Relato do Time Skip
Logo após os acontecimentos que nos levaram a Lotus, algo adormecido em mim despertou. Uma
lembrança. Uma ausência. Alguém importante demais para continuar ignorando.
Em minhas orações, roguei a Vox que desfizesse meu Selo. Não por vaidade, mas por necessidade. Eu
precisava de volta o meu corpo original. Em troca, prometi criar uma magia capaz de transportar esse
corpo até a feiticeira a serviço dos Mascarados. Era o único meio seguro. Para sair vivo de Marivo, eu
teria de trocar de corpos com os Yukenzianos.
Ainda assim, escolhi retornar a Marivo. Precisava reencontrar meu irmão. Precisava ver com meus
próprios olhos como ele resistia a tempos tão cruéis.
Minha missão, porém, vinha antes de tudo: levar minha aprendiz a um lugar seguro. Eu precisava dela
ao meu lado. No meio de mentiras, jogos políticos e deuses silenciosos, ela era a única em quem eu
realmente confiava.
Zesta.
Somente os deuses sabem o quanto essa mulher significava para mim e para meu irmão.
Dependíamos dela. Assim como dependíamos de outros, agora ausentes. Que os deuses os guardem.
Dos meus espiões, apenas Zesta restou.
Marivo havia se tornado um pesadelo. Morte espalhada pelos paralelepípedos. Vísceras expostas ao sol.
Um cenário capaz de embrulhar o estômago até mesmo daqueles que já marcharam por incontáveis
guerras.
Minha casa — o lugar onde nasci — havia sido derrubada. Apagada, como se nunca devesse ser
lembrada.
Ainda assim, meu irmão permanecia de pé. Em meio ao caos, preparava-se para enfrentar o exército
Yukenziano, que, ao perceber a fragilidade de nossas defesas, decidiu que aquele seria o momento ideal
para atacar.
Procurei por qualquer rastro de Arc. Qualquer sinal do responsável pelo Ato Vil que levou Marivo à
ruína. Não encontrei nada. Nem um vestígio.
Foi então que tomei minha decisão. Lutaria ao lado do meu irmão. E faria daquele conflito a iniciação de
Zesta, elevando-a à posição de meu braço direito. Meu irmão não abandonaria Marivo. E eu não
abandonaria nenhum dos dois.
A guerra chegou sem cerimônia. E Arc permaneceu ausente.
Vimos surgir inúmeros samurais. Alguns fracos, outros tão poderosos quanto os antigos Insígnias Alvas.
Ainda assim, Marivo não cairia sem luta. Mesmo sem os Insígnias, ainda tinha a nós três.
Nossa família nunca criou covardes.
Salaark e Szar são duas metades de um legado destinado a ser lembrado. Um, um assassino sanguinário.
O outro, o gênio da lança.
Samurais renomados tombaram empalados. Um deles caiu com um buraco no peito tão vasto que a luz
do sol atravessava a lâmina de Szar. Aquele feito ecoou entre os Yukenzianos. O medo se espalhou. Szar
ganhou fama… e infâmia. Passaram a chamá-lo de Szar da Aurora, pois diziam que os primeiros raios de
luz surgiram no instante em que ele matou o samurai.
Quanto a mim, percebi que meu nome já circulava. Minha infâmia em Marivo me precedia.
Curiosamente, isso facilitou diálogos com alguns inimigos. Eles acreditavam que eu poderia trai-la e
ajudá-los a tomar a cidade.
Ingênuos.
Eu jamais cairia nesses jogos políticos baratos. Usar-me-iam enquanto útil e me descartariam no
instante seguinte. Ainda assim, confesso: se tivesse aceitado, eles teriam experimentado o gosto amargo
da derrota. Bastaria perderem alguns samurais… e um corpo.
Esperei. Observei. Aguardei.
Buscava o corpo perfeito. Força física, aparência adequada e uma arma que eu soubesse manejar. Algo
oriental, como os Yukenzianos. Foi então que o vi: um fauno raposa. Diferente dos outros. Usava Vitale
em vez dos elementos comuns. Ignorado pelos demais.
Era a oportunidade ideal.
Lutei contra ele à minha maneira. Sua alma era manchada. O reflexo que vi não lembrava em nada uma
raposa graciosa, mas sim uma versão distorcida, corrompida, monstruosa. Como se aquela fosse a forma
que ele poderia assumir. Algo o mantinha preso, como uma coleira invisível.
Foi a primeira vez que testemunhei a corrupção da alma causada por uma maldição.
Talvez Zesta carregue algo semelhante. Descobri que ela é uma vampira, ainda uma neófita.
Transformada há apenas um ou dois anos. A rede de informações vampírica, percebi, é muito mais vasta
do que eu imaginava. E o conhecimento de magias Vitale seria essencial para a recriação do Éter.
Troquei de corpo com a raposa. Enviei meu corpo verdadeiro para Lion Heart, aos cuidados de Georgine
— ou Hector. Desde que o mantivessem inteiro, pouco importava.
Também tomei outra decisão necessária. Coloquei um colar de escravo em Zesta, declarando-a minha
posse de guerra. Sua beleza chamava atenção demais, e qualquer Yukenziano em campanha tentaria
tomá-la à força.
A travessia por Yukenzo foi problemática. Muitos desejavam Zesta. A guerra revela o pior das pessoas.
Não apenas deles. Não sou hipócrita a ponto de fingir que isso é exclusivo de um povo.
Durante o caminho, garanti que Zesta fosse alimentada com o sangue daqueles que tentaram violentá-la
ou nos matar. Se o Criador dela a abandonou, eu não o fiz. O progresso foi notável.
Caminhávamos durante o dia. À noite, ela demonstrava temor da Lua, embora eu não observasse
qualquer dano causado por sua luz. Seus olhos haviam mudado. Mais puxados. Yukenzianos. Uma
mutação do vampirismo, talvez. Antes, eram como os de qualquer marivoense reidakiano. Meu irmão
confirmou.
Ensinei-a a manejar uma katana. Para o mundo, ela era minha guarda-costas. Para mim, era algo mais
complexo. Utilizei um suposto ritual de Vitale, alegando que a tornava incapaz de me trair.
Não sei se tal ritual realmente existe.
Mas, se existir… quero aprendê-lo.
Teria muitos peões à disposição.
Será que Vox sorriria ao ouvir isso?