Revista Gestão em Análise - Vol. 5, No. 2
Revista Gestão em Análise - Vol. 5, No. 2
Fortaleza
Semestral
ISSN 1984-7297
e-ISSN 2359-618X
CDD 658
Impressão
Gráfica e Editora LCR Ltda.
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Revista Gestão em Análise - ReGeA
Editorial ..................................................................................................................................5-10
Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro:
estudo sobre a percepção dos produtores de leite da Região de Entre Douro e Minho, Portugal
= Fundamental principles and techniques of management in micro and small enterprises of
the dairy sector: study about perception of milk producers in the Region of Entre Douro
and Minho, Portugal = Principios y técnicas fundamentales de gestión en las micro y pequeñas
empresas del sector lechero: estudio sobre la percepción de los productores de leche de la Región
de Entre Douro y Minho, Portugal
Luís Carlos Ribeiro, Jorge Remondes..................................................................................... 11-33
Nominata de Avaliadores Ad Hoc 2016 / Nominata peer review panel in 2016 .............135-136
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p5-10.2016
EDITORIAL
N
o contexto de internacionalização da ciência, temos grande satisfação em iniciar esta edi-
ção com a informação de que todos os trabalhos publicados na Revista Gestão em Aná-
lise [ReGeA], desde seu reposicionamento em 2014, passam a conter o Digital Object
Identifier - DOI. É importante ressaltar que o DOI é parte de um sistema que oferece identificação
unívoca da propriedade intelectual, associando a cada objeto seus dados básicos e sua origem.
Podemos dizer que esse é um padrão para identificação de documentos em redes de computa-
dores, no qual o trabalho recebe um código único que, ao ser publicado, permite identificá-lo e
rastreá-lo a partir de qualquer lugar. Além disso, com o DOI, as cópias digitais dos artigos ficam
sempre acessíveis, independente de qualquer alteração que possa ocorrer no nome de domínio do
periódico e/ou de um eventual encerramento da revista.
Portanto, é sob o bojo dessa conquista que apresentamos mais uma edição da ReGeA, com-
posta por artigos e ensaios que contemplam temas de relevância destacada para gestão contempo-
rânea global. Assim, obedecendo à sequência exposta no sumário, tem-se inicialmente o trabalho
de autoria de pesquisadores portugueses, que versa acerca dos princípios e técnicas fundamentais
de gestão nas empresas do setor leiteiro, nomeadamente na pecuária da região de Entre Douro e
Minho (EDM), em Portugal. O estudo evidencia as percepções dos produtores de leite da região,
a partir de uma amostra com 105 respondentes, gerando conhecimento e estimulando a reflexão
em torno do setor, não só em termos acadêmicos, como também na perspectiva empresarial. Os
autores sugerem que, entre outras ações, as empresas produtoras de leite utilizem novas tecnolo-
gias, considerem dados contabilísticos, cooperem entre si e inovem.
O artigo seguinte tem por objetivo mensurar o nível de responsabilidade social do con-
sumidor de produtos orgânicos, em relação à percepção de seu comportamento. A pesquisa
utiliza-se de uma amostra com 92 indivíduos autodeclarados consumidores de produtos or-
gânicos, mediante análise de quatro dimensões de comportamento: altruísta, ambientalmente
sustentável, ativista e ético.
O terceiro artigo trata da economia solidária, evidenciando o seu fortalecimento e desta-
cando-a como uma possibilidade viável, sensata e emancipadora. Nesta perspectiva, o estudo tem
como objetivo analisar a Associação de Mulheres Louceiras do Maruanum (ALOMA), localizada
no extremo norte da Amazônia Brasileira, de forma a evidenciar os principais avanços e fragilida-
des na política de fomento à economia solidária, assim como os principais progressos e entraves
enfrentados pela Associação.
No quarto artigo, as pesquisadoras buscam analisar como as empresas podem promover
a responsabilidade social para os colaboradores e propõem a reflexão acerca da relação gestão
de pessoas e responsabilidade social interna, por meio de uma pesquisa qualitativa em uma
empresa do ramo da construção civil. As práticas de responsabilidade social interna foram
apresentadas por integrantes de três níveis hierárquicos da empresa e analisadas por um grupo
de colaboradores operacionais.
O tema gerenciamento de projetos está contemplado no quinto artigo. O trabalho expõe um
estudo de caso para analisar o nível atual de maturidade no gerenciamento de projetos em uma
empresa de publicidade localizada na cidade de Juazeiro do Norte, Ceará.
E, para encerrar a seção de artigos, a ReGeA traz à pauta a temática do valor do letramento
na gênese do contador, a partir de uma visão da aprendizagem em um curso de Ciências Contábeis
do ensino superior. Cabe salientar a importância deste trabalho no sentido de consolidar o escopo
do periódico no que tange às Ciências Contábeis. Do mesmo modo, contamos, na seção de ensaio,
com um estudo que tem por objetivo analisar o papel do contador na “Prestação de Contas dos
EDITORIAL
I
n the context of science internationalization, we are very pleased to begin this edition infor-
ming you that all papers published in the Journal Management in Analysis [ReGeA], since its
repositioning in 2014, now contain the Digital Object Identifier (DOI). It’s important to em-
phasize that the DOI is part of a system that offers univocal identification of intellectual property,
associating each object with its basic data and its origin. We emphasize that this is a standard for
identifying documents in computer networks, in which each paper receives a unique code that,
when published, allows you to identify it and track it down from anywhere. In addition, with the
DOI, digital copies of articles will always be accessible, regardless of any changes that may occur
in the journal’s domain name and/or eventual closure of the journal.
Therefore, it is under the banner of this achievement that we present another edition of
ReGea, composed of articles and essays contemplating themes of outstanding relevance for con-
temporary global management. Thus, following the sequence outlined in the summary, we have
an article written by Portuguese researchers about the fundamental principles and techniques of
management in dairy companies, namely in the livestock in the region of “Entre Douro” and “Mi-
nho” (EDM), in Portugal. The study evidences the perceptions of milk producers in the region,
from a sample of 105 respondents, stimulating to reflect about this sector and generating knowle-
dge, not only in academic terms, but also in a business perspective. The authors suggest, among
other actions, dairy companies to use new technologies, to consider accounting data, to cooperate
with each other and to innovate.
The following article aims to measure the level of social responsibility of the consumer
of organic products in relation to the perception of their behavior. The research uses a sample of
92 individuals who declared themselves to be consumers of organic products, analyzing four di-
mensions of their behavior: the altruistic behavior, the environmentally sustainable behavior, the
activist behavior and the ethical behavior.
The third article deals with the solidarity economy, evidencing its growing importance and
highlighting it as a viable, sensible and emancipatory possibility. In this perspective, the study
aims to analyze the Maruanum Louran Women Association (ALOMA), located in the extreme
north of the Brazilian Amazon, in order to present the progress and the fragilities in the policy of
fostering solidarity economy, as well as the main advances and obstacles faced by the association.
In the fourth article, the researchers seek to analyze how companies can promote social
responsibility in relation with their employees and propose a reflection on the relationship
between people management and internal social responsibility, through a qualitative research
in the construction company sector. The practices of internal social responsibility were pre-
sented by members of three hierarchical levels of the company and analyzed by a group of
operational employees.
The topic of project management is addressed in the fifth article of this edition. The paper
exposes a case study to analyze the current maturity level of project management in an adverti-
sing company located in the city of Juazeiro do Norte, Ceará.
In order to close the article section, ReGeA brings to the agenda the theme of the value of
literacy in the genesis of accountants, treating about the vision of the learning process of a higher
education course in Accounting Sciences. It’s important to point out the importance of this article
in the sense of consolidating the journal’s scope in regard to Accounting Sciences. Likewise, in
the essay section is presented a study that aims to analyze the role of the accountant in the “Pro-
vision of Accounts of Political Parties and Candidates”.
Finally, we present in this edition the essay entitled “Protecting the industrial property of
trademarks in the vision of the Superior Court of Justice”. The paper addresses a topic in business
practice that is very common, from the legal point of view, since the creation of trademarks and
symbols of goods or products similar to those consecrated and consolidated in the market is re-
prehensible, which may confuse the consumers at the time that they decide to purchase a product.
In addition, we hope that this edition will consistently contribute to scientific research and
management based on the analysis of the studies presented.
EDITORIAL
E
n el contexto de la internacionalización de la ciencia, tenemos grande satisfacción en ini-
ciar esta edición con la información de que todos los trabajos publicados en la Revista
Gestão em Análise [ReGeA], desde su reposicionamiento en 2014, pasan a contener el Di-
gital Object Identifier – DOI. Es importante resaltar que el DOI es parte de un sistema que ofrece
identificación unívoca de la propiedad intelectual, asociando a cada objeto sus datos básicos y su
origen. Podemos decir que ese es un padrón para identificación de documentos en redes de com-
putadores, en que cada trabajo recibe un código único que, al ser publicado, permite identificarlo
y rastrearlo a partir de cualquier lugar. Además, con el DOI, las copias digitales de los artículos
quedan siempre accesibles, independiente de cualquier alteración que pueda ocurrir en el nombre
del dominio del periódico y/o de un eventual cierre de la revista.
Por tanto, es bajo el ánimo de esa conquista que presentamos una nueva edición de la
ReGeA, compuesta por artículos y ensayos que contemplan temas de relevancia destacada para
la gestión contemporánea global. Así, obedeciendo a la secuencia listada en el sumario, se tiene
inicialmente el trabajo de autoría de investigadores portugueses, que examina los principios y téc-
nicas fundamentales de gestión de empresas en el sector lechero, especialmente en la pecuaria de
la región de Entre Douro e Minho (EDM), en Portugal. El estudio evidencia las percepciones de
los productores de leche de la región, a partir de una amuestra con 105 contestadores, generando
conocimiento y estimulando la reflexión acerca del sector, no solamente en términos académicos,
como también en la perspectiva empresarial, ya que los autores sugieren, entre otras acciones, que
las empresas productoras de leche utilicen nuevas tecnologías, que consideren datos contables,
que cooperen entre si y que innoven.
El artículo siguiente tiene por objetivo mensurar el nivel de responsabilidad social del
consumidor de productos orgánicos, en relación a la percepción de su comportamiento. La inves-
tigación se realizó por medio de una amuestra de 92 individuos que se auto declararon consumi-
dores de productos orgánicos, por medio del análisis de cuatro dimensiones de comportamiento:
altruista, ambientalmente sustentable, activista y ético.
El tercero artículo trata de la economía solidaria, indicando que ella se fortalece y se afirma
como una posibilidad viable, sensata y emancipadora. En esa perspectiva, el estudio tiene como
objetivo analizar la Asociación de Mujeres Loceras del Maruanum (ALOMA), ubicada en el
extremo norte de la Amazonia brasileña, para evidenciar los principales avanzos y fragilidades
en la política de fomento a la economía solidaria, así como los principales proyectos y trabas
enfrentadas por la asociación.
En el cuarto artículo, las investigadoras buscan analizar como las empresas pueden promo-
ver la responsabilidad social para los colaboradores y proponen una reflexión acerca de la relación
entre la gestión de personas y la responsabilidad social interna, por medio de una investigación
cualitativa en una empresa de construcción civil. Las prácticas de responsabilidad social interna
fueron presentadas por integrantes de tres niveles jerárquicos de la empresa y analizadas por un
grupo de colaboradores operacionales.
El tema de la gerencia de proyectos está contemplado en el quinto artículo de la edición.
El trabajo expone un estudio de caso para analizar el nivel actual de madurez en la gerencia de
proyectos en una empresa de publicidad ubicada en la ciudad de Juazeiro do Norte, Ceará.
Y, para terminar la sección de artículos, la ReGeA aborda el tema del valor de la alfabeti-
zación en la génesis del contador, a partir de una visión del aprendizaje en el curso de Ciencias
Contables en la enseñanza superior. Se resalta la importancia de este trabajo en el sentido de con-
solidar el objetivo del periódico relativo a las ciencias contables. En ese mismo sentido, tenemos
en la sección de ensayos, el estudio que tiene por objetivo analizar el papel del contador en la
“Prestación de Cuentas de los Partidos Políticos y de los Candidatos”.
Finalmente, en el cierre de esa edición, presentamos el ensayo “La protección a la propie-
dad intelectual de las marcas en la visión del Superior Tribunal de Justicia”. El trabajo aborda un
tema que, en la práctica empresarial, es más común que se pueda imaginar, ya que, bajo el punto
de vista jurídico, es reprobable la creación de marcas y símbolos de bienes o productos similares
a aquellos consagrados y consolidados en el mercado, lo que posibilita confusión al consumidor
cuando de su decisión de compra.
Además, esperamos que esa edición venga a contribuir, de forma consistente, con la inves-
tigación científica y con la gestión y análisis de los estudios aquí presentados.
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p11-33.2016
ARTIGOS
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 11-33, jul./dez. 2016
12 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 11-33, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Luís Carlos Ribeiro | Jorge Remondes 13
Definição Autor
Pecuária é a arte e indústria do tratamento e criação do gado. Ferreira (1995)
São animais geralmente criados no campo, para serviços de lavoura,
Marion (2001)
para consumo doméstico ou para fins industriais e comerciais.
É a arte de criar e tratar o gado. Marion e Santos (2002)
Quadro 1 - Conceito de pecuária
Fonte: elaborado a partir de Ferreira (1995), Marion (2001), Marion e Santos (2002).
Pode concluir-se que pecuária é a ativi- o trabalho estão intimamente ligados à família.
dade ou indústria de criação e tratamento de Já Cordovil (1993), citando Carvalho (1984),
gado com o intuito de receber um valor econó- considera que a mesma tipologia de exploração
mico e físico. é caracterizada por uma simbiose da explora-
Na região EDM verifica-se uma pecuária ção e da família, pelo trabalho de natureza fa-
intensiva, ou seja, os animais vivem num espaço miliar e a produção parcialmente mercantil.
vedado com paredes e telhado, contrariamente Verifica-se que, independentemente dos fatores
à pecuária extensiva onde os animais vivem considerados, o fator mão de obra familiar está
soltos nos prados durante o seu ciclo de vida, englobado na definição de empresa agrícola fa-
sendo a sua alimentação baseada em culturas miliar (GALLO et al., 1995). Essa mão de obra
forrageiras. familiar não se refere só à execução do trabalho,
Para uma melhor compreensão da empre- mas também à gestão da empresa. Nesse caso, a
sa agrícola, Avillez et al. (2006) define-a como gestão é assegurada por um membro da família
uma unidade técnico-econômica que utiliza fa- e majoritariamente pelo produtor, ou seja, como
tores de produção comuns, tais como mão de refere Gasson (1988), a pessoa legalmente res-
obra, máquinas, instalações, terrenos, entre ou- ponsável por todo o aspeto financeiro e riscos
tros, e que deve atender a quatro condições: econômicos da sua exploração.
a) produzir um ou mais produtos; No Decreto-Lei nº 158/91, de 26 de abril
b) atingir ou ultrapassar certa dimensão (PORTUGAL, 1991, on-line), artigo três, alí-
mínima (área ou número de animais); nea d), define-se exploração ou empresa agrí-
c) estar sujeita a uma gestão única e; cola familiar como “empresa agrícola constitu-
d) estar localizada em um local bem de- ída por uma pessoa singular que, com base no
terminado e identificável. seu agregado doméstico, coordena fatores de
À semelhança de outras atividades produção para exercer, por conta própria, a ex-
ligadas à agropecuária, a atividade leiteira, con- ploração de um estabelecimento agrícola.”
tinua a ser o ramo de atividade escolhido pelos Gallo et al. (1995) consideram que uma
agricultores. empresa é de tipo familiar quando existe um
Há várias tipologias de empresas agrícolas. elo entre a empresa e a família, ligação pela
A classificação que consta do recenseamento qual parte da cultura de ambas, formada pelos
agrícola do INE (INSTITUTO NACIONAL DE pressupostos básicos de atuação e pelos valo-
ESTATÍSTICA, 2011) contempla empresas agrí- res, é permanente e voluntariamente partilhada.
colas distintas em função da natureza dos seus ob- É por esta ordem de ideias de vários
jetivos, a natureza jurídica, a forma de exploração autores, da legislação existente e de instituições
e sua orientação técnico-econômica. públicas, que se pode concluir que, do ponto
Na perspetiva dos objetivos empresariais, de vista dos objetivos, as explorações de tipo
consideram-se duas tipologias: as explorações familiar têm como objetivo principal a manu-
agrícolas de tipo familiar e as explorações agrí- tenção e melhoria das condições de vida do
colas de tipo empresarial. Lamarche (1991) de- agregado familiar. As explorações de tipo em-
fine a exploração agrícola familiar como uma presarial têm como objetivo assegurar uma ma-
unidade de produção em que a propriedade e ximização dos resultados líquidos da empresa,
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14 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
devendo seus resultados econômicos estar re- mos econômicos (com base nas Margens Bru-
lacionados, no essencial, com a remuneração tas Padrão - MBP).
quer dos capitais próprios investidos, quer da A caraterização das estruturas agrárias,
capacidade empresarial demonstrada. do ponto de vista da respectiva dimensão, ba-
Segundo o INE (INSTITUTO NACIO- seia-se na dimensão média das explorações
NAL DE ESTATÍSTICA, 2011, on-line), do agrícolas (SAU ou unidades de dimensão eco-
ponto de vista da sua natureza jurídica, as ex- nômica (UDE) por exploração) e nas classes de
plorações agrícolas podem ser classificadas em: dimensão (SAU ou UDE).
a) explorações de produtores singulares; A margem bruta padrão (MBP) de cada
b) sociedades; produção da exploração obtém-se pela diferen-
c) baldios; ça entre os respetivos valores da produção e os
d) empresas públicas; custos específicos. Por outro lado, a dimensão
e) outras entidades, como cooperativas, econômica (DE) de cada exploração é dada
associações, fundações, Instituições pela soma das MBP das respetivas produções,
Particulares de Solidariedade Social sendo expressa em UDE, cujo valor unitário é
(IPSS), conventos e mosteiros. de 1200 Euros (1 UDE = 1200 €).
As explorações agrícolas que se dedi- De acordo com o INE (INSTITUTO NA-
cam ao setor bovino leiteiro nos conselhos CIONAL DE ESTATÍSTICA, 2011), as classes
de Barcelos1, Póvoa de Varzim, Vila Nova de de SAU usualmente consideradas são: (1) 0 a
Famalicão, Vila do Conde e Viana do Castelo 1ha, (2) 1 a <5 ha, (3) 5 a <20 ha, (4) 20 a <50
são explorações de produtores singulares e ha, (5) 50 a <100 ha e (6) > =100 ha. No que
sociedades. toca às classes por DE, as explorações estão
Uma forma diferente de caraterizar as classificadas em quatro grupos, sendo eles: (1)
estruturas agrárias relaciona-se com as respe- explorações muito pequenas <8 000 euros; (2)
tivas formas de exploração da área disponível, explorações pequenas 8 000 a <25 000 euros; (3)
ou seja, as diferentes formas jurídicas pelas explorações médias 25 000 a <100 000 euros; e
quais as empresas agrícolas dispõem da terra (4) explorações grandes > =100 000 euros.
que utilizam. Em Portugal, país com condições climá-
Por Superfície Agrícola Utilizada (SAU) ticas favoráveis para a agricultura, verifica-se,
entende-se a “área constituída pelas terras perante os dados do INE (INSTITUTO NA-
aráveis (limpas ou sob a cobertura de matas e CIONAL DE ESTATÍSTICA, 2011) que pre-
florestas), culturas permanentes, horta familiar dominam as explorações de pequena dimensão,
e pastagens permanentes” (INSTITUTO NA- mas 2/3 da SAU já é gerida por explorações de
CIONAL DE ESTATÍSTICA, 2011, on-line). dimensão superior a 50 hectares de SAU. Se-
As modalidades a considerar, neste âmbito, são: gundo a mesma fonte, a dimensão das explo-
a) por conta própria; rações agrícolas em Portugal é em média cinco
b) arrendamento fixo; hectares inferior à da UE.
c) arrendamento de campanha; Com o objetivo de permitir a carateri-
d) arrendamento de parceria; e zação e a comparação das diversas estruturas
e) outras formas, como terras cedidas e sistemas de produção agrícolas da UE e dos
gratuitamente. seus resultados econômicos, foi definida no
A dimensão das explorações agrícolas é Regulamento N.º 1242/2008, da Comissão Eu-
uma das principais caraterísticas estruturais da ropeia (CE) (2008), uma tipologia comunitária
agricultura e condiciona, positiva ou negativa- que classifica as explorações agrícolas em gru-
mente, sua performance econômico-financeira. pos homogéneos, segundo a Orientação Téc-
Essa dimensão é calculada em termos físicos nico-Económica (OTE) e a DE. Esta tipologia
(com base nos hectares (ha) de SAU) e em ter- baseia-se no Valor da Produção Padrão (VPP),
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AUTORES | Luís Carlos Ribeiro | Jorge Remondes 15
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16 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
o registo histórico dos fatos patrimoniais, além Para Alberto e Almeida (2011), a evolu-
de permitir a previsão do futuro, com base na ção do sector agrícola está associada à evolu-
informação divulgada (RODRIGUES et al., ção dos pressupostos da Política Agrícola Co-
2010). No que se refere, por exemplo, aos re- mum (PAC) definida pela Comissão Europeia
cursos físicos específicos deste setor de ativida- (2011, on-line) como “a nossa alimentação, o
de, o piso em tapete, tapete com esponja (col- futuro de mais de metade do nosso território.”
chão), de colchão de água, de serrim, de palha O novo projeto de reforma da PAC
ou de areia, em quantidade suficiente e com boa 2013, visa promover a inovação, reforçar a
manutenção permite uma oscilação de 38% na competitividade econômica e ecológica do
produção de leite (TORRES, 2012). sector agrícola, lutar contra as alterações cli-
Segundo o mesmo autor, a produção é máticas e apoiar o emprego e o crescimento,
tanto maior quanto melhor o grau de manuten- representando, assim, uma contribuição decisi-
ção dos cubículos, seu dimensionamento e de- va para a estratégia da Europa 2020. No entan-
senho corretos. Cook e Nordlund (2009) refor- to, ainda é cedo para falarmos nas vantagens
çam também a importância de que os recursos da PAC 2013, cujo pacote de medidas fomenta
físicos possuem dizendo que o conforto desem- um Plano de Desenvolvimento Rural (PDR), o
penha um papel relevante na claudicação da ex- qual, de acordo com as Orientações Estratégi-
ploração porque o conforto da vaca pode afetar cas da Comunidade (OEC) e o Plano Estraté-
os animais quando estes estão expostos a um gico Nacional, têm como principais objetivos
ou mais fatores desencadeadores de uma lesão aumentar a competitividade dos sectores agrí-
em curso. Quando o animal começa a claudi- cola e florestal, promover a sustentabilidade
car, seu comportamento altera-se (por exemplo, dos espaços rurais e dos recursos naturais e re-
o animal deixa de exibir o comportamento de vitalizar econômica e socialmente as zonas ru-
monta tão frequente), e em ambientes sub-óti- rais (PORTUGAL, 2012). No entanto, destaca-
mos, combinados com deficiente maneio higi- -se como principal objetivo do PDR, melhorar
ênico da unha, a duração da claudicação pode a competitividade do sector agrícola e florestal.
estender-se por um período ainda mais prolon- Não obstante, o setor leiteiro é parte integrante
gado, maximizando o impacto da claudicação do setor agrícola, pelo que este também é atin-
na produção e reprodução, saúde e sobrevivên- gido de forma peculiar.
cia (FRANKENA et al., 2009). A unicidade do mercado, dizia Lima
A utilização de meios e equipamentos (1991) que provocaria em Portugal a satisfa-
tecnológicos, também deve ser uma componen- ção da procura interna pela oferta competiti-
te da gestão da empresa agrícola para a inova- va dos agricultores comunitários e a perda de
ção em processos e produtos. Santos e Ramos rendimento derivada deste fato seria parcial-
(2006 apud REMONDES, 2011) dá conta dos mente compensada pela introdução de ajudas
impactos inovadores da adoção de novas tecno- diretas ligadas à produção, ou seja, um apoio
logias, destacando-os como causadores de uma financeiro ao produtor. Por sua vez, potenciou-
aceleração da execução de tarefas, melhoria de -se um pacote de medidas agroambientais que
desempenho e maior eficácia organizacional. se destinam a favorecer as práticas culturais
ambientais menos agressivas, a estimular a
2.2 CARACTERIZAÇÃO DO SETOR manutenção dos ecossistemas tradicionais e a
fomentar a biodiversidade. Tais medidas, pro-
A região EDM, composta por 53 conse- teção e produção integradas viriam assegurar a
lhos, tornou-se uma das principais regiões do longo prazo uma agricultura viável (AMARO,
país na produção de leite. Porém, esta tem so- 2005). Mas “pagar para não produzir não pode
frido várias transformações, nomeadamente no ter bom resultado em lado nenhum e permite
número de explorações, animais e mão de obra. aos grandes proprietários, aos mais intensivos
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os subsídios ligados à sua atividade e a ativi- por litro e, em 2008, o preço mais alto (0,384€).
dade de produção de leite, em que o agricultor No último ano de análise, verifica-se um ligeiro
deixou de receber as ajudas em parcelas, pas- decréscimo devido à conjuntura econômica.
sou ao Regime de Pagamento Único (RPU) que
“é um regime de apoio aos agricultores, que
tem por princípio básico o desligamento total
ou parcial da produção e que substitui total ou
parcialmente os apoios diretos anteriormente
concedidos ao abrigo de vários regimes” (IFAP,
2014, on-line). As ajudas ligadas à agricultura
são diversas, no entanto, todas são oriundas do
Fundo Europeu Agrícola de Garantia (FEAGA)
e do Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvi-
mento Rural (FEADER).
De acordo com o recenseamento agríco-
la do INE (INSTITUTO NACIONAL DE ES- Gráfico 1 - Evolução do preço médio por litro de leite
TATÍSTICA, 2011), o número médio de vacas Fonte: Sistema de Informação de Mercados Agríco-
leiteiras por exploração no continente aumen- las (2013).
tou mais do dobro comparando os dados de
1999 com 2009, ou seja, de 10,8 passou para O ano de 2012 apresentou condições
26,7 cabeças por exploração. No entanto, na ainda mais desfavoráveis para o produtor agrí-
região EDM, as explorações leiteiras apresen- cola do que as observadas em 2011, situação
tam uma dimensão média do efetivo de 33,9 que não é, contudo, recente, mas sim um re-
cabeças, três vezes superior à apresentada em flexo de há uma década a esta parte. Há vários
1999, que era de 10,9 vacas/exploração. Asso- anos que os produtores agrícolas em geral, e o
ciado ao aumento do efetivo leiteiro, verifica-se produtor de leite, em particular, têm assistido a
o aumento da produção de leite, contrariamente sucessivas modificações nos preços dos fatores
ao que se passa no continente, onde se constata de produção. Estes têm sofrido agravamentos
um decréscimo de 2,4%, em 2012, comparado que, para o produtor agrícola, se traduzem
com o mesmo período de 2011. Até outubro de numa diminuição do rendimento.
2012, a produção de leite de vaca foi de 1 574
836 toneladas (INSTITUTO NACIONAL DE 3 MÉTODO
ESTATÍSTICA, 2012).
Segundo a mesma fonte oficial, a recolha Primeiro fez-se uma revisão bibliográ-
de leite de vaca em novembro de 2012 foi de 136 fica para contextualizar o objeto de estudo,
mil toneladas, o que representa uma diminuição interpretar dados estatísticos, estudos, livros
de 2,9%, relativamente à quantidade recolhida no e artigos científicos. Para uma análise das
mês homólogo de 2011. Pelo contrário, o volume percepções dos agricultores recorreu-se a um
total de produtos lácteos teve um aumento de 2,4% estudo quantitativo, ou seja, um inquérito por
(INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, questionário, instrumento que favorece o estu-
2013), no mês em análise, devido, sobretudo, ao do rápido de grandes conjuntos, a simplicidade
maior volume de leite para consumo (2,8%). de aplicação, o facto de as respostas não serem
Pelo gráfico 1 é possível analisar a evo- influenciadas pelos entrevistadores (SARMEN-
lução do preço por litro de leite de vaca pago TO; DOMINGUEZ, 2003), e a obtenção de in-
ao produtor, em termos médios anuais no con- formação em primeira mão que é fundamental
tinente que tem sofrido oscilações, sendo que para a verificação de hipóteses de trabalho (BA-
em 2006 atingiu o preço mais baixo (0,293€) RAÑANO, 2006). Com esta tipologia de pes-
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quisa podem ainda recolher-se factos e estudar – (H5) a família e a entreajuda são fato-
a relação entre eles (BELL, 2004), e generalizar res relevantes na gestão das empresas
resultados (FERNANDES, 1991; GUNTHER, agrícolas, levando em linha de con-
2006; COUTINHO; CHAVES, 2002). ta as reflexões de Lamarche (1991),
A partir da revisão bibliográfica e tendo Cordovil (1993) Gallo et. al (1995) e
em linha de conta os objetivos, a questão ini- Gasson (1988);
cial e as questões específicas, definiram-se as
seguintes hipóteses de investigação: – (H6) o cooperativismo e o associati-
vismo tornam-se fundamentais para as
– (H1) a experiência é considerada empresas do setor leiteiro, como des-
pelos empresários agrícolas como o tacam Sanabio e Antonialli (2007);
recurso mais significativo e de maior
peso nas suas decisões e na forma – (H7) a instalação pecuária é de todas
de gerir a sua empresa, isto porque, as áreas a mais importante nas explo-
Lamarche (1991) considera que a rações leiteiras, ao abrigo das cha-
propriedade e o trabalho estão liga- madas de atenção feitas por Torres
dos à família nas empresas agrícolas, (2012) sobre o papel que a quantida-
Cordovil (1993) fala de simbiose da de e tipologia do piso tem na produ-
exploração e da família, Gallo et al. ção de leite e por Cook e Nordlund
(1995) dizem que a mão de obra fa- (2009) e Frankena et al. (2009) sobre
miliar faz parte das explorações agrí- o conforto que interfere na claudica-
colas, fato que nos permite concluir ção das explorações agrícolas;
que a experiência da mão de obra fa-
miliar não só se refere à execução do – (H8) o investimento em saúde e bem-
trabalho mas também à gestão; -estar animal produz resultados posi-
tivos, considerando o estudo de Bach
– (H2) a formação e o conhecimento et al. (2008);
são fatores cada vez mais importantes
para a gestão e tomada de decisões, – (H9) a eliminação de uma variável
em linha com Costa (1989); de gestão interfere negativamente na
exploração agrícola porque como diz
– (H3) a contabilidade influencia positi- Avillez et al. (2006) a empresa agríco-
vamente a gestão de explorações agrí- la é uma unidade técnico-económica, e
colas, tendo em conta também Costa não só uma unidade como sublinha La-
(1989) que destaca a gestão financeira marche (1991), mas também uma rea-
como área funcional a considerar, en- lidade onde a propriedade e o trabalho
tre outras, assim como Rodrigues et al. estão intimamente ligados à família e;
(2010) por considerarem que permite
a gestão patrimonial e prever o futuro, – (H10) todas as variáveis de gestão
com base na informação; se relacionam entre si influenciando
positivamente a tomada de decisão,
– (H4) as tecnologias proporcionam pelas mesmas razões apontadas por
maior rentabilidade e vantagem com- Avillez et al. (2006) e Lamarche
petitiva para as explorações agríco- (1991) e na sequência do que afirma
las, tendo por base Santos e Ramos Costa (1989) quando se refere à ges-
(2006 apud REMONDES, 2011) e tão de explorações agrícolas como
Souki e Salgado (2000); um conjunto de processos e técnicas
que permitem tomar decisões e de-
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20 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
Hipóteses Autores
H1 - A experiência é considerada pelos empresários agrícolas Lamarche (1991); Cordovil (1993) ;
como o recurso mais significativo e de maior peso nas suas Gallo et al. (1995)
decisões e na forma de gerir a sua empresa.
H2 - A formação e o conhecimento são fatores cada vez mais Costa (1989)
importantes para a gestão e tomada de decisões.
H3 - A contabilidade influencia positivamente a gestão de Costa (1989);
explorações agrícolas. Rodrigues et al. (2010)
H4 - As tecnologias proporcionam maior rentabilidade e Santos e Ramos (2006 apud
vantagem competitiva para as explorações agrícolas. REMONDES, 2011); Souki e Salgado
(2000)
H5 - A família e a entreajuda são fatores relevantes na gestão das Lamarche (1991); Cordovil (1993);
empresas agrícolas. Gallo et al. (1995); Gasson (1988)
H6 - O cooperativismo e o associativismo tornam-se fundamentais Sanabio e Antonialli (2007)
para as empresas do sector leiteiro
H7 - A instalação pecuária é de todas as áreas a mais importante Cook e Nordlund (2009); Frankena
nas explorações leiteiras et al. (2009); Torres (2012)
H8 - O investimento em saúde e bem-estar animal produz Bach et al. (2008)
resultados positivos
H9 - A eliminação de uma variável de gestão interfere Avillez et al. (2006); Lamarche
negativamente na exploração agrícola (1991)
H10 - Todas as variáveis de gestão se relacionam entre si Avillez et al. (2006); Costa (1989);
influenciando positivamente a tomada de decisão Lamarche (1991).
Quadro 2 - Hipóteses de investigação
Fonte: elaboração própria (2013).
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O concelho de Barcelos é o mais repre- alguns casos, como as empresas leiteiras eram
sentativo de produtores ligados ao sector lei- visíveis não foi necessário pedir informações.
teiro. Dados disponibilizados pela Cooperati- Outra técnica usada consistiu em pedir contatos
va Agrícola de Barcelos, em 2011, confirmam aos (as) produtores (as) e inquiridos (as).
1412 explorações, sendo 447 produtores de Para o tratamento estatístico de dados,
leite. Em Vila do Conde, 303 produtores leitei- recorreu-se à análise descritiva que, segundo
ros recorrem aos serviços da cooperativa local Morais ((s/d) apud REIS, 1994) consiste na
e em Vila Nova de Famalicão são 111. Póvoa recolha, análise e interpretação de dados nu-
de Varzim e Viana do Castelo foram conselhos méricos por meio da criação de instrumentos
selecionados pela proximidade entre os conse- adequados: quadros, gráficos e indicadores
lhos e por ajudarem a distribuir a amostragem. numéricos. Procedeu-se à criação de gráficos
As cooperativas destes dois últimos conselhos que, como Maroco (2007) esclarece, permite
confirmaram a existência de 140 e 45 produto- visualizar de forma simples as caraterísticas
res de leite respectivamente que também recor- das variáveis em estudo. Analisou-se o núme-
rem aos serviços das cooperativas. ro de respostas em cada categoria de escalas e
Os questionários realizados em Barce- utilizaram-se técnicas paramétricas e técnicas
los foram recolhidos com a ajuda dos colabo- não paramétricas. Aplicou-se o Teste do Qui-
radores da cooperativa que fazem o serviço de -quadrado (Chi-square), como técnica não pa-
inseminação e que foram acompanhados por ramétrica, cujo objetivo é testar hipóteses como
nós. Percorreram-se centenas de quilómetros, referem Martinez e Ferreira (2007) e comparar
vividas histórias e experiências e partilhados as frequências dos valores observados com as
muitos conhecimentos. Os restantes, foram re- frequências dos valores esperados, das diferen-
colhidos nos conselhos mencionados através tes categorias de uma variável aleatória (PE-
de pedidos de contactos aos moradores. Em REIRA, 2003).
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Dos 105 questionários realizados, 82 dos anos de escolaridade existem 31,4% dos inqui-
inquiridos são do sexo masculino e 23 do sexo ridos, 12,4% possuem o 6º ano, 6,7% o 9º ano,
feminino, o que corresponde a uma percenta- 2,9%, o 12º Ano e apenas 1% tem curso supe-
gem de 78,1% e 21,9%, respetivamente (ver rior (ver gráfico 4).
gráfico 2).
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24 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
A utilização de técnicas paramétricas, segundo Hill e Hill (2012), requer que as distribui-
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ções sejam normais. Como há mais de 30 res- Pelos resultados apresentados nas tabe-
postas, pode considerar-se que a amostra é nor- las 2, 3 e 4, as hipóteses de investigação estuda-
mal por natureza (MAROCO, 2007). Contudo, das, são validadas pelos resultados, à exceção,
procedeu-se com recurso ao SPSS, à aplicação talvez, da H3. Analisando detalhadamente os
do teste sobre a normalidade das variáveis em resultados (ver Tabela 8), verifica-se que a H1,
causa: o mais indicado é o teste de Kolmogo- que considera que a experiência é considera-
rov- Smirnov (com correção de Lillifors) e o da pelos empresários agrícolas como o recur-
teste de Shapiro - Wilk (HILL; HILL, 2012). so mais significativo e de maior peso nas suas
No entanto, a tabela 3 mostra que a distribui- decisões e na forma de gerir a sua empresa, e
ção das variáveis não apresenta normalidade,
embora a significância (Sig.) seja 0,000.
Assim, recorreu-se a Testes Não Paramé- a H2, que estipula que a formação e o conhe-
tricos para validar ou refutar as hipóteses de in- cimento são fatores cada vez mais importantes
vestigação, nomeadamente o teste do Qui-qua- para a gestão e tomada de decisões, como pos-
drado (ver tabela 4), cujas estatísticas geradas tulava Costa (1989), são hipóteses válidas.
possibilitam comparar três ou mais variáveis e,
nesse sentido, confirmou-se que existem dife-
renças estatísticas significativas quando com-
paramos as variáveis.
Tabela 4 - Teste do Qui-quadrado
Perguntas P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7 P8 P9 P10
Chi-square 59,438a 91,943b 24,952c 84,981d 41,314b 78,286c 91,943b 91,610d 61,810c 59,200b
df 1 2 4 3 2 4 2 3 4 2
Asymp. Sig. ,000 ,000 ,000 ,000 ,000 ,000 ,000 ,000 ,000 ,000
a. The minimum expected cell frequency is 52,5.
b. The minimum expected cell frequency is 35,0.
c. The minimum expected cell frequency is 21,0.
d. The minimum expected cell frequency is 26,3.
Fonte: dados de pesquisa (2013).
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26 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
Pelas estatísticas apresentadas na tabela 6, verifica-se que a H3, que suporta o facto da
contabilidade influenciar positivamente a gestão das explorações, é validada apenas parcialmente.
Por outro lado, a H4, que considera que as tecnologias proporcionam maior rentabilidade e vanta-
gem competitiva para as explorações agrícolas, é totalmente validada, à semelhança das teses de
Santos e Ramos (2006 apud REMONDES, 2011) e Souki e Salgado (2000).
A H5 que atenta que a família e a entreajuda são fatores relevantes na gestão das empre-
sas agrícolas, como escrito por Lamarche (1991), Cordovil (1993), Gallo et al. (1995) e Gasson
(1988), é válida na sua totalidade, como se pode constatar pelos dados da tabela 7, assim como
a H6 fundamentada com base nos autores Sanabio e Antonialli (2007), segundo a qual se procu-
rava reconhecer a importância do cooperativismo e do associativismo para as empresas do sector
leiteiro.
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A H7 que preconiza a instalação pecuária ser de todas as áreas a mais importante nas ex-
plorações leiteiras, instalações valorizadas por Cook e Nordlund (2009), Frankena et al. (2009)
e Torres (2012), e a H8 que o investimento em saúde e bem-estar animal produz resultados po-
sitivos como disseram Bach et al. (2008), são válidas na sua totalidade, segundo os resultados
apresentados na tabela 8.
Na última tabela, verifica-se que o mesmo acontece com a H9 segundo a qual a eliminação
de uma variável de gestão interfere negativamente na exploração agrícola e a H10 que sustenta o
fato de todas as variáveis de gestão se relacionam entre si influenciando positivamente a tomada
de decisão. Assim, os resultados das duas últimas hipóteses estão em sintonia com autores revis-
tos na literatura, nomeadamente Avillez et al. (2006) e Lamarche (1991).
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30 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
nting management, and the awareness that the combinados con la capacidad de producción,
health and well-being of the animals are para- ayuda familiar, ayuda mutua, cooperativismo y
mount. The entrepreneur’s experience and te- asociaciones de productores constituyen las va-
chnology are decisive. These factors combined riables las más relevantes de la gestión en ese
with production capacity, family aid, mutual área de actividad. El hecho de que se han es-
aid, cooperativism and producer associations cuchado productores de leche con experiencia
are the most relevant variables of management es un cambio e incita a futuros estudios.
in this branch of activity. The fact that milk
producers with experience were interviewed Palabras clave: Gestión. Técnicas. Sector Le-
marks a change and encourages future studies. chero.
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32 ARTIGOS | Princípios e técnicas fundamentais de gestão nas micro e pequenas empresas do setor leiteiro: estudo sobre a percepção dos produtores de leite da região de entre douro e minho, Portugal.
tHILL, M.; HILL, A. Investigação por ques- análise de dados para ciências sociais e psicolo-
tionário. 2. ed. Lisboa: Edições Sílabo, 2012. gia. 4. ed. Lisboa: Edições Sílabo, 2003.
IFAP. Regime de pagamento único. 2014. Dis- PONTES, A. S. M. Análise do tema gestão es-
ponível em: <[Link] tratégica nas pequenas empresas prestadoras
pt/portal/page/portal/ifap_publico/GC_ajudas/ de serviços: uma revisão bibliográfica. Navus
GC_rpu_R#.WN97vhSm6OM>. Acesso em: - Revista de Gestão e Tecnologia, Florianópo-
30 jan. 2014. lis, v. 2, n. 2, p. 26 - 32, 2012.
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34 ARTIGOS | Responsabilidade social do consumidor: uma análise multidimensional no segmento de produtos orgânicos
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p34-46.2016
ARTIGOS
RESUMO
1 INTRODUÇÃO
Matile Facó de Paula Pessoa
Queiroz
O sistema ambiental e o de produção, que amparam as ne-
matilefaco@[Link] cessidades humanas, sofrem ameaças de descontinuidade devido a
Graduanda em Administração desgastes provocados, entre outros fatores, por culturas caracteri-
pelo Centro Universitário zadas por consumos exacerbados, identificadas em muitos países
Christus (Unichristus) -
(ASSADOURIAN, 2010; OLIVEIRA; CÂNDIDO, 2010; SILVA;
Fortaleza - CE - BR.
PEDROZO, 2016).
Bruno Chaves Correia Lima Tanto em meio acadêmico quanto em contexto mercadoló-
brunoccl@[Link] gico, é recorrente a consideração de conceitos envoltos à ética e
Doutor em Administração à sustentabilidade socioambiental, como responsabilidade social
(UFBA). Professor do Centro
Universitário Christus
corporativa e responsabilidade social do consumidor. Ambos di-
(Unichristus) - Fortaleza - CE zem respeito à maneira como indivíduos e organizações devem
- BR. agir em respeito ao meio ambiente e ao meio social, visando a me-
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 34-46, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTOR | Matile Facó de Paula Pessoa Queiroz | Bruno Chaves Correia Lima 35
lhorias na qualidade de vida das atuais e próxi- intenção de ir além de apenas satisfazer suas
mas gerações. O consumidor sustentável é defi- necessidades, considerando o bem-estar dos
nido como aquele que decide suas alternativas stakeholders; comportamento ambientalmen-
de consumo de bens e serviços, considerando te sustentável, no qual o indivíduo pauta suas
o respeito aos recursos ambientais, atendendo decisões de consumo na sustentabilidade am-
às suas necessidades básicas sem comprome- biental; comportamento ativista, que abrange
ter o atendimento das necessidades das futuras qualquer ato de manifestação do consumidor
gerações, a partir de valores como o bem-estar em relação a preocupações de natureza social,
pessoal e familiar, a justiça e o equilíbrio por ambiental ou ética; e comportamento ético na
meio de práticas de negócio e governamentais relação de troca, o qual o indivíduo exerce ve-
(COOPER, 2002; CHERRIER, 2007; MICHE- lando a honestidade na relação de troca.
LETTI, 2010; AFONSO et al., 2016). A respon- O presente artigo toma por base as suges-
sabilidade social do consumidor pode estimu- tões para estudos futuros, destacadas por Casali
lar um maior compromisso das organizações (2011), de desenvolver avaliações utilizando a
com a sua responsabilidade social, que, segun- escala proposta em contextos de consumo que
do Abreu et al. (2013), objetiva à construção já aproximam socialmente o consumidor de
de uma imagem de organização sustentável e um grau mais elevado de responsabilidade so-
comprometida eticamente com seus stakehol- cial, como é o caso de pessoas que consomem
ders, ou seja, seus grupos de interesse. produtos orgânicos. A autora sugeriu também
A responsabilidade do consumidor é a realização de agrupamento de respondentes
um tema pouco estudado, pois, geralmente, os que possibilitassem sugerir eventuais dilemas
pesquisadores focam esforços em pesquisas so- éticos a respeito do assunto.
bre o comportamento ético das organizações. Nesse contexto, o objetivo deste trabalho
Contudo, um nível elevado de responsabilida- é analisar o nível da responsabilidade social do
de social de uma organização não garante uma consumidor de produtos orgânicos, relaciona-
satisfação social, tendo em vista que é neces- do à percepção de seu comportamento, tendo
sário considerar as decisões do consumidor em em vista a análise multidimensional propos-
situações que abordem dilemas éticos para, de ta por Casali (2011). Os objetivos específicos
fato, obter uma satisfatória relação de troca en- abrangem: analisar o nível de responsabilidade
tre empresa e cliente em relação à responsabi- social do consumidor em suas dimensões: al-
lidade social. O consumidor, um dos principais truísta, ambientalmente sustentável, ativista e
agentes do sistema de troca, quando executa ética; investigar a relação entre as dimensões
práticas deletérias, pode gerar efeitos tão noci- altruísta, ambientalmente sustentável, ativista
vos quanto aquelas praticadas pelas empresas e ética na responsabilidade social do consumi-
que ofertam o produto ou serviço (CASALI, dor; verificar a influência das variáveis idade
2011). e renda no nível de responsabilidade social do
Estudos anteriores (YOUNG et al., consumidor.
2010; WIEDMANN et al., 2014; TAMBOSI Os resultados alcançados com este estu-
et al., 2015; AFONSO et al., 2016) buscaram do, portanto, tornam-se relevantes para a comu-
mensurar o nível de responsabilidade social de nidade científica, que pesquisa o comportamen-
consumidores em contextos diversos. No es- to do consumidor e a responsabilidade social;
tudo de Casali (2011), que identificou o nível para as organizações que podem identificar in-
de responsabilidade social de consumidores formações importantes sobre o comportamento
de softwares piratas, tem-se uma proposta de de seus consumidores, para consumidores em
classificação do comportamento ético do con- geral e para a sociedade como um todo.
sumidor em quatro dimensões: comportamento A pesquisa é de natureza quantitativa,
altruísta, aquele que o indivíduo exerce com a mediante coleta de dados por meio de questio-
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36 ARTIGOS | Responsabilidade social do consumidor: uma análise multidimensional no segmento de produtos orgânicos
nários de escala Likert, respondidos por consu- veis pelas empresas. Tal afirmação, portanto,
midores de produtos orgânicos, via on-line, se- enaltece que as práticas socialmente responsá-
lecionados por meio de comunidades em redes veis do consumidor podem influenciar direta-
sociais relacionadas ao consumo de orgânicos. mente nas atitudes das empresas em relação às
O questionário foi adaptado a partir da proposta suas ações quanto à Responsabilidade Social
de Casali (2011) e dividido em quatro blocos Corporativa - (RSC), tendo em vista que as em-
relacionados às dimensões explicitadas nos presas que promovem ações antiéticas como
objetivos específicos deste estudo. Os dados trabalho escravo ou infantil, por exemplo, só
foram analisados por meio do software SPSS mantém esse comportamento se existirem con-
20.0, utilizando ferramentas estatísticas, tais sumidores interessados em adquirir seus produ-
como teste de médias, correlações e regressão tos ou serviços, ou seja, consumidores que não
múltipla. praticam o consumo consciente. Entretanto, se
a maioria dos consumidores dessa organização
2 REFERENCIAL TEÓRICO possuir um nível alto de responsabilidade so-
cial e deixar de consumir seus produtos ou ser-
2.1 RESPONSABILIDADE SOCIAL DO viços, a empresa seria pressionada a abandonar
CONSUMIDOR tais práticas antiéticas e seguir outro caminho
estratégico para recuperar a parcela de merca-
O construto Responsabilidade Social do do que foi perdida, provavelmente, optando por
Consumidor é definido como o esforço indivi- um caminho mais consciente em relação à sua
dual e voluntário do consumidor para agir de responsabilidade social corporativa.
maneira responsável, buscando o bem da cole- Para que a responsabilidade social do
tividade em geral, a sustentabilidade ambiental, consumidor seja exercida com plenitude e res-
a ética na relação de troca e a manifestação de ponsabilidade, existe uma condição essencial:
suas preocupações de natureza social, ambien- a informação. Sem que o consumidor saiba
tal e ética por meio de suas escolhas (CASALI, como agem e o que fazem as empresas cujos
2011). Consumir de maneira sustentável sig- produtos e serviços lhe são oferecidos - ou sem
nifica consumir melhor e menos, levando em saber o que esperar ou não dessas empresas –
consideração os impactos ambientais, sociais é praticamente inviável o exercício saudável e
e econômicos das empresas e de seus produ- consequente da cidadania por meio do consu-
tos (cadeias produtivas). O consumo precisa mo. Informar e apoiar o consumidor em suas
ser sustentável em todos os sentidos, desde a reflexões são, assim, atividades de importância
compra e o uso até o descarte, considerando, estratégica para o movimento pela sustentabili-
então, todas as etapas do consumo (VACCARI; dade. (INSTITUTO AKATU, 2010).
COHEN; ROCHA, 2016). Considerando a multidimensionalidade
Em uma concepção mais ampla, o con- do conceito de responsabilidade social do con-
sumidor socialmente responsável é aquele que sumidor, Casali (2011) indica a existência de,
adquire produtos e serviços considerando o im- pelo menos, quatro dimensões, conforme Qua-
pacto positivo ou menos negativo que sua deci- dro 1.
são trará ao meio ambiente e utiliza seu poder
de compra para expressar preocupações sociais
(ROBERTS, 1996).
O instituto Akatu (INSTITUTO AKATU
PELO CONSUMO CONSCIENTE, 2010) re-
laciona a responsabilidade social do consumi-
dor à possibilidade de ele atuar como um agente
indutor de práticas mais socialmente responsá-
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AUTOR | Matile Facó de Paula Pessoa Queiroz | Bruno Chaves Correia Lima 37
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38 ARTIGOS | Responsabilidade social do consumidor: uma análise multidimensional no segmento de produtos orgânicos
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explicativa. Quanto aos meios, trata-se de uma até R$ 1.000,00, 12,2% entre R$ 1000,01 e R$
survey. 3000,00, 13% entre R$ 3000,01 e R$ 5000,00,
Diehl (2004) apresenta a pesquisa quan- 25% entre R$ 5000,01 e R$ 7.000,00, 27,2%
titativa pelo uso da quantificação, tanto na co- entre R$ 7.000,01 e R$ 10.000,00 e, por fim,
leta quanto no tratamento das informações, uti- 20,7% têm renda acima de R$10.000,00.
lizando-se de técnicas estatísticas, objetivando Utilizando o software estatístico SPSS
resultados que evitem possíveis distorções de 20.0 para a análise dos dados, foi aplicada a
análise e interpretação, possibilitando uma técnica de correlação de Pearson, que indicou
maior margem de segurança. A pesquisa des- uma correlação significativa entre os comporta-
te estudo é, portanto, de natureza quantitativa, mentos. Conforme Field (2009), um coeficien-
pois é empregada a quantificação, tanto na cole- te 0 (zero) indica ausência de relacionamento
ta de informações, quanto no tratamento dessas linear, isto é, se uma variável muda, a outra
informações por meio de técnicas estatísticas. permanece praticamente igual. O coeficiente
A pesquisa deste trabalho visa também de correlação é uma medida padronizada de um
à descrição das características do grupo sele- efeito observado, ele é uma medida comumente
cionado, consumidores de produtos orgânicos, usada do tamanho de efeito, e valores próximos
bem como a descoberta da relação entre variá- a 0,1 representam um efeito pequeno, cerca de
veis. Desse modo, caracteriza-se como descri- 0,3 um efeito médio e aproximadamente 0,5
tiva e explicativa. um efeito grande.
A escala utilizada é a proposta por Casa- Por meio do mesmo software estatístico,
li (2011), que passou por testes de validação e foi empregada análise de regressão múltipla en-
confiabilidade, comprovada em seu próprio es- tre as variáveis independentes Renda e Idade e
tudo. Portanto, este estudo faz uma reaplicação a variável dependente Responsabilidade Social
da referida escala com o público-alvo escolhi- do Consumidor.
do de consumidores de produtos orgânicos. Tal
instrumento foi escolhido porque se adapta, de 4 RESULTADOS
forma conveniente, ao objetivo do estudo, ten-
do em vista a necessidade de uma escala que Os resultados da presente pesquisa in-
foque em questões sobre atitudes e comporta- dicaram os níveis de Responsabilidade Social
mentos cotidianos que conduzam à mensuração do Consumidor relacionados a cada uma das
do nível de responsabilidade social desses con- quatro dimensões de comportamento: altruísta,
sumidores. O instrumento, questionário on-li- ambientalmente sustentável, ativista e ético. O
ne, transmitido pelo site SurveyMonkey (www. critério adotado para a definição da força dos
[Link]), aborda as quatro di- comportamentos é o mesmo adotado por Casali
mensões sobre o construto da responsabilidade (2011): são consideradas fracas médias meno-
social do consumidor. Trata-se de uma escala res que 4,0. Médias entre 4,0 e 5,5 indicam um
Likert de sete pontos que expressa o grau de grau de Responsabilidade Social do Consumi-
concordância do indivíduo em relação às afir- dor moderado; acima de 5,5 aponta um nível de
mações propostas. Responsabilidade Social do Consumidor forte.
O questionário foi enviado a cerca de O gráfico 1 apresenta os resultados re-
200 pessoas, contudo a amostra final do estu- ferentes às médias dos itens relacionados ao
do foi composta por 92 participantes. Desses, comportamento altruísta. Em geral, a maioria
51 mulheres e 41 homens, 44 com filhos e 48 dos participantes concordou com as afirmações
sem filhos. Quanto à idade, 3,3% têm até 20 propostas, indicando um alto grau de concor-
anos, 52,2% entre 20 e 29, 34,8% entre 30 e dância referente ao comportamento, significati-
39, 7% entre 40 e 49 e 2,2% acima dos 50 anos. vamente acima do ponto central da escala.
Quando à renda mensal familiar, 2,2% recebem
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40 ARTIGOS | Responsabilidade social do consumidor: uma análise multidimensional no segmento de produtos orgânicos
Nota-se que as questões que receberam ou esporte, indicando uma maior preocupação
os maiores índices de concordância são: “Prefi- com essas questões. Em contrapartida, a maio-
ro comprar de empresas que promovam causas ria dos consumidores parecem se importar em
sociais (por exemplo: iniciativas de saúde ou pagar mais caro por produtos socialmente res-
esporte)” e “Mesmo que eu perca (em termos ponsáveis, o que indica que a questão do preço
financeiros ou de qualidade), prefiro comprar ainda pode ser considerada um fator decisivo
produtos socialmente responsáveis”. Por outro de compra, mesmo quando o produto é social-
lado, as questões que obtiveram menos concor- mente responsável.
dância são: “Priorizo em minhas compras pro- No Gráfico 2, que descreve os dados re-
dutos de empresas que promovam causas sociais ferentes ao Comportamento Ambientalmente
(doações a ONGs, por exemplo)” e “Escolho os Sustentável, a maioria dos consumidores con-
produtos que consumo considerando o impacto cordou com as afirmações da escala. Destacam-
social que eles provocam”. Esse último item foi -se os maiores graus de concordância ligados
único a apresentar força moderada (> 5,50), con- às questões: “Evito comprar produtos que pro-
forme critério adotado por Casali (2011). voquem danos ao meio ambiente”; “Procuro
Tendo em vista tais resultados, percebe- adquirir produtos ambientalmente corretos” e
-se que um fator que se destaca é a importância “Procuro consumir produtos feitos a partir de
que o consumidor dá ao fato de a empresa pro- material reciclado”.
mover causas sociais exemplificadas por saúde
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AUTOR | Matile Facó de Paula Pessoa Queiroz | Bruno Chaves Correia Lima 41
Ao analisar o Gráfico 4, percebe-se que médias gerais de cada um dos quatro compor-
a questão com o maior grau de concordância tamentos para fins de comparação e mensura-
foi: “Mesmo que eu saia perdendo (em termos ção da responsabilidade social do consumidor
financeiros ou de qualidade), prefiro ser ho- de produtos orgânicos. As quatro médias en-
nesto como consumidor”. Em contrapartida, contram-se significativamente acima do ponto
as questões com a menor média de concordân- central da escala, tendo em vista a variação de
cia foram: “Eu devolveria um troco recebido a 1 (um) a 7 (sete). Todas apresentaram p valor
mais indevidamente” e “Eu lembraria ao caixa inferior a 0,001. Contudo, pelo critério adota-
de incluir na minha conta um produto que, por do por Casali (2011), o comportamento ético se
engano, ele tenha esquecido de cobrar”. apresentou em intensidade moderada, confor-
A Tabela 1 apresenta a descrição das me apresenta a Tabela 1.
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Conforme a Tabela 1, a análise dos da- seu comportamento, tendo em vista a análise mul-
dos também indica um efeito pequeno, quase tidimensional proposta por Casali (2011). Para
nulo, entre as dimensões comportamento ético tanto, foram analisados: o nível de responsabili-
e ambiental; um efeito médio entre os compor- dade social do consumidor, em suas dimensões
tamentos ativista e ético, e ético e altruísta. altruísta, ambientalmente sustentável, ativista e
Foram realizados testes de regressão ética; a relação entre essas dimensões, e a influên-
para analisar o efeito das variáveis Renda e Ida- cia exercida pelas variáveis Idade e Renda.
de sobre o comportamento de responsabilidade Conforme a descrição e a análise dos re-
social do consumidor (Média entre as quatro sultados da pesquisa, os consumidores de pro-
dimensões estudadas). A Tabela 3 apresenta os dutos orgânicos, de maneira geral, possuem um
resultados da análise de regressão realizada: elevado nível de responsabilidade social, tendo
Tabela 3 - Análise de Regressão entre as variáveis
Model Summary
Model R R Square Adjusted R Square Std. Error of the Estimate
1 ,241a ,058 ,037 ,6524766
Coefficients a
Coefficients a
Standardized
Unstandardized
Coefficients
Coefficients
Model B Std. Error Beta t Sig
1 (Constant) 6,052 ,286 21,160 ,000
Idade -,209 ,091 -,245 -2,297 ,024
Renda ,011 ,052 ,022 ,203 ,840
De acordo com a Tabela 3, observa-se em vista a classificação de grau forte para três
que o resultado da variância 0,058 indica que as dimensões e moderado para a dimensão ética.
duas variáveis, Renda e Idade, explicam apenas Pode-se afirmar, portanto, que a maioria admite
5,8% do fenômeno Responsabilidade Social do exercer um consumo visto como “consciente”,
Consumidor. Tem-se, ainda, que a variável in- considerando questões relacionadas à recicla-
dependente Renda não se relaciona significati- gem, à preservação ambiental, às causas so-
vamente (p valor = ,840) com a variável depen- ciais, à defesa do direito dos consumidores.
dente Responsabilidade Social do Consumidor. Por outro lado, do ponto de vista prático,
Os resultados também apontam uma fraca e percebe-se a importância de uma conscientiza-
invertida relação (B = -,245) entre a variável ção do consumidor de produtos orgânicos em
dependente Responsabilidade Social do Consu- relação às questões relacionadas ao comporta-
midor e a variável independente Idade, o que mento ético, tendo em vista que, entre as de-
indica que quanto maior a idade, menor o grau mais dimensões, foi a que apresentou menores
de responsabilidade social desse consumidor. níveis de concordância em relação às alterna-
tivas referentes ao consumo considerado éti-
5 CONCLUSÕES co. Comportamentos como “não devolver um
troco calculado de maneira errada a favor do
Este estudo teve por objetivo analisar o ní- consumidor” e “não devolver um produto que o
vel da responsabilidade social do consumidor de caixa se esqueceu de cobrar” apresentaram mé-
produtos orgânicos relacionado à percepção de dias significativamente inferiores aos demais
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44 ARTIGOS | Responsabilidade social do consumidor: uma análise multidimensional no segmento de produtos orgânicos
comportamentos, o que indica sinal de alerta correlation tests and multiple regression) using
em relação às consequências socialmente dano- the SPSS 20.0 software. The results indicated
sas dessa prática por caracterizar uma relação high levels of social responsibility of the organ-
de troca desonesta. ic products consumers related to the altruistic
Ressalta-se a fraca relação inversa, entre dimension, the environmentally sustainable
as variáveis “Responsabilidade Social do Con- dimension and the activist dimension; how-
sumidor” e “Idade” da amostra, apontando um ever a moderate level in relation to the ethical
maior grau de responsabilidade social para os behavior. Strong correlations between the en-
consumidores mais jovens. Tal fato sugere que vironmental and altruistic dimensions, the en-
o aumento do consumo consciente, bem como vironmental and activist dimensions and the ac-
o aumento do nível de responsabilidade social tivist and altruistic dimensions were revealed.
do consumidor devem se estender para as pró- Furthermore, the variable income didn’t reveal
ximas gerações cada vez mais. itself as a significant predictor of the level of
A limitação desta pesquisa compreende social responsibility. However, the age variable
a amostragem não ser probabilística, interdi- showed a weak inverse relation with the level
tando generalizar os resultados obtidos. Uma of social responsibility; it appears that younger
sugestão, portanto, para futuras pesquisas, seria individuals claim to be more responsible con-
a aplicação da escala utilizada neste trabalho sumers than older people.
em amostras de diferentes classes socioeconô-
micas ou de diferentes regiões demográficas, o Keywords: Consumer Social Responsibility.
que levaria a resultados mais amplos em rela- Organic products. Consumer behavior.
ção à mensuração do nível de responsabilidade
social dos consumidores, tendo em vista a uma RESPONSABILIDAD SOCIAL DEL
melhor compreensão sobre as variáveis que in- CONSUMIDOR: UN ANÁLISIS
fluenciam certos grupos a terem um maior nível MULTIDIMENSIONAL EN EL
de responsabilidade social do que outros. SEGMENTO DE PRODUCTOS
ORGÁNICOS
CONSUMER SOCIAL
RESPONSIBILITY: A RESUMEN
MULTIDIMENSIONAL ANALYSIS
IN THE SEGMENT OF ORGANIC El objetivo general de este estudio es mensu-
PRODUCTS rar el nivel de responsabilidad social del con-
sumidor de productos orgánicos, en relación a
ABSTRACT la percepción de su comportamiento. Se anali-
zaron cuatro dimensiones de comportamiento:
The aim of this study is to measure the social altruista, ambientalmente sustentable, activista
responsibility level of consumers of organ- y ético. Se trata de una investigación cuantita-
ic products, in relation to the perception of tiva, descriptiva y explicada realizada por me-
their behavior. Four dimensions of behavior dio de una amuestra de 92 individuos que se
were analyzed: the altruistic dimension, the auto declararon consumidores de productos
environmentally sustainable dimension, the orgánicos. Fueron empleadas técnicas estadís-
activist dimension and the ethical dimension. ticas (test t de medias, correlación y regresión
This is a quantitative, descriptive and explan- múltiple), por medio del software SPSS 20.0.
atory research conducted through a sample of Los resultados indicaron altos niveles de res-
92 individuals who declared themselves to be ponsabilidad social de consumidores orgánicos
consumers of organic products. Statistical tech- para las dimensiones altruista, ambientalmen-
niques were used (the t-test to compare means, te sustentable y activista, pero nivel moderado
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AUTOR | Matile Facó de Paula Pessoa Queiroz | Bruno Chaves Correia Lima 45
para el comportamiento ético. Se reveló fuerte de Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribei-
correlación entre las dimensiones: ambiental y ro, Rio de Janeiro, 2009.
altruista; ambiental y activista; activista y al-
truista. Además, se concluye que la variable BRAGA JUNIOR, S. S. B.; VEIGA NETO,
“renta” no se mostró pre conocedora significa- A. R.; MORAES, N. R. Atributos de estilo de
tiva del nivel de responsabilidad social. Pero la vida do consumidor relacionados ao consumo
variable “edad” presentó flaca relación inversa de produtos orgânicos no varejo especializa-
con el nivel de responsabilidad social, o sea, se do. Revista Brasileira de Marketing, São
infiere que los más jóvenes afirman ser consu- Paulo, v. 13, n. 5, p. 36-46, 2014.
midores más responsables que los individuos
con más años de vida. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. O que
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ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 34-46, jul./dez. 2016
46 ARTIGOS | Responsabilidade social do consumidor: uma análise multidimensional no segmento de produtos orgânicos
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AUTORES | Kátia Paulino dos Santos 47
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p47-63.2016
ARTIGOS
RESUMO
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 47-63, jul./dez. 2016
48 ARTIGOS | Associação de Mulheres Louceiras do Maruanum (Aloma): tradição e economia solidária no Estado do Amapá – Amazônia - Brasil
xo e dinâmico, uma vez que surge como uma cesso de solidificação, em função da trajetória
possibilidade diferenciada, dentro de um mo- histórica diferenciada, influência e reflexos do
delo econômico com fragilidades expostas, baixo povoamento, que integra a realidade do
e que tenta inviabilizar qualquer tentativa de cenário amazônico.
alteração de sua lógica. As constantes crises e Analisou-se neste artigo a Associação
desestruturações demonstradas pela economia de Mulheres Louceiras do Maruanum (ALO-
capitalista impulsionam cada vez mais a busca MA), empreendimento econômico solidário do
por alternativas, seja por parte da sociedade Estado do Amapá, composto por mulheres que
civil organizada, seja por parte do Estado. trabalham com um tradicional artesanato em
A economia solidária avança no Brasil argila, que é reconhecido popularmente pela
em diferentes perspectivas. Do ponto de vista valorização cultural da comunidade do Ma-
social, percebe-se um crescimento referente à ruanum. A confecção do artesanato segue um
quantidade de empreendimentos que compõem ritual marcado por simbolismos tradicionais,
o setor; verifica-se, ainda, a pulverização do que são repassados de geração em geração. Re-
esclarecimento referente ao contexto teórico presenta um importante mecanismo de renda
e ideológico em que estes empreendimentos para as mulheres associadas, considerando que
estão inseridos, uma vez que muitos se encon- o empreendimento é composto por mulheres de
travam dentro da proposta de economia solidá- baixa renda, como a maioria das pessoas resi-
ria sem saber exatamente seu significado e as dentes na comunidade do Maruanum.
diferenças de nuanças, em comparação com a Objetivou-se com este estudo compre-
economia capitalista tradicional. Na perspec- ender os principais avanços e fragilidades da
tiva econômica, os indicadores revelados pelo ALOMA, assim como os impactos das polí-
último mapeamento dos empreendimentos da ticas de fomento à economia solidária ofer-
economia solidária, realizado nas diferentes re- tadas pelo Estado à Associação. Para tanto,
giões e estados brasileiros, que teve início em realizou-se pesquisa qualitativa, por meio de
2010 e foi finalizado em 2013, demonstram que estudo de caso, tendo como objeto a Associa-
a proposta tem sido responsável pela elevação ção. Buscou-se evidenciar os resultados alcan-
da renda e, consequentemente, das condições çados pela Associação por meio de abordagem
econômicas dos empreendedores que com- que ultrapassa o aspecto meramente econômi-
põem a economia solidária no Brasil. co, levando em consideração, também, os fa-
Além disso, verificou-se na última dé- tores sociais de desenvolvimento. Realizaram-
cada uma intensificação significativa das po- -se entrevistas com a presidente da Associação
líticas públicas de fomento à economia soli- e com outras associadas. Foi realizada ainda
dária, fortalecidas pela criação da Secretaria visita in loco para verificar as instalações da
Nacional de Economia Solidária (SENAES), Associação, bem como as condições de traba-
em 2003. A institucionalização da SENAES, lho das associadas.
aliada ao delineamento de uma política con- Para fins didáticos, este artigo foi estru-
centrada em ações pautadas em pesquisas turado em três partes, além da introdução e das
empíricas, geraram credibilidade e reconheci- considerações finais de praxe. A primeira tratou
mento social da Instituição. da origem e conceitos da economia solidária,
A proposta da economia solidária tem bem como da gestão nacional da política e das
sido fomentada em diferentes regiões e esta- estratégias de fomento aos empreendimentos. A
dos brasileiros, entre eles o Amapá, localiza- segunda parte apresentou o espaço geográfico
do no extremo Norte do Brasil, área de estu- da pesquisa, o Estado do Amapá, enfatizando-
do deste artigo. Destacam-se, entretanto, as -se as características socioeconômicas da popu-
especificidades deste Estado, cuja cultura do lação, do mercado de trabalho e as potenciali-
empreendedorismo encontra-se ainda em pro- dades econômicas. E, por fim, analisaram-se os
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AUTORES | Kátia Paulino dos Santos 49
resultados do estudo de caso da ALOMA, re- -se Paul Singer, reconhecido pela densa produ-
velando-se seu perfil, os resultados centrais das
ção teórica direcionada ao tema e que foi titular
políticas de fomento e seus principais entraves da Secretaria Nacional de Economia Solidária
e avanços para seu desenvolvimento. do Brasil (SENAES) por 13 anos. Singer (2008)
considera que a Economia Solidária é um modo
2 ECONOMIA SOLIDÁRIA: ORI- de produção que se caracteriza pela igualdade.
GEM, CONCEITOS E GESTÃO DA Pela igualdade de direitos, os meios de produ-
POLÍTICA PÚBLICA DE ECONO- ção são de posse coletiva dos que trabalham
MIA SOLIDÁRIA NO BRASIL com eles – essa é a característica central. E a
autogestão, ou seja, os empreendimentos de
Esta seção contempla o arcabouço teó- economia solidária são geridos pelos próprios
rico acerca da origem e conceitos da economia trabalhadores coletivamente de forma inteira-
solidária, bem como das suas estratégias de mente democrática, quer dizer, cada sócio, cada
gestão como política pública de desenvolvi- membro do empreendimento tem direito a um
mento no cenário brasileiro. voto. Caso sejam pequenas cooperativas, não
há nenhuma distinção importante de funções,
2.1 ECONOMIA SOLIDÁRIA: ORIGEM todo mundo faz o que precisa.
França Filho (2002) ressalta que, com a
E CONCEITOS
noção de economia solidária, a questão que se
coloca é aquela de um novo relacionamento en-
Ao tratar da origem da Economia Soli-
tre economia e sociedade. Se certas caracterís-
dária, Lechat (2002) enfatiza que na Inglaterra
ticas organizacionais particulares (notadamente
e nos Estados Unidos várias comunidades ou
no que se refere ao aspecto democrático da orga-
aldeias cooperativas foram criadas no sécu-
nização do trabalho) são sublinhadas na apreen-
lo XIX, mas não conseguiram manter-se por
são desse termo, trata-se aqui, entretanto, sobre-
mais de alguns anos, as numerosas experiên-
tudo da inscrição sociopolítica das experiências
cias de cooperativas operárias lideradas pelo
que fundam essa noção. Esta é a razão pela qual
movimento sindical inglês, após vários êxitos
se entende que, para além de um conceito servin-
e avanços democráticos, foram extintas pela
do para a identificação de um certo número de
feroz reação da classe patronal e pela decla-
experiências com um estatuto diferente daquele
rada hostilidade do governo. As iniciativas de
da empresa capitalista, a noção de economia
grupos associativos solidários eram incipientes
solidária remete a uma perspectiva de regulação,
no mundo, sendo progressivamente intensifica-
colocada como uma questão de escolha de um
das após as duas grandes guerras mundiais, e
projeto político de sociedade.
massificadas após a crise econômica mundial
Gaiger (2007) enfatiza que o crescimento
iniciada no final da década de 1970.
da economia solidária no Brasil tem sido um fato
Lechat (2002) enfatiza ainda que entre
notável nas últimas décadas, relatado em estudos
1980 e 1985 foram criadas em massa coope-
panorâmicos e confirmado pelo primeiro mape-
rativas de trabalhadores em toda a Europa. Por
amento: 87% dos Empreendimentos Econômi-
outro lado, os inúmeros movimentos sociais e
cos Solidários (EES) registrados tiveram início
étnicos trouxeram uma nova visão do social,
posterior a 1990, 35% após 2002. Ao mesmo
de sua relação com o econômico e da relação
tempo, a articulação gradativa dos empreendi-
do homem com o meio ambiente. Diante deste
mentos e das organizações de apoio resultou em
cenário, são fortalecidos na década de 1980 es-
estruturas representativas da economia solidária,
tudos e publicações voltados para a análise da
culminando com a criação do Fórum Brasileiro
economia solidária, os quais apresentam per-
de Economia Solidária, em 2003.
cepções e conceituações variadas.
Dentro do quadro de estudiosos, destaca-
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50 ARTIGOS | Associação de Mulheres Louceiras do Maruanum (Aloma): tradição e economia solidária no Estado do Amapá – Amazônia - Brasil
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AUTORES | Kátia Paulino dos Santos 51
nomia Solidária, sendo um instrumento para demais, exceto no caso de EES apoiados uni-
identificação e registro de informações de em- camente por órgãos governamentais”. Não há
preendimentos econômicos solidários, entida- dúvida de que o envolvimento dos agentes ex-
des de apoio e fomento à economia solidária ternos qualifica o processo; a questão é sobre o
e políticas públicas de economia solidária no espaço de decisão que estes agentes adquirem
Brasil. (SECRETARIA NACIONAL DE ECO- frente aos EES em seu cotidiano e em um plano
NOMIA SOLIDÁRIA, 2013). maior – no FBES.
Destaca-se como pesquisa de economia O Mapeamento das experiências de Eco-
solidária tanto por ser pioneira em consolidar nomia Popular Solidária consistiu em uma das
uma base de dados de abrangência nacional, atividades realizadas pela SENAES e pelo Pro-
quanto por seu modelo de gestão participativa grama de Economia Solidária em Desenvolvi-
da pesquisa. Embora a base seja muito nova e mento, que abrangeu mesmo com a incipiência
só tenha chegado à metade dos municípios bra- do programa, todos os estados brasileiros. Este
sileiros (e com limites), é preciso reconhecê-la mapeamento procurou desvelar as principais
como importante avanço para o dimensiona- características socioeconômicas dos empreen-
mento da economia solidária em todo o terri- dimentos coletivos de geração de trabalho e
tório brasileiro. Nas demais bases nacionais, renda no Brasil, relacionadas com as seguin-
como as do Instituto Brasileiro de Geografia e tes indagações: Qual é a renda obtida por estas
Estatística (IBGE), não existem categorias es- experiências? Onde estão localizadas? Qual a
pecíficas como “trabalhador associado”, “sócio quantidade existente de experiências coletivas?
cooperado”, “empresa autogestora” e, por isso, Quantos trabalhadores estão inseridos, entre
é impossível identificar com precisão o que outros elementos? Para que o mencionado pro-
constitui economia solidária em meio aos da- grama social possa contribuir para a viabilidade
dos globais. (SANTOS, 2014). das experiências coletivas, possibilitando a ma-
O SIES foi implantado no ano de 2004 nutenção e permanência destes empreendimen-
e, até o momento, realizou três rodadas nacio- tos no mercado, de forma que passem a obter
nais de identificação e caracterização dos Em- sobras e consequentemente gerar renda para
preendimentos Econômico-Solidários (EES) seus trabalhadores, faz-se necessário uma apre-
no país. O primeiro levantamento ocorreu em ensão desta realidade. (GOERCK, 2009).
2005 quando foram mapeados 14.954 EES. Singer (2012) destaca que o mapeamento
Este levantamento foi complementado em é uma forma sistemática de entender o que está
2007 com o mapeamento de mais 6.905 EES. acontecendo com relação à economia solidária
Nesta primeira fase foram totalizadas informa- no País. Mas é preciso, a cada três ou quatro
ções de 21.859 EES. A terceira rodada ocorreu anos, ver tudo o que está acontecendo, sobretu-
nos anos de 2010-2012 quando foram mapea- do avaliando o que está sendo feito. Verifica-se
dos mais 11.663 EES. Portanto, desde 2004 o que o fomento aos empreendimentos da econo-
SIES já identificou 33.518 EES em todo o ter- mia solidária deve percorrer um ciclo planeja-
ritório nacional. (SECRETARIA NACIONAL do e estratégico, em que a linha de chegada ou
DE ECONOMIA SOLIDÁRIA, 2013). finalização seja concomitante ao processo de
Os dados do SIES demonstram que emancipação do empreendimento, para que não
72,7% dos empreendimentos receberam apoio se estabeleça um elo de dependência ou subor-
ou assessoria externa, sendo que 40,6% de ór- dinação ao Estado ou a agentes públicos.
gãos governamentais, 22,9% de ONGs, Igrejas
ou associações, 20,4% do “sistema S”, etc. Se-
gundo Gaiger (2009, p. 576), os “EES benefi-
ciados com algum apoio apresentam um grau
de desempenho global mais positivo do que os
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2015, 77,4% dos empregados no setor privado -se que os reflexos da pobreza são revelados na
tinham carteira de trabalho assinada, apresen- precariedade das moradias, e ainda na elevação
tando avanço de 1,4 ponto percentual em rela- dos indicadores de violência urbana.
ção a igual trimestre de 2014 (75,9%). Em re-
lação ao trimestre anterior, não houve variação
estatisticamente significativa.
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54 ARTIGOS | Associação de Mulheres Louceiras do Maruanum (Aloma): tradição e economia solidária no Estado do Amapá – Amazônia - Brasil
mistas e outros especialistas no assunto como ARAÚJO (2008) revela que estudo de caso é
um desperdício das potencialidades econômi- uma abordagem metodológica de investigação
cas existentes no Amapá que, com uma biodi- especialmente adequada quando procuramos
versidade sui generis e ainda uma localização compreender, explorar ou descrever aconteci-
geográfica significativamente privilegiada e mentos e contextos complexos, nos quais estão
estratégica apresenta uma grande possibilidade simultaneamente envolvidos diversos fatores.
de crescimento econômico que impactaria, por A pesquisa possui caráter qualitativo
certo, na realidade social da população, cuja que, de acordo com Minayo (2001), trabalha
concentração de renda nas mãos de poucos é com o universo de significados, motivos, as-
uma grande marca histórica. pirações, crenças, valores e atitudes, o que
corresponde a um espaço mais profundo das
4 METODOLOGIA DA PESQUISA relações, dos processos e dos fenômenos que
não podem ser reduzidos à operacionalização
A metodologia deste estudo possui dois de variáveis. A pesquisa qualitativa é criticada
focos: por seu empirismo, pela subjetividade e pelo
a) apresenta caráter exploratório, uma envolvimento emocional do pesquisador, mas
vez que busca proporcionar maior fa- certamente viabiliza de forma mais concreta a
miliaridade com o problema da inves- decodificação de uma realidade que não pode
tigação, com vistas a torná-lo mais ser mensurada estatisticamente, a exemplo da
explícito, envolvendo: levantamento pesquisa do porte do estudo de caso. A pesquisa
bibliográfico, entrevistas com pesso- qualitativa preocupa-se, portanto, com aspectos
as que tiveram experiências práticas da realidade que não podem ser quantificados,
com o problema pesquisado, e análise centrando-se na compreensão e explicação da
de exemplos que estimulem a com- dinâmica das relações sociais.
preensão (GIL, 2008); Optou-se pela utilização de entrevista
a) possui ainda caráter explicativo, uma não-estruturadas. Estas modalidades de en-
vez que se preocupa em identificar os trevistas viabilizam liberdade ao pesquisador,
fatores que determinam ou que con- para ir além das respostas, de uma maneira que
tribuem para a ocorrência dos fenô- pareceria prejudicial para as metas de padroni-
menos (GIL, 2008). zação e comparabilidade. Neste método, o en-
trevistador pode buscar tanto o esclarecimento
No segundo ponto, ressalta-se que a quanto a elaboração das respostas dadas, pode
presente pesquisa visa compreender os resul- registrar informação qualitativa sobre o tópico
tados da economia solidária na realidade co- em questão (MAY, 2004).
tidiana das integrantes da Associação de Mu- A entrevista possui uma importância
lheres Louceiras do Maruanum (ALOMA), significativa no estudo de caso pois, por meio
e ainda analisar os resultados da política de dela, o investigador percebe a forma como os
fomento à economia solidária realizada pelos sujeitos interpretam as suas vivências já que
órgãos do Estado. ela “é utilizada para recolher dados descritivos
Para se verificar os impactos da ativi- na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao
dade para a realidade das empreendedoras foi investigador desenvolver intuitivamente uma
realizado estudo de caso da Associação, na ex- ideia sobre a maneira como os sujeitos inter-
pectativa de evidenciar os avanços e fragilida- pretam aspectos do mundo” (BOGDAN; BI-
des da política voltada ao fomento da economia KLEN, 1994, p. 134).
solidária, a qual ultrapassa a análise meramen- O objeto de investigação do estudo de caso
te econômica, levando em consideração tam- é a ALOMA, associação localizada no Distrito do
bém os aspectos sociais de desenvolvimento. Maruanum, localizado na zona rural de Macapá.
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e Adultos (EJA); o restante declarou-se com gilidades das políticas de fomentos, as quais
ensino fundamental incompleto. No Quadro 1, serão descritas a seguir.
verifica-se a síntese do perfil das louceiras en-
trevistadas na ocasião da pesquisa de campo.
Informação Respostas
Idade Entre 40 a 74 anos.
Quatro entrevistadas, inclusive a presidente, declararam ter o ensino
fundamental incompleto, e apenas uma entrevistada declarou-se
Escolaridade
cursando o ensino médio, por meio do Programa Educacional de
Jovens e Adultos (EJA).
Todas declararam-se artesãs e agricultoras. Apenas uma declarou-se
Profissão / ocupação
também parteira tradicional.
Quantas pessoas residem na casa
Em geral, de 2 a 6 pessoas.
onde mora?
Quantas pessoas trabalham na A quatro entrevistadas declararam contribuir para a renda familiar.
residência? Apenas uma declarou-se única responsável pela renda familiar.
É beneficiário de programa de Apenas uma das entrevistadas declarou receber o Programa Estadual
renda mínima Renda Famíliar e também o Programa Federal Bolsa Família.
Uma única entrevistada declarou ser arrimo de família, as outras
Situação familiar
contribuem na renda.
As entrevistadas declararam receber em média renda mensal entre
Renda familiar
R$ 600,00 e R$ 900,00.
Quadro 1 - Perfil social das entrevistadas - ALOMA
Fonte: elaborado pela autora (2016).
A sócia com mais idade, atualmente en- 5.4.1 Aspectos positivos das políticas de
contra-se com 74 anos, sendo bastante ativa na fomento
produção das cerâmicas, enfatizando que, além
do artesanato, também já foi agricultora e tra- Nos relatos das louceiras, a Secretaria
balhou muito tempo como parteira tradicional,3 de Estado do Trabalho e Empreendedorismo
na comunidade do Maruanum. Atualmente do Amapá (SETE) atua diretamente no pro-
mora em Macapá, onde realiza sua produção e cesso de comercialização quando se trata de
comercialização, sendo que no Maruanum ape- exposição em feiras por ela organizadas, ou
nas retira o barro junto às outras louceiras. feiras em outros estados, contextos em que
viabiliza transporte, e, dependendo do caso, a
5.4 FOMENTOS RECEBIDOS E RESUL- hospedagem.
TADOS DO EMPREENDIMENTO Destacaram ainda como aspecto positi-
vo das políticas de fomento a criação da casa
Com relação aos fomentos à atividade, de comercialização no Maruanum, viabilizada
as louceiras informaram que a Associação pos- pela Prefeitura Municipal de Macapá, a qual foi
sui cadastro em vários órgãos que a têm como construída entre os anos de 2005 e 2006. Enfa-
economia solidária, como a SENAES, o FAES, tizaram ainda a participação em feiras nacio-
a SETE e o SEBRAE, e enfatizam que rece- nais e internacionais, com o auxílio do Governo
beram formação do SEBRAE voltada para as do Estado.
técnicas de gestão, há mais de cinco anos. As A comercialização, além de ser feita di-
entrevistas revelaram aspectos positivos e fra- retamente ao consumidor, é também escoada
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pela Casa do Artesão (vinculada à SETE), sen- Perguntou-se às associadas o que a eco-
do que nesta escoação a Casa do Artesão retém nomia solidária mudou em suas vidas; duas en-
20% do valor de cada produto como taxa de trevistadas demonstraram falta de compreensão
operacionalidade da comercialização e manu- sobre o significado e ideais referentes à econo-
tenção da Casa. De acordo com as louceiras, mia solidária, mas três delas enfatizaram como
os principais espaços de comercialização são as alteração positiva a integração do grupo e ainda
feiras de exposição. a visibilidade e o reconhecimento das cerâmi-
cas em todo o Estado do Amapá.
5.4.2 Fragilidades das políticas de fo-
mento 5.4.4 Desafios a serem enfrentados pelo
empreendimento
As louceiras enfatizaram que não hou-
ve nenhum investimento na Associação nos A comercialização das louças é feita in-
últimos 12 anos, e que o último investimento dividualmente por cada louceira; cada uma se
realizado foi há mais de cinco anos, por meio incumbe de vender suas cerâmicas, de maneira
de organização de mesas para exposição de que não existe divisão de recursos pela Asso-
cerâmicas na Associação, que demandou o ciação, dificultando a possibilidade de avaliar o
investimento de R$ 500,00 (quinhentos reais). valor arrecadado anual ou mensalmente. Duas
As artesãs informaram ainda que a Associação entrevistadas enfatizaram que a Associação não
nunca buscou financiamento ou empréstimo realiza planejamento ou avaliação das ativida-
para a dinamização das atividades, quando des da ALOMA. Constata-se, neste sentido, a
perguntadas sobre a razão, elas enfatizaram o necessidade de acompanhamento e controle
receio de contrair dívidas. das atividades desenvolvidas, a fim de viabili-
A casa de comercialização, localizada na zar a avaliação sistêmica das atividades.
comunidade do Maruanum, ficou cerca de qua- A renda média mensal informada pelas
tro anos emprestada para a Polícia Militar do louceiras com a comercialização das cerâmi-
Estado, tendo sido devolvida para a Associação cas, em geral, é inferior a um salário mínimo,
há menos de um ano, de acordo com as lou- sendo que os instrumentos de trabalho são pró-
ceiras. Estas ressaltam que a casa necessita de prios de cada artesã. Importa mencionar que as
reformas, pois encontra-se em estado precário. artesãs complementam sua renda com a agri-
Buscou-se compreender também com este cultura familiar.
estudo os principais avanços e desafios da ALO- Ao serem questionadas sobre os benefí-
MA enquanto empreendimento econômico-soli- cios e garantias das associadas, as artesãs res-
dário, dentre os quais destacou-se o seguinte: ponderam que não detêm nenhum benefício so-
cial, como licenças ou Previdência Social.
5.4.3 Avanços alcançados pelo empreen- Ao serem perguntadas sobre as dificulda-
dimento des apresentadas nos serviços, as quatro sócias
entrevistadas e também a presidente da Asso-
Ao serem questionadas sobre os resul- ciação apontaram as dificuldades para a extra-
tados da atividade, as artesãs destacaram que ção do caripé, que está cada vez mais escasso
a renda alcançada com a comercialização do na região, e ainda destacaram a dificuldade em
artesanato é a principal fonte de recursos das conseguir transporte para a exposição das cerâ-
sócias, sendo que as quatro associadas, assim micas em feiras. Esta última questão apresenta-
como a presidente da Associação, afirmaram -se como uma demanda do Estado, geralmente
que a renda obtida pela atividade é suficiente o transporte das cerâmicas para exposição de
para pagar as dívidas, sem, no entanto, restar feiras é uma ação assumida pela SETE.
nenhuma sobra. Com relação aos desafios a serem en-
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AUTORES | Kátia Paulino dos Santos 59
frentados pela ALOMA, as louceiras enfatizam do Estado no que diz respeito à organização de
que a gestão atual da Associação necessita ser feiras e transporte das louceiras e suas cerâmi-
mais participativa e atuante, de forma a viabili- cas, assim como a exposição e comercialização
zar a dinamização das atividades. da cerâmica produzida no espaço da Casa do
A produção realizada pelas louceiras, Artesão (espaço do Governo do Estado), sendo
além da dimensão econômica, possui uma im- que sem tais incentivos, as artesãs diminuiriam
portante expressão cultural, uma vez que ex- substancialmente suas vendas, e consequente-
pressa mitos, saberes e reforça a identidade das mente, seus recursos, assim como a visibilidade
artesãs e da comunidade do Maruanum. Veri- de seus produtos.
ficou-se neste estudo que a atividade já possui Nesse sentido, conclui-se que, mesmo
uma notória visualização social, tanto por parte com aspectos a serem melhorados, podendo
do Estado e de organizações não-governamen- ser enfatizados o assessoramento e acompa-
tais, como por parte da sociedade amapaense. nhamento das atividades, bem como orientação
Há de ser destacado que a produção das previdenciária, a política de fomento à Associa-
mulheres louceiras da ALOMA não necessitam ção das Mulheres do Maruanum é relativamen-
de investimentos financeiros elevados, uma vez te efetiva, uma vez que o Estado tem auxiliado
que o material utilizado é buscado na natureza, na exposição e comercialização da produção,
seguindo um ritual tradicional. Observa-se ain- e ainda subsidiado o transporte que garante a
da que as artesãs, em grande maioria, enfatiza- participação das louceiras em feiras, as quais,
ram que com a renda da atividade conseguem na grande maioria das vezes, são também orga-
pagar suas despesas (as quais não são obtidas nizadas pelo Governo do Estado.
em função do empreendimento), mesmo sem No entanto, há de ser observado que há
sobras, o que viabilizou a análise de que a ati- muito a melhorar com relação à política de fo-
vidade é satisfatória, mesmo com importantes mento, uma vez que o Estado possui um apa-
fomentos a serem realizados para sua dinami- rato de serviços que tem o potencial de elevar
zação, uma vez que estão conseguindo alcançar substancialmente a realidade da Associação,
renda com a atividade, que em regra, é a maior seja por meio de cursos de capacitação voltados
ou a única fonte de renda das artesãs. à gestão de negócios, e a valorização da pro-
Ao se avaliarem os reflexos da política dução, como técnicas de embalagens, seja com
de fomento à economia solidária junto à ALO- assessoramento e/ou acompanhamento das
MA, observou-se que embora a atividade tenha atividades, e de suporte científico e ambiental
um notório reconhecimento social e cultural, para a resolução da problemática do caripé, ou
com relação à atuação governamental e suas ainda com viabilização de financiamento para
formas de fomento, alcançaram-se algumas li- investimento na associação e em sua estrutura
nhas de reflexão; por ocasião da pesquisa, as de trabalho.
louceiras afirmaram que, na atualidade, estas Verificou-se também ser a questão pre-
não possuem o acompanhamento e/ou o asses- videnciária um grande problema, uma vez
soramento das atividades por parte de qualquer que as mulheres do Maruanum não possuem
órgão estatal, o que certamente chama a aten- instruções suficientes para acessar direitos
ção, uma vez que na estrutura de governo há disponíveis, como licença-maternidade, ou
órgãos que deveriam cumprir tal função, como mesmo aposentadorias, sendo que nenhuma
a Secretaria de Estado do Trabalho e Empre- das cinco mulheres entrevistadas, incluindo a
endedorismo (SETE) e a Secretaria de Estado presidente da Associação, é contemplada com
da Cultura (SECULT), no âmbito estadual, e programas governamentais de renda mínima,
ainda a Superintendência Regional de Traba- mesmo sendo explícitas as privações financei-
lho e Emprego (SRTE), em âmbito federal. Por ras em que se encontram.
outro lado, verificou-se que existe o fomento As cerâmicas das mulheres do Maru-
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60 ARTIGOS | Associação de Mulheres Louceiras do Maruanum (Aloma): tradição e economia solidária no Estado do Amapá – Amazônia - Brasil
anum, como são popularmente conhecidas as casa na Comunidade do Maruanum, pela pre-
louceiras, além de representar uma bela e impor- feitura município de Macapá, para a realização
tante forma de expressão cultural, representam da exposição de suas louças, a qual ficou mais
a viabilidade da economia solidária no Estado de dois anos cedida para a Polícia Militar do
do Amapá, por meio da valorização dos saberes, Estado, sem ser utilizada pela Associação.
do incentivo à cooperação, da preocupação e do As louceiras enfatizaram que há mui-
respeito com o meio ambiente, e ainda da pos- to tempo não recebem nenhuma assistência,
sibilidade de autogestão por comunidades tra- orientação ou capacitação por parte de enti-
dicionais. Essa cultura deve ser valorizada, res- dades governamentais, ou por parte do Fórum
peitada e fomentada pelo Estado, e em especial, Estadual de Economia Solidária (FAES), res-
pelos órgãos executores de políticas públicas de saltando que poderiam dinamizar o escoamento
fomento à economia solidária. de seus produtos se tivessem tal suporte. Em
função desta realidade, avaliou-se que as po-
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS líticas de fomento à economia solidária junto
à ALOMA são parcialmente efetivas, conside-
A economia solidária tem adotado im- rando que as políticas de fomento poderiam ser
portantes contornos em vários países do mun- substancialmente mais amplas, o que certamen-
do, afirmando-se como uma alternativa cada te elevaria a capacidade de produção, o esco-
vez mais consistente à economia capitalista. No amento dos produtos, e, consequentemente, a
Brasil, as políticas públicas de fomento à eco- renda das louceiras.
nomia solidária deram um salto significativo na Mesmo diante das fragilidades relativas
última década. Um grande fator de contribuição às políticas públicas, constatou-se que a As-
foi a implementação da Secretaria Nacional de sociação tem sido benéfica às associadas, uma
Economia Solidária em 2003, criada no início vez que a maioria das louceiras mencionaram
da gestão do Governo Lula. que a renda alcançada com a comercialização
Este estudo delimitou como campo de das cerâmicas tem sido suficiente para o custeio
estudo a Associação de Mulheres Louceiras do das suas despesas pessoais, as quais, em regra,
Maruanum (ALOMA), localizada no extremo não estão vinculadas ao empreendimento, uma
Norte do Brasil, o Estado do Amapá, onde se vez que o investimento para o negócio é muito
buscou identificar os fomentos recebidos pelos baixo, em razão de os insumos serem extraídos
órgãos estaduais e seus reflexos no cotidiano diretamente da natureza. Algumas louceiras
das mulheres associadas. Identificou-se a ne- mencionaram ainda a sobra de recursos para
cessidade de reestruturação nos formatos de outros investimentos, o que leva a crer, em uma
gestão das políticas de fomento por parte dos análise estritamente financeira, que o empre-
órgãos governamentais do Estado do Amapá, os endimento econômico solidário tem alcançado
quais deveriam funcionar de forma harmônica êxito quanto ao retorno.
e articulada; mas, ao contrário disso, atuam de Ressalta-se ainda, que as políticas de
forma isolada e sem comunicação efetiva entre fomento à economia solidária esbarram numa
si, prejudicando a qualidade e a quantidade dos problemática comum às outras políticas públi-
serviços ofertados, o que fora constatado pelas cas, à falta de articulação e integração entre si,
entrevistas realizadas. muitas vezes impulsionadas por problemas de
Verificou-se que a ALOMA recebe apoio comunicação, por falta de percepção da atua-
do Estado no que se refere ao transporte para ção do Estado como um complexo de vários
feiras, e ainda para a exposição de suas peças serviços, os quais necessitam funcionar de for-
na Casa do Artesão, espaço público vinculado ma harmônica e equilibrada, e ainda a alta rota-
ao Governo. O empreendimento foi também tividade de cargos e funções estratégicas.
fomentado por meio da viabilização de uma Restou claro nesta pesquisa que os ór-
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 47-63, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Kátia Paulino dos Santos 61
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 47-63, jul./dez. 2016
62 ARTIGOS | Associação de Mulheres Louceiras do Maruanum (Aloma): tradição e economia solidária no Estado do Amapá – Amazônia - Brasil
Palabras clave: Economía solidaria. Política FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de. Ter-
Pública. Asociación de Mujeres Loceras del ceiro setor, economia social, economia soli-
Maruanum. dária e economia popular: traçando fronteiras
conceituais. Bahia Análise & Dados, Salva-
1 Total de pessoas que trabalharam ou que não traba- dor, v. 2, n. 1, p. 9-19, jun. 2002.
lharam nos últimos 7 dias, e procuraram trabalho nos
últimos 30 dias (Censo Demográfico e a Pesquisa por
Amostra Domiciliar – PNAD, do Instituto Brasileiro GAIGER, Luiz Inácio. A outra racionalidade
de Geografia e Estatística – IBGE). da economia solidária: conclusões do primeiro
2 Nomenclatura amazônica utilizada para denominar as Mapeamento Nacional no Brasil. Revista Crí-
comunidades ou pessoas que moram às margens dos tica de Ciências Sociais, Coimbra, v. 79, p. 57-
rios.
3 Atividade comum em comunidades ribeirinhas e cida-
77, dez. 2007.
des pequenas com pouca estrutura de hospitais, na qual
mulheres com saberes tradicionais fazem o acompa- ______. Antecedentes e expressões atuais da
nhamento das gestantes e auxiliam ou realizam o parto, Economia Solidária. Revista Crítica de Ci-
com métodos alternativos aos das clínicas médicas.
ências Sociais, Coimbra, v. 84, p. 81-99, mar.
2009. Disponível em: <[Link]
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Acesso em: 25 mar. 2014.
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o principal evento folclórico do Estado. 2013. de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
Disponível em: <[Link]
site/paginas/historia/[Link]>. Acesso GOERCK, Caroline. Programa de economia
em: 20 fev. 2015. solidária em desenvolvimento: sua contri-
buição para a viabilidade das experiências co-
ARAÚJO, Cidália et al. Estudo de caso. 2008. letivas de geração de trabalho e renda no Rio
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BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investi- Sul, 2009. Disponível em: <[Link]
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R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 47-63, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Kátia Paulino dos Santos 63
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 47-63, jul./dez. 2016
64 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p64-81.2016
ARTIGOS
RESUMO
1 INTRODUÇÃO
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 64-81, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Andriele Pinto de Amorim | Milena Cirino Capelo 65
ridade, nesse contexto, favorece a reflexão so- brio entre a atuação externa e interna.
bre a percepção do homem no trabalho, culmi- Neste sentido, este estudo consiste em
nando no aprofundamento da importância e da responder: como a gestão de pessoas de uma
valorização do capital humano; amadurecendo, construtora de Fortaleza pode contribuir para a
assim, a visão da produtividade humana para promoção da Responsabilidade Social Interna?
além dos aspectos metodológicos e estruturais, Em geral, pretende-se: identificar como
propostos por escolas anteriores. a gestão de pessoas de uma empresa pode con-
Desse modo, o entendimento da relação tribuir para a promoção da Responsabilidade
da empresa com a sociedade tem-se tornado Social Interna a partir do estudo na Empresa C.
pertinente, dada a necessidade de um comporta- Rolim Engenharia Ltda. De forma específica,
mento ético nos negócios. Nas últimas décadas, intenta-se:
a temática do desenvolvimento sustentável tem a) entender o processo da implantação
influenciado as empresas a investir em práticas da cultura de Responsabilidade So-
de responsabilidade socioambiental. Assim, o cial Interna (RSI) na empresa;
conceito de responsabilidade social tem sido b) identificar qual a importância da RSI
frequente nos estudo das organizações. Atu- para a gestão de pessoas;
almente, o entendimento do papel social das c) identificar a percepção da Responsa-
empresas avança para além da criação de em- bilidade Social Interna (RSI) nos três
pregos e da adoção de ações filantrópicas, mas, níveis hierárquicos da empresa e;
e considera-se como responsabilidade empre- d) verificar o conhecimento dos colabo-
sarial a criação de valor para todos os agentes radores sobre as práticas de responsa-
da cadeia produtiva de uma organização. bilidade social interna.
Nesse debate, a percepção dos colabora-
dores dentro das práticas e das estratégias de 2 EMPRESAS E SOCIEDADE
responsabilidade social tem-se tornado per-
tinente. Em razão disso, a Gestão de Pessoas Uma organização é um sistema social
(identificada neste estudo como GP) setor que complexo que interage com o meio, utilizan-
tem sido considerado central para o desempe- do seus vários recursos para a consecução
nho estratégico das empresas, deve visionar a de objetivos (AMBONI; ANDRADE, 2011).
responsabilidade social (identificada neste es- Neste processo, diversos agentes dialogam na
tudo como RS), sobretudo na transformação relação empresa-sociedade. O termo inglês
da visão empresarial para a importância da res- stakeholders pode definir os diversos grupos
ponsabilidade social interna (doravante deno- interessados nos resultados das atividades de
minada de RSI). uma empresa, o que expressa o caráter missio-
Longe de ser uma função restrita à GP, nário das organizações na sociedade (HILL;
a atuação das empresas em Responsabilidade JONES, 2013).
Social Interna é o desdobramento de valores, Por um lado, a “sociedade organizacio-
como a sustentabilidade, para o público inter- nal” chama a atenção para a necessidade de a
no. Essas práticas visam à promoção da me- gestão empresarial perceber a sociedade em
lhoria da qualidade de vida e bem-estar social. suas decisões, visto que elas impactam a qua-
Logo, além da atenção dos profissionais de GP lidade de vida em sociedade (MAXIMIANO,
para a inserção dos princípios de RSI em seus 2012). Por outro, o impacto das mudanças da
processos, considera-se essencial a existência sociedade nas organizações deve transformar
de uma sinergia organizacional a fim de promo- a mentalidade empresarial, considerando que
vê-la. Dessa forma, a visão estratégica da RS e essas mudanças são fundamentais para a conti-
o alinhamento das práticas gerenciais têm sido nuidade dos negócios (DIAS, 2012).
pontuados como um canalizador para o equilí- Dessa forma, diversas mudanças têm
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ocorrido na percepção dos clientes, pois eles JAZEIRAS, 2012, p. 134), diversos modos de
esperam que as empresas sejam éticas (AN- pensar a RSE são apontados na literatura.
DRADE; TACHIZAWA, 2012). Em vista dis- Moraes et al. (2010) usam o termo “re-
so, entende-se que é crucial o levantamento das lacionamento ético da empresa”, envolvendo
perspectivas desse grupo, pois, entre as percep- todos os grupos que são interessados na atua-
ções, pode-se elencar a questão da reputação ção empresarial e que podem impactar ou se-
da empresa em relação ao meio ambiente e às rem afetados por ela, incluindo, ainda, o meio
condições de trabalho de funcionários. ambiente. Eles consideram a “ação social”
Portanto, a relação ética das empresas como uma forma de atuação de responsabili-
com seus diversos públicos pode ser vista como dade empresarial.
a garantia de um crescimento sustentável. No Para Morais et al. (2010), os termos
entanto, as empresas, enquanto dependentes de “ação social”, “cidadania empresarial” e “res-
recursos importantes da sociedade, são influen- ponsabilidade social” se relacionam, e o en-
ciadas por dificuldades como o baixo nível de tendimento sobre eles pode mudar de país para
educação e violência (MENDES, 2012). De país. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ter-
forma direta ou indireta, fatores como educa- mo “ação social” é mais utilizado ao se referir
ção, saúde e violência podem-se tornar entra- a atividades que não se relacionam diretamente
ves para a gestão empresarial. à atividade-fim da empresa e que têm por obje-
Na ação empresarial, esses entraves, tivo a atuação no entorno dela, buscando como
como a questão educacional e social, condu- finalidade propiciar uma boa imagem empresa-
zem ao entendimento sobre o papel das empre- rial. Para os europeus, “cidadania corporativa”
sas para o desenvolvimento sustentável. Esse e RS são facilmente interligadas; são quase si-
termo surge como resultado de um movimen- nônimos (DIAS, 2012).
to da própria sociedade em relação à reflexão No Brasil, o entendimento da RS se
acerca da necessidade de se repensar o modelo aproxima da ação social empresarial, sendo
tradicional de desenvolvimento (WECD, 1987 fortemente reflexo da ideia incapacitante do go-
apud CLARO; CLARO; AMÂNCIO, 2008). verno em resolver todas as demandas sociais.
Clegg, Kornberger e Pitsis (2011) decla- Portanto, caberia às empresas a atuação em pro-
ram que a busca por uma postura ética é um jetos de cunho social. Essas disparidades entre
desafio da gestão moderna, em que a ideia de a concepção do que venha a ser RS recebe in-
sustentabilidade migra da ideia puramente fi- fluência do contexto no qual elas surgem, bem
nanceira para um viés ambiental e social. Com- como recebe influência das características dos
preende-se, então, que “a empresa do futuro de- diferentes setores de negócios. Logo, em países
verá estar mais comprometida com a sua missão com a predominância de problemas sociais, a
transcendente, criando e mantendo uma cultura RS se configura, geralmente, em ações sociais.
e valores que sejam a base de sua rentabilidade e Porém, se for analisado sob o ponto de vista
compromisso social” (SOTO, 2011, p. 233). de impacto das atividades no meio ambiente
em setores com alto índice de degradação am-
3 RESPONSABILIDADE SOCIAL EM- biental, haverá a predominância de projetos de
PRESARIAL (RSE) cunho ambiental (OLIVEIRA, 2013).
Responsabilidade Social Corporativa
Na perspectiva de organização susten- (RSC) também é elencada na visão de ou-
tável em que a organização é aquela “[...] que tros autores que fazem a integração entre as
procura incorporar os conceitos e objetivos re- variáveis ambiental, social e econômica. Eles
lacionados com o desenvolvimento sustentável consideram que, ao fazerem essa integração,
nas suas práticas e políticas de modo consisten- a empresa se baseia nas metas de desenvol-
te” (BARBIERI, 2007 apud BARBIERI; CA- vimento sustentável (CLEGG; KORNBER-
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68 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
preocupação com a saúde e segurança do tra- dentro de uma estrutura, mesmo que seja fun-
balho; compromisso com o desenvolvimento ção prioritária para o setor o desenvolvimento
pessoal e profissional do colaborador e política de políticas. Para as empresas modernas, essa
clara de plano de carreira. responsabilidade deve estar inserida nos de-
A perspectiva do público interno nas mais órgãos como reflexo da inserção da GP na
organizações é incluída também nas diretrizes estratégia das empresas. Logo, cuidar das pes-
de relatórios de sustentabilidade como o Glo- soas deve ser uma “responsabilidade comparti-
bal Reporting Initiative (GRI), que abrange as lhada” (RÉ; RÉ, 2010, p. 82).
dimensões econômica, ambiental e social. No Esse alinhamento entre a GP e a estra-
relatório, as empresas devem apresentar sua tégia de negócio é pontuado por Ulrich et al.
forma de gestão em relação a seu público in- (2011) como um dos pontos fundamentais para
terno, em relação a aspectos trabalhistas, como a “transformação do RH”, os quais exprimem a
a existência de trabalho decente, igualdade de ideia de que hoje há necessidade de os gesto-
salários etc. (GLOBAL REPORTING INITIA- res de pessoas irem além do conhecimento do
TIVE, 2015). negócio da empresa. Eles devem também saber
quais as expectativas dos stakeholders da orga-
5 GESTÃO DE PESSOAS E RESPON- nização e relacionar suas práticas a elas.
SABILIDADE SOCIAL INTERNA Marras (2012) faz um resumo da evolu-
ção do gerenciamento de pessoas nas organiza-
A evolução da administração revela ções, ressaltando que as transformações ocor-
como as organizações passaram por um pro- ridas demandam um novo perfil daqueles que
cesso de adaptação no que tange às suas novas se encontram responsáveis por essa área nas
formas de gestão. Essas mudanças permitiram empresas. A fase legalista estava centralizada
a criação de uma “nova organização” que sur- na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT),
girá devido à insatisfação com os antigos for- em que predominava a habilidade da empresa
matos de organizações. As críticas à extrema em lidar com leis e conhecimentos de direito,
burocracia permitiram a migração das formas bem como havia pouca relação do gestor com
mecanicistas, marcadas pela hierarquia, cen- as estratégias e pouca importância era dada aos
tralização de decisões e papéis especializados, aspectos sociais e psicológicos do trabalhador.
para a forma orgânica, que é caracterizada Na fase tecnicista, compreendida entre 1950 e
pela descentralização e flexibilidade. Nesta 1965, surge a administração de pessoal marca-
última, a perspectiva de trabalho nas organiza- da por uma leve visão humanista que prioriza,
ções também se transforma de forma notável além dos aspectos legais, os programas de trei-
(CHILD, 2012). namento e o desenvolvimento de pessoas.
Dessa forma, a GP se transforma na me- Em seguida, uma nova perspectiva sur-
dida em que o modelo das organizações muda. giu devido à necessidade de profissionais que
Para Gil (2001), a GP, na gestão contemporâ- tivessem uma visão sistêmica da empresa. Essa
nea, parte da visão das pessoas como coope- fase é denominada de administrativa, pois, de-
radoras das empresas e capazes de gerar uma mandava-se um profissional com habilidades de
sinergia para o alcance de objetivos, tanto no negociação tendo em vista o surgimento dos mo-
nível organizacional quanto no nível pessoal, o vimentos sindicais. A empresa tinha a responsa-
que torna evidente a evolução da administração bilidade de atender às exigências de uma parcela
de pessoal para a gestão estratégica de pessoas significativa da sociedade por meio de uma boa
no final do século XX. relação com os trabalhadores. Após 1985, o en-
Uma visão mais aprofundada considera tendimento das pessoas como “parceiras” foi-se
uma percepção sistêmica do gerenciamento de solidificando, e a visão de um gestor mais hu-
pessoas não se limitar ao setor específico de GP manizado, com visão geral de negócio na fase
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estratégica foi, de fato, revolucionária para a movidos por ela (MORAES et al., 2010).
transformação da gestão de pessoas. Essa mudança em torno da percepção do
Tornar o ambiente de trabalho propício valor dos stakeholders internos, para Mostar-
a essas mudanças, sobretudo na construção de deiro (2010), pode ser compreendida por sua
uma “nova cultura” que transpõe a estrutura relevância no processo da gestão da RS. Em-
enrijecida, predominante no período fordista e bora esse fato seja relativamente novo para as
taylorista, requer das empresas um olhar para empresas, considera-se a inter-relação entre
aspectos como a liderança. Esta liderança deve gestão a GP e a RS um requisito importante
ser capaz de “construir” essa cultura, tendo em para seu fortalecimento. É importante notar que
vista que as estruturas organizacionais se tor- o público interno é um dos grupos mais referi-
nam cada vez mais enxutas. Dessa forma, di- dos ao se falar em RS, como no caso do Brasil,
versos processos se tornaram de imensa impor- por exemplo.
tância na relação das pessoas na organização Essa prioridade também pode ser com-
(SOTO, 2011). provada pela importância dada pelo Instituto
Compreende-se, então, que as práticas Ethos aos parceiros internos, em que esse re-
de cunho social desenvolvidas pelas empresas quisito detém o maior número de indicadores
afetarão diretamente os trabalhadores por meio da ferramenta de avaliação da Instituição.
de investimentos ligados à GP, pois podem ge- Compreende-se, também, que o setor tem par-
rar benefícios como a promoção de cuidados ticipação decisiva neste intento, pois geral-
com a saúde, bem como a segurança do traba- mente corresponde a uma área que apresenta
lho (DIAS, 2012). A GP seria, então, um canal uma estrutura formal dentro da empresa com
capaz de promover a inserção da RS na cultura orçamento formal, e sua institucionalização
das empresas por estarem mais próximas da re- pode ser um forte fator político para a promo-
alidade do ser humano e das demandas sociais ção da RS.
no seio da organização. Ainda na visão de Mostardeiro (2010),
Logo, com o avanço da percepção das o gestor da área de gestão de pessoas tem um
empresas para temas como a sustentabilidade, importante papel para a consolidação da RSE
torna-se cada vez mais clara a ideia de que a e, em contrapartida, o setor tem cada vez mais
GP tem um papel-chave para a sustentabilidade percebido a proposta da atuação social das or-
empresarial, sendo pertinente a implantação de ganizações como uma oportunidade para seu
práticas sustentáveis em seus processos. Ao es- fortalecimento.
colher a sustentabilidade como canal entre em- Conforme Moraes et al. (2010), a gênese
presa e colaboradores, a gestão de pessoas pode da responsabilidade social empresarial se deu
contribuir para o desenvolvimento sustentável no ambiente interno das empresas, no qual as
das organizações e da sociedade. No entanto, questões relacionadas às condições de trabalho
para que isso se torne efetivo, é necessário que humano poderiam ser criticadas e repensadas,
as estratégias sustentáveis nas empresas saiam tornando, assim, a RSI um fundamento para o
do âmbito de práticas tradicionais, como a re- alargamento das fronteiras organizacionais na
dução de impactos ambientais, e adentre tam- interação com a Responsabilidade Social Ex-
bém no relacionamento da empresa com as pes- terna. Essa prioridade com o público interno é
soas dentro e fora de seu ambiente (EHNERT; altamente pertinente ao se falar na atuação éti-
HARRY; ZINK, 2014). ca das empresas, deixando inconcebível que a
Nesse sentido, a GP deve propor, den- atuação externa se torne apenas um meio para a
tro da relação organização-funcionário, a re- promoção de uma boa imagem empresarial en-
alização de metas que justifiquem, de fato, a quanto pouco se promove o bem-estar interno.
importância da RSI por meio de ações que são Dessa forma, entende-se, pela visão de
originárias de planos de desenvolvimento pro- Moraes et al. (2010), que o compromisso com
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a RSI se torna um fundamento para que as lim Engenharia. A escolha da amostra qualita-
empresas possam alargar suas fronteiras e en- tiva foi feita de forma intencional, guiada por
gajar-se com os agentes externos. Para isso, é três propósitos que estão relacionados às carac-
necessária uma atuação social equilibrada entre terísticas deste estudo: a obtenção de uma visão
o público interno e o externo, e os benefícios estratégica sobre o tema da pesquisa, a análise
como imagem empresarial, status, reconheci- dele por um especialista e a percepção das prá-
mento, ganhos econômicos poderão ser resul- ticas da empresa de RSI por meio da visão dos
tados desse engajamento social. colaboradores. Foram selecionados para entre-
A importância do engajamento da gestão vistas individuais a diretora da empresa, a Ges-
de pessoas nas empresas para a responsabilida- tão de Pessoas, um supervisor de obras e um
de social é pontuado por Aubé e Morin (2009). grupo de seis colaboradores que participaram
Para eles, os gestores têm a responsabilidade de de um “grupo focal”.
assegurar o futuro dos funcionários e das gera- Na fase de coleta de dados, foram utiliza-
ções atuais e futuras. Dessa forma, os gestores dos como instrumentos: consulta a documentos
de organizações estão entre as pessoas mais e publicações da empresa, além de entrevistas
bem qualificadas para propor soluções para as individuais e técnica de grupo focal. Inicialmen-
preocupações sociais por lidarem com as ques- te, foram analisadas duas publicações cedidas
tões humanas. pela empresa; em seguida, foram iniciadas as en-
Pode-se concluir que tanto a concretiza- trevistas semiestruturadas com três níveis hierár-
ção de práticas de RS quanto às práticas moder- quicos da empresa, a saber: gerência 1 (diretora
nas de Gestão de Pessoas estão estritamente li- comercial e marketing); gerência 2 (gestora de
gadas e se relacionam na geração de mudanças pessoas); gerência 3 (supervisor de obras).
no tocante ao gerenciamento das pessoas nas O grupo focal foi realizado com seis
organizações (GOMES; BRITO, 2013). colaboradores em uma unidade produtiva, os
quais atuam nas funções de: pedreiro (E4 e E5),
6 METODOLOGIA DA PESQUISA ajudante de pedreiro (E3), Emassador (E1) e
servente (E2 e E6). Os entrevistados do grupo
O estudo foi realizado na empresa C. focal têm entre 4 meses a 5 anos de empresa
Rolim Engenharia LTDA. Fundada em 1977, e possuem de um a seis filhos. Em relação ao
diversas práticas de gestão ambiental e social estado civil: quatro são casados, um solteiro e
foram implantadas na empresa, incluindo seus um divorciado. O grupo era composto de qua-
processos produtivos por meio da adoção do tro homens e duas mulheres.
lean construction, o qual agrega valor a seus Durante a fase de desenvolvimento do
clientes e colaboradores. grupo focal, foram realizadas perguntas abertas
A natureza desta pesquisa é qualitativa a partir da revisão do estudo de Pinto, Coutinho
(COOPER; SCHINDLER, 2011). Segundo a e Melo (2014), o qual enfoca sete aspectos co-
classificação de Vergara (2013), esta pesquisa é muns aos indicadores de RSI pesquisados por
descritiva, quanto aos fins, e quanto aos meios, esses autores. Observa-se que não foi solicitada
constitui-se em estudo de caso e documental. a identificação nominal dos participantes a fim
Ao responder a uma das características da pes- de se evitar intimidação à participação. Desse
quisa, a profundidade justifica o uso do estudo modo, gerou-se um ambiente de interação entre
de caso, que é reconhecido por áreas diversas participantes e entrevistador.
das ciências sociais ao pretenderem estudar fe- Para a análise qualitativa, foi utilizado o
nômenos sociais complexos (YIN, 2010). método de análise de conteúdo das entrevistas e
Nesse estudo, o universo delimitado é o dos documentos. Segundo Bardin (2011), essa
grupo formado por colaboradores, gerência e técnica representa um conjunto de técnicas de
diretoria, os quais compõem a empresa C. Ro- análise das comunicações que visam à obten-
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ção de conhecimentos relacionados às condi- isso, a edificação das vidas, segundo o presi-
ções de produção de mensagens e sua recepção. dente, volta-se para a busca de “[...] agregar
valor em cada etapa das atividades pertinentes,
7 APRESENTAÇÃO E ANÁLISES DOS motivando o digno exercício da responsabili-
RESULTADOS dade profissional aliada ao socioambiental” (C.
ROLIM ENGENHARIA LTDA, 2014, p. 9).
7.1 ANÁLISE DOCUMENTAL No relatório de gestão da empresa de
2014, aspectos relacionados aos colaborado-
Na fase da análise documental, foram res abrangem cinco dos dez tópicos relevantes
realizadas leituras de dois documentos publica- apresentados no documento, a saber: público
dos pela empresa entre 2013 e 2015. Posterior- interno, saúde e segurança, educação e inova-
mente, foram selecionadas as páginas que se ção, direitos humanos bem como ética e res-
relacionavam à descrição de práticas e projetos ponsabilidade social. Segundo a empresa, as
de RSI e GP. Foi consultada a Coletânea Lean práticas de Gestão de Pessoas e ações para os
& Green (MOURÃO; VALENTE, 2013) e o colaboradores ocorreram efetivamente nos últi-
Relatório de gestão de 2014, baseado no Glo- mos cinco anos anteriores ao relatório.
bal Reporting Iniciative (GRI). A partir das informações descritas nesses
Da análise dos documentos, pôde-se documentos, foram listadas práticas de gestão
compreender que as práticas de responsabili- de pessoas:
dade social voltadas ao público interno fazem a) políticas de benefícios;
parte da visão da empresa de “[...] desenvolver b) assistência médica e odontologia;
um modelo de gestão fortemente fundamenta- c) previdência privada;
do na filosofia da construção enxuta (Sistema d) participação nos resultados e nos lu-
Lean da Qualidade)”, sendo uma de suas pre- cros;
ocupações fundamentais o capital humano, por e) política de treinamentos;
meio da política Life, juntamente à questão am- f) saúde e segurança no trabalho;
biental e à inovação (MOURÃO; VALENTE, Além de aspectos trabalhistas como vis-
2013, p. 154). to acima, a empresa tem proposto projetos que
Dessa forma, a filosofia Lean está base- visam atender necessidades básicas dos cola-
ada na promoção de uma cultura de sustentabi- boradores da base operacional, tendo destaque
lidade na empresa, tendo como marco, segun- os programas “Mutirão do Bem” e o “Projeto
do a construtora, o lançamento do programa ser do Bem”. Ambas as práticas enfocam a pro-
“Compromisso verde” em 2009. Esse progra- moção da qualidade de vida dos colaboradores.
ma envolve ações simultâneas de preservação Entre esses, o programa “Mutirão do Bem” é
ambiental e social, que promovem a criação de reconhecido pela Câmara Brasileira da Cons-
valor para a empresa e o meio ambiente, por trução como um dos melhores programas de
meio da redução de custos e desperdícios, bem responsabilidade social da indústria da constru-
como o bem-estar social e a promoção da res- ção. O programa foi iniciado em 2009 e visa
ponsabilidade social interna, pelas práticas de à melhoria das casas de colaboradores opera-
qualidade de vida, saúde e segurança dos cola- cionais. Ao ser selecionado, o colaborador re-
boradores (MOURÃO; VALENTE, 2013). cebe apoio financeiro, logístico e técnico para
A visão da empresa em relação aos co- a reforma da casa, e o trabalho é realizado por
laboradores é um dos legados de seu fundador, colaboradores que se voluntariam (C. ROLIM
Clovis Rolim, que, segundo as palavras do ENGENHARIA LTDA, 2014).
atual presidente da empresa, foi responsável O “Projeto Ser do Bem” envolve ações
pela implantação do princípio da organização: para a promoção da qualidade de vida e saú-
“construir edificações, edificando vidas”. Para de física e mental por meio de ações de edu-
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72 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
cação ambiental, cuidado da saúde e educação para o fato de a RSI ser um elemento de atração
física. Dessa forma, a empresa promove ações de candidatos a emprego na empresa.
na comunidade e envolve os colaboradores em A RSI na construtora, segundo a gerên-
passeios ciclísticos, campeonatos esportivos e cia 1, dá-se por meio de várias práticas voltadas
educação ambiental (C. ROLIM ENGENHA- para o bem-estar dos colaboradores. Os proje-
RIA LTDA, 2014). tos mencionados pela diretora estão relacio-
nados à promoção da saúde, à educação e ao
7.2 PERCEPÇÃO DA RESPONSABILI- desenvolvimento profissional e à qualidade de
DADE SOCIAL INTERNA (GERÊN- vida dentro e fora do ambiente de trabalho.
CIA 1) A entrevistada ressalta que o compromis-
so em promover a RSI na empresa é percebido
A percepção estratégica da RSI foi cole- por meio de frases que se tornaram um lema para
tada junto à alta administração da empresa, por a gestão da empresa, como exemplo, cita: “Nós
meio de entrevista com uma diretora. A inte- estamos construindo prédio, mas nós estamos
gração da RSI na gestão da empresa se configu- transformando a vida de cada funcionário que
ra como um valor relevante desde o início dos está aqui nessa empresa.” (DIRETORA).
negócios da construtora, segundo a gerência 1. Em relação a isso, menciona que a em-
Segundo a diretora, a imersão da RS nas estra- presa tem promovido ações voltadas para a edu-
tégias da empresa é resultado da interpretação cação dos colaboradores da base operária por
dos valores pessoais dos fundadores e da alta meio do projeto “Letra viva”, o qual fornece a
administração nos negócios da construtora. educação básica e o projeto “biblioteca itine-
Como resultado disso, a motivação para rante” e visa estimular a leitura e a dissemina-
a RSI é baseada em valor pessoal. Foi mencio- ção de informações aos operários no ambiente
nado que a atuação da empresa em ações e pro- de trabalho. Outra preocupação da empresa é
jetos sociais internos e externos não é resultado com a promoção da saúde dos colaboradores,
de questão mercadológica, e, embora a empresa em que a diretora destaca os programas de
tenha uma atuação sólida em projetos de caráter vacinação e doação de sangue, de tratamento
socioambiental, não os utiliza para a promoção da odontológico, e as palestras sobre doenças se-
imagem empresarial por meio de campanhas pu- xualmente transmissíveis e outros assuntos.
blicitárias, e justifica: “[…] A nossa preocupação Outro elemento que compõe a RSI da
maior é realizar e transformar. Se as pessoas vão empresa na percepção da entrevistada é a pre-
ficar sabendo ou não, ótimo, é questão de conse- ocupação com a promoção do bem-estar do
quência de nosso trabalho.” (DIRETORA). colaborador no ambiente de trabalho. Para a
Embora a geração de lucro seja crucial entrevistada, a construtora promove isso ao se
para manter sua força de trabalho, a empresa preocupar com questões relacionadas à alimen-
expõe que a atuação em RS não está condicio- tação, ao fornecer a seus colaboradores uma
nada à possibilidade de ganhos financeiros. alimentação de qualidade, e disponibilizar um
A importância da RSI para a imagem da espaço no canteiro de obra, chamado de “espa-
empresa, junto a seu público interno, se dá na pos- ço do bem”, em que os colaboradores podem
sibilidade de um reconhecimento do agir ético da descansar nos intervalos de trabalho.
empresa internamente. Essa relação se estabele- O Programa “Mutirão do Bem”, projeto
ce, segundo a gerência 1, porque a RSI possibilita premiado nacionalmente pela Câmara brasilei-
uma melhor transparência das ações da empresa ra da indústria da construção (CBIC), em 2014,
que busca sempre agir de forma justa. Outra ob- foi ideia de um gerente da empresa e é um dos
servação feita foi acerca da resolução de conflitos programas de RSI. Sobre ele, a gerência 1 en-
internos e a reparação de problemas gerados por fatiza: “nós saímos desse ambiente e fomos pra
possíveis erros. Além disso, ela chama a atenção casa dele, a gente não se conteve em trabalhar
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74 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
tímulo não só para a atuação interna em RS, ria, por exemplo; e a GP tem-se aplicado a agir
mas também para a sociedade. Segundo ela, de forma coerente em relação aos benefícios
outra forma de promover a cultura da RSI na que são oferecidos.
empresa é por meio de um informativo em Em relação a salário justo, a gestora diz
forma de jornal, o qual é desenvolvido pela que a empresa segue a legislação trabalhista,
área comercial da empresa, em parceria com oferecendo um salário dentro do piso da cons-
a GP, e distribuído trimestralmente, chamado trução civil. E, em busca de promover igual-
“Voz do bem”; ele divulga as ações para os dades, a empresa tem trabalhado na criação de
colaboradores bem como registra marcos im- uma política de plano de cargos e salários para
portante da empresa no período. implantá-lo em um período posterior.
Outra forma de proporcionar a RSI, Para ela, a GP pode garantir esse conhe-
segundo a gestora, é por meio da busca pelo cimento fazendo uso do contato com os co-
bem-estar dos colaboradores no ambiente de laboradores, por meio dos treinamentos e do
trabalho. O “Espaço do Bem” é um espaço momento de integração do colaborador com a
construído dentro dos canteiros de obras, onde empresa. Ela explica que a GP acompanha al-
os colaboradores podem descansar e se entreter guns programas por meio da frequência e in-
nos intervalos de produção. Esse espaço é ide- formações das instituições parceiras, como é o
alizado, juntamente ao planejamento das obras, caso do programa “Letra Viva”, e assim, pro-
e, assim, é inserido seu layout. cura incentivar a participação por meio de mo-
A promoção de informação sobre saúde e mentos de sensibilização no canteiro de obras.
prevenção de doenças faz parte das práticas de GP. Sobre a verificação do grau de conhe-
Para a gestora, a empresa se preocupa em infor- cimento, uso e satisfação dos colaboradores,
mar seu público operacional sobre temas como: a gestora apresentou que há uma dificuldade
doenças sexualmente transmissíveis, drogas etc. desse acompanhamento pelo fato de a RS da
No entendimento da GP, existe uma deficiência empresa abranger uma quantidade conside-
no conhecimento dos colaboradores operacionais rável de atividades, mas informou que existe
acerca desses temas, sendo pertinente a dissemi- um controle quantitativo dos programas. Esse
nação de palestras no canteiro de obras. acompanhamento pode ser feito também por
Na percepção da gestora, a política de meio da parceria com o SESI, que gerencia os
Gestão de Pessoas promove os direitos humanos programas de educação básica e da “Biblioteca
e se preocupa em inserir a RSI no desenvolvi- Itinerante”, que são levados às obras.
mento dos colaboradores. Conforme consta em Em relação à satisfação dos colabora-
uma coletânea da empresa, a política de GP tem dores, sobre os programas, ela acredita que o
como missão “contribuir com o crescimento e índice de rotatividade seja um ótimo indicador
consolidação da empresa no mercado, mediante para identificá-la. Segundo consta no Relatório
desenvolvimento integral de profissionais e pro- de gestão 2014, baseado nas diretrizes do GRI,
moção de qualidade de vida para os colaborado- o turnover dos colaboradores era de 4,77%, e
res” (MOURÃO; VALENTE, 2013, p. 152). os cargos de servente e pedreiro foram os que
Em relação à percepção da diretoria obtiveram maior taxa de rotatividade no perío-
sobre essas ações, segundo ela, a empresa do, o que seria normal em consideração à mé-
está totalmente sensibilizada, tendo-as inseri- dia das empresas da construção. Ressalta, ain-
do fortemente em sua cultura. Por essa razão, da, que, na última pesquisa de clima realizada
demonstra apoio às ideias vindas da GP bem na empresa, o quesito orgulho de trabalhar foi
como se engaja e propõe ações de melhoria acima de 80%; isso aponta que as ações de RSI
para o engajamento da GP em RS. Para a gesto- tem favorecido a percepção dos colaboradores.
ra, a empresa se esforça em atender à legislação
trabalhista, por meio do controle da carga horá-
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A percepção da RSI para a gerência 3 foi coletada junto à supervisão de obras, abrangendo
vários aspectos relacionados no quadro 1. Esses aspectos apontam a percepção do gestor sobre os
sete aspectos da RSI identificados no estudo dos autores Pinto, Coutinho e Melo (2014).
Aspecto Percepção da Gerência 3
Acredita que ela ocorre de forma saudável em todos os níveis hierárquicos da empresa,
envolvendo tanto a resolução de problemas no contexto do trabalho quanto na vida pessoal
dos colaboradores. Ele comenta que, no exercício de seu cargo, geralmente ele tem que lidar
Diálogo com dificuldades dos colaboradores da obra, e que ele procura demonstrar disponibilidade
para tirar dúvidas sobre o desempenho do serviço e também os problemas pessoais. Existe
um esforço da diretoria para que isso aconteça e também dele com o pessoal que lhe
está subordinado ao tentar resolver questões que surgem no canteiro de obras.
Comenta que, na empresa, existe oportunidade para ideias e sugestões. No A3,
ferramenta utilizada pela empresa para a expressão de sugestões, as ideias são descritas
Gestão
e especificadas, mostrando as etapas de como foi feita. Caso seja aceita, ela será
participativa
apresentada, geralmente no Kaizen semanal, e implantada em todas as unidades de obras
da empresa.
Segundo ele, o ambiente de trabalho está relacionado ao planejamento da obra onde é
feito todo o layout do canteiro a fim de proporcionar uma melhor qualidade de vida para o
Ambiente de
trabalhador dentro da obra. Menciona também que existem vários espaços contemplados
trabalho
no projeto de canteiro como o refeitório, o vestiário e o escritório e também o “Espaço
do Bem”.
“O respeito pelos colaboradores é muito bom”. Por abranger uma mão de obra vulnerável
socialmente, o supervisor entende que isso pode levar ao surgimento de casos provocados
pela baixa instrução como, por exemplo, descontentamento com algo ou até mal entendidos,
Respeito
o que demanda da empresa uma habilidade para trabalhar e contornar situações que possam
parecer injustas para alguns funcionários. Porém, a empresa sempre age eticamente,
respeitando as convenções trabalhistas entre outros direitos.
Entre os programas de RSI, o “Mutirão do bem” foi reconhecido como o melhor programa
de responsabilidade social, desenvolvido pela construtora segundo o entrevistado: “Um
programa fantástico que a [Link] criou e que, ao longo dos anos, ela foi melhorando...
Então é uma coisa que abrange todo o operacional... porque é um benefício que não tem
Bem-estar
tamanho.” O supervisor comenta que sempre esteve envolvido na execução do programa.
Ele aponta outros programas da empresa que refletem na família dos colaboradores
como o kit escolar e maternidade, recém-implantados. Para ele, todos esses programas
são formas de agradar ao colaborador e também trazer benefícios para suas famílias.
Saúde e Em relação aos programas da empresa de RS, considerou a questão dos programas de
Segurança do segurança e prevenção de acidentes como essenciais e um assunto vital para a empresa,
trabalho em que os colaboradores são frequentemente treinados.
O supervisor apontou que a empresa tem-se empenhado em treinar e capacitar seus
colaboradores, e que, anualmente, ela oferece treinamentos. Os programas são adequados e
Desenvolvimento satisfatórios, o que lhe proporcionou crescimento profissional durante os vinte anos em que
Pessoal e trabalha na empresa. O supervisor entrou na empresa como contínuo, passando pelos cargos
profissional de motorista, encarregado de produção, supervisor de qualidade até chegar à supervisão de
obras. Durante todo esse tempo, o colaborador obteve capacitação técnica e ingressou na
graduação de Engenharia da produção em 2015.
Quadro 1 - Percepção do Supervisor de obras
Fonte: dados da pesquisa (2016).
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76 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
Após o levantamento sobre a percepção da RSI nos três níveis hierárquicos da empresa, foi
verificado o conhecimento da RSI para o grupo de colaboradores operacionais, seguindo como
referência os princípios comuns aos indicadores de RSI identificados no estudo de Pinto, Couti-
nho e Melo (2014).
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8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
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78 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
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seeks a balance between external and internal ron presentadas por tres niveles jerárquicos de
performance. In this sense, it’s necessary to la empresa y analizadas por un grupo de cola-
reflect on how companies can promote social boradores operacionales. Se constató que existe
responsibility for employees. This study propo- en la organización una fuerte cultura apuntada
ses a reflection about the relationship between a la responsabilidad social y que las prácticas
people management and internal social respon- de gestión de personas son orientadas por sus
sibility, through a qualitative research in a com- principios. La responsabilidad social es, así, un
pany of the construction industry of Ceará. The elemento pertinente para la ventaja competitiva
practices of internal social responsibility were de la empresa.
presented by members of three hierarchical le-
vels of the company and analyzed by a group of Palabras-clave: Responsabilidad social. Res-
operational employees. It was found that there ponsabilidad social interna. Gestión de personas.
is a strong culture in the organization focused
on social responsibility, and that people mana- 1 Este artigo foi originalmente apresentado e premiado
em 1º lugar no XIII Encontro de Iniciação à Pesquisa
gement practices are guided by such principles.
e à Docência e XI Encontro de Pesquisadores da Uni-
Social responsibility is therefore a relevant ele- christus. Disponível em: <[Link]
ment for a firm’s competitive advantage. [Link]/[Link]/encontrocientifico/XIIIencontro-
cientifico/paper/view/588>.
Keywords: Social responsibility. Internal so-
cial responsibility. People management. REFERÊNCIAS
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80 ARTIGOS | Responsabilidade Social Interna: estudo da gestão de pessoas de uma Construtora de Fortaleza
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82 ARTIGOS | Análise do nível de maturidade em gerenciamento de projetos em uma agência de publicidade da região do Cariri
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p82-99.2016
ARTIGOS
RESUMO
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AUTORES | Thiago Bessa Pontes | Valdi Geraldo Teixeira Junior 83
cação e da integração dos seguintes processos -MMGP, deve ser aplicado de maneira setorial,
de gerenciamento de projetos: iniciação, pla- em setores isolados, o que o torna um modelo
nejamento, execução, monitoramento, contro- departamental. Aplica-se o modelo nos setores
le e encerramento. Cabe ao gerente de projeto geralmente onde existe um portfolio de proje-
a responsabilidade de realizar o cumprimento tos renovado periodicamente, e onde geralmen-
dos objetivos do projeto (PROJECT MANA- te há um PMO (Project Management Office).
GEMENT INSTITUTE, 2008). A empresa de publicidade aqui estudada
Segundo Silveira (2008), no Brasil, cada está localizada na região do Cariri. A mesma
vez mais se torna notável que as organizações desenvolve projetos utilizando de forma míni-
buscam a implementação do gerenciamento de ma ou quase nula de ferramentas e técnicas da
projetos, com essa crescente demanda, as orga- gestão de projetos. Com o intuito de identificar
nizações sentem a necessidade de uma maior em qual âmbito se encontra a empresa no as-
compreensão dos benefícios e possibilidades de sunto relacionado a gerenciamento de projetos
aplicação nos negócios, utilizando esse geren- e quais passos seguir para evoluir nesse quesi-
ciamento de projeto como diferencial competi- to, faz-se necessária à análise do nível de matu-
tivo buscando maior sucesso em seus projetos. ridade em gerenciamento de projetos.
Diversos modelos de maturidade para A escolha dessa empresa partiu da cons-
gerenciamento de projetos podem ser encontra- tatação de que na região do cariri cearense há
dos na literatura e em uso em empresas bem um grande déficit de empresas que possuem
estruturadas. Em todos os casos, os modelos modelo organizacional baseado em projetos,
trazem cinco níveis de maturidade, porém pos- elemento crucial para a realização deste estu-
suem diferenças no conteúdo em cada nível. O do; desta forma, essa agência que se instalou
Project Management Institute, em 2003, lançou na região trazendo consigo a ideia de implantar
o seu próprio modelo chamado de OPM3, que gerenciamento de projetos em sua prática, tor-
é projetado para fornecer uma ampla gama de nou-se alvo deste estudo.
benefícios para organizações, gerência sênior e Pretende-se como objetivo geral desse
aqueles envolvidos em atividades de gerencia- estudo de caso analisar o nível atual da matu-
mento de projetos. Alguns dos benefícios deri- ridade em gerenciamento de projetos em uma
vados da utilização de OPM3 são os seguintes: empresa de publicidade localizada na cidade
a) fortalece a ligação entre planejamen- de Juazeiro do Norte-CE na região do cariri.
to estratégico e execução, de modo Para isso, foi estabelecido os seguintes objeti-
que os resultados do projeto são pre- vos específicos:
visíveis, confiáveis, consistentes e a) identificar o nível de maturidade da
correlacionados com o sucesso orga- empresa realizando um estudo com-
nizacional; parativo ao modelo Prado-MMGP;
b) identifica as melhores práticas que b) indicar caminhos a seguir de acordo
apoiam a implementação da estra- com o modelo para evoluir ao nível
tégia organizacional por meio de seguinte.
projetos bem-sucedidos; Esse trabalho está dividido em 5 partes.
Esta primeira tratando-se da introdução do es-
c) identifica as capacidades especí-
tudo realizado. A seguir o referencial teórico
ficas que compõem as Melhores
apresentando o que é um projeto, gerenciamen-
Práticas e as dependências entre to de projeto, o clico de vida e áreas de conhe-
essas Capacidades e Melhores cimento e maturidade em gerenciamento de
Práticas. projetos, e o modelo de maturidade PRADO-
Segundo Prado (2010) o modelo de -MMGP. Seguido da terceira parte com a me-
maturidade adotado desse estudo, o PRADO- todologia adotada. Na quarta parte apresenta-se
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84 ARTIGOS | Análise do nível de maturidade em gerenciamento de projetos em uma agência de publicidade da região do Cariri
o estudo de caso, e por fim, as conclusões e o volvidas no processo são de suma importância
referencial teórico usado como linha de base para a construção do objetivo traçado. Além
para este estudo. disso, ele destaca três fatores relevantes: pra-
zo, custo e qualidade, fatores que perduram du-
2 REFERENCIAL TEÓRICO rante toda a execução de um projeto e torna-se
uma tarefa difícil mantê-los atendidos.
Nesta seção, estão expostos os funda-
mentais conceitos indispensáveis para o enten- 2.2 DEFINIÇÃO DE GERENCIAMEN-
dimento do estudo. Inicialmente, são apresenta- TO DE PROJETOS
dos de forma básica as definições e os conceitos
sobre projeto, gerenciamento de projetos, ciclo Para Cleland e Ireland (2007, p. 15), a
de vida e áreas de conhecimento em gerencia- estrutura conceitual de gerenciamento de pro-
mento de projetos logo em seguida mostrar-se jetos é “um projeto consiste em uma combina-
o assunto maturidade em gerenciamento de ção de recursos organizacionais reunidos para
projetos e um detalhamento sobre o modelo de se criar uma capacidade de desempenho supe-
maturidade utilizado no estudo. rior na formulação e execução de estratégias
organizacionais.”
2.1 DEFINIÇÃO DE PROJETO Cleland e Ireland (2007), ainda falando
sobre principais funções do gerenciamento de
“Um projeto é um esforço temporário projetos, contextualiza que é inserido através
empreendido para criar um produto, serviço ou de um processo fundado nas funções básicas
resultado exclusivo” (PROJECT MANAGE- da administração: planejamento em que acon-
MENT INSTITUTE, 2008, p. 10). tece a produção dos objetivos, metas, e das
No texto acima, a afirmação esforço tem- estratégias para assim acontecer a utilização
porário contextualiza que todo projeto precisa dos recursos necessários. Organização é o
ter início e fim bem definidos e a palavra ex- momento em que ocorre a definição dos re-
clusivo significa que todos os projetos são dife- cursos humanos e não humanos necessários, o
rentes, ou seja, os produtos, serviços ou resul- direcionamento adequado para esses recursos
tados produzidos pelos mesmos, são distintos e a decisão dos papéis individuais e coletivos
de todos os outros gerados anteriormente. Por dos envolvidos diretamente. Motivação é o
exemplo, em dois projetos para construção de processo de estabelecer um método que extrai
uma casa, cada projeto tem sua equipe, com pe- das pessoas o melhor nível na execução das
culiaridades distintas, seus fornecedores, local atividades no projeto. Direção é onde existe
de execução da criação do produto, etc. a presença do gestor que com sua capacidade
Já Menezes (2009, p. 26) conceitua pro- de liderança irá garantir a aplicação das toma-
jeto como “um empreendimento único que deve das de decisões da melhor forma relacionadas
apresentar um início e um fim claramente defi- com o objetivo do projeto. Controle acontece
nidos e que, conduzido por pessoas possa atin- em paralelo com a execução do projeto, nesse
gir seus objetivos respeitando os parâmetros momento é efetuado o monitoramento e con-
de prazo, custo e qualidade.” Nessa definição, trole da utilização de forma correta dos recur-
é possível visualizar informações importantes sos disponíveis e procurar manter o projeto na
além de que o projeto é esforço único com iní- sua linha de base.
cio e fim. O autor enfatiza que é um empreen- Na perspectiva do Guia Project Manage-
dimento, que alguém está investindo em algo ment Institute (2008, p. 8), “O gerenciamento
e que existe um responsável por esse empre- de projetos é a aplicação de conhecimento, ha-
endimento, ou melhor, um gerente de projetos, bilidades, ferramentas e técnicas às atividades
levando em conta também que as pessoas en- do projeto a fim de atender a seus requisitos.”
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AUTORES | Thiago Bessa Pontes | Valdi Geraldo Teixeira Junior 85
Por esse aspecto, gerenciar projetos incide de projeto trata os processos que devem ser rea-
forma organizada e estruturada, tornando aces- lizados, estabelecendo o que precisa ser exe-
síveis suas informações às áreas envolvidas, ao cutado para sua conclusão. Os processos de
mesmo tempo acompanhar por meio de marcos gerenciamento podem ser classificados em cin-
o desempenho dos projetos. co grupos: iniciação, planejamento, execução,
monitoramento/controle e encerramento onde
2.3 CICLO DE VIDA E ÁREAS DE CO- sua execução não segue uma sequência lógica
NHECIMENTO EM GERENCIA- podendo variar de projeto para projeto. (PRO-
MENTO DE PROJETOS JECT MANAGEMENT INSTITUTE, 2008).
A descrição dos cinco grupos de processos
O Ciclo de vida do gerenciamento de um tratados pelo PMBOK é informada no quadro 1:
Os grupos citados acima estão conec- ciclo de vida mais adequado para o seu projeto
tados pelos seus objetivos, para o PMBOK em questão.
(PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE, O Project Management Institute (2008)
2008) não existe uma regra para estabelecer sugere nove áreas de conhecimento: integra-
este ciclo de vida ideal do projeto. Alguns ge- ção, escopo, tempo, custo, qualidade, recursos
rentes de projetos definem regras/políticas que humanos, comunicações, risco e aquisições
normalizam todos os projetos com um único ci- descritos no quadro 2.
clo de vida, enquanto outros podem aderir a um
Área de
Definição
conhecimento
Integração Processos e atividades necessárias para coordenar o gerenciamento de projetos
dentro dos grupos de gerenciamento.
Escopo São processos que garantem que o projeto inclua o trabalho necessário para con-
clui-lo de maneira eficiente.
Tempo São processos que monitoram o prazo e garantem que o projeto será finalizado de
acordo com o planejado.
Custo Garante que o orçamento planejado foi o executado.
Qualidade Abrange processos de organização e políticas de qualidade.
Recursos humanos Inclui as atividades que gerenciam as equipes do projeto. Incluem os stakeholders.
Comunicações Constitui em processos para acompanhar a comunicação do projeto, e garantir que
suas destinações finais das informações sejam coerentes.
Risco Controle do planejamento, tem como finalidade monitorar e reduzir os riscos para
garantir o menor impacto diante de eventos adversos.
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86 ARTIGOS | Análise do nível de maturidade em gerenciamento de projetos em uma agência de publicidade da região do Cariri
Aquisições São processos de compra, sendo estes bens ou serviços, também conhecidos como
gerenciamento de suprimentos ou contratos.
Quadro 2 - Descrição das nove áreas de conhecimento
Fonte: adaptado pelos autores deste trabalho com base em Project Management Institute (2008).
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90 ARTIGOS | Análise do nível de maturidade em gerenciamento de projetos em uma agência de publicidade da região do Cariri
Índice de
Níveis Resumo das características Cenário típico
sucesso
- Nenhuma iniciativa da organização
Desalinhamento
1 - Iniciativas pessoais isoladas Baixo
total
- Resistência à inclusão de uma nova cultura
- Treinamento básico de gerenciamento para os principais
Alinhamento de Alguma
2 envolvidos com projetos
negócios melhoria
- Estabelecimento de uma linguagem comum
- Metodologia desenvolvida, implantada e testada
Alinhamento de Melhoria
3 - Informatização de partes da metodologia
metodologia Acentuada
- Estrutura organizacional implantada
- Treinamento avançado
Alinhamento de
- Alinhamento com os negócios da organização
estratégias Melhoria
-Comparação com benchmarks
4 mais acen-
- Identificação de causas de desvios da meta
Conhecimento do tuada
- Melhorias na metodologia
ambiente
- Relacionamentos humanos eficientes e harmônicos
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3 METODOLOGIA
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92 ARTIGOS | Análise do nível de maturidade em gerenciamento de projetos em uma agência de publicidade da região do Cariri
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AUTORES | Thiago Bessa Pontes | Valdi Geraldo Teixeira Junior 93
Este trabalho tem como objetivo ana- (cinco) profissionais na equipe e a existência de
lisar o nível atual da maturidade em geren- um único líder. Foi utilizada a técnica brains-
ciamento de projetos em uma empresa infra torming no processo de definição as respostas
citada. Para isso foi estabelecido os seguintes que propiciou os resultados obtidos na iden-
objetivos específicos: tificação da maturidade em gerenciamento de
a) identificar o nível de maturidade da projetos da organização. Todos os profissionais
empresa realizando um estudo com- do grupo da organização avaliada são jovens
parativo ao modelo Prado-MMGP. Por com faixa etária entre 20 e 25 anos com exce-
entender que este modelo de maturida- ção do líder, profissionais esses que acumulam
de é o mais indicado para ser analisado, funções nos projetos, pois não existem setores
de fácil identificação e implantação; definidos. A figura 3 abaixo mostra a pontuação
b) indicar caminhos a seguir de acordo de cada nível do questionário.
com o modelo para evoluir ao nível
seguinte, e indicando os seguimentos
para desenvolver o plano de ações
para evolução do nível de maturidade,
utilizando o modelo Prado-MMGP.
Com esse objetivo específico, procu-
ra-se dar um destino prático a este es- Figura 3 - Pontuação dos níveis do questionário
tudo, entregando a empresa estudada Fonte: dados da pesquisa (2014).
como fazer para implantar as melho- Por fim, a nota global da avaliação final
rias e avanços na qualidade dos servi- do nível de maturidade em gerenciamento de
ços prestados. projetos igual a 1.87 leva à interpretação de que
a empresa participante do estudo se enquadra no
4.2 RESULTADOS nível 1 (um) do modelo Prado-MMGP; entretan-
to, podemos observar também que a média está
A aplicação da pesquisa maturidade em quase alcançando o nível de 2 (dois), o que indi-
gerenciamento de projetos utilizando o modelo ca que a mesma já está iniciando as característi-
Prado-MMGP foi efetuada no mês de junho do cas do próximo nível. Abaixo o cálculo:
ano de 2014 visando analisar o nível de maturi- AFM = (100 + total de pontos) / 100
dade e identificar as principais carências antes O quadro abaixo mostra de forma clara o
de apresentar um plano para melhoria e evo- perfil de aderência em cada nível. O nível 2 en-
lução. A empresa em questão atuante no mer- contra-se com 30%, o nível 3 e 4 com aderência
cado de 2012 a 2014, constituísse de apenas 5 de 20% e o nível 5 com 0%.
Nível 2 33
Nível 3 26
Nível 4 28
Nível 5 50
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94 ARTIGOS | Análise do nível de maturidade em gerenciamento de projetos em uma agência de publicidade da região do Cariri
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100 ARTIGOS | O valor do letramento na gênese do contador: uma visão da aprendizagem em Curso de Ciências Contábeis do Ensino Superior
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p100-114.2016
ARTIGOS
RESUMO
1 INTRODUÇÃO
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 100-114, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Francisco Sérgio Souza de Araujo 101
oralmente, menos ainda por meio da escrita, de do Maranhão (UFMA), por meio do qual, dis-
maneira satisfatória, articulada, coesa, coeren- centes ensinaram práticas de custeio a agricul-
te, com argumentação convincente e persuasiva tores rurais de duas cooperativas produtoras
(algo preponderante aos estudos científicos pro- de hortaliças agroecológicas, assinada sua au-
postos nesse nível de ensino). toria por Pedro Mariano Oliveira Mariano da
Impõe-se, nessa situação, debate sobre o Silva, Sheilane Pereira de Sousa e Regysane
letramento, ou, mais apropriadamente, sua la- Botelho C Alves.
cuna na experiência de tais alunos, ou seja, pro- Resulta daí a motivação embrionária
põe-se discussão acerca da vivência deles com para essa investigação, despertando-se o desejo
o universo da leitura e da escrita, observando de se desenvolver pesquisa semelhante sobre
certa trajetória dos mesmos, desde o ensino letramento no Curso de Ciências Contábeis
fundamental até o ensino superior. da IES inquirida, no sentido de obter, dos es-
Pelo revelado acima, declara-se que nes- tudantes do referido curso, respostas sobre se
te artigo expõe-se a divulgação de pesquisa re- o “processo de letramento” deles, na educação
alizada acerca das condições de letramento de básica, ocorreu de maneira satisfatória, e como
estudantes do Curso de Ciências Contábeis de está se dando o “processo de letramento” deles
Instituição do Ensino Superior da rede privada nessa sua formação profissional superior, nesse
de ensino na cidade de Fortaleza (CE). O ponto caso, numa busca mais aprofundada.
de partida para essa investigação foram estudos Embasou, também, essa proposta de in-
analisados a respeito do mesmo tema em outras quirição, além do conhecimento dos projetos de-
duas IES brasileiras, os quais revelaram já ser senvolvidos na FURB e na UFMA, a ciência do
disseminada certa preocupação com a deficiên- pesquisador, a partir de sua cátedra, quanto à de-
cia de letramento em cursos de graduação. ficiência de leitura e escrita de muitos estudantes
Informa-se, então, que a leitura do texto no ensino superior, em decorrência de carências
“O letramento no processo de formação do En- evidenciadas no transcorrer da educação básica.
genheiro Civil”, escrito acadêmico-científico Tendo-se essa base, ao se considerar que
publicado em 2011 na revista Atos de Pesqui- tal estudo poderia apresentar ao pesquisador,
sa em Educação, resultado de pesquisa com curso e IES uma visão mais detalhada e fiel de
base em projeto desenvolvido pelo Programa como anda o “processo de letramento” dos es-
de Pós-Graduação em Educação – PPGE/ME tudantes, a ponto de gerar sugestões e possibi-
– da Fundação Universidade Regional de Blu- lidades de melhoramentos referentes ao tema,
menau (FURB), assinada sua autoria por Otilia entende-se haver imediatos ganhos para os dis-
Lizete de Oliveira Martins Heinig e Guilherme centes e, por meio deles, já formados e em atu-
Ribeiro dos Santos despertou o interesse de se ação no mercado de trabalho, para a sociedade,
buscar conhecimento sobre a existência de es- a partir da atuação de profissionais de Ciências
tudo semelhante em outras áreas do saber no Contábeis com melhor qualidade técnica e mais
ensino superior. amplos conhecimentos, os quais levariam a ela
Vislumbrou-se, então, haver mesmo es- maior segurança e tranquilidade quanto aos trâ-
tudos em outras áreas, como a das Ciências mites que a Contabilidade exige das empresas.
Contábeis, e isso se deu pelo encontro com o Letramento implica aquisição de co-
texto “Adequação linguística da terminologia nhecimentos em leitura e em escrita. O proces-
contábil em uma oficina de custos para agri- so sistematizado que valida sua prática deve ter
cultores rurais: construindo uma cartilha para início desde os primeiros instantes do estudan-
atividade de extensão”, artigo acadêmico pu- te na escola, identificada nesse momento como
blicado em 2013 na Revista Interfaces, resul- aquela pertencente à educação básica. Portanto,
tado de um projeto de extensão do Curso de o estudante, desde principalmente o ensino fun-
Ciências Contábeis da Universidade Federal damental, deve ser bem conduzido a desenvol-
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102 ARTIGOS | O valor do letramento na gênese do contador: uma visão da aprendizagem em Curso de Ciências Contábeis do Ensino Superior
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nos estudos sobre linguagens que envolvem O fenômeno do letramento, então, ex-
o processo de escrita e leitura, tão novo que trapola o mundo da escrita tal qual ele
alguns dicionários ainda não apresentam seu é concebido pelas instituições que se
verbete e seu significado entre os milhares de encarregam de introduzir formalmen-
te os sujeitos no mundo da escrita.
outros registrados. Mas apesar de esse vocábu-
Pode-se afirmar que a escola, a mais
lo não constar de muitos léxicos, estudiosos se importante das agências de letramen-
debruçam ao estudo de seus significados e suas to, preocupa-se, não com o letramen-
implicações nas sociedades. to, prática social, mas com apenas um
Letramento, substantivo masculino, sig- tipo de letramento, a alfabetização, o
nifica “Conjunto de conhecimentos de escrita e processo de aquisição de códigos (al-
leitura adquiridos na escola = ALFABETIZA- fabético, numérico), processo geral-
ÇÃO” e, ainda, “Capacidade de ler e de escrever mente concebido em termos de uma
ou de interpretar o que se escreve = LITERA- competência individual necessária
CIA ≠ ALITERACIA, ILITERACIA”, segundo para o sucesso e promoção na esco-
la. Já outras agências de letramento,
informações encontradas em Priberam (2015),
como a família, a igreja, a rua como
ou seja, letramento implica necessariamente lugar de trabalho, mostram orienta-
“competência” em leitura e em escrita, caracte- ções de letramento muito diferentes.
rística que permitirá ao usuário de uma língua
compreender situações comunicativas diversas, As palavras de Kleiman (1995) deixam
envolvendo as duas habilidades, além de possi- claro o fato de que a preocupação em somente
bilitar-lhe a realização de discursos adequados alfabetizar impossibilita o estudante a outras
a que ele mesmo se faça entendido nos proces- formas importantes de letramento, àquelas que
sos comunicativos nos quais seja o protagonista transitam pelo universo social. Isso implica,
criador das mensagens. em longo prazo, certa consistência de “não co-
Em @ulete digital - Aulete (2015), en- nhecimentos” – uma vez que letrar-se significa,
contramos que letramento é “A condição que entre outras coisas, “ler o mundo” –, caso a si-
se tem, uma vez alfabetizado, de usar a leitura e tuação não seja revertida.
a escrita como meios de adquirir conhecimen- Antecipando debate a ser visto mais
tos, cultura etc., e estes como instrumentos de adiante, limitações em letramento com foco no
aperfeiçoamento individual e social.”, também viés social impossibilitam conhecimentos cuja
que é o “Conjunto de práticas que indicam a repercussão se daria pela formação no ensino
capacidade de uso de vários tipos de material superior, a que se dá atenção aqui. Esse fato,
escrito.” @ulete digital, então, utilizando pa- decerto, redundaria, seguramente, em má for-
lavras diferentes, apresenta significado seme- mação profissional, prejudicando, sobremanei-
lhante ao lido a partir do Dicionário Priberam, ra, a inserção e, quando esta se der, a permanên-
também virtual, o que nos dá a garantia de que cia do profissional em um hoje disputadíssimo
o estudante cujo letramento não acontece terá mercado de trabalho, o fim maior de quem se
muitas dificuldades em sua vivência numa so- gradua em uma IES.
ciedade que exige, cada dia mais, leitura e es- Oliveira (1995, p. 148), reportando gru-
crita. Em outras palavras, letramento implica pos sociais migrantes da zona rural para a área
o homem a sua inserção social. urbana, portanto, reconhecidamente, com dis-
Kleiman (1995, p. 20), em seu texto “O tintas e limitadas condições de letramento, ob-
que é letramento?”, introdutório ao livro Os serva que a maneira como se dá a entrada de
significados do letramento, refletindo a res- pessoas pouco letradas na sociedade é já mar-
peito do tema, porém circunscrevendo-o aos cada pela “exclusão”, posto que aqueles que
estudos nos anos iniciais da escola, declara que: dominam leitura e escrita se supervalorizam
por tal domínio, alijando da sociedade quem
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104 ARTIGOS | O valor do letramento na gênese do contador: uma visão da aprendizagem em Curso de Ciências Contábeis do Ensino Superior
não revela condições semelhantes às deles. que, caso a criança não se alfabetize nem se
O autor deixa claro em suas palavras que “letre” no período normal para que isso aconte-
fazer parte da sociedade hodierna de manei- ça, de acordo com seu amadurecimento, existe
ra digna, cidadã, somente ocorre para aqueles a infeliz e intensa possibilidade de ela não se
cujo letramento se desenvolveu. Nesse caso, letrar jamais, ou, na melhor das hipóteses, le-
deve-se lembrar daquelas pessoas que, além trar-se parcialmente, mas sempre deixando al-
da formação escolar, em seus diversos níveis, guma etapa em aberto nesse processo. Em isso
ainda têm (ou tiveram) acesso a diversas outras acontecendo, o déficit de compreensão do que
possibilidades de formação, ao se incluírem lhe está ao redor será denso e, por isso mesmo,
em igrejas, clubes sociais, cursos de línguas, danoso a ela e à própria sociedade em que vive.
também ao viverem a experiência do direito Heinig e Santos (2011, p. 54) refletem
a cinemas, teatros, viagens entre tantas outras que na sociedade contemporânea, na qual a co-
“agências” de letramento. Deduz-se que os es- municação ocorre por diversos meios, variados
tudantes de uma IES compõem esse grupo de suportes, apenas saber “ler” e “escrever” não
privilegiados. permitirá a um indivíduo sua efetiva participa-
Com a professora e pesquisadora Magda ção como ser social. Então, promover letramen-
Becker Soares (2003, p. 3), uma das estudio- tos múltiplos – nas escolas da educação básica
sas brasileiras que mais pesquisam o assunto, e nas instituições de ensino superior – torna-se
aprende-se que: imprescindível para uma existência melhor.
Admitindo a deficiência profunda de um
[...] ao olharmos historicamente para estudante que sai dos primeiros anos do ensino
as últimas décadas, poderemos obser- fundamental para os outros anos que comple-
var que o termo alfabetização, sempre tam essa etapa de educação formal, não será
entendido de uma forma restrita como difícil entender que ele, com toda a responsa-
aprendizagem do sistema da escrita,
bilidade que a escola e a família podem ter em
foi ampliado. Já não basta aprender a
ler e escrever, é necessário mais que relação a tamanha carência, está “passando” de
isso para ir além da alfabetização fun- um ano escolar para outro sem a devida condi-
cional (denominação dada às pessoas ção para que essas passagens se deem de fato.
que foram alfabetizadas, mas não sa- E todo esse acontecimento se reveste de uma
bem fazer uso da leitura e da escrita). gravidade excelsa, elevadíssima.
O mesmo jornal mais acima referido, na
Essa maneira de pensar da professora foi mesma seção e na mesma edição, repercute, de
revelada pelo Jornal Diário do Grande ABC, Soares (2003, p. 3) que:
em publicação do dia 29 de agosto de 2003, na
seção Diário na Escola – Santo André. Consta- O sentido ampliado da alfabetização,
ta-se com ela que aquele que não se alfabetiza, o letramento, de acordo com Magda,
designa práticas de leitura e escrita.
não se letra, e quem não se letra não possui
A entrada da pessoa no mundo da es-
condições plenas de enfrentar e compreender crita se dá pela aprendizagem de toda
os estudos necessários a sua inserção social. a complexa tecnologia envolvida no
Não se entenda a declaração de Soares como aprendizado do ato de ler e escrever.
algo distante do que afirmaram Kleiman (1995) Além disso, o aluno precisa saber
e Oliveira (1995). fazer uso e envolver-se nas ativida-
As situações apresentadas acima fazem des de leitura e escrita. Ou seja, para
referência explícita ao período de alfabetiza- entrar nesse universo do letramento,
ção, momento em que a criança, de certo modo, ele precisa apropriar-se do hábito
inicia seu letramento de maneira oficial, entre- de buscar um jornal para ler, de fre-
quentar revistarias, livrarias, e com
gue por sua família à educação formal. Ocorre
esse convívio efetivo com a leitura,
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O quinto questionamento é bastante direto e in- ra satisfatória; nenhum declarou que tal processo
daga: “Você se considera uma pessoa letrada?”. tenha ocorrido de maneira insatisfatória. Contu-
O objetivo dessa pergunta, feita logo no início do, semelhante ao que foi informado em relação
do levantamento, foi observar se o aluno tem de ao aprendizado da leitura, 6 estudantes disseram
fato o entendimento sobre o que é letramento, ter desenvolvido a escrita apenas de maneira ra-
mesmo com o texto de apoio que vem no início zoável, 3 do sexo feminino, 3 do sexo masculi-
do questionário, e se iria contradizer-se nas res- no. Essa perspectiva de razoabilidade relativa à
postas seguintes. aquisição da leitura e da escrita informada por
Em sua maioria, os estudantes do tercei- alguns estudantes constitui-se como fato que in-
ro semestre se declararam pessoas letradas – 8 dica ter havido algum problema de letramento
do sexo feminino e 4 do sexo masculino. En- na formação desses estudantes.
tretanto, entre os respondentes desse semestre, Entre os estudantes do quarto semestre,
dois do sexo feminino e três do sexo masculino as perguntas 6 e 7 possibilitaram as seguintes
declararam não serem letrados, enquanto 1 do respostas. Da totalidade dos 23 estudantes-
sexo feminino e 1 do sexo masculino nada in- -respondentes, 8 do sexo feminino e 5 do sexo
formaram a respeito dessa questão. masculino informaram ter sido formados sa-
Dos estudantes-respondentes do quar- tisfatoriamente em leitura, enquanto 4 do sexo
to semestre, 17 declararam-se letrados, 8 do feminino e 5 do sexo masculino declararam
sexo feminino e 9 do sexo masculino. Ainda terem sido formados apenas razoavelmente em
nesse grupo, 4 respondentes do sexo feminino leitura. Além disso, nesse grupo, 1 estudante do
disseram-se pouco letrados, enquanto apenas sexo masculino revelou formação insatisfatória
dois do sexo masculino assim se assumiram. em leitura. Do mesmo grupo, agora se obser-
Da totalidade desse grupo, ninguém assumiu vando o aprendizado em escrita, obtiveram-se
não ser letrado, sendo que todos declararam as seguintes informações: 7 estudantes do sexo
alguma resposta. feminino e 5 do sexo masculino afirmaram que
Em relação aos estudantes-respondentes foram satisfatoriamente instruídos em escrita;
do oitavo semestre, do total de 16, 8 do sexo contudo, 4 estudantes do sexo feminino e 6 do
feminino informaram considerarem-se letra- sexo masculino revelaram formação em escri-
dos, enquanto 7 do sexo masculino disseram ta apenas razoável. Além disso, 1 estudante do
o mesmo. Uma informante se reconheceu não sexo feminino registrou que sua formação em
letrada, enquanto nenhum do sexo masculino escrita foi insatisfatória. Com base nessas in-
assim se assumiu. formações obtidas com os estudantes do quarto
As perguntas seguintes, exatamente a 6 e semestre, confirmando-se que também entre
a 7, indagam como se deu o processo de apren- eles a aquisição da leitura e da escrita não foi
dizagem da leitura e da escrita, respectivamente. plena para todos, compreende-se ter havido al-
Pelas respostas dadas, constatou-se que no ter- gum problema de letramento em sua formação.
ceiro semestre 4 informantes do sexo feminino e Analisando-se as respostas dos estudan-
4 informantes do sexo masculino declararam ter tes do oitavo semestre, constatou-se que, entre
tido um método satisfatório de aprendizagem, aqueles do sexo feminino, 4 declararam ter sido
sem que ninguém tenha dito que sua formação satisfatória sua formação leitora, enquanto 5 re-
como leitor foi insatisfatória. Porém, 7 infor- conheceram formação em leitura apenas razo-
mantes do sexo feminino e 3 do sexo mascu- ável. Já entre os estudantes do sexo masculino,
lino assumiram que seu processo de formação 5 disseram que a formação leitora foi satisfató-
como leitor ocorreu apenas de maneira razoável. ria; no entanto, 2 disseram ter sido apenas ra-
Quanto ao processo de aquisição da escrita, 8 zoável. Em relação ao aprendizado da escrita,
estudantes do sexo feminino e quatro do sexo 8 estudantes-respondentes do sexo feminino
masculino afirmaram que ele ocorreu de manei- declararam ter sido satisfatório, apenas uma
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assumiu ter sido apenas razoável. Quanto aos dimentos de leitura de textos literários se abri-
respondentes do sexo masculino, 4 informaram gam na disciplina denominada Literatura.
que o aprendizado em escrita foi satisfatório, Além disso, tais áreas do conhecimento foram
3 disseram ter sido apenas razoável. Esses da- indicadas pelo fato de se saber que todas elas
dos obtidos junto aos estudantes-respondentes exigem, dos estudantes, muitos momentos de
do oitavo semestre suscitam a ideia de que, leitura e de escrita.
embora a maioria tenha se reconhecido como Conforme se imaginava, as disciplinas
portadora de bons conhecimentos em leitura e Português, História e Literatura foram as mais
em escrita, deve-se atentar para o fato de que assinaladas pelos estudantes-respondentes nos
há quantidade relevante com conhecimentos li- três semestres pesquisados, posto que, de fato,
mitados nas duas modalidades focadas, e isso essas três disciplinas demandam grande quanti-
pode implicar prejuízos de outros conhecimen- dade de atividades de leitura e de escrita. Con-
tos, principalmente na área de formação profis- tudo, chamou a atenção o fato das disciplinas
sional escolhida. Matemática e Ciências terem pouca indicação
Ainda em relação às perguntas 6 e 7 do nas respostas. Esse dado pode sugerir: 1º) que
questionário, é importante salientar que, nos três os estudantes-respondentes tiveram, de fato,
semestres investigados, apenas 1 estudante do inadequada formação de leitura e de escrita nes-
sexo feminino admitiu ter formação insatisfató- sas disciplinas; 2º) que os estudantes-respon-
ria em escrita e 1 estudante do sexo masculino dentes tiveram pelo menos boa formação nas
acusou ter formação leitora em nível insatisfa- disciplinas em apreço, mas, por algum motivo,
tório. Considerando-se o universo pesquisado, não a perceberam e dela não têm consciência.
esse dado se reveste de muita importância para se A disciplina de Geografia ficou em um plano
aferir o processo de letramento dos estudantes no intermediário de indicações; outras disciplinas
curso. Contudo, as outras informações coletadas tiveram indicação baixíssima.
e já apresentadas, apontam para possíveis dificul- Considerando que a melhor formação
dades dos estudantes no aprendizado profissional. profissional superior passa inevitavelmente
Intui-se, então, que há grande possibilidade de es- pelo amadurecimento do estudante de qualquer
ses estudantes não terem boa formação no curso curso – no caso dessa pesquisa o estudante de
em que ora estudam, por apresentarem deficiên- Ciências Contábeis – em suas habilidades em
cias nos aspectos observados. leitura e escrita e, ainda, sabendo que o processo
A pergunta 10 do questionário indagou desenvolvedor dessas habilidades e competên-
sobre em que disciplinas da educação básica cias transcorre por toda a Educação Básica para
houve maior exigência para o processo de aqui- desembocar no Ensino Superior, principiando
sição de leitura e de escrita, sendo indicadas aos com as capacidades leitoras, os estudantes-res-
estudantes-respondentes, a título de referência, pondentes dessa pesquisa foram questionados,
as disciplinas Português, Matemática, Histó- na Pergunta nº 11, da seguinte maneira: Você
ria, Geografia, Literatura, Ciências, além de possui hábitos de leitura?
se possibilitar o espaço “Outras”, no qual pu- Essa pergunta, da maneira direta como
dessem registrar qualquer disciplina cujos pro- foi apresentada, poderia revelar de maneira
cessos aludidos tenham sido evidenciados, de mais profunda a condição leitora dos respon-
acordo com as vivências de cada um. dentes, de acordo com o próprio conhecimento
Considerou-se essa pergunta importante que eles tivessem sobre essa condição. Poderia,
para o questionário, uma vez que as discipli- também, destacar alguma contradição a respei-
nas sugeridas são de muita presença em todos to da competência leitora deles em comparação
os anos da Educação Básica, sendo que, no com respostas anteriores. Ainda, poderia servir
Ensino Médio, as “ciências” se desmembram para pontuar as possibilidades de aquisição de
em disciplinas específicas, enquanto os proce- conhecimento no curso por esse viés.
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112 ARTIGOS | O valor do letramento na gênese do contador: uma visão da aprendizagem em Curso de Ciências Contábeis do Ensino Superior
Assim, analisando-se os dados coleta- “Periódicos acadêmicos”, uma vez que esses
dos a partir das respostas a essa pergunta, ob- materiais são de utilização intensa nas ativida-
servou-se que, entre os estudantes do terceiro des acadêmicas no ensino superior.
semestre, 11 afirmaram possuir hábitos de lei-
tura – 6 do sexo feminino e 5 do sexo mascu- 5 CONCLUSÃO
lino – e 7 afirmaram não possuir esse hábito
– 5 do sexo feminino e 2 do sexo masculino. Os resultados deste estudo são parciais,
Já entre os estudantes do quarto semestre, 18 pois não é possível, nesse momento, fazer uma
informaram possuir hábitos de leitura – 9 do análise geral sobre o letramento do curso de Ci-
sexo feminino e 9 do sexo feminino – e 5 dis- ências Contábeis da IES analisada, visto que a
seram não ter hábito de ler – 3 do sexo femi- pesquisa está em seus primeiros momentos e,
nino e 2 do sexo masculino. Entre os estudan- ainda, pelo fato de o questionário não ter tido
tes-respondentes do grupo do oitavo semestre, aplicação em todos os semestres.
12 responderam ter hábitos de leitura – 6 do Na averiguação realizada, observou-se
sexo feminino e 6 do sexo masculino – e 4 que os estudantes dos semestres investigados
declararam não possuir tal hábito – 3 do sexo tiveram, em sua Educação Básica, boa exposi-
feminino e 1 do sexo masculino. ção a diversos textos, mas possivelmente não
Em tese, a expressividade positiva do nú- obtiveram dessa exposição condições plenas de
mero de estudantes que se declararam leitores se tornarem competentes leitores e produtores
funciona como algo positivo aos estudos acadê- de textos, de forma a terem compreensão mais
micos deles, bem como a sua formação profis- abrangente e crítica sobre a sociedade na qual
sional. No entanto, tal expressividade contrasta estão inseridos e conhecimentos prévios ade-
com as experiências de leitura vividas em sala quados à formação em Ciências Contábeis.
de aula e nas diversas atividades propostas pe- Portanto, é possível, com base na pes-
los professores nas mais variadas disciplinas do quisa até aqui realizada, descartar a hipótese
curso e por eles relatadas. Em outras palavras, de que as dificuldades de letramento no ensi-
a declaração de ser leitor frequente não valida a no superior devam-se exclusivamente a defi-
necessidade de se ter no curso “leitor eficiente” ciências nesse nível de ensino, posto que foi
às demandas do próprio curso. constatado haver deficiências já ocorrentes na
Corrobora essa reflexão as informações Educação Básica.
coletadas na Pergunta 12: “Tendo hábitos de Foi possível notar, ainda, que os estudan-
leitura, indique abaixo em que suportes eles tes, embora em sua maioria tenham se decla-
se confirmam.”. A esse questionamento suge- rado letrados, há limitações em seus aprendi-
riu-se, no questionário, como possibilidades zados em decorrência de deficiências leitoras e
de respostas, os seguintes suportes: a) Jornal de escrita. Ao revelarem, pelas respostas dadas,
de circulação regional; b) Jornal de circulação terem dificuldade no alcance do conhecimento
nacional; Revista de circulação nacional; d) Li- a partir da leitura e produção de textos técnicos,
vros de literatura; e) Livros técnico-acadêmi- informam, mesmo que de forma inconsciente, a
cos; f) Periódicos acadêmicos. É de chamar a necessidade de se implementar, no curso, ações
atenção o fato de apenas 4 estudantes do tercei- que possibilitem a aquisição do conhecimento
ro semestre – 3 do sexo feminino e 1 do sexo necessário à melhor formação profissional. O
masculino –, 8 do quarto semestre – 3 do sexo fato de sinalizarem consciência de que a leitura
feminino e 5 do sexo masculino – e 7 do oitavo e a escrita são importantes no ambiente profis-
semestre – 3 do sexo feminino e 4 do sexo mas- sional do futuro contador é algo a ser valoriza-
culino – terem assinalado “Livros técnico-aca- do nas ações em todas as disciplinas do curso.
dêmicos” como resposta, e apenas 6, de todos Entende-se que esse artigo poderá servir
os inquiridos, terem revelado proximidade com de auxílio para pesquisas e trabalhos futuros,
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uma vez que expõe a importância deste estudo poor Basic Education, which is influencing the
e, com linguagem de fácil compreensão, faz o higher education.
estudante e profissional da Contabilidade al-
cançar maior nível de entendimento do que seja Keywords: Accounting Sciences. Accountant.
Letramento e de sua importância. Accountant formation. Literacy.
Por fim, informa-se ser importante
que novas pesquisas sobre o mesmo tema EL VALOR DE LA
sejam empreendidas no curso, focando gru- ALFABETIZACIÓN EN LA GÉNESIS
pos de estudantes de todos os semestres, a DEL CONTADOR: UNA VISIÓN
fim de se ter uma análise mais aprofundada DEL APRENDIZAJE EN EL CURSO
do processo de letramento no desenvolvi- DE CIENCIAS CONTABLES EN LA
mento do curso, bem como um novo olhar ENSEÑANZA SUPERIOR
acerca do assunto nessa área de formação
do ensino superior. RESUMEN
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AUTORES | Mario Souza da Rocha 115
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p115-123.2016
ENSAIOS
RESUMO
1 INTRODUÇÃO
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116 ENSAIOS | O papel do contador na prestação de contas eleitorais
sultado de seu trabalho, nos casos em que atua de Gil (2008). Destaca-se que grande parte do
como perito diretamente ao Juiz, consoante estudo foi embasada na legislação pertinente e
estatui o Código Civil e o Código de Processo na bibliografia que trata do tema, fazendo um
Civil, sem que haja a necessidade da assinatura comparativo destes dois pilares.
de um advogado para atestar o trabalho elabo-
rado por ele. Busca-se, neste estudo, discutir, 2 A PROFISSÃO CONTÁBIL
com base nesse pressuposto, a desnecessária
presença de um advogado para assinar as peças O Contador tem a responsabilidade de
contábeis apresentadas à Justiça Eleitoral, haja gerar informações de todas as operações reali-
vista que o advogado está assinando um traba- zadas por uma empresa, assim como demons-
lho realizado por outro profissional, ferindo, trar os resultados para o processo de tomada
claramente, o que dispõe o Código de Ética dos de decisão pelos administradores da empresa
Advogados e dos Contadores. e demais usuários; tem ele que estar no centro
A partir desse entendimento, observa-se do processo de transformações para atender ao
que a apresentação das prestações de contas mundo globalizado.
eleitorais deve embasar-se, por analogia, ao De acordo com Nasi (1994 apud KRAE-
que dispõe o artigo 477 do Código de Processo MER, 2000, p. 55), para que isso aconteça:
Civil, o qual preconiza que os laudos periciais
são realizados pelos Peritos Contadores, não O Contador deve estar no centro e
trazendo, portanto, a exigência da assinatura de na liderança deste processo, pois, do
um patrono. Com isso, elimina a obrigatorie- contrário, seu lugar vai ser ocupado
dade do contador em apresentar o resultado de por outro profissional. O Contador
seu trabalho em juízo eleitoral prescindido da deve saber comunicar-se com as ou-
tras áreas da empresa. Para tanto, não
assinatura de um Advogado.
pode ficar com os conhecimentos res-
Diante do exposto, este ensaio tem como tritos aos temas contábeis e fiscais. O
objetivo analisar o papel do contador na “Pres- Contador deve ter formação cultural
tação de Contas dos Partidos Políticos e dos acima da média, inteirando-se do que
Candidatos,” tendo como pressuposto que a acontece ao seu redor, na sua comu-
prestação de contas dos partidos políticos e dos nidade, no seu Estado, no seu País e
candidatos é atividade exclusiva dos contado- no mundo. O Contador deve ter um
res, de modo que a assinatura de um advoga- comportamento ético-profissional in-
do no serviço contábil torna-se dispensável, na questionável. O Contador deve par-
medida em que o desenvolvimento do trabalho ticipar de eventos destinados à sua
permanente atualização profissional
é fruto tão somente do trabalho de um contador,
(educação continuada). O Contador
que é o profissional detentor do conhecimento deve estar consciente de sua respon-
técnico para elaborá-la. sabilidade social e profissional.
Para atender ao objetivo da pesquisa, é
elaborado um levantamento comparativo de Por fim, cabe salientar que o profis-
como funciona o encaminhamento dos laudos sional da contabilidade tem entre
periciais realizados pelo contador que atua outras funções o papel de resolver
como perito judicial nas Justiças Comum e do enigma do processo administrativo
Trabalho, assim como o que estabelece a lei e financeiro, não como obrigado por
sobre o caso em comento. Para tanto, tem-se deliberação, mas como responsá-
veis pelo arrolamento dos dados que
uma pesquisa exploratória para conhecer o
preocupam aos usuários. E ter con-
problema ora estudado e atingir o objetivo pro- fiança de que o executivo se norteie
posto, que é esclarecer e modificar conceitos por elementos que favoreça a tomar
e ideias, seguindo, assim, as recomendações a melhor decisão, por meio de seus
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118 ENSAIOS | O papel do contador na prestação de contas eleitorais
3.1.1 Peças para a Prestação de Contas 3.1.2 Peças Para a Prestação de Contas
dos Partidos Político do Candidato
Os documentos necessários para a pres- A Resolução do TSE 23.463/2015
tação de contas dos partidos políticos estão (BRASIL, 2015a), em seu artigo 48, elenca os
elencados no artigo 14 da Resolução do TSE documentos necessários para a prestação de
21.841/2004, in verbis (BRASIL, 2004): contas, vejamos:
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120 ENSAIOS | O papel do contador na prestação de contas eleitorais
ele, não havendo necessidade de um advogado lado mediante petição. O requerimento do alva-
para assinar o trabalho contábil realizado per ele. rá para levantamento dos honorários periciais
poderá estar contido na petição de apresentação
4.1 O LAUDO PERICIAL do laudo ou em petição apartada.”
Como visto na atuação pericial, o Conta-
Em conformidade com o estabelecido na dor, ao desenvolver seu trabalho, assina a peça
Resolução 1.041/05 do CFC NBC T 13.6 – Lau- e apresenta ao juízo; no entanto, na Justiça
do Pericial Contábil de 26 de agosto de 2005 Eleitoral, dependerá da assinatura de um advo-
(PORTAL DE CONTABILIDADE, 2005): gado para apresentar a prestação de contas feita
por ele. Em analogia ao que acontece na Justiça
[Link] – O laudo pericial contábil e Comum, também deveria acontecer na Justiça
ou parecer pericial contábil têm por Eleitoral, uma vez que a prestação de contas é
limite os próprios objetivos da perícia um trabalho de atribuição tão somente do Con-
deferida ou contratada. tador, portanto deve ser dispensável a rubrica
13.1.2 – A perícia contábil, tanto a de um advogado.
judicial como a extrajudicial e a ar-
bitral, é de competência exclusiva de
contador registrado em Conselho Re- 5 QUANTO À ÉTICA DO ADVOGADO
gional de Contabilidade.
13.1.3 – Nos casos em que a legisla- A ética profissional é um conjunto de
ção admite a perícia interprofissional, normas e valores de comportamento e de rela-
aplica-se o item anterior exclusiva- cionamento adotados no âmbito profissional,
mente às questões contábeis, segundo no exercício de qualquer atividade. Ter uma
as definições contidas na Resolução conduta ética é saber construir relações de qua-
CFC n.º 560/83. lidade com a profissão, contribuir para o bom
13.1.4 – A presente Norma aplica-se
funcionamento das atividades de trabalho e
ao perito-contador nomeado em Juí-
zo, ao contratado pelas partes para a para a formação de uma imagem positiva da
perícia extrajudicial ou ao escolhido profissão perante os públicos de interesse, tais
na arbitragem; e, ainda, ao perito- como os clientes e a sociedade em geral.
-contador assistente indicado ou con- Líderes de empresas e organizações têm
tratado pelas partes. defendido que bons ambientes profissionais de
trabalho, com relacionamentos amigáveis e res-
Diante disto, o laudo pericial é o resulta- peitosos, contribuem para o aumento do nível
do do trabalho escrito do Perito-Contador cujo de confiança e comprometimento entre os pro-
objetivo final é levar informações técnicas es- fissionais das mais distintas áreas de atuação,
pecializadas e precisas para que sirva de baliza- refletindo no bom desempenho de trabalho e no
dor para o Juiz na tomada de decisão. desenvolvimento das diversas profissões. E que
comportamentos antiéticos prejudicam as es-
4.1.1 Entrega do Laudo e o levantamento truturas organizacionais, assim como o melhor
dos honorários desempenho de outras categorias profissionais.
O código de ética dos Advogados define
Na Justiça Trabalhista e Cível, um Conta- conforme: “Art. 34. Constitui infração disci-
dor, ao atuar como perito, tem inteira autonomia plinar: V - assinar qualquer escrito destinado a
para elaborar o Laudo Pericial, e, ao submeter ao processo judicial ou para fim extrajudicial que
juízo competente, basta tão somente sua assina- não tenha feito, ou em que não tenha colabora-
tura para atestar a legitimidade da peça. do.” (BRASIL, 1994).
Neste sentido, explica Santos (2003, p. Portanto, a assinatura de um advogado
21): “o laudo deverá ser apresentado e protoco- que não tenha participado da elaboração das
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AUTORES | Mario Souza da Rocha 121
prestações de contas eleitorais constituiu infra- também virem assinadas por um Advogado.
ção disciplinar, na medida em que não é per- Com isso, o Tribunal Superior Eleitoral abriu
mitido que esse profissional assine a peça para uma janela nas peças da prestação de contas
cuja elaboração não tenha contribuído. No que elaboradas pelos profissionais da contabilida-
se refere às prestações de contas, esta, sim, é de no sentido de que elas pudessem ser assi-
atividade de exclusividade do contador, em nadas por eles.
razão de exigir conhecimento técnico-cientifi- Portanto, o problema da pesquisa em co-
co deste profissional. Portanto, mostra-se des- mento está relacionado em buscar a dignidade
necessária a rubrica de um patrono nas peças dos profissionais da contabilidade, assim como
eleitorais confeccionadas por um Contador. a dignidade e a ética do advogado. O simples
fato de os processos de prestação de contas te-
6 RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES rem adquirido natureza Jurídica, os trabalhos
FINAIS executados pelos contadores é de sua compe-
tência e exclusividade; a janela que se abriu
A partir da análise comparativa da legis- nas peças contábeis de prestação de contas para
lação e dos autores (bibliografias) que tratam que o advogado pudesse assinar o trabalho re-
do tema objeto deste ensaio, verificou-se que alizado pelo contador não elimina sua natureza
a confecção de todas as peças que compõem a administrativa.
prestação de contas dos partidos políticos, dos Além disso, na realização do trabalho,
candidatos e dos comitês financeiros é atividade revisou-se a legislação e a bibliografia perti-
exclusiva dos profissionais de contabilidade. nente acerca dos encaminhamentos dos laudos
Em conformidade com a análise feita periciais elaborados por doutrinadores e sua
desde a publicação da Lei 9.096, de 19 de se- apresentação de forma que é assegurado por lei
tembro de 1995, e da Lei Eleitoral 9.504, de 30 e Normas Brasileiras de Contabilidade que é o
de setembro de 1997, torna-se obrigatório aos Perito Contador que peticiona ao juízo, apre-
Partidos Políticos, aos Candidatos e aos comi- sentando o trabalho por ele elaborado, no caso
tês Financeiros proceder às Prestações de Con- em comento, o Laudo Pericial. Já em relação
tas. Sabe-se que os Partidos Políticos Prestam à prestação de contas dos Partidos Políticos, a
Contas Anualmente, já os candidatos prestam dos Candidatos, para que o contador leve o re-
contas sempre ao final de cada eleição. sultado de seu trabalho a juízo, é necessário que
Contudo, apesar dessa obrigatoriedade conste nele a assinatura de um Advogado.
aos Partidos Políticos, aos Candidatos e aos co- Conclui-se que, se na Justiça Trabalhis-
mitês Financeiros de procederem às Prestações ta, na Justiça Federal, na Justiça Estadual, o
de Contas, ao longo dos anos, vinham atuando Contador atua como Perito Contador encami-
sem a obrigação de fazê-las, sem que essa tare- nhando os Laudos Periciais, ou respostas for-
fa fosse executada por um profissional da con- muladas pelo Juiz, quando necessário for, para
tabilidade e sem que os órgãos de fiscalização tirar dúvidas que ainda restarem do magistrado.
da classe contábil tomassem uma atitude mais Sendo assim, o contador pode encaminhar as
enérgica no sentido de tornar obrigatório, por peças das prestações de contas à Justiça Eleito-
exemplo, patrocinar ação no STF no sentido de ral, além de responder às diligências questiona-
exigir que a atividade seja exclusiva de profis- das pelo juízo.
sional da contabilidade. Para tal, entende-se que se torna sufi-
A obrigatoriedade para que os Partidos ciente que a Prestação de Contas dos Partidos
Políticos, os Candidatos procedam às Presta- Políticos e dos Candidatos se torne atividade
ções de Contas por um profissional de conta- exclusiva dos Contadores e sua apresentação
bilidade veio a partir das eleições de 2014, po- por analogia ao que dispõe o artigo 477 CPC
rém, acompanhada da obrigatoriedade de elas quanto aos encaminhamentos dos laudos peri-
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122 ENSAIOS | O papel do contador na prestação de contas eleitorais
ciais feito pelos Peritos Contadores. Com isso, EL PAPEL DEL CONTADOR EN LA
elimina-se a redundância de que o contador, PRESTACIÓN DE LAS CUENTAS
para poder apresentar o resultado de seu traba- ELECTORALES
lho em juízo eleitoral, tenha que, obrigatoria-
mente, está munido da assinatura do Advogado RESUMEN
que não o fez.
Este ensayo tiene por objetivo analizar el pa-
THE ROLE OF THE ACCOUNTANT pel del contador en la “Prestación de Cuentas
IN THE PROVISION OF de los Partidos Políticos y de los Candidatos”,
ELECTORAL ACCOUNTS evidenciando las actividades de los contadores,
teniendo en cuenta que este profesional desar-
ABSTRACT rolla el trabajo, desde las clasificaciones conta-
bles hasta las digitaciones de los movimientos
The objective of this essay is to analyze the role financieros de las recaudaciones y de los gasta-
of the accountant in the provision of the elec- dos de campaña, así, al final de la elaboración
toral accounts, both for the candidates as for del trabajo desarrollado, son presentadas como
the political parties, evidencing the activities of resultado las piezas contables. Con todo, para
the accountants, as he does most of the work in que se pueda presentar ese resultado al juez, es
relation to the accounting requirements, from necesaria la firma de un abogado, aunque no
the accounting classifications, the typing of the tenga participado en el desarrollo del servicio
financial operations of the campaign funding contable. En otros juicios, como en la justicia
and spending, to the preparation and presen- del trabajo y jurisdicciones civiles, el contador,
tation of the accounting reports. However, to actuando en cuanto perito, presenta los laudos
present this result to the judge, the signature periciales directamente en registro, en lo que
of a lawyer is necessary, no matter if he has es, por tanto, desnecesaria la figura del abogado
participated or not in the development of the en las piezas contables. Ante a eso, los princi-
electoral accounts. In other judgments, such as pales resultados de esa investigación permiten
of the Labour and Civil Courts, the accountant concluir que la pericia es de exclusividad del
is considered an expert and presents the Expert contador y, en ese aspecto, él debe presentar su
Reports directly to the office, therefore it isn’t trabajo, así como contestar a las diligencias que
necessary that a lawyer signs the accounting le sean requeridas, sin que un abogado firme lo
statements. Given this, the main results allow que no fue por él realizado, teniendo en cuenta
to conclude that the financial expertise is ex- que él no participó en la elaboración contable,
clusively of the accountant and, in this way, he y que dicha situación hiere el Código de Ética
should be able to present his work, as well as de los Abogados.
to respond to the proceedings as they may be
demanded, without the interfering of a lawyer Palabras clave: Contador. Abogado. Presta-
signing for something he didn’t prepare. Consi- ción de Cuentas Electorales.
dering, also, that the proprietor did not partici-
pate in the elaboration of the electoral accounts REFERÊNCIAS
nor in the electoral acountability, this situation
violates the Lawyer’s Code of Ethics. BRASIL. Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994.
Dispõe sobre o Estatuto da Advocacia e a Or-
Keywords: Accountant. Lawyer. Electoral Ac- dem dos Advogados do Brasil (OAB). Presi-
countability. dência da República do Brasil, Brasília, DF,
1994. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/leis/[Link]>. Acesso em:
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 115-123, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
AUTORES | Mario Souza da Rocha 123
______. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução SILVA, Antônio Carlos Ribeiro. Metodologia
nº 23.463, de 15 de dezembro de 2015. Dispõe da pesquisa aplicada à Contabilidade: orien-
sobre a arrecadação e os gastos de recursos por tações de estudos, projetos, relatórios, mono-
partidos políticos e candidatos e sobre a presta- grafias, dissertações, teses. São Paulo: Atlas,
ção de contas nas eleições de 2016. Tribunal 2003.
Superior Eleitoral, Brasília, DF, 2015a. Dis-
ponível em: <[Link]
-tse/res/2015/[Link]>. Acesso
em: 30 jun. 2016.
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 115-123, jul./dez. 2016
124 ENSAIOS | A proteção à propriedade industrial das marcas na visão do Superior Tribunal de Justiça
doi:10.12662/2359-618xregea.v5i2.p124-134.2016
ENSAIOS
RESUMO
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AUTORES | Marcos José Nogueira de Souza Filho 125
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AUTORES | Marcos José Nogueira de Souza Filho 127
gundo o qual “a lei assegurará [...] proteção às suem nomes ou sinais que igualmente estão
criações industriais, à propriedade das marcas, protegidos pelo texto constitucional” (ARAÚ-
aos nomes de empresas e a outros signos dis- JO; NUNES JÚNIOR, 2012, p. 206).
tintivos, tendo em vista o interesse social e o A marca da empresa garante-lhe, ainda,
desenvolvimento tecnológico e econômico do privilégio exclusivo de utilização, devendo o
País” (BRASIL, 1988, on-line). Poder Público garantir esta proteção. Na práti-
A propriedade industrial, segundo José ca, a atribuição de promover a inscrição de
Afonso da Silva, constitui “propriedade de marcas e patentes, bem como de fiscalizar sua
bens incorpóreos: privilégio de invenção indus- utilização, recai sobre uma entidade denomina-
trial, que assegura ao inventor o direito de obter da Instituto Nacional de Propriedade Industrial
patente que lhe garanta [...] o direito exclusivo (INPI). Esta, segundo seu site, “é responsável
de utilização do objeto da petente e o conse- pelo aperfeiçoamento, disseminação e gestão
quente direito de impedir que terceiros o faça” do sistema brasileiro de concessão e garantia
(SILVA, 2009, p. 278). de direitos de propriedade intelectual para a in-
A justificativa para a proteção constitu- dústria” (INPI, 2016, on-line).
cional às empresas, em razão de seus inventos E mais:
industriais, é apresentada por Uadi Lammêgo
Bulos, para quem Entre os serviços do INPI, estão os
registros de marcas, desenhos indus-
A propriedade industrial é o conjunto triais, indicações geográficas, progra-
de direitos que recaem sobre inven- mas de computador e topografias de
ções destinadas à exploração eco- circuitos, as concessões de patentes
nômica. [...] A tutela da propriedade e as averbações de contratos de fran-
industrial possui sentido. Inúmeras quia e das distintas modalidades de
vezes, as descobertas científicas e até transferência de tecnologia. Na eco-
as realizações industriais não trazem nomia do conhecimento, estes direi-
qualquer recompensa para seus auto- tos se transformam em diferenciais
res. Quantos cientistas e inventores competitivos, estimulando o surgi-
ficam desamparados juridicamente mento constante de novas identida-
devido às deficiências da legislação? des e soluções técnicas (INPI, 2016,
Daí o mínimo que pode ser feito: tu- on-line).
telar, juridicamente, as novidades re-
veladas ao mundo, outrora ignoradas, Assim, é o INPI a entidade responsável
e que enriquecem o acervo espiritual pelo controle e fiscalização sobre o direito de
do homem, trazendo-lhe benefícios utilização de marcas e patentes industriais, de
(BULOS, 2012, p. 619). domínio do criador ou inventor. É ele também
o compente para receber e registrar pedidos de
Nestes termos, a empresa que primeiro patentes e marcas, bem como de negar o regis-
cria e registra seus símbolos, nomes e emblem- tro se enventualmente a marca se encontra em
as tem preferência de uso de suas marcas sobre situação irregular, em razão de proposital se-
outras empresas que, a pretexto de atuarem na melhança com outra já existente.
mesma área econômica, pegam carona no con- O caráter público presente no controle
solidado reconhecimento que a primeira man- e na fiscalização das marcas e patentes é cor-
tém junto à classe consumidora. Isso é o que roborado por Gilmar Ferreira Mendes e Paulo
também ensinam Luiz Alberto David Araújo Gustavo Gonet Branco:
e Vidal Serrano Nunes Júnior: “As marcas de
indústria e comércio têm a finalidade de rela- Tem-se aqui, pois, garantia institucio-
cionar o produto ao seu fabricante ou ao seu nal quanto ao direito de propriedade
distribuidor. Nesse sentido, as empresas pos- industrial, que obriga o Poder Público
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se confundam com produtos da Bom- preferência não a marca mais conhecida, mas
bril (BRASIL, 2013b, on-line). a que primeiro cumpriu suas obrigações de re-
gistro.
O que se diagnostica, a partir da com-
paração entre as duas marcas, é a semelhança 7 CONCLUSÃO
entre elas, o que de fato gera confusão no mo-
mento da escolha do produto. E mais: ambos Existem marcas no mercado que, de tão
os produtos têm a mesma finalidade e estão reconhecidas e consagradas, são, muitas vezes,
disponibilizados próximos nas prateleiras dos confudidas como marcas únicas e exclusivas,
supermercados. A foto a seguir também expõe como se não houvesse outras empresas que
a semelhança das embalagens e dos nomes: também oferecessem o mesmo serviço ou pro-
O último órgão jurisdicional em que tra- duto. É o que se pode dizer de empresas como a
mitou o processo, antes do STJ, foi o Tribunal Bombril e de produtos como o Cheetos.
de Justiça do Estado de São Paulo, para quem Aliás, é bastante usual imaginar um pro-
houve “induvidoso aproveitamento parasitá- duto por intermédio da marca mais conhecida,
rio”. Ainda segundo o site do STJ, a decisão criando o que a literatura denomina de metoní-
reconheceu a concorrência desleal pela possibi- mia, em que se emprega um termo em lugar de
lidade de confusão entre as marcas, merecendo outro, como a marca pelo produto. É assim no
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132 ENSAIOS | A proteção à propriedade industrial das marcas na visão do Superior Tribunal de Justiça
caso da Gilete, da Coca-Cola, dos Correios e, market, confuses consumers at the moment that
especificamente, da Bombril. they decide to purchase a product. This scena-
Este cenário é consequência da imagem rio has been submitted to the judiciary, specifi-
que a empresa, ao longo de anos, consolida no cally to the Superior Court of Justice on several
mercado. À custa de muita tradição, a marca occasions, but two cases drew attention becau-
da empresa passa a ser de conhecimento coleti- se of the reputation of the brands: Bombril,
vo, devendo o Estado protegê-la contra inves- whose symbol is recognized all over the area of
tidas ilícitas e tendenciosas de empresas con- cleaning and home care, and Cheetos snacks,
correntes, que visam à utilização de emblema favorites of taste of the younger ones. Thus, bu-
ou símbolos muito próximos dos tradicionais, sinesses and industries, even producing quality
repercutindo negativamente na livre concorrên- products, prefer to wile, using symbols or em-
cia e gerando confusão no momento em que o blems very close to the brands that are already
consumidor escolhe o produto de sua conveni- consecrated, in the irregular attempt to attract
ência. consumers and violating the basic principles of
Na condição de direito fundamental de free enterprise and fair competition. Given the
caráter individual, usufruídos por empresas e situation, the Judiciary has consolidated juris-
indústrias, a exclusividade do uso de marcas e prudence in order to effectively protect brands,
símbolos patenteados está garantida juridica- symbols and emblems already enshrined in pu-
mente, seja por meio de legislação específica, blic taste. The most recent court decisions on
seja por decisões judiciais correlatas e embasa- the matter are precisely the basic theme of this
das nos ditames da justiça e do bom senso. essay, which will be built from relevant judicial
Trata-se do que se verificou, efetiva- reviews and, alternatively, of doctrinal studies
mente, por meio da análise crítica do posicio- and normative rules inherent to the subject. By
namento do Superior Tribunal de Justiça sobre the way, such decisions don’t seem to deserve
o cenário, rechaçando condutas irregulares de any repairs as they coadunate the faithful nor-
empresas e indústrias que, ainda que fabrican- mative content of the guaranteed protection of
tes de produtos de qualidade, se aproveitam do trademarks and industrial symbols.
respaldo popular que outras marcas já conse-
guiram consolidar. Keywords: Industrial Property. Brands. Supe-
Assim, este ensaio propiciou a análise rior Court of Justice.
do tratamento que a doutrina, a legislação e,
principalmente, a jurisprudência dão à maté- LA PROTECCIÓN A LA PROPIEDAD
ria, evidenciando o comprometimento com os INDUSTRIAL DE LAS MARCAS
princípios gerais da atividade econômica, es- EN LA VISIÓN DEL SUPERIOR
pecialmente a livre iniciativa e o desetímulo à TRIBUNAL DE JUSTICIA
concorrência desleal.
RESUMEN
PROTECTING INDUSTRIAL
PROPERTY OF TRADEMARKS Más común de lo que se imagina es la práctica,
IN THE VISION OF THE SUPERIOR reprobable del punto de vista jurídico, de criar-
COURT OF JUSTICE se marcas y símbolos de bienes o productos
similares a aquellos ya consagrados y consoli-
ABSTRACT dados en el mercado, haciendo con que el con-
The practice, reprehensible from a legal point sumidor se confunda al elegir el producto. Este
of view, but very common, to create brands and escenario fue sometido al Poder Judiciario, es-
symbols of similar goods or products to tho- pecíficamente al Superior Tribunal de Justicia,
se already established and consolidated in the en variadas ocasiones, pero dos casos llamaron
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Nominata de Avaliadores Ad Hoc 2016 | Nominata peer review panel in 2016 135
NOMINATA
Faz parte dos pilares estratégicos da Revista Gestão em Análise, ReGeA, a excelência na
promoção e a publicação de pesquisas orientadas por princípios e práticas da gestão contemporâ-
nea. Para tanto, utilizamos o sistema de avaliação por pares, pelo método Double Blind Review,
em que os avaliadores ad hoc contribuem decisivamente para o aperfeiçoamento da qualidade da
Revista.
A partir dessa perspectiva colaborativa, agradecemos aos professores (as) e pesquisadores
(as) que contribuíram, de forma voluntária, com seu conhecimento e experiência, na avaliação
dos trabalhos submetidos à publicação.
The excellence in promotion and publication research guided by principles and practices
of contemporary management make part of the strategic pillars of the Journal of Management
Analysis, ReGeA. Therefore, we implemented the evaluation system by peers, using the Double
Blind Review method, in which a peer review panel decisively contributes to the improvement of
the quality of the Journal.
In this collaborative perspective, we would like to thank the teachers and researchers who
have contributed, on a voluntary basis, with their knowledge and experience, to the evaluation of
the articles submitted for publication.
Adail José de Sousa – UFMT, Mt, Brasil Leonel Gois L. Oliveira, ESMEC, CE, Brasil
Ana Flávia Moraes – UFAM, AM, Brasil Luciana Freire de Lima Marinho, UECE, CE,
Brasil
Ana Paula Lima -
Luis Gustavo Nazareth – UFSJ, MG , Brasil
Carolina Marques – UNIPAMPA, RS, Brasil
Márcia Alves Soares da Silva – UFPR, PR,
Cristiane Ramos - UNICHRUSTUS, CE, Brasil
Brasil
Elenise Machado - UNICHRUSTUS, CE,
Mª de Fátima M. Fontenele - ESTÁCIO, CE,
Brasil
Brasil.
Ellen Campos Sousa - UNIFOR, CE, Brasil.
Max André Araújo Ferreira – UFRR, RR, Brasil
Elnivan M. de Souza - UNICHRUSTUS, CE,
Nicole A. V. Soares - UNICHRUSTUS, CE,
Brasil
Brasil
Elói Martins Senhoras - UFRR, RR, Brasil
Pedro Marcelo Torres - UC, Coimbra, Portugal.
Emerson Clayton Arantes - UFRR, RR, Brasil
Salma Said Rezek Mendoza - – UFRR, RR,
Eveline Russo Sacramento – PUC, RJ, Brasil Brasil
Eduardo Prado – Samira Lodi - UNIFOR, CE, Brasil.
Fábio Chaves Nobre - URFESA, RN, Brasil Teresinha Fonseca - UFRR, RR, Brasil.
Fernanda Moreira Lima Santos - UNIFOR, Tiago Zardin Patias - UNIPAMPA, RS, Brasil.
CE, Brasil.
Thiago Beuron – UFSM, RS, Brasil
Igor F. Andrade - UNICHRUSTUS, CE, Brasil
Valter Moura do Carmo – UFSC – SC, Brasil
Izabelle Quezado Santos - UNIFOR, CE, Brasil.
Valquíria Melo Souza Correia - URFESA, RN,
João Carlos, UNINOVE, SP, Brasil Brasil
Jose de Sousa Martins - UC, Coimbra, Portugal. Virna Távora Rocha - UNICHRUSTUS, CE,
Larissa Santana - UNIFOR, CE, Brasil Brasil
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 137-139, jul./dez. 2016
138 Linha Editorial | Editorial Line
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 137-139, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Linha Editorial | Editorial Line 139
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 137-139, jul./dez. 2016
140 Instruções aos Autores | Instructions for Authors
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 140-145, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors 141
gia; resultados; conclusões (com reco- terial, exceto quando houver a indicação espe-
mendações de estudo) e referências; cífica de outros detentores de direitos autorais.
f) o conteúdo dos casos deve contemplar, Em caso de dúvidas, ficamos à disposição para
sempre que possível: introdução; con- esclarecimentos.
texto com caracterização do mercado; Ressalva: Para as pesquisas provenien-
apresentação da empresa; as ações tes de trabalhos apresentados em congressos e
empreendidas pela empresa; o dilema simpósios científicos que forem submetidas à
e as argumentações com respectivas edição especial de fast track, é obrigatório aos
evidências; as notas de ensino con- autores indicarem a origem do artigo e as res-
templando os objetivos educacionais, pectivas referências do evento.
as questões para discussão/decisão; o
referencial teórico que embasa o texto IMPORTANTE:
e, finalmente, as referências.
As informações de autoria devem ser
5. As citações no corpo do texto deverão ser cientificadas apenas no corpo do e-mail, con-
redigidas de acordo com a norma ABNT NBR tendo os seguintes dados: nome(s) do(s) autor
10520 ou norma ISO equivalente. (es), afiliação; e-mail, cidade, estado, país de
cada autor e título do trabalho. Para garantir o
6. O uso de notas, citações, gráficos, tabelas, fi- anonimato no processo de avaliação do traba-
guras, quadros ou fotografias deve ser limitado lho, o(s) autor (es) não deve(m) identificar-se
ao mínimo indispensável; esses textos devem no corpo do estudo. Caso seja identificado, o
ser apresentados conforme norma ABNT NBR trabalho ficará automaticamente fora do proces-
15724, de 2011, em tamanho 10. As imagens so de avaliação. A Equipe Editorial da ReGeA
devem estar em jpg. A ReGeA não se responsa- segue as sugestões contidas no Manual de Boas
biliza por imagens de baixa qualidade inseridas Práticas da Publicação Científica da ANPAD.
no trabalho.
NOTA:
7. As Referências deverão seguir o sistema au-
tor-data, conforme norma ABNT NBR 6023,
Revise minuciosamente o trabalho com
de 2002, ou norma ISO equivalente.
relação às normas da ReGeA, à correção da
língua portuguesa ou outro idioma e aos itens
INEDITISMO – EXCLUSIVIDADE – que devem compor a sua submissão. Verifique
DIREITOS AUTORAIS se o arquivo apresenta sua identificação. Tra-
balhos com documentação incompleta ou não
Os trabalhos submetidos à publicação na atendendo às orientações das normas adotadas
ReGeA devem ser inéditos, além de não pode- pela Revista não serão avaliados. O(s) autor(es)
rem estar em avaliação paralela em outra revis- serão comunicados na ocasião da confirmação
ta (Nota – Os trabalhos podem ter sido apresen- de recebimento.
tados em congressos anteriormente, desde que
referenciados).
As matérias assinadas são de total e ex-
clusiva responsabilidade dos autores, declara-
das por meio de documento –Declaração de
Originalidade e Cessão de Direitos Autorais.
Outrossim, a cessão de direitos autorais é fei-
ta a título gratuito e não exclusivo, passando a
ReGeA a deter os direitos de publicação do ma-
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142 Instruções aos Autores | Instructions for Authors
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 140-145, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors 143
f) the contents of the cases should in- any kind of clarification, we remain at the dis-
clude, where possible: introduction; posal for answering any eventual questions
context with characterization of the
market; presentation of the company; Exception: For the researches originated
the actions undertaken by the com- from papers presented at scientific congresses
pany; the dilemma and the arguments and symposia that are submitted to the special
with supporting evidence; the no- fast track issue it´s required that authors indi-
tes of education contemplating the cate the origin of the article and the references
educational objectives, matters for of the event.
discussion / decision; the theoretical
framework that supports the text and, IMPORTANT:
finally, references.
Information on the author should be con-
5. The citations in the text should be written veyed only in the e-mail body, containing the
in accordance with the ABNT NBR 10520 or following data: name (s) (s) of author (s), affi-
equivalent ISO standard. liation; e-mail, city, state, country of each au-
thor and title of the work. The work should be
6. The use of notes, quotes, charts, tables, fi- attached to the same e-mail. To ensure anony-
gures, charts or photographs should be limited mity in the process of evaluation of the work,
to a minimum; these texts must be submitted the author (s) (s) should not (m) be identified
according to ABNT NBR 15724, 2011 in size in the study of the body. If identified, the work
10. Images must be in jpg. The ReGeA is not will be automatically out of the evaluation pro-
responsible for poor quality images inserted at cess. The Editorial Team of ReGeA follows the
work. suggestions contained in the Manual of Good
Practices of Scientific Publication ANPAD.
7. References should follow the author-date
system, according to ABNT NBR 6023, 2002, NOTE:
or equivalent ISO standard.
The works should be thoroughly re-
ORIGINALITY - EXCLUSIVE - viewed in order to see whether they have been
COPYRIGHT organized in accordance with the standards of
ReGeA, the correction of the Portuguese lan-
The papers submitted for publication guage or languages should be carefully cer-
in ReGeA must be original, and can not be in tified. There must be a strict care about the
parallel review in another journal (Note - The adequate identification of the author before
work may have been previously presented at submissions are handed in. Works with incom-
conferences, provided they were referenced). plete documentation or not meeting the guide-
lines of the standards adopted by the magazine
The signed declarations are the sole and will not be evaluated. The author(s) shall be
exclusive responsibility of the authors as decla- duly informed upon receipt of the submissions.
red through document - Declaration of Origina-
lity and Assignment of Copyright. Furthermore,
the assignment of copyright is made on a free
non-exclusive basis, from the ReGeA which
holds the rights to publish the material, except
when there is a specific indication of otherco-
pyright holders. In case someone should need
ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 140-145, jul./dez. 2016
144 Instruções aos Autores | Instructions for Authors
DIRECTRICES PARA AUTORES todos los ítems enumerados abajo. Las sumisio-
nes que no respeten las normas serán rechazadas.
Se aceptan colaboraciones desde Brasil y
del extranjero, y los trabajos pueden ser some- 1. Los textos podrán ser presentados en portu-
tidos en portugués, en español o en inglés. Se gués, español o inglés. Los trabajos en español
recomienda hacer uso de lenguaje claro y obje- o en inglés deben incluir también el título, el
tivo y seguir las normas editoriales aplicables a resumen y las palabras-clave en portugués.
este periódico.
Las sumisiones electrónicas de los traba- 2. Los textos en portugués deberán ser escritos
jos deben ser enviadas al editor de la ReGeA, en conformidad con las normas de la Associa-
exclusivamente por medio del sitio web <http:// ção Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) –
[Link]/[Link]/ges- NBR 6022:2003, y NBR 14724:2011. Para los
tao/index>, en archivo [doc], juntamente con artículos en inglés, se utilizará la norma ISO
el documento de Declaración de Cesión de De- equivalente.
rechos Autorales. Por medio del sitio web, los
autores pueden someter su trabajo y observar su 3. Características técnicas:
status durante todo el proceso editorial. Esa for- a) Formato del papel: A4;
ma de sumisión garantiza que el procesamiento b) Editor de texto: Word for Windows
de su manuscrito sea más rápido y más seguro, 6.0 o más reciente;
agilizando también el proceso de evaluación. c) Márgenes: superior e izquierda de 3
Las investigaciones deben relatar los re- cm, derecha e inferior de 2 cm;
sultados de estudios en desarrollo o ya conclui- d) Tipo de letra: Times New Roman, de
dos, de acuerdo con los estilos abajo descritos: talla 12, espacio entre líneas 1,5;
• ARTÍCULOS – textos destinados a e) Número de páginas: ARTÍCULO
difundir resultados de investigación [mínimo 12 y máximo 22 páginas];
científica, investigación tecnológica ENSAYO [mínimo 8 y máximo 13
y estudios teóricos páginas]; y CASO [mínimo 8 y má-
• ENSAYOS – trabajos hechos a partir ximo 13 páginas].
de estudios apurados, críticos y con-
clusivos acerca de determinado tema, 4. Características específicas:
en que se destaca la originalidad del a) El título y el subtítulo (si existir) del
pensamiento del autor texto deben ser presentados en portu-
• CASOS DE ENSEÑANZA – rela- gués y en inglés;
tos de casos reales de empresas con el b) El título y el subtítulo deben expresar
propósito de consolidar el método de de manera clara las ideas del trabajo;
estudio de casos como herramienta de c) El resumen y el abstract deben ser
enseñanza y aprendizaje, propiciando escritos de acuerdo con la normativa
estímulo a los estudios, a la investigaci- NBR6028 o la norma ISO equivalen-
ón y al debate en las áreas mencionadas. te, en 150 palabras o menos. El resu-
men debe resaltar el objetivo, el méto-
INSTRUCCIONES A LOS AUTORES do, los resultados y las conclusiones;
d) Deben ser apuntadas entre tres y cin-
Los trabajos deben ser enviados a la ofici- co palabras-clave, que deben ser tra-
na de la Revista Gestão em Análise – ReGeA, de duzidas también al inglés y apuntadas
acuerdo con las directrices de sumisión de este como keywords;
periódico. Es indispensable que los autores ve- e) El contenido de los artículos y en-
rifiquen que sus sumisiones dan cumplimiento a sayos debe presentar, siempre que sea
R. Gest. Anál., Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 140-145, jul./dez. 2016 ISSN 1984-7297 | e-ISSN 2359-618X
Instruções aos Autores | Instructions for Authors 145
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