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Manejo Orgânico do Milho BRS 015FB

A Circular Técnica 221 descreve práticas de manejo e beneficiamento do milho BRS 015 Farináceo Branco para certificação orgânica, destacando sua importância na agricultura familiar e na produção de farinha de coloração branca. A cultivar possui características específicas que exigem cuidados na produção, como colheita no momento certo e práticas de adubação adequadas. O documento também aborda a necessidade de isolamento para preservar a qualidade das sementes e evitar contaminação por variedades transgênicas.
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Manejo Orgânico do Milho BRS 015FB

A Circular Técnica 221 descreve práticas de manejo e beneficiamento do milho BRS 015 Farináceo Branco para certificação orgânica, destacando sua importância na agricultura familiar e na produção de farinha de coloração branca. A cultivar possui características específicas que exigem cuidados na produção, como colheita no momento certo e práticas de adubação adequadas. O documento também aborda a necessidade de isolamento para preservar a qualidade das sementes e evitar contaminação por variedades transgênicas.
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ISSN 1516-8832

CIRCULAR TÉCNICA
BRS 015 Farináceo Branco’:
221 Práticas de Manejo e
Beneficiamento para Certificação
Orgânica de Grãos e Sementes

Eberson Diedrich Eicholz


Wellington Bonow Rediss
Gilberto A. Peripolli Bevilaqua
Irajá Ferreira Antunes
Tatiana Schiavon de Albuquerque,
Josuan Sturbelle Schiavon
Pelotas, RS
Setembro, 2021
2 Circular Técnica 221

BRS 015 Farináceo Branco: Práticas de manejo e beneficiamento


para certificação orgânica de grãos e sementes1
O milho, cujo nome originalmente significava sustento da vida, tem como centro de origem o México. Foi ali-
mento básico de várias civilizações antigas importantes que reverenciavam o cereal na arte e religião (Milho,
2019). É uma das culturas mais difundidas pelo mundo, devido a sua grande capacidade de adaptação às
diferentes condições ambientais e ao seu alto valor nutricional. Atualmente, é um dos grãos mais produzidos
no mundo, sendo o Brasil o terceiro maior produtor mundial (FAO, 2018).
No agronegócio brasileiro, é o segundo grão mais produzido e está relacionado às principais cadeias de
produção de animais, que consomem 52% da produção total. O consumo humano direto representa aproxi-
madamente 2%, e indústria 7%. (Abimilho, 2019).
Estão associadas à produção do milho a cultura e os sabores locais. Em cada região do País, encontram-
se diferentes pratos típicos representando a diversidade étnica dos povos, festas culturais e conhecimento
de agricultores que, milenarmente, conservam variedades adequadas aos diferentes propósitos de uso. Em
razão dessa multifuncionalidade da cultura do milho, há agricultores que afirmam: “tendo milho em uma pro-
priedade, se tem tudo”.
É uma das culturas mais importantes para agricultura familiar, sendo produzido em quase todas as proprieda-
des. No mercado, a agricultura familiar é responsável por 70% dos alimentos que chegam às mesas no País,
representando 46% da produção da cultura do milho (Portal Brasil, 2017). É a principal fonte de energia na
criação de animais, possuindo multiplicidade de maneiras de ser utilizada, inclusive na alimentação humana,
confecção de utensílios e artesanatos, produção de energia calorífica através da queima de subprodutos, e
até o aproveitamento da palha em artesanato, cama de estábulos e compostagem.
Agregada a essas características, a produção orgânica de variedades para fins específicos, como farinha
para uso na alimentação humana, atende uma demanda crescente de pessoas que buscam uma alimentação
mais saudável ou com restrição à ingestão de glúten.
A cultivar de milho ‘BRS 015 Farináceo Branco’ possui características especificas nos grãos, como coloração
branca e textura farinácea. São necessários cuidados especiais na produção do grão para a manutenção des-
sas características, como, por exemplo, colher tão logo atingir maturidade fisiológica e secar imediatamente
sob secagem de fogo indireto ou ar forçado.
O objetivo do presente trabalho é descrever práticas ecológicas de manejo que permitam produção satisfató-
ria de grãos com fins de certificação orgânica

ORIGEM E CARACTERÍSTICAS DA VARIEDADE


A cultivar de milho BRS 015 Farináceo Branco (BRS 015FB) é oriunda de acesso coletado em São José do
Norte, ainda na década de 1990. Da população original, denominada Branco Açorianos, na Embrapa Clima
Temperado, entre 2003 e 2008, foram selecionadas mais de 100 progênies que, combinadas, deram origem
à variedade.
A população original provém de descendentes de açorianos instalados no Litoral Sul do Rio Grande do Sul
e que mantiveram o hábito de consumir diversos pratos cuja base era uma variedade de milho de grãos
brancos e constituição farinácea. Além disso, a região formada pela estreita faixa litorânea entre São José do
Norte e Tavares possibilitou o isolamento natural para que a variedade mantivesse suas características mais
marcantes.

1
Eberson Diedrich Eicholz, Engenheiro-agrônomo, doutor em Sistemas de Produção Agrícola Familiar, pesquisador da Embrapa Clima Temperado,
Pelotas, RS. Wellington Bonow Rediss, Acadêmico de Agronomia, bolsista FAPERGS Embrapa Clima Temperado, Pelotas, RS. Gilberto A. Peripolli
Bevilaqua, Engenheiro-agrônomo, doutor, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Pelotas, RS. Irajá Ferreira Antunes, Engenheiro-agrônomo,
doutor, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Pelotas, RS. Tatiana Schiavon de Albuquerque, Engenheira-agrônoma, Mestranda no Programa em
Sistemas de Produção Agrícola Familiar, UFPel, Técnica da Cooperativa Cooperfumos do Brasil Ltda, Encruzilhada do Sul, RS. Josuan Sturbelle Schia-
von, Engenheiro-agrônomo, mestre e doutorando em Sistemas de Produção Agrícola Familiar, Ufpel, responsável técnico da Cooperativa Cooperfumos
do Brasil Ltda., Encruzilhada do Sul, RS.
BRS 015 Farináceo Branco’: Práticas de Manejo e Beneficiamento para Certificação Orgânica de 3
Grãos e Sementes

As condições ambientais da região, com ventos fortes e ausência de barreiras físicas para amenizá-los, bem
com solos rasos e arenosos, foram fatores determinantes na seleção natural, da qual resultaram plantas bai-
xas, com baixa inserção de espigas, sadias e com bom sistema radicular.
A cultivar BRS 015FB, de grãos brancos e amiláceos, apresenta alto rendimento de moinho. Mesmo na forma
integral, sua farinha apresenta coloração branca, similar à farinha de trigo, sendo diferente das farinhas de mi-
lho tradicionais (Figura 1). Essa característica torna os pães de milho de cor mais branca, o que normalmente
apresenta maior aceitabilidade junto aos consumidores.

Foto: Eberson Eicholz


Figura 1. Grãos (A, B) e farinha (C) da cultivar BRS 015 Farináceo Branco. Pelotas, 2020.

Conforme a Tabela 1, verifica-se que a altura média de plantas é de 2,2 metros, sendo a cultivar considerada
de porte baixo. A inserção de espigas (1,1 metros) também é baixa, sendo essas, geralmente, bem empalha-
das e sadias (Figura 2).
A cultivar possui bom sistema radicular, o que resulta em poucas plantas acamadas. O caule é fino, recomen-
dando-se a colheita assim que for possível a debulha dos grãos. Períodos prolongados no campo resultam
em grande quantidade de plantas quebradas, o que, em períodos chuvosos, pode levar ao amarelamento do
pericarpo do grão.
O pendoamento ocorre, dependendo da safra e da época de semeadura, de 62 a 72 dias após a emergência,
sendo considerada uma variedade de ciclo precoce.
Tabela 1. Médias de altura de plantas, inserção da espiga, florescimento de plantas de milho e médias de produtividade
em kg ha-1, em sistema orgânico de produção na Estação Experimental da Cascata, nas safras 2016/2017 e 2020/2021.
Embrapa Clima Temperado, Pelotas/RS, 2021.
Altura (m) Florescimento Produtividade
Variedade
Planta Espiga Masculino Feminino (kg ha-1)

Safra 2016/2017
BRS Missões 2,4 1,3 64 64 5521 ns
BRS Planalto 2,6 1,3 64 64 5295
BRS 015FB 2,3 1,2 62 63 4141
Safra 2020/2021
BRS Caimbé 2,2 0,9 78 86 5800 ns
BRS Planalto 2,2 1,0 73 75 6794
BRS 015FB 2,0 0,9 72 75 5632
CV (%): para produtividade na safra 2016/2017 de 12,3; e para safra 2021 de 8,6.
* ns: não significativo pelo teste de Duncan (p ≤0,05).
4 Circular Técnica 221

A produtividade da cultivar BRS 015FB não diferiu estatisticamente das cultivares BRS Missões e Planalto.
Salienta-se, no entanto, que o foco da cultivar é para a produção de farinha de coloração branca e de granu-
lometria mais fina, o que deverá agregar valor ao produto final. Trabalhos realizados por Coelho et al. (2018)
demonstram que a massa específica aparente da cultivar BRS 015FB foi de 690 kg m-³, ao passo que de
uma variedade de milho dentada esse valor chega a ser de 793 kg m-³. Essa diferença de massa específica
poderia justificar uma redução de produtividade de aproximadamente 13%, porém no peso de mil sementes
essa diferença foi de 25% (363 g e 405 g, respectivamente).
Foto: Eberson Eicholz

Figura 2. Plantas (A) e espiga (B) do milho BRS 015 Farináceo Branco em sistema orgânico de produção na Estação
Experimental Cascata, 2020.

PRÁTICAS DE MANEJO RECOMENDADAS PARA A PRODUÇÃO


ORGÂNICA DE SEMENTES/GRÃOS DE MILHO

Práticas de manejo na implantação da lavoura

Época de semeadura
A época de semeadura varia entre as diferentes regiões edafoclimáticas do RS, devendo ser realizada no
período preferencial para a cultura (Zarc, 2021), de forma que o florescimento e enchimento de grãos não
coincidam com o período de falta de chuva. Outro cuidado refere-se aos riscos de temperaturas baixas e de
geada no início ou no fim da estação de crescimento (Eicholz; Aires, 2019).
Quando o fator disponibilidade hídrica não é limitante, a melhor época de semeadura é aquela que faz coinci-
dir o florescimento e o início do subperíodo de formação e enchimento de grãos (planta com maior área foliar)
com os meses de mais elevada temperatura do ar e radiação solar.
BRS 015 Farináceo Branco’: Práticas de Manejo e Beneficiamento para Certificação Orgânica de 5
Grãos e Sementes

Densidade de plantas
A população de plantas por hectare recomendada para a variedade é de 55 mil plantas, com distância entre
linhas variando entre 0,6 m a 0,9 m e, três a cinco plantas por metro linear.
Estande de plantas inadequado é uma das causas responsáveis pela baixa produtividade em milho, o que
geralmente ocorre pelo desconhecimento das taxas de germinação das sementes, ou por não se considerar
a regulagem da semeadora, além das condições edafoclimáticas locais e do manejo da lavoura.
A quantidade de semente por hectare depende, basicamente, do tamanho da semente (peneira) e do poder
germinativo da semente. Para calcular a quantidade, em peso, de sementes por hectare, o produtor precisa
saber o poder germinativo e o peso de mil grãos, calculado pela seguinte expressão:
Quantidade de semente (kg ha-1) = número de sementes por m²x peso de mil sementes
porcentagem de germinação das sementes

Profundidade de semeadura

A profundidade de semeadura varia de 5 cm a 8 cm, dependendo da umidade, do tipo de solo e da tempera-


tura. Com temperaturas mais baixas e com boa umidade do solo, além de solos mais pesados, a semeadura
deverá ser menos profunda (Silva et al., 2005). Com pouca umidade e temperaturas mais altas, a semeadura
deve ser mais profunda. O fato de a semente ser colocada em profundidades diferentes não interfere na pro-
fundidade do sistema radicular definitivo.

Práticas de manejo na adubação e tratos culturais

Adubação da cultura
Para produção de sementes em quantidade e qualidade adequadas, a adubação é prática indispensável
(Andrade; Borba, 1993). O milho é altamente exigente em nutrientes e geralmente responde a altas aduba-
ções. Dentre os nutrientes, o mais responsivo é o nitrogênio.
O uso de pós de rochas e de estercos de animais, principalmente de aves e suínos, tem refletido em bons
resultados para fornecimento de nutrientes. Os estercos poderão estar disponíveis na propriedade ou adquiri-
dos no mercado de forma granulada ou moída. Mas a adubação com esses insumos deve ser acompanhada
de outras técnicas e práticas para fornecimento de nitrogênio, principalmente, e para auxiliar na redução de
pragas, doenças e plantas invasoras, como as adubações verdes.
A adubação verde, além de fornecer nutrientes, devido à fixação ou reciclagem, traz outros benefícios, como a
quebra do ciclo de pragas e doenças, e a diminuição da infestação da área por plantas invasoras. A alternân-
cia no padrão de extração e ciclagem de nutrientes, com o uso de espécies de adubação verde com diferentes
sistemas radiculares, também colabora para a melhoria da qualidade do solo.
A adubação verde com gramíneas, como a aveia preta, fornece uma boa cobertura ao solo para o plantio di-
reto de milho, mas devido à sua maior relação carbono / nitrogênio (C/N), faz com que os organismos do solo
imobilizem o nitrogênio, ocorrendo liberação mais lenta, o que pode prejudicar o desenvolvimento do milho.
Já as espécies da família das leguminosas têm capacidade de fixar nitrogênio atmosférico, elevando a dispo-
nibilidade desse nutriente no solo, o que torna essas plantas adequadas para anteceder a cultura do milho.
Porém, as plantas leguminosas tem uma relação C/N baixa, o que resulta em uma rápida decomposição e
disponibilização do nitrogênio; com isso, recomenda-se que a semeadura do milho ocorra no máximo uma se-
mana após o manejo da espécie leguminosa. Apesar de positivo, a rápida decomposição pode ser um proble-
ma, pois o solo poderá ficar descoberto mais rapidamente e, assim, plantas espontâneas seriam favorecidas.
Outra espécie interessante para a adubação verde antecedendo a cultura do milho é o nabo forrageiro
(Raphanus sativus L.), da família das Crucíferas; apesar de não fixar N, é importante, pois suas raízes des-
compactam o solo na rotação de culturas. O nabo tem elevada capacidade de reciclagem de nutrientes, prin-
cipalmente nitrogênio e fósforo.nÉ uma espécie tolerante à seca e à geada, sendo uma opção de cultivo para
6 Circular Técnica 221

o período de outono/inverno. Desenvolve-se bem em solos de baixa fertilidade, com problemas de acidez, e é
bastante resistente a doenças e pragas, não exigindo muito preparo do solo para seu cultivo (Jandine, 2021).
Quando possível, sempre se deve optar por fazer mistura de adubos verdes de inverno, como aveia, nabo
forrageiro e ervilhaca, o que permite agregar características diferentes, potencializando o sucesso da cultura
subsequente, nesse caso o milho.

Isolamento e qualidade das sementes/grãos


A cultivar BRS 015FB tem características distintas, como a cor e a textura dos grãos que, para serem preser-
vadas, as áreas precisam estar isoladas de outras lavouras de milho. Essa preocupação também é importante
na produção certificada orgânica, pois a contaminação por variedades transgênicas pode levar ao descarte
do lote.
A fase de pendoamento do BRS 015FB não pode coincidir com a emissão da boneca (espiga) de outra lavou-
ra de milho próxima (Nicoli et al., 1993), para evitar cruzamento entre populações diferentes. Mais informa-
ções podem ser acessadas em Eicholz et al. (2017).
Caso ocorra a contaminação, já no primeiro ano serão verificadas variações nos grãos, podendo ser na co-
loração ou na textura do endosperma. Esse fenômeno é conhecido como xênia, que é considerado como o
resultado do cruzamento que se manifesta na geração da planta mãe. O efeito de xênia tem sido observado
em vários caracteres como: tamanho, formato, cor, tempo de desenvolvimento de sementes (Denney, 1992).

Práticas de manejo de insetos, doenças e plantas espontâneas.


Práticas de manejo que reduzam a ocorrência a campo de insetos e doenças são fundamentais para a pro-
dução de grãos para a alimentação e para aqualidade das sementes produzidas.
No cultivo orgânico as práticas de controle se tornam mais difíceis, devendo-se evitar a introdução, o estabe-
lecimento e a disseminação de insetos, doenças e plantas espontâneas.
Em muitas situações, o emprego das práticas culturais recomendadas para o cultivo do milho já é suficiente
para evitar a ocorrência de insetos e doenças, além de reduzir o banco de sementes das plantas invasoras.

Sementes sadias
O uso de sementes de milho de boa procedência, com qualidade principalmente sanitária, propiciará melhor
estabelecimento inicial da lavoura (germinação e vigor), além de evitar a introdução de patógenos e plantas
espontâneas na área de cultivo.
Cabe lembrar que alguns patógenos do milho utilizam as sementes como meio de sobrevivência e mecanis-
mo de disseminação, podendo ser introduzidos em novas lavouras, causando redução de estande, tomba-
mento de plântulas, podridão de raízes e/ou da base do colmo (Nunes; Canale, 2020).

Seleção da área e rotação de culturas


Na seleção da área, deve-se sempre se considerar a fertilidade e facilidade de drenagem. De igual importân-
cia, deve ser isenta de grandes infestações de plantas espontâneas, de difícil controle como, por exemplo, a
grama seda (Cynodondactylon L.) e de pragas e doenças que ocasionam perdas em quantidade e qualidade
dos grãos e sementes.
Evitar áreas já cultivadas com milho nos últimos dois anos. A rotação de culturas é importantíssima, devido
a doenças que podem prejudicar a qualidade fisiológica e genética da variedade (Silva et al., 2005). A soja,
girassol e feijão são as principais culturas econômicas indicadas para integrar o sistema de rotação no verão.
Outra prática importante é a eliminação de plantas voluntárias e de hospedeiros secundários, o que contribui
para reduzir a chance de sobrevivência dos patógenos e, consequentemente, redução da fonte de inóculo
primário (Nunes; Canale, 2020).
BRS 015 Farináceo Branco’: Práticas de Manejo e Beneficiamento para Certificação Orgânica de 7
Grãos e Sementes

Práticas de manejo de insetos na lavoura


Insetos e outros organismos associados às lavouras de milho devem ser manejados para evitar que atinjam
níveis capazes de causar danos. A preservação do controle biológico natural (inimigos naturais das pragas)
e o emprego de práticas que favoreçam as plantas e desfavoreçam os insetos devem ser uma preocupação
permanente.
Nas fases iniciais de estabelecimento do milho, a lagarta-rosca pode causar redução de estande, o que pode
ser minimizado pela eliminação de hospedeiros da área antes da semeadura.
Para alguns insetos prejudiciais ao milho, existem alternativas ao controle químico, como é o caso do controle
biológico de Spodoptera frugiperda com parasitoides de ovos do gênero Trichogramma e do entomopatógeno
Baculovirus spodoptera. Para outras, como os corós, práticas culturais específicas podem ser usadas com
sucesso para o manejo e a minimização de seus danos (Ribeiro; Rosa, 2020).

Práticas de manejo das plantas espontâneas em milho


No caso das plantas espontâneas, o período mais crítico é dos 15 aos 50 dias após emergência do milho. A
partir daí, o próprio crescimento da cultura contribuirá para reduzir as condições favoráveis à germinação e ao
crescimento das plantas espontâneas (Andres; Tironi, 2020).
No sistema orgânico, o controle físico das plantas espontâneas é o principal método, que pode ser realizado
manualmente (capina manual) ou com o auxílio de outros implementos (cultivadores tratorizados). Consiste
em arrancar ou cortar as plantas daninhas com o uso de equipamentos como enxada, arado, grade, etc.
A questão é a alta demanda de mão de obra na capina manual, o rendimento da operação é da ordem de 8
(oito) dias-homem por hectare. Geralmente, são necessárias duas a três capinasmdurante os primeiros 40 a
50 dias de ciclo da cultura. O rendimento da capina tratorizada é de, aproximadamente, 0,5 a 1 dia-homem
por hectare, e quando a tração for animal, de 1,5 a 2 dia-homem por hectare (Andres; Tironi, 2020).
A capina não deve ser realizada em solos úmidos, porque pode não ser eficiente, portanto é recomendado
que seja feita em dias quentes e secos. Deve-se ter cuidado para não causar danos às plantas de milho.
Quando utilizar máquinas, realizar a atividade superficialmente, aprofundando a enxada apenas o suficiente
para arrancar ou cortar as plantas invasoras.
No sistema de semeadura direta ocorre uma série de benefícios, como a manutenção da cobertura vegetal
sobre o solo, o que dificulta a emergência de plantas concorrentes em comparação ao solo descoberto ou
ao pousio. A utilização de culturas de cobertura aproveita tanto os efeitos físicos quanto os químicos (alelo-
páticos) dessas espécies. A dificuldade ocorre pela impossibilidade de revolver o solo, o que desfavorece a
eliminação das plantas concorrentes por meio de operações manuais de capina.
Uma técnica que poderá auxiliar e reduzir operações de capinas manuais no controle de plantas espontâneas
é a semeadura de leguminosas como crotalária (Crotalaria spectabilis), feijão-miúdo (Vignia unguiculata) e
feijão-de-porco (Canavalia ensiformis) no momento da primeira capina. São espécies leguminosas compa-
nheiras do milho, que fixam nitrogênio. Outra grande vantagem é a formação de uma palhada no mesmo ciclo
da cultura. Orienta-se evitar semeaduras de espécies de crescimento agressivo, como mucunas ou espécies
altas como a Crotalaria juncea, pois as mesmas podem dificultar a colheita do milho.

CUIDADOS ADICIONAIS PARA PRODUÇÃO DE SEMENTES


A BRS 015 Farináceo Branco é uma cultivar de polinização aberta, sendo possível a multiplicação própria de
sementes, não necessitando recorrer ao mercado todas as safras. Alguns cuidados devem ser tomados na
produção, para garantir a qualidade física (impurezas); sanitária (doenças e pragas); fisiológica (germinação
e vigor) e genética (identidade conhecida e sem contaminação com outras variedades) (Peske et al., 2003).
A produção de sementes não pode ser confundida com produção de grãos, por isso algumas práticas e
processos devem ser seguidos pelos agricultores como estratégia para a preservação das características
8 Circular Técnica 221

genéticas da cultivar. “Semente se faz no campo” e são as práticas realizadas na lavoura o diferencial entre
grãos e semente.
Para manutenção da variedade e produção de sementes de milho, em razão de ser uma espécie alógama (fe-
cundação cruzada), exige cuidados adicionais, a fim de se evitar perdas da identidade genética da variedade.
O primeiro passo para a semeadura é realizar a limpeza prévia e completa da semeadora, evitando mistura
com outras variedades. Da mesma forma, o isolamento da área de produção de sementes é um fator decisivo
para a obtenção de sementes de milho com pureza genética.
Deve-se sempre descartar as plantas das bordas da lavoura e próximas de uma possível fonte de contami-
nação genética, quando existir. Além disso, deve-se eliminar todas as plantas atípicas na área de produção
de sementes.
Plantas doentes, mais altas, quebradas ou acamadas também devem ser eliminadas ou despendoadas para
evitar que o pólen contamine plantas no campo de produção de sementes.
O ideal é percorrer a área pelo menos três vezes durante a safra, sendo a primeira na fase vegetativa, a
segunda no florescimento e a última na pré-colheita. Quanto maior o número de vistorias na lavoura para
eliminação de plantas atípicas e doentes, maior será a eficiência do processo.

COLHEITA
A colheita é uma das operações que merece atenção especial para manter a qualidade dos grãos para farinha
e para produção de sementes. A época de colheita ou as operações mal realizadas podem comprometer todo
trabalho anterior na lavoura.
É necessário o planejamento prévio da mão de obra para colheita, bem como as providências quanto à lim-
peza do galpão, dos terreiros, das sacarias e dos equipamentos que serão utilizados.
A colheita da cultivar BRS 015 Farináceo Branco deve ser o mais breve possível após a maturação fisiológi-
ca, que ocorre próximo a 35% de umidade. Como a umidade das sementes nessa fase ainda é muito alta, o
agricultor deve secar as espigas até que atinja o ponto para debulha manual ou mecânica (Nicoli et al., 1993;
Silva et al., 2005).
A colheita e debulha mecanizada deve ocorrer com a umidade entre 18% a 22% para evitar perdas por amas-
samento ou quebra de grãos. Deve-se realizar a secagem imediatamente após essa etapa, com temperatura
máxima de 40 ºC, até atingir a umidade de 13% para não perder quantidade e nem qualidade física e nutri-
cional dos grãos.
Um aspecto importante a considerar nessa fase é a regulagem da colhedora para prevenir ou minimizar injúria
mecânica no grão e obter melhor limpeza possível (um grão intacto é mais resistente à penetração por fungos
do que um grão que tenha sido quebrado ou rachado).
Pode-se seguir as orientações de Nicoli et al. (1993) e Silva et al. (2005) sobre o ponto de colheita, que é
determinado visualmente pelo aparecimento da camada negra (ou ponta preta) na parte que liga o grão ao sa-
bugo (Figura 3), sendo essa a fase em que as sementes apresentam a máxima qualidade fisiológica, embora
o grau de umidade seja ainda elevado. Quanto mais próximo da maturação fisiológica for realizada a colheita,
maior a germinação, vigor e peso seco das sementes (Peske et al., 2003).
BRS 015 Farináceo Branco’: Práticas de Manejo e Beneficiamento para Certificação Orgânica de 9
Grãos e Sementes

Foto: Eberson Eicholz


Figura 3. Ponta preta nos grãos de milho BRS 015 Farináceo Branco, indicando a maturação fisiológica.

A partir da maturação fisiológica, as sementes perdem água, o que pode aumentar o ataque de fungos e
insetos, perdendo qualidade. Desse estágio em diante,o melhor é colhê-las e guardá-las no paiol (Peske et
al., 2003).

SECAGEM E BENEFICIAMENTO DE SEMENTES


A secagem é uma das fases mais importantes após a colheita e deve ser realizada de imediatamente após
a debulha. Independentemente do método a ser utilizado, as sementes devem ficar com 13% de umidade
e nesse procedimento a temperatura da massa do grão não deve ultrapassar os 40°C. Reduzir a umidade
das sementes é importante para diminuir a atividade fisiológica das mesmas e o consumo de suas reservas,
mantendo assim as sementes viáveis por um tempo maior.
O beneficiamento das sementes é uma prática que não melhora a qualidade das sementes, o objetivo é real-
çar a qualidade da semente obtida do início do processo de produção até a comercialização.
Nesse, processo pretende-se retirar todas as impurezas, grãos fora de padrão, como os redondos, que difi-
cultam a uniformidade da semeadura, bem como retirada de grãos quebrados, ardidos e doentes, em equipa-
mento de ar e peneiras. Em algumas situações, é realizada a separação das sementes com melhor qualidade
e granação em mesa gravitacional.
Todo esse processo deve ser realizado a fim de causar o menor dano possível às sementes para não compro-
meter a qualidade fisiológica, por trincamento ou quebras. Geralmente, os elevadores ou equipamentos mal
regulados são as principais fontes de injúrias.
O beneficiamento melhora os atributos de qualidade do lote e proporciona plantabilidade através da padroni-
zação. A separação por tamanho através das peneiras é importante para facilitar a semeadura, independente
do nível tecnológico que o agricultor utilize. Os diferentes tamanhos das sementes não têm efeito sobre o
potencial de desenvolvimento da cultivar.

ARMAZENAMENTO DAS SEMENTES


O armazenamento é o período entre a colheita e o plantio, durante o qual existe a necessidade de manter a
qualidade fisiológica da semente ou a qualidade nutricional do grão.
O armazenamento pode ocorrer a granel ou ensacado sob diferentes embalagens, que poderão ser permeá-
veis: plástico trançado, algodão (juta ou estopa), papel, madeira, ou impermeáveis: lata, PET, vidro e plástico
com espessura superior a 200 micras.
10 Circular Técnica 221

A escolha do tipo de embalagem é diretamente relacionada às condições ambientais e ao período de arma-


zenamento. No caso de utilização de embalagem impermeável a umidade da semente deve ser inferior a
12%, garantindo que o recipiente esteja totalmente fechado com tampa de rosca, o que permite um período
de armazenamento por até 2 anos.
Adicionalmente ao armazenamento seguro, podem ser utilizados tratamentos para reduzir ou prevenir perdas
por insetos praga e fungos com utilização da terra de diatomáceas. Esse produto, composto de esqueletos
silicatados e carbonáceos de algas marítimas, é encontrado comercialmente e é indicado no armazenamento
de grãos e sementes. O produto, além de inócuo ao homem e outros animais, pode ser reaproveitado por
mais de uma safra após ser submetido ao processo de secagem e peneiramento (Bevilaqua et al, 2013).
Algumas observações são importantes para melhorar o potencial de armazenamento das sementes, por
exemplo, a temperatura e teor de umidade, são os mais importantes para conservar as sementes. Nesse
sentido, locais frios e secos são os mais apropriados.
Para evitar ou minimizar as perdas por insetos e fungos no armazenamento, deve-se ter cuidado desde a
colheita, transferência, secagem e armazenamento. Os melhores resultados no controle dos insetos de grãos
armazenados são obtidos quando é feito o manejo integrado, baseando-se no uso conjunto de medidas de
controle, como a higienização e limpeza de silos, depósitos e equipamentos, evitando o desenvolvimento de
insetos na massa de grãos pelo manejo preventivo (limpar instalações, evitar mistura de lotes).
A limpeza das instalações de armazenagem é fundamental antes de receber novos lotes de grãos, com a
eliminação de focos de infestação mediante a retirada, queima ou expurgo dos resíduos do armazenamento
anterior, bem como evitar a mistura de lotes de grãos não infestados com outros já infestados, dentro do silo
ou armazém.
A utilização de parasitoides nos armazéns para controle de pragas secundárias, especialmente lepidópteros,
pode ser feita com o uso de Trichograma pretiosum e Habrobra conhebetor.
Como a variedade é de polinização aberta, permite a produção de sementes na propriedade, não neces-
sitando a compra todos os anos. Para mais informações, indica-se a publicação Produção de Sementes e
Conservação de Variedades de Milho de Polinização Aberta e Crioulos, disponível em [Link]
[Link]/infoteca/handle/doc/1084529.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A produção de grãos e sementes de milho em sistema orgânico é uma construção aliando tecnologias dos
agricultores com os conhecimentos da pesquisa. Nesta publicação, constam práticas orientadoras que possi-
bilitam a produção de forma rentável do milho BRS 15FB no Rio Grande do Sul.
A cultivar BRS 015 Farináceo Branco é indicada para o cultivo de base ecológica e, utilizando um conjunto de
práticas de manejo da lavoura, de adubação e de controle de pragas e doenças, é possível obter rendimentos
de grãos superiores a 5 t ha-1.
BRS 015 Farináceo Branco’: Práticas de Manejo e Beneficiamento para Certificação Orgânica de 11
Grãos e Sementes

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Embrapa Clima Temperado Comitê Local de Publicações
BR 392, Km 78, Caixa Postal 403
Presidente
Pelotas, RS - CEP 96010-971
Fone: (53) 3275-8100 Luis Antônio Suíta de Castro
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1ª edição
Obra digitalizada (2021) Secretária-Executiva
Bárbara Chevallier Cosenza
Membros
Ana Luiza Barragana Viegas, Fernando
Jackson, Marilaine Schaun Pelufê,
Sonia Desimon
Revisão de texto
Bárbara Chevallier Cosenza
Normalização bibliográfica
Graciela Oliveira
Editoração eletrônica
Fernando Jackson
Foto da capa
Josuan Schiavon

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