Akahime e Ann’a
”Os demônios são inconquistáveis. Independente da raça, tribo, origem ou clã, um demônio
para um demônio é como um irmão. Mesmo rivais vão se proteger.“
As guerras entre tribos demoníacas eram ferozes, nas alianças eram formadas quando necessário.
No ano de 870 depois de Dorah, os representantes demoníacos do continente se reuniram em
uma confederação com o propósito de conter o avanço militar do Império Silvano. Entre eles,
duas tribos do norte os Asuras e as Vieras, anteriormente rivais, agora encontravam-se em
cooperação.
Entre os Asuras, a sucessão era definida pela linhagem direta: a filha mais velha da soberana
herdava o poder. Aos dezessete anos, Akahime Asura, primogênita entre as 10 princesas da
tribo, já representava sua tribo em negociações e batalhas. Sua presença impunha respeito. Sua
liderança era incontestável. Desde jovem, mostrara-se apta a comandar. Mas havia algo nas
Vieras — ou melhor, — alguém — que a fazia ignorar seus deveres sem hesitação.
Akahime deveria estar a caminho de um encontro diplomático com as líderes Vieras. No entanto,
desviara-se do caminho, embrenhando-se na densa floresta de árvores petrificadas, esquivando-
se das raízes retorcidas, seus passos estavam acelerados, um tanto alegres. Ela estava indo em
segredo ao encontro de uma viera em especial.
A viera que Akahime estava indo ao encontro era Ann’a Vi’Prinkípissa, uma das 32 princesas
Vieras. Ann’a, uma donzela de 21 anos e 1,87m de altura, era delicada como as pétalas de uma
flor e não possuía a natureza agressiva de sua tribo. Sua mãe, que valorizava apenas a força,
desprezava essa gentileza.
Diferente de Ann’a, Akahime era brutal e talentosa na guerra, considerada um prodígio desde
cedo. Seu físico também a destacava: nascera com cabelos negros, uma cor rara entre os Asuras,
associada a heróis lendários. Sua estatura, próxima a 1,70m era alta para os padrões asuranas a
destacando entre os guerreiros.
Ao avistar Ann’a sentada em um galho largo da única árvore não petrificada da floresta de
Sekima, envolta em camadas de seda rosa e verde pastel, o coração de Akahime acelerou. A luz
do sol refletida pelas pétalas da cerejeira banhava a pele da viera, suas longas orelhas de coelho
tremiam suavemente ao perceber sua chegada.
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— Você continua linda — exclamou Akahime sentando ao lado de Ann’a no galho de uma
grande árvore
Ann’a apertou os lábios, e suas orelhas saltaram para cima, denunciando o rubor que se
espalhava por suas bochechas.
— Hmph... — Murmurou, desviando o olhar.
Akahime riu baixo e segurou a ponta da manga de Ann’a, acariciando levemente o tecido.
— Eu ainda não entendo como você consegue subir nessas árvores com essa roupa... —
comentou, analisando as inúmeras camadas do junihitoe.
— Não é tão difícil depois de usar um a vida toda. — Ann’a sorriu de canto.
— Eu sei que nossa vitória nessa guerra não é garantida… mas fico feliz que ela me faça te ver
com tanta frequência. — Akahime inclinou-se, encostando suavemente a testa na de Ann’a.
A viera fechou os olhos e inspirou devagar, como se quisesse guardar aquele momento para
sempre.
— Quando você se tornar líder, poderemos nos ver sempre… — sussurrou, antes de tocar os
lábios de Akahime em um beijo.
O toque foi breve, mas carregado de carinho. Akahime afastou-se devagar, os olhos ainda fixos
nos dela.
— Isso ainda vai demorar anos… — murmurou.
Ann’a sorriu, acariciando de leve a bochecha da Asura.
— Vai passar em um piscar de olhos, eu prometo.
Akahime suspirou, já sentindo a falta daquele toque, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa,
Ann’a ajeitou-se e mudou de tom.
— Enfim… acho que consegui uma pista sobre uma possível cura para a doença da sua mãe.
Os olhos de Akahime se arregalaram.
— SÉRIO?! — Ela saltou, quase escorregando do galho.
Ann’a segurou seu braço, rindo baixinho.
— Sim… Há um tempo, um aventureiro passou pelo nosso território e comentou na taverna
sobre um menino com os mesmos sintomas que sua mãe.
— E o que aconteceu com ele?!
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— Parece que um bardo e curandeiro de passagem deu-lhe alguns remédios. Poucos dias depois,
o menino já apresentava melhoras… E então, seis meses depois, todos os sintomas haviam
desaparecido.
Akahime agarrou as mãos de Ann’a, os olhos brilhando de esperança.
— Isso é incrível! Onde ele está agora?
— Parece que ele frequenta a escola mágica de Berim.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Akahime a envolveu em um abraço apertado,
enchendo-a de beijos e mordiscadas pelo rosto.
— Ann’nie, você é incrível! Obrigada, obrigada, obrigada!
Ann’a riu, tentando se soltar, as orelhas tremendo de vergonha.
— Vamos, pare com isso! Eu nem fiz nada… e se não formos logo, vamos nos atrasar!
Akahime riu e soltou-a com relutância, mas manteve uma das mãos entrelaçada à de Ann’a
enquanto desciam da árvore, não querendo desperdiçar um segundo ao seu lado. As duas
ajeitaram-se e então correram em direção a cidade.
O Palácio asurano era exatamente o que se esperaria de um templo japonês, construído em
madeira vermelha e adornado com pinturas predominantemente em marrom nas suas paredes
brancas, o cheiro era um misto de incenso e chá. Em dias normais o som de espadas se chocando
ecoaria pelos salões, mas hoje o silêncio tomava o ambiente.
Akahime entrou por uma das janelas e se esgueirando até seu assento pelo salão da guerra onde
os conselheiros asuranos e o líder já estavam em seus lugares.
— Aka! — seu pai a pegou pelo cangote do seu Homongi e cochichou — qual o motivo do
atraso?
— Eu precisei costurar minha roupa — desviou o olhar
— Ao menos esconda essa marca no pescoço — reprendeu enquanto ajeitava a gola dela.
Akahime corou e sentou de joelhos em seu lugar.
O Palácio Asurano erguia-se como a maior estrutura sobre a cidade, uma estrutura que
combinava a grandiosidade de um templo com a rigidez de uma fortaleza. Construído
inteiramente em madeira vermelha envernizada, cada viga e pilar ostentava entalhes retratando
feitos de antigos heróis. Suas paredes brancas eram adornadas com padrões delicados em
marrom, desenhados à mão, contando lendas asuranas.
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O aroma característico do incenso de sândalo impregnava os corredores, misturando-se ao cheiro
amargo de chá. Em dias comuns, o som metálico de espadas se cruzando e os gritos dos
guerreiros ecoariam pelos salões, mas hoje, o silêncio era absoluto. Apenas o farfalhar dos
tecidos e o ruído abafado das sandálias sobre o tatame rompiam a quietude.
Akahime moveu-se pelas sombras do palácio, evitando os corredores principais. Com um salto
ágil, esgueirou-se por uma das janelas de madeira deslizantes, pousando silenciosamente no
interior do Salão da Guerra. Ali, a atmosfera era pesada, carregada pela expectativa da
conferência que estavam prestes a ocorrer. Os conselheiros asuranos já estavam acomodados em
seus lugares, sentados sobre almofadas dispostas simetricamente ao redor de uma longa mesa ,
onde mapas e pergaminhos repousavam.
O líder asurano, seu pai, ocupava o assento central, sua presença quase passava despercebida.
Akahime tentava deslizar discretamente para seu lugar evitando seu pai, mas não foi rápida o
suficiente.
— Aka! — A voz grave do líder foi baixa, mas firme. Em um movimento rápido, ele a segurou
pelo cangote do homongi, puxando-a levemente para si. — Qual o motivo do atraso?
Akahime desviou o olhar, murmurando:
— Eu precisei costurar minha roupa...
Seu pai ergueu uma sobrancelha, seus olhos astutos analisando cada detalhe. Ele soltou um
suspiro discreto antes de ajeitar a gola de sua filha, baixando a voz para um tom de repreensão
— Ao menos esconda essa marca no pescoço.
Akahime sentiu o rosto aquecer, a memória dos momentos recentes com Ann’a voltando à
mente. Silenciosamente, ajoelhou-se em seu lugar, compondo a postura impecável de uma
herdeira guerreira — mas, por dentro, sua mente ainda flutuava entre os galhos da árvore.
Então uma presença avassaladora envolveu o salão. Não houve necessidade de arautos
anunciando sua chegada. O próprio ar pareceu se curvar sob seu domínio quando Qsum’n
Malika Vi’Prinkípissa, a rainha das Vieras, atravessou as portas, acompanhada por sua corte de
filhas e pelo príncipe herdeiro. A presença da Malika viera era uma ocasião especial que não
ocorria a décadas.
Ela era monumental. Quase três metros de altura, quatro braços de envergadura colossal e asas
recolhidas que, mesmo ocultas, insinuavam a vastidão de sua força. Seu quimono cinza era
simples, mas sua presença o tornava tão majestoso quanto uma veste imperial. Movia-se com a
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graça meticulosa de uma predadora, cada passo sem pressa, mas carregado de propósito, como se
cada fibra de seu ser fosse forjada para subjugar aqueles ao seu redor.
Seus olhos felinos de íris púrpura percorreram o salão, e mesmo os guerreiros do mais alto
escalão asura sentiram um arrepio. Terror e fascínio se entrelaçavam no peito dos presentes. Por
mais que sua aparência evocasse uma força bestial, sua beleza inumana era de uma perfeição
desconcertante. Seu rosto não pertencia a este mundo — demasiado simétrico, demasiado
esculpido, demasiado irresistível. Ao mesmo tempo a mais bela das criaturas e a mais
aterrorizante.
Atrás dela, suas vinte e duas filhas caminhavam em formação impecável. Todas belas, altas e
musculosas, mulheres forjadas em combate, moldadas para a supremacia de sua linhagem. E,
ainda assim, suas presenças eram ofuscadas por aquela que vinha à frente. Suas posturas
possuíam um desconforto sutil. Não importa o quanto tentassem, jamais poderiam se igualar à
perfeição de sua mãe.
Na retaguarda, a menor delas, quase insignificante diante das irmãs, carregava um brilho tímido
nos olhos lilás — Ann’a.
Akahime, até então mantinha a respiração contida, sentiu um breve alívio ao vê-la. A jovem
viera, por mais insignificante que fosse entre as suas irmãs, era tudo para Akahime. Num gesto
ousado, Akahime enviou-lhe um sorriso furtivo. Ann’a, hesitante, correspondeu com uma risada
silenciosa.
O momento, contudo, foi abruptamente destruído quando os olhos de Qsum’n deslizaram na
direção de Akahime. O coração da asura vacilou. Era como se uma entidade primordial houvesse
voltado sua atenção diretamente para ela, despindo-a de qualquer disfarce.
— Você tem o cheiro de Kogarashi. Suponho que seja uma de suas filhas?
A voz da Malika Viera não era gritante ou áspera. Pelo contrário. Seu tom era baixo e ritmado,
feito uma serpente sussurrando sob o ouvido. Cada palavra atravessava o peito de Akahime com
um peso sufocante.
A princesa endireitou a postura, e tentou reprimir o tremor nas mãos.
— Você está certa, grande Malika. Sou Akahime Asura, a mais velha dentre as filhas de minha
mãe.
Qsum’n inclinou levemente a cabeça, seu olhar não exibindo nem aprovação, nem desprezo.
Apenas avaliação.
— E onde está Kogarashi?
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Akahime abriu a boca para responder, mas antes que pudesse fazê-lo, uma voz firme e inabalável
a interrompeu.
— Minha esposa e rainha adoeceu recentemente e está de cama. Estou no comando em seu lugar.
O homem de cabelos brancos que havia repreendido Akahime antes estava de pé. Benimaze
Asura, atual líder da aldeia, enfrentava a Rainha Viera com um olhar sério, desprovido de medo.
Ele falava como um igual, apesar da clara e abismal diferença de poder entre os dois.
Qsum’n o observou por um longo momento, sua expressão ilegível. Então, com uma suavidade
traiçoeira, respondeu:
— Oh… mas que triste infortúnio.
Seu olhar deslizou novamente para Akahime.
— Rezo por sua melhora.
Aquelas palavras, ditas sem emoção, eram simplesmente sufocantes. Como se fossem um
veredito velado, um aviso sutil, um presságio obscuro.
Qsum’n ajustou levemente seu quimono, como quem encerra uma conversa irrelevante.
— Eu e sua mãe éramos grandes amigas, pequena.
Akahime estremeceu.
Mas a Rainha já havia desviado o olhar.
— Com isso resolvido, vamos ao que interessa — disse Benimaze tomando seu lugar à mesa, e
assim a conferência começou.
Os principais pontos debatidos orbitavam em torno do avanço do Império Silvano em direção à
fronteira do continente. As cidades asuranas, eram situadas próximas a essa região, seriam os
primeiros alvos no domínio do continente demoniaco do império expansionista. Um massacre
era inevitável. As forças imperiais eram superiores em todos os aspectos—armamento, números
e logística—, tornando qualquer resistência uma questão de tempo antes da aniquilação.
A única vantagem dos Asuras era o território e o tempo. Entre eles e os silvanos estendia-se o
Deserto do Inicio, Habitat dos Dragões da Terra, uma região inóspita e letal, cujas criaturas
despertavam com fúria nos meses de verão. Esse ciclo se estenderia por mais três anos, um breve
respiro antes do inevitável embate.
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No entanto, tempo não significava solução. O auxílio dos outros povos demoníacos, ainda que
garantido, estava longe de ser a resolução. A burocracia para mover exércitos entre os territórios
de Daemonia era longa, e quando os reforços finalmente chegassem, a tribo Asura já não existiria
mais.
Benimaze, conhecendo a realidade que se apresentava, não dava liberdade para falsas
esperanças. Não era um grande guerreiro, nem um líder carismático, mas compreendia o peso de
suas responsabilidades como nenhum outro Asura. Seu plano era pragmático e cruel — mas
eficaz.
Setenta por cento do povo Asura deveria ser sacrificado. Suas vidas serviriam como um escudo
para retardar o avanço silvano e ganhar tempo para os sobreviventes se refugiarem entre as
Vieras, reerguendo a tribo pouco a pouco.
A decisão pairava sobre a sala como uma lâmina suspensa. Entretanto nenhuma objeção foi
levantada. Não por não haver descontentamento, mas porque a realidade estava diante deles.
Quando os últimos pontos foram discutidos, a reunião foi encerrada.
O silêncio então dominou a sala agora vazia, restando apenas Benimaze e Akahime. A jovem
princesa mantinha o olhar fixo na mesa, como se ainda tentasse digerir o peso da decisão tomada
por seu pai. Ele, por sua vez, suspirou, sabendo que, mesmo sendo a única escolha possível, era
uma escolha que ira assombrá-lo pelo resto da vida.
O silêncio que dominou a sala foi quebrado por um sussurro.
— Ann’a ouviu falar de uma possível cura para a doença da mãe em Berim — disse Akahime,
sua voz carregada de urgência. — Eu vou.
Benimaze ergueu os olhos para a filha, seu olhar cansado, mas firme.
— Não.
A resposta seca fez a princesa cerrar os punhos.
— Essa é a nossa primeira esperança em três anos! Não podemos simplesmente deixar passar!
— Você não pode ir. Estamos em guerra.
— E o que eu estou fazendo aqui?! Você sequer me deixa lutar! — O tom dela subiu em
frustração.
— Porque não quero perder minha filha além da minha esposa! — Ele rebateu sem erguer a voz,
mas sua postura se tornou rígida.
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— Mas está tudo bem perder o resto da tribo? Está tudo bem condenar sessenta por cento do
nosso povo para morrer?
Benimaze cerrou o maxilar, sua expressão tornou-se sombria.
— Você acha que tomei essa decisão com facilidade?
— Eu acho que você está sendo fraco por causa dessa sua maldita prudência! — cuspiu
Akahime. — A verdade é que sem a mamãe você tem medo de agir, de correr riscos!
— Você pensa como uma criança, achando que coragem é correr de cabeça para a morte! —
retrucou ele, seus olhos estreitando-se.
— Se a mamãe melhorar, se ela voltar a liderar, os Asuras teriam alguma chance! Ela é a única
que o povo respeita!
As palavras dela atingiram Benimaze como uma lâmina fria. Ele desviou o olhar, as rugas em
sua testa se aprofundando.
— E se ela não melhorar? E se for um rumor vazio? Você quer se jogar para a morte por uma
esperança frágil?
— Pelo menos eu morreria tentando! — Akahime gritou, dando um passo à frente. — Diferente
de você, que aceita o destino sem lutar!
Ele bateu a mão na mesa — foi um gesto controlado, calculado. Quando falou, sua voz estava
carregada de algo mais profundo do que raiva — frustração.
— Eu sou o único segurando este reino nos ombros. E sim, minhas decisões são cruéis, mas são
as que garantiram a sobrevivência do nosso povo! Você não entende o peso de governar ainda, de
saber que a escolha errada poderia significar nossa extinção!
Akahime se calou por um momento, sentindo o peso daquelas palavras. Mas sua revolta ainda
queimava.
— Um líder deve governar pra todos, deve dar esperança, se existe alguma chance de todos
sobreviverem, a extinção é um preço justo a se apostar! Você não passa de um covarde!
Benimaze finalmente perdeu o controle.
— Chega! — rugiu, os punhos descendo sobre a mesa com força o suficiente para rachá-la. Seu
rosto permaneceu impassível, mas seus olhos estavam vermelhos de fúria e frustração. — Eu não
vou deixar você arriscar a sua vida por um rumor idiota! Essa conversa acabou. Agora saia daqui.
Akahime encarou o pai, seus olhos cheios de indignação, antes de virar nos calcanhares e sair da
sala batendo os pés, sua mente fervendo com um única pensamento.
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"Covarde."
Akahime achou prudente se banhar antes de tomar qualquer outra decisão. Talvez a água quente
a ajudasse a se acalmar e esclarecer sua mente.
Com passos frustrados, entrou no aposento de banho , onde uma banheira de bambu cercada por
pedras esperava por ela. Abriu o reservatório de água quente, deixando o vapor se espalhar pelo
ambiente. Juntou um punhado de sais de banho misturados e os lançou na banheira com um
gesto brusco, descontando ali sua frustração. O aroma de ervas e flores se espalhou pelo ar, mas
isso pouco lhe importou no momento.
Começou a remover suas vestes formais sozinha, um desafio com tantos laços e camadas. Seus
dedos ainda tremiam levemente de raiva enquanto puxava as fitas e desamarrava as dobras do
tecido. Normalmente, uma serva a ajudaria, mas naquele momento queria estar sozinha — ou
melhor, precisava estar sozinha.
Após um longo suspiro, deixou a última peça deslizar por seu corpo, expondo sua pele de âmbar
pálido marcada pelas intensas horas de treino ao longo dos anos. Passou a ponta dos dedos sobre
um pequeno arranhão no braço.
Então com cautela, tocou a superfície da água com os pés, testando a temperatura antes de se
afundar lentamente. Quando seu corpo inteiro ficou submerso até os ombros, um longo suspiro
escapou de seus lábios.
— Aaah... perfeito.
Deixou a cabeça cair para trás, apoiando-a na borda da banheira. O calor da água relaxava seus
músculos tensos, mas sua mente continuava inquieta.
Nunca havia saído das terras Asura. Desde pequena, fora educada para servir ao povo, sempre
sob a vigilância de seu pai. Ele nunca permitiu que ela fosse além das fronteiras da cidade,
sempre a protegendo como se fosse frágil, incapaz de se defender sozinha. Ela era a herdeira mas
o que adiantava ser herdeira de um povo pode não existir mais?
Berim... Outro continente, terras desconhecidas, o atrito de uma guerra. A ideia de partir sozinha
era aterrorizante. E se fosse realmente apenas uma história? E se fosse capturada pelos silvanos?
Se falhasse? — Entretanto o mais aterrorizante seria não fazer nada
Akahime inspirou fundo e encarou um pequeno cacto na prateleira próxima à banheira. Uma
planta esquisita, espinhosa, que mesmo no deserto florescia. Havia uma pequena flor rosa aberta
em sua superfície, vibrante e cheia de vida.
Akahime e Ann’a 9
Por um instante, seus olhos pareciam presos naquele pequeno símbolo de resiliência. Então, sem
que percebesse, um pequeno roedor subiu sorrateiramente até a prateleira e, com um movimento
ágil, arrancou a flor com as pequenas patas antes de desaparecer em um buraco na parede.
Akahime piscou sem se dar conta do furto, voltando ao presente.
Aquele banho foi o suficiente para esclarecer sua mente.
A decisão estava tomada.
A água deslizou por sua pele quando se ergueu da banheira, derramando gotas pelo chão de
pedra. Ficou ali por um momento, as mãos firmes na cintura, sentindo o vapor subir ao seu redor.
— Melhor eu ir ver a mamãe.
Saiu do banho com passos determinados , vestiu-se rapidamente e partiu em direção aos
aposentos de sua mãe.
A noite o palácio era escuro e silente, no entanto esporadicamente era possível ouvir os passos
de um guarda novato que ainda não havia aprendido onde deveria pisar para não fazer barulho. O
Palácio asurano era composto por 12 prédios que circulam um jardim de areia com um prédio
maior ao centro. Os prédios que rodeavam o jardim representavam as horas no relógio e a
sombra da estrutura central era responsável por formar um enorme ponteiro. Tudo perfeitamente
arquitetado.
Os aposentos da rainha asurana encontravam-se no primeiro andar do prédio central onde já
estava a princesa a frente da porta, organizando mais uma vez os pensamentos antes de entrar.
Tendo tomado coragem, abriu com cuidado a porta e sentou no cômodo, fazendo o menos
possível de barulho, pegou o conjunto de chá de sua mãe em cima da mesa e começou a preparar
uma bebida para sua mãe, primeiramente colocou água para aquecer em uma chaleira na lareira
acessa, então espremeu algumas ervas em um pilão, jogou-as na chaleira e aguardou. No
momento que a água chiou em fervura, Akahime retirou a do fogo e com cuidado coou o líquido
até que enchesse metade de uma xícara feita em porcelana, preencheu o restante do recipiente
com leite e misturou um punhado da polpa de frutas vermelhas.
— Preparei um chá para você mãe, seu preferido. — sentou-se na cama com a xícara em mãos.
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A mulher deitada com longos cabelos brancos com dificuldade sentou-se na cama, sua pele
escura estava pálida e seu rosto esquelético, a moça com esforço abriu a boca.
— Akahi….— no mesmo segundo a líder precisou segurar a boca com as mãos para impedir que
espirasse o sangue tosse que tomou sua garganta.
— Eu pretendo ir pra academia mágica de Berim…. acho que talvez haja uma cura lá — sua voz
estava melancólica e soava insegura.
Aka pôs a xícara na escrivaninha onde também pegou um pano e começou a limpar as mãos de
sua mãe
— Fico feliz…. Essa aldeia é pequena demais para você. — sorriu com fraqueza.
— Eu não estou indo me aventurar mãe. — franziu o rosto — Eu estou indo achar uma cura pra
sua doença.
— Não seja tão séria, eu vou melhorar log —
A tosse atacou novamente.
— Mãe! Não se force tanto.
— Está tudo bem, minha garganta só está meio seca, deixe-me provar o chá — as sobrancelhas
da mãe se ergueram com o sabor do líquido — está delicioso.
— Então… já que vai pra tão longe que tal levar aquela viera baixinha com você? — a mãe de
Aka sussurrou fazendo uma careta perversa.
— M… Ma…. Mãe!! Como você sabe disso!? —Akahime ficou vermelha como um pimentão
— Fu Fu, eu não sei se você lembra mas eu ainda sou a shogun dessa tribo, tenho meus meios.
— humph — Akahime estava fazendo beicinho
— Venha cá, me deixe escovar seu cabelo uma última vez antes de você partir.
— Não é a última vez — resmungou aproximando-se de sua mãe.
Kogarashi mesmo fraca não tinha dificuldades pra pentear os cabelos negros de sua filha, seus
fios eram finos e completamente lisos, tendo um fraco odor de brasa.
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— Quero que leve a estrela negra com você.
— Não posso, eu sequer consigo levantá-la.
— Eu pedi para seu pai selar o poder dela. Eu pretendia te dar no seu aniversário de 18 anos —
parou a escova — Essa arma me serviu fielmente, sei que fará o mesmo por você.
O silêncio tomou a sala por algumas dezenas de segundos.
— O papai brigou comigo, ele não quer que eu vá. — Akahime quebrou o silêncio
— Ele só está com medo, não quer perder você. Ele é tão doce e frágil mas não sabe ser sincero
com os seus sentimentos — ela sorriu apaixonada.
— Por quê ele é tão diferente de você?
— Ah, ele nem sempre foi assim tão sério, acho que a culpa é minha, eu deixei muita coisa nas
mãos dele enquanto me aventurava. — tossiu — Então eu de repente fiquei doente e ele teve que
cuidar de tudo sozinho desde então.
— Você pode conversar com ele? pedir para ele não vir atrás de mim?
— Pode deixar que eu convenço aquele cabeça dura minha pequena.
— Eu vou sentir sua falta mãe — Seus olhos começaram a lacrimejar
— Eu também vou sentir sua falta princesinha — respondeu com a voz trêmula enquanto
limpava as lágrimas dos olhos da filha.
Akahime levantou da cama e encarou o recipiente de vidro que armazenava a Estrela Negra, uma
gigantesca maça de 2 metros, em sua extremidade superior uma enorme esfera de metal cercada
por espinhos estava coberta por bandagens. Seu cabo estava coberto por selos de papel.
— Estes papéis, são os selos do papai?
— Isso mesmo, você deve conseguir usar a Estrela facilmente enquanto estiverem aí. Quando
sentir que estiver mais forte você pode começar a tirá-los, atualmente eles estão bloqueando 80%
do seu peso e poder.
Akahime agarrou o cabo da maça com ambas as mãos e com bastante esforço conseguiu ergue-
la. — ”mesmo com apenas 20% do seu peso eu mal consigo levantá-la. O quanto caralhos isso
pesa?” — pensou Akahime amarrando a arma as costas.
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— Eu volto logo mãe.
— Seja forte minha princesa. — Respondeu Kogarashi com um largo sorriso.
POV Ann’a
Eu estava costurando em meu quarto quando uma figura de cabelos negros amarrados atravessou
a janela dos meus aposentos carregando uma enorme arma.
— Aka, o que fez aqui? — Aka deveria vir só mais tarde, por quê ela estava carregando isso
consigo? Por quê estava com roupas de viagem?
— Eu vou para Berim — disse
Ela gentilmente pegou minhas mãos, a pele de sua mão era áspera, resultado de seus treinos
diários.
— Quero que venha comigo! — disse ela me olhando como um cachorro vendo o dono ir
passear sozinho — Não sei se consigo fazer isso sem você — insistiu.
Eu estava surpresa, eu sabia que Akahime iria querer ir para Berim atrás de uma cura pra sua
mãe, mas não esperava que seria tão rápido em meio a toda tensão depois da conferência de hoje.
Claro que eu iria querer ir com ela mas ao mesmo tempo eram tantas coisas pra considerar.
— Eu não sei…. Eu… Eu.. A rainha… — minha voz vacilava, eu queria simplesmente dizer sim,
eu sentia meu estômago entalar na garganta.
Akahime segurou me ombro com firmeza e olhou profundamente nos meus olhos.
— Eu sei que estou sendo egoísta pedindo uma coisa dessas mas também sei que você não quer
voltar para sua casa e ficar perto de sua mãe.
Akahime estava certa, tudo que eu mais queria era me distanciar daquele lugar, fugir de minha
mãe e seus assédios. Não aguentava mais viver com medo.
— Aka… — eu estava reunindo coragem, lutando contra as desculpas que me impediam — Eu
quero ir com você!
Akahime e Ann’a 13
Eu me levantei ansiosa e corri arrumar minhas coisas.
— ai deuses eu não estava preparada pra isso, o que vou levar? Que tipo de roupas eles usam em
Berim?
— acho que não precisamos nos preocupar com isso — Aka estava rindo de mim.
O tempo passou, e a lua já atingia o centro do céu quando eu e Aka terminamos de discutir as
rotas, suprimentos, planos. Agora, atravessávamos a Floresta Petrificada de Sekima. nós
conseguimos sair do centro da cidade sem maiores problemas , Aka conhecia perfeitamente a
rota de cada guarda da cidade sabia exatamente como evitá-los como os caminhos ocultos. Com
sua destreza e liderança não foi difícil evitá-los, Não que eles tivessem real autoridade para
impedir a passagem de Akahime, mas ela não queria alertar seu pai.
A luz do dia, que mais cedo transfigurava a floresta numa visão sacra, iluminando suas árvores
antigas com um esplendor templário, agora dava lugar a escuridão da noite. A claridade pálida e
fragmentada da luz lunar infiltrava-se pelas copas, projetando lanças prateadas que se perdiam
nas sombras. Eu sentia um arrepio percorrer minha espinha – qualquer coisa podia estar nos
observando ali, escondida na penumbra. Eu dependeria totalmente de Aka se algum animal nos
atacasse. O Nosso ponto de referência era o centro da floresta, onde ficava a cerejeira lendária de
Sekima.
Quanto mais nos aproximávamos, o ar ao nosso redor se enchia de uma luminescência etérea,
como se o próprio espaço vibrasse com magia. As pétalas da árvore, que sob a luz do dia
possuíam um alvíssimo esplendor, agora se transfiguravam-se, vestindo um azul radiante.
Brilhando como estrelas cativas. O vento que passava por seus galhos carregava consigo um
pólen fosforescente, dançando no ar como gotas de luz líquida, escorrendo das folhas e raízes em
finas cascatas de brilho efêmero. As raízes, vastas e serpenteantes, emergiam do solo como os
membros de um ser adormecido, entrelaçando-se em torno das pedras e se estendendo para além
do que os olhos podiam ver.
Ao meu lado, Aka movia-se com passos firmes, mas eu sabia que ela também estava nervosa.
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Foi então que uma voz familiar rompeu a quietude da noite, deslizando pelo ar com a elegância
cortante de uma lâmina.
— Fiquei sabendo que as raízes desta árvore absorvem a mana das outras, e por isso se tingem de
azul à noite… Curioso, não é mesmo?
Congelamos no lugar, silenciadas pela súbita presença. O tom daquela voz trazia um timbre
hostil, afiado como a de minha mãe.
— Imagino que esse seja o motivo da petrificação da floresta… — continuou, seu tom oscilando
entre o desprezo e a contemplação. — Uma única árvore, imponente e bela… mas ao custo de
suas companheiras. Seu brilho é fascinante, de fato. Fascinante e trágico. Enquanto ela
resplandece na noite de forma celestial, suas irmãs se tornam apenas sombras , apagadas na
noite.
Akahime e Ann’a 15