SUMÁRIO
• prólogo • 2
||AVISOS|| 3
capítulo 1- acordo 4
• prólogo •
Ninguém conhece a verdadeira história.
Dizem apenas que houve um tempo em que o mundo era regido pela magia e pelo
preconceito, onde o sagrado e o profano caminhavam lado a lado. Anjos e demônios
pisavam estas terras amaldiçoadas como senhores antigos, disputando cada alma,
cada suspiro humano. Seus conflitos eram constantes, sangrentos e invisíveis aos
olhos dos mortais — mas sentidos na carne.
Até que, um dia, o próprio Diabo fez uma proposta a Deus.
Não foi em gritos, nem em blasfêmias. Foi em palavras medidas, ditas com a
elegância de quem sabe que o caos também pode vestir ouro.
— Concedei-me, ó Altíssimo, o direito de governar este mundo por nove dias a cada
nove anos.
Durante esse breve reinado, meus filhos caminharão livremente entre os homens.
O pecado será permitido, o prazer não será punido, e os desejos não conhecerão
vergonha.
Em troca, prometo-vos isto: não interferirei em vossos desígnios, nem mancharei
vossas obras além do tempo que me for concedido.
Deus, em Sua infinita soberania — ou talvez em Seu silencioso desinteresse —
aceitou a proposta.
E assim nasceu o pacto.
Durante esses dias, o mundo mergulhava numa suspensão divina. As leis celestiais
afrouxavam, os pecados vestiam máscaras, e os homens acreditavam estar apenas
celebrando uma festa.
Chamaram esse período de Carnaval.
Mas o inferno sempre soube a verdade
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||AVISOS||
ATENÇÃO
ESSE LIVRO CONTÉM
Sexo explícito e erotismo
Luxúria, indulgência e prazer carnal
Violência física e psicológica
Uso de drogas e intoxicação
Rituais ocultistas e pactos demoníacos
Manipulação, poder e submissão
Temas sombrios e provocativos
Leitura recomendada apenas para maiores de 18 anos. Ao abrir estas páginas, você
aceita mergulhar em um universo de tentação, onde o prazer e o pecado caminham
lado a lado.
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capítulo 1- acordo
No meio da tarde, no coração do reino de Drakeberg, uma grande multidão se reunia
em torno da fogueira erguida na praça principal. Era ali que queimavam bruxas — e,
com a mesma facilidade, mulheres inocentes. O cheiro de lenha fresca misturava-se
ao ódio antigo, herdado como tradição.
E lá estava eu.
Amarrada a um poste, as cordas mordendo meus pulsos, o corpo ereto por orgulho e
não por fraqueza. Meu rosto permanecia sério, quase vazio, enquanto tomates,
cascas de fruta e insultos eram lançados contra mim. Não havia lágrimas. Elas já
tinham sido gastas muito antes daquele dia.
À minha frente, um padre segurava a Bíblia com mãos trêmulas, como se o peso das
palavras fosse maior que o da própria fé. Sua voz ecoou pela praça:
— Deus, livrai-nos do mal, de cada pecado que esta criatura miserável cometeu ao
longo de inúmeros anos—
Eu o interrompi.
— Cala essa boca.
A multidão estremeceu.
Inclinei levemente a cabeça, encarando-o com um desprezo sereno.
— Ninguém aguenta mais ouvir você falar. Se aguentassem, todos iriam para a
igreja — até os infiéis… e até aqueles que estão aqui por puro tédio.
Um silêncio pesado caiu sobre a praça.
Os rostos na multidão mudaram — alguns confusos, outros chocados, muitos
cochichando entre si. O padre corou — vermelho de raiva, vergonha e medo.
Apertou a Bíblia contra o peito, como se ela pudesse protegê-lo de mim.
— Vede! — gritou ele, recuperando a voz. — Eis a língua da serpente! Eis o
demônio que nela habita!
Sorri pela primeira vez.
Não um sorriso de loucura.
Mas de quem já havia perdido tudo — e, por isso, não temia mais nada.
E enquanto o fogo era preparado, eu só conseguia pensar em uma coisa:
eles acreditavam que aquela seria minha sentença.
Atearam fogo à madeira, tentando me queimar viva.
As chamas subiram rápidas, famintas, lambendo o poste como se finalmente
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tivessem recebido permissão divina. A multidão explodiu em gritos e palmas, como
se assistisse a um espetáculo ensaiado havia séculos.
Mas eu era poderosa demais para partir tão cedo.
Permaneci imóvel, quieta, entediada. O fogo me envolvia como um cobertor quente,
beliscando minha pele sem causar dor. A madeira estalava, minhas roupas ardiam, a
corda que me prendia se desfazia em cinzas, deixando meu corpo exposto no centro
das chamas.
Não era a primeira vez que tentavam me queimar viva.
Minutos se passaram. O fogo, cansado de mim, começou a morrer. As chamas se
apagaram uma a uma, como se tivessem sido envergonhadas.
E eu ainda estava ali.
De braços cruzados, ilesa.
— Já acabou? — perguntei, com um ar de puro deboche.
O silêncio que se seguiu foi mais alto que qualquer grito anterior.
Vi o horror se espalhar pelos rostos. Mulheres taparam os olhos dos filhos,
murmurando preces desesperadas. Homens ficaram boquiabertos, paralisados —
não pela nudez em si, mas pela afronta. Pela quebra absoluta do que acreditavam
ser possível.
Algumas esposas puxaram seus maridos pelo braço, tapando-lhes a visão com raiva
e medo, como se meu corpo fosse uma tentação viva, um pecado que respirava
diante deles.
O padre recuou um passo.
Depois outro.
— Isto… isto não é obra de Deus — balbuciou.
Inclinei a cabeça, sentindo o vento tocar minha pele pela primeira vez desde que as
chamas se foram.
— Nunca foi — respondi calmamente.
Naquele instante, tentei sair.
Mas ao meu redor, a praça se fechou. Guardas da realeza surgiram de todos os
lados, lanças erguidas, rostos endurecidos pelo medo. Dei um passo para trás,
sentindo a magia subir pelas veias — pronta para rasgar o chão, o ar, qualquer coisa
que me impedisse de partir.
Foi quando algo atingiu minha nuca.
O mundo girou.
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E então, apagou.
Acordei em uma cela.
Pedra fria. Umidade escorrendo pelas paredes. O cheiro de ferro, mofo e desespero
antigo. Estava na masmorra. Ainda nua. Ainda viva.
— Droga… sério isso? — murmurei, passando a mão pelo rosto.
Fechei os olhos e comecei a puxar a magia para mim, lenta, controlada. As correntes
no chão vibraram levemente, respondendo ao chamado.
Foi então que ouvi passos.
Pausados. Calculados. Diferentes dos dos guardas.
— Quem está aí? — perguntei friamente, abrindo os olhos.
A sombra surgiu primeiro, projetada pela tocha do corredor. Depois, ele.
Um nobre.
As roupas impecáveis demais para aquele lugar. O brasão bordado denunciava
poder, não devoção. Ele parou diante das grades e me observou em silêncio — não
como um homem olha uma prisioneira, mas como quem avalia algo raro… perigoso.
Seu olhar desceu sem pressa.
Não havia vergonha nele.
Nem piedade.
Havia fome.
Não do meu corpo.
Mas do que eu era.
— Então é verdade — disse ele, por fim, a voz baixa, quase respeitosa. — A bruxa
que o fogo recusou.
Sorri de canto, encostando as costas na parede da cela.
— E você deve ser o nobre tolo o bastante para vir me ver sozinho.
Os lábios dele se curvaram levemente.
— Ou corajoso o suficiente.
Naquele momento, eu soube:
aquele homem não estava ali para me julgar.
Estava ali porque, assim como eu, ele não sabia mais diferenciar fé de desejo.
— Quero propor um acordo — disse o nobre, finalmente.
— Acordo? — ri, o som ecoando pela cela de pedra. — Um nobre querendo um
acordo com uma bruxa?
Levantei o olhar lentamente. O sorriso morreu ao ver o rosto dele.
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Sério. Firme. Sem traço algum de deboche.
— Que tipo de acordo? — perguntei.
Ele deu um passo à frente, aproximando-se das grades.
— Você será minha — disse, sem rodeios. — Em troca, garantirei que não a cacem
novamente. Posso silenciar a Igreja, dobrar juízes, desviar fogueiras. — Fez uma
pausa calculada. — Poderia, inclusive, usar alguém como você.
Inclinei a cabeça, observando-o como quem analisa um erro antigo.
— Não, obrigada, meu querido. — Sorri com desdém. — Sou imortal. Não vou
morrer na próxima fogueira… nem na seguinte. E diga-me: o que eu realmente
ganharia com isso?
Por um instante, pensei que ele se irritaria.
Mas ele apenas respondeu, baixo:
— Um lar.
As palavras pairaram no ar.
— Um lugar onde possa ficar — continuou. — Um teto que não precise abandonar
ao amanhecer. Um nome que a proteja. Uma casa onde ninguém ouse chamá-la de
monstro em voz alta.
O silêncio pesou.
Cruzei os braços, sentindo algo incômodo se mover dentro de mim — não medo,
não desejo… mas curiosidade.
— Você fala como se isso fosse um presente — murmurei.
— Não é — respondeu ele. — É uma barganha. E ambas sabemos que o mundo
não é gentil com quem caminha sozinha.
Aproximei-me das grades até ficarmos separados apenas pelo ferro.
— E você fala como se eu fosse sua posse.
O olhar dele escureceu.
— Não — disse, com calma perigosa. — Falo como alguém que reconhece poder…
e sabe que poder sempre cobra seu preço.
Sustentei o olhar por longos segundos.
Talvez aquele acordo fosse uma prisão.
Talvez fosse proteção.
Talvez fosse o começo da minha ruína.
E talvez — apenas talvez — fosse dele tambem.
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Teletransportei-me para fora da cela.
O ar se dobrou ao meu redor, a pedra desapareceu — e por um segundo acreditei
que estava livre. Mas mal meus pés tocaram o chão da masmorra, senti o erro.
Guardas me cercaram.
As armaduras não eram comuns: placas polidas, misturadas com veios de platina,
gravadas com símbolos antigos. O ar ao redor deles era pesado, sufocante. Minha
magia vacilou, como uma chama privada de oxigênio.
Platina.
Anulava magia primordial.
— Droga — rosnei, tentando puxar poder outra vez.
Nada.
Mãos ásperas me seguraram com força. Não lutei. Não gritei. Apenas observei
enquanto me arrastavam pelos corredores de pedra, tochas lançando sombras
distorcidas nas paredes.
Então o vi.
O nobre me esperava ao fim do corredor, encostado com tranquilidade excessiva em
uma coluna de pedra. Quando nossos olhares se encontraram, ele sorriu — lento,
satisfeito.
Como quem já sabia o desfecho.
— Seu merdinha — cuspi, enquanto me empurravam para diante dele.
Ele riu.
Não foi uma gargalhada.
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Foi um riso baixo, contido… perigoso.
— Vê? — disse ele, aproximando-se. — É por isso que lhe ofereci um acordo. O
mundo sempre encontra novas correntes para quem nasce diferente.
Levantei o queixo, mesmo cercada.
— E você acha que isso me quebra?
O sorriso dele se alargou apenas um pouco.
— Não — respondeu. — Acho que isso a torna interessante.
Os guardas aguardavam sua ordem.
E eu compreendi, naquele instante, que o verdadeiro cárcere não era a masmorra.
Era a atenção daquele homem.
— Está bem — disse, por fim. — Aceitarei o acordo…
mas não o tornarei fácil.
Minha voz escorreu como veneno entre as palavras. Ergui o rosto lentamente,
encarando-o sem piscar. Meus olhos brilharam em um verde neon antinatural, a
magia pressionando por liberdade sob a pele.
— Temos um acordo?
Por um instante, o sorriso dele vacilou.
Não por medo.
Mas por reconhecimento.
Ele se aproximou o suficiente para que apenas eu pudesse ouvi-lo, ignorando os
guardas ao redor como se fossem irrelevantes.
— Aceito — respondeu. — Minha bela.
A palavra não soou como elogio.
Soou como desafio.
Inclinei a cabeça, um sorriso lento surgindo em meus lábios.
— Só para deixar claro — murmurei — eu não sou sua posse. Não sou seu feitiço
doméstico. E se tentar me controlar…
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O brilho em meus olhos se intensificou.
— …serei eu quem fará o inferno parecer misericordioso.
Ele sustentou meu olhar. Não recuou. Não desviou.
— Justo — disse apenas. — Eu não procuro obediência. Procuro sobrevivência.
Estendeu a mão.
Não como um cavaleiro.
Mas como alguém que sabia que, ao tocá-la, estava selando algo que não poderia
desfazer.
Olhei para aquela mão por um segundo a mais do que deveria.
Então aceitei.
No instante em que nossos dedos se tocaram, senti:
aquele acordo não salvaria nenhum de nós.
Mas nos condenaria juntos.
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