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Provas no Processo Penal: Teoria e Meios

O documento aborda a Teoria Geral da Prova no Processo Penal, destacando a importância das provas para a busca da verdade real e a segurança das decisões judiciais. Discute os meios de prova, incluindo testemunhal, pericial e documental, e os princípios que regem a produção e valoração das provas, como o contraditório e a ampla defesa. Além disso, explora o processo de formação da memória humana e as implicações das falsas memórias no contexto probatório.

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Provas no Processo Penal: Teoria e Meios

O documento aborda a Teoria Geral da Prova no Processo Penal, destacando a importância das provas para a busca da verdade real e a segurança das decisões judiciais. Discute os meios de prova, incluindo testemunhal, pericial e documental, e os princípios que regem a produção e valoração das provas, como o contraditório e a ampla defesa. Além disso, explora o processo de formação da memória humana e as implicações das falsas memórias no contexto probatório.

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INTRODUÇÃO

2 PROVAS NO PROCESSO PENAL


Nesta seção é apresentada a Teoria Geral da Prova e todos seus conceitos,
os diversos princípios e os meios de provas no Processo Penal, como os meios que
necessitam da memória como valor probatório e os sistemas de valorização.
2.1 PROVAS NO PROCESSO PENAL
A prova é o instrumento que busca transformar as alegações em fatos
comprovados buscando a verdade real, dando segurança e credibilidade ao
processo, e sendo uma base nas decisões judiciais, permitindo que o julgador
compreenda os acontecimentos e identifique se houve ou não a prática de um
crime, segundo o doutrinador Guilherme de Souza Nucci (2022, p. 1, 5, 7 e 16.)
Ao se referir a prova no contexto do Direito e do Processo Penal, relaciona-se
a Teoria Geral da Prova (Nucci, 2022, p. 27.) que ocupa papel essencial, pois se
dedica ao exame dos meios, técnicas e elementos voltados à demonstração da
veracidade dos fatos que envolvem a prática de um possível crime, após dada a
garantia que o fato é verídico ele poderá ser usado como uma prova no processo
destinado ao julgamento deste crime.
No entanto, para que chegue a autenticidade de uma prova baseado nesta
teoria, é necessário a comprovação dos diversos fatores que ela possui,
primeiramente aponta-se o elemento de prova que é a integridade daquilo que
contribui para a convicção do juiz, como o depoimento de uma testemunha, um
exame pericial ou um documento apresentado no processo. Já o meio de prova é a
maneira formal pela qual as provas são apresentadas e produzidas dentro do
processo. A fonte de prova é a origem de onde se obtém o conhecimento sobre os
fatos, ou seja, de onde são extraídas as informações, podendo ser de uma pessoa
ou de um objeto. E o objeto de prova são os fatos principais e secundários que
precisam ser analisados e comprovados no curso da ação penal.
No tocante à Teoria Geral da Prova existem princípios fundamentais que
regem, garantindo a legalidade, validade e a equidade das provas, como o princípio
do contraditório e ampla defesa, de acordo com o artigo 5º, inciso LV da
Constituição Federal (BRASIL, 1988), que assegura às partes do processo o direito
de produzir suas provas, contestar e defender as provas apresentadas pela outra

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parte, e participar ativamente de forma igual de todo o processo de produção,
evitando que o processo seja conduzido de forma injusta ou parcial, como reforça o
doutrinador Fernando Capez.
Quando se fala em verdade concerne ao princípio da “verdade real”, e não
na “verdade formal”, pois ela possui como intuito que a formulação das decisões
judiciais sejam feitas com base na veracidade dos fatos, por meio de provas
concretas e não apenas nas aparências ou formalidades do processo. O objetivo
desse princípio é que a decisão final do juiz reflita a realidade das circunstâncias, e
não apenas a versão mais convincente.
Um dos pilares fundamentais para a Teoria Geral da prova é o estudo do ônus
da prova, conforme o Artigo 373 do Código de Processo Civil (BRASIL, 2015) cabe
às partes a responsabilidade de produzirem as provas, para que confirmem os seus
relatos, à acusação provar que o crime ocorreu, identificar o autor é demonstrar as
circunstâncias que possam agravar a pena. E o acusado responsável por
apresentar provas que ajudem na sua defesa, como provas que excluem a
ilicitude, a culpabilidade ou que mitigue a sua responsabilidade. O juiz também
poderá, quando entender necessário, a produção de provas adicionais,sendo feita
por iniciativa própria com o único intuito de esclarecer dúvidas relevantes sobre o
caso. No contexto do Processo Penal a inversão do Ônus da prova é uma exceção,
pois não cabe ao acusado provar a sua inocência, e sim quem acusa provar a
prática do crime.
Nem todos os fatos necessitam de prova, pois existem situações em que
determinados fatos são tão diretos ou conhecidos que dispensam a produção de
provas, são eles os casos dos fatos notórios, evidentes e inúteis. Os fatos notórios
são aqueles de conhecimento de toda comunidade ou um grande número de
pessoas que são chamadas de público ou geral, e nele qualquer pessoa informada
saberia sobre acontecimentos divulgados pela mídia ou fatos públicos. Já os fatos
evidentes são aqueles que podem ser entendidos de forma lógica, ele não precisa
de demonstração adicional (BASTOS PEREIRA, 2020, p. 12) funciona a partir de
outros elementos já comprovados nos autos. Por fim, os fatos inúteis são os que
não têm relevância para o julgamento da causa.
Dessa forma, os fatos que são chamados de pertinentes ou relevantes,
precisam ser provados e são esses que podem influenciar na decisão sobre o
acusado e saber se o mesmo tem a culpa ou inocência no caso.

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Após as provas serem apresentadas no processo, elas serão analisadas,
comparadas e valorizadas para que o julgador chegue a uma conclusão, ou seja,
inicia-se o sistema de valoração de provas. Esse sistema trata-se do método
utilizado pelo juiz,ou pelos jurados em casos de júri, para atribuir credibilidade e
importância às provas, construindo a partir delas o convencimento necessário para
decidir o caso.
No Brasil o sistema predominante é o do livre convencimento motivado, ele
consiste na liberdade do juiz para avaliar as provas processuais conforme seu
entendimento, sem estar preso a regras fixas sobre o valor de cada prova. Porém,
essa liberdade não é absoluta, o magistrado deve justificar e fundamentar sua
decisão, explicando de forma lógica e clara o por que de sua escolha. Não apenas
julgando algo por instinto ou ideologias pessoais. Essa exigência garante a
transparência e o controle da decisão judicial, evitando arbitrariedades.
Existe ainda o sistema da íntima convicção, que é usado em Tribunais do
Júri, os jurados possuem a total liberdade para decidir conforme sua consciência e
convicção pessoal, sem a obrigação de justificar os seus votos. Já o sistema de
prova tarifada, atualmente é inexistente, pelo fato de limitar a apreciação livre do
julgador e consequentemente, influenciar em uma decisão injusta e não valorizando
no conjunto probatório.

2.2 MEIOS DE PROVA NO PROCESSO PENAL


Os meios de prova no processo penal formam um conjunto essencial para a
concretização da justiça, garantindo que as decisões judiciais sejam tomadas com
base em fatos demonstrados e analisados sob o contraditório, conservando os
direitos fundamentais e o devido processo legal.
De forma geral, o Código de Processo Penal (BRASIL, 1941/2023) não traz
um rol taxativo de meios de prova, o que significa que o sistema jurídico brasileiro
adota a ideia de liberdade probatória, podendo ser utilizados todos os meios de
prova que não forem proibidos por lei, sendo elas típicas ou atípicas.
Os meios de prova típicas são aqueles previstos nos artigos 158 ao 250 do
Código de Processo Penal (BRASIL, 1941), são eles a prova testemunhal, pericial,
documental, o interrogatório do acusado, a confissão, o reconhecimento de pessoas
e coisas, a acareação e as buscas e apreensões. Os meios de prova atípicos são
aqueles que não são previstos em lei específica, mas que podem ser aceitos se

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possuem o objetivo de esclarecer e comprovar os fatos em observância à lei. Por
exemplo, são as gravações ambientais feitas por uma das partes ou mensagens
eletrônicas obtidas de forma legítima.
Inicialmente, dos meios de provas temos a perícia que é realizada por um
especialista, sendo ele um perito, que faz uma análise técnica com o objetivo de
auxiliar o juiz a formar a sua decisão. Ela é utilizada principalmente quando o
conhecimento de um fato não obtém sucesso apenas com base no conhecimento
comum ou outras provas. E pode ser solicitada tanto na fase de inquérito quanto
durante o processo e, o juiz não está obrigado a seguir o resultado da perícia,
podendo decidir de forma diferente, desde que apresente justificativa lógica.
Os documentos são considerados meios de prova e podem ser de âmbito
públicos ou privados. Os documentos públicos têm presunção de autenticidade,
enquanto os privados precisam ser sempre verificados quanto à sua veracidade.
Eles podem ser documentos escritos, eletrônicos, fotográficos, áudios e vídeos, e
juntados aos autos em qualquer fase do processo tem mesmo valor, mesmo quando
apresentados em cópia autenticada.
Outro meio essencial é o interrogatório do acusado, é o momento em que ele
tem a oportunidade de se manifestar sobre as acusações feitas contra ele. Esse ato
serve tanto como meio de prova, como forma de defesa. Ficando à escolha dele se
responderá às perguntas ou se permanecerá em silêncio, sem que isso seja
interpretado em seu prejuízo, vale ressaltar que o interrogatório deve sempre
ocorrer na presença de um defensor, garantindo assim que o acusado tenha seus
Direitos sempre assegurados.
A confissão também é considerada um meio de prova, a diferença é que ela
ocorre quando o próprio acusado, que é uma das partes, admite a prática do crime,
sendo esse fato admitido benefício ou não ao adversário. Porém, a confissão não
tem valor decisivo e deve ser analisada junto com as demais provas do processo.
Ela pode ser simples, quando o acusado apenas reconhece o fato, ou até habilitada
quando admite o crime, mas apresenta justificativas ou causas que excluem sua
responsabilidade. Com isso, o juiz pode aceitar apenas parte dela, e o réu pode
voltar atrás a qualquer momento, pois ela é divisível e retratável caso aconteça.
A acareação dentro no processo penal como meio de prova consiste em
confrontar duas ou mais pessoas com depoimentos divergentes. O objetivo maior é
que as pessoas sendo elas acusadas, testemunhas ou vítimas sejam colocadas

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frente a frente para explicar as contradições, o que ajuda o juiz a formar sua
convicção sobre os fatos, ela pode ocorrer presencial e por videoconferência e pode
envolver diferentes combinações, como acusado e acusado, acusado e testemunha,
testemunha e testemunha, vítimas e vítimas.
A busca e apreensão é um meio de diligências que possui o objetivo de
coletar elementos, objetos que possam comprovar a prática de uma infração penal.
Sendo considerada uma medida cautelar, pois possui um risco de desaparecimento
das provas, e pela existência de indícios de autoria e materialidade do crime, como
é citado no requisito da fumus comissi delicti. (indícios de autoria e materialidade do
crime)
Existem ainda os meios de prova que necessitam de forma principal da
memória humana para garantir a veracidade e a qualidade probatória, são elas: a
prova testemunhal, que consiste no depoimento de pessoas que presenciaram o
fato ou que têm conhecimento relevante sobre ele. Apesar de ser um meio
importante, essa prova depende muito da memória e da percepção de quem
testemunhará, tornando-se vulnerável e sujeita a falhas ou contradições. Por isso, o
juiz deve analisá-la com cautela, relacionando-a ao contexto, ao tempo e ao
compromisso testemunha de falar somente a verdade dos acontecimentos.
Temos também o reconhecimento de pessoas e coisas está previsto nos
artigos 226-228 (BRASIL, 1941) ele é feito para identificar a autoria de um crime ou
a participação de um objeto no delito. O processo inclui uma pessoa que descreverá
a pessoa ou coisa vista antes e com isso posteriormente, aponta o indivíduo ou
objeto a ser reconhecido, esse meio deve ser feito com muito cuidado, porque
envolve a lembrança e a percepção visual das pessoas envolvidas e muitos erros
nesse tipo de prova são comuns e podem levar a condenações injustas. Pois a lei
exige que o reconhecimento seja feito seguindo certas regras, como a presença de
pessoas semelhantes do indivíduo e o registro formal do procedimento.
E por fim a declaração da vítima, que consiste em narrar como decorreu os
atos que gerou o crime, este meio principalmente em crimes de natureza sexuais
possui um alto valor probatório. Pois em muitas situações a única prova existente é
a declaração da vítima, por isso devendo ser coletada de forma íntegra, seguindo
os requisitos para manter a veracidade e garantindo os princípios da dignidade da
pessoa humana.

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3 FALSAS MEMÓRIAS
Nesta seção é apresentada a formação e o armazenamento de uma memória
humana, como também a construção de falsas memórias e quais meios contribuem
para que ela aconteça.
3.1 PROCESSO DE FORMAÇÃO DE MEMÓRIA
A memória é uma habilidade e capacidade do ser humano de guardar,
codificar, manter e relembrar fatos e vivências ao longo da vida. E com todo esse
processo, conseguir aprender, fazer movimentos, aprimorar competências e moldar
a própria identidade. Com isso, a memória possibilita reconhecer o que já foi vivido
e o que não foi vivenciado.
Ela funciona de forma fragmentada, ou seja, quando uma memória é
guardada ou futuramente lembrada, o cérebro trabalha para reunir ou armazenar
todos esses fragmentos diversos em diferentes partes do cérebro, como um quebra
cabeça. A memória é um meio vulnerável, pessoal e de extrema importância na vida
humana. (Schacter, 2001, p. 45)
O processo de formação de uma memória é um dos fatores mais importantes,
pois por meio dela essa lembrança é gerada e zelada, a fim de ser concebida de
maneira correta e sem a contaminação de circunstâncias falsas. Segundo Larry
Squire e Eric Kandel (2003), essa formação possui 3 etapas, e antes de citá-las é
valioso ressaltar que o cérebro funciona formando a memória através de um
conjunto de vários processos químicos e elétricos.
Quando é vivenciado algo novo ou algo que o cérebro nunca viu, os
neurônios se comunicam por meio de sinapses, que são pontos de conexões das
células nervosas, e com isso ele funciona trocando sinais que criam uma nova trilha
no cérebro. Se essa experiência é repetida ou tem significado emocional, essas
conexões se fortalecem, transformando uma lembrança momentânea em uma
memória duradoura.
Segundo os autores, a codificação é o primeiro passo nesse processo,
acontece quando o cérebro recebe novas informações e as converte em um formato
que pode ser captado e guardado. Esse processo requer bastante atenção, por
exemplo, quando uma música é escutada pela primeira vez e possui uma

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concentração na letra, o cérebro inicia a tradução desta letra em padrões neurais
especí[Link] processo pode ocorrer de forma visual ou acústica.
Logo, depois da codificação,ela precisa ser armazenada, para que
posteriormente possa ser lembrada. Existem várias subestações de
armazenamento, são elas: a de curto prazo que guarda informações por apenas
alguns segundos ou minutos, em seguida, a de longo prazo, que protege os dados
por períodos grandes, às vezes até o final da vida. Esse processo ocorre
principalmente quando a pessoa está dormindo, nesse período do sono o
hipocampo reconstrói as informações no cérebro e as leva para o córtex cerebral,
local onde serão incorporadas os conhecimentos já existentes.
Conforme detalhado na obra, ao falar do armazenamento das categorias de
memória, inicialmente temos a explícita, refere-se a lembranças de acontecimentos
pessoais, e/ou fatos gerais. Para esse tipo de memória o armazenamento cerebral é
feito pelo neocórtex, hipocarpo e pela amígdala.
O tipo de memória implícita é formada de forma progressiva pois depende
da repetição de uma prática, por ser uma memória associada a parte motora ela é
armazenada pelos gânglios da base e do cerebelo. Agora as memórias de curto
prazo dependem apenas do funcionamento do córtex pré-frontal.
Squiere e Kandel, também apontam que o armazenamento é feito de acordo
com os elementos sensoriais e emocionais vividos. Quando a memória é lembrada
por seu contexto geral de forma inicial acontece no hipocampo. A parte da
amígdala é responsável pelo armazenamento das emoções, o que posteriormente
ajudará a memória ser lembrada de maneira nostálgica. Já o córtex é responsável
pelas particularidades visuais e auditivas que possuíam no evento.
A última etapa do ciclo da memória é a recuperação, que é o ato de lembrar de
algo que já aconteceu e já foi armazenado. Esse processo ocorre quando o cérebro
ativa novamente as conexões neurais criadas durante o processo de codificação.
Conforme é relatado na obra referida, a recuperação pode ser ativada por vários
recursos, como por cheiros, falas e cores de roupas.
A memória é individual e pessoal, cada pessoa carrega a sua “bagagem” de
lembranças e motivos para tê-las, mas de acordo com o Sociólogo Maurice
Halbwachs (1990) em A memória coletiva, a memória individual é apenas um ponto
de vista sobre a memória coletiva, ou seja, uma sociedade pode compartilhar da

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mesma memória e cada pessoa ter a lembrança pessoal, que é caracterizada por
detalhes específicos e pontos singulares, sobre um evento geral. Já que a todo
momento existe contato social, tanto presencial como virtual.

3.2 FORMAÇÃO DAS FALSAS MEMÓRIAS


A falsa memória pode surgir a partir de uma crença inocente da própria
percepção, onde a pessoa acredita em algo que não ocorreu da forma como lembra.
Elizabeth Loftus (1991, p 3.) esclarece que apenas o fato de lembrar de um
acontecimento não traz a veracidade dessa memória, pois elas são frágeis e
vulneráveis.
É importante destacar que existe uma diferença entre uma memória falsa e
uma confusão de informações. Quando se trata de uma memória falsa, a pessoa
tem total certeza de que aquilo realmente aconteceu daquele jeito. Não é apenas
uma dúvida, o indivíduo recorda o fato com clareza, mas o que ele lembra, na
verdade, não aconteceu daquela forma.
Com base nas evidências de que a memória é maleável e pode ser distorcida,
como demonstrado por Stark, Okado e Loftus (2010, p. 485) a neurociência
confirmou que as falsas memórias ativam as mesmas áreas e possuem as mesmas
características cerebrais que as lembranças verdadeiras. Porém existe uma falha no
monitoramento da Fonte, situado no córtex pré-frontal, que não consegue
reconhecer e controlar a origem da informação, assim a falsa memória é aceita na
rede neural como uma memória original.
Muitos fatores podem comprometer essa memória, como a ausência de
vitaminas necessárias no corpo, rotinas estressantes, privação do sono,
manipulação externa, a criação de detalhes fictícios ao longo do tempo.
Um fator que ajuda a formação da falsa memória é o próprio ato de lembrar
de um acontecimento, como cita Elizabeth Loftus (1991) ao referir-se a memória
como algo maleável, pois ao reativar ela se torna, de maneira temporária e instável,
facilitando assim possíveis modificações e inclusões de novas informações. Em
muitos casos, a mente humana pode reconstruir essas memórias com base em
crenças ou suposições momentâneas

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As memórias falsas também podem ser formadas quando um evento é
erroneamente atribuído a outro evento. Segundo o Dr. João Paulo da Costa, em
publicação no Instituto de Psiquiatria do Paraná (2022), isso é bastante comum em
contextos parecidos, é muito fácil acabar lembrando um evento como se estivesse
dentro de outro evento, quando na realidade são eventos separados.
O tratamento das falsas memórias infantis exige um rigor metodológico particular na
psicologia. Os primeiros estudos experimentais sobre o assunto tiveram início com
as pesquisas de Binet em 1890, na França, e de Stern, em 1910, na Alemanha
(Roediger; McDermott, 2000). Tanto Binet quanto Stern pesquisaram a falsificação e
criação das memórias nas crianças e examinaram como a recordação delas poderia
ser alterada a partir de sugestões de adultos e a distorção da realidade, dificultando
a distinção entre uma memória real e uma narrativa externa internalizada.

3.3 FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A FORMAÇÃO DE FALSAS


MEMÓRIAS
Para que essa falsa memória possa ser formada, diversos fatores podem
contribuir para a sua formação. Um dos principais fatores é a sugestão externa,
acontece quando há introdução de “falsas informações”, geralmente através de
perguntas sugestivas ou narrativas externas. Essas informações podem ser
integradas à lembrança original, levando a pessoa a acreditar que vivenciou, e até
se “lembrar” de algo que nunca ocorreu. Como é citado em “O estudo da
desinformação”, feito em 1974 por Elizabeth Loftus e John Palmer, onde o uso das
palavras sugeridas “bater” ou “esmagar” alteravam a percepção das pessoas de
velocidade.

As emoções exercem papel significativo nesse fenômeno. Experiências


marcadas por medo, alegria, tristeza ou trauma podem ser registradas de forma
distorcida, já que o estado emocional influencia a maneira como o evento é
codificado e lembrado.

Por fim, o tempo também afeta a precisão das memórias. À medida que os anos
passam, as lembranças tendem a perder detalhes e o cérebro, ao tentar

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preenchê-los, pode completar as lacunas com informações imprecisas ou criadas,
levando à formação de memórias falsas

Outro fator que contribui é a imaginação, ela ocorre quando a pessoa imagina
repetidamente uma situação em que viveu mas na verdade, o cérebro pode acabar
confundindo essa construção mental com uma experiência real. Isso acontece
porque a imaginação ativa áreas cerebrais semelhantes às da memória, tornando a
lembrança inventada cada vez mais vívida e convincente, e também pode ser
influenciado por sugestões externas.

4 COMO AS FALSAS MEMÓRIAS INFLUENCIAM AS DECISÕES TOMADAS NO


PROCESSO PENAL

Quando essa falsa memória é “instalada” no processo e levada como uma


verdade, sem nenhuma comprovação e realização de exames da maneira
correta e
profissional, acarretará inúmeras consequências como a influência nas
decisões
judiciais, condenações injustas ou à absolvição de culpados. Como também
afetar a
credibilidade do sistema de justiça como um todo minando a confiança das
pessoas
na imparcialidade dos processos legais.
As decisões no processo penal ao introduzirem depoimentos testemunhais
totalmente falhos, podem ter as falsas memórias como influência, porém e esses
depoimentos podem ser imperfeitos porém sinceros e podem levar a condenações
injustas. A memória humana não funciona como um gravador, mas sim como um
processo de reconstrução apto a distorções, o que representa um desafio
significativo para a busca da verdade real no sistema de justiça.
Com isso o que pode influenciar nas decisões são as fontes de provas
corrompidas, a prova testemunhal é uma das mais comuns no processo penal, mas

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sua subjetividade a torna frágil à formação de falsas memórias. As testemunhas
podem, involuntariamente, relatar fatos que nunca ocorreram ou de forma
distorcida, acreditando plenamente na veracidade de suas lembranças.
Juízes e jurados baseiam suas decisões na avaliação da credibilidade dos
depoimentos. Uma testemunha que relata uma falsa memória com convicção pode
ser considerada altamente confiável, resultando em uma avaliação equivocada das
provas e, logo depois em decisões judiciais errôneas, como condenações de
inocentes. Sugestionamento: As falsas memórias podem ser criadas ou alteradas
por fatores externos, como perguntas sugestivas feitas durante inquéritos policiais
ou audiências judiciais (inquirir a testemunha com perguntas fechadas ou
direcionadas). A repetição de informações, mesmo que falsas, pode levar o cérebro
a acreditar nelas como verdadeiras.
Outro exemplo que influencia é o reconhecimento de pessoas,
frequentemente baseado na memória da testemunha, é particularmente fraca.
Estudos demonstram que a falibilidade da memória em processos de identificação
pode comprometer a precisão e levar a erros judiciais notórios.
Ainda que os estudos sobre as distorções na memória vem de séculos
passados, casos recentes colocaram o tema em voga, principalmente porque estão
relacionados com o julgamento de supostos crimes. É inegável a danosidade das
falsas memórias para o processo penal, problema que se evidencia com esse caso
por exemplo:
Podemos citar, o caso da Escola Base de São Paulo (1994), exposto por Di
Gesu150, em que duas mães de alunos da aludida escola, denunciaram os
proprietários da mesma, em conjunto com professores e um casal de pais de outro
aluno por abuso sexual infantil. Segundo uma das mães, o filho teria lhe contado
que assistia filmes pornográficos, presenciava atos de relação sexual e praticava
atos libidinosos, sendo fotografados no apartamento do referido casal. No decorrer
do inquérito aberto para investigar o caso, suscitou-se ainda a hipótese de uso de
drogas e contaminação por HIV. Um exame pericial feito no menino atestou lesões
corporais leves compatíveis com a prática de atos libidinosos, porém também
compatíveis com patologias anorretais de causas naturais, sendo certo que o
menino sofria de constipação intestinal.

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Já o exame toxicológico teve resultado negativo. Após três meses de
investigações, com três delegados envolvidos no caso, o inquérito foi arquivado
devido à ausência de indícios contras os suspeitos. Contata-se diversos pontos
problemáticos nesse caso.
Acima de tudo, a falsa memória, provavelmente, formada pela maneira como
a mãe entrevistou o filho sobre o suposto abuso, com viés altamente sugestivo.
Além disso, o atropelo de diversas garantias dos acusados, bem como a atuação da
mídia, que muitas vezes recebiam informações antes mesmo delas constarem nos
autos do processo.
Dessa forma, ganhou grande repercussão, gerando um caos na vida dos
acusados, que preferiram se afastar, depois que depredaram e lançaram um
coquetel molotov na escola e sofreram represálias em suas casas.
Violação do princípio do in dubio pro reo
As falsas memórias representam um risco real à justiça penal, pois podem
comprometer o princípio do in dubio pro reo, contaminar a cadeia probatória e
dificultar o exercício da ampla defesa. Depoimentos distorcidos, ainda que sinceros,
influenciam a convicção de julgadores e podem levar a decisões injustas. Casos
como o da Escola Base evidenciam como sugestionamentos externos e falhas
institucionais potencializam esses danos. Por isso, é essencial que o sistema penal
trate os testemunhos com rigor técnico, reconhecendo os limites da memória
humana na busca pela verdade real.

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5 CONCLUSÃO

6 REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da
União, Brasília, DF, 5 out. 1988.

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo


Penal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 13 out. 1941.

Artigo: “A eficácia do contraditório no processo penal: atuação e legitimação


para além da legalidade”, de Felipe Martins Pinto e Paula Brener.

SILVÉRIO, Gustavo Camargo; ROSAT, Renata Menezes. Memória de longo


prazo: mecanismos neurofisiológicos de formação. Revista Médica de Minas
Gerais. Disponível em: [Link]

Falsas memórias: o que são e como se formam?


[Link]
mam

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