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Reflexões sobre o Fim e a Existência

o fim

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Eder Santos
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Babú Ritir

CAPITULO 1

O FIM

A noite parecia mais densa do que o normal. Tinha peso, profundidade, quase uma
textura própria. O ar não circulava; acumulava-se como uma substância espessa, imóvel,
pressionando tudo ao redor, como se o mundo inteiro tivesse prendido a respiração para
observar o que eu faria a seguir. A escuridão não era ausência de luz — era uma
presença concreta, fria, apertando a garganta da cidade e, principalmente, a minha.
Caminhava pelo quarto como quem se aproxima, voluntariamente, da beira de um
abismo. Não porque desejasse a queda, mas porque não havia mais caminhos possíveis
para trás. Hoje, eu havia tentado decidir se seria o fim. E essa tentativa era, por si só, o
meu martírio mais recente.

Sempre acreditei que, diante de uma decisão como essa, haveria clareza. Um
momento definitivo, quase solene, onde o corpo, a mente e a alma se alinhariam num
único caminho. Mas não encontrei clareza. Encontrei um labirinto. Um vazio inquieto,
povoado por perguntas que sussurravam em coro, como uma multidão invisível:

Por que continuar? Por que parar? Por que respirar? Por que existir?

E, em contraste com todas essas perguntas, uma parte de mim respondia com um
silêncio absoluto — o silêncio dos escombros. Meu corpo, exausto, recusava-se a
obedecer a mente. Era um navio avariado, mas teimosamente flutuando, mesmo depois
de todos os mapas terem sido queimados.

Não era a primeira vez que esses pensamentos surgiam, mas era a primeira vez que
pareciam possíveis. O que eu sentia não era tristeza; era desgaste. Uma erosão contínua
da alma. A dor havia deixado de ser emoção e se tornado ambiente. Uma areia
movediça puxando, todos os dias, um pouco mais. Eu não estava triste. Eu estava
consumida. Um poço seco, ainda assim pressionado a jorrar água para todos ao redor.

E então veio o primeiro freio — a primeira corrente invisível. Se eu caísse, quem


sustentaria os outros?

Pensei em Clara, minha irmã, tropeçando nas próprias contas. Pensei em minha mãe,
frágil, cuja saúde dependia das minhas ligações, da minha presença, mesmo que
distante. Meu desejo egoísta de paz batia contra a muralha da responsabilidade.

O meu fim seria um alívio para mim, mas seria caos para eles.

Essa prisão moral era mais forte do que qualquer medo físico. Eu respirava por mim… e
pelos outros. A morte, que na minha mente aparecia como uma libertação, tornava-se
uma dívida. Eu não tinha o direito de quebrar aquele ciclo de dependência, mesmo que
ele estivesse me sufocando lentamente.

Mas mesmo que esse obstáculo fosse superado, o medo visceral permanecia.
Babú Ritir

Eu não temia o fim. A ideia da ausência era, na verdade, convidativa. O que me


assustava era o processo. O intervalo cruel entre estar e deixar de estar. A transição. O
caminho.

Eu sempre imaginei que desaparecer seria algo instantâneo. Um apagão súbito. Mas a
mente insistia em me presentear com imagens lentas, dolorosas, humilhantes. O corpo
resistindo. A dor. A falha. O retorno forçado à vida, carregando uma dor maior do que
antes. O medo gelado subia pela minha espinha só de imaginar.

A dor emocional eu já conhecia. Era constante, previsível, um vizinho barulhento cujo


incômodo eu já tinha aprendido a contornar. Mas a dor física sempre foi outra história.
Um tipo de sofrimento que eu não sabia enfrentar. Eu suportava tempestades, mas não
agulhas.

E foi aí que percebi a ironia amarga: eu ansiava pelo descanso absoluto, mas não queria
pagar o preço físico disso. Que contradição ridícula. Que covardia humana.

O quarto parecia encolher à medida que os pensamentos cresciam. As paredes


avançavam, milímetro por milímetro, até encostar no meu corpo. Sentei-me na beira da
cama, deixando que o silêncio me engolisse. A cabeça latejava, não pela força do
pensamento, mas pela repetição incessante dele. “Por que dói tanto existir?”, murmurei
— e não havia resposta.

Meus olhos ardiam, mas as lágrimas não vinham. Fazia tempo que elas me
abandonavam. Talvez cansadas. Talvez esgotadas pela repetição infinita da mesma
história, da mesma dor, do mesmo ciclo. Era como se eu já tivesse chorado tudo que
tinha para chorar, só que por dentro. Eu não estava em luto; estava em ruínas.

Olhei para minhas mãos trêmulas. Não sabia se era medo, se era cansaço, se era apenas
o corpo cedendo ao colapso. Eu só sabia que não queria sentir mais nada. O vazio
parecia a única opção que não machucava.

Caminhei devagar pelo quarto. O som dos meus passos no chão frio ecoava como se
viesse de outra pessoa. A cada passo, pensamentos escuros se formavam e se desfaziam
como fumaça. Eu pensava em desaparecer — não de forma concreta, mas como
conceito. Sumir do mundo. Dissolver-me. Mas cada possibilidade parecia terrível.
Lenta, dolorosa, angustiante.

O problema nunca foi a ideia do fim. Foi o caminho até ele. Eu não suportava a ideia de
sofrer mais um pouco para encerrar um sofrimento que já parecia insuportável. Era uma
prisão perfeita: eu queria sair, mas a porta me ameaçava.

Sentei no chão encostada na parede. O frio me trouxe um mínimo de clareza. Respirei


fundo e deixei a mente falar.

“Por que ninguém vê?”

Essa pergunta ecoou dentro de mim como um grito.


Babú Ritir

Por que ninguém percebia? Por que, para os outros, tudo que me destruía parecia tão
pequeno? Só me viam quando precisavam que eu estivesse inteira.

E ali estava o nó. Eu precisava estar inteira para eles, mas ninguém exigia — ou
oferecia — inteireza para mim.

Queria gritar. Não consegui. Queria chorar. Não podia. Queria pedir ajuda… mas a
coragem não vinha. Queria desaparecer, mas faltava força. Força para suportar a dor.
Força para abandonar aqueles que dependiam de mim.

E então veio a pergunta que realmente me desarmou:

Será que eu queria morrer… ou só queria parar de sofrer?

Essa dúvida me atravessou como uma lâmina. Talvez eu não quisesse o fim, mas sim
descanso. Pausa. Silêncio. Alívio. Um porto seguro onde eu pudesse, por uma vez, ser
amparada.

Mas como descansar sem desaparecer? Como parar sem machucar? Como aliviar o peso
sem quebrar os laços que me mantinham viva e presa ao mesmo tempo?

Eu não sabia. E esse desconhecido era mais assustador do que a própria morte.

A madrugada avançou. Quanto mais avançava, mais pesada minha mente ficava.
Lembranças, medos, velhas dores, perguntas sem resposta — tudo caminhava dentro de
mim como sombras. Eu era uma casa assombrada por mim mesma.

Eu pensava no fim, mas ele me evitava. Eu pensava na vida, mas ela me expulsava. Eu
estava presa em um espaço entre mundos, incapaz de pertencer a qualquer um deles.

A frase repetia em minha mente: "Acabe logo com isso." E logo depois: "E se doer? E
se durar? E se falhar? E se eles não se perdoarem?"

O medo do sofrimento, somado ao peso da culpa, era maior do que o desejo de


descanso.

Talvez esse fosse o castigo final: querer ir, sem conseguir; querer ficar, sem suportar.

Respirei. Lenta e dolorosamente. O peso ainda estava lá — firme, esmagador.

E percebi então que o fim não viria naquela noite. Não porque eu tinha escolhido viver,
mas porque a morte ainda me exigia um preço que eu não podia pagar.

E, de forma cruel, irônica e estranhamente humana… foi essa incapacidade que me


manteve viva.

A madrugada parecia interminável, como se o tempo tivesse decidido se arrastar apenas


para me obrigar a sentir cada segundo com a mesma intensidade dolorosa. Eu me
encolhi mais no chão, abraçando os joelhos, tentando encontrar alguma sensação física
que me ancorasse, algo que quebrasse a sensação de que meu corpo estava se
Babú Ritir

dissolvendo dentro de mim mesma. O frio da parede era a única coisa real, a única coisa
concreta.

O pensamento de pedir ajuda voltou, suave, quase tímido, como um animal ferido que
se aproxima e recua. Mas logo veio o medo. Medo da exposição. Medo de incomodar.
Medo de ser julgada. Medo de escancarar a fragilidade que eu passei a vida inteira
escondendo. Eu não sabia como falar. Eu não sabia como começar. Eu não sabia se
alguém realmente ouviria sem transformar minha dor em exagero ou drama.

Porque, para o mundo, eu sempre fui forte. Sempre fui aquela que resolve. Aquela que
aguenta. Aquela que conforta. Aquela que limpa a bagunça emocional dos outros
enquanto guarda a sua própria dentro de caixas lacradas que ninguém ousa abrir.

E o mais cruel de tudo é que, mesmo quebrada, eu continuava representando esse papel.
Como se eu não tivesse permissão para colapsar. Como se a minha dor fosse um
inconveniente na rotina de quem precisava de mim.

Respirei fundo mais uma vez. O ar entrou aos trancos, como se minha respiração tivesse
enferrujado. Fechei os olhos e tentei imaginar algo diferente. Alguma cena, alguma
possibilidade, qualquer coisa que não fosse essa sombra esmagadora.

Tentei imaginar descanso.

Um lugar silencioso. Um lugar onde ninguém esperava nada de mim. Onde eu não
precisava ser forte. Onde eu pudesse existir sem utilidade, sem função, sem obrigação.
Apenas existir.

Mas mesmo nessa fantasia, a culpa surgia como um fantasma. Sempre ela. A ideia de
descanso vinha acompanhada de perguntas torturantes: "Quem vai cuidar deles se eu
parar?" — como se eu fosse responsável pela sustentação emocional de todo o mundo.

Eu me odiei por isso. Pelo condicionamento. Por ter aprendido, talvez cedo demais, que
o valor de existir estava ligado ao quanto eu podia suportar sem desmoronar.

E ali, encostada no frio do chão, percebi uma outra verdade silenciosa, uma que eu
evitava encarar: eu não sabia o que era ser cuidada.

Não de verdade. Não de um jeito que não cobrasse nada em troca.

Minha mente tentou puxar alguma memória antiga, algum momento remoto em que eu
tivesse sido amparada sem esforço, sem performance, sem medo de perder algo em
troca. Mas nada veio. Apenas ruídos. Apenas vazios.

Talvez fosse por isso que o descanso parecia tão distante. Não era o mundo que não me
dava espaço — era eu que não acreditava que merecia.

A respiração ficou mais pesada. O peito começou a doer, não pela falta de ar, mas por
tudo que eu vinha guardando há anos. Meu corpo inteiro parecia feito de poeira prestes
a se desfazer com um toque.
Babú Ritir

A noite avançava e, com ela, minhas forças diminuíam. O silêncio do quarto parecia
crescer. Era quase opressor. Uma presença que me envolvia, que caminhava comigo,
que respirava comigo. Eu queria fugir dele, mas não havia para onde ir. A escuridão não
estava apenas ao meu redor, mas dentro de mim.

E então um pensamento surgiu, tão baixo e tão frágil que quase não reconheci como
meu:

E se eu pedisse ajuda?

Não como um grito, não como um escândalo, não como um pedido desesperado. Mas
como alguém que, mesmo tremendo, estende a mão para fora da água.

A ideia me assustou. Me envergon

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