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Irmãos em busca de novos horizontes

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01 – Dezoito

No corredor de um orfanato qualquer, dois jovens estão presentes, indo em


direção à um escritório. O mais alto dos dois olha para o outro que o acompanha e
puxa uma reflexão:

— Ei, Nory. O que acha que o diretor quer comigo dessa vez? — ele
questiona com as mãos atrás da cabeça.

O outro menino fica em silêncio por alguns segundos, como se estivesse


pensando em uma resposta, até que sem tirar os olhos do chão, faz sua dedução:

— Bom, já faz uma semana desde que você fez aniversário, então já que
você é um adulto agora, acho que ele deve querer te expulsar daqui.

O jovem alto coça a cabeça por um momento e depois ajeita seu cabelo
volumoso antes de concordar:
— É... deve ser isso mesmo, não é?

— Você tá nervoso, Raynard? — o outro pergunta, elevando levemente sua


cabeça de sua postura acorcundada.

Raynard coloca a mão no queixo e resmunga, fingindo estar pensando sobre


o assunto, até que ele replica com convicção:

— Não, nem um pouco! Você sabe o quanto eu andei esperando por esse
momento!

— Que bom pra você então, irmão — termina Nory, novamente após alguns
segundos de silêncio.

Ray dirige seus olhos para seu acompanhante, seu irmão. Noryat, um menino
pequeno que não passa dos 170 centímetros, com um grande cabelo grisalho e
olhos avermelhados, acompanhados de uma espécie de símbolo carmesim abaixo
do olho direito. Ele veste uma simples blusa azulada sem zíper, com calças largas e
pretas.
— Ei... você vai ficar bem, não é? — questiona Raynard, um pouco recioso.

— O que te preocupa? — retruca o menino, finalmente movendo seus olhos


para encontrar os do irmão.

— Tudo me preocupa, Noryat. Você é meu irmão! — o menino afirma, com


uma expressão um pouco mais séria.

Nory logo desvia seus olhos para o chão novamente e os dois se mantém em
silêncio até chegarem na frente de uma porta de madeira, onde eles ficam parados
por um momento.
Raynard respira fundo enquanto olha para a maçaneta, até que ele
finalmente a abre, dando de frente com a pequena sala do diretor do orfanato, um
senhor idoso de cabelos grisalhos e estrutura fraca, com um rosto enrugado
acompanhado por um par de óculos, vestindo um jaleco beje.

O velho olha para os dois meninos e coloca os papéis que estavam em sua
mão na escrivaninha a sua frente, logo recebendo a dupla:

— Raynard, Noryat, por favor, entrem! — profere ele com uma voz
acolhedora, porém séria. Ray é o primeiro a entrar e seu irmão vai logo atrás.

— Me disseram que você queria falar comigo, senhor — aponta Ray


enquanto fecha a porta do cômodo.

— De fato, eu preciso te atualizar de algumas coisas... — o diretor diz


enquanto toma um gole de água de sua caneca — você está ciente de que você
atingiu a maioridade recentemente, certo Raynard?
Ray resmunga e acena positivamente com sua cabeça, dando espaço para o
homem continuar a falar:

— Bom, você já sabe desde muito tempo que, depois do momento em que
uma criança do orfanato faz dezoito anos, a responsabilidade que temos sobre ela
deixa de existir...

— Então o senhor tá me dizendo que eu não posso mais ficar aqui? — o


menino pergunta, indo direto ao assunto principal da conversa. O velho, não
impressionado com a conclusão do garoto confirma suas suspeitas:

— Correto. Tecnicamente, não podemos mais te fornecer abrigo, garoto.


Porém você sabe como nós do Orfanato de Alexandrina somos com relação a esses
dilemas. Apesar de todos nós vivermos em uma pequena ilha, encontrar
estabilidade para viver por si só ainda pode ser um desafio, então estamos
dispostos a deixar você ficar pelo tempo que precisar, contanto que não abuse de
nossa hospitalidade.
Raynard coloca a mão no queixo e logo esboça um sorriso confiante
enquanto diz:

— Eu agradeço o amor que vocês têm por mim e por todos que já saíram
daqui, mas o senhor sabe que eu vou recusar. Até porque, eu já tenho um lugar pra
ir!

— Então todas as suas falas eram verdadeiras? Você vai mesmo fazer o
Exame da Associação da Formação? — questiona o velho, levantando a
sobrancelha e soando um pouco surpreso.

— É claro que sim, eu fiz uma promessa de conhecer aquelas pessoas que
vocês dizem que salvaram eu e o Noryat, e eu não vou conseguir encontrar eles se
eu ficar na ilha a vida toda! Além do mais, eu também quero reencontrar o Orion! —
replica o menino, com determinação em seus olhos.

— Orion... você se refere ao filho daquela heroína aposentada que se mudou


para a ilha há cerca de uma década atrás? — o homem pergunta curioso.

— Sim, ele mesmo. Orion, o filho da tia Caesar! — Raynard afirma, ainda
mantendo o sorriso em sua face. O diretor solta um leve sorriso e não lhe resta nada
a não ser encorajar o menino:

— Muito bem então. Se é realmente isso que você quer, eu apenas posso te
desejar sorte! Você é um bom garoto... não... um bom homem, então tenho fé que
você vá conseguir o que procura! Os barcos que transportam cargas para cá devem
partir amanhã de manhã, então sugiro que barganhe para pegar uma carona com
eles para a cidade grande.

— Certo, muito obrigado por tudo, senhor diretor! — Raynard expressa antes
de se virar para a porta e se retirar do escritório com Noryat.
***

Durante a madrugada, os dois irmãos se juntam para arrumar as malas de


Raynard, que mal consegue conter a ansiedade para com a viagem. Eles conferem
os equipamentos a noite toda, até que o sol começa a se erguer por trás do vasto
mar que o jovem está prestes a cruzar. Nesse momento, Raynard pega sua
bagagem, olha para o irmão e diz:

— Eu já vou agora, tenho que convencer os donos do barco a me deixarem ir


com eles. Você vem?

— Não.

Raynard levanta uma sobrancelha e emite uma expressão levemente


confusa, porém assume que seu irmão está cansado por ter ficado acordado por
tanto tempo e logo fala:

— Bom, então vê se descansa bem. Eu acho que o barco vai sair mais pelo
horário do almoço, então dorme bem pra conseguir ir lá pra se despedir.

— Tá bom — diz o garoto, um pouco cabisbaixo. Ray se levanta e Noryat


olha para os olhos do irmão uma última vez, aqueles olhos tão avermelhados
quanto os seus, seu cabelo tão escuro quanto a noite e também com uma marca
vermelha abaixo de sua bochecha direita. Vestindo uma camiseta de botão simples
e branca, com uma gravata e calças pretas para contrastar.

— Ei, você vai fazer o Exame e se juntar a mim no ano que vem, não é? —
pergunta Ray, com um sorriso incerto no rosto.

— Claro — replica Noryat, sem mudar sua expressão indiferente. O sorriso


de Raynard se revigora e antes de virar as costas para o irmão, Ray afirma:
— Certo, então eu vou estar te esperando no ano que vem!

Assim que seu irmão dá as costas, expressão de Noryat muda levemente,


como se uma ideia tivesse surgido na mente dele.

***

Mais tarde, os pés de Raynard tocam a madeira de um grande barco


cargueiro enquanto ele pergunta para o dono:

— Tem certeza de que eu não preciso pagar nada pra ir, senhor?

— Ah, é claro que não, Raynard! Na verdade, era eu quem devia te pagar
depois de tantas vezes que você e seu grupinho de amigos nos ajudaram com as
coisas por aqui. Se duvidar, eu já devo até estar devendo aposentadoria pra vocês!
— explica o homem barbudo e robusto enquanto confere uma dúzia de barris com
uma lista e calculadora.

— É muita gentileza a sua — elogia Raynard enquanto se adentra mais no


barco que ele veio a conhecer quase que totalmente conforme os anos se
passaram. O jovem se acomoda em uma sala feita para os tripulantes descansarem
e logo o horário de partir chega. Ray se posiciona na borda do barco para procurar
por Noryat no cais da praia, porém, para a sua surpresa, seu irmão não está lá.

— Será que eu deixei ele bravo? Talvez ele não quisesse que eu fosse
agora, eu podia ter esperado um ano pra gente ir junto... droga, ele ficou tão
aborrecido que nem veio se despedir?! — reflete o menino enquanto sua expressão
alegre começa a se esvair, dando espaço para um desespero disfarçado.

Uma pessoa se apoia na borda do barco com Raynard, ela olha para o cais
vazio e logo questiona:

— Tá dando uma última olhada na ilha? Ou você tá procurando alguém em


específico?

O jovem se vira rapidamente, surpreso, já que jura reconhecer a voz de quem


fala com ele. Ao olhar, sua espinha sente calafrios e seu corpo congela por um
momento antes de ele questionar abalado:

— O que você tá fazendo aqui?!

— Eu decidi que eu não vou esperar pelo ano que vem — Nory diz com sua
expressão neutra e um tom calmo, como sempre.

O irmão mais velho abre um sorriso, ainda com os olhos arregalados e tenta
formular algum tipo de sermão, porém ele desiste, pois não iria querer continuar seu
caminho de nenhuma outra forma. Então Ray apenas fecha os olhos e ainda
sorrindo, recebe Noryat:

— Bom, vamos dar o nosso melhor então!


***

A sola dos tênis dos dois irmãos toca o solo que para eles é estrangeiro,
Raynard começa a olhar maravilhado para seus arredores, observando os prédios,
casas e lojas abundantes na cidade grande adiante, com um sol escaldante
banhando as pessoas abaixo dele e carregando o aroma da praia consigo. Noryat
permanece com a cabeça baixa, acompanhando Ray, que voluntariamente começa
a se perder pelas ruas.

— A cidade grande sempre deixa ele assim, não importa quantas vezes a
gente venha com o barco pra ajudar com cargas... ele até esqueceu a mochila dele!
— pensa Nory, carregando uma mochila nas costas e outra na barriga.

Depois de virar algumas esquinas com um sorriso no rosto, Ray olha para
seu irmão, faz aquela coisa com a cabeça que cães fazem quando estão confusos e
questiona:

— Tá, e agora?
Noryat olha para ele e:

— E agora?

O menino coloca a mão no queixo e franze o cenho enquanto parece pensar.


Depois de alguns segundos, ele resmunga:

— Eu não fiz nenhuma pesquisa antes de vir, então não sei como a gente se
inscreve pra entrar na ADF...

— Seu imbecil do caralho — Noryat fala com seu tom e expressão neutra.

— Ficar me xingando não vai resolver o problema!!! A gente precisa pensar


em alguma solução pra isso agora!

Os dois ficam em silêncio, se encarando por alguns minutos, até que Raynard
estala o dedo e aponta para seu irmão enquanto diz:

— Ok, já sei. Vamos procurar aquelas paredes de madeira que ficam cheias
de papeis colados e ver se a gente dá sorte de ver algo sobre a ADF!
Noryat fica visivelmente confuso e pergunta:

— Parede de madeira?

— Isso!

...

— Tá falando de um Quadro de Anúncios?

— Isso, esse é o nome!


Noryat dá um suspiro, fecha os olhos e coloca a mão na cabeça antes de
falar:

— Beleza, vamo pro centro da cidade então.

A dupla começa a andar novamente, rumo a uma área movimentada da


cidade em que se encontram. “Por que ainda existem murais de avisos se esse
mundo é moderno?” você deve estar se perguntando.

Conveniência.

Após alguns minutos andando, os meninos se aproximam de uma grande e


barulhenta praça pública, onde centenas de pessoas podem ser vistas vivendo suas
vidas; algumas correm, andam de bicicleta, outras passeiam com seus animais de
estimação ou caminham enquanto conversam entre si. Raynard olha em volta e
ainda não vê nenhum sinal de paredes de madeira.
— Hmm... nada ainda... a gente devia entrar aí pra ver se tá mais pro fundo,
né? — questiona Ray enquanto aponta adiante.

— Eu não acho que o mural ficaria no meio da praça, andar pelas bordas é a
nossa melhor chance — replica Noryat, sem nem levantar os olhos para ter visão
total da praça.

— Beleza — Raynard começa a andar pela calçada e seu irmão o segue logo
atrás.

Em sua caminhada, eles realmente encontram um mural de avisos da cidade,


posicionado ao lado de uma espécie de portal principal que leva para o interior da
praça. Os dois começam a guiar seus olhos de papel em papel, tentando procurar
algo sobre a tal ADF, porém sem sucesso. A madeira do mural parece podre e a
data dos papéis claramente são de épocas que já passaram há muito tempo.

— Caramba, mesmo tendo tantos papéis, não tô vendo nenhum sobre o que
a gente quer... achou algo, Noryat? — questiona Ray enquanto olha para seu
companheiro, que nem está olhando para o mural e em vez disso, olha para algo na
distância. Nory aponta para um local e diz:

— Tem uma instalação da ADF ali.

— Ah... isso facilita nosso trabalho! — o menino diz enquanto começa a


ajeitar a gravata e o cabelo para se aproximar do local.

A construção é simples, um cubo grande e cinza, com a logo de um prisma


laranja e as iniciais ADF colocadas em seu centro, tendo uma entrada ampla com
um portão de madeira e vidro. Os garotos adentram o local e os interiores são tão
minimalistas quanto o exterior, com paredes bege e pisos brancos, um frio típico de
ar-condicionado, computadores alinhados por todo o local, um aroma de menta e
uma pequena recepção no centro de tudo.

Ray coloca sua mão calmamente na mesa da recepção e não perde tempo:

— Ei, eu e meu irmão aqui queremos entrar no Exame da ADF. Como


fazemos pra nos inscrever?

Noryat nota um outro menino entrar na fila que eles formaram ali enquanto a
recepcionista sorri e explica coisas que Nory não escuta involuntariamente para seu
irmão.

Ray sai da recepção com seu companheiro e começa a ler um papel que a
mulher o deu, enquanto o outro menino é atendido.

— E aí, o que é pra fazer? — Noryat questiona enquanto falha sua tentativa
de ver o papel por ser baixo demais.

— Ela disse “resolvam a charada e encontrem o lugar do exame por conta


própria” — ele explica, com uma expressão confusa e de certo modo frustrada.

— Ei, o que acham de a gente fazer essa coisa juntos? — uma voz ecoa de
trás dos dois irmãos, que se viram em direção a ela para visualizar quem está
falando com eles. Noryat reconhece imediatamente a cor da vestimenta, é a pessoa
que estava atrás deles na fila. Ray olha para a face dele imediatamente, é um jovem
que aparenta ter a mesma idade que eles, com um cabelo castanho claro com uma
pequena mancha marrom em uma das pontas e olhos amarelos que Ray associa
com o formato dos olhos de uma cobra. O menino carrega uma mochila de
acampamento e usa uma camiseta de uma cor arenosa com mangas grandes
demais para seus braços, junto de shorts pretos com uma listra preta; uma roupa
extremamente simples.

— Tá bom, chega mais! — Ray convida o menino imediatamente após abrir


um sorriso. O menino se aproxima e estende uma mão para cada um deles
enquanto se apresenta:
— O nome é Erick, sou um inventor que vai mudar esse mundo!

— Raynard, um aventureiro em busca de respostas!

— Noryat.

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