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Educação Sexual para Adolescentes com TEA

Considerações sobre a sexualidade e educação sexual de pessoas com transtorno do espectro autista

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Ciência & Saúde Coletiva

[Link] DOI: 10.1590/1413-812320253011.10992025


ISSN 1413-8123. v.30, n.11

Educação em sexualidade de adolescentes com transtorno 1

do espectro autista: uma revisão integrativa da literatura

ARTIGO DE REVISÃO
Sex education for adolescents with autism spectrum disorder:
an integrative literature review

Educación sexual para adolescentes con trastorno del espectro


autista: una revisión integradora de la literatura

Felipe Franklin Leite Lira [Link] 1; Maria Júlia Barros da Silva Martins [Link]
4656-3541 1; Ana Beatriz Salgueiro dos Santos [Link] 1; Lucas Cavalcante Chalegre [Link]
org/0009-0008-4950-277X 1; Ivanise Gomes de Souza Bittencourt [Link] 1

Resumo O estudo teve como objetivo identificar abordagens científicas sobre o ensino de educação em sexualidade a
adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA), analisando implicações sociais e o papel de pais, responsáveis
e profissionais. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, baseada no método do Instituto Joanna Briggs,
que permite mapear conceitos-chave e lacunas na literatura. A pergunta de pesquisa utilizou a estratégia População,
Conceito e Contexto para a revisão, sendo: P – pais, responsáveis e profissionais da saúde; C – como aplicar adequa-
damente a educação em sexualidade na adolescência; C – adolescentes com TEA. A amostra final contou com 24
estudos analisados, organizados em quatro eixos: mudanças corporais, relações sexuais, relações afetivas e autopro-
teção. Os achados revelaram divergências sobre quem deve abordar o tema com os adolescentes (pais, escolas ou pro-
fissionais de saúde), além da escassez de programas personalizados e eficazes. Diante disso, destaca-se a necessidade
de iniciativas que garantam uma educação em sexualidade adaptada às particularidades dos adolescentes com TEA,
promovendo o desenvolvimento saudável e a proteção desses indivíduos.
Palavras-chave Transtorno do espectro autista, Adolescente, Educação em sexualidade, Saude

Abstract The present study aimed to identify scientific approaches to teaching sex education to adolescents with
autism spectrum disorder (ASD), analyzing social implications and the roles of parents, caregivers, and professionals.
This is an integrative literature review based on the Joanna Briggs Institute methodology, which allows for mapping
key concepts and identifying gaps in the literature. The research question was developed using the Population, Con-
cept, and Context (PCC) strategy for the review, as follows: P – parents, caregivers, and health professionals; C – how
to adequately implement sexuality education during adolescence; C – adolescents with ASD. The final sample in-
cluded 24 studies, which were organized into four thematic axes: bodily changes, sexual relationships, affective rela-
tionships, and self-protection. The findings revealed divergences regarding who should address the topic with adoles-
cents (parents, schools, or health professionals), in addition to the scarcity of personalized and effective programs. In
this light, our study highlighted the need for initiatives that ensure sexuality education adapted to the particularities
of adolescents with ASD, promoting their healthy development and protection.
Key words Autism spectrum disorder, Adolescent, Sex education Health

Resumen El estudio tuvo como objetivo identificar enfoques científicos sobre la enseñanza de la educación en sexu-
alidad a adolescentes con trastorno del espectro autista (TEA), analizando las implicaciones sociales y el papel de los
padres, tutores y profesionales. Se trata de una revisión integrativa de la literatura, basada en el método del Instituto
Joanna Briggs, que permite mapear conceptos clave y brechas en la literatura. La pregunta de investigación utilizó la
estrategia Población, Concepto y Contexto (PCC), siendo: P – padres, tutores y profesionales de la salud; C – cómo
aplicar adecuadamente la educación en sexualidad durante la adolescencia; C – adolescentes con TEA. La muestra
1
Universidade Federal de final incluyó 24 estudios analizados, organizados en cuatro ejes: cambios corporales, relaciones sexuales, relaciones
Alagoas – Campus A. C.
afectivas y autoprotección. Los hallazgos revelaron divergencias sobre quién debe abordar el tema con los adolescentes
Simões. Av. Lourival Melo
Mota s/n, Tabuleiro dos
(padres, escuelas o profesionales de la salud), además de la escasez de programas personalizados y eficaces. Ante ello,
Martins. 57072-970 se destaca la necesidad de iniciativas que garanticen una educación en sexualidad adaptada a las particularidades de
Maceió AL Brasil. los adolescentes con TEA, promoviendo un desarrollo saludable y la protección de estos individuos.
fflira82@[Link] Palabras clave Trastorno del espectro autista, Adolescente, Educación en sexualidad, Salud
Cien Saude Colet 2025; 30:e10992025
2
Lira FFL et al.

Introdução bilidades sociais, gerando impactos positivos no


bem-estar e na qualidade de vida, tanto das pes-
O transtorno do espectro autista (TEA) engloba soas com TEA quanto de seus cuidadores. Os
um conjunto diversificado de condições rela- cuidados destinados aos indivíduos no espectro
cionadas ao desenvolvimento cerebral. A esti- autista devem ser complementados por ações
mativa mais recente da prevalência do TEA nos em nível comunitário e social, visando promo-
Estados Unidos, divulgada pelo Centro de Con- ver maior acessibilidade, inclusão e apoio2.
trole e Prevenção de Doenças (CDC), aponta Diante dessas particularidades, o adolescen-
que aproximadamente 1 em cada 31 crianças de te com TEA enfrenta desafios adicionais que
8 anos foi diagnosticada com TEA em 2022, re- complicam e influenciam a expressão e vivência
presentando cerca de 3,2% da população infan- de sua sexualidade, impactando suas capacida-
til nessa faixa etária. Esse aumento em relação à des de compreender e interpretar as dinâmicas
estimativa anterior de 1 em 36 crianças em 2020 relacionais3. Essa situação torna-se especial-
reflete avanços na conscientização, aprimora- mente evidente durante a adolescência, quando
mento dos critérios diagnósticos e ampliação do as relações românticas e sexuais ganham cada
acesso a serviços de triagem e diagnóstico. Em- vez mais importância e complexidade. O de-
bora os dados se refiram a uma amostra especí- senvolvimento das habilidades sociais dos in-
fica, eles são fundamentais para compreender a divíduos com TEA muitas vezes não consegue
magnitude do TEA e orientar políticas públicas acompanhar as crescentes demandas sociais
e práticas educacionais voltadas a essa popula- desse período, acrescentando desafios significa-
ção. Embora as características possam ser iden- tivos. 4
tificadas na primeira infância, o diagnóstico de Com isso, esta revisão tem como objetivo
TEA frequentemente ocorre tardiamente1. identificar as abordagens científicas relaciona-
A realidade brasileira e da América Latina das ao ensino de adolescentes com TEA sobre
ainda apresenta grandes desafios no que diz educação em sexualidade, de modo a conhecer
respeito à inclusão efetiva de adolescentes com as implicações e influências sociais associadas
TEA nas políticas públicas de saúde e educa- a esse contexto, bem como as possibilidades de
ção, especialmente em temas sensíveis e negli- direcionamento desse assunto pelos pais, res-
genciados, como a educação em sexualidade. A ponsáveis e profissionais.
escassez de programas específicos, a falta de ca-
pacitação de profissionais e a inexistência de di-
retrizes adaptadas à singularidade desse público Metodologia
comprometem o desenvolvimento de uma abor-
dagem integral e respeitosa das suas necessida- Esta é uma revisão integrativa de literatura, se-
des. Nesse contexto, uma revisão da literatura se guindo o método de revisão delineado pelo
mostra social e cientificamente relevante, pois Instituto Joanna Briggs (JBI). Esse tipo de estu-
permite reunir e analisar evidências sobre prá- do permite mapear os principais conceitos que
ticas, lacunas e avanços relacionados ao tema, sustentam uma área de pesquisa e identificar la-
contribuindo para fundamentar a formulação cunas que estejam relacionadas à mesma5. Para
de políticas públicas mais inclusivas, baseadas construção da pergunta de pesquisa, utilizou-se
em evidências e alinhadas às diretrizes inter- a estratégia População, Conceito e Contexto
nacionais de direitos humanos. Ao identificar (PCC) para a revisão. Foram definidos: P – pais
estratégias eficazes e contextos de sucesso, a re- e/ou responsáveis de adolescentes com TEA e
visão pode apoiar gestores, educadores e profis- profissionais da saúde; C – como aplicar ade-
sionais da saúde na implementação de ações que quadamente a educação em sexualidade na ado-
promovam autonomia, proteção e qualidade de lescência; e C – no âmbito de adolescentes com
vida para adolescentes com TEA no Brasil e em TEA. Foram excluídos os estudos que abordas-
outros países da região. sem outras faixas etárias. Estabelece-se a seguin-
As habilidades e necessidades das pessoas no te pergunta norteadora: “Quais as abordagens
espectro autista variam e podem modificar-se científicas relacionadas ao ensino de adolescen-
ao longo do tempo. Enquanto algumas podem tes com TEA sobre educação em sexualidade?”
viver de maneira independente, outras enfren- A investigação foi feita a partir das bases de
tam deficiências significativas, demandando dados da PubMed ([Link]
cuidados e apoio ao longo da vida. Intervenções [Link]), plataforma de busca da National Li-
psicossociais, respaldadas por evidências, têm o brary of Medicine (NLM), que reúne registros
potencial de aprimorar a comunicação e as ha- da base de dados MEDLINE (principal base
3

Ciência & Saúde Coletiva, 30(11):1-10, 2025


produzida pela NLM), na Biblioteca Virtual Resultados
em Saúde (BVS) do Ministério da Saúde, LILA-
CS, evidência científica em saúde dos países da Inicialmente, foram encontrados 478 artigos re-
América Latina e do Caribe, e no portal de Pe- lacionados à temática nas bases de dados. Após
riódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento uma análise detalhada e abrangente dos títulos
de Pessoal de Nível Superior – CAPES (http:// e resumos dos artigos, foram excluídos 205 que
[Link]). estavam duplicados, 89 por não se ter acesso na
As buscas nas plataformas abrangeram o íntegra e 12 que não atendiam aos critérios de
período compreendido entre 2018 e 2023 e se inclusão estabelecidos na pergunta norteadora.
deu por meio dos seguintes descritores encon- Entre os selecionados, 147 estudos foram exclu-
trados no DeCS em inglês e suas combinações: ídos por abordarem faixas etárias diferentes da
“Autism Spectrum Disorder”; “Adolescent”; “Sex infância e por não estarem relacionados direta-
Education”; “Health”, determinando-se, durante mente ao tema central da pesquisa: educação em
a procura nos portais, que eles deveriam estar sexualidade. Após a avaliação, a amostra final
presentes no título ou no assunto, refinando-se consistiu em 25 estudos. O processo de busca e
a busca pela seleção do tópico “Autism Spectrum seleção dos estudos que compõem esta pesquisa
Disorder”; “Adolescent”; “Sex Education”; “Heal- foi organizado em um fluxograma (Figura 1),
th”, sendo identificados e incluídos por aborda- seguindo as diretrizes do Instituto Joanna Brig-
rem a questão temática, gs (JBI), conforme o checklist adaptado do Pre-
Como esta pesquisa é uma revisão integrati- ferred Reporting Items for Systematic Reviews
va da literatura em bases de dados, a aprovação and Meta-Analyses (PRISMA).
ética para realizar o estudo não foi necessária, Após análise dos artigos, foram registrados
mas atendeu aos princípios atuais da resolução os seguintes achados: seis artigos no portal Pub-
nº 466 do Conselho Nacional de Saúde, de 2012. Med, nove na CAPES e seis na BVS, dispostos
O método de seleção dos artigos se deu por nos Quadros 1, 2 e 3.
meio da plataforma Rayyan ([Link]
que envolveu a comparação de informações
de título e resumo de cada estudo para deter- Discussões
minar a elegibilidade. Participaram dessa etapa
cinco autores/revisores, que fizeram a triagem A partir da análise das evidências científicas
de modo individual. Quando um revisor sele- sobre educação em sexualidade de adolescen-
cionava um estudo, esse era analisado por to- tes com TEA desses estudos, emergiram das
dos os demais. Quaisquer discordâncias sobre articulações dos conteúdos semelhantes e com-
quais estudos seriam incluídos na revisão foram plementares as seguintes unidades temáticas:
resolvidas em consenso por todos os revisores. mudanças no corpo; relações sexuais; relações
Quanto à análise das evidências científicas so- afetivas e autoproteção.
bre a educação em sexualidade de adolescentes
com TEA desses estudos, foi adotado o método Mudanças no corpo
da análise temática, identificando-se conteúdos
semelhantes e complementares entre os estudos Com o passar da fase de vida da infância
selecionados, permitindo a categorização temá- para adolescência, várias são as mudanças que
tica do material. ocorrem no corpo dos jovens com a chegada da
O relato foi norteado pelo Preferred Re- puberdade. Nos meninos, podemos observar o
porting Items for Systematic reviews and Me- crescimento dos testículos e pelos pelo corpo, e
ta-Analyses extension for Scoping Reviews nas meninas, o crescimento do broto mamário
(PRISMA-ScR) Checklist, que consiste em um e da menarca. Mudanças hormonais, idênticas
roteiro para guiar a redação do relatório de re- em indivíduos neurotípicos e com TEA, iniciam
visão integrativa da literatura. O PRISMA-ScR é o desenvolvimento sexual. Os neurotípicos são
composto por 22 itens, divididos nos capítulos socialmente maduros e, apesar de ser uma fase
obrigatórios do relatório de revisão: título, re- confusa da vida, são capazes de lidar com essas
sumo, introdução, método, resultados, discus- mudanças. Os adolescentes com TEA podem
são e financiamento. Esclarecimentos acerca do não ter uma maturidade social correspondente
desenvolvimento da revisão, das adequações e à sua sexualidade, portanto, podem enfrentar
dos conhecimentos prévios à revisão serão des- dificuldades maiores para interpretar e lidar
critos. com essas alterações6.
4
Lira FFL et al.

Identificação dos estudos através de bases de dados e registos

Registos identificados através de base de dados:


PUBMED: 150 Estudos removidos antes da triagem
Identificação

LILACS: 2 - Duplicados: 209


BVS: 69 - Assinalados como não elegíveis
CAPES: 257 pelas ferramentas automatizadas: 89
REGISTOS TOTAIS: 478 - Idioma: 12

Registos em triagem (n = 168) Registos excluídos após a leitura


(n = 147)

Publicações pesquisadas para se manterem Publicações retiradas


Triagem

(n = 21) (n=0)

Publicações avaliadas para elegibilidade


(n = 21)
Incluído

Total de estudos incluídos na revisão


(n = 21)

Figura 1. Fluxograma de revisão integrativa da literatura que inclui buscas em bases de dados – PRISMA.

Fonte: Autores.

Quadro 1. Artigos da PUBMED relacionados à educação em sexualidade de adolescentes com TEA.


Título Autores (ano) Periódicos País
1 Sex and sexuality in autism spectrum disorders: a Maggio MG et al. Brain Sci Itália
scoping review on a neglected but fundamental issue. (2022)
2 Affectivity and sexuality in adolescents with autism Ortega JT et al. (2023) Int J Environ Espanha
spectrum disorder from the perspective of education Res Public
and healthcare professionals: a qualitative study Health
3 Feasibility and preliminary efficacy of a parent- Pugliese CE et al. Author Estados
mediated sexual education curriculum for youth with (2020) Manuschipt Unidos
autism spectrum disorders
4 Sexual and relationship interest, knowledge, and Cheak-Zamora NC et Arch Sex Colômbia
experiences among adolescents and young adults with al. (2019) Behav
autism spectrum disorder
5 The sexual health, orientation, and activity of autistic Weir E, Allison C, Autism Res Reino
adolescents and adults Baron-Cohen S (2019) Unido
6 Complementing or congruent? Desired Dekker LP et al. (2023) Springer Holanda
characteristics in a friend and romantic partner in Open Choice
autistic versus typically developing male adolescents
Fonte: Autores.
5

Ciência & Saúde Coletiva, 30(11):1-10, 2025


Quadro 2. Artigos da Capes relacionados à educação em sexualidade de adolescentes com TEA.
Título Autores/Ano Periódicos País
1 Scoping review on sex education for high school- Strnadová I, Danker Mdpi Suíça
aged students with intellectual disability and/or on J, Carter A (2022)
the autism spectrum: parents’, teachers’ and students’
perspectives, attitudes and experiences
2 Communication on sexuality between parents André TG et al. Springer Science+ Canadá
and adolescents with autism spectrum disorder: a (2020) Business Media,
systematic review LLC
3 The complexities of sexual health among adolescents Stanojević et al. Original Arábia
living with autism spectrum disorder (2020) Research Saudita
4 Interventions on sexuality for adolescents with Picard-Pageau W, Sexuality And Canadá
autism spectrum disorder: a systematic review Morales E (2022) Disability
5 Sex and sexuality in autism spectrum disorders: a Maggio MG et al. Brain Sciences Itália
scoping review on a neglected but fundamental issue (2022)
6 Psychosexual education interventions for autistic Ragaglia B et al Education Itália
youth and adults: a systematic review (2022) Sciences
7 Sexual education of persons with autistic spectrum Stankova T, Sexuality and Canadá
disorders: use of the technique: “social stories” Trajkovski V (2021) Disability
8 Sexual education: a case study of an adolescent with Gkogkos G et al. Sexuality and Canadá
a diagnosis of pervasive developmental disorder-not (2021) Disability
otherwise specified and intellectual disability
9 Autism and intellectual disability: a systematic Sala G et al. (2019) Sexuality and Canadá
review of sexuality and relationship education Disability
Fonte: Autores.

Quadro 3. Artigos da BVS relacionados à educação em sexualidade de adolescentes com TEA.


Título Autores/Ano Periódicos País
1 Affectivity and sexuality in adolescents with autism Torralbas-Ortega J et
Int J Environ Espanha
spectrum disorder from the perspective of education al. (2023) Res Public
and healthcare professionals: a qualitative study Health
2 Comunicación sexual en padres de hijos con trastorno André TG et al. (2022) Siglo Cero Espanha
del espectro autista (Madr)
3 The sexual health, orientation, and activity of autistic
Weir Elizabeth, Autism Res Estados
adolescents and adults Allison Carrie, Baron- Unidos
Cohen Simonm (2021)
4 Promoting healthy sexuality for children and Houtrow A, Elias ER, Pediatrics Estados
adolescents with disabilities Davis BE (2021) Unidos
5 Sexual assault victimization among children and youth Reese S, Deutsch SA Journal Estados
with developmental disabilities: responding with (2020) Forensic Unidos
trauma-informed care Nursing
6 Sexual and relationship interest, knowledge, and Nancy CZ et al. (2019) Arch Sex Estados
experiences among adolescents and young adults with Behav Unidos
autism spectrum disorder
Fonte: Autores.

Para algumas pessoas com TEA, a princi- ções incompletas e imprecisas sobre sexualida-
pal causa da má compreensão dessas mudan- de. Stankova e Trajkovski7 avaliaram os efeitos
ças podem ser especialmente as dificuldades de do uso de histórias sociais para implementar a
comunicação. Como resultado, muitos adoles- educação em sexualidade em três participantes
centes e adultos com TEA podem ter informa- com TEA. Foram determinadas através da ava-
6
Lira FFL et al.

liação das seguintes áreas: as partes privadas e De acordo com os estudos analisados por
reprodutivas do corpo, mudanças que ocorrem Maggio et al.10, a consciência sexual é composta
durante o período da puberdade, distinguir to- por quatro dimensões: consciência íntima, que
que agradável e desagradável, relações sexuais e envolve a capacidade de refletir e contemplar
contracepção, que se mostraram efetivas dentro as próprias características sexuais, incluindo
do objetivo proposto. Um dos relatos dos pais a atenção aos sinais de excitação e motivação
foi a percepção de que seu filho estava mais sexual; vigilância sexual, que diz respeito à per-
consciente a respeito de seu próprio corpo e que cepção da avaliação dos outros sobre a própria
tentava aplicar as mesmas coisas das ilustrações sexualidade; assertividade íntima, que implica
das histórias sociais, tais como: fechar a porta ao ser assertivo em relação à própria sexualidade;
ir ao banheiro e raramente tocar as partes ínti- e reconhecimento do apelo sexual, relacionado à
mas quando rodeado de pessoas. O período de consciência de sua própria atratividade sexual.
seis meses de aplicação da educação em sexua- A percepção da privacidade é menos pronun-
lidade por meio de histórias sociais mostrou-se ciada em pessoas com TEA do que naquelas
eficaz para atualizar e ampliar o entendimento, sem esse transtorno. Isso pode levar os pacien-
porém claramente não foi adequado para obser- tes com TEA a terem uma compreensão redu-
var mudanças comportamentais visíveis, visto zida das nuances das interações sexuais e das
que a comunicação com adolescentes com TEA normas de privacidade que devem ser seguidas,
deve ser feita de maneira individualizada e cor- aumentando a probabilidade de se envolverem
respondendo a cada tipo de necessidade7,8. em comportamentos inapropriados ou até mes-
mo abusivos11.
Relações sexuais Ortega JT et al.12 enfatizam a necessidade
de uma capacitação especializada para todos os
O estudo de André e colaboradores9 exami- profissionais envolvidos na prestação de cuida-
nou predominantemente questões relacionadas dos de saúde a esses jovens, além de uma co-
à sexualidade, expectativas românticas dos pais ordenação mais eficaz das necessidades desses
em relação aos filhos e experiências sexuais. adolescentes em diferentes áreas. Tanto os pro-
No que diz respeito à sexualidade, as pesquisas fissionais de saúde quanto os educadores con-
indicaram que os pais geralmente têm conver- cordam que é fundamental receber capacitação
sas genéricas com seus filhos sobre o assunto. especializada em questões de afetividade e sexu-
Discutem sobre higiene, contato físico, puber- alidade, o que lhes permitiria lidar de maneira
dade e privacidade corporal. No entanto, pou- mais eficaz com esse tema ao interagir com pais,
cos estudos mencionaram uma comunicação alunos e outros envolvidos. É imperativo desen-
mais específica sobre tópicos relevantes, temas volver programas de educação precoce nesta
como menstruação, relação sexual, gravidez e área, que posteriormente possam evoluir para
infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), uma abordagem integrada, abrangente e des-
que são importantes para essa população espe- tituída de estigmas tanto na educação quanto
cífica. Isso pode ser atribuído ao medo dos pais na saúde. Um dos pontos-chave que os autores
ou à crença de que essas informações são des- trazem em seu artigo é a não infantilização de
necessárias para seus filhos9. Apesar dessa falta palavras como medida de minimizar futuros
de comunicação entre pais com filhos autistas, transtornos para que os adolescentes com TEA
um estudo mostra que, de maneira geral, foram entendam o real sentido, pois eles levam ao pé
observadas poucas diferenças quantitativas na da letra12.
atividade sexual entre participantes autistas e André TG reafirmam essa necessidade de
não autistas. Confirmaram-se descobertas ante- capacitação de profissionais de saúde e de pro-
riores em amostras menores, em que os homens gramas de educação em sexualidade para pais
autistas e as mulheres autistas eram ambos me- de adolescentes com TEA13. Alguns estudos
nos propensos a relatar terem se envolvido em mostraram a relevância do desenvolvimento de
atividade sexual do que seus pares não autis- estratégias que devem ser ajustadas e personali-
tas. Especificamente, os homens autistas eram zadas, visto que essas estratégias precisam levar
particularmente menos propensos a terem se em conta a ampla diversidade dentro do espec-
envolvido em atividade sexual. No entanto, a tro do TEA. Essa abordagem individualizada é
maioria de todos os grupos, incluindo mulheres crucial para abordar as necessidades específicas
autistas, homens autistas, mulheres não autistas de cada pessoa com TEA, reconhecendo as di-
e homens não autistas, relataram ter sido sexu- ferentes formas como o transtorno se manifesta
almente ativos10. em cada indivíduo. Os estudos também enfati-
7

Ciência & Saúde Coletiva, 30(11):1-10, 2025


zam que a instrução sobre sexualidade deve ser compreensão básica sobre sexo e relacionamen-
um processo em curso e deve iniciar o quanto tos, eles se sentem frustrados devido à falta de
antes14. conhecimento e habilidades para desenvolver e
Gkogkos et al.15 ampliam o conhecimento gerenciar um relacionamento romântico. Essa
existente sobre programas de educação, abor- combinação de forte desejo e baixo conheci-
dando puberdade, higiene e conduta sexual em mento prático pode indicar uma lacuna que
adolescentes com TEA. A conduta sexual de dificulta a capacidade dos adolescentes e jovens
adolescentes com TEA pode representar um adultos de alcançarem seus objetivos de vida18.
desafio para seus pais. No entanto, quando os Esses adolescentes desejam características si-
pais recebem treinamento apropriado sobre milares, em um grau semelhante, às buscadas
como abordar a sexualidade de seus filhos de por adolescentes típicos em relação a parceiros
maneira sistemática, a comunicação geral entre e amigos. Além disso, em comparação com os
pais e filhos pode melhorar significativamente. adolescentes típicos, os acom TEA buscam um
Além disso, a adoção de comportamentos sexu- parceiro e amigo que seja semelhante em grande
ais apropriados pode contribuir para a redução parte das características intrínsecas, porém me-
de comportamentos problemáticos e para a pre- nos semelhante em outras características (como
venção da exploração sexual de crianças e ado- status social e traços extrínsecos) em relação a
lescentes com TEA15. si próprios19.
Considerando as dificuldades que os adoles- A pesquisa de Nancy et al.20 investigou e
centes com TEA enfrentam em relação à inte- contrastou as vivências sexuais e afetivas de
ração social, diversos programas de intervenção 27 adolescentes e jovens adultos com TEA. A
foram criados para atender a essa demanda. maioria dos participantes relatou discutir ques-
Mas segundo Picard-Pageau e Morales16, a com- tões relacionadas a sexo e relacionamentos com
plexidade das circunstâncias enfrentadas por seus pais e amigos, mas não com profissionais
esses jovens restringe a eficácia desses progra- de saúde. Todos os adolescentes e jovens ex-
mas, sendo crucial realizar mais pesquisas para pressaram a carência de mais educação sobre o
capacitar os profissionais de saúde a intervirem assunto.
de maneira adequada na sexualidade de jovens Outro fator analisado foi a questão da orien-
com TEA16. tação sexual e da identidade de gênero, que se
mostrou bem presente nos artigos, evidencian-
Relações afetivas do que a prevalência de outras variantes de
orientação sexual (isto é, homossexualidade,
Em seu relatório clínico, Houtrow, Elias e assexualidade, bissexualidade etc.) é maior em
Davis17 mostram que os profissionais de saúde adolescentes com TEA do que em adolescentes
podem revisar e adaptar, ou reforçar, seus co- típicos, sendo exposto por Maggio, MG et al.21;
nhecimentos, crenças e atitudes em relação à se- e segundo Weir, Allison e Baron10, isso pode
xualidade e à identidade de gênero, garantindo ocorrer tanto em homens quanto em mulheres
que seu próprio comportamento reflita a inclu- na fase da adolescência.
são e a autonomia de todos os seus pacientes, es-
pecialmente adolescentes com TEA. Todos têm Autoproteção
o direito de desenvolver relacionamentos, fazer
escolhas e exercer autonomia, além de receber Adolescentes com TEA apresentam carac-
educação para promover uma sexualidade sau- terísticas intrínsecas próprias de sua neurodi-
dável, independentemente de orientação sexu- versidade, o que os leva a perceber o mundo de
al ou identidade de gênero. Uma comunicação maneira distinta e os torna suscetíveis ao abuso,
aberta e respeitosa pode contribuir para o de- tanto como vítimas quanto como perpetrado-
senvolvimento da confiança e facilitar a tomada res. Compreender essas características nos pro-
de decisões compartilhadas. O consultório do porciona indicadores para monitorar os riscos
profissional de saúde pediátrica deve ser um e necessidades individuais de cada pessoa. O
ambiente seguro para discutir essas questões conhecimento desempenha papel fundamental
com todos os jovens, incluindo aqueles com de- como fator de proteção, capacitando os jovens
ficiência17. a aprenderem a desenvolver relacionamentos
A maioria dos adolescentes e jovens adul- afetivos e sexuais saudáveis, bem como a identi-
tos com TEA expressam interesse em buscar ficar seus próprios limites e os dos outros12.
relacionamentos românticos, casamento e for- Crianças e adolescentes com TEA são alvos
mação de família. Embora demonstrem uma de abuso sexual com maior frequência do que
8
Lira FFL et al.

aqueles neurotípicos. Reese e Deutsch22 descre- da educação em sexualidade e intervenções para


vem o caso de uma jovem com TEA que buscou adolescentes com TEA, destacando as circuns-
ajuda após ser vítima de violência sexual, porém tâncias em que tais intervenções se mostram
seu atendimento foi prejudicado devido a várias eficientes e eficazes. É fundamental que os pro-
deficiências nos sistemas envolvidos, incluindo gramas de educação em sexualidade sejam im-
falhas na comunicação em relação às suas ne- plementados precocemente, adaptados e aplicá-
cessidades específicas e falta de conhecimento veis na prática, a fim de atender de maneira mais
consistente entre os membros da equipe mul- eficaz às necessidades do adolescente com TEA.
tidisciplinar sobre as adaptações necessárias. A Em consonância com as correntes recentes na
agressão sexual é uma experiência extremamen- pesquisa voltada para indivíduos com deficiên-
te traumática para crianças e jovens, e o cuidado cia, as intervenções devem ser orientadas pela
com os sobreviventes requer uma abordagem voz das próprias pessoas com TEA, garantindo
sensível ao trauma. Crianças e jovens com de- sua participação e a consideração de suas pers-
ficiências de desenvolvimento são vítimas de pectivas para a escolha do método mais indica-
abuso sexual em taxas mais elevadas do que do.
aqueles sem deficiência. Especificamente, crian- Além disso, a sustentabilidade dos resulta-
ças com TEA podem estar em maior risco de dos positivos a longo prazo depende da imple-
sofrer eventos traumáticos e de desenvolver se- mentação de intervenções conduzidas por pro-
quelas após a experiência de agressão sexual22. fissionais especializados, devidamente treinados
As mudanças no corpo durante a adoles- e supervisionados de maneira contínua, junta-
cência representam um momento de transição mente com orientações específicas fornecidas
fundamental que, para adolescentes com TEA, aos pais para apoiarem efetivamente seus filhos.
pode ser vivenciado com confusão, ansiedade Além disso, esta análise ressalta a carência de
e dificuldades de compreensão. Essas transfor- estratégias e ferramentas baseadas em evidên-
mações físicas influenciam diretamente a forma cias que sejam sensíveis o suficiente para iden-
como esses adolescentes percebem a si mesmos tificar mudanças comportamentais, que são os
e se relacionam afetivamente com os outros, afe- resultados almejados de cada intervenção. Em
tando o desenvolvimento da autoestima, da em- suma, esta contribuição proporciona uma refle-
patia e da noção de limites interpessoais. Quan- xão crítica sobre a importância de intervenções
do não acompanhadas por orientações claras e validadas que possam auxiliar pessoas com TEA
adaptadas, essas mudanças também comprome- a desenvolver habilidades úteis e comportamen-
tem a capacidade de autoproteção, tornando-os tos sexuais apropriados, possibilitando uma vi-
mais vulneráveis a abusos e violências. Nesse vência da sexualidade e dos relacionamentos de
sentido, uma educação em sexualidade que modo positivo e saudável.
contemple essas dimensões de maneira acessí- Esta revisão da literatura colabora para a
vel e respeitosa é essencial para promover não reflexão sobre a necessidade de formulação de
apenas o conhecimento sobre o corpo, mas o políticas públicas que atendam às necessida-
fortalecimento de relações afetivas saudáveis e des educacionais e de saúde de adolescentes
autonomia pessoal. com TEA, especialmente no que diz respeito
Portanto, as evidências científicas revelam à educação em sexualidade. Ao reunir e anali-
uma expressiva carência de pesquisas nacionais sar evidências científicas, possibilita identificar
sobre a educação em sexualidade voltada para melhores práticas, lacunas de conhecimento e
adolescentes com TEA no campo da saúde e da oportunidades de melhoria nas políticas nacio-
educação inclusiva. A escassez de estudos que nais existentes, garantindo que as abordagens
abordem as necessidades específicas desse pú- sejam adequadas, inclusivas e sensíveis às ne-
blico limita a criação de estratégias pedagógicas cessidades dessa população.
adequadas e a formulação de políticas públicas Além disso, considerando as unidades temá-
que garantam o direito à informação, à proteção ticas “mudanças no corpo”, “relações sexuais”,
e ao desenvolvimento saudável da sexualidade “relações afetivas” e “autoproteção”, o presen-
desses adolescentes. te estudo apresenta caráter inédito ao abordar
um campo ainda pouco explorado nas áreas
de saúde e educação, especialmente no con-
Conclusão texto brasileiro e latino-americano. A maioria
das pesquisas existentes trata a sexualidade de
Esta revisão integrativa da literatura enriquece maneira genérica ou centrada em populações
o corpo de conhecimento ao investigar o tópico neurotípicas, negligenciando as especificidades
9

Ciência & Saúde Coletiva, 30(11):1-10, 2025


cognitivas, comunicacionais e emocionais dos ção e a prevenção de abusos. Ao integrar esses
adolescentes com TEA. Este estudo preenche eixos temáticos, a investigação contribui para
lacunas importantes ao sistematizar conheci- a sensibilização na construção de abordagens
mentos sobre esse público em suas transforma- pedagógicas mais sensíveis e inclusivas, apoian-
ções corporais e vínculos afetivo-sexuais, além do o desenvolvimento de políticas públicas que
de reflexões acerca da necessidade de estratégias respeitem os direitos e as necessidades dessa po-
educativas eficazes para promover a autoprote- pulação.

Colaboradores

FFL Lira: responsável pela concepção do estudo,


definição do objetivo da pesquisa e elaboração
da estratégia de busca; participou da seleção
dos artigos, análise e identificação das unida-
des temáticas, organização e interpretação dos
resultados e discussão do manuscrito. MJB Silva
Martins: contribuiu na construção metodológi-
ca da revisão integrativa, na definição dos crité-
rios de inclusão e exclusão, e na estruturação das
etapas de análise. ABS Santos: atuou na análise
e interpretação dos dados e na revisão crítica do
conteúdo do artigo. LC Chalegre: responsável
pela normatização do manuscrito, revisão lin-
guística e adequação às normas da revista. IGS
Bittencourt: supervisão geral da pesquisa, coor-
denou a revisão crítica do conteúdo intelectual
e orientou a redação final do texto.

Financiamento

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de


Alagoas – E:60030.0000002400/2023.

Declaração de disponibilidade de dados

As fontes de dados utilizados na pesquisa estão


indicadas no corpo do artigo.
10
Lira FFL et al.

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CC BY Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

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