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A Princesa e o Festival da Luz

O reino de Miravel enfrenta um clima de tensão e decadência, mesmo durante o grandioso Festival da Luz. A princesa Clariel, insatisfeita com seu papel de herdeira, busca escapar da pressão e das expectativas, mas é alertada por Lucemir, o mago da corte, sobre os perigos que a cercam. Sua decisão de voltar ao palácio, em vez de seguir o conselho do mago, resulta em consequências desastrosas para o reino.

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A Princesa e o Festival da Luz

O reino de Miravel enfrenta um clima de tensão e decadência, mesmo durante o grandioso Festival da Luz. A princesa Clariel, insatisfeita com seu papel de herdeira, busca escapar da pressão e das expectativas, mas é alertada por Lucemir, o mago da corte, sobre os perigos que a cercam. Sua decisão de voltar ao palácio, em vez de seguir o conselho do mago, resulta em consequências desastrosas para o reino.

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1.

De todas as coroas, a de Miravel é a que mais resplandece por toda a Aurora, mas, assim
como uma vela em brasa alta, sua cera está prestes a derreter por completo.
Mesmo com todas as intrigas recentes, a opulência do Cristavento, o palácio real, nunca se
apaga. Só neste decadente ano já se contaram: 32 banquetes, 2 renovações do telhado
feito à base de cristal e a preparação para o maior Festival da Luz que já se viu.
O Festival da Luz não é apenas uma festa comum comemorando o fim do inverno; na
verdade, é também uma verdadeira dionisíaca, regada a vinho e outros produtos do árduo
inverno, agora prontos para serem aproveitados. Inclusive, o bom rei tira do próprio bolso
para que até os mais pobres tenham como aproveitar essa festança, disponibilizando
música, pão e barris de vinho.
E é para um desses barris que Lucemir, o mago da corte, caminha. Não buscando festança
ou vinho barato, mas sim uma figura encapuzada que está na frente daquele barril,
enchendo um caneco de madeira com o líquido carmesim. Lucemir se posicionou atrás da
pessoa, disfarçadamente, como se fosse apenas mais um camponês querendo vinho, e
esperou pacientemente que a encapuzada terminasse de encher seu caneco. Quando o
caneco transbordou, a figura deu um gole e logo se virou para trás, olhando o mago com
seus olhos perolados.
— Te conheço? — Perguntou a princesa com o caneco na mão.
— Conhece sim, Vossa Alteza. — Respondeu o mago.
A princesa se manteve em silêncio e franziu o cenho.
— Seu pai quer te ver, olhos de pérola. — Continuou Lucemir. — Você não deveria sumir
assim, em um dia como esse.
— Não precisa me dizer o que fazer, Luce. — Disse a princesa, antes de beber do caneco
novamente.
— Bom, se pretendes ficar na rua, pelo menos beba algo bom. — Disse o mago, olhando
para o caneco, antes de estender a mão para ela.
Clariel entregou o caneco à mão esquerda de Luce, que logo em seguida, direcionou a
destra para um dos bolsos, tirando de lá uma folha de louro. O mago suspirou fundo, fechou
os olhos e esmagou o louro. O vinho borbulhou, adquirindo uma cor mais vistosa e um
aroma mais suave. O mago então apertou ainda mais a folha, e o vinho agora não só
borbulhava, mas parecia brilhar com uma pureza indescritível. A receita estava pronta.
Os olhos da princesa não estavam chocados com isso; na verdade, ela já conhecia o
truque. Mas, mesmo assim, não pode deixar de reparar na mão direita do mago, que antes
segurava a folha e agora estava vazia. Lucemir estendeu a caneca a ela, e, sem pensar
muito, Clariel pegou, cheirou e bebeu.
— Posso te ensinar a fazer isso se me prometer suportar essa noite. — Falou o mago, em
um tom quase rico.
— Vai mesmo?
— Se você me prometer, sim.
A princesa apenas concordou com a cabeça, antes de começar a acompanhar o mago de
volta para as redondezas do Cristavento.
2.
Clariel tinha mais de mil motivos para escapar do Palácio Real, desde coisas simples como
fugir da rotina rigorosa até aventuras dignas de livros com alguns de seus secretos
amantes, mas, sem dúvida, o maior deles era escapar do clima de velório que cada
corredor de Cristavento se tornara. Mesmo em um dia de festival, a tensão entre os criados
da casa que sabem dos boatos e a falta de esperança no olhar dos conselheiros e
chanceleres era evidente. Caminhar por esses corredores era uma tortura para a garota,
que, mesmo com um bom caneco de vinho na mão, não conseguia afastar de sua mente os
receios de ser a única herdeira desse reino.
Lucemir fez um sinal para que ela terminasse de beber rápido, antes que eles entrassem no
salão do trono, e, assim, ela fez, dando um vigoroso gole e guardando o caneco atrás de
um vaso de plantas. O mago riu da atitude da garota.
Logo, eles estavam dentro da sala do trono, atravessando o enorme tapete de cor amarela
que os separava do rei.
— Vossa Majestade… Eu — tentou dizer Lucemir, mas logo foi cortado pelo rei.
— Onde estava, garota? — perguntou o homem coroado com autoridade.
— Ela havia apenas se perdido, senhor.
— Não perguntei a você, Lucemir.
— Pai, é o que ele disse. Eu me perdi, e estou aqui agora. — disse a garota,
acompanhando a mentira do tutor.
— Como pode se perder por aí tão facilmente? — disse o pai, desconfiado.
— Sou uma tola, meu pai, apenas isso.
— És uma decepção como herdeira, minha filha. Se arrume, de pressa!
A garota assentiu com a cabeça, começando a sair da sala do trono. Porém, logo ela notou
a forma como o mago e o rei a encaravam, como se estivessem esperando ela sair. Assim,
Clariel fez o caminho para fora, em um passo rápido. Assim que a porta foi fechada, ela
colocou o ouvido nela.
— Você sabe, Lucemir, não podes deixá-la sair nessa noite.
— Eu sei, vossa majestade — respondeu o mago com receio. — Mas, se a conhece, sabe
que ela dará um jeito de aproveitar o festival.
— Não me importa, Lucemir. A princesa deve permanecer no…
E antes que ela pudesse ouvir o resto da conversa, um dos guardas que fazia ronda pelo
castelo apareceu no corredor. Clariel sorriu, mas, por algum motivo, não foi o bastante
dessa vez. O sujeito se posicionou na frente da porta da sala do trono, colocando a haste
da lança no chão, fazendo a princesa entender a mensagem.
Ao chegar em seu quarto, ela trancou a porta com um estalo firme e sentou-se à beira da
cama, observando o espelho. A face refletida era a mesma de sempre, mas os olhos, os
mesmos olhos perolados, estavam carregados de incerteza. Por que ela devia permanecer?
O que teria de tão importante nesse festival? Por que ela não pode ser só uma garota
normal por uma mísera noite?
A garota ouviu então a porta bater uma vez, duas vezes… E na terceira vez nem foi batida,
apenas aberta diretamente. Era Felícia, a ama da garota, que, com um rosto preocupado,
disse:
— MENINA! Você tem que se arrumar!
— Ah, tia Fel, me deixa. — Clariel murmurou em frustração.
— Vamos logo, encomendaram um belo vestido para ti.
— Eu não quero, Fel.
— O que foi, garota? — A mulher se aproximou, sentando ao lado dela, na cama.
— Ah, cê não vai entender.
— Posso escutar. — disse a ama com um sorriso maternal.
— Eu… Eu não tô pronta para nada, tia. — disse a garota, antes de acelerar a fala. — Eu
não sou sábia como meu pai, não sou delicada como foi minha mãe, não sou sagaz como o
Luce… Eu vou ser uma rainha horrível, tudo vai ruir se um dia cair sobre as minhas mãos e
o meu pai sabe disso. Ele mesmo vive me dizendo que sou uma herdeira decepcionante. —
A garota respirou antes de continuar. — Por que fazer tudo isso se eu já falhei por
completo?
— Porque… — a mulher pareceu pensar. — Porque, apesar de tudo, essa é a nossa vida. A
gente sempre tem que fazer parecer que tá tudo bem, não é?
— E se a gente perder tudo? Como dizem que vai acontecer…
— Se for esse o caso, você vai se arrepender de ter ficado se lamentando, não acha?
A garota franziu o cenho, pensando no que a moça disse.
— Por que vossa alteza não faz o seguinte? Obedeça seu pai só por essa noite. Isso não
vai te matar.
Clariel então fechou o rosto e apenas concordou com a cabeça. Com a ajuda da ama,
colocou um vestido delicado, feito à base de cetim.
Lucemir sentia um enorme peso no peito depois da reunião com o rei, que, assim como a
incerteza de Clariel, não podia ser resolvido apenas com a embriaguez. Mesmo assim, ele
mantinha a compostura de mago da corte, cumprimentando os convidados do rei com um
aperto de mão firme e um enorme e falso sorriso. Todavia, algo fez esse sorriso se tornar
genuíno: a visão de Clariel, em um belo vestido de cetim delicado, maquiada e com o
cabelo arrumado. O mago, de forma sutil, acenou com a cabeça para a moça, que também,
de forma sutil, atravessou a multidão, tentando evitar o maior número de cumprimentos
possíveis para alcançar o mago, o que foi difícil, pois estavam no salão de festas.
— Então? Já sou a boneca perfeita para o espetáculo? — murmurou a princesa, com
sarcasmo.
— Não parece que está de ressaca, vossa majestade — Lucemir, com um leve sorriso,
respondeu no mesmo tom. — Penso no que Felícia fez para te convencer a vestir isso.
— Ela tentou me falar algumas baboseiras sobre obedecer ao meu pai e fingir que está tudo
bem por essa noite.
Lucemir suspirou, tomando um momento para observar o salão. A música e os risos
enchiam o ambiente, mas ele via além disso: o nervosismo nos gestos dos criados, os
olhares ansiosos dos conselheiros. O rei podia tentar manter a fachada, mas o Cristavento
era uma fortaleza prestes a ruir, e todos sabiam disso.
— Tua ama não está errada, Clariel. Mas não é uma solução, apenas um paliativo. Fingir
que tudo está bem é útil... até o momento em que deixa de ser.
— E por que continuamos fingindo, então? — A pergunta veio como uma lâmina, direta e
afiada. — Qual é o propósito de toda essa encenação?
Lucemir encarou a princesa. Ela podia parecer leiga para os olhos comuns, mas para os
olhos dele, aqueles olhos eram mais do que belos e brilhantes: eram, na verdade, curiosos,
e buscavam somente a verdade, por mais que ela fosse dolorosa.
— Fingimos porque a alternativa é o caos — disse ele, finalmente. — Porque admitir a
verdade significa expor nossas fraquezas. E fraqueza, nesse jogo de poder, é uma sentença
de morte.
— Esse lugar é estranho… — A garota olhou diretamente para os olhos do mago. — Digo,
parece que todos daqui mentem para mim, menos você.
As palavras finais ecoaram na mente do mago, que, naquele momento, quase cuspiu a
bebida. A princesa, atenta, olhou com preocupação.
— Tudo bem, Luce?
O mago olhou para os arredores, vendo o rei se aproximar com seu cetro em mãos. Assim,
ele suspirou fundo, segurou o braço esquerdo da menina com força e disse em um
quase-sussurro:
— Você precisa sair daqui, Clariel.
— Como assim? — A garota perguntou, confusa.
— Apenas saia do palácio, por favor, olhos de pérola. — Disse o homem, encarando a
garota no fundo de sua alma.
— Luce? Como assim? Por que isso agora?
— Porque seus olhos são lindos, e eu não quero que eles se fechem. — O homem
suspirou. — Agora, por favor, saia daqui com discrição.
A garota assentiu, sentindo seu coração palpitar.
— E você, ficará bem? — Perguntou a princesa.
— Você sabe que sim. Agora, saia, por favor.
Confiando em Luce, ela decidiu obedecer à sua ordem e se retirou com cautela do Salão de
Festas.
4.
Para a sorte de Clariel, o resto do palácio era uma clareira se comparado ao salão de festas
naquela noite. Mal havia guardas perambulando pelos corredores, e muito menos
convidados curiosos. Todos estavam preocupados com o festival. Ela logo chegou a uma
das saídas alternativas que conhecia, pela ala noroeste do Cristavento.
Assim que a princesa colocou um dos pés para fora, ouviu um som estridente e flamejante
vindo de onde viera. A garota paralisou-se e pensou no que devia fazer. Por um lado,
confiava em Luce; por outro, temia pela segurança do amigo. E foi isso que a fez dar
meia-volta.

E dar meia-volta foi o que causou o declínio final do reino.


Pois ela descobriu que o que era genuíno também era caos.
Que nada na sua vida havia sido autêntico.
Seu único amor personificou o sinistro,
Por ela.
Ainda assim,
Fecharam-se os olhos de pérola.
5.
Miravel foi esquecida.
A terra foi amaldiçoada.
E seu nome antigo voltou à tona:
Node.

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