Lore de Miyamoto
Na fria periferia de Quioto, a infância de Miyamoto foi esculpida em sombras. Sua
família – o pai Jhin, a mãe Miyuri e as irmãs mais novas, Lisa e Misa – vivia sob o
espectro constante da decadência. Exilado dos prósperos negócios da família da
esposa, Jhin afundou-se no álcool, um vazio ambulante que tropeçava em casa todas
as noites, arrastando consigo um fedor de ressentimento e sakê barato. O desespero,
porém, atingiu um abismo inimaginável numa noite silenciosa. Por falta de dinheiro
para o vício, Jhin, com uma frieza que paralisou a alma do filho, segurou a cabeça
de Miyamoto com uma mão de ferro. Na outra, uma faca de cozinha cega e suja
cintilou sob a luz fraca do lampião. O grito de Miyamoto foi abafado pelo pano
imundo que seu próprio pai lhe enfiou na boca. Houve um pressão horrenda, um rasgo
úmido, e então um vazio ensurdecedor e úmido onde antes estava seu olho direito.
Jhin saiu, deixando o filho se contorcer em silêncio no chão de terra batida, a
moeda do olho já apertada em seu punho suado. Miyuri, encontrando a cena, não
gritou. Seu pranto foi silencioso e feroz. Naquela mesma madrugada, ela agarrou
Miyamoto, o olho ensanguentado envolto em trapos, pegou as meninas adormecidas e
fugiu para as entranhas mais obscuras da cidade, deixando para trás o cheiro de
sangue e traição.
Miyamoto cresceu marcado, tanto por dentro quanto por fora. O vazio no lugar do
olho era um convite para o bullying, mas cada provação revelava nele uma verdade
perturbadora: ele tinha facilidade para, e pior, começava a gostar do confronto. A
violência era uma linguagem que seu corpo entendia perfeitamente, um frenesi que
fazia o mundo exterior sumir, junto com a memória da dor.
Aos quinze anos, uma briga escolar particularmente brutal o manteve até tarde na
escola, sob os sermões furiosos do diretor. A noite já estava negra quando ele
finalmente foi liberado, uma quietude pesada pairando sobre as ruas desertas. Ao se
aproximar do casebre humilde que chamavam de lar, um som o gelou: não um grito
qualquer, mas um coro estridente de vozes femininas entoando cânticos guturais em
uma língua que arrepiou seus pelos. E, entre os cantos, gritos – os gritos
agonizantes de sua mãe e irmãs.
O coração disparou contra as costelas. Ele correu, o mundo reduzindo-se ao portão
de madeira rachada de casa. Ao empurrá-lo, a visão que se abateu sobre ele foi um
pesadelo tornado carne.
O pátio estava irreconhecível. Círculos sinistros, pintados com um pigmento escuro
que cheirava a ferro e cinzas, brilhavam à luz de tochas fumegantes. Figuras
encapuzadas, movendo-se com uma sincronia robótica, rodeavam um altar improvisado
com a mesa da cozinha. Sobre ela, Miyuri estava imobilizada, seus olhos, outrora
tão cheios de ternura, estavam arregalados de um terror puro e silencioso, enquanto
lágrimas limpas traçavam caminhos em seu rosto sujo. Lisa e Misa, suas irmãzinhas,
estavam ajoelhadas ao lado, contidas por mãos ossudas, seus pequenos corpos
tremendo como folhas no vento.
E ao fundo, pairando sobre a cena como uma mancha na própria realidade, estava a
Criatura. Não era simplesmente grotesca; era uma profanação à forma. Seu corpo era
um emaranhado de membros alongados e articulados de maneira antinatural, como os de
um inseto monstruoso, recobertos por uma pele que parecia muda e úmida, refletindo
as chamas de forma doentia. Não tinha rosto, apenas um vórtice de sombra onde
deveriam estar os olhos, e uma fenda que se abria e fechava, liberando um sussurro
gelado que parecia rasgar a mente.
Um dos capuzes ergueu um punhal serpenteante, sua lâmina gravada com runas que
doíam aos olhos. Miyamoto não pensou. Com um rugido que nasceu das entranhas, ele
arrebatou o velho machado de lenhador ao lado do galpão e arremessou-se contra o
cultista. O ar sibilou ao redor da lâmina.
Mas ele nunca chegou perto.
A Criatura moveu-se. Não foi um movimento, foi um deslocamento da realidade. Um
instante estava a metros de distância, no outro, o ar à frente de Miyamoto se
coagulou e aqueceu. Ele não viu o golpe, apenas sentiu o universo explodir em uma
dor branca quando algo – um membro, uma garrra, uma extensão daquela escuridão
sólida – impactou seu torso. O som de suas costelas quebrando foi abafado pelo
estrondo de ele ser arremessado para trás, através da parede de bambu da casa,
mergulhando em um mar de escombros, madeira esfacelada e poeira. A última coisa que
seus olhos – o que restava deles – registraram, foi o punhal descendendo sobre o
pescoço de sua mãe, e o sussurro da Criatura se tornando um cacarejo de triunfo que
envenenou sua escuridão.
A consciência voltou com o peso de um mundo despedaçado. A dor em seu peito era um
fogo latejante, mas insignificante comparada ao vazio devastador que o consumia por
dentro. Ele jazia entre os destroços da única coisa que lhe restara, a poeira ainda
assentando sobre um silêncio mais aterrador que qualquer grito. O cheiro era de
cinzas, sangue seco e algo mais, um odor doce e nauseante de carne queimada e algo…
antigo.
Foi então que uma sombra bloqueou o sol fraco da manhã. Um velho, vestido com um
kimono impecável que contrastava brutalmente com a destruição ao redor, olhava para
ele. Seus olhos eram poços de experiência e de uma tristeza resoluta.
“Miyamoto”, a voz do velho era áspera, mas não desprovida de calor. “Eu sou
Yamamoto Sukehiro. Seu avô.”
Miyamoto, sem forças até mesmo para a descrença, apenas o fitou com seu único olho,
um olhar opaco de ruína.
Yamamoto estendeu a mão, não com piedade, mas com oferta. “Eles pagarão. Cada um
deles. A Criatura que servem, o culto que a adora… todos serão varridos. Mas para
isso, você precisa levantar-se. A minha casa é um arsenal. Meu conhecimento, uma
arma. Aceite minha ajuda, e eu forjarei você no instrumento da vingança da sua
família. Treinarei você para enfrentar o paranormal que destruiu sua vida. Em
troca, você jurará caçar e extinguir essa praga, e todos os que a serviram. Você
será a espada que cortará essa sombra do mundo. A qualquer custo.”
Sem família, sem futuro, com apenas uma dor cega e um ódio recém-nascido para guiá-
lo, Miyamoto colocou sua mão ensanguentada na de seu avô. Foi um pacto selado em
cinzas.
Os anos que se seguiram foram um purgatório de aço e disciplina brutal. Miyamoto
treinou sua arte com a espada e o machado – o mesmo machado que falhara em salvar
sua família – até que suas mãos ficaram calejadas e seus movimentos se tornaram uma
extensão mortal de sua vontade. Sob o teto da mansão Yamamoto, ele aprendeu sobre o
mundo oculto que fervilha nas sombras, sobre entidades antigas e os homens tolos
que as servem.
Ao completar vinte anos, ele já não era um jovem, mas uma arma humana. E por cinco
anos, Miyamoto executou os serviços da família, caçando o paranormal. Cada monstro
abatido, cada cultista eliminado, era um ensaio. Um passo mais perto da noite em
Quioto, daquele sussurro gelado, e do juramento de vingança que mantinha seu
coração único batendo no peito, sob a cicatriz onde um olho outrora viu o amor, e
agora só ansiava por sangue.