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Textos Literários para Formação de Professores

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brain chemicalsTextos para leitura inicial na formação em literatura juvenil

Quatro sugestões de textos literários curtos e metalinguísticos para o coordenador pedagógico fazer a introdução da
formação de professores em literatura juvenil

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POR:

GESTÃO ESCOLAR

28 de Julho de 2010

Textos sugeridos no 1º módulo do projeto de formação de professores e literatura juvenil.

Biblioteca verde

Carlos Drummond de Andrade

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.

São só 24 volumes encadernados

Em percalina verde.

Meu filho, é livro demais para uma criança.

Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.

Quando crescer eu compro. Agora, não.

Papai, me compra agora. É em percalina verde,

Só 24 volumes. Compra, compra, compra.

Fica quieto, menino, eu vou comprar.

Rio de Janeiro? Aqui é o coronel.

Me mande urgente sua Biblioteca

Bem acondicionada, não quero defeito.

Se vier com arranhão recuso, já sabe:

quero devolução de meu dinheiro.

Está bem, Coronel, ordens são ordens.

Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,

Fino caixote de alumínio e pinho.

Termina o ramal, o burro de carga

Vai levando tamanho universo.

Chega cheirando a papel novo, mata

de pinheiros toda verde. Sou


o mais rico menino destas redondezas.

(Orgulho, não; inveja de mim mesmo.)

Ninguém mais aqui possui a coleção

das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.

Antes de ler, que bom passar a mão

no som da percalina, esse cristal

de fluida transparência: verde, verde.

Amanhã começo a ler. Agora não.

Agora quero ver figuras. Todas.

Templo de Tebas. Osíris, Medusa,

Apolo nu, Vênus nua... Nossa

Senhora, tem disso nos livros?

Depressa, as letras. Careço ler tudo.

A mãe se queixa: Não dorme este menino.

O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!

Espermacete cai na cama, queima

a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo

essa Biblioteca antes que pegue fogo

na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca

a paciência e te dê uma sova. Dorme,

filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.

Mas leio, leio. Em filosofias

tropeço e caio, cavalgo de novo

meu verde livro, em cavalarias

me perco, medievo; em contos, poemas

me vejo viver. Como te devoro,

verde pastagem. Ou antes carruagem

de fugir de mim e me trazer de volta

à casa a qualquer hora num fechar

de páginas?

Tudo que sei é ela que me ensina.


O que saberei, o que não saberei

Nunca,

está na Biblioteca em verde murmúrio

de flauta-percalina eternamente.

Biblioteca verde, de Carlos Drummond de Andrade. In: Boitempo - Menino Antigo. Rio de janeiro: Editora Record,
2006. p.250-252.

Irmãos

Heloisa Seixas

Imaginem um menino. Um menino qualquer, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo, nem bonito nem feio,
mas de uma inteligência aguda e de olhos bem grandes, abertos para o mundo, todos os mundos. Ele era assim.
Filho único, era capaz de ficar horas a fio trancado no quartolendo, pois tinha nos livros seus grandes companheiros.
Não que fosse um menino solitário, isto não. Tinha amigos, jogava bola, namorava. Mas ler era um prazer especial,
que desfrutava com avidez.

Começara com Alice, mas logo enveredara por outros mundos, igualmente fantásticos, para os quais se
transportava. Tarzan, a feiticeira Ela, Sherlock Holmes, tantos, tantos. Em seu quarto, armara uma pequena estante,
que em pouco tempo já estava superlotada de livros. Romances, poesia, biografias, dicionários, tudo. Tratava os
livros com reverência, sem que nunca ninguém lhe ensinasse a agir assim.

Com o passar dos anos, sua vida foi mudando. Cresceu. Mudou de casa, de cidade, de país. Foi e voltou, casou e
descasou, ganhou e perdeu, rolou e rolou pela vida como quase todos nós e, com essas transformações, sua
biblioteca de menino foi desaparecendo. Mesmo os livros mais antigos, os primeiros, aqueles que mais amava e dos
quais se recordava de forma aguda, se perderam.

Novamente, os anos passaram.

Até que um dia, muito tempo depois, estava ele num sebo, examinando aquelas prateleiras coloridas que transpiram
vida - como sempre acontece com as prateleiras de um sebo -, quando seus olhos se prenderam a uma lombada.
Sentiu uma onda de prazer, o reconhecimento imediato. Alcançou o livro e puxou. Viu-se com um pedaço da própria
infância nas mãos. Era um exemplar igual - mesma capa, mesma editora, mesma edição, tudo - ao que tivera em
criança. Folheou as primeiras páginas imaginando encontrar seu próprio nome escrito a canetatinteiro (pois sempre
escrevia o nome nos livros), mas o que encontrou foi outro nome. De outro menino, quem sabe igual a ele,
apaixonado por livros. Porque os meninos apaixonados por livros tratam bem seus volumes e aquele estava muito
bem conservado.

Daquele dia em diante, não parou mais. Passou a andar pelos sebos buscando seus livros de infância. Tinha a secreta
esperança de um dia abrir um deles e encontrar o próprio nome, mas isso nunca aconteceu. Não se importou.
Encontrava outros nomes e sentia-se irmanado àqueles que um dia foram meninos como ele e que, como ele,
amaram os livros desde cedo. E foi assim que esse menino- homem, sendo filho único, ganhou dezenas de irmãos.
Irmãos, de Heloisa Seixas. In: Uma ilha chamada livro: contos mínimos sobre ler, escrever e contar. Rio de Janeiro:
Galera Record, 2009. p.9-11

LIVRO: a troca

Lygia Bojunga Nunes

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena

os livros me deram casa e comida.

Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo;

em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada;

inclinado, encostava num outro e fazia telhado.

E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá

dentro pra brincar de morar em livro.

De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto

olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois,

decifrando palavras.

Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça.

Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto

mais íntima a gente ficava, menos eu ia me lembrando

de consertar o telhado ou de construir novas casas.

Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava

a minha imaginação.

Todo o dia a minha imaginação comia, comia e comia;

e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no

mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu,

era só escolher e pronto, o livro me dava.

Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca

tão gostosa que - no meu jeito de ver as coisas -

é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no

livro, mais ele me dava.

Mas como a gente tem mania de sempre querer mais,

eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar

tijolo pra - em algum lugar - uma criança juntar com

outros, e levantar a casa onde ela vai morar.


LIVRO: a troca, de Lygia Bojunga. In: Livro: um encontro. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2010. p.8-9.

Balada

José Paulo Paes

Folha enrugada,

poeira nos livros.

A pena se arrasta

no esforço inútil

de libertação.

Nenhuma vontade,

nem mesmo desejo

na tarde cinzenta.

A árvore seca

esperando seiva

não tem paisagem.

Na frente é o deserto

coberto de pedras.

Nem sombra de oásis.

Pobre árvore seca

na tarde cinzenta!

Se houvesse um castelo

com torres e dama

de loiros cabelos,

talvez eu fizesse

algum madrigal.

Mas a dama morreu,

os castelos se foram

na tarde cinzenta!

O caminho se alonga
por entre montanhas,

por campos e vales.

Talvez me conduza

ao roteiro perdido

no fundo do mar.

Mas estou tão cansado

na tarde cinzenta!

Não sou lobo de estepe;

amo a todos os homens

e suporto as mulheres.

Contudo não posso

falar com os lábios,

amar com o sexo,

porque sinto a tortura

da tarde cinzenta!

Só me restam os livros

Vou ficar com eles

esperando que chegue

do fundo da noite,

das sombras do tempo,

oh! imenso mar,

vem me libertar

da tarde cinzenta!

Balada, de José Paulo Paes. In: Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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