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Estudo do Folclore e Cultura Popular

O documento discute a evolução dos estudos folclóricos, destacando como a cultura popular foi redescoberta no final do século XIX na Europa, em um contexto de valorização das tradições e identidade nacional. A caracterização dos fenômenos folclóricos é complexa e envolve múltiplas variáveis, além de ser influenciada pela urbanização e pela mídia. O texto também aborda a importância dos ciclos folclóricos, que estão ligados a eventos sociais e ecológicos, mostrando a resistência e a antiguidade dessas manifestações culturais.

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Estudo do Folclore e Cultura Popular

O documento discute a evolução dos estudos folclóricos, destacando como a cultura popular foi redescoberta no final do século XIX na Europa, em um contexto de valorização das tradições e identidade nacional. A caracterização dos fenômenos folclóricos é complexa e envolve múltiplas variáveis, além de ser influenciada pela urbanização e pela mídia. O texto também aborda a importância dos ciclos folclóricos, que estão ligados a eventos sociais e ecológicos, mostrando a resistência e a antiguidade dessas manifestações culturais.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
ANTROPOLOGIA ( CULTURA POPULAR)
Prof. Luiz Cavalcanti Lacerda
TEXTO PARA USO EXCLUSIVO EM SALA DE AULA. SÓ REPRODUZIR COM PERMISSÃO DO AUTOR. ©
CULTURA POPULAR 1. O estudo do Folclore: breve histórico sobre os estudos folclóricos.
É preciso lembrar aqui duas coisas. Primeiro que no final do século 19 europeu, a ciência era “moda”. As pessoas comuns, os escritores, os intelectuais, eram
seduzidos por qualquer novidade que tivesse um caráter científico. Num determinado momento, era “chic” ( a palavra francesa é da época), conhecer os segredos do
antigo Egito, se estudar a teoria da evolução, ser contra o tráfico de escravos africanos e deleitar-se com o conhecimento popular. A segunda coisa para ser lembrada é
que as religiões oficiais, o anglicanismo na Inglaterra e o catolicismo no continente, vinham sofrendo as pressões resultantes do progresso e do deslumbramento com a
ciência (as máquinas para produção em escala, o cinema, o avião, o automóvel, já estavam praticamente prontos para o consumo). A ciência trouxe o positivismo, o
materialismo, a secularização e restos do iluminismo do século 18. Este “clima” cultural levou os europeus a olhar para o próprio umbigo e procurar nas suas
“tradições” a alma da “nação” (o Estado-Nação foi a figura política mais importante do período. Isto perdura até hoje ). Acontece que relegadas ao esquecimento e a
miséria, as coisas populares, tinham sido banidas pelo cristianismo há dezenas de séculos atrás. Os camponeses (do latim, “pagos” – pagão) e o povo (do grego,
“demos”), mantinham tradições nos contos, nas lendas, nas danças, nas músicas, nos instrumentos, nas receitas de cozinha. Porém, os intelectuais europeus
descobriram que havia todo um mundo cultural banido pelo cristianismo, pela urbanização e pela escola. Um mundo camponês e popular, composto por ritos de
passagem, formas próprias de festejar o calendário católico, festas de colheita e de plantio e, muito especialmente um mundo cultural com língua própria: os dialetos
(eles são mais de 100, na Europa).
Esta cultura popular era tão estranha e esquecida que chegou a se criar na Alemanha, um campo científico para estudá-la: a “Völkerpsycologie” (psicologia do povo).
Os italianos, seguindo a “moda”, criaram a “Demopsicologia” e os ingleses, como já vimos, o “Folklore”. Como boa parte desta cultura era baseada em contos, lendas,
mitos, piadas e ensinamentos passados de geração a geração oralmente, a língua – ou o dialeto – eram fundamentais. Daí os estudos folclóricos terem se iniciado pela
literatura.
Acontece que esta cultura popular virou a alma do povo, o orgulho nacional. Os alemães, os suecos e dinamarqueses, passaram a valorizar a mitologia nórdica, os
ingleses a cultura celta e galesa (a palavra “lore”, é galesa e quer dizer esperteza e conhecimento), os italianos passaram a valorizar o seu passado etrusco, cretense e
miceniano. Os franceses, tinham sua “alma popular” nas regiões mais antigas da Champanha, da Gasconha e do Languedoc. Foi como se a velha Europa, sepultada
pelo cristianismo, ressurgisse como o sentimento mais profundo do Estado-Nação. Antes de virar uma disciplina acadêmica e uma parte da própria antropologia
cultural a cultura popular era uma ideologia política, uma fonte de inspiração artística e uma moda européia. Daí a associação constante entre folclore, tradição e
história.
Os estudos folclóricos só tornaram-se científicos quando foram incorporados pela antropologia: na França com Arnold van Gennep e nos Estados Unidos, com Franz
Boas. A partir daí, desenvolveu-se em antropologia e em sociologia o conceito de sociedade de folk, cultura de folk, etc. Basicamente eram estudos voltados para as
chamadas sociedades camponesas ou grupos camponeses / rurais. Gradativamente, os estudos de folk foram ampliando-se para englobar comportamentos, hábitos e
costumes em sociedades de classe onde o povo também guardava elementos culturais autônomos, muitos de fundo étnicos e tão distantes da cultura letrada da ciência
quanto dos camponeses europeus.
Tente responder:
✔ Em sua opinião a valorização do folclore ainda é uma ideologia política?
✔ Afora o ressurgimento do final do século passado, você pode identificar outro movimento de valorização da cultura de folk? Qual?
✔ Qual é a sua concepção de um Estado-Nação?
✔ No Brasil, o folclore é controlado e subsidiado pelo Estado desde os anos 50. Dê uma opinião sobre este fato:

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CULTURA POPULAR 2. Características dos fatos folclóricos.
CARACTERÍSTICAS. Em qualquer ciência, toda vez que se quer estudar um fenômeno inicia-se o trabalho com uma caracterização. Esta caracterização é formada
pelo conjunto de traços ou elementos que podemos observar no fenômeno que investigamos. Quando este trabalho é concluído, partimos para as definições e
conceituações que são o primeiro passo para se construir teorias e modelos de análise. Portanto, a caracterização é o primeiro passo para o conhecimento científico.
Quanto melhor ela for feita mais fácil torna-se a análise e a construção teórica.
Fenômenos sociais, comportamentais e demográficos, são – geralmente - fenômenos do tipo complexo e, muitas vezes, apresentam elementos discretos. Isto quer
dizer que o número de elementos (ou de variáveis) que definirão o fenômeno é grande e pode residir em várias áreas explicativas diferentes; e mais, que alguns dos
seus componentes, podem não ser facilmente deduzidos pela análise multidisciplinar, sendo, portanto discretos. Obviamente os fenômenos complexos exigem um
redobrado cuidado com a sua caracterização que pode necessitar de análise interdisciplinar.
Já vimos que os fenômenos do folclore e da cultura popular em geral, são do tipo complexo: eles envolvem varáveis históricas, étnico-"raciais", demográficas,
ecológicas, econômicas e sociológicas. Observamos também que o folclore, apresenta traços discretos como a sua influência na construção de ideologias nacionalistas
ou a sua conexão com a mídia e com o “pop”. A própria “proteção” de tradições folclóricas pelos Estados nacionais, é um processo político e cultural que exige
análises aprofundadas. Da mesma forma, a própria sobrevivência da produção folclórica local num mundo altamente integrado por sistemas de comunicação
modernos, é outro fenômeno cultural relevante. No mínimo, podemos aprender como as sociedades humanas constroem, mantém e esquecem hábitos, valores,
costumes, regras e conhecimentos culturais acumulados (também conhecidos como “tradições folclóricas”), num determinado espaço físico/ecológico.

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Pelo exposto acima, podemos deduzir que a caracterização dos fenômenos folclóricos, não é tão simples como possa parecer ao estudioso menos avisado. Esta
situação é complicada pelo fato de que os grupos e pessoas que produzem conhecimento e ações tradicionais do tipo folclórico, não estão – muitas vezes – conscientes
deste fato. Na verdade, o conceito e a sua importância, são produtos de uma elite intelectual e acadêmica que, diga-se de passagem, não produz ela própria, este tipo
de cultura. Para muitas pessoas, cozinhar um alimento tradicional é simplesmente repetir velhas receitas aprendidas na família com os ingredientes disponíveis na sua
região; usar um instrumento de “folk” (como uma viola de 7 cordas ou uma rabeca), com uma afinação específica, um ritmo e uma fórmula musical, é simplesmente
repetir o conhecimento de artesanato e de música disponível na sua comunidade. Da mesma forma, pessoas ou grupos que saem no carnaval numa determinada
manifestação ou folguedo estão, na maioria dos casos, divertindo-se ou cumprindo alguma obrigação cultural, dentro dos mesmos padrões dos seus pais ou da sua
religião. Existe, portanto uma grande diferença entre estudar folclore, usar elementos do folclore e viver o folclore. É claro que a antropologia, estuda o folclore.
Porém, é um pressuposto geral da nossa ciência (“práxis”), garantir que as pessoas e os grupos sociais vivam o folclore, se assim o quiserem.
O QUE É UM FATO FOLCLÓRICO.
Dissemos acima que a caracterização é um passo fundamental na construção do conhecimento e também que alguns fenômenos são mais difíceis do que outros neste
campo. No entanto, não nos referimos ao fato de que, como todos os acontecimentos socioculturais estão sujeitos à mudança no tempo. As caracterizações - mesmo as
bem construídas – sofrem um desgaste analítico com as mudanças na sociedade. Assim, elas precisam ser reconstruídas ou descartadas, se for o caso (boas
caracterizações, dificilmente são descartadas totalmente). No caso dos fatos folclóricos, as definições mais antigas, não resistiram a dois fatores de mudança ocorridos
na cultura brasileira: a urbanização, que diminuiu drasticamente as diferenças entre os mundos rural e urbano e a consolidação de uma mídia, localizada no sudeste
do país, com um poder de penetração semelhante aos dos países do primeiro mundo, que reduziu em muito as diferenças regionais e o isolamento de muitas
populações e localidades. Na verdade, estes dois processos, reduziram também a presença de traços importantes do fato folclórico, como a regionalidade e a
oralidade.

Vejamos a caracterização de Renato Almeida (1977: 7-14), talvez o mais importante folclorista brasileiro (os itens grifados são de Almeida, as observações em itálico
são nossas).

✔ São considerados tanto elementos simbólicos quanto elementos materiais ( uma viola de 10 cordas é um instrumento folclórico tanto quanto um Auto de

caboclinhos ou o “ponto” de cozimento da rapadura );


✔ São considerados elementos fora das camadas da elite da sociedade (intelectual e econômica), elementos construídos pelo povo, não importando se suas

fontes são as tradições históricas ou traços da elite que foram absorvidos pelo povo na história (neste sentido, as “sambadas” ( ou ensaios) de maracatu, são
elementos folclóricos, os grupos de pagode e as escolas de samba, não são. Um tambor da timbalada, não é folclórico, um tambor “rum” do Jongo, é folclore.);
✔ São considerados elementos que se caracterizam pela transmissão oral e não pela tradição escrita. (embora existam livros de estudiosos, folcloristas e

antropólogos, que mostram as diversas fórmulas de dança, de música, de cozinha, de poesia, de construção de objetos e instrumentos, dificilmente o povo que vive e
faz o folclore aprende sua reprodução nestes manuais. Geralmente ela é obtida na família e na comunidade);
✔ Elementos que se caracterizam pelo anonimato, também são considerados (não existem registros históricos sobre quem, quando e onde, criou à

feijoada, as cantigas de roda, a viola e a rabeca, a coreografia dos caboclinhos; quem construiu a “boleadeira” do vaqueiro gaúcho ou a fórmula dos diversos
cozimentos da farinha em Belém do Pará e da preparação da jurema. Na verdade, é possível indicar-se fontes étnicas e datas históricas aproximadas; mas a autoria,
típica da produção industrial,, é muito difícil de ser identificada no folclore);
✔ Devemos considerar também a aceitação coletiva ou comunitária. Onde se percebe que os elementos folclóricos, são reconhecidos pelo grupo social que

se identifica com eles e conhece as suas fórmulas e significados. Isto fica mais claro em comunidades isoladas ou mesmo em cidades onde um tipo de comida, de
dança ou de traje, seja parte integrante da identidade cultural local. Como o carnaval de Olinda, o pato ao tucuxi em Belém do Pará, a cavalhada em Goiás Velho ou o
samba de roda no recôncavo baiano.
✔ Finalmente, Almeida considera que devemos admitir a funcionalidade das manifestações folclóricas. Pois que os grupos sociais, não constroem idéias e

coisas sem uma função societária mais ou menos explícita. Esta função pode ser lúdica, política, de controle ambiental e de aproveitamento dos recursos ecológicos,
mágico-religiosa ou de conservação de uma identidade étnica.
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CULTURA POPULAR 3. OS CICLOS FOLCLÓRICOS 1 ( noção, características e exemplos)
Os primeiros pesquisadores do folclore, na Finlândia, Dinamarca, Suécia, Alemanha e Inglaterra, perceberam várias características nas manifestações populares. Na
verdade, a sistematização destas características, criou a própria ciência do folclore. Dentre elas a da existência dos ciclos folclóricos foi fundamental. A identificação
deste fenômeno tornou-se especialmente importante por facilitar a pesquisa e organizar o material disponível.
O que os folcloristas notaram? Que muitas manifestações populares só aconteciam em determinados períodos do ano. E que muitas delas repetiam-se – há séculos –
seguindo este mesmo “calendário” cultural. A este processo foi dado o nome de ciclo, significando o eterno recomeço do folclore. Também se observou que estes
ciclos, além de muito antigos, estavam associados a calendários sociais mais gerais como os da Igreja Católica e das datas nacionais. Também a eventos ecológicos,
como os ciclos agrícolas e as estações do ano ou à manifestações de caráter biológico, como a reprodução dos rebanhos. Devendo-se considerar também situações
sociais específicas como nascimentos, casamentos, funerais, etc.
Uma conseqüência desta identificação foi como já observamos facilitar a pesquisa. Uma vez identificados os ciclos, se poderia dividir o ano por eles e anotar quais
manifestações populares apareciam em cada ciclo ou período. Assim, cada uma delas estaria ligada da seguinte maneira: ciclo do carnaval, ciclo do natal, ciclo da
quaresma, ciclo da colheita, ciclo do plantio, ciclo da parição do gado, ciclo da reprodução dos animais, etc.
Com a concepção dos ciclos folclóricos, foi possível perceber-se dois fatores fundamentais nas manifestações populares: em primeiro lugar sua antiguidade e em
segundo a sua resistência a modificações sociais; o que desloca este tipo de fenômeno para o campo da cultura e da tradição. Talvez um exemplo simples destes

2
processos seja o ciclo natalino: ele existia na Ásia, no oriente e na Europa, antes da introdução do cristianismo romano. Nestes casos, estava identificado com festas do
solstício de verão e o culto ao sol. Obviamente, os solstícios, são diferentes na Europa e no Oriente. Porém eles são sempre celebrados com festas religiosas e
profanas. Embora o cristianismo tenha transformado a festa do sol no nascimento de Jesus, o povo continuou celebrando o ciclo (no caso, um ciclo ecológico), que
marca mudanças nas estações do ano, na reprodução dos animais e na disponibilidade de produtos agrícolas. O caso do natal demonstra a antiguidade e a resistência
das manifestações folclóricas. Por outro lado, mostra também as vinculações profundas da cultura popular com ciclos ecológicos e biológicos, que regem as
sociedades humanas nos últimos 11~12.000 anos.
No entanto um outro ponto teórico é importante de se entender: a leitura popular dos ciclos é basicamente cultural. Por ser cultural, possui bases étnicas e associadas a
populações específicas. Obviamente cada grupo social desenvolveu seus calendários eco-biológicos também específicos que terminam fazendo parte da cultura do
grupo. As estações do ano, as espécies animais e os tipos de plantação, não se repetem da mesma forma em todo o planeta, daí as variações. Assim os ciclos
folclóricos ligados ao arroz são muito numerosos na Ásia (onde ele é a base da alimentação), mas não possuem a mesma influência que os ciclos do milho nas
Américas. Da mesma forma, não predominam no Japão ciclos ligados ao gado, como no Brasil.
Porém, em situações de contato entre populações (contato interétnico), os elementos dos ciclos, como o resto da vida cultural, são misturados, modificados ou
perdidos no processo. Esta dinâmica permite boa parte da variabilidade cultural e a criação de novas identidades culturais. As sociedades adaptam suas culturas a
novas circunstâncias de contato populacional. Daí o natal ser ligado à neve, mesmo em países onde o inverno não é tão rigoroso, embora aconteça o solstício.
Um outro exemplo simples é o ciclo junino, ligado ao primeiro dos solstícios do ano e ao início do frio no hemisfério norte; no sul está ligado à colheita do milho um
alimento sem grande expressão na Europa e no Oriente. Aqui se tem abundância, lá escassez. Aqui se tem calor, lá o início do frio, o fim da luz. Devido a colonização
européia as festas do ciclo, foram trazidas para as Américas e culturalmente adaptadas.

CULTURA POPULAR 4. OS CICLOS FOLCLÓRICOS 2 (cont. ciclos folclóricos no Brasil).


Uma orientação geral entre os folcloristas indica os seguintes campos culturais da pesquisa folclórica: Mitologia, lendas e tradições; Dramas (autos) populares;
Artes, ofícios, vestes, ornamentos; Comidas e bebidas; Crenças, magia, medicina; Linguagem popular, provérbios e enigmas.
A abrangência dos estudos folclóricos, como colocados nas décadas dos 40, 50 e 60, do século passado não foram diminuídos. Ao contrário, ela sofreu um aumento de
perspectiva com o desenvolvimento do conceito de cultura popular (a partir da década de 70), que passou a englobar não somente as manifestações folclóricas como
tudo mais com relação ao povo, numa visão mais sociológica. Além de se estudar as manifestações folclóricas, as diferenças sociais entre as diversas camadas de uma
população e a convivência da cultura do povo com outras formas de manifestação cultural (cultura de massa, indústria cultural, cultura “pop”), foram acrescentadas à
noção de cultura popular.
Da mesma forma, os folcloristas delimitaram os grandes ciclos que “regem” o folclore brasileiro da seguinte forma: Ciclo das grandes festas (católicas): Ciclo do
natal a Reis; Ciclo do carnaval; Ciclo das festas juninas; Ciclos locais (do Carmo em PE, da Candelária na BA, de Nazaré no PA, etc. ). Ciclos de festas
políticas (nacionais ou locais) como o 2 de Julho em Salvador ou o 7 de Setembro. Ciclo de colheitas, como as “botadas” das usinas e do gado como as festas
de “apartação”, etc. Alguns destes ciclos são fixos, como o natal, outros correspondem a festas móveis como a páscoa, a festa do divino Espírito Santo, etc.
Mas o que significam estes grandes ciclos? Que interpretação cultural pode ser dada? Qual seria a leitura antropológica possível? Em primeiro lugar é necessário
delimitar que existem diversas “leituras” de classe e regionais destes ciclos: é perfeitamente possível se considerar que no Brasil, a classe média urbana passa pelo
ciclo carnavalesco de maneira diferente que um “caboclo de lança” das usinas que paga uma promessa durante o carnaval. Da mesma forma, o significado da festa do
2 de Julho na Bahia, não será o mesmo para um pernambucano ou catarinense. Igualmente, as festas de reis de congo e bandeiras do divino em Minas Gerais e Goiás,
representam uma longa tradição familiar que não aparece com a mesma intensidade no Rio Grande do Sul.
Uma primeira conclusão indica que os ciclos folclóricos, podem servir como auxiliares de interpretações sobre a sociedade brasileira e suas desigualdades e diferenças
regionais. Neste sentido eles envolvem uma parte significativa da nossa história cultural. As características dos nossos ciclos folclóricos (como os colocados acima)
permitem uma interpretação pluriétnica da sociedade nacional e isto por dois motivos: em primeiro lugar, as manifestações indicam a participação de grupos étnicos
diferenciados como as festas de congo (no ciclo de reis) que possuem forte influência de grupos africanos, a nau catarineta (no ciclo do natal) que possui similar em
Portugal, e a festa do boi (do ciclo carnavalesco) que, em Parintins (PA), é fortemente ligada a manifestações étnicas indígenas. Em segundo lugar, a interpretação
pluriétnica é possível, pois boas partes das manifestações cíclicas, na sua configuração, não possuem similar nas culturas de origem. Daí, não existir samba na
África, bumba meu boi entre as tribos indígenas e cultos sincréticos da Virgem Maria com orixás yorubá (etnia africana da Nigéria) em Portugal. De forma que é
possível se entender a cultura brasileira através de um processo de interpenetração étnica e populacional, cujos reflexos podem ser observados em vários níveis
sociais inclusive nos nossos ciclos folclóricos.
Existem várias leituras antropológicas possíveis para a existência de ciclos folclóricos, algumas já foram vistas no texto anterior (sobre os elementos ecológicos,
biológicos, e outros “calendários” específicos). Com relação aos ciclos brasileiros, a leitura da plurietnicidade nos parece a mais adequada se associada a uma visão
histórica. No entanto, é importante a atualização destes ciclos para a configuração atual da sociedade nacional; principalmente se considerarmos a presença dos meios
de comunicação modernos e as modificações econômicas dos últimos 20 anos.
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CULTURA POPULAR 5. Cultura Popular, Folclore e Indústria Cultural: algumas observações.
NOÇÃO. Quando relacionamos fenômenos culturais é importante estabelecer noções – pelo menos gerais – que facilitem o estabelecimento de um contexto. O
principal motivo para tanto é que os elementos culturais são muito variáveis de localidade para localidade, de região para região, de sociedade para sociedade. Esta
variabilidade, conforme já vimos em textos anteriores, manifesta-se em diferentes modos de pensar, se alimentar, vestir, falar, dançar, rezar, etc. No nosso caso não
existe uma teoria única, que dê conta do folclore, nem mesmo para a sociedade ocidental. A própria idéia de cultura popular, pode ter vários sentidos, dependendo do
país e da escola de interpretação. Esta dificuldade epistemológica aumenta a necessidade de estabelecerem-se noções gerais.

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CULTURA POPULAR & INDÚSTRIA. Aqui estamos entendendo cultura popular como as diversas manifestações, usos e costumes de uma maioria populacional
(povo), de uma dada comunidade, região ou sociedade. Neste caso, o folclore, seria o conjunto daquelas manifestações, usos e costumes de base étnica e histórica,
formadoras de uma (ou de várias) tradições culturais. São conhecimentos que independem de modelos formais de ensino, de formação acadêmica ou de
desenvolvimentos tecno-científicos. Já a indústria cultural, é um fenômeno recente do capitalismo e da transposição para a vida cultural de modelos gerenciais e
empresariais da economia moderna. Ela implica na produção em larga escala de padrões de consumo sociais/culturais os quais uma vez estabelecidos como usos
populares ou de parcelas significativas de uma determinada população, transformam-se em “bens culturais”, adquirindo assim um valor de uso, de compra e de venda,
como qualquer outro bem econômico.

Nas economias capitalistas, as indústrias de entretenimento (música, dança, canto, artes em geral, etc.) de roupas, alimentos, produzem um número gigantesco de itens,
de idéias, concepções, ícones, que possuem como característica além da variabilidade, uma grande capacidade de substituição. Esta indústria depende de constante
renovação e reposição de idéias e de itens, que a mantenham como opção de venda e consumo. Quanto mais forte a indústria cultural mais variado e numeroso são os
seus itens. Como uma espécie de efeito “colateral” sua permanência implica na própria superposição ou substituição de padrões culturais “normais” de fundo étnico
e histórico pelos dela própria. De tal forma que podem substituir a elaboração cultural em si mesma, tornando-se ela própria (a indústria) em construtora de cultura de
uma determinada sociedade. A sociedade norte americana é um exemplo onde a indústria cultural é tão forte que se tornou parte integrante do perfil cultural do país.

A indústria cultural não é, obviamente, autônoma. A sua sobrevivência depende da renda da população, da penetração da mídia, da disponibilidade de capital
financeiro e da própria cultura nacional que lhe fornece elementos para elaboração de idéias, projetos e “marketing”. Este último caso pode ser largamente
exemplificado: são alimentos que imitam os tradicionais, objetos e adereços de plástico que imitam peles e artesanato popular, músicas com teclados eletrônicos que
“sampleiam” (ou copiam) sons de instrumentos tradicionais, danças “estilizadas” que copiam padrões folclóricos gerais (geralmente, balés e companhias folclóricas
nacionais), uso “midiado” pela televisão e meios de comunicação, da linguagem do povo em novelas, teatro e programas humorísticos, dentre tantos outros.

De uma maneira geral, a indústria cultural imita ou copia os padrões culturais (etno-históricos) da população que, via estratégias de vendas, passa a ser o seu “público-
alvo” Esta população é segmentada por critérios econômicos e sociológicos em público A, B, C, etc. Assim ela pode receber “produtos” voltados diretamente para
padrões de consumo considerados como pertinentes para o seu “segmento”. Por se tratar de uma indústria (com seus objetivos de consumo) os critérios de lançamento
de itens, produtos e “modas” não são – obviamente – baseados em análise etno-histórica e sim em planilhas de custos e benefícios/lucros. Este fenômeno que é
relativamente novo na civilização ocidental tem criado em muitos países uma espécie de cultura de substituição aos padrões históricos da sociedade. Assim cria-se
como que uma “nova” cultura uma cultura de massas, onde os padrões de hábitos, costumes e comportamentos, são “alocados” por um segmento da indústria e do
capital.

GLOBALIZAÇÃO. A indústria cultural das grandes economias capitalistas não fica restrita a sua própria população. As idéias de “mercado” e “realização de lucros”
permitiram a expansão desta atividade para outras nações. Assim padrões de uma indústria podem tornar-se cultura de substituição em outro país ou em “franquia”
produtiva de indústrias similares em vários lugares do planeta. É possível admitir-se uma cultura de substituição inglesa em Hong Kong, uma americana no Brasil e na
Koréia do Sul, etc.

A globalização financeira dos últimos 10 anos tem sido um grande impulso para a indústria cultural, por permitir investimentos de larga escala em países periféricos.
Neles os capitais da indústria da arte, da diversão e da alimentação, pegam carona.

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