0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações46 páginas

Desafios Geopolíticos em 2025

O documento analisa a instabilidade geopolítica prevista para 2025, destacando a falta de liderança global e a ascensão do G-Zero, onde potências como EUA e China não assumem responsabilidades globais. A análise enfatiza o impacto negativo da administração Trump, que se fortalece e se torna mais autoritária, e as consequências de um mundo sem uma governança eficaz, resultando em um aumento de conflitos e crises. O texto conclui que a ausência de um líder global capaz de unir esforços para enfrentar desafios comuns levará a um cenário internacional mais perigoso e volátil.

Enviado por

sodrejmcfp
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações46 páginas

Desafios Geopolíticos em 2025

O documento analisa a instabilidade geopolítica prevista para 2025, destacando a falta de liderança global e a ascensão do G-Zero, onde potências como EUA e China não assumem responsabilidades globais. A análise enfatiza o impacto negativo da administração Trump, que se fortalece e se torna mais autoritária, e as consequências de um mundo sem uma governança eficaz, resultando em um aumento de conflitos e crises. O texto conclui que a ausência de um líder global capaz de unir esforços para enfrentar desafios comuns levará a um cenário internacional mais perigoso e volátil.

Enviado por

sodrejmcfp
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Ian Bremmer Cliff Kupchan

Presidente Chairman

1 O G-Zero vence 6 Irã em apuros Pistas Falsas


2 Domínio de Trump 7 Empobrecendo o mundo Trump fracassa
3 Ruptura EUA-China 8 IA sem limites A Europa se desmantela
4 Trumponomics 9 Espaços sem governo A transição energética
5 Rússia continua pária 10 Impasse mexicano global emperra
Ian Bremmer Cliff Kupchan
Presidente Chairman

De um certo ponto de vista, o ano de nos inimigos dentro de suas próprias fronteiras
2025 parece extraordinário. Se fôssemos e se preocupam cada vez mais com ameaças
alienígenas e encontrássemos nosso planeta a sua própria estabilidade. São guiados por
hoje, sem medo ou expectativas, o que sistemas de valores políticos e econômicos
veríamos? Uma população crescente de oito que se concentram esmagadoramente no
bilhões de pessoas em meio a uma expansão e curto prazo, apesar da realidade cada vez mais
crescimento sem precedentes; oportunidades evidente de que eles não estão funcionando
impressionantes após dezenas de milhares de para a maior parte de sua população—
anos de estagnação. especialmente os jovens, que estão cada vez
mais desiludidos.
Mesmo olhando as manchetes geopolíticas,
podemos encontrar algum otimismo em A “comunidade de nações” é hoje um conto
relação a 2025. As principais guerras que da carochinha, com uma governança que não
dominaram o ano passado estão perdendo atende às necessidades dos cidadãos. Nossos
força. Três anos após a Rússia invadir a desafios são globais, sejam eles relacionados
Ucrânia e tentar derrubar o governo local, ao clima, à tecnologia, à economia ou à
as negociações (e possivelmente um cessar- segurança nacional. Não podem ser resolvidos
fogo) parecem à vista. O mesmo acontece sem uma cooperação internacional muito mais
no Oriente Médio, onde, após mais de um intensa do que se pensa ser desejável ou do
ano de conflito em Gaza e arredores, há que seria viável com as instituições existentes
menos ânimo ou motivos para expandir a hoje. E os atores políticos mais essenciais ao
violência. E, nos Estados Unidos, a acirrada fortalecimento das instituições globais estão
eleição presidencial apontou um vencedor se movendo na direção contrária.
incontestável, com um mandato claro, e não
há quase ninguém alegando que o pleito foi Estamos voltando à lei da selva. Um mundo
injusto, inválido ou fraudulento. onde os mais fortes fazem o que podem,
enquanto os mais fracos são condenados a
Mas, olhando mais de perto, temos grandes sofrer o que lhes cabe. E não se pode confiar
problemas. que os primeiros—sejam estados, empresas
ou indivíduos—, vão agir em prol daqueles
Estados Unidos e China, de longe os dois sobre os quais têm poder.
países mais poderosos do mundo, rejeitam
firmemente ser responsáveis pelo resto do Não é uma trajetória sustentável.
planeta. Ambos estão primeiramente focados

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5
1 O G-Zero vence
Há mais de uma década a Eurasia Group alerta sobre os perigos de um mundo G-Zero: uma era
em que nenhum poder ou grupo de poderes está disposto a—e é capaz de—liderar uma agenda
global e manter a ordem internacional. Esse déficit de liderança global está se tornando
perigosamente crítico.
Em 2025, isso é uma receita para a instabilidade geopolítica endêmica que enfraquecerá a arquitetura de segurança e
econômica mundial, criará novos e crescentes vácuos de poder, encorajará atores pária e aumentará a probabilidade de
acidentes, erros de cálculo e conflitos. O risco de uma crise mundial geracional, e mesmo de uma guerra global, está
mais alto que em qualquer momento de nossas vidas.

O problema central que a ordem global enfrenta é que as principais instituições internacionais—o Conselho de Segurança
das Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, e assim por diante—já não refletem o equilíbrio
de poder global subjacente. Isso é uma recessão geopolítica, um “ciclo de baixa” nas relações internacionais, que pode
ser atribuído a três causas do passado.

Primeiro, o Ocidente não conseguiu integrar a Rússia à ordem global liderada pelos EUA após a Guerra Fria, provocando
naquele país um profundo ressentimento e rivalidade em relação aos EUA e à Europa. Uma ex-grande potência em declínio
profundo, a Rússia de Vladimir Putin tornou-se o estado pária mais perigoso do mundo, e está ativamente construindo
parcerias militares-estratégicas com outros atores do caos no palco global, mais notavelmente a Coreia do Norte e o Irã.

Em contraste, a China foi integrada à ordem internacional no início dos anos 2000—criticamente, como membro da
Organização Mundial do Comércio—sob a expectativa de que a integração econômica global incentivaria seus líderes

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 3
Responsabilidade dos EUA em assuntos globais
Em geral, quando se trata de manter o papel dos EUA no mundo, você acha que:

Republicanos Democratas Independentes


Média: 49%
Como os EUA têm
recursos limitados e 57%
seus próprios
problemas domésticos, 35%
precisa reduzir seu 54%
envolvimento em
assuntos globais
Média: 33%
Os EUA têm recursos
suficientes para 30%
cuidar de seus
próprios problemas 39%
domésticos e assumir 31%
um papel de liderança
em assuntos globais
Média: 17%
Como os EUA são o
país mais forte e rico 13%
do mundo, têm a
responsabilidade de 26%
assumir um papel de
14%
liderança em
assuntos globais

Fonte: Chicago Council Surveys, 21 de junho a 1º de julho de 2024, n=1.043

a liberalizarem seu sistema político e a se tornarem Todos os três estão sendo colocados em prática. Mas, em
participantes globais responsáveis, conforme definido 2025, o maior esforço está sendo colocado no terceiro.
pelo Ocidente. Isso não aconteceu. O comércio com o
Ocidente deixou a China muito mais rica, mas não mais Os Estados Unidos são poderosos o suficiente, mas não
democrática ou pró-estado de direito. O resultado são as estão dispostos a liderar. Muito mais que em 2017, a volta
crescentes tensões, e até confrontos, entre a China e o de Trump, no comando de um governo politicamente
Ocidente. consolidado e solidamente unilateralista, acelerará a saída
decisiva dos EUA de seu papel de “xerife mundial”, campeão
Finalmente, dezenas de milhões de cidadãos de do livre comércio e defensor dos valores globais. Há um
democracias industriais avançadas concluíram que motivo para sua política se chamar “América Primeiro”.
os valores globalistas que seus líderes e elites vinham
incentivando não funcionavam mais a seu favor. A Outras democracias industriais avançadas estão, de
desigualdade crescente, mudanças demográficas e forma sem precedentes, fracas e incapazes de preencher
mudanças tecnológicas vertiginosas fizeram com que a lacuna de liderança deixada pela virada dos EUA para
muitas dessas pessoas desconfiassem fundamentalmente assuntos domésticos. O governo da Alemanha colapsou,
de seus governos e da própria democracia, reduzindo, e partidos populistas devem ganhar terreno nas próximas
por sua vez, a capacidade e a disposição de seus países eleições federais. A França está à beira de uma longa crise
para serem líderes no cenário global. Notavelmente, o política. O Reino Unido é liderado por um novo governo
presidente-eleito dos EUA, Donald Trump, se beneficiou impopular que ainda está se firmando. A Itália está
do aumento do sentimento unilateralista nos EUA que ele comparativamente—e incomumente—estável, liderada por
mesmo alimentou. Giorgia Meloni (alinhada a Trump), mas isso dificilmente
seria suficiente para fortalecer a ordem global. O Partido
Há três caminhos para sair de uma recessão geopolítica: Liberal Democrata, no poder no Japão, perdeu a maioria
um, reformar as instituições existentes para operarem de parlamentar, e o novo Primeiro-Ministro Ishiba Shigeru
forma mais eficaz e deterem ampla legitimidade; dois, não deve durar muito no cargo. A Coreia do Sul está em
criar novas instituições para substituir as anteriores, mais completa desordem. Justin Trudeau, do Canadá, caminha
bem alinhadas ao equilíbrio de poder subjacente; e três, para a saída. Para os antigos aliados dos EUA, a ordem é
destruir a arquitetura existente e impor um novo conjunto jogar na defesa geopolítica—manter a cabeça baixa e torcer
de regras pela força. para que o holofote das perturbações não brilhe sobre você.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 4
Estamos entrando em um período singularmente perigoso
da história mundial, comparável aos anos 1930 e ao início da
Guerra Fria.

Com pouco em comum além de desejar um mundo Em resumo, diante do aprofundamento do déficit de
mais multipolar, o Sul Global não é nem poderoso nem liderança do G-Zero que o mundo vive conforme entra
organizado o suficiente para conduzir o mundo para fora da em 2025, as perspectivas de uma reforma pacífica ou uma
recessão geopolítica. A Índia, o mais forte e mais plausível renovação da ordem global são inexistentes. O que resta
líder global entre os países em desenvolvimento, continua é instabilidade geopolítica, são perturbações e conflitos
sendo um país de baixa renda, focado em construir pontes cada vez maiores. Sem alguém capaz e disposto a defender
principalmente para sustentar seus interesses nacionais. a paz e prosperidade globais, o risco de perturbações
E, apesar do peso crescente e ambição global, países econômicas e embates militares perigosos crescerá. Os
como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos não vácuos de poder vão se expandir, e a governança global
têm status para conduzir reformas globais abrangentes. vai definhando, deixando atores párias e miséria humana
proliferarem em seu rastro. O mundo se tornará mais
A China—segundo país mais poderoso da Terra e o único que dividido e inflamável.
poderia desafiar os EUA—, por sua vez, não poderia liderar
mesmo se quisesse. Faltam legitimidade e “soft power” Nosso principal risco deste ano não é um único evento.
ao país para conseguir que seja seguido. Além disso, seus É o impacto cumulativo do déficit de liderança do G-Zero
atuais problemas econômicos e a decisão de Xi Jinping de na quebra da ordem global. Estamos entrando em um
priorizar a segurança nacional e controle político deixam período singularmente perigoso da história mundial,
Pequim preocupada com desafios domésticos. Já o parceiro comparável aos anos 1930 e ao início da Guerra Fria. Essa
chinês, a Rússia—um estado pária que vem perdendo realidade política é a força por trás de todos os Top Risks
capital humano e econômico—não pode fazer nenhuma deste ano. O risco de algo realmente catastrófico está
reivindicação plausível pela liderança. crescendo a cada dia.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 5
2 Domínio de Trump
O segundo mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos não será como o
primeiro. Fortalecido pela escala de seu triunfo eleitoral em 2024 e pelo apoio firme de um
Partido Republicano unificado, Trump assume o cargo mais experiente e organizado que em
2017, cercado por apoiadores leais fortalecidos pelas batalhas, com mais noção sobre como
manipular o controle burocrático. A equipe que o cerca é mais devotada e ideologicamente
alinhada ao presidente eleito que da última vez: o populista JD Vance será seu vice, em vez
do evangélico Mike Pence. O controle consolidado de Trump sobre o Partido Republicano no
congresso, uma maioria conservadora de 6 a 3 na Suprema Corte e um ambiente de mídia mais
favorável, caracterizado pela influência crescente da rede social X e de podcasts populistas,
vão ajudá-lo a avançar sua agenda em seu segundo mandato.

Trump e seus aliados mais próximos sentem que indicados desleais e adversários políticos dentro do chamado “estado
profundo” frustraram a agenda de seu primeiro governo. Fortalecer o poder da Casa Branca sobre o governo federal
e politizar agências independentes estará, portanto, no alto de sua lista de prioridades. As nomeações feitas pelo
presidente eleito até agora indicam que, entre seus principais esforços, estará expurgar a burocracia federal e o estado
administrativo de servidores civis profissionais e instalar pessoas leais em cargos cujos ocupantes ele acredita terem
sido responsáveis por ataques politicamente motivados contra ele, especialmente em pastas internas de poder, como o
Departamento de Justiça e o FBI. Para tomar o controle sobre o vasto aparato de gastos federais, Trump se apoiará em
indicados leais, ameaçará com retaliação os votos desobedientes no congresso e, quando necessário, buscará revogar
unilateralmente os recursos apropriados pelo congresso, provavelmente provocando uma disputa judicial que poderá
fazer a balança de poder pender ainda mais em direção ao executivo em detrimento do legislativo.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 6
Equipe de Trump 2.0 está recheada de mais A erosão dos controles independentes sobre o poder
membros leais executivo e do Estado de Direito deixarão o cenário político
Na órbita pessoal de Trump Fora dessa órbita dos EUA mais dependente das decisões de um homem
poderoso em Washington, e não dos princípios legais
Trump 1.0 Trump 2.0
estabelecidos e politicamente imparciais. Fusões entre
Advocacia Geral empresas que Trump vê como adversárias enfrentarão
maior escrutínio regulatório. Investidores terão que
Bill Barr Pam Bondi analisar as contas de mídia social do presidente eleito e
Ex-advogado- Ex-advogada-geral
geral dos EUA da Flórida
de um grupo variável e contencioso de conselheiros para
fazer apostas sobre se Trump colocará em prática seus
planos para questões regulatórias e tarifárias que afetam
Secretário de Defesa a economia global. Essa é a base do que pode se tornar o
Jim Mattis maior risco para as empresas a partir de 2025: a natureza
General de quatro
Pete Hegseth
personalista da presidência de Trump.
estrelas aposentado
Apresentador da
e comandante do
Fox News Se Trump sistematicamente der tratamento favorável
Comando Central
dos EUA a empresários politicamente alinhados em questões
Secretário de Estado
regulatórias, legais e contratuais, entre outras coisas,
ele permitirá a existência de um sistema em que a
proximidade do poder (e não a competição de mercado)
Rex Tillerson Marco Rubio será determinante para o sucesso (ver Box 1: Oligarcas e
CEO da ExxonMobil Senador pela
Flórida
protestos). Isso amplificará o capitalismo de compadrio na
maior economia do mundo, com riscos para as empresas,
que precisarão gastar mais tempo e dinheiro cultivando
Diretor do FBI relações transacionais com o aparato político de Trump
do que criando valor econômico. Os que não entrarem
James Comey Kash Patel
Ex-assessor do no jogo estarão em desvantagem. Por mais positivamente
Ex-vice-advogado
-geral dos EUA congresso e vice que os mercados e as empresas vejam muitas das
diretor de Inteligência
Nacional
políticas concretas de Trump, essa mudança injetará
volatilidade estrutural na formulação de políticas dos EUA
Diretor do Conselho Econômico Nacional e deteriorará o ambiente de negócios e de investimento no
Kevin Hassett país, possivelmente prejudicando a eficiência econômica
Gary Cohn Ex-presidente do no longo prazo, a produtividade e o crescimento.
Presidente do Conselho de
Goldman Sachs Assessores
Econômicos A democracia em si—eleições regulares, livres e justas
que determinam quem exercerá o poder político—não
Vice presidente está sob ameaça iminente no Domínio de Trump. Os
EUA não estão à beira de se tornarem uma ditadura nem
um regime misto como o da Hungria, onde o Primeiro-
Mike Pence JD Vance Ministro Viktor Orban e seu partido Fidesz consolidaram
Governador de Senador por Ohio
Indiana sistematicamente seu controle sobre a mídia, capturaram
instituições públicas, acabaram com freios e contrapesos
Fonte: Eurasia Group
e tornaram as eleições decididamente injustas e não livres.
Tendo desmantelado o “estado profundo” que ele também
acredita ter sido responsável por seu impeachment e por As salvaguardas institucionais dos EUA sobreviveram ao
seu indiciamento por razões políticas, Trump irá esgarçar primeiro mandato de Trump e continuam resilientes,
as regras de Washington ao ponto de ruptura. O controle ainda que enfraquecidas. As cortes, as forças armadas, uma
sobre os ministérios do poder será usado para proteger mídia independente e combativa e a Constituição dos EUA
Trump e seus aliados de qualquer responsabilização, e serão são restrições à capacidade de Trump de exercer o poder
feitos esforços para perseguir e intimidar seus inimigos de forma unilateral, assim como a maioria muito tênue
políticos e críticos. Se os expurgos e perseguições terão dos republicanos na câmara e a presença moderadora de
sucesso é irrelevante. Ameaças públicas e investigações institucionalistas no senado. Os democratas são inicialmente
custosas são suficientes para esfriar dissidências e colocar favoritos para levar a câmara nas eleições de 2026,
em xeque uma garantia fundamental da Constituição restringindo severamente o alcance legislativo de Trump na
dos EUA—a igualdade perante a lei—, levantando a segunda metade de seu mandato. O federalismo também
possibilidade de que processos há muito tidos como limita qualquer presidente; a gestão eleitoral feita em nível
garantidamente neutros e justos não continuarão assim. estadual significa que a manipulação de pleitos (como faz

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 7
A indiferença de Trump em relação aos valores tradicionais
norte-americanos abrirá as portas para o vandalismo político a
partir de 2025.

Putin) é implausível. A economia e os mercados financeiros Não deverá ser o último. Quando um partido quebra
também são restrições, especialmente se considerarmos o precedentes, o outro tende a fazer o mesmo mais facilmente.
quanto Trump e seus aliados próximos se importam com seu As regras democráticas dos EUA, as instituições políticas
desempenho. Mais do que tudo, os impulsos destrutivos de e o estado de direito têm se deteriorado progressivamente
Trump continuarão a ser contidos por sua própria falta de desde o início do século XXI. As guerras judiciais
disciplina e desinteresse em governar. A disputa burocrática partidárias que começaram com as lutas ideológicas que
interna do primeiro governo Trump atrasou a implementação impediram a confirmação de Robert Bork para a Suprema
de políticas e levou a lançamentos caóticos, enquanto sua Corte em 1987 eventualmente levaram ao fim do filibuster
abordagem desleixada em relação a regras processuais as (estratégia política que consiste em prorrogar discussões
colocava em perigo perante os tribunais. Embora a equipe para arrastar ou bloquear a aprovação de medidas) para
atual seja mais experiente que a de 2017, esse caos interno indicações ao tribunal de apelações e agora também
nos graus inferiores tema será uma característica recorrente para a regra que determina que juízes da Suprema
nos próximos quatro anos. Corte recebem mandatos vitalícios mesmo sem votos do
partido de oposição. Os republicanos puderam eliminar o
Dito isso, mesmo que Trump não destrua instituições filibuster para indicados à Suprema Corte apenas porque
democráticas, sua indiferença em relação aos valores os democratas já tinham feito o mesmo para os tribunais
tradicionais norte-americanos abrirá as portas para o inferiores. Esse olho por olho, dente por dente, dissipa a
vandalismo político a partir de 2025. Assim como janelas confiança pública no estado de direito, que é mais difícil
deixadas quebradas sinalizam que ninguém se importa de reconstruir que de destruir.
com danos à propriedade e são um convite a novos crimes,
violações não contestadas (ainda que mínimas) de normas Os pais da Constituição dos EUA tinham muita consciência
políticas de longa data mostrarão que as salvaguardas de que o sistema que projetaram em 1787 era resiliente,
democráticas podem ser ignoradas com impunidade. mas não infalível. Acima de tudo, seria preciso líderes
O cenário institucional não é o mesmo de 2016, antes da de bom caráter e virtude e vigilância constante de uma
primeira eleição de Trump: o fato de que ele não vai divulgar cidadania ativa comprometida com valores democráticos.
suas declarações de imposto de renda nem se retirar de seus A famosa frase de Benjamin Franklin—que, quando
negócios familiares, e vai contratar membros da família para perguntado se a Convenção Constitucional havia resultado
postos-chave e se comunicar diretamente com o público e em uma monarquia ou uma república, respondeu:
líderes estrangeiros por meio das redes sociais evidencia “uma república, se você conseguir mantê-la”—reflete
o quanto as normas institucionais já mudaram na última seu entendimento de que não havia garantia de que o
década. À medida que mais normas são desrespeitadas e experimento americano sobreviveria, da forma que tinha
“janelas” são quebradas com impunidade nos próximos no início do século XIX ou da que assumiu no começo do
quatro anos, a erosão das regras democráticas, das século XXI. Não há dúvidas de que a república sobreviverá
instituições políticas e do estado de direito deve acelerar a mais quatro anos de Trump. Se a nação que existirá após
ainda mais. Embora escândalos de corrupção sérios sejam seu mandato continuará a ser regida por leis ou, como
comuns na história presidencial dos EUA (Watergate, John Adams disse, se transformará em um governo de
Teapot Dome, Irã-Contra), o segundo mandato de Trump homens, é outra questão—mas não menos importante.
deve inaugurar o primeiro caso de retrocesso institucional
sério nos EUA desde a Reconstrução.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 8
Box 1: Oligarcas e protestos

Trump não vai quebrar o sistema político dos EUA. Ele Se o primeiro-ministro indiano Narendra Modi colocasse
já está quebrado. o empresário bilionário aliado Gautam Adani em uma
ligação com um líder estrangeiro ou um CEO indiano,
O governo dos EUA trata a população de forma desigual nos perguntaríamos, com razão, se a Índia se tornou uma
há décadas, mas esse sistema de duas camadas não oligarquia. No entanto, esse comportamento se tornou
tem a ver com Democratas X Republicanos—se trata, normalizado nos Estados Unidos nos últimos meses e
fundamentalmente, dos “que têm” contra os “que não será ainda mais no próximo ano—mesmo que a relação
têm”. Os cidadãos mais ricos podem financiar não entre Trump e Musk eventualmente azede. Afinal, como
só campanhas políticas como comprar tratamentos a crescente riqueza de Musk desde a eleição mostra,
regulatórios e legais favoráveis e fazer lobby por políticas mesmo a expectativa de ter que “pagar para jogar” sob
que perpetuem seus interesses econômicos, criando um o Domínio de Trump pode ser muito lucrativa. Não é
ciclo que reforça a si mesmo, no qual a desigualdade surpresa que tantos grandes CEOs (vários dos quais
econômica perpetua a desigualdade política, que, por fizeram doações importantes aos democratas) já tenham
sua vez, cimenta ainda mais a desigualdade econômica. feito peregrinações a Mar-a-Lago e contribuído milhões
Como resultado, os Estados Unidos são hoje a democracia de dólares para o fundo inaugural de Trump. As regras
industrial avançada politicamente menos representativa do jogo mudaram, e todos sabem que é preciso seguir ou
e economicamente mais desigual no mundo. ficar para trás.

Mas aqui está a novidade realmente ruim: o Domínio Mas os EUA não são a Índia: são a economia mais rica
de Trump ameaça levar isso a um nível não visto desde e dinâmica do mundo e (ainda) a única hegemonia
a Era Dourada (as últimas décadas do século XIX). Em global. Sua decadência a uma oligarquia de facto
troca dos esforços de Elon Musk para ajudar a elegê- terá repercussões amplas. Vai deprimir a inovação
lo, o presidente mais transacional da história dos EUA e produtividade econômica, uma vez que o governo
recompensou com uma influência sem precedentes dos EUA recompensará as empresas mais conectadas
sobre o governo a pessoa mais rica do planeta (por ampla politicamente (e implicitamente ou explicitamente
vantagem) e, sem dúvida, seu cidadão mais poderoso punirá as outras) em vez das mais competitivas. A
antes mesmo da eleição em 5 de novembro—alguém corrupção florescerá. No longo prazo, os EUA se
que controla pessoalmente a empresa espacial da qual tornariam um ambiente de negócios e investimentos
grande parte do programa espacial dos EUA depende, a menos atraente, e os americanos veriam seu padrão
principal produtora de veículos elétricos (EV) do país e de vida estagnar. Além disso, a cooptação da política
uma boa parte do fórum público por meio do X. Agora, externa dos EUA por oligarcas irresponsáveis, com
Musk não apenas tem a atenção do presidente eleito, objetivos próprios—frequentemente em conflito com
como também o acompanha em ligações e reuniões o interesse público nacional e global—aumentaria o
com líderes globais e rivais tecnológicos, está liderando risco geopolítico e aprofundaria ainda mais o vácuo de
um esforço para reduzir o governo e efetivamente pode liderança do G-Zero (ver Top Risk nº 1: O G-Zero vence).
vetar legislações. Independentemente do que se pense
sobre a política ou agenda de Musk, a concentração de Há então a reação contra o saque em curso, já
tanto poder nas mãos de um único indivíduo não eleito manifestada na profunda desconfiança estrutural em
deveria ligar o alerta de todos. relação ao sistema político-econômico dos EUA e a seus

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 9
líderes. Os protestos estão chegando. Pessoas de todo o dos US$ 23 milhões que a Meta pagou pelo esquema de
espectro político acreditam cada vez mais que as únicas segurança pessoal de Mark Zuckerberg em 2020. Mas as
soluções possíveis estão fora do sistema político, e um tensões estruturais continuarão não sendo abordadas
número crescente delas vê a violência como resposta efetivamente, e continuarão a contaminar e infectar
legítima. É por isso que tantas pessoas estavam dispostas mais e mais aspectos da vida norte-americana.
a invadir o Capitólio em 6 de janeiro e porque dois
homens tentaram assassinar o então candidato Trump De todo modo, mudarão a política. Trump se tornará
(um quase conseguiu). Nenhum desses aspirantes a totalmente anticorporativo, refletindo as posições do
assassino eram figuras carismáticas, e por isso tiveram populista Vance e do indicado a Secretário de Saúde
pouco apoio popular. Não foi o caso de Luigi Mangione—o Robert F. Kennedy Jr.? Os empreendedores do lado
jovem formado por uma das melhores universidades do democrata aproveitarão a reação pública de “sim, mas...”
país que teria assassinado o CEO da UnitedHealthcare ao assassinato da UnitedHealthcare? Ou a revolução virá
e se tornou um herói popular em muitos cantos da para todos os políticos, enquanto movimentos radicais
internet. Essas tensões são também visíveis na aliança domésticos se tornam de repente uma ameaça real
entre Trump e oligarcas da tecnologia como Musk, vinda de dentro?
cuja defesa dos vistos de imigração para trabalhadores
qualificados gerou forte reação da base nativista de A virada do ano com um grande ataque terrorista
Trump e de defensores da “América Primeiro” no grupo cometido por um cidadão dos EUA em Nova Orleans e o
de Mar-a-Lago. Enquanto Trump atualmente fica do lado atentado suicida do Cybertruck contra um Hotel Trump
dos barões da tecnologia nesta questão, o racha ressalta em Las Vegas foi um começo sinistro para 2025 nesse
como os acordos oligárquicos podem facilmente colidir sentido... e isso foi em 1º de janeiro. Os Estados Unidos
com a raiva populista—e fraturar a coalizão de 2024 de responderam ao 11 de setembro se unindo e apoiando
Trump logo que ele assumir o poder. o presidente George W. Bush. Isso é inconcebível em
2025, quando esses ataques trarão divisão interna,
Oligarcas, protestos e um ambiente de (des)informação com cidadãos americanos vendo compatriotas do lado
instrumentalizado formam uma combinação tóxica. No oposto do espectro político como “inimigos do povo”.
curto prazo, isso significará mais segurança para líderes Não é a tendência que você quer ver no país mais
políticos e empresariais e suas famílias, à semelhança poderoso do mundo.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 10
3 Ruptura EUA-China
A trégua estabelecida pelos presidentes Joe Biden e Xi Jinping em Woodside, em novembro de
2023, manteve as tensões entre EUA e China sob controle no ano passado. A volta de Donald
Trump à Casa Branca vai interromper essa estabilidade, desencadeando uma separação
descontrolada na relação geopolítica mais importante do mundo e aumentando o risco de
perturbações econômicas e crise.
A relação mudará de trajetória devido a uma combinação de fatores—sendo um dos mais críticos deles a política comercial.
Trump buscará anunciar e implementar novas tarifas sobre produtos chineses logo que tomar posse (possivelmente
semanas depois) para usá-las para pressionar Pequim por um acordo. Ainda que a tarifa geral não vá chegar aos 60%
que Trump ameaçou, a taxa máxima sobre alguns produtos rapidamente aumentará para 50%-60% ou mais, e a taxa
média aplicada sobre todas as importações chinesas dobrará para cerca de 25% até o final de 2025. Mesmo um cenário
mais moderado, no qual as taxas máximas aumentam para apenas 40% (se a opinião de Scott Bessent, indicado para
a Secretaria do Tesouro, prevalecer sobre a de militantes do comércio como o Representante do Comércio Jamieson
Greer), cruzaria os limites de Pequim.

Apesar de entrarem em 2025 em uma posição econômica mais vulnerável que durante a última guerra comercial, os
líderes da China agora estão preparados para responder com mais vigor e estarão menos propensos a ceder, temendo
passar internamente a imagem de humilhação nacional. Os eventos de 2020—quando as relações se romperam durante
a pandemia de Covid-19—convenceram os líderes locais de que Washington está decidida a conter a ascensão da China
e, possivelmente, destituir o regime do Partido Comunista Chinês (PCC). As primeiras medidas do governo Trump em
múltiplas frentes—incluindo a nomeação de críticos severos da China, como Marco Rubio, Mike Waltz e Stephen Miller—
reforçarão essa convicção.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 11
O colapso nas relações entre EUA e China aprofundará a
animosidade e a desconfiança... e o risco de uma escalada não
intencional aumentará.

Um ponto chave a ser observado são as políticas ligadas a militar e regras mais maleáveis em relação a visitas de
tecnologia. O governo chinês e muitos cidadãos se opõem “trânsito” nos EUA para o presidente taiwanês William Lai
visceralmente às políticas norte-americanas, que veem e sua equipe, mas provavelmente nenhum desafio direto
como uma tentativa de congelar a tecnologia chinesa nos ao status quo.
níveis atuais e impedir o desenvolvimento econômico do
país. Mesmo eventos fora do controle de Trump, como Por enquanto, Pequim julga que suas táticas de pressão
o prazo de 19 de janeiro para que a ByteDance venda o estão contendo Lai, que é visto como um separatista
TikTok, vão incomodar os chineses comuns. Em relação irreversível. Lai não deve provocar grandes mudanças
aos controles de exportação, os linhas-duras de Trump enquanto sua popularidade for alta e a economia de
em questões de segurança devem colocar mais empresas Taiwan permanecer forte. Mas quaisquer movimentos
chinesas na lista de entidades, tornar o licenciamento sem precedentes dos EUA ou de Taiwan (por mais que
mais difícil, expandir controles para setores como sejam improváveis) desencadeariam uma forte resposta
biotecnologia, fechar lacunas que permitem driblar chinesa, incluindo violações das águas territoriais ou
regras, ampliar o uso de ferramentas extraterritoriais e do espaço aéreo de Taiwan. Se Pequim entender que
continuar as restrições de chips avançados estabelecidos Taipei fez movimentos significativos em direção a uma
na era Biden. Em um alerta a Trump, Pequim mostrou, maior independência de facto ou que Washington cruzou
em dezembro passado, que está pronta para retaliar seus limites—se, por exemplo, o secretário de defesa
contra os esforços dos EUA para conter tecnologias com visitar a ilha ou navios dos EUA fizerem uma escala—o
suas próprias restrições à exportação de minerais críticos. governo chinês pode escalar militarmente via bloqueio
ou apreensão de uma ilha mais afastada. Esses riscos
Ações que atinjam a legitimidade do PCC e vistos para crescerão conforme as eleições de Taiwan em 2028 se
estudantes chineses exacerbarão ainda mais as tensões. aproximarem e Pequim aumentar a pressão para evitar
Em seu primeiro mandato, Trump restringiu os vistos uma vitória de Lai, tornando mais difícil sustentar uma
concedidos para membros do PCC e teria tentado colocar narrativa de que a “reunificação” pacífica é possível.
a opinião pública chinesa contra o partido. Os opositores
da China no congresso continuarão trabalhando para Nem a China nem os EUA buscarão uma crise este ano, já
restringir a concessão de vistos para chineses que planejam que os líderes de ambos os países tentam se concentrar
estudar temas sensíveis à segurança nacional dos EUA— em questões domésticas. Xi enfrenta sérios desafios
outro movimento que provoca reações fortes no público econômicos, preocupações crescentes com a estabilidade
chinês. O primeiro relatório obrigatório do congresso social e um exército em desordem. Ele preferiria um
sobre os ativos dos membros do PCC criará mais atritos, ambiente externo estável enquanto resolve essas questões.
assim como qualquer outro movimento que a China veja Trump, por sua vez, não está interessado em provocar
como interferência em seus assuntos internos—incluindo uma crise no mercado doméstico de ações e gostaria de
sanções relacionadas à erosão da autonomia de Hong um acordo que pudesse vender como uma vitória. Com
Kong, referências de Rubio sobre genocídio em Xinjiang um governo unificado e controle consolidado sobre seu
durante sua audiência de confirmação como Secretário de partido, Trump está em uma posição melhor do que Biden
Estado, e alegações de que a Covid-19 foi resultado de um jamais esteve para negociar em uníssono.
vazamento de laboratório.
Mas não há condições estruturais para um acordo. O
Embora não seja um gatilho de crise imediata, a política que Pequim está preparada para oferecer—compras de
em relação a Taiwan contribuirá para o colapso. Radicais produtos agrícolas e exportações de energia, maior acesso
como Rubio e Waltz defenderão laços mais próximos com ao mercado para empresas americanas, investimentos
Taipei e desafiarão a “ambiguidade estratégica” em prol de nos EUA, assistência modesta na Ucrânia—não apaziguará
uma intervenção militar dos EUA, buscando dar a Taiwan Trump e os membros mais radicais de seu governo. Além
uma garantia mais explícita de segurança. Mesmo que disso, diferente da era de declínio administrado de Biden
Trump se importe pouco com Taiwan, seu governo (assim (durante a qual o ex-conselheiro de Segurança Nacional
como o congresso) vai acelerar a expansão de laços de Jake Sullivan e o Ministro das Relações Exteriores Wang
defesa e relaxará restrições em áreas sensíveis a Pequim. Yi forneciam uma direção para o relacionamento e
Espere mais sistemas de defesa assimétrica, treinamento coordenavam 25 diferentes canais bilaterais de alto nível),

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 12
Impacto potencial do aumento de tarifas por Trump
Todos em bilhões de US$, arredondados
Seção 301, Lista 1 Seção 301, Lista 2 Seção 301, Lista 3 Seção 301, Lista 4A Seção 301 Lista 4B
(jul/2018) (ago/2018) (set/2018, expandida mai/19) (set/2019, reduzida jan/20)

Não sujeitos a tarifas

Impacto atual das tarifas sobre volume de comércio de 2023


Tarifa de 25% Tarifa de 7,5% Sem tarifa
US$ 120 US$ 85 US$ 221

Total das importações US$ 426


Alíquota média aplicada Alíquota média aplicada ao total das
(arredondada) 18% importações (arredondada) 9%
Impacto ilustrativo dos aumentos esperados com base em dados de 2023
Tarifa de 50%-60% Tarifa de 15%-20% 7,5% Tariff Sem tarifa
US$ 120 US$ 85 US$ 180 $41

Total das importações US$ $426


Alíquota média aplicada Alíquota média aplicada ao total das
(arredondada) 27% importações (arredondada) 24%
Nota: Estimativas de receita são estáticas e não consideram efeitos dinâmicos como a redução de importações chinesas pelos EUA; receitas totais devem ser menores que essas estimativas.
Fontes: Censo dos EUA, dados da USITC, cálculos de Erika York da Tax Foundation, Eurasia Group

haverá mecanismos limitados de gestão e comunicação potencial força de moderação. Mas Pequim duvidará de
para sustentar as relações EUA-China sob Trump. sua capacidade de fechar negócios, e Musk não deve testar
sua influência em uma questão de política externa que ele
Juntas, as ações e retóricas do governo Trump terá bastante dificuldade de afetar.
sobrecarregarão os estabilizadores fracos do
relacionamento e resultarão em retaliação chinesa. Os custos da separação descontrolada serão significativos.
Pequim pode começar com tarifas simbólicas esperando As tarifas de Trump darão um golpe nas exportações
que a reação do mercado e inflacionária pressione Trump chinesas, o único ponto positivo que resta em uma
a suavizar sua posição, mas a resistência do futuro economia anêmica cuja demanda doméstica é
presidente dos EUA desencadeará respostas cada vez mais persistentemente fraca. As exportações para os EUA
duras: a suspensão das compras de produtos agrícolas respondem por 3% do PIB chinês; tarifas elevadas
norte-americanos; controles sobre a exportação de ameaçarão a capacidade de Pequim de cumprir suas
minerais críticos e sobre cadeias de suprimento de defesa; metas de crescimento. A China implementará estímulos
investigações direcionadas que restrinjam o acesso de mais fortes para compensar o impacto, mas a preferência
corporações americanas (especialmente empresas de de Xi pela estabilidade em detrimento do crescimento
semicondutores e ligadas a Xinjiang) ao mercado local; a significa que o apoio político continuará a ser gradual e
suspensão de canais diplomáticos, militares e de aplicação reativo, e a demanda doméstica permanecerá modesta.
da lei; e movimentos assimétricos como interceptações de Os americanos pagarão por meio de preços mais altos (ver
patrulhas dos EUA na região ou pressão sobre aliados dos Top Risk nº 4: Trumponomics). A separação descontrolada
EUA (atenção para a raiva de Pequim contra Manila em interromperá as cadeias de suprimentos globais e forçará
relação ao lançamento de mísseis Typhoon). Um grande uma reorganização dos fluxos comerciais, aumentando
exercício militar chinês perto de Taiwan ou do Mar do Sul custos para empresas e consumidores de todo o mundo
da China será possível. (ver Top Risk nº 7: Empobrecendo o mundo).

Duas incógnitas pairam sobre os laços EUA-China este ano: Mais partes da economia global se fragmentarão conforme
Trump e Elon Musk. A forma como o presidente eleito usa os EUA sobem os muros em torno de cada vez mais arenas
seu relacionamento pessoal e seu primeiro encontro com econômicas consideradas críticas para a segurança
Xi afetarão o timing do colapso, mesmo que não altere sua nacional, potencialmente atingindo novos setores, como
trajetória geral. Enquanto isso, os interesses comerciais saúde, com restrições de exportação e investimento. A
do assessor-chefe Elon Musk na China fazem dele uma eficiência e a inovação sofrerão. A maioria dos países não

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 13
tem interesse em participar de uma nova Guerra Fria, o O colapso nas relações aprofundará a animosidade e a
que faz com que ela seja improvável num futuro próximo. desconfiança... e o risco de uma escalada não intencional
Mas aliados e parceiros comerciais-chave dos EUA, como aumentará. Embora nenhum dos lados queira um
Japão, Coreia do Sul, México e a UE, podem ser cada vez confronto, evitar um embate no próximo ano exigirá uma
mais forçados a escolher lados—pelo menos em relação diplomacia desafiadora e equilibrada.
ao crescente número de áreas relacionadas à segurança
nacional—a um custo significativo para suas economias.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 14
4 Trumponomics
Donald Trump está prestes a herdar uma economia americana robusta, mas suas políticas vão
debilitar esta força este ano, com mais inflação e crescimento reduzido.

A economia dos EUA entra o ano em boa forma. A produção está acima das tendências pré-pandemia, diferente de outras
grandes economias. O desemprego segue baixo, pairando em torno de 4%. A inflação está se aproximando da meta de 2%
do Federal Reserve, permitindo que as taxas de juros comecem a recuar de seu pico. E tanto os mercados de ações quanto
o sentimento empresarial demonstram otimismo de que o melhor está por vir.

Eles estão prestes a se decepcionar. A agenda do presidente eleito Trump traz riscos para as perspectivas econômicas
dos EUA que estão sendo subestimados. Duas das principais promessas de campanha de Trump serão particularmente
prejudiciais.

Primeiro, ele prometeu aumentar significativamente as tarifas (“a melhor coisa já inventada”) para corrigir práticas
“injustas” e reduzir o déficit comercial dos EUA, que ele vê como intrinsecamente ruim para o país. A China será afetada
à medida que Trump impuser tarifas de 50% a 60% sobre alguns bens e praticamente dobrar para quase 25%, até o
final de 2025, a tarifa média aplicada sobre todas as importações chinesas. Ainda que isso fique bastante aquém da
tarifa padrão de 60% que Trump ameaçou impor sobre todas as importações chinesas, Pequim se sentirá compelida
a responder—primeiro, aumentando tarifas sobre importações dos EUA e, depois, mirando as dependências dos EUA
em minerais críticos e cadeias de suprimentos—e a relação EUA-China se tornará uma separação descontrolada (ver
Top Risk nº 3: Ruptura EUA-China). Consumidores e empresas norte-americanos pagarão preços mais altos por bens e
insumos importados; o dólar também se fortalecerá, tornando as exportações dos EUA menos competitivas.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 15
Trump cumprirá a maioria de suas principais promessas de
campanha, com efeito maior sobre a economia dos EUA do que
empresas e investidores esperam.

Parceiros comerciais com grandes superávits bilaterais A redução da imigração ilegal e as deportações em massa
ou que ajudem a China a evadir as tarifas norte- reduzirão a força de trabalho dos EUA, aumentarão
americanas também estarão na mira do “Homem salários e preços ao consumidor e reduzirão a capacidade
Tarifa”, assim como países que Trump acha que estão produtiva da economia. A imigração legal não preencherá
se aproveitando da proteção dos EUA ou que não estão essa lacuna. Empresas nos setores que dependem mais
pagando o suficiente pelo que recebem do país. Trump da mão de obra imigrante, como agricultura, construção
usará ameaças tarifárias para extrair concessões de seus e hospitalidade, serão especialmente afetadas conforme
parceiros comerciais, mas não hesitará em colocá-las houver menos desses trabalhadores. Os indocumentados
em prática, acreditando que reduzirão materialmente os também são consumidores e contribuintes (contribuindo
desequilíbrios macro e beneficiarão os EUA. Este ano, para o Seguro Social e o Medicare, além de pagar bilhões
México, Vietnã, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Canadá e em impostos federais, estaduais e locais); a repressão
Europa estarão vulneráveis a ameaças tarifárias. Apesar prejudicará o crescimento da demanda e ampliará o
dos custos, muitos alvos cederão às exigências de Trump déficit federal.
para evitar tarifas, concedendo-lhe vitórias iniciais (ver
Pistas Falsas: Trump fracassa) e encorajando-o a reforçar Juntas, as políticas comerciais e de imigração de Trump
sua abordagem transacional; esse será o caso do México irão pesar sobre o crescimento econômico dos EUA e
(ver Top Risk nº 10: Impasse Mexicano). estimular a inflação. Dois outros componentes do mix de
políticas de Trump vão estimular o crescimento, mas não
Outros países retaliarão com suas próprias medidas, que devem impulsioná-lo tanto quanto mercados e empresas
prejudicarão exportadores americanos e aumentarão esperam—certamente não o suficiente para compensar as
o risco de uma guerra comercial global disruptiva. No consequências das tarifas e deportações.
pior cenário, cadeias de suprimentos críticas podem ser
rompidas, e o comércio global pode desacelerar a ponto Uma é a desregulamentação. O setor financeiro, as
de a economia dos EUA entrar em recessão. Mesmo que big techs, a indústria de criptomoedas e os produtores
guerras comerciais do tipo olho por olho, dente por dente, de combustíveis fósseis se beneficiarão de um regime
sejam evitadas (o que é mais provável), os aumentos regulatório mais permissivo sob Trump. Mas o impacto
tarifários iniciais dos EUA ainda irão prejudicar as cadeias macro será limitado: a economia dos EUA já está entre
de suprimentos, distorcer fluxos comerciais e aumentar as mais desregulamentadas do mundo desenvolvido, e
custos para empresas e consumidores norte-americanos— grande parte dos resultados mais fáceis já foram obtidos
sem reduzir significativamente o déficit comercial geral em Trump 1.0. A produção de energia doméstica já está
dos EUA. Os norte-americanos de baixa renda são os mais em altas recordes, por exemplo, e a queda nos preços do
propensos a ser afetados. petróleo vai desencorajar o crescimento da produção este
ano. Reformas no processo de licenciamento para projetos
O segundo pilar fundamental da política econômica de de petróleo, gás e infraestrutura devem desencadear uma
Trump é sua agenda em relação à fronteira. O governo nova onda de investimentos, mas isso ocorreria ao longo
Trump tomará medidas para reprimir a imigração de vários anos, não em 2025.
na fronteira sul—como reinstalar programas como
“Permaneça no México” e o Título 42—, reduzir programas A segunda é a promessa de impostos mais baixos. Os
de liberdade condicional e aumentar o financiamento republicanos vão tornar permanentes os cortes de
para que agências de fiscalização deportem imigrantes impostos para corporações e ricos feitos por Trump em
indocumentados em massa. Trump não expulsará os 15 a 2017 e que que expiram no final de 2025, a um custo de
20 milhões de imigrantes que prometeu na campanha—o mais de US$ 4,5 trilhões ao longo de dez anos em relação
número de imigrantes indocumentados vivendo no país à lei atual. Mas com o déficit fiscal dos EUA em 6,5%
pode nem chegar a isso. Mas com linhas-duras como do PIB e apenas uma pequena maioria republicana na
Stephen Miller e Tom Homan encarregados de executar câmara, Trump não deve conseguir reduzir ainda mais os
sua agenda, Trump pode deportar até 1 milhão de pessoas impostos sem fazer cortes nos gastos para compensar as
em 2025 e mais de 5 milhões (mais provavelmente entre 3 perdas fiscais. Mesmo se o Departamento de Eficiência
e 3,5 milhões) ao longo dos quatro anos de seu mandato. do Governo (DOGE), liderado por Elon Musk e Vivek

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 16
Preocupações com tarifas aumentam, mas executivos seguem complacentes em relação a outros
riscos relacionados a Trump
Menções de palavras-chave em transcrições de teleconferências feitas pela S&P com executivos

Perturbações nas cadeias Escassez de


Tarifas de suprimentos mão de obra Inflação
200 1.000 100 1.200

800 1.000
80
150
800
600 60
100 600
400 40
400
50
200 20
200

0 0 0 0
20 21 022 023 024 20 21 022 023 024 20 21 022 023 024 20 021 022 023 024
20 20 2 2 2 20 20 2 2 2 20 20 2 2 2 20 2 2 2 2
Fonte: Bloomberg

Ramaswamy, conseguir algumas economias de custos e Além disso, Trump 2.0 não é Trump 1.0. O presidente eleito
ganhos de eficiência no orçamento federal, o escopo das não só tem um governo unificado e controle consolidado
reduções de despesas será limitado. Ainda assim, os níveis sobre o Partido Republicano como está montando um
de déficit e dívida em relação ao PIB—já sem precedentes gabinete mais leal e ideologicamente alinhado a ele que da
em tempos de paz—devem aumentar durante o mandato última vez. A equipe de Trump assumirá o cargo pronta para
de Trump, pressionando para cima as taxas do Tesouro e os implementar—em vez de frustrar—sua agenda.
custos de empréstimos de longo prazo.
Isso não significa que a escala real da disrupção política
A combinação de déficits mais altos, pressões inflacionárias corresponderá à retórica da campanha de Trump. A
e uma força de trabalho menor obrigará o Federal Reserve a implementação das tarifas pode ficar abaixo das expectativas,
manter as taxas de juros mais altas por mais tempo do que especialmente se parceiros comerciais cederem às
faria em outra situação, fortalecendo ainda mais o dólar e exigências de Trump. Algumas ameaças certamente foram
limitando ainda mais o crescimento dos EUA. Isso gerará só blefes. Bloqueios logísticos e políticos limitarão a escala
tensões com Trump, que pode tentar influenciar o presidente das deportações em massa. O lobby de CEOs importantes,
do Fed, Jerome Powell, a flexibilizar a política, assustando de assessores como Musk e de membros respeitados do
os mercados e forçando Powell a reforçar sua posição para gabinete, como o indicado à Secretaria do Tesouro, Scott
sinalizar sua independência. Junto com as tarifas dos EUA, Bessent, pode convencer Trump a moderar suas políticas
juros mais altos e um dólar em alta também irão abalar uma mais disruptivas. Números de inflação ruins ou uma crise
economia global já sofrendo com o crescimento fraco (ver nos mercados antes das eleições de 2026 o pressionariam a
Top Risk nº 7: Empobrecendo o Mundo). suavizar suas posições.

Muitos líderes empresariais e investidores estão inclinados Mas Trump cumprirá a maioria de suas principais promessas
a minimizar esses riscos. Afinal, eles se lembram de como de campanha , e com efeito maior sobre a economia dos EUA
a economia se saiu bem durante o primeiro mandato de do que empresas e investidores esperam. E isso não é tudo.
Trump e estão céticos sobre as intenções de Trump e sua A própria incerteza sobre o que Trump fará ou não fará,
capacidade de implementá-las. inerente ao estilo de governança personalista do presidente
eleito (ver Top Risk nº 2: Domínio de Trump), aumentará
Mas o segundo governo Trump começará sob circunstâncias a volatilidade e a incerteza na política econômica e atuará
macroeconômicas diferentes das do primeiro. As avaliações como um obstáculo ao comércio, ao investimento e ao
corporativas em relação aos ganhos são muito mais altas que crescimento de 2025 em diante. No longo prazo, isso poderá
em 2017. Os déficits são estruturalmente maiores, e a dívida minar a previsibilidade e o desempenho da economia mais
do governo como percentual do PIB aumentou desde a dinâmica do mundo, principal destino de investimentos e
pandemia. A inflação ainda está um pouco acima da meta, e emissora da moeda de reserva global.
as taxas de juros seguem altas. Em comparação com 2017, os
riscos econômicos negativos são significativamente maiores.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 17
5 Rússia continua pária
A Rússia é a principal potência pária do mundo—e por larga margem, depois que a capacidade
do Irã de projetar poder colapsou (ver Top Risk nº 6: Irã em apuros). Este ano, Moscou vai
buscar implementar mais políticas que minem a ordem mundial liderada pelos EUA, apesar
do provável cessar-fogo na Ucrânia. A Rússia adotará medidas hostis e assimétricas contra
países da UE—particularmente, aqueles na linha de frente—enquanto eles continuam a adotar
políticas anti-Rússia. O país também seguirá como líder do eixo dos párias (ver Top Risk nº 5
do ano passado: Eixo dos párias)—a parceria militar estratégica com o Irã e a Coreia do Norte
que pode perturbar significativamente a estabilidade global este ano.

Os objetivos revisionistas de Putin em relação ao Ocidente liderado pelos EUA são um motor central de sua política
externa. O presidente russo se opõe fortemente à expansão da OTAN e à exclusão da Rússia do sistema de segurança
europeu. Essas queixas estão por trás do desejo de Putin de minar as democracias ocidentais e provocar caos no sistema
de alianças ocidentais liderado pelos EUA.

Putin acredita que a Rússia está em guerra com a OTAN na Ucrânia e que a vitória tem importância existencial. Ao longo
do conflito, a necessidade russa de obter armas e tropas levou à formação do eixo com a Coreia do Norte e o Irã. Moscou
recebeu grandes e importantes remessas de armas e munições de ambos os países, e mais de 10 mil norte-coreanos estão
lutando e morrendo para ajudar a retomar terras russas na região de Kursk.

No início deste ano, tanto Rússia quanto Ucrânia buscarão alavancagem nas negociações futuras e estarão mais dispostas
a correr riscos. Isso significa ataques mais intensos com mísseis e drones nos territórios um do outro, combates pesados

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 18
A campanha híbrida da Rússia em 2024 da UE para assumir mais custos da guerra. O presidente
Incidentes atribuídos formalmente a atores russos ou com suspeita ucraniano Volodymyr Zelensky precisa pausar os combates
de envolvimento russo porque a Ucrânia está perdendo a guerra lentamente. A
Jan pressão de Trump por um cessar-fogo aliviaria o possível
Infiltração em uma estação de tratamento de
água no Texas, EUA (ataques cibernéticos impacto político dessa decisão impopular, já que Zelensky
similares miraram instalações de água na poderia argumentar que foi obrigado pelo presidente dos
França e na Polônia) EUA a aceitar o cessar-fogo.
Interferência no sinal de GPS na região do
Báltico força desvio de avião que transportava o Enquanto isso, o exército de Putin está avançando
ministro da Defesa do Reino Unido no campo de batalha, e será mais difícil convencer o
Mar Incêndio em armazém ligado à presidente russo a aceitar um cessar-fogo. Mas após 600 mil
Ucrânia em Londres, Reino Unido baixas e três anos de sanções, a Rússia tem seus próprios
problemas iminentes de mão de obra e econômicos, e
Revelada campanha cibernética Putin concordará, em parte como um investimento em
Abr contra ferrovias europeias
seu relacionamento com Trump.

Campanha de desinformação ajuda a instigar Os termos do cessar-fogo congelarão as forças no local


Mai protestos anti-França na Nova Caledônia onde estão e deixarão a Rússia de fato no controle do
território conquistado—uma grande concessão à Rússia.
Incêndio em armazém da
Ikea em Vilnius, Lituânia
O acordo, no máximo, vai tornar confusa a questão do
relacionamento da Ucrânia com a OTAN, de modo que os
Incêndio destrói o maior shopping dois lados possam reivindicar vitória, embora a realidade
center de Varsóvia seja clara: a Ucrânia só poderá aderir ao bloco num futuro
muito distante, se muito. Mas embora uma pausa nos
Jul Plano de assassinato contra o CEO combates seja provável, um acordo de paz não é. A Rússia
da empresa alemã de defesa
Rheinmetall é revelado
ainda desejará mudar o regime em Kiev e conseguir
a cessão formal do território pela Ucrânia. A Ucrânia
planejará continuar existindo para, no futuro, poder
Dispositivos explosivos são encontra-
retomar o território. Ambos os lados vão se rearmar, e
dos em centros de carga da DHL no combates esporádicos continuarão ao longo da linha de
Reino Unido e na Alemanha controle. O frágil cessar-fogo deve continuar ao longo
deste ano, mas não muito além.
Interferência na eleição na Moldávia

O cessar-fogo pode minar a arquitetura de segurança


Interferência na eleição presidencial da Romênia europeia pós-guerra, deixando o continente exposto a
Out
leva ao cancelamento dos resultados
novos ataques russos—na Ucrânia e para além de suas
fronteiras. Os países nórdicos, bálticos e a Polônia veem
Cabos de internet submarinos para a a Rússia como uma ameaça existencial e usarão todos os
Nov Europa são danificados no Mar Báltico
recursos disponíveis para fortalecer a estrutura militar da
Ucrânia durante o cessar-fogo. França, Alemanha, Itália e
Ameaças de bomba a instalações eleitorais
outros devem seguir a liderança dos países europeus mais
na Geórgia, EUA, no dia da eleição
Dez agressivos—apoiando o acordo enquanto também buscam
dar garantias de segurança à Ucrânia e reforçar as defesas
Infraestrutura submarina danifica- do país e da UE. Todos os membros da UE e o Reino Unido
da no Mar Báltico
devem adiar a possibilidade de aliviar as sanções contra
Fonte: Eurasia Group a Rússia, alinhando-se com a provável posição dos EUA e
condicionando a retirada das restrições ao progresso nas
negociações de paz. Os europeus também manterão os
nas linhas de frente e tentativas de assassinato por ambos ativos russos congelados, já que o cessar-fogo não tratará
os lados visando membros das elites. A dinâmica será de de reparações.
escalada.
Também relevante para as ambições russas é a abordagem
Nesse cenário, o presidente eleito Donald Trump transacional de Trump em relação à OTAN, que
provavelmente alcançará mais adiante, ainda este ano, enfraquecerá a aliança e encorajará Putin. Embora Trump
o cessar-fogo que almeja. Ele quer que os combates não vá tentar retirar os EUA da aliança, a credibilidade das
sejam interrompidos, independentemente dos esforços garantias de segurança do Artigo 5 dependerá de que os

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 19
Nenhum outro país no mundo está fazendo mais para subverter
diretamente a ordem global do que a Rússia.

países cumpram as demandas de Trump, aumentando seus um cabo no Mar Báltico, na costa da Finlândia. Moscou
gastos com defesa e reduzindo seus superávits comerciais continuará tentando provocar incêndios e assassinatos
bilaterais com os EUA. Trump manterá ativos militares e interferindo em sistemas de GPS de aeroportos. Além
importantes na Europa, mas retirará os norte-americanos disso, seguirá usando o Telegram para influenciar pontos
dos rodízios de tropas, incluindo os mais caros na Europa de vista pró-Kremlin nos cidadãos de países europeus e
Oriental—expondo os países da linha de frente. voltá-los contra seus próprios governos.

Em resposta, Moscou manterá suas políticas párias A Rússia também priorizará suas relações com o Irã e a
em relação aos países no Ocidente que se opõem Coreia do Norte. Moscou precisará de armas e tropas
diretamente à Rússia. Antes do cessar-fogo, isso significa para guerrear antes do cessar-fogo e para se rearmar
esforços contínuos para intimidar os países da UE. Após depois dele. Em troca, a Rússia fornecerá aos dois países
a interrupção dos combates, a Rússia estará em uma tecnologias avançadas de armamentos, aumentando sua
posição um pouco mais forte em relação tanto à Ucrânia capacidade de perturbar a geopolítica. O maior risco
quanto à OTAN, tendo alcançado pelo menos alguns de será a política russa em relação aos programas nucleares
seus objetivos territoriais. Mas os países da UE e a Rússia da Coreia do Norte e do Irã. O principal objetivo do
ainda perseguirão políticas diplomáticas e de segurança líder supremo norte-coreano Kim Jong-un é adquirir a
hostis uns em relação aos outros, sabendo que um acordo tecnologia que permite que uma ogiva nuclear reentre na
de paz está fora de alcance e que o cessar-fogo é tênue e atmosfera terrestre e atinja um alvo. A Rússia vai ajudá-
não deve durar. A ótica da política EUA-Rússia melhorará lo. Enquanto isso, o Irã pode buscar a ajuda da Rússia na
por causa do relacionamento Trump-Putin, mas quase militarização de seu programa nuclear, o que, por sua vez,
nada além disso mudará na geopolítica. poderia causar distúrbios na geopolítica no Oriente Médio
(ver Top Risk nº 6: Irã em apuros).
Como resultado, a Rússia interferirá ao longo do ano na
política interna dos países que considera adversários, O Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, disse em
buscando táticas como as usadas na Romênia em dezembro passado que Moscou estava “se preparando para
novembro passado—onde realizou ciberataques e usou um confronto de longo prazo com a Ucrânia e conosco”.
outras ferramentas para influenciar materialmente o Nenhum outro país no mundo está fazendo mais para
resultado das eleições presidenciais. Além disso, Moscou subverter diretamente a ordem global do que a Rússia. Em
deve atacar cabos submarinos; o petroleiro Eagle S da 2025, seus esforços vão se intensificar.
frota fantasma russa, por exemplo, pode ter cortado

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 20
6 Irã em apuros
O Oriente Médio seguirá instável em 2025, por uma grande razão: há décadas o Irã não ficava
tão fraco.

A posição geopolítica do Irã sofreu uma série de golpes devastadores desde os ataques de 7 de outubro. Primeiro, seu
cliente Hamas foi derrotado pela ofensiva implacável de Israel em Gaza. Então, a joia da coroa de sua rede de aliados,
o Hezbollah, foi quase obliterada após perder todos os seus líderes e milhares de combatentes em ataques aéreos
israelenses, antes de concordar com um cessar-fogo e se retirar do sul do Líbano em novembro passado. Semanas depois,
o aliado do Irã Bashar al Assad foi subitamente destituído do poder na Síria. Com este golpe triplo, o Eixo da Resistência
foi efetivamente destruído. Embora o Irã ainda tenha algum controle (ainda que não total) sobre as milícias xiitas no
Iraque e os houthis no Iêmen, sua estratégia de décadas de usar aliados para deter Israel e projetar poder regionalmente
chegou ao fim.

O Irã ainda mantém um arsenal formidável de mísseis e drones. Mas eles têm utilidade limitada contra Israel, a mais
de 1,5 mil quilômetros de distância e bem-defendida graças a sua superioridade militar e tecnológica esmagadora e ao
apoio dos EUA. O Irã também tem seu programa nuclear, e o país teria capacidade para ter uma bomba pronta para uso
em cerca de seis meses—ainda que deva precisar de pelo menos um ano para desenvolver uma ogiva suficientemente
pequena para caber em um míssil. No entanto, qualquer movimento para construir uma arma seria provavelmente
rapidamente detectado e provocaria ataques preventivos rápidos dos EUA e de Israel. Simplificando, o Irã está na mira.

Por outro lado, Israel está em ascensão. Encorajado pelos sucessos militares do ano passado e com a popularidade
doméstica em alta, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu vê a fraqueza atual de Teerã como uma oportunidade única
para dar um golpe decisivo no inimigo de Israel. Um ataque bem-sucedido contra o Irã também ajudaria Netanyahu

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 21
Teerã é um leão ferido, mas ainda tem garras.

a consolidar sua posição política em casa. Isso significa, 1989 da República Islâmica?) deixará Trump e os membros
no mínimo, mais esforços israelenses para desmantelar anti-Irã de sua equipe tentados—e o presidente eleito pode
ainda mais os aliados do Irã na região este ano. Também muito bem aproveitar este ano. Ele deve agir em algum
deve resultar em operações secretas contra o Irã por meios momento dos próximos quatro anos, exceto se houver
assimétricos, como assassinatos de cientistas nucleares alguma improvável conquista diplomática.
e de líderes do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica
(CGRI), sabotagem de infraestrutura crítica, espionagem, Mas Trump não deve agir em 2025. Bombardear o Irã
ataques cibernéticos e similares. Israel também pode significaria efetivamente declarar guerra à República
optar por atacar o Irã sem provocação para deteriorar Islâmica. Embora o presidente eleito dos EUA tenha uma
ainda mais suas capacidades militares convencionais ou postura belicosa, ele expressou repetidamente ser contra
suas instalações de produção e exportação de petróleo. envolver o país em novas guerras. Trump relutará em
Como provou no ano passado, Israel pode escalar correr o risco de uma grande guerra envolvendo muitos
unilateralmente à vontade tanto a guerra das sombras dias de ataques às defesas aéreas iranianas, instalações
quanto a guerra de mísseis, e há pouco que o Irã possa de comunicações e locais nucleares fortificados durante
fazer para retaliar. seu primeiro ano de volta à Casa Branca—especialmente
se isso puder comprometer sua agenda econômica. Isso
Mas e quanto ao programa nuclear do Irã? Israel está porque uma das principais vias para o Irã retaliar seria
ansioso para atacar, mas carece de armas para destruir atacar a infraestrutura energética do Golfo Pérsico—bem
as instalações subterrâneas iranianas. Sozinhos, os ao alcance de seus mísseis e drones e um alvo muito mais
israelenses podem, no máximo, atrasar o programa vulnerável que Israel. Ataques a instalações de petróleo
por alguns meses, o que, por sua vez, levaria Teerã a sauditas e dos Emirados Árabes poderiam elevar os preços
redobrar seus esforços para se armar. Para causar um do petróleo, e um esforço para interromper o tráfego pelo
impacto significativo, Netanyahu precisa de bombas de Estreito de Ormuz (a opção mais extrema do Irã) elevaria
13 mil quilos destruidoras de bunkers, especialmente os preços a mais de US$ 100 por barril. Nem Trump nem
projetadas para atravessar as fortificações dos locais de seus amigos no Golfo querem isso.
enriquecimento do Irã. Donald Trump poderia entregar
essas munições a Israel ou mobilizar bombardeiros A menos que o Irã coloque em prática rapidamente um
estratégicos dos EUA. Esta última seria uma opção mais plano para ter uma bomba (improvável, uma vez que
eficaz, mas mais custosa para os Estados Unidos. De o presidente reformista Masoud Pezeshkian e o Líder
qualquer forma, Israel precisa de apoio direto dos EUA. Supremo Ali Khamenei querem um acordo com os EUA
que alivie as sanções sobre sua debilitada economia),
A chance de derrubar o programa nuclear do Irã e Trump não vai querer iniciar uma guerra com o Irã
possivelmente ajudar a derrubar o regime (ver Box 2: O imediatamente. Em vez disso, seu governo vai inicialmente

Fim do “Eixo de Resistência” do Irã


SÍRIA Regime de Assad
Dez/24: regime de Assad desmorona
em ofensiva rebelde de duas semanas
IRAQUE milícias iraquianas
Dez/24: falharam em intervir na Síria
IRÃ

LÍBANO Hezbollah
Nov/24: assina cessar-fogo após
campanha israelense que elimina GAZA Hamas
liderança e arsenal de armas pesadas 2023-2024: dizimado durante
a campanha israelense em
Gaza, líderes assassinados

IÊMEN Houthis
2023-2024: alvo de seguidos ataques aéreos
dos EUA e de Israel

Fonte: Eurasia Group

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 22
se contentar com um retorno à “pressão máxima” para muito, dado seu apoio extremamente forte a Israel.
obter concessões de Teerã. Ele terá muito espaço para Qualquer movimento agressivo poderia ultrapassar os
endurecer sanções, aumentar o rigor da aplicação da limites vagamente definidos de Teerã e desencadear uma
lei e a pressão diplomática sem ações militares diretas. resposta iraniana; Israel fará muitos desses movimentos
Mesmo que Trump evite perseguir as refinarias chinesas este ano, à medida que a guerra das sombras avançar para
que compram 90% do petróleo bruto do Irã (o que seria a luz. Teerã é um leão ferido, mas ainda tem garras—seu
uma escalada sem precedentes contra Pequim), ele ainda arsenal massivo de mísseis e drones—e pode ser levado a
pode reduzir as exportações do Irã em um terço, de 1,5 outro confronto direto de mísseis com Israel. Como nos
milhão para menos de 1 milhão de barris por dia (bpd), episódios do ano passado, a diplomacia provavelmente
apenas sancionando a “frota fantasma” de petroleiros que manteria a escalada sob controle. Mas qualquer acidente
movimentam o petróleo por canais ilícitos. O Irã tentará ou erro de cálculo que resulte em um número significativo
se envolver, mas, dada sua vulnerabilidade extrema, o de baixas israelenses ou americanas poderia desencadear
regime não deve concordar com os cortes profundos e uma espiral perigosa de escalada, com implicações
restrições a seu programa nuclear que Trump vai exigir. materiais para a oferta e o preço do petróleo.

Israel, por sua vez, escolherá esperar até que Trump Se o regime iraniano for ameaçado internamente (ver Box
concorde com um ataque conjunto ao programa nuclear 2: O 1989 da República Islâmica?), seus líderes, incluindo os
do Irã. Afinal, Trump ficará no cargo por quatro anos, o do CGRI, serão tentados a ampliar o conflito para desviar
que permitirá a Netanyahu convencê-lo a agir quando se a atenção. Com menos a perder e capacidade limitada
tornar claro que não haverá avanço por vias diplomáticas. para reconstruir sua rede de aliados, eles também podem
Além disso, Israel é forte, mas não invencível, e a República decidir que chegou a hora de construir uma bomba—como
Islâmica ainda tem um arsenal de mísseis balísticos e única maneira de restaurar a dissuasão se, em última
drones (além dos houthis e das milícias iraquianas) que instância, a diplomacia com os EUA e o Ocidente falhar.
poderiam ameaçar sua segurança. Com Netanyahu ainda Finalmente, mesmo que Teerã genuinamente queira um
determinado a normalizar as relações com a Arábia acordo, há uma grande chance de que Trump julgue que
Saudita, ele precisa estar confiante de que tem os EUA os iranianos não estão falando a sério—ou seja convencido
e o mundo árabe do seu lado—especialmente Riad, que disso por seus assessores belicosos e por Netanyahu—e
atualmente está em dúvida—antes de se comprometer avance com planos para acabar com o programa nuclear
com uma campanha para derrubar o programa nuclear do Irã antes que o país possa produzir uma arma.
do Irã.
Com tanto em jogo e ninguém no comando, o conflito com
Ainda assim, há muito espaço para uma escalada a República Islâmica se tornou o risco mais significativo
descontrolada este ano. Netanyahu poderia abusar de sua no Oriente Médio.
sorte, enquanto Trump provavelmente não o restringiria

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 23
Box 2: O 1989 da República Islâmica?
2025 se parece cada vez mais com o 1989 do Irã. os protestos “Mulheres, Vida,
Assim como Mikhail Gorbachev nos dias finais da Liberdade” de 2022-2023 e a
União Soviética, o reformista moderado Masoud repressão brutal que se seguiu.
Pezeshkian enfrenta o desafio de sustentar um Khamenei, com 85 anos e saúde
sistema enfraquecido por uma economia moribunda, debilitada, exerce influência sobre as várias
liderança decadente, fracassos na política externa e facções em conflito, incluindo reformistas liderados por
legitimidade interna em colapso. A pressão popular Pezeshkian e linhas-duras no CGRI. Comprometida a
contra o regime está crescendo, especialmente em manter a segurança do regime e mais do que disposta
províncias como Sistan/Baluchistão, onde o exército a usar força contra sua própria população, a República
iraniano está lutando contra uma insurgência de Islâmica não deve colapsar tão rapidamente quanto
bases. Os soviéticos perderam seu bloco oriental antes Assad na Síria. (Ainda) não é o 1991 do Irã.
que a explosão das nacionalidades dentro das antigas
repúblicas soviéticas ameaçasse a própria união. Após Mas 2025 é um ano crucial. O regime está historicamente
o colapso de seu Eixo da Resistência, o Irã está agora fraco tanto regionalmente quanto internamente e
maduro para uma grande luta interna. enfrentará pressão crescente para corrigir o rumo para se
salvar. A morte, incapacitação ou renúncia de Khamenei
Mesmo sem a ameaça de um ataque de Israel ou dos poderia vir a qualquer momento, e desencadearia uma
EUA, o Irã enfrenta uma crise. As sanções ocidentais, crise de sucessão enquanto seus possíveis substitutos
agravadas pela má gestão econômica e corrupção, disputam o trono. Um retorno dos EUA à “pressão
deixaram sua economia com inflação alta persistente, máxima” e dificuldades contínuas em atender às
crescimento lento e desemprego. Embora o Irã tenha necessidades energéticas internas poderiam fazer a
as segundas maiores reservas de gás natural do mundo, economia do Irã implodir. Khamenei, em seus anos de
o consumo descontrolado de combustível e anos de declínio, enfrentará uma escolha crucial: negociar com
subinvestimento em novos suprimentos levaram a Trump, engolindo seu orgulho e desistindo do programa
faltas de gás severas e apagões. Queimar petróleo para nuclear para conseguir que as sanções sejam aliviadas;
compensar essa deficiência fez com que o Irã tivesse ou reverter sua fatwa banindo armas nucleares para
algumas das cidades mais poluídas do mundo. Tudo isso, restaurar a dissuasão perdida com o colapso do Eixo da
junto com as políticas repressivas em curso promovidas Resistência, arriscando ser atacado pelos EUA e Israel,
pelos linha-dura da República Islâmica, criou uma transformando o Irã em um estado-bunker e expondo o
população profundamente descontente que desistiu da regime ao colapso interno.
política do regime.
Ambos os caminhos podem levar ao fim da República
A liderança clerical e militar do Irã se mantém no poder Islâmica. Como sempre, a principal prioridade do regime
graças a uma base de apoio linha-dura e a um arsenal será sua própria sobrevivência. Mas as possibilidades
de ferramentas repressivas, que foram vistas durante estão se esgotando.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 24
7 Empobrecendo o mundo
Os mercados globais estão entusiasmados com a expectativa de uma expansão econômica
global fortalecida em 2025. Mas terão uma surpresa desagradável. As duas maiores economias
do mundo estão prestes a exportar desordem para todas as demais neste ano, interrompendo a
recuperação global e acelerando a fragmentação geoeconômica.

A economia da China está registrando seu desempenho mais fraco em décadas (ver Top Risk nº 6 do ano passado: China
sem recuperação). Uma crise imobiliária crescente, dívidas em alta e a queda da confiança expuseram os limites do
modelo de crescimento de Pequim. Em vez de fazer reformas difíceis para impulsionar o consumo das famílias, Xi
Jinping está redobrando o foco no que a China faz de melhor: exportações. Indústrias chinesas estão produzindo muito
mais carros, painéis solares e eletrônicos do que o mercado interno pode absorver. O resultado é um problema de
supercapacidade que a China está tentando despejar no exterior, com seu superávit comercial já ultrapassando US$ 1
trilhão e crescendo.

Entra Donald Trump. O plano do presidente eleito de usar tarifas para corrigir práticas “injustas” contra os Estados
Unidos jogará gasolina em uma situação já inflamável (ver Top Risk nº 4: Trumponomics). Ainda que Trump possa obter
concessões com suas ameaças tarifárias (ver Pistas Falsas: Trump fracassa), elas por vezes provocarão retaliações, como
no caso da China (ver Top Risk nº 3: Ruptura EUA-China). As políticas de Trump também fortalecerão o dólar e manterão
os juros dos EUA altos, aumentando a pressão sobre o resto do mundo no momento em que estará menos preparado para
lidar com isso.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 25
Número de novas intervenções comerciais Custo do serviço da dívida do governo, atual e
nocivas implementadas a cada ano estimativas (% do PIB)
Mundo, avançado Mundo, emergentes
Estimativa 2.50
4.000 2,5
2.45
3.500

3.332
3.000
2,0
2.500

2.000

1.500
1,5
1.000

500
354
0 1,0
2009 2012 2015 2018 2021 2024 2011 2014 2017 2020 2023 2026 2029

Fonte: Global Trade Alert Fonte: FMI


Nota: Intervenções no comércio classificadas como nocivas pelo Global Trade Alert

Essa combinação trará problemas para países pelos EUA de políticas para empobrecer seu vizinho e a
desenvolvidos e em desenvolvimento que enfrentam um China acelerará a fragmentação econômica e financeira,
aumento de produtos chineses subsidiados, ao mesmo aprofundará a incerteza política e minará o investimento,
tempo em que as tarifas de Trump ameaçam suas o comércio e o crescimento globais.
exportações para os EUA. A supercapacidade da China
está concentrada em setores estratégicos nos quais muitas Para piorar a situação, um dólar mais forte e juros mais
nações estão tentando construir suas próprias indústrias. altos nos EUA limitarão a capacidade dos países de
Fabricantes chineses de veículos elétricos, inundados de amortecer esses golpes por meio de política monetária e
subsídios estatais, estão precificando seus carros entre 20% fiscal. À medida que as importações encarecem e o capital
e 30% abaixo dos fabricantes europeus—uma diferença flui para fora dos mercados emergentes, muitos bancos
que já levou a uma investigação da UE e à imposição centrais enfrentarão uma escolha indesejada: aumentar as
de tarifas. Painéis solares chineses baratos, baterias, taxas para defender suas moedas à custa do crescimento ou
semicondutores, aço e alumínio estão inundando lugares reduzi-las para impulsionar o crescimento, mas alimentar a
como Canadá, Brasil e Indonésia. Esses países serão inflação. Aqueles que contraíram empréstimos em dólares
forçados a escolher entre permitir que as importações enfrentarão custos de serviço mais altos e um peso maior
chinesas arrasem seus produtores domésticos ou erguer da dívida, forçando seus bancos centrais a manter juros
barreiras comerciais que vão aumentar os preços ao mais altos do que as condições domésticas justificariam.
consumidor, desacelerar o crescimento e provocar Isso piorará as tensões entre governos e bancos centrais,
retaliação de Pequim. como já estamos vendo no Brasil, na África do Sul e na
Indonésia. Exportadores de commodities—do Oriente
Países com laços tanto com a China quanto com os EUA— Médio ao Brasil e à Indonésia—enfrentarão mais desafios
como México, Vietnã e os membros da União Europeia— conforma a fraca demanda chinesa empurra os preços
correm mais riscos. Quando, em resposta às ameaças para baixo neste ano (ver Box 3: Oriente Médio pressionado
tarifárias de Trump, o México concordar em ajudar a pelo petróleo barato). Muitos desses países aumentaram os
impedir que a China evada as tarifas dos EUA (ver Top Risk nº gastos durante os anos de boom das commodities. Agora,
10: Impasse mexicano), a China pode responder atingindo enfrentam uma pressão dupla: receita em queda e aumento
as exportações manufaturadas mexicanas. Cada aumento dos custos do crédito.
tarifário e subsequente rodada de retaliação elevará os
preços ao consumidor, pesará sobre o crescimento e O momento é particularmente ruim. O crescimento
desorganizará cadeias de suprimentos construídas ao global está tímido, a inflação continua elevada e os níveis
longo de décadas. Só a ameaça de interrupção já forçará de dívida estão em máximas históricas. A maioria dos
as empresas a construir redundâncias e manter estoques mercados emergentes nunca se recuperou totalmente
mais altos, aumentando os custos. A adoção simultânea dos gastos feitos na era Covid. Mesmo economias

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 26
desenvolvidas, como Japão e Itália, estão lutando contra tarifas disruptivas. O investimento deve crescer na Índia
fardos de dívida alarmantes. e nos polos de manufatura no sul e sudeste da Ásia
conforme cadeias de suprimento se deslocam da China
Nesse contexto, governantes que recentemente ganharam (embora Bangladesh, liderado por um líder fortemente
eleições prometendo tempos melhores à frente vão anti-Trump, possa ser alvo de tarifas punitivas grandes o
encontrar uma realidade dura. Suas luas-de-mel serão suficiente para compensar esses ganhos). O Vietnã pode
breves, à medida que as pressões econômicas globais ganhar participação de mercado em eletrônicos, apesar
se tornem políticas. Muitas economias emergentes e das ameaças de Trump. O México pode se beneficiar das
fronteiriças terão que decidir entre aumentar impostos, tendências de nearshoring se ceder às exigências dos EUA.
cortar gastos ou aceitar um crescimento ainda mais Petróleo mais barato ajudará grandes importadores como
fraco. Mas isso não é um problema só de países em a Índia. Mas o impacto geral será negativo, conforme
desenvolvimento. Mesmo no G7, o governo francês caiu barreiras crescentes fragmentam a economia global,
devido a batalhas orçamentárias, e o ministro das finanças revertendo décadas de integração que ajudaram a reduzir
do Canadá renunciou por conta de disputas fiscais diante custos, aumentar a produtividade e tirar bilhões da
de tensões comerciais crescentes com os Estados Unidos. pobreza.
Embora poucos países pareçam estar em risco iminente de
default soberano, fissuras na estabilidade governamental O perigo em 2025 não é de uma crise súbita e aguda—
minarão a confiança dos investidores. Os maiores perigos embora isso seja possível se tarifas agressivas dos EUA
financeiros podem estar escondidos à vista de todos. desencadearem guerras comerciais mais amplas ou um
acidente financeiro inesperado se espalhar por mercados
O Brasil já deu o alerta. A recente turbulência no mercado frágeis. O risco é que a interação entre as políticas dos EUA
por lá—disparada pela decepção com o pacote fiscal do e da China crie uma ameaça mais pervasiva ao crescimento
governo—mostra quão rapidamente desafios domésticos e à estabilidade globais. Ao forçar os países a escolher
podem se avolumar quando combinados com pressão entre absorver choques externos ou erguer barreiras
externa de juros mais altos, dólar mais forte e uma dispendiosas contra eles, isso acelerará a fragmentação
perspectiva de demanda global mais fraca. Mesmo países econômica—com consequências mais duradouras que os
com fundamentos mais fortes verão suas opções políticas governos de Trump e Xi.
limitadas em 2025.
A economia global está prestes a aprender uma lição
Certamente haverá também vencedores. Alguns líderes dolorosa: quando as duas maiores economias do mundo
conseguirão negociar acordos com Trump que vão se voltam para dentro, todos os outros pagam o preço.
garantir-lhes acesso ao mercado ou proteção contra

Quando as duas maiores economias do mundo se voltam


para dentro, todos os outros pagam o preço.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 27
Box 3: Oriente Médio pressionado pelo
petróleo barato
Este ano tem todos os ingredientes para que os preços com a China para
do petróleo sofram uma queda que vai sobrecarregar obter receitas. Isso
os estados produtores do Oriente Médio e ameaçar o tornará mais difícil para
poder da OPEP. Teerã reconstruir seu destruído Eixo da
Resistência e complicará o cenário de segurança
O crescimento da demanda global de petróleo estagnou. e estabilidade já desafiador do regime (ver Top Risk nº
O consumo está em queda na maioria dos países 7: Irã em apuros).
desenvolvidos e, pior, o crescimento econômico mais
lento e uma transição energética acelerada reduziram A queda nos preços reduzirá os fluxos de caixa das ricas
o aumento da demanda chinesa de 1,5 milhão de barris monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo para
por dia (bpd) em 2022 para menos de 200.000 bpd em nações endividadas como Egito, Tunísia e Jordânia.
2024. Com a economia global enfrentando pressões este Esses países também enfrentarão uma pressão crescente
ano, é provável que a demanda global de petróleo cresça devido aos preços mais altos dos alimentos e aos custos
menos que o modesto 1% do ano passado. crescentes do serviço da dívida por conta do dólar mais
forte, superando qualquer economia que possam obter
Ao mesmo tempo, a oferta continua a crescer. Guiana e com o petróleo mais barato. O Líbano, devastado por uma
Brasil estão aumentando a produção de forma acelerada, crise econômica de anos e pela recente guerra com Israel,
e os EUA continuam quebrando recordes—a produção do receberá apenas uma ajuda limitada, enquanto o imenso
país este ano deve atingir ou até superar os 14 milhões desafio de reconstrução de Gaza não será enfrentado
de bpd. A Agência Internacional de Energia prevê um enquanto muitos doadores potenciais na região estiverem
excesso de 1 milhão de bpd na primeira metade de 2025. sem fundos (ver Top Risk nº 9: Espaços não governados).
Neste cenário, normalmente se esperaria que a OPEP
intercedesse, retirando barris do mercado e criando um A Arábia Saudita, o peso-pesado econômico e geopolítico
déficit que elevaria os preços. Mas, depois de anos de do Golfo, enfrentará um dilema. Por um lado, Riad
cortes, a OPEP está cansada de perder participação de precisa de preços elevados para financiar o Vision
mercado para seus concorrentes. Portanto, em 2025, ela 2030, seu amplo plano de desenvolvimento de US$ 1,3
extrairá mais. trilhão. O barril do petróleo a um preço de “equilíbrio”
de pelo menos US$ 85 cobriria a despesa se os sauditas
Exceto se EUA e Irã entrarem em um pouco provável produzissem perto da capacidade, mas isso parece fora de
conflito aberto que ameace o trânsito de petróleo pelo alcance este ano. Por outro lado, com enormes reservas
Golfo Pérsico este ano (ver Top Risk nº 6: Irã em apuros), e a capacidade para aumentar rapidamente a produção,
o baixo crescimento da demanda e o alto crescimento Riad pode terminar um ano de petróleo barato com uma
da oferta devem pressionar os preços para baixo, para participação de mercado maior. Esse é o cálculo que o
US$ 60 por barril ou menos (dos cerca de US$ 70 no príncipe herdeiro Mohammed bin Salman deve fazer:
registrados final de 2024 e US$ 90 no início do ano). O aceitar a dificuldade agora para obter ganhos mais tarde. O
petróleo barato será bom para os consumidores e os impacto no orçamento do reino em 2025 será significativo;
grandes importadores como Índia e China, mas uma grandes projetos serão reduzidos e os gastos terão que se
má notícia para os países do Oriente Médio dependentes concentrar mais internamente. Mas Riad sabe que pode
da produção da commodity—que representam 30% da acessar os mercados para financiar suas ambições em
produção global do recurso. meio à queda dos preços nos próximos anos.

Iraque e Irã enfrentam os maiores desafios. Ainda se Nem todos na OPEP têm essa opção. A mudança da
recuperando de décadas de guerra, Bagdá tira do petróleo Arábia Saudita tensionará a unidade do cartel conforme
90% de sua receita de exportações. Mesmo uma pequena a gestão do mercado se transforma em uma disputa
queda nos preços exercerá uma pressão significativa por participação de mercado, ameaçando um colapso
sobre seu orçamento, aumentando o descontentamento na capacidade da OPEP para gerir os mercados no
e a rivalidade entre as poderosas milícias do país. Preços futuro. Mas, à medida que a transição energética global
de petróleo mais baixos também apertarão o cerco ao continua caminhando a passos largos (ver Pistas Falsas:
regime do Irã, já em dificuldade e sob “pressão máxima” A transição energética global emperra), o poder do
este ano, que depende do comércio da commodity cartel de petróleo está, de todo modo, se esvaindo.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 28
8 IA sem limites
O poder e as capacidades da inteligência artificial continuarão a crescer em 2025, com novos
modelos capazes de agir de forma autônoma, criar réplicas de si mesmos e obscurecer ainda
mais as fronteiras entre humanos e máquinas. Mas, à medida que a maioria dos governos opta
por uma regulamentação mais leve e a cooperação internacional fracassa, os riscos e os danos
colaterais da IA sem limites se multiplicarão.

No Top Risk nº 4 do ano passado: AI desgovernada, alertamos que os esforços globais para estabelecer salvaguardas para
IA seriam insuficientes devido a questões políticas, à inércia, à deserção e ao ritmo da mudança tecnológica. Algumas
iniciativas notáveis de governança de IA se concretizaram em 2024, incluindo as da União Europeia, do Conselho da Europa
e das Nações Unidas. Mas, sem um apoio forte e sustentado de governos e empresas de tecnologia, elas não serão suficientes
para acompanhar os avanços tecnológicos.

Há menos de dois anos, pesquisadores líderes em IA pediram uma pausa de seis meses no desenvolvimento da tecnologia
e líderes mundiais se reuniram no Reino Unido para abordar coletivamente seus riscos de segurança. Hoje, a maioria
dos governos hesita em regular a IA por medo de perder seus benefícios econômicos, enquanto CEOs de tecnologia
proeminentes—que antes alertavam sobre os riscos apresentados pela IA—agora os minimizam publicamente. Longe de
restringir o crescimento da tecnologia, governos e empresas estão gastando ainda mais bilhões para treinar novos modelos.

Em vez do fortalecimento das salvaguardas existentes, 2025 verá a erosão dos poucos arcabouços de governança que
existem. Em Washington, o presidente eleito Donald Trump promete revogar a ordem executiva de Biden sobre IA—escrita
em estreita colaboração com as big techs—o que pode desmantelar os procedimentos de teste de segurança para sistemas
de IA de alto risco, junto com medidas de responsabilidade e transparência.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 29
À medida que as capacidades da IA vão cada vez mais longe, mais rápido e
com menos controles, os riscos de um acidente catastrófico ou um “surto”
incontrolável da IA aumentarão.

O governo Trump está prestes a dar poder a veteranos do Vale também podem ser distribuídos peer-to-peer e executados
do Silício como David Sacks, Peter Thiel e Marc Andreesen, de forma totalmente privada, o que faz com que sejam
que veem as salvaguardas da IA como pauta da esquerda, quase impossíveis de controlar ou conter. De todo modo,
onerosas e um obstáculo para os EUA em sua competição parece haver pouco apetite para tentar.
geopolítica com a China. Mesmo Elon Musk, apesar de suas
preocupações sobre o risco existencial da IA, focará mais Mesmo a União Europeia—que criou o AI Act, a legislação
em usar a tecnologia para conter regulamentações do que de IA mais abrangente do mundo—mostra sinais crescentes
em regulá-la—enquanto sua empresa xAI opera um dos de arrependimento e fadiga regulatória. Os responsáveis
centros de computação mais poderosos do mundo. políticos europeus, agora focados em garantir a soberania
de IA, minimizam as narrativas de risco existencial, que
Iniciativas legislativas enfrentam ventos contrários tratam como distrações de preocupações mais imediatas,
semelhantes. A mais significativa, o projeto de lei SB-1047 como sustentabilidade, interrupção do mercado de
da Califórnia (que teria exigido medidas de segurança, trabalho e proteção da propriedade intelectual. A última
como avaliações de risco pré-lançamento para modelos edição do “AI Safety Summit” lançado no Reino Unido, a
de IA cujo treinamento custa mais de US$ 100 milhões), ser realizado em Paris em fevereiro, foi renomeada para
foi derrotada pelo governador democrata do estado “AI Action Summit”, com um mandato ampliado e mais
(embora possa ressurgir este ano). Ainda que outros orientado ao crescimento.
estados estejam implementando um emaranhado confuso
de regulamentações de IA, nenhum tem influência ou O estado deteriorado da cooperação global que resulta do
capacidade para igualar o potencial do projeto da Califórnia profundo vácuo de liderança do G-Zero (ver o Top Risk nº
para abordar riscos extremos ou existenciais. Apesar do 1: O G-Zero vence) agrava esses riscos. O governo Trump
interesse bipartidário no congresso, uma legislação federal vai desmantelar canais-chave de coordenação de políticas
abrangente sobre IA segue improvável. de IA com aliados, como o Conselho de Comércio e
Tecnologia EUA-UE, e recuar do trabalho conjunto sobre IA
Enquanto os reguladores dos EUA se encontram em um no G7, ainda que a colaboração técnica entre os institutos
impasse, modelos de IA de código aberto estão criando globais de segurança de IA deva continuar. Enquanto isso,
fatos novos. Qualquer pessoa com habilidades técnicas a maioria dos países em desenvolvimento prioriza o acesso
básicas agora pode baixar e executar modelos de linguagem à IA em lugar da mitigação de riscos.
grande (LLMs) sofisticados em seus dispositivos pessoais.
Muitos desses modelos de código aberto têm poucas O maior perigo está na deterioração rápida da relação entre
salvaguardas e podem ser usados para fins ilícitos. Eles EUA e China (ver Top Risk nº 3: Ruptura EUA-China). Com

Desempenho dos modelos mais recentes da Open AI estão se aproximando do nível


humano em testes de referência
100%
90
o3 (ajustado para alto desempenho)
80
o3 (ajustado para baixo desempenho)
70
60
50 o1 (Pro)
40
30 o1 (alto)

20 o1 (preview)

10
GPT-2 GPT-3 GPT-4 GPT-4o
0
2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025

Nota: O parâmetro do Abstract and Reasoning Corpus é usado para avaliar o progresso em direção à inteligência geral artificial (capacidades semelhantes às humanas).
Fonte: Arc Prize
eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 30
Washington e Pequim mergulhando mais profundamente À medida que as capacidades da IA vão cada vez mais
em uma separação descontrolada, os diálogos nascentes longe, mais rápido e com menos controles, os riscos de
sobre segurança de IA iniciados sob o governo Biden têm um acidente catastrófico ou um “surto” incontrolável de IA
futuro incerto. Embora as nações compartilhem do interesse aumentarão. Esses riscos são amplificados pela integração
em prevenir resultados catastróficos e a proliferação de de sistemas de IA em infraestruturas críticas—gerenciando
capacidades perigosas, o progresso foi dolorosamente desde decisões de saúde até sistemas financeiros de trilhões
lento (levou mais de um ano apenas para concordarem em de dólares—nas quais as consequências de um acidente
manter a IA fora das decisões sobre armas nucleares). A são maiores. Uma IA otimizando cadeias de suprimentos
crescente desconfiança mútua, especialmente em relação a poderia, inadvertidamente, perturbar a logística global,
tecnologias avançadas, fará com que acordos significativos causando escassez de bens essenciais. Múltiplos agentes de
sobre segurança de IA sejam improváveis. negociação de IA poderiam interagir de forma a provocar
falhas de mercado. Modelos avançados poderiam aprender
A corrida para desenvolver modelos inovadores e alcançar a a manipular operadores humanos para servir a atores
inteligência artificial geral, portanto, vai acelerar em 2025, desonestos, enquanto a crescente integração da IA em
gerando demandas sem precedentes por energia, água sistemas bélicos deixará o mundo mais próximo de uma
e terras. Além do impacto no uso de energia e emissões guerra autônoma.
de carbono (ver Box 4: IA e Energia—acerto de contas), o
potencial disruptivo da IA aumentará dramaticamente. Este ano marcará mais um ano de desenvolvimento
Novos modelos serão capazes de buscar objetivos de tecnológico implacável, sem as limitações de salvaguardas
forma autônoma com supervisão humana mínima. Esses e arcabouços de governança adequados. Uma vez que
“agentes” podem tomar ações independentes, interagir há motivações para construir uma IA cada vez mais
com sistemas do mundo real e se adaptar prontamente a poderosa, é provável que só haja restrições significativas
circunstâncias imprevistas. Sua sofisticação crescente traz quando os desenvolvedores atingirem limites severos de
oportunidades extraordinárias, mas também riscos sem dados, computação, energia ou financiamento. Até lá, as
precedentes para 2025: permitirá aos usuários manipular capacidades e os riscos da tecnologia continuarão a crescer
mercados e espalhar desinformação com eficiência sem controle.
crescente. No limite, os modelos mais avançados mostrarão
sinais crescentes de resistência ao controle humano.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 31
Box 4: IA e energia—acerto de contas
Os avanços da Inteligência Artificial (IA) não serão de transmissão e capacidade
contidos por regulações rígidas ou estruturas de de produção limpa (como no
governança este ano, mas enfrentarão uma restrição Texas e na região metropolitana de
muito real: a disponibilidade de energia. Washington, DC), aumentando o risco de surtos de
preços e cortes de energia. Segundo algumas estimativas,
O treinamento do GPT-4 da OpenAI, modelo por trás do redes elétricas globais vão precisar de mais de US$ 20
ChatGPT, consumiu mais de 40 vezes a energia usada por trilhões em investimentos até 2050 para acompanhar o
seu antecessor, o GPT-3—suficiente para abastecer mil crescimento do uso de energia mundial.
residências médias nos EUA por cinco a seis anos. Uma
consulta típica a um chatbot requer cerca de dez vezes a O acesso à energia é hoje um requisito fundamental para a
energia usada por uma busca convencional no Google. E liderança global em IA. No entanto, redes de transmissão
isso é só o começo. O apetite da indústria de IA por energia inadequadas, regras de localização de dados, exigências
continuará crescendo conforme cada novo modelo exigir ambientais, processos de licenciamento complexos e a
ainda mais poder computacional. Otimistas tecnológicos resistência de comunidades locais também influenciarão
apontam para ganhos de eficiência com chips de IA as decisões de investimento em IA, já que dificultam a
melhores, algoritmos e atendendo às solicitações mais capacidade das empresas de tecnologia de obter energia
próximo ao ponto de origem, mas essas inovações não quando e onde precisarem. Mesmo locais com energia
compensarão o crescente impacto energético da IA tão barata, abundante e confiável (limpa ou não) terão de
cedo. Com o cético climático Trump aconselhado por enfrentar oposição à construção de centros de dados,
CEOs de tecnologia e opositores da China, as perspectivas enquanto áreas com energia cara ou não confiável correm
de restrições ao uso doméstico de energia da IA, uma o risco de ficar para trás na revolução da IA. Países ricos
moratória sobre grandes execuções de treinamento de em capital e energia no Oriente Médio poderiam atrair
IA ou esforços globais bem-sucedidos para estabilizar o investimentos em centros de dados ou até desenvolver
consumo de energia da IA são mínimas. A demanda por capacidades soberanas de IA próprias, mas serão
energia em centros de dados globais deverá aumentar limitados por recursos hídricos escassos (necessários
160% até 2030, e as emissões de dióxido de carbono para resfriar centros de dados) e pela competição com
devem mais que dobrar. grandes potências. As crescentes tensões entre os Estados
Unidos e a China pressionarão cada vez mais estados
Grandes empresas de tecnologia dos EUA já tomaram geopoliticamente indecisos, como a Arábia Saudita e
medidas significativas para garantir o suprimento os Emirados Árabes Unidos, a escolherem um lado na
de suas necessidades energéticas futuras, assinando Guerra Fria tecnológica que se avizinha (ver Top Risk nº
acordos de compra de energia em larga escala e longo 3: Ruptura EUA-China).
prazo e até mesmo investindo em inovações energéticas
experimentais, como fusão e pequenos reatores Esses dinâmicas também irão quebrar alianças anteriores,
modulares. Mas com a retomada das atividades de usinas particularmente entre o setor tecnológico e os defensores
nucleares especificamente para abastecer centros de ambientais, conforme os compromissos de emissão
dados e o adiamento da aposentadoria de usinas térmicas zero das empresas ficarem em segundo plano diante da
a carvão e gás (ou sua expansão para garantir adequação necessidade de atender suas crescentes necessidades
à rede), o aumento da demanda por energia causará energéticas com fontes sujas e limpas. Assim, a corrida
uma grande perturbação na já envelhecida e frágil rede pela IA poderá desacelerar, mas não interromper (ver
elétrica norte-americana. O impacto será sentido com Alertas Falsos: A transição energética global emperra), o
mais força em lugares onde a expansão de centros de ritmo da transição energética global.
dados está superando os investimentos em infraestrutura

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 32
9 Espaços sem governo
Este risco decorre de um aprofundamento do G-Zero (ver Top Risk nº 1: O G-Zero vence), no
qual os atores mais poderosos do mundo—especialmente os Estados Unidos politicamente
divididos e disfuncionais—estão abdicando da liderança global. Este vácuo provoca mais
conflito geopolítico, perturbação e instabilidade; reduz a governança global e a cooperação
multilateral em relação a bens públicos globais; e encoraja atores párias estatais e não estatais.
Também deixa muitas pessoas, lugares e espaços ao redor do mundo—e fora dele (ver Box
5: A tragédia da redução dos bens comuns)—pouco governados e esquecidos. Bens comuns
globais críticos como o espaço sideral, o leito marinho e até o espaço aéreo estão diminuindo
conforme as zonas de conflito se expandem—como mostrou a derrubada de um avião do
Azerbaijão pela Rússia em dezembro de 2024. Os ataques com mísseis são agora a principal
causa de fatalidades aéreas, forçando as companhias aéreas comerciais a redirecionarem seus
voos para evitar vastas áreas de território sob disputa.

Não há potência internacional disposta e capaz de trazer estabilidade a esses lugares ou ajudar as vítimas do G-Zero. O
instinto de Donald Trump em relação ao unilateralismo e à retração na política externa dos EUA agravará a situação dessas
vítimas, e os esforços da sociedade civil ou de outros atores não preencherão o vazio. Ninguém será responsabilizado pelo
que acontece dentro desses espaços, incluindo com as pessoas que vivem neles. O impacto humano é particularmente
devastador para os mais vulneráveis—a UNICEF informa que mais de uma em cada seis crianças em todo o mundo vive
em áreas afetadas por conflitos, um percentual que dobrou desde os anos 1990.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 33
A governança frágil e a impunidade têm efeitos duradouros, e suas
consequências eventualmente serão sentidas por países muito além
dos diretamente afetados.
Os conflitos no Oriente Médio deixaram cinco espaços (UNIFIL), uma força multinacional que há várias décadas
sem governo—Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria e Iêmen. é responsável por monitorar a fronteira entre Líbano
Em Gaza, gangues criminosas, clãs familiares, membros e Israel. Mas o Líbano continuará sendo um estado em
sobreviventes do Hamas e o exército israelense governarão decadência graças ao impasse contínuo entre as facções,
o que resta da população palestina. Os países do Golfo, uma economia fraca e a incapacidade do governo de
liderados pela Arábia Saudita, relutam em se envolver em fornecer serviços sociais com consistência. O país seguirá
assuntos de governança, segurança ou reconstrução até incapaz de impedir ataques israelenses em seu território
que as forças israelenses se retirem e que haja um claro ou conter o Hezbollah e outros militantes que operam fora
plano para o “dia seguinte” no horizonte. Os Emirados da autoridade do estado.
Árabes Unidos expressaram mais interesse em exercer
um papel de curto prazo em Gaza, mas provavelmente se Na Síria, a súbita derrubada do Presidente Bashar al-
limitariam a instalar empreiteiros privados, cuja ação em Assad criará riscos de que um vácuo de poder surja em
ambientes pós-conflito é, no melhor dos casos, irregular. seu rastro. Vários grupos rebeldes, alguns alinhados
A Autoridade Palestina ainda não tem capacidade ou com a ideologia jihadista islâmica linha-dura, foram
legitimidade para governar Gaza, muito menos um plano fundamentais na queda de Assad e competirão pelo poder
crível para retornar ao território após 17 anos. Entretanto, sobre as ruínas do antigo regime. Hayat Tahrir Al-Sham
o governo Trump evitará envolver diretamente os EUA (HTS), um grupo militante sunita, controla Damasco e está
nesse ambiente perigoso. O exército israelense ocupará a tentando estabelecer um governo inclusivo e consolidar
região de fato, e a miséria que permeia a vida diária em seu controle sobre o restante do país. Se conseguir manter
Gaza continuará a piorar. as outras facções na linha e obtiver reconhecimento e
auxílio internacional, o país pode se estabilizar, e milhões
Eclipsado pela cobertura da mídia sobre os problemas de refugiados poderiam voltar para casa. Se o HTS
de Gaza, o ambiente de segurança na Cisjordânia se fracassar e as facções rivais não encontrarem uma forma
deteriorará ainda mais. Militantes armados, apoiados de trabalhar juntas, a Síria se tornará novamente um
por (mas independentes de) grupos terroristas cenário de anarquia, gerando novos fluxos de refugiados.
estabelecidos como Hamas e Jihad Islâmica Palestina, se E se o governo Trump retirar o apoio a seus aliados
entrincheiraram nas cidades de Jenin, Tulkarm, Nablus curdos, o vácuo resultante poderia levar o Estado Islâmico
e Tubas, no norte da Cisjordânia. Isso transformou essas a ressurgir no interior do país.
localidades em pontos de incursão do exército israelense,
cujas táticas desde 7 de outubro às vezes se parecem às O Iêmen enfrenta a possibilidade de ser permanentemente
usadas em Gaza—incluindo ataques aéreos a edifícios e dividido, já que os rebeldes Houthi apoiados pelo Irã
dependência crescente de drones. A crescente frequência mantêm seu enclave no populoso norte do país, apesar de
e escala das operações do exército israelense exacerbam um ano de bombardeios dos EUA e de Israel e do aumento
condições já repressivas para os palestinos na Cisjordânia. da pressão econômica. Uma piora na crise humanitária
Além disso, a violência de colonos extremistas contra deixará milhões de iemenitas à mercê de doenças e fome.
palestinos persiste. Israel continuará a autorizar novos
assentamentos e alguns membros do governo do Mais de uma década após a queda de Muammar Qaddafi, a
Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu estão buscando Líbia também permanece em grande parte não governada.
a anexação formal da Cisjordânia, na esperança de que o O país está profundamente dividido entre facções rivais,
governo Trump reconheça a soberania israelense sobre os dificultando o diálogo nacional. A receita do petróleo dá
territórios ocupados. alguma esperança de alívio, mas a produção é instável e
o controle sobre ela é uma fonte recorrente de conflito.
O Líbano terá uma trégua da guerra este ano, com o Nesse contexto, será muito difícil organizar eleições ou
cessar-fogo alcançado entre Israel e o Hezbollah em alcançar um acordo político.
novembro provavelmente se mantendo, especialmente
depois que as rotas de abastecimento do Irã através da De volta à Eurásia, a Rússia agora controla o território
Síria foram cortadas. Pelos termos do acordo mediado ucraniano conquistado nas oblasts de Donetsk, Luhansk,
pelos EUA, o grupo libanês se retirará para trás do Rio Zaporizhzhia e Kherson. Cerca de 3,5 milhões de
Litani e o exército israelense deixará o sul do Líbano. Ao ucranianos vivem nessas áreas. Um cessar-fogo é provável
mesmo tempo, o exército libanês enviará mais tropas para este ano, mas seus termos cederão de fato essas terras à
apoiar a Força Provisória das Nações Unidas no Líbano Rússia (ver Top Risk nº 5: Rússia ainda pária). Civis nessas

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 34
Em espaços não governados, há falta de liberdades políticas e condições humanitárias
são deploráveis
Direitos políticos Conflito armado Fome Desalojamento
População
Pontuação no Situação do país Número de Prevalência de enfrentando crise Pessoas
Liberdade do (Livre, batalhas em desnutrição alimentar ou pior desalojadas
Mundo de 2024 Parcialmente Livre, 2024 (%; média de 3 (milhões, fase 3-5 à força
(de 100) Não Livre) anos, 2021-2023) do IPC/CH) (milhões)

República
Democrática 19 Não Livre 862 26,8 25,6 8,2
do Congo
Haiti 30 Não Livre 518 50,4 5,4 1,0

Líbia 9 Não Livre 93 11,4 0,1

Mianmar 8 Não Livre 4.825 5,3 4,6

Palestina 2.319 5,9

Faixa de Gaza 8 Não Livre 1,9 1,9

Cisjordânia 22 Não Livre

Sudão 6 Não Livre 1.745 11,4 12,8

Síria 1 Não Livre 2.801 34 13,8

Iêmen 10 Não Livre 578 39.5 4,6 4,6


Fonte: Freedom House, Freedom in the World 2024 Base de Dados de Organização da ONU Classificação Integrada de Agência da ONU
Conflitos e Eventos para Alimentação e Fases de Segurança para Refugiados,
Armados, extraído em Agricultura Alimentar/Cadre dados de out/24;
24/12/24 Harmonise; estimativa estimativas da
mais recente em dez/24 UNRWA usadas
para a Palestina

regiões, incluindo crianças, continuarão sendo alvos de causou aproximadamente 600 mil mortes e desalojou cerca
esforços de “russificação” forçada, sob a ocupação brutal de 1,7 milhão de pessoas. Com 89% das instalações de
de Moscou. Fora das grandes cidades, a governança saúde do Tigré danificadas e sem recursos, muitos civis não
provavelmente será mais escassa. O bem-estar da têm acesso a serviços básicos e hesitam em retornar para
população nesses territórios ocupados rapidamente suas casas.
desaparecerá do radar das potências ocidentais.
A guerra civil do Sudão é, em grande parte, um conflito
No Sahel, a Rússia aproveitou a insatisfação com governos esquecido, que recebe muito menos atenção do que outras
fracos—especialmente os vistos como alinhados ao crises. No entanto, a escala do sofrimento sudanês é séria
Ocidente—para expandir sua influência. Em resposta ao desde que começaram os combates entre as Forças Armadas
descontentamento público, países como Burkina Faso Sudanesas e Forças de Apoio Rápido em abril de 2023. Estima-
e Níger trocaram parcerias com Paris ou Washington se que cerca de 8 milhões de pessoas foram obrigadas a sair
por laços mais profundos com Moscou, que oferece de suas casas e outras mais 3 milhões fugiram para países
principalmente apoio militar e econômico simbólico—e vizinhos. Cerca de 150.000 sudaneses podem ter sido mortos,
um quadro em branco em termos de governança. Sujeito e outros 25 milhões precisam urgentemente de ajuda. Em
a uma série de golpes nos últimos anos, o Sahel também agosto de 2024, foi declarada fome em partes de Darfur, e
se tornou um ponto focal global para atividade terrorista. ameaças graves à saúde pública, incluindo surtos de cólera,
Em 2025, os EUA e a França continuarão se retirando da espreitam os campos de refugiados do país.
região, que ficará sujeita a mais instabilidade conforme
as juntas da região enfrentam pressão contínua de grupos Na República Democrática do Congo, as atuais insurgências
islâmicos e de militantes de oposição. provocadas por mais de cem grupos armados e pela
competição por riquezas minerais causarão deslocamento
Também no continente africano, as consequências da em massa apesar das intervenções internacionais. O país é
guerra do Tigré na Etiópia e a guerra civil no Sudão assolado por conflitos há décadas; a estimativa é que, desde
pioraram as condições humanitárias. Dois anos após o 1998, cerca de 6 milhões de congoleses tenham sido mortos.
Acordo de Pretória, cujo objetivo era encerrar o conflito A gravidade e a frequência das violações de direitos humanos
no Tigré, as dificuldades permanecem extremas, em parte são graves. ONGs documentam assassinatos em larga escala,
devido à aplicação inadequada de seus termos. A guerra desaparecimentos forçados e casos de estupro em massa.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 35
Em Mianmar, mais de três milhões de civis foram desalojados Embora esses espaços e povos negligenciados provavelmente
desde o golpe militar em 2021. A minoria rohingya, em não representem riscos geopolíticos e de mercado mais
especial, enfrenta perseguição sistêmica, e muitos fugiram amplos em 2025, a governança frágil e a impunidade têm
para campos de refugiados superlotados em Bangladesh. A efeitos duradouros, e suas consequências eventualmente
junta militar continua perpetrando abusos e exacerbando serão sentidas por países muito além dos diretamente
tensões étnicas, e membros da resistência não conseguem afetados. Terras não governadas estão a caminho de se
quebrar seu controle sobre partes do país. tornarem terrenos férteis para ameaças transnacionais
entrincheiradas, como terrorismo, crime organizado,
E, no Haiti, a instabilidade persiste após o assassinato hackers e redes de tráfico de narcóticos—que eventualmente
do Presidente Jovenel Moïse, com tumultos políticos, causarão danos a outros países em todo o mundo.
agitação civil, violência de gangues e desastres naturais
agravando a crise.

Box 5: A tragédia da redução dos


bens comuns

Os oceanos e o espaço sideral têm tradicionalmente operam está ficando mais concorrida,
sido arenas de cooperação internacional—ou pelo estirando os mecanismos de governança
menos de relativa neutralidade. No entanto, à medida existentes. Governos e empresas planejam lançar
que a recessão geopolítica se aprofunda e o vácuo de novas constelações (todas concorrentes da Starlink)
liderança global cresce (ver Top Risk nº 1: O G-Zero este ano, incluindo o Projeto Kuiper da Amazon, o
vence), a competição e o conflito engolfarão alguns dos Iris2 da UE e duas mega-constelações chinesas. Dado
últimos lugares não contestados e menos governados o perigo de operar no espaço e a falta de salvaguardas
da Terra—e fora dela. políticas ou institucionais em meio à proliferação de
atores e objetos, o risco de repercussões na Terra de
No espaço sideral, a proliferação de satélites, o aumento um incidente celestial, como uma colisão de satélites
do comércio espacial e as tensões entre potências ou um lançamento interpretado como uma ameaça,
espaciais deram início a uma nova corrida espacial. aumentará em 2025.
Cinco países já pousaram na lua e tanto os EUA quanto
a China estão trabalhando para fazer aterrissagens Em contraste com o espaço, os oceanos são águas
tripuladas (e possivelmente construir bases) no polo relativamente bem mapeadas: a lei marítima
sul lunar. Washington e seus aliados assinaram os internacional está codificada na Convenção das Nações
Acordos Artemis para governar as atividades lunares, Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS). No entanto,
mas Pequim e Moscou não, criando a perspectiva de esse arcabouço está sendo levado ao ponto de ruptura
uma rivalidade estratégica e de sistemas paralelos em todo o mundo. As ameaças assimétricas no mar
de governança no espaço. Ao mesmo tempo, o estão aumentando com impunidade, possibilitadas
papel crítico que os satélites desempenham—desde por inovações tecnológicas como drones marinhos,
GPS até direcionamento de mísseis, demonstrado embarcações autônomas que podem viajar milhares
mais claramente durante a invasão da Ucrânia pela de milhas sem intervenção humana. Mas ameaças de
Rússia—está impulsionando a militarização do espaço, baixa tecnologia também estão causando interrupções
conforme os estados aumentam suas capacidades e danos, incluindo a sabotagem física de cabos de dados
satelitais soberanas ofensivas e defensivas. No ano submarinos. No Mar Vermelho, ataques dos Houthis,
passado, a inteligência dos EUA afirmou que a Rússia baseados no Iêmen, perturbam o transporte mercante e
estava desenvolvendo novas capacidades nucleares danificam infraestruturas. As reivindicações territoriais
antissatélites, e ferramentas antissatélites mais baratas da China em regiões disputadas do Mar do Sul da
já estão disponíveis e em uso. China levaram a confrontos com guardas costeiras
locais, elevaram tensões com países como as Filipinas
Igualmente importante, o papel do setor privado no e aumentaram os riscos para operadores de cabos
espaço está crescendo rapidamente, desafiando as submarinos na região. E, na Europa, vários ataques
prerrogativas dos estados e aumentando o acirramento suspeitos à infraestrutura submarina no Mar Báltico
entre o público e o privado. À medida que a economia foram atribuídos à guerra híbrida em curso da Rússia
global se torna cada vez mais dependente de ativos contra a OTAN (ver Top Risk nº 5: Rússia ainda pária).
baseados no espaço, a estreita faixa onde os satélites

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 36
Espinha dorsal da conectividade digital do mundo, Este ano verá uma atividade recorde nas
os cabos submarinos são uma das últimas peças da fronteiras da Terra à medida que atores
infraestrutura da economia global ainda compartilhada estatais e não estatais competem
como parte do bem comum global. No entanto, a para dominar a infraestrutura
fragmentação e a politização parecem inevitáveis com crítica atual e os domínios que
crescentes preocupações de segurança levando os EUA determinarão o equilíbrio de
a formalizarem a exclusão de rivais, como a China, de poder de amanhã. Do fundo do
novos cabos—e levando a China a começar a construir e mar ao topo do céu, os riscos
instalar seus próprios cabos. Conforme a relação entre de um bem comum cada vez
EUA e China se desgasta este ano, ambos vão procurar mais contestado e tenuemente
assegurar os fluxos de dados e os links de comunicação governado estão se espalhando
nas maiores distâncias dos oceanos (ver Top Risk nº 3: rapidamente. (Mas ainda temos a
Ruptura EUA-China). Antártica...).

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 37
10 Impasse mexicano
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, e seu partido Morena conquistaram uma vitória
esmagadora nas eleições do ano passado. Ela agora tem um mandato e seu poder executivo tem
poucos freios. No entanto, Sheinbaum enfrentará desafios formidáveis este ano nas relações com
os Estados Unidos, em um momento de reformas constitucionais e pressões fiscais em casa. Suas
habilidades diplomáticas e de governança serão rapidamente testadas.

As relações entre EUA e México se tornarão muito mais contenciosas em 2025. O presidente eleito Donald Trump
já ameaçou impor tarifas de 25% sobre todas as importações mexicanas se o país não conseguir conter o fluxo de
imigrantes e de fentanil para os Estados Unidos. Trump também ameaçou impor uma tarifa de 100% sobre todos os
carros importados do México devido ao alto conteúdo de peças chinesas neles.

Sheinbaum está adotando uma abordagem pragmática e proativa em relação aos riscos que se aproximam (embora ela
não tenha alternativas, já que os EUA são de longe o principal parceiro comercial e de investimento do México). Ela
intensificou os esforços para mostrar que o México será mais rigoroso na luta contra os cartéis de drogas e os fluxos
migratórios, destacando sucessos recentes e prometendo mais. No front da China, os membros do governo estão
preparados para fazer grandes concessões. Em última instância, Sheinbaum deve fazer o que for necessário para
evitar as tarifas de Trump.

Mas embora a aquiescência seja a principal abordagem em relação aos EUA, os membros do governo e investidores
mexicanos estão subestimando o desafio vindouro. Ainda que as relações durante a primeira presidência de Trump
tenham sido difíceis e a renegociação do NAFTA complicada, as tensões foram contidas. Desta vez, Washington será

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 38
As habilidades diplomáticas e de governança de
Claudia Sheinbaum serão testadas rapidamente.

mais dura e unificada. Em contraste com 2017, este ano Na fronteira, as tensões estarão altas assim que Trump
os instintos linha-dura de Trump não serão tão contidos começar a reprimir a imigração ilegal quando tomar
por forças moderadoras dentro de seu gabinete. Além posse (ver Top Risk nº 4: Trumponomics). O presidente
disso, os fatores de irritação (do fentanil à imigração, eleito pressionará o governo mexicano a aumentar os
passando pelo déficit comercial bilateral de bens e pela esforços para conter os fluxos de drogas e de imigrantes
circunvenção chinesa) cresceram significativamente nos para os EUA e possivelmente exigirá que o México aceite
últimos quatro anos, tornando um acordo mais difícil nacionais de outros países. Sheinbaum insistirá para
do que durante o primeiro confronto com Trump. A que os EUA enviem essas pessoas de volta diretamente
magnitude das demandas de Trump e do que Sheinbaum a seus países de origem; ela eventualmente acomodará
precisará ceder para aplacá-lo será mais extensa do que as demandas dos EUA para evitar tarifas de 25%, mas as
o governo mexicano espera. E, dado o poder consolidado negociações serão difíceis. Se implementado, o plano
do Morena, a presidente não poderá usar restrições de Trump de taxar remessas (atualmente em US$ 60
políticas domésticas como desculpa para atacar de volta. bilhões, ou quase 4% do PIB do México) para pressionar
Sheinbaum prejudicará a economia mexicana. A
Em relação à China, Trump inicialmente exigirá que sugestão de Trump de usar ativos militares dos EUA
o México reprima os investimentos “de trânsito”— para combater cartéis, rotulando-os como organizações
empresas chinesas que investem no México para acessar terroristas, aumentará ainda mais as tensões; o México
o mercado dos EUA, evadindo as tarifas norte-americanas veria o esforço como uma afronta a sua soberania e
sobre a China. Sheinbaum abordará o assunto de forma Trump pode achar o espectro de uma ação unilateral dos
proativa para dar a Trump uma vitória logo cedo. Mas EUA mais útil como uma ameaça para forçar o México a
os EUA também exigirão termos mais rigorosos para aumentar a segurança na fronteira.
as regras de origem no setor automotivo e outros. O
investimento chinês no México é relativamente baixo, Um ponto de atenção importante será a revisão do
mas as importações de produtos chineses, que em sua Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), que deve começar
maioria não são usadas para exportações para os EUA, no próximo ano. O processo de negociação será longo e
são grandes e estão crescendo. Trump aumentará as complexo, e o México terá que lidar com uma burocracia
tarifas sobre as importações chinesas (ver Top Risk nº 3: comercial dos EUA mais opaca que durante o primeiro
Ruptura EUA-China) e pode pressionar o México a fazer mandato de Trump. Peter Navarro terá um cargo sênior
o mesmo, o que afetaria negativamente o crescimento e em um arranjo no qual a responsabilidade pelas políticas
a inflação mexicanos. será menos definida que no mandato anterior de Trump.

Importações do México por país de origem, em % do PIB Médias totais


2000-2009 2010-2019 2020-2023 para 2022-2003
(US$)

EUA 227,3 bilhões

China 101,9 bilhões

UE 53,7 bilhões

ASEAN 37,2 bilhões

Coreia do sul 19,0 bilhões

Japão 17,5 bilhões

Taiwan 12,5 bilhões

Canadá 11,5 bilhões

0,0% 2,5 5,0 7,5 10,0 12,5 15,0 17,5


Fontes: Eurasia Group, Macrobond, INEGI, IMF

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 39
Além disso, o Canadá parece pronto para negociar a obrigatoriedade de eleições diretas para a liderança de
bilateralmente com Trump e pode estar disposto a instituições hoje autônomas.
excluir o México para obter um acordo mais vantajoso—
especialmente se o líder conservador Pierre Poilievre Um fator de mitigação é que, diferente da abordagem de
substituir Justin Trudeau como primeiro-ministro no governança de cima para baixo de AMLO, Sheinbaum
início de 2025, como esperado. Isso não deve funcionar, nomeou um gabinete profissional e tecnocrático e está
mas a ameaça atrasará as negociações e complicará delegando autoridade a seus membros em suas áreas
a posição de negociação do México. Embora o USMCA de especialização. Mas, embora o profissionalismo e
deva sobreviver, o processo será mais combativo do que competência do governo de Sheinbaum reduzam os
muitos esperam. riscos de políticas durante seu mandato, ainda é possível
que haja excessos. O Morena é um partido novo e
Por fim, a relação pessoal entre Trump e Sheinbaum autoconfiante, e erros de política são menos propensos
deverá ser funcional, mas não próxima. Seu antecessor a serem corrigidos por um sistema que tem controles e
Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO) e Trump tinham contrapesos estruturalmente mais fracos.
um relacionamento razoavelmente forte como dois
homens que se viam como populistas e “do povo”. Mais Esta situação pesará sobre a economia do México,
moderna, progressista e tecnocrata, Sheinbaum não se que enfrenta baixo crescimento no curto prazo, um
“enturmará” tão bem com o presidente eleito dos EUA. ambiente macroeconômico desafiador e um déficit fiscal
ampliado equivalente a 6% do PIB. Sheinbaum precisará
Essas questões e a incerteza que elas criam vão pairar fazer uma consolidação fiscal politicamente desafiadora
sobre as relações entre EUA e México, colocando em para colocar as finanças públicas do México de volta
espera muitas decisões de investimento e diminuindo nos trilhos, mesmo considerando que a expansão dos
o crescimento mexicano—pelo menos até que as programas de gastos sociais é uma prioridade pessoal.
negociações do USMCA sejam concluídas no próximo ano. Com o poder consolidado sobre os três ramos do governo,
Sheinbaum não terá a quem culpar se não conseguir
Tudo isso ocorrerá em um contexto em que uma série de equilibrar as coisas. O México precisa especialmente de
mudanças constitucionais abrangentes impulsionadas investimento estrangeiro nos setores de infraestrutura
por AMLO e continuadas por Sheinbaum já minaram a e energia, mas terá dificuldade para obtê-lo no curto
confiança dos investidores no México. Em especial, uma prazo devido à incerteza que paira sobre o clima de
reforma judicial aprovada no ano passado fará com que investimento.
todos os juízes federais sejam eleitos diretamente a partir
de 2025, e espera-se que candidatos do Morena preencham No longo prazo, o México está bem-posicionado para
a maioria das vagas. Esta mudança vai enfraquecer a ter sucesso. O país tem uma demografia favorável e mão
independência política do judiciário mexicano e erodir de obra barata. Ele se beneficiará do reposicionamento
um dos últimos controles remanescentes sobre o partido das cadeias de suprimentos e está integrado à maior
no poder, reduzindo mecanismos de recurso para economia do mundo. Mas, para desbloquear esse
investidores e causando danos duradouros ao ambiente potencial, Sheinbaum terá que superar fortes ventos
de negócios do país. Sheinbaum implementará outras contrários em seu primeiro ano completo no cargo.
mudanças potencialmente desestabilizadoras, incluindo

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 40
Pistas Falsas
Trump fracassa
A sabedoria convencional diz que o segundo mandato de Donald Trump levará um caos total à política externa—uma exacerbação
dos constantes confrontos e da imprevisibilidade de seu primeiro governo, que tensionará as alianças dos EUA, enfraquecerá
a posição dos EUA no mundo, minará instituições internacionais que promovem a paz e aumentará as chances de conflito
global. No longo prazo, especialmente considerando as implicações mais amplas de um mundo G-Zero, isso provavelmente será
verdade.

Mas não este ano. Muitos se esquecem de que Trump obteve uma série de sucessos notáveis em política externa em seu primeiro
mandato, incluindo a revitalização do USMCA, os históricos Acordos de Abraão, uma partilha de custos mais justa entre os
membros da OTAN, e alianças de segurança novas e mais robustas na Ásia. Também não houve grandes guerras sob seu comando
além do fim do conflito mais longo dos EUA, no Afeganistão.

Trump terá muito mais vitórias em política externa este ano do que se imagina, por quatro motivos.

Primeiro, Trump comandará a maior economia do mundo e o exército mais poderoso, com uma capacidade sem precedentes de
influenciar países e menos aversão a usar essa habilidade que qualquer outro presidente dos EUA. Os Estados Unidos também
estão comparativamente mais fortes que em 2017 em relação a seus adversários (com a China enfrentando sua pior crise
econômica em décadas, a Rússia em sério declínio e o Irã enfrentando ameaças existenciais) e a seus aliados, a maioria dos
quais tem lideranças extraordinariamente fracas e impopulares. Isso tornará o enfoque de negociação transacional de Trump
ainda mais eficaz.

Segundo, o poder político doméstico de Trump estará mais consolidado. Ele terá controle unificado do congresso e do Partido
Republicano, e está se cercando de pessoas leais e mais alinhadas ideologicamente a ele. Para os líderes mundiais,

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 41
Vitórias de Trump em política externa
Impulsionou com sucesso um Cultivou aliados-chave no
sistema 5G desenvolvido pelo Brasil, Índia, Arábia Saudita,
Ocidente Israel, Polônia

EUA vencem em organizações Reorganizou a arquitetura de


internacionais (Organização segurança nacional por meio da
Mundial da Propriedade Intelectual, Força Espacial para refletir as
Banco Mundial, Agência realidades do combate espacial
Internacional de Energia Atômica)
Conquistas comerciais com o
Negociou com a OPEP um acordo Acordo EUA-México-Canadá e o
para reduzir produção de petróleo Acordo Comercial EUA-Coreia
durante a Covid-19
Forçou estados membros
Acabou com o Estado Islâmico da OTAN a aumentarem
como uma unidade territorial eficaz gastos com defesa

Acordos de Abraão Conseguiu garantias de


normalizando (algumas) concessões como parte do
relações árabes com Israel acordo da Fase Um EUA-China

Fonte: Eurasia Group

isso significa que os canais alternativos para contornar acordo de liberação de reféns em Gaza. Podem até mesmo
as preferências de política externa do presidente eleito incluir uma normalização entre Arábia Saudita e Israel,
não estarão tão disponíveis ou eficazes como antes. Quer um avanço no acordo nuclear com o Irã, ou um “grande
gostem ou não, Trump será o único jogo a ser jogado. acordo” com a China.

Terceiro, Trump terá mais amigos ideológicos no cenário Isso não significa que a mera presença de Trump na
global do que teve durante seu primeiro mandato. Casa Branca acabará com todas as guerras, reduzirá
Embora continue desconfiando das alianças e indiferente todos os conflitos ou resolverá todas as desavenças.
aos valores de outros países, sempre que participar De fato, é provável que várias das vitórias acima não se
de encontros do G7, G20 e OTAN, o presidente eleito concretizem. No longo prazo, a abordagem transacional
encontrará líderes mundiais com mentalidade similar— de Trump enfraquecerá as alianças dos EUA, erodirá a
como Giorgia Meloni, da Itália, Robert Fico, da Eslováquia, influência norte-americana no palco global, aumentará a
Javier Milei, da Argentina, e em breve Pierre Poilievre, do volatilidade geopolítica, aprofundará o G-Zero e tornará o
Canadá, e Friedrich Merz, da Alemanha—que serão mais mundo um lugar mais perigoso.
receptivos à sua agenda “América Primeiro” e inclinados a
jogar segundo suas regras. Mas, nestes primeiros tempos, fique atento para ver
Trump aumentando o placar a seu favor.
Finalmente, o mundo está mais perigoso do que estava
durante o primeiro mandato de Trump. Grandes guerras
estão ocorrendo na Europa e no Oriente Médio, as tensões A Europa se desmantela
entre EUA e China estão aumentando, e o pano de fundo
econômico global está frágil, tornando os riscos e os A estagnação econômica, as ameaças à segurança e
custos de estar contra o presidente eleito dos EUA muito as deficiências na defesa já apontavam que 2025 seria
mais altos do que da última vez. um ano desafiador para a Europa. A volta de Donald
Trump ao poder exacerbará essas pressões geopolíticas
O resultado é que, embora a maioria dos líderes mundiais e econômicas, ameaçando o continente com uma crise
desgoste e desconfie de Trump, todos sabem que, se existencial que poderia desmantelar a unidade europeia.
entrarem em conflito com ele, estarão por sua conta
e risco. A capacidade de Trump de obter concessões de Este ano testará a máxima de que, quando confrontada
outros países e marcar pontos logo no início será maior com uma crise, a UE sempre se une. Assim como durante a
que em seu primeiro mandato. Algumas “vitórias” crise do Euro, o Brexit, a pandemia e a invasão da Ucrânia
prováveis incluem mais gastos de aliados europeus e pela Rússia em 2022, a UE também deve superar—ou, no
asiáticos com defesa, redução dos déficits comerciais mínimo, atravessar confusamente—esses desafios.
bilaterais, um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia e um

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 42
Partidos pró-UE mantêm controle apesar financiamento adicional para a Ucrânia e em elevar os gastos
de avanço populista europeus com defesa este ano. Criticamente, isso deve
Governo centrista pró-UE Coalizão da extrema-direita ocorrer por meio de novas instituições intergovernamentais
Governo populista anti-UE ou apoiada por ela, esmaga- fora do quadro da UE para contornar os vetos de líderes
doramente alinhada a populistas como Viktor Orban da Hungria, mostrando que
Governo eurocético majoritaria-
políticas da UE
mente alinhado a políticas da UE mesmo uma UE mais fragmentada não precisa significar
um bloco mais fraco ou menos seguro. Rutte já deu início
a discussões com aliados europeus para aumentar a meta
de gastos com defesa da OTAN de 2% para 3% do PIB,
aproximando-a dos níveis dos EUA.

Em terceiro lugar, apesar dos ganhos recentes em toda


a Europa, é improvável que os populistas prejudiquem
significativamente a coesão da UE em 2025. À exceção de
assuntos específicos como imigração (no qual centristas
europeus se alinharam a eles), os populistas europeus
carecem de uma unidade de propósitos e não devem
superar as diferenças de interesses, mesmo que obtenham
um impulso por terem um aliado em Washington. Giorgia
Meloni, da Itália, seguirá firmemente ancorada dentro do
mainstream europeu em política tanto econômica quanto
externa, enquanto Viktor Orban, o crítico mais vocal da UE
e defensor de Trump no bloco, estará enfrentando ventos
contrários econômicos e seu desafio político doméstico
Fonte: Eurasia Group mais significativo desde 2010. Ele será incapaz de negociar
Em primeiro lugar—e mais importante—a UE se qualquer acordo para Trump no nível da UE, enquanto sua
beneficiará de uma liderança mais forte este ano. Os postura pró-China, impulsionada por fatores econômicos,
novos líderes do bloco em Bruxelas, o próximo chanceler estará em descompasso com Washington conforme os laços
da Alemanha, Emmanuel Macron na França, Donald entre EUA e China se deterioram este ano (ver Top Risk nº 3:
Tusk na Polônia e Mark Rutte na OTAN darão à UE uma Ruptura EUA-China).
chance melhor do que a maioria espera de gerenciar
de forma eficaz as ameaças iminentes. A presidente da A UE também estará bem equipada para montar uma
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, começa seu resposta coesa às demandas comerciais de Trump. Bruxelas
segundo mandato em uma posição fortalecida, com foco tentará comprar boa vontade com ofertas de adquirir mais
em segurança, defesa e competitividade econômica. Junto energia dos EUA e miniacordos que ajudem a reduzir o déficit
com o novo Presidente do Conselho Europeu, António comercial dos EUA com a UE. Caso as restrições comerciais
Costa, e Kaja Kallas, a nova chefe de política externa da se materializem, von der Leyen estará em uma posição
UE, esses líderes se esforçarão para manter os 27 estados- mais forte do que a maioria para responder a Trump na
membros da UE unidos, equilibrando visões concorrentes mesma moeda. Alguns estados membros podem discordar
dentro do bloco. Além disso, o esperado novo governo das respostas conjuntas da UE por motivos econômicos e/ou
da Alemanha sob o líder conservador Friedrich Merz (a políticos nacionais, mas não terão a maioria necessária para
extrema direita Alternativa para a Alemanha, AfD, não atrapalhar uma frente unida. Enquanto isso, os movimentos
tem como assumir o poder) proporcionará mais liderança de Trump contra a China e suas consequências devem forçar
e ajudará a revitalizar o quebrado motor franco-alemão. A a UE a endurecer sua postura em relação a Pequim de forma
visão de Merz sobre a questão Rússia-Ucrânia está muito mais rápida e intensa do que a maioria dos líderes europeus
mais alinhada com a de Macron, cujos graves problemas gostaria. Isso pode ser um lado positivo que dá alguma
domésticos não afetarão sua liderança contínua sobre proteção para as empresas europeias—particularmente nas
os assuntos franceses relacionados à EU e às políticas indústrias verdes e digitais criticamente importantes. Uma
externa e defesa até mais perto das eleições de 2027. resposta mais firme da UE às políticas chinesas sobre a
Ucrânia e sobre a supercapacidade industrial também pode
Em segundo lugar, a UE manterá uma frente compara- ajudar a Europa a melhorar a cooperação transatlântica
tivamente unida em apoio a Kiev após qualquer acordo de contra Pequim.
cessar-fogo intermediado por Trump. Para os europeus,
a guerra não trata apenas da Ucrânia, mas da segurança A Europa enfrentará sérias pressões centrífugas em 2025.
mais ampla do continente. Esta percepção sublinha uma Mas, pelo menos por enquanto, essas forças permanecem
seriedade em relação à defesa que há décadas não é vista na mais propensas a aproximar a UE do que a afastá-la.
Europa. Assim, a UE concordará em aumentar em bilhões o

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 43
As empresas do setor elétrico dos EUA ainda buscarão
A transição energética expansões agressivas de renováveis para atender à
crescente demanda da rede, mesmo com o crescimento
global emperra das novas usinas a gás. Os fabricantes de automóveis dos
EUA não abandonarão seus planos para veículos elétricos,
Nos círculos de sustentabilidade, a volta de Donald Trump mesmo que o governo Trump revogue os créditos federais
aumentou as preocupações de que a transição energética para compra de EVs. A produção de petróleo e gás dos EUA
global será revertida este ano, alimentada por promessas já está em níveis recordes e será difícil que cresça muito
de campanha de aumentar a perfuração de poços de mais em 2025. E tecnologias de energia limpa de próxima
petróleo e acabar com a “nova farsa verde”. Fora dos geração, como geotérmica, captura direta de ar e nuclear
EUA, outros candidatos céticos em relação ao clima—por avançada têm apoio de parte da base de Trump, que se
exemplo, na Alemanha, Canadá e Austrália—também beneficiou desproporcionalmente dos investimentos e
devem vencer eleições em 2025, enquanto as métricas de da criação de empregos gerados pelo Inflation Reduction
descarbonização global ainda estão aquém dos caminhos Act do governo Biden. Todas essas realidades reforçarão
científicos para atingir emissão líquida zero. a resiliência política da transição energética dos EUA
no longo prazo. O fato de que o Texas, um estado
Mas a transição energética global sobreviveu ao primeiro profundamente conservador, é o líder em implantação de
governo Trump e sobreviverá ao segundo. A diferença é renováveis nos EUA é exemplar: a política partidária não
que, enquanto em 2017 ela estava apenas começando, em impedirá mais a transição energética norte-americana.
2025 ela atingiu velocidade de escape.
Trump também vai interferir menos que do esperado
Esse incentivo é resultado de interesses econômicos no ritmo da transição energética no exterior, mesmo
próprios. A inovação tecnológica, curvas de aprendizado que ele pretenda tirar os EUA do Acordo de Paris e ceder
acentuadas e quedas rápidas nos custos das tecnologias a liderança internacional no clima. A China, maior
renováveis reduziram dramaticamente o custo da emissor do mundo, já está se aproximando de um pico
transição energética. Isso tornou as fontes renováveis de emissões cinco anos antes de sua meta previamente
economicamente viáveis na maioria dos mercados, estabelecida para 2030 (com os desafios econômicos da
independentemente da política. China oferecendo uma ajuda significativa aqui). A Europa
vê a transição energética como uma forma de reduzir sua
A política ainda terá impacto na transição energética, dependência de importações e melhorar sua segurança
particularmente nos Estados Unidos. Trump melhorará o energética. A Índia a vê como uma oportunidade
sentimento em relação à produção de petróleo e gás dos econômica e um passo necessário para reduzir algumas
EUA, apoiará o uso de usinas de energia a gás e diminuirá das piores poluições atmosféricas do mundo. Outros
as taxas de adoção de veículos elétricos, desacelerando os mercados emergentes, do Paquistão à Indonésia, estão
esforços de descarbonização. Mas nada do que ele fizer ansiosos para acelerar a implantação de renováveis por
será suficiente para interromper o avanço da transição interesses puramente próprios.
energética dos EUA.

Mudanças nos parâmetros dos custos de geração solar e eólica comparado a combustíveis fósseis,
2010-2013 (média ponderada global comparada ao parâmetro de combustíveis fósseis)
Solar fotovoltaica Eólica onshore Eólica offshore
95º percentil
500
450
414%
400 Maior que
350 parâmetro de
300 custo
nivelado de
250
eletricidade a
200 partir de
150 combustíveis
5º percentil 126%
100 fósseis
50
23%
0
-56% -25% Abaixo do
-50 -67% parâmetro
-100
2010 2023 2010 2023 2010 2023
Nota: Todos os parâmetros em termos de custo nivelado de eletricidade
Fonte: IRENA

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 44
Os fabricantes chineses de tecnologias como painéis tecnologia de energia limpa. Mas, à medida que o custo
solares, veículos elétricos e baterias, que já dominam as dessas fontes de energia continuar a cair a partir de 2025,
cadeias de suprimentos globais, também não abandonarão uma gama mais ampla de mercados emergentes abraçará
suas ambições de expansão por conta de mudanças na renováveis domésticos mais baratos em detrimento de
demanda ou no acesso ao mercado dos EUA. No máximo, combustíveis importados de alta volatilidade.
verão isso como uma oportunidade para aumentar sua
participação de mercado no resto do mundo, acelerando a Ainda que demore mais por conta de solavancos ocasionais
adoção global dessas tecnologias e levando a novas quedas pelo caminho (ver Box 4: IA e energia—acerto de contas), a
de preços. Os EUA ficarão ainda mais atrás da China em transição energética global seguirá adiante.

eurasia group TO P R I S KS 2 0 2 5 45
Ufa. As notícias não são tão boas quanto gostaríamos.

Você pode não perceber isso pelo relatório, mas somos otimistas por
essência. Nunca estivemos tão empolgados com as oportunidades
proporcionadas por novas tecnologias, especialmente os avanços em
capital humano e industriais que a IA está prestes a desencadear. E,
embora isso signifique uma concentração ainda maior de riqueza nas mãos
de um grupo extremamente privilegiado e sem responsabilidade, também
significa a expansão de oportunidades para milhões (e em breve bilhões)
de pessoas que, de outra forma, não teriam essa experiência.

Apesar de tudo que escrevemos em nosso relatório Top Risks, preferimos


estar vivos agora que em qualquer outra época. E não apenas porque
nós—como a maioria de nossos leitores—somos incrivelmente afortunados
na nossa loteria geopolítica. Mas esses avanços tecnológicos estão
acontecendo apesar, e não por causa, da política. A questão é quanto dano
a política causará. E a resposta parece ser, cada vez mais, “muito”.

Tudo o que podemos fazer é tentar trazer mais compreensão para nossas
divisões políticas e fazer mais para combatê-las. Tanto em casa, nos
Estados Unidos, quanto ao redor do mundo. É difícil imaginar que uma
pessoa possa ter mais valor moral por causa do lugar onde nasceu, ou por
causa de sua raça ou gênero. Com o último, grande parte do mundo hoje
concorda, pelo menos em teoria. Com o primeiro, sem chance.

Este não é um momento para complacência. 2025 é um ano para exigir


mais de nós mesmos, para assumir a responsabilidade por como nos
sentimos em relação ao nosso ambiente e para tornar público o que
pretendemos fazer a respeito. Considere isto nosso primeiro esforço.

Atenciosamente,

Ian e Cliff

New York | Washington DC | San Francisco | London | Tokyo | Singapore | São Paulo | Brasília

This material was produced by Eurasia Group for use by the recipient. This is intended as general background
research and is not intended to constitute advice on any particular commercial investment, trade matter, or issue and
should not be relied upon for such purposes. It is not to be made available to any person other than the recipient. No
part of this publication may be reproduced, stored in a retrieval system, or transmitted in any form or by any means,
electronic or otherwise, without the prior consent of Eurasia Group. Photo credit: Reuters, Getty
© 2025 Eurasia Group, 21 W 26th Street, New York, NY 10010

Você também pode gostar