Acordei na manhã seguinte e olhei para o relógio na cabeceira da cama.
Ele
marcava seis horas em ponto. Fiquei olhando fixamente para o teto sem saber
o que esperar do primeiro dia de volta das férias de verão. Agora eu estava no
terceiro ano e as matérias consequentemente seriam mais difíceis. Eu teria que
dividir meu tempo entre meus estudos e o meu trabalho no restaurante. Mas
não era isso o que mais me preocupava... Eu vinha tendo pesadelos estranhos
com um garoto. Ele simplesmente caminhava por uma rua escura, a rua me
parecia familiar, mas eu não conseguia identifica-la pois seus postes de luz
piscavam a todo o momento, eu não sabia quem era o garoto, pois o avistava
apenas pelas costas. Ele não parecia saber que eu estava ali e jamais olhava
para trás. Eu tinha certeza de não conhece-lo e mesmo assim, por mais que
tentasse, não conseguia caminhar em outra direção ou fazer qualquer outra
coisa que não fosse segui-lo. Como se eu não tivesse controle de meus próprios
pés. Ele parecia seguro de si mesmo e parecia saber exatamente para onde ia,
não aparentava ter medo da rua escura por causa dos postes que piscavam a
todo o momento ou do frio e não parecia se importar com o fato de ser a única
pessoa caminhando por ali. O lugar era extremamente silencioso e o som de
seus passos reverbavam na escuridão. Em um certo ponto da rua, depois de
caminhar muito, o garoto diminuia seu ritmo e começava a caminhar mais
lentamente, como se fosse abordar algo, ou alguém, como se estivesse
hesitando, e nesse momento eu sempre acordava... Eu havia falado com Vict
sobre isso, e explicara a ela que depois do sonho se repetir pela terceira noite
consecutiva eu havia começado a me frustrar... Será que isso significaria algo?
É claro que Vict me ignorava totalmente e dizia que tudo era bobagem de
minha cabeça, e que meu único problema era o nervosismo de volta as aulas e
que minha imaginação era fértil demais. Depois de sonhar com a estranha
cena do menino andando atráves da rua pela quarta vez eu desisti de tentar
conversar com Vict sobre o assunto. Talvez fosse apenas bobagem, talvez fosse
melhor deixar para lá. Senti o celular vibrar embaixo de meu travesseiro e o
atendi no primeiro toque.
Bom dia querida, animada para o primeiro dia de aula? - Vict
perguntou com a voz empolgada demais para o meu ritmo lento da
manhã.
Com certeza...
Você não parece nada empolgada... - podia sentir o ar questionador e
autoritário em sua voz.
Ah, isso é porque recem acordei, pode ter certeza de que estou
louquinha para voltar à escola e encontrar as mesmas pessoas que
vejo desde que tinha 11 anos e que não se dirigem a mim para nada
além de me chamar de estranha. Você não faz ideia de como estou
feliz! - esperava que ela tivesse ouvido a ironia em minha voz.
Amiga, por favor, se anime um pouco, está bem? Ano novo, vida
nova... O que você acha? Quem sabe nós fazemos novos amigos? - O
positivismo constante dela sempre me irritava.
Novos amigos? Como faremos novos amigos se não temos nem
velhos amigos? Você esqueceu que eu sou a ''estranha''? E que
consequentemente você também é considerada assim por andar
comigo?
Garota, você me deixa de baixo astral... Muito obrigada mesmo. -
Senti a voz dela diminuindo de tom
Me perdoe. Tive uma noite ruim.
Por que? - Eu hesitei mordendo o lábio, não sabia se queria
importunar Vict com meus pesadelos novamente... Ela iria dizer que
tudo não passa de uma grande bobagem e provavelmente me
chamaria de louca ou algo parecido com isso, mas eu não conseguia
esconder nada dela, por mais que tentasse.
Pesadelos. - falei terminando a palavra com um suspiro.
Ah querida... Essa história de pesadelos e significados de sonhos de
novo? Me diga que não procurou no google o que quer dizer sonhar
com um garoto esquisito que caminha por uma rua sem fim, me diga
que não fez isso? - A voz dela parecia preocupada, realmente
preocupada. Exatamente o que eu queria evitar.
Não se preocupe comigo, eu estou bem – menti.
É claro que está.
Ficamos em silêncio por um segundo tenso.
A que horas você passa aqui? - perguntei para ela.
As sete, esteja pronta, e por favor use algo que não pareça com seus
pijamas do século passado, ou que também não faça parecer que sua
avó vomitou em você. - Ela deu uma risadinha no final.
Ok – eu disse braba. - vou desligar e me arrumar, tchau.
Desliguei o telefone e entrei no banheiro do quarto. Tomei um banho com a
temperatura mais fria que meu corpo pode aguentar e passei creme nos
cabelos. Penteei para trás e passei o secador neles para secar pelo menos a
raiz. Coloquei uma calça jeans azul claro e uma blusa azul marinho com
rendinhas por cima, um bolero de lã branco, minha sapatilha preta favorita e
um enxarpe preto. Uma tiara segurando a franja que resolvera ficar rebelde
para trás. Pronto. Eu estava bem. Desci para a cozinha, abri os armários à
procura de qualquer coisa que me interessasse e não encontrei nada que
pudesse me satisfazer. Peguei uma maça e uma banana e piquei as duas em
uma tigela, comi correndo e olhei no relógio do pulso. 7:02. Eu sempre
conseguia me atrasar, mesmo que acordasse duas horas antes. Como?
Subi as escadas em um salto, peguei a bolsa e os cadernos e desci no
momento em que a campainha tocou. Abri a porta para Vict mas saí antes que
ela pudesse entrar.
Ansiosa? - perguntei.
Claro. Eu espero que possamos encontrar meninos novatos lindos esse
ano. Fiz uma promessa para o santo no qual minha mãe é devota,
espero sinceramente que ele me ouça ou vou surtar, preciso de um
homem em minha vida. Para ontem – o tom em sua voz exibia
claramente desespero.
Chegamos na escola com quase quarenta minutos de antecedencia. Supondo
que hoje era o primeiro dia de aula e portanto as aulas começavam as oito
para que os alunos novos pudessem conhecer o colégio e se encontrar nos
corredores...
O pátio da escolava estava lotado de gente. Pessoas sorrindo, pessoas se
abraçando, pessoas contando piadas, pessoas pulando de ansiedade. Enfim,
pessoas felizes. Que ótimo. Eu não me adequava ali. Não no momento em que
me encontrava. Vict e eu nos esprememos atráves da grande porta da entrada
principal do prédio e quase sufocamos no meio de todos aqueles alunos.
Caminhamos até a porta do ginásio no final do corredor principal e saímos para
o pátio B. Avistei o muro onde cada aluno deveria procurar seu nome em uma
lista e procurar ao lado do nome quem seria seu professor guardião este ano. O
professor guardião tinha a função de ajudar seus alunos, aconselha-los durante
o ano e também é claro, de entregar sua grade de horários no inicio do ano.
Um grande fluxo de adolescentes se encontrava na frente do muro.
Espremiam-se e cerravam os olhos procurando por seus nomes nas enormes
listas, por fim viravam-se para seus respectivos amigos e perguntavam quem
seria seu professor guardião no novo ano letivo, dependendo da resposta, se o
professor fosse o mesmo, significava que os horarios poderiam ser quase os
mesmos também, ou identicos, e era nessa parte em que vinham os gritos e os
abraços escandalosos.
Bem, vamos lá. - Vict respirou fundo e pegou minha mão. Eu me
soltei.
Não, espere, eu não vou me meter no meio dessa gente toda, espere
a poeira baixar. Depois nós vemos nossos guardiões. - Eu disse de
forma que fizesse minhas ideias parecem mais inteligentes do que me
enfiar no meio da massa toda de estudantes estéricos.
Bom, eu estou ansiosa para saber quem é o meu professor, se quer
ficar aí parada fique. Vou checar meu nome na lista. Espero que não
seje o professor de quimica. Deseje-me sorte. - ela cruzou os dedos e
saiu em meio aos alunos.
Fiquei parada no mesmo lugar com os braços em volta dos cadernos esperando
Vict retornar. Quando ela saiu do meio da multidão, bastou um olhar em seu
rostinho triste para que eu percesse que o pior havia acontecido.
Eu não acredito, você não vai adivinhar...- ela começou.
É claro que eu adivinharia.
Você pegou o professor de quimica? - completei com uma pergunta.
Sim! E estão dizendo por aí que ele já está enlouquecido atráves de
seus alunos pela escola então acho que devo ir... Não quero dar a ele
mais uma razão para não gostar de mim. Boa sorte para você. - E
assim ela saiu com os ombros tristes em direção a entrada do colegio.
A massa de pessoas foi se dissipando. Alguns alunos liam seus nomes e
iam para um lado, outros se dirigiam para o lado oposto. Decidi que já estava
na hora de checar meu nome quando a multidão se afastou da parede e entre
duas amigas que passavam para um lado de braços dados, eu avistei alguém.
Ele estava escorado na parede, com as mãos enfiadas nos bolsos da
frente da calça jeans azul escuro. Usava botas estilo cortuno de quartel, os
cadarços estavam desamarrados e um dos pés estava escorado na parede, o
outro apoiado no chão a frente do corpo sustentando seu peso. O tórax estava
escorado na parede e ele olhava fixamente para frente. Seu cabelos eram
negros como a noite e lisos demais para se acreditar. Se Vict o visse, com
certeza diria que ele usa chapinha. Em compensação os cabelos eram
desarrumados e caíam-lhe levemente sobre os olhos. Sua expressão era
despreocupada. Demais. Despreocupada demais. Na verdade, ele não estava
nem aí. Dei um passo para o lado e ele me avistou. Virou a cabeça na minha
direção e sorriu. Não foi um sorriso gentil, nem com humor. Parecia que ele
estava mais... debochando de mim!? Assim que ele viu que notei o sorriso
debochado tirou uma das maos do bolso e cobriu a boca abaixando levemente
a cabeça. Se recompos por um segundo e recolocou a mão no bolso erguendo
a cabeça novamente. Olhou para mim por um segundo que me pareceu curto
demais, e então tornou a olhar para frente com ar de quem não está nem ai. O
cabelo caiu-lhe sobre os olhos tapando totalmente sua visão. Ele jogou a
cabeça para o lado tirando o cabelo dos olhos. Olhava as pessoas que
passavam de um lado para o outro, e bocejou uma vez. Não precisava de mais
trinta segundos olhando o garoto para traduzir o que a expressão facial e
corporal dele gritavam: Encrenca.
Com toda a certeza ele era o tipo de garoto capaz de partir o coração de
uma menina com apenas um gesto ou uma única palavra. Parecia, ou melhor,
mostrava pela maneira como deixou a mochila jogada no chão ao seu lado que
não se importava com nada, e que se estava ali com certeza não era para
estudar. Ele não levava aquilo a sério. Parecia também ser o tipo de pessoa que
não tem amigos e não dá a minima para isso. Ele me pareceu fácil e dificil
demais de decifrar ao mesmo tempo. Garoto encrenca. Tipinho bad-boy
arrasador de corações. Os cabelos mais negros que a noite se levantaram
apenas por um segundo quando uma subita brisa os tocou de leve. Os olhos
mais escuros ainda pareciam fitar a paisagem com um ar de extrema atenção,
repugnancia e desinteresse ao mesmo tempo. Ele era o tipo de garoto que ia a
escola apenas para arrumar confusão. O tipo de garoto que ficava com uma
menina diferente por noite e as via apenas como troféis, o tipo de garoto que
não vivia sem uma briga, o tipo de garoto que passaria por cima de qualquer
um, e dos sentimentos de qualquer um, se precisasse disso para conseguir o
que deseja. Exatamente o tipo de garoto de quem eu queria distância. Respirei
fundo e me recompus. Atravessei o espaço entre mim e o muro com as listas e
fingir não ter notado aquele garoto esquisito parado bem ali. Procurei meu
nome na letra L. Lá estava. Professora de Português. Eu me lembrava dela,
vagamente da oitava série. Baixinha, óculos com grossa armação, loira com
cabelo chanel, incrivelmente carismática. E onde era a sala dela mesmo?
Precisa de ajuda? - o garoto perguntou. Ele estava falando comigo.
Sua voz era rouca e baixa, porém clara.
Fiquei observando-o com olhos arregalados sem falar nada. Ele pigarreou.
Você está bem? Precisa de ajuda? - repetiu a pergunta.
Porque... - não conseguia encontrar as palavras, porque eu estava
desorientada dessa maneira? - Porque está falando comigo? -
perguntei. Ah, ótimo, como eu sou idiota. ''Porque está falando
comigo?'' - Quer dizer... - comecei novamente
Não. Tudo bem, só pensei que talvez precisasse de ajuda, mas você
parece não precisar, eu é que talvez precise de uma autorização pra
falar com você, é isso? - ele me encarava com... raiva? Que garoto
esquisito!
Não foi o que eu quis dizer, eu só perguntei isso pois não nos
conhecemos e você não parece ser o tipo de pessoa que fala com os
outros espontaneamente ou ajuda alguem por solidariedade ou... -
comecei a falar sem parar. Ah não.
Ah é? - ele perguntou sarcasticamente, me interrompendo de novo – e
que tipo de pessoa eu pareço ser então? Algum punk lunático? Ou
talvez um adolescente rebelde incompreendido pelos pais? Devem ter
sido as botas pretas, ou o cabelo tingido de preto? - ele erguei uma
sombrancelha de contorno perfeito. Cabelo tingido de preto? Qual era
o problema desse garoto?
Olha, eu me expressei mal tá legal? Não precisa ser arrogante dessa
maneira, com essa sua arrogancia aí é dificil acreditar que há alguns
segundos atrás você estava tentando ser gentil. - Encarei-o
profundamente nos olhos.
Eu não estava tentando ser gentil garota, eu apenas perguntei se
precisava de ajuda, porém o fato de você estar precisando ou não,
não quer dizer que eu ajudaria você.- ele terminou dando um pequeno
sorriso do tipo ''eu venci''.
Qual é o seu problema? Porque com certeza você tem um. Não, eu
não preciso da sua ajuda. Muito menos da sua arrogancia, mas você
precisa de ajuda, com certeza. - virei minhas costas e saí andando
apressadamente.