Tem um
momento
específico do dia
— geralmente
tarde da noite —
em que a mente
resolve abrir
todas as abas
ao mesmo
tempo.
Nenhuma delas
resolve nada,
mas todas
fazem barulho.
É quando o
corpo tá
cansado, mas o
cérebro entra
em modo
caótico, tipo
servidor sem
moderação.
Você deita pra
dormir e, do
nada, começa a
lembrar de tudo:
decisões
erradas, coisas
que não disse,
coisas que disse
demais, versões
suas que não
existem mais e
versões que
talvez nunca
existam.
O silêncio da
noite não é
silencioso de
verdade. Ele só
tira as
distrações. E aí
sobra você. E
você,
convenhamos,
às vezes é
complicado de
aturar.
A gente cresce
ouvindo que “vai
dar tudo certo”.
Mentira
confortável. Não
dá tudo certo.
Algumas coisas
dão errado e
ficam erradas
pra sempre.
Outras dão
errado e viram
história. Outras
só ficam
estranhas, mal
resolvidas,
jogadas num
canto da
memória
esperando um
gatilho aleatório
pra voltar. O
problema é que
a cabeça adora
revisitar ruínas
como se ainda
desse pra
reconstruir tudo
igual. Não dá.
E isso dói,
porque aceitar o
irreversível é
uma das coisas
mais difíceis de
ser humano. A
gente quer
botão de voltar,
save anterior,
segunda chance
limpa. Mas a
vida é jogo sem
checkpoint
visível. Você só
percebe onde
salvou quando
já morreu por
dentro umas três
vezes.
Tem gente que
vira dura, fria,
distante, não
porque quer,
mas porque
cansou de sentir
tudo em volume
máximo.
Sensibilidade
não é fraqueza,
mas sem
controle ela vira
sobrecarga. Aí a
pessoa se
fecha, constrói
uma armadura
emocional
improvisada e
finge que não
liga. Spoiler: liga
sim. Só
aprendeu a
esconder
melhor.
E o mais cruel é
que ninguém
ensina a lidar
com emoções.
Te ensinam
matemática (mal
ou bem), regras
sociais, como se
comportar. Mas
ninguém te
explica como
lidar com raiva
sem virar
alguém que
você odeia.
Como lidar com
tristeza sem se
afogar nela.
Como lidar com
culpa sem se
autodestruir.
Você aprende
apanhando da
vida mesmo.
Às vezes você
sente uma
vontade absurda
de sumir. Não
morrer, só
desaparecer.
Pausar a
existência. Ficar
invisível tempo
suficiente pra
respirar sem
expectativa
alheia. Porque
expectativa
pesa.
Expectativa dos
outros e,
principalmente,
a sua. Você vira
juiz de si
mesmo, e o
julgamento
nunca acaba em
absolvição.
O tempo passa
estranho.
Quando você é
criança, um ano
é uma
eternidade.
Quando cresce,
os anos
começam a
correr como se
alguém tivesse
apertado fast
forward. E você
fica pensando:
“mano, quando
foi que isso tudo
aconteceu?”.
Spoiler dois:
ninguém
percebe. Um dia
você só acorda
diferente.
Tem dias que
você sente que
tem potencial
pra algo grande,
mas não sabe
pra quê. Energia
acumulada sem
direção vira
frustração.
Ideias sem
execução viram
peso. Sonhos
sem plano viram
cobrança
interna. E aí
você começa a
se chamar de
preguiçoso,
incapaz, burro
— quando na
real você só tá
perdido. E estar
perdido não é
defeito, é fase.
Só que fase
longa cansa.
E mesmo
assim… mesmo
com tudo isso…
você continua.
Não por
heroísmo, nem
por motivação
bonita. Você
continua porque
parar dá mais
trabalho. Porque
ainda tem
curiosidade.
Porque ainda
tem coisa que
você não viveu,
gente que você
não conheceu,
versões suas
que não
apareceram
ainda. Viver às
vezes é só isso:
curiosidade
teimosa.
No fim das
contas, ninguém
tá
completamente
quebrado. Tem
rachaduras, sim.
Mas rachadura
também é por
onde entra luz
— frase clichê,
eu sei, mas
clichés só
existem porque
funcionam às
vezes.
Esse texto não
resolve nada.
Não ensina
nada. Não fecha
com moral. Ele
só existe. Como
a maioria dos
pensamentos
que passam
pela cabeça
quando o mundo
desacelera.
E talvez seja
isso: existir sem
explicação, sem
finalidade clara,
sem roteiro
definido. Só
continuar
andando,
mesmo
cansado,
mesmo confuso,
mesmo sem
saber se tá indo
pro lugar certo.
Porque,
sinceramente?
Ninguém sabe.
E quem finge
que sabe tá tão
perdido quanto
você — só
disfarça melhor.
Fim.
Ou não.