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Mistérios do Farol da Barra: O Silêncio

Um superintendente proíbe a manutenção de registros, mas um narrador sente a necessidade de documentar eventos estranhos no Farol da Barra. Ele testemunha fenômenos inexplicáveis, como o silêncio do mar e a movimentação da areia, além de ouvir vozes e ver uma entidade enigmática. As anotações de Elias Tatum revelam que ele criou um 'silêncio verdadeiro', mas isso resultou em um eco que ganhou vida própria.
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Mistérios do Farol da Barra: O Silêncio

Um superintendente proíbe a manutenção de registros, mas um narrador sente a necessidade de documentar eventos estranhos no Farol da Barra. Ele testemunha fenômenos inexplicáveis, como o silêncio do mar e a movimentação da areia, além de ouvir vozes e ver uma entidade enigmática. As anotações de Elias Tatum revelam que ele criou um 'silêncio verdadeiro', mas isso resultou em um eco que ganhou vida própria.
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📄 PÁGINA 1 - 14 DE MARÇO DE 1987

22:47

Não deveria estar escrevendo isso. O superintendente disse para não manter
registros, que era "para minha proteção". Mas depois do que vi hoje à noite... se
eu não escrever, vou pensar que estou ficando louco. Como meu avô.

Ele sempre dizia que o Farol da Barra guardava segredos mais antigos que Salvador.
Eu ri. "Coisa de velho", eu dizia. Hoje não ri mais.

Começou às 21:30, pontualmente. O mar... parou de fazer barulho. Não, isso não está
certo. O mar continuou batendo nas rochas, as ondas do mesmo tamanho, a espuma
normal. Mas o som sumiu. Como se alguém tivesse girado um botão de volume e
desligado tudo. Meus ouvidos doeram - aquela dor esquisita de quando você está
descendo a serra e a pressão muda.

Fui até a janela. Lá embaixo, na praia, a areia estava se movendo sozinha. Não com
o vento - o vento também não fazia barulho. A areia formava círculos, como se
alguém estivesse desenhando com um compasso gigante. Círculos dentro de círculos,
todos perfeitos.

Aí ouvi as vozes.

Não eram vozes normais. Pareciam vir de dentro da minha própria cabeça, mas ao
mesmo tempo vinham de todos os lados. Sussurros em uma língua que não conheço, mas
que de alguma forma... reconheço. Como ouvir uma música que você esqueceu que
conhecia.

Uma frase se repetia: "Tatum quebrou a promessa".

Tatum. Esse nome eu conheço. Está gravado na pedra fundamental do farol. Elias
Tatum, o arquiteto. Meu avô odiava esse nome. Dizia que ele tinha "brincado com
coisas que não deveria".

📄 PÁGINA 2 - 15 DE MARÇO DE 1987


03:15

Não consigo dormir. Escrevo à luz de vela porque a eletricidade está instável. As
lâmpadas piscam em ritmo... tem ritmo. Três piscadas rápidas, uma pausa longa.
Sempre o mesmo padrão.

Voltei para a torre. Precisava verificar a lanterna. Mas quando cheguei lá em


cima... tinha algo escrito no metal.

Não estava lá antes do pôr do sol. Eu limpei aquela área pessoalmente hoje de
manhã.

É um símbolo. Parece o brasão da família Tatum - aquele que está na fundação - mas
diferente. Tem um risco cortando ele, como uma facada em um retrato. O metal ao
redor do símbolo está... morno. E vibra. Coloquei a mão e senti uma vibração
constante, como o ronronar de um gato gigante.

Quando tirei a mão, percebi: meus dedos estavam cobertos de um pó fino e brilhante.
Como glitter, mas mais sutil. Quando sacudi a mão, o pó não caiu - flutuou. E foi
em direção ao símbolo.

Ouvi a frase outra vez: "Primeira porta aberta". Mas dessa vez não era um sussurro.
Era como se o próprio farol estivesse falando. A voz vinha das paredes, do chão, do
ar.
Estou com medo. Mas também... estou curioso. Isso é o que mais me assusta.

📄 PÁGINA 3 - 16 DE MARÇO DE 1987


01:30

Trouxe o gravador do meu carro. O Walkman que minha filha me deu no Natal.

Funciona por cerca de um minuto, depois a fita começa a enrolar sozinha, como se
estivesse sendo rebobinada por mãos invisíveis. Mas antes de estragar, consegui
gravar algo.

Eu falava para o gravador, descrevendo o que via. "São 1:17 da madrugada, o mar
continua silencioso, as luzes piscam no padrão de sempre..."

Quando apertei o play, não era minha voz que saía.

Era a voz do meu avô.

Ele morreu há dez anos. Mas era ele. Até a maneira como ele assobiava entre as
frases quando estava nervoso.

E ele dizia: "Lúcio, neto, sai daí. Ele vai te pegar. O Afinador está com fome".

O Afinador. Esse nome me fez gelar. Meu avô falava dele nos delírios de quando a
febre alta o pegava. Dizia que era "o homem feito de silêncio", que "afinava as
pessoas até elas não serem mais elas".

A fita continuou: "Ele não é mau, menino. É como um rio que não sabe que afoga. Só
flui. E ele está fluindo para cá. Porque o Tatum deixou a porta entreaberta".

Aí a fita enguiçou de vez. Agora só faz um barulho de estática que soa como...
respiração.

📄 PÁGINA 4 - 17 DE MARÇO DE 1987


00:00

Vi Ele.

Não sei como descrever. Não é um "ele". Mas não sei que pronome usar.

Estava na praia, perto da água. Primeiro pensei que fosse névoa. Mas a névoa não
tem... formato. E esta tinha. Uma figura alta, magra. Como um homem, mas não
exatamente.

A luz da lua não batia nele direito. Parecia dobrar ao redor, como se ele estivesse
sempre na própria sombra. Mas ele brilhava de dentro. Uma luz fria, azulada.

Ele - vou chamar de Ele - estava agachado, com a mão na areia. Os dedos... Deus, os
dedos. Longos demais. Muitas juntas. E quando Ele movia os dedos, a areia
respondia. Formava padrões, como notas musicais escritas na praia.

Ele levantou a cabeça. Não tinha rosto. Só dois pontos escuros onde os olhos
deveriam estar. Mas esses pontos... vibravam. Como diapasões.

Nossos olhares se encontraram. Não sei como, já que Ele não tinha olhos, mas sei
que se encontraram.

E Ele me mostrou algo.


Não foi com imagens. Foi com... sons na minha mente. Um acorde musical triste. Uma
melodia incompleta. E uma sensação: saudade. Uma saudade tão profunda que doeu no
peito.

Ele tem saudade de algo. Algo que perdeu. Ou que alguém tirou dele.

Aí Ele simplesmente... desfez. Não foi embora, não desapareceu. Desfez. Como açúcar
na água.

Voltei correndo para a torre. Minhas mãos tremem tanto que mal consigo segurar esta
caneta.

Mas descobri uma coisa: enquanto olhava para Ele, o medo foi embora. Só ficou a
tristeza. A tristeza d'Ele.

📄 PÁGINA 5 - 18 DE MARÇO DE 1987


23:45

Encontrei as anotações do Tatum.

Estavam escondidas atrás de uma pedra solta na fundação. Não sei o que me fez olhar
ali. Talvez Ele me guiou.

São páginas amareladas, escritas com uma caligrafia afiada e nervosa. Elias Tatum,
1923. Ele escreve sobre "as Sete Portas" e sobre "o Silêncio Primordial".

Ele achou um jeito de... criar silêncio. Silêncio verdadeiro, absoluto. Não apenas
ausência de barulho, mas ausência da possibilidade do som.

Mas quando ele criou o primeiro pedaço desse silêncio, algo aconteceu. Algo ficou
para trás. Um eco do que foi removido. E esse eco ganhou vida própria.
... (12 linhas)

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