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Ética e Avanços na Manipulação Genômica

O documento discute a manipulação do genoma humano, destacando seus avanços científicos e os dilemas bioéticos associados. Embora a manipulação genética ofereça promessas significativas para a saúde, ela também levanta questões éticas sobre os limites e os impactos sociais dessa prática. A conclusão enfatiza a necessidade de regulamentação ética para garantir que os benefícios da ciência sejam alcançados sem comprometer a dignidade humana e os direitos sociais.

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Ética e Avanços na Manipulação Genômica

O documento discute a manipulação do genoma humano, destacando seus avanços científicos e os dilemas bioéticos associados. Embora a manipulação genética ofereça promessas significativas para a saúde, ela também levanta questões éticas sobre os limites e os impactos sociais dessa prática. A conclusão enfatiza a necessidade de regulamentação ética para garantir que os benefícios da ciência sejam alcançados sem comprometer a dignidade humana e os direitos sociais.

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ENTRE A ÉTICA E A CIÊNCIA: HISTÓRICO, AVANÇOS E LIMITES

DA MANIPULAÇÃO DO GENOMA HUMANO

BETWEEN ETHICS AND SCIENCE: HISTORY, ADVANCES, AND LIMITS OF


HUMAN GENOME MANIPULATION

KAREN EMILIA MIRANDA BARBOSA ¹, JÚLIA BAIÃO ABREU COUTO¹, PEDRO


ARTUR LISBOA BURMANN¹, RAQUEL FERREIRA ISRAEL ASSUNÇÃO¹, JOSÉ
HELVÉCIO KALIL DE SOUZA²

¹Graduando em Medicina pela Faculdade de Minas (FAMINAS-BH), Belo Horizonte, MG, Brasil.
²Professor da Faculdade de Minas (FAMINAS-BH). Doutor em Medicina pela Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG). Advogado – OAB/MG.
E-mail para correspondência: pedroburmann404@[Link]

RESUMO
Introdução: A manipulação do genoma humano consiste em uma das principais conquistas
da ciência contemporânea, sendo responsável por amplos avanços do conhecimento
científico, como etiologia, tratamento e prevenção de doenças. Apesar de benefícios
promissores, o desenvolvimento de meios de controle do genoma humano levanta dilemas
bioéticos que colocam em pauta os limites e os possíveis impactos éticos e sociais acarretados
pela dominação do genoma humano.
Objetivo: Realizar uma revisão da literatura acerca do progresso científico relacionado ao
entendimento do genoma humano e as questões bioéticas envolvidas na aplicação dessa
ciência, destacando os seus dilemas, os seus limites e as suas futuras expectativas.
Método: Este estudo consiste em uma revisão narrativa sobre a manipulação do genoma
humano, desenvolvida por meio de pesquisas bibliográficas realizadas nas bases SciELO e
PubMed. Foram considerados os artigos que, após análise, mostraram-se relevantes do ponto
de vista da qualidade da abordagem e da apresentação de dados estatísticos relevantes.
Resultados: Os avanços das técnicas de dominação do genoma humano ampliam as
possibilidades de intervenções no material genético, seja para a promoção da saúde através da
prevenção de doenças hereditárias, a terapia gênica e os diagnósticos, quanto para a possível
seleção de genes de forma discriminatória e manipulatória. Logo, a aplicabilidade da
manipulação genética deve ser cuidadosamente regida por parâmetros bioéticos para a

1
garantia da dignidade humana, de forma a garantir os possíveis benefícios advindos dessas
técnicas sem que ultrapassem os limites éticos emergentes.
Conclusão: A aplicação das técnicas de domínio sobre o material genético humano deve ser
regida por parâmetros éticos e bioéticos para a garantia dos direitos sociais e da dignidade
humana. Esses parâmetros são fundamentais para uma promoção íntegra da ciência,
assegurando que os avanços científicos sejam centrados em causas voltadas ao bem social,
sem quaisquer aplicações de interesses particulares.
Palavras-chave: Genoma; Genoma Humano; Bioética; Ética; DNA; Projeto Genoma
Humano.

ABSTRACT
Introduction: The manipulation of the human genome is one of the main achievements of
contemporary science, being responsible for significant advances in scientific knowledge,
such as the etiology, treatment, and prevention of diseases. Despite its promising benefits, the
development of methods to control the human genome raises bioethical dilemmas that
question the limits and potential ethical and social impacts resulting from the domination of
the human genome.
Objective: To conduct a literature review on the scientific progress related to the
understanding of the human genome and the bioethical issues involved in the application of
this science, highlighting its dilemmas, limitations, and future prospects.
Method: This study consists of a narrative review on the manipulation of the human genome,
conducted through bibliographic research in the SciELO and PubMed databases. Articles
that, upon analysis, demonstrated relevance in terms of the quality of their approach and the
presentation of significant statistical data were included.
Results: Advancements in techniques for controlling the human genome broaden the
possibilities of interventions in genetic material, whether for the promotion of health through
the prevention of hereditary diseases, gene therapy, and diagnostics, or for the selective use of
genes in a discriminatory and manipulative manner. Therefore, the applicability of genetic
manipulation must be carefully governed by bioethical parameters to safeguard human
dignity, ensuring that the potential benefits of these techniques are realized without exceeding
emerging ethical boundaries.
Conclusion: The application of techniques for controlling human genetic material must be
governed by ethical and bioethical parameters to ensure social rights and human dignity.
These parameters are essential for the integral promotion of science, ensuring that scientific

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advances remain focused on causes aimed at the common good, without any applications
driven by private interests.
Keywords: Genome, Human Genome, Bioethics, Ethics, DNA.

INTRODUÇÃO
​ O genoma é a sequência completa do DNA da célula (ou no caso do RNA viral, o seu
RNA), a genômica é a caracterização da estrutura comparativa, função, evolução e
mapeamento dos genomas. Os ácidos nucleicos, DNA e RNA, armazenam e transmitem a
informação genética, e algumas moléculas de RNA apresentam também função estrutural e
catalítica em complexos supramoleculares (LEHNINGER; NELSON; COX, 2018).
​ Na busca da compreensão de genes subjacentes a doenças genéticas, foi criado o
Projeto Genoma Humano (PGH), através do qual mais de 1.600 doenças genéticas humanas
tiveram seus genes específicos mapeados. A partir de um método denominado análise de
ligação, o gene envolvido em uma doença é mapeado em relação aos polimorfismos
genéticos bem caracterizados que ocorrem em todo o genoma humano. A abordagem mais
comum é um exercício de filogenética, em que os pesquisadores se concentram nas famílias
afetadas pela doença e procuram famílias nas quais as amostras de DNA podem ser obtidas a
partir de indivíduos de várias gerações, comparando os genótipos de indivíduos com e sem a
doença (LEHNINGER et al., 2018).
​ A história do PGH iniciou-se em 1986, quando Renato Dulbeco, um médico
patologista, sugeriu a criação de um projeto com a intenção de alcançar uma melhor
compreensão sobre o papel dos genes no câncer. Em 1990, o PGH foi oficialmente iniciado,
uma proposta internacional cujo objetivo era adquirir informação sobre o código genético
humano, incluindo a localização exata de cada gene, sua estrutura e sua função no organismo.
Além disso, foram desenvolvidas novas tecnologias para estudo de DNA para inovação da
pesquisa na área (Borges-Osório & Robinson, 2001).
​ No decorrer do projeto, foi vista a necessidade da criação de um grupo chamado
Ethical, Legal, and Social Implications (ELSI) para estudar sobre as questões bioéticas
relacionadas à manipulação do genoma humano. Nesse grupo, foram discutidos temas como:
a tendência dos pais em optar por determinadas características físicas de seus descendentes, a
discriminação social enfrentada por pessoas com alta probabilidade em desenvolver
determinadas doenças genéticas e o risco da divulgação dos resultados realizados sem
consentimento e de forma errônea (Chautard-Freire-Maia, 2015).

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​ Portanto, infere-se que o progresso da compreensão e da manipulação do material
genético humano requer um amparo de noções bioéticas, garantindo uma aplicação que não
ultrapasse os limites éticos, respeitando a dignidade e os direitos humanos fundamentais.
Neste artigo, será realizada uma revisão bibliográfica acerca dos avanços do entendimento do
genoma humano e as implicações bioéticas que surgem a partir do desenvolvimento dessa
ciência, buscando uma reflexão que contemple a importância da regulação das suas
aplicabilidades para a garantia da segurança e justiça social.

MÉTODOS
​ Neste estudo, foram feitas buscas bibliográficas até o dia 15/09/2025 nas bases
SciELO e PubMed. Para isso, os autores consideraram artigos independentemente da data de
publicação, com o fito de propor um panorama geral acerca do assunto e selecionar os
principais textos que abordem a proposta do trabalho vigente. Para isso, a busca se baseou em
artigos relacionados com a pesquisa de determinados termos, como “genoma humano”,
“bioethical principles”, “crispr cas9”, “genoma humano e questões bioéticas” e “Projeto
Genoma Humano”. Concomitantemente, livros acadêmicos de referência também foram
analisados e utilizados para uma melhor compreensão de conceitos fundamentais e, assim,
promover uma reflexão mais profunda do conteúdo contido no trabalho. Para uma abordagem
atualizada, foram utilizadas, preferencialmente, as últimas edições dos livros referidos. Foram
descartados dos mecanismos de pesquisa de artigos os quais não estão relacionados com o
PGH ou aqueles que não apresentaram qualidade de abordagem ou dados relevantes para o
trabalho.

RESULTADOS
O progresso da compreensão do genoma humano
​ O Projeto Genoma Humano constitui um marco científico para a biologia, em especial
para a genética. Seus objetivos e resultados proporcionados o caracterizam como um dos
maiores empreendimentos científicos da contemporaneidade. Trata-se de um projeto global,
organizado na forma de redes de pesquisa, que produziu e ainda produz impactos
significativos no campo da genética. A possibilidade de controlar, isolar e modificar esses
parâmetros naturais da vida coloca o PGH em uma categoria de compreensão que não se
limita aos saberes científicos, mas que provocam significativos impactos também nas
estruturas econômicas, políticas, jurídicas e nos saberes éticos da comunidade mundial
(SOARES; SIMIONI, 2018).

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​ Após 20 anos da publicação do PGH, os cientistas se concentraram na era
pós-genômica, refazendo as investigações biológicas e médicas relacionadas aos genes a
partir do aperfeiçoamento de metodologias de sequenciamento gênico, o que permite o
fornecimento, em larga escala, de genomas de referência. Além disso, houveram avanços
tecnológicos que permitiram o aperfeiçoamento das técnicas de manipulação do genoma, a
precisão nos diagnósticos, a modificação de genes e a melhora nos sistemas de acesso aos
dados gerados (SOARES et al., 2023).
​ A partir de estudos, foi descoberto que diversos processos moleculares são capazes de
regular o funcionamento dos genes, além de que escolhas pessoais e vivências ao longo da
vida podem modificar esses processos, interferindo diretamente na expressão genética,
existindo ainda a possibilidade das mudanças serem transmitidas aos futuros descendentes.
Esses achados têm o potencial de transformar profundamente o modo como entendemos a
saúde, destacando o impacto duradouro que hábitos e estilos de vida podem ter, não apenas
em gerações presentes, mas também nas futuras (SOARES et al., 2023).
​ O Projeto Genoma Humano gerou várias expectativas, dentre elas, a possibilidade de
rastrear genes associados a doenças e comportamentos e, mais ainda, de intervir
geneticamente no ser humano, trazendo benefícios sociais. Contudo, com a novidade,
complexidade e amplitude do assunto, é natural que existam opiniões discordantes e questões
ainda abertas em relação a como isto deve ocorrer. Portanto, deve-se evitar o radicalismo
intransigente, e também não admitir flexibilizações motivadas por interesses pessoais. Tudo
deve ser feito a favor da pessoa, respeitando principalmente a sua autonomia (GOULART et
al., 2010).

O desenvolvimento de novas técnicas


​ Uma das principais novidades genéticas desta segunda década do século XXI é a
utilização da CRISPR-Cas9, uma técnica revolucionária de edição do DNA. A sigla da
expressão em língua inglesa “clustered regularly interspaced short palindromic repeats”
consiste em um acrônimo, cuja tradução em português é “repetições palindrômicas curtas
agrupadas e regularmente interespaçadas”. A técnica funciona com uma proteína associada, a
chamada Cas, que torna possível atuar diretamente em genes defeituosos, atingindo as
células-alvo. Nessa técnica, a enzima Cas9, uma nuclease, corta as duas fitas da dupla hélice
do DNA, abrindo o espaço para a inserção de um novo trecho (SGANZERLA; PESSINI,
2020). A CRISPR - proteína associada a CRISPR (Cas) forneceu um método muito mais
simples e econômico para modificação direcionada a genes (DAS et al., 2015).

5
​ Ao contrário do mecanismo antigo, que utilizava nucleases do dedo de zinco e
nucleases efetoras semelhantes a ativadores de transcrição, o sistema CRISPR-Cas9 não
requer a engenharia de pares de proteínas específicos para cada local alvo, e introduz o Cas9
na sequência alvo com base nas regras de emparelhamento de base de RNA-DNA. A
simplicidade do sistema CRISPR-Cas9 revolucionou a engenharia do genoma em uma
variedade de células e organismos. Entretanto, os efeitos fora do alvo devem ser
considerados, pois o Cas9 induz mutações em seu alvo e fora do alvo, resultando em
modificações indesejadas, por isso é muito importante avaliá-los em células modificadas por
genes (DAS et al., 2015).
​ Entre os bioeticistas que refletem sobre essas novas técnicas de edição gênica em
embriões, enfatiza-se que elas têm um grande potencial promissor, porque poderiam erradicar
doenças genéticas incuráveis antes do nascimento. Em outra perspectiva, a técnica
potencialmente ultrapassa linhas éticas, pois mudanças da linha germinal são hereditárias e
poderiam ter um efeito imprevisível sobre as gerações futuras, além da ameaça presente da
prática da eugenia e da criação de “super-raças”. Os processos científicos que interferem no
genoma humano devem ser feitos com segurança, prudência, ética, transparência e controle
social da sociedade (SGANZERLA; PESSINI, 2020).
​ Portanto, o desafio baseia-se na decisão sobre o que a humanidade almeja em relação
a esse notável avanço que, por um lado acena com possibilidades terapêuticas inimagináveis,
e por outro exibe um terrível potencial de desestruturação social. Logo, provoca mudanças
extraordinárias em sua organização e possibilita a ação de verdadeiros marginais da ciência,
que poderão criar legiões de seres humanos com os mais diversos objetivos, nem todos
dignos (GOULART; IANO; SILVA; SALES-PERES; SALES-PERES, 2010).

Os benefícios do domínio sobre o genoma humano


​ O PGH revolucionou o campo da genética, constituindo um marco fundamental de
uma nova fronteira para a ciência, denominada “era genômica”. O projeto envolveu o
consórcio internacional, coordenado pelo ”National Institute of Health” (NIH), no qual 5 mil
cientistas e 250 laboratórios participaram e foram coordenados por Bernadine Healy.
Ademais, o diretor científico foi James Watson, ganhador do prêmio Nobel de Medicina em
1953, com Francis Crick, pela descoberta da estrutura do DNA (SOARES; SIMIONI, 2018).
​ O domínio sobre o genoma humano e os desdobramentos do PGH, em termos de
pesquisas, vêm sendo construídos como um dos principais campos de inovações
biotecnológicas. A possibilidade de incorporação dessas inovações pela medicina representa

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um grande avanço, com a genética, temos uma busca mais profunda das causas de doenças,
diagnósticos mais específicos, terapêuticas mais eficazes e individuais (CORREIA, 2022).
​ É possível dizer que o benefício esperado do PGH seria, em tese, a atenuação do
sofrimento humano relacionado a patologias, pela ampliação das possibilidades de
diagnóstico, tratamento e cura de doenças (CORREIA, 2022). No ser humano, hoje é possível
analisar milhares de genes ao mesmo tempo e as informações e as tecnologias
disponibilizadas têm o potencial de modificar a compreensão e os conceitos atuais sobre o
mecanismo de prevenção (GOULART, 2010).
​ A partir disso, é possível ter conhecimento sobre a predisposição a determinadas
doenças crônicas, como câncer, hipertensão, diabetes ou doença de Alzheimer e, desta forma,
tratá-las antes do aparecimento dos sintomas (GOULART, 2010). Na área da farmacologia,
leva à uma medicina individualizada, ou seja, determinar os medicamentos mais adequados
para a composição genética de um indivíduo específico. Entretanto, os dados obtidos por
meio do projeto devem ser utilizados exclusivamente para promover a preservação da vida e
a melhoria da saúde (SACHDEVA, 2003).
​ O PGH produziu expectativas com relação à identificação de genes específicos e suas
relações com determinadas doenças. Desse modo, as doenças poderiam ser conhecidas pelos
seus genótipos e determinantes genéticos, e não apenas pelo fenótipo. Determinadas doenças
poderiam ter evolução clínica distinta em pessoas com diferentes constituições genéticas, e
haveria a possibilidade de redefinição de novos alvos terapêuticos baseados nos mecanismos
das doenças e de direcionamentos para subgrupos de pacientes com maior probabilidade de
responder favoravelmente através de estudos de farmacocinética e farmacogenômica
(BANDEIRA; GOMES; ABATH, 2006).
​ A história biológica do ser humano está registrada em seu genoma. Dominar o código
genético torna possível o diagnóstico, tratamento e até a cura de doenças genéticas. Além
disso, as variações genéticas não diferenciam os seres humanos entre si, mas comprovam que
todos são pertencentes a uma única humanidade. Portanto, entraves sociais como o racismo
biológico e suas diferentes formas de segregação social não possuem fundamento natural ou
essencial, sendo a separação entre populações supostamente qualificadas e desqualificadas
decorrente de estruturas puramente sociais (SOARES; SIMIONI, 2018).

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As preocupações bioéticas emergentes
​ O PGH está cercado de incertezas éticas, legais e sociais. Dentre outras questões
envolvidas no desenvolvimento de técnicas de manipulação genética, destacam-se a
privacidade e os usos da informação genética, a segurança e eficácia da medicina genética, a
discriminação e a manipulação genética (eugenia), o uso de embriões em pesquisas e a
farmacogenética. Todo esse debate passa pelo respeito à igualdade, aos direitos e à dignidade
humana, pela autodeterminação e a proteção da intimidade da pessoa, garantia da qualidade
da medicina e ideia de que a informação adquirida sobre o genoma humano é de propriedade
comum, não podendo ser usada com fins comerciais (SOARES; SIMIONI, 2018).
​ Assim como em outras áreas científicas, os avanços de saúde promovidos pelo PGH
são ambíguos: ao mesmo tempo que melhoram a qualidade de vida, podem determinar
características gênicas julgadas como supérfluas ou indesejadas em determinado momento
histórico (GONÇALVES; SANTOS; PEREIRA, 2020). Argumenta-se que está sendo trilhado
um caminho arriscado, pois, ao invés de avaliar o indivíduo pelo seu estado atual, passa-se a
investigar seu potencial genético para doenças, tratando-o como portador de uma condição
antes do surgimento efetivo e sem a certeza de que ela se concretizará. Nesse contexto, o ser
deixa de ser definido pelo fenótipo, o estado presente da pessoa, e passa a ser determinada
pelo genótipo, ou seja, pelo que está codificado no DNA (GOULART, 2010).
​ Infere-se que o conhecimento do genoma pode levar a intervenções na estrutura
interna do ser humano, em sua parte mais íntima, com a possibilidade de manipular,
selecionar e submeter o corpo de forma irreversível para o próprio ser e para as gerações
futuras. Tal conhecimento abre a possibilidade, e a oportunidade, de exercer poder até então
atribuído à natureza, a Deus, na tradição judaico-cristã, e à contingência, no pensamento
pós-crítico da filosofia contemporânea. O problema é que esse poder, em um mundo
capitalista, possivelmente estará nas mãos de alguns poucos grupos economicamente
empoderados, cujas decisões particulares podem afetar o estabelecimento de padrões de
saúde, beleza e eficiência corporal no presente e no futuro (SOARES; SIMIONI, 2018).
​ Um exemplo, é a possibilidade de se escolher o sexo de um futuro bebê. Em países
como Inglaterra e China, estudos comprovaram que essa possibilidade desencadearia um
desbalanceamento sexual. Por outro lado, com a possibilidade de se determinar o sexo de
embriões antes da sua implantação (diagnóstico pré-implantação na fertilização "in vitro"),
para casais com risco de doenças genéticas que só afetam o sexo masculino (como a
hemofilia ou a distrofia de Duchenne), evitaria o diagnóstico pré-natal e o sofrimento de ter
de interromper uma gestação no caso de fetos portadores (ZATZ, 2000).

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​ No livro Permanent Markers, por exemplo, a autora examina como os testes de DNA
se relacionam com questões de raça e identidade, questionando a ideia simplista de que a
genética pode definir a raça de maneira definitiva. Abel argumenta que a identidade étnica
tem sido transformada em produto de consumo, em um mercado guiado pelo lucro e pelo
desejo de agradar aos clientes. Destaca-se ainda o viés nos bancos de dados genéticos
utilizados pelas empresas, além de alertar para os riscos envolvendo a privacidade dos dados,
a noção de cidadania baseada em genética e os processos de racialização (ABEL, 2022).
​ Outro exemplo que está no livro Genome, foi descrito o caso de gêmeos idênticos em
risco de portarem o alelo determinante da doença de Huntington. Porém, apenas um deles
desejava fazer o exame e, caso fosse constatado a presença do alelo, iria direcionar e
possivelmente “condenar” o futuro do irmão que não gostaria de ter ciência do resultado.
Para distúrbios como a doença de Huntington ou ataxia espinocerebelar, que se manifestam
apenas na idade adulta, ter conhecimento sobre ser portador de um gene anormal muito antes
de ter quaisquer sintomas possivelmente desencadeia um quadro de ansiedade e tensão
mental (SACHDEVA, 2003).
​ Richard Dawkins, em O Gene Egoísta, afirma que “somos máquinas da
sobrevivência, os genes moldam comportamentos sociais e de parentesco”, ressaltando a forte
influência do genoma sobre nossas tendências biológicas. Contudo, reduzir a identidade
humana a essa influência ignora dimensões sociais, culturais e individuais, levantando
preocupações éticas sobre qualquer tentativa de manipulação genética que trate a pessoa
como mero portador de um código (DAWKINS, 2007).
​ Em 1997, a UNESCO publicou a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e
os Direitos Humanos. No contexto das discussões éticas suscitadas pelo PGH, estabelece que
o genoma humano constitui patrimônio da humanidade e deve ser preservado em respeito à
dignidade, à identidade e aos direitos fundamentais de todos os indivíduos. O documento
repudia qualquer forma de discriminação baseada em características genéticas, veda a
mercantilização do corpo humano e de suas partes, e delimita o uso das intervenções
genéticas a finalidades preventivas, diagnósticas ou terapêuticas, sempre com consentimento
informado. Além disso, reforça o princípio da solidariedade internacional, ao afirmar que os
avanços científicos devem beneficiar toda a humanidade, promovendo justiça e evitando
desigualdades no acesso às novas tecnologias (MAYOR, 2003).
​ Entretanto, desde o início do PGH os cientistas tinham consciência da ambiguidade
do projeto, então foi criado o programa ELSI, que visava tratar das questões éticas e legais do

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projeto. Porém, como o PGH é amplo em perspectivas, fez-se necessário a subdivisão
específica para tratar tais assuntos. Cada grupo dessas subdivisões discutiam sobre seu
próprio tema, porém, os que tiveram ênfase inicial são: privacidade da informação genética,
introdução efetiva e segura da informação genética na clínica, equidade no uso da informação
genética e educação profissional e pública (Maia, 1995).
​ No Brasil, em 1995 foi criada a Lei nº 8.974/95, de biossegurança, que implementou
o disposto na Constituição, estabelecendo diretrizes para o uso de técnicas de engenharia
genética e a liberação de organismos geneticamente modificados (OGM) no meio ambiente,
proibindo expressamente a manipulação genética de células germinativas humanas e
autorizando o Poder Executivo, por meio da Presidência da República, a instituir a Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança. No ano de 2005 esta lei foi revogada e substituída pela
Lei nº 11.105/05, que foi criada para atualizar e detalhar as normas de biossegurança diante
dos avanços na engenharia genética (BRASIL, 2005).
​ Enquanto a legislação anterior estabelecia princípios gerais de proteção à vida e à
saúde, a nova lei trouxe regras mais abrangentes sobre pesquisa, produção e liberação de
organismos geneticamente modificados (OGM), incluindo restrições específicas à
manipulação de células germinativas humanas. Essa mudança reflete a necessidade de
compatibilizar o progresso científico com preocupações éticas e sociais, reconhecendo que
tratar a identidade humana como determinada exclusivamente pelo código genético levanta
dilemas complexos que exigem salvaguardas legais mais rigorosas (BRASIL, 2005).
​ Portanto, a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos
da UNESCO orienta a prática científica contemporânea, destacando que pesquisadores
devem atuar com integridade, cautela e responsabilidade ética, enquanto os Estados devem
promover comitês de ética independentes para avaliar os aspectos jurídicos, sociais e éticos
das pesquisas genéticas. Assim, reafirmando que os avanços no estudo do genoma humano
devem ocorrer de forma ética, transparente e voltada ao benefício de toda a humanidade.
(MAYOR, 2003).

CONCLUSÃO
​ A aplicação de técnicas associadas ao domínio do genoma humano deve ser
imprescindivelmente amparada por regulações éticas e bioéticas, uma vez que a garantia da
dignidade humana e dos seus direitos sociais constituem valores inegociáveis para qualquer
aplicação científica. O desenvolvimento de técnicas sofisticadas e cada vez mais eficazes
permitem a ampliação da capacidade de edição e domínio do material genético humano,

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oferecendo possibilidades que, por um lado, são potentes mecanismos para melhoria da
saúde, como novos métodos de tratamento, diagnóstico e cura de patologias, e por outro, abre
a possibilidade de práticas que ultrapassem os limites bioéticos.
​ Nesse sentido, o conhecimento científico não pode atuar apenas como um técnico,
mas sim como uma ferramenta de compromisso com o bem-estar e com a promoção da
saúde. Dessa maneira, faz-se de suma importância que as descobertas da era pós-genômica
sejam utilizadas de maneira comprometida com a justiça social, evitando assim que sejam
usadas como meios de exclusão, discriminação ou privilégio de interesses particulares em
detrimento do bem comum.
​ Portanto, os princípios que regem a bioética - autonomia, beneficência, não
maleficência e justiça - exercem um papel fundamental para a garantia de uma produção do
saber científico voltado para as causas sociais. Não somente as técnicas de dominação do
material genético humano, mas toda prática científica deve ser regida por tais princípios para
a promoção de conhecimentos que sustentem a dignidade humana, os seus direitos sociais e a
sua segurança.

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