Lero-lero final
No teatro das coisas miúdas, a lógica tirou férias e deixou um bilhete
escrito com caligrafia de vento: “Volto depois do almoço.” As cadeiras
da sala, ofendidas por terem sido chamadas de móveis, organizaram
uma assembleia e decidiram que, a partir de agora, só aceitariam
convidados com boas intenções e chapéus coloridos. Um relógio, que
aprendeu a contar histórias em vez de horas, passou a marcar
encontros e desencontros; quando alguém chegava atrasado, ele
piscava duas vezes e oferecia um café imaginário.
Há um guarda-chuva que prefere ser vela e acende-se em dias de sol
para iluminar pensamentos preguiçosos. As plantas de plástico do
corredor, cansadas de fingir, começaram a trocar confidências com as
lâmpadas: “Você me ilumina, eu te finjo sombra”, disseram, e riram
com o som de quem não precisa ser levado a sério. Um sapato
solitário, que sempre quis ser navio, fez amizade com uma meia
aventureira e juntos fundaram uma companhia de viagens sem
destino; os passageiros pagam com suspiros e recebem mapas
rabiscados por crianças invisíveis.
No mercado das ideias, vendem-se promessas em promoção: leve
três, ganhe uma dúvida de brinde. O vendedor, especialista em
improvisos, embrulha soluções em papel de seda e escreve instruções
que começam com “talvez” e terminam em “quando der”. As nuvens,
que estudaram teatro, ensaiam monólogos e descem para a cidade
em busca de plateia; os prédios, tímidos, aplaudem com janelas que
piscam como olhos curiosos. Um gato com diploma em filosofia recita
poemas para latas de lixo, que respondem com ecos metálicos e um
leve balanço de orgulho.
As palavras, cansadas de obedecer, resolveram brincar de esconde-
esconde: algumas se escondem no final das frases, outras se
disfarçam de silêncio. Um espelho, entediado de refletir sempre o
mesmo rosto, inventa reflexos alternativos e devolve às pessoas
versões que sorriem diferente; quem se olha pela manhã encontra um
amigo novo e sai de casa com a sensação de ter esquecido um
segredo bom. O vento, distraído, recolhe bilhetes soltos e os
transforma em pipa; as pipas, agradecidas, sobem para contar
segredos aos aviões.
No parque das coincidências, os bancos trocam histórias sobre quem
sentou neles e combinam encontros às três e quinze, horário em que
o sol passa para tomar um café rápido. Um telefone antigo toca
melodias que cheiram a infância e, quando atendido, responde com
conselhos práticos sobre como dobrar o tempo sem amassar os
minutos. As horas, sociáveis, convidam os minutos para dançar e
esquecem de avisar os segundos, que chegam atrasados e pedem
desculpas com gestos exagerados.
E assim segue o desfile de bobagens bem-vestidas: cada pensamento
veste fantasia e desfila sem pressa, celebrando a liberdade de não
fazer sentido. Há beleza no absurdo bem arrumado, poesia na
bagunça que se ajeita sozinha e música no silêncio que insiste em ser
ouvido. No fim, quando as palavras cansarem, elas se deitam em fila
indiana e cochicham umas às outras: amanhã a gente recomeça, com
mais cores, menos lógica e a mesma vontade de brincar.