedade a força da presença
consumidores, o marketing descobriu o poten- da marca na mente do consumidor, enquanto a
cial das marcas como forma única de apelo ao fidelidade mede a ligação do consumidor com
consumo, indo muito além das funções clássi- a marca, refletindo a probabilidade de esta ser
cas de distinção da concorrência e identifica- trocada por outra diante de variáveis de mer-
ção do produtor. Dessa forma, ampliou-se o cado. A qualidade percebida pode ser definida
conceito de marca com o intuito de incluir sua como a percepção que o consumidor tem da
capacidade de carregar características intangí- qualidade global ou da superioridade de um
veis, como valores, sentimentos, ideias ou afe- produto ou serviço em relação à concorrência.
tos (KAPFERER, 2012), que sobrepujam, até Por fim, as associações que os consumidores
mesmo, à prestação funcional ou à qualidade fazem a partir do uso da marca estão intima-
do produto ou serviço (AAKER, 2015). mente relacionadas com a imagem e a signifi-
A capacidade simbólica das marcas é, cação que a organização pretende que a marca
similarmente, reconhecida por Keller (2016), tenha na mente dos consumidores.
quando conceitua marca como o conjunto de Geralmente, existe a correlação direta
elementos funcionais, simbólicos e experien- e intuitiva entre marca e identidade visual. A
ciais que representam uma empresa. Por trás de identidade visual é o símbolo gráfico de uma
uma marca, escondem-se os elementos físicos empresa, sendo, muitas vezes, o primeiro con-
do produto, a satisfação pessoal no uso do bem tato que os indivíduos têm com ela (CIMATTI,
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AUTORES | Natalia Contesini dos Santos, Tamirez Dornelles Pires Grammatikopoulos, Camila Arantes de Paula Medina 111
2007). Essa pode ser desde um simples ícone, Esse fenômeno pode ser ilustrado pelo trecho
um lay-out específico, uma tipografia ou as co- abaixo, que demonstra a legitimidade da Pors-
res características da marca. Assim, quando a che, uma das principais marcas de automóveis
empresa é legitimada no mercado em que atua, esportivos do mundo. O sólido e representativo
a marca será facilmente reconhecida pelos con- simbolismo da marca, representando valores
sumidores graças à sólida institucionalização de sofisticação, estilo e engenharia de precisão,
de sua identidade visual. permite e sustenta, por si só, a extensão dos ne-
Uma vertente da literatura de marketing gócios da empresa para segmentos que não o
propõe uma visão institucional da dinâmica do automobilístico. Logo, a notoriedade da marca,
mercado. Scaraboto e Fisher (2013), por exem- sua qualidade percebida e as associações a elas
plo, estudam como consumidoras e blogueiras feitas são capazes de comunicar a credibilidade
norte-americanas plus-size1 utilizam o discurso que a empresa possui junto ao mercado.
institucionalizado pelo mercado da moda domi-
nante para reivindicar o fornecimento de mais [...] as características de sofistica-
opções de roupas da moda em tamanho plus- ção, estilo e engenharia de precisão
-size. Similarmente, Dolbec e Fischer (2015) dos carros Porsche podem ser plau-
investigam o papel que os consumidores po- sivelmente transportadas para reló-
gios Porsche, óculos de sol Porsche,
dem desempenhar na legitimação de uma dada
e até mesmo para roupas, máquinas
prática de consumo. Nessa vertente, os consu- fotográficas e malas Porsche. Qual-
midores são vistos como agentes interpretati- quer extensão do nome Porsche que
vos, não passivos, que buscam criar, manter ou mantenha os atributos essenciais de
interromper categorias cognitivas ou práticas e estilo, sofisticação e alta qualidade
representações institucionalizadas pelo merca- são apropriados e merecem credibili-
do, por meio, principalmente, da publicidade dade, além de tudo podem servir para
massiva. Contudo, Stuart (2018) defende que desenvolver a marca e não prejudicá-
a abordagem da lógica institucional ainda não -la (MURPHY, 1990, p.112 apud PI-
foi exaustivamente utilizada como lente para a NHO, 1996, p. 25).
investigação da marca.
Ilustrando a abordagem institucional,
é possível afirmar que os aspectos técnicos da
4 REFLEXÕES SOBRE MARCAS E
Porsche podem ser facilmente copiados por seus
TEORIA INSTITUCIONAL concorrentes do segmento automobilístico, in-
correndo no fenômeno de isomorfismo mimé-
A teoria institucional defende o ambien-
tico. Contudo, o poder de sua marca permite à
te organizacional composto por um sistema de
organização manter uma vantagem competitiva
elementos técnicos, valores e crenças sociocul-
no segmento no qual atua ou pretende atuar.
turais que deve ser atendido pelas organizações
Similarmente, tem-se o processo de ex-
que buscam legitimidade e aceitação. Assim, o
tensão da marca Dona Benta, líder no mercado
ambiente institucional projeta, nas organizações,
brasileiro em vendas nas categorias de farinha
a necessidade de se definirem estratégias de
de trigo e misturas para bolos. Criada em 1979,
ação, exercendo pressões que as influenciam a
a marca Dona Benta sempre esteve fortemente
fim de garantir a sobrevivência e a legitimidade.
atrelada à cultura popular brasileira, graças à
Suddaby (2010) observa que, uma vez
associação que fazia a personagem de Monteiro
legitimadas, as organizações adquirem vida
Lobato com o mesmo nome. Além disso, o in-
própria, independente de quaisquer de seus
vestimento em programas de culinária e cursos
membros, tendo o seu valor não mais atrela-
de gastronomia ajudou a fortalecer a identifica-
do unicamente à sua eficiência e à demanda
ção da marca com as donas de casa brasileiras.
de seus produtos ou serviços, mas a si mesmo.
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112 ARTIGOS | Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas sob a ótica da teoria institucional
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114 ARTIGOS | Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas sob a ótica da teoria institucional
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116 ARTIGOS | Reflexões sobre os aspectos simbólicos das marcas sob a ótica da teoria institucional
em seus mercados de atuação. this sense, the brand is an important strategic re-
Pelo lado das imitadoras, as explicações source, sustainable source of differentiation and
para a adoção dessas práticas de isomorfismo legitimacy for the organization, carrying sym-
mimético recaem sob a crença de que, ao me- bolic values and adding a greater value to the
nos temporariamente, serão visualizadas no organizational products.
mercado. Entretanto, esses esclarecimentos não
dão um bom relato de como a prática se espalha Keywords: Brand. Institutional Theory. Iso-
com o tempo, visto que ela é não sustentável morphism. Intangible Resources.
em médio e longo prazo, além de ser incapaz
de criar diferencial competitivo permanente REFLEXIONES SOBRE LOS
junto ao cliente. Ao contrário, essas práticas de ASPECTOS SIMBÓLICOS DE LAS
isomorfismo contribuem para consolidar ainda MARCAS BAJO LA ÓPTICA DE LA
mais a legitimidade das organizações imitadas. TEORÍA INSTITUCIONAL
Vale ressaltar que este estudo optou por
analisar o poder das marcas sob a ótica da teo-
RESUMEN
ria institucional. Todavia, outras teorias da Ad-
ministração, assim como outras temáticas que
Este ensayo teórico buscó incitar una discusión
não marcas, poderiam ter sido utilizadas aqui.
sobre la importancia de la marca como activo
Similarmente, trabalhos futuros podem avaliar
intangible en el proceso de legitimación y di-
a influência que o conjunto de aspectos técni-
ferencial competitivo organizacional, apoyán-
cos e estruturas organizacionais possui no pro-
dose en las orientaciones y en los presupuestos
cesso de legitimação organizacional, de modo a
de la teoría institucional. La perspectiva institu-
verificar, empiricamente, quais as vantagens da
cional abandona la concepción de un ambiente
combinação desse aos aspectos simbólicos do
organizacional formado, exclusivamente, por
ambiente institucional. Por fim, destaca-se que,
recursos humanos, materiales y económicos
por se tratar de um ensaio teórico, as percep-
para destacar la presencia de elementos cultu-
ções e as reflexões críticas dos autores repre-
rales como valores, símbolos, mitos, sistemas
sentam possíveis limitações a este estudo.
de creencias y programas profesionales. Así, la
marca caracterizase como un importante activo
CONSIDERATIONS ON THE estratégico, medio sustentable de diferencia-
SYMBOLIC ASPECTS OF BRANDS ción y legitimación para la empresa, capaz de
FROM THE STANDPOINT OF THE cargar valores simbólicos y agregar un mayor
INSTITUTIONAL THEORY valor a los recursos disponibles en el mercado.
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AUTORES | Natalia Contesini dos Santos, Tamirez Dornelles Pires Grammatikopoulos, Camila Arantes de Paula Medina 119
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 107-119, jul./dez. 2018
120 ARTIGOS | Por que compartilhar? Um estudo sobre a economia compartilhada na cidade de Fortaleza
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ARTIGOS
RESUMO
1 INTRODUÇÃO
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 120-132, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Sara Raquel de Melo Ferreira, Talita Jeanny Dutra Lima 121
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 120-132, jul./dez. 2018
122 ARTIGOS | Por que compartilhar? Um estudo sobre a economia compartilhada na cidade de Fortaleza
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 120-132, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Sara Raquel de Melo Ferreira, Talita Jeanny Dutra Lima 123
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 120-132, jul./dez. 2018
124 ARTIGOS | Por que compartilhar? Um estudo sobre a economia compartilhada na cidade de Fortaleza
tuam mercado de redistribuição como sendo a estilo de vida colaborativa, caracteriza-se pela
reutilização ou a revenda de produtos já utiliza- reunião de pessoas com interesses semelhan-
dos, representando a retomada do escambo (re- tes que estão dispostas a realizar trocas menos
alização de trocas sem a utilização de moeda), tangíveis, como trocas de tempo e habilidades.
agora com uma poderosa ferramenta de comu- Requer alto nível de confiança entre os partici-
nicação, a Internet, o que viabiliza canais mais pantes, uma vez que não diz espeito a trocas de
eficientes de comunicação e de troca. Esse siste- produtos físicos, mas sim uma interação social
ma encoraja o reuso e a redistribuição de itens. e física (ORNELLAS, 2013).
É baseado no sistema sustentável de comércio, O Quadro 1 apresenta exemplos de ativi-
utilizando os 5R`s: redução, reciclagem, reuso, dades na economia compartilhada, já existentes
reparo e redistribuição (ORNELLAS, 2013). em vários países, que se encaixam na classifi-
O último tipo definido pelos autores, cação dos autores.
Para Ornellas (2013), a sustentabilidade é relacionados a esse tipo de economia são cria-
uma das consequências da economia comparti- dos (exemplo: oficinas de conserto de produtos,
lhada uma vez que pode reduzir emissão de ga- escritórios de compartilhamento e aluguel de
ses poluentes com a utilização de menos carros, bens, entre outros). Porém, pode-se destacar que
diminuir, potencialmente, a produção de lixo, o fator sustentabilidade pode não ser a principal
pois, com o conserto de produtos, eles passam a motivação dos indivíduos buscarem serviços da
ser reutilizados e não se tornam lixo. Pode ocor- economia compartilhada, como afirmam Arruda
rer distribuição de renda à medida que empregos et al. (2016) que apontam que os principais mo-
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tivos que levaram os indivíduos a escolherem o dor visa estudar o impacto que esses processos
uso de bicicletas compartilhadas foi economia de decisão de compra possuem sobre o próprio
de custos e de tempo. consumidor e a sociedade de forma geral.
Por fim, é importante salientar, também, Limeira (2008) complementa, afirmando
que não se trata de propagar a substituição dos que a teoria tradicional sobre comportamen-
modelos de consumo atuais ao modelo pro- to do consumidor define o comportamento de
posto pela economia compartilhada, mas, sim, consumo como conjunto de reações ou respos-
apresentar uma alternativa viável para a utiliza- tas individuais a determinados estímulos que
ção de bens e mercadorias sem a necessidade podem advir de fatores sociais, ambientais,
de posse (MAURER et al., 2015). situacionais, além de estímulos causados por
exposição a ações de marketing.
2.2 COMPORTAMENTO DO CONSU- Algumas variáveis individuais influen-
MIDOR ciam o comportamento de compra do consu-
midor, devendo ser consideradas em qualquer
Solomon (2016) afirma que o comporta- estudo sobre esse tema. São elas: percepção,
mento do consumidor é o estudo dos processos aprendizagem e memória, motivação e valores,
envolvidos quando um indivíduo ou um grupo personalidade e estilo de vida, atitudes e persu-
de pessoas selecionam, compram, usam ou des- asão (SOLOMON, 2016).
cartam um determinado produto, serviço, ideia Crocco et al. (2013) afirmam que existem
ou experiências para satisfazerem suas mais di- dois grupos de variáveis que podem influenciar
versas necessidades e desejos. O processo estu- o comportamento do consumidor, além da ati-
dado dentro do comportamento do consumidor vidade de marketing empresarial que também é
envolve um ator e uma ação, isto é, envolve o responsável por essa influência. O primeiro grupo
consumidor e a ação de troca. A troca pode ser é formado pelas variáveis sociológicas e psicos-
considerada como uma transação em que duas sociológicas, compostas por questões como influ-
organizações ou pessoas dão e recebem algo de ência da família e do grupo, classes sociais, cultu-
valor e envolve todo o processo de escolhas e ra etc., e as variáveis individuais, compostas por
decisão de compra, sendo que o consumidor questões demográficas, aprendizado, motivação,
é a pessoa que identifica uma necessidade ou atitudes, personalidade, estilo de vida etc.
desejo, realiza a compra, utiliza o produto e de- Para esta pesquisa, a variável que influen-
pois o descarta. Em muitos casos, mais pessoas cia o comportamento do consumidor que será
podem estar envolvidas no processo de decisão estudada é a motivação do consumidor, isto é, o
de compra, assumindo papéis de influenciador, que move o consumidor e determinado serviço/
decisor, comprador e usuário (SOLOMON, produto. Solomon (2016) afirma que motivação
2016). O estudo do comportamento do consu- é um processo que faz que os indivíduos se com-
midor teve origem nas teorias clássicas econô- portem de uma determinada maneira, ocorrendo
micas, e seu objeto de estudo é ação de escolha quando uma necessidade é apresentada. Penha et
que o indivíduo faz a partir do momento que ele al. (2013) afirmam que o conhecimento das mo-
decide consumir algo (PORTO, 2010). tivações dos consumidores em relação ao con-
Já para Hawkins, Mothersbaugh e Best sumo de bens e serviços é importante uma vez
(2007), o comportamento do consumidor pode que ajuda a organização a identificar possíveis
ser entendido como um estudo de como os in- rejeições aos produtos/serviços ofertados.
divíduos, os grupos ou as organizações selecio- Pesquisas sobre o comportamento do
nam, obtêm e usam os serviços e produtos ou consumidor e sobre o mercado utilizam-se de
experiências e ideias, visando satisfazer dese- medidas motivacionais e de atitudes para ob-
jos e necessidades. Os autores complementam ter seus resultados, mas deve-se considerar que
que, além disso, o comportamento do consumi- a atitude não é um fenômeno observável, ela
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empresa Serttel e com apoio da Unimed For- tinham o intuito de realizar uma caracteriza-
taleza. O sistema foi implantado na cidade de ção do perfil sociodemográfico e identificar as
Fortaleza, no final de 2014, e visa oferecer uma seguintes questões: há quanto tempo o respon-
opção de transporte sustentável e não poluente. dente é usuário do sistema de bicicletas compar-
O aluguel de bicicletas funciona de duas for- tilhadas?; quais as estações que são mais utiliza-
mas: se o interessado for possuidor do cartão das?; quais as motivações que levam os usuários
Bilhete Único, ele terá direito ao uso da bici- a usarem as bicicletas compartilhadas?; quais os
cleta sem nenhum acréscimo por até 1 hora principais problemas encontrados pelos usuários
por dia. Após esse período, serão debitados R$ na utilização das bicicletas?; quais são os fatores
5,00 no Bilhete Único. Caso o interessado não positivos e negativos na utilização das bicicle-
possua o cartão Bilhete Único, ele deve fazer tas?. Deve-se identificar se o usuário pretende
um cadastro no aplicativo do sistema, escolher comprar uma bicicleta ou se continuará a utilizar
a forma de aquisição de “passes” que podem o sistema de bicicletas compartilhadas.
ser Passe Diário, no valor de R$ 5,00, válido A análise dos dados foi realizada por
por 24 horas; Passe Mensal, no valor de R$ meio do programa Microsoft Excel, em que fo-
10,00 e Passe Anual, no valor de R$ 60,00. Em ram aplicadas técnicas de estatística descritiva
cada uma das modalidades, a bicicleta pode ser que têm como finalidade descrever simetrias e
usada por uma hora após a retirada da estação. resumir dados (SILVESTRE, 2007).
Não existe limite de empréstimo de bicicletas,
porém o usuário deve esperar 15 minutos entre 4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
cada retirada. Atualmente, o sistema conta com
80 estações distribuídas entre os diversos bair- Inicialmente, a pesquisa se propôs a
ros de Fortaleza, contando com um total de 690 identificar qual o perfil dos usuários do sistema
bicicletas aptas a ser usadas, segundo informa- de bicicletas compartilhadas. Com base nos da-
ções da Secretaria Municipal de Conservação e dos coletados, observa-se que 55% dos respon-
Serviços Públicos de Fortaleza. O usuário pode dentes estão entre a faixa etária de 25 a 34 anos,
retirar a bicicleta em qualquer uma das esta- e 20% dos respondentes têm até 24 anos, con-
ções, realizar o percurso que desejar e, ao final, forme pode ser visto no gráfico 1. Esse achado
ele deve depositar a bicicleta em qualquer uma afasta-se um pouco do encontrado no artigo de
das estações, não necessariamente a mesma es- Arruda et al. (2016), uma vez que, na pesquisa
tação de onde a bicicleta foi retirada. realizada pelos autores, a maioria (51,7%) dos
A amostra foi composta por 51 usuários respondentes tinha até 25 anos.
do sistema que se voluntariaram a participar da
pesquisa por meio de questionário estruturado e
disponibilizado via internet, por meio da ferra-
menta Google Forms, entre os meses de junho e
agosto de 2017. Assim, o processo de amostra-
gem deste estudo configura-se por conveniên-
cia. Nique e Ladeira (2017) afirmam que, nesse
tipo de amostragem, o pesquisador seleciona
as pessoas que irão participar de forma que lhe
seja mais conveniente, isto é, estão mais aces-
síveis ao pesquisador. Em consequência desse
tipo de amostragem, não se pode generalizar
resultados, e eles não podem ser usados para Gráfico 1 - Faixa etária
Fonte: dados da pesquisa (2017).
inferir características de toda uma população.
O questionário contém 17 perguntas que
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128 ARTIGOS | Por que compartilhar? Um estudo sobre a economia compartilhada na cidade de Fortaleza
Foi questionada, também, a escolarida- ram questionados sobre o tempo que usavam
de dos respondentes, em que 35% informaram o sistema de bicicletas compartilhadas, 49%
possuir ensino superior incompleto/cursando; (25 indivíduos) apontaram que utilizam desde
20% informaram possuir pós-graduação, seja a inauguração, isto é, utilizam desde o final de
ela especialização, mestrado ou doutorado, e 2014, conforme pode ser visualizado no grá-
16% informaram possuir ensino superior com- fico 3. Pode-se supor que o uso das bicicletas
pleto, conforme pode ser visualizado no gráfico compartilhadas para esses respondentes não se
2. Esse resultado corrobora o encontrado por configura como modismo, isto é, o uso do bem
Arruda et al. (2016), em que 84% dos seus pes- só porque ele está na moda.
quisados apresentaram ensino superior com-
pleto ou em andamento. Além disso, o usuário
do sistema de bicicletas compartilhadas possui
várias ocupações, como publicitário, jornalista,
professor, administrador, estudante, bancário,
contador, dentre outras.
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130 ARTIGOS | Por que compartilhar? Um estudo sobre a economia compartilhada na cidade de Fortaleza
cleta para seu deslocamento. Esse achado cor- Acredita-se que esta pesquisa oferece in-
robora o que Belk (2014) afirma, na medida formações pertinentes sobre a economia com-
em que as pessoas podem até conhecer e ter partilhada, o uso do sistema de bicicletas com-
uma atitude positiva em relação aos serviços partilhadas na cidade de Fortaleza, ampliando o
da economia compartilhada (como apontado entendimento do conceito e trazendo um tema
nesta pesquisa), mas, por questões comporta- em franca investigação para o âmbito regional/
mentais, como sentimento de posse e apego aos local. Pode-se apontar, como limitação deste
bens materiais, os indivíduos ainda preferem estudo, a amostra reduzida, ocasionando a não
comprar seus bens e ter a posse deles a usar os possibilidade de generalização dos resultados,
serviços/produtos compartilhados. o que seria solucionado a partir da utilização de
uma amostra probabilística, além da não utili-
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS zação de métodos estatísticos para a análise dos
dados (correlação ou análise fatorial).
Esta pesquisa teve como objetivo com- Esta pesquisa sugere a continuidade da
preender as motivações dos usuários acerca do investigação do tema economia compartilhada
uso do sistema de bicicletas compartilhadas na e de todas as suas ferramentas e bens, além do
cidade de Fortaleza. Para que esse objetivo fosse estudo de como o comportamento do consumi-
alcançado, elaboraram-se dois objetivos especí- dor vem-se alterando com base nesses novos
ficos: descrever o perfil do usuário do sistema modelos de negócios que estão surgindo, na
compartilhado e compreender as motivações tentativa de consolidar o consumo mais susten-
para a utilização do sistema compartilhado. tável em meio a uma sociedade que ainda é tão
Tendo em vista responder ao primeiro baseada no capitalismo.
objetivo específico (descrever o perfil do usu- Por fim, como sugestão de estudos a se-
ário do sistema compartilhado), o consumidor rem desenvolvidos no futuro, aponta-se a rea-
do sistema de bicicletas compartilhadas tra- lização de pesquisas sobre o sistema de carros
balha nas mais variadas profissões (professor, compartilhados, também disponibilizados pela
publicitário, jornalista, contador, técnico de TI, Prefeitura de Fortaleza, a fim de compreender
engenheiro de software, entre outras profis- as motivações de uso desse tipo de bem na da
sões), possui entre 25 e 34 anos, tem o ensino economia compartilhada.
superior incompleto/cursando e possuem renda
de até dois salários mínimos. WHY SHARE? A STUDY ON
Ao responder ao segundo objetivo especí- SHARED ECONOMICS IN THE CITY
fico (compreender as motivações para a utilização OF FORTALEZA
do sistema compartilhado), pôde-se observar va-
riadas motivações dos indivíduos para a utilização ABSTRACT
das bicicletas compartilhadas, entre elas: motiva-
ção econômica, uma vez que a ampla maioria uti- The concept of shared economy addresses
liza o bilhete único, economizando na retirada da commercial practices that do not have the ac-
bicicleta; além disso, muitos respondentes afirma- quisition of a product, but rather the experience
ram que as estações ficam próximas às suas casas of its use. Currently, there are several business
e ao trabalho, compensando, financeiramente, a models that are anchored in this concept, such
utilização da bicicleta e o não uso de carro/ônibus; as sharing bicycles and cars, workspaces, etc.
motivação socioambiental, contribuir para a redu- This work aims to investigate: what are the mo-
ção da poluição urbana e para a redução do trânsito tivations for using the shared bicycle system?
diário; motivação de bem-estar, uma vez que o uso In addition, its general objective is to unders-
das bicicletas, para muitos respondentes, é com a tand the motivations of users about the use of
finalidade de praticar atividade física ao ar livre. the shared bicycle system in the city of Fortale-
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AUTORES | Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira 133
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p133-150.2018
ARTIGOS
RESUMO
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134 ARTIGOS | Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia
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AUTORES | Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira 135
gicos, em que será relatado o desenho de pes- passado por outras nações (KIM, 2008; LIU;
quisa; a análise e a discussão dos resultados que HUANG, 2018).
apresentarão as discussões a partir dos dados co- Considerando a realidade dos chama-
letados empiricamente; considerações finais, em dos países emergentes, Jorge Sábato e Nata-
que haverá sugestões de pesquisas, limitações e lio Botana publicaram, em 1968, o estudo “La
ações futuras; além desta introdução. ciencia y la tecnología en el desarrollo futuro
de America Latina”. Este foi considerado um
2 REFERENCIAL TEÓRICO marco fundamental na busca por uma estratégia
de promoção da Ciência & Tecnologia (C&T)
Na sociedade contemporânea, os desen- que permitisse que os países da América Lati-
volvimentos tecnológicos e econômicos devem na contribuíssem globalmente na produção de
andar juntos com o intuito de gerar inovação, já novas tecnologias. Considerando a revolução
que esta é um dos principais fatores de compe- científico-tecnológica do século XX, “a gera-
titividade de uma nação (REIS, 2008). Assim, ção de uma capacidade de decisão própria neste
o desenvolvimento tecnológico passa a ser uma campo é o resultado de um processo delibera-
condição primordial de soberania dos Estados, do de inter-relações entre o vértice governo, o
que precisam, cada vez mais, fortalecer seus vértice infraestrutura científico-tecnológica e o
sistemas nacionais de inovação para que se vértice estrutura produtiva.” (SÁBATO; BO-
tornem globalmente competitivos. (PORTER, TANA, 1968, p. 7, tradução nossa).
1989; SCHUMPETER, 1997). Tal proposta deu origem ao chamado Tri-
Embora o potencial de inovação de um ângulo de Sábato (figura 1) no qual esses agentes
país tome como referências o cenário global, a estariam interligados em uma estrutura triangu-
sua formatação deve obedecer às capacidades lar hierarquizada em que o vértice superior seria
que cada país possui e, especialmente, os países ocupado pelo governo, responsável por fomentar
em processo de desenvolvimento. A criação de uma política desenvolvimentista que investiria
redes entre diversos atores deve ser estimula- em infraestrutura científico-tecnológica (como
da para ampliar o potencial desenvolvimentista em universidades e centros de pesquisa, por
dessas nações. Neste cenário, a proposta de um exemplo) para que eles fornecessem tecnologias
modelo de integração entre universidade, go- para a estrutura produtiva. Ao mesmo tempo, a
verno e empresas emerge como uma alternati- estrutura produtiva impulsionaria a produção de
va de fortalecimento dos sistemas nacionais de conhecimento e geraria receita para o governo
inovação, conforme visto a seguir. (TIGRE, 2014; REIS, 2008).
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Figura 3 - Articulação da política de C,T&I com as principais políticas de Estado e a integração dos atores
Fonte: (BRASIL, 2012, p. 27).
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do ano de 2017, o que compreende 506 douto- quanto no tratamento delas por meio de técni-
res analisados, englobando os 10 estados nos cas estatísticas, desde as mais simples, como
quais a RENORBIO atua. Após a listagem dos percentual.” Essa técnica permitiu o forneci-
egressos, foi realizada uma pesquisa descritiva mento de respostas diretas às perguntas ante-
que, segundo Vergara (2016), é utilizada para riormente definidas, possibilitando uma melhor
expor características de uma determinada po- análise do universo pesquisado.
pulação, mas sem a presunção de explicar os
fenômenos que descreve. Para a coleta de da- 3.3 TÉCNICA DE TRATAMENTO DE
dos, foram realizadas, no período de novembro DADOS E ANÁLISE
de 2017 a janeiro de 2018, consultas à Plata-
forma Lattes do Conselho Nacional de Desen- Como critérios para a análise, foi elabora-
volvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do um roteiro norteador composto por seis ques-
disponível no endereço eletrônico <[Link]. tões-chave, que buscou avaliar a ocupação labo-
br>. Justifica-se, ainda, a escolha deste acervo, ral antes e após a conclusão do doutorado, bem
pois esta é a base de dados comum para todos como a produção acadêmica total medida por
os pesquisadores acadêmicos brasileiros e, em meio de artigos produzidos, projetos envolvidos
alguns casos, estrangeiros. e patentes concedidas. As perguntas norteadoras
A coleta de dados deu-se por meio de foram: i) que atividade laboral exercia antes do
análise documental, que, para Cellard (2008, p. doutorado?; ii) que atividade laboral exerce após
295), “o documento permite acrescentar a di- o doutorado?; iii) quantos artigos foram publi-
mensão do tempo à compreensão social.” A es- cados ou aceitos em periódicos indexados pelo
colha do curriculum como fonte permite respon- WebQualis?; iv) quantos trabalhos completos,
der à questão norteadora e o objetivo do estudo resumos em eventos e resumos expandidos fo-
uma vez que esse documento relata um histórico ram apresentados?; v) quantas patentes foram
de atividades realizadas individualmente pelos publicadas? e, por fim; vi) em quantos projetos
egressos, permitindo datar suas atividades antes de pesquisa estiveram envolvidos?
e após a conclusão do doutoramento. Assim sendo, foi analisado o perfil dos
pesquisadores antes e depois da conclusão do
3.2 MÉTODO doutorado, para compreender como o doutora-
mento impactou na produção acadêmica (limi-
O método, utilizado na presente pes- tadas a artigos) dessas pessoas, se a atividade
quisa, foi a análise de conteúdo, que permite laboral sofreu alteração e como se deu essa al-
extrair informações de falas ou documentos teração após o doutoramento e a quantos pro-
(BARDIN, 2011). Para Bauer e Gaskell (2004), jetos de pesquisa os egressos do programa de
normalmente as análises de conteúdo ocorrem doutorado da RENORBIO estavam ou ainda
por meio de descrições numéricas das caracte- estão vinculados.
rísticas existentes nos textos analisados, de tal
modo que “a análise de texto faz uma ponte en- 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RE-
tre um formalismo estatístico e a análise qua- SULTADOS
litativa dos materiais.” (BAUER; GASKELL,
2004, p. 190). Esta seção analisa e discute a produção
Após essa etapa, e com base nos objeti- científica e a posição profissional dos doutores
vos determinados, foi utilizada uma abordagem egressos do programa de doutorado da RE-
quantitativa, tomando por base a percentagem, NORBIO, o que compreende 506 pesquisa-
pois, conforme Richardson (1999, p. 70), “ca- dores formados desde 2009 (ano de defesa da
racteriza-se pelo emprego da quantificação tan- primeira tese) até o momento presente.
to nas modalidades de coleta de informações A primeira informação extraída do currí-
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142 ARTIGOS | Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia
culo Lattes dos pesquisadores foi norteada pela nhecimento por meio de divergentes pontos de
seguinte pergunta: que atividade exercia antes análise. Segundo Trigueiro (2001), na aborda-
do doutorado? O gráfico 1 apresenta os resulta- gem da Tríplice Hélice, a necessidade de visões
dos encontrados para tal questionamento: complementares e integradas se faz necessária,
o que destaca ainda mais a importância da RE-
NORBIO no cenário científico nacional.
A produção do conhecimento é fruto
das experiências acumuladas pelos indivíduos
por meio da interação e do desenvolvimento
de projetos, pesquisa e resolução de proble-
mas ligados à atividade humana (DOSI, 1982;
MATOS; MATOS; ALMEIDA, 2007). Sua ex-
pansão, por sua vez, predispõe os padrões de
comportamento que os grupos humanos irão
desenvolver e condiciona os tipos de práticas
administrativas que deverão ser aplicadas nas
Gráfico 1 - Que atividade laboral exercia antes do
situações particulares das organizações, geran-
doutorado
Fonte: dados da pesquisa (2018).
do estoques de conhecimento, impactando di-
retamente no desenvolvimento tecnológico do
Tomando por base os dados analisados, país (FIGUEIREDO, 2009).
chegou-se aos seguintes números: 43% dos O segundo critério de análise buscou
doutores exerciam, como profissão principal, investigar a atividade exercida após o doutora-
a docência; 39% exerciam atividades diversas, mento, cujos dados estão apresentados no grá-
como serviços burocráticos ou atividades não fico 2:
ligadas à formação original; em 8% dos curri-
cula analisados, não constava atividade laboral;
7% exerciam atividade profissional diretamen-
te ligada à área de formação de graduação (seja
como trabalhador contratado ou profissional
liberal), no qual se denominou, nesta pesquisa,
como bacharéis3; 2% exerciam atividades estri-
tamente ligadas à pesquisa, e 1% dos pesquisa-
dores analisados eram estagiários antes de en-
trar no programa de doutorado da RENORBIO. Gráfico 2 - Que atividade exerce após doutorado
Fonte: dados da pesquisa (2018).
De acordo com o exposto, a maioria dos
profissionais ligados ao doutorado já desenvol-
De acordo com os dados coletados, 64%
via atividades no ambiente acadêmico. Se so-
dos pesquisadores exerciam atividade docente;
marmos a esse quesito a porcentagem de dou-
13% exerciam atividades diversas; 13% atua-
tores que já eram ligados à pesquisa acadêmica
vam em sua formação original de graduação;
antes do doutorado, ou os profissionais bacha-
9% não declararam atividade laboral, e 1%
réis, o número de doutores ligados à academia
permanecia como estudante (pós-doutorado).
na produção de conhecimento científico será
Comparando ambos os momentos, percebe-se
maior. O fato de haver profissionais que não
um aumento da quantidade de docentes, o que
estavam ligados à formação original, e presen-
efetiva a proposta original do programa (RE-
tes no doutorado, caracteriza uma pluralidade
NORBIO, 2018).
de visões que podem contribuir, de alguma for-
O terceiro critério verificou quantos ar-
ma, para a produção e o enriquecimento do co-
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AUTORES | Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira 143
tigos foram publicados ou, pelo menos, aceitos na produção científica e tecnológica em even-
para publicação em periódicos indexados pelo tos nacionais e internacionais.
WebQualis. Foram encontrados 5476 artigos No contexto da Tríplice Hélice, as uni-
científicos nas condições mencionadas, con- versidades se beneficiam do conhecimento pro-
siderando-se, ainda, a possibilidade de dupla duzido; a indústria se beneficia com o conhe-
computação. Isso representa uma média de 10,8 cimento gerado ao aprender e ao implementar
artigos por pesquisador, embora não haja, nesta ações que fortalecem as operações e proporcio-
pesquisa, qualquer análise em relação ao estrato nam resultados satisfatórios, principalmente na
Qualis dos periódicos, quantidade de citações ou redução de custos operacionais com as novas
relevância do conhecimento produzido. tecnologias em desenvolvimento; e o governo
Segundo Mugnaini, Jannuzzi e Quoniam se beneficia na geração de empregos, arreca-
(2004), as atividades de produção científica no dação de impostos, aumento da produção do
Brasil vêm-se fortalecendo nas últimas décadas produto interno bruto do país, o que impacta
com uma tendência de crescimento ao longo diretamente no desenvolvimento socioeconô-
dos anos. Ainda, segundo os autores, os resul- mico (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017; NUNES;
tados da pesquisa realizada revelaram, no inter- WEISE; MEDEIROS, 2015; PADULA; SIL-
valo entre os anos de 1983 a 2000, um aumento VA; PEREIRA JUNIOR, 2016).
considerável de trabalhos publicados. No ano Com seu propósito de criação do conhe-
de 1983, eram publicados em torno de mil tra- cimento científico, a RENORBIO também tem
balhos/ano. No ano de 2000, foram publicados a sua importância na construção e na dissemi-
aproximadamente seis mil trabalhos (MUG- nação da inovação e do conhecimento científi-
NAINI; JANNUZZI; QUONIAM, 2004). co brasileiro no contexto em questão. Para Ro-
Nesta pesquisa, os dados revelaram que bertson (2013), trata-se de um fator crucial para
os pesquisadores da RENORBIO publicaram, o desenvolvimento social e econômico, que
no intervalo entre os anos de 2009 e 2017, a deve estar acessível, de forma especial, pela via
marca de 5476 artigos, contribuindo, de forma da educação. Trata-se de um tema que tem ga-
sólida, para a difusão do conhecimento cientí- nhado relevância em várias partes do mundo,
fico brasileiro. capaz de gerar valor e desenvolvimento para as
O questionamento seguinte procurou ser instituições de ensino, empresas e localidade
mais inclusivo ao considerar, também, estu- diversas em uma relação com potencial para
dos que não chegaram a ser publicados, bus- produzir benefícios a todas as partes.
cando computar quantos trabalhos completos, É essa vertente de interação que Lall (1992)
resumos em eventos e resumos expandidos e Tacla (2002) também consideram fator críti-
foram apresentados pelos pesquisadores. Esse co para o desempenho competitivo de país com
indicador praticamente triplica o quantitativo economia de industrialização emergente, como é
do item anterior, embora sejam encontrados o caso do Brasil, que precisa construir e acumu-
15873 papers nesta categoria. A apresentação lar as próprias competências tecnológicas para se
dos estudos em eventos mostra que os traba- aproximar da fronteira tecnológica internacional.
lhos desenvolvidos pelos pesquisadores ligados O quinto questionamento buscou com-
à RENORBIO não ficam restritos a seus labo- putar a quantidade de patentes registradas por
ratórios e salas de aula, promovendo interação doutores da RENORBIO, o que identificou um
com o ambiente externo às universidades, em- total de 433 patentes concedidas pelo Institu-
bora houvesse uma quantidade considerável de to Nacional de Propriedade Industrial (INPI),
pesquisas com informações sigilosas. Conside- a entidade responsável por registrar inovações
ra-se isso como uma expansão de conhecimen- tecnológicas e afins. Albuquerque et al. (2002)
to que tem potencial de gerar novas ideias e destacam que, até a década de 2000, cidades
debates, possibilitando um efeito multiplicador como São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas e
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144 ARTIGOS | Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia
Joinville detinham mais de 500 patentes, ten- orçamento de apenas R$ 4,7 bilhões para custeio
do uma concentração espacial de patentes nas e investimento na pasta do MCTI, conforme a
regiões Sul e Sudeste. Considerando o pouco Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
tempo de existência do programa de doutora- (2018). Considerando que o tamanho da comuni-
do da RENORBIO e o tempo necessário para dade científica mais do que dobrou nesse período,
a concessão da patente, que, muitas vezes, leva as maiores áreas da produção de artigos foram
anos para que aconteça, esse quantitativo de pa- Medicina e Biologia Molecular, áreas em que a
tentes do programa é bastante expressivo. RENORBIO está inserida, o que torna tudo mais
Por fim, a última informação retirada do favorável no que diz respeito ao crescimento da
Lattes dos doutores visou descobrir em quantos sociedade, com intuito de ajudar a desenvolver,
projetos de pesquisa esses egressos estavam en- definir conhecimento e soluções criativas.
volvidos, o que revelou um total de 3270 proje- Considerando a disparidade tecnológica
tos, ressaltando a possibilidade de dupla conta- que o Brasil possui em relação aos países que
gem. A importância dos projetos de pesquisa se estão na dianteira da produção científica global,
dá não somente pelas tecnologias desenvolvi- torna-se preocupante para o futuro da ciência
das, mas também pelo caráter de continuidade brasileira o não cumprimento da meta de ele-
que a pesquisa apresenta, uma vez que o co- var para 2% do PIB os investimentos até 2022,
nhecimento produzido pode servir de base para como prevê a Estratégia Nacional de Ciência
novos estudos. Outrossim, é por meio desses - ENCIT, Tecnologia & Inovação (BRASIL,
projetos que novos pesquisadores, como alunos 2016). As consequências vão muito além do
de Iniciação Científica, mestrandos e pesquisa- aumento da defasagem científica, pois afetam
dores free lancers se inserem no universo da também a evolução econômica de regiões me-
P&D e, com isso, potencializam suas chances nos desenvolvidas do Brasil e a formação de
de cursar um doutorado em outro momento de pesquisadores de alto desempenho.
suas carreiras acadêmica.
5.1 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma das contribuições teóricas está na
Este estudo objetivou discutir a produção interpretação do argumento da Hélice Tríplice
do conhecimento de pesquisadores egressos para o contexto direto da produção de conhe-
do doutorado da Rede Nordeste de Biotecno- cimento por meio de um estudo longitudinal.
logia. A produção de conhecimento quantitati- Tal interpretação pode desencadear estudos que
va encontrada foi de 5.476 artigos científicos tragam à tona as particularidades da produção
publicados ou aceitos para publicação, 15.873 de conhecimento em programas de doutorado.
trabalhos completos/resumos em eventos, 433 Outra contribuição reside no registro docu-
patentes concedidas e um total de 3270 projetos mental de informações até então dispersas nos
de pesquisas ao longo do tempo. curricula dos doutores. A compilação dessas
Pode-se firmar que esses resultados acon- informações permitirá o acompanhamento da
teceram embora o Governo Federal tenha redu- evolução da produção de conhecimento no pro-
zido drasticamente os investimentos em Ciência grama de doutoramento da RENORBIO.
e Tecnologia no Brasil com um orçamento que,
em 2017, foi de aproximadamente R$ 5 bilhões, 5.2 IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA
isso é menos do que um terço do orçamento que a
pasta tinha em 2010 e menos da metade do orça- O presente estudo pode fornecer suporte
mento de 2005. Para 2018, o cenário não é mais para outros programas de doutoramento, em es-
favorável, uma vez que o anúncio de um corte de pecial aqueles ligados à C,T&I, para que com-
25% em relação ao ano anterior representou um parem a produção quantitativa de conhecimen-
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AUTORES | Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira 145
to e de patentes com os apresentados pela Rede da C,T&I para o crescimento de uma nação,
Nordeste de Biotecnologia. estudos futuros poderiam realizar comparações
entre as políticas científicas e tecnológicas ado-
5.3 IMPLICAÇÕES PARA AS POLÍTI- tadas no Brasil com as de outros países; ii na
CAS PÚBLICAS mesma linha, outros estudos poderiam realizar
comparações com os egressos de outros progra-
Embora a quantidade de artigos publi- mas de doutorado; iii a investigação qualitativa
cados não signifique necessariamente sua rele- da produção aqui discutida, que tem o potencial
vância, os números apresentados sugerem que de abrir nova janela sobre o tema; iv comparar,
o papel do governo no incentivo à produção de temporalmente, a produção de conhecimento
conhecimento deve ser fortalecido por meio de entre os diversos eixos estratégicos da C,T&I
uma sólida estratégia nacional de política cien- para compreender o impacto dos sucessivos
tífica e tecnológica. O presente estudo endossa cortes orçamentários no MCTIC; v. a RENOR-
esse ensejo uma vez que, por meio dele foi pos- BIO e seus atores poderiam ser estudados en-
sível mostrar uma descentralização da produ- quanto APLs ou por meio dos sistemas de sis-
ção científica, fortalecendo a região Nordeste temas de inovação regionais e, por fim; vi outro
no cenário científico nacional. estudo poderia investigar, longitudinalmente,
a qualidade das revistas em que os artigos dos
5.4 LIMITAÇÕES E PESQUISAS FUTURAS doutores formados pela RENORBIO foram
publicados, analisando o fator de impacto dos
É prudente ressaltar que a pesquisa não periódicos, por exemplo.
está isenta de limitações, embora as principais
se encontrem elencadas a seguir: i. a possibi- KNOWLEDGE PRODUCTION IN
lidade de haver duplicidade na contagem dos SCIENCE, TECHNOLOGY AND
artigos é provável, já que é comum que alguns INNOVATION: AN EVALUATION
estudos tenham uma versão preliminar apresen- OF THE DOCTORS FORMED
tados em eventos e, posteriormente, publicados BY THE REDE NORDESTE DE
em periódicos científicos. A consolidação de BIOTECNOLOGIA
artigos de eventos com os publicados em re-
vistas demandaria acesso pleno a esse material ABSTRACT
e domínio do jargão técnico, para tornar perti-
nente o cruzamento dos textos; ii. o impacto da The present article had as objective to analyze
produção científica dos egressos também não the production of the knowledge of the PhDs
foi contemplado por esta pesquisa, uma vez que trained by the Northeast Network of Biotech-
essa análise, dada a subjetividade da escolha, nology (RENORBIO). The research was car-
demandaria uma discussão mais aprofunda- ried out by analyzing the curricula of the 506
da de qual métrica seria a mais adequada.; iii. doctors graduated from the first group until
quanto aos artigos publicados pelos egressos 2018, available on the Lattes Platform. The
da RENORBIO, a presente pesquisa limitou-se methodological course consisted of a docu-
à análise quantitativa sem discutir a qualidade mentary collection, followed by an analysis
e o impacto dos periódicos. Tal investigação of content carried out with the help of guiding
poderia gerar outra linha argumentativa para o questions that allowed to extract information
presente estudo. about work activity carried out before and after
Desse modo, algumas sugestões de pes- the doctorate, quantitative of articles accepted
quisas futuras podem tornar pertinente o sur- or published (in events and scientific journals),
gimento de novos estudos, entre as quais se quantitative generated patents and research
destacam: i considerando o papel estratégico projects. The results indicated that there is an
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146 ARTIGOS | Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia
expressive number of scientific outputs on the logia (MCT), foi transformado em 2011 para Ministério
part of the PhDs under study, which strengthens da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e, a partir de
2016, passou a integrar a agenda do extinto Ministério
the role of the Northest region in the production das Comunicações, passando então a ser chamado de
of high level knowledge. This study, therefore, Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comu-
finds its relevance and justification insofar as it nicações (MCTIC). No decorrer deste artigo, será utili-
analyzes the production of knowledge in a stra- zada a nomenclatura conforme o ano de referência.
2 Apesar de não ser um dos 35 membros da OCDE, o Bra-
tegic area for the country.
sil atual como parceiro estratégico desde 1994. Somente
em maio de 2017 foi protocolada uma solicitação for-
Keywords: Science. Technology. Innovation. mal de adesão como membro efetivo (BRASIL, 2017).
RENORBIO. Triple Helix. 3 A palavra bacharel foi aqui usada para representar aque-
las pessoas que exerciam ou exercem atividade laboral
diretamente ligada com a área de formação de graduação.
PRODUCCIÓN DE CONOCIMIENTO
EN LA CIENCIA, TECNOLOGÍA & REFERÊNCIAS
INNOVACIÓN: UNA AVALIACIÓN
DE LOS DOCTORES FORMADOS
ALBUQUERQUE, E. M. et al. A distribuição
POR LA REDE NORDESTE DE espacial da produção científica e tecnológi-
BIOTECNOLOGÍA ca brasileira: uma descrição de estatísticas de
produção local de patentes e artigos científicos.
RESUMEN Revista Brasileira de Inovação, Campinas, v.
1, n. 2, p. 225-251, 2002.
Este estudio tuvo como objetivo principal ana-
lizar la producción de conocimiento de los doc- BALBACHEVSKY, E. Políticas de Ciência,
tores formados por la Rede Nordeste de Biotec- Tecnologia e Inovação na América Latina: as
nología (RENORBIO). La búsqueda ocurrió respostas da comunidade científica. Caderno
a través del análisis del currículum de los 560 CRH, v. 24, n. 63, p. 503-517, 2011.
doctores formados desde la primera clase hasta
2018, disponibles en la Plataforma Lattes. La BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo:
metodología consistió en la colecta documental, Ed. 70, 2011.
seguida por el análisis de contenidos realizados
con auxilio de cuestiones que ayudaron extraer BAUER, M. W.; GASKELL, G. Pesquisa qua-
informaciones sobre la actividad laboral reali- litativa com texto, imagem e som: um manual
zada antes y después del doctorado, cuantitativo prático. Petrópolis: Vozes, 2004.
de artículos aceptos o publicados (en eventos y
periódicos científicos), cuantitativo de patentes BRASIL. Decreto nº 91.146, de 25 de março
producidas y proyectos de pesquisa. Los resulta- de 1985. Cria o Ministério da Ciência e Tec-
dos indicaron que hay un expresivo número de nologia e dispõe sobre sua estrutura, transfe-
producciones científicas por parte de los docto- rindo-lhes os órgãos que menciona, e dá ou-
res estudiados, lo que fortalece el papel de la re- tras providências. Presidência da República,
gión Nordeste en la producción de conocimiento Brasília, DF, mar. 1985. Disponível em: <ht-
de alto nivel. Por lo tanto, este estudio es rele- tps://[Link]/ccivil_03/decre-
vante y justificable a la medida en que analiza- to/1980-1989/1985-1987/[Link]>. Aces-
mos la producción del conocimiento en un área so em: 8 fev. 2018.
estratégico para el país.
______. Ministério da Ciência e Tecnologia.
Palabras-clave: Ciencia. Tecnología. Innova- Livro Branco: ciência, tecnologia e inovação.
ción. RENORBIO. Hélice Tríplice. Brasília, 2002.
1 Fundado em 1985 como Ministério da Ciência e Tecno-
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 133-150, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira 147
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 133-150, jul./dez. 2018
148 ARTIGOS | Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia
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AUTORES | Carlos Dias Chaym, Wilsiany Damasceno Amorim Barroso, José Maria Gonçalves Nunes de Melo, Phryné Azulay Benayon, Aldemir Freire Moreira 149
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 133-150, jul./dez. 2018
150 ARTIGOS | Produção de conhecimento em Ciência, Tecnologia & Inovação: uma avaliação dos doutores formados pela Rede Nordeste de Biotecnologia
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 133-150, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 151
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p151-167.2018
ARTIGOS
RESUMO
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152 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
na década de 1990, mas há relatos de que nas vada, fortemente a associado às organiza-
décadas de 1970 e 1980 já havia movimentos ções não-governamentais (ONGS) e às en-
de organizações assistencialistas. Suas raízes tidades filantrópicas e assistenciais, assim
encontram-se na Igreja Católica Apostólica Ro- como as ações de responsabilidade social
mana, porta-voz de problemas como a repres- das empresas privadas. Esses termos, aca-
são, desigualdade e injustiça social. Em 1978 o
bam por representar identidades comparti-
conceito de cidadania foi definido, facilitando a
elaboração de políticas sociais, culminando 20 lhadas de grupos similares de organizações
anos depois com a Lei 9790/99, que criou as (FALCONER; VILELA, 2001).
Organizações da Sociedade Civil de Interesse Entre estas terminologias, a mais utili-
Público (OSCIPs) (FERNANDES, 1994; FA- zada é a de entidade sem finalidade de lucros,
GUNDES; RODRIGUES, 2017). de acordo com a ITG 2002, do Conselho Fe-
Essas organizações não são diferen- deral de Contabilidade que abrange diversas
tes das entidades privadas, pois precisam naturezas jurídicas que não visam à lucrativi-
de organização contábil para realizar seus dade e estabelecem critérios e procedimentos
registros e controles (SILVA et al., 2006). específicos de avaliação, de reconhecimento
Por sua necessidade, a contabilidade de- das transações e variações patrimoniais.
senvolve um importante papel de auxiliar Mesmo com a visão voltada para o
e demonstrar para a sociedade o trabalho social, o Terceiro Setor também possui um
que realmente vem sendo desenvolvido por processo econômico que precisa ser con-
parte dessas instituições sem finalidade de trolado, e a contabilidade é um dos instru-
lucro (MARTINS et al., 2011). O Terceiro mentos que contribuem para construção
Setor é caracterizado como um “meio ter- de uma ação positiva perante a sociedade;
mo” do ambiente político-econômico, in- por essa razão, o presente artigo busca co-
termediando as relações entre o Estado e o nhecer como essas entidades se mantêm e
mercado no que tange às questões da me- como são feitos seus registros, seu contro-
lhoria social (CAMARGO, 2001). O termo le e a prestação de contas de seus recursos,
“Terceiro Setor” surgiu na década de 1970, analisando a situação de uma instituição,
nos Estados Unidos, para designar orga- como caso. Assim, considerando a impor-
nizações sem finalidades lucrativas, não tância da divulgação de informações com
pertencentes nem ao setor privado, nem qualidade por parte das entidades do Ter-
ao setor público. Esse setor engloba vários ceiro Setor, a pesquisa ocupa-se da seguinte
tipos de organizações sem fins lucrativos questão: Como as informações contábeis
e, no Brasil, uma das principais formas de são utilizadas na gestão de uma entidade
atuação desse setor é composto pelas Orga- do Terceiro Setor?
nizações Não-Governamentais (MAÑAS; Objetiva-se identificar se os processos
MEDEIROS, 2012). contábeis da entidade estão alinhados às Nor-
O Terceiro Setor tem sido definido mas Brasileiras de Contabilidade Aplicadas ao
de diversas maneiras; internacionalmente Terceiro Setor - ITG 2002. Em termos práticos,
busca-se identificar como uma entidade do Ter-
é conceituado como o conjunto de organi-
ceiro Setor se utiliza das demonstrações contá-
zações privadas, sem finalidade lucrativa, beis no processo de gestão.
que atendem às finalidades tanto coletivas, Este estudo busca fornecer insights tan-
quanto públicas. No Brasil, o Terceiro Setor to à pesquisa acadêmica, aos profissionais da
tem sido relacionado como ação social pri- área, assim como auxiliar os leitores a melhor
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 151-167, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 153
compreender as entidades sem fins lucrativos, Com base nesses pressupostos, um olhar
implicando na forma de como conduzir sua sob a perspectiva da Teoria da Agência con-
gestão, podendo-se expandir para um número tribui para entender o gerenciamento da as-
maior de municípios em que se identifiquem sociação, focando no relacionamento entre o
organizações similares, contribuindo, assim, principal e o agente. Nesse relacionamento, o
com a disponibilização de informações que le- principal delega o trabalho ao agente e o mo-
vem a seus gestores e à sociedade, informações nitora para garantir o cumprimento dos deve-
sobre a gestão dessas entidades. res atribuídos (EISENHARDT, 1985). Para o
caso em análise, o Estado seria visto como o
2 REFERENCIAL TEÓRICO principal, tendo maior relevância; e a Associa-
ção como o agente. Ainda assim, a literatura
A literatura aponta que o uso de relató- de agência traz diversos exemplos de como a
rios contábeis e financeiros servem de instru- teoria está relacionada ao mundo corporativo,
mentos de comunicação entre as organizações não havendo muitos trabalhos relacionados ao
do Terceiro Setor e suas partes interessadas Terceiro Setor. Nesse sentido, Fama e Michael
(stakeholders). No entanto, poucas divulgavam (1983) fornecem uma ilustração útil: na ausên-
seus relatórios financeiros, composição e ges- cia de proprietários formais, em organizações
tão dos recursos recebidos. Outro ponto a ser sem fins lucrativos os proprietários podem ser
destacado diz respeito à qualidade das informa- definidos como doadores; então, seria papel dos
ções contábeis para essas entidades, que ainda conselhos (atuando como diretores) proteger e
são pouco exploradas, uma vez que os aspectos administrar os investimentos dos doadores por
regulamentadores e de evidenciação ainda são meio do monitoramento, do gerenciamento do
precários (FALCONER; VILELA, 2001; BEU- pessoal e do cumprimento dos demais papéis
REN; CORRÊA, 2009; CRUZ, 2010; FAGUN- gerenciais, controlando os “agentes”.
DES; RODRIGUES, 2017). Sob um olhar da Teoria da Dependência
Porém, não basta apenas divulgar as in- de Recursos, segundo fator definido por Bies
formações; as organizações também devem se (2010), as organizações buscam recursos neces-
utilizar dos relatórios financeiros para amparar sários para sua sobrevivência e, portanto, devem
as suas decisões, uma vez que a divulgação de estimular interações e trocas com outras pesso-
informações desencontradas pode levar a uma as possuidoras de recursos no ambiente em seu
redução da confiança entre a organização e seus redor que possam transferi-los para as organi-
diversos stakeholders (CAMARGO, 2001; zações, a fim de garantir suas atividades (PFE-
SANTOS, 2000). No Brasil, o índice de divul- FFER; SALANCIK, 1978 apud BIES, 2010).
gação das informações financeiras das organi- Para o caso em estudo, as instituições desenvol-
zações do Terceiro Setor é considerado baixo veriam estratégias junto às organizações públi-
(MILANI FILHO, 2011; GOLLO; SCHULZ; cas e privadas para que pudessem vir a financiar
ROSA, 2014). suas atividades de diversas maneiras.
A regulação e o gerenciamento das enti- Analisando as características do setor em
dades do Terceiro Setor podem ser afetadas por estudo, pode ser possível analisar as pressões
alguns fatores: (i) pelo relacionamento entre as sofridas pelas entidades do Terceiro Setor para
entidades e seus stakeholders (normalmente garantir a legitimidade de suas ações no cum-
os doadores e o Estado); (ii) pelo mercado, na primento de normas e regulamentos estabele-
forma como as organizações conseguem aces- cidos por organismos externos. Essas relações
so aos recursos; e, (iii) por suas características podem ser úteis para entender como essas en-
internas, como a capacidade institucional do tidades respondem às influências externas, de
Terceiro Setor, suas normas e busca por legiti- forma a cumprir com diretrizes institucionais,
midade (BIES, 2010). copiando as respostas de outras organizações
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154 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
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AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 155
evidências válidas e entendimento sobre os fatos sa, entre outros, com atuação preponderante na
(YIN, 2003; EASTERBY-SMITH; THORPE; política de assistencial social, atuando de for-
JACKSON, 2008). As entrevistas foram reali- ma complementar com políticas de educação e
zadas com a presidente e diretora financeira da de saúde. Tem como objetivo principal atender
entidade, em dois encontros, durante os meses pessoas com necessidades especiais de ordem
de maio e junho de 2016 e tiveram duração entre intelectual e múltipla para habilitação ou reabi-
15 a 26 minutos, com o intuito de buscar melhor litação, bem como promover a autonomia, me-
compreensão sobre percepção delas quanto a lhoria da qualidade de vida, defesa e garantia de
utilização das informações e relatórios contábeis seus direitos. No período do levantamento dos
no processo de gestão da entidade. dados desta pesquisa, a entidade atendia cerca
Os dados contábeis como Balanço Patri- de 100 alunos com deficiência intelectual.
monial e Demonstração do Resultado do Exer- Os serviços prestados são de proteção so-
cício foram disponibilizados pelo escritório cial especial de média e/ou alta complexidade e
de contábil que presta serviço à entidade. As os atendimentos são voltados às famílias e pes-
demais informações financeiras, como movi- soas com deficiência em situação de vulnerabili-
mento de caixa e controle de contas a pagar e dade ou risco social e pessoal. A instituição pos-
receber, foram disponibilizados pelas gestoras sui autonomia administrativa e financeira, tendo
da instituição. O foco do estudo está limitado sede própria, composta por dois pavilhões sendo
ao exercício de 2015, não sendo analisados os uma parte administrativa (recepção, secretaria,
exercícios anteriores. diretoria, psicologia, assistência social, fisiotera-
Nos aspectos relacionados à gestão da pia, almoxarifado, quatro banheiros) e outra área
APAE, inicialmente buscou-se delinear o perfil pedagógica (cinco salas de aula, um auditório,
dos seus dirigentes. Em seguida, com base nos uma sala de coordenação, um refeitório, um al-
documentos disponibilizados pela entidade, fo- moxarifado, cinco banheiros). A escola dispõe
ram identificados os tipos de recursos com os ainda de um pátio, uma piscina e uma quadra po-
quais a instituição se mantém para, num ter- liesportiva, onde atualmente atende 109 pessoas
ceiro momento, discutir os aspectos ligados à com necessidades especiais nas áreas clínicas e
contabilidade, por meio da análise das demons- pedagógicas de 0 a 50 anos.
trações contábeis disponibilizadas pelo escritó- Em observância ao Estatuto padronizado
rio contábil. Também foi analisado o nível de das APAE do Brasil, a entidade possui órgãos
conhecimento que os gestores têm sobre os re- responsáveis pela administração: Assembleia
latórios financeiros, quais são utilizados no seu Geral, Conselho de Administração; Conselho
dia a dia e quais são utilizados para a tomada de Fiscal; Diretoria Executiva; Consultor Jurídico;
decisão e como são feitos os registros contábeis Conselho Consultivo. A Assembleia Geral é o ór-
e a prestação de contas de seus recursos. gão soberano das APAE e sua Diretoria Executi-
va é composta pelo Presidente, Vice-Presidente,
4 A ENTIDADE 1° Diretor Financeiro, 2° Diretor Financeiro, 1°
Diretor Secretário, 2° Diretor Secretário, Diretor
O estudo de caso ocorreu na Associação Social, Diretor do Patrimônio. De acordo com
de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE, o estatuto, a APAE não remunera nem distribui
entidade privada sem fins lucrativos e econô- lucros ou dividendos aos seus associados, diri-
micos de cunho filantrópico, localizada no mu- gentes ou conselheiros e se houver um eventual
nicípio de Guanambi. A entidade foi criada em superávit, o mesmo será investido nas atividades
1° de outubro de 1987 por um grupo de pais, e propósitos da instituição.
autoridades e pessoas da sociedade, possuindo A entidade possui 11 colaboradores entre
como objeto social o caráter assistencial, edu- contratados e cedidos pelo Estado e Município
cacional, de saúde, cultural, de estudo e pesqui- e, além da Diretoria Executiva, existem profis-
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156 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
sionais responsáveis pela área pedagógica e clí- superior em Psicologia e Psicopedagogia e, de-
nica e área administrativa que administram os dica em média 30 horas semanais de atividades
projetos e programas desenvolvidos. na instituição. Em relação ao quantitativo de
A APAE se mantém por meio de bene- funcionários, a instituição possui 11 funcioná-
fício de prestação continuada mediante con- rios, sendo 6 professores, 1 merendeira, 1 auxi-
vênios com o Estado da Bahia, por meio da liar de serviços gerais, 1 secretária, 1 diretora e
Secretaria Estadual da Assistência e do Desen- 1 vigia. Vale ressaltar que desses funcionários 4
volvimento Social e com a Prefeitura Munici- professores são cedidos pelo Governo Estadual
pal de Guanambi, pelo Fundo do Conselho Mu- e 2 pela Prefeitura Municipal e os demais são
nicipal de Assistência Social. A APAE também mantidos através de recursos próprios.
recebe contribuição de seus associados, servi- Na sequência, demonstram-se as fontes
ços voluntários do Juizado Especial Criminal de recursos financeiros da instituição, sua apli-
da Comarca de Guanambi, por meio de cessão cação e aspectos relacionados aos relatórios e a
de mão de obra carcerária, parceria com algu- demonstrações contábeis.
mas empresas privadas com doações de aportes Ao analisar o quadro abaixo, observa-
financeiros e com algumas instituições de ensi- -se que a maior parte dos recursos é recebido
no público e privados da cidade que fornecem do Setor Público, e já tem aplicação específi-
estagiários na área de Enfermagem, Serviço ca; devido a isso, existe uma rigidez em sua
Social, Psicologia, Nutrição e Biomedicina, por destinação, não podendo ser usados livre-
meio das vagas oferecidas pela APAE. mente para atender às diversas necessidades
do dia a dia da entidade de maneira flexível,
5 RESULTADOS E DISCUSSÕES o que dificulta a gestão em termos da necessi-
dade de suprir emergências que possam sur-
5.1 ASPECTOS RELACIONADOS À gir ao longo do ano.
GESTÃO DA ENTIDADE
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AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 157
Relatórios de que
Relatórios utilizados Relatórios para
RELATÓRIOS os diretores têm
no seu dia-a-dia tomada de decisão
conhecimento
Movimento caixa
Relatórios de contas a pagar X X
Balanço patrimonial X X
Demonstração das mutações do patrimônio
social
Demonstração do fluxo de caixa
Extrato bancário X X
Balancete
Demonstração do Resultado do Período X X
Quadro 2 - Relatórios utilizados pela entidade
Fonte: dados da pesquisa (2016).
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158 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
exercício social de 2015. A entidade mantém tro, o Manual de Procedimentos para o Tercei-
sua escrituração contábil através escritório de ro Setor, publicado pelo Conselho Federal de
contabilidade terceirizado, que realiza registros Contabilidade (2015), a Resolução CFC Nº
das suas operações. 1.409/12 que aprovou a Interpretação Técnica
A contabilidade das entidades sem fins lu- Geral (ITG) 2002 R1 – Entidade sem Finali-
crativos difere em alguns pontos da contabilidade dade de Lucros, em sua primeira revisão e o
societária. Por meio do Balanço Patrimonial e da Caderno de Procedimentos Aplicáveis à Presta-
Demonstração do Resultado do Período (relacio- ção de Contas das Entidades do Terceiro Setor
nando à Demonstração de Superávit ou Déficit do (Fundações) publicado em 2011.
Exercício) referente ao exercício de 2015 foram Ao analisar a Demonstração de Superá-
analisadas as seguintes operações neste estudo de vit ou Déficit do Exercício (informada como
caso: Receitas de Doações em espécie, Trabalho Demonstração do Resultado do Período pelo
Voluntário e o registro da Depreciação. escritório de contabilidade) percebeu-se que a
Para a verificação dos dados contábeis APAE de Guanambi não está em conformidade
da entidade, evidenciação e reconhecimento com a normativa quanto ao registro de lança-
das transações, foram utilizados como parâme- mentos de algumas doações, as quais seguem
transcritas abaixo:
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 151-167, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 159
ATIVO PASSIVO
ATIVO CIRCULANTE R$ 2.238,48 PASSIVO CIRCULANTE R$ 1.717,84
DISPONIBILIDADES OBRIG. SOCIAIS E TRABALHISTAS
Caixa Geral INSS a Recolher R$ 126,08
Caixa Área da Assistência Social R$ 947,68 FGTS a Recolher R$ 126,08
Banco Conta Aplicação PIS s/ Faturamento R$ 15,76
Banco Área da Assistência Social R$ 1.290,80 Salários a Pagar R$ 1.449,92
Bulgarim et al. (2011) caracterizam que pais atividades das entidades do Terceiro Setor,
receitas como aumentos dos benefícios econô- podendo ocorrer em moeda corrente, gêneros
micos durante o período contábil sob a forma alimentícios, equipamentos ou por meio do re-
de entrada de novos recursos ou aumento de cebimento de prestação de serviços voluntários
ativos ou diminuição de passivos que resultem (FRANÇA, 2015).
em aumento do patrimônio líquido (social) e As doações podem ser recebidas para
que não sejam provenientes de aporte dos asso- custeio ou investimento. Em quaisquer das
ciados da entidade. As doações são, a principal formas as doações podem se dar in natura ou
fonte de recursos para o sustento das princi- em espécie. Quando in natura os bens doados
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160 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
podem ter valor declarado ou não. Se o doador hábil para o registro. No estudo de caso, foram
optar por não declarar o valor do bem doado, é identificados que a entidade recebeu diversos
necessário que a entidade estime o valor com alimentos doados pela Prefeitura Municipal;
base nos preços médios cobrados pelo merca- no entanto, não foram feitas as avaliações e re-
do; dessa forma, se a entidade recebe arroz, gistros dessas doações recebidas. Por meio do
feijão, farinha e óleo comestível, por exemplo, levantamento dos gêneros alimentícios recebi-
deve valorar as quantidades recebidas pelo va- dos, foi feita uma simulação dos valores com
lor que esta desembolsaria se fizesse a aquisi- base nos valores mais atuais dos elementos re-
ção no mercado. O modo mais objetivo de obter cebidos e elaborado uma tabela conforme de-
os preços é por meio de pesquisa em mercado monstrado no quadro 5.
local dos bens recebidos e produzir documento
O reconhecimento contábil deve ser procedido nas rubricas específicas de cada natureza de
bem, utilizando a titulação e função adequada de cada conta. Nesse caso, as contas de aplicação
são também contas de despesas, pois a finalidade é o custeio no consumo imediato. Para o caso
em estudo, conforme relatado pela gestora da entidade, todos os alimentos recebidos são consu-
midos de imediato; dessa forma, os registros contábeis seriam processados conforme demonstra-
do no Quadro 6.
As organizações sem fins lucrativos utilizam o serviço voluntário para contribuir no desen-
volvimento de sua missão e nas atividades desenvolvidas e esses serviços representam recursos
utilizados pelas organizações e representam valores econômicos que devem ser reconhecidos
(FRANÇA, 2015).
A APAE de Guanambi recebeu esse tipo de doação, mas não evidenciou em seus demons-
trativos os casos de serviços voluntários recebidos no exercício de 2015. A falta de controle dos
serviços voluntários recebidos em doação acarreta perda de informação na elaboração das de-
monstrações, o que prejudica a evidenciação da dimensão desses trabalhos para a entidade. Por
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 151-167, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 161
entrevista, foram relatadas algumas ações de voluntários na entidade e que serão demonstrados
nos quadros 7 e 8 por simulação de como eles deveriam ser mensurados e contabilizados.
Qualquer que seja o parâmetro para da a depreciação de forma correta, pois cada
quantificação do valor financeiro, deve ser uti- componente de um item do ativo imobilizado
lizado o valor que seria pago se o trabalho fosse com custo significativo em relação ao custo to-
remunerado, devendo refletir o valor justo, pois tal do item deve ser depreciado separadamen-
esse seria o valor a despendido para obtenção te. A entidade demonstra o valor inicialmente
dos serviços. Com esse procedimento, a enti- reconhecido de um item do ativo imobilizado
dade registra, simultaneamente, a aplicação na aos componentes significativos desse item e os
despesa de custeio de uma fonte de receita de deprecia separadamente.
trabalho voluntário, procedendo, desta forma,
de acordo com o item 19 da ITG 2002 (R1). 5.3 REAPRESENTAÇÃO DAS DE-
Pelo relato dos gestores, a mão de obra MONSTRAÇÕES
voluntária é fundamental para o funcionamento
da entidade e a mensuração, registro e eviden- De acordo com o disposto na Estrutura
ciação demonstram para os gestores, doadores Conceitual Básica - CPC 00 - para ser confiável,
financeiros, governos, os próprios voluntários e a informação deve representar fidedignamente
toda a sociedade o impacto financeiro e impor- as transações e outros acontecimentos que ela
tância do voluntariado para a entidade. pretende representar. Assim, a representação
da realidade econômica completa deve incluir
5.2.3 Contabilização de Depreciação toda a informação necessária para que o usu-
ário compreenda o fenômeno sendo retratado,
A depreciação corresponde, resumida- muito embora a representação fidedigna não
mente, à perda do valor econômico dos ativos traduza a exatidão em todos os aspectos.
que têm por objeto bens físicos (tangíveis) su- A partir dos documentos coletados no
jeitos a desgastes por perda de utilidade, ou por estudo e por meio de simulações efetuadas, fo-
uso, ou por ação da natureza ou mesmo por ob- ram refeitos os demonstrativos da instituição a
solescência. Contabilmente, é a alocação siste- fim de demonstrar, reconhecendo os limites da
mática do valor depreciável de um ativo ao lon- pesquisa, os fatos que constavam a parte das
go de sua vida útil (BULGARIM et al., 2011; demonstrações.
FRANÇA, 2015).
Analisando o Balanço Patrimonial da
entidade, foi verificado que não é demonstra-
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 151-167, jul./dez. 2018
162 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
Foi identificada uma diferença no va- não foram analisados os exercícios anteriores.
lor de R$ 518,00 entre o valor apurado na De- Ainda em análise do Balanço Patrimo-
monstração do Resultado do Exercício e o valor nial, foi realizado um ajuste na evidenciação do
transferido para o Balanço Patrimonial como Ativo Imobilizado, o qual constava na demons-
Déficit do Exercício. Por não ter sido possível tração anterior evidenciado por seu valor contá-
obter informações a respeito desta diferença, os bil bruto, e, após feitos os ajustes, demonstra-se
pesquisadores realizaram o ajuste na conta de por seu valor contábil líquido. O Balanço Patri-
Déficit Acumulado, uma vez que o resultado do monial ajustado pode ser conferido abaixo.
exercício deve ser integralmente transferido para
o Patrimônio, a fim de demonstrar geração ou
diminuição da riqueza econômica. Como o foco
do estudo está limitado ao exercício de 2015,
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 151-167, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
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ATIVO PASSIVO
PASSIVO
ATIVO CIRCULANTE R$ 2.238,48 R$ 1.717,84
CIRCULANTE
OBRIG. SOCIAIS E
DISPONIBILIDADES
TRABALHISTAS
Caixa Geral Inss a Recolher R$ 126,08
Caixa Área da Assistência Social R$ 947,68 Fgts a Recolher R$ 126,08
Banco Conta Aplicação Pis s/ Faturamento R$ 15,76
Banco Área da Assistência Social R$ 1.290,80 Salários a Pagar R$ 1.449,92
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
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164 ARTIGOS | Gerenciamento além dos Lucros: controle contábil em uma entidade sem fins lucrativos
tação de contas dos recursos de convênio para a tivos para o gerenciamento de entidades liga-
Controladoria Geral do Município mesmo por- das ao Terceiro Setor e ao uso da informação
que, o não comprimento desta prestação acarreta contábil na dinâmica de desempenho dessas
automaticamente o cancelamento dos recursos organizações, tendo como referência um es-
recebidos, principal fonte de sustento da entida- tudo de caso. Considerando que a informação
de; porém, foi possível verificar que a associa- ganha valor real ou percebido quando utilizada
ção não realiza prestação de contas à sociedade, em processos de decisão correntes ou futuras,
por não ser obrigada legalmente, demonstrando podendo alterar sua qualidade ou gerar redu-
a grande dificuldade de operacionalização des- ção de custos (SANTOS, 2000); uma possível
se conceito ainda nos tempos atuais, conforme implicação da falta de utilização da informa-
apontado por Hyndman e McKillop (2018). Pro- ção contábil no processo de gerenciamento da
vavelmente, um aumento da divulgação de suas entidade é a existência de um deficiente modelo
ações e resultados promoveria um contato mais de gestão que possa nortear o planejamento e
aproximado com a sociedade local, que reco- consequentemente a avaliação da importância
nhecendo trabalho desenvolvido pela entidade, das informações contábeis para sua gestão.
se sentiria mais à vontade para doar e ajudar em Entre as evidências obtidas, verificou-se
seu desenvolvimento, conferindo maior legiti- que nem todas as demonstrações contábeis obriga-
midade a suas ações. tórias dispostas na ITG 2002 (R1) são elaboradas
Também foi possível verificar que, ape- e algumas, ainda que analisadas superficialmen-
sar de os gestores considerarem a contabilidade te, apresentaram equívocos como o demonstra-
muito importante para a prestação de contas, não do na Demonstração do Resultado do Exercício
mantêm um controle rigoroso quanto à divulga- e no Balanço Patrimonial. Constatou-se, ainda,
ção dessas informações e, dessa forma acabam inconsistência nos registros contábeis em relação
por não utilizar todo o potencial informativo que às Receitas de Doações, Trabalhos Voluntários e
os instrumentos contábeis podem oferecer à so- Depreciação em que foram realizadas sugestões
ciedade por meio da evidenciação, corroborando para que a contabilidade demonstre, de forma
os estudos de Falconer e Vilela (2001) e Cruz mais fidedigna, a situação patrimonial, financei-
(2010). Dessa forma, percebe-se que o grau de ra e econômica em conformidade com a norma
importância atribuído à prestação de contas e vigente, resultado que coaduna com o resultado
ao uso da contabilidade é pequeno, sendo usado do trabalho realizado por Fagundes e Rodrigues
cerimonialmente para o cumprimento de exigên- (2017) para entidades gaúchas.
cias legais, como forma de firmar novos convê- O estudo teve sua limitação em relação à
nios e acordos e para a manutenção dos já exis- aplicação de um único caso local, não podendo,
tentes com órgãos governamentais, em especial, assim, generalizar seus resultados a outras orga-
com o município de Guanambi. nizações; assim, recomenda-se a realização de
Em termos do nível de conhecimento e outros estudos privilegiando aspectos não tratados
das habilidades dos gestores da instituição, ficou neste trabalho, como: aplicar a um número maior
claro que os relatórios de cunho financeiros são de APAEs, abrangendo outras regiões do Estado e
os de maior entendimento dos administradores, unidades da federação; aplicar tal estudo a outros
a exemplo do livro caixa, enquanto que as de- grupos ligados ao Terceiro Setor, para analisar
monstrações contábeis se apresentam em um empiricamente o uso das Demonstrações Con-
grau de compreensão inferior, mas corroborando tábeis nos processos de gestão e decisão dessas
os trabalhos de Camargo (2001), Falconer e Vi- entidades e sobre a sobre a qualidade das informa-
lela (2001), Milani Filho (2011) e Gollo, Schulz ções contábeis para essas entidades.
e Rosa (2014) sobre a baixa utilização dos re- Pesquisas futuras podem olhar para os di-
latórios financeiros para amparar suas decisões. versos contextos sociais para explorar seu poten-
Os achados fornecem insights significa- cial em entender o que direciona as percepções
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AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 165
dos gestores desse tipo de entidade sobre a rele- de controle y divulgación a sus diversos inte-
vância dos informes contábeis em seus processos. resados, y la contabilidad es una de las herra-
mientas que contribuyen para una acción posi-
MANAGEMENT BEYOND PROFITS: tiva frente a sociedad. El objetivo del artículo
ACCOUNTING CONTROL IN A NON- es identificar se los procesos financieros de la
PROFIT ENTITY entidad están aliados a las Normas Brasileñas
de Contabilidad Aplicadas al Tercero Sector –
ABSTRACT ITG 2002. Fue realizada pesquisa exploratoria
y descriptiva a través de entrevista semiestruc-
Even with a social focus, the Third Sector has turada con los administradores de la organiza-
processes that need to be controlled and disse- ción, además de análisis de contenido de docu-
minated to its various stakeholders, and accou- mentos de la organización. Mismo mencionado
nting is one of the instruments that contribute to como importantes por los gestores, se observó
positive actions in regard to society. The purpose que ellos no tienen conocimiento total sobre
of this article is to know how these entities are las demostraciones financieras en el gerencia-
maintained, whether their records, control and miento de la entidad. Quedaron evidenciadas
accountability of their resources, while analy- inconsistencias de algunas operaciones y uso
zing an institution as a case. Exploratory and restricto de los demostrativos, usados ceremo-
descriptive research was conducted, as well as nialmente para exigencias legales. Se concluye
semi-structured interviews with the entity’s ad- que los informes de carácter financiero son los
ministrators, and document content analysis of de mayor entendimiento de los administrado-
the organization. Although mentioned as impor- res, en cuanto que las demostraciones financie-
tant by managers, it was noted that they do not ras se presentan en un grado de comprensión
have full knowledge about the financial state- inferior, siendo relegados, lo que implica la fal-
ments for the management of the entity. There ta de utilización de la información contable en
were inconsistencies of some operations and res- el proceso de gerenciamiento de la entidad.
tricted use of the statements, used ceremonially
for legal requirements. It can be concluded that Palabras-clave: Gestión. Demostrativos Con-
the financial reports are those of higher unders- tables. Tercero Sector.
tanding of the managers, whereas the financial
statements are presented in a lower degree of REFERÊNCIAS
understanding, being despised, which implies
the lack of use of accounting information in the BEUREN, Ilse Maria (Org). Como elaborar
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Keywords: Management. Financial State-
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AUTORES | Fabrício Ramos Neves, Jaqueline Souza Carvalho, Fabrícia da Cruz Vieira 167
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 151-167, jul./dez. 2018
168 ARTIGOS | Aplicação de ferramentas lean no setor de logística: um estudo de caso
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p168-183.2018
ARTIGOS
RESUMO
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 168-183, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Pedro Vieira Souza Santos, Maurílio Arruda de Araújo 169
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 168-183, jul./dez. 2018
170 ARTIGOS | Aplicação de ferramentas lean no setor de logística: um estudo de caso
quando, em visita à fábrica americana, perce- é um novo processo de produção que envolve
beram que havia um fluxo bem definido de ma- a empresa de forma completa, englobando to-
teriais ao longo da linha produtiva, porém baixa dos os aspectos das operações, incluindo tem-
capacidade de variedade de produtos (WOMA- bém as redes de consumidores e fornecedores.
CK; JONES; ROOS, 2004). Contudo, é importante salientar que, o êxito do
lean depende muito do comprometimento dos
O fato de a produtividade americana envolvidos em todos os processos da empresa.
ser tão superior à japonesa chamou a A abordagem japonesa de negócios di-
atenção para a única explicação razo- fere significativamente das políticas praticadas
ável: a diferença de produtividade só nas organizações industriais americanas. Em
poderia ser explicada pela existência
síntese, a principal divergência se dá em razão
de perdas no sistema de produção ja-
ponês. A partir daí, o que se viu foi a da visão de negócios, que na americana induz
estruturação de um processo sistemá- o aumento de preço para obtenção imediata de
tico de identificação e eliminação das lucro, o que, por outro lado, na ótica japonesa
perdas (GHINATO, 2000, p. 2). quem determina o preço é o cliente. Na práti-
ca, entende-se que o cliente pagará de acordo
Na ótica de Ohno (2004), produzir de com a qualidade do item e/ou serviço oferecido
forma enxuta compreende a eliminação dos (MONDEN, 1998).
sete tipos de desperdícios, também chamadas O Sistema de Manufatura Enxuta tem
de perdas, no âmbito interno das organizações. como princípio básico a redução e tentativa de
De acordo com o autor, essas perdas podem ser eliminação dos desperdícios, a redução de custos
classificadas como: e o desenvolvimento dos operadores (OHNO,
Superprodução Produzir em excesso ou antecipadamente.
Períodos longos de ociosidade de pessoas, peças e informação.
Espera
Para Shingo (1996), perda pode ser de- 1997). O Sistema de Manufatura Enxuta visa a
finida como toda e qualquer atividade que não todas as atividades que compõem o custo final
contribui para as operações do fluxo do sistema do produto, eliminando desperdícios para redu-
produtivo, ou seja, não agregam valor. Nesse zir o custo, gerar capital, aumentar as vendas e
sentido, Womack, Jones e Roos (2004), consi- manter a competitividade em um mercado glo-
deram o pensamento lean fundamental para a bal crescente (HINES; TAYLOR, 2000).
eliminação desses desperdícios, pois trata-se de A Manufatura Enxuta fornece competên-
uma forma de especificar valor e tornar o pro- cias que tratam de situações variadas e desafios
cesso mais eficiente. empresariais, podendo fornecer uma redução de
O termo lean, segundo Moreira (2014) custos dirigidos ao cliente, implementação de
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novas tecnologias, assim como uma estrutura áreas associadas diretamente sob responsabi-
sólida para avaliar benefícios e construir aborda- lidade do setor de logística apontadas em que
gens de sucesso que facilitem uma conexão mais o lean pode contribuir mais significativamente
clara entre as operações e os resultados em todos como: suporte ao cliente, previsão de demanda
os aspectos do processo (ZYLSTRA, 2008). e planejamento, compras, gestão de estoque,
Trata-se, então, de uma filosofia que pro- entregas e comunicação, embalagem, transpor-
cura envolver e integrar não só a manufatura, te, armazenamento e logística reversa.
mas todas as partes de uma organização, com o A logística envolve todos os processos
objetivo de eliminar desperdícios e aumentar a de abastecimento, suprimentos e distribuição,
agregação de valor dentro da organização. Des- sendo considerada por Gasnier (2010) a força
sa forma, a empresa passa a atender às neces- que impulsiona os processos de abastecimen-
sidades de seus clientes em menor tempo, com to interno e externo de uma empresa, que deve
alta qualidade e baixo custo, além de prezar saber sincronizar os diferentes elementos apre-
pela segurança e motivação de seus colabora- sentados pela logística para que os fluxos não
dores (GHINATO, 2000). sejam interrompidos e as demandas não deixem
de ser atendidas.
2.2 LEAN APLICADO À LOGÍSTICA Para melhor compreender o conceito
logístico, Ballou (1993) define, sucintamente,
O conceito do termo lean aplicado à lo- que a logística é o processo de planejamento,
gística pode ser definido de várias maneiras, implementação e controle do fluxo eficiente e
principalmente dependendo do escopo e do economicamente eficaz de matérias-primas, es-
contexto do estudo. Em geral, é uma dimensão toques em processo, produtos acabados e infor-
logística com enfoque no conceito Lean Mana- mações relativas desde o ponto de origem até o
gement (BAUDIN, 2004). Para Vonderembse ponto de consumo, com o propósito de atender
et al. (2006), as melhorias ao longo da cadeia às exigências dos clientes.
produtiva, incluindo as atividades logísticas, tor- Nishida (2009) cita que abrange o pla-
nou-se uma necessidade como forma de garantir nejamento e a gerência de todas as atividades
a vantagem competitiva. Assim, de acordo com da logística, as quais estarão se desdobrando,
Cudney e Elrod (2011) o tema é cada vez mais causando interferências em alguns de seus elos,
proposto na literatura como um caminho para al- como, por exemplo, as decisões de planejamen-
cançar a vantagem competitiva necessária. to que podem resultar em produções desneces-
Considerando, então, os benefícios ligados sárias, além de outros problemas.
às práticas lean inerentes à gestão nas organiza-
ções, mais precisamente, nos processos de ne- A logística passa a ser enxuta quan-
gócios, sendo que na visão de Agus e Hajinoor do a teoria do pensamento enxuto é
(2012), esta pode ser uma forma viável e possível utilizada para alcançar uma maior ra-
de tornar a cadeia mais eficaz, trazendo diversos cionalização dos recursos utilizados
na movimentação, seja de pessoas,
benefícios do ponto de vista de competitividade.
empilhadeiras, maior giro de estoques
Para Melton (2005), os dois maiores proble- e redução do espaço físico necessário
mas da aplicação da filosofia é a falta de percepção para armazenar partes, simplificar o
das pessoas quanto a benefícios tangíveis e a visão fluxo de informações e ter maior es-
que os processos já são eficientes. Um processo tabilidade de informações (ALVES;
lean levará a uma resposta mais rápida de um pedi- SANTOS, 2013, p. 56).
do, tornando o processo de negócio mais rápido e
proporcionando benefícios financeiros. Jones e Mitchell (2006) afirmam que a
Na prática, de acordo com Sopadang, gestão orientada pelos fundamentos lean ofe-
Wichaisri e Sekhari (2014) pode haver algumas rece quatro benefícios significativos para uma
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O estudo de caso foi feito em uma re- Devolução, na visão estratégica da empre-
venda de bebidas situada na cidade de Petro- sa analisada, é um dos tópicos mais importantes
lina-PE, a qual atua no mercado há 20 anos. A no que tange à entrega. Antes de tudo, uma políti-
empresa tem como principal atividade a venda ca que preze pela segurança, qualidade e aspectos
e a distribuição de bebidas no município e em comerciais deve ser estabelecida. A equipe local
localidades circunvizinhas. é orientada e treinada para que todas as devolu-
É importante ressaltar que, visando à ções possam ser corretamente registradas para
preservação da identidade empresarial, não fo- que seja feito um controle claro após a jornada de
ram apresentados nomes na análise deste arti- trabalho. Isto é, as razões da recusa e a quantidade
go, assim como foram feitos poucos destaques em dinheiro envolvida devem ser corretamente
na caracterização da empresa em estudo. registradas. Na revenda, esse trabalho de monito-
ramento é feito em horário integral, desde a saída
4.2 NÍVEL DE SERVIÇO LOGÍSTICO dos caminhões até sua última entrega.
A interface de acompanhamento é dada
No mercado atual, de acordo com a li- pelo uso do software MDM, auditado constante-
teratura, geralmente a escolha do serviço por mente pelos funcionários do setor, a fim de garan-
parte dos clientes é influenciada diretamente tir a precisão das informações fornecidas pela fer-
pelos níveis de serviços logísticos oferecidos. ramenta. O MDM atua como um gerenciador de
Pode-se notar que, hoje, o foco da empresa é entregas em tempo real, e tem a visibilidade das
ofertar serviços que satisfaçam os clientes de atividades realizadas pelos motoristas da frota, o
forma mais efetiva, com o intuito de manter-se que proporciona a redução de custos e o aumento
competitiva no mercado local. da produtividade da equipe de entrega, além de
Ter um transporte diferenciado e eficaz, demonstrar as principais funções do sistema de
um processamento mais rápido das informações, monitoramento e a gestão da equipe de entrega.
um tempo de entrega minimizado e serviços de Comporta-se como um monitoramento inteligen-
pós-venda disponíveis afetam a venda do servi- te; logo, sua logística se torna mais eficiente.
ço, tornando a empresa mais competitiva, me-
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176 ARTIGOS | Aplicação de ferramentas lean no setor de logística: um estudo de caso
A devolução é um indicador crítico na logística, pois ela mede de perto o impacto no ní-
vel de serviço da organização. Ao adotar uma forma padrão de medir as devoluções na unidade,
o indicador é revisado diariamente e estabelecidos planos de ação para se fecharem as lacunas
identificadas. Pode-se entender lacuna como a diferença do resultado esperado com o obtido na
prática. É importante utilizar as ferramentas de gestão para fechar as lacunas. Logo, foi feito um
levantamento com dados do último semestre (novembro/16 a abril/17) com o intuito de observar
quais os principais motivos (quantidade média/mês) de devolução e seu impacto na empresa.
Gráfico 1 - Quantidade média de devoluções por motivos (situação inicial – novembro 2016)
Fonte: setor de logística (2017).
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A partir da evidência de quais são os principais motivos, ou seja, qual deles detém os maio-
res volumes de devolução, foram realizados planos de ação buscando encontrar soluções para
evitar que os produtos retornem para a empresa e garantir a satisfação dos clientes. Nesse sentido,
após a análise de dados e das ações de melhoria, foi evidenciada uma melhora significativa na
porcentagem de devoluções, expostas no gráfico 2.
Gráfico 2 - Quantidade média de devoluções por motivos (situação final – abril 2017)
Fonte: setor de logística (2017).
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AUTORES | Pedro Vieira Souza Santos, Maurílio Arruda de Araújo 179
fica pelo fato de que as organizações que bus- usar algumas referências dos fabricantes para
cam ser mais competitivas no mercado utilizam melhorar o consumo de combustível. Por fim,
a ferramenta com o intuito de agregar valor a elaborou-se um plano de ação para fechar as la-
seus processos, aumentando a produtividade e cunas para cada veículo.
eliminando seus desperdícios. No bloco de dispersão de KM, o foco foi
Foi feito um ranking de consumo por ve- definir a meta correta para a distância (consi-
ículo e este comparado ao consumo real estabe- derando-se o orçado e as informações da fer-
lecido como meta. O consumo foi estratificado ramenta de roteirização); obteve-se, assim, a
por motorista e por rotas/operação. O controle informação real do KM diariamente e o que foi
elaborado contém o tipo de veículo, modelo acompanhado foi o indicador para descobrir
e idade (anos), comparando a quantidade real oportunidades de otimização. Tal melhoria é
utilizada com o esperado e seu custo. A unida- notada no gráfico 5, em que está explícita a re-
de então começou a fazer benchmark interno e dução do KM médio acima do previsto.
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180 ARTIGOS | Aplicação de ferramentas lean no setor de logística: um estudo de caso
a frequência de entrega e nivelar o fluxo de entre- lação com os custos inerentes ao processo.
ga, ambos contribuindo para um fluxo de valor da
cadeia de suprimentos, trabalhando de forma mais APPLICATION OF LEAN TOOLS IN
sincronizada possível com o consumo real. THE DISTRIBUTION LOGISTICS
O trabalho demonstrou, de forma clara
INDUSTRY: A CASE STUDY
que, para otimizar indicadores no setor de logís-
tica, a filosofia lean é possível de ser implantada
ABSTRACT
e que, por meio da identificação dos problemas
mais recorrentes na distribuição da empresa em
Logistics, in addition to being responsible for
estudo, foi possível aplicar algumas ferramentas
meeting the needs of customers and compa-
como o Kaizen e planos de ação, que revelaram
nies, also adds value to the product, as custo-
uma significativa melhora nos valores de devo-
mers value the fact that a product is available
lução, dispersão de valores médios de KM e rota
at the right time and also in the right place. It is
(previstos versus realizados).
understood, therefore, that, in order to manage
Portanto, lean é uma filosofia capaz de the supply chain lean with less waste, it is es-
conduzir empresas a executar suas operações sential to have a lean logistics. In this context,
de distribuição de uma maneira mais eficiente this article aimed to analyze the improvements
e totalmente sustentável. Entretanto, esta pes- in the level of logistics service of a company as
quisa limitou-se ao acesso restrito de informa- of the application of lean tools. Therefore, this
ções fornecidas pela empresa; assim, foram case study is qualified as an action research,
analisados apenas dados do setor logístico, ou where the researcher makes use of observation
seja, outros setores importantes da organização and intervention in the object under analysis,
não puderam ser estudados, por tal limitação. contributing directly in the form of action to
Além disso, o tempo disponível para a execu- help solve the problems. In this sense, the work
clearly demonstrated that in order to optimize
ção da pesquisa não permitiria que fosse feita
indicators in the logistics sector, lean philoso-
essa análise conjunta dos setores da empresa. phy is possible to be implemented where throu-
Apesar da interferência do estudo no gh identifying the most recurring problems in
processo logístico local, para que a filosofia the distribution of the company under study, it
lean possa ser, de fato, implantada em uma is possible to apply some tools such as Kaizen
empresa e venha a se tornar realidade, é neces- and action plans, as they show a significant
sário que a organização adote estratégias dire- improvement in local indicators.
cionadas ao mercado e a seus clientes, ou seja,
uma cultura com foco no cliente final. A partir Keywords : Logistics. Lean. Service level.
daí, será possível ter-se um processo interno
estruturado e aprimorado, que seguramente le- APLICACIÓN DE HERRAMIENTAS
vará à eliminação dos desperdícios existentes. LEAN EN EL SECTOR DE
Para futuros trabalhos envolvendo LOGÍSTICA: UN ESTUDIO DE CASO
este tema, sugere-se uma ampliação da
aplicação das ferramentas a outros indica- RESUMEN
dores locais, assim como a observação da
La logística, además de ser responsable por
correlação entre as atividades dos diversos atender las necesidades de los clientes y em-
setores e seu impacto no processo de negó- presas, también acrecienta valor al producto,
cios da empresa. Sugere-se, ainda, o estudo pues los clientes valorizan el hecho de un pro-
da otimização desses indicadores e sua re- ducto estar disponible en el momento preciso
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AUTORES | Pedro Vieira Souza Santos, Maurílio Arruda de Araújo 183
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 168-183, jul./dez. 2018
184 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p184-201.2018
ENSAIOS
RESUMO
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 184-201, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Lília Paula Andrade, Mozar José de Brito, Luis Fernando Silva Andrade, André Luiz de Paiva, Valéria da Glória Pereira Brito 185
Houve momentos de proibição da produção e país, mas, sobretudo, com estudos que compre-
venda da bebida e de taxação com altos impos- endam que a cachaça é parte da história do país,
tos. Todavia, nenhuma dessas situações desfa- que não deve ser esquecida ou negligenciada.
voráveis foi suficiente para que o consumo e Para tanto, propõe-se um ensaio teórico,
a produção da bebida fossem paralisados. À fundamentado na busca, na análise e na interpre-
bebida tem sido atribuído um forte significado tação de fontes bibliográficas (artigos científicos,
cultural. A cachaça tem acompanhado o brasi- teses, dissertações e livros) e dados documentais
leiro em todos os momentos da história do país, referentes ao campo da bebida (MENEGHETTI,
desde as revoltas pela independência até as co- 2011). Por meio desta reflexão, buscou-se resga-
memorações dos dias atuais. tar o processo de institucionalização da bebida,
O processo de produção da bebida tem desde o período colonial, até a constituição de
sido ao longo dos anos aprimorado. Além da ca- seu mercado atual (BERGER; LUCKMANN,
chaça produzida em engenhos e alambiques (ar- 2010; MACHADO-DA-SILVA et al., 2001).
tesanal), também existe a cachaça industrial. Esta Nesse sentido, defende-se que a cachaça repre-
última é de origem mais recente e se desenvolveu senta significados que a posicionam como fon-
com a evolução das práticas tecnológicas; ela é te de renda (sobretudo a pequenos produtores
produzida com o auxílio de maquinários que tor- rurais), distinção social (considerando bebidas
nam mais rápido o processo de obtenção do pro- refinadas emergentes nos últimos anos) e patri-
duto final. Embora a origem da cachaça artesanal mônio cultural brasileiro.
e industrial seja a mesma, os dois produtos são Este trabalho foi elaborado em cinco se-
diferenciados. Os produtores de cachaça artesanal ções além desta introdução. Na primeira, foi
tem enfrentado, nos últimos anos, uma série de apresentada a teoria institucional e seu poten-
dificuldades de qualificação e comercialização do cial explicativo para a trajetória histórica da
produto, advindos das mudanças contextuais que produção de cachaça. Na segunda seção, foi
afetaram, diretamente, essa produção (BRAGA; apresentada a distinção entre cachaça artesanal
KYIOTANI, 2015). Ainda assim, tem sido ex- e cachaça industrial, bem como o delineamento
pressiva a quantidade produzida, comercializada da história desse produto. Em seguida, foram
e exportada da bebida (PAIVA et al., 2017). Haja abordados os aspectos culturais e sociais que
vista, no ano de 2017, foram exportados 8,4 mi- têm permeado essa trajetória. Na penúltima se-
lhões de litros, para mais de 60 países, gerando ção, é apresentada a inserção mercadológica da
uma receita de R$ 15,80 milhões, números que cachaça artesanal e, por fim, foram relatadas as
representam crescimento em relação a anos an- considerações finais da pesquisa.
teriores (IBRAC, 2018); ou seja, percebe-se que
esse mercado tem sido cada vez mais promis- 2 A TEORIA INSTITUCIONAL E SUA
sor tanto internamente quanto em outros países CONTRIBUIÇÃO PARA A ANÁLISE
(SOUZA, 2018). HISTÓRICA
A fim de se compreender as especifici-
dades do setor de cachaça no Brasil, traçou-se A abordagem institucional pode trazer
como objetivo deste artigo compreender como contribuições relevantes aliadas à perspectiva
se deu o processo de institucionalização da ca- histórica, para a compreensão da atual confor-
chaça no Brasil em relação, especificamente, às mação da produção de cachaça, bem como seus
suas histórias de produção e de inserção merca- desafios e possibilidades. É notável considerar
dológica, destacando os efeitos sociais e cultu- que as instituições, vistas como tipificações,
rais ao longo do tempo. São necessários estudos, relacionam-se à importância de processos ins-
trabalhos e pesquisas que contribuam para o re- titucionais para a formação das identidades or-
conhecimento de sua importância, não apenas ganizacionais e das práticas realizadas (BER-
como produto importante para a economia do GER; LUCKMANN, 2010).
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 184-201, jul./dez. 2018
186 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 184-201, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Lília Paula Andrade, Mozar José de Brito, Luis Fernando Silva Andrade, André Luiz de Paiva, Valéria da Glória Pereira Brito 187
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 184-201, jul./dez. 2018
188 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
pelo “fidalgo judeu” Fernando de Noronha, na a produção do açúcar, era descartada, forneci-
ilha que hoje recebe esse nome (OLIVEIRA; da aos animais e aos escravos (CAVALTANTE,
MARTINS, 2010; FERREIRA, 2013). Outra 2011). Cachaça era chamada toda aguardente de
possibilidade que pode ter sido determinante no qualidade inferior dada aos escravos, ou comer-
descobrimento da cachaça foi o envolvimento cializada por um baixo valor, sendo, então, uma
dos negros no processo de produção do açúcar. bebida acessível aos pobres (CHALITA, 2008;
Existem indícios de que os negros faziam o uso CAVALCANTE, 2011).
da cachaça, antes de esta se tornar um produ- A cachaça teve e ainda tem outros mi-
to comercializado. Em meados de 1600, era lhares de nomes como: parati, paraty, januária
comum o consumo da “escuma” fermentada, e salinas (CAVALCANTE, 2011). Para esse
advinda do processo de fabricação do açúcar mesmo autor, as cachaças engarrafadas até a
(CAVALCANTE, 2011). Os escravos inseridos década de 1950 apresentavam no rótulo o ter-
nesse processo tinham, desde então, a prática mo aguardente de cana, canna, caninha ou can-
de consumir o “caldo de cana fermentado” que, ninha e pinga. Até então, raramente aparecia o
posteriormente, seria a cachaça (CHALITA, termo “cachaça”.
2008; CAVALCANTE, 2011). Essa denominação foi institucionalizada
Apesar das divergências quanto à origem de fato e amplamente adotada a partir da inter-
da cachaça, não existem dúvidas que, depois de venção normativa que aconteceu a partir da dé-
seu surgimento, ela se tornou uma “paixão” tan- cada de 1990, momento em que foram criadas
to dos brasileiros, quanto dos estrangeiros que as primeiras legislações sobre a qualidade e a
experimentavam a bebida. Do século XVI até padronização da cachaça do país. De acordo
os dias atuais, a cachaça tem exercido papel se- com o Decreto nº 4851, de 2003 (revogada pelo
melhante ao da cerveja na Inglaterra e de muitas Decreto nº 6.871, de 2009) existem denomi-
bebidas em diversas outras sociedades, como o nações próprias para cada tipo de aguardente.
vinho em Portugal, a vodca na Rússia ou o uís- Cachaça, conforme descrição do Art. 92 da re-
que na Escócia (SILVA, 2009). Em outras pa- ferida lei, é a bebida:
lavras, como proposto por Berger e Luckmann
(2010), a cachaça se institucionalizou, tornou-se Típica e exclusiva da aguardente de
uma tipificação recíproca de ações habituais. cana produzida no Brasil, com gra-
Esse processo não aconteceu por imposição co- duação alcoólica de trinta e oito a
ercitiva ou normativa, mas o ambiente, o acaso e quarenta e oito por cento em volu-
me, a vinte graus Celsius, obtida pela
o mimetismo foram fatores determinantes.
destilação do mosto fermentado de
Quanto à história da denominação da be- cana-de-açúcar com características
bida como “cachaça”, também não existe um sensoriais peculiares, podendo ser
consenso. Para Cavalcante (2011), a palavra é de adicionada de açúcares até seis gra-
origem africana e surgiu juntamente com as pala- mas por litro, expressos em sacarose
vras garapa e banguê. Também existia o emprego (BRASIL, 2009, online).
do nome “cachaça” na Espanha, em que era uma
bebida obtida do esmagamento de uvas. Câmara Nesta legislação, é feita a especificação
(2008) e Oliveira e Martins (2010) atribuem à de cachaça como “aguardente” de cana. Essa
origem do nome “cachaça” a denominação de especificação é utilizada para justificar que,
“cachaza”, que teria como significado europeu embora existam diferentes tipos de “aguarden-
aquilo que poderia ser descartado, o lixo ou a tes”1, a de cana é própria do Brasil e segue as
sobra. A “cachaça”, ou “cagaça”, era a escuma especificações desta lei. A criação dessa teria
proveniente da fermentação da cana de açúcar. representa práticas e políticas que “pretendem
Essa “escuma”, como não era de interesse dos melhorar a qualidade do produto e abrir novos
donos de engenho e não possuía serventia para mercados, sobretudo internacionais.” (OLI-
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190 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
te Portuguesa passou a considerar a cachaça Aluísio de Azevedo, juristas como Sobral Pin-
como um dos produtos da economia brasileira; to, poetas como Carlos Drummond de Andrade
já era comum, neste momento, a exportação e e, até mesmo, o presidente da república Jusce-
a comercialização da cachaça a outros países. lino Kubitschek mencionaram, em suas obras
Em 1810, chegou ao Brasil a primeira fábrica e em seus discursos, a importância da cachaça
de garrafas e, em 1860, já se encontravam para para o povo brasileiro. Abre-se, novamente, es-
consumo as cachaças engarrafadas (CAVAL- paço para a valorização da bebida (FERREIRA,
CANTE, 2011). Em 1817, novamente a ca- 2013). Por outro lado, Feitosa (2005) menciona
chaça representou a resistência ao domínio da que, até nos tempos atuais, essa imagem negati-
Coroa e esteve presente como símbolo durante va relacionada à aguardente de cana ainda está
toda a Revolução Pernambucana. As revoltas institucionalizada em meio aos brasileiros.
se acalmaram em 1822, quando foi proclama- A segunda metade do século XX foi
da a república, e a cachaça foi utilizada para marcada como um novo período em que come-
comemorar o acontecido (FEITOSA, 2005; çaram a emergir os primeiros programas, orga-
GUERRA, 2005; AMPAQ, 2015). Em 1831, nizações e legislações em apoio à produção e
foi revogado por Portugal o subsídio literário à comercialização da cachaça. Iniciou-se um
e iniciou-se, no Brasil, o seu período regencial. maior esforço normativo, coercivo e também
A partir desse momento, o dinheiro a ser des- ambiental pelo isomorfismo das organizações
tinado à educação não viria mais do subsídio produtores de cachaça. Em 1988, foi criada a
da cachaça, mas do orçamento governamental Associação Mineira de Produtores de Cacha-
(FERREIRA, 2013). ça de Qualidade, a AMPAQ-MG, a associa-
Depois da segunda metade do século ção pioneira deste setor (FARIA, 2002). Essa
XIX, começou o declínio do trabalho escravo, associação foi criada para apoiar o desenvol-
e intensificou-se a cafeicultura como nova ati- vimento do setor produtivo de cachaça. A atu-
vidade econômica do Brasil (FEITOSA, 2005; ação da AMPAQ-MG tem sido presente até os
GUERRA, 2005; AMPAQ, 2015). A cachaça, dias atuais. Essa associação tem representado
por ser barata na época, ‘caiu no gosto popular’ as demandas de um novo contexto e pode ser
e foi estereotipada como produto de qualidade considerada uma facilitadora do isomorfismo
inferior, das classes marginalizadas (GUERRA, normativo que tem acontecido nessas organi-
2005; FEITOSA, 2005; AMPAQ, 2015; FER- zações, que passaram a compartilhar com mais
REIRA, 2013). A elite do país preferia adotar facilidade novas técnicas para o aprimoramen-
costumes e consumir produtos de origem euro- to da produção.
peia. Entretanto, o consumo da cachaça aconte- Do mesmo modo, em 1992, foi criado o
cia em todo o país, multiplicavam-se o número Programa de Incentivo à Produção da Cachaça,
de “botecos e tabernas”, locais onde as pessoas o Pró-Cachaça, pela lei Estadual n° 10.853. Tal
se reuniam em grupos informais para consumir legislação afirma o compromisso que o Poder
a cachaça e conversar sobre os mais variados Executivo do Estado passa a ter com relação à
assuntos (CAMARGO, 2009). proteção e ao incentivo aos produtores de ca-
Esse estereótipo negativo associado aos chaça (BRASIL, 1993).
produtos nacionais é claramente perceptível até No ano de 1997, é regulamentada, pelo
meados do século XX, quando acontece, em Decreto Federal n° 2.314, a Lei n° 8.918, de ju-
1922, a Semana da Arte Moderna. Esse movi- lho de 1994, a lei que dispõe sobre “a padroni-
mento iniciou-se a favor do “redescobrimento” zação, classificação, registro, a inspeção, a pro-
da brasilidade, como uma crítica à tentativa de dução e a fiscalização de bebidas.” (BRASIL,
importação de modelos europeus de cultura, 1994, online). Esses dois decretos versavam
comportamento e consumo (FEITOSA, 2005). sobre a proteção das “bebidas”, não se falava
Artistas e intelectuais, como Jorge Amado e até então especificadamente na “cachaça”. So-
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mente em 2001, com o Decreto n° 4062 de de- produtos elaborados” (BRASIL, 2005, online).
zembro, são definidas as expressões “cachaça”, Esta normativa teve por finalidade “disciplinar
“Brasil” e “cachaça do Brasil”. Neste momento, os registros de estabelecimentos organizados
ainda prevalecem os decretos de 1994 e 1997. em Sociedade Cooperativa e os respectivos
Entretanto, este decreto de 2001 deixa claro produtos elaborados, que objetivam desenvol-
que o nome cachaça deve ser única e exclusi- ver as atividades de produtor, acondicionador,
vamente utilizado pelos produtores brasileiros engarrafador e exportador de aguardente de
para fins de comércio nacional e internacional cana e de cachaça [...]” (BRASIL, 2005, onli-
(BRASIL, 2001). Em 2003, é estabelecida pelo ne). Nesse mesmo ano, foi iniciada a implan-
Decreto n° 4.851 a definição legal da “cachaça” tação do processo de certificação da cachaça
e como ela deve ser composta. com a assinatura do convênio entre o Sebrae e
A fim de desenvolver o mercado da ca- o Instituto Nacional de Metrologia, Normatiza-
chaça, em 2005, o Ministério da Agricultura, ção e Qualidade Industrial (INMETRO) (hoje
Pecuária e Abastecimento (MAPA) aprovou o chamado de Instituto Nacional de Metrologia,
regulamento técnico para afixação de padrões Qualidade e Tecnologia). Para tanto, foi criado
de identidade e qualidade para a cachaça e para um Regulamento de Avaliação da Conformida-
a aguardente de cana. Os padrões estabelecidos de da Cachaça. Esse documento foi publicado
pelo MAPA (BRASIL, 2005) discriminam so- pela Portaria n° 126, em junho de 2005. Foi
bre as especificidades químicas a serem utili- proposto “aos produtores, organismos certifica-
zadas na produção tanto da aguardente de cana dores, consultores e especialistas, o esboço de
como na cachaça. Na Normativa 13, é possí- um sistema de gestão focado no atendimento
vel se distinguir “aguardente da cana” de “ca- aos requisitos de certificação” da cachaça (SO-
chaça”, em que há uma variação permitida em RATTO; VARVAKIS; HORII, 2007, p. 681).
porcentagem de graduação alcoólica. Enquanto No ano posterior, em 2006, foi criada a Câmara
nesta última é permitido o volume de 38% a Setorial da Cadeia Produtiva da Cachaça pelo
48%, na aguardente de cana, esse percentual MAPA (BRASIL, 2006).
alcoólico pode ser um pouco maior de 38% a Nesta Portaria n° 126, são especificados
54% em volume. Essa instrução 13 versa ainda requisitos a serem cumpridos pelos produtores
sobre aspectos de higiene, destilação e estabele- de cachaça em todas as etapas, desde a produ-
ce pesos e medidas a serem utilizados, os quais, ção até o armazenamento e distribuição do pro-
obrigatoriamente, têm que ser respeitadas pelas duto final. Ademais, estão previstas nesse do-
produtoras de cachaça que pretendem estabe- cumento quais são as infrações que o produtor
lecer tal padrão de qualidade (BRASIL, 2005). não deve praticar e as sanções e punições que
Essas medidas de qualidade são essenciais para serão aplicadas no caso de descumprimento de
tornar viável a comercialização da bebida em algum dos itens combinados entre as partes.
mercados internacionais. A partir desse momento, qualquer pro-
Neste mesmo ano de 2005, por meio da dutor de cachaça no Brasil poderia solicitar a
Instrução Normativa n° 20, o MAPA revogou a certificação, no âmbito do Sistema Brasileiro
Instrução Normativa n° 56, que dispunha sobre de Avaliação da Conformidade (SBAC). Essa
os “requisitos e procedimentos para registro de certificação é voluntária e somente pode ser
estabelecimentos produtores de cachaça, or- concedida por organismos de certificação de
ganizados em associações ou cooperativas le- produtos (OCP) com competência técnica re-
galmente constituídas”; e aprovou as “normas conhecida pelo INMETRO, que é gestor do sis-
relativas aos requisitos e aos procedimentos tema. Entre as vantagens de se ter uma cachaça
para registro de estabelecimentos produtores certificada está que o selo é “reconhecido den-
de aguardente de cana e de cachaça, organiza- tro e fora do país como sinônimo de qualidade e
dos em Sociedade Cooperativa e os respectivos confiança.” (SORATTO; VARVAKIS; HORII,
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192 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
2007, p. 2). De acordo com esses mesmos au- essa importância, a próxima seção deste artigo
tores, as vantagens desse processo abrangem versa sobre os aspectos culturais e sociais inse-
os interesses do produtor, do governo e, sobre- ridos na trajetória histórica da cachaça.
tudo, dos consumidores. A primeira década de
2000 continuou com o aumento do apoio insti- 4 ASPECTOS CULTURAIS E SOCIAIS
tucional à cachaça, a fim de incentivar a produ- DA TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA
ção e comercialização dessa bebida de origem CACHAÇA
assumidamente brasileira.
A cachaça foi reconhecida como produ- [...] Mas foi com a cachaça que o
to brasileiro não apenas pelas legislações na- brasileiro pobre enfrentou a floresta
cionais, mas, em março de 2013, foi firmado e o mar, varou esse mundo de águas
um acordo bilateral entre os Estados Unidos e e de terras, construiu essa confusão
o Brasil, em que se reconhecia a bebida como meio dolorosa, às vezes pitoresca,
genuinamente brasileira. Esse reconhecimento mas sempre comovente a que hoje
foi importante porque, em 2000, os Estados chamamos Brasil. E com essa cacha-
ça que ele, através dos séculos, vela
Unidos passaram a classificar a cachaça como
seus mortos, esquenta seu corpo, es-
“rum” e passaram a requerer que, no rótulo do quece a dureza do patrão e a falseta
produto, estivesse denominado “rum brasilei- do companheiro. Ela faz parte do seu
ro”. Além de prejudicar os esforços para pro- sistema de sonho e vida; é como um
mover o produto como uma bebida típica bra- sangue da terra que ele põe no próprio
sileira, também trazia custos aos produtores. sangue. A cachaça também é nossa–
Com esse reconhecimento, aumentaram-se as Rubem Braga (BRAGA apud CÂ-
possibilidades de promoção da bebida no mer- MARA, 2004 p. 117).
cado norte-americano, e facilitou-se, também, a
sua exportação (BRASIL, 2013). A cachaça carrega, em seu processo de
As exportações de cachaça no último institucionalização, marcas das transformações
ano somaram o total US$ 15.808.485 milhões, da sociedade brasileira quanto a seus aspectos
sendo os principais destinos: Estados Unidos, sociais, culturais e políticos. Atrelada ao con-
Alemanha, Paraguai, Portugal e Itália (SOU- sumo da bebida, existe uma carga de crenças,
ZA, 2018). Apesar disso, a participação da ca- valores e emoções. A bebida tem sido utilizada
chaça artesanal no mercado internacional ainda pelos brasileiros nas mais diversas finalidades,
é baixa e precisa do desenvolvimento de políti- que vão desde medicamento até como sinônimo
cas e práticas que incentivem a valorização do de revolta ou, simplesmente, comemoração.
produto (CHALITA, 2008; SOUZA, 2018). Até o século XVI, a aguardente de cana
Em síntese, as três últimas décadas têm era utilizada como remédio, e, de acordo com o
sido marcantes na história da cachaça. Trata-se conhecimento popular da época, a bebida auxi-
do momento em que o produto passa a ser visto liava a manter o calor do corpo (CAMARGO,
pela comunidade brasileira com “outros olhos”. 2009). Também estava associada a tal bebida
A bebida é institucionalizada cognitiva, norma- a função de desjejum e mata-bicho (CHALI-
tiva e coercitivamente como “genuinamente TA, 2008). Camargo (2009) cita uma pesqui-
brasileira”. Desse reconhecimento, veio a cria- sa realizada por Ernani da Silva Bruno, cujos
ção de processos coercitivos a fim de assegu- resultados demonstraram que, no decorrer do
rar às organizações do setor a padronização e o século XVIII, em São Paulo, a cachaça ainda
crescimento. Além de delinear o contexto his- era utilizada como medicamento. Essa bebida
tórico da cachaça, também é necessário com- era utilizada para se combater doenças como a
preender os aspectos sociais e culturais no qual varíola e o sarampo.
esta história está imersa. A fim de evidenciar No século XVIII, a popularidade da
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194 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
seu surgimento, é consumida nas mais diversastão verdadeira a informação, que é comum se
situações cotidianas, desde uma reunião com os
observar, em sua trajetória, momentos em que
amigos, até mesmo, em momentos individuais ela serviu como moeda de troca na compra de
(SOUZA, 2004). Câmara (2004, p. 135) ressaltaescravos no Brasil Colônia (CÂMARA, 2004,
essa característica em sua obra “Cachaça, pra-
2018; CAVALCANTE, 2011). Desde quando a
zer brasileiro”, quando destaca a seguinte frase:
cachaça passou a existir, ela sempre teve admi-
“Unidos beberemos! Sozinhos também!”. Todas radores e consumidores fiéis.
essas características demonstram uma história Em contrapartida, nos últimos anos, hou-
de força e resistência às ideologias, aos regi-
ve uma alteração nos desafios a serem enfrenta-
mes e golpes. A cachaça tem a força do povo dos pelas organizações, independentemente da
e, somente por esse motivo, tem sobrevivido. A
área a que pertencem. As trocas comerciais e as
cachaça e o povo caminham juntos na História exigências estabelecidas nas práticas de comer-
brasileira. Todas as lutas, derrotas e conquistas
cialização têm sido determinantes na inserção
sociais, políticas, econômicas e culturais do Bra-
mercadológica da cachaça, sobretudo a artesa-
sil foram “encharcadas” e umedecidas com ca- nal. As transformações contextuais dos últimos
chaça (CÂMARA, 2004). anos têm exigido, também, certos cuidados no
Embora seja possível perceber que, nasprocesso de produção e comercialização da be-
últimas décadas, aconteceu um esforço maior bida (ESPARTEL; BARCELLOS; GOULAR-
do estado de reconhecimento da bebida como TE, 2011; SOUZA, 2018; PAIVA, et al., 2018).
“genuinamente brasileira”, ainda é necessá- A cachaça artesanal é tida como um pro-
rio que a imagem vinculada à cachaça seja duto diferenciado, de valor agregado, que está
trabalhada na mente dos próprios brasileiros entre as preferidas do país. Apesar disso, a sua
(CAVALCANTE, 2011; ESPARTEL, BAR- comercialização ainda não possui números tão
CELLOS, GOULARTE; 2011; CHALITA, expressivos. Os produtores têm enfrentado pro-
2008; PAIVA et al., 2018). A cachaça deve serblemas relacionados à falta de informação, à
reconhecida como um patrimônio do Brasil. É dificuldade de investimentos em práticas de mo-
preciso que ela seja “estudada, conhecida, in-
dernização e padronização da produção; portan-
terpretada, como qualquer outra expressão da to, tem sido um desafio competir com bebidas
nacionalidade, como o choro, o samba, a litera-
industrializadas (BRAGA; KIYOTANI, 2015).
tura, a dança, o carnaval, o nosso humor [...].” O processo evolutivo de inserção da ca-
(CÂMARA, 2004, p. 134). Toda essa cultura e chaça no mercado acontece desde o Brasil Co-
simbologia têm sido determinantes no processolônia. Como a cachaça foi desde sempre uma
de produção, comercialização e institucionali-
das bebidas mais populares, nos armazéns e
zação da bebida. nas casas de comércio, é que era comumente
É necessário, além de traçar a história e
encontrada e vendida. A produção acontecia
as especificidades sociais e culturais da cacha-
desde os primórdios nos engenhos de cana-de-
ça, perceber como a bebida tem-se inserido no-açúcar. Com o passar do tempo e o declínio do
mercado nacional e internacional, percebendo mercado açucareiro, passaram a existir apenas
quais têm sido os desafios e as oportunidadesas “casas de cozer méis”, nome dado aos hoje
relacionadas a esse setor. chamados “alambiques”, criados para a produ-
ção da aguardente de cana (CÂMARA, 2004;
5 A INSERÇÃO MERCADOLÓGICA CAVALCANTE, 2011).
DA PRODUÇÃO DE CACHAÇA AR- Nos séculos XVI e XVII, a aguardente
TESANAL já possuía produtos concorrentes, como o vi-
nho de Portugal. Embora tenha tido tentativas
A cachaça vem sendo, desde sempre, por parte da Coroa de reprimir a demanda pela
considerada um produto de valor comercial. É cachaça e aumentar o consumo do vinho Por-
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196 ENSAIOS | Cachaça sob uma perspectiva histórica, cultural e simbólica
mente (VERDI, 2006; SOUZA, 2012). Muitos tiva mercadológica. Conforme destacado por
desses produtores sofrem, até mesmo, com a Machado-da-Silva et al. (2001), o formalismo
falta de recursos necessários para o investi- presente na sociedade brasileira reforça a im-
mento na produção da cachaça. Ademais, têm portância de mecanismos isomórficos coerci-
faltado a esses produtores informações indis- tivos. Percebe-se, também, a importância dos
pensáveis a práticas como: legalização da ati- mecanismos normativos.
vidade, melhoria da qualidade do produto e da Aqui cabe destacar as contribuições de
produtividade. Outro fator que tem dificultado DiMaggio e Powell (2005) e do assim chamado
a ampliação de atuação dos médios e pequenos novo institucionalismo. Ao processo de institu-
produtores tem sido a “pesada” carga tributária cionalização ocorrem respostas dos agentes pre-
incidente sobre suas atividades (CACHAÇA sentes no setor, o que é perceptível não só nos
COM NOTÍCIAS, 2013). movimentos de contestatação durante o ‘Brasil
Apesar de se reconhecer que existe um Colônia’, mas também na organização e nas pres-
potencial de exportação da cachaça artesanal, sões originadas dos produtores, que trazem visibi-
também não se pode negar que os últimos anos lidade para um setor em pleno crescimento.
foram significativos para o aumento da insti- A institucionalização por meio das nor-
tucionalização da comercialização da bebida mas, aspecto comum no Brasil, tem dificultado
em mercados internacionais. O crescimento na a continuidade das atividades de pequenos pro-
quantidade exportada se explica pela estrutu- dutores e sua adequação aos critérios de quali-
ração do quadro institucional do setor no país, dade, visando à homogeneização da produção
principalmente a partir de 1997 com a criação em detrimento da consideração à diversidade
de associações como a Associação Brasileira da forma como é produzida a cachaça artesanal.
de Bebidas (ABRABE), a Federação Nacio- Os aspectos sociais e culturais relaciona-
nal das Associações de Cachaça de Alambique dos ao consumo e à comercialização da bebida
(FENACA) e a Agência de Promoção de Ex- advêm da própria cultura brasileira, que é com-
portações e Investimentos (APEX). Também posta por tradições diversas. A cachaça está en-
a criação da Câmara Setorial da Cachaça pelo volta por simbologias. Ao seu significado têm
MAPA foi determinante para a expansão do sido atrelados os mais diversos sentimentos e
mercado. Tais organizações e instituições têm emoções humanas. Entretanto, existe, também,
auxiliado na capacitação técnica de produto- uma visão negativa e pejorativa associada à be-
res, na valorização da imagem do produto e na bida, que remete aos aspectos de sua ‘criação’ e
divulgação da cachaça no exterior (PAIVA et consumo por classes subservientes e, posterior-
al., 2017; VERDI, 2006). Em síntese, percebe- mente, a classe baixa.
-se que o mercado da cachaça artesanal sempre Considera-se ainda que as reflexões re-
existiu no país; entretanto, nos últimos anos, alizadas neste ensaio teórico estejam ligadas à
com as modificações contextuais, o mercado interpretação e subjetividade dos autores a par-
desse setor se tornou mais complexo. Tem sido tir da leitura das obras selecionadas para esta
exigido dos produtores a regularização e a pa- revisão de literatura. Portanto, é necessária a
dronização de suas atividades. Embora as difi- constante atualização da interpretação da his-
culdades sejam muitas, a bebida oferece hoje tória da cachaça ao longo do tempo. Sugerem-
um potencial promissor. -se trabalhos futuros que deem continuidade
aos objetivos propostos neste estudo. Ademais,
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS também são necessárias pesquisas empíricas
que discutam as práticas utilizadas por produ-
O estudo realizado aponta eventos, co- tores de cachaça no processo de fabricação no
erções e resistências que auxiliam no entendi- produto, a fim de identificar dificuldades e apri-
mento da produção da cachaça e sua perspec- morar a reflexão acerca da bebida.
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Este trabalho é considerado relevante que la bebida existe desde Brasil colonia, pero
por contribuir com reflexões acerca das especi- que solo en los últimos años el sector de cacha-
ficidades culturais, históricas e mercadológicas za tiene sido organizado y reconocido institu-
que têm feito parte do cenário de cachaça no cionalmente. A pesar de esto, los productores
Brasil. Percebeu-se, com este estudo, a necessi- tienen encontrado muchos desafíos para se re-
dade de práticas e políticas que favoreçam a in- gularizaren y estandarizar el proceso produc-
serção e o desenvolvimento dos produtores de tivo de acuerdo con las exigencias del actual
cachaça artesanal, visto que esse é um setor que contexto político e socio cultural.
possui um amplo potencial que não tem sido
devidamente explorado. Palabras-clave: Cachaza. Cultura. Historia.
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202 ENSAIOS | Etnografia em Marketing: uma visão antropológica nos estudos do consumo
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p202-211.2018
ENSAIOS
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 202-211, jul./dez. 2018 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Natalia Contesini Santos, Victor Miranda de Oliveira, Camila Arantes de Paula Medina, Severino Joaquim Nunes Pereira, Jorge Alberto Velloso Saldanha 203
mento central no pensamento de marketing, de dados que captam seus significados sociais
admite-se o marketing etnográfico como uma por meio da participação direta do pesquisador
metodologia viável para o estudo do consumi- (CAVEDON, 2014). Barbosa (2003a, p. 100)
dor e das manifestações sociais e materiais em apresenta o método etnográfico como o “pro-
suas atividades diárias. Contudo, se, de um lado, cesso de observar, participar e entrevistar o ‘na-
a etnografia convencional não mais dá conta de tivo’ em suas condições reais de existência, ten-
estudar “a circulação de significados, objetos e tando entender e mapear a completude de sua
identidades culturais no tempo-espaço difuso” vida.” Assim, torna-se possível compreender os
(DENNY, 2013, p. 432), de outro, permanece a fatores simbólicos e as peculiaridades culturais
preocupação com a direção que esta disciplina que se escondem por trás de relacionamentos e
da Antropologia está tomando quando utilizada atividades individuais e grupais, ou seja, apre-
sob o rótulo de marketing etnográfico. ender “os diferentes princípios, lógicas e signi-
Este ensaio buscar discutir, por meio de ficados por meio dos quais as pessoas organi-
uma revisão bibliográfica, o uso da etnografia zam a ‘realidade’ em que vivem.” (BARBOSA,
como metodologia de pesquisa em marketing, 2003b, p. 40).
destacando o advento do marketing etnográfico, Na prática, o método etnográfico serve
suas particularidades, operacionalização, vanta- para descobrir o que os pesquisadores não sa-
gens e limitações nos estudos de consumo. Para bem como responder, o que os pesquisados não
tal, está estruturado em seis sessões: introdu- sabem sobre eles mesmos ou o que não querem
ção, a apresentação do método etnográfico e seu ou não vão admitir (MARIAMPOLSKI, 2006).
processo de coleta de dados, características da Apesar de não envolver diretamente dados
perspectiva interpretativista, o uso da etnografia quantitativos, o rigor metodológico concede à
em marketing, mais precisamente nos estudos de etnografia o status de fazer científico. O pesqui-
consumo, seguindo das limitações e desafios do sador apontará os resultados obtidos por meio
método etnográfico, e, finalmente, as considera- das observações e das entrevistas feitas em
ções finais inerentes a este estudo. campo, bem como apontará o que é pensamen-
to do autor, seu posicionamento e interpretação
2 MÉTODO ETNOGRÁFICO E SEU psicológica em face dos dados observados.
PROCESSO DE COLETA DE DADOS Lengler e Cavedon (2001) descrevem o
momento em que Malinowski chegou às Ilhas
Em sua obra, Os Argonautas do Pacífico Trobriand para realizar seu trabalho de compre-
Ocidental, Malinowski (1978) apresentou im- ensão do sistema de comércio aborígene. Res-
portantes considerações sobre a etnografia, mé- saltam a parcimônia e a preparação prévia do
todo que utilizou para estudar o sistema de co- antropólogo ao se embrenhar entre os nativos:
mércio dos nativos das Ilhas Trobriand. Segundo
ele, seu convívio íntimo e intenso com o povo Ao desembarcar na Nova Guiné, Ma-
desta ilha fez que, ao longo do tempo, sua rotina linowski, um dos criadores da escola
funcionalista da antropologia, de-
diária passasse a ser igual à dos nativos, permi-
dicou-se integralmente ao trabalho,
tindo a experimentação genuína e integral de sua procurando estudar em profundidade
vida. O método etnográfico permitiu a esse au- o sistema sócio-econômico dos abo-
tor captar a visão de mundo desse povo e como rígenes. O kula, como era conhecido
se relaciona entre si, sendo só assim possível o sistema econômico da polinésia,
compreender a maneira como seus valores so- funcionava como amálgama da socie-
ciais eram vivenciados no cotidiano. dade local, dando origem e sistema-
Descreve-se etnografia como o estudo do tizando os comportamentos sociais
fenômeno no local ou situação em que ocorre dos nativos (Malinowski, 1978). Sua
naturalmente, por meio de métodos de coleta dedicação e curiosidade levou-lhe a
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ção ou parcialidade dos grupos de foco. O con- fico e extratos de diários de campo elaborados
sumo é, então, percebido como um fenômeno a partir da técnica da observação participante
complexo, simbólico e cultural, que não pode para caracterizar as cafeterias como espaços de
ser reduzido a esquemas causais ou experiên- consumo e de sociabilidade urbana e evidenciar
cias de laboratório simplificadoras, de cunho os processos de ressignificação do consumo de
positivista (ROCHA, 1999). café ao longo da história, em diferentes locais do
O esforço etnográfico de Pereira e Ayro- mundo. Elliott e Jankel-Elliott (2003) participa-
sa (2012) sobre o consumo de gays masculinos ram intensamente da rotina diária de onze famí-
cariocas permitiu descobrir como esses consu- lias britânicas com o intuito de descrever os im-
midores utilizam os significados simbólicos do pactos da tecnologia e da mídia de consumo em
consumo de forma a se diferenciarem de pa- suas vidas. Esses autores afirmam que o uso da
drões heteronormativos, ajudando a comunicar abordagem etnográfica nesta pesquisa possibili-
ou sinalizar a sua identidade masculina homos- tou-os encontrar resultados miríades, penetran-
sexual para os seus pares. Para tal, tes e amplos, resultados que um simples estudo
de caso não conseguiria descrever em totalidade
um dos autores deste artigo inseriu-se ou compreender quanto ao impacto.
no dia a dia do grupo gay carioca, de
2005 até 2008, realizando observa- 5 LIMITAÇÕES E DESAFIOS DO
ção participante, entrevistas formais
e informais. Durante quatro anos, o MÉTODO ETNOGRÁFICO
pesquisador foi um assíduo frequen-
tador do trecho da praia de Ipanema Como em outros métodos, a etnografia
em frente à rua Farme de Amoedo. apresenta limitações. Embora apresente todos
Passou a acompanhar e viver o dia os benefícios citados acima, existe a constante
a dia desse grupo, com o objetivo de preocupação com a direção que essa disciplina
entender melhor os significados sim- da antropologia está tomando. Para pesquisa-
bólicos da cultura no Rio de Janeiro dores antropólogos, a etnografia é um processo
(PEREIRA; AYROSA, 2012, p. 304). indutivo, fruto do esforço do constante ques-
tionamento de seus pressupostos sobre o tema
Do mesmo modo, a utilização do método em questão, cujos dados são produzidos nas
etnográfico em um estudo junto a adolescentes formas de interação que têm com seus partici-
em um shopping-center permitiu que Lengler e pantes e clientes de pesquisa (DENNY, 2013).
Cavedon (2001) concluíssem que, longe de es- Nesse ponto, os antropólogos alegam, com ra-
timular o consumo, o shopping é um meio de zão, a banalização da etnografia tradicional de
materializar um mundo próprio e particular des- Malinowski (1978), mais precisamente a su-
se grupo. Os autores defendem que a etnografia perficialidade da apresentação e da interpreta-
permitiu um diálogo direto e aberto entre pes- ção dos significados culturais que emergem do
quisador e pesquisado e dispensou a necessidade campo em detrimento da descrição densa que
de uma verdade absoluta e formalizada, o que esse método originalmente exige.
garantiu a riqueza dos resultados do estudo. A etnografia é considerada um método
Por meio da observação da rotina de um caro quando comparado aos demais tipos de pes-
bairro de classe baixa de São Paulo, Castro quisa por sua necessidade de permanência em
(2016) percebe que o consumo para aquela po- campo por um longo período de tempo (DEN-
pulação não tem o intuito de imitar a classe mé- NY, 2013; SHERRY, 2013). É importante enten-
dia e alta, mas de reforçar as distinções sociais der que, ao se usar essa metodologia, devem-se
e enaltecer o prazer e o orgulho de pertencer reservar tempo e recursos financeiros para orga-
àquela classe. Do mesmo modo, Fantinel e Fis- nizar e implementar a pesquisa de campo, bem
cher (2012) conduzem estudo de cunho etnográ- como para a realização de análises profundas,
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diferentes daquelas levantadas em metodologias keting guarantees to consumer studies, since the
tradicionais. Essas informações virão por meios assumptions and limitations of this methodology
diferentes e, logicamente, requerem interpreta- are observed and fulfilled.
ções diferentes. Informações sobre hábitos, prá-
ticas cotidianas e crenças do grupo se mostrarão Keywords: Ethnography. Marketing. Consump-
para o pesquisador por meio de interações cons- tion. Consumer Studies. Research Methodology.
cientes e inconscientes dos indivíduos, podendo
surgir, até mesmo, em meio ao simples silêncio ETNOGRAFÍA EN MARKETING:
ou renúncia da ação. Cabe ao pesquisador inter- UNA VISIÓN ANTROPOLÓGICA EN
pretar esses acontecimentos dentro de um con- LOS ESTUDIOS DEL CONSUMO
texto cultural, social e temporal.
Futuros estudos podem ser conduzidos RESUMEN
no sentido de compreender as contribuições do
uso do marketing etnográfico combinado com Con la emergencia de la perspectiva teórica
outros métodos para o enriquecimento dos es- de la Teoría de la Cultura del Consumidor y el
tudos de marketing, em particular, de consumo. consecuente reconocimiento de la cultura como
Similarmente, recomenda-se a condução de elemento central en los estudios de marketing,
pesquisas visando discutir o uso da etnografia, el marketing etnográfico fue acepto como me-
suas particularidades, operacionalização, van- todología viable para el estudio del consumidor
tagens e limitações como metodologia para es- bajo una visión interpretativa. Se, por un lado,
tudos de outras áreas da Administração, como la etnografía convencional no más es capaz de
estudos organizacionais e de gestão estratégica. estudiar la rápida circulación de significados,
objetos e identidades culturales, por otro, per-
ETHNOGRAPHY IN MARKETING: manece la preocupación con la dirección que
AN ANTHROPOLOGICAL VIEW IN esa disciplina de la antropología está tomando
THE CONSUMER STUDIES cuando usada bajo el rótulo de marketing etno-
gráfico. Este ensayo tiene por objetivo discutir
ABSTRACT el advenimiento del marketing etnográfico, sus
particularidades, operación, ventajas y limita-
With the emergence of the theoretical perspec- ciones en los estudios de consumo. La revisión
tive of Consumer Culture Theory and the conse- bibliográfica permitió vislumbrar las inúmeras
quent recognition of culture as a central element contribuciones que el marketing etnográfico
in studies of marketing, ethnographic market- asegura a los estudios de consumo, desde que
ing is accepted as a viable methodology for the las premisas y limitaciones de esta metodología
study of the consumer within an interpretative sean observadas y cumplidas.
bias. If, on the one hand, conventional ethnogra-
phy no longer accounts for the rapid circulation Palabras-clave: Etnografía. Marketing. Con-
of meanings, objects and cultural identities, on sumo. Estudios de Consumo. Metodología de
the other hand, remain the concern with the di-
rection this discipline of anthropology is taking REFERÊNCIAS
when used under the label of ethnographic mar-
keting. The objective of this theoretical essay is ARNOULD, E. J.; THOMPSON, C. J. Consu-
to discuss the advent of ethnographic marketing, mer Culture Theory (CCT): Twenty Years of
its particularities, operationalization, advantages Research. Journal of Consumer Research, v.
and limitations in consumer studies. Our bib- 31, n. 4, p. 868-882, 2005.
liographic review allows understanding the in-
numerable contributions that ethnographic mar- BAHARI, S. F. Qualitative Versus Quantitative
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212 ENSAIOS | Resiliência em sistemas de varejo urbano
doi:10.12662/2359-618xregea.v7i2.p212-226.2018
ENSAIOS
RESUMO
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ENSAIOS | Felipe Gerhard Paula Sousa, Verónica Peñaloza, Caio Victor de Paula Sousa, Brenno Buarque de Lima 213
nas ciências naturais, vem sofrendo adaptações sociais aplicadas. Os estudos nacionais se con-
teóricas para abranger um escopo de pesquisa centram fortemente na área de recursos huma-
cada vez maior. Embora tenha ganhado maio- nos, tendo como objeto de análise os indivíduos
res proporções especialmente nas ciências mé- nas organizações; passando ao largo de questões
dicas e comportamentais (SMITH et al., 2008), relacionadas à perspectiva urbana e social.
o conceito pôde transitar nas mais distintas ci- Destarte, com base nas acepções su-
ências, auxiliando sobremaneira as disciplinas pracitadas, este trabalho tem como objetivo
e instituições a enfrentarem os problemas teóri- investigar as principais propriedades e carac-
cos e práticos que lhes são próprios. terísticas relacionadas à resiliência em siste-
Não obstante seja uma qualidade impor- mas de varejo urbano. Para tal, primeiramente
tante que faculta a indivíduos e sistemas pro- será erigida uma definição de resiliência vol-
teção contra a adversidade, não há consenso tada especificamente para tais ambientes; por
quanto às definições operacionais existentes, conseguinte, serão analisadas as principais
uma vez que a literatura concernente ao tema propriedades relacionadas à resiliência em
ainda permanece incerta em relação ao aces- sistemas econômicos e, mais especificamen-
so da resiliência em diferentes contextos his- te, em sistemas de varejo urbano; e, por fim,
tóricos, sociais e culturais (HERRMAN et al., realiza-se uma análise crítica concernente aos
2011; BUENO, 2012; LEE et al., 2013). processos de desenvolvimento dos sistemas
No que concerne aos sistemas de varejo econômicos e sistemas de varejo urbano.
urbano, i.e., aglomerados de negócios interde- Este artigo está divido em quatro se-
pendentes que compartilham o mesmo espa- ções além desta introdução. Incialmente,
ço físico, infraestrutura e imagem (MEDD; será apresentada uma breve síntese das ori-
MARVIN, 2005; SOUMAGNE et al., 2009; gens e evolução do conceito de resiliência,
KÄRRHOLM; NYLUND; DE LA FUENTE, desde a sua concepção à apropriação cientí-
2014; ERKIP; KIZILGÜN; AKINCI, 2014), fica do termo por diversas disciplinas. Por
ainda não há consenso quanto à definição ideal conseguinte, serão analisadas as definições
de resiliência para análises empíricas (HERR- de resiliência existentes em várias áreas do
MAN et al., 2011; BUENO, 2012). Contudo, conhecimento, bem como elementos e ca-
um movimento judicioso a tais sistemas é o de racterísticas essenciais relacionados ao con-
autoanálise contínua, cuja função principal é a ceito em sistemas econômicos e sistemas de
ciência das vulnerabilidades e fortalezas que varejo urbano. Por fim, apresentam-se as
permitem a sua sobrevivência (HOLLING, considerações finais do estudo, destacando-
2001; BHAMRA; DANI; BURNARD, 2011; -se as maiores limitações do trabalho e as
FRANCIS; BEKERA, 2014). O exame dos sugestões para pesquisas futuras.
principais pontos fracos e fortes de um sistema
de varejo urbano, dessa forma, coadjuvaria na 2 ORIGENS DO CONCEITO DE RE-
construção da ideia de resiliência. SILIÊNCIA
Pode-se constatar a importância que o
conceito vem adquirindo no cenário internacio- A etimologia do conceito de resiliência
nal ao se observar a mudança do título do con- advém do latim resilientia, que por sua vez
gresso anual da Association of European Plan- advém do verbo resilire, o qual possui o sig-
ning Schools, passando a se chamar Planning for nificado estrito de saltar para trás; re (prefixo
Resilient Cities and Regions em 2013, devido à que indica retrocesso) e salire (pular, saltar)
relevância que o tema alcançou ao longo dos úl- (BRANDÃO; MAHFOUD; GIANORDOLI-
timos anos (STUMPP, 2013). No entanto, ainda -NASCIMENTO, 2011). A palavra resilientia,
é pequena a contribuição dos trabalhos nacionais dessa forma, apropriando-se do sentido oriun-
voltados para o exame da resiliência nas ciências do do verbo, significaria voltar ao normal (SA-
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214 ENSAIOS | Resiliência em sistemas de varejo urbano
BBAG et al., 2010). Somente a partir do século ganha amplitude e passa a se referir à capacida-
XVIII, contudo, o conceito passou a ser utiliza- de de indivíduos de se recuperar ou resistir a es-
do com maior ímpeto, devido, principalmente, tresses ou situações adversas (YUNES, 2003).
aos avanços da ciência. Resilienza, denomina- As adversidades, nas áreas de estudo compor-
ção italiana, designava a capacidade de um ma- tamentais, são representadas pelas nuances ou
terial em resistir a choques sem romper-se. riscos externos ao indivíduo. Dessa forma, em
As ciências naturais foram as responsá- consonância com as definições apresentadas até
veis pela popularização do termo resiliência, então pelas Ciências Naturais, os indivíduos re-
uma vez que a sua definição inicial se asso- sistem, protegem-se e superam a influência de
ciava, principalmente, a resistência de objetos fatores externos. Contudo, é importante que se
(YUNES, 2003). Atribuindo a propriedade de ressalte que a ideia de resiliência na disciplina
resiliente a uma amplitude maior de materiais, passa a ser concebida de forma dinâmica, ou
como, por exemplo, a corpos elásticos, resiliên- seja, o indivíduo não retroage a um estágio an-
cia passou a significar a capacidade de um cor- terior de equilíbrio, mas avança para o alcance,
po físico retornar a seu estado normal de equilí- através da experiência e da aprendizagem, de
brio após tensões ou estresses (YUNES, 2003; níveis superiores de harmonia (SMITH et al.,
SABBAG et al., 2010). Tal definição passou a 2008). Dessa forma, ainda que as vicissitudes
ser utilizada posteriormente também pela En- dos agentes presentes no ambiente externo se
genharia (SABBAG et al., 2010). lhe apresentem como ameaça, há uma conflu-
Um dos primeiros cientistas a utilizar ência entre indivíduo e ambiente para que se
sistematicamente o termo resiliência foi Tho- possam atingir patamares mais elevados de
mas Young, no século XIX (TIMOSHENKO, equilíbrio (LEE et al., 2013).
1983; YUNES, 2003). Young realizou diversos Nas Ciências Sociais Aplicadas, o
experimentos para testar a resistência de barras termo resiliência passou a se reportar não
ao serem submetidas a altas tensões. O cientista somente a indivíduos, mas a grupos, orga-
também foi um dos precursores no estudo dos nizações e sistemas econômicos. Contudo,
estresses suportados por corpos físicos, oriun- independente do objeto de análise, a resili-
dos de impactos planejados. Young chegou a ência está associada à ideia de se suportar
elaborar métodos para o cálculo desses impac- pressões, crises e adversidades (YUNES,
tos e a resistência obtida pelos materiais estu- 2003). Embora nos últimos anos as ciências
dados (TIMOSHENKO, 1983). econômicas tenham se apropriado grande-
Cumpre salientar que, embora os concei- mente do conceito para embasar análises de
tos de resiliência, vinculados ao estudo das pro- mercados, setores e sistemas econômicos
priedades de resistência de corpos físicos, pos- (HERRMAN et al., 2011; STUMPP, 2013),
suam características semelhantes nas ciências foi especialmente nas ciências médicas e
naturais, tais definições destoam entre si. En- comportamentais que a resiliência ganhou
tendida originalmente como uma propriedade maiores proporções (SMITH et al., 2008).
de retornar ao estado normal inicial, a resiliên- Nos últimos anos, a resiliência também
cia também é entendida como a capacidade de passou a ser estudada no âmbito organizacio-
um material absorver energia, oriunda de uma nal, como um fenômeno que fortalece a empre-
externalidade, sem sofrer deformações signifi- sa em meio às tribulações do ambiente externo,
cativas (YUNES, 2003; SABBAG et al., 2010). tais como crises, mudanças na conjuntura eco-
Das ciências naturais, o conceito de re- nômica e no contexto legislativo, alterações no
siliência foi adaptado para diversas disciplinas, cenário social etc. (HAMEL; VALIKANGAS,
como a Psicologia, as Ciências Médicas e as 2003; POWLEY, 2009). Um dos segmentos
Ciências Sociais Aplicadas (YUNES, 2003; que mais concentram estudos sobre resiliência
SMITH et al., 2008). Na Psicologia, o termo na área organizacional é o de recursos huma-
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nos, com pesquisas que analisam o impacto e a 3.1 QUADRO CONCEITUAL DE RESI-
influência do conceito no ambiente de trabalho LIÊNCIA
(HAMEL; VALIKANGAS, 2003).
Em consonância com as pesquisas inter- Lee et al. (2013), mediante uma análise da
nacionais, os estudos nacionais em resiliência literatura referente ao tema, salientam a existên-
também se concentram na área de recursos hu- cia de dois pontos de vista pelos quais se pode
manos e, em geral, salientam a relevância do definir resiliência. O primeiro concebe o concei-
conceito para a experiência de socialização to como um traço fixo e estável, referindo-se à
em organizações (CARVALHO et al., 2011; capacidade de administrar e adaptar-se a fontes
SCHERER; MINELLO, 2017). Os artigos res- significantes de estresse e descontinuidade. Os
saltam a importância do suporte psicológico autores aduzem como limitações dessa perspec-
aos colaboradores, facultado pela resiliência tiva à ausência de explanações mais consisten-
individual, para a defesa de ações negativas, tes quanto às interações do elemento com o seu
bem como mudanças e eventos estressantes nas ambiente, como a família, a comunidade ou o
organizações (CANGUSSU; SACHUK, 2014; sistema social. Na segunda abordagem, a resi-
BACCHI; PINHEIRO, 2011). liência é vista como um processo permanente,
dinâmico e mutável. Configura-se como uma
3 RESILIÊNCIA APLICADA A SISTE- abordagem mais completa, porquanto salienta a
MAS DE VAREJO URBANO dependência do elemento às interações com os
vários fatores que a rodeiam. Simmie e Martin
A seguir, apresenta-se um breve compên- (2010) corroboram essa perspectiva ao salienta-
dio de estudos relacionados à resiliência, com rem que a resiliência, na economia e nas ciências
obras publicadas em diversos campos do conhe- sociais, rejeita abordagens em que um sistema
cimento. Inicialmente, abordar-se-ão as defini- retoma um equilíbrio inicial, argumentando que
ções de resiliência existentes em diferentes dis- ambientes e sistemas estão em perpétua mudan-
ciplinas com o intuito de se erigir um conceito ça. Para os autores, não há estabilidade estática
específico a sistemas de varejo urbano; logo em para qualquer elemento, mas um processo dinâ-
seguida, analisar-se-ão as propriedades e as ca- mico de equilíbrio.
racterísticas tanto de sistemas econômicos quan- Com efeito, destaca-se no Quadro 1, a
to de sistemas de varejo urbano, analisando-se seguir, um recorte de conceitos de resiliência
criticamente suas diferenças teóricas. entre a grande pluralidade de definições exis-
tentes na literatura, em ordem das ciências que
primeiramente a abordaram.
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Na situação (a), não há variação dos coe- as acepções levantadas, o equilíbrio dinâmico
ficientes angular e linear, levando o sistema a per- não adviria do simples crescimento pecuniário
manecer no mesmo patamar registrado antes do ou do acréscimo de eficiência de qualquer ou-
choque. Por outro lado, uma vez apresentada uma tro parâmetro em análise, uma vez que a reta
variação negativa do coeficiente linear, demonstrada de desenvolvimento do sistema de varejo pode
pela situação (c), observa-se que a reta é deslocada permanecer constante.
para baixo, levando o sistema a permanecer em equi- Desse modo, um sistema de varejo pode
líbrio, porém a valores menores. Por fim, a situação apresentar volume de venda ou receita total
(b) demonstra uma variação positiva no coeficiente constante ao longo de vários períodos. No en-
linear, ocasionando o deslocamento vertical da reta tanto, há sempre fatores implícitos sendo incre-
a um nível superior ao registrado no período inicial. mentados durante esses longos períodos, como
É importante se ressaltar que, embora a aprendizagem, potencial inovativo, coesão
seja possível ter como parâmetro indicadores entre os agentes, competitividade, entre outros
de ordem puramente econômica, tais como taxa (SIMMIE; MARTIN, 2010; MARTIN, 2012).
de crescimento, infraestrutura, índice de em- Com base nas acepções teóricas emersas
prego, acesso a financiamento, entre outros, há ao longo do estudo, é possível sintetizar um mo-
fatores não diretamente vinculados a aspectos delo de desenvolvimento dos sistemas de varejo
financeiros que favorecem o processo de resili- urbano; apresentado no Figura 1, a seguir.
ência do sistema. Dessa forma, de acordo com
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222 ENSAIOS | Resiliência em sistemas de varejo urbano
A resiliência é a engrenagem central que -se, contudo, que há uma peculiaridade nos sis-
faz girar todo o processo de desenvolvimento temas urbanos que os diferenciam dos sistemas
do sistema de varejo urbano. Como evidencia econômicos: a possibilidade de falir. Manter-se
a Figura 1, quatro conceitos basilares, resul- estável, dessa forma, faz parte do seu processo
tantes da confluência de fatores tanto internos de resiliência. São comenos importantes para o
quanto externos, competem para a formação da acúmulo de potencial competitivo, uma vez que
resiliência; quais sejam: equilíbrio dinâmico, a estabilidade pressupõe uma manutenção dinâ-
vulnerabilidade/risco, adversidade/mudança e mica de seus elementos e propriedades.
reorganização/adaptação. O equilíbrio estático, por outro lado, tra-
Do mesmo modo, como revela o mode- duz-se na morte do sistema; porquanto signifi-
lo, a disposição de tais fatores no processo de que a extinção do processo cíclico de retenção
evolução cíclica do sistema acarreta o surgi- de recursos competitivos, destruição criativa,
mento de quatro fases de desenvolvimento. A reorganização estrutural e crescimento. Resi-
fase de estabilidade, decorrente do alcance do liência, dessa forma, seria a capacidade de se
equilíbrio dinâmico e sustentável, representa o manter ou atingir um equilíbrio dinâmico em
começo no qual o sistema acumula recursos e harmonia com a reorganização advinda da
potencial competitivo para o enfrentamento de adaptação às adversidades enfrentadas.
suas vulnerabilidades e riscos externos. Este es- É importante se acentuar que a presença de
tágio precede a fase de histerese ou destruição fatores emergentes, que aparentemente influen-
criativa, na qual o sistema desconstrói elemen- ciariam negativamente o ambiente econômico do
tos estruturais obsoletos e limitantes, a fim de sistema, são, em certa medida, imprescindíveis
superar as adversidades advindas do ambiente. para a cristalização de sua resiliência. Destarte,
Como consequência, o sistema adentra em um o enfrentamento e a superação tanto das vulne-
movimento em direção à reorganização, fase rabilidades presentes no sistema quanto das ad-
na qual passa a se adaptar às alterações provo- versidades provenientes do ambiente externo são
cadas pelas mudanças nos estímulos externos. importantes propulsores da resiliência.
Por fim, inicia-se o período de crescimento, até Como sugestões para pesquisas futuras,
que se atinja novamente o equilíbrio dinâmico. aponta-se a criação de indicadores operacionais
de resiliência; tema que tem recebido pouca
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS atenção da literatura. Tais indicadores teriam
como intuito analisar, por meio de parâmetros
Com o objetivo de investigar as princi- objetivos e sistemáticos, o processo de evolu-
pais propriedades e características relacionadas ção dos sistemas de varejo urbano, sinalizando
à resiliência em sistemas de varejo urbano é as fases de desenvolvimento pela qual o siste-
possível afirmar que este estudo obteve êxito; ma atravessa e quais propriedades e elementos
dado que, além de se erigir uma definição de deve relevar prioritariamente no momento.
resiliência voltada a tais ambientes, foram ana- Do mesmo modo, sugere-se a análise dos
lisadas as principais propriedades relacionadas sistemas de varejo urbano por meio da aborda-
ao conceito em sistemas econômicos. Ademais, gem da Teoria Geral dos Sistemas. A perspec-
foram comparadas criticamente as diferenças tiva possibilita, por meio de uma lente teórica
teóricas existentes entre os processos de desen- adequada ao estudo de tais ambientes, uma visão
volvimento dos sistemas econômicos e siste- holística dos seus elementos constituintes e suas
mas de varejo urbano. interconexões, dos fluxos de troca de materiais
Os sistemas de varejo urbano, assim como entre o sistema e o meio, além de permitir a aná-
os demais sistemas econômicos, apresentam lise do seu processo de desenvolvimento.
processos de resiliência que os impelem a pata-
mares cada vez maiores de equilíbrio. Ressalta-
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ENSAIOS | Felipe Gerhard Paula Sousa, Verónica Peñaloza, Caio Victor de Paula Sousa, Brenno Buarque de Lima 223
Este ensayo tiene por objetivo general inves- BHAMRA, R.; DANI, S.; BURNARD, K. Resil-
tigar las principales propiedades y caracterís- ience: the concept, a literature review and future
ticas relacionadas a la resiliencia en sistemas directions. International Journal of Production
del sector minorista urbano. Para tal, por in- Research, v. 49, n. 18, p. 5375-5393, 2011.
termedio del análisis de aspectos teóricos re-
lativos a la resiliencia en estudios de diversas BRANDÃO, J. M.; MAHFOUD, M.; GIA-
asignaturas, se busca construir un concepto de NORDOLI-NASCIMENTO, I. F. A constru-
resiliencia específico de sistemas del sector ção do conceito de resiliência em psicologia:
minorista urbano y analizar críticamente las discutindo as origens. Paidéia, v. 21, n. 49, p.
distinciones teóricas existentes entre los proce- 263-271, 2011.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 212-226, jul./dez. 2018
224 ENSAIOS | Resiliência em sistemas de varejo urbano
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ENSAIOS | Felipe Gerhard Paula Sousa, Verónica Peñaloza, Caio Victor de Paula Sousa, Brenno Buarque de Lima 225
planning: addressing the interdependence of saster response: risk, vulnerability and resil-
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Nominata de Avaliadores Ad Hoc 2018 | Nominata peer review panel in 2018 | Lista de Evaluadores Ad Hoc 2018 227
NOMINATA
The excellence in promotion and publication research guided by principles and practices of
contemporary management make part of the strategic pillars of the Journal of Management Analy-
sis, ReGeA. Therefore, we implemented the evaluation system by peers, using the Double Blind Re-
view method, in which a peer review panel decisively contributes to the improvement of the quality
of the Journal.
In this collaborative perspective, we would like to thank the teachers and researchers who
have contributed, on a voluntary basis, with their knowledge and experience, to the evaluation of
the articles submitted for publication.
Adail José de Sousa, UFMT, MT, Brasil. João Rodrigo Rocha Perestrelo – UCB, RJ, Brasil
Alessandra Daiana Schinaider, UFRGS, Brasil. Joelma Soares da Silva, UFC, CE, Brasil.
Alexandre M. da Silva – CS, SP, Brasil. José Lima Crisóstomo – UNICHRISTUS, CE, Brasil
Ana Cristina Batista dos Santos, UECE, CE, Brasil. José Guilherme L. Dantas, IPLEIRIA, Madri, Espanha.
Ana Flávia Moraes, UFAM, AM, Brasil. José de Sousa Martins - UC, Coimbra, Portugal
Ana Paula Holanda Lima Ávila, UNIFOR, CE, Brasil. Jorge Remondes – ISVOUGA, Portugal
Ana MargaridaAlexandre Pedro, UC, Coimbra, Portugal. Juliana Carvalho de Sousa - URFESA, RN, Brasil
André Francisco Alves, FGV/EAESP, SP, Brasil. Larisse Oliveira Costa, UNICHRISTUS, CE, Brasil.
Andrea Moura da Costa Souza – IFCE, CE, Brasil. Leonardo Rodrigues Ferreira, UFRPE/UAST, PE, Brasil.
Antônio Carlos Brunozi Júnior, UFV, MG, Brasil Lise A. Castelo, UNICHRISTUS, CE, Brasil.
Beatriz Elena Plata Martínez, UCES, Argentina. Luciana Freire de Lima Marinho, UECE, CE, Brasil.
Belem Barbosa - UniAveiro, Portugal Luiz Carlos Pereira Santos, IFS, SE, Brasil.
Bruno C. Correia-Lima - UNICHRISTUS, CE, Brasil Luis Eduardo R. Bermudez, UNAD, Bogotá - Colômbia.
Camila Mariane Costa Silva, University of Canter- Marcelo Magno R. Nascimento, FAPRO, Brasília, Brasil.
bury, CANTERBURY, Nova Zelândia. Marcos Macri Olivera, UFCG, PB, Brasil.
Carla Fuganti S. Faversani – PUC, SP, Brasil Maria de Fatima M. Fontenele, ESTÁCIO, CE Brasil.
Carlos André Corrêa de Mattos, UFPA, PA, Brasil. Maria Isabel Palmeiro Marcantonio, USP/FEA, SP, Brasil.
Carlos Augusto Matos de Carvalho, UFRR, RR, Brasil. Maria Rute Leal, PUC, PR, Brasil.
Carlos Dias Chaym - UECE, CE, Brasil Maurílio Arruda de Araújo, UNIFESSPA, PA, Brasil.
Cintia Rodrigues de O. Medeiros – UFU, MG, Brasil Max André Araújo Ferreira, UFRR, RR, Brasil.
Claudemir Gonçalves de Oliveira, UNIESP, SP, Brasil. Natália Queiroz da S. Oliveira - URFESA, RN, Brasil
Cristela Maia Bairrada, ISCA, Portugal. Odilon José Oliveira Neto – UNIFAN, GO, Brasil
Cristiane Silva do Nascimento Pereira, UCB, Brasília. Orlando Gomes da Silva, UFCG, PB, Brasil.
Daniela venceslau Bitencourt, UFS, SE, Brasil. Paola Liziane Silva Braga, PUCRS, RS, Brasil.
Davy A. Antônio da Silva, UFU, MG, Brasil. Paula Cristina M. Fernandes - UFMG, MG, Brasil
Duarte de Souza Rosa Filho – UFES, ES, Brasil Paulo Henrique dos Santos, IFES, ES, Brasil.
Eduardo Cesar P. Souza, UNICSUL,SP, Brasil. Paulo Vitor da Silva Santiago, IFCE, CE, Brasil.
Elói Martins Senhoras - UFRR, RR, Brasil Pedro Jose Papandrea, UNIFEI, RJ, Brasil.
Emiliano Sousa Pontes, UFC, Brasil. Roberto Carlos Dalongaro – UnaM, Argentina
Eugênia Vale de Paula, IFCE, CE, Brasil. Rogerio da Silva Nunes, UFSC, SC, Brasil.
Fabiana Mª M. Sousa - UNICHRISTUS, CE, Brasil Rogiene Batista dos Santos – USP, SP, Brasil
Fábio Vinicius de A. Passos - UFF, RJ, Brasil Salma Said Rezek Mendoza – UFRR, RR, Brasil
Fábio de Oliveira Paula, PUC, RJ, Brasil. Samanda Silva da Rosa, PUCRS, RS, Brasil.
Fábio Ytoshi Shibao, UNINOVE, SP, Brasil. Sandra Cristiane Rigatto, UNIP, SP, Brasil.
Fabrício Ramos Neves - USP, SP, Brasil Sergio Domingos de Oliveira, UFRRJ, RJ, Brasil.
Fernanda Geremias Leal – UDESC, SC, Brasil Silvio Bitencourt da Silva, UNISINOS, RS, Brasil.
Flavia Cristina da Silva, UPM, SP, Brasil. Tatiana Doin, UFES, ES, Brasil.
Flávio Cella, FAUC, MT, Brasil. Teresinha Fonseca - UFRR, RR, Brasil
Flávio Luiz M. Barboza, UFU, MG, Brasil. Thiago Antônio Beuron, UNIPAMPA, RS, Brasil.
Fcª Janete da Silva Adelino – UFPA, PA, Brasil Tiago Zardin Patias - UFSM, RS, Brasil
Fcº Isidro Pereira – UFC, CE, Brasil Thiago Bessa Pontes – UFCA, CE, Brasil
Gustavo Clemente Valadares, UFLA, MG, Brasil. Valdir Antonio Vitorino Filho, IFSP, SP, Brasil.
Helano Diógenes Pinheiro – UESPI, PI, Brasil Valquíria Melo Souza Correia – URFESA, RN, Brasil
Icaro Roberto Azevedo Picolli, UNISUL, SC, Brasil. Virna Távora Rocha – UNICHRISTUS, CE, Brasil
Jaqueline Silva da Rosa – UFRR, RR, Brasil.
Jéssica Cristina Ceni, UFPR, PR, Brasil.
Jesuina Mª Pereira Ferreira – UFMG, MG, Brasil
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Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial 231
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232 Linha Editorial | Editorial Line / Línea Editorial
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Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as 237
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del sitio web, los autores pueden someter su equivalente.
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que el procesamiento de su manuscrito sea más • Formato del papel: A4;
rápido y más seguro, agilizando también el pro- • Editor de texto: Word for Windows 6.0 o
ceso de evaluación. Las investigaciones deben más reciente;
relatar los resultados de estudios en desarrollo • Márgenes: superior e izquierda de 3 cm,
o ya concluidos, de acuerdo con los estilos aba- derecha e inferior de 2 cm;
jo descritos: • Tipo de letra: Times New Roman, de
• ARTÍCULOS – textos destinados a di- talla 12, espacio entre líneas 1,5;
fundir resultados de investigación cientí- • Número de páginas: ARTÍCULO [míni-
fica, investigación tecnológica y estudios mo 12 y máximo 22 páginas]; ENSAYO
teóricos [mínimo 8 y máximo 13páginas]; y
• ENSAYOS – trabajos hechos a partir de CASO [mínimo 8 y máximo 13 páginas].
estudios apurados, críticos y conclusivos
acerca de determinado tema, en que se 4. Características específicas:
destaca la originalidad del pensamiento • El título y el subtítulo (si existir) del tex-
del autor. to deben ser presentados en portugués y
• CASOS DE ENSEÑANZA – relatos de en inglés;
casos reales de empresas con el propósi- • El título y el subtítulo deben expresar de
to de consolidar el método de estudio de manera clara las ideas del trabajo;
casos como herramienta de enseñanza y • El resumen y el abstract deben ser es-
aprendizaje, propiciando estímulo a los critos de acuerdo con la normativa
estudios, a la investigación y al debate en NBR6028 o la norma ISO equivalente,
las áreas mencionadas. en150 palabras o menos. El resumen
debe resaltar el objetivo, el método, los
INSTRUCCIONES A LOS AUTORES resultados y las conclusiones;
• Deben ser apuntadas entre tres y cinco
Los trabajos deben ser enviados a la ofi- palabras-clave, que deben ser traduzidas
cina de la Revista Gestão em Análise – ReGeA, también al inglés y apuntadas como ke-
de acuerdo con las directrices de sumisión de ywords;
este periódico. Es indispensable que los autores • El contenido de los artículos y ensayos
verifiquen que sus sumisiones dan cumplimien- debe presentar, siempre que sea posible:
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238 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as
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240 Instruções aos Autores | Instructions for Authors / Directrices para autores/as
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