A livraria ficava espremida entre uma farmácia e uma loja de consertos, mas não
aparecia para qualquer um. A fachada era simples demais para chamar atenção, e o
letreiro apagado não ajudava. Ainda assim, algumas pessoas juravam tê-la visto
apenas em dias específicos, geralmente quando estavam prestes a tomar uma decisão
que mudaria tudo.
Ana entrou sem saber por quê. Não procurava livros, nem abrigo da chuva. Apenas
sentiu que devia empurrar a porta. Um sino tocou, anunciando sua presença a um
homem atrás do balcão, velho demais para ser surpreendido. Ele sorriu como quem já
esperava.
As estantes eram altas e desorganizadas, mas não havia poeira. Cada livro parecia
exatamente no lugar certo, embora Ana tivesse certeza de que jamais encontraria
aquele sistema em outro lugar. Ao puxar um volume ao acaso, percebeu algo estranho:
o título era seu nome. Ao abrir, leu uma cena de sua própria infância, descrita com
detalhes que nunca tinha contado a ninguém.
Assustada, fechou o livro. O livreiro observava em silêncio. Outros volumes chamaram
sua atenção. Datas que ainda não tinham acontecido. Escolhas que ela vinha adiando.
Em um deles, Ana se via indo embora da cidade. Em outro, ficava. As consequências
eram diferentes, mas nenhuma versão parecia errada. Apenas incompleta.
— Posso levar algum? — perguntou, com a voz baixa.
— Você pode ler — respondeu o homem. — Levar, não.
Ana sentou-se no chão, entre as estantes, e passou horas folheando possibilidades.
Riu, chorou, sentiu medo. Não havia finais definitivos, apenas caminhos que se
dobravam. Quando fechou o último livro, algo dentro dela estava estranhamente
calmo.
Ao sair, percebeu que não carregava nada nas mãos. A livraria parecia menor do lado
de fora, quase invisível. No dia seguinte, tentou voltar. No lugar, encontrou apenas a
farmácia e a loja de consertos. Nenhum espaço entre elas.
Ana seguiu sua vida sem saber exatamente o que tinha mudado. Mas, sempre que
precisava escolher, sentia menos pânico. Como se, em algum lugar fora do alcance,
todas as versões dela continuassem existindo — e isso fosse suficiente.