Etnomatemática e Ensino Superior Decolonial
Etnomatemática e Ensino Superior Decolonial
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Resumo Palavras-chave:
Este artigo, de cunho teórico, apresenta uma problematização sobre o − Etnomatemática
ensino de componentes curriculares ligados à Matemática no Ensino
− Ensino Superior
Superior. Tem como objetivo apontar a Etnomatemática como um
método de pesquisa e de ensino no Ensino Superior, consistindo assim − Decolonialidade
em uma alternativa epistemológica frente a uma racionalidade
− Contraconduta
universal do conhecimento, difundida pelos colonizadores europeus a
partir do século XVI. Para tanto, utiliza-se de um referencial teórico − Método de
baseado nos conceitos de poder/saber e contraconduta de Foucault, Pesquisa e de
no movimento Decolonial e na Etnomatemática na perspectiva de Ensino
D’Ambrosio e de Lara. Ao final, busca confluências entre essas teorias
para apontar possibilidades para um ensino comprometido com a
equidade e a formação de qualidade no Ensino Superior.
Cómo citar:
Osterberg, L. T., & Machado de Lara, I. C. (2025). Etnomatemática como Método de Pesquisa e de Ensino e o Pensamento
Decolonial: uma Possibilidade de Proposta de Ensino para o Ensino Superior. Revista Latinoamericana de Investigación en
Matemática Educativa, 28, e370. [Link]
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Vol. 28, e370 [Link]
1. Introdução
O ensino de Cálculo em Instituições de Ensino Superior (IES) tem sido motivo de muitas
reflexões nas últimas décadas, tendo em vista o alto índice de reprovação de estudantes
nessas disciplinas. Soma-se a isso o fato de essas disciplinas serem obrigatórias em uma
vasta lista de cursos de graduação, como, por exemplo, Engenharias, Arquitetura, Física,
Química e a própria Matemática.
Quando se fala em cursos distintos, como é o caso dos cursos supracitados, nos quais são
ministrados componentes curriculares ligados à Matemática, supõe-se que cada curso
disponha de professores preparados para lecionar os conteúdos desses componentes.
Entretanto, geralmente, não é o que ocorre. De acordo com Peixoto e Lara (2020), grande
parte dos professores encarregados das disciplinas de Cálculo e afins tem sua formação
vinculada ao curso de graduação em Matemática, logo apresentam uma linguagem que é
própria da Matemática Acadêmica.
Rezende (2003), em sua tese de doutorado, faz uma reflexão acerca daquilo que chama de
“fracasso no ensino de Cálculo”, questionando toda uma estrutura de ensino e
mencionando as dificuldades de natureza epistemológica. Aponta inúmeros problemas
institucionalizados e normalizados no âmbito das IES no que diz respeito ao ensino do
Cálculo, como, por exemplo os currículos, os professores e a sua didática. Tudo isso é
estruturado pensando exclusivamente em um discurso universalizador da Matemática
como ciência inequívoca, a-cultural, a-histórica.
Trazendo para a discussão as teorizações de Michel Foucault, é possível caracterizar as IES
como instituições que detêm saber, logo são detentoras de poder, pois “[...] não há relação
de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e
não constitua ao mesmo tempo relações de poder” (Foucault, 1991, p. 30). Vale ressaltar
que, na perspectiva foucaultiana, “um saber é aquilo de que podemos falar em uma prática
discursiva que se encontra assim especificada: o domínio constituído pelos diferentes
objetos que irão adquirir ou não um status científico” (Foucault, 2013, p. 220).
Diante disso, essas instituições podem ser vistas como dispositivos de governo que se
utilizam de mecanismos que disciplinam o modo de pensar dos estudantes. De acordo com
Lara (2001), a Matemática, e, portanto, o Cálculo, possui um poder disciplinador exercido
por meio de técnicas de controle que avaliam, ordenam e normalizam os estudantes.
Nesse sentido, as disciplinas de Cálculo, ao exercerem sobre os discentes um poder
disciplinador, fazem com que estes se adaptem à forma de ensino, aos conteúdos, às
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No presente artigo, o intuito não é dar respostas a todas essas perguntas, mas sim refletir
sobre algumas delas à luz de teorias que apresentam novos direcionamentos para a
Educação, em especial à Educação Matemática.
Nessa esteira, surgem a Etnomatemática (D’Ambrosio, 1993) e o Movimento Decolonial
(Maldonado-Torres, 2021), que trazem novas perspectivas para se pensar a Educação,
podendo-se incluir aí o ensino de Matemática. Apesar do Ensino Superior (ES) não ser o foco
de discussão dessas duas temáticas, é possível pensar que ambas oferecem subsídios para
refletir sobre uma nova perspectiva nesse nível de ensino.
Assim, ao problematizar a Educação Matemática no ES, o que se pretende é trazer uma nova
perspectiva para esse nível de ensino, a partir da confluência das teorias supracitadas, e
propor caminhos que possibilitem aos discentes um ensino que vá ao encontro de seus
anseios, minimizando a problemática que envolve reprovações, angústias e medo de
disciplinas relacionadas à Matemática.
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Com isso, Foucault (2004) surge com a ideia de que não existe o poder, mas sim relações
de poder que envolvem sujeitos em diferentes sistemas e camadas da sociedade, nos quais
esse poder está organizado de forma mais ou menos piramidalizada e coordenada.
Foucault envolve todos os indivíduos em uma rede de relações de poder sem que esses
possam escapar delas. Estamos, ou exercendo o poder sobre alguém, ou agindo sob o
poder de alguém, mesmo que não se perceba ou não se tenha a intenção disso, pois “[...]
aquilo que define uma relação de poder é um modo de ação que não age direta e
imediatamente sobre os outros, mas que age sobre sua própria ação. Uma ação sobre a
ação, sobre ações eventuais, ou atuais, futuras ou presentes” (Foucault, 1995, p. 243). E
são nessas relações de poder que o poder ganha sua força.
De acordo com Brígido (2013), a partir da análise dessas relações de poder, Foucault aponta
dois mecanismos que servem como “dispositivos” para que o poder possa ser exercido: a
vigilância e a punição. O autor explica que esses dispositivos são as formas, os meios pelos
quais o poder pode ser exercido em um grupo social, e estes são utilizados “[...] de forma
discreta para dar força aos meios que, em suma, objetivam determinado fim” (Brígido, 2013,
p. 62). Esses dispositivos são utilizados principalmente para o exercício de um poder
específico chamado por Foucault de poder disciplinar.
O poder disciplinar pode ser entendido como uma forma de poder que atua sobre o corpo
por meio da vigilância e da punição, “fabricando” dessa maneira indivíduos adestrados,
dóceis e padronizando seus modos de pensar e de agir. “Esses métodos que permitem o
controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas
forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as
“disciplinas”” (Foucault, 2002, p. 118). De acordo com Diniz e Oliveira (2013), o poder
disciplinar não se utiliza da força, assim como utilizado em outras formas de dominação,
mas sim de maneira sutil e discreta de forma que os sujeitos não percebam a sua aplicação.
Dessa forma, é possível pensar que instituições de ensino exercem sobre os estudantes, de
diferentes maneiras, um poder disciplinar, que visa a formação de um sujeito dócil e que de
alguma maneira seja útil na sociedade. As formas de exercer o poder disciplinar nas
instituições de ensino podem ser por meio do currículo, das estratégias de ensino, das
avaliações, entre outras.
Lara (2001) vai além e considera a própria disciplina Matemática como um mecanismo que
exerce sobre os estudantes o seu poder disciplinar:
A disciplina Matemática exerce seu poder disciplinador por meio de provas graduadas, que
abordam conteúdos hierarquizados e determinados por um programa curricular. Através dessas
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provas, os alunos são avaliados e classificados e é portanto, através delas, que esse poder
disciplinador se exerce e transparece, atuando como um olhar que ordena, classifica e
normaliza. (p. 29)
No contexto desse estudo, é possível pensar que, nas relações de poder existentes no
interior das IES, os componentes curriculares ligados à Matemática se apresentam como
um mecanismo que exerce um poder disciplinar, pois apresenta a mesma dinâmica da
disciplina Matemática citada por Lara. Nesse contexto, os sujeitos que não se enquadram
no perfil de um estudante que domine a linguagem, os conceitos, as técnicas, as regras da
Matemática Acadêmica, são, de certa maneira, “punidos” com a reprovação, e acabam
tendo que lidar com o fracasso, a vergonha e o medo de certas disciplinas.
Ao refletir sobre esse poder disciplinador, o que se propõe é outra forma de pensar, uma
nova forma de pensar as relações de poder imbricadas nos processos de ensino e
aprendizagem de componentes curriculares ligados à Matemática no ES. Nessa relação de
poder entre Instituição, sujeito que ensina e sujeito que aprende, o que se busca é que o
estudante disponha de uma liberdade maior, que lhe permita também poder (verbo) ser
detentor do poder (substantivo), no sentido de poder traçar seu próprio caminho na
obtenção do conhecimento.
Outra questão importante a destacar é a relação poder/saber, já que, no presente artigo,
debate-se outras formas de saber que não aquelas propostas pelas IES. Para Foucault
(2000) “o saber não é uma soma de conhecimento [...] é o conjunto dos elementos (objetos,
tipos de formulações, conceitos e escolhas teóricas) formados a partir de uma só e mesma
positividade, no campo de uma formação discursiva unitária” (p. 110). O filósofo aponta que
o saber é algo que está estritamente ligado ao poder pois o poder não apenas regula, mas
também produz saber, e ambos se influenciam em uma relação mútua.
Na visão de Foucault (1995), não é o poder que produz um saber, mas justamente as
relações de poder entre eles que causam efeitos que permitem a manutenção do poder,
“[...] não é a atividade do sujeito do conhecimento que produziria um saber, útil ou arredio
ao poder, mas o saber-poder, os processos e as lutas que o atravessam e que constituem,
que determinam as formas e os campos possíveis de conhecimento” (p. 30). Infere-se daí
que as IES se apresentam em uma posição privilegiada, na qual, por serem detentoras do
poder, manipulam as formas de saber que convenientemente serão difundidas.
Propõe-se aqui possibilidades que permitem resistir a essas formas de poder. Dessa
maneira, apresentam-se a seguir, dois movimentos que possibilitam pensar em novos
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3. Decolonialidade
Para falar em decolonialidade, primeiramente é necessário fazer um breve apanhado
histórico de como se chegou a esse conceito que representa uma espécie de luta contra um
poder dominante.
Inicialmente, na década de 1990, alguns pesquisadores se reuniram para debater sobre a
dualidade colonialidade/modernidade no contexto de pesquisas de regiões historicamente
colonizadas, chamado por muitos de “terceiro mundo”. Nesse âmbito, “o Grupo
Modernidade/Colonialidade (Grupo M/C) foi sendo paulatinamente estruturado por vários
seminários, diálogos paralelos e publicações” (Ballestrin, 2013, p. 97), sendo realizados
alguns congressos de importância internacional.
A problemática amplamente discutida pelo grupo está relacionada com o conceito da
“colonialidade do poder” desenvolvido por Aníbal Quijano anos antes. De acordo com
Ballestrin (2013, p. 99) “ele exprime uma constatação simples, isto é, de que as relações de
colonialidade nas esferas econômica e política não findaram com a destruição do
colonialismo”, ou seja, apesar de não estarem mais sob um regime colonial, inúmeros
países que se originaram via colonialismo ainda apresentam muitos traços que consistem
em uma continuidade das formas coloniais de dominação.
Nesse sentido, Maldonado-Torres (2007) esclarece a diferença entre colonialismo e
colonialidade, considerando que o colonialismo representa uma relação política e
econômica na qual uma nação exerce seu poder sobre outra nação. Já a colonialidade está
ligada a outras relações de poder que não se limitam àquela relação formal de poder político
e econômico de uma nação sobre a outra. De acordo com o autor a colonialidade é a
continuidade do colonialismo, mas de maneira mais subjetiva.
Ela se mantém viva em textos didáticos, nos critérios para o bom trabalho acadêmico, na cultura,
no sentido comum, na auto-imagem dos povos, nas aspirações dos sujeitos e em muitos outros
aspectos de nossa experiência moderna. Neste sentido, respiramos a colonialidade na
modernidade cotidianamente. (Maldonado-Torres, 2007, p. 207)
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O autor segue seu pensamento dizendo que o Giro Decolonial não busca independência ou
alcançar algum tipo de soberania, mas sim, trata-se de um projeto “[...] cuyo objetivo
consiste en incrementar las prácticas y las formas de pensamiento descolonizado para
intentar forjar un mundo “donde quepan muchos mundos”” (Maldonado-Torres, 2021, p.
195), ou seja, um mundo inclusivo, onde todas as formas de ser, de viver, de pensar, de
saber sejam valorizadas.
A partir dessa virada, o grupo ganhou força e notoriedade, principalmente na América
Latina. Seus estudos viraram referência para uma ampla rede de estudos vinculados à
Filosofia, Sociologia, Antropologia, Educação, entre outros. A decolonialidade passou a ser
um importante movimento em prol do resgate de histórias, saberes e experiências outras
que foram sujeitadas em detrimento à forma de pensar do colonizador europeu.
No âmbito da educação, pode-se destacar que o movimento decolonial busca uma nova
postura epistemológica “[...] que contesta a compreensão exclusiva e imperial do
conhecimento, desafiando o privilégio epistêmico do Norte-Global” (Meneses, 2008, p. 6).
Para Mignolo (2017, p. 24), a concepção de conhecimento que existe hoje a nível global “[...]
se originou no Renascimento europeu (ou seja, nesse espaço e tempo) e chegou ao coração
da Europa (Alemanha, Inglaterra e França) através da Ilustração”, porém destaca que os
conceitos que surgiram dessa concepção de ciência, de conhecimento, dizem respeito
àquele espaço tempo, são regionais e possuem o mesmo valor que a concepção de
conhecimento de outros povos. A diferença é que tais conceitos se tornaram globais com o
colonialismo, sujeitando outras formas de pensar dos sujeitos colonizados.
Assim, pensar uma educação do ponto de vista decolonial, significa uma “desobediência
epistêmica” (Mignolo, 2017) em relação a epistemologia universalizada pela Europa
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Ocidental. Essa desobediência epistêmica diz respeito mais a um fazer diferente do que a
não se preocupar com regras, metodologias.
No que diz respeito a esse artigo, de um ponto de vista decolonial, é possível problematizar
a Educação no ES, mais especificamente o ensino de Matemática. De acordo com Leite e
Genro (2012) existe na América Latina o que se pode chamar de “internacionalização da
Educação Superior” definida pelo Processo de Bolonha, que visa a universalização e
homogeneização do ES. Segundo as autoras, existe por trás desse processo um
imperialismo benevolente que tem como intuito fortalecer as relações de colonialidade por
meio de políticas que estabeleçam “a homogeneidade dos currículos, avaliação e
acreditação, padronização e veiculação de valores mercantis [...]” (Leite & Genro, 2012, p.
770).
Dessa maneira, pode-se inferir que os componentes curriculares ligados à Matemática se
enquadram nessa dinâmica de homogeneização do ES. Currículos homogêneos e
padronizados, que difundem conceitos científicos concebidos por cientistas europeus, são
constantes nas IES brasileiras. Além disso, a didática assumida pela maioria dos docentes
consiste em apresentação de conteúdos de forma linear e hierarquizada, e a avaliação por
meio de provas que cobram a resolução correta de exercícios propostos nos livros da
disciplina.
Assim, é possível refletir, de um ponto de vista decolonial, novas formas de se pensar a
estrutura no ensino de componentes curriculares ligados à Matemática no ES, que fujam ao
imperialismo colonial e que valorizem outras formas de pensar e outras formas de
matematizar.
4. Etnomatemática
A Etnomatemática surgiu em meio a debates sobre novas formas de pensar a Educação
Matemática, com vistas a valorizar saberes distintos daqueles ensinados pelas escolas,
ainda nas décadas de 1970 e 1980. O termo foi cunhado por Ubiratan D’Ambrosio que
explica:
A palavra etnomatemática, como eu a concebo, é composta de três raízes: etno, e por etno
entendo os diversos ambientes (o social, o cultural, a natureza, e todo mais); matema
significando explicar, entender, ensinar, lidar com; tica, que lembra a palavra grega tecné, que
se refere a artes, técnicas, maneiras. Portanto, sintetizando essas três raízes, temos etno +
matema + tica, ou etnomatemática, que, portanto, significa o conjunto de artes, técnicas de
explicar e de entender, de lidar com o ambiente social, cultural e natural, desenvolvido por
distintos grupos culturais. (D’Ambrosio, 2008, p. 8)
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Para D’Ambrósio (2013), todo indivíduo possui suas maneiras próprias de interagir, de lidar
com o ambiente em que está situado, ou seja, possui suas próprias “ticas de matema”. Ao
mesmo tempo, esse indivíduo interage com outros indivíduos, recebendo e compartilhando
suas “ticas” constituindo, assim, o que o autor chama de cultura. “No compartilhar
conhecimento e compatibilizar comportamento estão sintetizadas as características de
uma cultura” (D’Ambrosio, 2013, p. 19). Nesse sentido, ao considerar que o
compartilhamento e compatibilização de conhecimentos caracterizam uma cultura, o
conceito de cultura se torna bastante amplo.
Dessa forma, D’Ambrosio estende também o conceito de etno, abrangendo assim outros
grupos como grupos de trabalhadores, grupos de crianças, comunidades. Para o autor,
então:
Etnomatemática é a matemática praticada por grupos culturais, tais como comunidades
urbanas e rurais, grupos de trabalhadores, classes profissionais, crianças de uma certa faixa
etária, sociedades indígenas, e tantos outros grupos que se identificam por objetivos e tradições
comuns aos grupos. (D’Ambrosio, 2013, p. 8)
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Compreender a Etnomatemática como uma teoria que pode trazer avanços em questões
educacionais começa a ganhar força nas discussões da área. Contudo, ao mesmo tempo
essa visão virou alvo de críticas de alguns autores por não trazer avanços contundentes ao
ensino de Matemática, apenas discussões políticas e ideológicas. Ferreira refuta tais
críticas:
Mas um dos princípios fundamentais da Etnomatemática é, no trazer para a sala de aula o
conhecimento social do aluno, fazer com que a matemática tenha significado para o aprendiz,
isto para mim é uma preocupação cognitiva. Quando se procura em dar significado a um
conceito, isto faz com que o ato de apre-ender este conceito seja mais pleno e o aprendiz se
aproprie dele, incorporando-o na sua realidade subjetiva. (Ferreira, 2003, p. 13)
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seja, fazem parte dos jogos de linguagem todas as ações e atividades que estão envolvidas
nos processos que envolvem a linguagem.
Ao fazer tal afirmação, Wittgenstein (1999) reconhece que existem infinitos contextos
distintos nos quais um jogo de linguagem pode estar inserido, e que não existe uma essência
que seja comum a todos esses jogos. Apesar disso, tais jogos podem apresentar alguns
traços comuns, o que o autor chama de “semelhanças de família”.
Ao se utilizar do referencial teórico de Wittgenstein, Lara (2019) compreende que é possível
pensar em um método de ensino que possibilite aos estudantes reconhecerem diferentes
“[...] jogos de linguagem que constituem diferentes saberes matemáticos” (p. 53). Dessa
maneira, propõe a Etnomatemática como método de pesquisa e ensino, apoiada na
proposta pedagógica de Ferreira (2003) e nos estudos de Kant (2015), que está articulado
em três etapas: Etnografia – sensibilização/apreensão; Etnologia –
compreensão/entendimento; Validação – interpretação/julgamento.
A autora destaca que ao utilizar a Etnomatemática como método de pesquisa e de ensino,
o estudante estará sendo o protagonista do processo de aprendizagem. Além disso, indica
que: “pensando nessas etapas, a Etnomatemática configura-se como um método de ensino
que pode ser utilizado tanto na Educação Básica, como no Ensino Superior” (Lara, 2019, p.
53). Dessa maneira, compreende-se que a Etnomatemática como um método de pesquisa
e de ensino no ES pode vir a ser uma alternativa para melhorar a compreensão de conceitos
matemáticos.
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conhecimento científico”. O autor distingue ainda, outros termos que estão relacionados
ao conhecimento, como é o caso da “gnosiologia”, que para ele está relacionada com a
teoria do conhecimento humano de uma maneira geral, e termos relacionados à palavra
grega “sofia” que significa sabedoria, saber, ou experiência vivida. Assim sendo, a
epistemologia é utilizada no presente artigo, como sendo uma teoria do conhecimento
científico, ou teoria da ciência, como propõe Saviani (2017).
Trazendo para a discussão o pensamento foucaultiano, em relação ao conhecimento, pode-
se apontar que a epistemologia presente em países do chamado terceiro mundo (países
colonizados) diz respeito ao modo de pensar do europeu. Isso porque o saber, do ponto de
vista foucaultiano, consiste em discursos de verdade que eventualmente se tornam
conhecimento. Ao se tornar um conhecimento, esse discurso pode ser disseminado,
tornando-se verdade absoluta.
No Brasil, em termos pedagógicos, o modelo epistemológico empregado está pautado na
epistemologia positivista, modelo este que se fundamenta “[...] na análise dos fenômenos
partindo das leis da natureza, físicas. Parte do particular, da matéria entendida como algo
dado. A concepção positivista de ciência advoga a necessidade da neutralidade, da busca
da verdade a partir da experiência” (Dalarosa, 2008, p. 345). Nessa perspectiva, é possível
notar que a Matemática, vista como uma ciência supostamente neutra e universal, se
enquadra nesse modelo epistemológico.
Em termos de colonialidade/modernidade, debatidos pelo Grupo M/C, o discurso sobre os
saberes da Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII se tornaram uma verdade hegemônica sobre
os povos colonizados, e isso segue até os dias de hoje. Tamayo e Mendes (2021), debatem
a Educação Matemática do ponto de vista decolonial, e colocam a Matemática como um
dos mecanismos utilizados para a manutenção da colonialidade.
Para as autoras (Tamayo & Mendes, 2021) “a Matemática e os discursos a ela vinculados
encobriram-se de uma falsa neutralidade, a Matemática constituiu-se como um discurso
legitimador de opções político/epistemológicas que contribuíram para a legitimação e
imposição da racionalidade da modernidade como padrão universal” (p. 3). Nesse sentido,
ao se utilizar de um discurso neutro, é possível colocar o conhecimento matemático como
um conhecimento universal. Isso permitiu a disseminação de uma racionalidade universal,
tangível e necessária para que seja possível viver na modernidade.
Ao se falar de um discurso, uma racionalidade universal, maneiras diferentes de viver, de
pensar, de saber, de se comunicar acabam sendo colocadas como “outras”, e nessa visão
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Do ponto de vista decolonial, é preciso pensar de outra maneira, é preciso ter outra conduta,
é preciso querer se guiar por outras regras, por outros condutores. Isso permitirá a
insurreição de saberes sujeitados desde o início das grandes navegações européias.
Para isso, segundo Mignolo (2017), é necessária uma desobediência epistêmica em relação
ao discurso do colonizador europeu.
A descolonialidade não consiste em um novo universal que se apresenta como o
verdadeiro, superando todos os previamente existentes; trata-se antes de outra opção.
Apresentando-se como uma opção, o decolonial abre um novo modo de pensar que se
desvincula das cronologias construídas pelas novas epistemes ou paradigmas (moderno, pós-
moderno, altermoderno, ciência newtoniana, teoria quântica, teoria da relatividade, etc.). (p. 15)
Ainda, segundo o autor, esse modelo de pensamento é considerado como sendo a base da
evolução do pensamento científico, que influenciou gerações de matemáticos,
principalmente da Europa.
Com as grandes navegações dos séculos XV e XVI, a colonização levou à disseminação do
conhecimento abstrato como sendo uma verdade universal, e cada vez mais sustentando
esse paradigma científico.
Quando D’Ambrosio propõe o Programa Etnomatemática com foco na geração, organização
e difusão dos conhecimentos de determinadas culturas, está propondo uma nova prática
“[...] com um enfoque epistemológico alternativo associado a uma historiografia mais
ampla” (D’Ambrosio, 1993, p. 6). Não que ele proponha uma epistemologia própria da
Etnomatemática, mas sim, que pensar a partir de uma perspectiva etnomatemática,
permite se desprender da “gaiola epistemológica” tradicional (D’Ambrosio, 2018). Isso
significa valorizar outras formas de conhecimento que foram marginalizadas e subjugadas
em detrimento a uma racionalidade universal.
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6. Considerações Finais
O ensino de Matemática no ES no Brasil mantém uma tradição histórica vinculada a uma
epistemologia universalizada pela colonização europeia. Atrelada a essa epistemologia,
existem modelos pedagógicos que reforçam a colonialidade do saber. Ao problematizar a
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