Nu
Tirei minha alma da roupa,
te mostrei o que ninguém via.
Um peito tremendo,
um coração que ainda sangra em silêncio,
com medo de ser lido demais.
Disse meu nome como quem acende uma vela,
com o mesmo cuidado de quem segura vidro quebrado.
E tu veio, de manssinho
derramando um pouco de luz
nos cantos que eu me guardava trancado.
Mas cada carinho teu
mexia no que eu queria esquecer.
E cada "fica comigo"
abria portas que eu não sabia fechar.
Eu tava nu demais pra mentir
e ferido demais pra ficar.
Te dei meu gesto mais frágil,
minhas veias pulsando verdade,
minha vontade de confiar outra vez.
Mas a gente é feito de ruínas e cicatrizes,
mesmo sabendo do peso que carregamos
A gente continua sem pensar no que fez.
Se eu fugir, é por medo.
Se eu ficar, é por ti.
Sou só um corpo procurando abrigo
num mundo que dói quando ama,
mas ainda assim insiste.
E no fim,
se eu desabo nos teus braços,
promete só uma coisa,
Promete sem mostrar perigo
não se vestir com o silêncio
onde eu me encontrei despido.
Preciso de Ar e luz
Recentemente tenho pensado:
será que nasci velho?
Será que meu cordão foi cortado
com uma tesoura enferrujada de séculos?
Porque o tempo em mim não passa
Mas pesa.
Pesa no olhar, que vive meio fechado,
Talvez por sono,
Ou por cansaço de ser demais.
Tenho sonhos, sim,
mas estão soterrados
sob receitas, suspiros, exames,
e essa fadiga que me abraça
como se fosse mãe.
Meu espelho me mente
me mostra liso, vivo e inteiro.
Mas minha alma conhece os estalos,
os chiados e lamúrias que despejo.
Nem os pequenos apitos que o peito solta
quando tento subir um degrau escapam da minha vigência.
Às vezes acordo com vontade de morrer…
não por falta de amor,
mas por cansaço da dor.
Talvez seja drama ou constatação:
alguns corpos são casas de barro
em meio a uma tempestade sísmica.
E o meu…
desaba sem aviso.
Mas mesmo assim, desabo em letras...
Porque enquanto houver palavra,
há sopro, há Vontade!
Enquanto houverem lagrimas,
Haverá uma teimosia qualquer
Que teima em não virar cinza sem deixar rastro.
E eu deixo aqui esse rastro:
de carne cansada,
de mente em guerra,
de alma que ainda ama,
mesmo que doída demais pra demonstrar.
Com sangue nas gengivas
e luz fraca nos olhos,
mas ainda meu.
Respirando na esperança
De ainda estar vivo
Cezar
(Duvidando de minha sombra)
Duas Lágrimas e Dois Dentes
Tenho 22 primaveras,
mas o outono já mora em mim.
Meu corpo, aos poucos, se despe
da juventude que nunca me vestiu bem.
Os dentes rangem, gemem, caem.
Cada cárie é um grito de desespero,
cada raiz exposta,
é a lembrança de que tudo dói sem proteção.
Os ossos?
Já não são pilares, são areia.
Andar é negociar com a dor,
de passo em passo, num tratado frágil.
E o coração…
Esse traidor que bate fora do compasso,
cheio de pausas,
cheio de pressa.
Ele falha.
Ele inflama.
Ele pede ar.
E eu, com ele, me afogo em silêncio.
Carrego dores que nasceram comigo
e fizeram casa no fundo da espinha.
Dores que não dormem,
dores que não têm nome, só presença.
O mundo me chama de jovem.
Mas como explicar que me sinto ruína?
Que meus dias são restos de mim mesmo
arrastados até a próxima queda?
Não peço piedade.
Nem milagre.
Só escrevo, porque talvez
a palavra ainda me ouça.
Guardando Apenas uma lembrete:
há corpos jovens com almas exaustas,
Almas Jovens com corpos Decrépitos
e a morte, às vezes, vem de mansinho
com cara de rotina,
com cheiro de remédio,
com gosto de sangue no travesseiro e Incômodo silêncio.
Cezar
(22 invernos que doem como mil)
Fecha a porta...
O vento lá fora vem frio e voraz,
Traz gritos antigos, promessas que o tempo
Já fez esquecer no silêncio dos talvez.
Fecha a porta. Que o mundo cansou de bater,
E a alma só quer um lugar pra esconder.
O relógio sem pressa mastiga as paredes,
O chão range o peso de ausências e medos.
No canto, um retrato que ainda sorri,
Mesmo tendo assistido mil sonhos partir.
Fecha a porta.
Não deixa que entre essa luz sem calor,
Que clareia o vazio sem dar o sabor.
Que invade os espaços onde havia abraço,
E preenche com sombras o que era cansaço.
A cadeira vazia, a Chaleira esfriando,
A carta não lida no momento esperando,
A prece calada que sobe sem fé,
O nó que persiste e não solta o que é.
Fecha a porta.
Deixa a casa fechada de mundo e notícia.
Já basta de tudo que entra e vicia.
Que o peito só pede um pouco de abrigo,
Um teto sem ruído, um tempo consigo.
As folhas dançam lá fora sem rumo,
Como andam os dias — num triste resumo.
Mas cá dentro tudo quer pausa, silêncio,
A alma cansada deseja um começo.
Fecha a porta.
Mas ouve, no fundo, o que não se diz:
É no fundo do escuro que a flor resiste.
E mesmo trancada, fechada, esquecida,
Uma casa em silêncio ainda abriga a vida.
Fecha a porta…
Mas deixa uma fresta, bem de mansinho.
Quem sabe, um dia, ao fim do caminho,
O amor perdido, ferido e tardio,
Retorne em segredo, pedindo abrigo.
Virei;
Na esquina dobrada de um fim de janeiro,
Vi passar um mistério de andar traiçoeiro.
Sem nome, sem pressa, sem rumo exato,
Fez do tempo um verso, do mundo um retrato.
Seu olhar de cigana, tão firme, encantado,
Lembrava Capitu num tempo trocado.
Tinha um mar nos olhos que afogava o juízo,
E um quê de mentira escondido no riso.
Não disse palavra, mas disse demais
Na curva do corpo e nos gestos normais.
Falava com a pele, com o vento, com o véu,
Fez meu chão virar nuvem, minha rua, um céu.
Na esquina ficamos, um tempo suspenso,
Ela entre o mistério e o olhar imenso.
E eu, feito bobo, pedindo ao destino
Mais um par de minutos naquele caminho.
Não era bonita do jeito comum,
Mas tinha uma graça que não cabe em nenhum
Molde que o mundo costuma aceitar,
Era feita de fúria, silêncio e luar.
No balanço da saia dançava um segredo,
No toque do vento, um cheiro de enredo.
E eu, feito verso em papel amassado,
Queria ser lido por ela, calado.
Depois se foi…
Na mesma leveza com que apareceu,
E deixou na esquina um pedaço do meu.
A rua seguiu, mas dentro, parou:
O tempo ficou onde o olhar ficou.
Desde esse dia, passo ali devagar,
Na esquina esperando o milagre voltar.
Não sei seu nome, seu rumo ou razão,
Só sei que levou mais que o meu coração.
Talvez um feitiço, talvez poesia,
Talvez só passagem, ou pura ironia.
Mas sei que o olhar daquela menina
Ainda me mora… naquela esquina.
Suplica;
Eu num sei se é bença ou praga,
Esse trem que tu me causa,
Só sei que o peito se alaga
Cada vez que a alma pausa.
Te vejo e fico sem rumo,
Com o sangue fervendo em sumo,
Feito cachaça em brasa e salsa.
Te penso feito oração,
Mas com gosto de pecado,
És meu vício, tentação,
Um querer desesperado.
Me embriago do teu cheiro,
E num sei se é travesseiro
Ou abismo o teu agrado.
Tem dia que tu me cura,
Tem noite que tu me mata.
Tua ausência é amargura,
Tua presença é cascata.
Me afogo sem resistência,
Amar virou penitência
Nessa sina que maltrata.
Cê é prece ou é castigo?
Remédio ou fel disfarçado?
Amor ou só meu perigo
Num laço mal costurado?
Se é sorte, eu tô sem sorte,
Se é vida, eu peço a morte
Por tá vivo e acorrentado.
Eu te quero sem medida,
Mas num sei se isso é são.
Vício é bicho que duvida
Do que vem do coração.
Mas se amar é meu defeito,
Que Deus me pegue de jeito
E não cure essa paixão.
Borges, Hilke e Papel
No silêncio da noite vazia,
Teu nome me escapa em segredo,
Como se Freud sussurrasse baixinho:
"O inconsciente não tem medo."
Te vejo em Clarice, tão vasta, tão densa,
Tua ausência me pesa o juízo,
Pois ela dizia: "Liberdade é pouco,"
Eu quero você no meu riso.
Tua boca me lembra Neruda,
Que dizia que amar é arder,
"Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras,"
E em cada verso, eu volto a te ver.
Tu és o abismo que Nietzsche sonhava,
Entre a razão e o desejo mais nu.
"Quando se olha muito tempo o abismo…"
Amar-te é encarar esse escuro com luz.
Oh, menina, és carne e ideia,
Me confundes como Jung ao falar,
De arquétipos, sombras e ânima pura,
Que em ti, eu vivo a decifrar.
Tua presença é melancolia de Baudelaire,
Teu riso, perfume em flor decadente,
"A mais verdadeira beleza é triste,"
E a tua me toma, suave e ardente.
E se Drummond ergueu pedra no caminho,
Tu és muralha no meu coração,
Mas sou poeta também, meu destino:
Escalar teus muros com paixão.
"Que seja infinito enquanto dure,"
Dizia Vinícius, com um brinde ao sofrer,
Mas contigo, amor, nem o fim me assusta,
Se é teu olhar que vem me doer.
E cada livro que leio te traz,
Como se Proust sussurrasse atrás:
"O verdadeiro paraíso é o paraíso perdido,"
E teu toque é lembrança que me desfaz.
Então venho aqui, de alma rasgada,
Confessar sem eufemismo ou temor,
Que se amar é loucura, é queda, é prisão…
Que seja tua a chave, e teu o ardor.
Pois sou doido, lírico, sonhador,
E nesse cordel, com cheiro de céu,
Eu te amo com tudo, com arte e com dor,
Te escrevo com Borges, Rilke e papel.
Meu Pedaço Brasileiro (MPB)
No compasso do tempo calado,
Me pego lembrando teu jeito,
Teu riso cortando o silêncio,
Teu nome morando em meu peito.
Mesmo longe, não passa um segundo,
Sem que eu te deseje no mundo
Comigo, sem falta, sem leito.
Se tu fosse flor, era lírio,
Mas com cheiro de dama da noite.
Se tu fosse estrela, brilhava
Na parte mais funda do açoite.
Teu olhar é maré que me puxa,
Tua ausência me arrasta, me enxuça,
Feito chuva em telhado sem coite.
"Eu sei que vou te amar", dizia
Jobim com a alma escancarada.
E eu canto baixinho esses versos,
Pensando na tua risada.
Se um dia eu for samba enredo,
É teu nome que mora no enredo,
É por ti minha dor declarada.
Tu foi a canção mais bonita
Que a vida resolveu me emprestar,
Mas levou pra bem longe a vitrola,
E eu fiquei sem poder te escutar.
Teu corpo é poema de Vinícius,
Teu cheiro é perfume fictício
Que o tempo insiste em apagar.
"Desde que o samba é samba é amor",
Canta Caetano com sua doçura.
Mas comigo o amor é cravado,
Sem rodeio, sem rima censura.
Tu és fogo, és sede e pecado,
És calor que me deixa molhado
Mesmo em noite sem cobertura.
Tô cansado de rima contida,
Tô querendo o que é teu por direito.
Sem metáfora, eu grito teu nome,
Sem disfarce, sem medo, sem jeito.
És mulher, és deusa, és meu tudo,
És razão de meu verso, meu mundo,
Mesmo ausente, ainda mora no leito.
"Você é linda", diz Gil bem mansinho,
Mas eu digo num tom mais sofrido:
Tu é minha rima e meu vinho,
Minha sede, meu sono perdido.
E se um dia tu volta pra casa,
Vai achar minha alma sem asa,
Mas ainda voando contigo.
Manancial
No começo de tudo…
Eu ainda lembrava do que era manhã.
Mas agora...
Os dias vêm com o mesmo gosto de ontem mal digerido.
Levanto.
De novo.
E o chão… me reconhece pelos passos.
Porque eu sou o mesmo.
Só mais desbotado.
O tempo...
ele gira...
Mas gira em falso.
E eu,
me giro junto.
Sou retorno.
Sou reflexo.
Sou repetição que aprendeu a andar em círculos.
Toda alegria que tive virou eco engasgado,
E o que me resta
é essa fonte... que jorra ausência.
Silenciosa.
Fria.
Persistente.
Não digo o nome dela.
Mas ela me molda.
Me entalha por dentro.
Feito rio que cava devagar...
E nunca some.
Eu sou esse rio.
Sou o escorrer lento de algo que esvazia.
Sou poço que não seca...
Mas também não sacia.
Tudo em mim é revivência.
Tudo em mim é semi-presença.
Sou o inacabado de todos os começos.
O quase.
O resto.
O ser que se refaz pra não ser.
E cada dia...
cada maldito novo dia...
Veste a roupa do anterior.
Me dá um café amargo
e finge que é vida.
Mas eu sei.
Eu sei.
Eu tô virando afluente do silêncio.
Reservatório do cansaço.
Vertente do nunca mais.
Não me chames pelo fim.
Mas sinta —
a cada riso que evapora,
a cada passo que arrasta,
que eu...
já sou nascente do indizível.
Já sou manancial...
do que leva embora.