O relógio da estação marcava sempre o mesmo horário: 17h42.
Não importava
quantos dias passassem ou quantos trens chegassem atrasados. Os ponteiros
permaneciam imóveis, como se o tempo tivesse decidido parar ali. No começo, as
pessoas reclamaram. Depois, se acostumaram. Por fim, esqueceram. Exceto Helena.
Helena passava pela estação todos os dias no caminho para casa. Parava por alguns
segundos, observava o relógio e sentia um aperto no peito que não sabia explicar. Algo
naquele número a chamava, como um eco distante. Ela não lembrava de nenhum
acontecimento específico ligado àquele horário, mas tinha a certeza incômoda de que
algo essencial havia ficado para trás.
Certa tarde, uma criança puxou sua manga e perguntou por que o relógio nunca
andava. Helena abriu a boca para responder, mas percebeu que não sabia. Ninguém
sabia. A resposta tinha se perdido junto com o movimento dos ponteiros. A criança foi
embora, satisfeita com o silêncio, e Helena ficou ali, inquieta como nunca.
Naquela noite, sonhou com a estação vazia. No sonho, o relógio pulsava, como se
estivesse vivo. Um trem surgia nos trilhos sem fazer barulho, e uma voz dizia: “Você
ainda pode ir.” Ao acordar, sentiu uma urgência estranha, quase dolorosa. Vestiu-se às
pressas e voltou à estação antes do amanhecer.
O lugar estava deserto. Nenhum funcionário, nenhum passageiro. Apenas o relógio,
imóvel. Helena subiu em um banco e tocou o vidro frio. No instante em que seus dedos
encostaram, os ponteiros tremeram. Um segundo passou. Depois outro. O som
metálico ecoou pela estação como um suspiro antigo.
O trem apareceu exatamente às 17h42.
Sem pensar, Helena entrou. Não sabia para onde ia, nem o que encontraria. Mas sabia
que ficar era uma forma lenta de desaparecer. Quando o trem partiu, o relógio voltou a
funcionar normalmente. As pessoas notaram no dia seguinte e comentaram,
surpresas, antes de seguir com suas rotinas.
Ninguém percebeu a ausência de Helena. Mas, pela primeira vez em anos, o tempo
voltou a andar para alguém.