Aviso
A tradução foi efetuada pelo grupo Wings Traduções (WT), de modo
a proporcionar ao leitor o acesso à obra, incentivando à posterior
aquisição. O objetivo do grupo é selecionar livros sem previsão de
publicação no Brasil, traduzindo-os e disponibilizando-os ao leitor, sem
qualquer forma de obter lucro, seja ele direto ou indireto.
Levamos como objetivo sério, o incentivo para o leitor adquirir as
obras, dando a conhecer os autores que, de outro modo, não poderiam,
a não ser no idioma original, impossibilitando o conhecimento de muitos
autores desconhecidos no Brasil. A fim de preservar os direitos autorais
e contratuais de autores e editoras, o grupo WT poderá, sem aviso prévio
e quando entender necessário, suspender o acesso aos livros e retirar o
link de disponibilização dos mesmos, daqueles que forem lançados por
editoras brasileiras. Todo aquele que tiver acesso à presente tradução
fica ciente de que o download se destina exclusivamente ao uso pessoal
e privado, abstendo-se de o divulgar nas redes sociais bem como tornar
público o trabalho de tradução do grupo, sem que exista uma prévia
autorização expressa do mesmo.
O leitor e usuário, ao acessar o livro disponibilizado responderá
pelo uso incorreto e ilícito do mesmo, eximindo o grupo WT de qualquer
parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por
aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar a
presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos
termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998.
SINOPSE
Uma reviravolta assustadora em segundas chances, onde um
assalto brutal volta para assombrar a única sobrevivente com uma
nova ameaça e outra vítima.
Onze anos atrás, a mãe e a irmã de Cami Cortlandt morreram
cruelmente em uma violenta invasão domiciliar. O trauma e a
notoriedade ainda persistem, mas Cami conseguiu construir uma
vida na sua cidade natal apesar de tudo o que perdeu.
Então um dia tudo volta correndo.
Uma voz distorcida no telefone: Você gostaria de recomeçar?
Um vídeo perturbador de uma sala com grades na janela,
aprisionando um menino dentro que parecia dolorosamente
familiar. Quatro dias para encontrá-lo.
Com a ajuda de Rex Lowe, um antigo colega de classe cujo
passado está indissociavelmente ligado ao seu, Cami corre para
descobrir tudo o que pode sobre o menino: onde ele está, quem ele
é e porque ela é a única que pode salvá-lo.
Mas quando Cami e Rex desvendam uma pista após a outra,
o passado e o presente convergem em uma explosão de segredos
que eles nunca viram chegando... e uma verdade que eles nunca
poderiam ter imaginado.
PRÓLOGO
Ela acordou com um grito nos lábios, tentando contrair o peito
e encher os pulmões com o ar necessário para expelir o som de
medo e horror. Mas seu corpo continuou a desobedecer, e um
pequeno fio de ar era o único som que escapava de sua boca. Onde
estou? Por que está escuro? Por que não consigo me mexer? Estou
morta?
Ela imaginou um vislumbre de rostos, olhando-a de soslaio,
aproximando-se. Um em particular. A traição a perfurou em algum
lugar lá dentro, onde ela ainda sentia dor. Por quê? Por quê? Ela se
virou e correu. Para longe dele, deles. Mas eles a pegaram e... Outro
vislumbre, uma garrafa em seus lábios, líquido escorrendo pela
garganta enquanto ela lutava e engasgava.
O som agudo de um bipe constante perfurou sua consciência.
Uma máquina. Perto. Ela estava em um quarto de hospital? O alívio
a invadiu. Ela havia sido resgatada. Ela estava sendo cuidada. Ela
se recuperaria.
E então buscarei vingança.
Quem conhecia a vingança melhor do que ela?
O rangido de uma porta se abrindo lentamente soou, e ela
tentou levantar a cabeça, mas parecia uma bola de boliche presa ao
seu pescoço.
Um raio de luz surgiu e, sob essa luz, ela viu um tubo saindo
de sua boca e, bem acima dela, um teto cercado por uma moldura
de sanca que ela conhecia bem. Meu Deus. Não. Não pode ser. Mas,
como se em resposta, um zumbido suave chegou aos seus ouvidos,
e seu corpo começou a se erguer junto com a cama embaixo dela.
Ele ficou ali, no estribo, com um sorriso malicioso no rosto
lupino.
— Olá, Posey.
E foi então que ela teve certeza de que ainda estava viva. Mas
teria sido melhor se tivesse morrido.
CAPÍTULO UM
Cami não estava a fim de festa. E, no entanto, lá estava ela,
de biquíni, com uma dose de gelatina na mão, enquanto uma
animada briga de galinha acontecia na piscina ao lado. Seu
namorado, Hollis, havia convidado todos os membros do time de
futebol americano e da equipe de líderes de torcida para uma festa
na piscina em sua casa. Parecia que todos estavam se divertindo
muito. Menos ela. Anime-se. O que há de errado com você? Só que
ela sabia exatamente o que havia de errado com ela. Ela vinha
sofrendo de um cansaço profundo e náuseas persistentes na última
semana. E sua menstruação havia sumido.
Ela forçou um sorriso enquanto olhava ao redor com
indiferença e então, confiante de que ninguém estava olhando para
ela, jogou o pequeno copo de plástico cheio de gelatina vermelha
com picos em um arbusto de hortênsia.
O sol batia forte em seus ombros nus, e uma colega líder de
torcida em um dos ombros da linha ofensiva soltou uma gargalhada
quando foi jogada na água com um golpe de macarrão de piscina.
— Ei, Cam, — disse Tia ao se aproximar, entregando-lhe outra
dose de gelatina. Ótimo. Sua amiga inclinou a cabeça para trás e
usou a língua para pegar a dose, depois engoliu em seco e sorriu.
— Toma, pega o meu também, — disse Cami. — Não estou a
fim.
As sobrancelhas de Tia se franziram e ela olhou para Cami
com mais atenção. — Você está bem? — perguntou Tia, ajeitando a
parte de cima do biquíni que havia subido. — Você parece um pouco
verde.
Cami deu um sorriso sem graça e deu um passo para o lado
para evitar o tsunami causado por um linebacker que acabara de
cair no fundo da piscina. — Estou bem. Acho que comi algo que não
me fez bem.
— Espero que não tenha sido um dos cachorros-quentes. Vi o
Ray derrubar metade do pacote no chão e depois jogá-los na grelha
mesmo assim. Ele me garantiu que “fogo limpa”. — Ela fez aspas no
ar e revirou os olhos.
Cami mal conteve uma careta ao desviar o olhar. A conversa
sobre cachorro-quente havia aumentado sua náusea em pelo
menos alguns níveis. Mais alguns e a pedicure francesa da Tia
estaria coberta de vômito. — Preciso usar o banheiro. Já volto.
— OK...
Cami contornou um grupo de caras que brincavam perto do
pátio coberto e foi em direção à casa da piscina. — Ei, Cam, qual a
pressa? — perguntou Kent, o zagueiro do time, inclinando a cabeça
para o lado para dar um show de olhar para a bunda dela.
— Missão secreta. Não tenho permissão para discuti-la, — ela
disparou por cima do ombro com uma piscadela sedutora.
— Parece excitante. — A risada dele ecoou atrás dela enquanto
ela entrava no espaço com ar-condicionado.
Ela foi até o banheiro nos fundos e trancou a porta. — Droga,
— murmurou ao perceber que sua menstruação ainda não tinha
chegado. — Não entre em pânico. — Poderia haver outras
explicações além daquela com a qual ela mais se preocupava. O
treino de cheerleading tinha sido intenso ultimamente, e ela estava
se exercitando mais do que o normal. Além disso, as provas finais
estavam chegando, e ela estava estressada. Seu pai esperava que
ela mantivesse uma média de 4,0, além de todas as suas atividades
extracurriculares, que — voltando às preocupações atuais —
incluíam sexo com o namorado por um fim de semana inteiro no
mês passado, quando os pais dele estavam viajando a negócios. Ela
mentiu para a mãe e o pai e disse que ia dormir na casa da Tia.
Mas ela tinha tomado pílula e não tinha esquecido nenhuma.
Ela tinha se protegido. Ela tinha sido inteligente...
Então, onde diabos está minha menstruação?
Cami lavou as mãos, pegou a toalha pendurada ao lado da pia
e olhou para o próprio reflexo. Tia tinha razão — parecia que tinha
comido um cachorro-quente coberto de formigas. Meu Deus, nem
pense nessa comida. Ela apertou os lábios e respirou fundo pelo
nariz. Além de parecer um pouco pálida, como diria sua mãe,
parecia ela mesma — cabelos castanho-avermelhados brilhantes
presos em um rabo de cavalo, grandes olhos castanhos e um rosto
e corpo que haviam chamado a atenção do quarterback estrela do
time de futebol americano da escola. Hollis Barclay III era
indiscutivelmente perfeito — rico, lindo e obviamente a caminho da
grandeza — e Cami era a inveja de todas as garotas da escola,
provavelmente de todas as garotas da pequena cidade de Aspen
Cove, Virgínia.
Deus, ele surtaria se...
Ela jogou a toalha de lado e se afastou do reflexo. Não. Ela não
ia perder o controle. Isso podia ser — provavelmente era — um
alarme falso.
Os sons de música e risadas estridentes vinham de fora, e por
um minuto ela considerou ficar ali mesmo, onde não era quente
nem barulhento e onde não se esperava que ela fosse tagarela,
risonha e divertida. Mas também não podia se esconder lá dentro
indefinidamente. E já estava quase na hora de ir embora. Seu pai
viajaria a negócios pela manhã, e ela já havia dito a Hollis que tinha
planos com a família.
Só mais uma hora. Você consegue.
Ela saiu do banheiro no momento em que algumas das outras
líderes de torcida irromperam pela porta da casa da piscina,
cantando olás para ela enquanto passavam. Ela abriu um sorriso
despreocupado e as cumprimentou de volta.
Ao sair para o dia claro de fim de verão, o brilho do sol a cegou
momentaneamente, forçando-a a semicerrar os olhos e virar a
cabeça enquanto esperava que seus olhos se adaptassem. Quando
isso aconteceu, seu olhar se concentrou nas copas das árvores
balançando no quintal lateral dos Barclays.
Em breve, as folhas começariam a mudar de cor e as festas na
piscina chegariam ao fim, sendo substituídas por confraternizações
e fogueiras. Com os olhos erguidos, ela caminhou na direção das
árvores, afastando-se da festa e indo em direção à sombra de um
beiral do pátio, situado ao lado da casa da piscina.
Enquanto observava aquelas árvores balançando, Cami sentiu
um estranho aperto dentro de si que só podia atribuir ao fim
iminente de uma estação, que se transformava em outra. Mas
também tinha a sensação de que não era exatamente isso, e embora
não conseguisse identificar agora, conseguiria mais tarde... a
maneira como às vezes relembrava um momento vivido na infância
que não sabia que era a última descida de trenó de uma
determinada colina, ou a última festa do pijama com a irmã na
varanda do avô antes de ele falecer...
Um movimento atrás de um grande vaso de plantas à sua
direita a tirou de seu devaneio. Ela se virou e se inclinou sobre a
folhagem para ver Rex Lowe sentado em uma cadeira de jardim que
estava praticamente escondida atrás do vaso cheio de vegetação.
— Ah, oi. O que você está fazendo escondido aqui? —
perguntou ela. Percebeu que a pergunta tinha soado um tanto rude,
mas ele a surpreendeu em um momento vulnerável e, embora
pudesse ser irracional, ela se sentiu espionada.
— Eu poderia te perguntar a mesma coisa, — ele respondeu.
Ela se irritou um pouco porque o comentário dele tinha acertado
em cheio, mas a expressão no rosto dele a desarmou. Era meio
tímida, um pouco provocativa, e ele parecia nervoso, a julgar pela
maneira como endireitou as costas e piscou enquanto esperava pela
resposta.
Ela soltou um suspiro e deu a volta no vaso, ficando ainda
mais escondida, como ele.
— Não estou com vontade... — ela acenou com a mão na
direção da piscina, onde os respingos e gritos de alegria
continuavam — disso. — Ela não sabia ao certo por que havia
oferecido aquele nível de honestidade, exceto, bem, se alguém a
entendia, seria o garoto escondido em segurança no canto atrás de
uma planta.
Ele sorriu por um instante. — É, eu também não. Se você der
mais um passinho para a direita, ninguém vai te ver de nenhum
ângulo. Eu já fiz as equações.
Ela riu baixinho enquanto o observava. Rex Lowe estava em
sua periferia desde o ensino fundamental, mas ela achava que
nunca havia parado um minuto sequer para olhá-lo. Ele era uma
daquelas pessoas que sempre foram apenas um ruído de fundo. Era
um cara bonito, mas não como Hollis — todo músculos definidos,
arrogância e um sorriso de tirar o fôlego. A franja de Rex era longa
demais e caía sobre a testa como uma lâmina de ébano que
escondia seus olhos, e ele claramente não se importava muito com
seu estilo. Ele normalmente parecia ter revirado o fundo do cesto
de roupa suja em busca de algo para vestir, e às vezes suas calças
eram um fio de cabelo curtas demais. Ele cheirava vagamente a
fumaça de cigarro, embora ela nunca o tivesse visto acender em
lugar nenhum. Provavelmente morava com um fumante. Tinha um
pouco de acne nas bochechas e tendia a andar ligeiramente
curvado, com as mãos enfiadas nos bolsos, como se estivesse
tentando se parecer menor.
Os olhos de Cami se voltaram para o caderno em seu colo, a
página de cima cheia de números e símbolos que ela não
reconheceu. — Então agora você está o quê ... elaborando um plano
de fuga? — perguntou ela, apontando o queixo em direção ao que
quer que ele estivesse fazendo.
Ele soltou uma risada que soou vagamente surpresa, como se
ela fosse a última pessoa que ele esperaria que o divertisse de
alguma forma. Ele olhou para a folha cheia de equações ou algo
assim e depois para ela. — O quê? Você acha que é exagero? —
perguntou ele, com o lábio se curvando.
Ela não conseguiu evitar o sorriso de volta. — Provavelmente,
considerando que você poderia simplesmente... — ela apontou para
o outro lado do pátio — sair por aquele portão.
O sorriso dele aumentou, e seus olhares se encontraram antes
que ele pigarreasse e desviasse o olhar. — Tenho tendência a
complicar as coisas.
E assim como o pegara de surpresa ao fazê-lo rir, não esperava
que ele dissesse algo assim, algo que valesse a pena refletir, para
ser sincera. Percebeu, ali mesmo, como as conversas com as quais
se acostumara eram superficiais, como a maioria de suas interações
se resumia a comentários superficiais lançados aos outros com
uma piscadela e um sorriso. Sem sentido. Chatos.
— Hmm, — murmurou ela, — isso é interessante porque eu
tenho uma tendência a simplificar as coisas.
Seus olhos se encontraram novamente, seus lábios se
curvaram da mesma forma desarmada, mas desta vez ele não riu.
— O que você simplificou ultimamente? — Ambos se encararam.
Deus, o jeito que ele a olhava, como se se importasse
profundamente com sua resposta, causou uma pequena vibração
na base de sua garganta. Ela levantou a mão e colocou os dedos ali,
seu pulso batendo firmemente sob a pele. E de repente ela se
sentiu... vista, como se estivesse vivendo como uma sombra
borrada de si mesma, e ela tivesse acabado de entrar em foco e pelas
pessoas mais inesperadas no momento mais improvável. Foi como
se, por um momento, ela tivesse entrado em um mundo alternativo
quando se escondeu atrás daquela árvore em vaso.
O que você vê quando olha para mim?
Que estranho que ela realmente quisesse saber.
Ele ao menos sabia o nome dela?
— A propósito, eu sou a Cami. E você é o Rex, certo?
Os olhos dele brilharam levemente, como se estivesse surpreso
por ela saber quem ele era. E, mais uma vez, ela se viu de fora.
Alguém que havia estudado com outras pessoas por muitos anos e,
no entanto, nunca sequer dissera seus nomes ou os olhara nos
olhos.
E enquanto o observava, ocorreu-lhe que Rex estava usando
jeans e camiseta, e ela estava parada ao lado dele quase nua em
seu biquíni rosa-choque. De repente, desejou ter uma toalha, uma
saída de banho ou algo para se cobrir, o que era estranho,
considerando que se sentia confiante em sua pele e nunca tivera
muitos problemas em saber que os olhos estavam nela. Na verdade,
ela havia apreciado isso porque sabia que era uma grande parte do
motivo pelo qual fora aceita naquele grupo popular. Mas Rex... ele
a confundia de uma forma que ela não conseguia definir por si
mesma. De repente, ele pareceu... mais do que ela pensava que ele
era. Mais o quê, ela não sabia. E lá estava ela complicando seus
próprios pensamentos depois de ter acabado de lhe dizer que tinha
o hábito de simplificar demais.
Mas antes que Cami pudesse sequer pensar em como
responder, o olhar de Rex se moveu por cima do ombro dela. Ela se
virou e viu Hollis se aproximando, com seu calção de banho azul-
marinho e branco bem justo nos quadris estreitos e colado às coxas
musculosas. A água brilhava em seu abdômen definido e pingava
de seus peitorais bronzeados, e ele passou a mão pelos cabelos
escuros enquanto um sorriso radiante iluminava seu rosto bonito.
Ele nem sequer deu atenção a Rex antes de passar um braço
pela cintura de Cami, puxando-a para perto de si e agarrando uma
das nádegas enquanto plantava seus lábios nos dela num beijo
molhado.
— Quase não te vi aqui atrás. Estava te procurando, — disse
ele, afastando a cabeça dela.
— Você me encontrou.
Ele sorriu novamente. — Sim, encontrei. — Ele desdobrou o
braço, e ela deu um passo para trás, sentindo-se desequilibrada e
envergonhada pelo que pareceu uma demonstração pública de afeto
inapropriada na frente de Rex. Mas quando ela olhou para ele, ele
estava de pé, com o caderno ao lado do corpo.
— Vai embora tão cedo, Lowe? — perguntou Hollis.
— É, uh, preciso ir para casa. Obrigado por me receber. É
ótima... a
piscina. — Ele pigarreou. — Cami. Se cuida.
— Você também, Rex.
Rex se virou e começou a caminhar em direção ao portão, com
os ombros curvados para frente como de costume e as mãos
enfiadas nos bolsos da calça jeans larga.
— Aquele cara é meio esquisito, na minha opinião, — disse
Hollis, passando o dedo indicador pela barra do biquíni dela. —
Espero que ele não estivesse te incomodando.
Ela teve vontade de afastar a mão dele com um tapa, mas
sorriu.
— Ele não estava me incomodando nem um pouco. Só estava
sentado ali. E se você o acha estranho, por que convidá-lo para as
festas do time? Rex não era jogador de futebol americano, mas
conversava com o técnico sobre estatísticas e estava presente em
todos os treinos.
— Por pura bondade. Eu realmente não achei que ele fosse
aparecer. Ele nem tem carro.
Ela olhou para Hollis. Como seria gentil se ele estivesse
convidando Rex apenas como um gesto vazio, acreditando que o
cara não apareceria? — Então como ele chegou aqui? — Hollis sabia
que Rex não tinha carro e nem lhe oferecera carona?
— Não faço ideia. Mas não se sinta tão mal por ele. Eu estava
tentando dar a ele a oportunidade de seduzir as mulheres. O cara
provavelmente nunca transou na vida. Mas acho que uma olhada
na minha namorada de biquíni já é o suficiente para a minha lista
de espancamentos, e agora ele está indo para casa cuidar dos
negócios.
Ela o empurrou. — Isso é grosseria. Ele estava sendo
perfeitamente respeitoso.
Hollis ergueu uma sobrancelha. — Bem, não pretendo ser. —
Ele começou a acompanhá-la de volta na direção da casa da
piscina, e uma onda de náusea a dominou.
Ela forçou uma risada e o empurrou novamente enquanto ele
abaixava a cabeça para mordiscar sua orelha.
— Hollis, eu preciso ir, lembra? Prometi aos meus pais que
estaria em casa. Meu pai vai viajar para Nova York e vamos jantar
em família.
— Achei que você tivesse que sair às sete. Ainda temos trinta
minutos.
— Minha mãe mandou uma mensagem perguntando se eu
poderia passar na loja para pegar algo que ela esqueceu, — ela
mentiu.
Hollis levantou a cabeça e suspirou. — Você pode voltar mais
tarde? Me encontrar aqui na casa da piscina. Meus pais vão estar
em um evento hoje à noite. — Ele a puxou para si novamente e
beijou seu pescoço. — Eu preciso de você. — Ele esfregou os quadris
contra ela para mostrar o quanto.
Ela soltou um pequeno gemido. Apesar da náusea e da falta
de vontade, Hollis era bom com as mãos e a boca. E talvez seja por
isso que você está enjoada.
Cami se afastou, inclinou-se e lhe deu mais um beijo antes de
passar o polegar pelos lábios dele e sorrir lindamente.
— Te mando uma mensagem mais tarde.
Ela se virou e ele lhe deu um tapinha suave no traseiro
enquanto ela se afastava para pegar suas coisas em uma das
espreguiçadeiras perto da piscina.
Ela vestiu rapidamente um moletom e um short e saiu da
festa. Ao chegar à rua onde seu carro estava estacionado, olhou
para os dois lados do quarteirão em busca de Rex, mas ele não
estava em lugar nenhum.
CAPÍTULO DOIS
O teste de gravidez parecia pesar 23 quilos enquanto ela o
carregava até o caixa automático da farmácia, rezando para não ver
ninguém conhecido. Cami o envolveu com a mão para esconder a
embalagem o melhor que pôde, correu até o caixa e o examinou
rapidamente antes de colocá-lo em uma sacola. Então, pagou, com
a mão tremendo levemente enquanto passava o cartão do banco,
pegava o recibo e embalava o produto duas vezes.
Ela foi até os fundos da loja, onde havia um banheiro. A última
coisa que queria era carregar o teste para dentro de casa e depois
fazer xixi num palito enquanto a mãe estava lá embaixo cozinhando
macarrão. Ela pedia a Deus que fizesse o teste, visse que dava
negativo, jogasse o resultado debaixo de algumas toalhas de papel
no lixo público e voltasse a viver sua vida.
Por favor, por favor, por favor.
Cami entrou na baia e desdobrou as instruções com as mãos
trêmulas. Ela seguiu os passos descritos, xingando baixinho ao
urinar nos dedos. Mas ela tinha sujado bastante o palito, então o
embrulhou cuidadosamente, embrulhou-o de volta nos sacos
plásticos e saiu da baia para lavar as mãos enquanto esperava o
teste fazer efeito.
Enquanto passava o sabão, por algum motivo sua mente
retornou ao comentário que fizera a Rex Lowe. Ela lhe dissera que
tinha o hábito de simplificar as coisas, e ele perguntara o que ela
vinha simplificando ultimamente. Hollis os interrompera antes que
ela pudesse responder, mas, se tivesse respondido, o que teria dito?
Porque, apesar do jeito meio brincalhão com que ela o fizera,
pareceu uma das coisas mais verdadeiras que ela dissera em muito
tempo. Ela simplificava suas reações, suas opiniões e a maioria das
expressões de seu intelecto. Ela fazia isso porque era mais fácil se
encaixar assim. Pelo menos com a turma em que estava.
Não que ela se achasse mais inteligente do que qualquer um
deles. Na verdade, ela sabia que tinha que se esforçar muito mais
do que muitos para obter as notas que tirava. Não, não era intelecto.
Ela tinha a sensação de que todos estavam fingindo de uma forma
ou de outra. A maioria simplesmente não se importava com isso.
Como Hollis.
Será que ela saberia dizer algo assim para o Rex? Cami fechou
a torneira e pegou um papel-toalha do dispenser. Não,
provavelmente não. Era a primeira vez que ela realmente dizia isso
para si mesma.
A porta se abriu com estrondo enquanto ela secava as mãos,
e ela conteve um sobressalto quando uma das parceiras de bridge
de sua mãe, a Sra. Rolland, entrou.
— Cami! — ela deu uma risadinha. — Que bom te encontrar
aqui.
Cami sorriu e pegou a sacola com o teste de gravidez do
balcão.
— Oi, Sra. Rolland. Como vai?
— Ah, tudo bem. Passei para pegar a receita do Gerald antes
de ir para o Pilates. A Farrah estará lá hoje à noite?
— Não. Meu pai vai viajar a trabalho amanhã de manhã, então
vamos jantar hoje à noite. — Ela deixou a sacola ao lado e deu
alguns passos em direção à porta.
— Ah, boa viagem para ele, e diga a Farrah que a verei na
sexta-feira.
Cami abriu a porta. — Eu vou. Tchau.
Ela praticamente saiu voando da loja, entrou no carro e jogou
a sacola no banco do passageiro. Não fazia ideia se já tinham se
passado dez minutos, mas decidiu que, afinal, daria uma olhada
atrás da porta trancada do banheiro. Depois, guardaria o teste
negativo — de novo, se Deus quisesse — no fundo da bolsa e o
jogaria fora pela manhã.
Mas primeiro, ela precisava se acalmar. Ligou o rádio,
aumentou o volume, virou a cabeça para os ombros ao sair do
estacionamento e tomou um longo gole d'água do seu copo.
Tudo ia ficar bem. A náusea tinha passado e ela estava
realmente com fome. Seu estômago roncou ao imaginar um prato
fumegante de espaguete com almôndegas da mãe com um pedaço
crocante de pão de alho caseiro.
Ela estava simplesmente estressada. O estresse fazia todo tipo
de coisa estranha com o corpo feminino. Ela daria uma olhada no
teste quando chegasse em casa e depois desceria para o maior
jantar comemorativo que tivera em muito tempo.
O carro da mãe dela estava parado no lugar de sempre na
garagem, e ela parou atrás dele, pegou suas coisas e saiu do carro,
cantarolando a música que estava tocando alto no rádio enquanto
caminhava até a garagem e digitava o código.
Ela enfiou o teste de gravidez ensacado na bolsa de piscina
que carregava no ombro enquanto se dirigia à porta que dava para
o vestiário e a fechou. Cami entrou em casa e tirou os sapatos,
parando por um momento enquanto ouvia os sons da mãe na
cozinha. A ausência dos aromas de alho e manjericão que ela
esperava que a recebessem a fez franzir a testa, um arrepio
desconfortável arrepiando os pelos da nuca.
— Mãe? — ela chamou enquanto se movia em direção à porta
aberta do quarto que levava ao corredor da cozinha. — Elle?
Um corpo cruzou seu caminho, fazendo-a recuar e deixar cair
a bolsa. Seu grito se dissolveu em um arquejo confuso quando um
punho a atingiu no rosto. Ela mal percebeu que estava sendo pega
antes de cair no chão, a dor na bochecha tão intensa que a cegou.
— É isso aí, lindinha. Vi suas fotos na parede. Estava te
esperando.
Cami gemeu, conseguindo abrir os olhos só um pouquinho
quando um homem usando uma máscara médica a carregou para
além da cozinha. A névoa vermelha em seu cérebro se dissipou,
permitindo que ela se desse conta do que estava acontecendo, e
uma explosão de pânico percorreu seu corpo como lava. Ela gritou
contra a palma úmida do homem e então chutou para trás e bateu
a cabeça. Mas o homem apenas riu e apertou os braços em volta
dela com mais força.
— AJ, — ele chamou. — Temos uma que soca aqui. — Ele se
inclinou e lambeu a lateral do rosto dela enquanto a arrastava
escada acima. — Você gosta de se mexer, gostosinha? É, eu também
gosto de me mexer. — Ele riu novamente.
Os braços dele se soltaram e ele a jogou para frente, fazendo-
a cair de bruços com um baque de tirar o fôlego.
— Pegue a fita, — ela ouviu o homem dizer ao outro que ele
chamava de AJ. Cami levantou a cabeça e a virou levemente,
apenas vislumbrando cabelos pretos saindo do quarto enquanto o
homem com a fita se ajoelhava em suas costas e amarrava suas
mãos. Lágrimas quentes rolaram por suas bochechas e outro grito
se alojou em sua garganta quando ela levantou a cabeça novamente
e viu sua mãe e irmã sentadas contra a parede oposta, os olhos
vermelhos, fita adesiva cobrindo suas bocas.
— Mãe! — ela soluçou, lutando para se levantar. Mas o joelho
em suas costas a pressionou, fazendo-a gritar e cair no chão
novamente. Uma mão a envolveu pelo pescoço, segurando sua
cabeça firmemente enquanto um pedaço de fita adesiva era esticado
sobre sua boca. O homem se levantou, e ela tentou chutar para trás
novamente, mas ele se afastou e então a socou na nuca. Ela gemeu
quando os gritos abafados de sua mãe e irmã se intensificaram
atrás da fita. Então, um dos homens usou seu cabelo para puxar
sua cabeça para cima, e ela sentiu outro pedaço de fita sendo
pressionado sobre sua boca.
Ela caiu no chão, com o coração batendo forte de terror, a
adrenalina correndo por suas veias enquanto abria os olhos. Então,
ela, a mãe e a irmãzinha se entreolharam, horrorizadas e sem
palavras.
CAPÍTULO TRÊS
Cami se esforçou para recuperar o fôlego pelas narinas, a
intensidade do medo a deixando tonta. Sua mãe arregalou os olhos
marejados de lágrimas, assentindo em um gesto silencioso de
encorajamento enquanto observava a filha mais velha tentar se
acalmar. Pai. Onde está o pai? Ele ainda não estava em casa, mas
chegaria em breve. Será que o surpreenderiam como fizeram com
ela? Mas ele conseguiria lutar contra eles. Ele era mais forte. Será
que eles tinham armas? Ela achou ter sentido uma arma na cintura
do homem enquanto ele a carregava do vestiário escada acima, mas,
em seu estado de pânico, não tinha certeza.
Seus pensamentos irrompiam em todas as direções,
disparando tão rápido que ela mal conseguia segurá-los.
Os ombros de Elle tremiam com soluços silenciosos, e foi essa
visão que permitiu que Cami controlasse sua histeria. Ela encarou
Elle enquanto respirava pelo nariz, o que lhe permitiu passar pela
garganta, expandindo seu diafragma e diminuindo sua frequência
cardíaca infinitamente. Mas foi o suficiente para se recuperar, e nos
trinta segundos seguintes, enquanto cruzava os olhos com sua
irmãzinha, as vozes dos dois sequestradores soando um zumbido
baixo enquanto conversavam em algum lugar no corredor, ela se
acalmou o suficiente para que seus pensamentos se tornassem
coerentes.
Cami se endireitou e se aproximou da mãe e da irmã. As três
se juntaram, abraçando-se da única maneira possível, encostando
as cabeças nos ombros uma da outra e esfregando as bochechas.
Ela conseguia sentir o cheiro da mãe sob o forte odor de suor e
terror. Ela se confortava com isso porque era tudo o que tinha. Um
elo com a segurança. Com a normalidade.
Quando se separaram, ela encarou a mãe, esperando ler em
seus olhos o que Cami estava tentando transmitir: Vamos ficar bem.
Vamos sobreviver a isso. Qualquer outro resultado era inconcebível.
Todas ficaram tensas quando o som de passos se aproximou
do quarto principal onde estavam, e o homem que a surpreendera
no vestiário retornou. Ele tinha uma arma ao lado, confirmando que
tinha uma arma.
— O Sr. Cortlandt deve chegar em breve, então vamos ter que
garantir que nenhuma de vocês faça algo estúpido do qual todos
nós nos arrependeríamos.
Ela ouviu novamente os gritos abafados da mãe e da irmã e
olhou rapidamente para elas, vendo seus ombros tremerem
enquanto ele se aproximava. Cami voltou a focar o olhar no homem,
memorizando o que conseguia ver dele. Cerca de 1,80 m, cabelo
castanho ondulado, curto nas laterais e mais longo no topo,
penteado com gel, nariz pontudo e bochechas encovadas. Ele vestia
jeans e tênis azuis que pareciam ter saído direto de uma prateleira
de loja, e uma camisa polo verde com os vincos onde havia sido
dobrada ainda nítidos e óbvios. Se tivesse que chutar, diria que ele
tinha acabado de comprar a roupa hoje. Havia uma cicatriz na
ponta da sobrancelha direita e uma pinta logo abaixo da orelha
esquerda.
Mal posso esperar para te descrever para a polícia, seu babaca.
A máscara só esconde até certo ponto. E você nem está usando ela
sobre o nariz.
— Você, — disse ele, apontando para Elle. — Levante-se e
venha comigo.
Elle virou a cabeça para a mãe e escondeu o rosto enquanto
chorava. A mãe emitiu sons de protesto enquanto apelava para o
homem armado. Mas Cami percebeu pela expressão dele que ele
estava gostando da mendicância e ficando impaciente com isso.
— Levante-se! — gritou ele, assustando as três.
Cami deu um pulo, estendeu as mãos amarradas para ele e
pediu que a levasse em seu lugar.
— Sente-se, — disse ele, apontando a arma para ela e fazendo-
a dar um passo para trás. — Não vou machucar sua irmã. Só
precisamos separar vocês. Agora levante, — gritou ele, usando a
arma para gesticular para Elle.
A mãe, com lágrimas escorrendo pelo rosto, esfregou a
bochecha no cabelo de Elle e lhe deu um leve empurrão com o
ombro, dizendo-lhe com gestos para ir com ele. Obedecer. Como se
ela tivesse escolha. Como se qualquer uma delas tivesse.
Elle levantou a cabeça e então ficou trêmula, caminhando em
direção ao homem com a arma.
— Boa garota. Me mostre onde fica seu quarto, querida.
O coração de Cami continuava batendo como um bumbo, o
som do sangue pulsando em seus ouvidos e nublando seus
pensamentos. Calma. Calma. Você precisa manter a calma se quiser
sobreviver a isso. O pai delas estava voltando para casa. Mesmo
agora, ele poderia estar virando a esquina e entrando no bairro.
E esses homens sabiam. Mas como? Como sabiam? Será que
tinham vigiado a família com antecedência? Será que os tinham
visto chegar e partir? Teriam anotado seus horários?
Ah, papai. Por favor, Deus, faça com que ele perceba que algo
está errado. Não deixe esses homens o emboscarem.
— AJ? — ela ouviu o homem chamar do corredor onde acabara
de levar Elle. — Venha aqui e amarre essa pequena.
— Espere aí, Trig, — ela ouviu lá de baixo. — Acabei de
encontrar um cofre aqui no escritório.
— Esqueça o cofre por enquanto. Vamos pegar o código. Só
temos vinte minutos para prender essas mulheres. Traga o segundo
rolo de fita aqui.
Ela ouviu o som dos passos do homem chamado AJ na escada
e então ele e o homem chamado Trig murmuraram algumas
palavras um para o outro e então Trig voltou para o quarto.
— Você, — disse ele, apontando com a cabeça em direção a
Cami, — vamos lá agora.
Cami encontrou o olhar aterrorizado da mãe, assentiu
levemente e então ergueu os ombros, inspirando fundo pelas
narinas e expirando lentamente. Respire, mãe. Hiperventilar não vai
nos ajudar.
Cami se levantou e Trig a seguiu para fora do quarto, deixando
distância suficiente para atirar nela se ela tentasse se virar e atacá-
lo. — Vá para o seu quarto, — disse ele, e ela o fez, conduzindo-o
pelo corredor até o quarto dela.
A visão disso a fez querer chorar novamente. Seu espaço
seguro. O quarto onde dormira a vida toda. O lugar onde vinha
sonhar, dançar e chorar lágrimas purificadoras. A cama onde seus
pais a aconchegaram quando criança, e as paredes que sua mãe
havia amorosamente revestido com papel de parede...
Como ele ousa estar aqui? A raiva sufocou a vontade de chorar,
e ela ficou grata porque a raiva renovou suas forças.
Bigodes castanhos com um toque de vermelho misturado.
Uma cicatriz redonda de catapora na linha do cabelo, pequena
e perceptível apenas em certas condições de iluminação, como agora,
quando o sol da janela bate em seu rosto.
— Deite-se, — ordenou ele, acenando com a arma em direção
à cama dela. Os olhos dela se voltaram para ele, o medo queimando
suas terminações nervosas. Ele sorriu e, embora ela não
conseguisse ver sua boca, percebeu que era lenta e maliciosa. Mas
então ele balançou a cabeça. — Não estamos aqui para isso, — disse
ele, e algo dentro dela lhe dizia que ele estava mentindo, mas o que
ela podia fazer? Não tinha outra opção a não ser deixá-lo atirar nela.
Ela se sentou na cama, com as emoções em queda livre
novamente. Queria se esconder debaixo dos cobertores, como fazia
quando era pequena, sempre que um monstro aparecia num canto.
Ele sempre teria desaparecido quando ela emergisse, transformado
em um cabideiro ou desaparecido como uma sombra.
Mas mesmo em seu estado hiper emocional, ela era racional
demais para acreditar que esse monstro desapareceria tão
facilmente, se é que isso aconteceria.
Cami deitou-se, e ele rapidamente prendeu seus pulsos aos
postes da cama com várias camadas de fita adesiva. Ele não
amarrou seus pés, mas manteve a fita esticada sobre sua boca e
pressionada firmemente contra suas bochechas.
Ela respirou fundo uma vez, e depois outra. Ele saiu do
quarto, e Cami ouviu enquanto ele ajudava AJ a segurar Elle e,
provavelmente, a mãe delas, embora as únicas pistas que ela tinha
para se guiar fossem os estrondos e solavancos suaves e o rangido
das molas da cama no corredor, enquanto as duas mulheres eram
amarradas às suas próprias camas, assim como ela.
Os homens desceram as escadas pisando duro e, alguns
minutos depois, ela ouviu o carro do pai parando na garagem.
CAPÍTULO QUATRO
Rex levou três horas para voltar da mansão de Hollis Barclay,
a quase 24 quilômetros de distância, no opulento bairro de
Palisades Park. Ele sabia que ir à festa significava perder o ônibus,
mas era a primeira para qual fora convidado, então planejou
chamar um Uber depois de caminhar dois ou três quilômetros em
direção à sua casa, do outro lado da cidade. Mas ele tinha uma
energia fluindo por dentro, e queria se mexer, ficar perdido em sua
própria cabeça. E então ele caminhou, e três horas pareceram mais
trinta minutos, com o sorriso de Cami Cortlandt o acompanhando
durante todo o caminho para casa.
Você é o Rex, certo? Meu Deus, como aquelas cinco palavras o
fizeram se sentir o rei do mundo.
Tão ridículo.
Estúpido.
Patético.
E é verdade.
Ele sentiu mais do que isso — enquanto conversavam, ele
sentiu essa... conexão. Algo que ele nunca havia experimentado
antes, mesmo que não tivesse um referencial para descrever o que
era.
Havia uma boa chance, no entanto, de que tudo estivesse em
sua mente.
Um cara ainda pode sonhar.
Mas Rex não era estranho a sonhar com Cami. Ele vinha
sonhando com isso desde que se transferira para a escola de ensino
fundamental que ela frequentava e depois para a Academia
Westridge, graças a um programa governamental que buscava dar
a crianças pobres com ascendência minoritária e boas notas em
testes a chance de cursar as aulas de AP (Avançadas) não
disponíveis em suas escolas distritais. Ele avistou Cami pela
primeira vez do outro lado da sala de aula quando era um pré-
adolescente desajeitado. Foi só isso, foi só o que precisou: um olhar
para o perfil dela enquanto ela olhava pela janela para o irrigador
no gramado sul, que fazia arco-íris dançarem no ar da manhã.
Ele a vira sonhando acordada tantas vezes desde aquele
primeiro dia. Às vezes — embora nunca contasse a ninguém —
fantasiava que ela estava pensando nele.
Ela era legal com ele: sorria quando cruzavam no corredor;
segurava a porta quando estava na frente dele.
E, no entanto, hoje foi a primeira vez que ele disse uma palavra
a ela. E isso só porque ela praticamente tropeçou nele. Mas foi
aquela conversa de cinco minutos que selou o acordo para Rex.
Camille Cortlandt era uma linda sonhadora e era gentil com
pessoas com quem não precisava ser gentil. Mas ela também era
inteligente, engraçada e envolvente, e olhou para ele como se se
importasse com o que ele dissesse em troca. E ele nem tinha certeza
se estava feliz com a descoberta porque, embora uma coisa fosse ter
uma queda pela linda e intocável líder de torcida, outra coisa era
gostar dela. Dela. Não da imagem, não da fantasia dele, mas dela...
A porta de tela rangeu ao se fechar atrás dele quando ele
entrou no pequeno apartamento onde morava com a mãe. Estava
faminto, tanto pela caminhada quanto porque já tinha passado
muito do jantar. Ele teve vergonha de se aproximar da mesa de
comida e pegar um cachorro-quente na festa — sem mencionar que
vira o cara que estava grelhando os cachorros-quentes derrubá-los
no chão e pegá-los de volta na mesma hora.
Rex foi direto para a cozinha, abriu a geladeira e suspirou
enquanto examinava as escassas opções, finalmente tirando o leite.
Fechou a porta da geladeira com o pé e pegou uma caixa de cereal
do armário.
Ele ficou encostado na pia e colocou Frosted Flakes na boca,
sabendo que eram desprovidos de nutrientes. Hollis Barclay
provavelmente nunca colocaria algo tão prejudicial à saúde em seu
físico musculoso. Hollis Barclay, que podia colocar as mãos em
Cami sempre que quisesse.
Ele se virou e jogou a tigela na pia cheia de louça suja,
mastigando o último pedaço que de repente tinha gosto de serragem
adocicada.
— Lave sua louça.
Ele se virou e viu a mãe entrando na cozinha, acendendo um
cigarro ao entrar no cômodo.
— Oi, mãe.
— Olá, você. Onde você estava?
— Um dos jogadores de futebol estava dando uma festa na
casa dele e eu passei por lá.
A mãe dele deu um sorriso de lábios fechados e soprou a
fumaça pelo canto da boca.
— Ah, é? Tem alguma gatinha lá?
Ele abriu a torneira, começou a lavar a louça e a colocá-la no
escorredor ao lado da pia. — Claro.
A mãe dele se aproximou e se encostou no balcão ao lado dele,
cruzando um braço sobre a barriga, cigarro na outra mão, enquanto
se inclinava para trás para vê-lo melhor. — Conversou com alguma
delas?
— É, acho que sim. Era uma festa. — Ele não mencionou que
o único motivo de ter falado com alguém foi porque ela o descobriu
acidentalmente escondido atrás de uma planta.
A mãe deu outra tragada no cigarro. — Tá. Só para ter certeza.
— Ela estendeu a mão e beliscou a bochecha dele, e ele se esquivou.
Ela riu e se afastou do balcão. — Se ninguém em particular viu o
seu potencial ainda, elas vão ver.
Ele colocou um prato no escorredor e encheu uma panela que
parecia ter queimado o fundo. Rex suspirou enquanto usava um
pano de prato para secar as mãos. O comentário da mãe havia
sugado a energia que ele sentia percorrendo seu corpo desde a
conversa inesperada com Cami. A mãe achava que ele tinha
potencial. O que significava que até ela conseguia ver que, se ele
tivesse algum atributo digno de nota, seria em algum momento no
futuro.
Agora não.
Agora ele era praticamente um perdedor.
Ele olhou para o laptop fornecido pela escola sobre a mesa da
cozinha, onde estivera escrevendo sua redação para a faculdade.
Precisava ser ótima. Com isso e suas notas, ele tinha esperança de
entrar em uma de suas principais opções. Sua ascendência
indígena americana ajudaria a pagar por isso.
Seu orientador também havia sugerido que atividades
extracurriculares só poderiam ajudar, então Rex praticamente
implorou ao técnico de futebol por uma vaga no time como
estatístico. Ele sabia que não era necessariamente uma posição que
o time precisava, mas o técnico havia crescido no mesmo bairro que
Rex, e provavelmente era uma nomeação lamentável.
Independentemente do motivo pelo qual ele havia recebido a vaga,
era uma que ficaria ótima em sua inscrição para o curso de
matemática. E ele estava determinado a mostrar ao técnico o valor
de seu trabalho para o time.
Isso também significava que ele conseguia ver Cami quase
todos os dias depois da escola.
Apesar das áreas em que ele estava fossem diferentes, o futuro
se aproximava rapidamente e havia motivos para esperança.
A mãe dele apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa, e Rex
viu algumas pontas que ele sabia que eram da marca do seu avô.
— O vovô esteve aqui?
A mãe dele emitiu um som de desgosto. — Peguei um
dinheirinho emprestado com ele, e ele veio me deixar e me dar um
sermão enquanto fazia isso. Eu disse que não queria ouvir as
besteiras dele.
Talvez você precise. — Ele tem boas intenções, — disse Rex,
mesmo sabendo que era generoso. Seu avô sabia ser um velho
malvado quando queria. Ele também daria uma surra no Rex.
— Ele quer ser um velho rabugento. E, de qualquer forma, ele
não deveria falar. Você viu a casa dele? Parece uma selva.
— Acho que é de propósito.
— Aí está.
Seu avô trabalhava meio período na loja de ferragens para
complementar a previdência social. Quando as sementes de flores
expiravam, ele as pegava e jogava em sua propriedade.
Aparentemente, porém, a data de validade de um pacote de
sementes de flores nem sempre era precisa, porque seu quintal
havia se transformado em uma bagunça colorida que, àquela
altura, era preciso usar uma foice para atravessar. Rex certa vez
perguntou ao avô por que ele gostava tanto de flores, e o avô
respondeu que não gostava, mas as sementes eram de graça e não
era certo desperdiçar coisas de graça. Ele não estava exatamente
errado, mas, a julgar pelo estado de sua propriedade, talvez também
não estivesse totalmente certo.
A mãe dele se virou e foi até o armário, de onde tirou uma
garrafa nova de vodca e se serviu de um copo. Ele sentiu um aperto
no peito.
— Achei que você tinha parado de beber.
Ela emitiu um som de desdém com os lábios. — A vida é curta
demais para parar. Eu tenho que viver, sabia? — Ela piscou para
ele. — Além disso, tenho um encontro hoje à noite e estou um pouco
nervosa. Ele é financista, Rexy. Pense nisso. Eu poderia me casar
com um financista e nos mudar para uma casa chique em Palisades
Park. — Ela deu de ombros, e ele se virou para que ela não o visse
revirar os olhos.
Até parece. A simples ideia de eles se mudarem para o
Palisades Park era uma grande piada.
— Como estão indo suas inscrições? — ela perguntou.
— Mal comecei. Elas só devem chegar depois do Natal.
— Nunca é cedo demais para começar.
— Eu sempre fui muito esperto, mãe. — Se eu seguisse seu
conselho sobre administração de vida, eu seria um cara que
abandonou o ensino médio, trabalhando num emprego sem futuro,
esperando um babaca rico para casar. Mas ele não disse isso. Isso
a magoaria, mesmo sendo verdade. Porque era verdade. Seus
pensamentos o fizeram se sentir culpado, e ele sorriu. — Eu tenho
tudo sob controle.
— Eu sei que sim. Você deve ter a inteligência do seu pai,
porque eu sei que ainda tenho a minha. — Ela riu da própria piada,
deu-lhe um beijo na bochecha e saiu pulando da sala, com o copo
na mão. Rex balançou a cabeça em resposta, cansado. Ele podia ter
a inteligência do pai, mas não fazia ideia, e ela também não. Ela
nem sabia o nome do cara — só que ele tinha parado na Virgínia
tempo suficiente para tomar uns drinques e pegar uma das moças
locais antes de sair da cidade.
Rex sentou-se à mesa com um suspiro, olhando para o cigarro
apagado e meio fumado da mãe. Não se surpreendeu que ela
estivesse bebendo de novo. Sua “sobriedade” nunca durava muito.
E ele podia praticamente garantir que as coisas rapidamente
dariam errado com o financista de quem ela falava. Sempre davam.
Mas, enquanto isso, teria que lidar com o cara, que quase
certamente era seboso em vários aspectos. A mãe dele tinha um
tipo, e esse tipo incluía quantidades enormes de pomada e ética
questionável.
Ela era melhor do que todos os homens que vieram e
inevitavelmente partiram. Pena que ela era a única que não sabia
disso.
Rex bocejou. Mas ele teria que ficar acordado, agora que sabia
que sua mãe tinha um encontro. Ficaria acordado até ela chegar
em casa para ter certeza de que estava bem. E então a ajudaria a ir
para a cama, porque ela provavelmente estaria bêbada.
Rex abriu o laptop e começou a acessar o site da escola onde
o rascunho de sua redação estava salvo. Seu “potencial” estava lá,
e ele pretendia aproveitá-lo.
Ele colocou as mãos no teclado enquanto a música de sua mãe
começava a tocar alto no quarto dela — Gloria Gaynor atestando
melodicamente que ela sobreviveria.
Ele virou a cabeça por um momento e olhou pela janela para
o quintal, nada mais que um terreno de terra coberto de ervas
daninhas e cercado por uma curta cerca de arame.
Você é o Rex, certo?
Claro, ele faria o possível para garantir um futuro brilhante.
Mas não poderia também se aprimorar enquanto isso? Por que
esperar? Ele controlava o próprio destino, não é? Isso significava o
ano que vem, mas também significava o amanhã.
Ele imaginou Cami Cortlandt, o jeito como seu rosto se
iluminava e seus olhos brilhavam quando ela ria. E se perguntou o
que ela estaria fazendo naquele exato momento, sentado do outro
lado da cidade, olhando para seu quintal árido e imaginando o
sorriso dela.
CAPÍTULO CINCO
Cada músculo do corpo de Cami estava tenso de medo. Seu
coração batia forte enquanto ouvia a porta da garagem se abrindo
e o assobio distante do pai caminhando em direção à casa, onde
entraria no vestíbulo da mesma forma que ela.
Ela queria gritar de terror, avisá-lo, mas não tinha como fazer
nada além de esperar e rezar para que ele conseguisse lutar contra
os dois homens que ela sabia que estavam à espreita do outro lado
da porta.
Mas então ela teve uma ideia. Era o quarto de Elle que ficava
em cima do vestíbulo, não o dela, mas ela estava no fim do corredor
e talvez... Ela levantou a bunda do colchão e bateu com ele de novo,
repetindo o movimento para que a cama saísse do chão e depois
voltasse a cair no chão. Cami fez de novo, e de novo, com lágrimas
turvando sua visão e suor brotando por todo o corpo. Ela ouviu o
assobio do pai vacilar enquanto seus passos diminuíam, e ela
conteve um soluço que não tinha como escapar, com medo de correr
o risco de se sufocar. Mas seu pai tinha ouvido a comoção e, no
mínimo, talvez estivesse um pouco mais em guarda agora. Talvez
fosse isso que faria a diferença entre aqueles homens pegá-lo de
surpresa e ele suspeitar que algo estava errado.
De repente, Trig correu para o quarto, obviamente tendo
subido as escadas muito rápido e silenciosamente que ela não o
ouviu chegando. Ele voou em sua direção, jogando seu corpo sobre
o dela, de modo que seus movimentos pararam, a cama
permanecendo solidamente no chão. Oh Deus, eu não consigo
respirar. Eu não consigo respirar. O peito dele estava sobre o rosto
dela, seus braços apertados ao redor do corpo dela, e ela estava
impotente para se mover, lutando apenas para inspirar ar pelas
narinas. Tudo o que ela podia fazer era ouvir os passos do pai
recomeçarem antes que a porta do andar de baixo se abrisse. Então
seu corpo estremeceu quando ela o ouviu gritar de surpresa. Houve
uma briga alta e, apesar da falta de oxigênio, Cami gritou por trás
da mordaça, o som emergindo como um zumbido suave, abafado
ainda mais pela camisa de Trig.
Houve um último estrondo alto, e então todo o barulho cessou
lá de baixo. Em sua cabeça, Cami ainda gritava, embora tivesse
perdido a capacidade de forçar o ar para fora dos pulmões, o único
oxigênio sendo puxado para dentro de seu corpo por um pequeno
fio pelo nariz. Pontos escuros turvavam sua visão, expandindo-se e
se infiltrando uns nos outros. Mas então, de repente, o corpo de
Trig se afastou do dela, e ela inclinou a cabeça para trás, puxando
o máximo de ar que podia, a tinta se dissipando enquanto a luz
parecia explodir ao seu redor.
Ah, por favor. Por favor, deixe o outro monstro estar morto no
chão da cozinha. Mas se estivesse, o pai dela já não teria chamado
as duas? Trig atravessou o quarto lenta e silenciosamente até a
porta, inclinando-se para espiar o corredor e a escada, obviamente
sem querer chamar o nome de AJ e alertar o pai sobre sua presença
caso AJ estivesse de fato inconsciente.
— Trig? — a voz de AJ surgiu do andar de baixo, e aquele grito
ecoou na mente de Cami novamente. Lágrimas quentes escorriam
pelos cantos dos olhos e escorriam para os ouvidos enquanto Trig
soltava um suspiro profundo e saía do quarto. Oh, pai. Oh, pai. Seria
ele quem jazia morto no chão da cozinha? Ou será que tinham
acabado de nocauteá-lo, como fizeram com ela e provavelmente com
Elle e sua mãe também? Sua doce irmã e mãe, que ela sabia
estarem passando pela mesma devastação, amarradas em seus
quartos, chorando silenciosamente por trás dos lábios enfaixados.
Cami ouviu Trig e AJ conversando lá embaixo, mas não
conseguiu entender as palavras. Ela ouviu o som do que imaginou
ser um corpo sendo arrastado e, em seguida, as vozes deles mais
distantes, vindas do escritório no final do corredor, se ela as
estivesse acompanhando corretamente.
Poucos minutos depois, Trig voltou ao quarto. Ela se preparou
quando ele se moveu rapidamente em sua direção, levantando a
mão e lhe dando um tapa no rosto uma e outra vez. A dor explodiu
atrás de seu olho, e ela gemeu, pressionando-se contra o travesseiro
numa tentativa inútil de evitar outro golpe. Ele se inclinou para
perto e sussurrou em seu ouvido, com o hálito azedo e tingido com
o cheiro de fumaça de cigarro, mesmo através do papel fino da
máscara: — Se você fizer algo assim de novo, eu enfio uma bala na
sua linda cabeça, entendeu?
Cami assentiu, um movimento brusco que fez seu olho latejar
no local atingido. Seu estômago embrulhou e, por um momento, ela
temeu vomitar e que a fita adesiva a faria aspirar o próprio vômito.
Respire. Respire.
— Ótimo. O papai está bem cuidado. Ele não vai nos
incomodar, mas vai ouvir o que fizermos com as mulheres dele.
Afinal, é esse o ponto. — Ele riu enquanto tirava um celular do bolso
de trás e o abria antes de virá-lo para ela. Não. Oh, não. Agulhas
espetavam a parte inferior da pele dela. Era o pai dela, amarrado à
cadeira do escritório, com a boca tapada com fita adesiva, sangue
escorrendo pela bochecha de um corte acima do olho, a cabeça
pendendo sobre o ombro.
Trig guardou o celular e se afastou, e embora tenha visto a
máscara dele sendo puxada enquanto ele sorria, seus olhos
permaneceram maldosos. — Mas primeiro, estou com fome e um
homem precisa comer. — Então ele se virou e saiu do quarto dela.
Ela ficou ali deitada por vários minutos, os sons dos homens
vasculhando seus armários chegando até onde ela estava. Ouviu o
tilintar de cervejas e o som da porta do micro-ondas abrindo e
fechando. Tentou ouvir a mãe ou a irmã, mas não ouviu nada vindo
de nenhum dos quartos. Imaginou-as ali, amarradas às camas
como ela, aterrorizadas e ouvindo os barulhos lá de baixo.
Esperando para descobrir que horror aconteceria em seguida.
— Você viu aquela de legging? — ela ouviu um deles perguntar
ao outro lá de baixo. — Ela é gostosa pra caramba. — Cami sentiu
vômito no fundo da garganta. Ele estava se referindo à Elle. A Elle
de quatorze anos.
— Claro, se você gosta de chave de cadeia, — respondeu o
outro casualmente.
— Claro que sim. Faz tempo que não transo com uma virgem.
Não há nada como cavalgar uma virgem. Você já comeu uma cereja,
Trig? — O vômito subiu mais alto, e Cami engoliu.
Houve uma pausa, como se Trig estivesse mastigando. — Sim,
comi algumas cerejas. Mas prefiro a sensação de uma boceta
arrombada.
— Vadias ricas não têm bucetas arrombadas. Elas fazem
cirurgia pra essa merda.
O homem chamado Trig soltou uma gargalhada suave.
— Cara, você é tão estúpido quanto o inferno.
Cami respirou lenta e profundamente, a conversa
solidificando seu medo mais profundo. Aqueles homens não
estavam ali apenas para roubar seu dinheiro e joias. Eles
pretendiam levar muito mais do que isso.
O pai está inconsciente. Ele não pode te ajudar. E ninguém mais
vai voltar para casa. Você vai ter que tentar se ajudar. E depois a
mãe e a Elle. Ela só tinha duas opções: obedecer e torcer para que
eles pegassem o que queriam depois e fossem embora, ou tentar
encontrar um jeito de se libertar e lutar. A primeira opção
significaria suportar traumas ainda mais indizíveis do que já tinha,
mas ela não via nenhuma maneira de fazer a segunda opção
acontecer.
Um movimento no espelho sobre a cômoda do outro lado do
quarto chamou sua atenção. Ela podia ver a Sra. Willoughby em
seu quintal, podando suas rosas. Ela estava atrás de uma cerca que
separava suas propriedades e estava bloqueada pelos galhos de
uma árvore quando se movia para certos pontos. Mas ela estava lá,
tão perto.
E ainda assim tão distante.
Seu coração pulou e começou a bater forte, mesmo sabendo
que a Sra. Willoughby não conseguia vê-la onde estava deitada. E
ela também não veria Trig quando ele entrasse no quarto, contanto
que ele fosse direto até Cami, como fizera até então. Mas Cami
conseguia ver a Sra. Willoughby, e se ela tivesse um jeito de fazer
um sinal para ela...
Cami virou a cabeça para olhar para o criado-mudo ao seu
lado, bem ao lado da janela. Ela o havia afastado da cama para
poder acessar o cabo de energia e carregar o celular, e agora se
arrependia disso. Profundamente. Apenas um abajur, um
despertador e alguns livros estavam em cima, mas havia algo na
gaveta que ela talvez pudesse usar.
A gaveta, no entanto, poderia muito bem estar localizada em
outra cidade, pelo bem que isso lhe fez.
Seus olhos se voltaram novamente para o espelho à sua frente.
A Sra. Willoughby estava cuidando do jardim, mas provavelmente
não ficaria lá por muito tempo. Pense, pense.
Cami olhou para os pés desamarrados, imaginando uma
possibilidade improvável. Mas, por mais improvável que fosse, ela
não conseguia imaginar outra maneira. E seu tempo era limitado.
Ela tinha a sensação de que os monstros voltariam para o andar de
cima assim que terminassem de saquear a cozinha.
Cami tirou os tênis, parando quando um deles caiu no chão
com um baque surdo. Mas lá embaixo, um homem riu — AJ, ela
pensou — e Trig respondeu com um comentário. Cami voltou a se
concentrar na tarefa de usar cada pé alternadamente para tirar as
meias também.
Ela olhou novamente para a mesa de cabeceira e, em seguida,
se arrastou até a cabeceira o máximo que pôde, contorcendo o corpo
enquanto tentava alcançar a gaveta com o dedo do pé. A forma como
seus braços estavam amarrados, no entanto, limitava sua
mobilidade naquela direção, e assim, ao se aproximar, teria que
arrancar o braço do lugar se tivesse a chance de o dedo do pé bater
na maçaneta da gaveta.
Ela se deitou ereta e se arrastou o máximo que pôde na cama,
até que seus braços estivessem esticados acima da cabeça. Isso
poderia funcionar, mas colocaria sua flexibilidade à prova. Graças
a Deus pela torcida. Sem ela, ela nunca teria tentado isso.
Cami recuperou o fôlego, ergueu os quadris e usou a cama
embaixo dela para se empurrar para trás e alcançar a gaveta de
cabeça para baixo. Estava mais perto, mas não exatamente lá.
Ainda assim, recusou-se a desistir, mesmo que a posição
desconfortável lhe tirasse o ar limitado e a fizesse suar. Ela também
corria o risco de todo o seu peso cair sobre a cama e, se isso
acontecesse, poderia até arrancar seu ombro do lugar.
Seus músculos gritavam. Ela temia causar o próprio desmaio
com a maneira como dobrava o pescoço. Mas cerrou os dentes e
pressionou com mais força, a visão ficando turva quando o dedo do
pé tocou a maçaneta. Seus músculos tremiam agora, mas ela se
recusava a desistir. Estava quase lá. Enfiou o dedão do pé na
maçaneta e abriu a gaveta aos poucos, com o suor escorrendo pela
bochecha, como as lágrimas haviam feito antes.
Certo, certo. Isso é bom. Já chega. Seus músculos abdominais
tremeram, e os músculos da coluna e das costas se esticaram ao
limite enquanto ela cuidadosamente soltava o dedo do pé da
maçaneta, sabendo que, se o fizesse rápido demais, correria o risco
de levar o criado-mudo consigo, cujo som certamente faria os dois
demônios entrarem em seu quarto em segundos.
Com o dedo do pé livre, ela rolou lentamente para frente,
abaixando o corpo o mais suavemente possível.
Ela se deu até a contagem de dez para descansar e se orientar,
depois da tontura causada pela falta de oxigênio e pela postura de
cabeça para baixo. Então, mais uma vez, moveu as pernas para o
lado, usando a perna esquerda para alcançar o interior da gaveta
que, agora aberta, estava perto o suficiente para ser acessada.
O cheiro do que quer que tivessem aquecido no micro-ondas
subiu as escadas e fez seu estômago roncar de fome. Ela se sentiu
tão enjoada o dia todo que mal comera alguma coisa.
Mas ela deixou de lado todos os pensamentos sobre o enjoo
que vinha sentindo ultimamente e sua ida à farmácia. Não havia
espaço para isso, não agora.
Continuem comendo, seus gananciosos.
Ela sentiu a superfície lisa e fria do espelho compacto e
enrolou os dedos dos pés na borda, levantando-o lentamente. Mas
seus pés estavam tão úmidos que o espelho escorregou de seus
dedos, caindo de volta na gaveta com um tilintar. Cami congelou,
mas quando não havia nenhum sinal de que tinham ouvido o som
lá de baixo, ela jogou as pernas de volta na cama e secou o pé na
roupa de cama.
Do lado de fora da janela, a Sra. Willoughby ainda estava lá.
Fique, fique, não se mova. Por favor. Só resta um pouquinho de luz
do sol.
Cami balançou as pernas para o lado novamente, torcendo a
cintura o máximo que pôde e repetindo o movimento que acabara
de fazer para pegar o compacto. Agarrou-o com os dedos dos pés
novamente e, lentamente, levantou o pé da gaveta e aproximou as
pernas novamente, soltando os dedos do pequeno espelho quando
ele estava sobre a cama.
Caiu sobre a colcha, e Cami soltou um suspiro. Levou apenas
alguns segundos para ela se virar e fechar a gaveta para que os dois
homens não soubessem o que ela tinha feito.
Em seguida, ela usou os pés para abrir o fecho do compacto,
com o coração disparado após várias tentativas frustradas. Mas,
felizmente, estava frouxo o suficiente para que demorasse apenas
um minuto ou dois, e então Cami limpou as solas dos pés na roupa
de cama novamente e pegou o espelho com os pés, segurando-o
firmemente entre eles e inclinando-o em direção à janela do outro
lado, usando o espelho do outro lado do quarto como um espelho
visual.
Isso pode nem funcionar. Meu Deus, o ângulo pode ser todo...
O espelho refletiu a luz, que brilhou através da janela e
iluminou diretamente a Sra. Willoughby. A velha senhora apertou
os olhos e levantou a mão.
Sim, sim, sim! Cami deixou cair o pó compacto, que caiu de
volta na cama.
Não. Porra!
Ela pegou o espelho novamente, tentando desesperadamente
controlar a respiração e a frequência cardíaca, com a excitação e o
medo aumentando. Estava funcionando! Não me deixe falhar. Por
favor, veja isso e chame a polícia. Por favor, entenda. Ela usou o
espelho para piscar para a Sra. Willoughby novamente e observou
enquanto ela apertava os olhos, sua expressão demonstrando
aborrecimento.
Cami inclinou o espelho para um lado e depois para o outro,
tremendo, mas mantendo o olhar da Sra. Willoughby. Ela se
amaldiçoou por não saber código Morse. Mas mesmo que soubesse,
a Sra. Willoughby provavelmente não saberia, então que diferença
faria? Continue sinalizando. Faça-a pensar.
A idosa inclinou o pescoço e usou a mão como visor enquanto
olhava para a janela de Cami para ver o que estava acontecendo.
Cami inclinou o espelho para trás e depois para frente, suas pernas
começando a tremer novamente enquanto as mantinha no lugar.
Apesar de não saber código Morse, ela tentou piscar a luz de uma
forma que parecesse coordenada, em vez de aleatória. Ela esperava
desesperadamente que a Sra. Willoughby visse que era uma luz
piscante, uniformemente espaçada, controlada por uma pessoa.
Uma pessoa implorando por ajuda.
Por favor, funcione. Por favor, por favor, funcione.
CAPÍTULO SEIS
Os dois monstros tinham terminado o jantar. Ela os ouviu
subindo as escadas.
Cami fez uma prece silenciosa e então iluminou o espelho mais
uma vez, ouvindo passos logo ali na esquina. Ela abaixou os pés,
pretendendo esconder o espelho sob o cobertor aos pés da cama,
mas se moveu rápido demais e, ao soltar o pó compacto, ele
escorregou pela beirada da cama, perto da parede, aterrissando
silenciosamente no carpete.
Merda!
Exausta, ela relaxou os músculos e deitou-se.
— Preciso mijar, — disse Trig. — Elas provavelmente também.
Vamos levar nossas amigas bonitas ao banheiro feminino ou o quê?
— A pequena ali dentro nem se deu ao trabalho de pedir, —
ela ouviu AJ dizer. — Ela só molhou a cama. Discreta, um pouco
desanimadora, mas eu consigo superar. — Ele riu. Parecia solto,
como se o álcool o tivesse deixado tonto. Ah, Elle. Sua pobre,
inocente e sensível irmã estava tão apavorada que molhara a cama.
Ou talvez ela simplesmente não conseguisse se segurar. Um nó de
dor esmagou seu esterno. Elle, eu queria poder te confortar agora.
Ela ouviu enquanto cada um entrava no banheiro, um de cada
vez, e então Trig entrou no quarto, com as pálpebras ligeiramente
abaixadas. E ele não estava usando a máscara de papel. De alguma
forma, ela sabia que aquele pequeno deslize do seu “disfarce”
significava a ruína para elas. Não tinha nem mesmo funcionado
para esconder suas feições, mas talvez o tivesse levado a acreditar
que sim. Agora? Agora não era mais o caso. Ela tinha visto seu rosto
descoberto — o reconheceria se o visse novamente. Ele virou a
cerveja, esvaziou a garrafa e, em seguida, colocou a garrafa vazia
na cômoda dela, arrotando alto.
O olhar dele percorreu lentamente os pés descalços dela até
os sapatos e meias descartados no chão. — Tentando ficar mais
confortável? Se você estava pronta para se despir, deveria ter me
avisado. Ah, acho que não pode. — Ele riu. Tinha dentes pequenos,
quadrados e descoloridos. O corpo de Cami tremia. Sua mente não
parecia a sua. Parecia lotada e caótica, e ela estava com dificuldade
para acessar seus pensamentos por causa do clamor dentro de sua
cabeça.
Ele se aproximou, e ela se virou, sentindo a náusea revirar o
estômago.
— Ah, você cheira tão bem, docinho.
De repente, o toque de sua mãe soou lá embaixo, e Trig olhou
por cima do ombro. Ele fez uma pausa, e os olhos de Cami se
arregalaram enquanto o observava. Seus olhos se voltaram para o
espelho à sua frente e viram que a Sra. Willoughby havia sumido
do jardim.
Ela só conseguia se agarrar à esperança. Não sabia como
deixá-la morrer.
O telefone parou de tocar e, um segundo depois, começou de
novo. Trig xingou e saiu do quarto, e ela o ouviu descer. Então, ele
subiu e foi para o quarto principal, onde ela o ouviu perguntar à
mãe: — Fern Willoughby. Ela é um problema? Você não tinha
planos com ela nem nada para esta noite, tinha? Se mentir, eu
machuco suas filhas.
Ela mal ouviu a confirmação abafada da mãe de que não tinha
planos com a Sra. Willoughby. Os músculos de Cami se contraíram
com uma nova onda de esperança. A vizinha vira os clarões de luz
e agora ligava para a mãe para perguntar se estava tudo bem.
Eu te amo, Sra. Willoughby. Agora chame a polícia. Você está
vendo nossos carros na garagem, certo? Está verificando agora?
Claro, ela poderia pensar que o piscar não era nada, apenas o
reflexo de algo lá dentro que havia captado a luz. Talvez ela
imaginasse que sua mãe não estava atendendo o telefone porque
não queria ser incomodada, ou que não os tinha visto saindo com
outra pessoa, e eles não estavam em casa.
E mesmo essa dúvida poderia impedi-la de alertar as
autoridades, pelo menos com nada mais do que uma luz piscando
e o que poderia ser um instinto de que as coisas estavam estranhas
na casa ao lado.
Havia muitas possibilidades mais prováveis do que a de que
toda a família Cortlandt tivesse sido presa por psicopatas.
Por favor, seja curiosa, Sra. Willoughby. Venha nos ver. Ou será
que eles também a machucariam se ela aparecesse na porta deles?
Não, se aparecesse, o Sr. Willoughby saberia para onde sua esposa
tinha ido. Quando ela não voltasse, ele ligaria para alguém para ver
como ela estava. A menos que ele não estivesse em casa.
Os pensamentos de Cami iam em uma direção e depois em
outra, com sinos tocando dentro dela como se seu cérebro fosse
uma máquina de pinball.
Mas o telefone estava mudo agora, e não havia ninguém na
porta. Os dois homens que as torturavam não sabiam que a mulher
que ligava para o telefone da mãe dela estava na casa ao lado, mas
isso não os ajudaria de qualquer maneira se ela tivesse voltado para
trás de suas paredes.
O olhar de Cami se voltou para o espelho, de onde ela podia
ver o jardim vazio da Sra. Willoughby. O sol estava quase se pondo,
o céu cobalto cortado por faixas douradas. Por um momento, ela
estava lá, livre, flutuando entre as nuvens, solta.
E então Trig retornou, fechou a persiana e escondeu o céu. Ele
ficou parado acima dela, seus olhos percorrendo seu corpo e depois
voltando para seu rosto. Ela sentiu aquele olhar. Era gorduroso e
fétido, assim como ele. Então ele enfiou a mão no bolso e tirou um
pequeno envelope branco. O pulso de Cami disparou e ela balançou
a cabeça. Não, não, não. Por favor, não.
— Shh, — disse ele, e ela inclinou a cabeça, observando
enquanto ele despejava a substância em sua mesa de cabeceira e,
em seguida, a colocava na parte externa do envelope e o enrolava.
Ela balançou a cabeça novamente quando ele se virou para ela. —
Eu ia guardar isso para mais tarde. Para depois de tudo isso. Mas
por que interromper a festa agora? Vamos lá. Isso vai melhorar para
você. Confie em mim. — Ele se abaixou e usou uma das mãos para
segurar seu pescoço e enfiou o canudo em sua narina direita e,
antes que ela pudesse se mover um centímetro, ele soltou sua
garganta e estendeu a mão e pressionou sua narina esquerda. Ela
inalou profundamente, a ardência dos produtos químicos fazendo
seus olhos arderem. Ela assoou o nariz, mas só conseguiu espirrar
ranho no queixo.
Trig riu baixinho, usou o lençol para limpar o rosto e, em
seguida, despejou mais um pouco do pó na mesa de cabeceira,
curvou-se e inalou. — É isso aí, — disse ele, inclinando a cabeça
para trás. — Que legal. Vou ser legal, Cami. Vou ser muito legal.
Ele sabia o nome dela. Como ele sabia o nome dela? Onde ele
o tinha visto? Uma dúzia de lugares na casa, talvez... no calendário
da família ou em uma correspondência. Ela odiava que ele tivesse
dito aquilo. Parecia mais uma violação. Ela não o havia dito a ele.
Ele o havia pegado.
Ele desabotoou a calça jeans e se ajoelhou na cama,
segurando-se nos braços, e Cami fechou os olhos e desabou, mesmo
com as lágrimas escorrendo. As drogas facilitaram o
desaparecimento. Seus pensamentos se turvaram ao atingirem seu
sistema, com o sangue quente correndo sob sua pele.
Ela ouviu os globos oculares se movendo por trás das
pálpebras e sentiu penas fazendo cócegas em seus ossos. Estava
entorpecida e distante, e sabia que se importava, mesmo sem
conseguir entender o porquê. E as drogas melhoraram as coisas
para ela, embora ela entendesse que não tinham sido dadas como
um ato de gentileza, mas como mais uma forma de controlá-la. Ela
entendia isso, e ainda assim os sentimentos ligados ao
conhecimento flutuavam atrás de uma nuvem tênue, separados.
Ela conseguia ver seus contornos, mas os detalhes estavam
obscurecidos.
Ela fingiu estar flutuando, movendo-se pelo teto do quarto, e
isso funcionou por um tempo, mas então a nuvem se dispersou,
flutuando em restos opacos, e ela viu o que estava tentando fingir
que não estava lá. Observou a garota presa sob o homem que se
contorcia e arfava. Ouviu enquanto ele xingava a garota e a
rebaixava de maneiras que Cami prometeu esquecer.
O quarto ficou escuro, e isso o tornava cada vez melhor e pior.
Os produtos químicos dentro dela começaram a corroer seu
cérebro, formas se movendo e se transformando na escuridão, ao
redor dela, sobre ela. Os monstros que ela temera a vida toda
haviam saído de seus esconderijos e a estavam devorando viva. Mas
não apenas seu corpo, sua alma. Ela assistiu a tudo acontecer e
não pôde fazer nada além de sobreviver. E era melhor do que nada,
mas apenas por pouco.
Ela viu a sombra do outro homem perto da porta, com os
ombros curvados para frente, o telefone na frente do rosto enquanto
gravava o tormento dela. AJ. Ela ainda não tinha visto o rosto dele.
O riso dele a feria tanto quanto a invasão do seu corpo, e ela lutava
para se manter distante da garota atacada enquanto testemunhava
tamanha maldade casual.
— Não aponte para mim, idiota, — Trig ofegou.
— Não estou. Depressa. É a minha vez. — Suas vozes estavam
arrastadas e horríveis, seus olhos brilhavam vermelhos.
Ela não conseguia falar. Só conseguia suportar o que faziam
com ela. Ela não passava de um corpo, um receptáculo para eles
usarem, presa dentro da própria pele. Sem voz. Sem poder implorar
ou perguntar por quê. Uma ninguém sem voz. E jurou, em algum
lugar lá no fundo, que só acessou mais tarde, que se sobrevivesse,
nunca mais deixaria ninguém roubar sua voz.
Eles a deixaram quando Trig terminou. Mas o pior ainda
estava por vir, porque em seguida visitaram sua irmã. Ela se chocou
contra seu corpo dolorido e contaminado e sofreu a pior tortura de
todas enquanto os ouvia fazer com Elle a mesma coisa que tinham
acabado de fazer com ela. As drogas que lhe deram não fizeram
nada para aliviar o sofrimento.
Um grito distante ecoou em sua cabeça, um lamento
incessante que ela sabia que, não importa o que acontecesse,
sempre surgiria dentro dela quando se lembrasse daquele
momento. E como ela poderia esquecer?
Ela sentiu vagamente o cheiro da maconha que eles fumaram
depois na cozinha, onde eles novamente abriram garrafas de cerveja
e as brindaram enquanto ficavam chapados e se parabenizavam
pelo trabalho bem feito lá em cima e então riram, xingaram um ao
outro e incentivaram o outro, então eles voltaram e fizeram tudo de
novo.
Para ela, para Elle e para a mãe deles. A linda mãe delas, que
sempre esteve com o pai delas. Sua namorada da faculdade, a mãe
das suas filhas, o amor da sua vida.
Estavam mostrando a ele os vídeos da prisão do seu escritório
— Cami deduziu isso da conversa na cozinha. Seu coração batia
oco, o nó de dor e horror alojado em seu peito, pressionando o órgão
a ponto de mal conseguir bombear oxigênio pelo seu sangue. Uma
massa que jamais seria extirpada.
Ela se perguntou então se queria continuar vivendo e não
conseguiu descobrir a resposta.
E continuou. E continuou. E então, em algum momento, Trig
deitou-se ao lado dela, fumou outro baseado e começou a falar. Ele
parecia relaxado, a voz levemente arrastada. A cabeça dela latejava
e o corpo doía. Ele reclamou do preço da gasolina e de um cara
chamado Joe que o havia menosprezado. Chamou o pai de babaca
e a mãe de vagabunda. Ela catalogou cada detalhe, os pequenos
detalhes dele mais uma vez reforçando sua determinação de viver.
E conforme a voz dele ficava sonolenta, enquanto ele começava a
roncar ao lado dela, Cami aprendeu a odiar. Pela primeira vez na
vida, ela entendeu a verdadeira raiva.
E isso clareou sua mente do último narcótico que lhe fora
imposto. Clareou sua mente do medo caótico e avassalador. A raiva
escaldava a desesperança e o desespero, mesmo que apenas
temporariamente. Mesmo que apenas o suficiente para fazer o frágil
voto de viver.
CAPÍTULO SETE
A escuridão se dissipou e a primeira luz suave surgiu. Cami
abriu os olhos inchados, surpresa por ter dormido. Ela não queria.
Jurara ficar acordada caso surgisse uma oportunidade de escapar,
mas seu corpo havia anulado suas intenções.
Ela se mexeu e gritou sob a fita que cobria sua boca, enquanto
cada músculo do seu corpo gritava de agonia. Ela doía por dentro e
por fora, em lugares nos quais não queria pensar, para que as
visões do que havia sofrido na noite anterior não invadissem sua
mente e a deixassem louca.
Se é que já não estava. Ela se sentia quase fora de si. Talvez
não houvesse quase nada de errado nisso.
Ela ouviu barulhos lá embaixo, o burburinho de conversas, e
seu coração apertou. Eles ainda estavam lá. Oh, Deus, por quê? Por
que eles ainda estavam lá? Eles os haviam roubado de tudo o que
tinham para dar.
É sábado, Cami. O pai dela deveria ter viajado a trabalho, mas
a reunião só começaria na segunda-feira. Ninguém sentirá falta dele
até lá. Ninguém sentirá falta de nenhum de vocês.
Oh, Deus, não. Ela não conseguiria sobreviver a mais vinte e
quatro horas daquilo. Seu corpo estava em carne viva. Ela tinha
urinado na cama de desespero, estava suja de todas as formas
possíveis e ainda estava à mercê de monstros.
Algo lhe chamou a atenção, e ela desviou o olhar
completamente para o lado, com o olho dolorido latejando. Parecia
que um canto da fita que cobria sua boca havia se soltado um
pouquinho. De pouco adiantava, sem mãos disponíveis. E mesmo
que conseguisse tirá-la, o que faria? Eles a atacariam num piscar
de olhos se começasse a gritar. Era cedo demais para a Sra.
Willoughby estar em seu quintal. A maior parte do mundo dormia
— mal passava do amanhecer.
Ela se inclinou, fazendo uma careta ao sentir os múltiplos
pontos de dor na cabeça, no pescoço e nos ombros. Seus braços
estavam dormentes por estarem presos na mesma posição por tanto
tempo. Ela não queria olhar para a parte inferior do corpo, mas se
forçou a olhar. Suas pernas estavam abertas e ela estava apenas de
calcinha. Apesar da dor interna e externa, ela parecia normal vista
de fora. O que ela esperava ver? Não tinha certeza. Tudo o que sabia
era que se sentia mudada de uma forma que deveria ser visível. O
fato de não ser ao mesmo tempo a aliviava e a deixava em pânico.
Não parecia certo que alguém pudesse causar tanta dor invisível a
outra.
Quando um pequeno tilintar soou perto da parede, Cami
congelou no ato de levantar a coxa para juntar as pernas. O que foi
isso? Lenta e cuidadosamente, ela se ergueu, piscando para ver de
onde vinha o ruído minúsculo. Meu Deus. Ela viu a ponta do pó
compacto que usara para tentar chamar a Sra. Willoughby. Não
havia caído completamente no chão — estava preso na colcha, onde
ela não conseguia vê-lo de uma posição completamente deitada.
Sua respiração ficou mais rápida enquanto seu coração disparava.
Devia ter ficado ali a noite toda, e ela não percebeu. Se não
tivesse se mexido apesar de Trig subir e descer da cama,
provavelmente estava bem estável dentro das dobras da colcha, mas
Cami precisava acessá-lo agora. Era tudo o que ela tinha.
Ela ouviu as vozes de Trig e AJ com mais clareza agora,
enquanto se dirigiam para a sala de café da manhã. Pareciam
ansiosos, com vozes mais ásperas e concisas. A versão doentia que
eles tinham de festejar a noite toda obviamente os deixara mal.
Canalhas. Ela começou a se arrastar na cama, esticando o pé para
o espelho.
— Não deveríamos ter deixado isso ir tão longe.
— Droga, isso foi por sua causa. Eu disse que tínhamos que
ficar atentos, e você traz pólvora.
— Foda-se. Você também queria.
— Eles viram nossos rostos.
— É, sem brincadeira. Isso é foda. E agora temos que
consertar.
— Pense, pense, pense, — disse um deles, e houve um baque
suave e repetitivo, como se quem tivesse proferido as palavras
estivesse batendo a cabeça em uma superfície.
— Vamos ter que fazer com que eles não possam falar, — disse
o outro.
Ela não conseguia distinguir as vozes deles agora — se era
porque sua cabeça estava latejando ou se ambas tinham a mesma
qualidade rouca e de ressaca, ela não sabia.
Ela tirou o pé da lateral da cama, prendendo a respiração ao
abaixar o dedo e tocar o pó compacto. Era muito arriscado tentar
pegá-lo com os dedos dali, principalmente porque não tinha um
bom ângulo para ver exatamente o que estava fazendo. Em vez
disso, dobrou a perna e deslizou o pé pela parede em frente ao pó
compacto para poder sair de baixo dele, na esperança de usar a
colcha para mantê-lo firme enquanto o levantava.
Ela se movia lentamente, apesar da escalada da luta. Ou talvez
por causa dela. Eles estavam obviamente arrependidos agora que o
sol estava nascendo e a realidade — e a sobriedade — havia se
manifestado. Seja lá o que os dois monstros lá embaixo tivessem
planejado, eles não conseguiram cumprir, e agora estavam bolando
um plano B.
E se eles não tivessem fugido no carro com o escapamento
barulhento que ela os ouvira entrar na garagem na noite anterior,
então sua família ainda faria parte do que quer que acontecesse a
seguir.
Ela conseguiu abaixar o pé entre a cama e a parede, e agora o
esticava lentamente e começava a levantá-lo. A colcha se moveu e
ela ouviu o pó compacto raspar levemente contra a parede
novamente. Ela fez uma pausa, com a respiração ofegante. Então,
com uma expiração lenta, começou a levantar a perna novamente,
um milímetro de cada vez, até que o pó compacto aparecesse.
Cami inclinou o pé, o compacto se movendo levemente até ficar
encostado na lateral da cama. Devagar e sempre se vence a corrida.
Você consegue. Sua perna tremia, mas ainda assim ela se movia o
mais lenta e precisamente possível para não perder a preciosa
ferramenta. Ela o levantou alto o suficiente e então, com um rápido
movimento lateral, chutou levemente por baixo do compacto,
fazendo-o pousar na lateral da cama. A fita puxou a pele de seus
pulsos dolorosamente, e ela fez uma careta.
E agora?
Ela precisava quebrar o espelho dentro do estojo compacto.
Deixá-lo afiado.
Ele tem uma arma. Você não pode nem segurar uma arma com
as mãos imobilizadas, muito menos usá-la.
Ela olhou para o lado novamente e olhou para aquele pequeno
canto levantado da fita. Então, ela enfiou o compacto sob uma
dobra da colcha com o dedo do pé, caso eles voltassem para o quarto
e se deitassem de novo. Cami virou a cabeça para o lado e começou
a esfregar a bochecha sobre o travesseiro, em um esforço para
remover mais fita. Ela girou a cabeça cada vez mais rápido,
levantando a bochecha ligeiramente para expor o máximo possível
da superfície pegajosa à fronha. Ela cerrou os dentes quando a fita
saiu de sua pele, levando a camada superior com ela. Eu não me
importo. Eu não me importo. Isso a fez trabalhar mais e mais rápido,
sua cabeça girando com o esforço. De todas as suas feridas, esta
era bem-vinda. Esta ela controlava.
Lenta e dolorosamente, a fita se soltou e a tensão diminuiu até
que ela finalmente conseguiu usar a língua para soltá-la da boca.
Com um último rasgo que arrancou a maior parte da pele do lábio
inferior, a fita caiu e Cami abriu bem a boca e engoliu o primeiro
suspiro de ar que havia respirado profundamente desde o dia
anterior.
Por vários segundos, ela se permitiu inspirar o oxigênio que
enchia seus pulmões completamente, ouvindo os dois homens
continuarem a discutir lá embaixo. Ela conseguia ouvir os sons do
que presumiu serem eles carregando o carro na garagem com suas
coisas. Eles quase certamente tinham obtido a combinação do cofre
com sua mãe ou seu pai e o arrombado, e quem sabe o que mais
estavam guardando no porta-malas.
Ótimo. Continue pegando cada item que puder. Dê-me o tempo
que preciso para me libertar. Aquele ódio ressurgiu dentro dela, e a
fúria absoluta lhe deu a coragem para continuar tentando.
Cami enfiou o pé sob as dobras da colcha e pegou o estojo
compacto com os dedos. Então, aproximou-o do quadril e usou o
corpo para movê-lo para o local que achou melhor antes de levantar
o quadril e abaixá-lo diretamente sobre o pequeno espelho
embutido. Devido à flexibilidade do colchão, foram necessárias três
tentativas antes de ouvir o pequeno estalo lá dentro. Sim.
Mais alguns passos.
E depois? Mesmo que você se liberte, precisará de uma arma
melhor do que um pedacinho de vidro.
Enquanto se esforçava para levar o pó compacto até a boca,
empurrando-o com o corpo, sua mente acelerou. Seu pai tinha uma
arma que guardava escondida no fundo da gaveta da cômoda. Ela
a vira alguns anos antes, quando fora procurar uma camiseta velha
que pudesse cortar como parte de uma fantasia de Halloween. Foi
como se tivesse encontrado uma cobra inesperadamente. Ela deu
um pulo para trás, fechou a gaveta e nunca mencionou o ocorrido.
O pai dela era um juiz que devia ter inimigos, ou pelo menos
pessoas que sentiam ressentimento por ele. Fazia sentido que ele
tivesse uma arma para proteger a família, mesmo que não quisesse
preocupá-las alertando as filhas sobre a presença dela.
Eles viram nossos rostos.
É, sem brincadeira. Isso é foda.
E agora temos que consertar isso.
Ela não tinha ideia se a arma ainda estava lá, ou se estava
carregada. E ela nunca tinha disparado uma arma antes. Mesmo
assim, era o que ela buscaria primeiro.
Depois de empurrar o pó compacto para cima o suficiente, ela
dobrou o pescoço, forçando as amarras nos pulsos enquanto o
agarrava com os dentes e, em seguida, levantou a cabeça e colocou
o pequeno item ao lado dela no travesseiro. Ela se virou para ele e
usou os dentes para segurá-lo enquanto trabalhava no pequeno
fecho com a língua. Vamos, vamos, ela cantava em sua cabeça
enquanto se atrapalhava com aquela coisa estúpida, facilmente
aberta com os dedos, mas aparentemente impossível com a boca. A
superfície instável não ajudou, e uma gota de suor escorreu pela
lateral de sua testa enquanto ela se esforçava, considerando se
deveria mover o pó compacto de volta para baixo da cama e
trabalhar nele com os pés como fizera antes. Lá embaixo, a porta
do vestiário se abriu e depois fechou e abriu novamente. Apenas
vão embora. Deixe-nos aqui. Por favor.
O fecho se abriu e Cami soltou um pequeno gemido de vitória,
virando a cabeça o máximo possível para poder ver o vidro quebrado
lá dentro. Estava rachado ao meio, o que foi outro pequeno triunfo,
pois teria sido inútil se tivesse se estilhaçado em cem lascas. Ela
usou a língua novamente para levantar o vidro quebrado, o que foi
mais fácil do que abrir o fecho, já que estava preso apenas com um
pingo de cola. Os dois pedaços caíram em seu travesseiro.
Ela não perdeu tempo. Pegou o pedaço mais afiado com os
dentes e, em seguida, ajustou o corpo e esticou o pescoço para que
sua boca encostasse na fita adesiva em seu pulso. E então começou
a serrar. Para frente, para trás, para frente, para trás. Ela mal
sentiu os pequenos cortes na língua e nos lábios, mas sentiu o gosto
do sangue. Mas isso não a impediu. Ela nem diminuiu o ritmo.
Rápido, mas não tão rápido que você deixe a peça cair através
das barras de ferro forjado da cabeceira.
Devagar e sempre se vence a corrida. Devagar e sempre se
vence a corrida.
Ela ouviu o que parecia ser o porta-malas batendo na
garagem, e então os passos pesados deles enquanto voltavam para
o vestíbulo, a porta abrindo e fechando atrás deles. Para frente, para
trás, para frente, para trás.
Eles caminharam pela cozinha, ainda conversando, mas Cami
só conseguiu entender algumas palavras, concentrada no trabalho.
Ela não pararia até que fosse necessário.
—... sem escolha... seja homem, seu idiota.
— Em algum lugar distante... não me inscrevi para...
O vidro quebrado cortou a borda da fita, e ela acelerou, quase
deixando a ferramenta cair e diminuindo a velocidade novamente,
cada músculo do seu corpo traumatizado gritando de dor, seu
espírito lutando em direção à liberdade que estava — literalmente
— ao seu alcance.
Eles pararam e começaram a discutir novamente. Um deles
parecia estar chorando, com a voz chorosa e bajuladora. — Eu não
consigo, Trig. Você precisa.
— Vai se foder, cara. Tenho que fazer tudo. Ótimo.
A fita cedeu e seu pulso se soltou, o peso morto do braço se
dissipou enquanto ela respirava fundo e se esforçava para erguê-lo
novamente e segurá-lo próximo ao poste ao qual estava amarrado,
de modo que parecesse que ainda estava. Meu Deus, funcionou.
Funcionou mesmo. Ela lambeu o sangue dos lábios enquanto
deixava o caco de vidro cair no colchão, embaixo do travesseiro.
Então, ela arrastou o travesseiro levemente para cobrir o caco e
respirou fundo antes de pressionar o rosto contra o travesseiro para
colar a fita na bochecha da melhor forma possível, com o pouco
resíduo de cola que ainda restava.
E então ela fingiu dormir enquanto os monstros se
aproximavam.
CAPÍTULO OITO
Os passos deles diminuíram na porta do quarto, e ela sentiu
alguém olhando para dentro. Prendeu a respiração, o corpo
tremendo. Jurou que conseguia sentir a escuridão deles como uma
mudança de energia ou uma queda repentina de temperatura.
Teremos que fazer com que eles não possam falar.
Ela não sabia exatamente o que aquilo significava, mas sabia
que não era bom. Iriam levá-los consigo quando fossem embora?
Obrigá-los a entrar no carro e levá-los para um local secundário?
Algum armazém ou porão onde nunca seriam encontrados? Matá-
los? Seus pensamentos se dispersaram novamente, o medo
tomando conta do foco que ela havia conquistado enquanto lutava
para se libertar.
— Comece pela mãe, — disse o que estava chorando lá
embaixo. — É a coisa certa a se fazer.
A palavra não fazia sentido, não vinha da boca de um dos
homens que passaram a noite abusando e torturando-as. AJ e Trig
saíram do quarto dela, e ela esfregou a fita adesiva na boca,
levantou a cabeça, abaixou-se e recuperou o pedaço de vidro sob a
borda do travesseiro. Comece com a mãe. Comece com a mãe. As
palavras ecoavam em suas terminações nervosas, a insinuação tão
horripilante que ameaçava fazê-la girar.
O braço que ela havia libertado ainda estava praticamente
inútil. Ela o abaixou e o sangue começou a correr novamente por
suas veias, a dor tão intensa que ela quase soluçou. Seria
desajeitado e descoordenado, na melhor das hipóteses. Estava livre,
mas ainda não servia para ela agora. Ela se virou e começou a serrar
a fita adesiva no outro pulso com o pedaço de vidro entre os dentes,
acelerando o passo apesar do risco.
O som de um tiro abafado quase fez seu coração explodir no
peito, e ela mordeu a língua para não gritar alto, deixando cair o
pedaço de vidro atrás da cama.
Mãe! Mãe! Meu Deus, mãe!
— Não era para ser assim, — repetiu o homem no final do
corredor, com a voz rouca e aguda.
Vou buscar ajuda para você, mãe. Espere. Espere.
Ela cerrou os dentes e levantou o braço inerte com esforço.
Ainda era quase um peso morto, mas era tudo o que tinha.
Começou a tentar pegar o segundo pedaço de vidro, mas mudou de
ideia e, em vez disso, usou os dedos trêmulos e desajeitados para
puxar a borda da fita, puxando-a o suficiente para agarrá-la com o
punho. Então, puxou com toda a força.
Ela ouviu um tumulto no corredor e soluçou, com lágrimas
escorrendo pelo rosto e queimando as bochechas em carne viva.
Elle lutava da única maneira que podia. Chutava e se esforçava
para se livrar das amarras. Estou indo, Elle. Continue lutando.
Ela os ouviu murmurando, mas não conseguiu entender as
palavras. Arrancou a fita, a cama batendo no chão, e se eles
ouviram, devem ter pensado que ela estava tentando se comunicar
com a irmã. E ela pedia a Deus que estivesse fazendo isso também.
Que a cada pancada e pancada, Elle se lembrasse de que Cami
estava ali com ela. Ela não estava sozinha.
A fita estava frouxa agora, esticada o suficiente para que ela
se contorcesse e desvencilhasse a mão, puxando com tanta força
que a pele do pulso se rasgou como a do rosto. Ela mal sentiu, um
tiro a fez gritar enquanto rolava para o chão, com os braços
balançando junto. Cami se levantou de um salto e correu para a
porta, contornando a curva, os pés silenciosamente no carpete
felpudo.
Eles ainda não tinham saído do quarto de Elle, mas logo
estariam indo para o quarto de Cami. Arma, arma, arma. Pegue a
arma. Ela ofegava, a fita ainda pendurada em um lado do rosto,
enquanto corria para o quarto principal com pernas que mal
funcionavam, mas que conseguiram levá-la até lá.
Sua mãe estava deitada na cama, com o peito encharcado de
sangue, um travesseiro com um buraco queimado no meio jogado
ao lado dela. Cami virou a cabeça e pressionou a boca contra o
próprio ombro para não gritar. Pegue a arma, pegue a arma.
Ela se virou para o armário e correu em direção à cômoda do
pai, ajoelhando-se enquanto levantava o braço que parecia pesar
23 quilos e abria a gaveta. Ela os ouviu caminhando pelo corredor
em direção ao seu quarto.
Cami empurrou as camisas do pai para o lado, e o cheiro do
seu protetor de longa data quase a fez chorar. Agora é com você.
Ela ouviu os homens xingando violentamente ao descobrirem
que ela havia escapado, ouviu-os saindo correndo do quarto. Ela se
esforçou para pegar a arma, seus braços mal se movendo. Pareciam
borracha inútil, mesmo com lâminas quentes a perfurando
impiedosamente por baixo da pele. Oh, Deus, a arma sumiu, não
está mais aqui.
— Vá bloquear a porta lá embaixo. Ela não pode sair desta
casa, — disse o chamado Trig. — Camiii, onde você está, docinho?
— Enquanto suas vozes soavam sombrias e chorosas alguns
minutos antes, esta perseguição obviamente os revigorou. Ou pelo
menos aquele que a chamava em voz cantada. Trig. Ele parecia
repentinamente enérgico e animado com esta caçada inesperada. O
terror a atingiu.
Metal frio então tocou seus dedos, e ela estendeu a mão,
agarrou a arma e a sacou. Ela compensou demais por causa de seu
membro ineficaz e a arma caiu de sua mão e foi deslizando para
debaixo da cômoda. Cami caiu de bunda no chão e então se virou
para encarar a porta no momento em que Trig apareceu, segurando
a arma à sua frente.
Ele parou, com um sorriso brotando no rosto pálido e os olhos
vermelhos. Abaixou a arma e entrou no quarto, sem olhar para a
mãe. Cami respirou fundo, uma atrás da outra, enquanto olhava
para ele, com o coração batendo forte quando, atrás das costas, a
ponta do dedo tocou a arma.
— Aí está você. Eu sabia que você era uma lutadora. — Ele
deu um sorriso irônico. — Eu gostaria de ter lutado algumas
rodadas com você, gatinha selvagem e desgarrada. — Ele virou a
cabeça levemente. — Encontrei, AJ, — gritou por cima do ombro.
Então, voltou a se concentrar nela, o sorriso desaparecendo. — Não
era para ter sido assim. Admito que as coisas saíram do controle e
fizemos algumas coisas estúpidas. Deixei-a nos ver. Sinto muito
mesmo. Espero que acredite em mim. — Ele ergueu a arma mais
alto, apontando para ela. Ela fez uma careta no ombro enquanto
puxava a arma para frente e segurava o cabo com cautela.
O toque repentino da campainha a fez pular, e Trig deu um
passo para trás, olhando para trás e se abaixando ligeiramente,
como se o som o tivesse assustado. Ela aproveitou a oportunidade
para sacar a arma de debaixo da cômoda e erguê-la enquanto se
virava em sua direção. E quando ele se virou para ela, seu rosto
demonstrou um momento de choque antes que ela fizesse uma
prece silenciosa e puxasse o gatilho.
A arma explodiu, seus ouvidos zumbindo enquanto ela era
jogada para trás, com a coluna batendo contra a cômoda. Ela
levantou a cabeça bruscamente e viu os olhos de Trig saltando da
cabeça, sua barriga ficando vermelha. Eu atirei nele. Oh meu Deus
Meu Deus, eu atirei nele. Um som veio de algum lugar, um
gemido ou um lamento, e ela não sabia se era ele ou ela, mas parou
quando a arma dele caiu no chão e ele cambaleou para trás, com
as duas mãos espalmadas sobre o abdômen ensanguentado.
Cami tentou desesperadamente recuperar o fôlego, com o
coração batendo tão forte que sua visão estava turva. Mesmo assim,
ela continuou segurando a arma, certa de que ele iria se recuperar
e atacá-la a qualquer momento. Trig caiu de joelhos e então caiu
para frente com um baque alto e ficou imóvel. Cami observou o
sangue se espalhar do estômago dele para o carpete cinza-claro do
quarto dos pais.
— Trig, você vem? Tem alguém na porta da frente, — gritou o
homem chamado AJ, subindo as escadas, num sussurro alto. —
Temos que ir.
Cami se levantou de um pulo. AJ achou que o tiro tinha sido
Trig quem a acertou, e não o contrário. Ele subiria as escadas em
um minuto e a confrontaria. Mas se ela atirasse nele do alto da
escada, estaria em posição mais alta. Seus braços gritavam de dor
enquanto o sangue fluía livremente, mas, apesar disso, ela tinha
mais controle sobre eles, e a adrenalina a impulsionava para frente.
Ele não sabia que ela estava viva. A vantagem era dela. Uma
pequena janela de oportunidade.
Ela contornou Trig, mantendo uma boa distância, enquanto
caminhava rapidamente em direção à porta e saía para o corredor.
Sua atenção foi momentaneamente desviada pelo som de sirenes
tocando em algum lugar próximo. Parecia que estavam se
aproximando. A campainha tocou novamente, e novamente.
— Trig? — AJ chamou novamente e Cami percebeu a incerteza
em sua voz. Ele estava começando a perceber que algo estava
errado. Cami se moveu rapidamente para o topo da escada, ergueu
a arma e atirou no homem de cabelo preto que havia se virado e
estava descendo. O gesso da parede ao lado dele explodiu, e ele
soltou um grito enquanto se abaixava, se curvava e corria. Ela ficou
ali, ofegante, enquanto o ouvia abrir a porta de vidro deslizante do
deck, seguido pelo som dele descendo as escadas correndo.
As sirenes da polícia soavam do lado de fora da casa dela.
Quem quer que estivesse tocando a campainha sem parar devia tê-
los chamado.
Cami correu para o quarto da irmã e caiu de joelhos ao lado
dela. Parecia estar dormindo, mesmo com a colcha em seu peito
encharcada de sangue. Ela levou os dedos trêmulos ao pescoço da
irmã e os manteve ali por alguns instantes antes de soltar um
soluço. Ela puxou a fita delicadamente da boca e então pousou a
arma para poder segurar o lindo rosto da irmã entre as mãos.
Cheguei tarde demais. Oh, Elle. Me desculpe. Cheguei tarde demais.
Um estrondo alto vindo do andar de baixo a fez ofegar, e a
madeira se estilhaçou quando a polícia chutou a porta.
— Polícia de Aspen Cove! Apareçam!
Cami pegou a arma e se levantou, quase perdendo o equilíbrio,
mas se recuperando. O mundo ao seu redor havia se transformado
em aquarela, com a chuva caindo sobre ela, e ela mal conseguia
entender as palavras gritadas lá de baixo. Ela voltou para o quarto
principal, segurando-se na parede do corredor para não cair.
— Alguém saiu pelos fundos! Jefferson, por aqui. — Ela
pensou ter ouvido a Sra. Willoughby de longe. Parecia que ela estava
chorando. Uma voz masculina lhe disse para ficar do lado de fora.
— Tem um homem amarrado no escritório. Ele precisa de um
médico agora.
— Eles estão a caminho. A dois minutos de distância.
Ela chegou até a mãe, afundou-se na cama, pressionou o rosto
contra o pescoço quente da mãe e inalou seu perfume, enquanto
soluços lhe percorriam o corpo. Ela achou ter sentido algo — uma
lufada de ar que esfriou sua bochecha úmida e a fez levantar a
cabeça, para ver os cílios da mãe se agitando tão levemente.
— Mãe, mãe, — soluçou, puxando a fita delicadamente, como
fizera com Elle.
Então ela se virou e gritou por cima do ombro: — Aqui em
cima! Precisamos de ajuda! — Sua voz soou excessivamente suave.
Ela não conseguia esconder a voz do peito. Mas ouviu o som de
passos se aproximando e sabia que alguém estava vindo. — Aguente
firme, mãe. — Ela tirou o cabelo da mãe do rosto e passou a mão
pela testa.
A mãe dela estendeu a mão e agarrou seus braços.
— Cami... Cami. Oh meu... Deus, Cami.
— Shh, não fale. A ajuda está chegando. Aguente firme.
Sua mãe a sacudiu levemente quando um policial entrou
correndo no quarto.
— Não, — disse sua mãe, sua voz tão fraca que Cami mal
conseguia ouvi-la. — Faça de...
O policial a encarava com os olhos arregalados. Engoliu em
seco ao se aproximar, e ela olhou de volta para a mãe.
— Sinto muito... sinto muito. Amo... você. Muito. — E então,
com um gorgolejo, sangue borbulhou de sua boca, e ela desmaiou.
— Mãe! — A mão do policial envolveu seu braço, e ela tentou
se livrar dele, mas ele a segurou com mais força e a puxou da cama
com facilidade. Mais pessoas correram para o quarto, vestidas de
branco. Havia uma maca e, enquanto Cami cambaleava para o lado,
viu mais pessoas uniformizadas correndo pelo corredor em direção
ao quarto de Elle.
Mas Cami sabia que Elle já tinha partido.
O mesmo policial se inclinou em sua direção, o rosto ficando
borrado enquanto a boca se movia. Ele estava dizendo alguma
coisa, mas ela não conseguia entender as palavras. Pai, pai. Cami
se livrou do braço dele, virou-se e saiu correndo do quarto, batendo
em todas as paredes do corredor enquanto se jogava para frente,
praticamente caindo escada abaixo, com o som do seu nome sendo
chamado de algum lugar.
Ela chegou ao corredor que levava ao saguão no momento em
que seu pai estava sendo retirado do escritório em uma maca. Seu
rosto estava machucado, seu olho inchado, mas ele estava
acordado. Ele estava vivo. Ele virou a cabeça e olhou para ela, sua
expressão se contraindo enquanto ele começava a soluçar.
— Senhorita, por favor. Deixe-nos ajudá-la. A senhorita está
ferida. — Alguém tentava levá-la embora, mas ela precisava chegar
até o pai. Precisava ficar com ele. Ele era tudo o que lhe restava.
Ele estendeu a mão em sua direção, e ela estendeu a mão, mas
não conseguia se mexer. Ela ficou presa no chão, as paredes se
fechando, o teto afundando, e então ela foi esmagada pelo peso.
CAPÍTULO NOVE
Rex não conseguia se lembrar da última vez que acordara tão
cedo num sábado. O sol ainda era apenas um brilho amarelo que
mal se erguia no horizonte. Ele tirou os fones de ouvido e passou
de uma corrida para uma caminhada enquanto uma ambulância
passava gritando, quebrando o silêncio da manhã tranquila. Duas
viaturas, com luzes e sirenes ligadas, correram atrás da
ambulância, e então outras duas passaram zunindo na direção
oposta. Que diabos é isso? Tinha que ser algo sério, porque Aspen
Cove só tinha duas viaturas, e elas obviamente haviam chamado
pelo menos uma da cidade vizinha.
Sua respiração se acalmou enquanto ele caminhava os dois
quarteirões restantes até o posto de gasolina no final da rua que
levava ao seu bairro. Havia um SUV parado na bomba e uma
mulher estava parada encostada nele, esperando. Ela lhe lançou
um sorriso cansado quando ele passou.
Um sino tocou na porta do minimercado quando ele entrou, e
Rex passou a mão pelo cabelo suado quando a porta se fechou atrás
dele.
— E aí, cara, — disse ele para Damon, que estava no caixa.
Damon havia se formado no ano anterior e trabalhava no turno da
noite ali e em algum outro lugar alguns dias por semana, mas Rex
não conseguia se lembrar de onde. Apesar de ser apenas um ano
mais velho, já tinha esposa e um bebê de três meses em casa. Ele
morava do outro lado da linha férrea, na única área de baixa renda
da cidade onde Rex também morava — a poucos quilômetros e um
mundo de distância da mansão com a piscina olímpica e a cozinha
externa onde estivera ontem.
Escondido como um perdedor atrás de uma planta. Meu Deus,
ele queria mesmo parar de se lembrar disso.
— Ei, Rex. O que você está fazendo aqui fora tão cedo?
Ele pegou uma garrafa d'água do cooler perto do balcão e a
colocou no chão. — Vou correr.
— É? Desde quando você corre?
Rex bufou baixinho. — Desde hoje. Estou virando uma nova
página.
Faltava menos de um ano para a faculdade e ele decidira que
queria começar aquele novo capítulo como uma versão melhor de si
mesmo — mais forte, mais em forma, mais descolado. Não podia
deixar de notar o jeito como as líderes de torcida — e, sim, uma em
particular — olhavam para os atletas do time de futebol americano,
e certamente não faria mal nenhum, na arena feminina, ganhar
músculos. Ele ficara deitado na cama na noite anterior, olhando
para o teto, decidindo que não havia tempo melhor do que o
presente para assumir o controle de sua vida. Então, programou o
despertador para as seis da manhã e saiu para correr. Pelo menos
começara como uma corrida, antes de terminar mais como uma
espécie de arrastar de pés mancando. Ele odiara cada minuto. Mas
não pretendia deixar que isso o impedisse.
— Ainda bem que você não esbarrou no cara armado que
escapou daquele arrombamento no Palisades Park. Aparentemente,
ele foi visto em algum lugar por aqui. Cara, mandaram a cavalaria.
Parecia que carros do estado inteiro estavam passando zunindo
meia hora atrás. Não sei se o pegaram ou não, ou se ele escapou,
mas continuo vendo carros de polícia passando. Pode ser que ainda
esteja acontecendo uma caçada por aí enquanto falamos.
— É por isso toda essa presença policial? Um arrombamento
e uma fuga?
— É. — Damon registrou a água e Rex tirou três notas de um
dólar do bolso com zíper do short. — Ei, espere aí, — disse Damon,
olhando pela janela para onde alguém que acabara de parar no
posto de gasolina estava obviamente com problemas. — Aquela
bomba está quebrada. Já volto. — Damon contornou o balcão e foi
em direção à porta da frente. Rex esperou enquanto ele conversava
com o cliente no posto.
Palisades Park. Onde ele conversou com Camille Cortlandt, em
quem não parava de pensar desde então. A conversa que, se ele
fosse realmente honesto consigo mesmo, inspirou a corrida que, até
então, parecia uma tortura autoimposta.
Ainda assim, o autoaperfeiçoamento valeu a pena,
independentemente da motivação inicial. Então, lá estava ele,
morrendo de sede em um minimercado antes mesmo que a maior
parte da cidade se levantasse.
Damon voltou à loja e contornou o balcão. — Desculpe. Enfim,
sim, uns policiais passaram por aqui agora há pouco. Adivinha o
que eles estavam fazendo aqui? — Ele apontou para a vitrine de
donuts ao lado do café e sorriu.
— O que eles disseram? — perguntou Rex. — Quer dizer,
alguém se machucou?
Damon se inclinou para frente no balcão e olhou por cima do
ombro de Rex, como se estivesse cometendo algum tipo de crime só
de falar.
— Sim. Pelo que ouvi os policiais conversando, foi um triplo
homicídio. Três mulheres. Amarradas e... — Ele ergueu as
sobrancelhas.
Triplo homicídio. As duas palavras o deixaram subitamente
desorientado. — Achei que você tinha dito que era arrombamento.
— Três mulheres.
— Foi. Só que não foi só um arrombamento.
— Jesus, — disse Rex, abrindo a garrafa e tomando um gole,
sentindo o desconforto crescer dentro dele. — Naquele bairro? —
Crimes violentos estavam por toda parte, ele supôs, mas geralmente
não afetavam o Palisades Park. Ele era obcecado por estatísticas e
números em geral, e sabia disso muito bem.
— Fodido, — disse Damon, fechando a caixa registradora com
um clique.
— Sim, — concordou Rex, balançando a cabeça. Cami tinha
uma irmã, não tinha? Ele a ouvira mencionar alguém chamada Elle
ou Ellie algumas vezes no treino. Ergueu os olhos e viu que Damon
o observava com curiosidade, provavelmente se perguntando por
que ele ainda estava ali. — Como está o bebê? — perguntou.
— Cólica.
Rex não fazia ideia do que aquilo significava, mas pela
expressão sombria de Damon, percebeu que não era nada bom.
—Sinto muito por isso.
Damon deu de ombros. — Vai passar. Tudo passa, certo?
Rex ergueu a garrafa de água em direção a Damon, numa
espécie de saudação, e então se virou e saiu da loja. Quase foi em
direção a casa para trabalhar na redação para a faculdade que
ainda o esperava. Mas sentiu uma sensação estranha no estômago,
ou talvez estivesse apenas curioso porque queria saber o que tinha
acontecido, talvez até mesmo naquela rua em que estivera no dia
anterior.
O hospital local para onde a ambulância provavelmente estava
indo ficava a menos de trinta minutos de caminhada, e sua tia
Carolyn ainda estaria de plantão.
Ele fez a viagem em vinte e dois minutos, passando pelo grupo
de viaturas na frente. E se fosse uma das famílias de Westridge? Ele
sabia que não tinha absolutamente nenhum motivo para estar ali,
nem seria útil para ninguém se os conhecesse. Mas aquele
pressentimento não lhe passava. E se? Ele não queria esperar até
chegar à escola na segunda-feira para procurar a cadeira vazia e o
burburinho de fofocas que se espalharia rapidamente pelos
corredores.
O saguão do hospital estava uma bagunça, com policiais e
alguns repórteres que tinham acabado de chegar e circulavam de
policial em policial, tentando obter um depoimento. Ele seguiu
direto para os elevadores e desceu no andar da UTI, onde sua tia
trabalhava, e se dirigiu à recepção. Mas quando a porta se abriu,
ele rapidamente deu um passo naquela direção.
— Carolyn.
— Rex? Ei, o que você está fazendo aqui? Está tudo bem?
— Sim, está tudo bem. Eu só estava... — Os dois se afastaram
para o lado do corredor quando as portas da unidade se abriram e
uma enfermeira empurrando uma maca com um velho entrou. —
Eu só queria saber se você sabe alguma coisa sobre as vítimas do
Palisades Park. Metade do time de futebol americano mora lá, e eu
estava preocupado que pudesse ser alguém que eu conheço.
Carolyn apertou os lábios e o pegou pelo braço enquanto se
virava e começava a andar. Ele a acompanhou, e ela saiu pela porta
da UTI, e eles começaram a caminhar pelo corredor.
— Tenho um intervalo de quinze minutos.
— Café? — ele perguntou.
— Não, já tomei cafeína suficiente. Preciso de algumas
calorias.
Eles entraram em uma sala ao lado do salão principal, com
algumas mesas vazias e três máquinas de venda automática na
parede dos fundos. — Você quer alguma coisa? — Carolyn tirou um
cartão de crédito do bolso do uniforme e o passou antes de apertar
alguns botões. Um segundo depois, o braço mecânico na frente de
um saco de Cheez-Its girou para o lado, e o pacote de salgadinho
caiu. Carolyn se abaixou, pegou-o da lixeira e se virou para ele. Ela
era mais nova que a mãe dele, mas também tinha cachos castanho-
dourados e o mesmo queixo pontudo. Mas era aí que as
semelhanças terminavam. — Você não pode dizer nada porque nem
a mídia está divulgando nomes agora. Não até que algum membro
da família seja notificado. — Ela rasgou o saco. — É uma família
chamada Cortlandt. — Ela balançou a cabeça enquanto o estômago
de Rex despencava.
Oh, Deus.
— Uma das piores coisas que já ouvi.
— A família toda está morta?
Carolyn encostou-se na máquina de venda automática e
colocou um biscoito na boca. Ela parou um momento para mastigar
e engolir enquanto Rex morria lentamente por dentro. Você nem a
conhece, não mesmo. Então por que ele sentiu essa onda crescente
de pânico?
— Não. O pai foi espancado severamente. Ele sofreu alguns
ferimentos na cabeça, mas vai se recuperar. Ele está em cirurgia
agora, com algumas fraturas graves. E a filha mais velha está viva.
— A filha mais velha? Cami? Camille?
Os olhos de Carolyn se demoraram nele por um instante. —
Não sei o nome dela. Ruiva bonita. Aquele ruivo escuro. Você a
conhece?
Ele cruzou os braços. — Sim, eu a conheço. Não muito bem.
Nem um pouco, mas... ela é líder de torcida na minha escola.
— Merda. Sinto muito. — Ela balançou a cabeça enquanto
mastigava outro biscoito. — Ela nunca mais será a mesma. Ela foi
terrivelmente vitimizada. Mas pelo menos ela está viva. A mãe e a
filha mais nova não tiveram tanta sorte. — Ela nunca mais será a
mesma.
A cabeça de Rex latejava e suas entranhas se reviravam. Cami
estava presente quando sua mãe e sua irmã morreram em um ato
de violência demente. A linda garota de dezessete anos de maiô rosa
com quem ele finalmente falara ontem, depois de ter uma queda por
ela por três anos, havia perdido quase toda a família na noite
anterior e sofrido um trauma impensável.
— Você... você sabe o que fizeram com ela? — Por que ele
perguntou? Talvez ele realmente não quisesse saber.
— Não posso entrar no mérito do crime, Rex. Eu nem devia ter
mencionado o nome dela. Mas sei que você não vai fofocar.
— Não, claro que não.
Carolyn lançou lhe um sorriso cansado. — Preciso voltar. —
Ela olhou para o relógio na parede. — E o que você está fazendo por
aí tão cedo num sábado?
Ele também olhou para as horas. — Eu estava... correndo.
Correndo. — Ele passou a mão pelos cabelos, agora secos. — Vi
todos os carros de polícia e vim andando.
Carolyn arqueou uma sobrancelha ao saber que ele tinha
saído para se exercitar, mas não comentou nada. Ele a
acompanhou de volta pelo corredor e lhe deu um rápido abraço de
despedida antes que ela se dirigisse à enfermaria. Rex seguiu pelo
corredor que levava aos elevadores, parando ao ver outra maca. Só
que, desta vez, havia uma garota de cabelo ruivo sentada nela,
olhando fixamente para a parede, com os braços em volta do corpo
e os ombros erguidos. Seu coração disparou. A enfermeira atrás
dela havia parado para trocar algumas palavras com um médico
que estava anotando algo em sua prancheta, e dois policiais
estavam ao lado, obviamente protegendo Cami.
Rex engoliu em seco, suas costelas se contraindo, e então
Cami virou a cabeça, seus olhares se encontrando à distância. E
quando ele a viu, sentiu como se não apenas seu rosto, mas todo o
seu ser se encolhesse. Sua pele estava manchada de hematomas,
seu olho direito vermelho e inchado. E sua pele estava vermelha e
em carne viva em cada lado dos lábios, com um formato que parecia
que um pedaço de fita adesiva havia sido arrancado de sua boca. O
horror percorreu a espinha de Rex, e tudo o que ele pôde fazer foi
continuar a encará-la.
Se ela o reconheceu, não demonstrou. Sua expressão
inexpressiva não se alterou nem um pouco. Ele sentiu uma atração
intensa por ir até ela, estender a mão, dizer algo, e embora seu pé
se levantasse para obedecer aos seus instintos, ele se forçou a
abaixá-lo. Tentar confortá-la era ridículo. Não havia nada que ele —
um estranho, e talvez até alguém de quem ela sentia vagamente
pena, como todos os outros — pudesse fazer por ela. Seu mundo
tinha acabado de implodir.
A enfermeira acenou para o médico, que se aproximou de
Cami, abaixou-se, pegou sua mão e disse algumas palavras às
quais ela pareceu não responder. Então o homem se levantou, e Rex
observou Cami desaparecer na esquina com a enfermeira e os dois
policiais.
O médico acenou levemente para Rex ao passar, com um olhar
levemente questionador. Merda, ele parecia um perseguidor parado
ali no meio do corredor, encarando o espaço vazio onde Cami
estivera.
Enquanto caminhava de volta para os elevadores, viu Hollis e
sua família conversando com uma enfermeira perto da recepção.
Hollis olhou para cima, seu olhar primeiro registrando confusão,
como se estivesse tentando se lembrar de Rex, depois
reconhecimento, e então confusão novamente. Ele desviou o olhar,
voltando para sua mãe, que tinha dois dedos sobre os lábios como
se estivesse prestes a vomitar. Rex apertou o botão para descer e
olhou para os elevadores, sem conseguir evitar ouvir a conversa
próxima.
— Devíamos dar um tempo a ela, — dizia a Sra. Barclay.
— É, — Hollis suspirou. Era a primeira vez que Rex via Hollis
com uma expressão que não fosse confiante. Arrogante.
— Voltaremos em alguns dias, depois que o choque passar.
Cami vai precisar de exames e... — As palavras da Sra. Barclay
sumiram como se ela não conseguisse terminar a frase.
O elevador apitou e a porta se abriu. Ele entrou e se virou,
apertando o botão do saguão. Seus olhos encontraram os de Hollis
novamente antes que as portas se fechassem entre eles.
Os Barclays obviamente tinham acabado de descobrir o que
acontecera com Cami. E, em vez de sentirem profunda compaixão,
pareciam estar sentindo... repulsa. Em vez de lamentar com a
namorada, ele ia “dar um tempo a ela”? Um tempo sozinha, quando
ela acabara de passar por um inferno e vivia nas profundezas do
desespero?
Que merda, os dois.
Ele imaginou Cami sentada sozinha em algum cômodo agora,
olhando para uma parede diferente, sem ninguém ali para segurar
sua mão ou apenas estar com ela, e ele se sentiu tão impotente e
triste que mal conseguia suportar.
A porta do elevador se abriu e ele saiu, caminhando em meio
ao que agora era um mar de câmeras estampadas com logotipos de
notícias.
— Com licença, senhor? — chamou uma repórter morena,
correndo em sua direção. — O senhor conhece a família Cortlandt?
Qual é o seu nome?
Rex virou o rosto e acelerou, correndo em direção à porta,
ciente de que não pertencia àquele lugar. Ele nem tinha certeza
absoluta do motivo de ter vindo. Como em todos os outros lugares
de sua vida, ele não pertencia àquele lugar.
Rex começou a correr novamente, e a apresentadora ficou para
trás.
CAPÍTULO DEZ
Rex não tinha o menor interesse em memorizar a poesia dos
poetas ingleses da era romântica. E, pelos gemidos que ecoavam
pela sala, nenhum de seus colegas tinha. Ele olhou para a cadeira
vazia no canto esquerdo da sala, sentindo o estômago revirar ao
saber por que sua ocupante habitual estava desaparecida. Fazia
quatro dias que ele vira Cami Cortlandt naquele corredor do
hospital, espancada e quebrada, com o olhar emocionalmente vazio,
e tudo o que ouvia eram os sussurros de seus colegas e as
informações que o noticiário estava divulgando.
A mídia havia invadido a pequena cidade. No dia anterior, ele
achou ter visto uma van com o logotipo do Dateline passando.
O homem que havia escapado, conhecido apenas como “AJ”,
até então continuava a escapar da captura. Um carro havia sido
deixado na garagem dos Cortlandt, mas ele ouvira dizer que havia
sido roubado. O outro agressor, encontrado morto no local, ainda
não havia sido identificado, embora aparentemente ambos tivessem
deixado evidências de DNA que estavam sendo testadas.
Provas de DNA. A frase o fez estremecer. Ele tinha quase
certeza de que conseguiria descobrir de onde aquelas provas de
DNA haviam sido coletadas. Massageou o pescoço. Era difícil até
mesmo imaginar o horror que aquela família havia vivenciado. E ele
não conseguia parar de pensar no rosto machucado de Cami. A
comunidade inteira estava em dificuldades, e a polícia trabalhava
sem parar para encontrar respostas que garantissem aos cidadãos
de sua cidade que não precisavam temer que algo tão horrível
acontecesse com um deles.
E aqui estavam eles lendo poesia romântica.
Não que a escola não tivesse feito o possível para apoiar os
alunos. Eles trouxeram conselheiros extras e, na noite anterior,
realizaram uma vigília à luz de velas para Farrah e Eleanor
Cortlandt. Eles começaram um GoFundMe para Cami e seu pai, o
que parecia desnecessário considerando que eles já eram ricos, mas
ele supôs que ajudaria com as contas médicas, ou talvez eles
usariam o dinheiro para fazer algo em homenagem àquelas que
perderam. Principalmente, ele pensou, estava sendo feito para que
as pessoas tivessem uma maneira de demonstrar seu apoio e pesar.
O Sr. Cortlandt ainda estava no hospital, onde se recuperava
dos ferimentos, mas ele não sabia onde Cami estava, ou com quem
ela estava hospedada.
Ele queria perguntar a Hollis sobre ela, mas não achou que
fosse uma boa ideia. E o cara talvez nem soubesse se ele ainda
estava “dando tempo a ela”.
Rex lamentou por ela, mas foi tudo o que pôde fazer. Ele não
fazia parte do círculo de amigos dela, e eles só tiveram uma
conversa. Não seria apropriado entrar em contato com ela. E então,
Rex foi ao GoFundMe e doou cinquenta dólares que teriam sido
melhor investidos em compras para ele e sua mãe. O gesto não
chegou nem perto do que ele comunicaria a Cami se pudesse, e ele
se sentiu quase lamentável fazendo isso, mas era melhor do que
nada.
Ele massageou a cabeça. Ou talvez não. Ele nem sabia.
Uma batida na porta da sala o fez levantar a cabeça, e a turma
observou o diretor, Sr. Garvey, entrar, seguido por dois policiais. A
professora, Sra. Sachs, aproximou-se da porta, e ela e o diretor
conversaram em voz baixa por um momento antes que ela olhasse
para trás. Seus olhos encontraram os de Rex e ela gesticulou para
ele enquanto a ansiedade o consumia.
Rex se levantou e começou a caminhar em direção à porta
depois que o diretor disse: — Pegue suas coisas, por favor.
A ansiedade aumentou. Ele pegou o bloco de notas e a caneta,
deixando-os cair no chão em meio a um pequeno coro de risadas
abafadas. Rex pegou as duas coisas e as enfiou na mochila. Rex
ouviu o burburinho da conversa enquanto subia a fileira e
caminhava em direção à porta. Seu rosto estava quente, o peso dos
olhares deixando seus membros rígidos e descoordenados.
Todos saíram para o corredor e se afastaram da porta.
— Esses policiais têm algumas perguntas para você, Rex.
Ele olhou para o Sr. Garvey e para os policiais.
— Certo. Sobre o quê?
— Você é uma pessoa de interesse nos assassinatos de
Cortlandt, — disse um dos policiais, observando-o atentamente. O
rosto de Rex ficou quente, deixando-o momentaneamente tonto.
— O quê? Você deve ter errado...
— Talvez possamos esclarecer isso. Temos algumas
perguntas, se você nos acompanhar até a delegacia.
Sua cabeça girava e, pela primeira vez na vida, ele sentiu que
ia desmaiar. O que está acontecendo?
Atrás dele, ouviu os suspiros e murmúrios suaves vindos da
sala de aula, onde agora podia ver que a porta se abrira
ligeiramente. Queria sair correndo. Queria afundar no chão. — T-
tá.
— Venha conosco. — O policial que havia falado acenou com
a cabeça para o Sr. Garvey e a Sra. Sachs, cujos lábios estavam
franzidos numa linha fina e preocupada. — Obrigado. Nós
cuidamos disso daqui.
Ele caminhou com os policiais sobre pernas de pau, pelo
corredor em direção ao estacionamento, tentando
desesperadamente fazer o cérebro funcionar. — Devo... devo
chamar um advogado? — perguntou ele enquanto saíam do prédio.
— Só se você tiver algo a esconder, — disse o policial ruivo
enquanto abria a porta traseira da viatura estacionada na frente do
prédio.
— Não, não tenho nada a esconder. Isso é um erro.
— Então vamos esclarecer isso. — Rex deslizou para o banco
de trás. Sentia-se manipulado. Aqueles policiais só queriam levá-lo
para a delegacia. Queriam que ele respondesse a perguntas sem um
advogado. Mas sua mãe não tinha condições de pagar um advogado
de qualquer maneira. Eles mal conseguiam sobreviver.
Quando a viatura se afastou da escola, ele respirou fundo e
expirou lentamente. Pense direito. Cami diria que não era ele. Ela
estivera lá. Ela conhecia Rex há anos. Eles conversaram poucas
horas antes de ela ser atacada. Ela sabia a verdade.
Rex não tinha ideia do que estava acontecendo, mas o
lembrete de que Cami iria responder por ele fez com que respirasse
um pouco mais facilmente.
A sala da delegacia estava excessivamente clara e fria. Sua
mãe, que havia chegado alguns minutos antes a pedido dele,
cheirava a vodca e parecia ter acabado de sair da cama, porque ela
tinha acabado de sair.
Um homem mais velho, de calça de terno e camisa social, com
as mangas arregaçadas até os cotovelos, entrou.
— Rex Lowe? Sou o Detetive Smith. Obrigado por estar aqui.
É muito importante que você responda às perguntas com boa
vontade. — Sentou-se à mesa em frente a eles, estendeu a mão para
Rex e apertou a mão da mãe também. — Sra. Lowe.
— O que você tem contra o meu garoto? Desembucha ou deixa
a gente ir embora.
Ele lhe lançou um sorriso impaciente. — Vamos tira-lo daqui
o mais rápido possível, eu prometo. — Ele olhou para Rex. — Seu
nome de batismo é Alexander John, correto? Rex é um apelido?
— Sim. É. Mas todo mundo me chama de Rex, até minha mãe.
— Era o apelido dele desde criança, quando um primo que não
conseguia pronunciar Alex ou Alexander o chamava de Rex, e
pegou. Até em sua própria mente, ele se referia a si mesmo pelo
apelido e — AJ.
Estaria ele sendo interrogado porque tinha as mesmas iniciais
do homem que havia escapado? Sentiu um suspiro de alívio
percorrer seu corpo. Seria só isso?
— Onde você estava há quatro noites, na sexta-feira? — ele
perguntou.
— Casa.
O detetive olhou para ele do formulário que ele havia
começado a preencher. — Sozinho?
— Sim. Minha mãe estava fora.
— A que horas a senhora chegou em casa, Sra. Lowe?
— Meia-noite. Mais ou menos.
— Seu filho estava acordado quando você chegou em casa?
— Claro. Sim. Ele estava.
— Sério? Você pode jurar? Porque temos testemunhas que
dizem que você estava bastante embriagada no Jimmy Jo's Beer
Shack naquela noite. Alguém descreveu como “bêbada desmaiada”
e disse que você só saiu depois das duas e foi levada por um agiota
chamado Gary Shipley, com quem ainda não conseguimos falar.
A mãe dele soltou um som de desprezo enquanto o coração de
Rex afundava. Por que ela havia mentido?
— Ele me disse que era financista, — murmurou ela. — Mas
toda essa história de apagão é mentira. Rex estava bem acordado
quando cheguei em casa.
— Você juraria isso?
— Claro que sim. — Ela pegou a mão dele por baixo da mesa
e apertou-a.
O detetive verificou algo em seu formulário. — Testemunhas
disseram que te viram correndo na manhã da caçada, e outras
testemunhas relataram sua presença no hospital mais tarde,
tentando falar com Camille Cortlandt. Há imagens suas no saguão.
Rex engoliu em seco e balançou a cabeça. — Só isso... Quer
dizer, é só uma coincidência.
— Você costuma correr, filho?
— Não. Foi o primeiro dia. Quer dizer, eu tinha acabado de
decidir começar. Correr. Foi o meu primeiro dia. — Meu Deus, ele
parecia um mentiroso, até para si mesmo.
— Aham. E por que essa sua corrida terminou no mesmo
hospital onde a Sra. Cortlandt estava sendo tratada?
Mais uma vez, ele engoliu em seco. Sua boca estava tão seca.
Parecia que ele estava engolindo poeira. — Eu só... vi os carros da
polícia e fiquei... preocupado.
— Preocupado com o quê?
— Sobre o que poderia ter acontecido com... pensei que havia
uma chance de ser alguém que eu conhecia. — Ele queria se
encolher. Tudo aquilo soava tão ruim. Quando ele dizia isso em voz
alta, parecia estranho e... culpado.
O detetive o observava. — Você está a fim da Camille
Cortlandt, hein? Já faz anos?
— O quê? — A palavra soou tão seca quanto ele se sentia.
O detetive sorriu, mas não havia calor algum nele. Quem havia
contado a esse homem que ele tinha uma queda por Cami? Ele não
havia contado a ninguém. Seria tão óbvio assim? Ele queria afundar
no chão novamente. E sentiu uma estranha vontade de chorar,
mesmo achando que não chorava desde criança.
— Ela é uma garota linda. Não posso te culpar.
A mãe dele bateu na mesa com a palma da mão, e o tapa fez
com que ele e o detetive se assustassem levemente. — Acho que
terminamos por aqui, — disse ela. — A menos que você prenda meu
filho, este interrogatório acabou.
O detetive apertou os lábios e voltou o olhar para Rex. — Você
estaria disposto a fazer um teste de DNA?
O DNA o absolveria disso. Se de fato tivessem DNA, não seria
compatível com o dele. — Claro.
— Rexy, — disse a mãe. — Você não precisa dar nada a eles,
a menos que tenham um mandado. Eu assisto Law & Order. Sei
como as coisas funcionam.
Ele soltou a mão dela. — Está tudo bem, mãe. Quero deixar
isso para lá. Quero doar meu DNA.
— Ótimo. — O detetive se levantou. — Vou mandar alguém
fazer o exame. Leva só um minuto. — Ele deu um sorriso falso. —
Obrigado novamente pelo seu tempo. Entrarei em contato.
Ele saiu da sala, e sua mãe se levantou e andou de um lado
para o outro por um segundo. — Esses desgraçados. Eles só estão
fazendo isso por causa de onde moramos e de quem somos. Eu
devia processá-los. Assédio. É isso. Preciso fumar um cigarro. Você
pode me dar uma licença aqui?
Ele passou a mão pelos cabelos, que caíram de volta na testa.
— É, claro, mãe. Estou bem.
Ela hesitou, franzindo a testa. — Vai ficar tudo bem. Vai ficar
tudo bem.
Ele assentiu e então ela se virou, deixando-o sozinho na sala
fria. Ele se levantou, precisando andar de um lado para o outro
como ela acabara de fazer, com as emoções à flor da pele.
Acima de tudo, ele não conseguia acreditar que aquilo estava
acontecendo. Parecia surreal. Ele queria gritar aos quatro ventos:
Eu não fiz isso! Eu jamais faria algo tão maligno. Como vocês
poderiam pensar que eu faria? Vivi aqui a vida toda. Vocês me
conhecem!
Mas não o conheciam. Ninguém o conhecia. Ninguém jamais
havia tentado de verdade.
Rex levantou a cabeça e parou ao ouvir uma voz vinda de
algum lugar no final do corredor. Parecia familiar. Ele a conhecia
bem. Ele vinha prestando atenção em cada palavra dela há anos.
Cami? Ela estava aqui?
Rex correu para a porta que estava entreaberta e parou do
outro lado. As vozes vinham de uma curta distância, e a acústica
as fazia ecoar o suficiente para que ele pudesse ouvi-las de onde
estava, mesmo que apenas um pouco. Abriu a porta um pouco mais
e inclinou a cabeça para frente o máximo que ousou.
Ele ouviu a voz de um homem, captando trechos. — Nome
AJ... cabelo preto... não vi o rosto dele. Poderia... Rex Lowe.
Alexander...
Ele prendeu a respiração enquanto esperava a resposta dela
para uma pergunta óbvia. E quando ela veio, ficou devastado. A voz
dela era baixa, sem emoção. — É, acho que... pode ter sido ele. Rex
Lowe.
CAPÍTULO ONZE
Cami deu um pequeno sorriso ao abrir a porta. Ela se
esforçara tanto para parecer a mesma de antes, a garota por quem
Hollis se apaixonara, a que havia saído da festa na piscina dele
quatro meses antes, sem saber que estava prestes a entrar no
inferno. Ela não conseguia se lembrar de como era aquela garota,
mas pelo menos se lembrava de sua aparência.
Ela cacheou o cabelo e aplicou maquiagem, sombreando,
iluminando e adicionando blush às bochechas. Brilho nos lábios e
borrifou seu perfume característico, que a fez reviver aquele dia de
forma tão forte e abrupta que praticamente desabou na cama,
curvando-se como se tivesse levado um soco no estômago. Usou
lenços umedecidos para remover o produto da melhor maneira
possível e depois jogou o frasco no lixo.
Hollis retribuiu o sorriso ao entrar, tomando-a nos braços e
abraçando-a brevemente. O abraço rápido foi demais e não o
suficiente. Ela ansiava por carinho, desesperadamente, mas
também queria gritar quando alguém a tocava. Mas se consolava
com o fato de que ele queria tocá-la — pelo menos hoje. Tudo vai
ficar bem.
— Ei, querida. Você está ótima. — Ele olhou ao redor. — Todos
se mudaram?
— É. — Ela empurrou a porta para fechá-la e trancou as duas
fechaduras. O apartamento alugado ainda não lhe parecia um lar,
mas ela se sentia segura lá de qualquer maneira, e gostava que
fosse menor do que a casa em que moravam... antes. Seu coração
acelerou como sempre acontecia quando pensava em casa —
naquela casa — e ela respirou fundo. Ela estava se esforçando todos
os dias para se recuperar, mesmo nos dias em que mal conseguia
sair da cama. Devia isso à mãe e à irmã — agora ela era a voz delas
no mundo.
E ela devia isso à vida inocente que carregava.
— Estou com a lareira acesa, — disse ela a Hollis enquanto a
guiava até a sala de estar, no final do corredor, puxando as mangas
do moletom sobre as mãos e erguendo os ombros. Ela estava
nervosa e assustada, e não queria chorar. Ficaria difícil falar, e era
por isso que ela o convidara para vir hoje.
Ele a seguiu, e quando ela se sentou no sofá, ele sentou-se
bem ao lado dela. Então, ele segurou uma das mãos dela enquanto
suspirava, afastando uma mecha de cabelo da bochecha dela.
— Você está tão linda, Cam. — Ele passou o polegar pela maçã
do rosto dela, e ela suspirou e se inclinou sobre ela. Se ela relaxasse
o suficiente, o toque dele era bom. Ela precisava disso, e a ternura
dele a fazia acreditar que tudo ficaria bem.
Ele se inclinou para frente e a beijou. Quando ele passou a
língua entre os lábios dela, a coluna dela se endireitou e seu coração
deu um pulo, mas não de excitação, mas de medo. Ela sentiu um
grito subindo pela garganta e o empurrou, suas bocas se separando
enquanto ele a encarava surpreso antes que a raiva brilhasse em
seus olhos. Estava lá e sumiu em um segundo. Ele a conteve bem,
mas ela a viu, e isso lhe causou um arrepio multifacetado na
espinha... ressentimento, decepção, raiva própria.
— Desculpe, — murmurou ela, virando o rosto. — Acho que
eu...
— Não se preocupe, — disse Hollis, sem dar importância,
pegando o celular na mesa de centro e olhando para a tela. — De
qualquer forma, não posso ficar muito tempo. Preciso ajudar meu
pai com uma coisa.
— Mas você acabou de chegar. — Ela percebeu o tom de
lamento na voz, a carência, mas conteve um sobressalto. Não era
de se esperar que ela estivesse carente naquele momento? — Não
tenho te visto muito. Estava preocupada que...
— Você não precisa ficar, — disse ele, ainda rolando a tela do
celular por um segundo antes de guardá-lo. — Eu só queria te dar
um tempo. O que aconteceu... Meu Deus, Cami, isso abalou a
comunidade inteira. — Ele passou a mão pelos cabelos e se
recostou. — Até o país. O Dateline entrou em contato comigo ontem.
— Dateline. Sim, eles também entraram em contato com ela, e ela
apagou a mensagem. Mas Hollis não perguntou sobre isso. Não
perguntou se a cobertura constante da mídia, mesmo tantos meses
depois, a incomodava. Não perguntou se ela tinha assistido a
alguma coisa ou se não podia.
— Eu agradeço... o tempo. — Mesmo que você não tenha
perguntado se era disso que eu precisava. Você decidiu por mim. Ela
não sabia se estava sendo mesquinha, no entanto. Ela não sabia se
suas emoções eram racionais ou não. Seu mundo havia desabado,
e ela se sentia soterrada sob os escombros, completamente
inconsciente da direção que estava olhando. Ela não confiava em si
mesma. Ela estava constantemente girando. Ontem, ela estava
lavando pratos na pia, e de repente se viu olhando pela janela.
Quando olhou para o relógio, vinte minutos haviam desaparecido,
e ela não se lembrava de um único pensamento que lhe tivesse
passado pela cabeça. Por quase meia hora, ela ficou completamente
em branco. Como ela poderia julgar o comportamento de Hollis se
ela nem conseguia entender o seu próprio?
Ele se inclinou para frente e pegou o telefone novamente.
— Bem, eu deveria...
— Estou grávida, — ela deixou escapar.
A expressão dele não mudou. Ele a encarou como se ela tivesse
acabado de dizer duas palavras que, por si só, não explicavam nada
e estivesse esperando o restante da informação que faria sentido.
— O quê?
— Fiz um teste no dia de... no dia do... quando... — Ela soltou
um suspiro trêmulo. Mesmo agora, meses depois, não conseguia
terminar a frase. Ela mexeu nas mangas do moletom, puxando-as
sobre as mãos novamente. — Mas não consegui ver os resultados.
Coloquei o teste na minha bolsa, e nem sei onde ele está agora.
Havia tantos policiais e detetives passando por lá, antes mesmo da
empresa de mudanças. Enfim, quando fiz o teste, eu tinha quase
certeza. Quer dizer, eu esperava que não tivesse, mas todos os
sinais...
— Do que diabos você está falando?
Ele estava com raiva. Claro que estava. Ela esperava por isso,
não é? A vida inteira dele estava diante dele, um caminho dourado
rumo a Princeton no outono, que certamente terminaria em um
prestigiado escritório de advocacia e, depois disso, em uma
nomeação política. Ele havia planejado tudo para ela enquanto
estavam deitados abraçados em sua cama no fim de semana em
que seus pais estavam fora da cidade.
— Isso não precisa mudar seus planos, Hollis. Meu pai está
aqui, e quando você terminar a faculdade, podemos decidir...
— Você está grávida? Como você sabe? — ele se levantou —
Cami, como você sabe que é meu? Você foi estuprada.
Ela se encolheu. O que havia naquela palavra que a
apunhalava daquele jeito? Como o som dela causava flashes dele ,
sobre ela, invadindo seu corpo? Por que aquela única palavra trazia
à mente o cheiro azedo do hálito dele e o gosto das próprias lágrimas
dela? Por que a própria lembrança se estendia por sua boca como
aquele pedaço de fita prateada que havia roubado suas palavras e
seu fôlego? Demorou um momento para que ela conseguisse falar.
— Eles me testaram no hospital, — ela finalmente disse. —
Naquele dia. Não teria dado positivo, mas se... Hollis, eles
confirmaram o que eu suspeitava. Eu já estava com seis semanas
de gravidez. Eu... eu não conseguia lidar com isso naquela época.
— Ela olhou para baixo e balançou a cabeça. — Eu tirei isso da
minha cabeça. Foi demais, Hollis. — Eu estava girando.
Nada parecia real. Minha mãe e minha irmã partiram de
repente, e as lembranças de suas mortes violentas invadiam todos
os meus pensamentos.
A culpa era inimaginável. E ainda era. Ela havia repensado o
que poderia ter feito de diferente, reorganizando a ordem de sua
fuga repetidas vezes, até que fossem os quatro saindo daquela casa
juntos, em vez de apenas ela e o pai.
Mas no hospital, quando lhe contaram, ela estava dissociada
do seu corpo. De muitas maneiras, ainda estava. Sentia-se como se
estivesse em algum lugar fora de si, flutuando no éter. Uma gravidez
mal fazia sentido. Ela não conseguia aceitar essa realidade. E
assim, ela deixou para lá, até não conseguir mais.
— Foi demais? Meu Deus, Cami. Então você esperou para me
contar isso? Agora? Logo depois que eu recebi minha carta de
aceitação em Princeton?
— Eu não decidi nada. Eu só... eu não sei. Me desculpe.
Ele andava de um lado para o outro em frente à mesa de
centro, murmurando baixinho. Cami cambaleou levemente. Sentia-
se tênue como vapor, como se qualquer um que a olhasse pudesse
ver através do outro lado. Por um momento, ela se perguntou se
aquilo era mesmo real ou um pesadelo sobre a possível reação de
Hollis à notícia do bebê. Piscou, sentindo-se em risco de entrar
naquele estado de fuga em que se encontrara na janela ontem e em
outras vezes desde que voltara do hospital.
Ele se virou para ela, e nos poucos segundos em que ficou ali,
encarando-a, a própria voz dela ecoou em sua mente. Você é ruim,
Hollis. Não só agora, mas em geral. Você é mesquinho, fraco e
egoísta, e sempre se acha a pessoa mais importante da sala. Ela
balançou a cabeça levemente, mais uma vez, sem querer confiar
nos próprios sentimentos. Não agora.
— Eu sei que é muita coisa. Não espero que você fique feliz
com isso logo de cara.
Ele parou de repente e se virou para ela, com uma expressão
acusadora. — Você está? — perguntou. — Está feliz com isso?
— Feliz? Não sei se me lembro bem de como é a felicidade
agora.
Ele desviou o olhar, mais uma vez ignorando a dor dela. —
Houve algum tipo de engano, — disse ele, e sua expressão se
iluminou como se tivesse acabado de encontrar um alçapão em sua
cela. — Talvez você tenha errado na hora. Talvez o teste no hospital
tenha dado um falso positivo. Ou talvez você só queira que o bebê
que está carregando seja meu. Misturar as coisas, ou até mesmo
mentir descaradamente, seria compreensível, Cam.
Ela ficou boquiaberta e sentiu uma estranha contração no
peito. De todas as reações dele, ela não esperava por aquilo. Ele
estava mesmo insinuando que ela sabia que o bebê pertencia ao...
seu agressor?
— Posso fazer um teste de paternidade, se quiser. Quando o
bebê nascer. — Nunca vou te perdoar se me obrigar a fazer isso, —
pensou ela, e mais uma vez se perguntou se estava sendo justa.
— Quando o... — Ele apertou os lábios e se virou por um
momento, levantando as mãos e agarrando os cabelos. — Cam,
querida. — Ele contornou a mesa de centro, sentou-se novamente
no sofá e pegou as mãos dela nas suas mais uma vez. — Uma
criança? Uma criança é a última coisa que você precisa agora. Pense
nisso. Como você iria... Escute, há uma solução para esse
problema, Cami. Você não está pensando direito, mas não precisa
lidar com isso. — Ela notou que ele tinha dito você, e não nós. Ele
levantou a mão dela e beijou a articulação do seu dedo, os lábios
demorando-se.
Ele estava certo sobre isso. Infelizmente, aquele navio já tinha
zarpado. Ela tirou a mão da dele e a colocou sobre a barriga, onde
havia uma pequena curva.
— Já consigo sentir o bebê.
Ele se levantou novamente como se ela tivesse pegado fogo de
repente. — Sinto muito que isso tenha acontecido com você, Cami,
sinto muito mesmo. E, mais uma vez, entendo por que você quer...
— Ele pegou o celular da mesa de centro. — Minha mãe...
— Sua mãe? O que sua mãe tem a ver com isso?
— Ela sugeriu que eu começasse a faculdade do zero. Sem
distrações. Eu já estava planejando... Olha, foi bom enquanto
durou. Foi ótimo. De qualquer forma, eu te perdoo por mentir e
tentar fazer disso... — ele acenou com a mão na direção da barriga
dela — problema meu, mas tenho coisas demais acontecendo para
deixa-la me arrastar para isso. Me desculpa, querida. Sério. Você
está sofrendo e eu entendo. Mas... eu tenho que ir.
Ela o observou correr para a porta, praticamente tropeçando
na beira da sala de estar, onde o carpete se transformava em
ladrilho, e então o ouviu mexer na fechadura antes que a porta se
abrisse e batesse, o som ecoando na casa silenciosa.
Cami desabou de volta no sofá, encarando a parede à sua
frente, uma risada histérica borbulhando pela garganta. Ela tapou
a boca com a mão, abafando a hilaridade chocada. Mas então seu
rosto se contorceu, e a risada se transformou em um soluço. Cami
deitou-se e olhou fixamente para a parede. Mal sentia os lábios se
movendo, mas ouviu a própria voz embargada.
— Adeus, Hollis.
CAPÍTULO DOZE
Rex pegou o cartão EBT da mulher de aparência exausta
parada no caixa à sua frente e o examinou rapidamente. Ao lado
dela, uma criança que parecia ter uns oito anos puxou sua perna.
— Mãe, — ele choramingou, — pode me dar uma barra de
chocolate?
A mulher o empurrou para longe. — Shhh. Não posso pagar
isso.
O garoto ficou emburrado quando o computador vibrou, o som
que Rex conhecia bem. — Desculpe, — disse ele à mulher. — Isso
não cobre tudo. Seu pedido ultrapassou vinte e sete dólares. Você
tem outra forma de pagar o restante?
Ela o encarou sem entender nada antes de se virar para as
sacolas que já havia colocado no carrinho e retirar algumas coisas.
— Tire isso do meu pedido, — murmurou, cansada.
Atrás dela, na fila, vinha o som de resmungos. O maxilar de
Rex se contraiu. Como se cada um deles não tivesse precisado abrir
mão do produto pelo menos uma ou duas vezes. O supermercado
ficava em um bairro onde a maioria das pessoas assistia em
silêncio, nervosa, a cada item que compravam, e depois respiravam
aliviadas quando o valor era o que tinham na carteira.
Ele olhou para as coisas que a mulher havia decidido abrir
mão: um frasco de xampu e condicionador, um pote de sorvete e
um pacote com duas toalhas de papel. Isso provavelmente nem
cobriria o saldo devedor, a menos que aquele xampu e
condicionador em particular custassem mais do que ele estimava.
Seu olhar se voltou para o garoto, cujos olhos mal alcançavam o
balcão.
— Na verdade, — disse Rex, — tenho um cupom que posso
escanear para você. Deve cobrir isso.
— Realmente?
— Sim. Está tudo bem.
Ela pegou seus itens de volta e os colocou no carrinho. —
Obrigada, — disse ela, com os olhos se movendo confusos, mesmo
com a expressão aliviada.
O garotinho acenou com um gesto banguela enquanto eles se
viravam.
— Quantos desses cupons você recebeu? — perguntou o
próximo homem da fila.
— Só um, — disse Rex. — Alguma coisa promocional rara.
— Deveria ter dividido, — disse o homem. — Seria a coisa certa
a fazer.
— Justo é um mito, — disse Rex. — Nada nesta vida fodida é
justo.
— Com certeza, — resmungou o homem. Rex olhou para ele
enquanto examinava seus pertences. O sujeito parecia tão exausto
quanto a mulher à sua frente com a criança. A mulher que era a
razão pela qual ele agora colocaria vinte e sete dólares do seu
próprio dinheiro na caixa registradora para garantir que tudo
estivesse equilibrado. O homem era velho e abatido, e estava
comprando cerveja e um monte de comida ruim que levaria para
casa e provavelmente consumiria sentado em frente à televisão em
uma poltrona fedorenta.
— Quarenta e dois com dezoito.
O homem entregou o dinheiro e Rex deu o troco, e então
começou a escanear os itens da próxima pessoa na fila.
Nada nessa vida fodida é justo.
Ele nem sempre se sentiu assim, mesmo vindo de uma família
monoparental na periferia. Mesmo morando em um apartamento
alugado com um telhado que vazava quando chovia e um banheiro
que não era reformado desde que a casa foi construída nos anos
1950. Mesmo que sua mãe bebesse demais e trouxesse para casa
homens de quem ele não gostava e depois chorasse quando a faziam
se sentir péssima.
Apesar das escolhas ruins da vida dela, ele sabia que ela o
amava, mesmo que nem sempre se amasse. Na maioria das vezes,
ela tentava. Ele não guardava ressentimento dela. Não se sentia
uma vítima, mas muitas pessoas ao seu redor se sentiam. Ele
nascera com alguns defeitos, mas coisas boas também lhe
aconteceram, e ele sempre, não importava o que acontecesse, sentia
uma esperança inexplicável em relação ao seu futuro.
Ele era ótimo com números, e esse talento lhe abriu portas.
Ele trabalhou para isso e podia reivindicar isso.
Mas a herança do pai também lhe criara oportunidades e,
embora não fosse culpa dele, ele também se orgulhava disso. Isso
significava que ele havia entrado em uma escola particular em uma
área nobre da cidade, que tinha laboratórios, atividades
extracurriculares e alguns dos melhores professores do estado.
Significava também que ele conseguira uma vaga no time de futebol
americano, o que ele sabia que ficaria ótimo em suas inscrições
para a faculdade.
E sua herança o ajudou a conseguir bolsas de estudo na
faculdade de sua escolha.
Mas todas essas coisas foram revogadas.
Ele ficou sentado, com os olhos fundos e aflito, enquanto o
orientador escolar o informava que eles haviam tomado a difícil
decisão de conceder o dinheiro a outra pessoa.
— Mas por quê? — ele resmungou, engolindo em seco antes
que seu almoço subisse pela garganta e fosse vomitado pela boca.
A conselheira suspirou, desviando o olhar. Ela se sentia
péssima, ele percebia, mas também se perguntava se ele realmente
tinha feito o que diziam. E, por causa da dúvida, ela provavelmente
não havia lutado por ele.
— Sinto muito, Rex. Eles não acham mais que você é o melhor
representante da fundação deles.
— Isso é injusto, — disse ele. — Nenhuma acusação foi feita
contra mim porque sou inocente. — Inocente até que se prove o
contrário. Não era assim que deveria funcionar?
— Eu sei disso. Mas seu nome... foi manchado. E eles estão
preocupados com a reação negativa. Entendeu?
Ele entendeu, e isso piorou a situação. Ele entendeu que um
órfão de pai, um zé-ninguém, vindo do lado errado da cidade, havia
sido interrogado sobre o assassinato de duas mulheres bonitas e
ricas, e mesmo que não tivessem as provas necessárias para
prendê-lo, a suspeita era suficiente.
Ele havia se formado duas semanas antes e, embora esperasse
escolher um quarto no dormitório, em vez disso, estava examinando
a comida das pessoas, seus sonhos virando fumaça porque ele
decidiu dar uma corrida.
Ele entregou à senhora o recibo que acabara de pagar, e ela se
virou. Alguns itens se moveram em sua direção na esteira, e ele
ergueu os olhos para cumprimentar o próximo cliente da fila,
congelando ao ver quem era. Cami Cortlandt.
Seu coração disparou, depois subiu e então assumiu um
padrão irregular que lhe tirou o fôlego.
Os olhos dela se arregalaram e seus olhares se encontraram.
Parecia que apenas alguns segundos se passaram, e também uma
eternidade, enquanto tudo ao redor dele desaparecia.
— Algum problema? — perguntou impacientemente a pessoa
atrás dela. A realidade voltou à tona, e o som do alto-falante o fez
recobrar a consciência enquanto alguém pedia ajuda no caixa três.
Seus olhares se cruzaram, e Rex pegou o primeiro objeto, seus
olhos pousando no que estava logo atrás. Sua barriga enorme de
grávida. Ah. Ela se remexeu, os braços indo para frente e depois
caindo para o lado, obviamente percebendo que qualquer tentativa
de escondê-la não funcionaria.
Ela parecia estar perto do fim da gravidez. Ele fez as contas
rapidamente, com o coração apertado enquanto segurava uma
careta. Colocou um cacho de bananas na balança, esforçando-se
para lembrar o número do item que havia memorizado por
semanas.
— Oi, — disse ele finalmente. O que mais poderia fazer? Fingir
que não a conhecia? Olhou para ela novamente enquanto pegava
outro item. Ela parecia tão cansada quanto a mulher que não
conseguia pagar as compras. Cansada, triste e um pouco
atordoada. E jovem demais para qualquer coisa daquilo.
— Oi, — ela respondeu, com a voz tão monótona quanto seus
olhos.
Os dois ficaram em silêncio por um breve minuto, e então ela
desviou o olhar. Ele poderia ter cortado a tensão com uma faca.
Quase perguntou o que ela estava fazendo ali, naquela parte da
cidade, a quilômetros de onde morava, e em um supermercado que
não era nem um décimo tão bom quanto os que ficavam perto de
sua casa... ou onde tinha sido sua casa. Se ela tivesse se mudado
desde então... Ela teria que ter feito isso, certo? Quem poderia
retornar à cena de um crime como aquele? Quem poderia dormir
sob o mesmo teto novamente?
Sim, acho que... poderia ter sido ele. Rex Lowe.
Ele passou um pão pela tela de escaneamento rápido demais
e teve que fazer isso de novo, e de novo. E, ao colocar o item na
sacola, percebeu exatamente por que ela estava ali. Ela estava
escondida. Fazendo compras em um supermercado de merda do
outro lado da cidade às dez da noite, numa tentativa de evitar
qualquer pessoa que conhecesse.
Ele engoliu em seco. E de repente, sua raiva, frustração,
decepção e tristeza — verdade seja dita — pela forma como ela
acreditara nas mentiras sobre ele, tudo convergiu em seu peito. Só
que, desta vez, todos aqueles sentimentos negativos, que
continham uma centelha de retidão, ficaram em segundo plano
diante da empatia subjacente que ele continuava a sentir por ela,
agora multiplicada. E, meu Deus, a onda de mágoa que ele sentia
por ela, e também por causa dela, fez seus pulmões parecerem
grandes demais para o peito.
— Cami, você está bem? — perguntou ele suavemente
enquanto ela procurava na bolsa o valor exibido na tela.
Ela sacou um cartão de crédito e o encarou. Ao lhe entregar o
pequeno pedaço de plástico, ele viu que a mão dela tremia.
— Não, na verdade não. Você? — Havia um leve traço de
hostilidade em sua voz, e isso o feriu novamente, quando ele pensou
ter chegado ao fundo do poço em termos de vergonha.
— Não, — ele disse. — Na verdade, não.
Ela desviou o olhar, e ele pegou o cartão, seus dedos se
tocando antes que ele se afastasse e o passasse. Ele lhe entregou o
recibo, e ela o pegou, virando-se rapidamente após recolher suas
sacolas.
Ela saiu sem dizer mais nada, e ele a observou se afastar, com
seu andar lento e cambaleante, como as mulheres no final da
gravidez.
— Olá? — disse o velho da fila. — Você está chapado ou não?
— Rex olhou para ele, o rosto do sujeito franzido.
— Desculpe, estou no intervalo. — Ele acenou para a gerente
que estava por perto, e ela acenou com a cabeça e começou a
caminhar para substituí-lo enquanto ele tirava quinze minutos.
Rex tirou o avental enquanto caminhava em direção à copa
dos funcionários, por um pequeno corredor ao lado do atendimento
ao cliente. A sala estava vazia, como ele esperava, e ele se sentou e
se inclinou para frente, segurando a cabeça, os dedos passando
pelos cabelos. Não queria se sentir assim. E, meu Deus, se
continuasse naquela cidade, jamais conseguiria se livrar das
suspeitas que o cercavam, mesmo que tivesse sido oficialmente
inocentado. Mesmo que o DNA na cena do crime não
correspondesse ao seu, e nenhum DNA seu tivesse sido encontrado.
Não importava. Como ele dissera ao velho, nada naquela vida
fodida era justo.
E talvez, eventualmente, mesmo que ele não gostasse de
pensar que era verdade, ele se transformaria em um daqueles
velhos amargos que via noite após noite, terminando seus pedidos
individuais antes de irem para casa comer sozinhos.
Porque a questão era que ele já sentia a amargura tomando
conta de si, corroendo suas entranhas como um enxame de cupins.
Eventualmente, muitos anos depois, quando ele fosse apenas uma
casca oca, alguém o empurraria, e ele se desintegraria.
Você está sendo dramático, Lowe.
Talvez. Mas, droga, ele ainda sabia que não podia arriscar.
Porque parte da amargura era medo. De repente, ele percebeu
o quão perto estivera de ser preso e acusado de assassinato. Uma
testemunha previdente que não se dispusesse a mudar de ideia ou
a apresentar mais um fragmento de evidência circunstancial, e ele
poderia estar aguardando julgamento neste exato momento.
Ele poderia ter sido condenado.
Esse medo aumentou, percorrendo sua espinha quando ele se
imaginou sentado em uma cela por um crime que não cometeu
contra uma garota com quem ele sempre sonhou e que teria
protegido contra qualquer crime, mas especialmente um tão
hediondo quanto o que ela havia vivenciado.
Rex se levantou e se serviu de um copo de água filtrada do
tanque ao lado do quadro de avisos. Ele examinou os formulários
referentes aos funcionários do supermercado, tentando se
recompor antes de retornar ao caixa.
Seus olhos percorreram o quadro, e ele esvaziou seu copo ao
ver um anúncio parcialmente obscurecido por um panfleto
informativo. Rex jogou o copo no lixo à sua direita e afastou o
panfleto para poder ver melhor o anúncio. Seja Tudo o Que Você
Pode Ser.
Rex soltou um pequeno grunhido. Ele já tinha tentado esse
caminho. Agora talvez fosse a hora de ser o que quer que ele
pudesse ser, e era por isso que ele estava ali, ganhando tempo no
que parecia um espaço liminar.
Ele se virou para ir em direção à porta, mas algo o impediu.
Ele se virou e arrancou o anúncio do quadro. Dobrou-o, enfiou-o no
bolso e voltou ao trabalho.
CAPÍTULO TREZE
— Mais um empurrão, querida, e o bebê vai nascer, — disse a
enfermeira.
— Não consigo. Não consigo, — gemeu Cami, movendo a
cabeça de um lado para o outro no travesseiro, os dedos raspando
o lençol. Ela estava em trabalho de parto havia dois dias e fazendo
força havia três horas. Não conseguia mais. Ela havia chegado ao
seu limite.
Ela estava entorpecida, mas de alguma forma ainda sentia
dores em todos os lugares. Estava tão exausta que se sentia louca,
e seu corpo inteiro tremia. E pior do que tudo, sentia-se sozinha e
apavorada, o medo agravando a dor que ela acreditava que agora
seria uma constante. Um peso agonizante que ela carregaria para
sempre. Mãe, queria que você estivesse aqui. Preciso de você. Não
consigo fazer isso.
— Você consegue, querida. É isso aí. Pense em algo ou alguém
para dar o próximo empurrão e, então, agarre-se a isso com todas
as suas forças.
Dar esse próximo empurrão em algo ou alguém? Do que essa
mulher estava falando? Cami cerrou os dentes e tentou
desesperadamente não chorar. E de repente algo passou pela sua
mente dispersa. Ela se lembrou de como havia se inscrito para
correr uma meia maratona com algumas meninas da equipe de
líderes de torcida uma vez. Os organizadores tinham dado algumas
dicas motivacionais, e uma delas era dedicar cada quilômetro a
alguém para que, quando você sentisse que estava batendo em um
muro, pudesse extrair força com base no seu amor ou respeito por
essa pessoa.
— Certo, — disse a enfermeira, — aqui vai. Segure os joelhos,
Cami, e incline-se para frente.
Cami agarrou os joelhos e se curvou para frente, usando o que
restava de suas forças para se segurar.
Isto é por vocês — mamãe e Elle. Sinto muita falta de vocês. Eu
faria qualquer coisa para tê-las de volta.
Ela gritou durante o empurrão, lutando contra a agonia e o
desespero, imaginando o lindo sorriso da mãe e o jeito como Elle
cobria a boca ao rir, tímida por causa do aparelho. Eu te amo. Eu te
amo muito.
E de repente a pressão cessou, e o grito de Cami foi
acompanhado por outro. Ela desabou de volta no travesseiro e, por
um momento, soluçou junto com o bebê.
— É um menino, — disse a enfermeira suavemente. Cami
observou com os olhos turvos enquanto pesavam o bebê e o levavam
para uma cama preparada sob uma luz. Seus gritos se
transformaram em soluços suaves, e ele também parou de chorar.
Uma enfermeira a atendeu enquanto outra limpava o bebê, colocava
colírio em seus olhos e media seu comprimento. Então, o menininho
virou a cabeça, e ele e Cami se entreolharam do outro lado do
espaço. Cami viu que ele tinha o formato dos olhos dela e
possivelmente o nariz dela também. Ela não via Hollis nele, mas,
por outro lado, ela tentara esquecer a aparência de Hollis.
— A família está no fim do corredor, — disse a enfermeira
gentilmente enquanto enrolava o bebê em um cobertor e colocava
um gorro sobre sua cabeça calva. — Você gostaria de se despedir
dele? Pode ficar o tempo que quiser.
Ela não tinha planejado. Tinha planejado que levassem o bebê
imediatamente. Mas agora... ele estava ali, e ela o havia criado. Um
ser humano minúsculo. Uma tela em branco. Como seu corpo havia
alcançado tal feito quando seu coração e mente estavam
despedaçados?
Além disso, ela estava pensando na mãe e na irmã, e elas
ainda pareciam próximas dela de alguma forma, e ela sabia, sabia,
que se elas estivessem lá, também gostariam de vê-lo.
— Sim, eu gostaria de segurá-lo, — disse ela. — Só por um
minuto.
A enfermeira assentiu, com a preocupação estampada no
rosto.
— Vou avisar a família que você precisa de um tempo.
Ela o colocou nos braços de Cami que o encarou. Ele era
perfeito — a coisa mais linda que ela já tinha visto. Ele tinha os
olhos e o nariz dela, e quando ele franziu a boca, ela viu que ele
tinha uma covinha embaixo do lábio, como o pai e a Elle.
— Ah, — ela suspirou. — Você é perfeito.
Uma batida suave na porta a assustou um pouco, e ela ergueu
os olhos. — Entre.
Abriu-se uma fresta e o pai dela espiou pela borda.
— A enfermeira disse...
— Oi, pai, — ela disse.
O pai dela entrou lentamente, mancando quase imperceptível,
e sentou-se ao lado da cama.
— Um menino, — disse ele. — E ele é saudável?
Ela assentiu e então voltou a olhar para o bebê, cujas
pálpebras tremulavam e se fechavam. Ele estava quentinho e
seguro em seus braços, e o amor que a invadiu foi intenso e
inesperado. Uma lágrima escorreu por sua bochecha, e ela ergueu
os olhos para o pai.
— Cami, — disse ele, com a voz rouca. — Eu sei como isso é
difícil. Sei o que você está sentindo agora porque senti por você e
pela sua irmã. E sei que sua mãe sentiu isso ainda mais forte do
que eu. Mas, querida, o seu futuro... e o futuro dele...
— Eu sei, pai, — disse ela, com a voz entrecortada. Ela havia
tomado a decisão de entregá-lo para adoção porque era a coisa mais
amorosa a fazer por ele, e a escolha que lhe permitiria começar a
reconstruir sua vida e criar um futuro para si mesma. A alternativa
era ser uma mãe solteira que nem sequer tinha o ensino médio
completo.
Hollis a havia descartado completamente, assim como sua
família. Ela vira a mãe dele passando em frente a uma cafeteria
local recentemente e a olhara com horror e desgosto antes de
praticamente sair correndo. Eles se convenceram de que o bebê que
ela carregava pertencia a um dos homens que a haviam vitimizado,
e a princípio, ela planejara provar que estavam errados com um
teste de paternidade, mas então... que diferença fazia? Ela escolheu
a adoção, escolheu um casal lindo de um vídeo na agência e assinou
a papelada.
E se a gravidez dela tivesse sido resultado de um estupro? Os
Barclays a trataram como se a culpa fosse dela. Como se ela
estivesse contaminada pelo que lhe aconteceu. Hollis tinha ido para
Princeton e nem se despediu.
— Você pode chamar a enfermeira, pai? — ela perguntou. —
E levar o bebê? — Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.
Ela não podia entregá-lo a um completo estranho. Não podia.
— Quer pensar um pouco mais, querida? Se ainda precisar de
um tempo, todos entenderão.
— Não, pai. Por favor, leve-o. — Ela não podia prolongar a
situação. Só iria doer mais.
O pai dela fez uma pausa, com uma expressão de dor
estampada no rosto. — Claro, querida.
Ela se inclinou e colocou os lábios na cabeça do bebê,
inspirando-o enquanto suas lágrimas molhavam sua pele. — Eu te
amo, — murmurou. — Eu sempre te amarei, a cada momento de
cada dia. — Seu coração doía tanto que ela se perguntava como
conseguia continuar batendo, e sentiu um lamento primitivo
reverberando por sua medula.
Mas ela tinha escolhido isso. Era a escolha certa.
O pai dela se levantou e se inclinou, tirando o bebê adormecido
dos braços dela. — Esta é a escolha mais amorosa, CamCam. — Ele
olhou para o neto e então se inclinou e o beijou também. — Ele vai
ter uma vida linda.
Cami virou a cabeça, o choro aumentando, as lágrimas
escorrendo mais rápido, a ponto de ela mal conseguir enxergar.
Estava certo. Era o melhor. Então por que ela vibrava com o que
estava errado?
— Vai, — ela engasgou. Ouviu o pai se afastar e agarrou o
corrimão ao seu lado para não pular da cama e atacá-lo, implorando
para trazer seu bebê de volta, a pequena alma que estivera com ela
enquanto lutava por sua vida.
A porta abriu e fechou com um clique, e Cami virou o rosto no
travesseiro e soluçou.
CAPÍTULO QUATORZE
Onze anos depois
A casa do avô era uma mistura repugnante de lixo pútrido e
flores perfumadas. O velho obviamente havia se deteriorado
mentalmente nos últimos anos de vida, a julgar pelo lugar que ele
chamava de lar. Sempre fora excêntrico, assim como o homem que
morava lá, mas nunca fora imundo. Não daquele jeito.
Rex passou a mão sobre o que parecia ser um carburador em
cima da mesa da cozinha, o restante da superfície empilhado com
outras peças aleatórias de carro e velhos galões de leite que não
tinham sido enxaguados e agora cultivavam o que poderiam ser
fazendas de antibióticos dentro de suas cascas úmidas. Rex fez uma
careta e desviou o olhar. Ele pensou que conseguiria levar qualquer
lixo para o lixão usando sua caminhonete, mas estava claro que
isso não seria suficiente. Em vez disso, ele teria que alugar uma
daquelas caçambas de entrada de garagem e talvez até contratar
alguém mais forte.
Ele notou as flores em vasos espalhados por toda parte.
Estavam todas mortas, mas em algum momento — e embora ele
não tivesse sequer removido um pedaço de lixo — seu avô tentara
enfeitar o lugar com flores coloridas.
Algo naquilo parecia uma metáfora decente para a vida de seu
avô, mas ele não conseguia reunir motivação mental para decifrá-
la e transformá-la em uma frase coerente.
O que ele conseguiu concluir foi que a pontada no estômago
era culpa. Ele deveria ter feito questão de voltar e ver como o velho
estava. Ou pelo menos se despedir. Ele justificou dizendo a si
mesmo que seria rápido no final. Seu avô estava vendendo sucata
em um dia e no outro estava no hospital. Ele morreu um mês
depois, o que não era surpresa, depois de uma vida inteira de
bebedeira e falta de assistência médica básica.
Rex amava o avô, embora o avô materno fosse rabugento
demais para uma proximidade real. Mas ele havia ensinado Rex a
dar nó de gravata e a olhar fixamente nos olhos de alguém quando
o conhecia, e incutiu em Rex o orgulho que sentia em servir ao seu
país, porque ele havia feito o mesmo.
Mas ele também se irritava facilmente e tinha um lado muito
mau quando começava a beber. Ele xingava Rex bêbado quando ele
era mais novo — cabeça de merda, Chefe Cabeça-dura, só para citar
alguns.
Nomes que seu avô parecia ter apagado completamente de sua
memória surgiram no dia seguinte, e ainda assim, de alguma forma,
aquelas calúnias esquecidas pareciam tatuadas na pele de Rex. O
que era honestamente ridículo, porque, mesmo naquela época, Rex
sabia muito bem que não era um idiota, nem tinha cérebro de
merda, e a besteira de “Chefe” tinha sido simplesmente estúpida. E
baixa. O que Rex poderia fazer com a outra metade de sua herança?
Ele não tinha tido poder de decisão sobre quem seria seu pai.
Então, sim, aquele insulto era risível, mas ainda assim doeu.
Porque foi a pura maldade que o machucou mais do que os nomes,
e o fato de terem sido lançados contra ele por alguém que deveria
estar do seu lado.
Alguém que deveria fortalecê-lo, não destruí-lo.
Ele conseguia articular isso para si mesmo agora, e ainda
assim sentia o eco da mágoa ao imaginar o olhar estreito do avô,
olhando para ele com desdém.
Rex suspirou. O velho havia criado duas filhas mais gentis do
que ele, mas uma delas gostava tanto da bebida quanto, se não
mais. Por alguma razão, as críticas constantes do pai não afetaram
sua tia Carolyn. Ou talvez ela até as tivesse usado como motivação
para provar que ele estava errado. Quem poderia dizer por que uma
pessoa era mais afetada pela crueldade casual do que outra?
Era engraçado como sair para o mundo e crescer um pouco
clareava o lugar onde você havia começado. Ele passara onze anos
longe de Aspen Cove, voltando para casa apenas de vez em quando
para férias e depois retornando à sua vida. Conhecera todo tipo de
gente, de todos os lugares, cada uma com suas próprias histórias,
muitas melhores que a dele, algumas bem piores.
Ele viu uma foto antiga na parede, da época em que seu avô
serviu no exército. Ele vestia uniforme militar e estava parado em
algum deserto, com o braço sobre os ombros de outro soldado
enquanto riam para a câmera. Uma foto de Rex uniformizado estava
enfiada na lateral do porta-retratos. Sua mãe devia ter dado uma
ao avô. Os olhos de Rex se demoraram naquela foto, e saber que
seu avô a havia colocado ao lado da dele fez com que uma bola de
emoção se fechasse em sua garganta. Ele não conseguia explicar o
sentimento que o invadiu, mas ver aquela foto ali parecia
estranhamente o pedido de desculpas que Rex nunca recebera e
nem sabia que precisava.
Ele atravessou a casa e abriu a porta dos fundos, sentindo o
aroma floral se espalhar na brisa. Puta merda. Ele ficou boquiaberto
com a exibição selvagem e colorida de flores crescendo em todas as
direções possíveis. Da última vez que estivera aqui, estava coberto
de mato; agora era uma verdadeira selva. Olhou para baixo e
avistou uma pedra. Era uma daquelas pedras de mosaico feitas de
cacos de vidro, espelhada e iridescente, o que acrescentava um
toque de estranhamento ao espaço.
— Você era um maluco, velho.
Rex pisou na pedra e, dela, pôde ver outra quase escondida
sob os galhos curvados de algumas flores roxas e pesadas que ele
não conseguia identificar. Ele avançou até aquela e pôde ver outra
de lá. Parou e então se virou para a casa. Parecia haver algum
método naquela loucura, mas Rex não tinha paciência para
descobrir naquele momento. O que ele sabia era que aquela pedra
precisava ser arrancada se aquele espaço pudesse se tornar um
quintal utilizável para uma família disposta a comprar a
propriedade.
Ao fechar a porta, ele parou e olhou para trás. Algumas dessas
plantas estavam ali há décadas e, embora seus avós não tivessem
cuidado de nada, havia beleza ali em meio ao caos. Talvez houvesse
um parque ou um asilo querendo ampliar seu jardim e que estivesse
disposto a desenterrar essas plantas e transferi-las para outro
lugar. Talvez um jovem casal que tivesse gastado até o último
centavo comprando uma casa para reformar estivesse disposto a
vasculhar aquela bagunça em busca das rosas que ele conseguia
cheirar, mas não enxergar.
Talvez ele publicasse um anúncio no Facebook Marketplace e
visse se havia interessados. Caso contrário, ele seria absolvido de
qualquer culpa quando começasse a arrancar as flores pela raiz e
jogá-las no lixo.
Ele voltou para a sala e olhou ao redor por um instante, sem
saber por onde começar. — Acho que cabe a mim limpar para você,
— murmurou. Porque sua mãe com certeza não faria isso. Se ele
conseguisse encontrá-la. Ela havia se mudado para um novo
endereço com o namorado mais recente, e seu telefone estava
desligado.
Ele também telefonara para a tia Carolyn, que trabalhava
como enfermeira itinerante nos últimos anos, mas ela também não
tinha as últimas informações da irmã. Na verdade, ela contara a
Rex que a mãe dele desligara o telefone na cara dela um mês depois
de Carolyn tentar lhe dar um conselho não solicitado. Isso soava
exatamente como a mãe dele, e ele não ficou nem um pouco
surpreso.
Rex saiu de casa em busca de ar fresco para poder tomar
providências para limpar o lixo que havia passado a vida inteira.
CAPÍTULO QUINZE
Cami ergueu uma caixa no balcão da loja de presentes, e Bess
ergueu os olhos de onde estava desempacotando canecas novas em
uma prateleira perto do caixa.
— A amostra do seu kit crisálida chegou, — disse ela com um
sorriso.
Bess respirou fundo, animada, e caminhou até onde Cami
havia colocado a caixa. Abriu a tampa e retirou o protótipo do item
que Bess havia projetado. Era um lindo terrário com vidro curvo e
detalhes em latão antigo. Mesmo sem as flores e folhagens dentro,
parecia uma peça de família, passada de geração em geração.
Bess o inspecionou, virando-o para um lado e para o outro, e
então o pousou. Ela se abaixou e juntou algumas plantas artificiais
em um armário perto da caixa registradora. Depois de arrumar as
plantas lá dentro, recolocou a cúpula e então se afastou e olhou
para ele, com um sorriso no rosto. — Está perfeito.
— Está sim. — Cada um incluía uma pequena flor em vaso —
uma narciso-de-papel ou uma orquídea, ou talvez um cardo — com
folhagens e vários galhos podados. A equipe coletava pessoalmente
os ovos de borboleta e os transferia para as flores do kit, e cada um
continha uma etiqueta com instruções sobre como cuidar dela
enquanto se transformava em lagarta e, em seguida, emergia como
uma borboleta destinada a ser libertada e embelezar o mundo.
— Vou avisar a empresa que está tudo certo, — disse Cami. —
Trezentas unidades para começar, e depois veremos o que acontece.
Bess assentiu animadamente. — São os mais bonitos do
mercado.
— E os mais caros, — disse Cami.
— Eu sei. Mas é por isso que eles são ótimos presentes.
Devíamos começar a pensar em acessórios. Talvez pingentes de
joias ou artigos de papelaria... Vou enchê-lo amanhã e começar a
tirar fotos para o nosso site.
— Perfeito, — disse Cami. Sua fazenda de borboletas, a
Flutterfly Gardens, era uma operação que envolvia todos os
funcionários, e Bess, que trabalhava no caixa da loja de presentes,
também gerenciava o site e fazia a maior parte da fotografia para
anúncios online e impressos. E criava novos produtos, que Cami
não tinha tanta certeza de que seriam um bom investimento, mas
com a ideia de “você precisa gastar dinheiro para ganhar dinheiro”
em mente, ela estava disposta a tentar.
Cami havia aberto a fazenda de borboletas, o santuário e a loja
de presentes em homenagem à sua mãe e irmã sete anos antes e,
embora mal desse lucro, estava no azul e, mais importante, Cami
acordava todos os dias ansiosa pela vida.
Ela se cercava de beleza e serenidade e sentia-se motivada em
seu trabalho. A Flutterfly fornecia borboletas vivas para zoológicos,
jardins botânicos, salas de aula e similares, e também oferecia
borboletas locais para soltura em eventos especiais. Esse era um
dos seus projetos favoritos.
Vários anos antes, eles haviam começado a construir uma
exposição para os visitantes passearem, e a previsão era de que ela
fosse concluída até o final do ano. Ela adoraria expandi-la
eventualmente e, possivelmente, alugar cantinhos escondidos para
jantares privados fora do horário comercial, onde pedidos de
casamento poderiam acontecer sob luzes brilhantes, enquanto suas
borboletas complementavam o ambiente caprichoso. Ideias
alimentavam constantemente sua criatividade, mesmo que os
recursos não acompanhassem o ritmo. Ainda assim, ter algo alegre
e inspirador em que se concentrar era uma bênção para ela.
— A Marta vem assumir aqui em dez minutos, — Bess disse a
ela quando Cami voltou do estoque, onde deixara a amostra para
Bess fazer sua mágica. — Você ainda vem comigo para coletar
aquelas plantas, certo?
— Plantas?
— Você sabe, aquelas listadas no Marketplace?
— Ah, a venda da propriedade rural? — Bess havia
mencionado algo ao telefone no dia anterior, mas Cami estava
distraída com seu GPS enquanto fazia uma entrega e mal ouviu.
— Sim, brilhante, não é? — disse Bess. — Acho que nada de
dentro da casa está tombado. Mas, aparentemente, o jardim está
invadido e, em vez de desenterrar todas as plantas e arbustos
floridos e jogá-los num aterro sanitário, o proprietário os ofereceu
de graça a quem quisesse desenterrá-los. As fotos são incríveis. Há
malvas-rosas aos montes. Poderíamos adicioná-las na extremidade
sul da exposição, já que está praticamente vazia lá. Acho que vi
alguns arbustos de borboletas e muitos ásteres e flores também.
A parte gratuita parecia incrível, e ela ficou feliz por Bess
vasculhar o Facebook Marketplace com frequência e ter descoberto
o anúncio antes de outra pessoa. — Quem vai?
— Até agora, só eu e o Quincy. Todos os outros estão
ocupados. Precisamos de ajuda, — disse Bess, juntando as mãos
em oração.
Os outros eram apenas cinco funcionários, mas Cami não
tinha nada na agenda no momento, então sorriu e acenou para
Bess.
— Posso ir junto para ajudar com mais um par de mãos.
— Sério? Incrível. O dono disse que não estaria lá, mas está
deixando o portão lateral aberto.
— Certo. Só me dê dez, e estarei pronta.
Ela quase riu alto quando viu o jardim pela primeira vez.
Cami, Bess e Quincy passaram pelo portão lateral e viram que todo
o quintal estava repleto de flores silvestres de todos os tipos e cores.
Era completamente selvagem e excessivamente florido. Era ao
mesmo tempo delirante e encantador, e parecia um conto de fadas
de uma forma que ela não conseguia descrever. O jardim do
Chapeleiro Maluco.
O local de nascimento de Sininho.
— Meu Deus, — ela sussurrou. — Isso é...
— Desequilibrado? — sugeriu Quincy.
— Indisciplinado, — disse ela com um sorriso. — Mas lindo.
Ela passou a mão sobre uma hortênsia que chegava aos seus
ombros, com flores em formato de bola do tamanho da cabeça de
uma criança pequena. Havia malvas-rosa que deviam ter quase dois
metros de altura, além de delfínios e arrudas que se estendiam até
o céu. Ela conseguia sentir o cheiro de lavanda e rosas de onde
estava, uma mistura inebriante, ao mesmo tempo inebriante e
relaxante.
— O dono vai dar isso de graça? Tudo?
— O que quisermos, desde que a gente desenterre, — dissera
Bess. — Mas ele está vendendo esta propriedade, então
provavelmente deveríamos deixar algumas, pelo menos perto da
cerca para manter a privacidade.
— De qualquer forma, precisaríamos triplicar nossa equipe
para tirar tudo isso daqui, — acrescentou Quincy, o estudante do
ensino médio que trabalhava nos fins de semana fazendo
paisagismo para a Flutterfly.
Quatro horas depois, toda a traseira do veículo de entrega
estava lotada, com algumas plantas empilhadas em várias
camadas. Elas já pareciam bastante murchas, mas isso era de se
esperar. Ficariam em choque por alguns dias, mas então, com sorte,
com um pouco de carinho e atenção, cada uma delas voltaria à
glória em que haviam sido encontradas.
Quando Bess mencionou este anúncio, Cami não fazia ideia
da sorte inesperada que era. Elas não poderiam ter comprado flores
tão bem-estabelecidas em nenhum viveiro, e essa quantidade de
plantas teria custado milhares. Milhares que elas não tinham. Elas
preencheriam a área de exposição com tanta beleza.
— É só isso que conseguimos colocar, — disse ela ao restante
da equipe de duas pessoas, que tinham acabado de trabalhar até
ficarem com bolhas e queimaduras de sol. — E ainda temos um
trabalho pela frente para enterrar tudo, mesmo que isso possa
esperar até amanhã. — Eles descarregariam e dariam pelo menos
uma boa borrifada, e então as colocariam na terra pela manhã. Mas
até mesmo o descarregamento exigiria energia que havia sido gasta
na última meia hora. O trabalho valia a pena, mas tinha sido muito.
Os músculos dos braços dela queimavam.
Bess se levantou enquanto Cami olhava ao redor do quintal
limpo. Ainda havia muitas plantas e flores, mas elas já haviam
removido o suficiente para que tudo parecesse ter um propósito
agora, com as pedras de mosaico criando um caminho livre da porta
dos fundos até a cerca mais distante.
— Você acha que o dono doaria os alimentadores de pássaros?
— Quincy perguntou.
— Esses não estavam listados, — disse Bess.
— É, mas eles nem podiam ser vistos antes de chegarmos. Ele
pode nem saber que eles existiam. Talvez sejam só mais uma coisa
para se livrar.
Cami avistou um alimentador de ferro fundido de aparência
rústica em uma estaca com uma borda recortada e um pássaro de
ferro pousado na borda. Era lindo e delicado, e se o dono fosse
simplesmente jogá-lo fora, ela certamente ficaria feliz em tirá-lo das
mãos dele. — Podemos mandar uma mensagem para ele e
perguntar. Se for o caso, podemos voltar outro dia. — Cami se
abaixou e pegou a última planta que Quincy tinha acabado de
desenterrar, uma linda equinácea roxa que suas borboletas iriam
adorar.
— Vamos reunir as ferramentas, — disse Bess enquanto Cami
se virava para levar a última planta para o caminhão.
— Obrigada. — Enquanto caminhava, ouviu a aproximação de
um veículo e olhou por cima do ombro para ver uma caminhonete
preta se aproximando da casa. O sol estava começando a se pôr e
já havia baixado, de modo que as nuvens se destacavam em rosa
sobre um fundo azul. Era lindo e onírico, e o aroma irresistível das
flores apenas complementava o ambiente. Ela podia ouvir o homem
saindo da caminhonete e, em seguida, os sons de Bess falando com
ele enquanto Cami reorganizava algumas plantas perto da frente e
abria espaço para a última. — Aguentem firme, meninas, logo as
levaremos para a nova casa. — Então, ela mexeu nelas um pouco,
verificando se estavam tolerando o estresse que estavam sofrendo
antes de fechar a porta e tirar a chave do bolso para trancá-la bem.
Cami contornou o veículo e sorriu para Quincy, que estava
com as mãos cheias de pás que eles tinham usado.
— Pode colocar isso no meu porta-malas, — disse Cami. — O
caminhão está cheio até a boca.
— Entendi, — disse Quincy.
Cami se virou na direção da casa, semicerrando os olhos em
direção à varanda, onde podia ver o contorno másculo do homem
que gentilmente presenteara seu negócio com milhares de dólares
em belas plantas frondosas. Bess estava parada à direita dele, e
Cami ergueu a mão para se proteger do brilho intenso ao se
aproximar, com aquele brilho rosa e azul bem em seus olhos
dificultando a visão.
Quando ela chegou perto o suficiente para que a casa
bloqueasse a luz direta, Cami abaixou a mão, seu sorriso
desaparecendo enquanto ela tropeçava levemente na terra.
Ela quase não o reconheceu.
Rex Lowe a encarava, com o queixo cerrado e os olhos
ligeiramente semicerrados, enquanto ela se equilibrava e dava os
últimos passos para ficar na base da varanda baixa.
De repente, ela foi transportada de volta no tempo. Sentia-se
instável, uma mistura de passado e presente a atingia e quase a
derrubava. Fazia onze anos que não o via, e embora o garoto de
quem se lembrava ainda tivesse os olhos amendoados, as maçãs do
rosto salientes e a boca reta — agora franzida —, quase tudo nele
havia mudado. Onde antes ele se portava como se não tivesse muita
certeza do que fazer com sua altura, agora ele se mantinha alto e
orgulhoso, ombros largos para trás, as linhas do corpo musculosas,
porém esbeltas, cada centímetro dele totalmente sólido.
Ele vestia uma calça jeans preta e uma camiseta cinza com o
logotipo do exército. Ela ouvira em algum lugar que ele havia
entrado para o exército e se envolvido com computadores ou
números, ou talvez ambos. Mas ela não esperava vê-lo novamente.
Não havia pensado muito mais nisso.
Bess, que estava tagarelando, finalmente percebeu que Rex
estava olhando para algo atrás dela e se virou, dando um sorriso
tonto para Cami. — Ei, Cam. O Sr. Lowe disse que podemos usar
qualquer fonte, comedouro ou pedra que quisermos. Qualquer coisa
para limpar o quintal. — Ela olhou para Rex e inclinou a cabeça,
flertadora. — Não poderíamos estar mais agradecidos. Você
deveria... aparecer um dia desses e ver suas plantas serem
realocadas.
Ele olhou para Bess como se ela tivesse falado japonês.
— Só se você estiver por perto ou precisar de ajuda com
borboletas é que podemos nos encontrar, — ela disse com uma
risadinha, claramente apaixonada pelo homem.
A boca de Cami ficou seca, e ela juntou as mãos, sem saber
bem o que fazer com elas. Os olhos dele estavam focados nela agora.
Ela desviou o olhar, inspirando fundo e então inclinou a cabeça,
seu olhar percorrendo as rosas que cresciam na frente da casa e se
espalhando pela saliência sob a qual ele estava. O momento
pareceu surreal e um pouco ridículo. Ela soltou uma pequena
gargalhada, levando os dedos à boca e apertando os lábios como se
o som tivesse escapado contra sua vontade. Ela encontrou os olhos
dele novamente enquanto sua carranca se aprofundava.
Ela conteve o delírio. O que quer que Rex estivesse pensando,
provavelmente também achava que ela e Bess eram pelo menos um
pouco malucas. Ela não conseguiu conter o riso nervoso. Era só a
visão dele, aquele homem alto e musculoso, provavelmente
habilidoso com armas e vestindo uma camisa com um logotipo
militar, em pé diante de uma cascata de flores cor-de-rosa. Era
como se o GI Joe tivesse invadido o baile de formatura e estivesse
olhando para ela de frente para o fundo da foto.
Deus, ela sentiu como se tivesse adormecido e acordado em
alguma estranha realidade alternativa.
Bess estava olhando para eles agora, claramente confusa pela
tensão que finalmente sentira.
— Bem, — disse Cami. A palavra escapou de sua boca,
emergindo algumas oitavas acima de sua voz normal. — Bem, —
corrigiu ela, abaixando o tom. — Foi muito gentil da sua parte. Elas
serão bem cuidadas. — Houve um momento de silêncio. — As
plantas, — disse ela, como se precisasse de esclarecimento.
Rex encostou-se no poste ao lado, cruzando os braços e
fazendo com que seus músculos impressionantes se tornassem...
ainda mais impressionantes.
— Sem problemas. Você fez o trabalho. Agradeço por elas
terem ido embora. Ganha-ganha.
Ela pigarreou. — De fato. Certo, pronta, Bess?
— Hum, claro. Tudo bem então. Até mais. — Ela acenou para
Rex e desceu os dois degraus para se juntar a Cami. Elas
começaram a caminhar em direção à caminhonete, que Quincy já
tinha ligado. Cami podia vê-lo mexendo no celular pelo para-brisa.
Quando se afastaram o suficiente, Bess olhou para trás,
inclinou-se e sussurrou: — Você o conhece? O que foi aquilo?
O que foi aquilo? Por que ela fingiu não tê-lo reconhecido? Ele
parecia zangado. E ela entendia o porquê. Perfeitamente. Porque
aconteceu... bem, aconteceu no momento mais sombrio da vida
dela, que ela o havia injustiçado. Terrivelmente. Ela não sabia disso
na época. Não tinha sido intencional. Mas ele obviamente ainda
estava zangado com ela.
— Vá com Quincy, — disse ela a Bess. — Estarei logo atrás de
você. — Ela ouviu Bess emitir um pequeno som interrogativo
enquanto se virava e começava a caminhar de volta para Rex.
Ele ergueu o ombro levemente no poste, mas, tirando isso,
permaneceu na mesma posição enquanto ela retornava para ficar
abaixo dele, onde estivera um minuto antes.
— Eu... obrigada. Eu deveria agradecer pessoalmente. Sinto
muito se isso o pegou de surpresa. Eu também não sabia. Que seria
você. Que isso... — ela apontou a mão em direção à casa — era
você. É você.
Ele parou por um instante, os olhos percorrendo o corpo dela
rapidamente e depois voltando para o rosto. Sua expressão não
dava a mínima ideia do que ele estava pensando. — Está tudo bem.
Ótimo. Isso não parecia nada bom.
Ela tentou sorrir, embora parecesse tão trêmulo quanto suas
emoções. Em um momento inesperado, o passado — seu trauma
indizível — apareceu bem na sua frente.
— Certo. Então, como você disse, ganha-ganha. — Ela subiu
os três degraus e estendeu a mão para ele. Ele olhou para ela e, por
um momento, ela pensou que ele não fosse apertá-la, mas então ele
se endireitou, abaixou os braços, passou a palma da mão no quadril
e agarrou a mão dela. A sensação da mão dele envolvendo a dela
causou um arrepio em sua pele que não era totalmente
desagradável nem puramente nascido de desconforto. O que mais
era, no entanto, ela estava confusa demais para identificar. —
Então... eu adoraria se o passado pudesse ser deixado para trás.
Um músculo saltou em seu maxilar, e ele soltou a mão dela.
— É passado? — Ela assentiu, o coração batendo mais rápido
e causando uma leve tontura. Aquilo parecia completamente
errado. Ela estava lidando mal com a situação, e sabia disso.
Dissera a ele que lamentava que ele tivesse sido pego de surpresa,
mas ela também tinha sido. E estava se debatendo. Não conhecia
aquele homem, nem naquela época, e certamente não agora. E, no
entanto, havia tanta coisa entre eles. Tanta coisa. Se ela não havia
percebido antes, percebia agora.
Rex olhou de soslaio para trás dela e passou os dentes pelo
lábio inferior antes de encará-la novamente. — Posso ser franco?
Ela piscou enquanto ele obviamente esperava pela resposta à
pergunta que ela considerara retórica. — Ah, sim. Espero que sim.
Ele olhou de lado por um instante, como se estivesse reunindo
as palavras certas, e ela recuou um pouco, como se aquelas
palavras fossem ser disparadas contra ela.
— Não sei exatamente o que são as coisas do passado quando
se trata de você, Cami, — disse ele finalmente, encontrando os olhos
dela. — Se você está querendo esconder o passado entre nós, tudo
bem para mim. — Ele fez uma pausa, abaixando a testa. — Eu não
poderia lamentar mais o que aconteceu com você. O que você
sobreviveu... é impensável. Mas as consequências me arruinaram
também. Eu jamais compararia as perdas que sofremos; sei que as
minhas nem chegaram perto disso. Espero que você tenha
encontrado um jeito de seguir em frente, mesmo que seja só na
maioria dos aspectos. Mas, Cami, eu realmente não tenho mais
nada a te dizer, além disso. — E então Rex Lowe se virou e voltou
para casa, fechando a porta com firmeza entre eles.
CAPÍTULO DEZESSEIS
Cyrus Sanders acordou em um colchão com cheiro de mofo
em um quarto desconhecido. Por alguns minutos, ele simplesmente
encarou a parede de madeira, tentando recuperar a memória de
como havia chegado ali. Um vislumbre de sapatos empoeirados se
movendo à sua frente passou por sua mente, e o som de um carro
diminuindo a velocidade no cascalho, por cima do seu ombro. Ele
deve ter olhado para ver quem estava parando atrás dele, certo?
Mas, por mais que tentasse, não conseguia tirar essa lembrança da
cabeça. Tudo o que se lembrava era que estava voltando da escola
para casa quando o carro se aproximou. Era tudo o que ele
lembrava antes... de agora.
A apreensão o percorria, mas parecia abafada, como se alguém
tivesse jogado um cobertor encharcado sobre suas emoções. Ele
estava assustado, mas não parecia importante. Cautelosamente,
ergueu a cabeça dolorida, com os ouvidos atentos a qualquer som.
Ouviu o distante gotejar de água e um estrondo distante que
poderia ser de um avião ou trem. Pássaros também. Muitos deles.
A cama rangeu alto quando ele rolou, e parou de se mexer
novamente enquanto ouvia passos se aproximando. Mas se alguém
estava ali com ele, o som das molas enferrujadas não o havia
alertado de que ele estava acordado.
E tinha que ter alguém ali, certo? Alguém que estava naquele
carro e se aproximou antes que sua memória se apagasse. Antes
que o atropelassem, o drogassem ou o que quer que tivessem feito
para que ele desmaiasse. O que significava que eram pessoas más
que queriam lhe fazer mal.
Sua mente clareou um pouco mais, e aquele medo distante se
aproximou. Os pelos da nuca se arrepiaram, e ele percebeu como
sua boca estava seca.
Ele olhou para os próprios pés, quase esperando ver uma
corrente ou corda prendendo-o à cama, mas eles estavam soltos e
ele ainda calçava os sapatos. Suas mãos também estavam
desamarradas, e ele se sentou lentamente, parando a cada rangido
das molas e permitindo que as leves dores na cabeça se
acalmassem. Cyrus avaliou brevemente seu corpo, aliviado por
estar — pelo menos até então — ileso.
Havia uma garrafa de água no chão, perto da porta, e ao lado
dela havia um pacote de cupcakes Hostess.
Ele ficou parado, esperando novamente por passos que nunca
vieram. E então, o mais silenciosamente possível, foi até a única
janela na parede oposta e puxou a cortina. Grades. Havia grades de
aço do lado de fora do vidro, próximas demais para ele passar.
Não chore. Não chore.
Ele não choraria. Fazia três anos que Cyrus não chorava,
embora já tivesse muitos motivos para chorar, e não ia começar
agora.
Alguém o havia capturado e colocado em um quarto trancado
com grades na janela. Ele pressionou o rosto contra o vidro, mas
tudo o que conseguia ver eram árvores. O céu acima era de um
laranja suave, o que lhe indicava que o sol estava se pondo. Teria
sido um dia, ou mais de um? Cyrus não tinha certeza, mas sabia
que logo escureceria.
O medo tomou conta dele, invadindo seu organismo e
destruindo o que restava da droga que lhe tinham dado, e ele correu
para a porta, sacudindo a maçaneta trancada e batendo nela com
as palmas das mãos. — Olá! Ei! Socorro! Preciso de ajuda!
Ele se virou, o peito subindo e descendo com a respiração
ofegante enquanto olhava ao redor em busca de uma arma ou algo
que pudesse quebrar a maçaneta. Ou o vidro. Viu algo no chão, na
cabeceira da cama, e foi até lá. Era uma bacia de plástico. Cyrus
sabia o que era, pois havia uma em seu quarto de hospital depois
do acidente, e a enfermeira lhe dissera que, se precisasse vomitar,
era ela que deveria usar.
Ele correu de volta para a janela e olhou para fora novamente.
Conseguiria usar a bacia para quebrar o vidro? Provavelmente não.
Olhou novamente para a estrutura de metal da cama. E quanto a
isso? Talvez, se conseguisse levantá-la. Mas mesmo que
conseguisse, e mesmo que conseguisse quebrar o vidro, só
conseguiria passar um braço pelas grades e, pelo que via, estava no
meio do nada. Poderia gritar por dias e ninguém o ouviria.
Cyrus conteve um soluço. Não. Ele não choraria.
Mas ele precisava fazer xixi. Sua bexiga estava cheia e suas
calças estavam secas. O que significava que provavelmente só
faziam algumas horas desde que ele fora levado. Ele usou a bacia e
bebeu metade da água da garrafa, deixando os cupcakes onde
estavam.
Então ele foi até a janela e bateu nela por alguns minutos,
gritando por alguém — qualquer um — mas não obteve resposta.
CAPÍTULO DEZESSETE
Rex passou a mão pelos cabelos enquanto soltava um longo
suspiro, os músculos relaxando com a expiração reprimida. Camille
Cortlandt. Em sua casa. Ele quase caiu.
Você o conhece? ele ouviu a colega de trabalho de Cami
perguntar enquanto elas se afastavam.
Cami não respondeu, e ele também não tinha certeza se
conseguiria. Eles se conheciam? Sim e não. Quase não. Então por
que ele ainda estava tentando se livrar das emoções que o
invadiram no momento em que a viu, deixando um rastro de
queimadura? Cami tinha aparecido para remover as plantas que ele
havia listado online. Isso o fez querer rir. Aparentemente, o universo
gostava de brincar com ele.
O que a mulher chamada Bess, que atendera ao anúncio,
dissera que era o negócio delas? Algum tipo de jardim? Algo a ver
com borboletas? Não podia estar certo, podia? Ele ficou tentado a
pesquisar, mas resistiu. Que importância tinha? Então, ele e Cami
estavam de volta à mesma cidadezinha — se é que ela sequer havia
saído — onde sua terrível história acontecera. Talvez ele a
encontrasse em algum momento. Bem, eles já tinham superado
isso, e agora, se se encontrassem novamente em algum lugar,
poderiam, em paz, desviar o olhar e seguir em frente.
Rex estacionou sua caminhonete em frente à casa rústica,
quadrada e marrom-lama, e desceu. Ele notou as flores
cuidadosamente espaçadas que haviam sido plantadas ao longo da
passarela e que alguém havia se esquecido de regar.
A parte de tela da porta estava faltando na parte superior e
rasgada na parte inferior, como se um gato a tivesse usado para
afiar suas garras.
Rex bateu uma vez e, como não obteve resposta, bateu de
novo, desta vez mais forte, segurando a porta de tela aberta
enquanto olhava por cima do ombro para o bairro em ruínas. Ele
nunca tinha estado nessa casa — era a casa alugada pelo atual
namorado de sua mãe —, mas eles moravam a duas ruas de
distância antes de ele partir para o exército. É claro que eles já
haviam morado em muitos outros lugares próximos antes disso,
trocando tanto de aluguel que às vezes ele mal desfazia as malas do
quarto antes de se mudarem para outro lugar. Os motivos eram
vários e idênticos: o chefe dela mentia sobre ela. A senhoria era uma
vadia. O vizinho que se fodesse. Todos sempre tinham culpa, exceto
sua mãe, e ainda assim ela era o denominador comum sempre que
suas vidas saíam dos trilhos.
Ele poderia ter aprendido com ela uma lição de vitimismo e
culpado o mundo pelo que lhe fora tirado também. Certamente teria
sido mais fácil, e talvez até satisfatório a curto prazo. A indignação
justificada podia ser muito boa. Mas ele não estivera disposto a
fazer isso, pelo menos não por muito tempo, e agora estava feliz por
não ter perdido tempo.
Bateu uma terceira vez e ouviu o som distante da voz da mãe,
dizendo-lhe para segurar as calças e esperar um minuto. Não
conseguiu conter o sorriso que se formou em seus lábios. Ela estava
uma bagunça, presa no mesmo pântano virtual, mas ainda assim
conseguiu manter a coragem.
A porta se abriu, e ela estava lá, vestindo uma cueca boxer e
um suéter de Natal vermelho e verde, apesar da época. Seu cabelo
estava completamente desgrenhado e seus olhos estavam
vermelhos da ressaca que ele esperava, mesmo sendo duas da
tarde. Ele sorriu.
— Oi, mãe.
— Puta merda. Rexy? — Ela correu para frente e o envolveu
em seus braços, e ele a abraçou de volta, inalando os aromas de
vodca velha e Clinique Happy, o mesmo perfume que ela usava
desde que ele se lembrava. Ela o puxou para dentro de casa. — Por
que você não me avisou que viria?
— Eu não sabia se conseguiria, até o último minuto, — disse
ele. — Terminamos um trabalho mais cedo, mas tive que esperar
alguns papéis chegarem. Liguei e deixei uma mensagem na
segunda-feira e não obtive resposta. Estou hospedado na casa do
vovô há alguns dias. — Ele finalmente procurou uma das velhas
amigas da mãe, e ela conseguiu o endereço exato onde a mãe dele
morava.
— Que merda. Desculpa. Perdi meu celular semana passada
e estou usando um daqueles da farmácia. Te dou o número antes
de você ir embora.
Ele fechou a porta e deu uma olhada rápida ao redor antes
que ela o conduzisse para uma cozinha aberta. Não era o pior lugar
onde já haviam morado, mas ainda era barato e bagunçado, com o
carpete manchado e as persianas sem várias ripas — coisas que
poderiam ser facilmente consertadas ou reformadas sem gastar
muito, mas ele sabia por experiência própria que nunca seriam.
Uma televisão de tela grande pesava sobre um suporte de fibra
que era pequeno demais para aparelhos eletrônicos tão
substanciais, e um console de videogame e centenas de jogos
estavam espalhados pelo chão.
— Ah, você está tão bonito. Senta aí, vou te servir uma bebida.
— Ela abriu a geladeira. Ele notou que ela tinha a foto de pouco
antes de ele embarcar no ônibus para o acampamento militar
pendurada na frente. Aquele dia parecia tão distante. Ele era um
menino. Pensava ter visto dificuldades, mas não fazia ideia do que
era sofrimento de verdade até pisar em uma zona de guerra do outro
lado do mundo. — Tenho chá doce ou refrigerante diet. Água
também, mas só da torneira.
— Estou bem, mãe. Acabei de almoçar.
— Ok, bem, vou fazer uma xícara de café.
— Onde está o Saul? — perguntou ele enquanto ela começava
a encher a cafeteira manchada com água. — Trabalho? — A última
notícia que tivera era de que o namorado da mãe trabalhava na UPS
como entregador, o que era um bom emprego. Ele pensara que
talvez ela finalmente tivesse arranjado um cara decente, alguém que
pudesse se casar com ela, incluí-la no plano de saúde dele e
sustentá-los na terceira idade com algumas economias e uma
aposentadoria.
— Ele foi demitido depois de um... mal-entendido. Enquanto
isso, está ajudando o amigo Scooter com alguns trabalhos de
pintura de casa.
— Ah. — Enquanto isso. Era a história da vida de sua mãe.
Ok, bem, lá se foi a esperança sobre o plano de saúde e a
aposentadoria. Ela sempre lutaria e nunca deixaria de se apegar a
pessoas que gostavam do caos como ela. Mal-entendidos que ele
sabia que não existiam. Cada vez que ela parecia progredir, fazia
algo para sabotar. Seu avô, seu pai, certamente também a
insultara. Ela também os tatuara na pele, mas a diferença entre os
dois era que sua mãe nunca deixara de acreditar nas mentiras. Ela
se tornara elas. Ela procurara pessoas que confirmassem a
identidade que abraçara. Talvez ela até soubesse, mas de que
adiantaria se nunca se esforçasse para mudar?
Com o café pronto, ela se juntou a ele à mesa, e agora que ele
a observava atentamente, ela não só parecia cansada, como
também mais velha. Isso fez seu coração apertar um pouco, porque,
apesar de todos os seus problemas, ele a amava, e era um lembrete
de que ela não estaria por perto para sempre.
— Você tem ficado na casa do seu avô, não é? Estou surpresa
que você tenha encontrado um lugar para dormir. Ele transformou
tudo em um buraco. Eu nem pisei lá dentro nesses últimos anos.
Eu não conseguiria nem se quisesse. Não havia espaço para mais
de uma pessoa no meio de toda aquela tralha, e o lugar fedia.
— O sofá ficou ótimo depois de limpo, — disse ele com um
sorrisinho. — E é bem confortável, na verdade. Vai dar muito
trabalho limpar o resto do lugar. Mas... Vou ficar aqui por alguns
meses e estou disposto a fazer o trabalho. A casa está paga, mãe.
Você consideraria se mudar? Se estivesse tudo arrumado?
Ela pegou um vaporizador perto da beirada da mesa. — Meu
Deus, não. Dá para imaginar? Toda vez que eu fizesse sexo, eu
imaginaria aquele velhote parado ali, me encarando.
— Jesus, mãe. Sério?
Ela riu e apertou o botão do vaporizador. — Vou pegar o
dinheiro da venda e fazer algo de bom com ele. Talvez eu volte a
estudar.
O dinheiro acabaria em menos de um ano. E não para a
faculdade ou qualquer outro empreendimento que pudesse
melhorar a situação dela. Ele a conhecia bem demais para imaginar
o contrário. Mas o que ele poderia fazer? Ele certamente não queria
a propriedade, e sabia que ela precisava do dinheiro, mesmo que
fosse apenas uma solução temporária depois de tantos anos de más
escolhas.
— Tudo bem. Mas ainda precisa ser limpo, senão ninguém vai
comprar por um preço decente. Vou separar tudo o que eu achar
que você possa querer e levar o resto para o lixo.
— Leve tudo para o lixo. Não tem nada dentro daquele casebre
que eu queira. — Ela deu outro gole e pareceu refletir. — A menos
que seja valioso. Aí a gente vende.
— Duvido que haja algo valioso lá. O vovô já teria vendido há
muito tempo. Foi só isso que ele fez. — Ele havia juntado tralhas e
vendido por um preço mais alto, se pudesse. Obviamente não
enriquecera com isso, mas ganhara o suficiente para pagar a
hipoteca e se sustentar, pelo menos.
— Eu sei, — disse a mãe. — Mas, ainda assim, nunca se sabe.
Pode haver algo de bom escondido sob toda essa bagunça. — Ela
fez uma pausa e então lhe deu um sorriso atrevido, repleto de seu
charme único, a pequena parte dela que nada nem ninguém
conseguira apagar, apesar de seus esforços. — Eu também, né,
garoto? — Ela piscou enquanto dava outra tragada no vaporizador.
— Então, quando você quer espalhar as cinzas dele? — ele
perguntou.
— Quando quisermos. Podemos fazer isso do outro lado do
lago.
— Acho que existem leis contra isso.
— Perfeito. Aquele babaca nunca conheceu uma lei que se
importasse em quebrar.
— Ponto justo.
Ela se levantou, serviu-se de uma xícara de café, adicionou
um pouco de leite da geladeira e sentou-se novamente enquanto
mexia.
— Poderíamos soltar umas borboletas, — disse ela depois de
tomar um gole. — Tem um borboletário do outro lado da cidade,
perto do Lago Bristol, chamado Flutterfly alguma coisa. — Ela o
encarou e fez uma pausa antes de dizer: — Aquela garota é a dona
do lugar.
Seu coração deu um pequeno aperto. E lá estava a informação
que ele se forçara a não olhar. Cami administrava uma fazenda de
borboletas que fazia solturas de borboletas, entre sabe-se lá o que
mais. Seria mesmo um negócio legítimo?
— Que garota? — perguntou ele, só porque era bom fingir.
Ela continuou a olhar para ele.
Ele massageou o maxilar, decidindo não mentir para um
mentiroso. — Estou surpreso que ela ainda more aqui. Ou que
tenha voltado.
— Ela nunca se mudou, até onde eu sei. Passei por ela
algumas vezes ao longo dos anos. Houve programas de TV e artigos
sobre a família dela. Nunca houve uma entrevista dela, pelo que eu
sei, mas... as pessoas se interessam, sabe? Elas querem saber se
tudo deu certo.
Ele assentiu. Talvez não estivesse tão surpreso por ela nunca
ter saído da cidade. A última vez que a vira, ela estava prestes a dar
à luz. Deve ter sido difícil para ela depois disso. Ele sentiu um
momento de culpa pela maneira como a dispensara no dia anterior.
Por outro lado, ele não fora maldoso. Apenas fora decidido. Ele e
Cami não tinham motivo para fingir cordialidade. E, francamente,
ele ficara irritado com a maneira como ela contivera o riso ao olhá-
lo parado na varanda frágil e ainda mais irritado com a menção dela
ao passado. Parecia impossível e fácil demais.
E, no entanto... ele odiava a reação do seu corpo à visão dela
ontem e à simples menção dela agora. Odiava a forma como seu
coração disparava e suas mãos coçavam. Odiava a forma como ela
o fazia sentir todos esses anos depois, mesmo com tantos
problemas.
Tantos anos atrás, antes de tudo desmoronar, Cami o inspirou
a se aprimorar. O exército o ajudou a seguir o resto do caminho, e
ele descobriu que estava certo sobre músculos e confiança abrirem
oportunidades sociais para um homem. Ele já havia se encontrado
com várias mulheres ao longo dos anos, mesmo que a maioria delas
fosse casual, mas não achava que nenhuma delas o tivesse deixado
tão eufórico quanto naquele dia de verão, após uma breve conversa
com Cami.
Ele nunca, jamais contaria isso a ninguém. Ele mal gostava
de admitir para si mesmo.
— Então, nada de borboletas? — perguntou a mãe. E ele sabia
que ela estava investigando, mas não tinha nada a dizer sobre tudo
aquilo. Tinha acontecido. Ele tinha deixado para trás. Agora estava
de volta e supôs que deveria esperar ser confrontado por isso, em
alguma pequena medida, de qualquer maneira. Mas... fora isso, não
havia nada a dizer. Fazia tempo que não pensava em Cami
Cortlandt. Borboletas, no entanto? Ela administrava uma fazenda
de borboletas? Ele nunca teria imaginado isso. Olhou de volta para
a mãe. Estava prestes a dizer que o avô provavelmente não gostava
de borboletas, mas com todas aquelas flores, ele devia pelo menos
tolerá-las.
— Acho que podemos passar sem uma soltura de borboletas.
Ele cagaria um tijolo por algo tão romântico.
Ela emitiu um som agradável no fundo da garganta antes de
tomar um gole de café. — Borboletas, então. Peça um bando.
Ele sorriu. Não achava que “bando” fosse a palavra certa, mas
seu conhecimento sobre borboletas era limitado. Ela estava
brincando, mas mesmo que não estivesse, ele teria encomendado
borboletas na Amazon antes de ir a qualquer loja que Cami
Cortlandt administrasse.
Eles tinham um entendimento agora, mas mesmo assim, ele a
evitaria a todo custo enquanto estivesse ali.
Não seria difícil. Assim como naquela época, eles moravam em
lados opostos da cidade, e não havia motivo para seus caminhos se
cruzarem.
CAPÍTULO DEZOITO
Cami destrancou a porta e entrou. Seu gato, Boots, a
cumprimentou esfregando o corpo na perna dela, e seu miado se
juntou ao bipe do alarme.
— Oi, Bootsie. Como vai, meu doce? Com fome?
Com a porta firmemente fechada, ela colocou a bolsa e as
chaves no console do hall de entrada e digitou o código do alarme
antes de trancar as duas fechaduras. Boots a seguiu até a cozinha,
onde ela lhe serviu comida e encheu sua tigela de água.
Um movimento brusco lhe disse que a janela da cozinha
estava segura antes que ela baixasse as persianas. Ela se recostou
no balcão, esticando o pescoço para um lado e depois para o outro.
Fora um longo dia, cheio de percalços.
Um pedido de casamento e um de aniversário, ambos para
solturas de borboletas, mas de tipos e quantidades diferentes,
foram confundidos, então ela pegou o carro e correu para os dois
eventos, trocando-os com poucos minutos de sobra. Então, a
máquina de cartão de crédito da loja de presentes pifou e o ar-
condicionado começou a vazar para valer.
E embora ela não gostasse de passar o dia tentando consertar
as coisas, gostou do fato de haver soluções para tudo que deu
errado.
Principalmente depois de ontem. Ela se encolheu pela
centésima vez ao pensar em Rex Lowe parado naquela varanda,
olhando para ela friamente. E quem poderia culpá-lo, na verdade?
Como ele dissera, a vida dele fora arruinada pelas consequências
dos assassinatos da mãe e da irmã dela porque ela não o defendera.
Na verdade, ela confirmara a possibilidade de que ele estivera lá.
Ela estivera tão confusa. Tão perdida, com a mente martelando de
horror e descrença. O céu olhara para baixo e o céu olhara para
cima. Ela poderia ter acreditado em qualquer coisa, até mesmo que
o garoto quieto com bondade nos olhos estivera presente durante o
evento mais traumático de sua vida.
Mas dois meses depois, evidências de DNA do homem que ela
só ouvira ser chamado de “AJ” chegaram. Infelizmente, não foram
encontradas em nenhum banco de dados da polícia, mas também
não pertenciam ao garoto que era visto com desconfiança não
apenas pela comunidade, mas também pela nação. Pessoas da
escola conversaram com repórteres sobre a “obsessão” de Rex por
ela. Hollis concedeu uma entrevista e disse que viu Rex no hospital
logo depois, com uma aparência estranha e sem fôlego. Um frentista
se apresentou e disse que Rex, desconfiado, lhe disse que tinha
saído para correr, quando o homem nunca o vira correndo naquela
área antes.
Mesmo assim, não havia nenhuma evidência real contra ele,
exceto talvez uma fraca e circunstancial. E quanto mais tempo
passava, mais certeza Cami tinha de que não era Rex. Ela teria
reconhecido a voz dele. Ela saberia.
Mas quando a polícia decidiu não apresentar queixa, já era
tarde demais para Rex Lowe. O estrago já estava feito. Ela ouvira
boatos de que as bolsas de estudo que ele havia conquistado tinham
ido para outra pessoa. As oportunidades tinham passado. Se
alguém o procurara para lhe dar outra chance, Cami não fazia ideia.
Ela estendeu a mão e massageou as têmporas. Mais tarde,
quando o burburinho da mídia começou a diminuir, ela pensou em
como aquilo era injusto, mas estava tão sobrecarregada e de luto
que não investigou onde Rex tinha ido parar. Então, ela se tornou
mãe, entregou o filho e teve que recomeçar o processo de luto
quando ainda não tinha terminado de escalar a montanha de
sofrimento pela mãe e pela irmã.
Você deveria ter perguntado sobre o Rex. Você deveria ter
confirmado que ele estava bem. Você deveria ter entrado em contato
com ele.
Você deveria ter se desculpado.
E, no entanto, parecia que Rex Lowe havia se recuperado, para
dizer o mínimo. Ele parecia bem, mais do que bem. E por isso, Cami
estava feliz.
Ela se serviu de um copo d'água da jarra na geladeira. Então,
encostou-se novamente no balcão, tomando um gole da bebida e
coçando Boots com o pé enquanto a visão de Rex Lowe voltava a
preencher sua mente.
Ele não estava mais curvado como ela se lembrava. Agora, ele
estava ereto, com os ombros largos e retos e os bíceps esticando as
mangas curtas da camiseta. Sua pele estava mais escura, de um
belo tom acobreado, e seu cabelo ainda era do mesmo preto
brilhante, liso como um grampo, mas cortado mais curto do que da
última vez que ela o vira.
O rosto dele. Nossa, o rosto dele era lindo. Ela se lembrava de
achar que ele era um garoto bonito no ensino médio, apesar da falta
de estilo e do fato de que ele obviamente não tinha se tornado ele
mesmo. Mas ela não sabia da história nem da metade. Porque em
algum momento, Rex Lowe havia se tornado ele mesmo, e
certamente os céus deviam ter se alegrado da mesma forma que ela
acreditava quando uma borboleta abria suas asas.
Argh. Qual o sentido disso? Ela pousou o copo com um pouco
de força demais no balcão, temendo por um instante que o tivesse
quebrado. Fique feliz por o homem não ter permitido que a injustiça
que sofreu onze anos atrás o arruinasse. Não precisa se sentir
culpada por isso. Ele caiu de pé. Obviamente, ele está bem.
Ela vestiu um pijama antes de se sentar no sofá com uma taça
de vinho.
Ela não tinha o hábito de assistir ao noticiário, mas quando
ligou a TV, ainda estava no canal que ela estivera assistindo alguns
dias antes, e o rosto de Hollis Barclay preencheu a tela.
— Você só pode estar brincando, — murmurou ela. O passado
estava realmente preso e determinado a varrer o tapete debaixo dela
hoje. E, no entanto, ela não conseguia evitar se inclinar para frente,
seu olhar percorrendo o rosto esculpido dele enquanto ele
discursava no palco diante de uma grande plateia de participantes
do comício.
— E é por isso, Virgínia, que peço o seu voto, em novembro! —
A multidão foi à loucura, agitando cartazes e dançando ao som da
música que começou a tocar alto no sistema de som. Hollis sorriu,
levantando a mão e acenando para a multidão, depois dando uma
pequena sacudida de ombros que fez a multidão aplaudir ainda
mais alto. Hollis riu de um jeito que ela supôs que fosse
autodepreciativo e então se virou, estendendo os braços quando
uma loira linda e esbelta caminhou até ele vinda dos bastidores. Ele
a abraçou, inclinando-se e beijando-a nos lábios enquanto
conversavam por um momento, sorrisos combinando enfeitando
seus lindos rostos. Então Hollis caminhou até a beira do palco e
começou a se inclinar e apertar as mãos daqueles perto da frente
que estavam estendendo a mão para ele e levantando bandeiras.
Atrás dele, a mulher acenou para a multidão, seu sorriso nunca se
apagando.
A imagem voltou para a apresentadora, uma mulher com
ondas na altura dos ombros que não se mexiam quando ela se
movia, e cílios postiços que faziam os olhos de Cami pesarem só de
olhar.
— Pessoal, esse foi Hollis Barclay falando aos eleitores da
Virgínia e expondo seu plano econômico, que tem o apoio de
economistas de confiança de todo o estado, acompanhados por sua
noiva, Seraphina Arnoult. A campanha ganhou força nos últimos
meses, e Hollis Barclay está em alta nas pesquisas para as
primárias em novembro.
Novembro. Menos de três meses, e Hollis provavelmente seria
um congressista dos Estados Unidos, representando a Virgínia.
Exatamente como ele havia planejado.
Ela sabia que Hollis estava concorrendo a uma cadeira no
Congresso, sabia que ele estava em campanha e fazendo aparições
por todo o estado. Sabia que ele se formara em Princeton, depois
cursara Direito, passara na OAB na primeira tentativa e trabalhava
em algum grande escritório de advocacia em Richmond. Era
impossível morar em uma cidade pequena e não ouvir tudo —
quisesse ou não, evitasse ativamente ou não — por meio de um ou
outro boato. Principalmente quando se administrava um negócio
que colocava em contato com cidadãos de todas as esferas da vida.
E se soubesse que ele apareceria, ao vivo e em cores, na tela
da sua sala de estar, jamais teria pegado o controle remoto. Não
sentia mais nada por Hollis, além de um vago ressentimento que só
se manifestava quando ouvia seu nome ser mencionado ou o via
aleatoriamente no noticiário. Fora isso, seus pensamentos
raramente se voltavam para ele.
No entanto, ela pensava no filho o tempo todo. E talvez fosse
por isso que a visão do rosto de Hollis lhe causasse uma dor aguda.
Olhar para as feições de Hollis a fazia se perguntar se o filho tinha
as maçãs do rosto dele, ou o queixo, ou talvez tivesse o mesmo tom
de cabelo. Ou talvez ainda se parecesse muito com ela, como era ao
nascer.
Ela se perguntou qual seria o nome que seus pais adotivos lhe
deram.
E embora pensar nele ainda lhe trouxesse uma pontada de
saudade, ela também estava em paz, sabendo que ele estava por aí,
em algum lugar, vivendo a vida feliz e despreocupada que merecia.
Uma vida onde ele tinha dois pais amorosos e talvez um animal de
estimação. Uma vida que começara com uma família
emocionalmente saudável, não uma adolescente traumatizada que
acordava gritando com frequência, rasgando a fita invisível esticada
sobre a boca e ouvindo o eco dos tiros que haviam levado metade
de sua família.
Cami suspirou, levando os joelhos ao peito e abraçando-os
enquanto a reportagem terminava, e o apresentador mudava de
assunto. A TV continuou falando monotonamente por alguns
minutos enquanto Cami simplesmente existia naquele momento,
deixando a melancolia tomar conta dela, esperando que passasse,
como sempre acontecia.
Ela supôs ter perdoado Hollis — afinal, esse perdão também a
libertou —, mas ele definitivamente não conseguiria o voto dela.
Aliás, ela poderia entrar na internet e fazer uma doação para o
oponente dele. Mesmo que fossem apenas cem dólares, isso só
importaria para ela e seu senso de justiça mesquinha.
O som do telefone tocando a tirou de seu devaneio, e ela se
levantou e caminhou rapidamente em direção à cozinha, onde o
havia deixado. Quase não atendeu o número desconhecido, mas,
na remota hipótese de ser outro contato do evento ligando sobre um
problema na entrega das borboletas, precisava se colocar à
disposição.
— Olá?
— Você gostaria de recomeçar? — A voz estava distorcida,
aguda e muito rápida, como uma daquelas bonecas que você puxa
a corda para fazer falar.
Definitivamente mulher.
— Como é? Quem é?
— Você gostaria de refazer?
Cami se virou para a sala de estar e parou onde estava, um
arrepio percorrendo sua pele.
— Desculpe, mas você deve ter...
— Você receberá uma foto em trinta segundos e depois terá
meia hora para decidir se quer refazer.
— Eu não entendo.
— Não chame a polícia ou você vai se arrepender. E outros
também.
Inocentes.
E então a linha caiu.
CAPÍTULO DEZENOVE
Cami olhou fixamente para o telefone e, fiel à palavra da
pessoa que ligou, trinta segundos depois recebeu uma mensagem
de um número desconhecido com uma foto anexada.
Cami clicou na foto e seu sangue gelou. Era um menino,
sentado em uma cama em um quarto com grades na janela. Não
havia outros móveis presentes, apenas uma comadre e uma garrafa
d'água. Que diabos é isso? Ela piscou, seus olhos se voltando para
a criança, sentada com os joelhos dobrados da mesma forma que
ela estivera minutos antes. Ele parecia apavorado. Com as mãos
subitamente trêmulas, Cami usou os dedos para dar um zoom no
rosto do menino. E ela quase caiu.
Ele era muito parecido com ela.
Meus olhos. Meu nariz. Até as orelhas dele eram iguais. E ela
viu Hollis na expressão dele, mas ele se parecia muito com ela.
Com um suspiro torturado, Cami estendeu a mão para a
parede, apoiando-se nela enquanto suas pernas tremiam.
Era... mas como...
O menino parecia ter a mesma idade que o filho dela teria. Ela
balançou a cabeça. Mas não, isso não era possível. Seu filho estava
em algum lugar em San Diego, Califórnia, morando com um lindo
casal jovem que tinha um poodle branco e uma casa adorável com
piscina. Ele trabalhava com tecnologia, e ela planejava ser dona de
casa quando a mulher da agência de adoção colocou o bebê em seus
braços.
O bebê pelo qual Cami chorou silenciosamente enquanto
imaginava o casal contando os dedos dos pés do filho e passando
um dedo no seu narizinho.
Não, não, não, não. O que é isso? Era alguma piada de mau
gosto?
Ela se afastou da parede, a raiva a percorrendo. Quem faria
algo tão insano? Tão frio? Quem a atormentaria daquele jeito só
para ser cruel?
Mas se for uma brincadeira cruel, quem é essa criança? E por
que ela se parece comigo?
Ela massageou a têmpora. Nada fazia sentido.
— Meu Deus. — Cami desligou o telefone e se afastou. Ela
precisava ligar para a polícia. Eles rastreariam a ligação e
descobririam quem era o psicopata que lhe enviara uma foto falsa
ou que sequestrara uma criança que se parecia com o filho dela
agora.
Ou quem sequestrou seu filho verdadeiro.
Não chame a polícia ou você vai se arrepender. E outros
também. Inocentes.
Inocentes? Como a criança sentada sozinha num quarto com
grades, sem nada além de água e uma bacia? Outro tremor a fez
endireitar os ombros.
Se uma criança tivesse sido sequestrada, o fato estaria em
todos os noticiários. Era um lindo menino cujos pais, embora não
fossem tão ricos quanto a família dela, eram abastados. Cami
correu para o quarto, pegou seu laptop, sentou-se no sofá, colocou-
o sobre a mesa de centro e digitou sua senha.
Ela fez uma busca no Google por estações de notícias locais
de San Diego e, em seguida, percorreu rapidamente as manchetes
do dia. Nada sobre uma criança sequestrada. Ela usou a barra de
pesquisa para procurar notícias que pudessem ter as palavras
sequestrado ou desaparecido nas manchetes. Havia algumas, mas
nada recente. Cami clicou em uma notícia de alguns meses antes,
mas, ao folhear o artigo, viu que a garotinha que havia desaparecido
de seu quintal havia sido encontrada mais tarde naquele dia. Algo
sobre uma disputa pelos direitos dos pais.
Para o caso de a família adotiva do filho ter se mudado, ela fez
uma busca mais geral no Google, procurando por meninos
desaparecidos que tivessem sido levados recentemente e se
encaixassem na descrição do filho. Mas, depois de navegar por
alguns que pareciam possíveis, não encontrou nada.
Sua frequência cardíaca diminuiu e ela soltou um longo
suspiro enquanto se recostava.
Ela se sentiu um pouco melhor e mais segura de que aquilo
era uma brincadeira de mau gosto, por motivos que não conseguia
nem começar a entender, mas a preocupação não desapareceu
completamente. E se seu filho tivesse sido levado muito
recentemente — tipo, na última hora — e ainda nem tivesse sido
dado como desaparecido? Seria possível que algum sequestrador
em algum lugar soubesse que ela era sua mãe e achasse que eles
ainda tinham o dinheiro que um dia tiveram? Haveria um resgate?
Seu pai estava aposentado agora, mas ainda tinha uma boa
situação financeira, mas a própria Cami tinha muito pouco dinheiro
no banco.
Mas como alguém saberia que ela era parente daquela criança,
se de fato era? Fora uma adoção completamente secreta. Nem ela
deveria saber onde moravam os pais adotivos do filho, mas
acidentalmente vira o local no arquivo da família quando lhe
mostraram fotos. Essa informação fora outro motivo para tê-los
escolhido — a pouparia da dor de se perguntar se um dia
encontraria o filho. Era mais fácil para ela saber que ele era amado
e cuidado, mas distante o suficiente para que não precisasse se
perguntar se cada menininho que via com o sorriso de Hollis ou a
cor do cabelo dela era o bebê que ela havia doado.
Ela pegou o celular e olhou o registro de mensagens, notando
que vinte e oito minutos haviam se passado desde que a foto
chegara. Ficou sentada ali, com os nervos à flor da pele novamente,
enquanto esperava. Seu joelho saltou e ela roeu a unha do polegar.
Dois minutos se passaram e seu celular não tocou.
Uma brincadeira. Era só uma brincadeira. Ela tinha perguntas
e com certeza chamaria as autoridades, mas...
A tela do celular dela se iluminou com uma chamada. —
Merda, — ela disse baixinho. Mais um número desconhecido. Ela
pegou o celular e deslizou a tela. — A-alô?
— Você está pronta para concordar em recomeçar?
— Não entendo o que isso significa. Não entendo o que é isso.
— Com o que ela estava concordando? Que tipo de recomeço? O
que ela já tinha feito que lhe daria a oportunidade de fazer de novo?
Isso era loucura. Ela ouviu o som de algo ao fundo que parecia uma
respiração suave e ofegante, como se o interlocutor fosse parente
de Darth Vader. E talvez o puro ridículo daquela imagem tenha sido
o que a fez dizer: — Claro, concordo. Gostaria de recomeçar. O que
vou fazer de novo?
— Você receberá um link para um vídeo e, usando essa
filmagem, será convidada a localizar a criança. Se não conseguir
encontrá-la em quatro dias, ela será entregue a outras partes
interessadas que, digamos, não têm os melhores interesses em
mente. Novamente, não chame a polícia. Se fizer isso, o vídeo será
removido e você não receberá mais notícias minhas. Se fizer login
em mais de um dispositivo, o vídeo será removido.
A cabeça de Cami zumbia e seus pensamentos estavam
confusos enquanto ela tentava entender o que era absurdo. E
mesmo apesar da confusão, o medo continuava a se apoderar de
mim.
— Eu... sim, vou receber um vídeo... para usar para encontrar
uma criança em... quatro dias? Ele está em risco. Fazer login
apenas em um dispositivo e nada de polícia.
O interlocutor soltou um suspiro lento que, de novo, soou
metálico e excessivamente ofegante de uma forma estranha. — O
vídeo está sendo compartilhado via SecureDrop. Você precisará
baixar um navegador chamado Tore para acessá-lo. Repita isso, por
favor.
Cami correu para a cozinha e vasculhou a gaveta de tralhas
em busca de caneta e bloco, anotando os sites conforme os dizia. —
SecureDrop. Tore. — Ela já tinha ouvido falar vagamente de
SecureDrop, mas o que diabos era Tore?
— Boa sorte. — E com isso, a ligação caiu.
A cabeça de Cami continuava zumbindo e seu rosto estava
quente. Ela não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que
era algo terrível.
Alguns segundos depois, outra mensagem chegou e, quando
ela abriu, viu que continha uma série de letras e símbolos que não
eram clicáveis.
Cami voltou ao seu laptop e fez uma pesquisa sobre Tore, que
na verdade acabou sendo Tor, e era, ela descobriu, o navegador
necessário para acessar a dark web.
Seu estômago se contraiu e ela engoliu em seco. Já tinha
ouvido falar da dark web de passagem, mas não sabia que era real.
Seria legal entrar em sites de lá? Ela não sabia, mas se o FBI
aparecesse em sua porta, ela teria um bom motivo — esperava —
para explicar por que estava lá.
Ela baixou o Tor, abriu-o e copiou e colou o endereço que lhe
foi enviado por mensagem. Um vídeo apareceu na tela. Era o mesmo
quarto da foto, só que agora em formato de vídeo, e a criança estava
deitada na cama, de costas para a câmera. Parecia estar dormindo.
Ela piscou, as mãos úmidas e o coração acelerado. O que ela
deveria fazer com aquilo? Era apenas o vídeo de uma sala. Ela
deveria localizar aquela criança de alguma forma? Era um pedido
impossível. Ou uma oferta. Ou sei lá o quê.
Se você não conseguir encontrá-lo em quatro dias, ele será
entregue a outras partes interessadas que, digamos, não têm os
melhores interesses dele em mente.
Com um suspiro trêmulo, ela ampliou o vídeo e semicerrou os
olhos enquanto observava o quarto escuro. Haveria algo nas
paredes que indicasse onde era aquilo? Um ponto cruz que dizia: —
Amamos nossa casa na Maple Lane, 1234, San Diego, Califórnia. —
Ela conteve a risada aguda e apavorada que ameaçava escapar de
sua boca. Era alimentada pelo medo.
O que eu faço?
Ela realmente não tinha escolha a não ser avisar a polícia. Ela
havia recebido um vídeo em que uma criança era ameaçada e —
mesmo que isso não fosse verdade — ele estava sozinho em um
quarto com grades na janela e precisava ser resgatado daquela
situação sozinha. Ela havia sido “convidada” a encontrá-lo, mas não
havia como fazer isso. Ele poderia estar em qualquer lugar do
planeta Terra, e tudo o que ela tinha como base era o vídeo de um
quarto pequeno e quase vazio. E quem poderia dizer que o vídeo era
recente? Podia ter sido gravado há dez anos. Não havia nada que
indicasse o local, mas também nada que lhe dissesse a data ou a
década.
Talvez haja uma maneira de rastrear essas ligações. Mas como,
sem a polícia?
Eu poderia ligar para o papai. Talvez ele ainda tenha alguns
contatos de trabalho que possam ajudar.
Ela balançou a cabeça. Não. Ele estava aposentado havia onze
anos. Mudara-se para um novo bairro e se casara novamente dois
anos antes, com uma mulher simpática chamada Gigi, que era
atenciosa e boa com o pai. Ela foi ao casamento e desejou tudo de
bom a ele e à nova madrasta, depois voltou para casa e chorou. Mas
não o culpava por querer outra chance de felicidade. Ele merecia
encontrar o amor novamente.
Mas o pai dela insistiria em chamar a polícia. O que talvez
fosse melhor... mas não era o que ela estava disposta a fazer
primeiro.
Esqueça o porquê ou o como, disse a si mesma. Ela acreditava
que aquilo era legítimo? De alguma forma?
Ela não sabia. Mas havia uma criança envolvida, e ela não
tomaria a decisão errada sem pensar bem. Provavelmente era muito
mais do que parecia, e ela precisava organizar seus pensamentos e
bolar um plano antes de fazer qualquer movimento. Precisava
entender as potenciais fragilidades tecnológicas por trás de tudo
aquilo.
Ela ficou ali sentada, com o coração disparado e o cérebro
dando cambalhotas enquanto filtrava todos os seus contatos e
amigos, qualquer pessoa que conhecesse. A maioria das pessoas
próximas trabalhava com borboletas, pelo amor de Deus.
Ela só conseguia pensar em uma pessoa que talvez tivesse a
informação de que precisava, mas essa pessoa me disse sem rodeios
que não queria nada comigo. Contatá-lo era um risco que ela não
tinha certeza se deveria correr.
Mas e se a criança na tela estivesse realmente em perigo?
CAPÍTULO VINTE
— Droga. — Rex puxou a mão para trás e olhou para o buraco
na luva em seu dedo indicador, onde um grande espinho estava
cravado no pequeno pedaço de pele exposta. Ele o arrancou e jogou
de lado, e então lançou um olhar furioso para a roseira, só para
garantir. — Selvagem, — murmurou.
A empresa de Cami tinha feito um ótimo trabalho limpando os
caminhos e deixando o jardim com aparência de jardim, e não de
selva, mas ele ainda decidiu podar as plantas restantes e cuidar
melhor do quintal. Agora que o trabalho pesado havia sido feito, ele
via aquele espaço como um verdadeiro atrativo para a venda.
Ele se levantou quando ouviu o som de um veículo se
aproximando pela estrada de terra e subindo a entrada da garagem
do avô, seguido de perto por uma porta de carro abrindo e fechando.
Franziu a testa enquanto se dirigia para a porta dos fundos.
Quando ouviu uma batida, começou a andar pela casa.
Quem diabos era essa pessoa às oito da manhã de um sábado?
Ele abriu a porta e quase caiu quando viu Cami Cortlandt parada
em frente à varanda. Será que ela tinha batido e dado um passo
para trás, como se esperasse que ele atendesse a porta com uma
arma e ela precisasse correr? Ela se mexeu, parecendo
profundamente desconfortável e também como se não tivesse
pregado os olhos na noite anterior. Com um olhar rápido, ele viu
que os olhos dela estavam vermelhos, o cabelo meio solto e o rímel
borrado embaixo dos olhos. Ele franziu a testa enquanto começava
a tirar as luvas, um dedo de cada vez.
— Tenho certeza de que sou a última pessoa que você esperava
ver, — disse ela. — E eu ouvi o que você disse outro dia. Ouvi
mesmo. E eu ia aceitar isso. Eu entendi. E eu não estaria aqui se...
não precisasse de ajuda.
Hein? — Em que posso ajudar? — A voz saiu um pouco mais
hostil do que ele pretendia, mas ele se sentiu emboscado por ela.
Em sua casa, antes mesmo de tomar a segunda xícara de café da
manhã. E depois de lhe dizer, em termos inequívocos, que não tinha
nada a dizer.
Ela levantou a mão como se estivesse admitindo algo, e ele
notou que seus dedos tremiam. — Acredite, se eu tivesse outra
pessoa que pudesse me ajudar, eu não te incomodaria. Sei que você
deve estar pensando que eu tenho muita coragem. Posso te pagar
pelo seu tempo. Sua consulta. Uma taxa. Se tiver um número de
improviso, é só dizer. Não sou rica de jeito nenhum, mas estou
disposta a te pagar pela sua ajuda. E então prometo ir embora para
sempre.
— Cami, desembucha. Do que se trata?
Ela bufou e passou os dedos sob os olhos como se soubesse
que havia borrado a maquiagem ali.
— Por favor, posso entrar e explicar? Você tem todo o direito
de me mandar embora de novo, e... Eu entenderia se você fizesse
isso, só... por favor, se você pudesse me ouvir.
Ele deveria mandá-la embora. A proximidade com Cami só lhe
trouxera negatividade, mas, chame-o de otário, ele não conseguia
evitar. Ela parecia desesperada e, embora ele não quisesse admitir
— já que isso, sinceramente, mexia um pouco com seu ego —, ainda
tinha uma quedinha por ela. De todas as coisas que ele já havia
superado, o efeito dela sobre ele aparentemente não era uma delas.
Ele se afastou e a deixou entrar. Ela entrou, caminhando incerta,
sem saber onde se posicionar.
— Aqui, siga-me, — murmurou ele. Ele havia tirado boa parte
da tralha da sala da frente, mas sua roupa de cama estava no sofá,
e as cadeiras estavam sendo usadas para guardar caixas e outras
coisas que ele não tinha mexido, e não havia onde sentar. Ele a
levou para a cozinha, o cômodo que ele havia arrumado primeiro, e
embora também estivesse longe de estar arrumada, estava limpa
agora, e a mesa estava limpa. — Vá em frente e sente-se, —
murmurou ele. Ela parecia estar precisando.
Cami sentou-se e entrelaçou os dedos na superfície à sua
frente, enquanto ele se recostava na pia e cruzava os braços. — Você
não quer se sentar? — perguntou ela, indicando a cadeira à sua
frente.
— Não. Prefiro ficar em pé.
— Ok. — Seu olhar percorreu a cozinha, e ela descruzou os
dedos e os entrelaçou novamente antes de colocá-los sob as coxas.
Jesus. Ele deu alguns passos até a máquina de café, tirou uma
caneca do armário acima e serviu uma xícara, depois a colocou na
frente dela. — Não tenho creme nem açúcar, desculpe. — Mas ele
não conseguia mais vê-la se mexer.
— Obrigada. Agradeço muito. — Ela envolveu a caneca quente
com as mãos e pareceu relaxar um pouco.
— Não posso ajudar se você não me disser o que precisa.
Ela assentiu. — Você trabalha com computadores, certo? No
exército? Acho que ouvi dizer que você... Não me lembro onde.
Trabalho relacionado à cibernética? É isso mesmo?
Ele a observou, ainda tão linda, apesar de parecer que ela
tinha virado a noite. Era melhor que não fosse o que ele temia. Ele
estava começando a se perguntar se aquela mulher iria pedir para
ele hackear o extrato do cartão de crédito de um namorado infiel ou
algo igualmente egoísta pelo qual ele não a perdoaria.
Não que houvesse algum amor perdido da parte dele. Ele havia
passado muito tempo internamente retendo a vontade. Pelo menos
era o que dizia a si mesmo. Ele chutou um pé após o outro e cruzou
os braços novamente.
— Sim.
Cami assentiu bruscamente mais uma vez. — Tipo você
hackea computadores e coisas assim?
Aí vem. — Não exatamente. Mas quase.
— Ah. Quase. Certo, então, você sabe alguma coisa sobre o
Tor? — Ele franziu a testa. Ah, não. Talvez isso fosse ainda pior do
que ele pensava.
— A dark web? O Tor é um dos navegadores que você usa para
acessá-la.
— Sim. Exatamente. É rastreável? Como funciona?
Ele descruzou os braços e esfregou o queixo. Ela queria saber
o básico sobre como a dark web funcionava? Provavelmente poderia
ter pesquisado isso na internet, então, se estivesse ali, ele tinha
quase certeza de que ela não queria apenas isso. — O navegador
Tor oculta seu rastro, roteando por uma série de nós
descentralizados.
Ela deu uma risadinha. — Isso não esclarece absolutamente
nada.
Ele não conseguiu conter o movimento dos lábios. — Tor é
uma sigla para The Onion Router. Basicamente, este roteador usa
várias camadas de criptografia e mecanismos de roteamento para
garantir anonimato completo.
— Então não é rastreável de jeito nenhum? Nem mesmo pela
polícia ou por... um hacker?
— Não. Na verdade, ele foi desenvolvido na década de 1990
pela inteligência dos EUA para garantir que suas comunicações e
atividades online não pudessem ser rastreadas.
Ela respirou fundo e expirou lentamente. — Então...
— Cami, me desculpe, mas antes de responder mais
perguntas, você precisa me explicar do que se trata.
Cami desvencilhou uma das mãos da caneca e tamborilou os
dedos na mesa. Então, levantou-se e andou de um lado para o
outro, soltou um suspiro e depois andou na outra direção antes de
se virar para ele. Ele notou que ela estava usando dois sapatos
diferentes. Estava obviamente exausta, e ele sentiu uma atração
protetora completamente indesejada. Queria oferecer-lhe um lugar
macio para se deitar... um cobertor. Afastou esses pensamentos.
Mas então, quando a olhou nos olhos, viu a vulnerabilidade ali e
essa proteção ressurgiu, sem se incomodar com sua rejeição
violenta.
— Eu tive um bebê. Você... você sabe disso.
Aquele momento no supermercado voltou à sua memória, o
zumbido das luzes do teto, o cheiro acobreado de moedas em seus
dedos, a forma como seu coração se abriu ao ver a barriga inchada
dela e o olhar desamparado em seus olhos. Mais ou menos como
agora.
— Sim, — disse ele. — Sim, eu sei.
— Eu o coloquei para adoção.
Ah. Droga. Ele sentiu uma pontada aguda de compaixão. E
profunda compreensão. Ela engravidara durante um crime horrível
e dera à luz o bebê do seu agressor, mas não o ficara com ele. E
quem poderia culpá-la por isso?
Ela se sentou novamente, parecendo ainda mais derrotada. E
de repente ele sentiu que precisava se sentar também. Então, foi
até a mesa, puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente.
— O que você está fazendo aqui? Tem a ver com a criança que
colocou para adoção? — Ela estava procurando por ele? Será que
achava que a dark web lhe daria respostas de alguma forma?
Ela assentiu e mordeu o lábio, em silêncio por um momento,
parecendo considerar se lhe daria mais informações ou não. Por
fim, disse: — Recebi uma foto ontem à noite e, em seguida, um vídeo
que foi postado em algum tipo de caixa de depósito na dark web.
— Que tipo de foto e vídeo? — ele perguntou hesitante.
— Ambos eram de um menino, mais ou menos da idade que
meu filho teria, e ele está em um quarto com apenas uma cama,
uma bacia e uma garrafa de água no chão, e há grades na única
janela.
Isso não parecia... bom. — Você chamou a polícia?
— Disseram-me para não fazer isso. Disseram-me que, se o
fizesse, inocentes seriam feridos. Presumo que a pessoa se referisse
ao menino, mas não tenho a certeza.
— Disseram? Essa pessoa te ligou também? Como era a voz
dela?
— Tenho quase certeza de que era uma mulher, mas a voz dela
soou aguda e meio rápida, como uma daquelas bonecas de corda.
E... parecia quase pré-gravada. Tipo, ela não respondeu ao que eu
disse. Não foi bem uma conversa, mas apenas instruções com
pausas entre elas. Enfim, no começo, pensei que fosse apenas um
vídeo enviado, mas agora acho que é uma transmissão ao vivo.
Fiquei acordada assistindo, e não se repetiu em nenhum momento.
Quer dizer, pode ser um vídeo bem longo, mas... Enfim, ela, essa
voz, disse que eu tinha quatro dias para localizá-lo e que, se eu
contatasse a polícia, o vídeo seria removido e o menino seria
entregue a outros que não se importam com os seus melhores
interesses. Tive a impressão de que isso era pouco e que ele estava
em perigo real. E me disseram que, se eu contatasse as autoridades,
perderia a minha oportunidade.
Ela respirou fundo como se não tivesse respirado nada do que
acabara de dizer. Como se o ar tivesse saído dela, quase por vontade
própria, e ela não tivesse conseguido inspirar até que o ar saísse.
Ele repassou as palavras dela, digerindo-as.
— Oportunidade para quê? Cami, isso não faz sentido algum.
— A oportunidade de recomeçar, — disse ela. — Foi o que me
ofereceram.
— Um recomeço? Que tipo de recomeço?
— A única coisa que me vem à mente é que essa pessoa, ou
pessoas, que me ligaram e me enviaram o vídeo, estão me
oferecendo uma chance de salvar meu filho. Porque talvez... talvez
eu não tenha salvado da primeira vez.
CAPÍTULO VINTE E UM
Cami percebeu que Rex estava tão confuso quanto ela no
início. E ele estava fazendo as mesmas perguntas que ela, mesmo
que surgissem um pouco mais rápido. O que ele não estava fazendo
era olhar para ela como se ela tivesse perdido a noção.
E, meu Deus, como ela apreciava isso. Principalmente em seu
estado de exaustão, onde se preparou para ouvi-lo responder com
escárnio e reiterar que não tinha absolutamente nada a lhe dizer.
— Posso ver a foto? — perguntou ele. — No seu celular?
Ela tirou a foto do bolso do moletom, abriu o texto e entregou
a ele. Ele pegou o celular e franziu a testa para a foto por um
minuto, ampliando-a algumas vezes enquanto obviamente dava
zoom em algo. Enquanto ela o observava, sua respiração ficou mais
fácil.
Ela não pretendia revelar os detalhes sobre a foto e o vídeo.
Pretendia primeiro investigar se ele conseguiria hackear a fonte do
vídeo. Talvez por meio de uma VPN — seja lá o que fosse, embora
ela já tivesse ouvido falar em comerciais sobre cibersegurança — ou
algum outro meio que desconhecia. Ela estava tão perdida que nem
conhecia o jargão para descrever o quão perdida estava.
Mas ela estava disposta a pagar, como dissera. Não esperava
a preocupação estampada na expressão dele, mesmo que ele
tentasse disfarçá-la. E isso a destruiu. Talvez porque fosse ele,
talvez só porque ela passara a noite lutando com aquela situação
assustadora e revivendo aqueles meses após o nascimento do bebê,
as semanas se misturando enquanto lamentava a perda da parte
de sua alma que havia dado a outra mulher para ser mãe.
Ela se sentira tão sozinha, antes e agora. E hoje, de repente,
ela... não estava mais, pelo menos por um breve instante, e o alívio
que sentiu foi instantâneo e avassalador. E então ela deixou escapar
tudo antes que pudesse se conter, sem parar para pensar se isso
era sensato, racional ou mesmo útil.
Ele pode ter visto como justiça cósmica dizer a ela que poderia
ajudá-la, mas não o faria, semelhante ao que ela fez com ele.
Ele devolveu o celular e ficou em silêncio novamente, com os
olhos desviados, cutucando distraidamente o canto da mesa onde
o laminado estava descascando.
— Ok, — disse ele depois de um minuto, como se tivesse
aproveitado esse tempo para filtrar e aceitar tudo o que ela disse.
— Mas espera, salvar seu filho? Quer dizer, você fez isso, não fez?
O que é mais altruísta do que adoção? O que salva um bebê mais
do que entregá-lo a uma família que lhe proporcionará uma vida
segura e amorosa?
— Na época, parecia que sim. Era minha intenção. Dar a ele
uma vida boa, com pais que pudessem criá-lo da maneira que ele
merecia. Mas talvez alguém por aí não veja dessa forma.
Ele franziu a testa. — O que te faz acreditar que este é seu
filho, além da idade parecida?
— Ele se parece comigo. Mas, além disso, por que me mandar
uma foto de uma criança aleatória da mesma idade do meu filho?
Como isso é um recomeço?
— Mas você não tem certeza se ele é seu. A pessoa que ligou
não confirmou?
— Não.
— Tudo bem. — Ele desviou o olhar e mordeu o lábio inferior
por um instante. — Mas, por enquanto, vamos presumir que é seu
filho, até termos certeza.
Nós. A palavra a desfez ainda mais, e ela não conseguiu conter
as lágrimas que brotaram em seus olhos. — Desculpe-me por jogar
isso em você. Você provavelmente acha que eu sou a pior pessoa do
mundo. Talvez eu seja. Eu só... eu não sei quem mais poderia
ajudar. — Uma lágrima caiu de seu olho e rolou pela bochecha e,
envergonhada, ela a enxugou e tentou se conter para não
demonstrar aquela emoção. — Oh, Jesus. Essas lágrimas não são
falsas, eu juro. Eu não estou tentando manipula-lo. Eu... eu sei que
você me odeia, e você tem razão para isso. Você tem. Eu entendo.
Eu não te defendi quando você precisava. Eu estava tão... tão
perdida e fora de mim. Eu não sabia o que era bom ou ruim. E
agora... o que é isso? Quer dizer, que diabos? Eu não sei o que
esperam de mim...
— Cami, eu não te odeio. Nunca odiei. Não faz sentido algum
ficarmos desenterrando o passado, no que nos diz respeito. Acabou
e, diante disso... — ele apontou para o celular dela — eu ajudo se
puder, porque quem quer que seja e o que quer que esteja fazendo
é errado. Se eu investigar e descobrir que não consigo ajudar a
esclarecer, te aviso.
— Certo. Obrigada. Mas eu insisto em te pagar.
Seus lábios se contraíram, e ele pareceu ofendido com a oferta,
mas como não se ofenderia? Ele praticamente a mandara embora
alguns dias antes, e então ela aparecera em sua casa pedindo sua
ajuda e conhecimento. Presumir que ele lhe daria algo de graça
parecia errado da parte dela.
— Não preciso do seu dinheiro, — disse ele.
Ah. Então era isso. O orgulho dele o fazia sentir como se ela
estivesse se oferecendo para pagar, porque ainda o via como o pobre
garoto com a mochila rasgada andando entre a elite de Aspen Cove.
Ela soltou uma risadinha ofegante. — Rex, a verdade é que
não posso te pagar muito. Meu negócio mal dá lucro, e eu coloco a
maior parte de volta no negócio, e tudo bem porque eu amo isso, e
me faz feliz. Me traz paz quando eu pensava que nunca mais
encontraria paz. Consigo me alimentar, me abrigar e doar algum
dinheiro para fundações que homenageiam minha mãe e minha
irmã. Mas se você acha que estou te pagando por caridade, uma
olhada na minha conta bancária vai esclarecer isso rapidinho.
O olhar dele percorreu o rosto dela, e ela desejou saber o que
aquela expressão enigmática significava, mas em vez de lhe dar
uma pista, ele simplesmente assentiu. — Preciso ver o vídeo.
— Eu não trouxe. É um laptop antigo e precisava ser
carregado, então o deixei em casa. A pessoa me disse que eu só
podia fazer login em um dispositivo. Não sei como eles saberiam se
eu estivesse usando meu celular, mas... Não tenho certeza, então
fiz o que ela disse.
— Existem várias maneiras, uma delas é um endereço IP, —
murmurou ele. — É um endereço único que identifica um
dispositivo. A dark web o torna anônimo, mas eles, ou ela, saberiam
se mais de um estivesse conectado.
— Certo. Bom, ainda bem que segui as instruções. Posso ir
pegar meu laptop e...
— Que tal voltarmos para a sua casa juntos? De qualquer
forma, preciso resolver algumas coisas depois, e isso vai te poupar
de ter que dirigir de um lado para o outro.
— Se você tem certeza. Obrigada. Eu não posso... Eu
realmente não posso te dizer o quanto aprecio isso.
— Não seja grata ainda. Talvez eu não consiga ajudar em nada.
— Só o fato de você estar disposto. A maioria das pessoas não
estaria.
Os dois se levantaram e Rex desligou a cafeteira. Ela não havia
tomado um gole da caneca que ele lhe dera, mas se perguntou se
ele a teria colocado diante dela para que pudesse fazer algo com as
mãos. Ele era atencioso e notava coisas que outros talvez não
percebessem. E ela esperava que essas qualidades pudessem
ajudá-la a resolver o que quer que tivesse acabado de cair em seu
colo.
Cami o seguiu para fora da cozinha, em direção à porta da
frente. Ela estava tão angustiada ao entrar pela primeira vez na sala
que não havia absorvido tudo. Agora, ela o fazia, notando as pilhas
de caixas com os rótulos Goodwill e outras que diziam “Mãe”.
Ele trancou a porta depois que eles saíram, e então se viraram
em direção aos seus carros, o dele era uma caminhonete preta
estacionada ao lado de uma caçamba de lixo residencial.
— Sinto muito pelo seu avô, — disse ela. Seria preciso um bom
esforço para limpar a casa dele e talvez consertá-la também. Ela se
perguntou se ele planejava ficar ou se planejava vendê-la.
Ele olhou para ela enquanto se dirigiam ao veículo. —
Obrigado. Não fomos muito próximos nesses últimos anos. — Ele
olhou por cima do ombro rapidamente. — Ele era um velho
rabugento que se recusava a ter um celular e só atendia ao telefone
de casa de vez em quando. A casa dele — bem, você viu por dentro
— é um monte de lixo.
Eles pararam perto da porta do motorista, e ela apontou para
o pátio lateral. — Já está com uma aparência muito melhor. Vejo
potencial.
Ele olhou para a casa e parou por um segundo, como se a
visse pela primeira vez, ou talvez através dos olhos dela. — Vou te
seguir até a sua casa, — disse ele.
— Certo. Obrigada. — Então ela abriu a porta e entrou no
carro, respirando fundo para se acalmar antes de ligar a ignição e
fazer uma curva fechada em frente à casa dele.
Ela ficou sentada lá, esperando que ele entrasse na
caminhonete e começasse a segui-la, seu olhar se movendo para a
explosão de rosas caindo sobre a varanda e se lembrando de quando
o viu ali pela primeira vez, olhando para ela com suspeita em seu
olhar escuro.
GI Joe no baile.
Era um pensamento ridículo que a fez querer rir, mas também
demonstrava o quão sólido ele parecia, o quão competente e forte.
Talvez esse fosse outro motivo para ela ter contado a verdade, para
ter compartilhado seu medo com ele. Ele parecia um herói, e,
caramba, ela precisava de um desses agora mesmo.
Ele ligou a caminhonete e se virou. Ela olhou pelo retrovisor
enquanto dirigia pela estrada de terra, com a grande caminhonete
preta se aproximando, e se perguntou por um breve momento se
havia adormecido na noite anterior e ainda não havia acordado.
CAPÍTULO VINTE E DOIS
O apartamento de conceito aberto de Cami era arrumado e
sereno, o exato oposto da casa do avô, onde ele estivera preso nos
últimos dias, e Rex respirou fundo o ar limpo e com aroma de
baunilha. — Que legal, — disse ele, e mal conteve um arrepio ao
ouvir a voz de alguém que o havia convidado para um encontro.
Ela lançou lhe um olhar nervoso e um leve biquinho antes de
fechar a porta atrás deles. Ele também se sentiu constrangido,
mesmo estando na casa dela por um motivo específico e a convite
dela. Mas a sensação de que ele não pertencia àquele lugar era forte
e fruto da história entre eles. Supere isso. Ela pediu sua ajuda, e
você vai dar o seu melhor.
Mas ele também tinha outro sentimento: a sensação de que
estava envolvido em algo que não seria fácil de abandonar e para o
qual talvez não houvesse uma conclusão clara.
Ele a seguiu da sala de estar até a cozinha, à esquerda, onde
havia um laptop aberto sobre a mesa. Cami se inclinou sobre ele e
clicou nas teclas por um instante antes de se levantar e dar um
passo para o lado.
— Ali, — disse ela, apontando a mão para o laptop. — Viu,
tenho quase certeza de que eu estava certa sobre ser um vídeo ao
vivo. Eu não conseguia ver a lua durante a noite, mas agora ela está
lá, do lado de fora da janela.
— Posso? — perguntou ele, acenando para a cadeira.
— Sim, claro. Por favor.
Ele pegou o computador e o colocou em frente à cadeira para
poder se sentar e estudá-lo atentamente. Era como Cami havia
descrito. O espaço era escuro, embora uma luz fraca cintilasse em
um canto e a lua brilhasse através da janela. Era um cômodo quase
vazio que parecia uma cabana, com piso de madeira e paredes de
tábuas. Havia uma janela com cortinas brancas que haviam sido
abertas e, como ela havia dito, grossas barras pretas que pareciam
ser de ferro. Uma cama estava encostada na parede oposta, com
nada além de um colchão e um cobertor fino amassado na ponta. E
era ali que o menino estava sentado encostado na parede, com os
joelhos dobrados contra o peito. Ele estava acordado, mesmo sendo
noite.
O coração de Rex bateu forte enquanto seus olhos se fixavam
no garoto. Ele parecia tão pequeno e solitário, sua postura revelava
seu medo e isolamento. Ele aumentou o vídeo e se concentrou no
rosto do garoto. Ele viu a semelhança com Cami. Estava nos olhos,
no nariz e no formato do rosto dela. Embora ele se lembrasse de
que a semelhança por si só não provava nada. Isso poderia acabar
sendo algum tipo de extorsão, usando uma criança com estrutura
óssea semelhante.
O quem, o como e o quê desse possível cenário poderiam vir
mais tarde. Por enquanto, ele estava apenas coletando informações.
O garoto usava uma calça jeans com um buraco no joelho que não
parecia um daqueles de propósito, mas sim um rasgo mais surrado,
causado pelo tempo e pelo uso. Além disso, era grande e comprida
demais, com as barras cobrindo metade dos sapatos, mesmo com
os joelhos puxados para cima.
E pelo que ele podia ver dos tênis, eles pareciam baratos e bem
usados também. Ele notou que o dedo do pé do menino estava
atravessando o náilon na parte superior de um dos tênis.
Ele estava usando uma camiseta e um moletom com zíper e,
embora as calças parecessem grandes demais, as mangas do
moletom com zíper eram 2,5 cm curtas demais para os pulsos finos
do garoto.
Era possível que os sequestradores tivessem dado roupas para
o garoto vestir, mas era mais provável que a roupa que ele estava
usando fosse a mesma que ele usava quando foi levado.
Então, o garoto provavelmente era pobre, vestindo roupas de
segunda mão que eram grandes e pequenas demais e muito usadas.
Não o tipo de roupa que pais adotivos apaixonados, que
esperaram anos por um bebê, vestiriam em seus filhos. Não, uma
criança assim, pelo menos — mesmo que não usasse as marcas
mais estilosas — teria roupas que servissem.
Rex tentou baixar o vídeo para o computador, mas não
conseguiu.
— Eu tentei também, — disse Cami. — Mas não consegui. Eu
esperava que você soubesse o que fazer. Gravei um pouco no meu
celular só para ter provas, mas não consegui salvar no meu
computador.
— Um DRM está sendo usado para criptografar o fluxo de
vídeo, — disse ele. — Precisaríamos de uma chave de
descriptografia para fazer o download.
— Não tenho ideia do que você acabou de dizer, — ela
murmurou com uma risada abafada, — mas fico feliz em saber o
porquê.
O garoto levantou a cabeça de repente, com os olhos fixos na
janela, como se tivesse ouvido um barulho lá fora. Rex aumentou o
volume do computador de Cami e, de fato, o som dentro da sala
saiu pelo alto-falante.
— Meu Deus, nem pensei em aumentar o volume, — disse
Cami com uma careta.
— Eu também não pensei nisso imediatamente. — Havia uma
coruja piando lá fora, o som que deve ter chamado a atenção do
garoto. Rex aumentou o volume ao máximo e achou que ouviu...
seria o vento? Estava tão distante e abafado pelo vidro que poderia
ser qualquer coisa. Uma brisa contra a casa, o balanço das árvores.
Quando ele diminuiu o volume alguns níveis, era indetectável. Além
da coruja, o quarto estava silencioso, e Rex continuou a avaliar.
Como Cami havia dito, havia uma comadre no chão, aos pés
da cama, e uma garrafa de água vazia perto da lateral. Rex olhou
para a hora exibida no laptop: 8h57.
— Se for uma transmissão ao vivo, ele está em um fuso horário
diferente do nosso. Provavelmente,
Pacífico. Parece que o sol vai nascer a qualquer momento.
— A família que adotou meu filho mora, ou morava, em San
Diego, Califórnia.
Rex estudou as árvores do lado de fora da janela. Eram
sombrias e difíceis de enxergar na penumbra, mas, pelo formato,
tinha quase certeza de que eram todas pinheiros, frondosos e
imponentes. Não era um quintal. Parecia uma floresta ou um trecho
de mata, e embora não conhecesse muito bem San Diego, imaginou
que houvesse vários lugares assim a algumas horas de carro de
praticamente qualquer lugar da Califórnia.
— Já deveria ter alguma notícia sobre esse garoto, — ele disse.
— Eu também pensei assim. Fiz uma busca ontem à noite,
mas não encontrei nada sobre um garoto desaparecido que se
encaixasse na descrição dele. Nem na Califórnia, nem no país
inteiro. Quer dizer, essas coisas geralmente são divulgadas
imediatamente, sabe? Para que as pessoas possam ficar de olho.
— Não custa nada fazer outra busca agora. Pode ser que o
garoto não tenha voltado para casa depois de uma festa do pijama
ou de algo em que os pais acharam que ele estaria seguro a noite
toda.
Rex se aproximou mais quando o garoto se moveu, saindo
lentamente da cama, claramente tomando cuidado para não fazer
nenhum som, e Cami respirou fundo e se inclinou também, bem ao
lado do ombro de Rex.
As molas da cama emitiram um pequeno rangido, e o menino
congelou e então começou a se mover novamente, desta vez
silenciosamente. Ele colocou os pés no chão, seus olhos subindo
para o canto do quarto onde estava a luz. Ele a estudou por alguns
minutos, obviamente pensando, e então se virou para a porta. Ele
não tinha olhado diretamente para a câmera e parecia alheio a ela,
então ela tinha que estar escondida. Talvez alguém em um quarto
além a usasse para monitorar a criança.
Do lado de fora da janela, o céu estava começando a clarear,
com uma luz turva se infiltrando pelas grades.
O menino encostou o ouvido na madeira e escutou, depois se
agachou e encostou a bochecha no chão enquanto espiava por
baixo. Se viu alguma coisa, não deu nenhuma indicação. Levantou-
se e foi até a janela.
— Ele está investigando o quarto, — disse ela, com a voz
ligeiramente ofegante de emoção, como se tivesse acabado de
descobrir que o garotinho era real. E talvez, de certa forma, ela
tivesse descoberto. O garoto demonstrava ter intenções e
inteligência. Ele estava avaliando a situação e talvez tentando
descobrir o que fazer.
E ele esperou até o amanhecer, talvez querendo um pouco
mais de luz, mas esperando investigar os arredores antes que
alguém chegasse.
Eles observaram a criança abrir as cortinas o máximo possível
e usar a mão para tatear a moldura. Então, pressionou o rosto
contra o vidro, parecendo estudar as barras do outro lado. Do ponto
de vista deles, as barras pareciam sólidas e resistentes, e estavam
muito próximas umas das outras para permitir a fuga de qualquer
pessoa, mesmo uma criança magricela.
O menino passou a palma da mão sobre o vidro e deu um
pequeno empurrão antes de recuar. O vidro também parecia sólido.
— Parece que tem floresta lá fora, — disse Cami. — Então por
que haveria grades permanentes numa janela num lugar como
aquele?
— É difícil saber o que cerca a casa ou a cabana, — disse Rex.
— Então, não tenho certeza. — Para ele, porém, parecia um cômodo
projetado para abrigar prisioneiros. As janelas tinham grades, mas,
além disso, a porta parecia pesada e, pelo que ele podia ver, não
tinha fechadura por dentro. E obviamente havia uma câmera para
vigiar a pessoa lá dentro. Então, ou ela havia sido instalada dessa
forma para o garoto que estava trancado lá dentro, ou era usada
regularmente para aprisionar vítimas.
Cami tinha razão em ficar arrepiada com isso. Ele também.
Recostou-se e passou a mão no queixo. Era estranho sentir a barba
por fazer ali depois de anos se barbeando todas as manhãs ao
nascer do sol. Lembrou-se do que Cami havia dito enquanto
observavam o garoto tatear as paredes e investigar os cantos. Temia
pelo garoto, seu coração batia com urgência para ajudá-lo. Cami
havia mencionado a ameaça de o vídeo ser cortado se ela fosse à
polícia. O que presumia que a pessoa ou pessoas que a contataram
saberiam de alguma forma se ela tivesse contatado as autoridades.
Olhou ao redor, para a casa dela. Havia centenas de maneiras pelas
quais ela poderia estar sendo espionada.
O alcance deles — quem quer que fossem — poderia ser um
blefe. Mas talvez não fosse. E se não fosse, e eles contatassem as
autoridades e essa “sala” na dark web desaparecesse de repente,
que ferramentas teriam para encontrar o garoto? Nenhuma. Não
teriam nada, exceto um pequeno vídeo gravado pelo celular de
Cami, que não lhes dizia nada além de que havia um garoto com
roupas mal ajustadas trancado em uma sala em algum lugar.
— Não vamos arriscar chamar as autoridades ainda, — disse
ele. — De qualquer forma, não há nada que eles possam fazer,
exceto monitorar, e é isso que faremos.
Ele se virou para ela enquanto o menino reassumia seu lugar
na cama e aconchegava os pés sob o corpo. Ele não parecia estar
com frio, nem parecia haver uma saída de ar frio ou quente. Mais
uma vez, a Califórnia fazia sentido se estivessem procurando um
clima ameno, onde o ar-condicionado central não fosse necessário
e uma lareira em algum cômodo principal fosse adequada para
invernos frios.
— Você poderia obter alguma informação da agência de
adoção pela qual passou? — ele perguntou a ela.
— Não. Foi uma adoção fechada. Eles não vão me dar
nenhuma informação. Só descobri o paradeiro dele por acaso,
porque vi no arquivo da família.
Ele fez uma pausa, notando a negligência de um erro como
aquele. E se a agência foi descuidada em uma área, era lógico que
também pudesse ter sido em outras. — Mesmo anonimamente? —
perguntou. — Será que eles verificariam o garoto virtualmente e
depois te diriam que ele está bem? Pode-se dizer que você só quer
saber se ele está bem. Nenhuma informação, apenas o bem-estar
dele.
— Não funciona assim. Concordei com os termos e renunciei
a todos os direitos, até mesmo o direito de discutir o bem-estar dele.
Se eu tentasse obter informações agora, eles pensariam que estou
tentando fazer algo desonesto.
Ele se virou para a tela. — Ok. — Quando Cami ficou em
silêncio por um momento, ele olhou para ela. Ela estava batendo no
lábio inferior com dois dedos e parecia estar pensando em algo. Ela
olhou para o relógio. — A mulher que facilitou a adoção me deu o
número de casa dela, no entanto. Ela estava preocupada comigo
por causa... das circunstâncias e do que eu tinha passado
recentemente. Acho que ela continuou presumindo que eu mudaria
de ideia. — Ela ficou em silêncio por mais um momento. — Eu
poderia tentar. Talvez se eu a encontrar em casa, ela esteja disposta
a ajudar. O que mais temos agora?
Ele olhou para o relógio e viu que passava um pouco das nove
da manhã. Como imaginara, o brilho do nascer do sol começava a
aparecer pela janela do menino, e o quarto ficava cada vez mais
claro. Cami havia saído da cozinha, e ele a ouviu em algum lugar
no corredor, provavelmente no quarto dela, onde presumiu que ela
estivesse localizando o número da mulher que a ajudara a
encontrar uma boa família para seu bebê.
— Cami, qual é o nome da agência de adoção que você usou?
— ele perguntou.
Houve um momento de silêncio, como se ela tivesse tido que
tirar aquilo da memória antes de dizer: — Open Hearts Adoptions.
Ele abriu um navegador e digitou o nome, rolando os
resultados por um momento antes de clicar em uma notícia que
falava do fechamento da agência seis anos e meio antes. Ele
folheou, descobrindo que um processo havia sido movido contra o
proprietário por negligenciar a verificação completa dos candidatos,
confirmando sua ideia anterior sobre descuido, no mínimo. Não
havia muitos detalhes, além disso, mas mesmo esse conhecimento
deixou Rex em alerta máximo. Ele não gostou do fato de a agência
de adoção que Cami havia usado ter entrado com pedido de falência
e fechado após ser acusada de práticas de verificação inadequadas,
e agora — possivelmente — a criança que ela havia entregue a eles
poderia estar em apuros. Não havia nada concreto que conectasse
os dois eventos, mas ele não conseguia deixar de sentir que não
havia como serem isolados.
Cami voltou para a sala, com o celular em uma mão e um
cartão de visita na outra, com o que ele podia ver era um número
escrito à mão no verso. Ela colocou o aparelho no viva-voz e o
ergueu enquanto tocava. Depois de alguns segundos, uma mulher
atendeu, com o som alto de algo fritando ao fundo.
— Sim, oi. Estou tentando falar com Elora Maxwell.
— Elora não mora mais aqui.
— Ah, tá. Você sabe como posso falar com ela?
— Não tenho informações atualizadas sobre ela. Mas, pelo que
sei, ela conseguiu um emprego nas Ilhas Virgens.
— Entendo. Certo, obrigada.
— Você é advogada de uma das famílias com quem ela
trabalhou?
— Não. Eu era uma cliente.
— Ah, uma cliente. Bom, eu não sei nada sobre o que
aconteceu com a agência dela, mas sei que minha mãe falou bem
da Elora. Ela disse que ela era mole demais para o próprio bem.
Parece que não deu muito certo. Enfim, tenha um bom dia. — E
com isso, a pessoa do outro lado da linha, talvez um parente,
desligou.
Cami ficou ali, com o olhar desviado para o lado, o rosto
ficando mais pálido a cada segundo. Seus olhos se voltaram para a
tela à sua frente, distinguindo claramente a manchete do artigo
sobre o fechamento da Open Hearts Adoptions. Ela afundou na
cadeira ao lado dele.
— Muito mole? O que isso significa? Eles pareciam
competentes. O escritório deles era bom. Elora era... meu Deus. —
Ela colocou a cabeça entre as mãos.
— Não parece bom, concordo, — disse ele. — Mas ainda não é
prova de que seu filho não está bem. Ainda não é prova de que este
menino... — ele ampliou a tela onde a transmissão ao vivo estava
passando — é o bebê que você colocou para adoção.
Cami se inclinou, formando um pequeno O com a boca.
— Meu Deus, olha, a porta está se abrindo. — O garoto
também tinha visto e se virou para a pessoa que entrava. Rex e
Cami se inclinaram, com as cabeças quase se tocando, enquanto
esperavam para ver quem apareceria.
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
Cyrus correu em direção à parede ao lado da cama e encostou
as costas na superfície sólida. A porta se abriu e um homem estava
ali, olhando fixamente para ele. Ele segurava uma sacola nas mãos,
e Cyrus sentiu o cheiro de fritura. Seu estômago roncou, e o homem
soltou um pequeno grunhido ao dar um passo para dentro, como
se tivesse ouvido o corpo de Cyrus admitir fome, e isso o tivesse
estimulado a entregar a comida. Ele colocou a sacola no chão e
então olhou para a bacia que Cyrus usara algumas horas antes,
mas não fez menção de pegá-la.
— Quem é você? — perguntou Cyrus, tentando disfarçar o
tremor na voz. O homem era alto, mas meio gordo, e lembrava
Cyrus do motorista do ônibus escolar, aquele que cutucava o nariz
quando achava que ninguém estava olhando e o limpava na perna
da calça. — E por que estou aqui?
— Melhor não fazer perguntas, — disse o homem. — Apenas
coma sua comida.
— Eu quero ir embora.
— É, bom, eu quero transar com a Beyoncé e nadar com os
golfinhos. — Por que estou aqui? — ele perguntou novamente.
— Você não vai ficar por muito tempo. Só até o fim da semana.
Eu te deixaria assistir TV, mas aqui não tem energia elétrica
nenhuma. — Ele enfiou a mão no bolso de trás, tirou algumas
revistas enroladas e as jogou no chão, ao lado do saco de fast food.
— Quadrinhos. O melhor que eu consegui. Homem-Aranha.
Crianças gostam disso, — disse ele como se fosse um fato e, como
Cyrus era criança, ele obviamente devia gostar do Homem-Aranha.
— Você também é um cutucador de nariz, não é? — perguntou
Cyrus.
— Huh?
Cyrus soltou um som de desgosto. Olhou para trás do homem
sonolento na porta, calculando a possibilidade de pular da cama,
fingir que ia para à direita e depois correr para a esquerda,
contornando-o e saindo pela porta. Ele usara esse método para
evitar com sucesso um valentão chamado Crew, que estava em sua
turma, que havia sido reprovado três vezes e era do tamanho de um
lenhador. Cyrus não era grande, mas era rápido e ágil.
E ele estava acostumado a fugir de valentões. Às vezes ele
conseguia, às vezes não.
Ele pensou em uma época em que não conseguiu, o que o fez
pensar no Sr.
Abdullah no parque. Cyrus apareceu com um olho roxo, e o
Sr. Abdullah lhe contou sobre um livro chamado A Arte da Guerra
enquanto jogavam xadrez. Cyrus disse ao Sr. Abdullah que seu pai
não gostava de guerra. O Sr. Abdullah disse que ninguém deveria
gostar de guerra, mas que às vezes a guerra caía do céu. Cyrus não
tinha certeza se estava em guerra, mas era definitivamente um
prisioneiro. O Sr. Abdullah saberia o que fazer nessa situação, e
seu pai também. Mas ele não queria pensar em nenhum dos dois
porque isso o fazia querer chorar. O Sr. Abdullah não estava lá. E
Cyrus nunca mais veria seu pai. Cyrus estava sozinho.
Ele pensou em correr novamente, seus olhos percorrendo o
homem até a porta enquanto avaliava suas chances. — Não pense
nisso, garoto, — disse o sujeito, obviamente lendo sua intenção
como se estivesse escrita em seu rosto. Então, tudo bem, o sujeito
não era um completo cutucão, mas ainda assim parecia bem idiota.
— Pensar em quê?
— Correr. Não há nada por aqui a quilômetros de distância,
exceto ursos.
Você sabia que a mordida de um urso pardo pode esmagar
uma bola de boliche?
— Você é um mentiroso.
— É a verdade. Quer testar? Suas chances de passar por mim
são zero ou nenhuma, mas mesmo que um milagre acontecesse e
você conseguisse, teria que sobreviver na natureza. Há ursos,
cobras e lobos por aí, e você não teria comida. Além disso, são 30
quilômetros até a cidade mais próxima, se você estiver andando na
direção certa. Sem contar que eu te caçaria e te encontraria.
O olhar de Cyrus voltou-se para a porta e depois para a janela,
onde o sol brilhava acima das árvores. Ele não tinha como verificar
a veracidade daquele idiota, mas a vista da janela, pelo menos em
parte, corroborava o que ele dizia. Parecia que ele estava no meio
do nada. E quando encostou o ouvido no vidro, pôde ouvir o rugido
do que parecia ser água.
— Eu não tenho pais, — disse ele ao homem. — Eles
morreram, e eu moro com uma família adotiva que nem gosta de
mim. Eles definitivamente não vão te dar dinheiro. Provavelmente
estão felizes por eu ter ido embora. — Talvez eles o deixassem ser
levado. Essa ideia fez com que um nó se formasse em sua garganta.
Ele sabia que o homem e a mulher com quem vivia não se
importariam se ele vivesse ou morresse, mas a ideia de que eles
pudessem tê-lo entregado a um louco que vivia na floresta o fazia
se sentir mais baixo e solitário do que há muito tempo.
— Eles sabem tudo sobre você, garoto.
— Quem são eles?
O homem deu de ombros. — Quem sabe. Eles, aqueles que
fazem as coisas acontecerem. Os negociadores. Os operadores.
Aqueles com dinheiro e conexões. Os todo-poderosos eles. Você e
eu? Somos apenas engrenagens na máquina deles, meu amigo.
Depois que você aceita isso, tudo fica mais fácil. Nem todo mundo
precisa buscar o reino deles . Muita pressão. Muito estresse. Pegue
o dinheiro deles, fique de boca fechada e você pode relaxar. É tudo
o que eu quero, relaxar.
Ele era uma engrenagem? De uma máquina? Cyrus nem sabia
o que era uma engrenagem. — Que porra você está falando?
O homem riu. — Pelo menos você tem um pouco de garra.
Achei que ia lidar com um maricas chorão. Mas vejo que você é
resoluto. Isso vai facilitar para você.
Facilitar o quê para mim? Mas Cyrus fizera uma pergunta atrás
da outra, e o homem mal oferecera qualquer informação útil. O que
ele sabia agora era que definitivamente havia sido sequestrado —
havia um homem do lado de fora da porta, e, se fosse possível
acreditar no homem, outros viriam buscá-lo em cerca de uma
semana.
E Cyrus sabia que qualquer outro que viesse buscá-lo em uma
cabana no meio do nada, onde ele estava sendo mantido por um
sequestrador, era uma má notícia.
Cyrus estava acostumado a notícias ruins. Ele vivia em meio
a notícias ruins desde os oito anos de idade.
Ele tinha que sair dali, e tinha que fazer isso antes que eles
chegassem.
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
Cami pressionou as duas mãos sobre a boca para conter o
gemido de desespero, surpresa e uma centena de outras emoções
que se acumulavam em sua garganta. Rex olhou para ela, com uma
expressão igualmente conflituosa.
Ele pegou uma caneta e um bloco de notas do balcão enquanto
observavam e ouviam a conversa, e agora que o menino estava
sozinho novamente, investigando o conteúdo do saco de papel
engordurado que o homem havia deixado, Rex abaixou o volume do
computador.
— Acolhimento familiar, — disse ele, olhando para ela com os
olhos arregalados. — Os pais dele morreram.
Cami abaixou as mãos e as apertou para conter o tremor.
Então, fechou os olhos e simplesmente respirou, deixando a raiva e
a tristeza atingi-la até que pudesse suportar. Quando abriu os olhos
e colocou as mãos sobre a mesa, notou que ele levantou a mão
levemente, como se fosse tocá-la. Ela permaneceu no ar por um
instante antes de ele abaixá-la novamente.
— Você acha que a mudança de Elora Maxwell para as Ilhas
Virgens e os processos contra sua agência de adoção têm alguma
conexão com isso? — perguntou ela.
— Talvez. Não consigo entender como a morte dos pais
adotivos desta criança possa ser culpa dela, mas é possível. Se eles
morreram de algo relacionado a drogas porque ela não os examinou
adequadamente ou algo assim... — Ela assentiu lentamente.
— Acho que isso é algo para ser investigado mais tarde, —
disse ele. — O porquê e o como ele foi parar num orfanato. Mas se
este for seu filho, agora não precisamos mais ficar nos perguntando
onde estão os pais dele.
— Mesmo assim, por que seus pais adotivos não o
denunciaram como desaparecido?
— Talvez, como eu disse, eles ainda não tenham percebido.
Talvez ele devesse passar a noite em algum lugar. Vamos ficar de
olho nisso.
— Ou talvez, como ele mencionou, eles não se importem.
Rex apenas apertou os lábios, os olhos cheios de preocupação.
— Ele parece um lutador, — disse. — Ele não se esquivou daquele
cara. A maioria das crianças teria se encolhido.
Cami assentiu, trêmula. — Ele é, não é? — Até ela percebeu o
orgulho em sua voz. Ela tentara manter sua conexão pessoal
distante. Havia uma chance de que o menino não fosse o bebê que
ela dera à luz, mas a cada palavra que ele dizia, seu pequeno queixo
se erguia desafiadoramente — algo que a lembrava tanto de Elle
quando ela se mantinha firme — seu coração o reivindicava um
pouco mais. — E agora?
— Aquela troca nos deu mais do que tínhamos antes. — Ele
olhou para o bloco de papel. — Ele está em algum lugar selvagem;
podemos ver isso pela janela. E, se acreditarmos naquele homem,
eles estão a 30 quilômetros de uma cidade. — Ele bateu a caneta
no bloco por um momento enquanto Cami respirava longa e
lentamente. — Há também um som... — Ele puxou o computador
para perto de si novamente e aumentou o volume. — É alto, mas
parece natural. Poderia ser o oceano?
Ela inclinou a cabeça levemente, escutou e então assentiu.
— Sim.
Com certeza. O que, novamente, faria sentido se ele estivesse
na Califórnia.
— Mas isso limita ainda mais a busca. Ele está perto da beira
do oceano, na Califórnia, em uma área selvagem a 30 quilômetros
de uma cidade com um restaurante que oferece comida para viagem
e uma loja que vende quadrinhos.
— Ainda devem existir centenas de possibilidades.
Ele bateu a caneta no bloco novamente. — É mais do que
tínhamos antes.
Ela conseguia ver as engrenagens girando em sua cabeça e a
profunda inteligência em seus olhos. Ela vira a preocupação com a
criança assustada no quarto trancado e, por um momento, sentiu-
se tão grata por tê-lo ali com ela que quase a fez chorar. E com tanto
medo de que ele fosse embora.
— Você continua dizendo nós, — disse ela, com a emoção
fazendo sua voz falhar.
Ele olhou para ela, parecendo ponderar a resposta. — Escuta,
Cami, independentemente do que aconteceu conosco no passado,
ou qualquer outra coisa, tem uma criança metida num grande
problema aqui, e eu não posso fugir disso.
— Obrigada, — ela suspirou. Seus olhares se encontraram por
um momento antes que ele desviasse o olhar, voltando para o garoto
na tela.
— Gostaria que houvesse alguma maneira de me comunicar
com ele, — disse ele. — Ou com a pessoa que entrou em contato
com você.
— Tentei os dois números de volta e nenhum funcionou. —
Ela pensou por um momento. — O homem que entrou no quarto
disse que não há eletricidade no local. Então, como é que tem uma
câmera?
— Todo sistema de segurança tem câmeras que funcionam
com pilhas. Elas podem ser tão pequenas que a criança nem
perceberia. A luz também precisa ser alimentada por pilhas.
— Qual você acha que é o objetivo da câmera?
— Apenas uma maneira de observá-lo sem estar no quarto o
tempo todo. O que me faz pensar que só tem aquele homem ali.
Quando ele vai à cidade comprar comida, por exemplo, ele usa a
câmera para monitorar o garoto.
— Então, como estamos vendo isso?
Ele bateu novamente por um minuto, parecendo preocupado.
— Não sei. — Fez uma pausa. — Posso ver a foto que você tirou com
o seu celular?
— Claro. — Ela pegou o celular e rolou a tela até as três fotos
que havia tirado, com o menino em diferentes locais do quarto em
cada uma. Ele deu zoom em uma delas e, quando ela se inclinou
em sua direção, viu que ele estava olhando para uma vista ampliada
da janela.
— O que você está procurando? — Estava completamente
escuro. As únicas coisas visíveis eram as estrelas que podiam ser
vistas através das grades. Ela levantou a cabeça. — Meu Deus, as
estrelas. Podemos usar as estrelas para descobrir a localização
dele?
— Talvez. Navegação astronômica não é minha especialidade,
mas conheço alguém que pode ajudar. E ele está disponível porque
está de cama.
— Ele é...
— Confiável? Com certeza.
— Tem que ser alguém que não peça mais informações do que
você pode dar.
— Esses são os únicos tipos que conheço.
Ela mordeu o lábio. A voz ao telefone apenas dissera que ela
não podia entrar em contato com a polícia. Não havia instruções
sobre pedir ajuda a terceiros. Rex provavelmente estava falando de
amigos militares, mas contanto que não revelasse os motivos de
suas perguntas...
— Ok. Sim, ok.
— Um de nós tem que monitorar isso constantemente. —
Ambos olharam para a tela. O garotinho estava sentado na cama
encostado na parede novamente e, embora estivesse obviamente
lutando contra o sono, estava perdendo a batalha. Seus olhos se
fecharam e sua cabeça se inclinou para o lado antes que ele a
levantasse novamente, seus cílios tremulando. Ele devia estar
exausto. Ele tinha ficado acordado a noite toda. Vou ficar acordada
por você, ela disse a ele silenciosamente em sua cabeça. Vou ficar
de vigia. Não adiantaria muito, ela sabia. Mesmo que visse perigo,
não havia nada que pudesse fazer. Mas parecia que importava de
qualquer maneira.
Rex se levantou. — Vou entrar em contato com algumas
pessoas que talvez tenham ideias que eu não estou pensando,
incluindo o amigo que mencionei. Volto logo para você tirar um
cochilo.
Ela pegou a mão dele e inclinou a cabeça para olhá-lo, e ele se
assustou quase imperceptivelmente com o contato pele a pele.
— Obrigada novamente. — Ele assentiu e ela o soltou,
sentindo instantaneamente a falta da mão grande e calejada dele
na dela.
— Escrevi meu número ali mesmo, — disse ele, indicando o
bloco de papel. — Me ligue se precisar. Caso contrário, volto em
algumas horas. — Ele começou a se virar, mas então parou. — Me
envie as fotos daquele quarto, se você puder.
— Ok, claro. — Ela acompanhou Rex até a porta e se despediu
rapidamente, depois voltou para a cozinha, onde usou o número
dele para enviar uma mensagem de texto com o que ele havia pedido
e programou-o em seu celular. Com o laptop na mão, ela foi para a
sala de estar, onde se sentou encostada nas almofadas com o
computador no colo.
A criança havia se entregado ao sono e agora roncava
baixinho. Seu coração se apertou, e ela pegou o celular da mesa de
centro, tirou uma foto do vídeo e, em seguida, usou-a para dar um
zoom no rosto dele. Ela encarou suas feições, cada vez mais certa
de que ele era dela. E de Hollis. Ela se via, principalmente, mas
também via Hollis como ele era quando menino. Ela se lembrou da
galeria de fotos em sua casa, que ela havia admirado com carinho
um dia, e tinha certeza de que aquele menino se parecia um pouco
com o pai quando criança. Suas emoções estavam em turbulência,
o desejo que ela carregava como um sussurro silencioso desde o dia
em que o entregara, surgindo como um tilintar de sinos dentro dela.
Este menino era dela. E ele precisava dela. E ela jurou não
decepcioná-lo desta vez.
Um recomeço.
Algo a incomodava naquela frase. O som dela...
Mas ela não conseguia descobrir o que a incomodava, pelo
menos não com o medo do fracasso zumbindo silenciosamente no
fundo de sua mente.
Ela abaixou o som do vídeo para o volume médio e, quando
algo lhe chamou a atenção, largou o celular e aumentou o volume
do vídeo no laptop. Aquilo era... um pássaro ou... grilos? Não. Ela
se inclinou e ouviu o som do lado de fora da janela, um pouco
abafado, mas alto o suficiente para que pudesse ouvi-lo
distintamente. Tirou outra foto da janela e, em seguida, usou o
celular novamente para dar zoom. — Um sapo, — sussurrou. Havia
um pequeno sapo verde sentado no parapeito da janela. Ela deu
zoom e tirou uma foto, depois abriu o navegador do computador e
fez uma busca.
Meu Deus, havia muitos sapos verdes pequenos na América.
Ela os examinou um por um enquanto a criança dormia,
escorregando pela parede e se jogando no colchão, onde colocou as
mãos em posição de oração e as colocou sob a bochecha.
Ela conferiu os sapos que se pareciam com o da foto ouvindo
os sons gravados de cada um. Alguns eram confusos, e outros ela
conseguiu rejeitar imediatamente.
Depois de uma hora, Cami se levantou e levou o computador
para a cozinha para preparar um café forte. Bocejando, ela voltou
para sua posição no sofá e continuou procurando. Levou mais uma
hora para restringir sua busca à perereca do Pacífico.
— Te peguei, — sussurrou ela, a sensação de vitória
temporariamente anulando sua exaustão.
Ela reconheceu a mesma faixa preta contornada em amarelo
sobre os olhos dele e, quando tocou o som, o refrão foi idêntico ao
que vinha de fora da janela onde seu filho dormia atrás das grades.
Ela pegou o telefone e mandou uma mensagem para o número
de Rex e anexou a foto do sapo.
A rã-árvore do Pacífico tem uma distribuição que abrange
o noroeste do Pacífico, o norte da Califórnia, Oregon e
Washington.
Se eles estavam presumindo que fosse a Califórnia, então
aquele lindo sapinho tinha apenas restringido a busca deles para a
parte norte do estado.
Poucos minutos depois, seu telefone tocou com uma
mensagem de Rex:
Bom trabalho. Vejo você em uma hora.
Cami deu um sorriso ao pousar o celular. Menos de 24 horas
haviam se passado e, com a ajuda de Rex, ela agora sabia que seu
filho estava no norte da Califórnia, perto do oceano. Ainda era uma
área vasta geograficamente, mas estava mais perto do que na noite
anterior.
E ela tinha um parceiro. Um que ela jamais imaginaria ter,
mas um parceiro mesmo assim.
O pensamento a fez girar. Ela já estivera em uma situação
terrível e precária antes, com uma ameaça pairando sobre sua
cabeça, onde estivera isolada da mãe e da irmã. Sozinha. Ter
alguém ali — mesmo que neste caso a ameaça não fosse
diretamente a ela — era um alívio tão profundo que ela quase
chorou de gratidão.
Um movimento na janela a tirou de seus pensamentos
confusos, e ela se virou naquela direção. Um pássaro havia pousado
em um galho próximo e, antes que pudesse alçar voo, Cami tirou
uma foto e deu um zoom. Tinha uma cabeça pequena e um bico
com um topete de penas que a fez pensar que era algum tipo de
codorna. Ela abriu o navegador novamente e fez o mesmo tipo de
busca que fizera para o sapo, alternando entre as codornas no
laptop e a do celular.
Ela finalmente parou de rolar a tela em uma que parecia quase
idêntica e descobriu que era uma codorna da Califórnia, que vivia
por toda a Califórnia, mas principalmente nas florestas do sopé das
montanhas.
Sobre o pássaro não conseguiu descobrir muito, mas agora
estava convencida de que a cabana que eles estavam observando
ficava em algum lugar no norte da Califórnia.
Ela se recostou novamente e continuou a observar o menino
dormir, seguro por enquanto, perdido em seus sonhos. Ou, mais
provavelmente, pesadelos
.
CAPÍTULO VINTE E CINCO
Cyrus sonhou com seus pais, com o jeito que eles riam
enquanto seu pai fazia panquecas que deveriam parecer renas com
chifres de bacon, mas que na verdade pareciam criaturas marinhas
em forma de bolhas.
Naquela manhã, três anos antes, Cyrus acordara e descobrira
que todo o quintal estava coberto de um branco cintilante. A grama
seca era um campo cintilante de cristais de gelo. Os galhos das
árvores, que às vezes raspavam sua janela como dedos de bruxa,
estavam curvados em direção ao chão e pingando pingentes de gelo.
Antes das panquecas, sua mãe invadiu seu quarto, animada,
e lhe disse para vestir sua roupa de neve para que pudessem descer
a colina de trenó. E então seu pai o ajudou a construir um boneco
de neve com pedras no lugar dos olhos e seu boné do 49ers.
Mais tarde naquele dia, eles foram ao cinema, e sua mãe
aumentou o volume do rádio do carro quando —Jingle Bell Rock—
começou a tocar. Foi a última coisa de que ele se lembrava antes de
acordar no hospital e ouvir que seus pais “não sobreviveram”. Ele
não entendeu a princípio. Não sobreviveram o quê? Mas então a
simpática enfermeira segurou sua mão e disse que estava lá para
ajudá-lo. Ela disse que tudo ficaria bem.
Mas ela estava errada.
Ela estava muito enganada.
Cyrus esvaziou o resto da água pouco antes de ouvir passos
no outro cômodo e, em seguida, a chave na fechadura. O homem
entrou segurando outro saco de comida gorduroso e o colocou no
chão junto com uma garrafa d'água.
Ele franziu a cara feia enquanto pegava a comadre e a colocava
do lado de fora da porta, e então pegou um segundo saco ao lado
da comida e remexeu dentro dele.
— Que bom que você conseguiu dormir um pouco, — disse o
homem. — Trouxe uns doces e umas cartas de baralho para você
se manter ocupado. — Ele jogou duas barras de chocolate na cama
e então ergueu um baralho. — Você sabe jogar paciência?
— Qualquer idiota sabe jogar paciência.
O homem soltou uma risada que soou como se estivesse
misturada com um bufo, e então jogou as cartas de volta no saco
plástico, jogando-o no chão, ao lado da comida. — Aproveite.
— Ei, espera aí. E se eu... precisar de alguma coisa?
— Tipo o quê? — Ele fez um gesto com a mão. — O que mais
você poderia querer? — Ele riu, e esta risada soou tão gordurosa
quanto a comida que ele havia entregado.
— Tipo, e se eu me machucar ou algo assim? Eu bato na
porta?
Os olhos do homem se estreitaram como se ele estivesse
tentando descobrir qual era o objetivo de Cyrus.
— Você pode tentar. Às vezes estou aqui, às vezes estou
sentado na varanda. Posso te ouvir, ou não.
Cyrus assentiu. — Certo. — O homem estava mentindo, talvez
porque não estivesse por perto tanto quanto dizia. Cyrus não ouvira
o motor de um carro ligando nem portas se fechando, então o
homem não estava estacionando perto da cabana. Ou de qualquer
inferno que fosse aquele. Mas, de qualquer forma, agora Cyrus
tinha certeza de que não havia mais ninguém o observando. Apenas
o cutucão de nariz.
— Não gosto que meu tempo seja desperdiçado. Leia seus
quadrinhos, jogue suas cartas e espere o momento certo, ouviu?
— Sim.
— Ok, ótimo. — E com isso, ele fechou a porta atrás de si e
trancou-a.
Havia uma câmera observando-o.
Essa era outra coisa que Cyrus agora sabia. Afinal, de que
outra forma o homem saberia que ele havia dormido? A chave na
fechadura fez barulho, assim como a porta quando se abriu. O
pássaro no parapeito da janela lá fora havia acordado Cyrus, e ele
certamente teria ouvido a porta. Não, o homem não havia entrado
enquanto ele dormia. Ele o observara de outra forma.
Cyrus caminhou lentamente pela sala, fingindo observar os
arredores mais uma vez, como fizera ontem. Mas, desta vez, seus
olhos vagaram pelo topo das paredes de madeira, e algumas vezes
ele se espreguiçou, inclinou a cabeça e olhou para o teto.
Ele não viu nenhuma câmera em lugar nenhum.
Mas isso não significava que não existisse. Havia tantos
buracos nas paredes e no teto. Poderia haver uma câmera ou até
mesmo um olho o observando naquele exato momento. Um arrepio
percorreu sua espinha.
Cyrus pegou o saco de comida, sentou-se no chão, encostado
na parede, e o abriu. Dentro havia um copo de papel com chili e
uma batata assada com queijo e pedaços de bacon. Ele pegou a
colher de plástico, tirou a tampa do chili e comeu alguns pedaços.
Precisava manter as forças se quisesse sair daquela situação
quando tivesse a chance.
Ele terminou a comida e colocou o lixo de volta no saco de
papel, depois usou um guardanapo para limpar a colher de plástico
e fingiu colocá-la no saco ao lado. Mas, na verdade, deixou o
utensílio cair atrás do quadril.
Ele agarrou a alça com força e começou a esculpir na parede,
com a mão em movimento escondida pela bolsa enquanto seu olhar
vagava pelas paredes novamente, procurando pelo pequeno
dispositivo de visualização.
Cyrus se levantou quando terminou, pegou o saco cheio de
lixo e o jogou perto da porta. Ao se virar, olhou para o lugar onde
havia gravado seu nome, satisfeito por mal poder ser visto e
provavelmente não ser notado pelo homem que lhe trouxe comida e
cartas de baralho. Aquele que poderia ou não estar logo ali, do outro
lado da porta. Mas se Cyrus desaparecesse, se os homens maus
viessem e o levassem dali, e ele nunca mais fosse visto ou ouvido
falar dele, talvez um dia alguém visse seu nome gravado na parede
perto do chão e soubesse que, em algum momento, ele existiu.
Ele não sabia ao certo por que isso importava para ele.
Simplesmente importava.
Ele se sentou na cama no mesmo lugar em que se sentara
antes e, novamente, estendeu a mão e agarrou a coluna mais
próxima da parede. Ao mover o pulso levemente, sentiu que a
coluna estava frouxa e, ao virar a cabeça, bocejar e olhar para o
local onde sua mão segurava, percebeu que, ao girá-la, ela subia
ligeiramente, como se fosse uma peça separada que tivesse sido
torcida sobre a de baixo.
Se conseguisse afrouxá-la o suficiente para retirá-la, teria uma
arma muito boa. Poderia usá-la para golpear o homem na cabeça.
Mas teria que cronometrar direito, para que o homem não visse
Cyrus preparando seu ataque pela câmera antes de entrar na sala.
Ele não podia deixá-lo saber que tinha uma arma.
Mas ele ia tentar escapar.
Porque Cyrus não dava a mínima para o que aquele cutucão
de nariz dizia sobre animais selvagens na floresta. Ele sabia o que
acontecia quando você ficava esperando alguém te salvar. Era
melhor se salvar.
E Cyrus decidiu que preferia arriscar com um urso do que com
os homens maus que estavam a caminho.
CAPÍTULO VINTE E SEIS
Rex viu o número na tela e estacionou a caminhonete no meio-
fio enquanto atendia a chamada. — Joaquin.
— Bem, que surpresa. Você não deveria estar vendendo uma
casa em algum lugar?
— Sim, estou. Mas surgiu algo mais urgente.
— Nossa, não gosto disso.
Joaquin Andazola nunca foi acusado de ser lento na
compreensão.
— Como está o ombro?
— A cura está muito lenta e me irritando.
— Não tenha pressa ou você voltará exatamente para onde
começou.
— É, é, você parece minha esposa, — resmungou ele. — O que
você precisa?
Ele olhou pela janela para a cafeteria ao lado de onde sua
caminhonete estava parada. — Aquele aplicativo que você me falou,
qual a precisão dele sem um horizonte à vista?
Joaquin hesitou por um instante. — Depende. Que outros
dados você tem?
— Tenho uma visão cristalina das estrelas com um registro de
data e hora, e também tenho a posição do sol com registro de data
e hora.
— Que horas é o sol?
— Manhã.
— Bom dia. Seria muito mais fácil se você tivesse uma ideia
da localização geográfica.
— Califórnia. Provavelmente a parte norte do estado.
— Ok, ok. Isso limita a possibilidade. Temos algo com que
trabalhar. Mas o sistema ainda tem alguns bugs. Tenho trabalhado
nisso, mas está longe de ser perfeito. E com as informações
limitadas que você tem, fica ainda mais desafiador. Talvez eu
consiga te levar perto, mas não tenho a localização exata nem
garantia.
— Qualquer informação que você possa fornecer será útil.
— Sem problemas, amigo. Vai me dar o que fazer. Manda as
fotos e eu vou tentar.
— Te devo uma.
— Claro que sim. Mas eu também te devo uma, e já perdi a
noção de quem está na fila, então vamos imaginar que estamos
quites.
Rex sorriu. — Valeu, cara. As fotos vão chegar na sua caixa de
entrada em instantes. Me liga quando souber de alguma coisa.
Rex abriu as fotos que Cami havia lhe enviado por mensagem
e as encaminhou para Joaquin. Então, deixou o celular de lado e
pensou por um minuto. Confiava que Joaquin lhe daria um retorno.
Quão específico seria esse algo, ele não conseguia adivinhar, pois
não havia dado muita informação ao amigo. Mas Rex sabia que, se
alguém poderia levá-los perto do alvo, era Joaquin. Ele fazia
exatamente isso para o governo dos EUA havia uma década e estava
entre os melhores. Ele havia rastreado traficantes de drogas até
uma cabana no meio da selva, e muitos outros bandidos até
buracos no chão — às vezes literalmente — por todo o mapa.
Cami fizera bem em procurá-lo, não necessariamente pelas
habilidades de Rex, embora ele possuísse algumas, mas por causa
de sua gama de contatos e amigos. Ele se sentia honrado pela
confiança dela, mas também se perguntava se deveria ser mais
cauteloso. Ela já havia dizimado sua vida uma vez. Ele entendia
como o passado compartilhado deles havia se desenrolado. E
mesmo quando deixou claro que não precisavam mais se falar
quando ela o pegou de surpresa, ele ainda não a culpara pelo que
aconteceu depois do crime que levou sua mãe e irmã. Ela era uma
adolescente traumatizada e não o acusara falsamente. Ela
simplesmente não se apresentara para defendê-lo... mas por que
deveria? Depois do que aconteceu com ela, ela devia estar
profundamente confusa e desconfiada de todos. Principalmente de
um colega de classe que a seguia como um cachorrinho há anos.
Ele estremeceu ao se lembrar da vergonha que sentia por tê-
la adorado.
Sim, acho que... poderia ter sido ele. Rex Lowe.
A maneira como aquelas palavras ecoavam em sua cabeça. A
maneira como a lembrança ainda queimava. Seu amor por Cami
fora ridículo e baseado principalmente em fantasia. E mesmo
naquela época, ele sabia disso. Mas não estava obcecado ou
delirante como sugeriram. Ele a amara — 99% a ideia dela, claro,
mas 1% a realidade. Ele notara tanta coisa, tudo e qualquer coisa
que ela oferecera, consciente ou inconscientemente. Sua risada, tão
cheia de sinceridade. A maneira como ela segurava as portas
abertas para as pessoas, mesmo quando estavam tão distantes, que
tinham que correr para demonstrar gratidão pelo gesto. A maneira
como seu lábio tremia tão levemente quando ela lia seu poema em
voz alta na aula de inglês. Sua escrita não era boa; na verdade, era
um tanto terrível, mas ele a achava linda porque lhe dava outro
vislumbre de dentro dela.
E esse 1%, ah, ele teria matado dragões por aquele pedacinho
de Cami.
Adolescentes eram uns idiotas. E ele definitivamente era um
deles.
O que o preocupava era que agora era um homem e ainda
sentia aquela ardente atração de desejo ao olhar para Camille
Cortlandt. E, mais do que isso, ele ainda... acreditava nela. Era a
melhor maneira de descrever. Ele nem sabia ao certo o que isso
significava, além de ter a sensação de que ela era uma boa pessoa
com boas intenções, assim como ele sentia quando era apenas uma
criança.
E embora Rex ainda estivesse aprendendo a confiar em si
mesmo quando era adolescente, ele passou a confiar em seus
instintos de homem.
Então, tudo bem, ele seguiria seu instinto e continuaria a
ajudar Cami com aquela situação estranha e perturbadora em que
ela havia sido colocada. Por causa de quem ele acreditava que ela
era, no fundo, onde importava. Mas também porque, além dela ou
dos sentimentos dele sobre quem ela era como indivíduo, havia uma
criança em apuros.
Rex saiu do meio-fio e voltou para a casa de Cami,
estacionando na mesma rua do apartamento dela quando chegou.
Antes mesmo que ele pudesse levantar a mão para bater, ela já
estava abrindo a porta, obviamente esperando por ele.
— O nome dele é Cyrus.
— O que?
— O garotinho, meu garotinho. O nome dele é Cyrus.
Ele entrou, e ela fechou a porta atrás dele. — Como você sabe?
Ela trancou a fechadura e reiniciou o sistema de segurança na
parede ao lado da porta. — Eu vou te mostrar. — Então ela se virou
e correu para a sala de estar, e ele a seguiu, sentando-se no sofá ao
lado dela, onde o laptop estava colocado na mesa de centro. O
garotinho estava sentado de pernas cruzadas no chão, jogando
cartas dispostas à sua frente. Parecia que ele estava jogando
paciência.
— Veja só, — disse Cami, apontando para uma parte mais
baixa da parede, bem ao lado de onde ele estava sentado. Rex
semicerrou os olhos e se inclinou.
— Aqui, — disse ela, entregando-lhe o celular. Ela obviamente
havia tirado uma foto e ampliado. — Eu o vi fazer isso com uma
colher de comida que o mesmo homem trouxe. — Rex virou a foto
e, de fato, a frase “Cyrus esteve aqui” estava rabiscada de cabeça
para baixo no acabamento da parede de tábuas de madeira.
— Cyrus, — murmurou ele. Não necessariamente adiantaria
em nada para localizá-lo, mas poderia ser útil em algum momento,
e era bom poder se referir a ele pelo nome. Valeu, garoto. — Você fez
outra busca online por desaparecidos...
— Sim. E pesquisei o primeiro nome dele também, para ver se
aparecia algo relacionado a crianças desaparecidas ou postagens
online, e não encontrei nada. — Ela lhe mostrou as fotos do sapo e
do pássaro, porém, e continuou sua busca pelas duas criaturas que
avistara do lado de fora da janela.
Ele lhe deu um sorriso irônico. — Os militares poderiam usa-
la.
O sorriso dela em resposta foi fugaz. — Cyrus ainda está em
perigo, e não estamos muito mais perto.
— Podemos estar em breve. Aquele especialista em navegação
celeste que mencionei está desenvolvendo um programa que usa as
estrelas — em tempo real ou a partir de uma fotografia — para
localizar lugares. Dependendo da informação, ele consegue chegar
bem perto. Infelizmente, o horizonte não está visível na foto que
temos do céu noturno lá fora. — Ele acenou com a cabeça para o
computador. — Mas ele vai fazer os cálculos e ver o que consegue
descobrir. Também temos uma foto do Sol, o que é útil.
Ela mordeu o lábio, e ele de repente percebeu como ela parecia
absolutamente exausta. O vermelho ao redor dos seus olhos estava
ainda mais pronunciado, e um pequeno músculo se contraiu no
canto direito, sob os cílios. — Uma foto das estrelas pode realmente
fazer isso? — perguntou ela.
— Sim. Chama-se navegação celeste, e navegadores marítimos
e aéreos a utilizam há séculos. — A ciência necessária era
extremamente complexa, envolvendo trigonometria esférica e
outras matemáticas avançadas, mas Joaquin estava desenvolvendo
um programa que — em teoria — permitiria que alguém inserisse
uma fotografia das estrelas no céu e obtivesse uma localização
exata. Ou até mesmo uma localização inexata.
Seus usos eram muitos e inúmeros.
Ela esfregou o olho e assentiu. — Obrigada por entrar em
contato com ele. Ele não perguntou...
— Não. Nem uma única pergunta.
Ela se virou novamente para o computador. — Mais uma
coisa. — Ela apontou para perto da porta, onde havia uma sacola
de fast-food, o que ele presumiu ser o lixo da refeição que ela
mencionara ter sido entregue. Ao lado, havia uma sacola plástica
dobrada com um pedaço de uma letra vermelha aparecendo na
frente. — Aquele logotipo. Estou tentando descobrir o que pode ser,
e não parece ser nada de uma rede. O homem tinha as cartas de
baralho dentro, então talvez seja uma loja local, se conseguirmos
descobrir o nome, podemos procurar a localização.
Ótima ideia. Ele pegou o computador e o colocou sobre os
joelhos enquanto o examinava mais de perto. Mas era uma visão
tão parcial que ele não conseguia distinguir nada. — Talvez quando
o homem voltar para recolher o lixo, vire para que possamos vê-lo
mais claramente.
Ela conteve um bocejo. — É isso que eu espero.
— Escute, Cami, eu estava pensando.
Ela ergueu os olhos cansados para ele, e ele viu um lampejo
de ansiedade — ela achou que ele fosse lhe dar más notícias. Talvez
sobre o seu envolvimento, ou o tempo limitado que estava disposto
a dar. Mas ele já havia decidido que estava ali, acontecesse o que
acontecesse.
— Acho que devemos ir lá.
Ela piscou. — Ir para onde?
— Para o norte da Califórnia. Se conseguirmos uma
localização mais precisa — seja por meio do meu amigo ou por outro
meio — que nos leve para perto de onde Cyrus está, precisaremos
entrar no carro imediatamente.
Ela desviou o olhar enquanto colocava as mãos no colo e
levantava os ombros. — A pessoa ao telefone disse que fui
convidada a localizar Cyrus, então viagens não podem ser
proibidas, mesmo que o dispositivo esteja sendo monitorado. —
Quando olhou para ele novamente, ela levantou o queixo. — Certo.
Sim. Mas para onde? Para onde no norte da Califórnia devemos ir?
Rex esfregou o queixo por um momento antes de tirar o celular
do bolso e consultar um mapa da região. — Que tal voarmos até
São Francisco, alugarmos um carro e começarmos a dirigir pela
costa? Se estivermos certos sobre a cabana onde Cyrus está sendo
mantido, que fica perto do oceano, então ele deve estar em algum
lugar logo depois daqueles penhascos.
Cami assentiu e pegou seu laptop, diminuindo o tamanho do
vídeo de Cyrus jogando cartas e abrindo uma aba do navegador. Ela
acessou o site de uma companhia aérea e começou a inserir datas
e locais.
— Eu posso comprar minha...
— De jeito nenhum, — disse ela. — Eu te arrastei para isso.
Vou comprar essas passagens. — Ela parou por um momento e
levantou a cabeça para olhá-lo. — Tem certeza de que tem tempo
para viajar? Você não contava com nada disso quando disse que me
ajudaria.
— Tenho alguns meses de folga.
— Sim, mas você está aqui para resolver a questão dos bens
do seu avô.
Ele não conseguiu conter o sorriso. — Essa descrição parece
muito mais complexa do que a realidade. Eu precisava arrancar
algumas ervas daninhas, jogar fora algumas tralhas e listar o
imóvel. A única coisa que falta fazer é listar, e posso fazer isso
quando voltarmos. — Ou talvez até da rua. Ele já havia tirado fotos
da fachada e dos cômodos que havia limpado. Ninguém compraria
o imóvel porque era a casa dos sonhos. Qualquer comprador
provavelmente iria reformar a casa. Ele só queria ter certeza de que
não daria a impressão de que precisava de tanto trabalho a ponto
de não valer a pena.
Ela soltou um suspiro. — Mais uma vez, obrigada. Mas eu
compro as passagens.
— Vou alugar o carro. — Ela abriu a boca como se fosse
discutir, mas então aparentemente desistiu e se virou para a tela
para comprar as passagens. — Partimos às cinco e meia hoje à
noite.
Ele olhou o horário. — Isso te dá pelo menos uma hora para
tirar um cochilo. Eu fico e cuido do Cyrus enquanto você dorme,
depois vou para casa, coloco algumas coisas numa mochila e te
encontro aqui.
Mas ela balançou a cabeça. — É um voo de quase cinco horas.
Vou dormir no avião. Você vai para casa e arruma algumas coisas,
e eu também. Também preciso ligar para o meu trabalho e avisá-
los... — Ela parou de falar, obviamente sem ter um plano definido
sobre o que dizer a eles. — Bem, vou avisar que surgiu um
imprevisto. — Ela pegou o laptop e se levantou. — E vou levar isso
comigo enquanto faço o que preciso fazer aqui.
Ele também se levantou. — Certo. Te pego às três. Podemos
estacionar minha caminhonete no aeroporto.
Ela assentiu distraidamente. — Até lá.
Ela o deixou sair, e ele a ouviu trancar a porta atrás de si e os
bipes suaves do alarme sendo reiniciado. Ele se virou e caminhou
até sua caminhonete, entrou e repensou a mente por um momento,
da mesma forma que se acostumara a fazer em sua profissão, onde
planos e missões tendiam a mudar a qualquer momento.
CAPÍTULO VINTE E SETE
Cami acordou assim que o avião pousou no Aeroporto
Internacional de São Francisco, sacudindo as teias de aranha do
sonho que estivera tendo. Ela vira a mãe. Repetira as palavras que
dissera antes de morrer. Para onde... Para onde aquela frase tinha
ido? Cami se perguntara um milhão de vezes. O forte toque acima
a afastou ainda mais da neblina, e a realidade se infiltrou
lentamente enquanto a aeronave parava bruscamente na pista. Eles
estavam no norte da Califórnia para se antecipar à situação na
tentativa de localizar — e resgatar — seu filho, que havia sido
sequestrado por razões desconhecidas. Ela deixou que aquela
verdade surpreendente se estabelecesse ponto por ponto, o choque
absoluto disso a trazendo rapidamente para o aqui e agora.
Algo incrível tocou seu nariz, o cheiro de homem e um pouco
de desodorante de eucalipto se misturando no ar ao seu redor. Ao
levantar a cabeça, ela se deparou com outra realidade. Ela estava
babando no ombro de Rex Lowe. Ela se sentou completamente
ereta, estremecendo com a pontada dolorosa no pescoço.
— Desculpe por isso, — ela murmurou, inclinando a cabeça
de um lado para o outro.
— Que bom que você dormiu, — disse Rex, com a voz grave e
masculina percorrendo suas terminações nervosas e tensionando
seus músculos já doloridos. Ela também achava. Apesar da atual
desorientação e da consciência da proximidade de Rex, sentia-se
anos-luz melhor, e seu cérebro parecia lúcido novamente. Ou pelo
menos estava começando a ficar.
O avião taxiou lentamente, parando no portão enquanto Cami
se orientava e se certificava de que todos os seus pertences não
tivessem se deslocado tanto a ponto de não conseguir localizá-los.
— Como ele está? — perguntou ela, apontando para o
computador fechado no colo dele. O fato de ela ter sido instruída a
não acessar o site em mais de um dispositivo funcionara bem
quando estava em seu apartamento, mas não tanto na estrada.
Ainda assim, contanto que o laptop estivesse carregado, era
pequeno o suficiente para viajar. Felizmente, ela não havia acessado
um computador de mesa sem nenhuma previsão do que estariam
fazendo naquele momento.
— Ele está dormindo, — disse Rex. — Eu odiei ter que desviar
o olhar. Vou abrir de novo assim que sairmos do avião.
— Obrigada por ficar de olho. Alguma coisa para relatar? — O
sinal sonoro no teto indicava que o aviso de cinto de segurança
estava desligado, e os passageiros começaram a se levantar e pegar
suas bagagens nos compartimentos superiores.
— Não, as últimas cinco horas não trouxeram muita coisa,
felizmente e infelizmente. — Ela entendeu o que ele queria dizer
sobre a parte da sorte. Se algo tivesse acontecido que indicasse seu
paradeiro, eles não poderiam ter feito nada a 30 mil pés de altura.
Eles se levantaram quando chegou a vez deles, Rex pegou suas
malas de viagem e desembarcaram, caminhando pelos corredores
lotados do SFO. Rex abriu o laptop e usou o braço como uma
prateleira improvisada enquanto se dirigiam para a saída do
aeroporto. Ninguém olhou para ele duas vezes, ou muito apressado
ou indiferente ao aparente nível de obsessão pela tela.
Eles levaram menos de 45 minutos para pegar um ônibus até
a locadora de veículos, retirar o SUV que Rex havia reservado online
e sair do estacionamento em direção à Pacific Coast Highway.
Eles haviam conversado sobre ficar em São Francisco —
afinal, a cidade tinha bastante litoral. Mas uma cabana na floresta
perto do oceano provavelmente ficaria fora da cidade, e não dentro
dela. O objetivo deles era simplesmente ficar o mais perto possível
do lugar mais provável, para que, quando e se descobrissem o
paradeiro exato de Cyrus, pudessem ajudá-lo. Cami já se sentia um
pouco mais calma agora que haviam pousado no estado onde ele
estava.
Cami se espreguiçou, torcendo o pescoço novamente para
tentar se livrar do último nó do sono. Ela olhou para o laptop que
haviam colocado no console entre eles e notou que Cyrus estava
acordando. O garotinho se espreguiçou de forma semelhante à que
ela acabara de fazer, e seu coração deu um aperto forte. Ela sabia
o que era acordar com medo e ansiava por confortá-lo com todas as
suas forças, para lhe dizer que tudo ficaria bem.
Só que ela não podia garantir isso, principalmente do outro
lado da tela.
— Esqueci de perguntar como seu trabalho recebeu a notícia
de que você ficaria fora por alguns dias, — disse Rex, tirando-a das
memórias de sua própria vitimização.
— Eles ficaram surpresos, mas me apoiaram. — Ela apenas
lhes disse que havia surgido uma situação pessoal e que ela
precisava lidar com ela, e então desligou o telefone rapidamente. —
Eles vão ficar bem. Não temos nada de anormal acontecendo esta
semana. E eles podem ligar se precisarem de mim.
— Como você foi parar no ramo de borboletas? — ele
perguntou, olhando para ela com um sorriso.
— Era algo que minha irmã, Elle, e eu costumávamos fazer
juntas quando éramos crianças. Nossa mãe nos mostrou como
identificar um ovo de borboleta em uma folha. Eles são minúsculos
e difíceis de encontrar. Procurávamos por horas e geralmente
tínhamos sucesso. Depois, colocávamos em potes com muitas
folhas e observávamos o processo até que se transformasse em uma
lagarta e depois em uma borboleta. — Cami sorriu mesmo com o
coração doendo. Ela adorava falar sobre elas, no entanto, e
apreciava qualquer oportunidade de fazê-lo. Parecia que suas
histórias e suas palavras eram as únicas coisas que as mantinham
vivas agora. Seu pai falava delas ocasionalmente, ela supunha, mas
também devia representar um certo conflito nos últimos anos,
desde que ele conhecera Gigi, falar demais sobre sua falecida
esposa e filha e fazer com que sua nova esposa se sentisse como se
vivesse na sombra de seu passado. — De qualquer forma, Elle os
chamava de borboletas quando era pequena.
— Ah, — disse Rex. — Então é daí que vem o nome.
— Sim. Depois dos assassinatos delas, eu... obviamente sofri.
Por muitas razões. Eu desisti do meu filho e isso foi... bem...
— A tristeza se agravou.
Ela olhou para ele, e ele a encarou. Ela viu a empatia ali, e foi
um bálsamo para o seu coração como nada mais poderia ser. —
Sim. Eu não achei que superaria toda aquela perda. E, de certa
forma, não superei, mas tudo bem, eu acho. É normal, desde que
não domine a minha vida.
— Você é forte, Cami. Mais forte do que alguns veteranos de
combate que conheci. — Ele lhe deu um sorriso irônico, mas
também havia honestidade nele, e, mais uma vez, isso a consolou.
— A faculdade sempre foi o meu plano, — disse ela. — Mas
decidi não seguir esse caminho. Eu me sentia muito distante dos
meus colegas. Muito... isolada para sentar em uma sala de aula, ou
ficar parada em uma festa, ou mesmo tentar bater papo. Então,
aceitei um emprego em uma creche na cidade e adorei. Estar ao ar
livre e trabalhar com seres vivos me trouxe paz. E então, um dia,
notei um ovo de borboleta atrás de um arbusto de borboletas, e
minha mente começou a girar. Comecei a me perguntar se eu
poderia fazer um negócio com essas belas memórias. Eu tinha essa
parte da minha infância. Pesquisei outros negócios semelhantes e...
bem, para encurtar a história, consegui um empréstimo do meu pai,
comprei um terreno e trabalhei doze horas por dia durante três anos
até que se estabelecesse.
— E você ama isso?
— Sim, sim. É um trabalho árduo e provavelmente nunca me
tornará rica, mas tenho alguns funcionários leais e participo de
comemorações e eventos todos os dias e... sim, eu adoro isso.
— Você deveria estar orgulhosa.
— Obrigada, Rex. Eu agradeço. E você também. Você deveria
se orgulhar do que fez da sua vida. Especialmente... especialmente
depois da injustiça que sofreu. — Suas bochechas estavam quentes.
Ela ainda se sentia envergonhada ao pensar no papel que
desempenhara naquela injustiça. — Eu falei sério quando disse que
te vejo como um herói.
Ele a encarou e assentiu solenemente. — Farei tudo o que
puder para corresponder a esse elogio, no que lhe diz respeito. Você
tem a minha palavra, — disse ele, apontando o queixo para a tela
do computador, onde Cyrus estava sentado na cama, naquela que
se tornara sua posição habitual.
Cami estendeu a mão e colocou sobre a dele, que estava
apoiada na coxa. Ela sentiu o tremor de eletricidade que passou da
pele dela para a dele, enviando uma descarga elétrica pelo seu
corpo. E se a tensão que ela sentiu fosse alguma indicação, ele
também sentiu. Ela levantou a mão, afastou-a e então se inclinou
em direção ao computador, fingindo que estava olhando mais de
perto, quando na verdade estava parando um momento para
recuperar o fôlego.
— Você pode me contar mais sobre o que faz? — perguntou
Cami. — Você trabalha para o exército, mas no departamento de
guerra cibernética?
Ele ficou em silêncio por um instante. Obviamente, pela
pergunta dela, percebeu que ela havia feito uma breve pesquisa
sobre ele no Google. Na verdade, fora excepcionalmente breve. Ela
só queria verificar se ele realmente trabalhava para o exército em
alguma função cibernética, como indicava sua camiseta, antes de
correr para casa e implorar por sua ajuda.
— Eu costumava trabalhar. Trabalho para a NSA agora em um
cargo que não está listado em nenhum lugar online. Eles me
recrutaram há cerca de cinco anos, do exército, onde eu trabalhava
em inteligência cibernética.
— Inteligência cibernética. E é isso que vocês ainda fazem, só
que para a NSA?
— Basicamente, sim.
— O que isso significa exatamente?
Ele lhe lançou um sorriso rápido. — Em poucas palavras, eu
coleto e analiso dados que fornecem resumos sobre as intenções de
governos estrangeiros.
Ela pensou por um momento. Quando o procurara pela
primeira vez em busca de ajuda, perguntara se ele hackeava
computadores. Ele respondera algo como “quase”, e ela tinha quase
certeza de que podia presumir que, quando ele “coletava dados”,
esses dados nem sempre estavam prontamente disponíveis ou eram
fornecidos livremente.
— Você gosta disso?
— Sim. Ele utiliza meus talentos. Sinto-me... determinado e
bem posicionado.
Ela olhou para ele e estudou seu perfil forte, as linhas
masculinas de seu rosto — seu olhar desceu para o pescoço dele,
sobre um ombro largo, para o bíceps, e então pousou em seus dedos
longos e ossudos, casualmente apoiados no volante, comandando o
veículo com facilidade. Sim, ele parecia um herói, como ela pensara
antes, mas Cami agora sabia que não era uma fachada falsa. Em
menos de 48 horas, Rex Lowe havia mais do que merecido esse
título. Suas tendências heroicas eram profundas. Ele se
apresentou, por ela — mas, ela sabia, principalmente por Cyrus,
uma criança inocente presa atrás das grades. Ela estava tentada a
agradecê-lo novamente, mas já havia feito isso muitas vezes; não
queria que começasse a soar falsa. Não queria que suas expressões
de gratidão perdessem o significado.
Mas eu sou. Ah, eu sou. Sou muito, muito grata ao homem ao
meu lado.
Que ele era capaz de ajudá-la, mas principalmente que ele
estava disposto.
— Falando em estar bem localizado, — disse ela. — Onde você
mora mesmo? — Ela soltou uma risadinha. Parecia ridículo que ela
tivesse acabado de embarcar num avião com o cara e não tivesse
ideia de onde ele morava agora. Não tivera tempo para pensar nisso.
— Não estive em lugar nenhum e em todos os lugares nos
últimos cinco anos, trabalhando em campo com unidades especiais.
Mas recentemente aceitei um novo emprego para a NSA,
trabalhando em um centro criptológico no Colorado, que começa
em alguns meses. Foi por isso que tive tempo extra para cuidar da
casa do meu avô.
— Colorado. Fica bem longe.
Ele assentiu. E ela não queria pensar no porquê de saber disso
ter causado um aperto no peito, mas causou.
Ela olhou novamente para Cyrus e um movimento muito sutil
chamou sua atenção. Ela se inclinou, observando-o.
— Parece que ele está mexendo em alguma coisa com a mão,
— murmurou.
— O quê? — Rex desviou o olhar da estrada por um momento
para olhar para onde ela apontava. — Não consigo ver.
Cami levantou o computador e o aproximou. — Ele está sendo
sutil. Mas... eu não sei. É como se ele estivesse fazendo alguma
coisa entre a cama e a parede.
— O que pode ter na parede? São só tábuas de madeira.
— Talvez uma esteja solta e ele esteja planejando usá-la de
alguma forma.
— Como uma arma?
Cami mordeu o lábio, subitamente ansiosa. Ela olhou para o
rosto de Cyrus. Ele parecia tão concentrado. Sim, ele estava
tramando algo. E isso a fez sentir medo. Você não pode lutar contra
aquele homem, Cyrus. Ele tem mais que o dobro do seu tamanho. A
mão do garoto parecia ter parado de mexer no que quer que
estivesse encostado na parede. Pelo menos por enquanto. — Eu não
sei, — disse ela a Rex. — Talvez ele esteja apenas se remexendo. —
Ela manteve os olhos no rosto dele por um momento, como se
pudesse ler suas intenções se olhasse com atenção. — Essa
expressão me lembra o Hollis, — murmurou ela. — Cada vez que a
vejo, me convence mais de que ele é... meu... nosso. Eu me vejo
nele. Mas também vejo o pai dele.
— Espere, Hollis é o pai dele?
Ela assentiu. Compreendeu a surpresa na voz dele. Ele, como
tantos outros na cidade, e provavelmente no país, presumiu que o
estuprador dela fosse o pai do bebê que ela havia entregado.
— Fiz um teste de gravidez positivo no hospital.
Rex balançou a cabeça levemente. — Então, espera, por que
Hollis presumiu que você ficaria grávida durante o ataque? Você
não contou a ele sobre o momento?
Ela olhou pela janela para a costa cinzenta e rochosa que se
estendia abaixo dos penhascos. — Eu contei a ele. Acredito que ele
sabia que o bebê era dele, mas usou o ataque como desculpa. Ele
alegou que eu estava confusa ou mentindo sobre a data como forma
de lidar com a realidade. Eu me ofereci para fazer um teste de
paternidade, mas depois que ele foi para a faculdade sem dizer uma
palavra, e depois que decidi entregar o bebê, não pareceu
necessário insistir no assunto. Então, não listei o pai nos
formulários. Eu disse que não sabia quem era. Meu pai sabia a
verdade. E deixei que todos os outros presumissem o que
quisessem.
— Merda, Cami. Sinto muito. — Ele balançou a cabeça de leve
mais uma vez, como se tentasse realinhar suas suposições com a
realidade que ela acabara de compartilhar. — Eu vi os anúncios
dele na TV. Fiquei meio feliz pelo cara, mesmo ele sempre tendo sido
meio babaca no ensino médio.
Ela soltou uma risada. — Ele era, não era? Gostaria de ter
visto antes. Era tão sedutor se deixar levar por aquela multidão.
— Você teria superado isso, — disse ele. — Eu vi isso naquela
época e tenho certeza agora.
Ela sorriu para ele. — Você me dá mais crédito do que eu
mereço, mas, mais uma vez, obrigada. Sinto que não consigo dizer
isso o suficiente.
Os dois olharam para o computador para garantir que Cyrus
estava no mesmo lugar, e então Cami olhou pela janela novamente,
observando a água cinza se agitar abaixo, seu estômago se
contraindo ao saber que em algum lugar próximo, seu filho pequeno
estava sentado sozinho em uma cabana na floresta.
Você consegue ouvir as mesmas ondas que estou ouvindo
agora?
Estou tentando te encontrar, Cyrus. Estou a caminho.
Ela só rezava para chegar a tempo, se é que chegaria.
CAPÍTULO VINTE E OITO
Cyrus havia soltado a coluna de metal da cama. Não tinha sido
muito difícil. O desafio era conseguir isso sem deixar claro para o
homem do lado de fora do quarto, que o observava pela câmera. Ele
duvidava que o sujeito estivesse olhando fixamente demais.
Provavelmente a usava para garantir que Cyrus não estivesse
tentando arrombar a fechadura, quebrar a janela ou algo assim.
Pelo menos ele esperava que sim.
O pedaço de metal da cabeceira da cama já havia sido retirado
da peça que estava embaixo, mas Cyrus ainda não o removeu. Sua
melhor arma seria o elemento surpresa. Qualquer um que tentasse
enganar um bandido que cutucava o nariz sabia disso.
Cyrus também vinha escondendo a comida que o homem
trazia debaixo do colchão. Quando chegasse a hora, Cyrus
guardaria o punhado de batatas fritas secas, metade de um pão de
hambúrguer amassado e uma barra de chocolate amassada nos
bolsos ou os enfiaria nas calças.
Dessa forma, ele não morreria de fome se saísse daquela sala
e fosse para a floresta.
Pelo menos não imediatamente.
Talvez ele pudesse até distrair um urso jogando meia barra de
chocolate nele.
Cyrus gostaria de pegar uma garrafa d'água, mas não tinha
certeza se conseguiria enfiá-la debaixo da roupa sem que o homem
percebesse imediatamente, e não podia segurá-la porque precisaria
das duas mãos para balançar a cabeceira de metal da cama. Então,
em vez disso, bebeu o máximo que pôde antes que chegasse a hora.
O Sr. Abdullah lhe ensinara a pensar à frente. Dissera a Cyrus
que ele deveria estar sempre dois ou três movimentos à frente do
oponente. Também lhe ensinara que deveria saber os movimentos
mais óbvios que um oponente poderia fazer. Então, Cyrus
considerou tudo isso. Repassou seu plano mentalmente, ajustando-
o até que parecesse correto.
O tempo é tudo, dissera-lhe o Sr. Abdullah. Perder a paciência
é perder a batalha. Um homem chamado Gandhi disse isso, e o Sr.
Abdullah disse que Gandhi estava certo. Cyrus confiava no Sr.
Abdullah porque ele vencia todas as partidas de xadrez que
disputava, não apenas contra Cyrus, mas contra todas as outras
pessoas no parque, até mesmo os empresários que paravam para
jogar com o velho, achando-se mais espertos e melhores do que ele.
Nenhum deles era.
A porta se abriu, assustando Cyrus, que estava tão imerso em
seus próprios pensamentos que não ouvira o homem se
aproximando do outro lado. Fique atento. Mais uma lição do Sr.
Abdullah. Ele o lembrou disso quando Cyrus se cansou de esperar
a jogada do Sr. Abdullah e começou a olhar para alguma coisa
acontecendo no parque em vez de olhar para o tabuleiro.
O homem entrou com uma sacola de comida e a deixou perto
da porta. Pegou as outras e rapidamente as jogou para fora da sala
antes de olhar para Cyrus. — Eles chegarão mais cedo do que
pensávamos, — disse o homem. — Amanhã à tarde.
Eles. Os homens maus. Estariam lá amanhã à tarde. O timing
era tudo, mas às vezes o timing não dependia de você. — Quando?
— perguntou Cyrus.
— Como eu disse, amanhã à tarde.
— Isso não é muito específico.
— Vou me preocupar com detalhes específicos.
— Não tenho direito a uma última refeição?
— Do que diabos você está falando, garoto?
— Sabe, antes de um prisioneiro ser eletrocutado na cadeira
elétrica, eles lhe dão uma última refeição. Qualquer coisa que ele
queira.
Ele olhou para Cyrus, com um sorriso divertido nos lábios
finos. — Eles não usam mais a cadeira elétrica. Cruel e incomum.
— O homem coçou o pescoço. — Mas eu entendo o seu ponto,
homenzinho. Claro. Você pode fazer uma última refeição. O que
você quer?
— Café da manhã. Panquecas e bacon com bastante calda.
Chantilly também.
O homem ergueu uma sobrancelha. — Você gosta de
panquecas, hein? É, é o que eu escolheria como última refeição,
pensando bem. — Ele olhou para Cyrus. — Ok, claro. Você não me
deu muito trabalho e tem algumas... horas desafiadoras pela frente,
garoto.
— Posso tomar de manhã? O café da manhã é melhor de
manhã.
— Você não está errado. — Ele soltou um pequeno bufo. —
Você é um garoto interessante, sabia? Ok, então, panquecas de
manhã. Agora durma um pouco.
Cyrus recostou-se na parede, com o coração acelerado. Já
havia tirado um cochilo hoje e não estava cansado. Mas assentiu.
Ficaria acordado esta noite e repassaria seu plano. Iria aperfeiçoá-
lo o máximo possível. Cada movimento. Até a hora chegar.
CAPÍTULO VINTE E NOVE
Rex ouviu Cami soltar um suspiro quando o homem que
trouxera a comida para Cyrus fechou a porta atrás de si, deixando
a criança ali. E, droga, ele pegou a sacola e a jogou porta afora
rápido demais para que eles vissem mais do logotipo vermelho.
— Quem for buscá-lo estará lá amanhã, — disse ela, levando
a mão ao abdômen e mantendo-a ali.
Ele olhou para a estrada, a preocupação latejando em sua
pele.
— Estamos perto, — disse a ela. — Temos que estar.
Ela assentiu bruscamente e mordeu a unha do polegar. — O
que você acha dessa coisa de panqueca?
— Isso também te impressionou? — Isso o deixou intrigado, e
ele não sabia bem por quê. Só conhecera o garoto observando-o
através de uma lente de vídeo, e ainda assim sentia que estava
começando a aprender seus pequenos sinais. Como a maneira como
seus olhos se estreitaram levemente enquanto esperava que o
homem concordasse com panquecas.
Cami olhou novamente para a tela, onde Cyrus estava
colocando as cartas no chão. — É. Não sei bem por que, só que ele
não parecia muito interessado em comida antes disso. Ele come
tudo o que o cara deixa e não pediu nada.
— E ele não parecia muito curioso sobre quem viria buscá-lo,
— disse Rex. O que pode significar várias coisas. Uma delas é que
o garoto estava simplesmente com medo de perguntar.
Rex olhou para a costa, seu olhar percorrendo a exuberante
paisagem natural. As vistas durante a viagem até então tinham sido
ridiculamente lindas, e ainda assim ele mal as havia processado
vagamente. Talvez um dia pudesse voltar e realmente aproveitar
aquele pedaço perfeito da natureza.
Mas, por enquanto, ele só conseguia ver aquele paraíso como
um cenário silencioso. Porque em algum lugar lá fora, entre os
pinheiros imponentes e além das ondas quebrando, um garotinho
corria perigo iminente.
O celular de Rex tocou, tirando-o de seus pensamentos
perturbados, e ele estendeu a mão para pegá-lo.
— É meu amigo, — disse a Cami antes de atender. — Joaquin.
— Ei. Você tem uma foto disponível para me enviar agora?
— Sim, sim. — Ele olhou para Cami, que já estava
trabalhando, pegando o celular e segurando-o o mais firme possível
para tirar uma foto do laptop. — Vou te mandar uma mensagem, —
disse Rex.
— Ótimo. Tenho quase certeza de que o local fica a uns 96
quilômetros de Soledad, Califórnia.
Seu coração disparou. Ele tinha visto aquela cidade no mapa.
Estava em algum lugar à frente, o que significava que estavam no
caminho certo. — Você consegue refinar mais do que isso?
— Estou tentando, mas qualquer coisa a mais com que
trabalhar seria útil.
Cami inclinou o queixo para ele, indicando que havia enviado
a foto para o Rex.
— Vou te enviar a foto agora. Ei, Joaquin, nem sei o quanto
eu aprecio isso. Pode ser uma questão de vida ou morte.
— Estou aqui por você, amigo.
Ele agradeceu a Joaquin novamente e desligou. Ao lado dele,
Cami estava ao telefone. — Estamos a cerca de uma hora de
Soledad agora. Será que não devemos nos aproximar um pouco
mais, procurar um hotel e esperar mais informações do seu amigo?
— Sim, e enquanto esperamos, podemos dar uma volta e ver
se encontramos uma loja com um logotipo parecido com o que
vimos na sacola. Ou talvez um lugar que venda quadrinhos.
— Ok, espere um pouco. — Cami passou alguns minutos
digitando e rolando a tela do celular. — Não há muitos hotéis na
região. A maioria são Airbnbs, casas de campo e chalés para alugar
e camping. Tem um parque estadual bem grande aqui perto. — Ela
fez uma pausa enquanto rolava a tela por mais um minuto. —
Monterey e Carmel-by-the-Sea fica uma hora a oeste de Soledad e
é muito mais populosa.
— Não parece que aquela cabana esteja em uma área
populosa, — disse ele. — Acho que é melhor parar em algum lugar
próximo e ver o que encontramos. — Ele bateu no volante. 96
quilômetros era uma distância grande, mas também estreitava
consideravelmente as coisas. Ele abriria um mapa quando
parassem e descartaria algumas direções, se possível.
— Será uma cabana ou um acampamento, — murmurou
Cami.
— Já passei por momentos difíceis por uma boa causa, —
disse ele para aliviar o momento. E também para afastar
imediatamente a ideia de imaginá-los juntos no pequeno espaço de
uma barraca de náilon sob a lua, no deserto. Não ajudou em nada,
Lowe. Ele queria amaldiçoar a própria mente por ter ido até lá
contra a sua vontade. Ou contra o seu bom senso. — Mas
precisamos de eletricidade.
— Há algumas cidades por perto, mas são pequenas. Uma
delas tem apenas dez moradores.
— Não precisamos de muitos moradores. Apenas alguns
restaurantes que oferecem pedidos para viagem em sacos de papel
pardo. Os alimentos que vimos o Cyrus comendo também vão
ajudar. Um hambúrguer com batatas fritas, uma xícara de chili e
uma batata assada. E um lugar onde se pode comprar revistas em
quadrinhos e cartas. Mas, pensando bem, esses itens poderiam ter
sido comprados com antecedência. A comida é a única coisa que
sabemos com certeza que é local.
Ela franziu a testa para o celular. — Ainda pode ser um monte
de lugar.
— Eu sei. Mas se conseguirmos encontrar o logotipo vermelho
perto de outros restaurantes, hamburguerias ou qualquer outra
coisa, saberemos que Cyrus está a menos de 30 quilômetros. Aí
estaremos ainda mais perto. — Era tudo uma questão de estreitar
a rota e depois estreitar ainda mais. — Provavelmente podemos
descartar algumas direções logo de cara. — Eles sabiam que ele
estava perto o suficiente do oceano para ouvi-lo — mesmo que
distante — de dentro da cabana. A mente de Rex começara a
fervilhar. Com as informações que tinham, poderiam encontrá-lo.
Ele tinha certeza de que conseguiriam. Mesmo que Joaquin não
conseguisse levá-los mais perto do que isso, eles tinham várias
outras informações para usar.
Havia também o café da manhã com panquecas que o homem
havia prometido. Se conseguissem descobrir o lugar mais provável
para onde o homem iria para pegar um pedido para viagem como
aquele, poderiam segui-lo até o garoto. Isso seria uma grande
vitória, mas também exigiria outro conjunto de escolhas. Ele estaria
disposto a matar o homem que mantinha Cyrus trancado naquele
quarto se chegasse a esse ponto?
Jesus. No que ele tinha se metido?
Ele considerou chamar a polícia novamente, remoendo a
logística por um minuto antes de rejeitar a ideia. Ele e Cami
estavam muito próximos. E Rex se sentia competente para resgatar
o garoto, se conseguissem descobrir exatamente onde ele estava.
Naquele momento, eles tinham o benefício da surpresa. Não só
chamar a polícia poderia desencadear algo que ele não conseguia
prever, como a polícia gostaria de ser informada. E ele e Cami
provavelmente seriam detidos.
Não, neste momento, as autoridades só iriam atrasá-los. E eles
não podiam se dar ao luxo de desacelerar, nem um pouco.
Mais uma vez, a pergunta sobre no que ele havia se metido se
repetia em seu cérebro.
Você mudaria sua oferta original de ajuda se pudesse? Você
desistiria?
Não. Não, eu não faria isso.
O carro fez uma curva, com o oceano brilhando lá embaixo
como uma imensa joia. E é isso.
A única casa que Cami encontrara que oferecia um aluguel de
última hora e ficava perto era grande demais e tinha muito mais
comodidades do que precisavam. Eles colocaram as malas no
saguão aberto de dois andares e olharam para o lustre gigantesco.
Ela lhe lançou um sorriso de desculpas. — É ridículo. O fim do
verão, aparentemente, é uma época popular para visitar Big Sur. —
Ela fez uma pausa. — Mas não para grupos de vinte.
Ele riu, e ela também, e por um momento eles sorriram um
para o outro, ele, pelo menos, feliz pelo momento de leviandade em
meio ao estresse que estavam enfrentando.
— Qualquer coisa com teto, tomada e Wi-Fi funciona. — Ele
levou o laptop para a cozinha, colocou-o sobre a ilha de granito e o
conectou. Do lado de fora da janela panorâmica, eles tinham vista
para o oceano, e ele podia ver caminhantes ao longe, seguindo a
trilha que descia o penhasco e chegava à areia. Como Rex bem
sabia, o mal podia existir em qualquer lugar, mesmo em lugares
gloriosos, mas ali ainda parecia particularmente errado de alguma
forma.
— Nossa, essa área é deslumbrante, — disse Cami enquanto
também olhava pela janela para a cena pitoresca. — Quem me dera
que pudéssemos aproveitar. — Ele a viu piscar. — Quer dizer...
bem, você sabe o que eu quero dizer...
— Sim, — disse ele, resgatando-a e virando-se para olhar o
laptop. Aquilo se tornara algo natural no último dia e meio. Ele se
perguntou por quanto tempo, depois que tudo isso acabasse e fosse
resolvido, seria compelido a procurar um garotinho em uma tela
que não estava mais lá.
Ele mal podia esperar para descobrir.
— Deveríamos deixar isso carregar por um tempo e depois sair
e dirigir por aí? — ela perguntou.
— Sim, parece bom.
— Você se importaria de ficar dez minutos no meu turno
enquanto eu vou tirar a poeira da viagem? Também quero dar uma
olhada rápida no meu trabalho.
— De jeito nenhum.
Vinte minutos depois, eles estavam no carro e de volta à
estrada. Na tela do laptop, Cyrus estava sentado em seu lugar na
cama novamente, olhando para o nada, de vez em quando olhando
para a porta como se esperasse que alguém entrasse por ela.
— Como vai o seu negócio sem você lá? — ele perguntou.
— Incrivelmente bem, infelizmente para mim. Parece que sou
muito menos necessário do que pensava.
— Isso significa apenas que você contratou bons funcionários
e os treinou bem. — Ele lhe deu uma piscadela.
Ela soltou uma risada suave. — Agradeço a conversa
estimulante.
No caminho, pararam em todo e qualquer estabelecimento que
servisse comida e perguntaram se eles faziam entregas em sacos de
papel. Receberam vários olhares estranhos e apenas dois
funcionários responderam afirmativamente, mas quando lhes
mostraram uma foto ampliada do homem que estava protegendo
Cyrus e lhe levando comida, ambos relataram não reconhecê-lo ou
se lembrar de ter embalado os pedidos que descreveram. O que
poderia significar que o homem não esteve lá ou que o funcionário
que o ajudou não estava trabalhando. Ou que o homem
simplesmente não tinha sido muito memorável.
E na hora em que estiveram fora, eles não avistaram nenhuma
loja ou estabelecimento que tivesse um logotipo vermelho com o que
poderia ou não ser uma letra maiúscula cursiva que iniciasse a
palavra.
Cami continuou a pesquisar os nomes de empresas da região
no celular enquanto Rex dirigia. Ele se sentia irritado e frustrado.
Não estava acostumado a trabalhar com informações tão limitadas
e sem pelo menos vários recursos adicionais. E se perguntou como
diabos a pessoa que ligou para Cami esperava que ela encontrasse
o que era essencialmente uma agulha no palheiro.
Ou talvez eles não esperassem que ela tivesse sucesso na
missão.
Então, qual era o objetivo?
Deixe isso de lado por enquanto. Não vai adiantar nada.
Encontre o Cyrus e faça as perguntas mais importantes depois.
Foco.
Mas eles poderiam estar completamente do lado errado
daquele raio de 96 quilômetros. Eles só precisavam de tempo.
Tempo que Cyrus não tinha.
Ele respirou fundo e expirou lentamente, fortalecendo sua
determinação de continuar, mesmo diante do fracasso atual em dar
um passo adiante.
— Ele está em algum lugar por perto, — murmurou Cami. —
Eu tenho esse sentimento.
Ele concordou, não por qualquer sentimento, mas porque
confiava em Joaquin e sabia que ele era excepcional no que fazia.
Ele acabaria encontrando o garoto. Rex só esperava que isso lhes
desse tempo de chegar antes dos outros que já estavam a caminho.
— Ei, olha. — Ele diminuiu a velocidade e entrou em um
estacionamento, onde havia uma loja de aluguel de bicicletas e
caiaques e, ao lado, a Rapids Booksellers & Gifts.
— Os quadrinhos, — disse Cami, arregalando os olhos com
uma esperança contida. — Não vi essa online.
— Vamos dar uma olhada.
Rex estacionou o carro numa vaga e, ao entrarem na loja,
viram imediatamente a parede de quadrinhos e jogos nos fundos.
Trocaram olhares.
Uma funcionária estava no caixa, conversando com um
cliente. Quando se aproximaram, o cliente se virou para ir embora,
dando um sorriso fugaz para a atendente. — Te vejo mais tarde.
— Até mais. — A garota, que parecia estar no final da
adolescência, encarou Rex e Cami e os cumprimentou.
— Oi, — disse Rex. — Estamos procurando um homem que
pode ter feito compras aqui na semana passada. Ele comprou
alguns gibis do Homem-Aranha. — Cami abriu o celular e mostrou
a foto para a garota.
— Eu não o reconheço, mas meu pai pode reconhecer. Foi ele
quem trabalhou no caixa a semana toda. Ele vai chegar logo de
manhã.
Droga. — Você poderia nos dizer se alguma revista em
quadrinhos do Homem-Aranha foi comprada nos últimos dias?
— Vocês são tipo detetives particulares? — perguntou a
garota.
— Sim, — respondeu Cami. — E o homem que estamos
procurando pode ter levado uma criança.
— Ah, sério? Eu queria poder ajudar, mas não tenho as senhas
para entrar no computador. Eu te daria o celular do meu pai, mas
ele está fazendo rafting a algumas horas de distância e não está
disponível. Ele deve chegar em casa em algum momento hoje à noite
e depois na loja às sete e meia da manhã.
Rex acenou para a adolescente. — Voltaremos logo, então.
— Vou deixar um bilhete para ele avisando que pode esperar
vocês.
— Obrigada. — Cami estendeu a mão. — Eu sou Cami e este
é o Rex.
— Ginger, — disse a menina. — Meu pai é Joel.
— Obrigada, Ginger. Aliás, sua loja não estava listada online.
— Inauguramos no mês passado. Meu pai é um empreendedor
individual e ainda não se interessou por coisas online. Somos quase
exclusivamente um negócio local, então acho que ele não fez disso
uma prioridade. — Ela deu de ombros. — Ele só colocou a placa há
uma semana.
— Bem, obrigada novamente, — disse Cami, e ambos se
viraram.
Quando voltaram para a rua, Cami suspirou. — Detesto ter
que esperar até amanhã de manhã. E tem vários lugares para
comprar quadrinhos em meia hora, mais ou menos. — Entraram
no carro e Rex olhou o horário. O comércio fecharia em breve.
— Esta será nossa primeira parada amanhã de manhã, —
disse ele. Ela ficou sentada ali, balançando o joelho e franzindo a
testa, obviamente tão frustrada quanto ele. Ele estendeu a mão e a
colocou sobre a dela, que estava apoiada no console, e ela se virou
para ele. — O dono estará aqui às sete e meia. Se ele confirmar que
a loja dele vendeu aqueles quadrinhos, teremos certeza de que
estamos perto e enviaremos a localização para o Joaquin. Quanto
mais informação ele tiver para trabalhar, melhor. — Um drone
ajudaria, e ele se perguntou se havia alguma chance de conseguir
um desses em algum lugar por ali. Por outro lado, havia milhares
de cabanas na área, e talvez eles não conseguissem ver as grades
do ar de qualquer maneira.
Além disso, havia burocracia em relação aos drones e regras
para reservas de vida selvagem também. Eles simplesmente não
tinham tempo para tudo isso.
Ela virou a mão e entrelaçou os dedos nos dele. — Certo. —
Ela o encarou, parecendo se confortar com seu olhar firme. E a
confiança dela também aumentou a determinação dele.
Ele olhou para Cyrus e soltou a mão dela. — Merda, o laptop
morreu. — Droga. Ele soltou um suspiro. Cyrus tinha acabado de
se deitar antes de entrarem na livraria, então confiava que estava
bem. — Vamos comer alguma coisa, levar para casa e ligar o seu
laptop. Vamos nos revezar para ficar com ele esta noite. Podemos
comprar um carregador de carro pela manhã, para não termos que
nos preocupar em ficar fora o tempo que precisarmos.
Rex não achava que o homem que vigiava Cyrus voltaria antes
de amanhã de manhã com as panquecas, e esperava que os outros
não chegassem até o final da tarde, porque cada minuto contava se
eles quisessem resgatar Cyrus.
CAPÍTULO TRINTA
Cami levantou os pés sobre o corrimão enquanto ajeitava o
suéter. O dia estava ensolarado e quente, mas, como no norte da
Califórnia, a temperatura noturna havia caído rapidamente. Rex
acendera uma fogueira a gás no deque ao lado de onde ela estava
sentada, e o calor da lareira e do suéter a mantinham confortável,
mesmo no ar frio.
Ela olhou para o laptop na mesinha ao lado e viu que Cyrus
ainda dormia. Seu coração apertou, e ela mal conseguia considerar
a possibilidade de que, pela manhã, pudesse estar olhando para um
quarto vazio, sem a mínima ideia de para onde ele havia sido levado.
Ela queria passar as horas rapidamente até a manhã seguinte,
quando poderiam continuar a busca por pessoas que pudessem
lhes dizer onde começar a procurar a cabana com grades na janela.
Sem um ponto de partida definitivo, eles provavelmente
estariam perdendo tempo. Tempo que Cyrus não tinha.
Eles chegarão mais cedo do que pensávamos. Amanhã à tarde.
O garotinho se virou dormindo, enfiando as mãos entre os
joelhos e se enrolando como uma bola. O luar que entrava pela
janela incidia sobre seu rosto, e um nó se formou em sua garganta
ao ver como ele era lindo. Como parecia inocente e pequeno. E ela
massageou a dor que lhe permeava o peito desde que o vira pela
primeira vez através da tela do laptop, a dor que parecia um anzol
perfurando seu coração, uma força poderosa a arrastando para um
fim desconhecido.
Observá-lo trouxe à tona seu próprio trauma, suas memórias
de estar amarrada e sem voz. Cami estendeu a mão e passou um
dedo pela bochecha adormecida dele. Estou com você, disse ela em
silêncio. Estou aqui.
Ela olhou para a lua, sabendo que era a mesma que ele veria
se acordasse e olhasse pela janela. E isso fez com que aquele gancho
se apertasse.
Rex saiu alguns minutos depois e lhe entregou uma xícara de
chá quente. — Eu adoraria lhe oferecer uma taça de vinho, — disse
ele. — Mas precisamos ficar atentos.
Ela sorriu ao aceitar a caneca quentinha. — Isso é perfeito.
Obrigada. — Eles tinham parado para comprar sanduíches mais
cedo e os comido na ilha enquanto faziam uma lista de lojas e
restaurantes para visitar depois da livraria logo cedo pela manhã.
Ela rezou para que encontrassem o dono, mas se não
encontrassem, precisavam estar preparados. Não podiam perder
um minuto.
Rex sentou-se na cadeira do outro lado da pequena fogueira e
também apoiou as pernas no corrimão. Por alguns instantes, eles
simplesmente olharam para o pedaço de oceano que conseguiam
ver através de uma abertura entre as árvores, o luar fazendo a água
cintilar enquanto se agitava e se quebrava lá embaixo. E embora
não conseguisse exatamente apreciar a beleza do ambiente,
reconheceu a majestade. Sentiu o olhar de Rex sobre si antes de
virar a cabeça.
— Cami, — ele começou, — se nós... se não conseguirmos
encontrar Cyrus a tempo, quero que você esteja preparada para
isso.
Seu coração apertou. Ela não queria imaginar aquele cenário.
— Mas seu amigo está trabalhando nisso. E temos uma boa
vantagem para amanhã de manhã. E depois, espero, para a maior
parte do dia.
— Sim, — concordou Rex. — Mas também precisamos de um
plano B. Encontraremos aquela cabana, eu sei que encontraremos.
Mas se for... depois do ocorrido, ainda assim o encontraremos.
Rastrearemos as pessoas que estão fazendo isso e encontraremos
seu filho.
Ela tomou um gole do chá quente para dissipar o que quer que
estivesse prendendo sua respiração. Sua gratidão era tão profunda
que ela mal sabia o que dizer. Como aquele homem, a quem ela um
dia ofendera, estava lhe oferecendo desinteressadamente tudo o que
tinha para dar? E ele mal hesitara em fazê-lo. Rex Lowe era bom, e
gentil, e ela sentira isso naquele dia na festa na piscina de Hollis,
tanto tempo atrás, quando eles eram praticamente crianças e só
conversavam por alguns minutos, e ela estava certa...
Foi a primeira coisa real que ela sentiu em muito tempo de
fingimento — de desempenhar um papel para ser aceita pelos
outros — e ela reconheceu o que era. Uma conexão honesta. Uma
atração indescritível. E se... e se...
Porque aquela atração ainda estava lá, mesmo que não fosse
o momento de fazer nada a respeito. E mesmo que uma atração
como aquela a aterrorizasse por causa do que ela havia vivenciado.
Ela não tinha tido relações sexuais com ninguém desde... Hollis.
Ela havia saído com algumas pessoas nos últimos onze anos, mas
sempre que as coisas ficavam remotamente físicas, ela começava a
se perder, como acontecera com ele. No fundo, ela sabia que não se
sentiria completamente curada até conseguir estar presente em sua
própria pele. E ela ainda não tinha certeza do que isso exigiria.
Ela estendeu a mão por trás das brasas brilhantes, e ele
retribuiu o gesto, pegando a mão dela. — Como posso agradecer?
— perguntou ela.
Mesmo na penumbra, ela viu os olhos dele brilharem, e viu
como ele imediatamente reprimiu qualquer pensamento que tivesse
causado sua reação física, e sabia que ele também sentia uma
atração por ela. Ele desviou o olhar, de volta para as ondas
brilhantes, tão distantes que mal conseguiam ouvir o rugido.
— Você se lembra daquele dia na festa na piscina do Hollis,
quando conversamos pela primeira vez? — Ele olhou para ela, os
lábios se curvando, a expressão ligeiramente tímida, lembrando-a
do garoto que ele um dia fora.
— Claro que sim. — Ela não mencionou que estava apenas
pensando sobre isso e se perguntando se as coisas teriam sido
diferentes... como talvez... mas, bem, qual a utilidade dos talvez
quando esse tempo já havia passado?
Ele sorriu de novo, e dessa vez de forma meio reservada, o que
a fez sorrir de volta. Ele soltou a mão dela e afastou o cabelo. — Eu
costumava me perguntar o que se passava na sua cabeça, — disse
ele, e soou como uma confissão. — Mas o momento que eu quero
perguntar é aquele dia na piscina do Hollis. Logo antes de você me
ver, você estava olhando para as árvores e tinha uma expressão no
rosto... Tem alguma chance de você se lembrar do que estava
pensando? Porque eu fiquei pensando nisso durante todo o
caminho para casa, e nunca obtive a resposta.
Ela sentiu uma onda de calor, e aquele gancho em seu coração
se soltou. Ele pareceu um pouco envergonhado, e era uma pergunta
vulnerável, e isso a fez se sentir acolhida, honrada e um pouco
tímida também. Mas a parte mais surpreendente foi que ele se
lembrou daquele momento, e ela ficou quase chocada por também
se lembrar. Mas ela se lembrava. Assim que ele mencionou, ela
viajou de volta. Ela realmente havia pensado nisso antes disso.
Talvez fosse porque faltava menos de uma hora para seu mundo
desabar no abismo. Era o figurativo antes. O céu claro antes da
tempestade. E todos os seus “e se” começaram pouco antes daquele
momento.
— Eu estava pensando em finais, — ela disse a ele.
Os olhos dele percorreram o rosto dela, e ela se impressionou
com a lembrança da mesma intensidade de interesse que havia
estampado em seu rosto naquele dia. Era parte do que a atraíra,
mesmo que ela não tivesse percebido isso na época. — Finais? —
perguntou ele.
— Eu estava pensando em como sempre há uma última vez
para tudo. Aquele último abraço. Aquele último encontro para
brincar. A última vez que sua mãe lê um certo livro para você.
Coisas grandes, coisas pequenas e tudo o mais. — Ela fechou os
olhos e inclinou a cabeça para trás, sentindo-se com dezessete
anos, parada sob o sol, a brisa sussurrando entre as árvores. — Eu
estava pensando nas últimas coisas que não sabemos que são as
últimas no momento, e se soubéssemos... — Sua voz sumiu. Ela
não sabia exatamente como terminar aquele pensamento.
— Se soubéssemos, prestaríamos mais atenção, — disse ele.
Ela abriu os olhos e seus olhares se encontraram. — Sim. —
Ela desviou o olhar e conseguiu sorrir, mesmo que parecesse triste.
— E é tão... sei lá. — Ela franziu a testa. — É irônico? Triste?
Engraçado? O fato de eu estar pensando nisso pouco antes de
perder todas as minhas lembranças com minha mãe e minha irmã.
Ele ficou em silêncio por um momento enquanto ela se
recompunha. Lá embaixo, a água subia e descia. Ela apreciava que
ele não tentasse preencher o espaço com um sinto muito que não
era dele e do qual ela não precisava. Ela ouvira essa palavra tantas
vezes na última década. E sabia que era dita por gentileza, mas às
vezes desejava que as pessoas fossem mais específicas, porque
sentir muito parecia tão fácil. E isso era injusto da parte dela, ela
sabia disso. As pessoas tinham boas intenções. Elas queriam dizer
sinto muito. Elas se importavam e não sabiam especificamente o que
dizer, então aquelas palavras abrangiam tudo. Mas, novamente, ela
estava feliz por não ter que acenar e dizer “obrigada” naquele
momento específico.
— Acho bom que normalmente não sabemos quando uma
última é uma última, — ele disse finalmente.
Ela inclinou a cabeça, questionadora. — Por quê? Você acabou
de dizer que apreciaríamos mais se soubéssemos.
— Não, eu disse que prestaríamos atenção. E quando você está
focado em algo, especialmente se for um fim, você não consegue
aproveitar. A última vez não pareceria a última. A vez anterior, sim.
Ela riu. — Lá vai você, complicando as coisas de novo, — disse
ela, relembrando a conversa deles naquele último dia de agosto, que
acabara sendo o último. Ela fez uma pausa, porém, e refletiu sobre
o que ele havia dito. — Mas eu concordo. Acho que é certo e... bom
que não tenhamos ideia de quando estamos vivenciando um último.
A beleza está no esquecimento e no comum.
Ele sorriu. Foi lento e inconscientemente sexy, e fez com que
os nervos dela se agitassem. — Espero que conversar com você
assim não seja a última, — disse ele, encontrando-a nos olhos e
sem desviar o olhar.
Ela sorriu e se sentiu um pouco sobrecarregada e um pouco
nervosa também, então decidiu provocá-lo. — Bem, vou te dizer
uma coisa. Que tal se fosse a primeira vez que eu te daria uma surra
naquela mesa de sinuca enorme lá dentro, mas não a última? —
Eles tinham concordado em se revezar para cuidar de Cyrus, mas
ela não estava nem um pouco cansada, e eles só conseguiam ficar
ali olhando o oceano por um tempo limitado.
Ele riu de volta, levantou-se e estendeu a mão. — Vamos ver.
CAPÍTULO TRINTA E UM
Rex trancou a porta da casa alugada e seguiu Cami enquanto
ela se dirigia ao carro. Apesar de terem 14 quartos, cada um deles
se revezava para dormir no sofá de couro no porão, onde passavam
o tempo jogando sinuca. Ele massageou o ombro, aliviando a torção
causada pela posição em que estava quando finalmente adormeceu
por volta das quatro da manhã, apenas para acordar uma hora e
meia depois.
Mas Rex se acostumara a ter uma hora aqui e outra ali
enquanto trabalhava, e sabia que ficaria bem. Ele observara Cami
se revirando debaixo do cobertor na ponta do sofá, mas ela
conseguira dormir cerca de quatro horas enquanto Rex mapeava as
rotas exatas que fariam de um lugar para outro, de acordo com a
lista, para aproveitar ao máximo o tempo disponível.
O ar da manhã estava fresco, limpo e com aroma de sal e
pinho. Ele sentou-se ao volante enquanto Cami colocava o cinto de
segurança sobre o peito, e então saiu da garagem em marcha ré e
entrou na rua. Ela colocou o laptop totalmente carregado no console
central para que pudessem vigiar Cyrus, que estava sentado na
cama, esperando suas panquecas.
Rex soltou um suspiro de alívio quando eles pararam em
frente à loja quinze minutos antes e viram que as luzes já estavam
acesas. Eles saíram do carro e foram até a porta. Rex bateu quando
a encontraram trancada.
Um homem esguio, vestindo jeans e uma camiseta amarelo-
mostarda, aproximou-se da porta, abriu-a e abriu-a.
— Ainda não abrimos. Volte em quinze minutos.
Rex estendeu a mão para que o sujeito queimado de sol não
conseguisse fechar a porta. — Desculpe incomodá-lo antes de você
abrir, mas falamos com sua filha ontem, e ela nos disse para
voltarmos de manhã e conversarmos com você. É uma emergência.
Joel, certo?
Ele olhou para Rex com ceticismo, mas então abriu mais a
porta e os convidou a entrar. — Só precisamos saber se um homem
esteve aqui em algum momento da semana passada. Temos uma
foto.
— Que tipo de emergência é essa?
— Envolve uma criança sequestrada. Não temos permissão
para compartilhar mais do que isso.
Joel pareceu brevemente alarmado e gesticulou para ver o que
tinham para lhe mostrar. Rex ficou grato por ele não ter pedido
nenhum documento de identidade, não porque se importasse em
mentir para o homem naquele caso, mas porque isso teria
desperdiçado alguns minutos a mais que eles não tinham.
Cami mostrou a foto no celular para ele, e Joel se aproximou.
— Sim, esse cara esteve aqui. Sábado, eu acho. Ele foi meio mal-
educado, então eu me lembro dele.
— É mesmo? — Rex sentiu uma pontada de esperança. — Ele
disse algo memorável? Ou sobre onde estava hospedado?
— Ele perguntou se as crianças gostam de quadrinhos do
Homem-Aranha, e eu disse que sim e sugeri algumas outras opções
também. Ele meio que resmungou e saiu sem agradecer, deixando
a porta fechar antes que outro cliente chegasse.
— Ok, ótimo. Ei, obrigado, — disse Rex. — Você foi muito
prestativo. Posso te dar meu número caso ele volte? Não diga a ele
que alguém está procurando por ele, mas se você pudesse me ligar,
estaria ajudando uma criança.
Joel pegou um pedaço de papel e uma caneta no balcão atrás
dele, e Rex anotou seu número. Então, eles agradeceram
novamente e saíram da loja. Praticamente correram de volta para o
carro, olhando para Cyrus e depois... olhando um para o outro.
— É aqui. Ele está a trinta quilômetros.
— Se aquele homem com Cyrus estava sendo preciso. E
sincero.
— É tudo o que temos para prosseguir. — Rex não acreditava
que o sequestrador soubesse que estava sendo observado ou
ouvido. Se o sujeito estivesse mentindo de alguma forma, era mais
provável que estivesse exagerando a distância e esperando assustar
Cyrus e fazê-lo obedecer.
Ela assentiu bruscamente. Ele viu a pulsação em sua garganta
pulsando constantemente. — O oceano fica a menos de um
quilômetro daqui, então ele obviamente não está naquela direção.
— Mas isso os deixava com mais três, e havia cabanas por toda
parte. Bosques por toda parte. E o som do oceano viajava e
contornava os penhascos. Além disso, a cabana que procuravam
podia ser uma propriedade privada e não listada publicamente.
Rex pegou o telefone e ligou para Joaquin. Seu amigo atendeu
no segundo toque. — Mais sorte?
— Não, cara. Eu tenho pensado nisso de todas as maneiras
possíveis. Me desculpe. É o mais perto que consigo chegar de você
sem uma vista do horizonte diretamente do local.
— Ei, você nos trouxe até aqui, e acabamos de receber a
confirmação de que estamos perto. Obrigado, Joaquin.
— Te mando uma mensagem se algo mais acontecer.
— Obrigado novamente. É sério.
Rex fechou a mão na coxa. Ficou tentado a socar o para-brisa,
mas soltou um suspiro lento enquanto esticava os dedos. O
estilhaçamento do vidro poderia ser agradável por um milésimo de
segundo, mas ele provavelmente quebraria a mão e assustaria Cami
pra caramba. Rex nunca fora de ceder à violência quando estava
frustrado, mas, caramba, nunca se sentira tão impotente, e nunca
tivera uma vítima pequena e inocente contando com ele, quer o
garoto soubesse disso ou não.
Ainda assim, ele se recusou a desistir agora.
— Vamos voltar para a casa. Agora que temos a confirmação
de que estamos no lugar certo, vou começar a mapear todas as
áreas onde há cabanas. — Havia alguns mapas entre os guias de
visitantes e outros itens na gaveta da cozinha, e ele começaria por
eles para que tivessem algo físico para marcar.
Cami afivelou o cinto de segurança e Rex arrancou do meio-
fio. Enquanto subiam a entrada da casa, Rex olhou para o vídeo de
Cyrus e seu coração deu um pulo ao avistar algo pela janela.
— Puta merda. — Ele parou o carro em frente à casa e desligou
o motor, inclinando-se para ver melhor. Sim. Sim. Era exatamente
o que ele pensava.
— O que é isso? — perguntou Cami enquanto desabotoava o
cinto e se inclinava também, com a testa franzida enquanto olhava
para a tela.
— É uma trilha de condensação de avião. E talvez eu consiga
encontrar a localização da cabana por aqui. Vamos. — Ele pegou o
laptop e os dois saíram do carro, caminhando rapidamente para a
porta da frente. Rex entregou o computador a Cami enquanto
destrancava a casa, e então eles correram para dentro, a esperança
crescendo em seu peito, baseada em duas minúsculas linhas de
vapor quase imperceptíveis.
Rex colocou o laptop no balcão da cozinha e puxou um
banquinho para perto dele, enquanto Cami fazia o mesmo ao lado
dele.
— Isso é tipo o escapamento de um avião?
— Basicamente, sim, — disse ele enquanto diminuía o vídeo
de Cyrus e abria um navegador. O avião que produziu as trilhas de
condensação provavelmente era comercial, mas não
necessariamente.
— Como isso vai nos ajudar a encontrá-lo? — perguntou ela.
Parecia desconfiada, mas também animada, com as palavras
fluindo juntas.
— Todos os aviões que estão no ar agora, exceto aeronaves de
alto perfil, podem ser rastreados por radar de voo.
— Ah, — ela suspirou. — Meu Deus. Você consegue ver
exatamente esse e sabe o caminho dele.
— Espero que sim. Nem todos os aviões têm transponders que
podem ser detectados por radar, mas a maioria tem. — Ele abriu o
site, e o mapa-múndi apareceu, com pequenos aviões amarelos
cobrindo-o, indicando todos os voos que estavam no ar naquele
momento.
— Puta merda, — Cami suspirou.
O site estava sobre a Alemanha, e ele soltou um grunhido de
frustração enquanto tentava descobrir como mover o cursor na tela
e aumentar e diminuir o zoom.
Cami pôs a mão no pulso dele. — Devagar e sempre se vence
a corrida, — disse ela, com a voz cheia de calma.
— Você tem razão, — disse ele. Levou apenas alguns segundos
para pegar o jeito de navegar pelo mapa-múndi, e então rolou a tela
até os Estados Unidos e, em seguida, se concentrou na Califórnia.
Cami respirou fundo e levou as mãos à boca. — Só tem uma,
— disse ela.
— Eu esperava que fosse esse o caso. — Ele clicou no avião
que sobrevoava o Vale Carmel, ao norte deles, e leu as informações
disponíveis. Era um voo da Southwest com destino a San Jose,
vindo de Santa Ana, e havia uma linha roxa que lhe indicava a rota
exata. — Pegue o bloco de papel perto da geladeira, por favor?
Cami se levantou de um pulo e lhe entregou o bloco de notas,
aquele que ele vinha usando para listar as informações que
conseguia localizar sobre as cabanas da região, na esperança de
que tivessem sorte com a loja de quadrinhos naquela manhã. Parte
dele pensara que talvez estivesse apenas se envolvendo em um
exercício de futilidade na noite anterior, mas aquilo o ajudara a se
manter acordado, e ele estava muito feliz por ter feito isso agora.
Não que a cabana estivesse necessariamente na lista dele. Mas
poderia estar.
— Só preciso de alguns minutos aqui, — disse ele,
apresentando a lista de locais num raio de 48 quilômetros de onde
ficava a loja.
Ele estava trabalhando com alguns “talvez”. Mas agora
também estava trabalhando com alguns “definitivos”.
Rex sempre fora talentoso com números. Ele só tinha
matemática. Nunca precisou estudar álgebra ou geometria, ou
mesmo cálculo avançado. Para ele, tudo parecia direto e simples, e
ele não conseguia entender como os outros praticamente ficavam
vesgos quando uma equação era colocada na frente deles. Mas
estimativas exigiam um pouco mais de criatividade e um pouco de
pensamento inovador. Exigiam conhecimento de todas as variáveis
que poderiam estar envolvidas para chegar o mais perto possível de
um alvo. E Rex também se tornara muito bom nisso, em seu
trabalho ao longo dos anos. Assim como o mapa que ele usara para
se concentrar em uma pequena parte do mundo, seu cérebro se
tornara hábil em ampliar e reduzir o panorama geral à mão.
Um sapo, um pássaro e o aplicativo do seu amigo brilhante os
trouxeram até aqui. Algumas boas suposições e uma parada em
uma livraria os aproximaram ainda mais.
Agora ele estava procurando uma cabana a cerca de 32
quilômetros de uma loja de histórias em quadrinhos e alguns
restaurantes que vendem itens para viagem em sacos de papel, que
também ficavam um pouco a leste da rota do voo 4010 da
Southwest.
Rex usou os locais comerciais, o mapa da área, o que ele sabia
sobre rastros de condensação e as informações do radar para definir
latitude e longitude.
Então ele usou o mapa e apontou para o local. — Aqui, — disse
ele.
Cami observou em silêncio enquanto ele fazia os cálculos, e
ele praticamente conseguia sentir a energia dela vibrando ao seu
lado.
— Cataratas McWay, — murmurou ela. — Meu Deus, será que
é o som da janela e não do oceano?
Ele assentiu lentamente. Ao se lembrar do som, pensou que
poderia ter sido mais um rugido constante do que um estrondo e
recuo, mesmo que o som estivesse distante o suficiente para não se
destacar naquele momento. Rex rapidamente revisou sua lista de
chalés. Havia duas possibilidades, mas uma delas era um pequeno
agrupamento de chalés construídos perto de várias trilhas.
A outra era uma cabana solitária, mais no meio da floresta e
longe da trilha comum. Ele se virou para o computador, verificou
se Cyrus ainda estava bem e, em seguida, abriu uma imagem de
satélite e deu um zoom na localização da cabana.
Parecia uma cabana comum, rústica e charmosa, com uma
pequena varanda na frente. Ele arrastou o cursor para ver todos os
lados, mas, por causa das árvores, só conseguia ver uma pequena
parte da parte de trás. — Não vejo nenhuma grade na janela, —
disse Cami.
— Mas as imagens de satélite não são em tempo real, —
murmurou ele. Digitou o endereço da cabana alugada e percorreu
as informações disponíveis. — Parece que é uma empresa que
aluga, — disse ele. Em seguida, digitou o site onde haviam alugado
a propriedade onde estavam. — E está indisponível no momento. —
Virou-se para ela. — Vou dar uma olhada.
— Eu vou com você.
— Não, acho que você deveria ficar aqui e monitorar o Cyrus.
E me mandar uma mensagem se... — Suas palavras morreram
quando a porta do quarto de Cyrus se abriu.
— As panquecas, — disse Cami.
Rex ampliou a visão do quarto onde Cyrus estava sendo
mantido prisioneiro, Cami soltou um suspiro quando
simultaneamente a porta se abriu e Cyrus se virou, seus braços
agarrando a estrutura da cama antes de pular de pé.
— O que... — Rex sussurrou.
Aconteceu num instante. Cyrus se virou, segurando um
pedaço da estrutura de metal em suas mãos, enquanto parecia voar
de um lugar mais alto na cama. O homem com as caixas de isopor
foi pego de surpresa, a comida voando no ar. Cyrus soltou um
rugido quando o pedaço da estrutura da cama — agora uma arma
— fez contato com o estômago do homem. O homem gritou, pouco
antes de Cyrus tirar algo do bolso e enfiar no olho do homem. Outro
grito lancinante fez Cami agarrar o braço de Rex enquanto o homem
ferido na tela se dobrava, simultaneamente cobrindo o olho
sangrando com as mãos e a barriga.
Então Cyrus pulou da cama e deu uma pancada na cabeça do
homem. O sujeito caiu no chão, em meio à massa de panquecas e
bacon, com um leve — u...
— Meu Deus! — Cami exclamou com um pequeno soluço,
agarrando a manga de Rex. Rex estava acostumado a reviravoltas
inesperadas, mas desta ele nem de longe previra.
A coisa toda parecia altamente coreografada. Seria isso que o
garoto estava fazendo enquanto estava sentado ali, olhando para o
nada? Ensaiando mentalmente cada movimento de sua fuga
iminente?
— O cara vai atrás dele, — disse Rex enquanto se virava. —
Preciso chegar lá primeiro. — Ele correu para a porta, com Cami
atrás dele.
— Te mando uma mensagem quando ele se levantar e for atrás
do Cyrus, — disse ela. Ele percebeu o medo na voz dela, mas
também percebeu sua firmeza.
Rex correu para o carro, pulou para dentro e girou a ignição.
Droga, ele queria ter uma arma de fogo. Mas teve que deixar a sua
em casa para embarcar em um avião, e mesmo que tivesse ido direto
a uma loja de armas, a Califórnia tinha um período de espera de
dez dias.
Ele teria que improvisar se a situação ficasse crítica.
Os pneus do carro giraram no cascalho, e ele saiu voando da
garagem, segurando o volante com uma mão enquanto digitava o
endereço no GPS com a outra e meio adiante, ele avistou um
pequeno posto de gasolina, o logotipo que antes era vermelho agora
era um laranja desbotado na lateral do prédio desbotado pelo sol.
W ALKER 'S. Rex passou por ele. O homem que ele acabara de ver
Cyrus atacar comprara cartas e doces naquele local. A letra da qual
eles só tinham visto metade era um W.
O telefone dele tocou com uma mensagem de Cami.
O cara está acordado e irritado. Ele acabou de ir atrás
do Cyrus. Por favor, ajude-o.
Rex agarrou o volante, pisando fundo no acelerador. Era
exatamente isso que ele planejava fazer. Mas primeiro, ele teria que
encontrar Cyrus, porque o homem enfurecido atrás dele tinha
acabado de ser espancado e humilhado por uma criança. Irritado
provavelmente não descrevia nem a metade da situação.
Corra, Cyrus. Esconda-se.
CAPÍTULO TRINTA E DOIS
Cyrus atravessou a floresta a toda velocidade, correndo como
se sua vida dependesse disso, porque dependia. A adrenalina o
impulsionava para frente, mesmo com os pulmões doendo e as
pernas queimando. Ele havia conseguido sair daquela sala. Mal
conseguia acreditar que seu plano havia dado tão certo, exatamente
como ele havia imaginado em sua cabeça repetidas vezes, ajustando
cada movimento enquanto considerava e reconsiderava as
respostas do cutucão.
A cabana nem estava trancada. Ele abriu a porta e correu para
as árvores.
Ele mal podia esperar para contar isso ao Sr. Abdullah.
Se ele tivesse a oportunidade.
Porque primeiro ele precisava encontrar uma saída daquela
floresta e chegar até a polícia.
Ele se escondeu atrás de uma árvore e encostou a coluna nela
enquanto escutava. Tinha certeza de que o cutucão de nariz logo
estaria atrás dele. Se pudesse, o teria trancado naquele quarto, mas
não conseguira descobrir uma maneira de atacá-lo com sucesso
sem que seu corpo caísse bem na frente da porta. E não tinha tempo
nem força para movê-lo.
E então, ele decidiu que o melhor plano era simplesmente
correr.
Cyrus congelou ao ouvir o barulho distante do que imaginou
ser uma porta se abrindo com estrondo, e então o som do homem
gritando seu nome. — Porra, — sussurrou Cyrus.
Ele começou a se mover novamente, desta vez com menos
velocidade e mais determinação. O barulho da água era mais alto
ali, e ele achou que parecia o de uma cachoeira. Afastou-se do
rugido, com medo de cair acidentalmente em um rio que o
arrastaria pela cachoeira.
Além de se afastar da cachoeira, não havia uma direção clara
para seguir, então Cyrus simplesmente correu por entre as árvores,
sobre os troncos caídos e pequenas pedras, com um tapete de
agulhas de pinheiro amortecendo seus passos. Seu coração batia
tão rápido, e à medida que a floresta se tornava mais escura e
densa, a sensação de vitória se transformou em medo.
Ele tentava escapar o mais silenciosamente possível, mas
ainda ouvia o homem vindo atrás dele, chamando seu nome com
raiva. Ele me ouve. Era difícil ficar quieto, porém, e correr o mais
rápido que precisava para criar distância.
Cyrus parou, decidido a correr. Se conseguisse se manter à
frente, talvez encontrasse um esconderijo. Mas parecia que os
passos do homem vinham de todas as direções, sua voz ecoava, e
então Cyrus ficou ali, respirando com dificuldade, paralisado pela
indecisão.
Mova-se!
Cyrus contornou uma árvore e avançou lentamente, agora
bem mais devagar, ouvindo atentamente cada passo, apavorado
que o homem fosse pular e atacá-lo. Talvez ele tivesse conseguido
se adiantar de alguma forma. Talvez conhecesse um atalho.
Ele viu uma árvore se erguer à frente, como se alguém
estivesse logo atrás dela, e se virou, abaixando-se atrás de uma
pedra e tapando a boca com as mãos para abafar a respiração
ofegante. Ouviu mais farfalhar vindo daquela direção, e agora o
homem havia parado de chamá-lo. Mas ele estava perto. Cyrus
sabia que sim.
Mova-se!
Cyrus se levantou e saiu correndo de trás da rocha, olhando
por cima do ombro enquanto corria para frente, contornando uma
árvore e deslizando até a beira de uma depressão, com pequenas
pedras voando no ar, ricocheteando nas saliências e depois
mergulhando nas rochas irregulares lá embaixo. Ele gritou,
atirando-se para trás e caindo de bunda no chão.
Seu coração batia forte enquanto ele virava a cabeça para um
lado e depois para o outro, observando a paisagem e tentando
desesperadamente descobrir para onde ir. Seus músculos se
contraíam de indecisão, o ar escapando de seus pulmões. Ele havia
corrido direto para uma área de quedas acentuadas, e parecia que
a única saída era reverter o curso.
Mas então ele correu direto para o cutucão de nariz.
Cyrus se levantou bruscamente no momento em que o homem
surgiu entre as árvores.
— Aí está você, seu merdinha. — O sujeito tinha uma
expressão assassina enquanto tirava uma arma da cintura e
apontava para Cyrus. Sangue escorria pelo rosto do homem, o olho
onde Cyrus o esfaqueara inchado e ensanguentado.
O coração de Cyrus se apertou tanto que ele quase engasgou,
seu olhar percorrendo tudo ao redor enquanto procurava uma saída
para aquilo que ainda não tinha visto. Sua única esperança era
contornar o homem furioso com a arma, e ele não conseguia
imaginar uma maneira de fazer isso acontecer.
— Você está preso, seu putinho. Mas primeiro, vou te dar uma
lição. — O homem xingou, tirou um lenço do bolso e enxugou o
sangue que escorria pela bochecha. — Você quase arrancou meu
olho. — Ele se abaixou e pegou um graveto do chão. — E agora vou
fazer o mesmo com você.
Todo o meu planejamento. Todo o meu trabalho e toda a minha
sorte acabam aqui. Mãe. Pai. Me ajudem.
O pensamento quase o fez chorar, mas ele engoliu em seco.
O cutucão avançou, e Cyrus olhou por cima do ombro. Se
desse mais de cinco passos para trás, cairia do penhasco. Ele se
lançaria para o fundo, quicando em cada pequena saliência antes
de aterrissar nas rochas abaixo, assim como as pedras.
O homem deu mais um passo à frente, e Cyrus arriscou um
passo para trás. Para longe. — Depois que eu arrancar seu olho,
vou te pendurar naquele penhasco pelos pés até você se cagar. Vou
te fazer gritar como um porquinho. Você acha que estava com medo
naquele quarto? Você não sabe o que é medo. Você não sabe o que
é dor. Mas está prestes a saber. E então isso vai se tornar toda a
sua existência.
O forte tremor de uma árvore chamou a atenção deles, e o
homem olhou para trás enquanto Cyrus focava o olhar nos galhos
farfalhantes. Um clarão negro surgiu em uma fresta, e Cyrus
respirou fundo enquanto o homem praguejava, erguendo a arma e
mirando.
Mas tão rápido quanto isso, as árvores pararam, e os galhos à
direita começaram a se mover com qualquer criatura grande que
estivesse lá atrás.
Um urso. Tem que ser um urso preto.
Cyrus queria chorar. Seus joelhos começaram a tremer e seus
lábios tremeram. Ele implorou por ajuda, e as coisas pioraram.
O homem disparou contra a árvore em movimento, mas então
a árvore ao lado começou a balançar com o movimento, e ele atirou
novamente. Os disparos foram tão altos que Cyrus gritou,
ajoelhando-se e levando as mãos aos ouvidos.
Todas as árvores pareciam tremer e se mover agora, com
qualquer coisa enorme ali dentro, flashes de preto dando ao homem
algo em que atirar. Ele chicoteava a arma para frente e para trás,
atirando repetidamente. Cyrus aproveitou a oportunidade para
“andar” de joelhos, afastando-se da borda do penhasco e indo para
a direita do homem. Mas mesmo que o sequestrador continuasse
ocupado e ele conseguisse passar, teria que mergulhar pela mesma
árvore onde a criatura enorme estava.
Ele parou novamente, paralisado de medo. E, de repente, as
árvores pararam completamente de se mover, os galhos ficaram
imóveis.
— Te peguei, seu filho da puta! — gritou o cutucão, virando-
se para Cyrus, parecendo surpreso por ele ter se movido. Ele
avançou, e Cyrus apoiou as mãos na terra, agarrando-se à areia
como se ela pudesse prendê-lo ao chão quando aquele homem
tentasse arrastá-lo para a morte.
— Ei, seu babaca.
Ao som da voz, Cyrus soltou um latido de medo e o homem se
virou novamente, erguendo a arma. Não era um urso. Era um
homem. Ele era alto e musculoso, e seus cabelos negros brilhavam
ao sol.
— Quem diabos é você? Pare aí ou eu atiro, — gritou o
sequestrador.
— Estou aqui pelo Cyrus.
O coração de Cyrus continuava a bater forte, a respiração
entrecortada enquanto observava a conversa. Ele não entendia.
Aquele homem estava ali por ele, mas não estava com o cutucão.
Seria ele um deles? Os homens maus? Ou seria ele bom?
— Que diabos você está fazendo? Volte logo. Quem te
mandou?
O homem de cabelos negros apontou o queixo para Cyrus, sem
tirar os olhos do homem com a arma. — Cyrus, vá em direção às
árvores.
O homem que cutucava o nariz apontou a arma para Cyrus.
— Fique aí, — gritou. — Não mexa um músculo.
O homem de cabelos negros deu mais um passo à frente. —
Você não vai machucá-lo. Ele é um bem precioso. O que aconteceria
se você destruísse a mercadoria? — Ele deu mais um passo à frente.
— Além disso, você está sem balas.
O homem enfiou a mão no bolso, os lábios se abrindo num
sorriso enquanto deixava cair algo da arma no chão e enfiava o que
quer que estivesse em seu bolso na arma.
— Xeque-mate, — disse ele. E Cyrus não conhecia todas as
partes de uma arma, mas era inteligente o suficiente para saber que
o homem tinha acabado de colocar mais balas.
A expressão do homem de cabelos negros não mudou, mas
Cyrus jurou que seus músculos se contraíram e ele ficou imóvel.
Ele não esperava por aquilo. A esperança de Cyrus havia se
acendido brevemente e agora despencava novamente.
O sequestrador manteve a arma apontada para o homem de
cabelo preto e avançou rapidamente em direção a Cyrus. Ele ia
agarrar Cyrus e provavelmente mataria o sujeito, quem quer que
fosse. Depois, faria o que quisesse com Cyrus. Seus dedos
cravaram-se na terra macia e, de repente, percebeu que tinha uma
arma. Ele já estava segurando uma.
Ele fixou o olhar no homem de cabelos negros por vários
momentos de tirar o fôlego. Parecia que ele estava começando a se
agachar ou se preparar para uma bala ou algo assim, e Cyrus
prendeu a respiração ao começar a levantar as mãos. Então,
quando o cutucador de nariz estava perto o suficiente para alcançá-
lo, Cyrus atirou os punhados de terra em seu rosto e mergulhou
para a direita.
O homem gritou, levando a mão ao que antes era seu único
olho bom enquanto apontava a arma para Cyrus.
Mas Cyrus já estava no chão, e então, quando o homem de
cabelos negros soltou um rugido e começou a correr para frente, o
sequestrador cego se virou em sua direção, atirando repetidamente.
Cyrus tapou os ouvidos novamente, rastejando para longe,
ofegante, enquanto os tiros erravam e o homem de cabelos negros
se abaixava e então se chocava contra o cutucão com um baque
alto.
O sequestrador berrou e cambaleou para trás, os dois homens
agora lutando pela arma. Eles grunhiram e se debateram, e parecia
que o homem de cabelos pretos se movia em círculos, o bandido de
olhos fechados, forçado a seguir o que parecia uma dança estranha.
As costas de Cyrus bateram no tronco de uma árvore, e ele
observou em silêncio atordoado enquanto o homem de cabelos
pretos se desvencilhava das mãos do cutucador de nariz.
O homem com a arma ergueu-a novamente e começou a atirar
descontroladamente. Os olhos de Cyrus pareciam prestes a saltar
das órbitas quando o homem de cabelos pretos se abaixou,
permaneceu abaixado e então foi direto para a beira do penhasco e
disse: — Não me acertou.
O sequestrador cego girou em sua direção e atirou enquanto o
homem de cabelos negros saltava atrás dele, colocava as mãos
espalmadas nas costas do sequestrador e o empurrava. O homem
que havia aprisionado Cyrus cambaleou para frente, gritando
enquanto agitava os braços e voava pela beira do penhasco.
Momentos depois, ouviu-se um baque suave vindo de baixo.
Por um minuto inteiro, Cyrus não se moveu, com a respiração
ofegante e o coração batendo forte. O homem se virou, a boca
contraída em uma linha fina, enquanto os sons da floresta
retornavam. Pássaros. Um pequeno animal correndo em algum
lugar próximo. O rugido distante da água.
O homem caminhou até Cyrus e ajoelhou-se lentamente
diante dele. Segurou as mãos trêmulas de Cyrus e as segurou entre
as suas.
— Oi, Cyrus. Eu estava te procurando.
— Você é um deles? — Sua voz soou metálica, não era sua.
— Eles? Os bandidos? Não. Meu nome é Rex e estou aqui para
ajuda-lo. Estou aqui para te levar para casa.
Seus pulmões estavam tão apertados, como se tivesse corrido
cem milhas, e sua pele estava úmida. Seu coração finalmente
começava a parecer que não estava batendo contra a parede do
peito.
— Rex, — repetiu ele.
— Sim. — O homem chamado Rex enfiou a mão no bolso de
trás, tirou uma carteira, abriu-a e entregou um cartão a Cyrus.
Cyrus pegou e leu. Rex Lowe. Era uma identidade de
funcionário.
— Você trabalha para a NSA?
— Sim. Eles não me enviaram, mas espero que saber quem eu
sou te faça se sentir seguro o suficiente para vir comigo agora.
Este homem, Rex, o salvou do cutucão. Mas ter provas de que
ele era quem dizia ser ajudou ainda mais, e o fato de trabalhar para
a NSA também parecia bom. Mas o que realmente o fez respirar
aliviado foi o outro cartão que Cyrus viu em sua carteira. Ele
apontou para ele, e Rex o tirou.
Era um cartão de benefícios. — Você serviu no exército? —
perguntou Cyrus.
— Servi sim, — respondeu Rex. — Esse cartão é antigo, mas
sim, eu fui militar.
— Meu pai também, — disse Cyrus.
Rex sorriu, e pareceu meio triste, como se talvez já soubesse
que o pai de Cyrus estava morto. Ele observou Rex guardar os
cartões de volta na carteira e devolvê-los ao bolso.
Cyrus aprendera a ler as pessoas olhando nos olhos, e agora
fazia isso. Seu pai lhe dissera que era possível perceber muita coisa
dessa forma. Este homem, Rex, tinha a mesma seriedade que o Sr.
Abdullah e a mesma gentileza que seu pai. E ambos tinham sido
soldados. Bons rapazes.
— Eu vou com você, — disse Cyrus.
— Obrigado, — respondeu Rex. E então Cyrus seguiu Rex para
longe do cânion, através das árvores, até conseguir ouvir o som do
trânsito ao longe.
O que ele ainda não havia dito a esse homem chamado Rex
Lowe, esse soldado, era que ele não poderia levá-lo para casa,
porque Cyrus não tinha mais uma dessas.
Ele não estava mais atrás das grades, mas não sabia se algum
dia estaria realmente seguro novamente.
CAPÍTULO TRINTA E TRÊS
Cami andava de um lado para o outro na varanda, com as
mãos tremendo enquanto pegava o telefone novamente, xingando
baixinho quando viu que Rex ainda não havia respondido a
mensagem.
Ou chamado.
O que diabos está acontecendo?
Ela olhou para o laptop na pequena mesa sob a saliência e
notou que o quarto onde Cyrus estava mantido ainda estava vazio,
com a porta aberta e a pequena poça de sangue secando no chão
onde o homem havia caído.
O som de pneus no cascalho chegou aos seus ouvidos, e ela
correu para a beira da varanda, com o coração disparado enquanto
observava o carro de Rex fazer a curva. Com um suspiro, ela
praticamente voou pelos degraus curtos e correu até onde ele
parou.
— O que aconteceu... — Um pequeno soluço interrompeu suas
palavras quando ela viu a criança no banco de trás e, por um
momento, ela sentiu que ia desmaiar de alívio. Ela apoiou a mão no
carro para se firmar enquanto Rex saía. Cami empurrou o veículo e
correu para frente, jogando-se nos braços de Rex com um soluço.
Ele a segurou, levando a palma da mão à nuca dela enquanto as
primeiras lágrimas caíam. — Obrigada, obrigada, oh, obrigada, —
ela cantou. — O homem...
— Morto.
Morto. Certo. Certo. Ela saberia os detalhes mais tarde.
Rex a colocou no chão, virou-se e abriu a porta traseira. Cami
deu um passo à frente, enxugando as lágrimas, esforçando-se para
controlar a emoção quando o garotinho que eles tinham visto na
tela nos últimos dias aterrorizantes emergiu do veículo.
Seu filhinho. Cyrus. Em carne e osso. Ela queria tanto
estender a mão e tocá-lo, mas se conteve. Ela só o vira uma vez,
mas o amava. Para ele, porém, ela era uma estranha.
Ela não conseguia desviar o olhar. Ele era a coisa mais linda
que ela já tinha visto. Perfeito em todos os sentidos.
— Cyrus, — disse Rex, aproximando-se dela. — Esta é a Cami.
Estávamos tentando te encontrar.
A boca de Cyrus se abriu em um O de surpresa. Ele piscou
como se Cami pudesse ser um sonho que ele esperava que se
dissipasse.
— Eu te conheço, — disse ele finalmente, com o tom tão
perplexo quanto a expressão. — Você é minha mãe.
Ela recuou um pouco e engoliu em seco antes de olhar para
Rex, como se ele pudesse explicar o choque daquele momento. Mas
ele parecia tão perplexo quanto ela e Cyrus. Cami se ajoelhou diante
do garotinho.
— Como você sabe disso?
— Minha mãe — minha mãe adotiva — tinha uma foto sua nos
jornais. Ela não me disse quem você era, mas eu sabia. — Ele levou
um dedo ao rosto. — Você e eu temos os mesmos olhos.
Ela respirou fundo. Eles tinham. Tinham os mesmos olhos.
Até a cor avelã era exata. Não exatamente verde, mas também não
castanho. Ela sabia que eles mudavam com a luz e dependendo da
roupa que vestiam. Eram os olhos da sua mãe — avó do Cyrus —
também, e era uma das maneiras pelas quais Cami sabia que ele
era dela, mesmo através da tela de um laptop.
Mas como sua mãe adotiva tinha o nome dela, ela não sabia.
Uma adoção fechada deveria manter a privacidade tanto dos pais
biológicos quanto dos adotivos. Por outro lado, Cami tinha visto
informações que não deveria ver, então talvez a outra mulher
também tivesse. Ela supôs que era possível que ela até tivesse
recebido o nome de Cami. Cami se lembrou de que a agência pela
qual ela havia passado aparentemente havia quebrado mais de uma
regra.
— Procurei seu nome na internet, — disse Cyrus. — Tentei
encontrar seu número de telefone, mas não sabia como. Assisti ao
programa sobre o que aconteceu com você.
Ah. O programa que a retratara como vítima e heroína, ou pelo
menos foi o que ela deduziu pelos comentários de quem assistiu. O
programa que fora ao ar mesmo sem que nem ela nem o pai
tivessem participado, dado uma entrevista ou sequer uma
declaração. O programa que, apesar do conteúdo macabro sobre o
seu tormento real, foi disponibilizado ao mundo, conquistou
milhões de visualizações.
— Você está melhor agora? — ele perguntou.
— Sim. Sim, estou melhor agora. — Era uma simplificação
exagerada, mas resumia bem o que o jovem rapaz dizia. Ela estava
melhor agora.
Ele olhou fixamente nos olhos dela por um momento antes de
assentir.
— Que bom.
Coisas ruins aconteceram comigo também.
— Eu sei, — disse ela. — E vamos ajuda-o a encontrar
respostas. — Ela também queria respostas. Seu pânico se
transformara em alívio, e agora esse alívio se transformava em
raiva. Quem os fizera passar por aquilo? E por quê?
— Eu também vi a entrevista com meu pai biológico, — disse
ele. Cami piscou, surpresa, deixando-a muda. — Aquele que era seu
namorado na época.
— Eu... ele... — Ela soltou uma risada incrédula que morreu
rapidamente. Hollis havia negado a própria paternidade,
praticamente a chamando de mentirosa na cara dela. Ele nunca
voltou atrás. Ela havia se escondido da mídia, e a cidade ao seu
redor havia presumido o que ela havia deixado. Até mesmo os
amigos que ela considerava mais próximos acreditaram em Hollis
quando ele lhes disse que não era o pai. Seus pais se certificaram
de que essa mentira fosse repetida como verdade em seu círculo
também. Tantas pessoas a olharam com pena e, em alguns casos,
mal contiveram a repulsa. E, no entanto, esta criança havia
descoberto a verdade em uma entrevista de cinco minutos. Talvez
ele até tivesse feito as contas, uma verificação fácil que parecia
escapar a todos os outros, que aparentemente preferiam acreditar
que o bebê havia chegado antes do tempo, mas ainda pesava mais
de 3,6 quilos. — Uau, Cyrus, você é...
— Inteligente demais para o meu próprio bem? — ele
perguntou muito sério.
Ela observou o rosto solene dele. Perguntou-se quem lhe teria
dito aquilo. Balançou a cabeça.
— Não. Apenas inteligente. Perfeitamente inteligente. E
incrível.
Cyrus deu um sorriso tímido, e ela notou aquela pequena
covinha logo abaixo do lábio dele. A covinha de Elle, e a mesma que
ela tinha visto em seu nascimento. — Obrigado, — disse ele.
— Posso... posso te dar um abraço? — ela perguntou, com a
voz trêmula pela necessidade de segurar aquela criança que
certamente era dela.
Cyrus não hesitou: ele foi direto para os braços abertos dela e
a abraçou de volta. Cami fechou os olhos e viveu o momento
presente, desfrutando do alívio e sentindo aquela maravilhosa
sensação de plenitude.
Quando ela finalmente o soltou e se levantou, Rex encontrou
seus olhos marejados. — Temos que chamar a polícia agora. Duvido
que os homens que estavam a caminho ainda estejam indo para a
cabana. — Ele olhou para Cyrus como se estivesse decidindo se
deveria falar na frente dele. Mas Cyrus tinha acabado de sobreviver
a um sequestro. Ele estava a par do que estava acontecendo e fora
esperto o suficiente para escapar. E agora tinha alguém para
segurá-lo se estivesse com medo. — Quem postou aquele vídeo deve
tê-los alertado. Mas, por precaução...
— Concordo, — disse ela enquanto enxugava a umidade dos
olhos. Talvez a identidade do morto trouxesse respostas. Ela fora
avisada para não chamar a polícia, mas isso sob a ameaça de que
o vídeo de Cyrus desapareceria e ela não teria como encontrá-lo.
Agora... agora não havia motivo para não alertar as autoridades.
Ela pegou a mão de Cyrus e eles subiram as escadas até a
varanda. Cami pegou o laptop para levá-lo para dentro.
— Rex, — ela sussurrou.
Ele se aproximou dela e olhou para a tela.
— Desapareceu, — murmurou.
O vídeo da sala vazia sumiu. Desapareceu completamente.
CAPÍTULO TRINTA E QUATRO
1994
Desde pequena, Josephine “Posey” Kiss sabia muito bem que
seu pai estava envolvido em tirar vidas. Alguns o consideravam um
vilão, ela sabia. Mas, mesmo assim, ela o amava plena e
completamente.
Ele era o único que tentava entendê-la e fazê-la se sentir
especial. Ou, mais precisamente, o único que a fazia se sentir
normal.
Como Posey, de dezessete anos, era tão brilhante, às vezes as
pessoas a consideravam mais um computador do que uma garota.
E tão quieta que a maioria até se esquecia de que ela estava
presente. E isso não era problema para ela, pois Posey achava a
maioria dos humanos completamente chatos e tediosos.
Eles se envolviam em conversas inteiras sobre as coisas mais
banais. Tópicos sem qualquer consequência.
O pai dela nunca se inclinava à banalidade. E se contentava
em deixá-la ficar tão quieta quanto quisesse. Ele não tentava
preencher o espaço. Quando falava, tinha um significado.
Perguntava a opinião dela sobre os negócios dele. Considerava as
ideias dela e até permitia que ela o aconselhasse ocasionalmente.
Ele apreciava sua mente racional. E gostava que ela tivesse total
controle de suas emoções. Sentimentos simplesmente não serviam,
e por isso, na maioria das vezes, Posey escolhia deixá-los de lado.
Mas, independentemente da emoção, seu pai era criterioso
quanto às vidas que ordenava que fossem descartadas. Ele se
preocupava em considerar todos os ângulos do valor de uma pessoa
e quaisquer alternativas que pudessem superar o obstáculo de um
cliente.
— O que você acha dessa situação, Posey? — perguntou seu
pai em uma segunda-feira chuvosa.
Posey ajeitou os óculos no nariz arrebitado e se inclinou para
ver o computador na mesa à sua frente, examinando os detalhes do
arquivo. Nem todas as informações relevantes estavam detalhadas,
mas Posey conhecia o negócio o suficiente para ler nas entrelinhas.
Era por isso que a Operação Kiss não podia ser confiada a
qualquer um. Era imperativo que ela permanecesse na família.
O caso — pois era assim que seu pai os chamava, os casos
dele — envolvia um político proeminente e veterano que estava
prestes a ser exposto por atracar seu iate em um estado vizinho
para economizar bastante em impostos.
Impostos que ele impôs sob uma plataforma que defendia os
ricos
“pagando a sua parte justa”. Exceto ele, aparentemente.
Seria um desastre para o homem. Qualquer esperança de
reeleição seria destruída.
O grupo inteiro seria atingido.
E tudo pode ruir por causa de um único auditor que descobriu
seu esquema e ameaçou expô-lo se o próprio político não
confessasse e pedisse desculpas publicamente.
Posey leu rapidamente o restante das informações pessoais do
auditor. O homem ingênuo não tinha ideia de que sua vida estava
em perigo. Posey tinha certeza disso porque não fizera nenhum
esforço para se proteger. Não contratara um guarda-costas, nem
comprara uma arma, nem abrira um cofre onde uma cópia da
papelada do político pudesse ser guardada em caso de morte do
auditor. Que homem míope! Aparentemente, ele não entendia como
o mundo funcionava, ou pelo menos o mundo da política.
Posey sabia, porém, assim como a família Kiss. Eles fizeram
com que grande parte disso acontecesse. Eles consertaram
situações indesejáveis. Eles limparam bagunças. Eles resolveram
problemas para quem tinha problemas para resolver. Às vezes, eles
providenciaram retribuição para aqueles que se sentiam ofendidos
e desejavam vingança.
Posey pegou a pilha de jornais daquele dia, de várias cidades
importantes, que seu pai recebia em casa todas as manhãs e fez
uma breve pesquisa sobre os acontecimentos atuais. Ela fez
questão de se manter atualizada sobre política e cultura para poder
adicionar elementos às suas equações, caso necessário. Um artigo
em particular sobre o estado natal do senador chamou sua atenção.
— Talvez haja um jeito mais limpo, — sugeriu ela ao pai.
— Mais limpo do que fazer o auditor desaparecer?
— Hum. — Ela desviou o olhar, fazendo as contas de cabeça,
calculando probabilidades com base em cada cenário potencial.
Finalmente, abriu um mapa e apontou para um local na costa da
casa do político, uma pequena cidade pesqueira com renda per
capita muito inferior à média nacional. — Uma grande inundação
ocorreu na pequena cidade de Waltham Shores, — disse ela. —
Parece que a evacuação do hospital é necessária devido aos danos
e à inacessibilidade. No entanto, a estrada principal ainda está
submersa, então eles suspenderam o plano temporariamente. É
uma situação delicada. A guarda costeira está sobrecarregada com
outros resgates e tem recursos limitados para ajudar.
O pai dela bateu no queixo enquanto ouvia. — Continue.
— Meus cálculos sugerem que, em vez de fazer o auditor
desaparecer, um resgate, usando o iate como meio de evacuar os
pacientes mais críticos, tem uma chance maior de sucesso a longo
prazo.
— Explique.
— O irmão do auditor é um detetive de polícia em Portsmouth
que se aposentará no mês que vem. Um irmão gêmeo.
— Hmm. Entendo. Se ele desaparecer, ou o corpo for
encontrado, o irmão provavelmente vai investigar. Principalmente
porque em breve terá tempo. Eles provavelmente são próximos,
como gêmeos costumam ser. Talvez o irmão dele até tenha
mencionado a situação para ele.
— Podemos consultar os registros telefônicos dele para
determinar isso. No entanto, o resgate não deixa pontas soltas.
Pontas soltas eram frequentemente um problema nos negócios
da família Kiss. Um parente chegou perto demais da verdade,
alguém que não deveria ter falado, erros humanos de todos os tipos
e magnitudes ocorriam durante a execução da operação. Então,
essas pontas soltas tinham que ser resolvidas, e assim por diante.
Várias pontas soltas podem rapidamente desfazer todo o
problema.
Eles já tinham visto isso acontecer antes, mesmo que seu
envolvimento sempre tenha sido ocultado. Seus clientes entendiam
que, se as coisas dessem errado, eles, e somente eles, seriam os
culpados. A família Kiss garantia isso.
— Como o resgate resolve o problema da evasão fiscal?
— Diretamente, não. No entanto, uma denúncia atrairia
câmeras, o que, por sua vez, atrairia atenção. É uma história que
nos faz sentir bem. Humanos de todas as faixas etárias respondem
bem a atos heroicos. Provavelmente se tornaria nacional.
Poderíamos garantir que isso aconteça.
— Uma doação para construir um novo hospital não faria mal,
— sugeriu seu pai.
Posey fez alguns ajustes rápidos nos cálculos de cabeça. —
Não, as chances melhoram com essa variável.
— Quando você diz melhoram...
— Quero dizer, a aclamação praticamente anulará o
escândalo. Pelos meus cálculos.
O pai dela recostou-se, os lábios levemente curvados. —
Criativo.
Posey franziu a testa. Não havia nada de “criativo” no que ela
fazia, pelo menos para ela. No entanto, “fazer desaparecer” alguém,
ou seja, matá-lo e se livrar de seu corpo de diversas maneiras,
costumava ser muito mais complicado do que abordagens
alternativas. E mais arriscado.
O negócio deles não era melhorar as chances dos seus
clientes?
Não que Posey fosse particularmente avessa ao
desaparecimento daqueles que se envolviam em situações com
desfechos previsivelmente ruins. Simplesmente, havia maneiras
muito mais prudentes de lidar com muitos dos casos que
terminavam em violência e morte.
E mais uma vez, pontas soltas.
— Vou apresentar e deixar o cliente decidir, — disse seu pai.
— O tempo é essencial, — Posey o lembrou.
— Claro. Vou ligar em instantes. — Ele fez uma pausa,
sorrindo para ela. — A maioria das pessoas tem aversão a ser
responsável pela morte dos outros. Tenho certeza de que ele pelo
menos apreciará uma variedade de opções. — Posey sorriu.
— Você vai comandar essa operação um dia, Posey. O que você
acha disso?
— Sinto-me equipada.
O pai dela riu baixinho. — De fato. Talvez até mais equipada
do que eu.
Ela franziu a testa novamente. — Anton não vai gostar. — Seu
irmão, Anton, esperava assumir os negócios da família. Como único
menino, ele achava que era seu direito. Achava que Posey era uma
aberração. Inútil e simplesmente esquisita.
E ele nunca perdeu a oportunidade de dizer isso.
Talvez ela fosse. Mas, independentemente disso, ela não
poderia ser outra pessoa.
O pai dela suspirou. — Nada vai agradar Anton. Anton não é
do tipo que se contenta com nada. Ele é meu filho, mas é... muito
precipitado e egocêntrico para administrar com sucesso um negócio
como o nosso. Não, Posey. Você é minha escolha. Você será meu
legado. Agora, por favor, me dê licença enquanto eu faço esta
ligação.
— Sim, Pai.
CAPÍTULO TRINTA E CINCO
Rex entregou uma xícara de café a Cami, e ela lhe deu um
sorriso agradecido.
— Você está bem? — ele perguntou sem emitir som, e ela
assentiu levemente.
A polícia chegou logo após o chamado e já os interrogava havia
uma hora. Cami parecia cansada, mas determinada a fazer tudo o
que pudesse para ajudar as autoridades a desvendar o que havia
acontecido e como Cyrus Sanders acabara trancado em um quarto
de uma cabana alugada na floresta.
E porque ninguém relatou seu desaparecimento em quatro
dias.
Quando Rex ligou pela primeira vez, duas viaturas chegaram,
rapidamente acompanhadas por outras enquanto ele contava a
história de como ele e Cami tinham chegado a Big Sur. Então, dois
detetives chegaram e separaram ele e Cami enquanto os
interrogavam, enviando policiais para a cabana. Pelo que Rex sabia,
as autoridades estavam tentando descobrir a quem pertencia a
propriedade e como poderiam ser contatadas para interrogatório.
A polícia insistiu em levar Cyrus ao hospital para ser avaliado
minuciosamente e, embora fosse óbvio que Cami tinha dificuldade
em deixar a criança fora de vista, uma policial se ofereceu para
acompanhá-lo e ficar ao seu lado. Cami cedeu, embora
provavelmente soubesse que não cabia a ela decidir.
Cami tomou um gole do líquido quente, e o detetive Mauro,
um homem de aparência rude e fala surpreendentemente suave,
olhou para o celular quando recebeu uma mensagem.
— Sem sorte com aquela sala, — disse ele, obviamente se
referindo à sala virtual na dark web onde o vídeo de Cyrus estivera.
Rex sabia que seria esse o caso. Era esse o objetivo da dark web:
você podia publicar e remover o que quisesse, e não havia como
rastrear ou recuperar a informação.
— Conte-me novamente sobre a pessoa ao telefone, — disse o
detetive a Cami. Rex sentou-se ao lado dela. Eles já tinham
conversado sobre isso, mas ele sabia que era apenas o protocolo.
Queriam garantir que a história dela não mudasse e que ela não
tivesse esquecido nada.
Cami suspirou, mas não discutiu. Ela obviamente entendia a
estratégia deles também. — Tenho quase certeza de que era uma
mulher, e a voz dela foi alterada para soar como uma daquelas
bonecas de corda. Aguda e acelerada. — Ela apertou os lábios e
olhou para o lado, obviamente pensando. — Tem uma coisa que
esqueci de mencionar. Eu ouvi isso... Não sei, era como um som de
chiado no fundo. Lembro-me de imaginar Darth Vader na linha.
Aquela respiração exagerada, como se através de uma máscara. —
Ela balançou a cabeça. — Eu sei que não faz sentido, mas...
— Agora não, — disse o Detetive Mauro enquanto anotava em
seu bloco de notas. — Mas, repito, cada pequeno detalhe importa.
E isso pode nos ajudar em algum momento.
Cami mexeu em um fio na almofada do sofá. O detetive mais
jovem, Graf, que estivera lá antes, voltou para casa e sentou-se ao
lado do colega. — Conversei com o meu capitão, — disse ele, e Cami
o encarou. — Poderíamos acusá-la, sabe? De não ter denunciado
um sequestro.
— Não pela lei da Califórnia, — disse Rex. Ele havia
pesquisado o assunto enquanto Cami dormia em seu ombro no
avião. — Se você não é o pai legal da criança, não é obrigado a fazer
nada. — E mesmo que Cami fosse a mãe biológica de Cyrus, ela não
tinha direitos parentais perante a lei.
Cami lançou lhe um olhar arregalado, obviamente surpresa
com as leis frouxas da Califórnia em relação à obrigatoriedade de
denúncias de crimes contra menores. Mas, neste caso, era para o
benefício deles.
— Isso começou na Virgínia, — disse o detetive Mauro.
— Não parece o melhor uso de recursos, considerando o crime,
— disse Rex. — E, além disso, Cami foi avisada para não procurar
as autoridades. Ela obviamente abordou a situação com sabedoria.
Cyrus Sanders está vivo e bem, graças a ela.
— E você, — disse Cami, estendendo a mão e pegando a dele
por um momento antes de soltá-lo.
— Você, — repetiu o detetive Graf, — fez com que um homem
caísse de um penhasco e morresse.
— A vida do Cyrus estava em perigo iminente, — disse Rex. —
E a minha também. Aquele homem tinha uma arma carregada, e
eu não. Ele já tinha disparado muitos tiros.
— É o que o garoto também diz. — O detetive recostou-se na
cadeira. — E as cápsulas de bala confirmam a sua história. Uma
equipe já recuperou o corpo e a arma. — Ele fez uma pausa, com
os olhos fixos em Cami. — Quanto ao garoto estar bem, apesar de
você não ter contatado a polícia imediatamente, eu não trabalho
com base no princípio de que “os fins justificam os meios”. Isso
poderia ter se tornado trágico a qualquer momento.
— Eu diria que já aconteceu, — disse Rex. Irritou-o que a
tratassem como uma criminosa, já que ela estava torcendo as mãos
e se esforçando desde que seu telefone tocou pela primeira vez e ela
descobriu que um garoto estava em apuros. — Então, em vez de nos
dar sermão, talvez descobrir quem pegou um garoto e o colocou
atrás das grades. Descobrir quem são os pais adotivos caloteiros
dele e acusá-los.
Os lábios do Detetive Graf se estreitaram, mas nem ele nem o
Detetive Mauro pareceram caras irracionais para Rex. Eles
permitiram que permanecessem na casa enquanto eram
interrogados, em vez de arrastá-los para a delegacia, onde se
sentariam em uma sala fria sob luzes fortes. A suposição de Rex
sobre a decência dos detetives foi ainda mais confirmada quando os
homens se entreolharam e então o Detetive Graf suspirou e se virou
para Cami.
— Poderíamos acusá-la, mas não vamos. Você nos ligou assim
que Cyrus estava seguro e cooperou. Além disso, eu a pesquisei. Eu
tinha ouvido falar do crime cometido contra sua família quando
aconteceu. Uma verdadeira tragédia. Sinto muito pelo que você
passou.
— Obrigada, — disse Cami.
— Será que a pessoa que lhe enviou o vídeo sabia da sua fuga
passada e esperava que você fosse inteligente o suficiente para
encontrar Cyrus? — perguntou o detetive Mauro.
Cami pareceu pensar na pergunta. — Talvez. Mas sua
pergunta pressupõe que fui escolhida apenas por causa do crime
que sofri. Não pode ser coincidência que ele seja meu filho.
— Isso ainda não foi confirmado. — Um dos paramédicos que
levou Cyrus ao hospital também havia coletado um frasco de
sangue dela. Os detetives informaram Cami que os resultados
sairiam em três ou quatro dias. Mas estava claro que Cami não
precisava de um exame de sangue para confirmar que o menino era
dela. Rex tendia a concordar. Cyrus se parecia com ela na tela.
Pessoalmente, era ainda mais impressionante. Ele até tinha
algumas das mesmas expressões que ela, o que era meio estranho,
considerando que eles nunca se conheceram.
— Eu sei.
— Além disso, — disse Rex, — isso seria presumir que a
motivação da pessoa que enviou o vídeo para Cami era resgatar o
garoto. Se fosse esse o caso, por que não enviar o vídeo diretamente
para a polícia? Por que não resgatá-lo eles mesmos?
Os quatro ficaram sentados ali por um momento, os detetives
anotando nos blocos enquanto Cami olhava para Rex. Ela lhe deu
um pequeno sorriso que demonstrava sua capacidade de se manter
forte. Ela obviamente não era uma mulher que se desmanchava
facilmente diante do estresse. Ele sabia disso, é claro, mas estava
muito feliz em ver que seu espírito de luta não havia diminuído.
Um policial entrou e gesticulou para que o detetive Mauro se
aproximasse, e o detetive mais velho se levantou enquanto o mais
novo ficou com eles. Cami tomou um gole de café e, depois de um
minuto, o detetive retornou. — Os pais adotivos dele foram
localizados.
— O que eles disseram? — perguntou Cami.
— Eles dizem que pensaram que ele estava na casa de um
amigo, mas há falhas nessa história. Parece mais que não
perceberam ou não se importaram. Eles têm outros seis filhos
morando com eles, possivelmente pelos cheques que estão
trazendo, mas não quero presumir muito.
Rex soltou um suspiro lento, controlando a raiva. Eram esses
os escolhidos para cuidar das crianças mais vulneráveis e, muitas
vezes, emocionalmente danificadas da sociedade? As palavras de
Cyrus voltaram à mente, as mesmas que ouviram enquanto falava
com o homem que lhe trouxera comida: Moro com uma família
adotiva que nem gosta de mim. Eles definitivamente não vão te dar
dinheiro. Provavelmente estão felizes por eu ter sumido. Ele estava
certo, e, nossa, mas isso era muito triste, especialmente depois de
já ter perdido tanto.
— Alguma informação sobre o que aconteceu com os pais
adotivos dele? — perguntou Rex.
— Só o que o Cyrus nos contou, — disse o detetive Mauro. —
Que eles morreram em um acidente de carro. Estamos processando
o boletim de ocorrência agora. Nenhum familiar se apresentou para
levá-lo, e então ele entrou no sistema.
— Quando posso vê-lo? — perguntou Cami.
— Amanhã de manhã, durante o horário de visitas, — disse o
detetive Mauro. — Ele deve ser liberado à tarde.
— E depois? — perguntou Cami, e Rex viu como ela se calou.
— Ele não pode voltar para os pais adotivos que não perceberam
que ele esteve fora por quatro dias. Aliás, espero que essas pessoas
vão para a cadeia. Posso levá-lo de volta para a Virgínia comigo?
— Ele ainda está no sistema, — disse o detetive mais velho. —
Outra família terá que ser encontrada.
Cami balançou a cabeça. — Isso é loucura. Sou a mãe
biológica dele e estou disposta a levá-lo para morar comigo.
Os detetives se entreolharam, e então o Detetive Mauro
inclinou a cabeça e recostou-se na cadeira, obviamente
considerando algo. — Talvez eu conheça alguém com quem possa
conversar. Mas só depois que for confirmado que nenhum familiar
ou amigo quer acolhê-lo. Imagino que não, já que o deixaram entrar
em um orfanato na primeira vez, mas será preciso verificar de
qualquer forma. — Ele fez uma pausa, considerando Cami. Rex se
sentiu encorajado pelo olhar solidário em seus olhos. — Esta é uma
situação altamente incomum. E há a questão de várias leis
estaduais envolvidas.
— Qualquer coisa que você puder fazer, — disse Rex. — Seria
muito apreciado.
O detetive assentiu, e então os dois homens se levantaram. —
Vamos ao hospital amanhã também, só para garantir que Cyrus
não seja mais um alvo, e talvez tenhamos mais algumas perguntas.
— Ok, — disse Cami. — Obrigada.
Eles se despediram dos detetives e dos poucos policiais que
ainda estavam circulando do lado de fora, e então Rex fechou a
porta e se virou para Cami.
Ela parecia morta de cansaço, mas seu rosto também
demonstrava uma sensação de alivio e admiração. Eles ficaram ali
por um momento, com os olhos fixos, antes de ambos darem um
passo em direção um ao outro simultaneamente, e Cami caiu em
seus braços.
— Conseguimos, — ela suspirou. — Conseguimos, Rex.
Contra todas as probabilidades. Meu Deus.
Ele a abraçou, suportando todo o seu peso enquanto ela o
envolvia com tanta força, como se ele fosse a única coisa na Terra
sólida o suficiente para ela se agarrar. Ele se deleitou com a
sensação. Sentiu-se honrado por ela. Gostava demais do som de
“nós”. Isso o assustava também. Ele não conseguia esquecer a
sensação de ser magoado por ela.
Rex a soltou, e os braços dela também caíram. Ela ainda
parecia cansada e, agora, um pouco confusa. Seu olhar percorreu
as feições dele, uma a uma, parando em sua boca. Seu corpo se
agitou. Deus, como ele gostava daquele olhar.
— Você largou tudo para me ajudar, — disse ela. — Para nos
ajudar.
— Eu não fiz isso sozinho. Tive ajuda.
— Você teria feito isso sozinho. Você teria tentado.
Ele sorriu e olhou de soslaio para a escada. Sentiu-se
envergonhado e satisfeito com o olhar de adoração dela. Sim. Sim,
ele teria feito isso. Ele teria tentado tudo e qualquer coisa para
trazer o filho dela para casa.
— Você foi baleado. Poderia ter morrido.
— Eu não fui. Eu sabia o que estava fazendo. — Ele estava em
vantagem quando causou a distração nas árvores. Ele tinha
cobertura, enquanto o homem com a arma não. Ele achou que
conseguiria fazê-lo gastar toda a munição, e ele gastou.
Ele simplesmente não contava que o sujeito teria munição
extra no bolso.
Se Cyrus não tivesse jogado terra na cara dele...
Mas ele não ia entrar nesse jogo. Estavam todos bem. Cyrus
estava seguro.
Cami deu mais um passo em sua direção, e ele se imobilizou
enquanto ela se levantava lentamente na ponta dos pés.
— Obrigada, — sussurrou ela, e então se inclinou, seus lábios
tão perto dos dele, suas respirações se misturando.
Oh, Deus, ele a queria. Talvez nunca tivesse parado. E essa
probabilidade o fazia sentir-se assustado e vulnerável, não como o
homem que era, mas sim como o garoto que fora. Aquele que era
inseguro. Aquele que tinha plena consciência de tudo o que lhe
faltava. Ele e Cami eram ambos... diferente agora, ele sabia disso
logicamente, mas seu anseio por ela lhe parecia familiar e fora de
toda racionalidade. E seu impulso era lutar contra isso, porque já
havia sido gravemente ferido por isso antes.
Rex virou a cabeça com um suspiro e se afastou. — De nada,
— disse ele. Cami cambaleou um pouco, oscilando, ao se levantar.
Ela se virou para observá-lo enquanto ele passava por ela e o seguiu
com um suspiro.
Seu coração batia forte. Ele a desejava, mas não porque ela
achasse que ele merecesse agindo como um herói. E talvez não fosse
um dia como hoje, em que as emoções estavam à flor da pele, mas
provavelmente iriam ruir com o amanhecer de um novo dia.
Caminharam lentamente em direção ao corredor onde ficavam
os quartos, a tensão pairando no ar. Ela parou no quarto onde havia
guardado suas coisas e parou com a mão na maçaneta. — Descanse
um pouco, — disse ele finalmente, e se perguntou se ela conseguia
ouvir a saudade em sua voz, o quão profundamente em conflito ele
estava. — Foi um longo dia, e você deve estar exausta.
Ela assentiu, incerta, e então, com um breve olhar por cima
do ombro, entrou no quarto e fechou a porta suavemente atrás de
si.
CAPÍTULO TRINTA E SEIS
Cami avistou os policiais no corredor quando chegaram ao
hospital no meio da manhã do dia seguinte. Viu Rex olhar para ela
pela visão periférica enquanto se dirigiam ao detetive Mauro e ao
policial uniformizado e sentiu-se confortada pela preocupação dele.
Por um momento, ela se perguntou se ele percebia que fazia aquilo
— avaliava constante e brevemente seu estado mental e emocional.
E também se perguntou se isso vinha de pura preocupação ou do
fato de ele saber que ela já havia passado por um evento
angustiante. Estaria ele, sem saber, esperando que ela
desmoronasse a qualquer momento? Ou seria simplesmente seu
jeito de cuidar dela?
De qualquer forma, foi gentil, e sua apreciação por ele crescia
a cada dia.
Ela também percebeu que sua gratidão o fazia duvidar de suas
intenções gerais em relação a ele. Mas, francamente, ela também
estava um pouco confusa sobre suas intenções, então Rex
provavelmente fora sábio em rejeitar seus avanços na noite anterior,
mesmo que isso a tivesse magoado. Mesmo que, mais tarde, ela
tivesse ficado deitada na cama agarrada ao travesseiro para se
impedir de ir até o corredor e bater à porta dele. Mas para quê? Ele
já havia deixado claro que preferia manter o relacionamento
platônico. Se era por enquanto ou para sempre, ela não podia dizer,
não só porque isso a deixava louca, mas também porque já tinha
muito com que se preocupar.
— Detetive Mauro, — disse Rex, estendendo a mão. Eles se
cumprimentaram, e Cami também, cumprimentando o homem com
um aceno de cabeça.
O detetive inclinou a cabeça, e eles se viraram e o seguiram
por um pequeno corredor para que suas vozes não pudessem ser
ouvidas de dentro do quarto vigiado de Cyrus. Havia uma viatura
policial parada do lado de fora da casa alugada a noite toda, o que
a fez respirar melhor.
— Consegui obter mais informações sobre os pais adotivos de
Cyrus e o acidente que os matou.
Cami se preparou, e não sabia exatamente por quê. Talvez
porque o casal, do qual ela só vira uma foto uma vez, e depois
retratara em imagens nebulosas ao longo dos anos, estivesse
prestes a entrar em foco.
— A família inteira estava no carro quando o acidente ocorreu.
O pai adotivo de Cyrus, Gray Sanders, estava dirigindo. Ele era um
veterano deficiente que se feriu em uma explosão de IED no Oriente
Médio e, embora tivesse um veículo adaptado ao ferimento, isso não
pareceu ser um fator.
Ela sentiu uma pontada de confusão.
— Uma deficiência? Ele já havia se machucado antes da
adoção de Cyrus?
— Sim. Ele sofreu de TEPT após a sua missão, mas procurou
terapia. Não há indícios de recaída. Ele tinha um emprego estável
e, segundo todos os relatos, era um homem querido e respeitado na
comunidade.
— A agência de adoção, que fez uma verificação completa dos
antecedentes, deveria saber sobre seus problemas de saúde mental,
— disse Rex.
— Correto. Nem sempre é motivo imediato para
desqualificação, dependendo das circunstâncias, mas deveria ter
sido divulgado.
Cami soltou um suspiro. — Porque isso indica um risco
futuro. — E talvez até algo que a tivesse feito mudar de ideia.
Independentemente de qual fosse sua decisão, ela tinha certeza de
que seu pai a teria encorajado a deixar a família Sanders. Por que
arriscar seu bebê com alguém que pode ou não ser 100% estável,
quando havia tantos outros casais querendo adotar? Seu pai havia
trabalhado no sistema judiciário — ele conhecia de perto a maneira
como as crises de saúde mental devastavam as famílias.
— Deveriam ter feito isso. Acho que caberia um processo
judicial, se você decidir seguir esse caminho, — disse o detetive.
Ela assentiu distraidamente. Talvez pensasse nisso mais
tarde. Mas como isso ajudaria no seu caso específico? A agência
nem estava mais em atividade, e os Sanders tinham morrido. Ela
não conhecia o Sr. Sanders nem porque ele havia ocultado a
informação sobre seu ferimento, mas se lembrava da foto dele, do
olhar firme dele e da maneira como se sentira de alguma forma...
confortada ao olhá-lo. A Sra. Sanders também parecera gentil e
carinhosa, mas foi esse olhar firme que a fez decidir escolhê-los
para criar seu bebê.
Ela sentiu um arrepio de tristeza por Cyrus, seguido por uma
pontada de medo. Meu Deus, Cyrus tinha dupla sorte de estar vivo.
Nos últimos anos, ele escapara ileso de um acidente de carro fatal
e de um sequestro. Sua principal preocupação era o dano emocional
que ele sofrera, tanto por aqueles eventos traumáticos quanto pela
terrível perda que sofrera. E para sempre, ela teria que lidar com o
fato de que a culpa era dela. Talvez tivesse escolhido errado. Mesmo
que os pais dele tivessem sido bons com ele, talvez se ela tivesse
ficado, sua jovem vida não teria sido repleta de tantas adversidades.
Um recomeço, de fato. Só que isso era impossível. Ela não poderia
voltar. Ela não poderia saber qual resultado teria sido melhor para
ele.
— Então não houve crime algum? — perguntou Rex. — Com
o acidente?
— Nenhum que os investigadores tenham encontrado.
Aparentemente, estava relacionado ao clima. Um caminhão
aquaplanou no gelo e bateu de frente no carro deles. O motorista
não foi indiciado. Ele fez tudo o que pôde para desviar do veículo.
— Meu Deus, coitado do Cyrus, — murmurou Cami. Ele devia
estar tão assustado. Tão indefeso. Um garotinho sentado no banco
de trás do carro enquanto um caminhão avançava em alta
velocidade na direção deles. A imagem que ela conjurou era
aterrorizante, mesmo em sua imaginação, e ela teria dado qualquer
coisa para ser colocada de volta ali com ele, para fazer alguma coisa.
Para protegê-lo de qualquer maneira que pudesse.
— A boa notícia é que o garoto é resiliente, — disse o detetive
Mauro. — Ele conquistou todas as enfermeiras e está arrasando
com um jogo de xadrez que pediu na loja de presentes.
— Posso vê-lo agora? — perguntou Cami. Toda essa
preocupação, todas essas imaginações e suposições acenderam
uma chama dentro dela, e a necessidade de vê-lo com os próprios
olhos. De saber que ele estava bem.
Como se tivesse sido avisado, a porta do quarto dele no final
do corredor se abriu e uma enfermeira sorridente saiu. Ela acenou
para o policial e começou a caminhar em direção aos três.
— Como ele está? — perguntou o detetive Mauro.
— Minha avó diria que ele é um pirralho, — disse a enfermeira,
carinhosamente. — Não há motivo para ele ficar aqui por mais
tempo. Só preciso que o médico autorize o mais rápido possível, e
ele está pronto para ir. — Ela olhou para Cami como se tivesse
presumido imediatamente — corretamente, por assim dizer — que
ela era a mãe dele. — Eu o marcaria com um terapeuta que entenda
de crianças o mais rápido possível. São aqueles que demonstram
muita audácia que muitas vezes não sabemos que estão realmente
passando por dificuldades. Mesmo que não esteja, não custa nada
conversar sobre o que ele passou.
Ela sorriu gentilmente, Cami assentiu e então a enfermeira se
virou e foi em direção a um homem de jaleco branco que estava
parado perto do posto de enfermagem no final do corredor.
— Falando nisso, — disse o detetive Mauro, — recebi uma
ligação do juiz do tribunal de família esta manhã.
Cami ficou imóvel, arregalando os olhos, mal querendo deixar
a esperança crescer.
— Ele concedeu uma petição de custódia de emergência.
A esperança não só cresceu, como se desabrochou e floresceu
numa árvore interior de alegria. — Posso levá-lo comigo de volta
para a Virgínia?
— Sim. Novamente, apenas temporariamente, e você precisará
agendar uma visita domiciliar com a sua agência local. Tudo isso
pode ser agilizado, considerando as circunstâncias, e eu ajudarei
no que puder.
— Foi rápido, — ela sussurrou. Graças a Deus. Graças a Deus.
— Esses juízes estão acostumados a receber ligações às três
da manhã sobre crianças que precisam de internação imediata.
Também vamos colocar uma viatura policial do lado de fora da sua
casa alugada hoje à noite. E vou ligar para a polícia local também,
enquanto investigamos o seu caso. Eu me sentiria melhor se eles
montassem um posto também.
Ela cobriu a boca com as mãos por um instante. — Obrigada.
Muito obrigada. — Ela tinha tanta coisa para descobrir. Uma visita
domiciliar do serviço social primeiro. Onde ele dormiria? Ela só
tinha um apartamento de um quarto. Quanto tempo ela poderia
tirar do trabalho? Roupas... escola. Ela precisaria matriculá-lo na
escola. O que ela tinha na geladeira? Não muito. Refeições prontas.
Isso não ia dar certo. Ele precisava de vegetais. E frutas. Proteína
também.
Rex pôs a mão no braço dela, acalmando seus pensamentos.
Seus olhos pareciam vidrados quando ela o encarou.
— Uma coisa de cada vez, — disse ele, como se tivesse lido sua
mente ou como se sua espiral mental fosse visível.
Ela soltou uma risadinha que soou um tanto delirante. — Uma
coisa de cada vez, — repetiu. Devagar e sempre se vence a corrida.
— Foi facilitado pelo fato de Cyrus ter pedido para ir para casa
com você também, — disse o detetive.
Talvez fosse porque ele estava vivendo em uma situação
realmente ruim. Ou talvez ele confiasse nela por causa da conexão
genética. Fosse o que fosse, ela manteria essa confiança. Ela a
construiria. Cami não tinha ideia de como seria o futuro deles, mas
sabia de uma coisa: seu filhinho havia sido trazido de volta por um
motivo, e ela não o deixaria ir uma segunda vez.
— Podemos ir vê-lo agora?
— Claro.
Quando entraram no quarto do hospital, Cyrus estava sentado
na beira da cama, calçando os tênis. Ela viu os buracos na sola de
um deles e o dedo do pé dele atravessando a parte de cima. Sapatos.
Adicione sapatos à lista.
Respire fundo. Devagar e sempre... devagar e sempre...
Ele ergueu os olhos, com um sorriso hesitante ao vê-los. —
Como você está se sentindo? — perguntou Cami. Ela não sabia o
que dizer ou como lidar com ele. Ela era sua mãe, mas também uma
estranha. E raramente passava tempo com crianças.
— Ótimo, — disse Cyrus. Ótimo. Parecia altamente improvável.
Por outro lado, ela supunha que crianças eram mais capazes de
viver o momento, e comparado a outros momentos recentes, este
era um bom momento.
Ela olhou para Rex e só conseguia imaginar que sua expressão
era de impotência, pois ele lhe deu um aceno breve, porém
encorajador. Os dois se sentaram nas cadeiras ao lado da cama, de
frente para Cyrus.
Ela inclinou a cabeça em direção ao tabuleiro de xadrez. —
Ouvi dizer que você anda arrasando.
Cyrus sorriu ao ouvir isso. Seus dois dentes da frente eram
tortos, virados para dentro, e a fileira de baixo estava cheia.
Aparelho. Ele precisaria de aparelho eventualmente. Seria caro. Ela
precisava começar a economizar imediatamente. — Aprendi com o
Sr. Abdullah no parque. Ele me ensinou sobre estratégia e a arte da
guerra. Meu livro está lá no meu orfanato. É a única coisa que quero
de lá.
Rex se inclinou para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Sun Tzu? “A arte suprema da guerra é subjugar o inimigo
sem lutar.”
Os olhos de Cyrus brilharam. — Você também sabe?
— Sei? Eu praticamente decorei. Tenho uma cópia. Vou te
dizer uma coisa: quando você chegar na Virgínia, eu te dou a minha
para você nunca mais precisar pisar naquela casa.
Cyrus piscou, seus olhos se movendo de Rex para Cami. —
Vou com você para a Virgínia?
— O detetive me disse que você concordava com isso.
Ele assentiu vigorosamente. — Sim. Tudo bem.
Cami sentiu lágrimas ardendo no fundo dos olhos e as
conteve. Lágrimas confundiriam Cyrus. — Incrível. Meu
apartamento é pequeno, mas... — Ela olhou para Rex e viu que seus
lábios estavam curvados em um sorriso gentil. — Mas vamos dar
um jeito.
— Certo, — disse Cyrus. Ele desviou o olhar por um instante,
a testa franzida de preocupação. — Você acha que... meu pai
biológico também gostaria de me ver? Ele mora perto de você, certo?
O coração de Cami deu um pequeno pulo, seguido de um
aperto.
— Não sei, Cyrus. Seu pai biológico... bem, é uma situação
complicada. Teremos que pensar sobre isso, ok?
— Mandei uma mensagem para ele, — disse Cyrus. — Mas ele
nunca respondeu. — Aquele choque de novo, só que mais forte.
— O que você quer dizer? — perguntou Rex. Ele deve ter
percebido a incapacidade dela de formar palavras naquele
momento. Talvez a boca escancarada fosse uma pista. — Para onde
você mandou uma mensagem para ele?
Cyrus endireitou-se e ergueu o queixo. — Online, na escola.
Consegui o endereço de e-mail dele naquele site que fala sobre a
campanha dele.
— O e-mail da campanha dele? — Rex e Cami se entreolharam.
Os pelos da nuca dela se arrepiaram, e sua mente girava enquanto
perguntas perturbadoras tomavam forma. Seria possível... Oh,
Deus, ela nem queria considerar que Hollis estivesse envolvido no
sequestro de Cyrus. Mas por quê? Com que finalidade?
Cyrus assentiu, o queixo ainda ligeiramente erguido, como se
esperasse que o repreendessem.
— Cyrus, — disse Rex, — alguém já te disse que você talvez
devesse considerar entrar para a polícia quando crescer?
Cyrus assentiu. — Meu pai disse que eu seria um bom militar.
Mas ele não queria que eu fosse para a guerra. Disse que só se luta
em último caso.
Cami sentiu que mais lágrimas ameaçavam brotar. De certa
forma, parecia que seu filhinho tinha estado em guerra. Ele merecia
paz agora. E ela faria tudo ao seu alcance para lhe dar isso.
— Ele parece sábio, — disse Rex.
Cyrus assentiu gravemente e então olhou de Rex para Cami.
— Ele é seu namorado? — perguntou.
Cami soltou um suspiro de surpresa. Ela olhou para Rex, que
parecia um pouco envergonhado.
— Não, — disse ela, com os olhos se encontrando. — Ele é um
amigo. Um dos melhores amigos que já tive. Sem ele, eu não teria
te encontrado.
CAPÍTULO TRINTA E SETE
Rex encontrou Cami no deque, no lugar ao qual ela
aparentemente se apegara. Ele não a culpava. Gostava do lugar
também, não só porque ela estava lá, mas porque a vista o deixava
sem fôlego. As árvores imponentes, os borrifos brilhantes do oceano
abaixo, o céu negro e infinito agora coberto de estrelas. Eles
finalmente tinham algumas horas para aproveitar aquele pedaço do
paraíso antes de voltar para casa.
Cami teria desafios quando se tratasse de Cyrus. Ele nem
sabia exatamente quais seriam, mas podia prever que existiriam.
Seus sentimentos em relação a Cami eram ao mesmo tempo
conflitantes e claros, e ainda havia muito mais perguntas do que
respostas relacionadas ao que ambos haviam se envolvido. Mas
sentar ali ao ar livre, tingido de pinho e luar, sem perigo imediato e
com uma série de obstáculos superados — bem, ele iria aproveitar.
E pela postura relaxada dela, cabeça apoiada na cadeira, pés para
cima, ele podia ver que ela também havia aproveitado o momento
de serenidade.
— Acabei de dar uma olhada nele de novo, — disse Rex
enquanto lhe entregava uma taça de vinho tinto e se sentava ao
lado dela, colocando a sua na beira da fogueira. — Ele está
roncando.
Cami sorriu. Ela também o havia examinado, mas Rex ainda
estava se livrando do medo residual de ver Cyrus parado perto da
beira do penhasco enquanto um homem armado estava entre eles.
Mesmo tentando não fazê-lo, ele continuou repassando todo o
cenário em sua mente, vendo-o se desenrolar de maneiras
diferentes e avaliando onde poderia ter se saído melhor. Ambos
haviam sobrevivido, e ainda assim Rex estava tendo dificuldade em
não reavaliar a situação. O estresse era uma chatice irracional. Ver
Cyrus dormindo pacificamente na cama king-size era curativo e
necessário.
— Ele perguntou como deveria me chamar antes, — ela disse
a Rex.
— O que você disse?
— Eu disse que ele poderia me chamar do que quisesse, mas
que eu sabia que ele tinha uma mãe de quem ainda sentia muita
falta, então se ele quiser me chamar de Cami, eu entendo
completamente.
— Essa parece ser a melhor resposta.
— Acho que sim. — Ela sorriu, e foi suave. — Talvez ele queira
me chamar de mãe em algum momento, mas, francamente, nós dois
provavelmente precisamos nos acostumar com essa ideia. — Ela fez
uma pausa. — E eu não quero tirar nada da mulher que o amou e
cuidou dele quando eu não pude.
O coração dele se encheu de alegria. Ela ficou pensativa
quando poderia ter ficado... com ciúmes ou, bem, qualquer outra
coisa.
— Eu estive pensando, — disse Cami. — Na minha própria
mãe.
Ele olhou para ela, sem saber o que dizer e decidindo ficar em
silêncio até que ela continuasse. Ele só conseguia imaginar que o
TEPT ainda a atormentava às vezes. Como não? Mas, naquele
momento, ela não parecia angustiada, apenas pensativa.
— Minha mãe viveu por alguns minutos depois de ser baleada.
Tempo suficiente para... dizer algumas palavras. — Ela fez uma
pausa e girou o vinho. — Elas nunca fizeram sentido. Ao longo dos
anos, me perguntei para onde as palavras dela teriam ido e nunca
consegui chegar a nada.
Deus, o coração dele. Ele sentiu a tentação de estender a mão
e esfregar o peito como se pudesse massagear a dor para afastá-la.
Imaginar uma coisa dessas — Cami ajoelhada sobre a mãe
moribunda enquanto ela tentava deixar a filha com algumas
últimas palavras.
— O que ela disse? — perguntou ele baixinho.
— Achei que ela disse “faça de” e depois “faça dela”. Como eu
disse, nunca fizeram sentido. Para onde ela iria a partir daí? Nunca
pensei em nada.
Sua mente se agitou, e algo se encaixou. Algo impossível,
talvez.
— Você acha que ela estava dizendo...
— Recomeçar, — disse ela suavemente enquanto se virava e o
olhava nos olhos. — Ela poderia estar dizendo recomece.
Ele franziu a testa, tentando estabelecer a conexão entre o
crime que Cami havia sofrido quando era apenas uma adolescente
e o que havia sido cometido contra Cyrus. Seu filho.
— Se foi isso, — disse ele finalmente, — então há uma conexão
entre os assassinatos da sua mãe e da sua irmã e o sequestro do
Cyrus.
— Sim. Mas não faço ideia do quê. A única conexão entre os
dois é... eu. Mas como Cyrus entra em algo que aconteceu há tanto
tempo? Nem eu sabia com certeza que estava grávida quando minha
mãe e minha irmã foram assassinadas.
Rex tomou um gole de vinho enquanto observava as árvores
que balançavam suavemente. Uma coruja piou e, em algum lugar,
ele ouviu o som distante de coiotes latindo para a lua. — Será que
sua mãe poderia ter recebido a mesma oferta que você? A oferta de
uma segunda chance?
— De quê, no entanto?
Ele pensou um pouco. — Acho que, se fosse algo parecido com
a oferta que lhe fizeram, seria fazer algo diferente do que aconteceu
no passado dela. Talvez tomar alguma atitude que impedisse o
crime que você sofreu?
Ela tomou um gole de vinho e balançou a cabeça levemente.
— Mas, segundo todos os relatos, minha mãe teve uma infância
feliz. Meus avós eram pessoas maravilhosas que foram uma parte
importante das nossas vidas até falecerem de causas naturais
quando eu estava no ensino médio.
— A menos que tenha acontecido algo que ela nunca lhe
contou. As pessoas muitas vezes tentam esquecer completamente
as experiências ruins. Fingem que elas nunca aconteceram.
Ela ficou quieta enquanto parecia pensar nisso. — Não. Minha
mãe, ela não era... ela não era uma pessoa reservada. E ela era feliz
e bem ajustada. Não sei. Ela ter essa vida secreta não faz sentido.
— Certo. E seu pai?
— Mas foi minha mãe quem disse as palavras.
— Seu pai poderia ter contado a ela se tivesse recebido uma
ligação dessas? Como a que você recebeu?
— Sim. É possível. Ou ela interceptou uma mensagem
destinada a ele?
— Ele era juiz. Com certeza tinha alguns inimigos, né? Só pelo
que ele fazia como profissão.
— Não sei se “inimigos” é a palavra certa, mas sim, claro.
Tenho certeza de que houve quem se ressentisse dele por causa do
julgamento que fez no caso deles. Não consigo imaginar nenhum
juiz que não tenha pelo menos alguns desses. Mas a polícia
investigou isso. Eles investigaram quaisquer ameaças, acusações
ou casos recentes em que o condenado fez declarações denegrindo-
o, ou mesmo o sistema em geral. Eu estava... meio desinteressada
mentalmente na época. Mas parece que eles fizeram a devida
diligência sob esse ângulo.
— Então a polícia nunca apresentou nenhum motivo possível
além do mal e da oportunidade?
— Foi o que pareceu. Parecia que aqueles homens nos
escolheram aleatoriamente. Eles foram vistos pelas câmeras
seguindo minha mãe e minha irmã em um local público.
Obviamente tentaram evitar as câmeras, mas estavam claramente
discutindo sobre elas. — Ela fez uma pausa, obviamente se
lembrando do que sabia. — Mas então as coisas que eles disseram
no meio do... crime. Eles mencionaram que o ponto era que meu
pai nos visse sendo torturadas. — Ela se virou e olhou para ele. Seu
coração se sentia vazio sempre que ela falava sobre o que havia
vivenciado. Ele quase não queria ouvir sobre isso porque sofria por
ela. Mas ela havia sobrevivido. Se ela conseguia fazer isso, ele
certamente conseguiria resistir às suas memórias. — Qual o ponto,
no entanto? Se fosse aleatório, se eles simplesmente vissem minha
mãe e minha irmã fazendo compras e decidissem que queriam
roubá-las e abusar delas, não haveria outro ponto além disso. Além
disso, eles usaram meu nome. Quer dizer, poderia ter havido outras
maneiras de descobrirem isso. Eles vasculharam nosso cofre, e
havia coisas no calendário na geladeira que faziam referência ao
meu nome, mas... não sei. Fiquei chocada na época.
— O que a polícia disse sobre essas coisas?
— Que me lembrei mal do que foi dito. Não fui considerada
uma boa testemunha. Fiquei traumatizada. Talvez eu...
— Não duvide de si mesma, Cami. Você estava lá.
Ela o encarou, e por um momento ele pensou ter visto lágrimas
brilharem. Mas então percebeu que eram apenas as estrelas,
refletidas nos olhos dela.
— Você foi a primeira pessoa que me disse isso.
Ele ficou triste com isso, mas também feliz por ter dito aquilo
e por ter significado algo para ela. E se perguntou se ela tinha
alguém em sua vida com quem se sentisse à vontade para
compartilhar suas memórias quando surgissem. E se não, quão
doloroso isso deveria ser?
Ambos ficaram em silêncio por um momento enquanto ele
voltava a pensar no que estavam discutindo.
— O homem que morreu...
— Aquele que eu matei?
— Sim. Quem era ele? A identidade dele não fornecia nenhuma
informação? — Ele poderia ter pesquisado o caso ao longo dos anos.
Já havia pensado nisso algumas vezes e rejeitado a ideia. Havia
tantos programas e especiais sobre o crime, mas ele os ignorava e
se sentia culpado por algum motivo inexplicável. Mas dizia a si
mesmo que merecia deixar tudo aquilo para trás porque,
inicialmente, isso havia descarrilado sua trajetória de vida. Agora
ele conseguia ver que o exército tinha sido o melhor lugar para ele.
Ele havia crescido pessoal e cognitivamente muito além do que
poderia ter se tivesse apenas frequentado a faculdade.
— No mínimo, sua identidade reforçou a teoria de que o crime
foi aleatório. Ele era um marginal chamado Collin Smith, mas usava
o nome Trig por motivos que nunca me foram esclarecidos. O outro
homem que ele chamava de AJ, que escapou, nunca foi identificado.
Mas Collin Smith se envolvia com drogas e todos os tipos de
pequenos crimes. Ele tinha uma ficha criminal que datava da idade
de Cyrus. A polícia revistou sua casa e olhou seus registros
telefônicos, mas não encontrou nada. Simplesmente não havia
nenhuma evidência de que tenha sido premeditado de alguma
forma.
— Hmm. — Ele pensou novamente por um instante. A
lembrança dela, sugerindo que o ponto era que seu pai foi
torturado, parecia muito importante. — E quanto a situações
semelhantes à sua?
— O que você quer dizer?
— Quer dizer, se o objetivo era seu pai ver a esposa e as filhas
atormentadas, isso pode indicar vingança. Algo aconteceu com
outra pessoa por causa dele, e então aqueles homens foram
contratados para lhe dar um gostinho do próprio veneno.
— No começo, minha mente também pensou coisas parecidas,
mas, mais uma vez, os policiais investigaram tudo isso e não
chegaram a nenhuma conclusão.
Rex não duvidava que tivessem feito o melhor que podiam.
Mas mesmo os melhores departamentos tinham apenas um certo
número de recursos, e se tivesse que chutar, diria que eles
investiram a maioria deles na caça ao homem que escapou da
captura.
— Talvez se você falasse com seu pai agora, ele pudesse se
lembrar de algo que não se lembrou antes? Principalmente se você
mencionar as palavras que sua mãe disse e que agora parecem mais
claras. Talvez elas reacendam uma lembrança.
Ela assentiu, com a testa ainda franzida. — Sim, eu quero
contar a ele sobre o Cyrus também, claro. Ele vai querer conhecê-
lo. — Ela parecia um pouco insegura, mas talvez fosse apenas
porque seria um choque para o pai saber o que ela tinha acabado
de passar nos últimos dias. Ele ficou perplexo por não ter se
passado nem uma semana desde que ela aparecera à sua porta,
aflita e com medo.
E pedindo sua ajuda.
— A outra coisa em que tenho pensado é o que Cyrus disse
sobre tentar entrar em contato com Hollis.
Sim, ele também estava pensando nisso. Segundo Cyrus,
Hollis não havia respondido a mensagem, mas Rex ainda sentia
aquela coceira na pele toda vez que pensava nisso. O momento
parecia muito suspeito.
— Você está se perguntando se Hollis teve algo a ver com o
sequestro do Cyrus?
— Não sei. Gostaria de pedir a Deus que não. Mas... preciso
falar com ele. Acho que ele deveria saber o que o filho passou e que
está comigo agora. Ele não queria ter nada a ver com uma criança
quando tinha dezoito anos, e imagino que também não queira
agora. Mas ainda gostaria de ver a cara dele quando eu contar sobre
o sequestro.
— Você quer que eu vá com você?
— Não. Obrigada, Rex, mas tenho que fazer isso sozinha. Achei
que Hollis Barclay fosse apenas um pedaço do meu passado. — Ela
fez uma pausa, com o rosto sombrio. — Mas parece que temos
assuntos inacabados, afinal.
CAPÍTULO TRINTA E OITO
O negócio da família Kiss prosperou com Posey como a
principal — e única — consultora. Questões que pareciam
complicadas demais para serem resolvidas foram resolvidas
criativamente, empregando métodos que ninguém mais havia
sugerido. A necessidade de desaparecimentos diminuiu 38%, a de
desmembramentos, quase 60%, e o próprio negócio tornou-se
muito mais rigoroso na seleção de sua clientela. Eles cobravam
mais e se gabavam de um aumento de 47% na taxa de sucesso, se
o sucesso fosse avaliado pela ausência de clientes recorrentes.
O que, na área de atuação deles, certamente era.
Eles demitiram dois de seus funcionários — assassinos de
aluguel que faziam os trabalhos de perto — por falta de necessidade
e começaram a avaliar o restante do pessoal de forma a garantir
que a operação fosse mais segura do que antes.
— Sessenta e seis por cento dos delinquentes juvenis crescem
sem pais, — disse Posey ao próprio pai quando estavam avaliando
um candidato.
— Seu passado não deve te definir, Posey, nem aquilo que não
é obra sua.
— Isso deve ser levado em consideração, — ela insistiu. — A
confiança em nossos funcionários é primordial.
— Aqueles que buscam uma posição conosco geralmente não
são bem adaptados, — seu pai a lembrou.
— Exatamente, — disse ela. — Quaisquer qualidades
adicionais que possam aumentar seu potencial de falta de
confiabilidade devem ser consideradas.
Ele coçou o queixo. — Vamos levar isso em conta então, —
disse ele. — Mas não será uma desqualificação imediata. Caso
contrário, talvez nunca encontremos alguém para trabalhar para
nós.
— As probabilidades são baseadas em mais de um fator, — ela
concordou.
Ele a encarou novamente. — Às vezes, Posey, acho que eu
deveria ter insistido para você sair mais... passar mais tempo com
seus colegas. Você só tem dezessete anos. Outras garotas da sua
idade...
— Não gosto de pessoas da minha idade. E elas não gostam
de mim.
Ele suspirou. — A culpa é minha.
— Não, pai. Não é culpa de ninguém. Estou feliz trabalhando
com você e resolvendo problemas difíceis.
— Sim, mas Posey, tudo isso, tudo isso, ah... — Ele suspirou
novamente. — Também existem pessoas boas no mundo, Posey.
Pessoas que não querem matar os outros.
— Eu sei, pai.
— Não tenho certeza se você sabe, Posey Pose. Quando sua
mãe morreu, bem, eu talvez devesse ter me assegurado de que
houvesse outras influências mais... gentis em sua vida. — Ele olhou
pela janela, com uma carranca preocupada nos lábios. Mas então
ele a encarou, e sua carranca se transformou em um pequeno
sorriso. — Mas, ah, você é tão jovem e tem muita vida pela frente.
Tempo para viver, aprender, se apaixonar e ter filhos.
Posey o encarou. O amor parecia bastante frívolo para Posey,
e crianças eram criaturas inaceitáveis que não faziam o menor
sentido para ela. Graças a Deus, ela nunca fora uma, pelo menos
não no sentido que as tornava ridículas. Ela certamente não queria
ter nada a ver com elas agora.
— Tanto tempo, — repetiu seu pai, com a voz cheia de
melancolia.
Seu pai, porém, não possuía tal propriedade.
Logo depois, ele chamou Posey e Anton à sua sala. Posey
percebeu imediatamente que ele ia dar más notícias pela expressão
franzida em sua boca e pela maneira como apertava as mãos sobre
a mesa, com os nós dos dedos brancos. Posey e Anton sentaram-se
nas cadeiras à sua frente, e ele lhes lançou um sorriso que parecia
cansado. O pai dela raramente se cansava. Geralmente, ele
transbordava de energia.
— O que foi, pai? — perguntou Posey, com a voz
estranhamente incerta.
Ele olhou entre os filhos, fixando o olhar na filha por mais um
instante. — Estou doente, — disse ele. — Pretendo começar o
tratamento imediatamente. No entanto, meu prognóstico não é
bom.
Posey sentiu uma estranha sensação de frio na barriga e se
perguntou se ela também estaria tendo um episódio de saúde.
Talvez a doença do pai fosse contagiosa.
— Quanto tempo, pai? — perguntou Anton, e Posey viu a
maneira como seus dedos agarravam as calças em suas coxas,
como se ele tivesse tido uma onda repentina daquela energia que
seu pai atualmente não tinha.
— Um ano, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos.
Um pouco mais. Um pouco menos. Posey não gostava dessas
medidas inespecíficas. Posey tentava lidar apenas com medidas
exatas.
— Entendo, — disse Anton, relaxando os dedos. — Então você
vai precisar de mais ajuda com os negócios.
— Negócios podem ser discutidos em outra ocasião, — disse o
pai, afastando-se da cadeira e se levantando. Posey e Anton
seguiram o exemplo. — Por enquanto, eu só queria que vocês
soubessem por que o Dr. Solano estará aqui regularmente. E espero
que minha condição responda ao tratamento de forma mais positiva
do que eles imaginam.
— Os profissionais de saúde diagnosticam doenças
erroneamente em onze por cento das vezes, — disse Posey
abruptamente, com as palavras apressadas. — E apenas vinte por
cento dos casos apresentam precisão prognóstica.
Anton riu baixinho, mas rapidamente disfarçou com uma
tosse quando o pai lhe lançou um olhar de desgosto. Quando olhou
para Posey, sua expressão dele se suavizou.
— Não é das piores, Posey Pose.
— Não, pai. Não é o pior.
O pai os deixou ali parados com um aceno de cabeça e saiu da
sala. Posey e Anton os seguiram, e quando saíram do escritório do
pai, o eco de seus passos desaparecendo pelo corredor de mármore,
Anton se virou para Posey, atacando-a como uma cobra enquanto
a agarrava pelo pescoço e a empurrava contra a parede.
— Escute, sua pequena aberração da natureza, se você acha
por um segundo que vai se envolver nos negócios quando eu estiver
no comando, está redondamente enganada. Assim que eu
comandar esta operação, os negócios da família Kiss não aceitarão
conselhos de mutantes. — Então ele se inclinou para frente e riu
na cara dela, sua saliva espirrando em sua bochecha. Ele a
empurrou um último contra a parede antes de soltá-la.
Então Anton se virou e saiu andando com arrogância,
limpando a camisa enquanto andava, como se tivesse sido
manchado de alguma forma por estar tão perto de Posey.
CAPÍTULO TRINTA E NOVE
Cami mal conseguia entender que havia uma criança em sua
casa. Seu filho. Era tão surreal, como se ela tivesse piscado e ele
tivesse aparecido. Num momento, ela estava sozinha com seu gato,
e no outro, tinha um garotinho morando com ela. Enquanto
viajavam de volta para a Virgínia, Cami oscilava entre choque,
alegria, terror e vertigem, sentindo-se constantemente à beira das
lágrimas ou do riso.
Mas Rex estava sempre ao seu lado, observando-a com um
conhecimento silencioso e lhe dando força com olhares não de
preocupação, mas de confiança. Ele transmitiu sua fé nela com seu
olhar firme, e então ela seguiu seu exemplo e escolheu acreditar em
si mesma também.
Ela não estava nem um pouco preparada para isso, e
provavelmente iria tropeçar em algumas coisas. Muitas coisas,
talvez. Mas ela estava disposta. E ela era capaz. E ela abordaria a
situação com amor e veria isso como o presente inesperado que era.
Ela tinha uma convicção profunda de que sua mãe e sua irmã
tiveram participação nesse milagre, e quem ela seria se rejeitasse
um milagre?
O detetive na Califórnia cumpriu sua palavra e contatou a
polícia local, que autorizou uma viatura temporária para vigiá-la em
casa. Nenhuma prisão foi feita no sequestro de Cyrus e, embora
estivessem agora longe do local do crime, ela também havia sido
alvo — mesmo que o quem, o porquê e o como não estivessem claros
—, e isso a tranquilizou, sabendo que a polícia estava totalmente
informada sobre o caso e de plantão enquanto dormiam.
Cami entrou na garagem da imponente casa branca georgiana
no quarteirão arborizado.
— Esta é a casa do meu avô? — Cyrus perguntou.
— Sim, — disse ela enquanto tirava o cinto de segurança,
depois saiu e abriu a porta de trás para Cyrus. Seu coração
começou a bater mais rápido no momento em que entraram no
bairro onde moravam seu pai e sua segunda esposa. Ela ligou e lhe
contou os detalhes básicos da situação. Ele pareceu atordoado,
como esperado, mas ela queria dar-lhe tempo para se conformar
com aquela circunstância inesperada antes de trazer Cyrus para
conhecê-lo. — Mas talvez devêssemos deixá-lo decidir como você
deve chamá-lo. — Cyrus assentiu muito sério.
— Ele pode ter dificuldade para se adaptar. — Ela soltou uma
risada ofegante e o abraçou. Ela não conseguia evitar. Ele a
surpreendia constantemente. Ele era o ser humano mais corajoso,
mais legal e mais único que ela já conhecera.
— Sim, ele pode. Mas ele é um bom homem e vai te amar. —
Por favor, ame-o, pai. Por favor, aceite-o de braços abertos como eu
fiz.
Eles caminhavam de mãos dadas pelo caminho de lajes em
direção à casa quando a porta se abriu. O pai dela saiu, com o olhar
fixo em Cyrus enquanto se aproximavam. Ele ainda parecia um
pouco atordoado, mas sorriu quando eles subiram na varanda.
— Pai, este é o Cyrus. Cyrus, este é meu pai, Randolph, mas
os amigos dele o chamam de Rand. Ele é seu avô.
Cyrus olhou para o pai. — Eu nunca tive um avô antes.
O pai dela se abaixou para ficar na altura de Cyrus. — Não?
Bem, é o seguinte. Sempre achei que Randolph parecia uma das
renas do Papai Noel, — disse ele, ao que Cyrus sorriu. — Eu gosto
mais de Rand, mas... — ele olhou para Cami — isso tudo foi uma
grande surpresa. Andei pensando em como você poderia me chamar
e achei que deveríamos concordar mutuamente.
Ciro assentiu. — O que você acha?
— Bem, eu entenderia perfeitamente se você quisesse ir com
o Rand, já que acabou de me conhecer. Ou, se preferir, Vovô é um
clássico. Mas
Tenho que colocar o Pops no ringue.
Ah, pai, eu te amo. Ela estava tentada a chorar, mas não queria
que esse segundo encontro fosse cheio de lágrimas, porque o
primeiro tinha sido assim.
— Eu gosto de Pops, — disse Cyrus timidamente, mas com
óbvio prazer.
O pai dela sorriu e se levantou. — Obrigado por fazer um velho
feliz, garoto. Dá para ver que vamos nos dar muito bem. Falando
nisso, você sabe nadar? Minha esposa, Gigi, está lá atrás, na
piscina. Ela está animada para te conhecer.
— Sim, eu sei nadar, mas não tenho roupa de banho.
— Ah, temos algumas coisas extras na casa da piscina que
provavelmente vão servir perfeitamente. Entre. — Ele abriu mais a
porta e deu um beijo na bochecha de Cami ao passarem por ele.
Gigi os encontrou no saguão, linda com um vestido turquesa
e chinelos.
— Cami. — Ela sorriu calorosamente, como sempre. — É tão
bom te ver. — Cami sorriu de volta, e então Gigi se abaixou como
seu pai havia feito e apertou a mão de Cyrus.
— Eu disse ao Cyrus que você provavelmente conseguiria
encontrar um traje que servisse nele entre os que tem na casa da
piscina, — disse o pai dela.
— Com certeza, — disse Gigi enquanto se levantava. — Mas
primeiro, fiz uma fornada de picolés caseiros. Você quer me ajudar
a tirá-los do congelador e experimentá-los?
— Ok! — disse Cyrus. Ele olhou para Cami e, quando ela
assentiu, ele seguiu Gigi, e os dois desapareceram pelo corredor.
Ela os observou irem embora. Cyrus conseguia agir como um adulto
às vezes, mas ela precisava se lembrar de que aquilo era por
necessidade, e que ele era apenas uma criança, encantada com
coisas que encantam todas as crianças.
Cami entrou com o pai na sala de estar, onde ele se sentou em
sua cadeira de sempre, e ela se acomodou no sofá. Contou-lhe toda
a história do que havia acontecido desde que atendera a ligação do
número desconhecido. Ele parecia cada vez mais preocupado
enquanto a ouvia, e depois chocado com os acontecimentos na
Califórnia.
Ele inseriu algumas perguntas aqui e ali, mas, na maior parte,
ouviu, e ela ficou grata por ele não ter lhe dado sermão sobre
algumas das escolhas que ela achava que ele poderia fazer. Como
embarcar em um avião com um completo estranho para atravessar
o país e enfrentar uma série de perigos conhecidos e desconhecidos.
Talvez o fato de ela e Cyrus estarem lá, na casa dele, parecendo
bem, o impedisse de criticar o julgamento dela.
Ela também repassou tudo o que ela e Rex haviam discutido
naquele deck com vista para o oceano sobre a possível conexão
entre o crime que levou sua esposa e filha e o sequestro de Cyrus.
Ele expressou a mesma confusão e dúvida óbvia, mas também
estava claramente preocupado.
— Mas, Cam, você não tem cem por cento de certeza de que
era isso que sua mãe estava tentando dizer?
— Não. Mas e se, pai? E se tivéssemos deixado passar alguma
coisa todos esses anos? Algo que só poderia ter ficado claro agora
que aquela frase me foi dita, para me envolver no que estava
acontecendo com o Cyrus? Você se lembra de alguma vez ter ouvido
falar de um recomeço? Recebeu alguma ligação estranha durante
esse tempo? Ou mensagens estranhas?
— Não. Nada. A polícia também me questionou com perguntas
como essa. “Alguém te ameaçou? Alguma interação estranha,
alguma mensagem, mesmo que não parecesse nada na hora.” Eu
não tinha nada para relatar a eles.
— A mamãe tinha o hábito de ouvir suas mensagens ou abrir
seus e-mails ou algo assim?
— Bem, ela fez alguns trabalhos administrativos para mim em
casa. Só coisas básicas enquanto você e a Elle estavam na escola,
o que me permitiu ficar menos tempo na mesa nos fins de semana.
Seu coração deu um pequeno galope.
— Então só trabalho no computador? Ela não atendia seu
telefone?
— Meu telefone? Não, se você está falando do meu celular, eu
sempre o tinha comigo quando estava fora de casa.
Cami roeu a unha do polegar. Eles tinham um telefone fixo
naquela época, mesmo que raramente fosse usado. Ela se lembrava
da mãe andando pela casa de vez em quando com o telefone portátil
no ouvido. Ela pensou brevemente em acessar os registros
telefônicos, mas duvidava que isso pudesse ser feito uma década
depois. Além disso, como ajudaria se ela pudesse ver os números
que haviam entrado na casa deles nos dias anteriores aos
assassinatos? Provavelmente haveria todo tipo de números
aleatórios. Como ela se lembrava, a maioria das chamadas feitas
pelo telefone fixo eram de telemarketing. Era por isso que sua mãe
insistia em dizer que ia se livrar do telefone e usar apenas os
celulares.
— E os seus e-mails? — ela finalmente perguntou ao pai. —
Você ainda consegue acessá-los?
— De onze anos atrás? Não vejo como.
— Imagino que você ainda tenha seu celular daquela época?
— Talvez a ligação tivesse sido feita no telefone do pai dela, e sua
mãe a interceptou enquanto ele dormia ou estava ocupado.
— Não, Cam, não tenho mais isso. Já passou há muito tempo.
— Sua testa baixou. — Cami, não sei se isso é bom para você. Você
já considerou... bem, parece que você ganhou uma segunda chance
com o Cyrus. Se ele acabar ficando com você ou indo para outra...
— Ele vai ficar comigo. Não vou entregá-lo de novo. E, pai, é
claro que não é bom trazer à tona as mortes da mamãe e da Elle,
mas se houver uma chance de encontrar respostas que não
tínhamos antes, como posso ignorar isso? Além disso, se isso
estiver relacionado ao Cyrus, ele ainda pode estar em perigo.
O pai suspirou e olhou pela janela por um instante. — Você
tem razão. Eu só estava pensando em você, Cami. Na sua felicidade.
Me preocupa que você tenha se fechado.
— Para quê, pai?
— Para uma família. Para o amor. Preocupo-me que pense que
desistiu disso e não merece uma segunda chance. Ou talvez esteja
com medo.
Ela podia ver as rugas de preocupação ao redor dos olhos do
pai. Ele falava com preocupação. Era um bom homem que a amava
e que amara a esposa e a filha mais nova, e que encontrara um jeito
de seguir em frente. Talvez ela não tivesse. Pelo menos não
completamente. E talvez estivesse fechada em algum sentido.
Talvez ela tivesse se apegado à culpa de ter desistido do filho e
evitado oferecer seu coração a alguém novamente na esperança de
evitar a dor. Ela já tinha tido o suficiente disso para a vida toda,
muito obrigada. Ou pelo menos essa tinha sido sua abordagem na
última década. O rosto de Rex surgiu em sua mente. Mas talvez...
talvez ela pudesse repensar isso.
Os sons de respingos e risadas vinham do quintal, e Cami
olhou naquela direção. Independentemente de ter evitado ou não, o
amor havia batido à sua porta. Ou, no caso de Cyrus, na tela do
seu computador. E ela precisava saber o porquê.
— Vou reservar um tempo para autorreflexão mais tarde.
Agora, estou em uma missão.
Seus olhos se suavizaram. — Minha lutadora. — Ele fez uma
pausa enquanto a olhava. — Só me prometa que se manterá segura
daqui em diante. Chega de sair sozinha e se colocar em perigo. Não
posso perder outra filha, Cam.
Seu coração se contraiu diante da dor crua no rosto do pai.
Ela estendeu a mão e apertou a dele. — Eu vou ficar segura, pai.
Estou apenas pesquisando agora, ok? Avisarei você — e as
autoridades — se eu encontrar alguma coisa. — Ele assentiu, e ela
soltou a mão dele. — Só mais uma coisa. Como posso ver os casos
em que você trabalhou?
— Meus casos? Quais?
— Todos eles. Ou, não, digamos, voltando cinco anos a partir
da data do crime.
— Os arquivos digitais estão com os tribunais. Mas mantive
anotações pessoais sobre a maioria deles. Estão lá em cima, em
caixas, no sótão. Mas Cam... o que você começaria a procurar?
— Não sei. Mas é um bom começo. Talvez algo me chame a
atenção. — Ela não fazia ideia do que poderia ser, se é que poderia
ser alguma coisa. Mas o que mais ela tinha?
O pai a ajudou a trazer as seis caixas de arquivos e colocá-las
no porta-malas. Ela não tinha esperanças de encontrar nada —
afinal, a polícia já havia investigado por aquele ângulo, mas não
havia lido todos os detalhes de cada caso. E ela também não achava
que tivessem ido tão longe. Enquanto Cyrus dormia, ela começaria
aquela tarefa monumental.
Uma hora depois, depois de se sentarem no pátio ao sol e
compartilharem um copo de limonada com o pai e a Gigi, ela e
Cyrus arrumaram as malas e voltaram para o carro. Cyrus parecia
feliz e cansado, com o nariz levemente queimado de sol. Parecia um
garotinho que passou algumas horas simplesmente sendo criança.
Vou te dar mais disso. Vou compensar todas as dificuldades que você
enfrentou.
— Pronto para ir para casa? — ela perguntou a ele.
Ele assentiu. — Podemos voltar?
— Claro. Meu... quer dizer, seu avô disse a qualquer hora. —
O telefone dela tocou, e ela olhou para ele no console. Era uma
ligação da Califórnia. — Me dá um segundo para atender, — disse
ela a Cyrus.
— Olá, Camille?
— Sim, Detetive Mauro. Está tudo bem?
Ela ouviu por um momento, com lágrimas nos olhos.
Agradeceu, desligou e então encontrou os olhos de Cyrus pelo
retrovisor com um sorriso um tanto vacilante. — Nossos sangues
combinam, — disse ela. — Eu sou sua mãe.
— Eu já sabia disso, — disse ele muito sério.
Ela riu e enxugou uma lágrima. Supôs que ela também. —
Precisamos comemorar, — disse ela. — E eu tenho uma pergunta
muito importante para você agora.
Ele franziu a testa enquanto a olhava com um mínimo de
preocupação. — O quê?
Ela fez uma pausa para dar efeito. — Pizza ou hambúrguer?
Seu rosto floresceu em um sorriso, cheio de prazer infantil.
— Sushi.
Ela riu. Nossa, como ela amava aquele garotinho lindo e único.
— Sushi, então.
CAPÍTULO QUARENTA
Eles conseguiram. Rex ainda se pegava virando a cabeça
aleatoriamente para encontrar a tela do computador onde poderia
verificar o bem-estar do garotinho que eles haviam procurado
desesperadamente. E ele precisava continuar se lembrando de que
Cyrus estava bem. Ele estava com Cami — sua mãe — e o papel de
Rex, tal como havia sido, estava cumprido. Ele não era mais
necessário.
O que era bom. Significava sucesso. Mas também significava
dizer adeus à parceria que ele havia formado com Cami, e, caramba,
ele sentia falta de tê-la ao seu lado, mesmo que não sentisse falta
das circunstâncias em que ela estivera ali.
Ele estava acostumado a ser informado após uma missão.
Mas, desta vez, supôs, teria que abrir mão de uma, ou se dar um
tempo para filtrar todas as emoções que havia contido enquanto as
emoções se mostravam impraticáveis.
Ele tentou mandar umas cem mensagens de texto para ela
naquele dia, mas se conteve. Ela precisava de um tempo com Cyrus.
Tempo para acomodá-lo e tempo para se conhecerem. Seria um
processo longo, mas aqueles primeiros dias eram importantes para
estabelecer confiança. Ele não queria atrapalhar isso.
Ele ligou para a mãe e avisou que estava de volta. Ela não fez
muitas perguntas e parecia distraída com alguma coisa —
provavelmente um drama ou outro acontecendo em sua própria
vida. Ele estava em parte irritado e em parte grato por não ter que
explicar o que havia acontecido com Cami e Cyrus. Seria bom para
ele começar a pensar em toda aquela experiência como mais um de
seus trabalhos, um dos quais ele se orgulhava, mas que
eventualmente deixaria para trás.
Mas ainda não.
Ele estava sentado à mesa da cozinha, onde Cami havia pedido
sua ajuda pela primeira vez. Sabia que Cami planejava visitar Hollis
nos próximos dias, se possível. Talvez ela já o tivesse contatado por
meio de sua campanha. Talvez já tivessem conversado. Ele odiava
a forma como essa ideia lhe causava cólicas estomacais.
Ele digitou o nome de Hollis no navegador, digitando com mais
força do que o necessário, e então clicou no que parecia ser o site
de sua campanha. Um close do rosto de Hollis não era exatamente
o que ele precisava naquele momento, mas lá estava ele. Rex já
sabia que, se esperava que Hollis Barclay tivesse atingido o auge no
ensino médio, ficaria profundamente decepcionado. Porque o vira
na TV e em alguns outdoors também, nos últimos meses. Talvez o
cara tivesse até se tornado uma versão melhor de si mesmo. Ele
gostaria de pensar assim, especialmente considerando que buscava
poder por meio de um cargo político, e porque Cami contava com
isso ao falar sobre o filho deles para ele.
Mas Rex não estava lá para olhar fotos de Hollis ou tentar
determinar se ele havia amadurecido, ou mesmo para vasculhar
suas diversas plataformas políticas. Ele estava lá para invadir o site
e, com sorte, ler seus e-mails. Mais especificamente, ele queria
saber se a mensagem de Cyrus havia sido recebida e se havia
alguma mensagem de Hollis para outras pessoas logo depois.
Hackear era moleza. Praticamente não havia salvaguardas, e
qualquer pessoa com conhecimento básico de programação poderia
ter invadido o site.
Evidentemente, independentemente de quem Hollis fosse, ele
não estava preocupado com segurança cibernética. Pelo menos não
ali.
Ele clicou de uma página para outra, examinando os
metadados e navegando pelo site como se fosse o administrador.
Havia alguns posts de blog que já haviam sido escritos, mas ainda
não publicados, mas nenhum deles lhe interessava muito.
Demorou um pouco mais para acessar o e-mail associado,
mas também foi um trabalho relativamente fácil. Ele havia invadido
os e-mails de funcionários de governos estrangeiros. Em
comparação, isso foi brincadeira de criança. O que provavelmente
significava que Hollis não guardava nada ali que não quisesse que
outros vissem. Mas ainda assim valia a pena tentar.
Rex foi direto para os e-mails lidos e voltou para as semanas
anteriores ao sequestro de Cyrus. De fato, havia um e-mail de Cyrus
Sanders, do endereço de uma escola, que havia sido aberto e —
presumivelmente — lido. Ele o abriu, sentindo um aperto no
coração ao lê-lo.
Oi,
Meu nome é Cyrus e sou seu filho. Desculpe a surpresa, mas
estou em uma situação muito difícil com uma família adotiva que
não me trata bem, e espero que você possa me ajudar. Meu
aniversário é 18 de abril e tenho onze anos.
Atenciosamente, Cyrus Sanders
PS: Por favor, me responda aqui. Não tenho celular e meus
pais adotivos ficarão muito bravos se você ligar para eles.
— Merda, — murmurou ele, e aquele puxão o fez estremecer.
Ele não só havia contatado Hollis; ele havia pedido ajuda. Será que
Hollis tinha lido isso e optado por ignorar? Como alguém podia ser
tão frio?
Ele apoiou a cabeça na palma da mão por um instante antes
de olhar para cima novamente. Ao fazê-lo, um e-mail de resposta
apareceu abaixo da mensagem original de Cyrus, como se ele
próprio tivesse pressionado a tecla de resposta sem querer. Mas não
foi isso que aconteceu. Suas mãos não estavam nem perto do
teclado. Rex observou uma sequência de letras aparecer no assunto
sem fazer o menor sentido.
Que diabos?
Sua pele se arrepiou. Havia outra pessoa ali com ele. Um
administrador? Mas que tipo de coincidência seria se essa pessoa
tivesse o mesmo e-mail aberto há algumas semanas que ele tinha
atualmente?
Ele desligou o e-mail de Cyrus, foi até a pasta de enviados e
rolou a tela de volta para a data em que a mensagem de Cyrus havia
sido enviada. Não viu nenhuma resposta, mas procurou o endereço
de e-mail da escola de Cyrus só para ter certeza. Não havia nada,
exatamente como ele pensava. Hollis nunca havia respondido
diretamente ao garoto.
Rex não tinha certeza se sua irritação era por causa de sua
concepção preconcebida da personalidade de Hollis Barclay ou
porque sentia uma profunda conexão com Cyrus depois de tudo o
que haviam passado juntos. Analiticamente falando, se Rex tivesse
lido um e-mail como aquele em um caso diferente, sem contexto
pessoal com as pessoas envolvidas, ele também teria ignorado o e-
mail e possivelmente o considerado uma brincadeira? Cyrus não
mencionou o nome de Cami, então talvez um funcionário júnior
simplesmente tivesse ignorado o e-mail... o que não seria
completamente infundado.
O preconceito pessoal nunca foi útil ao tentar ver todos os
ângulos.
Ele abriu um e-mail enviado horas depois do de Cyrus, mas
não era nada de importante, apenas uma pergunta sobre
sinalização. Mas, quando estava prestes a encerrar a
correspondência, apareceu novamente um e-mail de resposta. Ele
afastou as mãos e observou, mais uma vez, uma sequência de
números aparecer no assunto. Que diabos está acontecendo? Ele
nunca tinha passado por algo assim.
Ele pegou o bloco de notas e o papel que estavam perto da
borda da mesa e anotou as letras, que pareciam um texto sem
sentido. Então, inclinou a cabeça ligeiramente para trás enquanto
o cursor saltava para o corpo da mensagem e, novamente, o texto
sem sentido era exibido.
O mesmo arrepio percorreu sua pele. Alguém o estaria
seguindo pelo site? Observando-o através dos mecanismos internos
da comunicação da campanha de Hollis? O quê ou quem? Se fosse
um quem, eles não eram muito bons nisso. Parecia quase um bug
estranho, talvez algum sistema de segurança parcialmente
instalado que não estivesse funcionando corretamente.
De qualquer forma, ele precisava sair discretamente desse
espaço. Ele não estava trabalhando para a NSA e, se alguém
descobrisse que ele estava invadindo sites de campanha
ilegalmente, poderia ser demitido ou possivelmente preso por
interferência eleitoral.
Ele recuou, apagou seus rastros e desligou o computador.
Conseguira a informação que buscava. Agora sabia que Hollis ou
alguém de sua equipe havia aberto o e-mail de Cyrus e que, se Hollis
tivesse respondido, não fora de lá.
Ele se levantou, sentindo-se inquieto e ainda perturbado pela
sensação de estar sendo observado. Rex pegou seu moletom e foi
em direção à porta. Ele tinha algumas informações para
compartilhar com Cami.
O nervosismo só aumentou quando ele estava à porta dela com
o punho erguido para bater. Ouviu a TV lá de dentro e o som suave
de vozes. E sentiu-se um intruso.
Ele ficou ali parado por um momento, a indecisão o fazendo
se sentir como a criança que um dia fora. Aquele que sempre ficava
de fora, olhando para dentro, com medo de fazer qualquer coisa e
correr o risco de ser rejeitado.
Ele tinha visto o carro da polícia estacionado do outro lado da
rua do apartamento de Cami. Ele nem tinha a desculpa de que
estava verificando a segurança dela. Os policiais estavam
prontamente disponíveis, caso ela precisasse.
— Porra, — murmurou ele, virando-se. A notícia que ele tinha
podia muito bem ser repassada por telefone, e ele sabia disso. Atrás
dele, a porta se abriu. Assustado, ele se virou e viu Cami.
Ela sorriu, tão acolhedora que ele sentiu a expressão dela o
percorrer da cabeça aos pés. — Oi, — disse ela.
— Ei. — Ele olhou para a porta, notando a pequena câmera
perto do canto superior e respondendo à própria pergunta sobre
como ela sabia que ele estava lá. — Eu estava, ah, só dando uma
olhada. — Atrás dela, ele viu uma pilha de caixas encostadas na
parede, desorganizadas.
Ela abriu mais a porta. — Você gosta de sushi?
Sushi? — Sim, claro.
— Ótimo. Pegamos para celebrar nosso DNA compatível, e
temos bastante. O Cyrus está assistindo a um programa, mas você
vem comigo?
CAPÍTULO QUARENTA E UM
Nossa, Cami ficou feliz em vê-lo. Quando seu celular tocou
com a notificação de que alguém estava na porta, ela ficou
praticamente tonta ao abrir o aplicativo e ver Rex parado ali.
Como alguém pode sentir falta de uma pessoa que só conhece
há uma semana? E, no entanto, ela sentia. Se ela tinha alguma
dúvida, a batida do seu coração não deixou nenhuma.
Ela pensou em ligar e convidá-lo para jantar com eles, mas
depois pensou melhor. Ela já o havia arrastado para tanta coisa.
Rex provavelmente queria voltar para a sua vida. Ele estava na
cidade para resolver a questão da herança do avô, uma tarefa da
qual ela o havia tirado. E agora ele estava atrasado e precisava
recuperar o tempo perdido. Por causa dela.
Havia também a questão da atração crescente que ela sentia
por ele. Ela tinha um palpite de que ele também se sentia atraído
por ela, mas também entendia suas dúvidas. Ela entendia por que
ele queria deixar o relacionamento deles para trás, mesmo que fosse
um passo adiante.
Quanto a ela, também tentava se convencer de que era uma
má ideia. Ele sairia da cidade em breve, e ela tinha muita coisa para
fazer no momento. A tentativa de convencê-la, no entanto, não
estava dando certo.
Ela gostava dele. Sentia falta dele. E respeitava muito Rex
Lowe.
— Cyrus está assistindo a um programa no quarto, — disse
ela. Baixou a voz. — Passamos um tempo na casa do meu pai, e ele
tem estado quieto desde então. Comeu um pouquinho e depois se
aninhou na minha cama. — Ela estava um pouco preocupada.
Desde que o conhecera, Cyrus estivera presente e até otimista,
apesar de tudo o que havia vivenciado. Mas ela também não estava
completamente surpresa com a reticência repentina dele. Uma
parte dela estava esperando por isso. Uma criança só aguentava até
certo ponto, e ela esperava que, se ele estivesse se retraindo, fosse
porque finalmente se sentia seguro o suficiente para começar a
processar.
Ela realmente esperava estar certa, porque isso significaria
que ele se sentia seguro com ela, e essa sensação de segurança
havia sido agravada por causa de Rex, e depois por passar tempo
com seu pai e Gigi, sem mencionar o carro de polícia do lado de fora
da janela.
O olhar de Rex percorreu o rosto dela, e sua testa se contraiu
como se a tivesse visto preocupada.
— Posso dizer oi? — Ele ergueu um livro que ela não havia
notado em sua mão. — Na verdade, tenho algo para ele.
— Sim, claro, claro. Ele ficará feliz em te ver.
Rex a seguiu por uma curta distância até a porta do quarto, e
ela espiou antes de abri-la completamente. Cyrus ainda estava
sentado, recostado nos travesseiros dela, Boots aconchegado ao
lado dele. Os olhos do menino estavam fixos na televisão em sua
cômoda, mas sua expressão permanecia desinteressada e distante.
— Ei, amigo, — disse Rex quando ambos entraram no quarto.
Cyrus ergueu os olhos e Cami viu o primeiro lampejo de
interesse e o que parecia ser felicidade na presença de Rex. Cyrus
confiava nele, isso estava claro.
Rex ergueu o livro e o entregou a Cyrus, e o garotinho se
apressou, arregalando os olhos. — A Arte da Guerra, — sussurrou
ele, pegando o exemplar do livro que o homem no parque lhe dera
primeiro. O homem que preenchera a lacuna depois que Cyrus se
viu de luto e sozinho. Ela se perguntou se aquele homem sequer
sabia o quão vital sua bondade fora para um garotinho perdido. Isso
a fez querer chorar.
Rex sentou-se na beira da cama, e Boots se espreguiçou e
depois relaxou no cobertor.
— É. Já li isso umas cem vezes. E me acompanhou para
muitos lugares. Pelo mundo todo, na verdade.
Cyrus ergueu os olhos. — Para a guerra?
— Bem, eu nunca estive em guerra, não como seu pai. Mas já
estive perto de zonas de guerra, sim.
Cyrus assentiu lentamente e então segurou o livro contra o
peito. — Obrigado.
Eles continuaram a conversar por alguns minutos, suas vozes
sumindo enquanto Cami simplesmente os observava juntos, seu
coração se expandindo a cada momento, a ponto de ela sentir que
ia explodir. E ela teve essa visão repentina do rosto de Rex Lowe
naquele dia, há muito tempo, no supermercado onde ele trabalhava,
aquele para onde ela havia viajado quilômetros para não encontrar
ninguém conhecido. Ela estava prestes a dar à luz Cyrus, e o jeito
como Rex a olhou... a compaixão crua que ela viu em seu rosto, a
honestidade disso? A matou, mesmo que ela estivesse confusa e
traumatizada. Ela sabia, no fundo de seus ossos, que se tivesse
pedido a ele para abraçá-la naquele momento, ele teria pulado o
balcão para fazê-lo. Na época, isso agravou sua turbulência
emocional, então ela saiu rapidamente e então sentou em seu carro
e chorou. Mas depois... apenas algumas semanas depois, olhando
nos olhos sinceros do homem na pasta da agência de adoção, ela
viu a mesma gentileza sincera e escolheu ele e sua esposa para
amar seu filho por causa disso.
E, de repente, ela não tinha mais ressentimentos em relação à
mulher da agência de adoção com quem havia trabalhado, aquela
que aparentemente havia ocultado informações que poderiam
desqualificar Gray Sanders. Ela não se sentiu enganada por não lhe
terem revelado que o homem que ela havia escolhido tinha passado
por dificuldades. Ela olhou nos olhos dele e o escolheu
intuitivamente, e escolheu a pessoa certa. A doçura, a coragem e a
inteligência do filho eram prova viva disso.
Rex se levantou, e Cyrus relaxou contra o travesseiro,
aconchegando-se mais perto de Boots, com um pequeno sorriso nos
lábios enquanto abria o livro. Cami conseguiu levar Rex para fora
do quarto, mesmo se sentindo um pouco tonta, como se tivesse sido
catapultada no tempo e se encontrasse com os pés instáveis em seu
quarto, onde seu filho de onze anos e aquele garoto tímido atrás do
balcão do supermercado, com a bondade brilhando em seus olhos,
estavam inexplicavelmente sentados em sua cama.
Ela gesticulou para que Rex a seguisse até a cozinha, onde
estava o resto do sushi, e se recompôs enquanto caminhavam. Ela
e Cyrus tinham enlouquecido um pouco com a quantidade de
comida, mas Cyrus parecia tão encantado em puxar barcos de
rolinhos do rio que circundava o balcão de sushi do seu restaurante
favorito, que ela o deixou escolher muito mais do que podiam comer
de uma só vez.
— Parece que ele está relaxando, — disse Rex. — Isso é
normal. E positivo.
— Obrigada por dizer isso. Sim, eu também acho. Ele precisa.
Ele está em guarda, de uma forma ou de outra, há muito tempo. —
Mesmo antes daquele quarto com grades, pelo que parecia, ele era
o único a cuidar de si mesmo nos três anos desde que seus pais
morreram e ele foi para um orfanato.
— Crianças são resilientes. Ele tem os seus genes e foi criado
por boas pessoas. Ele vai ficar bem. Ele vai ficar mais do que bem.
As palavras dele trouxeram alívio. Ela também confiava nele.
Ela acreditava profundamente que ele não diria nada a menos que
acreditasse plenamente.
Ela se sentou e entregou a ele um prato de papel e hashis.
Inclinou o queixo em direção ao telefone ao lado da mesa, que
estava todo arrumado e carregando.
— Comprei um celular para ele para poder falar com ele
sempre, ou vice-versa. Imaginei que isso o ajudaria a se sentir o
mais seguro possível, não importa onde estivesse. Então, agendei
uma visita domiciliar com uma assistente social hoje e liguei para
um terapeuta infantil também. Depois disso, visitei a escola do meu
distrito e peguei a papelada. É tudo... — ela
balançou a cabeça enquanto ele colocava alguns rolinhos no
prato... — é muita coisa.
— Uma coisa de cada vez, — disse ele.
— Sim. Ei, você quer uma cerveja?
— Claro. Precisamos comemorar esse DNA compatível.
Esse DNA compatível. Meu Deus, as palavras a fizeram querer
chorar lágrimas de felicidade. Ela queria repetir a frase várias vezes,
como um mantra, para se convencer de que era real, que ele era
dela e que ninguém poderia separá-los novamente.
Ela se levantou e pegou duas garrafas na geladeira, usou um
abridor para tirar as tampinhas e entregou uma a ele. Ela estendeu
a garrafa e ele brindou com a dela.
— Saúde, — disse ela com um sorriso.
Ela se sentou novamente à mesa e preparou um prato para si
também. Apesar da quantidade de comida, depois que Cyrus
começou a se isolar emocionalmente, suas palavras e seu apetite
diminuíram, ela não conseguiu comer muito.
— Você também pode baixar um aplicativo para rastrear o
telefone, só para ficar mais tranquila.
— Essa é uma ótima ideia. Eu vou. — Ela não queria ser uma
mãe superprotetora logo de cara, mas... também achou que tinha
um bom motivo para ser uma, pelo menos por um tempo. E não
achava que Cyrus se importaria de ficar um pouco por perto.
Rex tomou um gole de cerveja. — Falando nisso, liguei para
um amigo mais cedo e pedi para ele pegar os dados de
geolocalização daquela cabana e fazer uma pesquisa com base no
que encontrar. Eu teria feito isso sozinho, mas Erik tem acesso a
mais tecnologia do que eu atualmente, e não quero perder nada.
Ela semicerrou um olho. — O que são dados de
geolocalização?
— Ele usa aplicativos para fornecer dados que identificam a
localização física de um dispositivo ou usuário.
— Um dispositivo? Um telefone?
— Certo.
— Então você consegue dizer quem estava na cabana?
— Não necessariamente, mas pode fornecer informações sobre
onde um usuário foi, além daquela cabana.
Ela assentiu antes de levar a cerveja aos lábios. — Isso é legal?
Rastrear celulares até um local?
— Sim. A coleta é, pelo menos, o uso pode ser ou não. A polícia
pode usar na investigação também, ou não. Além disso, invadi o
site da campanha de Hollis Barclay hoje.
Ela fez uma pausa, com a garrafa nos lábios. Deu um gole e a
abaixou lentamente. — Você tem estado ocupado. E quanto a isso?
É...
— Legal? Não.
— Seu segredo está seguro comigo.
Ele sorriu. — Eu sei.
— O que você encontrou?
Ele contou a ela sobre ter encontrado o e-mail de Cyrus. E
sobre ele ter sido lido, mas aparentemente não respondido, pelo
menos não daquela conta.
— Talvez nem tenha sido ele quem abriu. Provavelmente tem
funcionários de campanha cuidando dos e-mails gerais, certo? —
disse ela.
— Sim. Não foi encaminhado, mas acho que a equipe pelo
menos alertaria Hollis sobre uma mensagem como essa.
— Você acharia. E se eles imprimiram para ele ou algo que
não tenha rastro digital, imagino que ele possa ter respondido de
uma conta mais pessoal. Ou planejado. Mas mesmo que ele
soubesse... Eu não ficaria surpresa se ele simplesmente decidisse
ignorar completamente.
— Mas isso lhe dá um motivo, — disse Rex. — Para o
sequestro. Uma criança que ele negou e nunca defendeu seria
inconveniente agora. Tiraria o foco da campanha dele e o colocaria
na vida pessoal dele. Falaria de caráter, ou da falta dele. Ele ia
querer evitar isso, eu acho.
— Concordo, — murmurou ela, mais uma vez preocupada com
a possibilidade de envolvimento de Hollis no sequestro de Cyrus. —
Liguei para o número listado no site dele e deixei uma mensagem
para a recepcionista, que atendeu, mas ainda não recebi resposta
do Hollis, — disse ela. — Se não tiver, vou para lá. Ele fará um
discurso em Washington amanhã, então vou deixar Cyrus com meu
pai hoje.
Cyrus havia pedido especificamente para passar o dia com o
Pops, e o pai dela pareceu feliz em aceitar quando ela ligou e
convidou. Ele mencionou golfe em miniatura, e ela tinha certeza de
que Cyrus gostaria — ela se lembrava de amar a atividade quando
criança. E Cyrus precisava de um pouco de normalidade infantil
naquele momento. Mas, ainda mais do que a atividade, ela estava
feliz por ter o pai para oferecer a Cyrus um pouco de atenção
masculina depois de ele ter sido privado de uma figura paterna em
sua vida por tanto tempo e, obviamente, ansiar por isso.
Rex assentiu lentamente. Parecia preocupado e como se
quisesse dizer algo, mas estava se segurando. Ela não o incitou
porque tinha quase certeza de que sabia — ele estava preocupado
que Hollis fosse, na melhor das hipóteses, indiferente e, na pior,
cruel. Ou talvez se recusasse a vê-la de vez. Ela estava preparada
para qualquer cenário, no entanto. E seu único objetivo era ter uma
ideia se Hollis era capaz de tentar machucar Cyrus. Além disso, ela
não pensava, nem esperava, muito. Ela havia desistido de Hollis há
muito tempo.
— Só prometa que ligará se se sentir insegura em algum
momento.
Ela ia dizer que não estava preocupada com isso, mas se Hollis
fazia parte da rede que sequestrou uma criança, quem sabe o que
mais ele poderia fazer? Encontrá-lo em um lugar público era
importante.
— Eu prometo, — disse ela. — E te mando uma mensagem
assim que eu sair.
Rex colocou um rolinho na boca e mastigou, parecendo ter
dificuldade para engoli-lo. Em seguida, tomou um gole de cerveja e
limpou a boca com um guardanapo. — Mais uma coisa, — disse
Rex. — Aconteceu uma coisa estranha enquanto eu estava olhando
o site da campanha de Hollis. Era como se outra pessoa estivesse
lá.
— Lá? O que você quer dizer?
— Junto comigo.
— Você quer dizer como um web designer ou administrador
fazendo edições no site?
— Não. Era como se alguém estivesse me seguindo. — Ele
olhou para trás dela, como se até ele — conhecedor de tudo o que
acontece na internet — estivesse com dificuldade para explicar o
que tinha acontecido. — Toda vez que eu abria um e-mail específico,
uma caixa de resposta se abria e uma sequência de letras e
números aleatórios era digitada. — Ele balançou a cabeça. — Foi
estranho.
— Eu chamo problemas inexplicáveis de computador de falha,
mas se pareceu estranho para você, provavelmente era. Poderia ter
sido outro hacker tentando se comunicar com você?
— Pensei nisso. Mas como eles sabiam que eu estaria lá? Há
pouquíssimas barreiras de segurança. Alguém teria que monitorar
aquele espaço continuamente, e por qual motivo? E se quisessem
se comunicar comigo, por que digitar bobagens?
Ela não tinha respostas. Mas tinha uma pergunta
possivelmente relacionada. — Se quem enviou aquele vídeo do
Cyrus no quarto não tem ligação com as pessoas que planejaram o
sequestro dele, essa pessoa desconhecida teria que hackear a
câmera de monitoramento, certo? Para poder postar na dark web
para eu ver?
Ele assentiu. — A polícia disse que o dispositivo de
monitoramento estava na sala principal da cabana, provavelmente
usado para vigiar Cyrus sem precisar entrar constantemente no
quarto.
— Sim. Mas será que o feed do Cyrus também poderia ter sido
transmitido para outra pessoa? Digamos que as pessoas a quem o
homem que trouxe a comida para o Cyrus se referia e que estavam
a caminho? Ou até mesmo um chefão de alguma quadrilha de
sequestros?
— Claro. Tudo isso é possível. Você pode monitorar as imagens
de qualquer lugar remotamente, se tiver acesso de login. — Ele
inclinou a cabeça para trás. — Como aquele na sua porta.
— Então a mulher que ligou e me deu acesso à transmissão
ao vivo é uma hacker ou alguém relacionada ao crime. Alguém que
talvez tenha agido de forma desonesta ou que teve a consciência
pesada. — Ela pensou por alguns segundos. — Ou alguém que
queria me torturar, — murmurou. Mas havia algo de errado nisso,
e ela não conseguia identificar exatamente o quê. Talvez a voz ao
telefone tivesse sido estranha, sim, mas agora que pensava nisso,
quase... prestativa.
— A outra questão é, — disse Rex, — mesmo que qualquer um
desses palpites esteja correto, como essa pessoa sabia que você é a
mãe de Cyrus?
— Não tenho a mínima ideia, a menos que a história completa
de Cyrus fosse conhecida pelas pessoas que o levaram. Se Hollis
estava envolvido, esse poderia ser o caso, certo?
Ele ficou em silêncio por um momento enquanto mexia
distraidamente no rótulo da garrafa.
— De qualquer forma, não acredito que tenha sido um
sequestro aleatório.
— Não, — ela concordou. — Não pode ser.
Cada um se concentrou na comida por um momento,
perguntas ecoando pela mente de Cami, fios soltos voando em todas
as direções, que ela se esforçava ao máximo para tecer em uma
imagem coerente. Mas eles estavam perdendo muita coisa naquele
momento.
— A propósito, — disse Rex, — o que são essas caixas?
— Os casos do meu pai, cinco anos antes dos assassinatos.
Não tenho acesso aos arquivos digitais, então é isso que tenho. —
A ideia de folhear papéis empoeirados em busca de sabe-se lá o quê
já lhe dava dor de cabeça.
— Você disse que a polícia investigou os casos recentes dele,
— disse Rex. — Eles procuraram lá primeiro por uma conexão com
o crime, certo?
— Eles fizeram isso e caçaram ameaças online e coisas do tipo.
Encontraram algumas ameaças gerais e as seguiram, mas nada
resultou dessa linha de pesquisa.
A maior parte do rótulo da garrafa de Rex já estava arrancada.
— E quanto a... não os casos em si, mas o que aconteceu
depois? — perguntou ele.
— O que você quer dizer?
— Bem, seu pai não apenas sentenciava as pessoas, ele
também as deixava impunes, certo?
Às vezes, ele rejeitava completamente o caso deles e os
libertava.
— Claro.
Ele rasgou o resto da etiqueta e começou a dobrá-la, uma e
outra vez. — E daí se alguém que ele libertou vitimizou outros de
forma semelhante?
Ela pensou nisso, aquelas pontas soltas ainda a provocando.
Mas parecia que, por causa dele, ela tinha acabado de agarrar uma.
— Certo. Sim. Então, ele deixou alguém escapar, e essa pessoa
vitimizou uma família da mesma forma que nós. — Ela piscou e
balançou a cabeça. — E depois? Essa família, ou alguém dentro
dela, culpou meu pai e contratou dois criminosos de baixa renda
para se vingarem?
— A culpa e o ódio levam as pessoas a fazerem coisas
realmente sombrias.
Ela bateu com o hashi no prato por um minuto. A polícia
estava procurando por uma pessoa, ou alguém relacionado a ela,
que se sentira injustiçado por causa de uma sentença imposta pelo
pai. O que fazia sentido. Ele havia tirado a liberdade de muitos...
anos, vidas inteiras. Era um forte motivo para vingança. Mas... Rex
podia estar certo. Isso podia muito bem ter a ver, não com a tomada
da liberdade de alguém, mas com a concessão dela. Uma
oportunidade que depois era usada para prejudicar outros.
— Talvez eles não tenham contratado aqueles homens para
nos matar, — murmurou ela. A lembrança das palavras deles a
arrepiou, mesmo agora. Não era para ser assim. Admito que as
coisas saíram do controle e fizemos algumas coisas estúpidas. —
Talvez eles só quisessem nos assustar. Mas foi longe demais. —
Seus olhos se arregalaram. Parecia certo. — Isso explicaria os
comentários sobre meu pai ver sua família atormentada serem o
ponto principal. E os outros comentários, no final, sobre como não
era para ser assim. Aqueles dois homens, Trig e AJ, saíram do
roteiro, talvez por causa das drogas, talvez porque eram
simplesmente maus e não conseguiam se controlar depois que
ganharam algum poder sobre três mulheres indefesas.
Ele apertou os lábios, e ela percebeu que ele também havia
contraído os músculos, pela súbita imobilidade. Ela estava
começando a conhecê-lo tão bem, não apenas sua mente, mas os
sinais de seu corpo. Isso a assustava. E a excitava também, de
maneiras que a faziam se sentir tentada a se inclinar e a fugir.
— Quanto a pesquisar os casos do seu pai, isso ajudaria a
esclarecer um pouco as coisas, certo? Estamos procurando um
homem que seu pai determinou que poderia ser absolvido, em vez
de condenado pelo crime. Assim que reunirmos esses dados,
investigaremos o que aconteceu depois e se ele cometeu um crime
semelhante contra outra família.
Nós. Havia aquele nós de novo que ela queria segurar nas
palmas das mãos como um tesouro, com medo de que lhe fosse
tirado se não o protegesse. Sabendo que não seria dela por muito
tempo, não importa o que acontecesse.
— E se acontecesse do jeito que você descreveu, mas o homem
que meu pai libertou não fosse pego pelo crime que cometeu contra
aquela família desconhecida?
Ele dobrou a etiqueta novamente, e agora era um quadradinho
minúsculo que não podia ser dobrado novamente. — Ele teria que
ter sido para que a pessoa — sua vítima — soubesse seu nome e
porque ele estava na rua quando talvez não devesse. Para que
atribuíssem a culpa ao seu pai.
Ela levou um minuto para decifrar aquilo. Meu Deus, sua
mente estava começando a se contorcer como um pretzel com todas
essas suposições. — Mas meu pai não deixava criminosos
escaparem facilmente. Ele não era esse tipo de juiz.
— Pode ter havido um detalhe técnico que o deixou sem ação.
Mas, além disso, todo mundo comete erros, Cami. Os melhores
juízes do planeta às vezes fazem julgamentos que depois acabam
sendo ruins. A retrospectiva e tudo mais. Ninguém consegue prever
o futuro ou ler a mente de outra pessoa.
Ela concordou com um aceno de cabeça. — Isso também
reduzirá nosso leque de possibilidades. Muitas das pessoas nesses
arquivos que apareceram no tribunal do meu pai já estavam presas
quando o crime contra minha família foi cometido.
— Sim, é verdade. Além disso, acho que podemos reduzir o
prazo também.
— Ok, por quê?
— Cinco anos parece tempo demais para esse tipo de ódio se
alastrar. — Ele largou o pedaço de etiqueta dobrada sobre a mesa.
— Acho que a ferida estava mais recente. Eu diria dois anos. Vamos
voltar três anos porque deve ter levado algum tempo para planejar
a vingança, juntar o dinheiro, se algum foi pago, etc. Vingança de
aluguel não é algo que se compra simplesmente na Amazon.
Ela soltou um pequeno suspiro. Três anos. Certo. Ela apertou
os lábios. — Rex, eu... eu adoraria que você ficasse e me ajudasse
a analisar alguns dos casos, mas também não quero que se sinta
obrigado. Já pedi tanto de você.
Ele olhou para ela como se estivesse tentando ler sua mente,
e ela se sentiu mal com isso, porque queria que ele sentisse que
podia saber o que ela estava pensando pelas palavras dela, e ele
obviamente não sentia.
— Estou nessa com você, se quiser, Cami. Estou aqui para
ajudar.
Ela soltou um suspiro baixo enquanto o alívio a invadia. —
Ótimo. — Ela se levantou e pegou o prato dela e o dele. — Deixa eu
guardar isso e depois arrumar o Cyrus para dormir, e aí a gente
começa a cavar?
Ele sorriu, e o sorriso pareceu completamente genuíno, como
se estivesse sentindo o mesmo alívio que ela. — Eu vou limpar isso,
— disse ele. — Cuide do seu filho.
As palavras a atingiram, quase lhe cortando a respiração. Ela
se sentiu novamente chorosa e grata. Nunca imaginou, nem em
seus sonhos mais loucos, que teria essa oportunidade.
— Ok, — disse ela, encontrando os olhos dele, sentindo seu
rosto se transformar num sorriso incrédulo. — Vou cuidar do meu
filho.
CAPÍTULO QUARENTA E DOIS
O pai de Posey permaneceu bem durante o verão — não tão
vigoroso fisicamente quanto antes, mas tão dinâmico mentalmente
quanto antes. Os dois passaram a discutir casos na varanda, onde
o sol da tarde entrava e aquecia suas peles. Beberam chá adoçado
com limão e observaram os jardineiros trabalhando, os aromas da
grama cortada e do roseiral de sua mãe, ali perto — em plena
floração — fazendo cócegas em seus narizes.
Foi um lindo verão para Posey, e acabou sendo o último verão
lindo que ela conheceria.
Naquele inverno de 1995, tornou-se óbvio para Posey Kiss, a
chamada computadora humana, que ela não era uma máquina,
mas sim uma garota. Ela descobriu essa verdade inegável nos olhos
de Tatum Devore. Tatum era filho de um dos funcionários mais
confiáveis da família Kiss, um homem ao mesmo tempo firme e
resoluto na hora de extrair informações dos indivíduos. Eles o
utilizavam regularmente em seus negócios, e por isso sua presença
em sua propriedade era uma ocorrência relativamente regular. Seu
filho, aparentemente, havia começado a demonstrar interesse pela
área de trabalho do pai e, portanto, aparecia quando o Devore mais
velho tinha motivos para estar na casa dos Kiss.
Poucos meses depois, Anton se formaria na Universidade de
Georgetown, onde se deslocava havia quatro anos e já estava
ocupado planejando uma festa elaborada em sua propriedade.
Posey se deleitava com a distração do irmão, pois isso significava
que ele tinha menos tempo para incomodá-la e machucá-la. Ela se
viu, pela primeira vez, capaz de andar pelos corredores da casa sem
medo de que Anton surgisse de um canto escuro com a intenção de
assediá-la e humilhá-la.
A primeira vez que falou com Tatum foi na vasta biblioteca na
ala sul, em frente ao escritório do pai. Ela entrou na sala e ficou
surpresa ao ver um homem em pé no topo da escada da biblioteca,
inclinando-se precariamente em direção ao canto mais distante
para alcançar o livro mais alto.
Ela o observou com curiosidade, imaginando por que ele
simplesmente não empurrava a escada para baixo do livro que
desejava, em vez de realizar um ato que desafiaria a morte, ou pelo
menos quebraria ossos.
Ela esperou para perguntar até que ele descesse a escada e
estivesse em segurança no chão. Ao ouvir a pergunta, ele se virou,
e o livro caiu de suas mãos. Ela olhou para o livro, aberto no chão.
Como Dançar com Confiança e Facilidade.
Ela olhou para ele e o viu observando-a. Seus olhares se
encontraram, e nenhum dos dois falou por um instante.
Finalmente, ele pigarreou.
— Eu só queria saber, de todos esses tópicos e títulos, qual
deles estaria na prateleira mais alta, no canto mais distante. — Ele
se inclinou casualmente na escada. — Achei que provavelmente
fosse o primeiro que seu pai colecionou, e fiquei curioso para saber
o que era.
Ela se viu estranhamente sem saber o que dizer. E ainda mais
confusa com tal título na biblioteca do pai. Por que ele o possuía?
Teria sido um dos seus primeiros livros? Talvez datado de antes de
conhecer a mãe dela? Ela não conseguia imaginar o pai se
importando com algo como dançar com confiança. Seu pai fazia
tudo com confiança, e ela não conseguia imaginar uma época em
que isso não tivesse acontecido. A pergunta em si suscitou mais
curiosidades do que respostas.
— Quero dizer, por que não simplesmente rolar a escada
embaixo do livro que você deseja?
Ele virou a cabeça para olhar para as rodas na base da escada,
fixando-se nelas por um instante. — Que droga! — Ele olhou para
cima e sorriu para ela. — Eu não tinha percebido que ela se movia.
Ela sentiu uma vontade peculiar de rir, e não sabia bem por
quê. Ele parecia um tanto ridículo, mas, por algum motivo
estranho, seus pés não queriam se mexer. Em vez disso, ela
caminhou mais para dentro da sala, pegou o livro e o colocou sobre
uma mesa próxima. Quando se virou, percebeu que ele a observava
novamente. Ele estendeu a mão.
— Eu sou Tatum. Você deve ser Posey. Seu pai falou de você.
Ele não mencionou o quão linda você é.
— Por que ele mencionaria a aparência da filha para um
estranho?
Tatum pareceu confuso e então sorriu. — Boa observação. Ele
não faria isso. Seria estranho.
Ela empurrou os óculos para cima do nariz. — É mesmo. —
Os dois ficaram parados, sem jeito, enquanto Posey procurava algo
para dizer. — Quer uma fatia de torta? Nossa cozinheira acabou de
assar um crumble de maçã. — Ela não sabia ao certo por que
dissera aquilo. A frase simplesmente lhe veio à mente antes que ela
pensasse. Talvez estivesse doente. Um dos primeiros sinais de um
tumor cerebral são as mudanças comportamentais.
Treze por cento de todos os novos cânceres cerebrais são
diagnosticados em pessoas com menos de vinte anos.
Mas tudo o que Tatum disse foi: — Eu adoraria uma torta. Vá
na frente, Posey Kiss.
Nos meses seguintes, Posey e Tatum passaram a passar um
tempo juntos sempre que o pai dele estava lá para tratar de
negócios. Posey havia dito ao pai que não gostava de pessoas da
sua idade e que eles não gostavam dela, mas sempre que avistava
o veículo do pai de Tatum, se via indo em direção à biblioteca para
procurá-lo.
Tatum olhava para Posey como se ela o divertisse e o
encantasse. E esperava pela resposta dela da mesma forma que o
pai dela — com interesse nos olhos. Mas havia mais do que
interesse, e embora Posey tentasse categorizá-lo, faltava-lhe a
capacidade de fazê-lo. E ele parecia determinado a fazer perguntas
para as quais ela não tinha respostas.
— O que te deixa sem fôlego, Posey? — ele perguntou em um
dia gelado de inverno, enquanto tomavam chocolate quente em
frente à lareira aconchegante da sala de estar.
Posey fez uma pausa antes de abaixar a caneca da qual
acabara de bebericar. A pergunta a confundiu. Mas, pensando bem,
ela sentia falta de ar toda vez que estava na presença de Tatum. Na
verdade, sentiu uma leve tontura naquele exato momento. Por quê?
Ela colocou a caneca na mesa de centro em frente a eles.
— Problemas de saúde podem causar falta de ar, — disse ela,
com uma preocupação ainda maior com sua saúde aumentando.
Talvez não fosse um tumor cerebral. Talvez ela estivesse doente
como o pai. As chances disso eram baixas, mas não impossíveis. —
Doenças como asma...
— Não, — ele disse, inclinando-se, com os olhos azuis
brilhando, — o que canta para sua alma?
Ela queria responder. E respondeu. Pessoas inteligentes
sempre a procuraram em busca de respostas para perguntas
difíceis. — Urr... uma alma... não acredito que consiga interpretar
sons. A quantificação é tão...
Tatum se inclinou e a beijou. Seus lábios mordiscaram os dela,
sua língua se movendo lentamente sobre sua boca entreaberta
antes de se afastar lentamente.
Era terrível e repugnante, e ela queria que ele fizesse aquilo de
novo. O que estava acontecendo com ela? Se não era um tumor
cerebral, então o quê?
— Você já se apaixonou, Posey? — ele sussurrou.
— Não. Por que eu faria isso? — ela sussurrou de volta.
Ele riu de novo, mas seu riso não soou maldoso, não como o
de Anton. — Você é linda, você é mesmo.
— Meu pai diz isso, como você sabe. Mas minhas feições não
são proporcionais. Um olho é um milímetro mais alto que o outro.
Ele estendeu a mão, tirou delicadamente os óculos dela e
olhou-a nos olhos. A imagem diante dela se tornou um borrão, uma
aquarela de azuis, marrons e dourados. — Você está tentando me
fazer parar de te achar bonita?
— Err...
Mais tarde, quando estava sozinha, Posey levou os dedos aos
lábios e se lembrou da sensação da boca dele na dela. Por que ela
gostara? Por que ela gostara do jeito como ele a confundia? Não
fazia sentido. Ela fez alguns cálculos, mas sem variáveis claras,
nenhuma resposta veio à tona.
CAPÍTULO QUARENTA E TRÊS
Lá estava ele — Hollis Barclay em carne e osso. Mesmo depois
de todos esses anos, Cami esperava sentir mais emoções ao vê-lo.
De certa forma, em sua mente, Hollis permanecia o menino de ouro,
uma parte congelada daquela era brilhante e dourada, pouco antes
de perder tudo o que lhe era valioso. Mas, em outras ocasiões, tudo
o que ela conseguia se lembrar dele era do seu traseiro enquanto
ele corria para a porta, abandonando-a e ao filho.
Mas e agora? Agora ela não sentia nem nostalgia nem
amargura. Sentia apenas uma leve sensação de desgosto ao
observá-lo com seu sorriso forçado, passando de um doador para
outro, apertando mãos e tirando fotos, o político consumado.
Ele ainda era o homem mais bonito da sala. Seria o sonho de
qualquer mulher, se ela só quisesse se expor e também estivesse
procurando um anti-herói que vencesse Dodge ao primeiro sinal de
desafio.
Boa sorte, estado da Virgínia.
Ela se aproximou pela lateral, acompanhando a multidão que
tentava chamar a atenção dele. Alguém a empurrou, e ela deu um
passo à frente no momento em que Hollis se virou, e os dois
colidiram. Ele agarrou os braços dela, abrindo a boca para
cumprimentá-la e depois fechando, os lábios retornando ao mesmo
sorriso. O sorriso quase desapareceu, mas congelou, e ela se
agradou com a minúscula oscilação. — Camille Cortlandt? — Ele
soltou os braços dela e deu um passo para trás para poder olhá-la
de cima a baixo. — Meu Deus, quanto tempo faz?
— Onze anos, — ela disse. — Oi, Hollis.
Ele a encarou e então se inclinou e beijou sua bochecha,
demorando-se por um instante de um jeito que a fez querer afastá-
lo. Ela nunca mais queria que aquele homem a tocasse. Nem
mesmo em um cumprimento casual. — Você está fantástica, —
disse ele, e sua expressão lhe dizia que ele falava sério. — Você não
envelheceu um dia.
— Hollis, os Nelsons gostariam de conhecê-lo. — O funcionário
que os interrompeu se aproximou, mas Cami ouviu seu sussurro.
— Eles são os que acabaram de fazer a doação de seis dígitos.
— Já vou, — disse Hollis ao homem. — Esta é uma velha
amiga da escola.
Ele se virou para ela com um sorriso mais tenso do que antes.
Agora ela o estava incomodando e o mantendo longe de seus amigos
milionários. — O que você está fazendo aqui? — perguntou. Tentou
fazer a pergunta soar leve e coloquial, mas saiu irritada. Antes que
ela pudesse responder, ele olhou por cima do ombro dela e ergueu
a mão para cumprimentar alguém mais importante. Estava claro
que ele estava pronto para seguir em frente.
— Estou aqui para falar com você sobre algo importante. Posso
falar com você por um minuto?
Outro vacilo. Outro sorriso.
— Prometo não tomar mais de dez minutos do seu tempo, —
disse ela, apressando as palavras. Percebeu que ele seria levado
para qualquer direção a qualquer momento e se recusou a ir
embora sem falar com ele. E a ficha caiu de uma forma que só
poderia cair em um momento como aquele: ela não era mais a
garota tímida disposta a deixar Hollis Barclay dispensá-la. Tinha
negócios a tratar com ele e insistiria para que fossem resolvidos,
mesmo que tivesse que gritar na frente daquela multidão.
Hollis sorriu para alguém que passava e deu um tapinha em
seu ombro. — Te vejo na terça, — disse ele, apontando o dedo e
dando uma piscadela exagerada para o homem. Então, virou-se
para Cami. — Ah, claro. Sim. — Ele fez um sinal para a funcionária
que ainda estava por perto. — Ronny, leva-a para os bastidores,
para o camarim?
Cami hesitou, preocupada que ele a estivesse mandando para
algum lugar distante, onde nunca apareceria. Mas, além de gritar o
que precisava ali mesmo, como havia pensado, não lhe restava
muita escolha.
— Por favor, não me faça esperar muito, — disse ela.
Mais uma vez, a irritação brilhou em seus olhos, mas ele
aquiesceu com um gesto de queixo. Ela se virou e seguiu Ronny
pelo palco, subindo um pequeno lance de escadas e descendo por
um corredor.
— Tem refrigerante e água aí. Sirva-se, — disse Ronny,
apontando para uma porta.
— Obrigada. — Ela entrou e, principalmente porque não sabia
o que fazer, pegou uma garrafa de água e andou de um lado para o
outro no pequeno espaço, que tinha um espelho iluminado com
uma cadeira e um sofá na parede oposta.
Ela presumiu que ele a deixaria esperando, então, quando
ouviu passos se aproximando da sala um minuto depois, se
perguntou se seria a mesma funcionária voltando para lhe dizer que
Hollis não poderia se encontrar com ela. Mas o próprio homem
entrou pela porta e até esboçou outro sorriso, parecendo menos
irritado desta vez.
— Deixa eu adivinhar, — disse ele, — você está escrevendo um
livro sobre o que aconteceu com sua família e quer me entrevistar
para adicionar alguma relevância atual.
Ela quase riu. Quase. Ele ainda era o mesmo Hollis. Ou seja,
ainda era um babaca egocêntrico. — Não. Não estou escrevendo um
livro.
Ele foi até a geladeira, pegou uma garrafa d'água como ela
havia feito, abriu a tampa e tomou um longo gole. Ele a observou
enquanto fechava a tampa. — Você deveria. Quase certamente seria
um best-seller. O público devorou sua história. Ouvi-la da boca do
cavalo...
— Estou aqui por causa do nosso filho.
Isso o calou. Sua boca se abriu ligeiramente e suas mãos
congelaram onde ainda giravam a tampa da garrafa.
— Você já pensou no seu filho? Ficou pensando se era menino
ou menina? Ficou pensando se eu o mantive ou dei para alguém?
Sua mão começou a se mover lentamente, e sua expressão se
recuperou mais rapidamente, transformando-se em uma inocência
confusa. O olhar educadamente perplexo de Hollis.
— Meu filho? — Ele inclinou a cabeça. — Desculpe-me...
Ela riu então, colocando a garrafa d'água na superfície mais
próxima para poder massagear as têmporas. — Meu Deus, você
realmente se convenceu de que o bebê não era seu?
— O bebê... Cami, vamos mesmo repetir todas essas mentiras?
— Ele suspirou. — Você ainda está doente.
— Doente? Você está falando sério?
Ele se virou e também pousou a garrafa de água, e quando a
encarou, ela viu a explosão de raiva. — Você fez um teste de
paternidade?
— Não. Eu não precisava de um.
— Meu Deus. As coisas com as quais eu lido. — Ele inclinou
a cabeça para trás e gemeu, um som sofrido, como se ela fosse
apenas mais uma fã desequilibrada que ele tinha que suportar em
uma longa fila de admiradoras psicóticas que alegavam ter tido um
filho seu.
A porta, ainda entreaberta, rangeu ao abrir, causando-lhe um
momento de surpresa ao se abrir lentamente para revelar uma
mulher.
— Desculpe, — disse ela, e Cami a reconheceu como a bela
loira que vira na TV com Hollis. Sua noiva, se ela não se enganou.
Hollis praticamente voou de onde estava para o lado dela.
— Seraphina, não se desculpe. Entre e encontre uma velha
amiga, Cami Cortlandt.
Seraphina olhou para eles, uma pequena ruga entre as
sobrancelhas arqueadas, claramente sentindo a tensão. Mas ela
deu a Cami um sorriso caloroso enquanto se aproximava com a mão
estendida.
— Uma velha amiga. Não tive o prazer de conhecer muitas
pessoas do passado de Hollis. Que bom conhecê-la. — Cami pegou
a mão esguia de Seraphina. Suas unhas estavam impecavelmente
cuidadas e um anel de noivado de diamante brilhava em seu dedo.
— Você vai se juntar a nós para o jantar? Há bastante...
— Infelizmente, a Cami vai embora logo depois disso, — disse
Hollis. — Fica para outra hora.
— Ah, que pena, — disse Seraphina. — Bem, fica para a
próxima, então. — Ela sorriu mais uma vez e, por um momento,
todos ficaram ali, olhando uns para os outros sem jeito.
Por fim, Hollis se virou para a noiva. — Querida, te encontro
no carro. Só preciso de um minuto.
Aquela pequena ruga entre as sobrancelhas reapareceu. Ela
olhou de Hollis para Cami, brincando com o anel enorme em seu
dedo fino. Parecia dividida e insegura. Baixou os olhos por um
instante e então olhou para Hollis. — Então tá... eu vou... te esperar
lá. Cami, de novo, prazer em te conhecer.
— Você também, Seraphina. — Ela era o tipo de mulher que
Hollis desejava. Dócil e inquestionável. Bonita e agradável. Cami
jamais poderia ter sido assim — pelo menos não a longo prazo. E,
por um breve momento, ela se perguntou se Seraphina também já
se sentira uma farsa.
Seraphina se virou e saiu do quarto, o som de seus saltos
desaparecendo no corredor. Hollis se virou para Cami. — Escute,
não tenho mais tempo para isso. O que você quer? Dinheiro?
— Dinheiro? Para quê? Você insiste que sou uma mentirosa.
Ele cerrou os dentes e deu um passo à frente, ameaçador. Ela
sentiu-se tentada a recuar, mas manteve-se firme. — Não importa.
Jesus Cristo, você sabe o que isso pode fazer comigo? Nem mesmo
uma dica disso. É a última coisa de que preciso.
— Era disso que eu tinha medo, — ela disse.
— O que diabos isso significa?
— Não vou fazer nenhuma acusação pública nem pedir que
você faça nenhum exame, — disse ela. — Tive um menino. Dei-o
para adoção, mas a família adotiva dele morreu. Ele está comigo de
volta agora, e eu queria que você soubesse. Acredite ou não, ele é
seu filho. Se você não quer nada com ele, tudo bem. Azar seu. Mais
uma vez, eu só queria que você soubesse. E eu precisava perguntar
se alguém entrou em contato com você perguntando se queria uma
segunda chance?
Hollis piscou e balançou a cabeça levemente, como se tentasse
compreender tudo o que ela acabara de dizer. Ela sinceramente não
podia culpá-lo. Ela só tinha falado demais. E se ele estava sendo
honesto e se convenceu de que não tinha um filho, então ela
esperava que ele precisasse de um momento.
— Uma segunda chance? O quê? Não. Por quê? O que isso
significa?
— Ele te mandou um e-mail. Cyrus Sanders. Ele te mandou
uma mensagem para o e-mail da sua campanha e disse que era seu
filho.
Hollis semicerrou os olhos e levou a mão à testa. — Achei que
fosse uma pegadinha. Recebo muitas dessas. Principalmente
pessoas querendo dinheiro. Ignorei.
Bem, essa parte era verdade de qualquer maneira. Ela sabia
por que Rex lhe contara. Mas ouvir isso de Hollis e descobrir como
ele simplesmente ignorou a situação a fez querer arrancar os olhos
dele.
Ela deu um passo em direção a ele, com as mãos em punho
ao lado do corpo. — Em algum lugar, no fundo da sua mente
egoísta, você deve ter se perguntado se era mesmo seu filho
tentando pedir ajuda. Ele pediu ajuda. Mesmo que você não
quisesse se conectar com aquele garoto, poderia ter ligado e me
contado. Poderia ter me encaminhado o e-mail. Poderia ter feito
alguma coisa.
— Mais uma vez, — ele disse, — eu não respondo a
brincadeiras.
— Por causa da sua negligência, ele foi sequestrado. Ele
poderia ter sido morto. — Suas palavras eram comedidas, mas seu
sangue gelou ao expressar seu maior medo. De que ela tivesse
chegado tarde demais para salvá-lo. De que ela tivesse que ver seu
filho morrer, da mesma forma que fez com sua mãe e irmã.
A declaração de Cami fez Hollis parar, sua expressão
revelando o que ela julgou ser uma confusão genuína. —
Sequestrado? O quê? Por quem?
— A polícia está investigando. Eles não sabem.
Hollis inclinou a cabeça para trás e encarou o teto por um
instante antes de encará-la mais uma vez. — Bem, espero que você
consiga resolver isso. Tem um monte de psicopatas por aí. Mas não
tem nada a ver comigo. — Ele olhou para o relógio de pulso. —
Agora, Cami, tem sido interessante, mas já aguentei o suficiente.
Minha noiva está me esperando e estou no meio de uma campanha
eleitoral importante. Não preciso disso. — Ele enfiou a mão no bolso
de trás, tirou uma carteira e tirou um maço de notas. — Aqui, —
disse ele, agarrando a mão dela e colocando o dinheiro na palma
dela. — Não vai ter mais de onde isso veio, então nem tente. Tenho
um grupo de advogados que adoraria arruiná-la. E, Cami, eu a
aconselho a manter sua palavra e não me envolver mais nessa
merda. Não vou deixa-la me atrapalhar dos meus planos como
tentou fazer antes de eu ir para Princeton. Você não imagina o
estresse que estou sentindo.
Então ele colocou a carteira de volta no bolso e saiu.
Cami ficou olhando para a porta aberta por onde ele acabara
de sair por vários instantes. Sinceramente, não sabia se jogava
alguma coisa ou se ria.
Você não pode imaginar o estresse que estou sentindo.
Não, Hollis, não posso.
Ela foi até o balcão e colocou o dinheiro lá, esperando que os
funcionários da limpeza vissem aquilo como uma gorjeta e
aceitassem. Ela não queria ter nada a ver com a tentativa de Hollis
de suborno com o que parecia ser menos de duzentos dólares.
Ela saiu do camarim e desceu as escadas, preparando-se para
encontrar Hollis ou Seraphina novamente. Mas o auditório estava
praticamente vazio, apenas alguns espectadores e funcionários que
estavam limpando.
Ela foi até o carro e ficou sentada ali, olhando pelo para-brisa,
repassando sua visita a Hollis e analisando as coisas que ele havia
dito. Não havia dúvida de que ele ainda era egocêntrico, mas suas
reações pareceram legítimas e fáceis de interpretar.
Ele confirmou que tinha sido ele quem recebeu o e-mail e o
ignorou. Se ao menos tivesse tido a decência de encaminhá-lo a ela,
ela poderia ter feito algo antes que um sequestrador levasse Cyrus
e o colocasse em perigo.
Ela poderia ter respondido ao seu pedido de ajuda.
Alguém tinha feito alguma coisa, mesmo que fosse depois do
fato.
Alguém lhe deu as informações necessárias para libertar seu
filho.
Se não foi o Hollis, quem foi? E por quê?
CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO
Rex parou na porta da frente da casa do avô e olhou ao redor.
Reformas no piso, nos eletrodomésticos e muitas outras coisas
precisavam ser feitas para trazer o lugar para a década atual. Mas
ele já tinha limpado, embalado e reciclado, e naquela manhã fizera
seis viagens à Goodwill. Havia uma única caixa de fotografias e
bugigangas que ele levaria para a mãe mais tarde.
Ele imaginou que seria bom o suficiente para que alguém visse
o potencial e não se sentisse sobrecarregado pela quantidade de
trabalho envolvida em transformar a casa em um lar.
Seu trabalho aqui estava concluído.
E, no entanto, também não estava. Ele se ofereceu para ajudar
Cami a examinar os arquivos que ela havia trazido da casa do pai.
E ainda havia muita informação para analisar. Mas mesmo isso
levaria pouco tempo. Uma semana, talvez, se trabalhassem nisso
todas as noites depois que Cyrus fosse dormir.
Ele tinha mais um mês antes de começar a trabalhar, mas
ainda precisava encontrar um apartamento e se instalar em um
estado totalmente novo, onde nunca havia estado antes. Planejava
fazer o caminho mais longo até lá, parando e visitando alguns
pontos turísticos ao longo do caminho... talvez acampando sob as
estrelas. Já tinha visto tantos outros lugares ao redor do mundo,
mas nunca tinha realmente visto os Estados Unidos. E não tinha
certeza de quando teria outra oportunidade.
Ele estava animado com essa parte da mudança. E agora, tudo
o que conseguia sentir ao pensar em sair de Aspen Cove era
desânimo.
Ele sabia o porquê, é claro. Ele havia se apegado à Cami e ao
Cyrus também. Ele se sentia... responsável por eles de uma forma
que provavelmente não era totalmente apropriada. Era só que eles
tinham passado por tanta coisa, e ele estava preocupado que ainda
não tivesse acabado completamente.
Ele também estava preocupado com o fato de ela ter ido ver
Hollis. Ela dissera que queria ir sozinha, e ele entendia o porquê,
mas mesmo assim ligara várias vezes para saber como ela estava
antes de se lembrar de que não tinha esse direito. Em vez disso, ele
se distraiu com as últimas tarefas de limpeza e com as idas para
doar itens úteis.
Ele entrou no quarto que vinha usando nos últimos dias — o
quarto que, surpreendentemente, ainda tinha uma cama e um
colchão limpo sob toda a tralha enfiada ali dentro — e tirou uma
muda de roupa limpa da mochila. Assim que terminou de se vestir,
ouviu pneus no cascalho lá fora e o ronronar de um motor. Parou e
escutou por um instante para ter certeza de que estava certo, depois
entrou na sala de estar e abriu a cortina.
O coração dele disparou e depois voltou a bater mais rápido.
Cami. Ela caminhava em direção à varanda da frente, com a
expressão inquieta, mas quando o viu pela janela, seu rosto se abriu
num sorriso. Ele abaixou a cortina, foi até a porta e a abriu. Meu
Deus, como ele sentiu alívio. Alívio e felicidade, só de vê-la, só de
saber que ela tinha pensado nele e queria vê-lo também. Ele nem
se importava com o porquê.
Antes que ele pudesse dizer uma palavra, ela caminhou até
seu peito, abraçando-o. Ele parou por um instante antes de
envolvê-la também com os braços e puxá-la para o mais perto
possível.
— Está tudo bem? — disse ele em direção aos cabelos dela, e
ela assentiu, mas não o soltou. Em vez disso, ela encostou o nariz
no pescoço dele, e ele quase sentiu a tentação de se afastar e dizer
que precisava tomar um banho, mas ela parecia gostar de estar ali,
a julgar pelo suspiro e pelo fato de não estar se mexendo por
vontade própria. Ele também gostava disso.
Sim, ele teria matado um dragão por ela antigamente, mas
agora ele mataria um monte deles.
Ele estava ferrado.
Mas naquele momento, ele não parecia se importar.
Ela deixou cair os braços com outro suspiro e se afastou. Seus
lábios começaram a se abrir em um sorriso, mas então o sorriso
desapareceu quando ela olhou para trás dele.
— Está tudo limpo, — disse ela, e havia algo em sua voz, uma
espécie de alarme.
Ele se virou e olhou para ela como se ela tivesse lhe contado
algo que ele ainda não sabia, como se ele não tivesse acabado de
terminar as últimas tarefas como forma de se distrair dos
pensamentos errantes sobre ela o dia todo. — É. Está feito. E
listado. Já recebi algumas ligações que preciso retornar.
Ela deu um passo para dentro. — Que ótimo. É um lugar legal.
Agora consigo ver o potencial.
— Esse era o plano, — ele disse com um pequeno sorriso.
— Missão cumprida. — Seus olhares se encontraram. Ele
finalmente desviou o olhar. — Pelo menos em relação à casa. Ainda
estou aqui por mais uma semana, pelo menos. — Ele tinha decidido
isso, aparentemente, sem pensar muito. Ele tinha dito isso agora —
não podia voltar atrás. Não que quisesse. — Tenho tempo de sobra
para dar uma olhada naquelas caixas...
— Sim. Obrigada. — Ela olhou ao redor novamente, com a
testa franzida.
— Então, ah, você conseguiu ver o Hollis? — Ele presumiu que
Hollis não tivesse oferecido nada de útil, se é que havia alguma
coisa. Sabia que, se tivesse, ela teria falado disso e não do estado
da casa dele.
— Sim, eu o vi. E sim, ele continua sendo um babaca egoísta.
E não, ele não merece ter poder algum, e espero que os eleitores da
Virgínia vejam o mesmo.
— Me conta, — disse ele, gesticulando em direção ao sofá que
estava incrivelmente limpo, mas só porque nunca tinham usado
ninguém para sentar nele, mas sim para guardar coisas. Uma
rápida aspiração para tirar o pó, e ele ficou como novo.
Ela se sentou, e ele também, e ela afastou o joelho para o lado
enquanto se virava para ele. — Eu contei a ele sobre Cyrus e o
sequestro. Em poucas palavras? Ele sabe que Cyrus é filho dele e
está preocupado que eu vá me manifestar publicamente e trazer
polêmica para a campanha dele.
— Então ele tem motivação. — Se Hollis tivesse ficado
surpreso, mas, no fim das contas, se comportado decentemente, e
talvez até tivesse pedido para conhecer o filho, ou perguntado se
Cami precisava de alguma coisa, então seria diferente. Mas ele
havia expressado exatamente o sentimento que Rex temia que
expressasse.
— Para tê-lo sequestrado? — Seus olhos se desviaram por um
momento. — Sim, suponho, mas... Sinceramente, acho que ele ficou
chocado quando soube do sequestro. Acho que ele não sabia. Ele
recebeu o e-mail do Cyrus e ou se convenceu de que era uma
pegadinha, ou acreditou mesmo. Hollis nunca foi um bom
mentiroso porque nunca tentou ser bom. Ele presumia que
ninguém o questionaria, então não se preocupou em se fazer passar
por confiável. Ele não mudou.
— Bom, isso ajuda. — Ele quase mordeu a própria língua.
Soou amargo, e ele não queria continuar ressentido com o cara. Era
só que ouvir Cami mencionar a versão adolescente de Hollis, o cara
que o fazia se sentir tão inútil quando eles estavam no ensino
médio, o deixava nervoso. Mesmo assim. E ele não gostava disso em
si mesmo. Fazia com que se sentisse mesquinho e pequeno, com
seus próprios sentimentos o aprisionando no desconforto da
juventude.
Os olhos de Cami se demoraram nele por um instante, como
se tentasse entendê-lo, e então ela olhou para baixo e cutucou a
cutícula da unha do polegar. — A caminho daqui, recebi uma
ligação do Detetive Mauro, da Califórnia. Eles conseguiram
identificar os restos mortais do homem que morreu na queda.
Ele se sentou um pouco mais ereto. — E?
— Aparentemente, ele é um capanga contratado. Bem
conhecido em Oakland, Califórnia. O cara tem uma longa ficha
criminal e saiu de San Quentin há seis meses por assalto à mão
armada. A arma que encontraram perto do corpo dele tinha o
número de série raspado.
— Eles mencionaram alguma conexão conhecida?
— Eles estão investigando isso agora, mas, quero dizer, é
improvável que encontrem algo, certo?
Ele suspirou. — Não. Caras assim geralmente não guardam
registros.
— A cabana alugada é de propriedade de uma empresa que
parece ser uma empresa de fachada.
Ele imaginou. E quando investigassem aquela empresa, isso
os levaria a outra no exterior. Eventualmente, eles se encontrariam
em alguma loja de tapetes de Bangladesh, onde o dono havia sido
pago para preencher a papelada.
Não haveria nenhum vestígio de quem tivesse montado a
operação agora. — Será que o detetive Mauro disse alguma coisa
sobre a câmera de vídeo no quarto com Cyrus?
— Só que havia um link para o feed no celular do cara. Mas
era um daqueles pré-pagos, então não tinha muito mais para
acessar.
Rex assentiu. Sabia que podia presumir que quaisquer
números ali contidos também eram de telefones descartáveis
anônimos e que já haviam sido desativados. Oakland, Califórnia.
Alguém havia contratado um capanga perto o suficiente para dirigir
até o local. Porque exatamente eles haviam escolhido aquele local
na floresta em Big Sur era um mistério. Talvez essa pessoa ou
pessoas desconhecidas tivessem vários locais preparados para tal
circunstância. As grades na janela indicavam que ela tinha um
propósito específico, e esse propósito não tinha nada a ver com
comunhão com a natureza.
— E agora? — murmurou ele, principalmente para si mesmo.
— As caixas, — disse ela. — Parece que é tudo o que temos.
Ele se virou e olhou para ela, seu olhar percorrendo seu lindo
rosto. Ela era tão linda para ele. O que havia em suas feições que
incendiava seu coração daquele jeito? Talvez se ele conseguisse
descobrir — quantificar como costumava ser tão bom —, pudesse
ganhar controle sobre isso para não se sentir praticamente
esmagado cada vez que ela se virasse para ele. Parece tudo o que
temos. Ele voltou sua mente para o que ela havia dito sobre as
caixas. Concordou que era tudo o que tinham, mas não apenas no
que se referia ao caso que estavam tentando resolver juntos. Eles.
Em geral. E ele não gostava disso. Podia admitir, pelo menos para
si mesmo. Mas como poderiam ter mais sem que alguém — ou seja,
ele — se machucasse?
Talvez valha a pena.
Cami suspirou. — Eu preciso ir.
Ele se virou e encontrou os olhos dela. Havia algo ali — uma
pergunta ou uma afirmação, ele não tinha certeza. Limpou as mãos
na calça jeans. Precisava se arrumar e retornar algumas ligações, e
Cyrus estaria esperando para ser buscado na casa do pai dela. Ela
tivera uma longa tarde confrontando o homem que a abandonara
onze anos antes e deixara claro que continuava o mesmo babaca
egoísta. Talvez ela esperasse por isso, mas o confronto devia ter sido
emocionalmente desgastante mesmo assim.
Os dois se levantaram ao mesmo tempo, cada um soltando
uma risadinha ofegante quando quase colidiram. Novamente, seus
olhares se encontraram e ela abriu a boca para dizer algo, fez uma
pausa e depois a fechou. Ela inclinou a cabeça para o lado. — Talvez
eu tire a noite de folga da busca nas caixas. Foi um dia e tanto.
— Eu não te culpo. Você e o Cyrus deveriam fazer algo
divertido.
— O Cyrus vai ficar na casa do meu pai hoje à noite. Eles vão
acampar no quintal. Assar marshmallows. A festa toda. — Ela
sorriu, e ele percebeu a emoção ali. A gratidão.
— Que legal. Seu pai... ele realmente se destacou.
Ela assentiu levemente, contornou a mesa de centro e seguiu
em direção à porta. Ao chegar lá, parou novamente, parecendo
distraída. Ela o havia cumprimentado com tanta intimidade, mas
agora estava indo embora com um tom estranho e constrangedor, e
ele não sabia bem por quê.
Ele abriu a porta, e ela saiu, virando-se e lançando um sorriso
que parecia forçado. — Te vejo mais tarde.
— É... te vejo mais tarde.
Cami se virou e desceu os degraus, mas parou no meio do
caminho. Rex a encarou, imóvel, e então olhou para o horizonte,
para onde ela parecia estar olhando. Mas não havia nada ali além
de uma fina faixa dourada onde o sol começava a se pôr.
Tão rápido quanto parou, ela se virou e subiu os degraus de
volta para ficar na frente dele. — Eu tenho algo a dizer.
Rex raramente era pego de surpresa, não mais, mas aquela
mulher parecia ter um talento especial para fazer exatamente isso.
— Tudo bem, — disse ele, cauteloso.
Ela encolheu os ombros enquanto inspirava e então soltou um
suspiro. — Eu te aprecio. De verdade. Sou grata pela maneira como
você me ajudou quando poderia facilmente ter se afastado, e pela
maneira como continua a me ajudar. Gosto das qualidades que isso
demonstra. Você é um bom homem e um ser humano honrado.
Você se importa com crianças que nunca conheceu e tem um senso
de justiça admirável. Você trabalha duro e, no que diz respeito à
inteligência, tem uma inteligência extraordinária.
Ela respirou fundo, como se não tivesse respirado em meio a
todas aquelas palavras. Ele gostou daquelas palavras... só que não
sabia para onde elas iam e estava meio que se preparando para um
“mas”...
— E então espero que o que eu diga agora não te ofenda de
forma alguma, mas Rex, eu te quero principalmente porque você é
gostoso. Eu me sinto atraído por você. Quer você tenha entrado na
minha vida como um caroneiro na estrada ou como um cara do meu
passado que me ajudou com algo que era um baita negócio, eu te
acho sexy. Lindo. Atraente em todos os sentidos físicos, e é isso.
Desculpe se isso soa deselegante, mas é verdade. Então, se você
tem alguma ideia equivocada de que eu só tentei te beijar na
Califórnia porque me sinto grata a você, quero deixar isso claro e te
dizer que você está completamente enganado.
Ele não conseguiu se conter e riu, um som carregado tanto de
diversão quanto de euforia pelo que ela dissera. Era engraçado e
meio chocante, mas também, a expressão sincera no rosto dela lhe
trouxe mais felicidade do que ele se lembrava de sentir há muito
tempo. Talvez nunca.
Sempre foi você.
Não fazia sentido. Eles mal se conheciam antigamente, e
mesmo assim ele a carregou consigo todos esses anos, uma parte
secreta do seu coração que ele nem mesmo compartilhara consigo
mesmo até que ela estivesse parada diante dele novamente, olhando
para ele do jeito que estava agora.
— Você não precisa me querer de volta, — ela sussurrou, com
a voz tão profundamente vulnerável. E o abalou que Cami, que
havia perdido tanto, que um dia foi a garota mais confiante e
deslumbrante do mundo para ele, estivesse corajosamente lhe
mostrando seu coração lindamente terno. — Mas se está hesitando
porque se questiona sobre minhas intenções ou porque não te vi
quando éramos crianças e você acha que ainda é assim, por favor,
não hesite. Me desculpe por não ter te visto naquela época. Eu te
vejo agora. Não consigo desviar o olhar.
Um som involuntário escapou de sua garganta, e ele se
aproximou dela e segurou seu rosto entre as mãos — o rosto que
antes lhe causara apenas dor e saudade e agora lhe trazia uma
alegria tão profunda. Ele aproximou seus lábios dos dela e ela
suspirou, abrindo-os para que ele pudesse explorar a doçura de sua
boca.
Suas línguas se entrelaçaram, duelando lentamente, a dança
ao mesmo tempo nova e, de alguma forma, conhecida. Ela se sentia
tão bem em seus braços, a sensação dela, o gosto, elevando sua
necessidade.
Cami o empurrou para trás, mesmo com suas bocas fundidas,
e eles tropeçaram, agarrados um ao outro, em direção ao quarto.
CAPÍTULO QUARENTA E CINCO
Ela nunca havia sentido alívio antes quando um homem a
beijou, mas foi exatamente isso que sentiu quando os lábios de Rex
encontraram os dela. Alívio e profunda felicidade, satisfação e a
resposta imediata do seu corpo. O fluxo de alegria foi tão
avassalador que ela não teve espaço para duvidar da justeza
daquilo. Deles. E como alguém que temia o toque físico há tanto
tempo, foi um bálsamo abençoado que curou uma parte da sua
alma ferida.
Não estou quebrada. Só estava esperando por você.
E não foi tão simples assim, e ela liderou a maior parte do
trabalho pessoal que a trouxe até ali. Mas ele preencheu a pequena
lacuna, e ela ficou tão excitada com um simples beijo que quase
teve vontade de rir.
Ela se virou para ele quando entraram no quarto e recuou
lentamente vários passos. Ele parou, com o olhar ao mesmo tempo
aquecido e preguiçoso, e esse olhar por si só aumentou a excitação
dela. Ela o encarou. Ela falava sério — não conseguia desviar o
olhar.
Quero me desnudar para você.
Os olhos dele brilharam. Era como se ele tivesse lido os
pensamentos dela. E ela ficou surpresa por ter gostado da ideia,
mas gostou.
Ela nunca se sentira assim antes, e era mais um lembrete de
como Rex a fazia se sentir segura. Talvez esse fosse o elo perdido
que a mantivera presa por tantos anos, e embora talvez fosse um
tanto óbvio que uma mulher que tivesse passado pelo que ela
passara precisasse se sentir segura, ela não sabia até então
exatamente o que isso implicava. Mas agora ali estava ele, na sua
frente, a personificação viva de tudo o que ela queria e precisava.
E, novamente, ele era gostoso como o inferno, o que certamente não
atrapalhava as coisas nem um pouco. Cami levou a mão à bainha
da blusa e a puxou pela cabeça. Essa conexão física era importante
para ela, mas também estava gloriosamente chocada com o quão
fácil era.
Ela segurou o olhar dele enquanto tirava os sapatos,
desabotoava a calça jeans e a abaixava pelos quadris, finalmente
jogando-a no chão para poder chutá-la para o lado.
Ela observou a garganta dele se contrair enquanto ele engolia
em seco, e aquele pequeno movimento a deixou nervosa. Tudo nele
era tão masculino, e a maneira como ele reagia a ela a fazia se sentir
linda e mais desejável do que jamais se sentira na vida. Ele tentou
dar um passo à frente, mas ela o impediu com um leve movimento
da mão, e ele parou novamente. Ela podia ver pela protuberância
na calça jeans dele que ele estava tão pronto para aquilo quanto
ela, mas também sabia que ele seguiria em frente no ritmo que ela
determinasse.
Ela tirou o sutiã, que escorregou pelos ombros e caiu no chão.
Depois, ela abaixou a calcinha e a sentiu sussurrar sobre suas
pernas.
Ele engoliu em seco novamente, parecendo ter perdido a voz.
Seu olhar era tão reverente que ela se sentiu tentada a olhar para
si mesma para ver o que ele via. Certamente não era a mesma Cami
de sempre que ela se olhava no espelho todos os dias. Sua
expressão falava de muito mais. Este homem, outrora um menino,
sempre lhe dera tanta graça e vira nela mais do que ela merecia. E
ele a fazia querer ser a melhor versão de si mesma, porque era como
se ele a tivesse visto assim muito antes de ela merecer.
— Você é uma obra de arte. Mais perfeita do que qualquer
coisa que eu já vi. Você deveria estar no Louvre.
Uma risada borbulhou em seu peito, dissipando o leve
nervosismo que ela sentiu por estar nua diante dele.
— Obrigada, — ela sussurrou. Ele a fez querer se exibir. Era
ridículo. E maravilhoso. Ela se sentia feliz e livre, e sua excitação —
e ele, aquele homem — alimentava sua confiança. Um sorriso
surgiu em seus lábios, sexy e sábio. Ele via como ele a fazia se
sentir.
Ele caminhou em sua direção e puxou a camisa pela cabeça
ao se aproximar. Meu Deus. Sua boca ficou seca, todos os
pensamentos de se exibir desapareceram de repente. Agora ela só
conseguia encará-lo. Ela vira os músculos dele através das
camisetas que ele usava, e a forma sólida dele, mas não estava
preparada para a beleza masculina absoluta de seu peito nu. Era
bronzeado e macio, e ela o alcançou antes mesmo que ele estivesse
perto o suficiente para tocá-lo.
Os dedos dela roçaram a pele dele, e ele sibilou baixinho, e
então ela estava em seus braços, peito nu com peito nu, e a boca
dele reivindicou a dela. O beijo continuou, levando a necessidade
dela por ele a um nível febril. Ela o sentiu contra si, quente e duro,
e estendeu a mão, desabotoou a calça jeans dele, colocou a mão
dentro do cós da cueca dele e o tomou na palma da mão.
— Oh, Cristo, Cami, — ele sussurrou contra a bochecha dela
enquanto deslizava a boca para longe da dela.
Ela encontrou os olhos dele enquanto sua mão se movia sobre
sua ereção, para cima e para baixo, os olhos dele ficando mais
preguiçosos a cada movimento. E de repente o tempo se estendeu e
desacelerou, a intimidade do momento tão profunda que Cami se
sentiu presa dentro dela. Ela só conseguia encará-lo, o olhar firme
dele era a única coisa que a impedia de sair do chão.
— Você é meu sonho realizado, — ele murmurou. — Quero
que você saiba
disso.
Deus, a doçura disso. Dele. Porque ele falava sério — ela podia
ver nos olhos dele e sentir no toque dele. E era ainda mais doce
porque ela o deixara conhecê-la, deixara vê-la, e nenhuma dessas
coisas o fizera mudar de ideia. — Você também é o meu sonho
realizado, — disse ela. Ela também falava sério. Ela não se conhecia
o suficiente quando eram crianças para saber o quanto ele era o
homem certo para ela. Mas agora sabia. Obrigada, Deus, por esta
segunda chance. Obrigada por trazer este homem de volta para mim,
por mais tempo que tivesse levado.
Ele permitiu que ela o tocasse à vontade, o rubor intenso em
suas bochechas e a aceleração de seu pulso demonstrando seu
prazer e elevando ainda mais sua confiança. Quando ela acariciou
seu membro novamente, sua cabeça caiu para trás e ele soltou um
gemido que soou doloroso, e ela adorou, mas também não queria
que aquilo acabasse enquanto estivessem em pé.
Ela pegou a mão dele e eles caíram na cama, Cami rindo
quando Rex soltou um som provocador de dor, como se tivesse
quebrado algo ao bater no colchão macio. Mais doçura — ele estava
tornando aquilo bom, mas também divertido. Ele queria que ela
risse, e ela riu.
— Espero que você não seja tão delicado, — ela disse.
— Nem de perto.
Passaram mais tempo explorando os corpos, dedos e bocas um
do outro, explorando cada curva e saliência. Ambos se demoraram
nos lugares que achavam atraentes, os lábios dele no ponto sensível
entre os seios dela e, em seguida, na concavidade do quadril, antes
de descerem e aconchegarem-na entre as pernas. Ela agarrou os
cabelos dele, sentindo o turbilhão de um orgasmo. Não o queria,
ainda não. Tudo o que ele fazia com ela era demais e insuficiente,
então ela ficou suspensa, com a respiração entrecortada e a pele
corada. Ela precisava dele dentro de si, queria desesperadamente
que ele preenchesse seu vazio, que a abraçasse, que se rendesse ao
seu controle, que o agarrasse enquanto gozava.
— Cami, — ele murmurou contra a pele dela, erguendo a
cabeça para que seus olhos pudessem encontrar os dela. — Eu não
tenho camisinha.
— Estou tomando pílula, — disse ela, e embora sua mente
estivesse confusa e nada parecesse tão importante quanto senti-lo
dentro dela, ela percebeu, em algum lugar no fundo da mente, que
aquele era um homem em quem podia confiar para cuidar dela em
todos os sentidos. Ele não era alguém que sairia pela porta, em
hipótese alguma. Ele era um homem que ficaria, não um que ia
embora.
Como se tivesse ouvido seus pensamentos meio formados e
sentido sua certeza, ele subiu pelo corpo dela, abrindo suas pernas
e entrando nela lentamente.
Ele manteve contato visual até estar completamente dentro
dela, pélvis com pélvis, enquanto seu corpo estremecia e seus lábios
se abriam em uma expiração prazerosa.
— Tudo bem? — sussurrou ele, novamente, reverentemente.
— Sim, mais do que bem, — ela respondeu.
Ainda assim, ele esperou por um momento, examinando seus
olhos, dando-lhe um momento, mesmo enquanto seu próprio corpo
pulsava dentro dela. E a maneira como ele se continha a trouxe
completamente para o presente. Ela agarrou os globos de sua
bunda, encorajando-o a se mover. Ele gemeu de alívio, e então sua
cabeça caiu sobre o pescoço dela, e ele a penetrou, sua respiração
soprando contra sua pele. Oh. Oh Deus, isso é bom.
Ela inclinou os quadris e o levou mais fundo, e ele praguejou,
a palavra um gemido confuso que a fez sorrir. Eles balançaram
juntos, movendo-se lentamente no início e depois mais rápido, o
suor brotando nas costas dele, deixando sua pele quente e
escorregadia. Este, este momento, significava tudo para ela. Sua
luxúria por ele escaldou o medo. Ardia tão intensamente que as
memórias se dissiparam. Era só ele. Ela vivia o momento. Era de
tirar o fôlego. Era uma beleza primitiva, pura e simples, e a retidão
natural falava com seu corpo, mas também com sua alma.
Se ele a amava ou não, ela não sabia, mas ele a fazia se sentir
assim. Ele a fazia se sentir adorada e reverenciada. Ele a ajudou a
entrar em seu corpo — ela nunca se sentira tão presente em sua
pele — e então ela não aguentou mais.
Ela gozou primeiro, num acesso relâmpago de prazer
alucinante que a fez gritar o nome dele e agarrar seus ombros para
não voar para longe. Ela sinceramente achou que poderia. Ele a
esperou, o bíceps do braço que o sustentava na cama tão flexionado
que ela conseguia ver suas veias. Ele estava resistindo, e quando
finalmente o soltou, ela sentiu, não apenas no movimento dos
quadris dele e depois no jato quente da liberação dele em sua
barriga enquanto ele se afastava do seu corpo, mas também no
relaxamento de cada músculo dele.
Eles respiraram juntos, essa sensação de maravilha
substituindo o prazer que acabara de se espalhar por seus
membros. Certo, então aquilo era sexo. Ela soltou uma risadinha,
e ele ergueu a cabeça, e quando viu a expressão no rosto dela, sorriu
também.
— Sim, — disse ele, e foi só isso. O sorriso dele cresceu, e o
dela também.
Depois, depois de tomarem banho juntos e ensaboarem a pele
um do outro, ela se deitou nos braços dele, deleitando-se com o
brilho que ainda não havia desaparecido.
— Eu falei sério antes, — disse ela, inclinando a cabeça. — Eu
devia ter te visto naquela época. Se eu tivesse...
Ele levou o dedo aos lábios dela. — Não faça isso, Cami. As
coisas acontecem do jeito que têm que acontecer.
Ela assentiu. Ela também acreditava nisso, supunha. Porque
ali estava ele. E Cyrus também... ambos pareciam milagres. Coisas
das quais ela havia desistido haviam sido trazidas de volta, e ela
pretendia valorizá-las. Ela usou um dedo para circular o pequeno
disco do mamilo dele e o observou enrugar.
— Então, a questão do caroneiro que você mencionou, — ele
disse.
— O quê? — Ela tinha falado sobre um caroneiro?
— Um pouco antes, você me disse que, mesmo que eu fosse
um caroneira qualquer na estrada, você me acharia sexy. —
Quando ela olhou para ele, viu o canto da boca dele tremer.
Ela não conseguiu conter o sorriso em resposta. — Ah, isso.
— Não era exatamente como ela tinha dito, pelo menos a partir do
que agora era uma vaga lembrança de sua confissão na porta da
frente, com o coração na garganta. Mas ela podia ver que ele estava
brincando com ela, e gostava de vê-lo assim — confiante e sedutor.
Ela ergueu as sobrancelhas. — O que tem?
— Isso é como uma fantasia?
— Como você sabia?
— Acho que você me contou.
Ela riu. — Até onde você está indo, senhor?
Ele a virou de repente, fazendo-a soltar uma risadinha. —
Muito, muito longe. Vai demorar um pouco para chegar lá.
Ela riu contra a boca dele enquanto os lábios dele
reivindicavam os dela, e então fizeram tudo de novo. Foi ainda
melhor na segunda vez.
Eles dormiram e acordaram. No meio da noite, ela lhe contou
sobre o crime que sofrera, não apenas a visão geral, mas os
detalhes. Descreveu seu medo desesperador ao usar o pequeno
espelho para iluminar a Sra. Willoughby, e sobre as drogas que lhe
foram impostas e, finalmente, a agressão. Ele a abraçou enquanto
tudo vinha à tona, e embora fosse angustiante relembrar, ela
também encontrou força ao recontar. Nem as palavras nem as
lembranças a destruíram, e foi mais uma vitória que ela reconhecia.
De manhã, ao acordar, Cami se sentia mudada.
Completamente nova.
Em algum momento da noite, ela reivindicou triunfo completo
sobre seu passado.
E o maravilhoso, paciente e forte Rex Lowe ajudou isso a
acontecer.
CAPÍTULO QUARENTA E SEIS
Posey viu a primavera surgir, repleta de vida e possibilidades
lá fora, mesmo que por dentro seu pai continuasse a murchar.
Ela caminhou pelos corredores familiares da mesma
propriedade familiar, mas se sentiu diferente — mudada por dentro.
Começou a perceber que nem todas as perguntas tinham respostas
e, ainda mais chocante, passou a acreditar que era assim que
deveria ser.
— Uma atualização de software, — disse seu pai com uma
risada fraca, da cama de hospital que havia sido levada para sua
suíte principal e onde ele agora passava a maior parte do tempo.
Então, ele lhe deu um beliscão suave na bochecha, como fazia
quando ela era apenas uma criança. Posey se inclinou sobre sua
mão. Ele estava brincando ao se referir à observação
frequentemente expressa por Posey de que os outros a viam como
um computador, mas Posey se sentia cada vez menos como uma
máquina a cada dia. Não era apenas o efeito de Tatum em sua
racionalidade; era o nó que parecia se alojar em sua garganta cada
vez que ela chegava ao quarto do pai e via sua capacidade
diminuída. Ela não conhecia nenhuma máquina que se alternasse
entre a maravilha e a dor de tal maneira.
No final de março, seu pai a chamou e a Anton para perto de
sua cama, onde ele estava deitado sobre uma pilha de travesseiros.
Suas mãos, ossudas e frágeis, estavam espalmadas sobre uma
pasta em seu colo.
Posey sentou-se na cadeira de um lado da cama, e Anton
sentou-se do outro, e cada um segurou uma das mãos dele. Os
lábios do pai dela se curvaram lentamente, numa expressão que era
ao mesmo tempo um sorriso e uma careta. O pai deles nunca fora
de medir palavras, e isso permaneceu verdadeiro na hora de sua
morte.
— Deixei os negócios da família para Josephine. A propriedade
e todos os bens serão divididos entre vocês dois.
— Você o quê? — Anton sibilou, soltando a mão do pai e se
levantando da cadeira para se aproximar do homem que o criou.
— Ela é a escolha certa para comandar a Kiss Enterprise, —
disse o pai. — É o meu desejo, e já está feito. Meu testamento está
assinado e arquivado com meus advogados.
— Olha só ela! — gritou Anton, apontando o dedo para Posey,
com a raiva brilhando nos olhos. — Ela é uma aberração maluca!
— inclinou-se sobre o corpo esguio do pai. — E ela está transando
com o filho de um funcionário, sabia?
As bochechas de Posey se encheram de calor. — Eu apenas o
beijei, — disse ela, com a voz tão fraca quanto a do pai doente.
O pai dela segurou a mão dela e a apertou delicadamente. —
Ótimo, — disse ele. — Beije quantos garotos quiser, Posey Pose.
Dance com eles também. Eu deveria ter dançado mais vezes. — Ele
suspirou e fechou os olhos. — Já tomei minha decisão. Vá embora
agora, Anton. Fique bem.
O rosto de Anton estava vermelho e vibrante de raiva. Lançou
um último olhar furioso para Posey e saiu da sala.
Posey pegou o livro que estava na mesa de cabeceira do pai e
que ela lia para ele à noite. Estavam apenas no capítulo oito. Ela
abriu o livro no marcador, com a voz baixa enquanto começava a
falar, a garganta cada vez mais obstruída pelo nó crescente.
O pai estendeu a mão para ela novamente, e ela a segurou,
embalando-a delicadamente enquanto continuava a ler. O pai
parou de respirar muito antes de a história terminar, e mesmo
assim Posey terminou a história. — Fim, — sussurrou ela. Ela
encostou o rosto no peito do pai e, então, pela primeira vez na vida
que conseguia se lembrar, Posey chorou.
CAPÍTULO QUARENTA E SETE
— É aqui que você trabalha? — perguntou Cyrus ao saírem do
carro de Cami, e ele olhou ao redor. Cami sorriu, usando a mão
como visor para ver o espaço através dos olhos dele. O Flutterfly
Gardens estava particularmente bonito hoje, mesmo que ela fosse
suspeita. Não fazia mal que fosse a hora dourada, o céu um
turbilhão de azul e branco, dourado nas bordas. Mas, mesmo além
disso, as plantas vibrantes e floridas estavam cheias e exuberantes,
as árvores centenárias balançavam suavemente ao vento, e a loja
no final do caminho de tijolos parecia doce e pitoresca com seu toldo
listrado e persianas vermelhas.
O orgulho encheu seu peito. Ela amava o que havia
construído. Ela havia feito aquilo. Não deixara nada nem ninguém
impedi-la, nem mesmo ela mesma, apesar de ter pensado em
desistir tantas vezes. E mesmo sentindo que a vida talvez não
valesse a pena ser vivida com mais frequência do que gostaria de
admitir. Como poderia saber que chegaria a esse lugar, ao lado
desse garotinho? Um garoto que havia passado por tragédias
demais para uma pessoa tão jovem. Seu garoto.
E, no entanto, lá estava ela. — Venha comigo, e eu lhe
mostrarei as borboletas.
Eles passaram meia hora vagando pela exposição, onde outros
também passeavam. Cyrus ficava fascinado por cada nova espécie
e vibrava sempre que uma pousava em sua mão. Cami o observava
sonhadoramente enquanto ele as aproximava do rosto, com os
olhos brilhando de felicidade, sorrindo para ela enquanto voavam
para longe. E como uma borboleta, ela o viu emergir da concha
temporária em que também havia se alojado. Como você é real?
Como você está aqui, comigo? E ela algum dia pararia de se sentir
assim? Será que algum dia deixaria de se perguntar quando poderia
acordar e descobrir que tudo aquilo era apenas um sonho
elaborado?
Ele colocara o livro que Rex lhe dera debaixo do braço
enquanto segurava as borboletas, e agora segurava o livro de bolso
bem gasto na mão. Até o celular parecia lhe oferecer menos
segurança. Estava guardado no bolso de trás, um conforto
secundário. Ele carregava o livro para todos os lugares, como se
fosse um cobertor de segurança. E era isso que ele representava,
ela supôs. Um elo tanto com o homem que o criara quanto com
aquele no parque que o acolhera quando ele estava sozinho e
assustado. E agora, com Rex.
Cyrus também havia passado um tempo de qualidade com o
avô, e o pai lhe disse que eles tiveram boas conversas “de homem
para homem”. Cami também sabia que ele gostava de cozinhar com
Gigi e era grata por cada pessoa em sua vida que agora contribuía
para seu conforto e cuidado. Cami tinha a maternidade a oferecer e
faria tudo o que pudesse para ser uma boa mãe, mas também tinha
borboletas no estômago e conhecia bem seu poder de cura.
Eles caminharam até a loja de presentes, onde Bess soltou um
gritinho e praticamente se jogou em cima de Cami.
— Você voltou! Senti sua falta. — Ela se virou para Cyrus e
tapou a boca com a mão enquanto olhava para Cami. — Meu Deus,
vocês dois têm exatamente os mesmos olhos.
Cyrus olhou para Cami. — Eu te disse.
Bess estendeu a mão e Cyrus a apertou. — Oi, Cyrus. Sou
Bess. E tenho uma coisa para você. Venha comigo.
Cami observou Cyrus segui-la até onde Cami podia ver um dos
terrários que ela havia projetado no balcão, cheio de flores e
folhagens e, ela presumiu, pelo menos alguns ovos de borboleta.
Cyrus soltou “oohs” e “aahs” enquanto se inclinava em direção ao
vidro e olhava para onde Bess apontava para isso ou aquilo. Cami
sentiu um pequeno aperto no peito. Bess já estava agindo como
uma tia substituta para o filho, um papel que Elle teria tido, e de
repente sentiu tanta falta da irmã que lhe roubou o fôlego. A tristeza
era tão estranha assim, surgindo quando você menos esperava e te
derrubando. E, no entanto, algo dentro dela era grato pela força do
impacto emocional, porque também era um lembrete de que seu
amor pela irmã não havia desaparecido e nunca desapareceria. Ele
apenas mudaria e se transformaria com o passar dos anos, mas ela
levaria a irmã consigo, notando sua ausência em grandes e
pequenas formas pelo resto de seus dias. E ela não desejaria que
isso desaparecesse, mesmo que doesse.
Cyrus pegou o terrário e o levou até Cami. — Posso ficar com
ele?
— Claro que pode. Vamos vê-las nascer juntos e depois libertá-
las. — Cami sorriu para Bess enquanto Cyrus continuava a estudar
o interior do terrário. — O Cyrus começa a escola na segunda-feira,
e eu volto ao trabalho.
— Mal posso esperar, — disse Bess. — Temos que colocar o
papo em dia. — Ela deu uma piscadela exagerada para Cami, e
Cami sabia que ela estava falando do Rex. Rex. Meu Deus, seu rosto
queria se transformar num sorriso bobo toda vez que pensava nele.
Um grupo de clientes que ela tinha visto vagando pela
exposição de borboletas entrou pela porta, e Bess os cumprimentou
no momento em que o celular de Cami tocou.
— Ligue se precisar de alguma coisa, — disse Cami. Bess
acenou, e Cami rapidamente mudou a placa na porta de ABERTO
para FECHADO para que Bess pudesse sair de lá antes do horário
de fechamento, depois de atender os últimos clientes. Então, tirou
o celular do bolso e franziu a testa ao ver o número desconhecido.
Por um segundo, pensou em não atender enquanto ela e Cyrus
saíam da loja. Mas, quando saíram, ela considerou que tinha uma
dúzia de ligações para a nova escola de Cyrus, para o escritório local
de assistência social e para outros lugares e pessoas que a
ajudariam a recompor sua vida de mãe.
Sem mencionar que as autoridades ainda estavam
investigando o caso de sequestro de Cyrus, mesmo que isso
parecesse ter parado.
— Olá? — ela disse enquanto eles se dirigiam para o carro
dela.
— Cami? — Uma voz de mulher.
— É ela.
— Oi, Cami. Aqui é Seraphina Arnoult. Nós nos conhecemos...
— Sim, eu sei quem você é. — Cami franziu a testa. Por que
diabos a noiva do Hollis estava ligando para ela?
— Ah, ótimo. Eu... bem, isso é difícil, mas... tem como a gente
se encontrar? Estou na cidade e gostaria de discutir algo com você.
É... muito importante, e acho que você precisa saber.
Muito importante? — Espere um segundo. — Chegaram ao
carro de Cami, e ela ergueu o dedo para Cyrus, indicando que
precisava de um minuto, trancou a porta e jogou a bolsa no banco.
Esperou Cyrus entrar enquanto permanecia do lado de fora do
veículo. — Você está na cidade? — perguntou a Seraphina. —
Onde?
— Estou na propriedade da família de Hollis. Você deve saber
que, desde que o pai dele morreu, a mãe dele passa a maior parte
do tempo na casa deles em Palm Beach. Eles mantêm esse endereço
principalmente por causa da candidatura de Hollis ao Congresso.
Ele prefere sua casa em Washington, D.C., mas, sabe...
— Ele tem que morar no estado que quer representar, —
concluiu Cami. Ela sabia que ele não morava mais em Aspen Cove,
mas presumiu que ele tivesse uma casa em algum outro lugar na
Virgínia. Não ficou surpresa que ele, de fato, não tivesse. Hollis era
um impostor. Ele estava até mentindo para os eleitores sobre seu
local de residência.
— Certo, — disse Seraphina. — De qualquer forma, estou aqui,
se você se lembra onde é. Não vou tomar muito do seu tempo. E,
por favor, Hollis não pode saber que vamos nos encontrar. Prefiro
que você mantenha isso entre nós, pelo menos por enquanto.
Depois você pode decidir...
Cami fez uma pausa, ainda mais curiosa sobre o que
Seraphina tinha a dizer. Ela se lembrava muito bem de onde ficava
a propriedade da família de Hollis. Ficava a apenas alguns
quarteirões da casa onde sua vida havia sido destruída. Ela não
havia voltado àquele bairro desde então. Evitava até mesmo dirigir
perto dele a todo custo. Mas a única informação “muito importante”
que Cami imaginava que Seraphina quisesse compartilhar seria
sobre Cyrus e, potencialmente, o envolvimento de Hollis no
sequestro do filho deles.
O que mais?
Ela precisava ouvir o que Seraphina tinha a lhe dizer. Mas não
queria correr o risco de Cyrus ouvir, e não queria colocá-lo em uma
situação da qual não tinha certeza, mesmo que Seraphina pesasse
uns 45 quilos e agisse como um rato assustado.
— Preciso deixar Cyrus em casa e depois vou. Me dê quarenta
e cinco minutos? — Ela ligaria para Rex quando fosse até lá e o
avisaria que talvez estivessem um pouco atrasados para o jantar e
o motivo.
— Claro. Até lá. Podemos sentar lá fora, no pátio.
Lá fora. Melhor ainda. — E o Hollis realmente não sabe disso?
Seraphina soltou um pequeno som de escárnio. — Ele me
mataria se soubesse que estou ligando para você. Ele está em
Alexandria para um comício mais tarde esta noite. Se você ligar a
TV, poderá assisti-lo dando uma entrevista ao vivo lá agora mesmo.
Cami olhou para Cyrus no banco da frente, ainda obviamente
fascinado pelo terrário enquanto ele o segurava em frente ao rosto,
olhando fixamente para dentro. — Ok, até breve.
— Ótimo. Obrigada, Cami. Entre pelo portão dos fundos. te
Esperarei.
Cami abriu a porta do motorista e entrou, olhando para se
certificar de que Cyrus estava com o cinto de segurança afivelado
antes de colocar o seu. — Preciso me encontrar com alguém
rapidinho, então vou te deixar na casa do seu avô por mais ou
menos uma hora, ok?
— Certo. Com quem você vai se encontrar?
— Uma mulher que você não conhece, mas não vou demorar.
E depois te pego para jantar.
— Jantar com Rex, certo?
— É. — Ela já percebia que Cyrus estava se apegando a Rex
pela maneira como ele sempre perguntava onde ele estava. Sabia
que era porque Rex o fazia se sentir seguro e porque o considerava
parte de sua heterogênea e inesperada unidade familiar. Isso a
preocupava um pouco, já que Rex não ficaria lá por muito tempo e
Cyrus já havia perdido o suficiente para uma curta vida.
Mas ela também sabia que Rex era o tipo de homem que iria
verificar Cyrus, não importa o que acontecesse entre eles.
Rex. Seus lábios se curvaram por vontade própria, e um calor
se espalhou por sua barriga. Deus, ela estava tão imersa.
Ele tinha sido uma presença forte e constante desde o
momento em que ela apareceu em sua porta.
Ela o amava. Não havia dúvida, nenhuma dúvida.
E em breve, muito em breve, ela teria que se despedir. Ele faria
tudo o que estivesse ao seu alcance para garantir que ela e Cyrus
estivessem seguros, ela sabia disso. Mas ela também entendia que
ele tinha outra vida para começar em outro lugar. Vê-lo partir seria
uma dor insuportável.
Talvez esse breve reencontro tenha sido um presente do
universo para ambos, um ser maior que sabia o quanto eles
estavam certos, mesmo que o momento nunca tenha coincidido.
Vinte minutos depois, ela entrou na garagem do pai e, com
Cyrus, caminhou até a porta. A campainha tocou lá dentro e, um
minuto depois,
Gigi atendeu: — Cami, Cyrus, eu não sabia que vocês viriam.
— Mas, pela forma como Gigi correu para abraçar Cyrus e bagunçar
seus cabelos, e pelo sorriso caloroso que deu a Cami, ela sabia que
eles eram bem-vindos. E naquele momento, ela se sentiu mais grata
do que nunca por seu pai ter encontrado aquela doce mulher.
— Desculpe aparecer assim, mas aconteceu um imprevisto e
eu queria que meu pai pudesse ficar com o Cyrus por uma hora.
Volto o mais rápido possível.
— Ah, não precisa se apressar. Seu pai correu para a loja e só
chega em casa daqui a uns vinte minutos, mas eu fico feliz em ficar
com o Cyrus. Ainda temos a segunda metade de Forrest Gump para
assistir. Ele nunca tinha visto, imagina?
— Uma farsa. Obrigada por remediar. — Ela piscou para
Cyrus, que sorriu de volta.
Gigi colocou a mão no ombro de Cyrus para acompanhá-lo até
a entrada. — Muito obrigada, Gigi. Cyrus, te vejo em breve. Guarde
o apetite para o jantar.
Cyrus se virou e deu um abraço apertado em Cami, e ela
respirou fundo, surpresa, mas feliz, enquanto o abraçava de volta e
passava a mão em seus cabelos macios.
Ela voltou para o carro e saiu da garagem. Enquanto dirigia,
ligou para Rex, mas caiu na caixa postal e deixou uma mensagem
rápida para ele retornar a ligação.
Ela virou a esquina, saindo do bairro do pai, em direção àquele
que jamais imaginou que visitaria novamente. Seu coração batia
acelerado, os nervos vibrando como as asas das pequenas criaturas
que ela transformara em seu trabalho de vida. Tinha um profundo
pressentimento de que não iria gostar de nenhuma notícia que
Seraphina lhe desse.
Cami entrou na entrada da garagem que levava à casa da
família de Hollis. Prendeu a respiração, as mãos agarrando o
volante ao entrar naquele bairro. Tinha sido tão difícil, mas ela se
sentiu surpresa e aliviada por estar se recuperando também, de
uma forma que não esperava. Viu a mãe e a irmã por toda parte
enquanto percorria aquelas ruas ainda familiares, desejando ter
feito isso antes. As memórias vívidas ali eram o que tanto a
aterrorizava, mas desconsiderou o poder das boas sobre as ruins.
A propriedade Barclay ainda era uma propriedade
deslumbrante e, embora Hollis não morasse lá, estava claramente
sendo cuidada. O gramado estava impecável, os arbustos estavam
bem aparados e, quando ela passou pelo portão aberto, viu o olho
da câmera de segurança se voltar para ela.
Talvez Seraphina não quisesse que Hollis soubesse sobre o
encontro, mas a visita de Cami ali agora estava registrada em filme,
então sua noiva não estava tomando nenhuma medida para mantê-
la em segredo para sempre.
Ela ficou surpresa ao ver uma limusine estacionada em frente
à garagem para três carros, mas quando o motorista virou a cabeça
em sua direção por trás do vidro escuro enquanto ela estacionava
ao lado do carro, ela se sentiu ainda melhor por haver outra pessoa
ali.
Uma borboleta passou voando pelo para-brisa enquanto ela
estacionava e desligava a ignição. Ela saiu do carro, com os olhos
fixos na criatura brilhante, e ficou observando-a com certo espanto.
Era uma borboleta-tigre-oriental, a favorita de Elle, e ela ficou
parada enquanto ela se aproximava e pousava em seu ombro.
Lágrimas ameaçavam brotar enquanto ela prendia a respiração e
então se virava para observá-la se afastar, descendo o caminho em
direção ao pátio dos fundos.
Cami a seguiu, perdendo-a de vista quando ela voou para trás
de uma hortênsia de folhas de carvalho. Ela ouviu o leve estalo do
que parecia ser o de sapatos em pedra e se inclinou ao redor da
casa para observar a área. Lá estava Seraphina do outro lado da
piscina e, por um instante, Cami viu o bater de pequenas asas bem
atrás dela antes que, mais uma vez, a borboleta desaparecesse.
Seraphina cruzava os braços e mordia o lábio enquanto
andava de um lado para o outro, claramente nervosa e preocupada.
Cami ficou ali parada por um momento, usando a distração
de Seraphina para se recompor. Ela sentiu que deveria estar
preparada para o que quer que a mulher fosse lhe dizer. E enquanto
hesitava, esse sentimento a atingiu, mais forte do que quando
percorrera as ruas daquele bairro. Ela as sentiu, sua mãe e sua
irmã, e supôs que isso não fosse surpreendente, considerando onde
estava, mas o peso da presença delas parecia mais real do que
simplesmente as memórias que corriam soltas em sua cabeça. E
embora não conseguisse descrever exatamente, esse sentimento lhe
deu coragem. E uma estranha certeza.
Ela olhou para a casa da piscina, lembrando-se daquele dia,
há muito tempo, em que falara com Rex pela primeira vez, antes
mesmo de ter certeza de que estava grávida de Cyrus. Ela sentia um
desejo louco de voltar no tempo, agarrá-lo e evitar toda a tragédia,
toda a dor e tristeza.
Se ao menos a vida funcionasse assim.
De alguma forma, porém... anos depois... lá estava ela
novamente, em circunstâncias que jamais imaginaria. E, mais uma
vez, sentiu uma pausa estranha por dentro, semelhante à que
sentira onze anos antes, a mesma que descrevera a Rex naquele
deck na Califórnia.
O pensamento a fez perceber que não havia ligado para Rex
novamente, como pretendia. Ela estava com medo de viajar para
aquele bairro e, depois, sobrecarregada ao chegar, e não atendeu o
celular. Ela o tirou da bolsa no momento em que Seraphina olhou
para cima e viu Cami, e a jovem ergueu a mão em cumprimento.
Cami acenou de volta e, em vez de ligar para Rex, ela abriu
suas mensagens para enviar uma mensagem rápida sobre onde ela
estava.
De repente, ela sentiu o ar mudar atrás de si, os pelos da nuca
se arrepiando enquanto ela começava a se virar. Mas, antes que
pudesse, uma dor repentina e eletrizante irradiou, e a escuridão a
envolveu.
CAPÍTULO QUARENTA E OITO
O funeral do pai de Posey ocorreu em um sábado chuvoso,
com o céu coberto de platina. Na manhã de segunda-feira, Posey
assumiu a direção da empresa. Ela já estava familiarizada com cada
caso em andamento, então a transição foi tranquila. Ou pelo menos
o mais tranquila possível, considerando a natureza complexa do
negócio.
O fato de Anton não ter mostrado pele nem cabelo naquele dia
foi ao mesmo tempo apreciado e suspeito. Posey esperava que ele
lutasse de forma muito mais constante e deliberada. Mas o oposto
era verdade. Ele parecia ter perdido completamente o interesse na
gestão da organização Kiss.
Ele estava ocupado dando os retoques finais na extravagância
planejada para a propriedade naquele fim de semana, então talvez
ele voltasse para lutar contra Posey usando os meios à sua
disposição quando tudo terminasse.
Posey não esperava nada menos do irmão. Ele nunca fora de
ceder facilmente, e ela sabia por experiência própria que ele era
perito em guardar rancor.
E assim, ela ficou ainda mais surpresa quando Anton a
convidou para sua festa de formatura. — Vamos começar de novo,
mana, — disse ele com um sorriso. Anton tinha sorrisos diferentes
para cada ocasião, mas Posey nunca conseguira decifrar o que
significavam. Sorrisos muitas vezes a confundiam. Havia tantos
tipos e tamanhos, e cada um parecia dizer algo diferente. — Traga
aquele seu namorado.
O rosto dela esquentou. — Ele não é meu namorado. Ele é só...
um amigo.
— Talvez isso mude na minha festa. Música e vinho têm esse
efeito.
Posey empurrou os óculos para cima do nariz. Ela não bebia
vinho. Mas música... seu pai lhe dissera — ainda no leito de morte
— para dançar sempre que possível. — Então está bem. Obrigada.
Estarei lá.
Anton sorriu novamente, uma versão alternativa à anterior. —
Excelente.
Naquela sexta-feira à noite, Posey vestiu o único vestido que
possuía — um vestido de festa preto que usara em uma festa de
gala que seu pai insistira que ela comparecesse para fazer
networking. Ela se olhou no espelho, passou as mãos pelos quadris
estreitos e, em seguida, prendeu uma mecha de cabelo rebelde atrás
da orelha, com um leve toque abaixo das costelas. Ela ia a uma
festa, com um garoto que gostava de beijá-la, e eles iam dançar.
Talvez... talvez ele a pedisse em casamento.
O que era ridículo. Ela não tinha tempo para essas coisas.
Nem as queria. Nem sabia o que aquilo significava ou por que o
pensamento lhe surgira na cabeça. Posey calçou os sapatos e foi em
direção à porta, notando o estranho movimento em seus passos.
O terreno brilhava com lanternas e luzes, e a música saía de
todas as janelas da propriedade. Posey tivera que trabalhar até
tarde, e Tatum iria encontrá-la no jardim. Ela contornou a casa, o
som da música diminuindo junto com as luzes enquanto ela se
escondia nas sombras. Ela o viu parado perto das roseiras de sua
mãe, que mal começavam a brotar, e correu em sua direção, com o
coração batendo em sincronia com seus passos acelerados. Tatum
se virou e a viu, erguendo os lábios.
— Posey.
Ela parou na frente dele e ajeitou os óculos, insegura sobre
encará-lo. — Olá.
— Oi. Você está linda, Posey.
— Obrigada. Você também.
Ele estava parado de forma diferente do habitual. Mais rígido.
E olhava ao redor sem parar. — Está tudo bem? — perguntou ela.
— Sim. Claro. Está tudo bem. Quer entrar? Gostaria de
dançar?
— Sim. Eu gostaria muito de dançar.
— Certo. — Ele pegou a mão dela. A dele estava fria e úmida,
mas era uma noite fria e estaria quentinho lá dentro.
Eles caminharam pelo gramado e, ao se aproximarem da casa,
Tatum parou, e Posey também, olhando para ele com ar
interrogativo.
— Você está nervoso para dançar, Tatum? — perguntou ela.
— Eu também não sei. Mas li um livro, então estou disposta a
tentar, se você estiver. — Seu pai a havia encorajado, e seu pai era
o homem mais brilhante que ela conhecia.
Ele a encarou por um momento antes de relaxar os ombros,
pegar a mão dela novamente e continuar. — O Anton tem uma...
pista de dança mais reservada lá embaixo, — disse Tatum.
Ela olhou para frente e viu a porta que dava para a adega do
pai. Não havia muito espaço lá embaixo, mas... se Tatum disse que
era verdade, então devia ser. Uma pista de dança privativa seria
melhor do que a do salão de baile. Tantos olhos. Tantas pessoas
que poderiam rir dela. Posey estava acostumada a ser motivo de
piada, mas não na frente de Tatum.
— Certo.
Ele a conduziu escada abaixo e através da porta. Lá dentro, o
espaço era fresco e escuro, com o aroma de carvalho preenchendo
o ar.
— Onde fica a pista de dança? — ela perguntou. Ela nem ouviu
música.
— É, ah, ali na frente. Virando a esquina.
Eles viraram e viraram de novo, as luzes piscando levemente
enquanto passavam por fileiras e mais fileiras de garrafas em
prateleiras. — Posey, escuta...
Ela ouviu passos arrastados atrás de si e se virou para ver o
irmão e seis ou sete outros homens que não reconheceu. O irmão
sorriu.
— Oi, Posey Pose.
— Anton, — começou Tatum. Sua voz tremia.
— Saia daqui, Devore.
Os olhos de Tatum encontraram os de Posey, e ele os fechou
momentaneamente. — Desculpe, Posey. Meu pai e eu tivemos uma
briga. Preciso do dinheiro. Espero... Sinto muito. — E então Tatum
se aproximou, os homens se abrindo para deixá-lo ir enquanto ele
corria para a porta.
Dinheiro? Que dinheiro? Posey não entendia. Anton recuou,
mas seus amigos avançaram, cercando-a. — Eu gostaria de ir
embora agora, — disse ela. Mas quando ela tentou se mover entre
dois deles, eles a empurraram pelo ombro e ela cambaleou para
trás, e então os homens atrás dela a empurraram para frente
novamente enquanto ela saltava entre eles. — Tatum? — ela
chamou, sua respiração acelerada. Mas tudo o que ouviu foi o bater
distante de uma porta.
Um dos homens se inclinou em sua direção, e ela sentiu o forte
cheiro de bebida em seu hálito. Ele passou o dedo sobre o seio dela,
e ela se afastou bruscamente. Ele sorriu.
— Anton, — disse ela, inclinando-se para um lado e depois
para o outro enquanto tentava localizá-lo. — Diga aos seus amigos
para se afastarem.
Sua risada soou do outro lado, ecoando nas paredes do
pequeno espaço. Eles começaram a se aproximar, andando em
círculo. — Circule a rosa, — disse um deles, arrastando as palavras.
Risadas. Risadas.
— Um bolso cheio de Poseys, — cantou outro, enunciando seu
nome.
Posey se lançou em direção a um e depois ao outro. — O que
vocês querem? Me deixem em paz.
— Cinzas, cinzas, todos nós caímos. — Eles desceram sobre
ela como um bando, rasgando suas roupas e sua pele, penetrando
em seu corpo, um a um, repetidamente. Seus gritos se abafaram
sob eles, e não havia chance de serem ouvidos em meio à festa
barulhenta lá em cima. Cheiravam a álcool, suor e algo mais que
Posey não sabia identificar, mas jamais esqueceria.
Ela perdeu a consciência, ficou à deriva e então foi puxada de
volta para seu corpo agonizante. Tossiu e cuspiu enquanto um
líquido ardente descia por sua garganta. Sentiu uma brisa fria em
sua pele nua e ouviu o motor de um carro. Moveu-se com ele, e o
movimento a fez vomitar, engasgar e vomitar novamente.
As pessoas discutiam, as palavras voavam de um lado para o
outro. Ela não conseguia juntar as palavras. Só sentia dor.
Então ela estava voando, o vento chicoteando seu rosto
enquanto ela disparava pelo espaço antes de se fundir com a
escuridão e finalmente se tornar ela.
Luzes brilhantes. Antisséptico. O zumbido de vozes. Mais
escuridão. A voz de Anton.
Não. Não. Ela se debateu. Anton fez isso. Ela tentou nadar para
sair da escuridão, mas era tão densa que ela não conseguia se
mexer.
Então a voz dele, flutuando pelo éter negro, ecoou por todos
os lados ao seu redor, de modo que ela não conseguia escapar. Não
conseguia escapar dele. Seus olhos não abriam. Ela tentou correr,
se mover, mas nada parecia funcionar. Então a voz dele, vinda de
algum lugar além.
— Você vai ficar bem, minha irmã. Eu cuidarei de você com
toda a bondade do meu coração. Vê-la tão indefesa... — Um suspiro.
— Eu não sou um monstro, Posey Pose. Mas vou comandar as
coisas daqui em diante.
CAPÍTULO QUARENTA E NOVE
Rex saiu do chuveiro e rapidamente enrolou uma toalha na
cintura quando ouviu o celular tocar no quarto. Deu uma olhada
na cama desarrumada enquanto pegava o celular, uma onda de
calor percorreu seu peito ao se lembrar da aparência de Cami
esparramada naqueles lençóis.
Ele olhou para a tela antes de responder: — Erik.
— Ei cara, consegui os dados de geolocalização que você
solicitou.
— Fantástico. Alguma coisa boa? — Rex largou a toalha e
vestiu a cueca boxer.
— Talvez. Não houve muita atividade ultimamente. Imagino
que a maior parte tenha sido do dispositivo usado pelo cara que
caiu no fundo de um penhasco. — Rex estremeceu, mas soltou uma
risada enquanto vestia a calça jeans. — Mas eu voltei. Houve uma
visita há alguns anos de um telefone que também aparece em um
local interessante depois.
Rex se encostou na cômoda, cruzou um braço sobre o
estômago e segurou o telefone na frente dele com o outro.
— A propriedade da família Kiss em Spring Valley, DC.
— DC? Sério?
— Sim, pensei que isso chamaria sua atenção.
Sim, chamou. Foi a primeira coisa que aproximou o sequestro
de Cyrus na Califórnia do estado natal de Cami, Virgínia. Pelo
menos geograficamente falando. — A família Kiss? — Isso não me
lembrava nada.
— É. Pesquisei um pouco e aqui está o interessante sobre a
família Kiss. Eles são conhecidos como mediadores profissionais.
Mas há muito tempo correm boatos de que sua operação de
gerenciamento de crises vai muito além de disputas judiciais e
golpes políticos sujos. Aliás, parece ser um segredo bem conhecido
que eles empregam métodos que, digamos, não seriam
categorizados como honestos.
— Assassinato de aluguel? — ele imaginou. —
Desaparecimentos convenientes?
— Tudo isso. Mal comecei a investigar, mas já encontrei
alguns trabalhos malfeitos que apontam para pelo menos alguns
subornos da polícia. Nenhuma investigação legítima teria deixado
passar uma merda dessas. E, pelo que posso perceber, as coisas
parecem ter ficado especialmente desleixadas desde que Anton Kiss
assumiu o controle do império.
— Quando foi isso?
— Em meados dos anos noventa, quando seu pai morreu e
deixou tudo para ele, incluindo o negócio.
Trabalho malfeito. Trabalhos malfeitos? Isso o fez pensar no
que Cami lhe contara sobre ouvir seus agressores lamentarem o
desastre. Teria essa família — os Kiss — sido contratada por alguém
para torturar e matar os Cortlandt? Teria sido essa pessoa quem
enviou aqueles dois homens? Se sim, quem estava por trás disso?
E como a ligação da mulher desconhecida para Cami se encaixava?
Cami havia refletido se essa pessoa poderia ter tido um ataque de
consciência, já que, no fim das contas, a ligação ajudara Cami a
chegar até Cyrus. Se sim, teria que ser alguém de dentro. — Alguma
mulher na família Kiss? — perguntou ele.
— Sim, na verdade. Josephine Kiss. Aparentemente, pelo
pouco que descobri sobre ela, ela é meio sábia, com uma
inteligência fora do comum em números e computadores, mas com
dificuldades sociais. No entanto, não se tem notícias dela há
décadas. Ela sofreu um acidente em que foi arremessada para fora
do carro aos dezoito anos e ficou tetraplégica.
— Isso é horrível.
— É. Não fica muito pior.
— E ela não foi vista desde então?
— De qualquer forma, nenhuma aparição pública, enquanto
seu irmão, Anton, parece ser um homem importante na cidade.
Interessante. — Mais alguma coisa?
— Por enquanto é só. Vou sair para trabalhar em algumas
horas, então é tudo o que consegui descobrir.
— É muito apreciado. Eu falei sério quando disse que gostaria
de...
— Nem pense nisso. Eu não aceito dinheiro de amigos.
— Tudo bem. Da próxima vez que precisar de um favor...
— Eu sei exatamente para quem ligar. — Rex ouviu o sorriso
na voz do amigo.
— Ei, fique seguro, cara.
— Sempre.
Rex desligou e pegou uma camiseta da mochila antes de ir
para a cozinha, onde havia deixado o laptop sobre a mesa. Não se
deu ao trabalho de pesquisar mais sobre a família Kiss. Sabia muito
bem que Erik tinha acabado de lhe dar toda e qualquer informação
pertinente disponível, pelo menos em uma busca básica.
E ele não tinha tempo para mais do que isso agora, de
qualquer forma. Mas ele reservou um momento para pesquisar o
nome deles no Google, apenas para ter uma ideia visual.
Como Erik havia dito, ele encontrou uma infinidade de fotos
de Anton Kiss em eventos sociais, um após o outro, a última delas
apenas alguns dias antes. Ele era bonito, de um jeito agressivo.
Testa larga, nariz e maçãs do rosto afilados. Olhos que pareciam
desafiar a câmera, mesmo com a boca esboçada num sorriso.
Havia muito menos fotos de Josephine Kiss e, como Erik havia
dito, todas eram dos anos 90. Ela também tinha um olhar direto,
evidente até mesmo por trás dos óculos, mas enquanto o do irmão
parecia levemente ameaçador, o de Josephine parecia
simplesmente sincero. E quase... inocente. Quase.
Rex parou na foto mais recente, embora não fosse tão recente
assim. Josephine estava ao lado de um homem mais velho,
identificado na legenda abaixo como seu pai. A mão dele repousava
protetoramente em seu ombro, e ele sorria para ela com carinho. O
olhar de Rex se fixou na jovem. Ela parecia uma daquelas bonecas
Kewpie antigas. Cabelo escuro até o queixo e franja que terminava
logo acima das sobrancelhas arqueadas. Olhos redondos, com cílios
grossos, lábios carnudos, mas uma boca estreita. Havia algo muito
atraente em seu rosto, e Rex se demorou nele por mais tempo do
que pretendia.
Quem é você, Josephine Kiss?
E o que exatamente aconteceu com você?
Ele realmente queria saber.
As perguntas o fizeram lembrar o que ele pretendia fazer pouco
antes de receber a ligação de Erik. Ele minimizou o navegador e
abriu outro, digitando o endereço do site da campanha de Hollis.
Mais uma vez , Rex levou apenas dois minutos para hackear. Ele
revisou os e-mails e descobriu que o de Cyrus havia sido excluído.
Tudo bem. Nada era realmente excluído, e Rex já havia salvo uma
cópia de qualquer maneira. Ele não ficou surpreso ao descobrir que
a mensagem havia desaparecido, agora que Cami visitara Hollis e o
alertara sobre o fato de que a mensagem era do garoto, e que ela
sabia disso. Hollis poderia estar encobrindo seus rastros ou
simplesmente apagando evidências de que havia ignorado o pedido
de ajuda de uma criança.
Ele não conseguia parar de pensar no que Cami lhe contara
sobre ter jogado aquele espelho para a Sra. Willoughby pela janela
enquanto a segurava nos braços na cama. A visão o incomodava,
percorrendo sua mente repetidamente, mesmo antes de estar
totalmente acordado. A princípio, ele pensara que era apenas seu
sistema nervoso reagindo à imagem que lhe evocara de Cami
amarrada à cama, com a boca tapada enquanto tentava
desesperadamente pedir socorro. Meu Deus, como o atormentava
pensar nela daquele jeito.
E isso causou uma admiração imensa demais para ser
sustentada. Sua graça sob fogo deveria ser ensinada em aulas
militares. Por outro lado, esse tipo de coragem não se aprende. Ou
a pessoa a tinha, ou não. Ele já havia trabalhado com soldados
suficientes que tinham ido para o inferno e voltado para saber disso.
Então, sim, ele estava tomado de reverência por ela, mas não
achava que essa fosse a única razão pela qual a imagem continuava
aparecendo em sua mente.
Foi assim que, da última vez que navegara pelo site aberto à
sua frente, caixas de resposta apareceram sem parar. Havia um...
desespero que ele não conseguia identificar. A maneira como os
números apareceram, o cursor retrocedendo várias vezes, como se
estivessem sendo digitados às pressas e erros estivessem sendo
cometidos. Ele podia estar enganado, mas Rex aprendera a seguir
seus instintos de qualquer maneira. Às vezes ele estava errado,
mas, na maioria das vezes, não.
Se alguém estivesse tentando se comunicar com ele pelos
fundos deste site específico, essa pessoa sabia que ele estaria lá, ou
suspeitava que estaria e então esperava que ele chegasse. E isso só
seria possível se essa pessoa conhecesse todos os detalhes da
investigação atual dele e de Cami. Além disso, essa pessoa era
extremamente nervosa, digitadora ruim ou... debilitada.
Ela sofreu um acidente quando foi arremessada para fora do
carro aos dezoito anos e ficou tetraplégica.
Será que a pessoa que tentava se comunicar com ele seria...
Josephine Kiss? A possível informante sobre a qual eles se
perguntavam? Que tipo de cenário absurdo teria levado a isso? Ele
não conseguia nem imaginar.
Ele clicou no site. Os dois rascunhos de posts do blog haviam
sido publicados, vários e-mails sem importância haviam sido
enviados, muitos comentários haviam sido registrados, alguns
positivos, outros não. Rex imaginou que isso era bastante comum
para um político concorrendo a qualquer cargo, de presidente a
apanhador de cães.
Ele ficou tempo suficiente para perceber que não havia
ninguém com ele. Olhou para a sequência de números que havia
anotado ao lado do computador. Significavam alguma coisa. Ele os
digitou em um navegador de várias maneiras diferentes, mas nada
apareceu. A princípio, pensou que pudessem ser latitude e
longitude, mas não eram. Entrou na dark web e deu uma olhada
no site onde o vídeo de Cyrus estava sendo exibido, mas também
não encontrou nada.
Ele pensou novamente por um minuto, e algo lhe ocorreu. E
se... parecesse fácil demais. Mas ele estava dentro deste site quando
os números foram exibidos, e talvez eles fossem feitos para serem
usados ali mesmo?
Ele foi até a caixa de entrada de Hollis e passou dez minutos
procurando o que esperava encontrar, soltando um suspiro de
frustração quando não obteve sucesso. Mas ele estava no caminho
certo — percebeu pela sequência de números que havia
identificado. Ele foi até a caixa de entrada de Hollis e começou a
vasculhar novamente a fonte bruta de cada mensagem para
encontrar o identificador, números normalmente ocultos do
usuário por não serem úteis ou necessários.
Foi aí que ele encontrou o tesouro.
Seu coração deu um pulo vitorioso, e ele rolou a mensagem
com a mesma sequência única de números que lhe fora dada por
quem o havia seguido anteriormente neste site. A pessoa estava se
comunicando com ele, assim como aquele clarão de luz havia sido
uma mensagem para a Sra. Willoughby. Ele não sabia por que,
como ou quem poderia querer sua atenção, pelo menos naquele
assunto. Mas quem quer que fosse, o estava apontando para aquele
e-mail específico.
A mensagem era uma resposta de Hollis a um funcionário que
perguntava sobre o histórico de violência na família de sua noiva,
Seraphina. O funcionário pareceu achar que seria interessante
mencionar o passado dela como uma conexão pessoal com os
efeitos muito reais da negligência com a criminalidade.
Mas Hollis respondeu que Seraphina não estava disposta a
falar sobre esse assunto, pois o trauma ainda estava muito
presente.
Violência? Crime? Trauma?
Os sentidos de Rex estavam zumbindo.
Ele abriu um navegador e procurou por Hollis, lendo
rapidamente o primeiro artigo para encontrar o nome completo de
Seraphina. Seraphina Arnoult. Fez uma busca rápida por ela, mas
os únicos resultados foram notícias sobre Hollis.
Histórico familiar de violência.
Rex usou uma ferramenta de busca de pessoas para encontrar
seus contatos mais próximos, desembolsando vinte e nove dólares
para obter o relatório completo. Era um trabalho amador, mas sem
o apoio do governo dos EUA — e todas as ferramentas de alta
tecnologia que ele oferecia — era o melhor que ele conseguia fazer
em tão pouco tempo.
Era o suficiente, no entanto, já que a mulher que parecia ser
sua mãe, se a idade fosse um indício, tinha um sobrenome
diferente.
— Glory Jacobson, — murmurou ele.
Ele leu rapidamente todo o relatório que havia comprado, mas
não havia mais nada de realmente relevante. Nenhum registro,
nenhuma falência, nenhum casamento ou divórcio.
Ele fez uma busca por Glory Jacobson e sentiu a pele formigar
ao ler a manchete do primeiro resultado: Família sofre invasão.
Em termos de manchetes, foi bem banal. Mesmo assim, a
irritação não diminuiu.
Ele leu tudo o que estava disponível, então o quadro estava
completo.
Então Rex recostou-se na cadeira por um minuto, permitindo
que todas as informações circulassem. Era isso. Era o elo perdido.
Tinha que ser. Tudo o que Cami e sua família — e mais tarde, Cyrus
— vivenciaram, tudo se originou ali.
Rex pegou o celular e, quando foi ligar para Cami, percebeu
que havia perdido uma ligação dela pouco antes de Erik receber a
ligação.
— Droga, — murmurou enquanto ouvia a mensagem de voz
dela. Ela não havia deixado nenhuma informação além de retornar
a ligação, mas parecia que estava no carro. Ele discou o número
dela. — Vamos lá, — disse ele, logo antes de a mensagem de voz
dela cair. — Cami, me liga assim que receber, — disse ele. — Tenho
algumas informações.
Voltou ao computador e fez outra busca rápida para
corroborar o que acreditava ser verdade sobre a conexão entre o
crime sofrido pela família de Seraphina e o cometido contra os
Cortlandt. Exatamente como havia presumido, Louis Swift, o
homem citado na reportagem que invadiu e vitimou a família de
Seraphina, havia sido preso seis meses antes por invasão de
domicílio. Louis vinha de uma “família íntegra” e, embora fosse um
crime grave, era sua primeira infração, e ele próprio alegava estar
sob efeito de drogas e álcool. O tribunal foi brando com ele. Ele foi
condenado a 30 dias em um centro de reabilitação e depois liberado,
de volta à comunidade.
Não havia informações disponíveis online sobre quem era o
juiz, mas, com base na localização, Rex tinha quase certeza de que
conseguiria adivinhar. Por enquanto, um palpite bastava.
Como diabos Seraphina tinha acabado noiva do homem com
quem Cami estava namorando na época do crime cometido por sua
própria família, ele não conseguia entender. Mas tinha certeza de
que não fora por acaso.
Rex pegou as chaves. Não podia ficar sentado esperando Cami
retornar a ligação. Eles só se encontrariam para jantar dali a
quarenta e cinco minutos, mas ele precisava encontrá-la
imediatamente.
CAPÍTULO CINQUENTA
Cami ouviu alguém chamando seu nome, uma voz feminina e
distante. Mãe? Elle? Ela se esforçou para encontrá-las, mas seus
músculos não se moviam e sua cabeça estava tão confusa que ela
não sabia para onde se virar. Onde você está?
Ela pronunciou o nome da mãe arrastadamente através do
algodão grosso em sua boca, o som abafado e ineficaz. A imagem de
uma mordaça lhe causou uma onda de medo e a fez atravessar a
névoa.
Seus olhos se abriram e ela piscou para a mulher que a
encarava. Seraphina. O olhar de Cami percorreu o ambiente
enquanto ela tentava se orientar. A paisagem passava rapidamente
pela janela escura do carro, e Seraphina estava sentada em um
assento de couro macio bem à sua frente. Elas estavam em uma
limusine em movimento.
Como? O quê?
A lembrança voltou lentamente. Aquela mulher estava
esperando por ela. Cami começou a chamar Rex e então alguém
apareceu por trás...
Ela tentou em vão levantar a cabeça do encosto do banco, mas
seus músculos não responderam. — O que você me deu? — disse
ela, arrastando as palavras.
— Um relaxante muscular, — explicou Seraphina. — Sinto
muito por ter te drogado. E amarrado suas mãos. Sei que fizeram
isso com você também. Li e assisti tudo sobre o crime que você
sofreu. Infelizmente, não sou forte o suficiente para te subjugar,
então precisei de narcóticos. Ah, e um funcionário moralmente
incerto com uma dívida considerável e um bom motivo para aceitar
dinheiro por baixo dos panos. — Ela inclinou a cabeça para trás,
em direção ao contorno da cabeça do motorista da limusine atrás
da divisória escura.
Cami olhou para baixo e, exatamente como Seraphina havia
dito, suas mãos estavam presas por braçadeiras. E quando ela
olhou para o chão, viu que as braçadeiras também prendiam seus
tornozelos. Sua respiração parou e, embora tentasse
desesperadamente mover o corpo dentro dos limites do cinto de
segurança, seus músculos permaneceram inativos, e suas
tentativas frenéticas não fizeram nada além de deixá-la mais tonta.
— Para onde você está me levando?
— Para Hollis.
Uma cascata de medo a percorreu desconfortavelmente, mas
muito lentamente. Seu corpo não conseguia processar as emoções,
muito menos reagir. — Por quê?
Seraphina olhou pela janela e depois para Cami. — Não posso
te contar tudo, mas temos que dirigir um pouco, então vou te contar
o que você precisa saber.
Ela tentou novamente lutar contra as braçadeiras, mas estava
fraca e ineficaz demais. Tudo o que conseguia fazer era ouvir.
Seraphina tirou uma foto da bolsa ao lado e estendeu para
Cami ver. Era a foto de uma família — a mãe, uma ruiva bonita com
um pescoço majestoso, o pai, um homem de ombros largos e um
sorriso torto, e entre eles, uma garotinha de óculos, cabelo loiro
curto e um sorriso banguela.
— Sou eu, — disse Seraphina, apontando para a criança. —
Minha fase estranha durou mais do que eu gostaria, mas
finalmente superei. — Ela deu de ombros e sorriu. — Como você e
eu sabemos, se eu não tivesse feito isso, Hollis nunca teria me
olhado duas vezes.
A versão linda e adulta daquela criança outrora desajeitada se
inclinou para frente e deu um tapinha na mulher de cabelo ruivo.
— Essa era minha mãe, Glory. Ela era violinista clássica. —
Um sorriso triste surgiu em sua boca. — Meu Deus, ela tocava tão
lindamente. Iluminava o rosto dela por inteiro. Dava vida a todo o
seu ser. Você já viu uma pessoa brilhar assim? Ela estava apenas
começando a ganhar notoriedade. Era só uma questão de tempo, e
ela teria se tornado uma estrela. — Ela fez uma pausa, seu olhar se
movendo de onde havia parado, de volta para Cami. — Ela ordenou
o assassinato da sua família.
Todo o ar saiu dos pulmões de Cami, e a tontura adicional a
fez ver manchas. — O quê? — A palavra saiu sussurrada, curta e
tão vaporosa quanto ela se sentia. Desossada. Flutuando.
Essa era minha mãe, Glory. Ela ordenou o assassinato da sua
família.
— Para entender o porquê, você precisa primeiro saber o que
aconteceu conosco. — Ela acenou com a cabeça para a foto que
havia colocado sobre a mesa. — Ele arrombou a janela dos fundos,
o homem que aterrorizou nossa família. Ele estava procurando
dinheiro ou drogas, nos amarrou e saqueou nossa casa. Minha mãe
tentou revidar, e ele quebrou a mão dela. Esmagou os ossos
daqueles dedos talentosos com o salto da bota. Ele pisou naquela
mão preciosa, Cami. Esmagou-a com o sapato como se não
passasse de lixo inútil. Ela nunca mais tocou. Meu pai se urinou.
— Seu rosto se contorceu momentaneamente, e ela balançou a
cabeça. — Às vezes acho que esse é o verdadeiro motivo pelo qual
ele acabou partindo, não a bebida da minha mãe. Ele não suportava
saber que tínhamos visto um homem adulto se mijar de medo.
Os pontos confusos que ameaçavam roubar sua consciência
se dissiparam novamente, mas o choque permaneceu. — Sua, sua
mãe, onde ela está? — Ela sabia agora, finalmente, depois de tantos
anos de sofrimento e tormento, quem era o responsável pelos
assassinatos de sua mãe e de sua irmã. E, no entanto, ainda não
conseguia se conectar totalmente com suas emoções. Aquilo mal
parecia real, e ela ainda lutava para se manter alerta.
— Minha mãe morreu, — disse Seraphina. — Ela morreu há
muito tempo. Mas, na sequência do crime, meu pai partiu, e minha
mãe se anestesiou com álcool, sua carreira acabou e seus sonhos
acabaram. Eu me perguntei ao longo dos anos por que a mídia não
publicou nossa história. Mal recebemos mais do que uma
reportagem de dois parágrafos, na última página. Eles relataram
como um arrombamento com ferimentos leves. Mas nossa vida foi
demolida. Nossa família foi destruída, e eles chamaram isso de leve.
Você não imagina como é isso, Cami. Ser dispensada dessa forma.
— Ela passou um dedo sob o lábio, retocando o gloss. — Eu me
perguntei se era porque meus pais eram solteiros, ou talvez
nenhum deles fosse importante o suficiente, minha mãe bonita,
mas não bonita no horário nobre. Não como a sua mãe. Não como
você e sua irmã. — Ela inclinou a cabeça enquanto observava
novamente a estrada passar pela janela. — Talvez simplesmente
não tenha dado certo. Pouco drama. Talvez houvesse uma história
maior naquele dia, algo ainda mais interessante, e a nossa se
perdeu no noticiário. Enfim, acho que não importa o porquê. O que
aconteceu conosco foi varrido. Mas não para nós. Tivemos que
conviver com as consequências todos os dias. Aposto que você
nunca ouviu falar disso, não é? Mesmo tendo sido seu pai quem
libertou o homem que nos vitimou.
Cami engoliu em seco, fechando os olhos por um instante. Lá
estava. Ela e Rex estavam certos. Parecia que um balão havia
murchado dentro do seu peito e, por um breve instante, ela jurou
ter sentido o cheiro azedo do hálito de Trig enquanto ele a torturava.
A mãe daquela mulher havia enviado aqueles homens para se
vingar do pai dela. Ela queria que fizessem com a família de Cami o
que fizeram com a dela. Como?
— Como ela pôde? — perguntou. Como alguém que passou
por algo assim poderia querer ver o mesmo acontecer com outra
pessoa? — Como isso poderia parecer justiça?
O olhar de Seraphina permaneceu nela por vários longos
momentos, mas, no final, ela não respondeu de fato à pergunta de
Cami. Talvez nem ela mesma tivesse uma para fazer. — Minha mãe
ficou obcecada pelo Juiz Cortlandt. Ele era o único foco dela. Ela
ficava sentada o dia todo sem fazer nada além de cuidar de uma
garrafa e da sua ruína. Era tudo o que ela falava. Semana após
semana. Mês após mês.
Um arrepio percorreu Cami, as braçadeiras de plástico em
seus pulsos cravando-se em sua pele novamente enquanto ela
instintivamente tentava agarrar algo. Qualquer coisa. Ela se forçou
a respirar, a se concentrar e a digerir. Seraphina também fora
vítima naquela época, mas havia retido essa informação, um
conhecimento que poderia ter trazido a ela e ao pai um pouco de
paz, por muito, muito tempo. — Você disse que sua mãe morreu.
Como? Por quê?
Seraphina emitiu um leve zumbido. —U m afogamento
acidental na banheira um ano depois que sua mãe e irmã foram
enterradas, ou pelo menos foi assim que a morte dela foi declarada.
O nível de álcool no sangue dela estava muitas vezes acima do limite
legal. — Ela fez uma pausa tão longa que Cami pensou que já tinha
terminado de falar sobre o assunto. Mas então continuou: — A
forma como a mídia estava obcecada com o seu caso, acho que foi
o insulto final. Espero que ela também se sentisse culpada, embora
eu não possa falar sobre isso. Enfim, o consumo de álcool dela
aumentou. Na maioria dos dias, ela não saía do quarto. Muitas
vezes a imagino apenas mergulhando pacificamente na água, e às
vezes isso me conforta, e outras vezes, sei que ela se safou muito
mais facilmente do que merecia.
Ela fez. Ela se safou mais facilmente do que merecia. Mas sua
filha estava sentada ali agora; sua filha era quem tinha drogado e
sequestrado Cami.
— E você? — perguntou Cami. — Você deve tê-lo culpado
também. Foi por isso que guardou o segredo dela? Até agora. Onze
anos dolorosos.
Seraphina pareceu pensar sinceramente sobre isso. — Acho
que sim. Na época. Eu era jovem e estava constantemente
assustada. A cada segundo de cada dia. Sempre olhando por cima
do ombro. Esperando que outro monstro nos aterrorizasse.
Esperando que a outra bomba caísse. E então, mais tarde, pensei
que estava sendo leal à minha mãe. E por que não deveria? Ela
estava morta, e o que estava feito, estava feito. Eu não podia
desfazer, e estava com medo de ser considerada cúmplice também.
Eu tinha ouvido o planejamento do crime contra seu pai. Eu tinha
ouvido tudo, e escolhi não impedir. Para que conste, o acordo não
incluía assassinato. Minha mãe, ela... ela só queria mostrar ao seu
pai como era estar à mercê de um monstro e pensar nisso todos os
dias pelo resto da vida. Uma boa lição, ela pensou. Talvez o tivesse
tornado um juiz melhor.
Seraphina desviou o olhar, com a expressão sombria. — O
intermediário que foi contratado enviou dois usuários gananciosos
e sem autocontrole. — A testa de Seraphina se franziu como se ela
se arrependesse do que havia dito. — Eu sei que você sabe disso
melhor do que ninguém.
Sim, ela sabia. Mas Cami não podia sucumbir à emoção. Caso
contrário, ela desabaria sob o peso dela, especialmente agora,
quando tinha tão pouco controle. — O intermediário... quem era?
Seraphina a encarou então, mas apenas por um instante
antes de se desviarem. — Minha mãe era contratada para tocar em
todos os eventos mais chiques e confraternizar com as elites de DC.
Ela costumava rir disso naquela época. Ela falava sobre como eles
eram pretensiosos. Como eram pomposos. Mas eu percebia que ela
os idolatrava. Queria ser eles. — Ela soltou um suspiro. — Ninguém
perguntou por ela depois, aliás. Ninguém ligou ou enviou sequer
uma cesta de frutas. Talvez não tivessem ouvido. Ou talvez ela não
servisse mais para nada. Eu me pergunto se isso teria mudado
alguma coisa. Um gesto, e tanta coisa poderia ter sido diferente.
A limusine diminuiu a velocidade e um carro parou ao lado,
com música alta. O motorista olhou para a limusine, semicerrou os
olhos e depois desviou o olhar antes de arrancar.
Cami não conseguiria dar um grito estridente, mesmo que
fosse ouvido através do vidro grosso da limusine e por cima do
baixo, então não perdeu tempo. Seraphina juntou as mãos à frente
do corpo.
— De qualquer forma, minha mãe conheceu um homem em
vários dos eventos em que tocou. Eles flertaram, ela ouviu os boatos
sobre a profissão dele. A família dele, logo ficou claro, era a quem
você recorria quando tinha um problema para resolver.
Um problema a resolver. As palavras de Seraphina a atingiram
como uma série de golpes. Sua mãe, sua irmã, elas morreram
porque, em algum sentido doentio e vago, eram consideradas
“problemas”. A simples ideia doía tanto que ela teve que respirar em
meio à agonia. — Quem? Diga-me o nome deles, — conseguiu dizer.
A mãe de Seraphina estava morta. Não haveria justiça ali. Mas
se Cami saísse viva dessa, ela iria atrás da família que havia enviado
os homens que estupraram e assassinaram sua mãe e irmã. E o
“consertador” poderia pagar.
Era algo a que se agarrar. Esperança em meio ao medo. Um
plano, por mais improvável que fosse. Um futuro que ainda existia
além daquela limusine trancada e das braçadeiras plásticas que a
prendiam.
— Acho que não vou te dizer isso. De qualquer forma, não
ajudaria em nada saber. Eles são altamente isolados e bem
protegidos. Minha mãe gastou cada centavo que tínhamos para
contratá-los e, quando eles estragaram o trabalho, pararam de
atender as ligações dela.
Cami levou vários instantes para se recuperar do desespero
absoluto antes de conseguir falar novamente. — Você disse que me
levaria até Hollis. Ele deve saber o que você está me dizendo agora.
— Será que Hollis também lhe escondera essa verdade horrível? Ela
sabia que ele sentia desdém e irritação por ela, mas realmente não
achava que ele a odiasse.
— Ele sabe que minha família sofreu um arrombamento que
machucou a mão da minha mãe e encerrou a carreira dela, mas
nada mais do que isso. Ele não sabe da minha ligação com você.
— Como...
— Poupe seu fôlego. Eu sei as respostas que você quer. Hollis?
Eu o procurei. Depois que minha mãe morreu, assisti ao especial
do Dateline sobre sua família. Foi a primeira vez que realmente
entendi o que aconteceu com você. Eu assisti... bem, assisti a tudo
que pude, e havia muita coisa. Há muita coisa. Artigos, programas
e atualizações. Especiais.
Sim, eu sei. Cami sabia da quantidade de material disponível
e odiava que sua agonia e trauma estivessem tão bem
documentados. Ela tentava não pensar nisso.
— Eu vi Hollis nas reportagens investigativas originais, claro,
mas depois o vi em uma reportagem subsequente de cinco anos
atrás. O jeito como ele falou, sobre a instituição de caridade que ele
havia fundado depois do que aconteceu com você, me emocionou.
Ele falou sobre como se dedicava de corpo e alma à sua filantropia
e que aquele fundo em particular era seu projeto de paixão. Seus
olhos se encheram de lágrimas, ele... bem, era uma grande besteira.
Ele canaliza o dinheiro arrecadado por aquela instituição para
financiar sua própria campanha. Mas, na época, era minha
oportunidade de... nem sei. Chegar perto.
Chegar perto? O que isso significava? Chegar perto do crime
que sua mãe havia facilitado? Por quê? Para terminar o que ela
havia começado?
Cami ficou surpresa ao ver Seraphina falando mal de Hollis.
Para ela, parecia que olhava para o noivo com grande estima. Ou
talvez ela entendesse a natureza dele, mas não se incomodasse com
sua desonestidade. — Você se ofereceu para trabalhar na
instituição de caridade? — ela imaginou.
— Sim. E depois na campanha. Hollis foi encantador no
começo. Ele me cortejou. E mais do que isso, ele me fez sentir
segura. Eu estava sozinha, Cami. Sozinha e ainda com medo. Ele
tem tanta segurança ao seu redor, e todo esse dinheiro. Isso me
permitiu ficar tão isolada quanto eu quisesse, contanto que
estivesse com ele. E eu senti essa conexão com você. — Ela deu um
sorriso para Cami que a arrepiou um pouco. — Eu nem consigo
explicar, mas no começo eu gostei. Eu gostei da ideia de estar
retomando de onde você tinha parado. Não espero que você entenda
essa parte. Talvez eu nem entenda. De qualquer forma, então
chegou aquele e-mail.
Aquele e-mail. Do Cyrus. — Você leu primeiro?
— Sim. Eu não fazia ideia de que o bebê que você teve depois...
bem...
— O estupro. Pode falar.
— Sim, depois do estupro. A mídia fez parecer que a gravidez
era consequência do crime, então você o entregou para adoção.
Nunca disseram se era menino ou menina.
— Eu mantive isso em segredo.
— Bem, seu filho obviamente descobriu.
Tantas peças do quebra-cabeça se encaixavam. Meu Deus,
Cyrus tinha mexido num vespeiro ao entrar em contato com Hollis
— as consequências intermináveis que Cami estava apenas
começando a entender, de um crime ocorrido há tanto tempo.
— Você foi responsável pelo sequestro do meu filho?
— Não. Eu não tinha ideia do que tinha acontecido até ouvi-la
contando para o Hollis. Eu não tive nada a ver com o sequestro
daquele garotinho, e o Hollis também não. Só pode ter sido uma
pessoa. Quando percebi o quão rápido isso poderia se desenrolar,
soube que precisava impedi-la de se envolver ainda mais. Tanta
coisa já tinha dado errado, desde o começo. E eu sabia que era hora
de intervir.
CAPÍTULO CINQUENTA E UM
Rex tinha passado pelo apartamento de Cami, mas o carro
dela não estava lá, e nenhuma luz apareceu lá dentro. Ele não
esperava que ela estivesse em casa, principalmente porque ela não
estava atendendo suas ligações, mas precisava verificar de qualquer
maneira.
Então ele ligou para o estabelecimento dela, mas a caixa postal
da loja informou que o estabelecimento havia fechado às cinco.
Ainda era possível que ela estivesse lá, em algum lugar do terreno,
envolvida em uma emergência com borboletas — se é que esse tipo
de emergência existia — e tivesse deixado o telefone de lado
enquanto atendia. Mas o fato de ele ainda não ter recebido resposta
dela o incomodava, e ele tinha a sensação crescente de que algo
estava errado.
Ele chegou ao restaurante onde haviam combinado de se
encontrar quinze minutos antes e, por um instante, ao dobrar a
esquina para o quarteirão, pensou tê-la visto parada na entrada, e
a explosão de esperança quase o fez tropeçar. Mas seu coração
apertou quando a mulher se virou, e não era ela. E ele deveria ter
percebido, porque não havia nenhum garotinho à vista.
Ele andava de um lado para o outro na rua, os segundos
passando até que ela oficialmente se atrasasse cinco minutos. E,
caramba, eram só cinco minutos, mas Cami não o deixaria
esperando assim, a menos que algo estivesse errado.
Rex caminhou em direção à sua caminhonete enquanto as
pessoas passavam pela calçada, algumas rindo, a maioria entretida
em conversas, alheia aos alarmes que soavam dentro dele. Tentou
o número de Cami pela vigésima vez e xingou quando a caixa postal
dela voltou a cair.
Ela estava com Cyrus agora... e Cyrus também tinha um
telefone. Ele quase tinha esquecido.
Ele procurou o número de Cyrus no celular, prendendo a
respiração quando tocou. E xingando quando o número caiu na
caixa postal também. O som de sua voz inocente e infantil fez seu
coração quase saltar do peito.
Rex não estava acostumado a se sentir impotente, não daquele
jeito, e agora percebia por que era desencorajado que homens na
área tivessem famílias, envolvimentos pessoais que afetassem
decisões e conferissem peso emocional às escolhas. Isso fazia com
que um homem se perguntasse se estava exagerando porque seu
coração estava envolvido.
Mas imaginar os rostos de Cami e Cyrus agora também o fez
entender por que tantos desconsideravam esse desânimo.
Onde você está, Cami? E o Cyrus?
Ele pensou em algo, rolando rapidamente as mensagens de
texto com Cami e logo encontrando o que procurava. Ela havia lhe
enviado os números de celular do pai e da Gigi, só por precaução,
quando deixara Cyrus com eles para visitar Hollis. E se não
estivessem juntos naquele momento, aquele seria o único outro
lugar onde Cyrus estaria.
Ele se sentiu um pouco estranho ligando, principalmente
porque não conhecia o pai ou a madrasta dela pessoalmente, mas
deixou isso de lado e ligou para o Sr. Cortlandt.
O homem atendeu no segundo toque com um alô casual.
— Olá, senhor, meu nome é Rex Lowe. Não nos conhecemos,
mas...
— Rex Lowe? — Houve um leve arrastar de pés, como se o Sr.
Cortlandt tivesse se levantado ou se movido e agora estivesse
entrando em uma sala mais silenciosa, onde o ruído de fundo se
tornava mais distante. — Filho, tenho uma dívida de gratidão com
você, uma dívida que acho que nunca serei capaz de pagar. É um
verdadeiro prazer conhecê-lo, mesmo por telefone. Cami fala de você
como o herói que é.
Apesar do estado atual de seu sistema nervoso, Rex sentiu-se
honrado com suas palavras e aliviado pela reação gentil daquele
homem em particular ao seu chamado. E talvez, lá no fundo, ele
tenha experimentado uma pulsação de cura que nem sabia que
desejava e na qual estava preocupado demais para pensar agora.
— Obrigado, senhor. Fico feliz em poder ajudar. E desculpe
interromper assim, mas estou procurando a Cami e o Cyrus. Íamos
nos encontrar para jantar, mas eles não apareceram, e nenhum dos
dois atendeu o telefone.
— Ah, bom, o Cyrus está na outra sala. Estamos assistindo a
um filme. — Sua voz ficou abafada, e Rex o ouviu chamar por Cyrus.
— Acho que ele disse que o Cam tinha uma reunião. Presumi que
fosse de trabalho. Espera aí, ele está aqui.
— Rex!
— E aí, amigo. — Nossa, como é bom ouvir sua voz. — Você
sabe onde sua mãe está?
— Ela me deixou com o Pops e a Gigi porque uma moça queria
encontrá-la.
Rex sentiu uma pontada de desconforto nas costelas. — Uma
moça? Você sabe quem?
— Não. Mas ela vem me buscar logo, então podemos te
encontrar para jantar. Estamos atrasados?
Droga. Que diabos está acontecendo, Cami? Pelo menos o
Cyrus estava seguro, e ele se sentia muito melhor sabendo disso.
Que mulher. Ele também sabia que a Cami não conheceria ninguém
com quem não se sentisse confortável.
— Acho que sua mãe está um pouco atrasada, mas espero que
não muito. Ah, ei, tentei te ligar. Cadê seu telefone?
— Ah. Coloquei no bolso da frente da bolsa da minha mãe e
depois esqueci.
Minha mãe. Meu Deus, Cami adoraria ouvi-lo se referir a ela
desse jeito.
— Certo. Você está bem?
— Sim, estou bem. Até breve.
— Até mais.
— Rex? — disse o Sr. Cortlandt ao retornar à linha. — Acabei
de pedir para minha esposa discar o número da Cam e ela continua
sem atender, como você disse. E ela está atrasada para buscar o
Cyrus, o que não é nada típico dela. Estou com um mau
pressentimento.
— Não quero te preocupar desnecessariamente, — disse Rex.
— Mas tenho a mesma sensação e não gosto que nenhum de nós
saiba quem é essa mulher que ela vai encontrar. E depois...
— Depois de tudo... — concluiu o Sr. Cortlandt. Não havia
necessidade de terminar a frase. Tudo era demais, e ambos sabiam
disso.
— Vou chamar a polícia, Rex. Talvez eles não façam nada
ainda, considerando que ela está desaparecida há menos de uma
hora. Mas com tudo o que ela e Cyrus passaram...
— Combinado. Obrigado. Enquanto você faz essa ligação, vou
para o Flutterfly Gardens agora mesmo, — disse Rex. — Só para
garantir. Você me liga se tiver notícias dela? Você já tem meu
número.
— Claro. Sim, — disse o Sr. Cortlandt. — Nós a
encontraremos.
— Sim, faremos. Obrigado, senhor.
Rex desligou e, apesar das palavras de incentivo ao pai de
Cami, sua inquietação aumentava a cada momento. Rex fez meia-
volta no meio da rua e começou a se dirigir ao trabalho de Cami,
confiante de que o Sr. Cortlandt estava ligando para a polícia. As
autoridades levariam a ligação do pai de Cami a sério, considerando
seu envolvimento atual e contínuo no caso de sequestro de Cyrus.
Provavelmente iriam ao apartamento dela novamente e talvez até
mesmo emitiriam um alerta imediatamente, apesar de o protocolo
ser esperar mais de uma hora. Mas o que mais poderiam fazer além
disso?
Principalmente quando ela ia voluntariamente encontrar
alguém.
Uma mulher.
Poderia ser Seraphina Arnoult? A mulher que ele estava
investigando? A mulher que havia sofrido um crime semelhante ao
que a família de Cami sobreviveu, que poderia ter um motivo para
querer machucar Cami? Aquela agora inexplicavelmente noiva de
Hollis Barclay? Havia muita intersecção acontecendo ali para que
qualquer coisa fosse mera coincidência.
Ele havia considerado perguntar ao Sr. Cortlandt sobre Louis
Swift, mas desistiu por uma questão de tempo. Rex sabia o que
precisava saber sobre aquela situação, então a memória do juiz
aposentado, ou a falta dela, não era realmente pertinente.
Cami fala de você como o herói que é.
Ele pisou fundo no acelerador, cada vez mais desesperado
para encontrar Cami, para estar lá se ela precisasse dele. Poucos
minutos depois, chegou uma mensagem de Rand Cortlandt dizendo
que a polícia havia emitido um alerta para o carro de Cami. Isso era
bom, e o que ele esperava, mas não o suficiente. Ele respondeu à
mensagem do Sr. Cortlandt e discou o número de Erik. — Ei, cara,
me desculpe por fazer isso. Sei que você está saindo, e eu não ligaria
se não fosse uma emergência, mas preciso de dois números de
celular que não estejam na lista.
— Só isso? Que droga, eu consigo isso para você enquanto
estou dirigindo até a base. — Rex conseguiu dar uma risadinha,
mesmo que tenha saído engasgada. — Me mande uma mensagem
com as informações e eu te respondo já. Espero que ajude, porque
depois vou ter que ir embora.
— Obrigado. É sério.
Ele desligou, mandou uma mensagem para Erik e continuou
até o endereço em seu GPS onde Cami havia construído seu
negócio. Quando chegou à Flutterfly, vinte minutos depois, porém,
o portão da frente estava trancado. Havia algumas luzes fracas
vindas do borboletário ao longe, mas a loja estava escura.
Rex pensou em pular a cerca e verificar a propriedade — a
segurança de Flutterfly era obviamente frouxa. Mas não havia
indícios de que alguém estivesse lá, e ele teve a sensação
desagradável de que — especialmente agora — correr pela cidade
só serviria para perder tempo.
CAPÍTULO CINQUENTA E DOIS
Cami encarou Seraphina, as palavras que acabara de dizer se
repetindo em sua cabeça. Ela sabia? Ela sabia quem havia causado
tanto mal, até mesmo a morte, a um garotinho inocente? — Quem?
— Sua voz já soava mais forte, menos arrastada, mesmo que seus
músculos ainda estivessem pesados e parcialmente dormentes. —
Se você ou Hollis não planejaram o sequestro de Cyrus, então quem
foi?
— A mãe de Hollis, — disse Seraphina.
Cami piscou, a imagem da arrogante maestrina da sociedade
florescendo em sua mente. — Felicia Barclay? Ela... — Seu corpo
pareceu afundar ainda mais no couro macio do assento.
— Foi culpa minha, na verdade. — A testa lisa de Seraphina
franziu momentaneamente, como se ela estivesse em conflito com
isso. Mas de que forma, Cami não conseguia adivinhar. — Imprimi
aquele e-mail tanto para Hollis quanto para a Sra. Barclay. Ela pede
que enviemos com cópia para tudo, e é só hábito. Não há nada em
que ela não esteja envolvida. — Ela desviou o olhar. — Ou talvez eu
a tenha incluído porque não confiava que Hollis tomaria qualquer
atitude se aquele e-mail fosse verdadeiro. Imprimi porque queria
entregá-lo pessoalmente a ela e não me preocupar se ele se perderia
na caixa de entrada pessoal deles.
— Quer dizer o quê? — Que tipo de ação Seraphina esperava
que Hollis tomasse?
Mas Seraphina parecia ter se distraído um pouco, como se
estivesse considerando algo que não estava compartilhando com
Cami. — Eu sabia que Felicia era ambiciosa em nome de Hollis. Eu
a vi usar o peso de sua equipe jurídica contra aqueles que a
desafiavam. Eu sabia que ela era motivada e calculista. Mas eu não
entendia de verdade, naquele momento, os extremos a que ela
chegaria para manter o poder e conquistar mais. Acho que se pode
dizer que praticamente assinei a sentença de morte daquele
garotinho. — Ela sorriu, com uma expressão irônica, como se
houvesse algo de irônico no que dissera. E Cami só conseguia
assimilar a informação porque era muita coisa para tentar
organizar, quanto mais entender.
Ela sabia que Hollis sempre fora próximo da mãe. Não fazia
ideia se ele alguma vez havia compartilhado com ela o que Cami
contara sobre ele ser o pai de seu filho. Os Barclays nunca lhe
dirigiram uma palavra nem lhe fizeram qualquer contato, então ela
imaginou que ou tinham feito como Hollis e se convencido de que o
bebê não era dele, ou simplesmente preferiram deixar tudo para
trás.
Independentemente de a Sra. Barclay acreditar ou não que
Hollis era o pai de Cyrus, quando Cami o colocou para adoção, ela
deve ter acreditado que ele havia partido para sempre. Uma adoção
fechada para outro estado. Nenhuma conexão com Hollis, pelo
menos nenhuma que tivesse sido registrada. Nenhuma maneira de
a própria Cami entrar em contato com o filho, mesmo que quisesse.
Ele tinha ido embora. Sem problemas. Até que não tinha mais.
Era isso que Seraphina estava dizendo a ela?
— Ela estava disposta a mandar assassinar Cyrus em vez de
arriscar que ele se apresentasse como filho de Hollis? — As palavras
a atingiram depois de pronunciá-las. Se isso fosse verdade, a
mulher era pura maldade. E Seraphina também, se estivesse
entregando Cami pessoalmente para Hollis e a Sra. Barclay fazerem
o que quisessem.
Seraphina cantarolou. — Pensei no motivo pelo qual Felicia
decidiu que Cyrus precisava de cuidados. Afinal, estou muito
familiarizada com o interesse que a mídia demonstrou pela sua
história. A notícia do seu filho seria um novo capítulo. Um
revigoramento para uma sensação midiática que atraiu a atenção
do país. Dá para imaginar? A imprensa teria um dia de glória. O
bebê que Camille Cortlandt colocou para adoção era de Hollis
Barclay o tempo todo. E se descobrissem que ele sabia disso, bem,
tenho que acreditar que Hollis seria visto de forma nada lisonjeira
desta vez.
Merecidamente.
Seraphina olhou para baixo e traçou uma laçada no molde do
vestido. Aquela mulher também tinha tudo a perder, mesmo que
parecesse carregar um pouco de culpa pelo que a mãe fizera. — A
Sra. Barclay sugeriu que o e-mail era uma brincadeira, e Hollis
acreditou de bom grado, — disse Seraphina.
Isso com certeza fez sentido. — Você está surpresa?
— Não, não tenho ilusões sobre quem é Hollis.
O fato de ela estar bem com isso dizia tudo. Mas havia mais.
Todos estavam ligados de maneiras passadas e presentes, crimes e
motivações se sobrepondo. — Felicia Barclay sabe da sua conexão
comigo? — perguntou Cami.
— Claro que sim. Ela fez um perfil completo de mim depois
que Hollis e eu ficamos noivos. Ela teria feito isso antes, eu acho,
se não estivesse morando na outra residência quando Hollis e eu
nos conhecemos. Nosso namoro foi rápido. Depois que ficamos
noivos... bem, o público pareceu me ver com bons olhos. Eu fico
bem de braço dado com Hollis e tudo mais. Ela ponderou os riscos
e os benefícios de Hollis cancelar o noivado durante a campanha e
decidiu que era melhor me manter por perto por enquanto. Claro,
tudo isso são suposições. Antes disso, a Sra. Barclay me questionou
sobre minha mãe. Ela sabia que não era coincidência eu ter me
voluntariado para a instituição de caridade de Hollis. E então,
confessei tudo. Foi uma libertação que eu não esperava.
Finalmente, alguém em quem me apoiar. Uma mãe, quando eu não
tinha uma há tanto tempo. Uma mãe que tinha dinheiro e influência
para nos manter a todos seguros. Ela agiu com compreensão. Ela
simplesmente absorveu tudo e disse: “Ah, Pobrezinha. Nós
cuidaremos de você agora”.
Pobrezinha. A mãe de Hollis descobrira quem era o responsável
pela tortura e assassinato da mãe e da irmã de Cami e
simplesmente deixara isso de lado. Ela sabia quem era o
intermediário e decidira que proteger o futuro político de Hollis era
mais importante do que fazer justiça. Apesar do relaxante muscular
ainda a deixar praticamente incapaz de se mover, um pequeno
arrepio percorreu sua espinha e seus ombros se contraíram.
— Felicia Barclay também sabia da família que minha mãe
contratou. Aparentemente, eles se certificam de que sejam
conhecidos por aqueles que importam, e os Barclays certamente
importam. Não que eu imagine que haja uma lista enorme de
intermediários para escolher. Parece um nicho de mercado. Mas na
região de Washington, D.C.? Quem sabe. Mas qual é a minha
melhor aposta? — continuou Seraphina. — Ela usou os serviços
deles como uma espécie de seguro. Talvez esperasse me culpar pelo
sequestro do Cyrus, se necessário. O mesmo intermediário que
minha mãe usou. Uma ligação inegável. Tenho certeza de que a
imprensa faria parecer que eu também estava perseguindo o Hollis.
— Ela soltou uma risadinha. — De certa forma, foi exatamente isso
que eu fiz. Tanto potencial.
Seraphina riu baixinho, enquanto Cami sentia que poderia
vomitar. — Ela estava disposta a mandar assassinar uma criança,
— sussurrou Cami. — Seu próprio neto. Seu sangue. Se ela fizer
isso, fará qualquer coisa. — E Seraphina havia revelado tudo isso.
Ela precisava saber que Cami não contataria as autoridades com
essa informação. O que significava que Seraphina não planejava
deixá-la ir.
Pensamentos de Cyrus e Rex invadiram sua mente, e a
imagem de seus rostos lhe deu uma onda de força. Eles já tinham
perdido o jantar marcado. Rex saberia que algo estava errado. Rex
moveria montanhas para encontrá-la.
Mas ele não sabia onde ela estava. Ela não tivera a chance de
mandar mensagem, e ele estaria procurando às cegas. Meu Deus.
Seraphina pegou o celular e olhou para ele enquanto o
motorista saía da rodovia e entrava em uma rua da cidade. Atrás
da bolsa de Seraphina, Cami notou a sua. Eles a jogaram e a bolsa
na limusine. Meu celular. Tão rápido quanto a esperança surgiu, ela
despencou. Seu celular caiu no chão com um estrondo. A última
coisa de que se lembrava era de vê-lo se estilhaçar antes de perder
a consciência. — Onde estamos? — perguntou.
— Alexandria.
Onde Hollis estava? Ele não tinha um comício? O que ia
acontecer agora? Ela estava amarrada e indefesa novamente. Hollis
não tinha constituição para matar, mesmo que tivesse malícia. Mas
Hollis faria tudo o que lhe mandassem fazer. A Sra. Barclay cuidaria
dela de alguma forma? Ela não duvidaria disso, especialmente
considerando o que sabia que tinha feito com Cyrus. Seus
batimentos cardíacos aceleraram. Por outro lado, a Sra. Barclay era
do tipo que pagava os outros para sujarem as mãos. Talvez fosse
isso que ela tivesse feito. Talvez o motorista que a eletrocutou
jogasse Cami no Potomac e ela afundasse. Vários cenários mortais
passaram por sua mente, mas ela os forçou a se afastar. Entrar em
pânico não a ajudaria agora. Ela sabia muito bem disso.
E ela se recusou, se recusou a ser mais uma pessoa que Cyrus
perdeu. Seus dedos se curvaram novamente, desta vez cerrando-se
em punho. Se ela conseguisse mover o pulso um pouquinho mais,
conseguiria desfazer a braçadeira que a prendia, cada vez que
Seraphina desviasse o olhar. Talvez conseguisse afrouxá-la o
suficiente para soltar a mão. O suficiente para surpreender
Seraphina.
A limusine parou lentamente nos fundos do que parecia ser
um prédio comercial, e Cami pensou ter ouvido música em um
sistema de som vindo de algum lugar além.
Seraphina se inclinou para frente novamente e, embora
parecesse exausta de perto, de repente surgiu em seus olhos uma
centelha de algo que não estava ali um momento antes. —
Chegamos, Cami. E sinto muito pelo que vai acontecer, mas
também não sinto nada.
CAPÍTULO CINQUENTA E TRÊS
O telefone de Rex vibrou com os números que ele havia pedido
para Erik digitar. Ele respondeu rapidamente e então andou de um
lado para o outro na frente da caminhonete enquanto discava o
primeiro contato que Erik havia fornecido e o ouviu tocar. A caixa
postal de Seraphina tocou, como ele suspeitava que aconteceria.
Ele desligou e discou o segundo número.
— Olá?
— Hollis? — Parecia que Hollis estava em um restaurante ou
em um evento, com conversas e o tilintar de copos ou pratos ao
fundo.
— Sim. — Ele parecia perturbado. — Quem está falando?
— Aqui é Rex Lowe. Lembra de mim? Estudamos juntos.
— Não. Este é um número privado. Como você conseguiu...
— Cale a boca, Hollis. Estou com pressa, e você vai responder
algumas perguntas porque, se não responder, vou ligar para todas
as emissoras de notícias da Virgínia amanhã com a história não
contada da namorada que você abandonou e do filho que você
renegou.
Houve uma breve pausa. — Quem você disse que era?
— Rex Lowe.
Ele soltou uma risadinha de desprezo, e então sua voz ficou
mais baixa, como se tivesse coberto o telefone levemente para
abafar a própria voz. — Ah, eu me lembro de você, na verdade. Nerd
esquisito com uma queda pela minha namorada, né?
O insulto não provocou nada. Era verdade, e não o incomodou
nem um pouco. Principalmente vindo de Hollis. — No entanto, —
continuou Rex, ignorando a crítica inútil, — responda às minhas
perguntas e você pode voltar ao que estava fazendo, e nunca mais
será incomodado com nada disso.
— Estou em um coquetel agora. Tenho um comício começando
em quinze minutos. Meu carro está esperando lá fora, então vou ter
que...
— Eu quis dizer o que disse, Hollis.
Houve outra pausa mais longa, e então ele ouviu Hollis falar
com alguém enquanto se desculpava. Ele esperou e, quando Hollis
falou novamente, foi em voz baixa, e onde quer que ele tivesse ido
— um saguão ou um corredor, talvez — o silêncio era maior. — Você
está me chantageando?
— Estou com pressa. Preciso dessa informação agora. Você
sabe onde a Cami está?
— Cami? Por que diabos eu saberia onde Cami está? Você sabe
quem sou eu? Você tem ideia de com quem está lidando?
— E a sua noiva? Preciso encontrá-la.
— Minha noiva está fora esta noite. E o que ela está fazendo
não é da sua conta. Agora, escuta, babaca, da próxima vez que eu
estiver na minha propriedade em Aspen Cove, vou te procurar e...
— Você ainda tem sua propriedade aqui? — Puta merda. Rex
já havia entrado na caminhonete e girado a chave quando Hollis
falou. Minha propriedade, ele disse. — É tudo o que preciso. Espero
que você perca a eleição.
— Espere aí, porra. Você não pode me ameaçar e depois
desligar. — Sua voz ficou mais baixa, como se estivesse falando com
os dentes cerrados. — Se você usar esse número de novo, não vai
gostar do que vai acontecer. Você não tem ideia da fúria que minha
família pode infligir a um zé-ninguém como você. Não tem ideia.
Vou te dizer uma coisa agora, e ouça com clareza: depois desta
noite, se você, Cami Cortlandt ou aquele pirralho de merda
tentarem me acusar de ser o pai dele, eu enterro todos vocês, estão
me ouvindo? Aquela vagabunda é uma mentirosa que tentou se
passar pela criança e ainda está brava porque eu a dispensei. Vou
processar todos vocês até o esquecimento. Vou arrasar, e se você
acha que eu me importo com o fato de uma criança estar envolvida,
você não conheceu o lado cruel de Hollis Barclay. Estou prestes a
ser congressista e usarei todo esse poder para derrubar todos
vocês...
Rex desligou. Talvez pudesse ter lidado com a situação um
pouco melhor. Só de ouvir a voz pomposa de Hollis o deixou furioso.
Mas ele lhe dera uma pista, então ligar valeu a pena.
Seus pulmões continuavam apertados, e não por causa de
Hollis. Porque ele precisava encontrar Cami, e precisava encontrá-
la imediatamente.
A noiva de Hollis estava “fora” esta noite, e se tivesse sido
Seraphina quem pediu para se encontrar com Cami, Cami não
saberia de sua história. Ela poderia ter caído direto em uma
armadilha.
Rex deu meia-volta com a caminhonete e correu para a
propriedade de Hollis, onde estivera apenas uma vez, com o coração
batendo acelerado. Chegou em menos de dez minutos, com uma
descarga de adrenalina percorrendo seu corpo ao ver o carro de
Cami.
Rex saltou do carro e correu para o carro dela, prendendo a
respiração enquanto olhava para dentro. Estava vazio, porém, e ao
redor dele, tudo estava parado e silencioso. Ele caminhou em
direção aos fundos da casa, sentindo outra leve tontura ao ver um
celular caído no chão. O de Cami. Ele o reconheceu pela capa.
E quando ele o pegou, soltou um pequeno gemido. Estava
estilhaçado e obviamente quebrado, mas quando apertou um botão,
viu seu próprio nome piscando na tela. Ela estava mandando
mensagem para ele. Bem aqui, bem neste lugar. O que aconteceu?
Cami fala de você como o herói que é.
Ele correu ao redor da piscina e fez uma busca de três minutos
pelo terreno. Recusou-se a pensar na última vez que estivera lá.
A casa estava trancada, e ele poderia ter quebrado uma janela,
mas em um bairro como aquele, a polícia chegaria num piscar de
olhos. E então ele seria detido.
Poxa, ele poderia estar em um sistema de segurança agora
mesmo. A polícia já poderia estar a caminho. Eles entenderiam por
que ele estava ali quando o interrogassem. Mas ele não tinha tempo
para isso.
Ele ficou ali por menos de dois segundos, e algo lhe ocorreu
enquanto corria de volta para o veículo de Cami. A porta do
motorista estava destrancada, e ele se inclinou e abriu o porta-
luvas. Quando o encontrou quase vazio, fez uma busca rápida por
todo o veículo. Nenhuma bolsa.
Ele fechou o carro dela e voltou para a caminhonete. Só tinha
uma opção para encontrá-la, mas estava preocupado que
demorasse muito.
Meu Deus, pode demorar muito.
CAPÍTULO CINQUENTA E QUATRO
Cami puxou inutilmente a corda em sua cintura, amarrando-
a à cadeira de madeira em um escritório superior onde estava
detida. Suas mãos e pés ainda estavam presos com braçadeiras, e
a cadeira em si estava amarrada a um grande aparador. E ela estava
posicionada a vários metros de distância, mas diretamente em
frente à janela escura que dava para o comício de Hollis.
Ela se esforçou contra o móvel pesado no início, mas seus
músculos ainda estavam enfraquecidos e praticamente inúteis, e
tudo o que conseguiu foi se queimar com a corda. Ela recuperou
um pouco de força na última hora, mas ainda não estava nem perto
de sua melhor forma.
O “funcionário moralmente ambíguo” que Seraphina
aparentemente havia subornado a carregou até ali, com uma
máscara no rosto, como a dos criminosos que a aterrorizaram. Ela
tentou falar com ele, mas ele ignorou seus apelos. Eles subiram os
degraus dos fundos do que parecia ser um prédio vazio, aberto fora
do horário comercial, até uma sala do outro lado da rua, de frente
para um palco onde Hollis discursava diante de uma multidão
reunida. Os telões de cada lado da plataforma garantiam que ela
pudesse vê-lo claramente, mesmo àquela distância.
Aparentemente, eles desejavam que o poder iminente de Hollis fosse
sua visão final. Eles a posicionaram ali, literalmente como uma
plateia cativa.
Houve um vídeo de Hollis apertando mãos e segurando bebês
em toda a Virgínia, e alguns outros palestrantes, e um cantor com
um violão que cantou uma música country, e então Hollis pegou o
microfone.
Ela praticamente conseguia ver a mídia delirando. Podia sentir
a energia da multidão, mesmo ali. Estavam profundamente
inspirados. Mal podiam esperar para votar nele.
E tudo o que Cami pôde fazer foi gritar.
Mas ninguém conseguia ouvi-la, nem por causa do alto-falante
lá fora nem da multidão animada.
Uma figura familiar separou a multidão, movendo-se na
direção oposta do palco. Meu Deus. É... O coração de Cami quase
saiu pela boca quando viu Rex no meio dos participantes do
comício, de frente para a janela onde ela estava. Rex. Rex. Meu Deus.
— Rex! — ela gritou. Oh, Deus. Oh, Deus, ele está bem ali. Ele
está aqui. Como ele está aqui? Seu coração parecia prestes a
explodir, seu desespero disparando ao vê-lo. Ela só conseguia vê-lo
o suficiente para saber que ele estava abrindo caminho entre as
pessoas, com a cabeça se movendo em todas as direções.
Você está me procurando. Você sabe que estou aqui.
Mas como ele a encontraria? Havia luzes altas iluminando o
palco onde Hollis discursava e a multidão em frente, mas o prédio
e a sala em que ela estava estavam escuros, com as janelas escuras.
Mesmo que Rex olhasse para cima, não conseguiria vê-la. E o
comício de Hollis estava chegando ao fim. Atrás da área onde Rex
se movimentava, o rosto de Hollis preenchia as telas gigantescas,
seu sorriso tão brilhante quanto os holofotes ao seu redor.
Ela poderia ser morta em breve por Seraphina ou Hollis, ou
pela Sra. Barclay ou por algum “agente” contratado a menos de
trinta metros de Rex, e ele nunca saberia.
Não. Não.
A simples ideia fez com que a visão da Sra. Willoughby em seu
jardim, do lado de fora da janela, passasse pela mente de Cami.
E isso lhe deu uma ideia.
Sua cabeça virou rapidamente para a direita, onde havia um
abajur barato encostado na parede. Quando o viu pela primeira vez
no cômodo quase vazio, descartou-o como uma arma ou uma forma
de cortar os laços que a prendiam. Mas poderia ajudá-la de outra
forma.
Mas primeiro ela precisava alcançá-lo. E ainda estava
enfraquecida pelo relaxante muscular. Fraca e desajeitada. Mas não
inútil.
O aparador ao qual ela estava amarrada era enorme e sólido,
pesando uns 135 quilos. Mesmo que seus músculos estivessem no
auge, ela não conseguiria puxar o pesado móvel em direção à janela
ou à porta. Ambas estavam longe demais. A parede, no entanto,
estava mais perto.
A voz de Hollis elevou-se, abafada através do vidro, mas
também poderosa enquanto ele se preparava para suas
considerações finais. Mesmo em meio ao ódio e ao desdém, ela
reconheceu o quão bonito ele era, o quão carismático ele podia ser.
Sua mãe estava um pouco atrás dele agora, com o queixo altivo
erguido enquanto observava a multidão. A visão de Felicia Barclay,
a mesma que havia ordenado o assassinato de seu filho, deu-lhe
uma explosão de coragem.
Cami fixou os olhos em Rex, que havia se virado e estava se
movendo lentamente em outra direção.
E então ela usou toda a sua força para arremessar o corpo
contra a parede. A cadeira tombou, balançou, e então Cami caiu no
chão, sem ar enquanto a corda em sua cintura apertava sua pele
com força.
Ela ficou ali por apenas um momento, se preparando para a
dor e finalmente respirando com dificuldade enquanto agarrava o
chão e puxava seu corpo, a cristaleira raspando no ladrilho.
Ela a moveu!
Só um centímetro, talvez até menos. Mas se ela já tinha feito
isso uma vez, conseguiria fazer de novo.
A voz de Hollis ecoou, a multidão rugiu, e a visão de Rex se
afastando dela a impulsionou a avançar. Ela usou uma força que
achava que não tinha, puxando o corpo pelo chão, ainda amarrado
e atado à cadeira, e arrastando atrás de si o que ela havia
determinado ser um móvel imóvel.
Estou voltando para casa, para você, Cyrus.
Rex, estou aqui. Estou aqui.
O suor escorria pela lateral do seu rosto e suas mãos ficaram
escorregadias. Só mais um centímetro. Só... Cami esticou as duas
mãos à sua frente, as braçadeiras cortando sua pele. O grunhido
que acompanhava seu esforço se transformou em um grito agudo
quando ela agarrou o fio da luminária com a ponta do dedo. Ela
então parou, ofegante, tremendo enquanto o puxava para si.
A voz de Hollis. Música. Aplausos. Muitos aplausos.
Seus movimentos ainda eram descoordenados, então, quando
ela tentou puxar a lâmpada para mais perto dela novamente, sua
mão pulou e a lâmpada balançou.
Não, não, oh Deus, não.
O abajur tombou e caiu em sua direção. Cami soltou um grito
agudo enquanto se virava para onde o abajur estava caindo e mal o
segurou antes que a lâmpada atingisse o chão.
Ela se permitiu apenas um momento para controlar o tremor
antes que seus dedos encontrassem o interruptor e ela acendesse a
luminária. Ela semicerrou os olhos e gemeu quando a luz atingiu
seus olhos, repentina e intensa. Mas funcionou. Funcionou. Ela
estava preocupada em ligar a luminária e a lâmpada queimar.
Ela desligou o aparelho, esperou um segundo e ligou
novamente. Do chão onde estava deitada, não conseguia mais
enxergar pela janela. Não sabia dizer se Rex tinha visto o sinal dela
lá de baixo. Só conseguia ver o rosto dilatado de Hollis enquanto ele
sorria, ria e dizia palavras que não queria dizer.
Ela se concentrou em sua respiração, e somente nisso,
enquanto seus dedos giravam o interruptor para um lado e depois
para o outro.
Estou aqui. Estou aqui, Rex.
Só ele entenderia. Qualquer outra pessoa que visse a luz
bruxuleante lá de cima, através de uma janela escura, poderia
pensar que era um reflexo, ou talvez uma resposta ao discurso de
Hollis. Uma forma de aplaudir de longe.
Uma forma de mostrar seu apoio.
Ligado. Desligado. Ligado. Desligado.
Devagar e sempre. Devagar e sempre.
Ela ouviu passos pesados no corredor, em direção ao quarto
onde estava deitada, e um soluço escapou de sua boca.
Rex. Rex.
Ele a encontrou. Ele estava aqui.
CAPÍTULO CINQUENTA E CINCO
Rex chutou a porta, chamando-a pelo nome enquanto a
moldura se estilhaçava, e ele a atravessou antes mesmo de
conseguir passar completamente.
— Rex!
Seu coração disparou ao vê-la no chão, com uma corda na
cintura que a prendia a uma cadeira, cadeira essa presa a um
enorme balcão de recepção. Ela estava com os braços estendidos
em direção a um abajur, e quando ele se ajoelhou ao lado dela, ela
virou o rosto banhado em lágrimas para ele.
— Cami, meu Deus. Quando vi aquela luz piscando, eu soube.
Você se saiu tão bem. — Ela era incrível. A mulher mais corajosa
que ele já conhecera. Ele olhou por cima do ombro. — Onde eles
estão?
Ela acenou com a cabeça em direção ao telão enorme do outro
lado da janela. — O comício. Acho que estão todos no comício.
Seraphina me trouxe aqui. Mas a mãe do Hollis também está
envolvida, e talvez o Hollis, mas não tenho certeza. — Ela estava
divagando, e sua voz tremia com a descarga de adrenalina, e ele
estava morrendo de vontade de segurá-la em seus braços, mas
precisava tirá-la daquelas cordas primeiro.
Ele a levantou, junto com a cadeira, o mais delicadamente
possível, mas parou quando ela sibilou de dor. — Estou bem, —
disse ela. — Só um hematoma. Por favor, me desamarre.
Ele colocou a cadeira sobre as pernas e pegou o celular.
Colocou-se atrás dela, começando a mexer na corda enquanto
segurava o celular no ouvido com o ombro e dava à polícia as
informações necessárias.
— Eles estão a caminho, — disse ele. — Seu pai ligou para eles
mais cedo, e eu disse para onde estava indo. Eles estão perto.
Devem chegar em um ou dois minutos.
— Como você me encontrou, Rex? — ela perguntou por cima
do ombro, e sua voz já soava mais forte.
— O aplicativo, — disse ele. — Aquele que você instalou no
celular do Cyrus para poder rastreá-lo. Demorei um pouco para
hackear, ou teria chegado antes.
— O telefone do Cyrus? — ela murmurou.
— Estava na sua bolsa, — explicou Rex. — O Cyrus me disse
que colocou lá. — Ele ficou surpreso por Seraphina ter trazido a
bolsa da Cami. Parecia uma gentileza inesperada. Ou talvez ela
simplesmente ainda estivesse no braço da Cami quando ela a
surpreendeu de alguma forma.
— Meu Deus, — Cami suspirou. — Eu não sabia que estava
aí. Acho que ainda está naquela limusine. Você invadiu. — Ela
soltou uma risadinha delirante. — Claro que sim.
Ele havia quebrado todos os limites de velocidade para chegar
ali. E então abandonou a caminhonete no meio da rua quando
percebeu que não havia vaga para estacionar. Porque o ponto
piscante no aplicativo indicava que Cami estava a menos de cinco
metros, mas não conseguia chegar mais perto do que isso.
E então ele viu a luz bruxuleante e soube, soube que era ela.
Um sinal para ele. Ele nem se lembrava da viagem de lá para cá.
Pelo que sabia, ele poderia ter voado.
Do lado de fora da janela, a voz de Hollis chamou sua atenção,
e ele olhou para a tela. Nossa, como era grande e brilhante. Por que
a colocaram ali para assistir ao discurso de campanha de Hollis ao
vivo? Parecia mais proposital do que uma simples cela improvisada.
Era como um camarote doentio, só para Cami.
Ele desfez o primeiro nó e soltou um gemido de frustração.
Precisava de uma faca ou algo afiado. Quem quer que tivesse feito
o nó, fizera um ótimo trabalho. Levantou-se para poder olhar ao
redor da sala, parte da qual estava bloqueada pela recepção. Havia
um envelope em cima com o nome de Cami.
Ele deixou a coisa ali. Fosse o que fosse, não o ajudaria a soltar
Cami. Olhou ao redor rapidamente, mas não parecia haver nada
que pudesse usar para libertá-la, e se recusou a deixar Cami
sozinha, nem por um minuto.
À distância, ele achou ter ouvido o som das sirenes, mas o
protesto era tão alto que ele não tinha certeza.
Ele olhou para a porta, meio que esperando ser emboscado.
Manteve os músculos preparados para lutar.
Outro nó se desfez e caiu, e Rex olhou para o telão, seus dedos
continuando a trabalhar. A música e os aplausos ecoavam pela
janela, o volume obviamente aumentado à medida que as
festividades se aproximavam do fim. Câmeras de mídia perto da
frente do palco disparavam, seus microfones erguidos no ar.
O sorriso radiante de Hollis brilhou na tela enquanto ele
segurava a mão da mulher que Rex reconheceu como Felicia
Barclay. A Sra. Barclay sorriu orgulhosamente para o filho, e juntos
acenaram para a multidão que o adorava. Rex se lembrava bem da
mulher daquele corredor do hospital, tantos anos atrás, lembrava-
se de como ela fora fria com uma menina em luto.
— Seraphina, — sussurrou Cami. — Ela também está no palco
agora. Olha.
O último nó se desfez e Rex começou a desfazer a corda que
prendia Cami à cadeira. À direita de Hollis e da Sra. Barclay,
Seraphina subia o curto lance de escadas para se juntar a ele, com
um sorriso igualmente brilhante.
As câmeras giraram, as personalidades do ar competindo pela
foto perfeita.
Hollis olhou por cima do ombro, com uma expressão de
surpresa e alegria tomando conta de seu rosto ao avistar a noiva. A
Sra. Barclay também viu Seraphina e fez sinal para que ela se
juntasse a eles.
Balões começaram a cair do teto improvisado do palco
construído, e os três olharam para cima, rindo e batendo neles.
Rex observou, junto com Cami, Seraphina se aproximar da
Sra. Barclay e abraçar a mulher mais velha, com a câmera dando
zoom na expressão da mais jovem. Ela parecia completamente
serena.
Os pelos da nuca de Rex se arrepiaram.
As sirenes da polícia eram inconfundíveis agora, a alguns
quarteirões de distância, talvez menos. Mas teriam que vir a pé. Não
havia espaço para dirigir em meio ao mar de carros estacionados.
Rex desenrolou a última camada de corda em volta da cintura
de Cami.
Seraphina e a Sra. Barclay se separaram, a mulher mais velha
inclinando a cabeça e rindo novamente quando um balão atingiu
sua bochecha. Ela o afastou com um tapinha enquanto Seraphina
colocava a mão sob o blazer, sacava uma arma, apontava para a
têmpora da Sra. Barclay e atirava em sua cabeça à queima-roupa.
As cordas caíram de Cami, acumulando-se no chão enquanto
a Sra. Barclay caía e os aplausos da multidão se transformavam em
gritos. Cami ofegou, levantando-se rapidamente. Livre.
CAPÍTULO CINQUENTA E SEIS
Querida Cami,
Lamento tê-la deixado fisicamente indefesa mais uma vez.
Conheço melhor do que ninguém o pânico que essa situação causa.
Agora, porém, você entende meu motivo e espero que tenha valido a
pena o estresse adicional no final.
Você merecia um lugar na primeira fila para assistir à conclusão
desta saga sórdida.
A Sra. Barclay jamais teria parado até que “a questão Cyrus”
fosse resolvida. Morte. Ferimentos. Outro desaparecimento. Quem
sabe dizer qual seria a maneira que ela escolheria. Mas se você tiver
alguma dúvida, se estiver pensando em todos os cenários possíveis
de como poderia tê-la matado primeiro, permita-me poupá-lo do
esforço.
Observei Felicia Barclay agir de dentro. Vi-a em ação. Ela joga
para vencer.
Você, Cami, poderia ter ido à polícia com o que eu lhe contei.
Poderia ter feito acusações contra a Sra. Barclay, e talvez as
autoridades a tivessem interrogado. Em poucas horas, porém, ela
teria um bando de advogados caríssimos processando-a por calúnia.
Eles iriam querer sua falência e tomar seu negócio. Um juiz,
comprado e pago, emitiria uma ordem de silêncio contra você, e então
os Barclays começariam a arruiná-la de todas as maneiras possíveis.
E depois que você estivesse sem dinheiro e quebrada? Talvez
até anos depois? Ela continuaria contratando assassinos para matar
aqueles que você ama. Acidentes de carro. Suicídios. Nada disso
seria rastreável, porque ela não faria o trabalho sujo. Você acha que
os intermediários guardam registros? Tudo desaparece. Você teria
que viver olhando por cima do ombro a vida toda. Os esforços
contínuos dela serviriam como um lembrete para você saber o seu
lugar.
Talvez você esteja pensando que poderíamos ter unido forças,
você e eu. Poderíamos ter ido à polícia hoje em vez de ir ao comício
do Hollis. Mas com que provas? Ainda assim, talvez, se eu escolher
uma perspectiva otimista, algumas das nossas acusações pudessem
ter vazado antes que os advogados do Barclay pudessem aparecer.
Talvez isso pelo menos servisse para atrapalhar a campanha
de Hollis.
Ou talvez isso lhe desse força.
Isso caberia à mídia, e a mídia constrói a história que quer
contar. Ela cria heróis e vítimas. Ela define quem é ninguém e quem
não é. Veja quem eles fizeram o Hollis parecer. Às vezes, eles ainda
mostram clipes dele nas atualizações sobre sua família, com uma
lágrima escorrendo lentamente pelo seu rosto.
A iluminação e a música fazem com que ele pareça um herói.
A verdade é bem diferente, como sabemos.
E, no entanto, essa lágrima pode muito bem levá-lo até a Casa
Branca.
Mesmo que Hollis perca a candidatura ao Congresso, os
Barclays continuarão ricos e poderosos. Eles têm muito dinheiro e
uma infinidade de contatos. Terão mil maneiras de fazê-la pagar. De
fazer Cyrus pagar. Eu entendo de vingança. Sei o que ela faz com as
pessoas, mesmo aquelas que começam bem.
E quanto ao consertador, você pode perguntar. Quem são eles?
A informação não te ajudaria, e é melhor não saber. Eles não serão
mais uma preocupação para você. Eles resolvem problemas, Cami, e
você não é mais problema de ninguém. Talvez um dia alguém com
mais poder do que eu ou você desmantele a operação deles, embora
eu duvide que isso seja possível.
Tantos “talvez”. Muitos “e se”. Acabou o tempo das suposições.
Agora, merecemos certezas. E paz.
Fiquei calada quando deveria ter falado. Protegi aqueles que
não mereciam proteção. Aliei-me aos corruptos e acreditei em suas
mentiras. Me considerei uma vítima, nada mais. Mas agora,
enquanto escrevo esta carta, sinto um ímpeto crescendo dentro de
mim e juro que ouço a música aumentando conforme o crescendo se
aproxima. E percebo que tenho a chance de escrever o final
exatamente como eu escolher. É sangrento, Cami, tem que ser. Mas
também é vitorioso.
Será que me tornei minha mãe? Acreditando que tenho o direito
de montar o cenário como quero? Terei muito tempo para pensar
nisso. E, de alguma forma, saber disso me traz consolo.
Viva bem a sua vida, Cami. Que seja uma vida boa. Você
merece. Com grande admiração,
Serafina Arnoult
CAPÍTULO CINQUENTA E SETE
Rex sentou-se na cadeira ao lado da cama de hospital de Cami
e pegou sua mão. Já fazia uma boa hora que ela parara de tremer.
Já passava das dez horas e ela estava, com razão, exausta pelo que
havia suportado e pelo choque horrível — compartilhado por toda a
nação, ele imaginou — de assistir ao assassinato de uma mulher ao
vivo na TV. Ela tinha apenas alguns cortes leves e alguns
hematomas também leves. Mas não estava totalmente claro qual
relaxante muscular ou em que dose Seraphina havia administrado
a Cami, então o médico decidiu mantê-la internada durante a noite
como precaução, caso surgisse uma reação inesperada.
A polícia havia designado um guarda para a porta dela como
cortesia profissional, e Rex gostou disso, embora achasse
desnecessário.
A Sra. Barclay estava morta. Seraphina estava sob custódia
policial, e Hollis havia sido levado por uma equipe de médicos que
o retiraram do palco, onde ele se encolhera gritando em posição
fetal.
Embora a médica não soubesse qual substância química
Seraphina havia usado em Cami, o que estava claro era que a
mulher havia planejado o resultado fatal do comício de Hollis com
antecedência. Ela havia pago um funcionário ainda não identificado
para ajudar a levar Cami para onde ela queria, sentada na frente e
no centro, para o que acabou sendo uma execução ao vivo.
A equipe do hospital ainda estava agitada. O país inteiro
continuaria agitado por um bom tempo.
Sim, foi um dia infernal.
Rand, Gigi e Cyrus os encontraram no hospital, mas já tinham
ido para casa uma hora antes. Eles minimizaram o ferimento de
Cami para Cyrus e desligaram a televisão no quarto. O garoto já
tinha passado por muita coisa e não precisava se preocupar com
outro pai sendo tirado dele ou com horrores sendo exibidos ao vivo
na TV.
Rand — era assim que ele insistira que Rex o chamasse —
começara a apertar a mão de Rex quando se encontraram no
corredor do hospital e então decidiu abraçá-lo. Rex riu um pouco
desconfortável, mas por dentro sentia uma estranha vontade de
chorar e, desta vez, permitiu-se mais do que um instante de cura.
Gigi não se conteve nem um pouco durante a apresentação,
jogando os braços em volta de Rex e beijando sua bochecha
enquanto ela o agradecia por resgatar Cyrus e encontrar Cami.
Cami, no entanto, havia se salvado. Ele acabara reconhecendo
o chamado dela. E, independentemente das intenções de Seraphina
com ela, Rex seria eternamente grato por estar ali com Cami
enquanto Seraphina realizava sua missão mortal.
Ele chegou a tempo. E Cami não precisou assistir ao que
aconteceu sozinha. Ele a segurou enquanto a multidão gritava e se
dispersava e a polícia chegava.
Rex levou o nó dos dedos de Cami aos lábios e o beijou. —
Você está segura agora, — disse ele pela centésima vez.
Ela assentiu. — Eu estive repassando tudo, Rex. E a maior
parte... está claro. Horrível... mas claro. — Ela desviou o olhar por
um momento, para a janela aberta, onde apenas um pedaço de céu
estrelado aparecia acima dos prédios adjacentes. — Mas ainda
tenho uma pergunta. Quem fez aquela ligação sobre a
retransmissão? Quem me ajudou a encontrar Cyrus depois que a
Sra. Barclay planejou o sequestro dele? Seraphina nem sabia disso
na época.
Esse era o único mistério que a confissão de Seraphina para
Cami não havia resolvido. Rex tinha uma ideia, porém, mas nada
definitivo ainda.
— Estou investigando, — disse ele.
Ela assentiu levemente. — E o intermediário, Rex? Você acha
que tem algum jeito de encontrá-lo?
— Pessoas assim geralmente são muito difíceis de encontrar.
Mas estou investigando isso também. Avisarei assim que puder.
Seus cílios tremeram. — Promete?
— Prometo. — Ele apertou a mão dela. — Durma um pouco.
— Ok. — Ela mal pronunciou a palavra antes que seus olhos
piscassem e se fechassem.
Rex ficou ali por mais alguns minutos para ter certeza de que
ela estava dormindo, depois se levantou e saiu rapidamente pela
porta.
Rex jogou seu laptop na caminhonete depois de usá-lo para
hackear o aplicativo de rastreamento, e ele o recuperou
rapidamente e o levou de volta para a sala de espera no final do
corredor.
Estava claro ali, e havia café, e ele precisava dos dois agora se
também não quisesse começar a dormir.
Ele ainda tinha uma tarefa importante.
Vital talvez, e também urgente.
Ele comprou um copo de isopor com café na máquina de venda
automática e sentou-se com o laptop nas coxas.
Ele se conectou como administrador ao site da campanha de
Hollis — o ponto de encontro deles, como ele o entendia agora. Abriu
um e-mail aleatório da caixa de entrada de Hollis e esperou.
Ele não teve que esperar muito.
Uma caixa de resposta apareceu, e Rex prendeu a respiração
por um instante. Ele não achava que ela tivesse muita habilidade
para links ou mensagens longas, então ia facilitar ao máximo.
Ele levou o cursor até a caixa e digitou:
É Josephine Kiss?
Um segundo se passou, dois, antes que uma única palavra
aparecesse:
Sim
O coração de Rex deu um pulo. Ele tinha razão. — Olá,
Josephine, — murmurou.
Precisa de ajuda? — digitou.
Sim
Rex fez uma pausa, tentando determinar a melhor e mais
rápida maneira de obter as informações de que precisava. Mas ela
devia estar alguns passos à frente dele, pois começou a digitar
primeiro.
Dr. Gerhard Ellingson
Ela precisou de várias tentativas para pronunciar o nome, pois
parou e recuou mais de uma vez.
E então, antes que ele respondesse, ela digitou outra linha.
Leilão de Arte de Broward
Rex esperou, mas ela parecia ter terminado, e ele sentiu que
ela agora estava esperando por ele.
Esperando que ele descobrisse o que ela estava comunicando
com aqueles dois nomes — um de pessoa e outro de evento. E como
saber sobre essas duas coisas o ajudaria a ajudá-la. Devia ser algo
bem direto. Não havia motivo para Josephine usar enigmas.
Já volto, ele digitou.
Rex abriu outro navegador e digitou o nome do médico.
Gerhard Ellingson era um médico especializado em lesões da
medula espinhal e atuava na região de Washington, D.C. Certo,
então ele provavelmente era o médico de Josephine? Ele ficou
sentado ali por um momento, esticando os dedos enquanto refletia
sobre o que aquilo significava e como saber o nome do médico dela
poderia ajudá-lo. Ela tinha uma consulta? Algo lhe ocorreu. Pegou
o telefone e discou o número do consultório, e uma secretária
eletrônica atendeu.
— Sim, oi, — disse ele. — Estou ligando em nome de Josephine
Kiss. Ela tem uma consulta com o Dr. Ellingson.
Ele esperou, com a respiração suspensa, enquanto a mulher
na linha cantarolava como se estivesse procurando aquela
informação. — Sim, senhor. A visita domiciliar amanhã de manhã
às oito da manhã? É a primeira consulta do médico com o paciente?
Algum problema?
— Sim, na verdade. Lamento dizer que algo aconteceu, e a Sra.
Kiss vai precisar reagendar.
— Vou avisar o médico, senhor. Que data o senhor gostaria?
— Terei que ligar de novo assim que tiver a agenda da Sra.
Kiss na minha frente. Só queria garantir que o médico soubesse
hoje à noite para que ele não faça essa viagem desnecessariamente.
— Com certeza. Vou garantir que ele saiba. E ele vai adorar
encontrar a Srta. Kiss em breve.
Rex desligou, sentindo o sangue ferver enquanto começava a
entender o plano que Josephine obviamente já havia bolado.
Em seguida, Rex procurou o leilão e descobriu que se tratava
de um evento realizado anualmente em Londres. Um evento que,
por acaso, seria na noite seguinte. Rex percorreu o site, parando ao
chegar à lista da diretoria. — Anton Kiss, — murmurou.
O irmão dela estava no conselho do leilão de arte que
aconteceria amanhã à noite em Londres. Ele quase certamente já
teria deixado o país. Não estaria em casa.
Certo. Rex não tinha certeza do porquê essa parte era
importante, mas aparentemente era.
Ele olhou para cima quando um membro da equipe de limpeza
saiu de um armário no final do corredor onde Rex estava sentado
no saguão aberto. Ele avistou um jaleco branco pendurado lá
dentro.
Rex retornou ao site interno de Hollis, onde a caixa de resposta
ainda estava aberta, com o cursor piscando.
— Entendi, — ele digitou. E então desconectou.
CAPÍTULO CINQUENTA E OITO
Posey era boa em esperar. Ela já esperava há décadas, desde
os dezoito anos. Mas nunca, em todo esse tempo, sua esperança
havia se elevado tanto quanto agora.
Apesar de sua paciência praticada, tinha sido uma noite muito
longa.
Por favor, não me decepcione.
No entanto, sua esperança não dependia infundadamente da
competência dos outros. Ela havia calculado e analisado números.
Ela havia “jogado a guerra”, como seu pai costumava dizer. E agora,
tudo o que lhe restava era confiar que o homem com quem contava
era exatamente como ela o imaginava.
Ela não conseguiria fazer o que precisava ser feito sem ele.
Posey ouviu o toque distante da campainha, o ventilador
acelerando junto com sua respiração. Calma, calma. Mantenha a
calma.
Posey fechou os olhos. A espera estava quase no fim. Dez
minutos, ela calculara. Não mais que doze.
Se você tentar contar a alguém o que aconteceu naquela noite,
ou se tentar fazer algo estúpido, eu vou te matar, Posey, está me
ouvindo? Ou vou te colocar no escuro e te deixar lá. Sem janelas. Sem
sol. Seja grato pelo que eu te dou. Eu não preciso te dar nada.
Após o ataque e o acidente, que não foi acidental, ela passou
dois anos desejando morrer — lamentando tanto a perda
catastrófica de sua mobilidade quanto a terrível traição sofrida. —
Mate-me, — dissera ao irmão da cama de hospital que ele montara
em seu quarto, e talvez fosse por isso que a mantivera viva. Então,
um dia, Anton chegou com um jornal nas mãos e leu um trecho.
Tatum Devore, o homem que a deixara cercada pelo mal, bebera
uma garrafa de uísque e pulara de um telhado de dez andares.
Anton pensou que isso a deixaria devastada.
Mas, em vez disso, Posey decidiu viver.
Ela decidiu calcular.
Ela tinha tão pouco com o que trabalhar, e tantas coisas
deram errado tantas vezes. No entanto, ela permaneceu firme,
confiante em suas próprias habilidades, paciente apesar dos
recursos incrivelmente limitados.
Sem poder usar as mãos ou os pés. Sem mobilidade alguma
sem a cadeira. Controles rígidos sobre qualquer tecnologia. Sem
telefone. Apenas cuidadores que Anton havia aprovado de antemão,
ou seja, seguidores rigorosos das regras com pouca ou nenhuma
empatia por uma jovem indefesa e presa a uma cadeira de rodas.
Dois deles foram cruéis, os outros apenas frios.
Para a sorte de Posey, Anton não entendia nada de tecnologia,
assim como os brutamontes que trocavam sua roupa de cama e
enfiavam colheres em sua boca. Nos últimos anos, Anton não
percebeu que a cadeira de rodas moderna de Posey tinha Bluetooth
e outras tecnologias, recursos que Posey rapidamente dominou. Ele
não tinha a mínima ideia de que o dispositivo de assistência por voz
que ela usava para se comunicar com seus cuidadores tinha
conectividade sem fio. Ele não sabia que Posey apenas fingia ter
perdido a capacidade de falar sozinha.
O que Anton sabia era como fracassar e desperdiçar. Ele era
especialista em levar o negócio da família à ruína. Estava fazendo
isso agora, mas Posey finalmente conseguira invadir os arquivos
digitais — e depois transferira cópias para a dark web. Arquivos e
comunicações que conectavam Anton a uma “solução” desleixada
após a outra. Levara muitos anos, mas ela tinha tempo. E tinha de
sobra.
Enquanto vasculhava os projetos, ela se deparou com a
emboscada planejada e o terror contra um juiz em Aspen Cove,
Virgínia, sua esposa e filhas. Anton havia contratado dois pequenos
criminosos, homens certamente incompetentes, mas que cobravam
um preço muito baixo. Posey admitia que eles eram bodes
expiatórios convenientes se algo desse errado. No entanto, Anton
não tinha qualificação para administrar uma barraca de limonada,
muito menos um império empresarial complexo.
Os dois homens foram instruídos a fazer o crime parecer
aleatório, seguindo as mulheres e sendo “capturados” pelas
câmeras. Posey havia pensado em como motivar a família a agir, a
se preparar, com seus recursos limitados e também para não dar a
Anton a dica de que havia interferido. Suas opções eram
extremamente escassas, especialmente naquela época, antes de
aprimorar suas habilidades usando a série de dispositivos,
conectados por portais muitas vezes imprevisíveis.
Talvez a ideia de recomeçar tenha lhe ocorrido primeiro por
causa do seu próprio anseio por uma chance. Uma possibilidade.
Se ao menos ela pudesse ter uma segunda chance. Se ao menos ela
pudesse consertar o que ela mesma contribuiu para quebrar. Se ao
menos ela não tivesse confiado em Tatum. Se ao menos ela tivesse
compreendido as profundezas da maldade incomparável do seu
irmão. Se ao menos ela pudesse encontrar uma maneira de
recuperar sua liberdade. Você gostaria de uma segunda chance,
Posey?
Sim, sim, por favor. Mil vezes sim.
Recomeçar, ela supôs, era algo pessoal. Era motivador. E se
aplicava a cada caso. Afinal, cada “conserto” que a família Kiss era
contratada para corrigir começava com um crime, ou um erro. Ou,
às vezes, simples estupidez.
Você quer voltar e fazer tudo de novo, só que diferente dessa
vez?
Cada passo era uma vitória para Posey. Gravar suas
mensagens online e, em seguida, passá-las por um gerador de
modificação de voz antes de armazená-las em seu dispositivo. Usar
a internet para ligar para o número residencial dos Cortlandts,
entre tantos outros passos.
Pelo menos uma parte dela havia apreciado o desafio, pois
havia encontrado maneiras de realizar o que era essencialmente
impossível. A tarefa durou até o dia anterior ao ataque planejado.
Qualquer parte poderia ter fracassado, mas não fracassou.
A Sra. Cortlandt, infelizmente, interceptou a ligação destinada
ao juiz. E então ela se tornou o elo defeituoso na equação de Posey.
Mesmo que a Sra. Cortlandt tivesse ido ao local que Posey lhe
fornecera, ela não teria reconhecido o homem que seu marido havia
soltado nas ruas em vez de deixá-lo na prisão, onde ele merecia
estar. Mas ela poderia ter visto as fotos dos dois homens enviados
para aterrorizar sua família. Talvez ela tivesse ficado de olho neles.
Talvez tivesse alertado a polícia quando eles começaram a segui-la
e sua filha Eleanor.
Ela saberia.
Mas não foi isso que aconteceu.
As chances eram baixas; Posey sabia disso. Ela havia
analisado os números e considerado as variáveis. Sabia que o
sucesso era improvável. Mesmo assim, considerando todo o seu
esforço, fora frustrante. E pior ainda que o crime tivesse dado
errado, como ela suspeitava que daria, embora não na mesma
proporção.
Fiéis ao seu estilo, os dois viciados garantiram que o trabalho
desse errado.
Anton ainda a visitava regularmente. Gostava de lhe mostrar
uma foto da instituição estatal para onde ela seria enviada,
conforme especificado em seu testamento. — Se alguma coisa me
acontecer, Posey, seja morte ou prisão, é para lá que você irá. Não
haverá dinheiro. Deixei isso, e o patrimônio, para fundações de
caridade nas quais você nunca tocará. Mas agora, você não toca
mais em nada, não é, Posey Pose? — E então ele sorriu enquanto o
olhar de Posey se movia sobre a foto que ele de alguma forma
conseguira tirar das condições deploráveis dentro da instituição.
Às vezes, Posey achava que valeria a pena compartilhar as
evidências que havia reunido de qualquer maneira, mesmo que
acabasse num inferno estatal. Mas, por outro lado, ela não teria
nenhum dispositivo de alta tecnologia, nenhuma cadeira de rodas
personalizada com Bluetooth. Anton lhe dera presentes, soubesse
disso ou não, e mesmo que fosse principalmente por uma questão
de aparência, para que os médicos que a examinavam não fizessem
perguntas, ela cobiçava essas coisas mesmo assim.
Eles estavam permitindo que ela o arruinasse.
Lentamente. Mas com certeza.
Posey continuou a encontrar novas maneiras de acessar
dispositivos eletrônicos e métodos criativos de conexão a sites e
arquivos antes inacessíveis. Ela lia secretamente fontes de notícias
e sabia o que acontecia no mundo exterior, muito além da prisão
onde estava presa, trancada não apenas em seu quarto, mas em
seu corpo destroçado.
Ela fingia estar fraca e assustada. Anton gostava assim.
Quanto mais fracassos a empresa sofria devido à
incompetência de Anton, mais distraído ele ficava. Isso era bom
para Posey.
Ela sentia grande prazer em ouvi-lo xingar e se enfurecer
quando mais uma de suas “soluções” era interrompida pelo alvo
pretendido. Ele não entendia como nem por quê. A reputação da
empresa da família Kiss despencou. Contratos minguaram.
Ninguém queria usar serviços com tamanha probabilidade de
fracasso, quando o fracasso, nesses casos, significava o colapso
completo da vida de um cliente.
Posey ouviu vozes e passos lá embaixo, ecoando nos
corredores de mármore. O homem que havia entrado falava com o
mordomo na porta. Devia haver outros por perto também — Anton
tinha camadas de segurança. Alguém suspeitava? Teriam ligado
para Anton em outro fuso horário? Havia apenas uma pequena
probabilidade de que ligassem. Mas ainda assim... rápido, rápido...
O ventilador transmitia o movimento de empurrar e puxar do
seu diafragma. Ela não precisava se lembrar de respirar. A máquina
fazia isso por ela.
Às vezes, dependendo das circunstâncias, ela simplesmente
removia um elo invisível, fazendo com que uma correção falhasse.
Ela também dera a outros a chance de refazerem, ao longo dos anos,
em casos em que refazer fazia sentido. A maioria havia fracassado,
mas alguns não. Ela não tinha acesso a cada detalhe do esboço do
trabalho. Nem sempre sabia quando, como ou onde. Os alvos da
redefinição tinham que fazer o trabalho pesado, literalmente. Ela só
podia dar o que conseguia roubar e nada mais. Ela havia melhorado
nisso ao longo dos anos. Posey começou a melhorar em suas
ofertas. Ela não deixou rastros, especialmente para Anton
encontrar.
E então, finalmente, ela completou a última tarefa que vinha
tentando há anos.
O golpe de misericórdia.
Levou mais de uma década de tentativas frustradas, mas ela
conseguiu hackear as senhas das contas bancárias de Anton. Os
valores eram muito menores do que deveriam — o pai deles havia
deixado uma fortuna para os filhos, e Anton já havia desperdiçado
boa parte dela. Mas havia o suficiente. O suficiente para Posey viver
confortavelmente pelo resto da vida.
Ela fechou os olhos enquanto esperava, encontrando calma ao
relembrar seu último sucesso. Cami Cortlandt havia respondido
lindamente à sua oferta de recomeço. Cami, que já havia
sobrevivido a um ataque tão cruel — a razão pela qual Posey sentia
afinidade pela jovem.
Posey só tinha o vídeo do menino e algumas informações
básicas para enviar. Ela não sabia a hora nem o lugar. Cami
descobriu tudo sozinha. Mais tarde, Posey invadiu o banco de dados
da polícia em Big Sur, Califórnia, e leu o relatório policial. Ela e um
homem chamado Alexander Lowe resgataram o filho de Cami dos
traficantes para quem Anton o havia vendido, a fim de recuperar
parte da fortuna da família que ele havia desperdiçado. O acordo foi
desnecessariamente cruel — o que não era surpresa — mas lhes
deu tempo.
Alexandre Lowe.
Ela o pesquisou e então começou a se perguntar se havia mais
oportunidades naquele caso do que ela havia considerado
inicialmente.
Afinal, era hora de Posey planejar sua fuga. A polícia não era
segura — alguns eram clientes. Outros, peões. Ela poderia
transferir provas para o FBI, mas, a menos que Anton fosse
surpreendido em uma operação às seis da manhã, teria tempo para
matá-la. E ela não tinha dúvidas de que ele não hesitaria em fazê-
lo. Ele poderia ser levado, mas a levaria consigo se pudesse.
Ou ela acabaria no poço do desespero administrado pelo
estado, sem acesso ao fundo da família, por mais desperdiçado que
fosse.
E assim, ela encontrou uma maneira de conseguir para Rex
as informações necessárias para começar a desvendar o caso em
que ela sabia que ele estava trabalhando. Ela esperou no único local
que imaginou que ele eventualmente apareceria: o site da
campanha de Hollis Barclay. Ela só teve alguns instantes para se
comunicar e quase deixou cair sua ferramenta na pressa. Mas ele
obviamente entendeu a mensagem dela. Ele era tão impressionante
quanto ela esperava. Literalmente.
Posey se abaixou e usou a mesma ferramenta agora, segura
entre os dentes, para pressionar as teclas do seu dispositivo de voz,
transferindo o dinheiro das contas pessoais e comerciais de Anton
para as contas que ela havia aberto sob uma entidade corporativa
em um país estrangeiro. Ela observou, com os olhos fixos na tela,
enquanto dois pares de passos se aproximavam do seu quarto. A
transferência foi concluída assim que a porta se abriu, e Posey
deixou a ferramenta cair no colo.
O mordomo entrou primeiro, seguido por um homem alto, de
ombros largos, cabelos pretos, carregando uma maleta médica e
vestindo um jaleco branco impecável. Ele sorriu. Rex Lowe. Ele era
ainda mais bonito do que a foto que ela vira online.
— Josephine, — disse o mordomo, — Dr. Ellingson aqui para
sua consulta.
— Olá, Josephine, — disse Rex, dando um passo à frente e
abaixando levemente a cabeça, segurando a maleta médica com as
duas mãos. Seu coração disparou, mas ela conteve o sorriso.
Rex olhou para o mordomo. — Podemos ter um pouco de
privacidade, senhor?
— Claro. Estarei bem na porta.
O mordomo saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Rex se virou e caminhou até a cadeira de rodas dela, agachou-se ao
lado dela e segurou suas mãos. — Presumo que você conheça outra
saída daqui, — disse ele.
Posey então sorriu, uma risadinha vitoriosa borbulhando de
sua boca. Ah, ela não usava a voz há tanto, tanto tempo, então o
fazia com alegria. — Sim, Sr. Lowe, mas o senhor terá que me
carregar.
CAPÍTULO CINQUENTA E NOVE
Tinha sido uma semana infernal, e o sistema nervoso de Rex
ainda podia estar um pouco desorganizado. Quando começou a
entrar em parafuso, emocionalmente falando, imaginou primeiro
Cami e Cyrus encolhidos no sofá do pai dela, para onde tinham ido
depois que Cami recebeu alta do hospital. Em segurança. E então
imaginou o sorriso de Posey Kiss enquanto a conduzia pelos portões
de sua propriedade. E ambas as lembranças o inundaram com uma
brisa de paz.
Mesmo assim, seu coração disparou repentinamente em
reação ao som de um carro se aproximando. Saiu de casa, e o
barulho o fez perceber imediatamente que não era Cami, como
pensara por um instante, mas sim sua mãe, com seu Toyota antigo
subindo a colina em direção à casa.
Ele já havia se despedido longa e dolorosamente de Cami e
Cyrus. Não havia motivo para que fosse ela, mas seu coração ainda
expressava o quanto ele desejava isso, independentemente da
probabilidade.
Ele esperou enquanto a mãe estacionava e saía do carro,
parando enquanto olhava ao redor. Ela assobiou enquanto
caminhava em sua direção. — Parece um imóvel novo.
Ela abaixou a mão, e foi então que ele viu os hematomas. Um
olho estava vermelho e inchado, e sua bochecha estava roxa e azul.
Ele deu um passo à frente. — Que diabos aconteceu?
— Fique tranquilo, soldado. — Ela se virou e sentou-se no
degrau mais alto. — Apesar das aparências, estou bem.
— Quem fez isso com você, mãe? — Ele sentou-se ao lado dela,
e agora que ela estava mais perto, Rex percebeu que os hematomas
tinham cerca de uma semana, já ficando verde-amarelados nas
bordas.
— Você sabe quem fez isso. Saul, o Almôndega. — Ela soltou
um suspiro vazio e se recostou no corrimão.
— Tenho que pegar a estrada em meia hora. Minha
caminhonete está toda lotada. Agora tenho que ir matar alguém?
— Não, não tem motivo para perder tempo. Eu o deixei. Estou
hospedada no Motel Six, nos limites da cidade.
— Você já esteve em um motel? Por que não veio aqui? — Ele
se sentiu ofendido. De verdade. Sua mãe tinha levado uma surra de
outro namorado babaca e depois ido para um motel barato em vez
de pedir ajuda a ele? Para ser justo, ele andava ocupado
ultimamente, mas mesmo assim.
— Porque eu precisava pensar. — Ela olhou para ele, o olho
ileso enrugando-se enquanto lhe dava um sorriso que continha um
pouco de tristeza. — Não fiz isso o suficiente. Imaginei que não
havia tempo melhor do que o presente.
Ele franziu a testa. Ela o estava confundindo. Havia algo muito
diferente nela, e ele ainda não conseguia determinar se era bom ou
ruim. — Certo. Pensar pode ser bom. Ou pode te causar problemas.
— Este era do tipo bom. Eu acho. Ainda não sei. — Ela olhou
por cima do ombro para a varanda — impecável e com uma camada
de tinta fresca — e depois para ele. — Este lugar ainda está
disponível?
— Recebi uma oferta esta manhã, e outra deve chegar esta
tarde. O corretor imobiliário vai ligar. — Ele estaria na estrada, mas
não havia mais nada a fazer dali em diante. Cuidar do resto
remotamente seria ótimo. — Preço pedido integral, — disse ele. —
Você poderá alugar um lugar e ter algum dinheiro no banco. — Ela
ficaria bem, como sempre. Mas Rex estava feliz por estar lhe
deixando um pequeno pé-de-meia — se ela escolheria fazê-lo durar
ou desperdiçar, era problema dela.
Ela o encarou. — Você ainda estaria disposto a me receber na
casa?
— Aqui?
— Sim, aqui.
— Achei que você tinha dito que não queria sentir como se o
velho estivesse te observando.
— É, bem... — Ela suspirou. — Talvez esteja na hora de eu e
o velho fazermos as pazes.
Ele a observou, percebendo pela primeira vez que a diferença
que notara nela parecia ser um mínimo daquela paz que ela acabara
de mencionar. E isso era interessante, considerando que ela
acabara de levar uma surra. Seus próprios dedos se esticaram,
querendo se fechar em punhos ao pensar no idiota que fizera aquilo
com sua mãe. — A casa é sua, se você quiser. Eu adoraria. — Todo
o trabalho que fizera o deixou ainda mais feliz agora que sabia que
tinha sido para ela. Ele planejara dar a ela o dinheiro da venda de
qualquer maneira, mas imaginá-la ali o deixava feliz e
surpreendentemente certo.
Ela assentiu e então cutucou o buraco no joelho da calça
jeans. — Eu assisti ao noticiário. Não só à execução pública daquela
mulher Barclay.
Isso já era loucura. Mas eu também vi a história sobre o que
Cami Cortlandt passou. Eu sabia... todos aqueles anos atrás, mas
eu estava focada em você e no que eles tentaram te culpar. Eu me
senti amargurada com ela.
— Ela não merecia isso.
Ela olhou para ele. Obviamente ouvira o tom defensivo em sua
voz. Seus olhos se suavizaram. — Eu sei disso agora. Amargura
destrói, não é? Era parte do que eu estava pensando naquele quarto
de motel mofado.
A amargura destrói. Sim, sim, destruía. Amargura e culpa.
Destruiu Glory Jacobson e, por extensão, sua filha, mesmo que por
um caminho diferente.
E então destruiu a família Cortlandt também. Tanta
destruição. Ele pensou em Josephine Kiss também, mas pensar
nela só o fazia sorrir. Ela ficaria bem. Ela ficaria ótima.
À medida que a investigação se desenrolava, mais coisas
vinham à tona a cada dia. Posey conseguira revelar às autoridades
o nome de batismo de AJ: um ladrãozinho com problemas de abuso
de substâncias chamado Andrew Jones. Anton Kiss cuidou dele
depois que ele voltou à tona alguns dias depois de escapar da cena
do crime dos Cortlandt. Ele era apenas mais uma ponta solta, e
Anton Kiss não podia se dar ao luxo de pontas soltas.
Posey, no entanto, sabia onde os corpos estavam enterrados,
tanto literal quanto figurativamente.
As autoridades planejavam exumar o corpo de Jones para
extrair o DNA e compará-lo com o retirado do corpo da irmã de
Cami. Rex vira a dor profunda nos olhos de Cami quando ela ouviu
a notícia, mas também vira o alívio e a paz que esse encerramento
trouxe.
A polícia tentava encontrar algo substancial que ligasse Felicia
Barclay à família Kiss, e mais especificamente ao sequestro de
Cyrus, mas até então, nada havia sido encontrado. Eles tinham a
declaração de Posey, e Cami havia relatado sua conversa com
Seraphina, mas até então, nenhuma evidência concreta havia sido
encontrada. Prova, talvez, de que Seraphina estava certa em sua
crença de que a mulher jamais enfrentaria a justiça, pelo menos
não neste mundo. E assim, Seraphina decidiu resolver o problema
por conta própria.
Eles a viram sendo levada algemada para longe da cena do
crime, com um pequeno sorriso sereno no rosto. E se Rex tivesse
que adivinhar, diria que ela passaria o resto da vida atrás das
grades. E também diria que era exatamente o que ela havia
planejado. E provavelmente o que ela havia determinado que
merecia.
Tanto Rex quanto sua mãe ficaram em silêncio por um
momento, cada um distraído com seus próprios pensamentos. Mas
agora, a mãe de Rex olhou para a casa novamente. — Vou fazer
tudo o que estiver ao meu alcance para superar a amargura que
carreguei comigo a maior parte da minha vida, — disse ela. — Não
espero que seja fácil.
Um calor se espalhou por seu peito. Ele amava aquela mulher
— intensamente. E esperava, por Deus, que ela desse certo desta
vez. — Siga seu instinto, — disse ele.
— Porra, não. — Ela riu e deu um tapa no joelho. — Eu já
prometi a mim mesma que iria contra a minha intuição. Isso só me
colocou em apuros. Tanto faz, meu instinto diz que daqui em diante
farei o oposto.
Ele também riu. — Por enquanto.
— Por enquanto, — ela concordou com uma piscadela. —
Talvez não para sempre.
Ela estendeu a mão e empurrou o ombro dele. — Então,
falando em Cami Cortlandt...
Ele sorriu, mas até ele sentia que o sorriso era carregado de
dor. Meu Deus, ele já sentia falta dela, e nem tinha ido embora. Era
uma dor aguda no estômago. — A vida dela é aqui, com o filho, o
pai e a madrasta, e a minha é no Colorado, — disse ele à mãe.
Levaria algum tempo para Cami processar tudo o que acontecera
com Seraphina Arnoult e os Barclays, e também a verdade sobre
porque e como sua mãe e irmã haviam morrido. Mas ela já havia se
curado antes, e ele tinha fé que ela conseguiria fazer isso de novo.
Ela tinha Cyrus para mantê-la forte, e era Cyrus quem precisava
ser seu foco agora.
Cyrus... aquele garoto. Seu coração apertou. Ele era tão
incrível quanto a mãe.
— Por enquanto, — repetiu a mãe. — Mas talvez não para
sempre?
— Talvez. Ela vai me visitar, e eu também. Vamos ver o que
acontece. — Eles conversaram brevemente sobre o assunto e
sabiam que ambos queriam estar na vida um do outro. A logística
disso era... incerta. Mas, novamente, a atenção dela precisava estar
em outro lugar. Ele não podia pedir que ela tomasse nenhuma
decisão que mudasse sua vida naquele momento. Simplesmente
não seria justo nem certo. E Cyrus estava apenas se adaptando à
sua nova vida e merecia estabilidade. Eles administrariam seu
relacionamento à distância de acordo com suas próprias forças.
— Você fez uma coisa e tanto, — disse a mãe. O rosto dela
estava tão cheio de orgulho que ele sentiu um aperto no peito. — O
resgate na Califórnia. Eu nem perguntei o que você estava fazendo
quando disse que ia viajar por alguns dias. Estava muito envolvida
com as minhas próprias besteiras. Eu sempre estava envolvida com
as minhas próprias besteiras, não é?
— Você fez o melhor que pôde.
— É. Isso pode não dizer muita coisa. Mas... é, eu fiz. Não sei
como criei um homem como você, mas aqui está você, e talvez seja
a prova de que tenho um pouco de bondade.
— Você tem muita coisa boa, mãe.
— Gostaria de ouvir tudo sobre o resgate diretamente da fonte,
se você tiver algum tempo.
— Claro que sim. Entre e dê uma olhada na sua nova casa.
Ela se levantou, e ele também, e o envolveu em seus braços.
— Eu te amo, Rex. Você é a melhor coisa que já fiz, e isso será
verdade até o dia em que eu morrer.
Ele a abraçou de volta, decidindo que, se alguma vez
guardasse qualquer ressentimento em relação a ela, deixaria para
lá naquele momento. De nada adiantava — ele a via em todos os
seus tons de luz e escuridão; não tinha dúvidas sobre seus defeitos
e como eles o afetavam. Mas ela fizera o melhor que podia e o
amava. Ele nunca duvidou disso por um segundo sequer de sua
vida.
Ele olhou para a estrada, imaginando Cami e Cyrus passeando
entre as borboletas na fazenda dela, para onde ela disse que iria
depois que se despediram, e a saudade o invadiu como uma
tempestade. O tempo deles juntos havia chegado ao fim. Por
enquanto, sussurrou para si mesmo. Mas talvez não para sempre.
E com esse mantra, ele encontrou forças para sair do que fora
a casa do avô uma hora depois e, pela segunda vez na vida, mudar-
se de Aspen Cove. Desta vez, doeu muito mais do que a primeira.
CAPÍTULO SESSENTA
Três meses depois
Cami olhou para Cyrus, e ele sorriu para ela, apertando sua
mão antes que ela levantasse o braço e batesse na porta na frente
deles.
Passos se aproximaram, e o coração de Cami disparou. Nossa,
ela estava tão nervosa que mal conseguia respirar. E não queria
admitir o quanto a mão de um menino de onze anos na sua lhe dava
conforto naquele exato momento, mas era verdade. Ela se segurou
firme enquanto a porta se abria.
Rex.
Oh. Oh, Deus, ela sentiu falta dele. Foram três meses
miseráveis sem ele, e ela sentiu muita falta dele. Eles se falaram por
telefone e por FaceTime também, mas não era o suficiente, nem
perto do suficiente. Ele não estava lá quando ela recebeu a notícia
de que sua tutela legal de Cyrus havia sido concedida, e isso parecia
tão errado. Ela se sentiu feliz, aliviada, triste e solitária também,
porque a celebração parecia um pouco menor sem ele — alegre, mas
incompleta. Seu corpo se inclinou ligeiramente para frente,
seguindo o comando do coração. O rosto dele demonstrou surpresa,
e ele piscou, primeiro para ela e depois para Cyrus.
— Oi, — ela disse, a palavra saindo pela boca.
— Cami... o quê...
— Eu te amo, — disse ela. Cyrus apertou a mão dela
novamente, e ela pigarreou. — Tanto. Eu deveria ter te dito antes
de você ir embora, mas tudo era... muito, e eu só pensei que os
planos já estavam feitos e então... mas eu estou aqui — nós estamos
aqui — porque nós dois te amamos e queremos ficar com você. Nós
dois. — Ela olhou para Cyrus. Suas palavras estavam todas
confusas. Ela as havia praticado, e elas tinham sido mais suaves
do que isso, mas tudo tinha ido por água abaixo no momento em
que ela viu seu lindo rosto. Mas Cyrus apenas sorriu para ela e lhe
deu um pequeno aceno de cabeça. Continue. — Então, hum, nos
mudamos para cá.
Ele olhou fixamente. — Você se mudou para cá?
Ela balançou a cabeça. — Nós decidimos que, uh...
— Queríamos que você soubesse que falamos sério, — disse
Cyrus a Rex. — Sem dúvidas.
— Sem dúvidas? — repetiu Rex, ainda em choque. O que ele
estava pensando? Seu coração batia forte no peito, e seu rosto
estava vermelho. Ela esperava... ou torcia... o que ela esperava? Que
ele estivesse sorrindo agora. Mas não estava. E talvez...
— É. Sem dúvidas, — continuou Cyrus. — Queremos tentar.
Nós três. Alô?
Rex, que estava olhando boquiaberto para Cami, olhou para
Cyrus, hesitou e então riu.
Ele. Riu.
Foi Cami quem piscou, com o coração apertado. Por que ele
estava rindo?
Mas então Rex deu um passo para o lado, e o olhar de Cami
se voltou para trás. O apartamento estava vazio, com uma pequena
pilha de caixas à esquerda da porta. — Pedi demissão, — disse ele.
— Você o quê? Por quê?
— Porque eu também te amo. Amo vocês dois. Eu estava
voltando para Aspen Cove. Ia embora em uma hora. Eu nem moro
mais aqui desde as 18h.
Cami levou um momento para processar aquilo. Cyrus,
aparentemente, não precisava de tanto tempo. Ele deu um passo à
frente e abraçou Rex pela cintura, que riu novamente e o abraçou
de volta.
— Oi, Cy. Senti sua falta, amigo.
— Eu também senti sua falta, — disse Cyrus. Ele olhou para
Cami. — Estávamos todos nos apoiando, mãe.
Cami também riu, um som maravilhoso que também continha
as lágrimas que brotaram em seus olhos.
— E a sua fazenda, Cami? Você não pode abandonar o seu
negócio.
— Eu ia abrir outra aqui, — disse ela. — Uma Flutterfly na
Virgínia e uma no Colorado. Uma expansão para vários estados. É
uma coisa boa, né?
O sorriso dele era gentil. — Nunca se pode ter borboletas no
estômago o suficiente.
— Não, exatamente. Isso mesmo. — Ela soltou uma risada.
— Seu pai...
Essa era a parte difícil. Ela sentiria muita falta dele, e sabia
que Cyrus também sentiria. Mas foi seu pai quem insistiu para que
eles fossem procurar Rex, seu pai quem lhe disse para se apegar ao
amor, para nunca desistir.
E talvez estranhamente, as palavras de Seraphina em sua
carta frequentemente se repetiam na mente de Cami quando a
angústia de tudo o que ela havia descoberto sobre o crime que levou
sua mãe e irmã ameaçava derrubá-la.
Viva a sua vida, Cami. Que ela seja boa.
— O vovô e a Gigi nos deram a bênção, — disse Cyrus ao
perceber que ela estava sem palavras. — Eles vão nos visitar no
Natal.
Cami assentiu. Tinham. E iriam. O pai dela também estava
muito melhor agora, embora tivesse passado pelo luto novamente e
processado tudo. Processar tudo poderia levar um bom tempo. Mas
ele tinha Gigi, e Gigi era uma dádiva de Deus. Paciente e
compreensiva.
Seus pensamentos se conectaram e depois se separaram, e
finalmente a ficha caiu. Meu Deus. Rex estava vindo atrás deles. Ela
ainda tentava assimilar. Todo aquele cenário parecia tão diferente
em sua cabeça. Quanto daquilo ele havia pensado, e quando? Ela
tinha tantas perguntas, mas, principalmente, estava morrendo de
vontade de ser abraçada.
Talvez Rex lesse a mente dela, ou talvez o corpo dela estivesse
tão inclinado em sua direção que ele não precisava ler mentes para
saber o que ela precisava. Ele abriu o outro braço e ela o abraçou,
encostando o rosto em seu pescoço.
— Eu quero uma família. Quero cuidar de vocês. Eu estava
voltando para te dizer isso, — disse ele, com a voz rouca e grave.
Elas se abraçaram e riram, e Cami enxugou as lágrimas. —
Estamos sem teto e sem emprego, — disse ela.
— Nem escola, — acrescentou Cyrus. — Nem amigos. Nem
animais de estimação, nem nada.
Sim, eles estavam praticamente sem tudo o que compunha
uma vida naquele momento. Então por que os três estavam
sorrindo um para o outro?
Porque tudo isso era fácil, ela percebeu.
Isso, eles, juntos, era o que realmente importava.
— Acho que todos nós deveríamos voltar para a Virgínia, —
disse Rex finalmente. — Seu negócio está lá, e seu pai e a Gigi.
Minha mãe também. Ela vai ficar muito feliz em nos receber. E eu
tenho uma ideia de negócio que ando discutindo com alguns amigos
muito bons.
— Você tem alguns amigos legais com habilidades únicas, —
disse Cami.
Rex sorriu. — Poderíamos fazer algo de bom.
Cami ergueu uma sobrancelha.
— Por acaso alguma dessas amigas é mulher?
Rex riu baixinho. — Talvez.
Talvez. Cami sorriu. Ela tinha visitado Posey Kiss várias vezes
nos últimos meses. Ela era... extremamente única e charmosa, e
Cami gostava muito dela. Ela ajudou Cami a desvendar exatamente
o que lhe acontecera. Ela se esforçou ao máximo para impedir o
crime da única maneira que pôde. Cami havia seguido a trilha do
“e se” por um tempo, mas decidiu abandonar esse caminho. Isso
não mudava nada e, francamente, se Posey conseguia encontrar um
pouco de paz depois do que lhe fora roubado, Cami também
conseguiria.
Viva a sua vida, Cami. Que ela seja boa.
Ela pegou a mão de Cyrus. — Parece que temos o esboço de
um plano, então, — disse ela para Cyrus e Rex. Devagar e sempre,
pensou Cami. Devagar e sempre. Sempre funcionara para ela antes.
— É tudo o que precisamos, — disse Rex, com os olhos escuros
fixos nos dela. — Descobriremos o resto ao longo do caminho.
CAPÍTULO SESSENTA E UM
Seis meses depois
Josephine Kiss olhou para as ondas quebrando lá embaixo,
com um sorriso satisfeito nos lábios. Deitou a cabeça na cadeira e
cantarolou alguns compassos do quinto movimento da segunda
Sinfonia da Ressurreição de Mahler, que estava sendo tocado pelos
alto-falantes de sua nova casa.
Ela pensou no irmão, como às vezes fazia ao contemplar
aquela vista milagrosa, e o imaginou na pequena cela que ocupava
naquele momento. Os negócios da família, é claro, haviam sido
dissolvidos, e Anton aguardava julgamento por uma vasta gama de
crimes. As contas bancárias associadas à organização haviam sido
todas confiscadas, embora contivessem pouca coisa. O negócio, ao
que parecia, já caminhava para a ruína financeira.
O juiz considerou Anton um risco de fuga, e a fiança foi
negada. Posey tinha certeza de que ele nunca veria a luz do dia.
Passaria o resto da vida se perguntando como alguém tão indefeso
conseguira virar o jogo contra ele.
Posey havia considerado permanecer na propriedade da
família, mas decidiu vendê-la e se mudar para esta casa adorável e
arejada com vista para o mar. Ela passou os últimos quatro meses
equipando-a com todos os recursos de acessibilidade disponíveis e
fazendo as modificações necessárias.
O pai de Posey aprovaria, pensou ela, um novo começo. Ela
tivera muitos anos para refletir sobre o que ele quisera dizer em seu
leito de morte, quando lhe dissera para dançar quando tivesse a
oportunidade. Concluiu que talvez não fosse apenas literal, como
presumira inicialmente. E, como uma mulher muito literal, Posey
teve que lidar com o conceito por um bom tempo.
Posey não tinha a mínima chance de dançar de verdade agora.
Mas isso, esse novo começo, essa liberdade, para Posey, era como
dançar. E ela não planejava parar tão cedo.
Ela usou o sistema de transmissão de língua da cadeira para
se virar da janela, fazendo uma rápida curva para um lado e depois
para o outro enquanto a música chegava a um clímax triunfante.
Esta sinfonia era a favorita do pai dela, e ela também a
adorava. A peça foi uma jornada lenta — talvez dolorosamente lenta
—, mas que valeu a pena pela recompensa impressionante.
Posey foi até sua mesa, equipada com a mais moderna
tecnologia. Ela devia alguns dados a Rex Lowe — ele ficaria
satisfeito com o que ela tinha encontrado. Ele ligara no outono
passado e perguntara se ela gostaria de trabalhar com ele e alguns
amigos que estavam abrindo um escritório na Virgínia.
— Legítimo, — fizera questão de deixar claro. — Seguindo as
regras. — Rex sabia muito bem que ela participava dos negócios da
família antes do acidente e continuava guardando segredos demais
para contar. Se a polícia também suspeitava disso, decidira não
tentar processar uma mulher que já tivera a maior parte de sua vida
roubada.
— Por que eu? — ela perguntou a Rex quando ele fez a oferta.
— Você está perguntando por que eu iria querer trabalhar com
uma pessoa que usou uma cadeira de rodas e um bloco de notas de
voz para derrubar uma organização criminosa de dentro para fora?
Posey apenas riu. Ela manteria tudo dentro da lei. Por Rex.
Seu salvador. O homem que a conheceu e superou todas as suas
esperanças e expectativas calculadas. E Cami e Cyrus, que
começaram a visitá-la com frequência. Seus amigos. E só de pensar
nisso, ela sentiu vontade de dançar mais. Amigos! Uma onda
interior. Um rodopio.
Eles tinham passado por aqui ontem mesmo, e Cami — com o
anel de noivado brilhando no dedo — atualizou Posey sobre Hollis
Barclay. Não que Posey precisasse de uma atualização, pois sabia
muito bem o que havia acontecido com Hollis recentemente. Mas
ela adorou ouvir o relato da amiga, mesmo assim, e ficou encantada
com a óbvia mistura de satisfação e simpatia de Cami.
Hollis permaneceu na disputa pelo Congresso mesmo depois
do assassinato de sua mãe, transmitido ao vivo pela televisão, e do
frenesi midiático resultante. Cair no chão em posição fetal e uivar
sem parar fora... uma reação compreensível, disseram aqueles que
ainda torciam por ele. Embora, admito, a imagem não fosse nada
brilhante.
Mas então o vazamento aconteceu.
Acontece que uma câmera de segurança no corredor onde
Hollis tinha ido falar com Rex capturou o discurso de Hollis.
Ninguém sabia como ocorreu o vazamento daquela filmagem
ou quem era o responsável.
Mas certamente lançou Hollis sob uma nova luz. Sua reação à
morte da mãe passou a ser vista de forma bem diferente. Justo ou
injusto, o ciclo de notícias tinha seu mais novo vilão.
A mídia dá e a mídia tira.
A revelação da gravidez de Cami e do abandono de Hollis,
seguida pelo sequestro de Cyrus anos depois, foi outro circo
midiático. Muitos se perguntaram sobre o papel da mãe de Hollis,
mas, segundo relatos, Seraphina Arnoult havia se declarado
culpada pelo assassinato de Felicia Barclay e não havia dito uma
palavra desde então. O envolvimento de Hollis no crime em si não
era claro, mas as informações reveladas sobre ele ter ignorado o
pedido de ajuda do filho e as ameaças e insultos grosseiros captados
por um microfone quente foram suficientes para os eleitores da
Virgínia. Hollis havia perdido a corrida por quarenta pontos e
chorou durante a maior parte de seu discurso de destituição. A foto
dele com ranho escorrendo pelo queixo estava na primeira página
de todos os jornais locais. Sua vida estava em ruínas, seu futuro
político acabado.
O “vazamento” que Posey facilitou não tinha nada a ver com o
trabalho que ela fez com Rex, então ela não considerou isso uma
quebra de palavra.
E se Rex e Cami suspeitavam que foi Posey — afinal, Cami
havia divulgado o conteúdo daquela conversa para ela, e foi assim
que Posey soube que tinha que hackear as filmagens — eles
decidiram não abordar o assunto.
Ela calculou que havia 99% de chances de o vídeo começar
um frenesi na mídia sobre o infortúnio de Hollis Barclay e
simplesmente não conseguiu resistir a essas probabilidades.
Gire, gire, faça uma reverência.
Posey enviou o e-mail que Rex estava esperando e então
apertou um botão para chamar sua cuidadora, uma jovem gentil
que morava na casa de hóspedes ao lado.
— Helmi, você pode trazer isso e me acompanhar até o convés?
— Claro, — disse Helmi, caminhando até a mesa e pegando a
caixa que Cyrus havia trazido para ela. — O que é?
— Espere até ver, — disse Posey.
Helmi a acompanhou através da porta dupla e para o ar fresco
da primavera.
Ela levantou o rosto para o sol e sentiu o calor em sua pele.
Às vezes — de vez em quando — Posey pensava em Tatum
Devore e na pergunta sem resposta que ele lhe fizera certa vez. O
que toca a sua alma?
Então... há muito tempo... Posey não tinha ideia de como
responder, pois não havia como medir uma alma nem a música que
ela poderia ouvir.
Mas agora ela tinha certeza de sua existência. Não precisava
de medição ou quantificação. Ela simplesmente sabia que era,
porque Posey havia perdido o corpo, mas sua alma permanecera. E
sua alma não era a parte dela que calculava ou resolvia — era a
parte dela que lutava.
A mulher mais jovem se ajoelhou ao lado de Posey e abriu
lentamente a caixa.
Uma explosão de borboletas fez as duas rirem, a alegria
percorrendo Posey enquanto as criaturas coloridas faziam cócegas
em sua bochecha e então voavam no ar, batendo as asas, dançando
e subindo em direção ao céu, com a liberdade em suas asas.
.