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Benefícios Previdenciários em Assentamentos Rurais

Este estudo analisa a influência dos benefícios previdenciários na vida de famílias assentadas em Horto de Ibitiúva e Formiga, em São Paulo, destacando a aplicação dos recursos e suas contribuições para a qualidade de vida e segurança alimentar. Os resultados mostram que os benefícios são fundamentais para a sustentabilidade da agricultura familiar, embora desafios no acesso e compreensão das normas persistam. A pesquisa sugere a necessidade de políticas públicas que desburocratizem o acesso aos benefícios e valorizem os segurados especiais.

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Benefícios Previdenciários em Assentamentos Rurais

Este estudo analisa a influência dos benefícios previdenciários na vida de famílias assentadas em Horto de Ibitiúva e Formiga, em São Paulo, destacando a aplicação dos recursos e suas contribuições para a qualidade de vida e segurança alimentar. Os resultados mostram que os benefícios são fundamentais para a sustentabilidade da agricultura familiar, embora desafios no acesso e compreensão das normas persistam. A pesquisa sugere a necessidade de políticas públicas que desburocratizem o acesso aos benefícios e valorizem os segurados especiais.

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A INFLUÊNCIA DOS BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS NA PRODUÇÃO E

REPRODUÇÃO SOCIAL DE ASSENTAMENTOS RURAIS EM SÃO PAULO: DESAFIOS E


CONQUISTAS

THE INFLUENCE OF SOCIAL SECURITY BENEFITS ON THE PRODUCTION AND


SOCIAL REPRODUCTION OF RURAL SETTLEMENTS IN SÃO PAULO: CHALLENGES
AND ACHIEVEMENTS

LA INFLUENCIA DE LAS PRESTACIONES DE SEGURIDAD SOCIAL EN LA


PRODUCCIÓN Y REPRODUCCIÓN SOCIAL DE LOS ASENTAMIENTOS RURALES EN
SÃO PAULO: RETOS Y LOGROS

10.56238/revgeov16n5-121

Rubens de Oliveira Eliziário


Doutor em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente
Instituição: Universidade de Araraquara (UNIARA)
E-mail: rubenseliziario@[Link]

Vera Lúcia Silveira Botta Ferrante


Doutora
Instituição: Universidade de Araraquara (UNIARA)
E-mail: [Link]@[Link]

RESUMO
Este estudo investiga a influência dos benefícios previdenciários na vida de famílias assentadas em
dois territórios rurais de São Paulo: Horto de Ibitiúva (Pitangueiras/SP) e Formiga (Colômbia/SP).
Analisamos a aplicação dos recursos previdenciários, as mudanças na qualidade de vida e os desafios
enfrentados por esses segurados especiais. A pesquisa abrangeu 32 lotes com benefícios permanentes
em Horto de Ibitiúva (de um total de 43) e 30 em Formiga (de um total de 61), representando uma
amostra significativa das famílias titulares. Observou-se que 62,5% dos entrevistados em Horto de
Ibitiúva e 36,7% em Formiga aplicam parte dos recursos na aquisição de insumos agropecuários,
indicando a importância do benefício como suporte à produção. Além disso, os recursos contribuem
para o lazer, viagens e compras essenciais, promovendo um aumento na segurança alimentar,
autonomia financeira e qualidade de vida geral. A metodologia incluiu questionários estruturados e
semiestruturados, entrevistas com pioneiros e a consulta a bancos de dados como ITESP e INCRA,
além de literatura especializada. Os resultados destacam o papel fundamental da previdência social na
fixação das famílias no campo, na sustentabilidade da agricultura familiar e na redução das
desigualdades, embora persistam desafios significativos no acesso e na compreensão das normas pelos
beneficiários, muitas vezes levando à judicialização. A pesquisa oferece insights para a formulação de
políticas públicas mais eficazes, focadas na desburocratização e na valorização do segurado especial.

Palavras-chave: Assentamentos Rurais. Reforma Agrária. Previdência Social. Segurado Especial.


Benefícios Previdenciários.

REVISTA REGEO, São José dos Pinhais, v.16, n.5, p.1-24


ABSTRACT
This study investigates the influence of social security benefits on the lives of settled families in two
rural territories in São Paulo: Horto de Ibitiúva (Pitangueiras/SP) and Formiga (Colômbia/SP). We
analyzed the application of social security resources, changes in quality of life, and challenges faced
by these special insured individuals. The research covered 32 plots with permanent benefits in Horto
de Ibitiúva (out of a total of 43) and 30 in Formiga (out of a total of 61), representing a significant
sample of the titleholding families. It was observed that 62.5% of respondents in Horto de Ibitiúva and
36.7% in Formiga allocate part of their resources to purchase agricultural inputs, indicating the
benefit's importance as production support. Additionally, these resources contribute to leisure, travel,
and essential shopping, promoting an increase in food security, financial autonomy, and overall quality
of life. The methodology included structured and semi-structured questionnaires, interviews with
pioneers, and consultation of databases such as ITESP and INCRA, as well as specialized literature.
The results highlight the fundamental role of social security in keeping families in the countryside,
supporting the sustainability of family farming, and reducing inequalities. However, significant
challenges persist in access and understanding of regulations by beneficiaries, often leading to
judicialization. The research offers insights for developing more effective public policies focused on
debureaucratization and valuing the special insured.

Keywords: Rural Settlements. Agrarian Reform. Social Security. Special Insured. Social Security
Benefits.

RESUMEN
Este estudio investiga la influencia de las prestaciones de seguridad social en la vida de familias
asentadas en dos zonas rurales de São Paulo: Horto de Ibitiúva (Pitangueiras/SP) y Formiga
(Colômbia/SP). Se analizó la aplicación de los recursos de seguridad social, los cambios en la calidad
de vida y los retos que enfrentan estas personas aseguradas. La investigación abarcó 32 parcelas con
prestaciones permanentes en Horto de Ibitiúva (de un total de 43) y 30 en Formiga (de un total de 61),
lo que representa una muestra significativa de las familias beneficiarias. Se observó que el 62,5% de
las personas entrevistadas en Horto de Ibitiúva y el 36,7% en Formiga destinan parte de los recursos a
la adquisición de insumos agrícolas, lo que indica la importancia de la prestación como apoyo a la
producción. Además, los recursos contribuyen al ocio, los viajes y las compras esenciales, lo que
promueve una mayor seguridad alimentaria, autonomía financiera y una mejor calidad de vida en
general. La metodología incluyó cuestionarios estructurados y semiestructurados, entrevistas con
pioneros y la consulta de bases de datos como ITESP e INCRA, además de literatura especializada.
Los resultados resaltan el papel fundamental de la seguridad social para mantener a las familias en las
zonas rurales, garantizar la sostenibilidad de la agricultura familiar y reducir las desigualdades, si bien
persisten importantes desafíos en el acceso a la normativa y su comprensión por parte de los
beneficiarios, lo que a menudo deriva en litigios. La investigación ofrece perspectivas para la
formulación de políticas públicas más eficaces, centradas en la reducción de la burocracia y la
valoración de los asegurados especiales.

Palabras clave: Asentamientos Rurales. Reforma Agraria. Seguridad Social. Asegurados Especiales.
Prestaciones de Seguridad Social.

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1 INTRODUÇÃO
A segurança social, em suas diversas facetas, tem sido uma preocupação intrínseca à existência
humana, evoluindo de mecanismos de proteção rudimentares para sistemas formalizados. No contexto
brasileiro, essa trajetória é marcada por avanços significativos, especialmente com a promulgação da
Constituição Federal de 1988 (CF/88), que estabeleceu a seguridade social como um tripé fundamental
– saúde, assistência e previdência social – e ampliou direitos para diversas categorias, incluindo os
trabalhadores rurais. Este arcabouço normativo se consolidou com a Lei nº 8.213/1991, que definiu o
"segurado especial", uma categoria crucial para a compreensão da dinâmica socioeconômica no campo
(BRASIL, 1991b).
O "segurado especial" engloba produtores, parceiros, meeiros, pescadores e beneficiários de
assentamentos da reforma agrária que exercem suas atividades em regime de economia familiar. Essa
classificação, embora essencial para a proteção social, é frequentemente obscurecida por requisitos
burocráticos e pela necessidade de comprovação da atividade rural, que se mostra um desafio
persistente. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ao exigir documentação de provas materiais
que muitos trabalhadores não possuem. Sendo negado este direito constitucional. Levando à busca por
amparo judicial para garantir seus direitos.
Apesar das barreiras, a concretização do acesso aos benefícios previdenciários tem um poder
transformador na vida dos assentados. Os recursos obtidos não apenas suprem necessidades básicas,
mas também viabilizam investimentos na produção agrícola, melhoram as condições de moradia, saúde
e promovem o lazer, elementos que contribuem para a dignidade e a permanência das famílias no
campo. A Previdência Social, portanto, transcende a mera função assistencialista, atuando como um
pilar de desenvolvimento social e econômico em regiões historicamente marginalizadas.
A presente pesquisa insere-se nesse panorama, buscando analisar a influência dos benefícios
previdenciários em dois assentamentos rurais do estado de São Paulo: Horto de Ibitiúva, em
Pitangueiras, e Formiga, em Colômbia. O estudo se propõe a desvendar como esses recursos
financeiros impactam a dinâmica socioeconômica e a qualidade de vida das famílias assentadas. Os
objetivos específicos que guiam esta investigação são:
Analisar os padrões de utilização dos recursos financeiros provenientes dos benefícios
previdenciários pelas famílias assentadas;
Identificar as mudanças na qualidade de vida e na estrutura familiar dos beneficiários após a
obtenção da aposentadoria ou pensão, com especial atenção ao impacto quando o benefício é recebido
por mulheres;
• Avaliar a participação das famílias assentadas em programas de políticas públicas (como PAA,
PNAE, PPAIS e Pronaf) e a possível relação com a recepção de benefícios previdenciários;

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• Investigar os desafios enfrentados pela agricultura familiar nos assentamentos e a forma como
os recursos previdenciários contribuem para a permanência das famílias na terra e a melhoria
de suas condições sociais;
• Examinar se os benefícios são utilizados para a compra de insumos agropecuários, e como isso
afeta a produção agrícola e a renda familiar;
• Analisar a percepção dos assentados sobre a titulação e as práticas de parcerias/arrendamentos
em relação aos benefícios previdenciários.

Ao abordar esses pontos, espera-se oferecer uma compreensão aprofundada da realidade dos
assentamentos estudados, bem como contribuir para o debate acadêmico e fornecer subsídios para a
formulação de políticas públicas mais justas e eficazes, que promovam o desenvolvimento territorial e
a inclusão social no meio rural.

1.1 REVISÃO DE LITERATURA E FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA


A previdência social rural no Brasil é um campo vasto e complexo, permeado por nuances
históricas, legislativas e socioeconômicas. A discussão sobre a influência dos benefícios
previdenciários na vida dos assentados rurais exige uma análise aprofundada da literatura existente,
que abarca desde a evolução da proteção social no país até as particularidades do regime do segurado
especial e seus impactos na reprodução social e econômica das famílias.
A proteção social, em um sentido lato, remonta a formas ancestrais de solidariedade. No
entanto, sua formalização e institucionalização são fenômenos mais recentes. O artigo destaca que a
Previdência Social brasileira teve seus primeiros registros formais em 1821, com a concessão de
aposentadoria a professores, e a Constituição Mexicana de 1917 é apontada como um marco precursor
na inclusão de direitos sociais, influenciando o constitucionalismo brasileiro, especialmente a CF/88
(BRASIL, 1988).
Um momento crucial na formalização da previdência no Brasil foi a promulgação da Lei Eloy
Chaves (Decreto n.º 4.682/1923), que regulamentou as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs)
para categorias profissionais específicas, como ferroviários e marítimos. Essa fase inicial, contudo, era
marcadamente urbana e corporativista, com a proteção social atrelada à contribuição e ao vínculo
empregatício formal. Os trabalhadores rurais, por sua vez, permaneceram à margem desses sistemas
por um longo período, refletindo a dualidade econômica do Brasil do século XX, com o predomínio
do latifúndio e a industrialização incipiente nas cidades (ABREU et al., 2016).
A CF/88 representou um divisor de águas, consolidando o conceito de Estado de Bem-Estar
Social e o sistema de seguridade social tripartite. Para o campo, a grande inovação foi a universalização
da previdência rural e a criação da figura do "segurado especial", estabelecendo a equiparação de

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direitos previdenciários entre trabalhadores rurais e urbanos. Esse avanço foi regulamentado pelas Leis
n.º 8.212/91 e n.º 8.213/91, que definiram os critérios de enquadramento e os benefícios.

1.2 O REGIME DO SEGURADO ESPECIAL: DIREITOS E DESAFIOS


O conceito de "segurado especial" abrange uma vasta gama de trabalhadores do campo,
incluindo produtores, parceiros, meeiros, pescadores e assentados, que atuam em regime de economia
familiar. Este regime é caracterizado pela indispensabilidade do trabalho dos membros da família para
a subsistência e desenvolvimento socioeconômico do núcleo familiar, sem a utilização de empregados
permanentes (BRASIL, 1991a). A legislação permite auxílio eventual de terceiros, mas impõe limites
claros para a área explorada (até 4 módulos fiscais)1 e para a renda proveniente de outras fontes.
Apesar da clareza da lei, a aplicação prática do conceito de segurado especial é repleta de
ambiguidades e desafios. A comprovação da atividade rural, essencial para o acesso aos benefícios,
frequentemente se torna um entrave burocrático. A falta de documentação formal, a informalidade das
atividades rurais e o desconhecimento dos direitos são obstáculos recorrentes, como apontam Lima,
Silva e Braga (2024), Thethê e Pestana (2024) e Moreira e Santana Junior (2024).
Um ponto central na discussão sobre o segurado especial é a sua forma de contribuição. Muitos
críticos argumentam que esses trabalhadores recebem benefícios "sem contribuir", gerando uma
percepção de injustiça em relação aos trabalhadores urbanos. No entanto, a CF/88 (art. 195, § 8º)
estabelece uma contribuição indireta, calculada sobre a receita bruta da comercialização da produção,
evidenciando que há, sim, uma participação no custeio do sistema, ainda que diferenciada
(ELIZIÁRIO, 2017). A complexidade normativa, com regras por vezes subjetivas, leva a uma alta
incidência de judicialização, onde as decisões administrativas do INSS são frequentemente revertidas
judicialmente (SANTINI, 2024; OLIVEIRA, 2012; MARANHÃO; VIEIRA FILHO, 2018).

1.3 IMPACTOS SOCIOECONÔMICOS DOS BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS NO MEIO


RURAL
A literatura é farta em demonstrar o impacto multifacetado dos benefícios previdenciários na
vida dos trabalhadores rurais e suas famílias:
Estudos como os de Delgado e Cardoso Junior (1999), Beltrão, Oliveira e Pinheiro (2000),
Brumer (2002) e Castro (2017) consolidam a ideia de que a previdência social rural é um dos principais
mecanismos de redução da pobreza e da desigualdade social no campo. Os benefícios garantem uma
renda mínima que, em muitas famílias, é essencial para a segurança alimentar, investimentos em saúde,
educação e melhorias nas condições de moradia. Em regiões como o Sul e o Nordeste, a renda
previdenciária pode representar uma parcela substancial da renda domiciliar, mantendo muitas famílias
acima da linha de pobreza.

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A renda da previdência não apenas garante a subsistência, mas também funciona como um
"seguro agrícola", permitindo que as famílias invistam em suas atividades produtivas. Velleda (2008)
e Delgado e Cardoso Júnior (1999) destacam que o benefício previdenciário pode ser utilizado para
financiar a compra de insumos, equipamentos e até mesmo para cobrir perdas em safras ruins. Isso
contribui diretamente para a continuidade da agricultura familiar e para a fixação das famílias no
campo, evitando o êxodo rural, especialmente em pequenos municípios, como demonstrado por Chies
e Rocha (2015) e Schiefelbein (2010). A aposentadoria permite aos idosos, muitas vezes,
permanecerem em suas propriedades, mantendo seu modo de vida e identidade (SIMONATO e
BERGAMASCO, 2021).

1.3.1 Autonomia Feminina e Dinamização Econômica Local


A inclusão das mulheres rurais como beneficiárias diretas da previdência é um aspecto de
grande relevância. Santos (2022), Marin (2023) e Souza (2023, 2024) evidenciam que a previdência
social é crucial para a autonomia de renda das mulheres camponesas, reduzindo violências sexistas e
ampliando sua participação no custeio familiar. Essa autonomia financeira transforma o papel social
da mulher, passando de dependente a provedora. Além do impacto direto nas famílias, os recursos
previdenciários injetados no meio rural dinamizam as economias locais, impulsionando o comércio e
os serviços em pequenos municípios, configurando um importante caráter redistributivo (ELIZIÁRIO,
2017; BARBOSA; RÔMULO, 2007; BRUMER, 2002).

1.4 DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS E PERSPECTIVAS FUTURAS


Apesar dos avanços, o sistema previdenciário rural enfrenta desafios. Rodrigues (2018) projeta
um aumento contínuo no número de beneficiários, alertando para a necessidade de reformas estruturais
para garantir a sustentabilidade do sistema diante do envelhecimento populacional e do déficit
crescente. As reformas recentes, como a Emenda Constitucional nº 103/2019, embora não alterando
diretamente os requisitos de idade e tempo de contribuição para o segurado especial, impõem novas
exigências e barreiras indiretas, como a digitalização dos serviços, que afetam as populações mais
vulneráveis (SOUZA, 2024).
A persistência de "vieses" na concessão de aposentadorias, identificados por Kreter e Bacha
(2006) – favorecendo homens, brancos e pessoas mais instruídas – e a necessidade de políticas
específicas para populações indígenas (SOUZA; STADUTO; KRETER, 2018) apontam para a
importância de abordagens transversais e interseccionais nas políticas públicas.
A revisão sistemática apresentada na tese de Eliziário (2025), que abrange estudos nacionais
publicados entre 1999 e 2024, reforça essas análises ao evidenciar a escassez de pesquisas direcionadas
aos aposentados residentes em assentamentos rurais no Estado de São Paulo, revelando uma lacuna de

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conhecimento que o presente estudo busca suprir. Além disso, a autora revisita trabalhos específicos
sobre o contexto paulista (ELIZIÁRIO; FERRANTE; HERRMANN, 2018; SIMONATO;
BERGAMASCO, 2021), os quais já indicavam tanto a relevância dos benefícios previdenciários para
a manutenção das famílias assentadas, quanto a insuficiência da renda agrícola como principal fonte
de sustento.

2 MATERIAL E MÉTODOS
A investigação sobre a influência dos benefícios previdenciários na vida dos assentados rurais
foi delineada com uma abordagem metodológica predominantemente qualitativa e exploratória,
utilizando o estudo de caso múltiplo como estratégia central. A escolha por essa abordagem justifica-
se pela complexidade do fenômeno estudado, que envolve dimensões sociais, econômicas, culturais e
jurídicas, e pela necessidade de compreender as particularidades contextuais dos assentamentos.
O estudo adota um delineamento de estudo de caso múltiplo, com foco em dois assentamentos
rurais localizados no estado de São Paulo: Horto de Ibitiúva, no município de Pitangueiras, e Formiga,
no município de Colômbia. A seleção desses assentamentos permitiu uma análise comparativa de
realidades distintas, mas com características em comum que os qualificam como territórios de
segurados especiais, enriquecendo a discussão sobre os impactos da previdência. A natureza
exploratória da pesquisa possibilitou a identificação de variáveis relevantes e o aprofundamento em
aspectos emergentes da interação entre os beneficiários, suas comunidades e o sistema previdenciário.

2.1 CARACTERIZAÇÃO DOS LOCAIS DE ESTUDO


2.1.1 Assentamento Horto de Ibitiúva (Pitangueiras/SP)
O Assentamento Horto de Ibitiúva é um território rural localizado em Pitangueiras/SP. Foi
formado a partir de um processo de reforma agrária, consolidando-se ao longo dos anos. Atualmente,
é composto por 43 lotes agrícolas, abrigando 60 famílias titulares e um total de 178 pessoas. Sua área
média por lote (11,50 ha) o enquadra na categoria de segurado especial, conforme os critérios de
módulo fiscal. A comunidade possui uma história rica, marcada pela luta por terra e pela construção
de novas formas de vida e produção. A produção agropecuária, embora diversificada, enfrenta desafios
inerentes à agricultura familiar (Figuras 1 e 2).

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Figura 1 - Localização de Ibitiúva – Pitangueiras/SP.

Fonte: Google Maps (2023).

Figura 2 - Vista área do Assentamento Horto de Ibitiúva – Pitangueiras/SP.

Fonte: Google Earth (2023).

2.1.2 Assentamento Formiga (Colômbia/SP)


Localizado em Colômbia/SP, o Assentamento Formiga é constituído por 61 lotes e 91 famílias
titulares, somando 193 pessoas. Assim como Ibitiúva, sua área média por lote (14,50 ha) o categoriza
como assentamento de segurados especiais. O histórico do Formiga, desde sua ocupação inicial até a
fase de consolidação, reflete as vicissitudes e a resiliência dos movimentos sociais por terra no Brasil.
A comunidade se dedica a diversas atividades agropecuárias, buscando a subsistência e o
desenvolvimento local.
A reconstrução histórica de ambos os territórios, conforme apontado no artigo, abrange o
processo de formação, a situação demográfica e socioeconômica das famílias, a situação atual da
titulação e as parcerias/arrendamentos existentes. Essa contextualização é fundamental para
compreender as dinâmicas internas e a forma como os benefícios previdenciários se inserem na vida
desses assentamentos (Figuras 3 e 4).

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Figura 3 - Localização de Colômbia /SP.

Fonte: Google Maps (2023).

Figura 4 - Vista área do Assentamento do Formiga –Colômbia/SP.

Fonte: Google Maps (2023).

2.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA


A população-alvo da pesquisa incluiu todas as famílias que recebem benefícios previdenciários
permanentes (aposentadorias ou pensões) em ambos os assentamentos. No Horto de Ibitiúva, foram
investigados os titulares e cônjuges de 32 lotes com benefícios permanentes. No assentamento
Formiga, a amostra consistiu nos titulares e cônjuges de 30 lotes que recebem esses benefícios. Essa
seleção permitiu focar diretamente nas experiências daqueles impactados pelos benefícios
previdenciários. Adicionalmente, foram realizadas entrevistas com três pioneiros de cada território. A
escolha dos pioneiros justifica-se pela sua capacidade de fornecer uma perspectiva histórica e

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aprofundada sobre a formação e as transformações dos assentamentos, enriquecendo a análise sobre a
reprodução social das famílias ao longo do tempo.
Para a coleta de dados, foram utilizados múltiplos instrumentos, buscando triangulação e
abrangência:
• Questionários Estruturados e Semi-estruturados: Aplicados a todos os chefes de família ou
cônjuges que recebem benefícios previdenciários permanentes. Os questionários buscaram
levantar dados socioeconômicos, informações sobre o benefício recebido, sua utilização,
percepções sobre a qualidade de vida, participação em políticas públicas e outras questões
relevantes;
• Entrevistas Semi-diretivas: Realizadas com os três pioneiros de cada assentamento. Essa
técnica permitiu explorar narrativas, memórias e opiniões sobre a história do assentamento, as
lutas por direitos, a evolução das condições de vida e o papel dos benefícios previdenciários de
uma perspectiva mais aprofundada;
• Diário de Campo: O pesquisador manteve um diário de campo, registrando observações,
impressões, interações e contextos informais. Esse instrumento é valioso para capturar nuances
e dados contextuais que complementam as informações formais coletadas.

A pesquisa complementou os dados primários com o levantamento e análise de fontes


secundárias, incluindo:
• Bancos de Dados Institucionais: Informações da Fundação Instituto de Terras do Estado de
São Paulo (ITESP) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) foram
consultadas para contextualizar a situação fundiária, demográfica e produtiva dos
assentamentos;
• Literatura Especializada: Teses, dissertações, artigos científicos e livros relacionados à
previdência rural, reforma agrária, segurado especial e desenvolvimento territorial foram
revisados para embasar a discussão teórica e comparar os achados da pesquisa com o
conhecimento consolidado na área.

A análise dos dados seguiu uma abordagem predominantemente qualitativa, com a utilização
da análise de conteúdo para as entrevistas e questões abertas dos questionários. Os dados quantitativos,
obtidos pelas questões fechadas dos questionários, foram tabulados e apresentados por meio de
estatística descritiva (frequências e porcentagens), ilustrados com figuras e quadros, para caracterizar
a população e os padrões de utilização dos benefícios. A triangulação de dados provenientes de
diferentes fontes e instrumentos permitiu uma interpretação mais robusta dos resultados.

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O estudo foi conduzido em estrita conformidade com os preceitos éticos da pesquisa
envolvendo seres humanos. Todos os participantes foram devidamente informados sobre os objetivos
da pesquisa, garantindo-lhes o direito à confidencialidade, anonimato e a possibilidade de desistir a
qualquer momento. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado pelos
participantes, e os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa, visando uma
pesquisa responsável e encontra-se devidamente aprovada sob o CAAE nº 84862624.3.0000.5383.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados coletados nos assentamentos Horto de Ibitiúva e Formiga revelou uma
série de impactos e dinâmicas complexas relacionadas à influência dos benefícios previdenciários na
vida dos assentados rurais. Os resultados serão apresentados e discutidos de forma a dialogar com a
literatura e os objetivos propostos.
Os assentamentos estudados, Horto de Ibitiúva e Formiga, representam microcosmos da
realidade da reforma agrária em São Paulo. O Horto de Ibitiúva, com seus 43 lotes e 60 famílias (178
pessoas), e o Formiga, com 61 lotes e 91 famílias (193 pessoas), demonstram a persistência da
agricultura familiar em um contexto de grandes transformações. A área média por lote em Ibitiúva
(11,50 ha) e em Formiga (14,50 ha) os enquadra na categoria de segurado especial, embora a área do
módulo fiscal da região seja superior (64 ha e 88 ha, respectivamente).
A análise demográfica dos entrevistados que recebem benefícios previdenciários no
Assentamento de Formiga revela um perfil majoritariamente feminino, indicando uma presença
expressiva das mulheres entre os beneficiários. Essa predominância pode estar associada à maior
expectativa de vida e à participação crescente das mulheres nas atividades formais e comunitárias, que
lhes garante acesso aos direitos previdenciários.
Observa-se, contudo, que os homens ainda representam parcela significativa entre os
aposentados e pensionistas, o que pode refletir trajetórias laborais mais longas ou início precoce da
vida produtiva.
Estes dados reforçam as pesquisas e a literatura sobre a crescente inclusão e protagonismo das
mulheres no sistema previdenciário rural (SANTOS, 2022; MARIN, 2023; SOUZA, 2023). A idade
média dos beneficiários sugere que a aposentadoria por idade rural, com seus requisitos etários
diferenciados para homens e mulheres (60 e 55 anos, respectivamente), é o benefício mais comum.
O nível de escolaridade mostrou que grande parte dos beneficiários possui baixo nível
educacional, o que pode agravar as dificuldades na compreensão de normas e no acesso digital aos
serviços previdenciários, um desafio contemporâneo apontado por Souza (2024) (Figura 5).

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Figura 5 - Nível de escolaridade dos entrevistados.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

O período de chegada, observa-se que a maioria chegou no início da formação do assentamento


(Figura 6). Demonstra que muitos beneficiários estão consolidados na terra há bastante tempo, o que
está em consonância com a ideia de que a previdência social atua como um fator de fixação no campo
(SCHIEFELBEIN, 2010). A permanência das famílias nos assentamentos é um dado relevante.

Figura 6 - Período de chegada ao assentamento.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

A análise sobre a residência dos cônjuges nos assentamentos evidencia realidades distintas
entre o Assentamento Formiga e o Assentamento Horto de Ibitiúva.

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No primeiro, observa-se uma forte coabitação conjugal, com 87% dos entrevistados declarando
que o cônjuge mora no assentamento. Esse dado sugere maior estabilidade familiar e fixação territorial,
refletindo vínculos comunitários sólidos e uma estrutura doméstica consolidada em torno do lote.
Por outro lado, no Assentamento Horto de Ibitiúva, apenas 53% afirmaram que o cônjuge reside
no local, enquanto 47% indicaram o contrário. Essa diferença expressiva pode estar relacionada a
dinâmicas de trabalho externas, separações temporárias por motivos econômicos ou configurações
familiares distintas, como uniões em que apenas um dos parceiros permanece no lote.
A maioria dos entrevistados compartilha o lote com outras pessoas, com algumas famílias
sendo maiores que outras. Mais um indicativo de um núcleo familiar forte nos assentamentos (Figura
7). É comum nos lotes dos 2 territórios possuir mais de uma casa nos lotes agrícolas, onde os filhos ou
algum parente mora.

Figura 7- Número de pessoas que moram no lote.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

A análise referente à residência dos filhos nos lotes revela diferenças relevantes entre os dois
assentamentos pesquisados.
No Assentamento Formiga, 77% dos entrevistados afirmaram que os filhos ainda residem no
lote, enquanto 23% declararam o contrário. Esse resultado demonstra uma forte permanência familiar,
indicando que o lote continua sendo o principal espaço de convivência e sustento das famílias,
possivelmente em função da continuidade das atividades agrícolas e da coesão comunitária.
Já no Assentamento Horto de Ibitiúva, 69% dos filhos vivem nos lotes, enquanto 31% não
residem mais no local. Embora o percentual de permanência ainda seja elevado, observa-se uma
tendência maior de saída dos jovens, o que pode estar relacionado a buscas por trabalho, estudo ou
novas oportunidades fora do assentamento.

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Sobre os números de casas por lote, esses dados evidenciam a importância da renda
previdenciária para a manutenção do grupo familiar, muitas vezes em mais de uma residência por lote
(Figura 8).

Figura 8 - Número de casas por lote.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

Em termos de produção, as principais atividades desempenhadas nos lotes (Figura 9). No


Assentamento Formiga destaca-se a criação de pecuária leiteira e de corte e no Assentamento de
Ibitiúva a plantação de mandioca e cana de açúcar.

Figura 9 - Principais atividades desempenhadas no lote.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

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3.1 A APLICAÇÃO DOS BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS E A MELHORIA DA QUALIDADE
DE VIDA
Os resultados deste estudo corroboram a literatura que destaca o papel central dos benefícios
previdenciários na reprodução social e econômica das famílias assentadas. A pesquisa revelou que uma
parcela significativa dos entrevistados utiliza os recursos da aposentadoria ou pensão para além da
subsistência básica:
Investimento na Produção: em Horto de Ibitiúva, 62,5% dos entrevistados, e em Formiga,
36,7%, aplicam os recursos previdenciários na aquisição de insumos agropecuários, como sementes,
adubos e ração. Este dado é crucial, pois demonstra o papel da previdência como um "seguro agrícola"
(DELGADO; CARDOSO JÚNIOR, 1999) e como capital para a produção, permitindo que os
agricultores familiares mantenham suas atividades produtivas, mesmo diante da insuficiência da renda
gerada exclusivamente pela lavoura, como já observado por Eliziário, Ferrante e Herrmann (2018).
Melhoria da Qualidade de Vida: Os recursos também são direcionados para o lazer, viagens
e compras em supermercados (Figura 10). Isso indica uma melhoria na qualidade de vida que vai além
do básico, proporcionando momentos de descanso e consumo que antes seriam inacessíveis. Essa
dinâmica se alinha com a observação de Simonato e Bergamasco (2021) de que a aposentadoria
contribui para a sensação de tranquilidade e segurança, permitindo o bem-estar e a permanência no
campo.

Figura 10 - O que mudou com o benefício.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

Segurança Alimentar e Autonomia Financeira: A percepção geral dos beneficiários é de um


aumento na segurança alimentar e na autonomia financeira. A renda constante e previsível da
previdência mitiga a vulnerabilidade inerente às atividades agrícolas, sujeitas a intempéries e

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flutuações de mercado. Para as mulheres, especialmente, a renda própria proporcionada pela
aposentadoria redefiniu papéis sociais, garantindo-lhes maior autonomia e poder de decisão dentro da
família e da comunidade, conforme argumentado por Santos (2022) e Souza (2023).
Compartilhamento da Renda e Financiamentos: A renda previdenciária frequentemente é
compartilhada com outros membros da família (Figura 14), o que demonstra seu papel de sustentação
do núcleo familiar.
A análise sobre a forma de gestão da renda familiar nos assentamentos evidencia uma tendência
majoritária de compartilhamento dos recursos financeiros entre os membros das famílias, embora com
diferenças entre os territórios.
No Assentamento Formiga, 63% dos entrevistados afirmaram que a renda é compartilhada
entre os integrantes da família, enquanto 37% indicaram que a renda é administrada de forma
individual. Essa divisão mostra uma predominância da gestão coletiva, o que pode estar associado à
organização familiar voltada à cooperação econômica, especialmente em contextos onde a produção e
o consumo estão fortemente interligados ao trabalho no lote.
No Assentamento Horto de Ibitiúva, a proporção de renda compartilhada é ainda mais
expressiva, alcançando 72%, contra 28% de gestão individual. Esse resultado reforça a presença de
uma cultura de solidariedade e corresponsabilidade econômica, possivelmente impulsionada por
atividades produtivas conjuntas e estruturas familiares mais cooperativas.
A análise sobre o acesso a financiamentos pelos assentados revela um nível moderado de
utilização de crédito rural, com diferenças perceptíveis entre os dois assentamentos pesquisados.
No Assentamento Formiga, 57% dos entrevistados afirmaram já ter realizado algum tipo de
financiamento, enquanto 43% nunca acessaram crédito. Esse resultado indica uma integração razoável
às políticas de fomento agrícola, sugerindo que parte significativa das famílias conseguiu mobilizar
recursos financeiros para investimento produtivo, seja na compra de insumos, equipamentos ou na
melhoria da infraestrutura dos lotes.
Já no Assentamento Horto de Ibitiúva, a proporção se inverte levemente: 47% dos assentados
já recorreram a financiamentos, e 53% nunca o fizeram. Essa diferença pode estar associada a
dificuldades de acesso ao crédito rural, como exigências burocráticas, falta de garantias, ou ausência
de orientação técnica adequada.

3.2 DESAFIOS NO ACESSO AOS BENEFÍCIOS E A JUDICIALIZAÇÃO


Apesar dos impactos positivos, o acesso aos benefícios previdenciários para os segurados
especiais ainda é um processo marcado por dificuldades burocráticas e pela persistência da
judicialização. A pesquisa revelou que:

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Necessidade de Ação Judicial: Uma parcela considerável dos benefícios foi concedida por via
judicial (Figura 16), em vez de administrativamente pelo INSS. Isso corrobora as conclusões de Santini
(2024), Oliveira (2012) e Maranhão e Vieira Filho (2018) sobre a subjetividade na análise de atividade
rural e as interpretações divergentes entre o INSS e o Poder Judiciário. A necessidade de recorrer a
advogados para garantir o direito aumenta os custos e a complexidade para os beneficiários.
No Assentamento Formiga, 67% dos participantes afirmaram ter precisado de advogado,
enquanto 33% nunca necessitaram desse tipo de apoio. Esse dado sugere uma demanda significativa
por orientação jurídica, possivelmente relacionada a questões fundiárias, previdenciárias, contratuais
ou familiares, que exigem mediação legal.
No Assentamento Horto de Ibitiúva, a proporção é semelhante, embora ligeiramente menor:
59% declararam já ter recorrido a advogado, contra 41% que não precisaram. Essa proximidade entre
os percentuais indica que a presença de conflitos ou demandas legais é uma realidade comum nos
assentamentos rurais, o que reforça a importância de serviços de assistência jurídica acessíveis e
contínuos nessas comunidades.
Morosidade no Processo: O período esperado para o recebimento do benefício (Figura 11)
muitas vezes é longo, gerando ansiedade e dificuldades financeiras durante a espera.

Figura 11 - Período esperado para o recebimento do benefício.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

Esses desafios são acentuados pela falta de documentação formal, informalidade do trabalho
rural e o desconhecimento de direitos, elementos frequentemente mencionados na literatura (LIMA;
SILVA; BRAGA, 2024; THETHÊ; PESTANA, 2024; MOREIRA; SANTANA JUNIOR, 2024).

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3.3 PARTICIPAÇÃO EM POLÍTICAS PÚBLICAS E ARTICULAÇÃO COMUNITÁRIA
A participação em políticas públicas é um indicador da integração dos assentados nas redes de
apoio e fomento à agricultura familiar. A pesquisa investigou a adesão a programas como o PAA
(Programa de Aquisição de Alimentos), PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), PPAIS
(Programa Paulista de Aquisição de Interesse Social) e Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento
da Agricultura Familiar).
A análise evidencia uma baixa adesão dos assentados a programas governamentais, tanto no
Assentamento Formiga quanto no Horto de Ibitiúva.
No Assentamento Formiga, apenas 33% dos entrevistados afirmaram participar de alguma
política pública, enquanto 67% declararam não estar inseridos em nenhum programa. Essa proporção
sugere uma fragilidade na articulação entre o poder público e a comunidade, o que pode decorrer de
falta de informação, burocracia excessiva ou descontinuidade das ações governamentais voltadas ao
meio rural.
Situação semelhante é observada no Assentamento Horto de Ibitiúva, onde 34% participam de
políticas públicas e 66% não estão vinculados a nenhuma iniciativa. A coincidência percentual entre
os dois territórios aponta para um padrão de exclusão ou subutilização das políticas sociais,
possivelmente relacionado à falta de assistência técnica, apoio institucional e mecanismos de
integração local.
Os dados revelam a necessidade de fortalecimento das políticas públicas direcionadas aos
assentamentos rurais, com ênfase na informação, capacitação e ampliação do acesso dos assentados a
programas de fomento, assistência social e desenvolvimento sustentável.
De modo geral, os resultados destacam que as políticas de compras públicas, em especial o
PAA e o PNAE constituem os principais instrumentos de fortalecimento da agricultura familiar, ainda
que com diferentes graus de consolidação e alcance entre os assentamentos analisados (Figura 12).

Figura 12 - Qual tipo de política pública.

Fonte: Dados de pesquisa, 2024.

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3.4 INFRAESTRUTURA, CONECTIVIDADE E DINÂMICAS DE TRABALHO
A infraestrutura básica e a conectividade são elementos essenciais para o desenvolvimento dos
assentamentos. A pesquisa abordou o tipo de abastecimento de água e sua utilização, acesso a telefone
a energia solar. Esses dados fornecem um panorama das condições de vida e das barreiras tecnológicas
que podem afetar o acesso a informações e serviços.
Em relação ao acesso à internet, no Assentamento Formiga, 93,3% pessoas têm acesso via
rádio, enquanto no Horto do Ibitiúva, 75% utilizam internet por provedor. No Horto, 15,6 % pessoas
acessam a internet por celular rural, enquanto apenas 3,3 % pessoas no Formiga utiliza essa tecnologia.
No total, 3,3% pessoa em Formiga e 9,4% no Horto relataram não ter internet em casa.
Quanto à qualidade da internet, 93,1% pessoas no Assentamento Formiga classificaram a
conexão como boa, contra 62,5% no Horto do Ibitiúva. No entanto, 6,9% pessoas em Formiga e 34,4%
no Horto consideram a internet regular. No Horto, 3,1% pessoa não respondeu a essa questão.
Por fim, no quesito telefone, tanto no Assentamento Formiga quanto no Horto do Ibitiúva, a
maioria das famílias, 90,6% e 93,3% pessoas, respectivamente, utiliza celular convencional. Apenas
3,3% pessoas no Assentamento Formiga e 9,4% no Assentamento Horto de Ibitiúva utilizam celular
rural, e 3,3% pessoa no Formiga relatram não ter telefone.
Os dados relatam que ambos os assentamentos têm uma dependência significativa de poços
artesianos para o abastecimento de água, utilizam majoritariamente a água para uso doméstico e
criação de animais, possuem boa cobertura de internet e telefone celular, com variações nos tipos de
acesso à internet e ao telefone.
Sobre o número de pessoas que trabalham no lote, no Assentamento Horto do Ibitiúva, 65,6%
dos entrevistados afirmaram que componentes do núcleo familiar, trabalham como assalariados, o que
representa uma diferença considerável em relação ao Assentamento Formiga. Esse dado sugere que há
uma maior integração dos componentes familiares do Assentamento de Formiga ao mercado de
trabalho formal, ou uma necessidade de complementar a renda gerada pelas atividades no lote.
De acordo com os dados, em ambos os assentamentos, a maioria das pessoas ainda depende do
trabalho no lote como principal fonte de sustento, com maior prevalência no Assentamento Formiga.
No entanto, a porcentagem de pessoas da família que buscam trabalhos assalariados é maior no Horto
do Ibitiúva, 61,1% mais de 2 pessoas. Sugerindo que os assentados deste local possuem uma maior
diversificação de renda. Essa diferença pode ser resultado de fatores como acesso a mercados de
trabalho locais, oportunidades educacionais ou diferentes níveis de mecanização e infraestrutura
agrícola entre os assentamentos.
Já no Assentamento Horto do Ibitiúva, 65,6% dos entrevistados afirmaram que componentes
do núcleo familiar, trabalham como assalariados, o que representa uma diferença considerável em
relação ao Assentamento Formiga. Esse dado sugere que há uma maior integração dos componentes

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familiar do Assentamento de Formiga ao mercado de trabalho formal, ou uma necessidade de
complementar a renda gerada pelas atividades no lote.
De acordo com os dados, em ambos os assentamentos, a maioria das pessoas ainda depende do
trabalho no lote como principal fonte de sustento, com maior prevalência no Assentamento Formiga.
No entanto, a porcentagem de pessoas da família que buscam trabalhos assalariados é maior no Horto
do Ibitiúva, 61,1% mais de 2 pessoas. Sugerindo que os assentados deste local possuem uma maior
diversificação de renda. Essa diferença pode ser resultado de fatores como acesso a mercados de
trabalho locais, oportunidades educacionais ou diferentes níveis de mecanização e infraestrutura
agrícola entre os assentamentos.
Os resultados da pesquisa nos assentamentos Horto de Ibitiúva e Formiga fornecem uma rica
tapeçaria de evidências que confirmam e aprofundam a compreensão da multifacetada influência dos
benefícios previdenciários. Eles não só asseguram a subsistência, mas também atuam como motores
de desenvolvimento local, garantindo a permanência das famílias no campo e promovendo melhorias
na qualidade de vida, apesar dos persistentes desafios burocráticos e da complexidade das normas.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo demonstrou a fundamental influência dos benefícios previdenciários na produção
e reprodução social das famílias nos assentamentos rurais de Horto de Ibitiúva (Pitangueiras/SP) e
Formiga (Colômbia/SP). Ao analisar a utilização dos recursos recebidos de benefícios previdenciários,
as transformações na qualidade de vida e os desafios enfrentados pelos segurados especiais, a pesquisa
contribuiu significativamente para a compreensão da realidade desses territórios.
Os dados confirmam que a aposentadoria e as pensões, longe de serem meros auxílios,
funcionam como um pilar de sustentação econômica, permitindo a complementação da renda agrícola,
investimentos em insumos para a produção e a melhoria da infraestrutura familiar. Essa injeção de
recursos se traduz em maior segurança alimentar, autonomia financeira e possibilidades de lazer,
elevando a qualidade de vida dos assentados e contribuindo para a fixação das famílias no meio rural.
O papel central da mulher como beneficiária e gestora desses recursos emerge como um fator de
autonomia e transformação social dentro dos assentamentos.
Contudo, a pesquisa também expôs as persistentes barreiras no acesso a esses direitos. A alta
taxa de judicialização para a obtenção dos benefícios previdenciários, a morosidade dos processos e a
vulnerabilidade a golpes e fraudes evidenciam a necessidade urgente de desburocratização e
simplificação das normas de comprovação da atividade rural. A complexidade do enquadramento
como segurado especial, as dificuldades na obtenção de documentação formal e a falta de
conhecimento sobre os próprios direitos contribuem para essa realidade.

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A participação em políticas públicas de apoio à agricultura familiar e o acesso a assistência
técnica são cruciais, mas heterogêneos. A infraestrutura básica e a conectividade, embora presentes em
alguma medida, ainda representam desafios para a plena inclusão e desenvolvimento dos
assentamentos.
As contribuições deste estudo são múltiplas. Academicamente, preenche uma lacuna na
literatura sobre aposentados em assentamentos rurais no Estado de São Paulo, aprofundando o debate
sobre a intersecção entre reforma agrária, previdência social e desenvolvimento territorial.
Socialmente, lança luz sobre a realidade e as demandas de um grupo que, muitas vezes, é invisibilizado,
mas que desempenha um papel fundamental na produção de alimentos e na conservação do meio
ambiente. Profissionalmente, oferece dados e análises que podem embasar a atuação de extensionistas
rurais, assistentes sociais, advogados e gestores públicos.
Para os formuladores de políticas públicas, as recomendações são claras:
• Desburocratização: Implementar mecanismos mais simplificados e transparentes para a
comprovação da atividade rural, reduzindo a dependência da judicialização;
• Educação e Orientação: Promover campanhas informativas e programas de educação
previdenciária nos assentamentos, capacitando os agricultores sobre seus direitos e deveres;
• Integração de Políticas: Fortalecer a articulação entre as políticas previdenciárias e os
programas de fomento à agricultura familiar (PAA, PNAE, Pronaf), garantindo que os
benefícios atuem como catalisadores do desenvolvimento produtivo;
• Assistência Técnica e Acesso à Tecnologia: Ampliar e qualificar a oferta de assistência
técnica e promover a inclusão digital, facilitando o acesso a serviços do INSS e a informações
relevantes.

Este estudo, embora limitado aos dois assentamentos analisados, pavimenta o caminho para
futuras pesquisas. Sugere-se a ampliação do escopo para outros assentamentos e regiões, a realização
de estudos longitudinais para acompanhar os impactos das reformas previdenciárias e aprofundar a
análise de gênero e raça no acesso aos benefícios. Somente com um olhar atento e políticas
coordenadas será possível garantir que a previdência social continue a ser um instrumento de justiça e
transformação para os trabalhadores rurais brasileiros.

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