História da Educação
Fundamentação conceitual e a origem da
educação
Diretor Executivo
DAVID LIRA STEPHEN BARROS
Gerente Editorial
ALESSANDRA VANESSA FERREIRA DOS SANTOS
Projeto Gráfico
TIAGO DA ROCHA
Autoria
ANDRÉ LUÍS GABRIEL
AUTORIA
André Luís Gabriel
Minha graduação é em História, fiz mestrado em Educação e
especialização em Psicopedagogia Institucional. Além de atuar em
universidades onde leciono várias disciplinas relacionadas à atuação
docente, entre elas História da Educação, sou docente na rede pública
municipal da cidade de São Paulo. Iniciei a carreira docente em 2005,
lecionando História, Geografia e Ensino Religioso no ensino fundamental e
médio em escolas públicas da rede estadual de São Paulo. Também atuo
como professor em cursos de extensão e de formação docente. Como
gosto muito de escrever, indo além das fronteiras acadêmicas, participei
de mais de uma dezena de coletâneas de poesia e de contos, inclusive
publiquei textos poéticos na Revista Brasileira da Academia Brasileira de
Letras. Estou muito feliz com o convite da Editora Telesapiens para integrar
seu elenco de autores independentes e ainda mais feliz por poder fazer
o que mais amo: junto com você desbravar os caminhos do aprendizado
nessa disciplina, fase que requer muito estudo e trabalho. Conte comigo!
ICONOGRÁFICOS
Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez
que:
OBJETIVO: DEFINIÇÃO:
para o início do
desenvolvimento houver necessidade
de uma nova de apresentar um
competência; novo conceito;
NOTA: IMPORTANTE:
quando necessárias as observações
observações ou escritas tiveram que
complementações ser priorizadas para
para o seu você;
conhecimento;
EXPLICANDO VOCÊ SABIA?
MELHOR: curiosidades e
algo precisa ser indagações lúdicas
melhor explicado ou sobre o tema em
detalhado; estudo, se forem
necessárias;
SAIBA MAIS: REFLITA:
textos, referências se houver a
bibliográficas necessidade de
e links para chamar a atenção
aprofundamento do sobre algo a ser
seu conhecimento; refletido ou discutido;
ACESSE: RESUMINDO:
se for preciso acessar quando for preciso
um ou mais sites fazer um resumo
para fazer download, acumulativo das
assistir vídeos, ler últimas abordagens;
textos, ouvir podcast;
ATIVIDADES: TESTANDO:
quando alguma quando uma
atividade de competência for
autoaprendizagem concluída e questões
for aplicada; forem explicadas;
SUMÁRIO
Educação e formação - diferenças e similaridades...................... 12
Evolução dos conceitos sobre educação e sua história segundo
diferentes abordagens.............................................................................. 23
Os conceitos de educação na Linha do Tempo........................................................25
A educação primitiva.................................................................................. 41
Educação das civilizações orientais e do Egito Antigo................ 45
História da Educação 9
01
UNIDADE
10 História da Educação
INTRODUÇÃO
É muito comum e também compreensível, que ao iniciarmos a
caminhada por um novo espaço, por uma nova área do conhecimento,
fiquemos apreensivos por causa dos conceitos e termos que tomaremos
contato pela primeira vez. Não parece ser o caso de educação, por
exemplo, que é um termo muito comum e utilizado amplamente por
todos nós ao longo da vida. Mas o que é educação? Qual a diferença entre
educação e ensino? São questões que parecem muito simples, mas que
exigem reflexão e uma boa dose de conhecimento sobre os dois conceitos
envolvidos nelas para que sejam respondidas com razoabilidade. Por isso,
é fundamental seguirmos passo a passo, com muita calma e atenção para
que possamos aproveitar ao máximo o que a História da Educação tem a
oferecer à nossa formação. Vamos lá? Ao longo desta unidade letiva você
vai mergulhar no universo da História da Educação!
História da Educação 11
OBJETIVOS
Olá. Seja muito bem vindo a nossa Unidade 1, e o nosso objetivo é
auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais
até o término desta etapa de estudos:
1. Identificar dos conceitos de educação, associada à reflexão dos
seus respectivos contextos históricos.
2. Compreender a relação entre Educação e Sociedade, identificando
a influência do contexto histórico-social nas propostas educativas
de cada período.
3. Discernir sobre conceitos correlatos, mas distintos, como Educação
e Ensino e suas variantes.
4. Identificar os períodos históricos e suas respectivas formas de
organização educacional.
Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento?
Ao trabalho!
12 História da Educação
Educação e formação - diferenças e
similaridades
OBJETIVO:
Ao término deste capítulo você será capaz de identificar
os conceitos de educação, associada à reflexão dos
seus respectivos contextos históricos. Independente
da definição conceitual ou do entendimento sobre seu
significado, inicialmente podemos afirmar que educação é
um conceito muito amplo. Tanto que, além da História (da
educação) que estudamos aqui como disciplina, outros
campos do conhecimento científico também lançam suas
análises sobre tal conceito, como a Filosofia, a Sociologia,
a Antropologia e a Psicologia, por exemplo. E então?
Motivado para desenvolver este desafio? Então vamos lá?
Apenas a título de iniciação à pesquisa e de acesso à compreensão
das diferentes possibilidades conceituais referentes a um mesmo termo,
vamos demonstrar brevemente como cada um desses campos científicos
citados definem o conceito de educação.
É importante ressaltar que a filosofia, desde a antiguidade, tem
especial preocupação com a educação e os aspectos que a circundam.
Mesmo atualmente, quando temos o objetivo de formar cidadãos críticos
e participativos da vida em sociedade, além de prepará-los para o mundo
do trabalho, tal objetivo é oriundo de uma filosofia, de uma maneira de
pensar o ideal de formação do homem. O Dicionário de Filosofia traz a
seguinte definição para educação:
Em geral, designa-se com esse termo a transmissão e o
aprendizado das técnicas culturais, que são as técnicas de
uso, produção e comportamento, mediante as quais um
grupo de homens é capaz de satisfazer suas necessidades,
proteger-se contra a hostilidade do ambiente físico e
biológico e trabalhar em conjunto de modo mais ou menos
ordenado e pacífico. Como o conjunto dessas técnicas
se chama cultura, uma sociedade humana não pode
sobreviver se sua cultura não é transmitida de geração
para geração; as modalidades ou formas de realizar ou
História da Educação 13
garantir essa transmissão chamam-se educação. Esse
é o conceito generalizado de Educação, que se tornou
indispensável graças à consideração do fenômeno não só
nas sociedades chamadas civilizadas, mas também nas
sociedades primitivas. (ABBAGNANO, 2007, p. 306-307)
ACESSE:
Recomendamos a leitura dessa definição filosófica completa
de educação no Dicionário de Filosofia. Clique aqui.
Por sua vez, outro campo da ciência que lança seu olhar criterioso
sobre a educação é a sociologia da educação que, como disciplina estuda
os processos sociais de ensino e aprendizagem, abrangendo também
aspectos organizacionais e institucionais que, por sua vez, permeiam
o desenvolvimento da educação. Além disso, essa disciplina busca
compreender relações sociais que envolvem os indivíduos inseridos
no meio educacional e em seus distintos processos. O Dicionário de
Sociologia (Repositório Institucional da Universidade Federal de Santa
Catarina) traz a seguinte definição para o conceito educação:
A educação interessa a duplo título as ciências sociais e
mais particularmente à sociologia: sejam quais forem os
costumes, os usos e os modos de pensamento dos povos,
numa palavra, a sua cultura, esta é lhes primeiramente
transmitida; por outro lado, essa transmissão faz-
se pela mediação de instituições, algumas das quais
desempenham um papel social crescente. Esse duplo
aspecto pode recobrir uma clivagem disciplinar: etnólogos
e psicossociólogos interessar-se-ão mais pela transmissão
e seus efeitos individuais; economistas e sociólogos, pelo
funcionamento das instituições e pelo seu contexto social.
Mas trata-se de pistas que, segundo a época e o ponto de
vista, caminharão em paralelo ou misturarão o seu curso.
(GALLINO, s.d., online)
ACESSE:
Recomendamos a leitura dessa definição sociológica
completa de educação no Dicionário de Sociologia.
Clique aqui.
14 História da Educação
No Brasil, a antropologia da educação ainda é um campo que está
em processo de estruturação e de consolidação, embora possamos
reconhecer que a interface entre esse campo do conhecimento
antropológico ligado à educação não é um fenômeno recente em nossa
realidade. Tanto que, diferente da filosofia e da sociologia, a antropologia
estabeleceu um marco significativo na sua relação com a educação que
é a estruturação da “antropologia pedagógica” presente em escolas
regulares já no início deste século, de modo a indicar a compreensão de
que o saber antropológico seja de fundamental importância no processo
de formação docente, por exemplo. Mais especificamente, em relação a
uma definição conceitual sobre educação, recorremos ao Dicionário de
Antropologia para acessar o que essa ciência propõe:
Termo geral para se referir aos processos sociais que
facilitam o aprendizado em comunidades humanas. A
educação é universal em todas as sociedades humanas
e tão necessária para a continuidade da vida social
quanto a reprodução biológica, a subsistência econômica,
a comunicação simbólica e a regulação social, que
exigem que os jovens sejam educados para participar
culturalmente. Os termos “socialização”, com ênfase na
preparação para a participação social, e “CULTURIZAÇÃO”,
que enfatiza os modelos culturais a serem adquiridos,
são mais ou menos equivalentes à educação em sentido
amplo. (BARFIELD, 2003, p. 229)
ACESSE:
Recomendamos a leitura dessa definição antropológica
completa de educação, no Dicionário de Antropologia.
Clique aqui.
Finalmente, a psicologia da educação é o ramo da psicologia
aplicada que estuda as interações que se estabelecem entre o indivíduo
e as situações de educação, além de observar os estados psicológicos
resultantes da ação educativa e a influência das variáveis intervenientes
no processo educativo. Entre todas as demais ciências que lançam suas
pesquisas e análises sobre a educação, é a psicologia que mais contribuiu
com ela, sobretudo por causa de sua proximidade com a pedagogia e
de autores que produziram trabalhos monumentais sobre o aprendizado
História da Educação 15
e os aspectos cognitivos como Jean Piaget, Lev Vygotsky, Heinrich
Pestalozzi, John Dewey, entre outros. Nesse momento, vamos observar
qual a definição conceitual sobre educação que nos traz o Dicionário de
Psicologia:
Atividade tipicamente humana que, através de influências
e atos voluntariamente realizados por um indivíduo sobre
outro, geralmente por um adulto em uma pessoa jovem,
tende a formar as disposições que correspondem aos
objetivos da sociedade e cultura em que o indivíduo está
inserido. Como a educação está sempre ligada a estilos
de vida historicamente determinados, a pedagogia, ao
delinear os critérios de treinamento, sente os efeitos dos
ideais políticos, dos interesses econômicos e do tipo de
sociedade em que opera. Essa dependência levantou
a questão de se a pedagogia é uma ciência em si, com
propósitos específicos, ou melhor, não é um conjunto
de disciplinas diferentes que convergem no problema
educacional. Permanece também o problema de se a
pedagogia deve indicar os objetivos da educação, ou
melhor, simplesmente descrever os procedimentos,
se deve ser depositário, no sentido de transmitir aos
jovens os valores e conhecimentos de sua sociedade,
ou problematizar, no sentido de liberar na comunicação
às instâncias criativas e interrogativas do aprendiz.
(GALIMBERTI, 2002, p. 794)
A psicopedagogia, deliberadamente, toma o caminho da autonomia
ao constituir-se como a ciência que une os campos do conhecimento
ligados à psicologia e à pedagogia com a finalidade de dar suporte e de
compreender os aspectos cognitivos presentes nos seres humanos.
ACESSE:
Recomendamos a leitura dessa definição psicológica
completa de educação, no Dicionário de Psicologia.
Clique aqui.
Ao acessar o plano de ensino e a própria lista de referências
bibliográficas ao final dessa unidade de estudo, você perceberá que os
autores citados como leitura básica e complementar são aqueles que
desenvolveram trabalhos na área da história da educação, embora muitos
16 História da Educação
deles lancem mão da metodologia ou de conceitos propostos pelas
demais ciências que também analisam a educação, caso daquelas que
aqui foram elencadas e contribuíram com suas definições conceituais.
Entre tais autores, citamos um historiador, o professor Dermeval
Saviani, que afirma que
A educação é inerente à sociedade humana, originando-se
do mesmo processo que deu origem ao homem. Desde
que o homem é homem ele vive em sociedade e se
desenvolve pela mediação da educação. A humanidade
se constituiu a partir do momento em que determinada
espécie natural de seres vivos se destacou da natureza
e, em lugar de sobreviver adaptando-se a ela necessitou,
para continuar existindo, adaptar a natureza a si. (SAVIANI,
2004, p. 1).
Assim, o ser humano é a única espécie animal que vai muito além
da mera adaptação à natureza, ele também a transforma por meio de
um conjunto de técnicas e habilidades que são transmitidas de geração
a geração.
Exemplo:
Olhe ao seu redor: absolutamente tudo o que existe é resultado
dessa interação entre o ser humano e a natureza. O homem tira proveito
da natureza para dela extrair aquilo que precisa para sua melhor
sobrevivência.
Figura 1: Tudo o que existe é produzido pela ação do ser humano
Fonte: Pixabay
História da Educação 17
A vivência em sociedade e o seu desenvolvimento são mediados
pela educação que, conforme citado acima, tem o objetivo principal
de tornar melhor e mais duradoura a existência humana, também por
isso as informações, o conhecimento, as experiências e as técnicas são
transmitidas entre as gerações e entre os diferentes povos.
Essa “transmissão” de conhecimentos possibilita melhorar a
sobrevivência humana. Além dos gêneros alimentícios, dos utensílios e
ferramentas e de tantos outros itens produzidos com a finalidade de prover
o sustento e o abrigo das intempéries naturais, o ser humano também
produz outras coisas: instrumentos musicais e música, pinturas artísticas,
esculturas em vários materiais e com várias finalidades, brinquedos e uma
infinidade de exemplos que caberiam aqui.
DEFINIÇÃO:
A esse conjunto de realizações podemos chamar de
trabalho, que é, justamente, a ação transformadora do
homem sobre a natureza, que modifica também a forma de
pensar, agir e sentir, de modo que nunca permanecemos
os mesmos ao fim de uma atividade, qualquer que ela seja.
É nesse sentido que dizemos que, pelo trabalho, o homem
se autoproduz, ao mesmo tempo que produz sua própria
cultura (ARANHA, 1996, p. 15).
O ser humano só é diferente dos outros animais porque tem a
capacidade de se comunicar, de educar, de transmitir aos seus pares e
às novas gerações um modo de ser, de transformar o meio em que vive
e as relações em sociedade. O ser humano aprende que pode sempre
desenvolver mais seu modo de viver e de se relacionar, portanto, está
sempre em formação. Como diferentes povos têm também distintos
modos de viver, de aprender e de se expressar, são muitas as possibilidades
culturais a serem produzidas.
18 História da Educação
SAIBA MAIS:
Recomendamos a leitura de uma definição conceitual
completa sobre trabalho, no Dicionário de Conceitos
Históricos. Clique aqui.
Antes de abordarmos outros conceitos que estão diretamente
relacionados, vamos aprofundar mais nossa compreensão sobre o
conceito de educação. Para isso, vamos recorrer às definições conceituais
e perspectivas de mais autores. O professor-pesquisador Carlos Rodrigues
Brandão inicia seu livro O que é educação afirmando que:
Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja
ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós
envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para
ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer,
para ser ou para conviver, todos os dias, misturamos a
vida com a educação. Com uma ou com várias: educação?
Educações. (BRANDÃO, 1981, p. 9)
Essa perspectiva, que compreende a existência de várias
educações, se sustenta na argumentação de que, do mesmo modo
que se pode verificar que também existem múltiplas formas e variações
dos modelos de casas e lares inseridos em cidades multifacetadas, de
igrejas e templos que comportam inúmeras denominações religiosas
e, principalmente, de escolas organizadas em diferentes modos e com
muitas finalidades, pode-se verificar também a existência de mais de uma
forma de compreender e de praticar a educação.
Ainda, sobre a multiplicidade conceitual e prática sobre o que é
educação, é a partir das relações que estabelecem entre si que os seres
humanos criam diversos padrões de comportamento, um número de
instituições e de saberes que passam por aperfeiçoamento ao longo do
tempo, por meio da ação de gerações que se sucedem, o que lhes permite
assimilar e transformar os modelos valorizados em uma determinada cultura,
que inclusive são influenciadas por outras. Portanto, é a educação que:
Mantém viva a memória de um povo e dá condições para a
sua sobrevivência. Por isso dizemos que a educação é uma
instância mediadora que torna possível a reciprocidade
entre indivíduo e sociedade. (ARANHA, 1996, p. 15).
História da Educação 19
Podemos perceber que os diferentes autores sempre relacionam
o conceito de educação à produção humana para sua sobrevivência e a
tudo que decorre dessa relação social e com a natureza, com a cultura.
Também percebemos que há sempre a relação entre educação e o
modo como os conhecimentos, como as técnicas e as experiências são
transmitidas entre as gerações, ou seja, como tudo isso é ensinado.
Vitor Henrique Paro, professor e autor brasileiro que pesquisa os
modelos de ensino e de gestão escolar, preocupado em superar o senso
comum acerca do entendimento do conceito de educação afirma que,
em seu sentido mais amplo, a educação consiste na apropriação da
cultura entendida também de forma ampla e que envolve conhecimentos,
informações, valores, crenças, ciência, arte, tecnologia, filosofia, direito,
costumes, enfim, tudo que o homem produz em sua transcendência da
natureza e utiliza de formas sistematizadas para reproduzi-los e repassá-
los, principalmente a partir da organização das sociedades com a presença
do Estado (PARO, 2008, p. 23).
Com o surgimento das primeiras cidades e da organização das
sociedades com a presença do Estado, ocorrem muitas transformações,
inclusive na questão da posse dos meios de produção. Na antiguidade,
o principal meio de produção era a terra, que deixou de ser comunal e
passou a pertencer a alguém, a algum grupo ou ao próprio Estado. Essa
relação transformou também a educação e, principalmente, os seus
objetivos. Assim, configuraram-se diferentes modos de transmitir a cultura
e os conhecimentos e foram surgindo vários modelos de ensino.
Enquanto a educação é inerente à humanidade e com ela se constitui
o ensino que é uma estratégia, um processo específico idealizado pelos
homens com o objetivo claro de repassar sua cultura. Ainda na antiguidade,
como a maior parte daquilo que era ensinado tinha finalidade direta ligada
à produção, o desenvolvimento de maior complexidade social (surgem
vários ofícios) também fez com que o modo de ensinar tivesse variações
e objetivos distintos. Ampliando sua compreensão, o ensino pode ter sua
definição entendida como:
Transmissão formalizada de conhecimentos que juntos
constituem instrução; deve ser distinguido da educação
20 História da Educação
(v. pedagogia), em que o ensino pode ser muito pouco
ou não presente. Ensinar, em seu significado específico,
pressupõe a existência de uma cultura escrita e, portanto,
o uso de sinais especiais que são transmitidos com certa
sistemática e metodologia. Como uma atitude mediata,
consciente, reflexiva e intencional, o ensino está localizado
além da experiência direta do ambiente, de onde também
surgem informações e experiências, mas ocasionalmente
ou simplesmente respondendo às necessidades mais
imediatas da vida. (GALIMBERTI, 2002, p. 398)
NOTA:
Educação e humanidade são inerentes, se constituem
de forma orgânica e simultânea, enquanto o ensino é
uma parte da educação, uma estratégia composta por
processos, metodologias e objetivos práticos. Portanto, se
pudermos definir essa relação de forma estrutural, o grupo
ensino está contido no grupo educação.
À medida que surgiam mais cidades e com o crescimento
destas, ocorre a maior complexidade nas relações sociais por causa da
ampliação da produção e do surgimento do comércio. Isso ocorre por
causa do domínio cada vez maior das técnicas e do conhecimento por
parte dos homens. Parte considerável daquilo que deve ser “transmitido”
passa a ocorrer em momentos e espaços específicos, tornando-se item
fundamental da própria educação. O aprendizado passa a ter um objetivo
claro de formação. Para isso surgem métodos e estratégias específicas
realizadas em locais próprios a essa finalidade. É o início ainda incipiente
do ensino em escolas.
História da Educação 21
Figura 2: Antiga sala de aula
Fonte: Pixabay
Nos próximos tópicos vamos avançar os estudos para compreensão
sobre a relação entre educação e ensino escolar. Esse último, ganhando
cada vez mais importância e espaço à medida que também os Estados
se consolidam e o quê e como ensinar ganha importância nos rumos
econômicos e políticos nas sociedades.
Para termos uma ideia da importância do ensino escolar atualmente,
onde o modelo de vida urbana tem predominância sobre o rural e sobre
os demais, Saviani (2004, p. 3) afirma que, na contemporaneidade, na
sociedade moderna, é a partir da escola que é possível compreender
a educação em geral e não o contrário. Nesse contexto, também não é
possível compreender a educação sem a escola (formação do cidadão,
participativo, consciente e crítico, preparado para o mundo do trabalho),
mas é possível compreender a escola sem educação (proporcionando
apenas uma parte da formação, apenas a técnica, por exemplo, sem se
comprometer com os aspectos culturais mais amplos).
22 História da Educação
SAIBA MAIS:
Para maior aprofundamento sobre o conceito de ensino e
suas relações e ambiguidades com o conceito de educação,
recomendamos a leitura do texto O conceito de ensino de
autoria do professor John Passmore, do portal do Instituto de
Educação da Universidade de Lisboa. Clique aqui.
Para realizarmos uma primeira aproximação a essa relação,
transcrevemos um trecho do referido artigo onde se destaca claramente
o intricado encadeamento dos conceitos ensino e educação, além da
ambiguidade e utilização difusa deles no cotidiano atual.
Neste ponto, há um contraste interessante entre “ensino” e
“educação”. Isso porque a palavra “educação” cria de fato
ambiguidades incômodas. Por vezes, a palavra é utilizada
como sinônimo de “formação” em termos gerais. É o que
se passa com a obra de John Lock Alguns pensamentos
relativos à educação. É também o que Hume tem em mente
quando condena a “educação” como fonte das nossas
crenças confusas e irracionais. Mas, outras vezes, “educação”
significa apenas “escolaridade”, como quando, por exemplo,
se diz que “15% do produto nacional é dedicado à educação”.
Outras vezes ainda, educação significa um determinado tipo
de escolaridade recebida por aqueles a quem chamamos
“pessoas cultas”. (PASSMORE, 1980, p. 23)
RESUMINDO:
Neste tópico, vimos como os vários campos científicos
são importantes e contribuem para a história da educação.
Vimos que o desenvolvimento e a vivência em sociedade
são mediados pela educação, para continuidade da
existência humana. Assim, destacamos que a educação e
humanidade são inerentes, que se constituem de forma
orgânica e simultânea, porém o ensino é uma estratégia,
para que os homens possam repassar sua cultura, por
meio de processos, metodologias e objetivos, que se torna
estrutural na educação.
História da Educação 23
Evolução dos conceitos sobre educação
e sua história segundo diferentes
abordagens
OBJETIVO:
Ao término deste capítulo você será capaz de interpretar
a relação entre Educação e Sociedade, identificando
a influência do contexto histórico-social nas propostas
educativas de cada período. E então? Motivado para
desenvolver este desafio? Então vamos lá?
A jornada humana é bastante longa. Passamos por um extenso
período considerado como pré-história, que na história da educação
corresponde à denominada educação primitiva, ou seja, antes do
estabelecimento do ser humano em cidades ou agrupamentos com
organização social fundamentada no sedentarismo (estabelecido em
um local específico, superando o nomadismo), no domínio da agricultura
e domesticação de animais, das técnicas de olaria e metalurgia, além
de utilizar a escrita. Vale ressaltar que esse é um tipo de classificação
estabelecido pela história como ciência a partir do pensamento europeu,
ou seja, da sociedade ocidental. Para facilitar a visualização da classificação
ocidental, vamos observar a sua Linha do Tempo:
Figura 4: Linha do tempo da sociedade ocidental
De 4000 a.C De 466 d.C. De 1453 até De 1789 até
Até 4000 a.C até 476 d.C. até 1453 1789 Idade hoje Idade
Idade Antiga Idade Média. Moderna. Contemporânea.
Idade Idade
Pré-História Idade antiga Idade média
moderna contemporânea
4000 a.C. 476 d.C. 1453 1789 Hoje
invenção Queda de Tomada de Revolução
da escrita Roma Constantinopla Francesa
pelos turcos
Otomanos
Fonte: [Link]
24 História da Educação
Não se preocupe em decorar datas. O importante é saber que
tais divisões são fundamentadas em características gerais do modo de
produção de um determinado período. Por exemplo: ao citar a pré-história,
destacamos que os agrupamentos humanos eram nômades, ou seja, se
deslocavam coletando alimentos, caçando e pescando. Esse era o modo
principal como produziam para prover suas necessidades de alimentação
e abrigo da natureza. Não havia ainda o domínio da agricultura em larga
escala nem das técnicas de olaria (que permitiram construir abrigos de
tijolos). Também é importante saber que o início e o término de cada
período são marcados por um grande evento histórico que representa a
ruptura com o período anterior.
Como o conceito de modo de produção estará presente durante
todo o percurso nessa disciplina, é interessante realizar uma breve
descrição com suas principais características. Vejamos:
O modo de produção, em linguagem menos teórica, seria o
modo pelo qual determinada sociedade organiza sua vida
econômica, o trabalho, as estruturas políticas e jurídicas
e mesmo as manifestações culturais. Todos os aspectos
da vida em sociedade (desde os aspectos materiais
até os aspectos mentais) estariam determinados pelo
modo de produção da vida material. Para o materialismo
histórico, é a maneira concreta de uma sociedade
organizar sua produção que dá forma a todo o edifício
social nela existente. [...] Há ainda um modo de produção
que complica o quadro exposto: o modo de produção
asiático, que não corresponde à sucessão linear esboçada
para a história europeia. Nesse modo de produção não
há a subordinação de escravos, servos ou assalariados
a uma classe proprietária dos meios de produção, mas
a subordinação coletiva de todos os trabalhadores ao
Estado. (SILVA; SILVA, 2009, p. 301-302)
Observe novamente a linha do tempo da sociedade ocidental e
perceba que o fim do período da Pré-História e o início da Idade Antiga
(Antiguidade) são marcados pela invenção da escrita. Esse foi o grande
evento de ruptura entre esses dois períodos porque com o domínio da
agricultura e das técnicas de olaria e metalurgia, os seres humanos criaram
mais e melhores ferramentas e utensílios (o ferro substitui a pedra, o osso
e a madeira) e produziram muito mais em quantidade, em variedade e
História da Educação 25
em qualidade de alimentos. Além disso, consegue construir moradias de
pedra e de tijolos. Se alimentando mais e melhor, a população aumenta
muito, surgem cidades, as atividades produtivas ficam mais complexas
e surgem os ofícios especializados, o comércio floresce e ocorre a
troca de mercadorias, de ideias e de cultura. A sociedade precisava
urgentemente se organizar para dar conta de tantas informações e
necessidades de estabelecer controles. Por isso surge a escrita, que
facilita o estabelecimento de leis que superavam as consuetudinárias
(tradição oral), a cobrança de taxas e impostos e o controle de estoques e
movimentação de cargas e produtos.
A escrita surge pela necessidade humana e marca o fim de um
período (não se esqueça do processo todo que levou a essa necessidade)
e o início de outro, com características de produção bem diferentes do
anterior (agricultura em larga escala, sedentarismo e urbanidade).
Na Antiguidade estão situadas civilizações como o Egito Antigo, os
povos mesopotâmicos (hebreus, caldeus, babilônicos, assírios e fenícios,
entre outros), além da Grécia Antiga e de Roma, todos tendo em comum
a agricultura e o escravismo como base econômica.
SAIBA MAIS:
Você pode saber mais sobre os grandes períodos históricos
caracterizados pela perspectiva ocidental no portal História
Mais que, além disso, conta com interessantes textos sobre
História do Brasil, História da Arte, curiosidades sobre
cultura, atualidades e a biografia de alguns personagens
históricos famosos. Clique aqui.
Os conceitos de educação na Linha do Tempo
Você já deve ter percebido que tudo é história e que tudo tem
história, inclusive no processo educacional isso é ainda mais presente,
uma vez que a educação e a humanidade são simultâneas.
Atualmente, a forma mais difundida e mais importante para a
sociedade moderna é a chamada educação escolar. Acreditamos
26 História da Educação
que, chegando até aqui, você já deve ter percebido também por que
atualmente utilizamos com maior propriedade o termo educador, ao invés
de professor ao nos referirmos aos profissionais que atuam na docência.
Os conceitos se transformam e adquirem novos significados à medida
que as relações produtivas e sociais também se transformam.
Vamos iniciar, nesse tópico, uma breve viagem no tempo-espaço
para compreender alguns dos principais significados do conceito
educação e da atuação dos mestres-professores-educadores em cada
período histórico. Ao final dessa viagem, retomaremos a questão do uso
do termo educador.
NOTA:
Vale ressaltar que abordaremos, em tópicos posteriores
e de forma específica e mais aprofundada, os modelos
educacionais de cada período histórico, inclusive nos
detendo mais particularmente na história da educação no
Brasil. Agora vamos passear pelos períodos históricos para
termos uma visão panorâmica de como era pensada a
educação e quais os significados desse conceito.
Para falarmos das concepções de educação na Antiguidade, temos
que saber um pouco mais sobre as atividades produtivas e sociais desse
período. SILVA e SILVA, (2009, p. 19) entendem que a Antiguidade é de
vital importância para a construção da ideia de Ocidente, da mesma forma
que algumas noções correlatas, como clássico e antigo.
No campo educacional, em linhas gerais, da Antiguidade até o início
do século XIX, a característica predominante das práticas escolares era a
aprendizagem de tipo passivo e receptivo. A compreensão era a de que
aprender estava quase que exclusivamente ligado ao ato de memorizar
informações e conteúdos.
Esse era o pensamento predominante, mas nem todas as pessoas
concordavam com ele, tanto que houve mudanças dentro desse longo
período e a ruptura no século XX.
História da Educação 27
Durante todo esse longo período, a compreensão, a conscientização
e a aprendizagem crítica tinham papel muito reduzido ou quase nulo, pois
esta forma de educação baseava-se na concepção de que o ser humano era
semelhante a um pedaço de cera ou argila úmida que podia ser modelado
à vontade do mestre. Estamos tão acostumados à presença da escola e
dos modelos educacionais que pouco nos preocupamos em pensar sobre
a possibilidade de compreender que nem sempre eles existiram.
Figura 5: Antiguidade
Fonte: Pixabay
Mais ainda, é o surgimento das escolas e dos espaços especializados
para o ensino que propiciaram, em grande parte, a predominância desse
tipo de pensamento (e práticas) que perdurou da Antiguidade até o
século XIX. Por isso, não podemos, de modo algum, tecer considerações
fundamentadas em comparações entre sociedades em diferentes
tempos e espaços visando detectar qual delas é melhor, mais avançada,
mais civilizada, entre outros equívocos comuns aos leigos em história da
educação.
VOCÊ SABIA?
Em grande parte das sociedades consideradas primitivas
(sem escrita, sem organização de classes sociais e de
Estado, sem utilização de agricultura em larga escala e sem
escolas!) há um grande respeito pelas individualidades e
pelo tempo de aprendizado de cada criança, além da
preocupação integral. Quanto a isso, vejamos o que diz a
professora Maria Lúcia de Arruda Aranha:
A cuidadosa adaptação aos usos e valores da tribo geralmente
é levada a efeito sem castigos. Os adultos demonstram
muita paciência com os enganos infantis e respeitam o
seu ritmo próprio. Por meio dessa educação difusa, de que
todos participam, a criança toma conhecimento dos mitos
ancestrais, desenvolve aguda percepção do mundo e
aperfeiçoa suas habilidades. A formação é integral (abrange
28 História da Educação
todo o saber da tribo) e universal, porque todos podem ter
acesso ao saber e ao fazer apropriados pela humanidade.
É bem verdade que alguns se destacam, detendo um
conhecimento mais amplo ou especial (como no caso do
feiticeiro), o que, no entanto, não resulta em privilégio, mas
apenas em prestígio. (ARANHA, 1996, p. 27-28)
Aqui, podemos destacar o conceito de educação difusa, ou seja,
não há espaços definidos nem o controle social sobre esse modelo. Todos
os membros da sociedade são responsáveis pela educação em todos os
momentos. O processo de aprendizagem ocorre pelo exemplo prático.
Na concepção de educação difusa a responsabilidade do
aprendizado não está confiada a ninguém em especial, mas à toda
sociedade e à vigilância difusa do ambiente.
Novamente, se faz necessário salientar que, atualmente, estamos
totalmente acostumados à presença da escola como responsável
por grande parte da educação. Além disso, é muito comum tecermos
comparações entre modelos sociais a partir de avanços tecnológicos,
com a intenção de, equivocadamente, classificá-las como mais ou menos
desenvolvidas ou civilizadas.
Cada cultura, cada sociedade, se desenvolve a partir de suas reais
necessidades. Conhecer a história da educação nos auxilia a ampliar nossa
perspectiva acadêmica, mas também a humana e a social. Bastam apenas
alguns momentos de reflexão sobre os atuais desafios educacionais e,
ampliando ainda mais o olhar, os sociais, para percebermos o quão distante
estamos de atingir o pleno respeito pelas diferenças e individualidades,
promovendo maior igualdade.
REFLITA:
Será que somos, atualmente, enquanto sociedade, o
resultado de todo conhecimento historicamente acumulado
e colhemos os frutos do maior desenvolvimento possível,
principalmente no bem-estar social?
Vamos observar o que Aníbal Ponce, ao analisar as sociedades
primitivas, tem a contribuir sobre esse aspecto:
História da Educação 29
Na comunidade primitiva, as mulheres estavam em pé de
igualdade com os homens e o mesmo acontecia com as
crianças. Até os 7 anos, idade a partir da qual já deviam
começar a viver às suas próprias expensas, as crianças
acompanhavam os adultos em todos os seus trabalhos,
ajudavam-nos nas medidas de suas forças e, como
recompensa, recebiam a sua porção de alimentos como
qualquer outro membro da comunidade. [...] Apesar de
entregues ao seu próprio desenvolvimento (Bildung, como
diriam séculos mais tarde Goethe e Humboldt), nem por
isso as crianças deixavam de se converter em adultos, de
acordo com a vontade impessoal do ambiente: adultos
tão idênticos uns aos outros que Marx dizia, com justiça,
que ainda se encontravam ligados à comunidade por um
verdadeiro “cordão umbilical”. (PONCE, 2003, p. 18-19)
Até aqui vimos apenas alguns aspectos da educação difusa.
Ainda assim, não lhe parecem precipitadas as comparações que se
fundamentam em avanços tecnológicos para concluírem que existam
sociedades mais ou menos desenvolvidas (civilizadas)?
Vamos continuar o nosso breve passeio pela linha do tempo. Já
vimos por que surgiu a escrita e como todo o contexto de transformações
humanas e nas técnicas para domínio da natureza marcou a ruptura entre
o período pré-histórico e a Antiguidade.
O período da Idade Antiga durou aproximadamente quatro mil anos e
tem duas subdivisões básicas: as civilizações hidráulicas (Mesopotâmicas,
onde atualmente está o Iraque que também são conhecidas como povos
bíblicos) e o Egito Antigo e as civilizações clássicas (Grécia Antiga e Roma).
Nas civilizações da antiguidade dos povos bíblicos não haviam
propostas pedagógicas específicas. Os livros sagrados têm passagens
que demonstram a preocupação com a educação, normalmente
oferecendo regras ideais de conduta e o enquadramento das pessoas
nos rígidos sistemas religiosos e morais. Aranha (1996, p. 33) relata que
as sociedades tradicionalistas, por serem conservadoras, pretendem
perpetuar os costumes e evitar a transgressão das normas.
30 História da Educação
Com o surgimento da posse dos meios de produção (a terra era o
principal), transformam-se as relações sociais. Passam a existir pessoas
que trabalham para outras, os Estados se organizam em busca de
expansão territorial resultando em escravidão aos povos vencidos.
DEFINIÇÃO:
O conceito de meios de produção é definido pelo conjunto
de equipamentos utilizados pelo trabalhador para a
obtenção de renda, seja em uma atividade individual,
seja em um trabalho coletivo ou subordinado, como nas
fábricas. Mais recentemente, com o desenvolvimento do
sistema capitalista, os meios de produção transformaram-
se, modificando, assim, as relações de trabalho e a forma
de produção das mercadorias. Essa transformação é
bastante perceptível quando observamos o intenso
desenvolvimento tecnológico presente nas atividades
produtivas, o que, irremediavelmente, se reflete nas
necessidades educacionais e de formação do trabalhador,
do ser humano, do cidadão etc.
Nesse momento da história surge o dualismo escolar, isto é, um tipo
de ensino para a maior parte do povo (camponeses e trabalhadores em
geral) e outro tipo para as pessoas com condição social mais privilegiada
(filhos dos funcionários do Estado, pessoas ligadas à religião, agregados
dos dirigentes do Estado). O fato é que a grande massa de pessoas era
excluída da escola e ficava restrita à educação familiar informal. Enquanto
nas sociedades tribais o saber é difuso, acessível a qualquer membro, nas
civilizações orientais, ao criarem segmentos privilegiados, a população,
composta por lavradores, comerciantes e artesãos, não tinha direitos
políticos nem acesso ao saber da classe dominante (ARANHA, 1996, p.33).
Em linhas gerais, o conhecimento da escrita ficou restrito a poucas
pessoas, entre coisas porque tinham caráter sagrado e esotérico. Por
outro lado, houve grande procura pela instrução, mas apenas os filhos
dos privilegiados atingiam os graus superiores.
História da Educação 31
REFLITA:
Você notou aqui alguma similaridade entre aspectos
educacionais das sociedades na antiguidade oriental e
aquilo que acontece na atual sociedade na modernidade?
Na Grécia Antiga, já no período clássico, o filósofo Aristóteles
acreditava na ideia de que o ser humano era como se fosse uma
tábua lisa, um papel em branco sem nada escrito, onde tudo podia ser
impresso. Como o pensamento da antiguidade clássica influenciou as
sociedades em muitos momentos posteriores, essa teoria foi retomada
frequentemente, ao longo dos séculos, reaparecendo em novas formas e
com pequenas variações.
Figura 6: Escrita na pedra
Fonte: Pixabay
Aprofunda-se a concepção dualista de educação, mas independente
do espaço de ensino que as pessoas frequentassem, ensinava-se a ler e a
escrever da mesma forma que se ensinava um ofício manual. Era comum
o ensino de ofícios sem o ensino da escrita e leitura. A metodologia era
baseada na repetição de exercícios graduados que aumentavam de
dificuldade a cada etapa para que o discípulo passasse a executar atos
complexos, que gradualmente, tornavam-se hábitos. Quanto ao estudo
da gramática, da História, da Geografia e das ciências era caracterizado
pela recitação de cor.
32 História da Educação
O marco histórico do fim da Antiguidade e do início da Idade Média
é a queda do Império Romano e, como já sabemos, marca também a
ruptura com o modelo de produção e das atividades sociais com o
período anterior.
A única instituição que permaneceu sólida e espalhada pelo grande
território que havia sido o Império Romano antes de sua queda foi a Igreja
Católica, por onde se moveu parte considerável da história medieval e
onde foram dados os primeiros passos das bases que constituíram a
educação na contemporaneidade.
Com mil anos de abrangência, os relatos dos fatos da idade
média requerem cuidados especiais nas análises, visto que é comum a
simplificação em sua caracterização apenas a um tempo, um monobloco
de períodos iguais marcados pela alcunha da “idade das trevas” ou “a
noite de mil anos”. No aspecto educacional, que é o que nos interessa
nesse momento e por causa do objetivo da disciplina aqui estudada, é
importante saber que a educação é profundamente marcada pela religião
no período medieval.
Figura 7: Vitrais da Igreja
Fonte: Pixabay
História da Educação 33
O modo de produção no período medieval é o feudalismo, isto é,
todas as relações produtivas se organizam a partir do feudo. No aspecto
educacional, predominaram as escolas cristãs, criadas ao lado de
mosteiros e catedrais. Os alunos mais destacados estudavam a filosofia e
a teologia, processo que fez com que os mosteiros dominassem a ciência,
tornando-se o reduto da cultura medieval.
Vamos ler parte da definição de Feudalismo de Silva e Silva (2009),
em que é possível perceber as intrincadas relações entre o poder político
e a influência da igreja, além de alguns aspectos da cultura militar do
período:
O Feudalismo se caracterizou, assim, por ser uma rede
de relações de dependência jurídica, da servidão à
vassalagem, que se entrelaçavam com a estrutura
econômica fundiária. Por sua vez, a mais marcante de suas
características políticas era a decadência da autoridade
real. Com a queda do Império, formaram-se, nas antigas
províncias, diversos reinos de origem germânica. Apesar
da grande absorção da cultura romana, essas monarquias
foram constituídas com base na antiga organização tribal:
ao lado do rei (posição inicialmente eletiva, mas que logo
adquiriu caráter hereditário) estavam os guerreiros, que
logo se tornaram nobres, pois a função militar passou a
definir a nobreza. Com a fragmentação do antigo poder
central romano e com a influência crescente dos nobres
guerreiros (que tinham, inclusive, o poder de eleger reis),
gradativamente os potentados locais foram assumindo as
funções da realeza. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica
em franca expansão começou a se inserir na cena política.
Com as invasões e a ausência de autoridades estatais nas
províncias, foram os bispos que primeiro assumiram as
funções administrativas. (SILVA; SILVA, 2009, p. 152)
34 História da Educação
REFLITA:
Para saber mais sobre conceitos que são abordados ao
longo dessa unidade de estudos, recomendamos a leitura
deles no Dicionário de Sociologia da Universidade Federal
de Santa Catarina. Nesse dicionário você encontrará
definições mais aprofundadas sobre o que é educação,
trabalho, cultura, elite, história, entre outros. Também
poderá saber aspectos gerais do trabalho de alguns autores
e pesquisadores importantes da sociologia como Émile
Durkheim, Alexis de Tocqueville, Karl Marx e Max Weber,
por exemplo. Clique qui.
Por causa das atividades econômicas pouco intensas, as pessoas
não tinham interesse em aprender a ler e escrever, o trabalho era agrário,
as pessoas não mudavam de classe social e, principalmente os servos
(camponeses, em sua maioria) mal tinham tempo para dar conta das
tarefas impostas pelo senhor feudal. Era uma relação bastante desigual,
mas com suas peculiaridades:
A servidão foi a relação social predominante no Feudalismo,
estabelecida entre os servos e os senhores medievais,
resultante não apenas da desagregação do Império
Romano como das sociedades dos povos ditos “bárbaros”.
É preciso ressaltar de antemão, como fez Georges Duby,
que nem a sociedade romana nem a germânica eram
sociedades igualitárias. Portanto, não era de se esperar
que a fusão dessas duas culturas originasse uma Idade
Média livre de alguma forma de desigualdade. Essa forma
de relação social (embora, sem dúvida, bastante desigual)
era caracterizada, em linhas gerais, pelos laços de
dependência mútua: ao servo, o senhor devia “proteção”;
ao senhor, o servo devia obediência, trabalho e tributos.
(SILVA; SILVA, 2009, p. 379)
Mesmo os padres se desinteressaram pela cultura e não buscavam
mais a formação intelectual o que fez com que, já no século IX, o
imperador franco Carlos Magno pensasse em sua corte formada por
intelectuais, no intuito de reformar a vida eclesiástica e ter maior influência
sobre a educação e o sistema de ensino. A escola palatina (ficava ao
História da Educação 35
lado do palácio) concorre com as escolas catedrais (ao lado das igrejas),
monarcais e paroquiais como centro de disseminação do conhecimento.
Nos altos graus de instrução realizados nas poucas universidades, o
modelo de ensino era a Escolástica, procedimento educacional que visava
equilibrar a fé cristã com o racionalismo (base do pensamento filosófico).
No âmbito da família medieval, as crianças tinham papel social
quase inexistente. As condições materiais da maior parte da população
(servos) geravam altos índices de mortalidade. Além disso, a falta de
afeto e maiores cuidados com as crianças desde o nascimento, também
contribuía para tal contexto. As mulheres, comumente, eram submissas
e subalternas aos homens, não recebiam educação formal. Os jovens
também eram subalternos ao pai, sem direitos e com forte dependência.
A vida social dos jovens era praticamente inexistente e a posição deles se
igualava à dos criados, permanecendo assim até o casamento.
A transição entre o período medieval e a Idade Moderna está
marcada em nossa Linha do Tempo da sociedade ocidental utilizada aqui
pela tomada de Constantinopla (antiga capital do Império Romano do
Oriente, atual Istambul) pelos turcos otomanos.
NOTA:
A formação dos Estados Modernos é um fato histórico,
ou seja, é incontestável que aconteceu. Mas, o processo
e quando esse fato histórico aconteceu é passível de
diferentes interpretações. Por isso, não há verdades
absolutas em história, o que há são os fatos históricos
que são interpretados por diferentes vieses. A Segunda
Guerra Mundial é um fato histórico, mas com certeza
os estadunidenses, os soviéticos e os alemães tinham
diferentes interpretações sobre ela.
Para exemplificar o que foi dito acima, vamos tecer considerações
sobre as interpretações quanto ao evento histórico que marcaria o início
da Idade Moderna.
36 História da Educação
Parte considerável dos historiadores argumenta que o início do
período moderno acontece com a concretização do primeiro Estado
Moderno, ou seja, com a Revolução de Avis (1383-1385) em Portugal. Dois
grupos formados após a morte do último rei da dinastia de Borgonha,
D. Fernando, disputavam o poder. Um era liderado pela burguesia
portuguesa que apoiava a ascensão do Mestre de Avis (filho bastardo
do pai de D. Fernando de Borgonha) e outro liderado pela nobreza que
apoiava a anexação de Portugal ao reino de Castela. Com vitória e a
ascensão do Mestre de Avis, coroado como D. João I, teve início a dinastia
de Avis. A vitória da burguesia nesse processo marcaria a vitória dos
interesses burgueses.
Outra perspectiva bastante difundida é a de que a Idade Moderna
começa com a chegada dos europeus ao continente que, mais tarde,
eles próprios denominariam como América. As grandes navegações
que pela primeira vez permitiram a travessia dos oceanos foi resultado
inicial do poder de investimento de dois estados modernos: Espanha e
Portugal. Nesses dois estados a burguesia já se mostrava mais presente
na economia e nas decisões políticas o que, inegavelmente, contribuiu
nesse processo de expansão territorial das nações citadas.
Em linhas gerais, é possível afirmar que foi na Europa Moderna que
surgiu a realidade política do Estado nacional, sendo que o sociólogo
Max Weber afirmou que o Estado Moderno se definiu a partir de duas
características: a existência de um aparato administrativo cuja função seria
prestar serviços públicos e o monopólio legítimo da força (SILVA; SILVA,
2013, p.114).
Seja qual for o fato histórico com maior influência na transição entre
o medieval e o moderno, todos têm ao fundo um elemento comum: a
burguesia. Essa classe social irá tomar o controle dos rumos econômicos
e políticos a partir da Idade Moderna. Uma definição bastante empregada
para definir a burguesia é
Aquela cunhada por Marx e Engels em meados do século
XIX, segundo a qual a burguesia é a classe dos capitalistas
modernos, proprietários dos meios de produção e
exploradores da classe dos trabalhadores assalariados.
(SILVA; SILVA, 2013, p. 34)
História da Educação 37
SAIBA MAIS:
Para saber mais, recomendamos a leitura sobre as
definições conceituais de burguesia, no Dicionário de
Conceitos Históricos. Clique aqui.
Portanto, também a educação começa a ter influência dos valores
burgueses. Nesse aspecto, a influência da igreja e da religião começa a
diminuir e duas instituições educativas passam por uma profunda redefinição
e reorganização: a família e a escola, instituições cada vez mais centrais
na experiência formativa dos indivíduos e na socialização dos aspectos
culturais, além da formação profissional. O Estado começa a se preocupar
cada vez mais com a educação por causa do importante papel das escolas
e do ensino na formação de pessoas inseridas em uma sociedade marcada
pelo surgimento de novos ofícios e pelo aprofundamento do conhecimento
técnico ligado à expansão comercial europeia.
Chegamos, finalmente, à transição entre os dois últimos
grandes períodos históricos: a passagem entre Idade Moderna e Idade
Contemporânea, marcada pelo evento da Revolução Francesa no ano de
1789.
Figura 8: Revolução Francesa
Fonte: Pixabay
38 História da Educação
As Grandes Navegações que possibilitaram a colonização da
América e o enorme crescimento das atividades comerciais, fez com que
a burguesia acumulasse cada vez mais riquezas, tornando-se, ao longo
de quase três séculos, a classe social mais poderosa economicamente.
Quem tem o poder econômico invariavelmente quer também deter o
poder político. Foi o caso da burguesia, que via cada vez mais a nobreza
(a classe social dominante na Idade Média e ainda influente nos rumos do
estado na Idade Moderna) como um empecilho às suas pretensões.
A burguesia tinha consciência de que produzir o conhecimento,
além de difundi-lo era essencial para transformar a mentalidade “antiga”
que ainda era muito presente. Era preciso tomar o poder político. Para isso,
difundiram-se ideias “iluministas”, produzidas por pensadores respeitados
da filosofia, da política, da economia e das ciências em geral.
A Revolução Industrial iniciada na Inglaterra na primeira parte do
século XVIII e logo depois reverberada na França e Alemanha, consolidou
definitivamente o poder econômico da burguesia. O Iluminismo deu
as bases filosóficas para o movimento revolucionário burguês que se
consolidou com a Queda da Bastilha em 1789 que, na prática, representou
a queda da nobreza e a ascensão da burguesia ao poder político. Os
ideais revolucionários burgueses se espalharam pela Europa e por
algumas outras partes do mundo. Os EUA tinham realizado sua revolução
burguesa, fundamentada no ideário iluminista, anos antes, em 1776.
Alguns autores apontam a existência de uma segunda, terceira
e até quarta Revolução Industrial, acontecidas a partir do século XIX e
caracterizadas também por grandes transformações na tecnologia de
produção. Entretanto, o pioneirismo da Inglaterra e a força do conceito
clássico de Revolução Industrial são pontos pouco contestados pelos
historiadores e economistas em geral. A chamada Primeira Revolução
Industrial é definida pelos economistas como o ponto de partida para
o crescimento autossustentável da produção. Para o historiador Eric
Hobsbawm, o termo revolução deve ser aplicável ao fenômeno, pois de
fato houve uma explosão na capacidade humana de produzir mercadorias
e serviços por volta da década de 1780 quando, pela primeira vez na
história, essa capacidade se multiplicou de modo ilimitado. A influência da
História da Educação 39
Revolução Industrial, em particular no Ocidente, ultrapassou a esfera da
produção e da economia, mudando, por exemplo, as noções tradicionais
de tempo, ritmo e velocidade. A Revolução Industrial e as revoluções
tecnológicas subsequentes forneceram algumas das bases para o mundo
contemporâneo (SILVA; SILVA, 2013, p. 372-373).
Na contemporaneidade a escolarização passa a ser a principal forma
de educação. As cidades crescem vertiginosamente com o incremento
das indústrias e dos processos mecanizados. É preciso formar um enorme
contingente de pessoas que saibam minimamente ler e escrever, pois o
trabalho na indústria e em processos industriais exige muito mais acúmulo
de técnicas do que a antiga atividade agrária característica dos períodos
anteriores. Como a burguesia é a classe social dominante nesse processo,
os valores e conteúdos, além da forma como eles serão ensinados nas
escolas estão profundamente marcados pelo viés burguês, pela sua
cultura, pela visão de mundo e por seus interesses políticos e econômicos.
O atual estágio de grandes avanços tecnológicos presentes nas
atividades produtivas faz com que haja também a necessidade de uma
educação voltada à formação que irá suprir a grande demanda de ofícios
altamente especializados. Além disso, na sociedade moderna, mais
de três quartos das pessoas viviam em cidades, por isso o objetivo de
formação para a cidadania.
Figura 9: Crescimento das cidades
Fonte: Pixabay
40 História da Educação
Depois da Revolução Francesa e, mais marcadamente a partir de
meados do século XIX, inicia-se um processo de grande expansão da
forma escolarizada de educação. O século XX é repleto de estudiosos e
de teorias pedagógicas que são formuladas para que haja aproveitamento
máximo no processo de aprendizagem e que estes cheguem o mais perto
possível dos objetivos planejados pelos sistemas de ensino.
RESUMINDO:
Neste tópico, vimos como os vários períodos históricos são
importantes, e contribuíram para a educação. Abordamos,
também, que cada cultura, cada sociedade, se desenvolve
a partir de suas necessidades reais. Você aprendeu que com
os grandes avanços tecnológicos presentes nas atividades
produtivas, surge a necessidade de uma educação voltada
para formação, que precisa suprir a demanda de ofícios
extremamente especializados.
História da Educação 41
A educação primitiva
OBJETIVO:
Ao término deste capítulo você será capaz de distinguir
conceitos correlatos, mas distintos, como educação e
ensino e suas variantes. E então? Motivado para desenvolver
este desafio? Então vamos lá?
As características principais no modo de produção das comunidades
primitivas (comunal) são o nomadismo com a caça, o pastoreio, a pesca e
a agricultura como atividades predominantes. Segundo Ponce (2003) nas
comunidades primitivas
O ensino era para a vida e por meio da vida, para aprender
a manejar o arco a criança caçava, para aprender a guiar
um barco, navegava. As crianças se educavam tomando
parte nas funções da coletividade. (PONCE, 2003, p. 19)
A educação difusa é aquela em que não há um ente ou indivíduo
destinado à função específica de educar ou ensinar. Todos os membros
das comunidades primitivas participavam ativamente do processo
educacional uns dos outros, notadamente no das crianças e dos jovens.
Portanto, por causa do modo de produção das comunidades
primitivas, não havia a necessidade da existência de espaços específicos
para a educação, uma vez que também havia pouca complexidade e
variação dos ofícios e tarefas, que por sua vez, eram comunais. Embora
pareça o contrário, não é tarefa fácil caracterizar as comunidades primitivas.
Alguns dos motivos:
•• Há muitas diferenças entre as comunidades primitivas: imagine
o modo como comunidades tribais da região do Amazonas se
relacionam com a natureza em comparação às comunidades que
viviam na região subsaariana na África. As técnicas de trabalho e
as interações com a natureza em cada um desses espaços são
bem distintas gerando, portanto, modos distintos de educar.
42 História da Educação
•• Há sempre o risco do etnocentrismo, isto é, avaliar estas
sociedades a partir dos padrões de nossa cultura ou de outra que
se mostra hegemônica.
•• É comum que os estudos realizados sobre as comunidades
primitivas centrem as análises sobre aquilo que elas não
desenvolveram, ao invés de compreendê-las apenas como outro
modelo de viver nesse mundo.
As sociedades tribais têm também, em sua essência, a mítica com a
manifestação do sagrado como forma principal de compreensão sobre a
origem de todas as coisas. Nessa perspectiva, é por causa das forças divinas
que se fazem possíveis a aquisição da técnica, o trabalho na agricultura ou a
cura para todos os males. Nesse modo de compreender o mundo, a própria
ação dos homens tem lastro nos possíveis movimentos dos deuses. Isso
se expressa em suas manifestações religiosas, como no caso das danças
antes da guerra representando a antecipação mágica do que visa garantir
o sucesso ou ainda nos desenhos rupestres como forma antecipada de
apropriação da caça e como forma de restituir os animais na natureza.
Tomando referência a tese de que as atividades produtivas
condicionam todas as demais em uma sociedade (nesse caso, sociedades
comunais), Ponce afirma que:
Dessa concepção de mundo (a única possível numa
sociedade rudimentar em que todos os seus membros
ocupavam a mesma posição na produção) derivava
logicamente o ideal pedagógico a que as crianças
deveriam se ajustar. O dever ser, no qual está a raiz do fato
educativo, lhes era sugerido pelo seu meio social desde
o momento do nascimento. Com o idioma que aprendiam
a falar, recebiam certa maneira de associar ou de idear;
com as coisas que viam e com as vozes que escutavam,
as crianças se impregnavam das ideias e dos sentimentos
elaborados pelas gerações anteriores e submergiam de
maneira irresistível numa ordem social que as influenciava
e as moldava. Nada viam e nada sentiam, a não ser
através das maneiras consagradas pelo seu grupo. A sua
consciência era um fragmento da consciência social e se
desenvolvia dentro dela. Assim, antes da criança deixar
as costas da sua mãe, ela já havia recebido, de um modo
confuso certamente, mas com relevos ponderáveis, o ideal
História da Educação 43
pedagógico que o seu grupo considerava fundamental
para sua própria existência. (PONCE, 2003, p. 21)
Outra característica geral às comunidades primitivas é a tradição
oral. Nelas, os mitos e os ritos são transmitidos pela oralidade, constituindo
aquilo que conhecemos por tradição, o que permitia, no caso dessas
sociedades, a coesão grupal e a reprodução social de comportamentos
considerados desejáveis. Tal contexto é um dos fatores que explica a
configuração destas como comunidades estáveis, em que as mudanças
e as transformações ocorrem de forma muito lenta.
O modelo educacional também apoia a estrutura social que se
mantém homogênea, onde as relações não apresentam dominação de
um ou outro segmento, mesmo que a divisão de tarefas leve as pessoas
a exercerem funções diferentes, o trabalho e o seu produto são sempre
coletivos (ARANHA, 2006, p. 27).
No modelo de educação difusa das sociedades primitivas, a
universalidade ocorre porque todos os seus membros têm acesso
ao saber e ao fazer fundamentados nos conhecimentos acumulados
socialmente. Desse modo, outro ponto importante a ser destacado nesse
modelo é o seu caráter de integralidade, uma vez que abrange todo o
saber da tribo em todos os momentos de atuação social.
VOCÊ SABIA?
É por esse motivo que, apesar de algumas poucas pessoas
especiais possuírem prestígio como o chefe guerreiro ou o
feiticeiro, isso não representa privilégio, mas consideração e
respeito. Tais pessoas especiais também não se aproveitam
de sua condição de para estabelecer relações de mando-
obediência.
Uma das atividades sociais mais importantes nessas sociedades são
os ritos de passagem, tendo o nascimento e a morte e ainda a iniciação à
vida adulta os principais entre eles. Segundo afirma Aranha (1996, p. 28),
o conhecimento mítico imprime uma tonalidade especial à educação do
passado da tribo. Diferentemente, o mito é atemporal e conta o ocorrido
no “início dos tempos”, nos primórdios, assim é possível compreender o
44 História da Educação
prestígio das pessoas especiais por serem fundamentais nesse processo
ritual. Segundo Clastres (1978, p. 125), os rituais representam a pedagogia
que vai do grupo ao indivíduo, da tribo aos jovens. Pedagogia de afirmação.
SAIBA MAIS:
É por esse motivo que, apesar de algumas poucas pessoas
especiais possuírem prestígio como o chefe guerreiro ou o
feiticeiro, isso não representa privilégio, mas consideração e
respeito. Tais pessoas especiais também não se aproveitam
de sua condição de para estabelecer relações de mando-
obediência.
RESUMINDO:
Nesse tópico, vimos que as transformações nas sociedades
primitivas acontecem de forma bastante lenta e gradual,
mas acontecem. Por isso, ao longo de milhares de anos
acumulando conhecimento sobre técnicas de domínio
da natureza, o modelo educativo dessas sociedades
passou a não servir mais, pois já não funcionava. As causas
dessa situação estão na própria evolução da produção, o
que iniciou o processo de surgimento de classes sociais
(alguns passaram a deter a posse da terra). O crescimento
dos agrupamentos humanos e o gradual surgimento das
cidades, fez com que o conceito de educação difusa como
função espontânea da sociedade, mediante a qual as
novas gerações se assemelhassem às mais velhas deixou
de ser importante e de representar o ideal de formação
humana, pois a própria sociedade e suas relações de
produção haviam se transformado (PONCE, 2003, p. 23).
Em suma, aquela filosofia de formação do homem estava
ultrapassada.
História da Educação 45
Educação das civilizações orientais e do
Egito Antigo
OBJETIVO:
Ao término deste capítulo você será capaz de identificar
os períodos históricos e suas respectivas formas de
organização educacional. E então? Motivado para
desenvolver este desafio? Então vamos lá?
Antes de iniciarmos os estudos mais específicos sobre o conceito
de educação nas civilizações orientais e no Egito Antigo, precisamos
localizá-las dentro de seu período de existência histórica. Tais civilizações
aqui analisadas pertencem à Antiguidade que, segundo a linha do tempo
da sociedade ocidental que adotamos, iniciou-se 4000 anos a.C. e teve
fim com a queda de Roma no ano de 476 d.C.
Vamos caracterizar esse período utilizando definições elaboradas
por estudiosos no assunto, ou seja, historiadores. No Dicionário de
Conceitos Históricos Silva e Silva (2013) definem que:
Para Rostovtzeff, a Antiguidade significava o início do
desenvolvimento do Homem, período em que a civilização
foi formada e a vida política e social se distinguiu da
selvageria. Essa Idade teria tido seu início no Oriente
Próximo, entendido como o Egito, a Mesopotâmia, a
Ásia Central e o Egeu e seu auge na Grécia e em Roma.
A importância da História Antiga, para Rostovtzeff, estava
na herança palpável deixada por ela na vida ocidental
moderna, sendo os antigos os inventores da vida civilizada
contemporânea. Nessa perspectiva, as ligações entre
Antiguidade e mundo atual seriam muitas: comércio
mundial e indústria em larga escala; as principais formas
políticas ainda hoje utilizadas, como a monarquia, o sistema
federal e o Estado autogovernado; além da Filosofia, da
Ética e da Estética atuais. (SILVA; SILVA, 2013, p. 20)
A leitura atenta da citação acima nos remete a relacionar o período
a outros conceitos, como civilização. Ora, o fato de que a “invenção da
escrita” marque o fim do período anterior e inicie a Antiguidade já denota
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um determinado direcionamento na interpretação destes períodos por
parte dos autores que veem nesse fato histórico o marco determinante
para tecer considerações e análises.
Os autores citam Rostovtzeff, para quem a Antiguidade, literalmente,
significava o período em que a civilização foi formada e a vida política
e social se distinguiu da “selvageria”, sendo que apenas nesse período
o homem realmente evoluiu. Essa percepção é bastante carregada de
etnocentrismo, ou seja, tece comparações e faz considerações a partir
da percepção de que haja uma cultura, um povo, uma civilização mais
desenvolvida, melhor que outras.
Vamos novamente recorrer ao Dicionário dos Conceitos Históricos
para observar a definição do conceito etnocentrismo:
De modo simples, o etnocentrismo pode ser definido
como uma visão de mundo fundamentada rigidamente
nos valores e modelos de uma dada cultura. Por ele, o
indivíduo julga e atribui valor à cultura do outro a partir
de sua própria cultura. Tal situação dá margem a vários
equívocos, preconceitos e hierarquias, que levam o
indivíduo a considerar sua cultura a melhor ou superior.
Nesse sentido, a diferença cultural percebida rapidamente
se transforma em hierarquia. O outro, só compreendido
Etnocentrismo de maneira superficial, é então usualmente
designado como “selvagem”, “bárbaro” ou não humano. Em
linhas gerais, é difícil para qualquer indivíduo se despojar
dos preconceitos arraigados em sua cultura e tentar
compreender a cultura do outro em seus próprios termos.
Essa seria uma atitude não etnocêntrica, pois faria uso da
relativização, que é o oposto do etnocentrismo. No entanto,
o mais comum é o indivíduo tomar suas representações,
sua linguagem, seus valores, para falar sobre o que é esse
“outro”. Não dá a palavra para o outro, porque considera
sua cultura a detentora da palavra. (SILVA; SILVA, 2013, p.
20)
Por isso ressaltamos que, ao observar as civilizações orientais,
estaremos falando apenas de algumas delas, pois como nos demais
períodos ou conceitos, existem uma grande variedade de povos, de
culturas e modos de organização. Aqui faremos o recorte com o critério de
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observar aquelas que mais se destacaram e que influenciaram e deixaram
legados históricos.
Então, comecemos pelas características mais gerais e presentes
em várias civilizações da antiguidade oriental, como na China e na Índia.
Diferente daquilo que ocorre nas sociedades tribais onde a educação é
difusa, nas civilizações orientais são estabelecidos modelos educacionais
dotados de locais específicos à prática do ensino, com objetivos e
métodos. Nessas civilizações a educação, de um modo geral, era uma
preocupação que estava presente muito relacionada com a religião, tanto
que aparece representada nos livros sagrados, que ofereceram regras
ideais de conduta e o enquadramento das pessoas nos rígidos sistemas
religiosos e morais. Portanto, não haviam propostas pedagógicas
propriamente ditas, principalmente se comparadas às formas posteriores
e às que conhecemos atualmente.
Como o modo de produção estabelece influência sobre todos os
aspectos sociais e culturais, o modelo educacional não escapa disso: no
princípio o conhecimento da escrita era bastante restrito, devido ao seu
caráter sagrado e esotérico, fazendo com que a maior parte da população
(camponeses, comerciantes e artesãos) não tivesse acesso ao saber da
classe dominante, nem direitos políticos (ARANHA, 1996, p. 43).
Esse contexto representa, na prática, uma forma de dualismo
educacional (escolar), ou seja, se destina um tipo de ensino para o povo
e outro tipo para uma pequena parte da sociedade (os privilegiados).
Mas, a maior parte da grande massa populacional não tem acesso nem a
um nem a outro tipo, sendo excluída da escola e restringida à educação
familiar informal.
Para caracterizar melhor essas civilizações, inclusive relacionando
aspectos produtivos (econômicos) sociais, políticos e educacionais,
vamos recorrer mais uma vez à citação, dessa vez quem nos auxilia é
Franco Cambi:
O Extremo Oriente é aquela terra dos grandes rios e dos
vegetais [...], mas é também um terreno polifônico do
sagrado e um conjunto de terras submetidas à agressão da
barbárie (seja dos turcos, dos mongóis ou dos quirguezes)
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contra a qual é preciso defender-se (assim como das
intempéries: as grandes chuvas monçônicas) organizando-
se de modo compacto, militar e social sob o governo de um
soberano que, geralmente, é deus e rei. As sociedades do
Extremo Oriente são sociedades complexas, mas imóveis
e por várias razões. Por um influxo central exercido pelas
religiões, construídas como organismos perenes e sentidas
como tais: pela indistinção entre humano e divino que as
caracteriza e, portanto, pela perenização do humano (visto
como invariante). São características comuns tanto à China
e à Índia, como ao Japão e à Indochina/Indonésia. (CAMBI,
1999, p. 62)
Outro traço comum às civilizações da antiguidade oriental e
também à egípcia e mesopotâmica é o caráter de tradicionalismo. Isto
significa que, nelas, a organização social já está estruturada com a
presença do Estado que tem a preocupação de manter a ordem vigente
e estabelecida. Para isso são empregadas ações organizadas em vários
âmbitos: no religioso, no econômico, no cultural e, como não poderia deixar
de ser, no educacional, conforme já vimos anteriormente. Os governos
são despóticos e teocráticos onde rei e imperadores têm poder absoluto
justificado pela crença em sua origem divina. O Estado é extremamente
organizado e tem vários escalões burocráticos que administram e
controlam a produção agrícola, arrecadam impostos, recrutam mão de
obra para a construção de grandes templos, diques, túmulos e palácios
(ARANHA, 1996, p. 32), sendo que essa administração é conduzida pelos
membros de uma minoria privilegiada que tem acesso à educação que
os prepare para tal finalidade, enquanto os demais são educados para
tarefas técnicas de escalões sociais inferiores ou ainda à mera educação
familiar informal e que não possibilita ascensão.
Na China os sacerdotes não são letrados, isso cabe aos chamados
mandarins que são os altos funcionários de estrita confiança do imperador
e responsáveis pela máquina administrativa do Estado. A educação
elementar tem como objetivo a alfabetização, muito difícil e demorada por
causa do caráter complexo da escrita chinesa, sendo ensinado também
o cálculo e a formação moral por meio da transmissão dos valores dos
ancestrais, processo realizado de maneira dogmática, com ênfase nas
técnicas de memorização (ARANHA, 2006, p.35 e 36). Há um rigoroso
História da Educação 49
sistema de seleção para o ensino superior (para formação de mandarins)
que é composto por exames oficiais que distribuem os candidatos nas
diversas atividades administrativas.
O modelo educacional na Índia era ainda mais seletivo e excludente,
visto que era profundamente baseado na composição das castas
sociais que, por sua vez, representavam as intensas desigualdades que
permeavam a sociedade. Toda a organização social era fundamentada
nos livros sagrados do hinduísmo que professa que os seres e os
acontecimentos são manifestações de uma só realidade chamada
Brahman (alma ou essência de todas as coisas). A população é dividida em
castas fechadas: os brâmanes (sacerdotes) que são os mais privilegiados
na educação hindu, os xátrias (guerreiros nobres), os vaicias (agricultores e
comerciantes) e os sudras (servos dedicados aos serviços mais humildes)
que não recebem sequer educação formal elementar.
EXPLICANDO MELHOR:
Devido à crença de que todos saíram do corpo do deus
Brahma, os brâmanes são considerados mais importantes
por terem sido gerados da cabeça do deus. No outro
extremo, os párias, por sequer terem origem divina, não
pertencem a qualquer casta e por isso são intocáveis e
reduzidos a uma condição miserável (ARANHA, 2006, p. 34).
Essa organização do modelo educacional demonstra bem
a própria organização social da Índia.
Nesse mesmo período, floresce no norte da África, a partir das
margens do Rio Nilo, uma imponente civilização: o Egito Antigo.
Na arte e na arquitetura, os egípcios criaram soluções para problemas
práticos, desenvolvendo técnicas de demarcação de propriedades,
medição de áreas de triângulos, retângulos, hexágonos e o volume de
cilindros e pirâmides. Organizaram também um calendário (com 365 dias
e três estações: cheia, inverno e verão) que apontava o início da cheia
e das vazantes do rio Nilo. Na medicina, os egípcios conheciam várias
doenças, praticavam operações, sabiam a importância do coração para a
vida animal e conheciam a circulação sanguínea.
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Ao lado da educação escolar, havia a familiar (atribuída primeiro à
mãe, depois ao pai) e a “dos ofícios”, que se fazia nas oficinas artesanais
e que atingia a maior parte da população (ARANHA, 1996, p. 34), sendo
que este aprendizado não tinha nenhuma necessidade de “processo
institucionalizado de instrução” e eram os pais ou os parentes artesãos que
ensinavam a arte aos filhos, através da observação para depois reproduzir
o processo observado (CAMBI, 1999, p. 68). A escrita hieroglífica, reservada
aos privilegiados, era sagrada e constituída por pequenas figuras que
juntas, formavam um texto. Com o uso e com a maior complexidade das
atividades produtivas e comerciais, esse modelo de escrita evoluiu para
representações mais simples, como a escrita hierática e, depois, culminou
na escrita demótica, mais popular e usada pelos escribas.
Por fim, as classes mais populares eram também excluídas da
ginástica e da música, reservadas apenas à casta guerreira e colocadas
como adestramento para guerra.
SAIBA MAIS:
Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos a consulta
e leitura para aprofundamento dos materiais a seguir:
Livro: O Egito Antigo, do professor da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, Arnoldo W. Doberstein e
publicado pela EdiPUCRS no ano de 2010. Clique qui.
História da Educação 51
RESUMINDO:
Neste tópico, vimos a relação direta entre a estrutura
econômica e o modo como se organiza a vida social e o
modelo educacional. Por isso, ao tratarmos aqui do Egito
Antigo (a chamada civilização egípcia), vamos direto aos
aspectos educacionais que, se bem observados, trarão
elementos que permitirão analisar a própria sociedade. Você
aprendeu que no Egito Antigo, o saber religioso e o saber
técnico eram ministrados pelos sacerdotes nos templos,
grupo este que representava uma casta intelectual naquela
sociedade (CAMBI, 1999, p. 67) e que tinha acesso à escrita,
coisa para pouquíssimas pessoas. Embora a sociedade
egípcia fosse profundamente influenciada pela religião,
isso se expressava mais na estrutura social para manter
as classes sociais em seus lugares do que na produção
intelectual e científica, resultado do modelo educacional.
52 História da Educação
REFERÊNCIAS
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ARANHA, M. L. de A. História da Educação. São Paulo: Editora
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CAMBI, F. História da Pedagogia. Tradução de Álvaro Lorencini. São
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SAVIANI, D. A educação como questão nacional. In: A nova lei
da educação: LDB trajetória, limites e perspectivas. Campinas: Autores
Associados, 2004.
SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. São
Paulo: Editora Contexto, 2009. Disponível em [Link]
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