Aplicabilidade da Classificação
Internacional da Funcionalidade,
Incapacidade e Saúde (CIF) no raciocínio
clínico para elaboração do diagnóstico e
planejamento fisioterapêutico.
Profª Drª Manuella Moraes M B Barros
01
Introdução à CIF
Breve histórico da CIF
Falta de coordenação entre os dados coletados Estudos para revisão da CIDID com a criação
sobre morbidades é notada pela Organização das do documento preliminar da CIF.
Nações Unidas (ONU).
1970 1976 1993 2001
OMS publicou a Classificação Internacional das 54ª Assembléia Mundial de Saúde e aprovação
Deficiências, Incapacidades e Desvantagens da Classificação Internacional da
(handicaps) – CIDID. Funcionalidade e Incapacidade em Saúde – CIF.
(Farias & Buchalla, 2005)
Desenvolvimento da CIF
A CIF é parte da família de Classificações Internacionais
da OMS, junto à Classificação Estatística Internacional
de Doenças e Problemas relacionados à Saúde (CID).
Utilizam linguagem padronizada para codificar
informações sobre saúde.
Segundo a OMS, a CID-10 e a CIF são complementares: a
informação sobre o diagnóstico acrescido da
funcionalidade fornecem um quadro mais amplo sobre a
saúde do indivíduo ou das populações.
(OMS, 2020)
Modelo biopsicossocial em saúde
A CIF trata-se de um sistema que classifica de forma multidimensional e integrada as
condições de saúde, levando em consideração o conceito de bem estar físico, mental e
social, permitindo uma avaliação global do paciente
● Adota o modelo biopsicossocial de saúde;
● Incapacidade é o resultado da interação entre fatores ambientais, sociais e
pessoais, não somente da doença em si.
(Talo, Rytökoski; 2016; Madden et al. 2015)
Modelo biopsicossocial
em saúde
O modelo biopsicossocial estabelece que a funcionalidade
diz respeito à uma interação entre o estado de saúde e os
fatores contextuais, podendo estes atuar de forma
positiva, negativa ou neutra na funcionalidade.
● Dualidade entre modelo médico e o modelo
biopsicossocial:
Modelo médico – incapacidade é consequência
apenas da doença, assistência médica é o (Barreto, et al. 2021; OMS, 2020)
fator principal.
Modelo biopsicossocial - questão social que
requer mudanças sociais. A incapacidade é
uma questão política.
Conceitos e definições da CIF
O modelo integrativo biopsicossocial da CIF é organizado em duas partes:
1. A primeira parte é relacionada à funcionalidade e à incapacidade, incluindo os componentes
funções e estruturas corporais e atividades e participação.
2. A segunda parte relaciona-se aos fatores contextuais e inclui os componentes fatores
ambientais e pessoais.
Modelo multidirecional e dinâmico.
(OMS, 2020)
Conceitos e definições da CIF
Funcionalidade - engloba as funções e estruturas do corpo, atividades e participação na
interação com as condições de saúde e os fatores ambientais e pessoais. Experiência
positiva.
Incapacidade - engloba deficiências nas funções e/ou estruturas do corpo, limitação em
atividades e restrição na participação, na interação com as condições de saúde e os fatores
ambientais e pessoais. Aspectos negativos.
Capacidade – capacidade de executar uma tarefa em ambiente padronizado.
Desempenho – desempenho em executar tarefa em ambiente real.
Conceitos e definições da CIF
● A CIF não é uma escala de avaliação, embora existam ferramentas baseadas na
mesma;
● Não é exclusiva para pessoas com alguma condição clínica ou deficiência;
● Não é de uso exclusivo para profissionais de saúde.
(OMS, 2020)
Objetivos da CIF
● Proporcionar uma base científica para a compreensão e o estudo dos determinantes
de saúde;
● Estabelecer uma linguagem comum para a descrição da saúde e dos estados
relacionados com a saúde, para melhorar a comunicação entre diferentes utilizadores;
● Permitir a comparação de dados entre países, serviços e profissionais de saúde em
diferentes momentos ao longo do tempo;
● Proporcionar um esquema de codificação para sistemas de informação em saúde.
(OMS, 2020)
Componentes da CIF
Componente Definição
Funções fisiológicas dos sistemas orgânicos.
Funções do corpo No sistema de classificação, são representadas pela letra (b).
São organizadas em oito capítulos.
Deficiências
Partes anatômicas do corpo.
Estruturas do corpo No sistema de classificação, são representadas pela letra (s).
São organizadas em oito capítulos.
Execução de uma tarefa ou ação por um indivíduo.
No sistema de classificação, são representadas de forma conjunta com o
Atividades
componente participação, designados pela letra (d).
Limitações e
São organizadas em nove capítulos.
Restrições
Participação Envolvimento em uma situação da vida
Componentes da CIF
Componente Definição
Ambiente físico, social e atitudinal no qual as pessoas vivem e conduzem
suas vidas.
Fatores ambientais
No sistema de classificação, são representados pela letra (e);
São organizadas em cinco capítulos. Funcionalidade e
Incapacidade
Histórico particular da vida e do estilo de vida de um indivíduo. Englobam
as características do indivíduo que não são parte de uma condição ou de
Fatores pessoais
um estado de saúde.
No sistema alfanumérico, não são classificáveis.
Fonte: Adaptado de Organização Mundial da Saúde (2020).
Componentes da CIF
Os componentes da funcionalidade e da incapacidade são interpretados como uso de
qualificadores.
Os qualificadores irão especificar a extensão da incapacidade ou funcionalidade, além de
designar qual fator ambiental é um facilitador ou uma barreira.
A CIF sugere que todos os códigos devem conter pelo menos um qualificador para
fornecer um panorama mais fidedigno da saúde do indivíduo.
São quantificados por uma escala genérica e representados pelos números que vem
após o ponto.
Fonte: Adaptado de Organização Mundial da Saúde (2020).
Pirâmide de participação
É possível investigar a queixa principal
relacionada à participação, buscar sua relação
com as atividades limitadas, avaliar as
deficiências nas funções e estruturas corporais
que podem estar contribuindo para a restrição,
além de analisar a influência positiva ou negativa
dos fatores ambientais e a relação com os fatores
pessoais.
Fonte: Adaptado de Borg (2018).
02
Utilização da CIF na
prática clínica
Normatização da CIF
Resolução da OMS 54.21/2001 que recomenda o uso da CIF pelos países membros;
Resolução 370/2009 do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional –
Dispõe sobre a adoção da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e
Saúde (CIF) da Organização Mundial de Saúde por Fisioterapeutas e Terapeutas
Ocupacionais.
Resolução 452/12 do Conselho Nacional de Saúde que a Classificação Internacional de
Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF seja utilizada no Sistema Único de Saúde,
inclusive na Saúde Suplementar;
Utilização da CIF
Perspectiva positiva da condição de saúde, valorizando a funcionalidade;
Modelo qualitativo para organizar as avaliações clínicas e raciocínios terapêuticos;
Padronização da linguagem por meio do uso dos códigos da CIF pode refletir na
melhoria do processo de comunicação interprofissional;
A utilização do modelo biopsicossocial da CIF permite o olhar ampliado durante a
avaliação, o que pode transformar o raciocínio clínico dos profissionais, refletindo em
um melhor cuidado em saúde.
Permite a elaboração de diagnóstico fisioterapêutico amplo, não centrado na doença
ou nas incapacidades, mas considerando todos os componentes do modelo: fatores
ambientais e pessoais, atividades e participação, funções e estruturas corporais.
(Farias & Buchalla, 2005)
Utilização da CIF
Leonardi e colaboradores (2022)
• Objetivo: visão atualizada sobre os 20 anos de
aplicação da CIF nos países membros da OMS.
• Principais usos: prática clínica, desenvolvimento
de políticas públicas e educação.
• Utilização como estrutura conceitual de
referência na avaliação da funcionalidade,
principalmente em condições neurológicas.
• Desafios com uso de códigos e qualificadores
(1454 códigos).
• Check lists; Core-sets; WHODAS 2.0.
• Treinamentos da CIF.
CIF como modelo teórico
Nos últimos anos, a CIF tem sido adotada como modelo para subsidiar e nortear o raciocínio
clínico em diferentes áreas da reabilitação;
Utilizar a CIF como marco teórico conceitual, sem a necessidade de incorporação inicial de
seus códigos;
Utilizar o modelo biopsicossocial para orientar a avaliação fisioterapêutica e o raciocínio
clínico.
(Barreto et al. 2021; Farias & Buchalla, 2005)
A inclusão da abordagem biopsicossocial do modelo da
CIF nas práticas dos profissionais de reabilitação é
fundamental para nortear o raciocínio clínico e a
tomada de decisão, possibilitando uma avaliação mais
ampliada e a elaboração de projeto terapêutico
individual, integral e humanizado.
Raciocínio clínico e CIF
● A CIF precisa estar direcionando o raciocínio clínico para garantir a avaliação de forma
integral do paciente;
● O raciocínio clínico é descrito como o processo de pensamento e as decisões tomadas
pelo terapeuta durante a avaliação e definição de metas terapêuticas do paciente;
● É estruturado a partir do modelo biopsicossocial iniciando pela avaliação
fisioterapêutica, seguindo pelo diagnóstico fisioterapêutico, objetivos terapêuticos
(funcionais e estruturais), planejamento terapêutico e alta fisioterapêutica.
● Avaliação centrada no paciente.
(Vasconcelos et al. 2021)
Raciocínio clínico e CIF
● Dessa forma, é possível identificar os aspectos da funcionalidade mais importantes
para o paciente e sua família, como é o ambiente em que ele vive (facilitadores e as
barreiras), possibilitando ao profissional compreender melhor onde e como intervir, a
necessidade de adaptações. Isso contribui para o estabelecimento de metas mais
claras e relevantes e para a posterior avaliação dos resultados da intervenção.
● A estrutura da CIF permite a organização de dados quali e quantitativos que guiam o
processo de raciocínio clínico do fisioterapeuta desde a avaliação até a definição de
objetivos, a escolha de instrumentos de medida e a elaboração do plano terapêutico
individualizado.
(OMS, 2013)
Raciocínio clínico e CIF
Alguns sites podem auxiliar a escolha do instrumento mais adequado, como o
Rehabilitation Measure Database ou o Rehab Scale.
Neles, basta escolher o desfecho que se deseja mensurar e selecionar o instrumento mais
apropriado.
Aplicação prática
● Quais as relações entre os componentes?
● Quais componentes interferem realmente nas limitações nas atividades e nas restrições na
participação?
● Quais deficiências interferem em quais atividades?
● Há aspectos relacionados à atividade e à participação que podem estar contribuindo para
aumentar as deficiências em estruturas e funções corporais?
● Quais fatores ambientais interferem nesse processo como facilitadores e barreiras?
● Qual é a importância dos fatores pessoais no processo terapêutico?
Aplicação prática
Estudo de caso – Neurofuncional:
J.S., 45 anos de idade, casada, dois filhos, vendedora ambulante, sofreu um AVC (oito meses de
lesão). Apresenta força muscular grau 3 na maioria dos grupos musculares do hemicorpo direito,
hipertonia 1+ analisada pela Escala Modificada de Ashworth, diminuição da sensibilidade
superficial e profunda no hemicorpo direito, desalinhamento e incoordenação no hemicorpo
mais acometido, déficit perceptual, lentidão da marcha e fadiga frequente. A mobilidade
articular está preservada, assim como a compreensão e a expressão da linguagem.
Aplicação prática
Estudo de caso – Neurofuncional:
Relata dificuldades em ocasiões que deseja alcançar objetos, manter estabilidade em pé, mudar
de posição de sentada para de pé, subir e descer degraus, andar longas distâncias. Não
apresenta dificuldade para vestir-se ou cuidar de partes do corpo.
A paciente deixou de fazer suas vendas e sair com os amigos, mas pode recebê-los em sua
casa. Sua queixa principal é dificuldade para andar nas ruas e atravessar grandes avenidas,
impedindo seu trabalho, já que era vendedora ambulante. Ela tem família participativa e nunca
realizou tratamento de reabilitação, em razão da falta de acesso aos serviços de saúde. É ativa,
otimista e está motivada para o tratamento.
Modelo CIF para o caso clínico
Modelo CIF para o caso clínico
Fonte: Adaptada de Organização Mundial da Saúde (2003).
Aplicação prática
A partir do caso clínico e do modelo apresentado podemos estabelecer o diagnóstico
fisioterapêutico:
• O diagnóstico fisioterapêutico da paciente é hemiparesia à direita, com deficiência
sensorial e perceptual, limitações para andar longas distâncias e atravessar a rua,
repercutindo em restrições ao trabalho de vendedora ambulante. Mantêm-se otimista, e
a família é participativa.
Traçar hipóteses diagnósticas para as limitações e restrições apresentadas.
Estipular objetivos e metas terapêuticas, analisando a interação dos componentes da CIF.
Formular novas perguntas para direcionar o raciocínio clínico.
(Heerkens et al. 2018)
Aplicação prática
• Quais deficiências apresentadas e/ou quais fatores contextuais podem estar relacionados
com as limitações e restrições apresentadas pela paciente?
• Há algum comprometimento das funções relacionadas ao equilíbrio?
• A paresia é a causadora dos outros déficits das funções do corpo?
• A insegurança por andar nas ruas se deve a algum fator emocional ou ambiental, como,
por exemplo, asfaltos desnivelados e ruas esburacadas?
• O medo de atravessar a rua está relacionado ao tempo do semáforo, e, por andar
lentamente, ela tem medo de o sinal abrir e não ter terminado de atravessar a rua?
• A diminuição dos níveis de atividades pode estar relacionada com as queixas de fadiga?
Modelo de raciocínio clínico
Fonte: Adaptado de Silva e colaboradores (2023)
WHODAS 2.0
Outra possibilidade para inserir os conceitos da CIF na prática clínica é por meio de
instrumentos de medida relacionados com a classificação.
A CIF não é um instrumento de medida; ela orienta “o que medir”, e não “como
medir”.
É necessário selecionar instrumentos de medida que sejam condizentes com a CIF
e que apresentem adequadas propriedades de medida para a população-alvo.
World Health Organization Disability Assessment Schedule (WHODAS 2.0)
desenvolvido pela OMS com o objetivo de avaliar o estado de saúde e de
incapacidade.
Traduzido e adaptado transculturalmente para o português do Brasil,
apresentando adequadas propriedades de medida.
Instrumento genérico.
(Castro, Leite; 2017; Santos et al. 2022)
WHODAS 2.0
As duas primeiras seções estão destinadas à coleta de dados demográficos e
clínicos dos pacientes, e a seção 3 contempla instruções para a aplicação do
instrumento.
A seção 4 é composta por 36 itens, divididos em seis domínios:
Cognição (6 questões);
Mobilidade (5 questões);
Autocuidado (4 itens);
Relações interpessoais (5 itens);
Atividades de vida, subdividida em atividade doméstica (4 questões) e
atividades escolares ou de trabalho (4 questões);
Participação (8 itens).
(Castro, Leite; 2017; Santos et al. 2022)
Core sets da CIF
• Propostos pela OMS para auxiliar na implementação da CIF (2012).
• Os core sets da CIF são conjuntos de categorias que descrevem a funcionalidade de
pessoas com determinadas condições de saúde.
• Em vez de se avaliarem 1.454 aspectos da funcionalidade das pessoas, devem-se avaliar
apenas aquelas categorias que são típicas e significativas de uma determinada doença.
• Não contemplam a descrição da funcionalidade de pessoas com mais de uma condição
de saúde (idosos, por exemplo), pois são estruturados para obtenção de um conjunto
específico de categorias relacionadas a uma doença.
• Reforçam modelo biomédico?
(Bickenbach et al. 2012)
Core sets da CIF
Conclusão
A CIF é uma estrutura conceitual que permite um olhar para todos os aspectos da
funcionalidade.
A CIF prioriza a funcionalidade como componente da saúde e considera o ambiente
como facilitador ou barreira, deslocando o foco da doença.
Para a CIF, a deficiência não implica na incapacidade, tampouco a incapacidade
pressupõe deficiência.
Isso ocorre porque a CIF considera que a incapacidade é o resultado de um conjunto
de situações que interagem de forma complexa, e não apenas da deficiência.
Portanto, ao utilizar a CIF, é possível contribuir para aperfeiçoar a qualidade do
cuidado em saúde.
Atividade
proposta
Caso clínico
Elabore o modelo da CIF para o seguinte caso clínico, identificando as deficiências nas
funções corporais, limitações nas atividades, restrições na participação e os fatores
contextuais.
Caso clínico
B.S.F., 67 anos de idade, casado, aposentado, diagnosticado com doença de Parkinson
(DP), apresenta como queixa de funcionalidade principal a dependência nas atividades da
vida diária (AVD) apresentadas a seguir:
● Fraqueza muscular bilateral, rigidez muscular generalizada, fadiga e sinais de apatia;
● Dificuldade para usar os talheres para se alimentar, dificuldades para realizar higiene
e para subir e descer escadas;
● Deixou de comer em restaurantes por dificuldade de usar talheres em público;
● Família ajuda no tratamento, faz fisioterapia e terapia ocupacional e usa
medicamento (levodopa);
● Fumante há 30 anos (1 maço/dia); não pratica atividade física.
Referências
● [Link]
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health
● Farias, N.; Buchalla, C. M.. A classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde da
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Health Organization Disability Assessment Schedule (WHODAS 2.0) to estimate disability after stroke. Disabil
Rehabil. 2022 Jun;1–6.
Obrigada!