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Luto e Conflito Familiar: Uma Reflexão

A protagonista enfrenta um luto profundo após a perda de um ente querido, refletindo sobre momentos não aproveitados e a dor causada por uma foto que a faz reviver lembranças. Ela se encontra em um estado de apatia, isolada em seu quarto, enquanto sua mãe tenta se conectar com ela, mas a comunicação se transforma em uma briga intensa. O desespero e a raiva culminam em uma explosão emocional, levando a protagonista a buscar distância e um novo começo fora de casa.

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Luto e Conflito Familiar: Uma Reflexão

A protagonista enfrenta um luto profundo após a perda de um ente querido, refletindo sobre momentos não aproveitados e a dor causada por uma foto que a faz reviver lembranças. Ela se encontra em um estado de apatia, isolada em seu quarto, enquanto sua mãe tenta se conectar com ela, mas a comunicação se transforma em uma briga intensa. O desespero e a raiva culminam em uma explosão emocional, levando a protagonista a buscar distância e um novo começo fora de casa.

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A foto me deixou totalmente destruída.

O que eu achei que seria um começo de progresso, foi jogado ao vento quando eu vi a
nossa foto juntos.

O sorriso grande e bonito que só ele sabia dar, os olhos intensos e o jeito em que
exalava amor.

Tudo aquilo me fez pensar no quanto eu não aproveitei direito os momentos que
[Link] daria tudo por um último momento com ele.

Só um beijo dele na minha testa, já me faria melhor. Nem que fosse um pouco.

Mas isso nunca mais aconteceria. Nunca mais eu sentiria os lábios dele tocando
minha pele. Nunca mais eu o verei tocar violão ou criar novas músicas. Nunca mais
veria seu sorriso doce. Não existia mais ele na minha vida.

A única coisa que existia eram as malditas fotos.

Dois dias que eu não saio do quarto. Dois dias em que eu só me alimento de
migalhas.

O quarto está escuro. Abafado.

Meu corpo é quase parte da cama, o lugar ao quão eu mal mudei de posição durante
essas 48 horas. Estou suando, mas nem isso me faz levantar da cama para me
refrescar.

Se alguém entrasse aqui, pensaria que eu estou em decomposição.

Mas isso não me afeta. Nada me afeta, só aquela maldita foto.

Algumas lágrimas intrusas encorrerem pelas minhas bochechas, quando o som de uma
batida na porta ecoa pelo quarto.

Minha mãe tem sido bem barulhenta nesses dias. Está sempre na minha porta, prestes
a quebrá-la. Eu nunca abro e no final, ela sempre desiste.

— Kaya... — Seu tom de voz é baixo, comparado aos outros dias. Ela está com a voz
rouca, meio embargada. — Kaya, você ainda está aí?

Não me mexo.

Ela dá dois toques suaves na porta.

Consigo imaginá-la do outro lado do corredor, com a cara colada na porta, tentando
escutar qualquer sinal meu. E mesmo assim, eu não consigo me mover.

Não é culpa minha. Meu corpo só está pesado demais, se afundando cada vez mais na
cama. E eu mal consigo respirar. Mal consigo falar.

Fecho os olhos.

— Filha... — Sua voz treme. — Me responde.

"Filha.

A palavra me deixa nauseada. Me deixa triste. Porque não combina com a gente.
Porque soa falso.

— Meu amor, abre a porta. — Ela mexe na maçaneta mas a porta não se abre. Está
trancada.

Sua respiração começa a ficar pesada, consigo sentir que algo grande e intenso vai
acontecer em seguida. Algo que vai nos destruir mais ainda.

Duas batidas suaves. Um chamado abafado.

Duas batidas mais fortes. Meu nome dito com mais desespero.

A maçaneta começa a se mover rapidamente. Eu só a observo, em silêncio. Não consigo


me mover. Não consigo me pronunciar.

Eu quero gritar para que ela saia. Mas eu não consigo. Minha voz sumiu. Assim, como
a minha vontade de tomar alguma atitude em relação a isso.

De repente, me asusto quando escuto uma pancada forte na porta. É como se ela
estivesse se batendo nela.

Então, algo se clareia na minha mente. Ela está tentando arrombar a porta.

"Não", eu tento dizer. "Me deixa", eu quero gritar. Mas nem mesmo minha boca se
move para isso. Meus lábios continuam fechados, secos.

Meu corpo vai afudando mais a cada batida nova. Sinto tudo em mim latejar.

O som para por um momento. Um silêncio se instaura na casa. Não consigo escutar
nada, além de um som bem distante do lado de fora da casa. Na rua.

As pessoas continuam vivendo suas vidas, normalmente, enquanto eu tento escalar a


montanha da sobrevivência. Enquanto, eu tento escapar desse luto fodido que me
arrasta para o fundo do poço.

Alguns minutos se passam, até que escuto de novo seu corpo chocando contra a porta
fechada. Eu prendo a respiração a cada som alto que ecoa no quarto.

Em minutos, tudo se desaba. A porta abre num baque agressivo, batendo na parede,
vejo alguns estilhaços de madeira voando pela escuridão do quarto e no meio do
corredor, eu vejo sua silhueta meio distorcida.

Não consigo ver seu rosto com clareza por conta do escuro no quarto, mas vejo o
exato momento em que ela desaba no chão.

Estou de bruços na cama, meus braços estão posicionados rente ao meu corpo, meu
rosto está quase enterrado no travesseiro, mal consigo respirar. Meu corpo dói pela
posição, mas eu não me ajeito.

Ela está ajoelhada no chão, os braços soltos ao redor do corpo, a cabeça erguida em
minha direção. Eu não escuto sua respiração pesada de antes. É como se ela
estivesse prendendo o ar nos pulmões. Não consigo enxergar sua expressão.

Então, algo acontece com ela, como se alguém a empurrasse e ela cai de cara no
chão.

Seu corpo começa a se mover violentamente e um som brusco e brutal saí de sua boca.
Isso me deixa mais imóvel. Ela começa a sussurrar coisas desconexas e eu penso por
um segundo, que ela está rezando.
Ela se arrasta até ficar no pé da minha cama.

É como uma cena de terror. Mas isso não me assusta. Não demonstro nenhuma reação.
Não sinto nada além de cansaço.

Consigo sentir o cheiro do vinho branco nela e isso faz meu estômago embrulhar. Seu
rosto nessa posição é mais nítido e consigo ver a sua expressão nesse momento.

Ela está destruída. Seus cachos estão assanhados e ela usa a mesma camisola de
vários dias atrás. Ela abre a boca diversas vezes, pronunciando palavras
desconexas.

Se alguém de fora, a visse nesse momento pensaria que ela está maluca.

— K-Kaya? — Sua mão vem em minha direção, mas para no ar. Ela não me toca. — Filha?

Eu posso contar nos dedos, as vezes em que ela me chamou de filha durante todos
esses anos. A palavra parece tão sem sentido nesse momento.

Com muita dificuldade, eu me movo. Meu corpo grita de dor.

Ela, por sua vez, parece tão surpresa e aliviada que se aproxima mais. Agora
estamos cara a cara.

Seu rosto... Isso me atinge de uma forma diferente.

— Meu Deus, eu pensei... Eu pensei que... que... — Ela fala. Ou tenta falar. Mas
está tão desesperada que não consegue formular algo concreto. — Que susto.

"Não", eu tento falar.

— Vem... – Suas mãos tentam me puxar, mas ela não me toca. — Vamos tomar um banho.
Deixa eu fazer algo pra você comer.

— Não — A palavra arranha na minha garganta.

Ela ajeita o corpo nos calcanhares. Suas sobrancelhas se juntam e ela me olha meio
incrédula.

— O-o que?

— Eu disse... — Engulo em seco, tentando desmanchar o nó que se forma na minha


garganta. — não.

— Mas... mas você... você precisa sair dessa cama. — Ela continua gaguejando.

— Eu não quero. Me deixa em paz.

— Eu pensei que você estivesse... — Ela nem mesmo termina a frase.

Minha mãe tem evitado falar sobre a morte desde a partida do meu pai. É como se
fosse um assunto proibido.

Não falamos sobre isso. Não falamos sobre nada. Tudo o que sabemos fazer é...

— O que você acha que ele deve estar pensando te vendo agora? — Sua voz interrompe
meu pensamento.
Meu rosto se contorce em dor. Ele não está me vendo. Essa merda nem mesmo existe.
Que porra...

Mas e se isso existir? E se ele realmente estiver me vendo agora?

— Ele não ta pensando em nada. — Pronuncio baixo, engolindo o bolo insuportável na


minha garganta. — Essa merda não existe.

Ela ri fraco, mas seus olhos demonstram outra coisa. É como se uma parte de si,
estivesse caindo na real.

— Ele odiaria isso. — Continua falando, mudando a expressão em seu rosto.

— Não... Ele não odiaria.

— Ver você se autodestruindo por causa dele. — Sua voz vai aumentando cada vez
mais, seus olhos brilham com as lágrimas prestes a cair.

— Não... — Afundo o rosto no travesseiro, uma ânsia de vômito me atingindo, mas


nada sai da minha boca, além de balbucios.— Não... ele não... para.

— Você está magoando o seu pai.

— Eu não estou...

Nossas vozes vão aumentando de tom. As lágrimas começam a ser de uma tristeza
raivosa. Algo vai se quebrando cada vez mais dentro de mim e eu sinto raiva de
tudo.

Raiva de como a vida é. Raiva do fato de que pessoas boas sempre sofrem e que ele
era a melhor de todas, e mesmo assim foi levado pra um lugar desconhecido. Raiva
por causa do acidente que tirou ele da minha vida. Raiva dessa tristeza que não me
deixa em paz. Raiva de todas as pessoas felizes. Raiva de tudo. E raiva
principalmente dela.

— Sim, você está. — Ela esbraveja, gritando e cuspindo em mim. As palavras duras
demais. — Você está o decepcionando.

— Cala a boca. Você não sabe de merda nenhuma.

Finalmente, consigo me levantar. Meu corpo lateja, mas a minha raiva é maior ainda.
Nada pode me parar nesse momento. Nem mesmo as palavras duras dela.

— A única coisa que você sabe é beber e achar que sabe de alguma coisa. — Sentada
na cama, eu grito para ela. Seus olhos castanhos me encaram de baixo e seu rosto
está nublado. É esquisito vê-la com essa expressão. — Mas, você não sabe de nada!
Porque ele se foi... e nunca mais vai voltar! E ele não tá decepcionado comigo,
porque ele tá MORTO!

A última palavra nos deixa em choque. Minhas palavras acabam e eu não consigo dizer
mais nada, mas meus olhos se enchem de lágrimas e eu me arrependo na hora por ter
falado o que falei.

Não por causa dela, mas porque a ficha caiu de vez.

Ele está morto.

O olhar da minha mãe se perde no caminho e o ódio que antes eu conseguia ver em seu
olhar, se dissipa. Ela parece inerte.
Me levanto devagar da cama e caço uma bolsa velha, jogando tudo de roupa que vejo
pela frente. As lágrimas escorrem pela as minhas bochechas quando eu deixo o quarto
escuro, tentando não prestar atenção no corpo jogado no chão da minha mãe.

Desço as escadas e pego a chave do meu carro, me dirigindo para o lado de fora e
entrando no automóvel.

Jogo a mochila no banco do passageiro e respiro fundo, minha respiração falhando


antes de eu dar partida no carro.

Eu preciso de uma distância dela. Eu preciso me afastar dessa casa. Preciso me


afastar desse quarto. Eu preciso de um pouco de ar. Eu preciso da Savannah.

Porque enquanto eu estiver no mesmo ambiente que a minha mãe, tudo o que vamos
saber fazer é brigar e eu não aguento mais isso.

Porque é só isso que fazemos.

Brigamos.

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