tw: alusões a assassinato e abuso
“Maldição”
Todas as noites, seu rosto invade meus sonhos, como uma maldição.
Seu rosto, minhas mãos em seu corpo coberto de lágrimas e sangue. Talvez te conforte
saber que as lágrimas vieram de quem te amava, de quem você quebrou. Minhas lágrimas,
seu sangue, como nos velhos tempos.
Nunca o vejo em sonhos fantasiosos. Muito pelo contrário, sua presença protagoniza
sonhos tão similares com a realidade que o pânico que envolve meu corpo ao acordar é
quase o mesmo que senti naquela noite. É doloroso, confesso, mas não pretendo implorar
por piedade ao destino. Minha sanidade parece um preço razoável a ser pago em troca do
que lhe tomei.
Pensando bem, talvez essa seja uma boa forma de nomear o que foi feito: Eu roubei seu
destino.
Quando desperto de mais uma noite com seu fantasma, sento-me na cama e espero pela
culpa, mas ela não vem. Arrependimento é superestimado, minha mente repete, não existe
melhor maneira de reescrever o passado do que mudando o futuro, meu peito clama. Por
mais que minha moralidade tente me convencer do contrário, não consigo deixar de sentir
que foi uma troca justa.
Reclamo seus próximos anos como pagamento pelos anos que me roubou. Uma vida por
outra vida, não?
Infelizmente, no entanto, a imagem de seu cadáver em minha mente não substitui a do seu
sorriso cruel. É essa a lembrança que me faz tremer quando retomo a consciência depois
dos pesadelos, não sua morte, não os seus gritos, mas sua risada.
Não pude enterrar seus pecados contigo, para minha profunda decepção. Eles vivem em
mim, carimbados em minha pele como uma cicatriz que não pode ser coberta, não importa
o quanto eu tente. Pensar nisso me faz desejar ter cuspido no buraco em que abandonei
você.
Fazem anos, mas seu toque ecoa fresco em mim. Apesar dos meus esforços para afastar a
sensação, aceitei o fato de que, por muitos anos a seguir, sentirei a mesma dor.
Será que você também esteve de luto pela minha alma quando ouviu minhas orações
sussurradas na primeira vez em que me tocou? Será que algum sinal de culpa reverberou
em seus ossos quando as lágrimas que eu não conseguia conter jorraram como um pedido
de socorro?
Para qualquer uma dessas perguntas, é em minha mais profunda vergonha que suponho
que a resposta seja não. Sei disso porque também não consigo sentir remorso algum por
tirar a sua vida, imagino que seja recíproco.
Sob o crepúsculo sufocante, deito-me novamente e espero que o sono venha enquanto
espero que me deixe em paz, mesmo sabendo que não vai.
Quando fecho os olhos, sua imagem aparece outra vez. Mas, em meio a névoa de perigo,
percebo que não tenho medo de você.
Você não me assusta, não mais.
Imagino-o sozinho, no escuro, calado como fez de mim. Seu fantasma ameaça vir até mim,
mas não sou eu quem sangra por último, não mais.
Não sei se você sabia, mas queria que soubesse que me matou primeiro. Mesmo assim, em
uma dolorosa verdade, é sobre mim que cai a maldição.
Em um último devaneio antes de cair no sono, sussurro em uma prece: “espero que tenha
doído tanto quanto doeu em mim nas noites em que me amaldiçoou.”