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Responsabilidade Civil de Provedores Online

O documento analisa a responsabilidade civil dos provedores de aplicações de internet em relação a danos causados por terceiros, especialmente à luz das novas tecnologias de inteligência artificial. A pesquisa conclui que a legislação brasileira, ao isentar provedores de maior responsabilidade, criou um desequilíbrio entre direitos e deveres, resultando em violações de princípios constitucionais e na circulação de conteúdos nocivos. O estudo também compara normas de diferentes países e discute as implicações do Marco Civil da Internet na proteção dos direitos dos consumidores.

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O documento analisa a responsabilidade civil dos provedores de aplicações de internet em relação a danos causados por terceiros, especialmente à luz das novas tecnologias de inteligência artificial. A pesquisa conclui que a legislação brasileira, ao isentar provedores de maior responsabilidade, criou um desequilíbrio entre direitos e deveres, resultando em violações de princípios constitucionais e na circulação de conteúdos nocivos. O estudo também compara normas de diferentes países e discute as implicações do Marco Civil da Internet na proteção dos direitos dos consumidores.

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A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES DE APLICAÇÕES DE

INTERNET: ANÁLISE SOBRE A MODERAÇÃO DE CONTEÚDO VIRTUAL


FRENTE ÀS NOVAS TECNOLOGIAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Gabriel Ferreira Damasceno

RESUMO
Desde sua implementação no Brasil na década de 1990 até hoje, a internet já
está presente no domicílio de mais de 90% dos brasileiros, segundo a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios realizada em 2021. Tal dado expressa que
atualmente grande parte, se não a maioria, das interações humanas acontece no
meio virtual. Nesse sentido, esse aumento vertiginoso na quantidade e velocidade
de tais interações também aumentou exponencialmente a nocividade de eventuais
condutas maliciosas, pelo grande alcance que passaram a possuir e a dificuldade de
rastrear e neutralizar a fonte causadora dos danos. Desta feita, o presente estudo
objetivou analisar as características da responsabilidade civil dos provedores de
conteúdo e aplicações de rede virtual em casos de danos gerados por terceiros,
considerando ainda as novas tecnologias de algoritmo e inteligência artificial; seus
fundamentos e consequências; as alterações temporais realizadas pela lei Brasileira;
utilizando de comparação entre normas de diferentes países que tratam o assunto,
bem como e revisões bibliográficas sobre o tema. Concluiu-se que após a adoção
tardia do Marco Civil da Internet, a escolha legislativa de eximir os provedores de
uma maior responsabilização, em momento que o paradigma de proteção da
liberdade para não obstrução do desenvolvimento das tecnologias já era substituído
por um cenário de monopólio das empresas digitais, resultou em um desequilíbrio
entre os direitos e deveres de tais corporações, que perceberam grandes bônus sem
os devidos ônus, violando princípios constitucionais como isonomia, direito de
resposta e inviolabilidade da vida privada, visto que tais empresas apenas poderiam
ser responsabilizadas nos casos de descumprimento de ordem judicial específica, o
que por muitas vezes ocorre em momento que o conteúdo nocivo já circulou
ostensivamente, criando um meio perverso no qual conteúdos danosos circulam
muitas vezes livremente e de forma monetizada, gerando lucro indireto para a
empresa omissa em face da diminuição da proteção de direitos da parte
consumidora hipossuficiente.

1
Palavras chave: Responsabilidade Civil; Provedores de internet; Marco Civil da
Internet; Isonomia, Inteligência Artificial;

ABSTRACT
Since its implementation in Brazil in the 90’s until today, the internet is already
present in the households of over 90% of Brazilians, according to the National
Household Sample Survey conducted in 2021. This data expresses that currently a
large portion, if not the majority, of human interactions take place in the virtual realm.
In this sense, this vertiginous increase in the quantity and speed of such interactions
has also exponentially increased the harmfulness of potential malicious conduct, due
to the broad reach they have acquired and the difficulty in tracing and neutralizing the
source causing the damage. Therefore, the present study aimed to analyze the
characteristics of civil liability of content providers and virtual network applications in
cases of damages caused by third parties, also considering the new technologies of
algorithms and artificial intelligence; their foundations and consequences; the
temporal changes made by Brazilian law; using comparisons between norms of
different countries addressing the issue, as well as bibliographic reviews on the topic.
It was concluded that after the belated adoption of the Brazilian Internet Civil Rights
Framework, the legislative choice to exempt providers from greater accountability, at
a time when the paradigm of protecting freedom to not obstruct technological
development was already being replaced by a scenario of digital companies
monopoly, resulted in an imbalance between the rights and duties of such
corporations. They realized significant bonuses without the corresponding burdens,
violating constitutional principles such as equality, the right of reply, and the
inviolability of private life, given that such companies could only be held accountable
in cases of specific judicial orders being disregarded, which often happens after
harmful content has already circulated extensively, creating a perverse environment
in which damaging content often circulates freely and monetarily, generating indirect
profit for the negligent company at the expense of diminished protection of rights for
the disadvantaged consumer party.
Keywords: Civil responsibility; Internet providers; Civil Rights Framework for the
Internet; Isonomy, Artificial Intelligence.

2
INTRODUÇÃO
Criada em 1969 no contexto da Guerra Fria, a rede mundial de computadores
foi patrocinada pelo Departamento de Defesa norte americano com intuito de
integrar comunicações entre laboratórios de pesquisa, tinha como objetivo acelerar a
agilidade e garantir a segurança no compartilhamento de informações internamente
(FEATHERLY, 2024). Por conseguinte, somente em 1987, quase duas décadas
depois de sua criação, é que houve a liberação comercial do sistema, momento em
que o cidadão pode acessar tal ferramenta por intermédio de empresas privadas
provedoras da conexão. Momento em que surge a figura dos provedores.
Nesse contexto, a ampliação e aceleração das interações humanas
promovidas pela revolução digital impulsionou paralelamente a ocorrência de crimes
e violações de direitos, que agora prescindem do mundo físico para se concretizar e
passam a possuir um novo meio de maior agilidade e alcance, sendo necessária
análise minuciosa sobre a extensão da responsabilidade dos provedores que
conectam e fornecem ao usuário essa gama infinita de informações.
O conteúdo virtual possui principalmente a característica da viralidade,
palavra que remete ao termo ‘vírus’, pela sua alta taxa de multiplicação e
espalhamento, facilitados pela imensa e rápida rede de interconexões, o que
potencializa os efeitos negativos de atos lesivos que antes dificilmente atingiriam
tantas pessoas de forma orgânica.
Essa característica somada à corriqueira utilização de identidade diversa ou
do anonimato, que passam a sensação de impunidade para os que utilizam a rede
para tais fins maléficos, contribuem para a crescente adoção do meio digital para a
ação danosa. Vale ressaltar ainda que o momento atual da rede, de ampliação e
inserção de novas tecnologias de inteligência artificial e refinados algoritmos,
também abre espaço para criação e ocorrência descontrolada de novos delitos e
danos das mais diversas naturezas, visto a ausência de regulação efetiva.
Portanto, com o passar do tempo, neste contexto de aceleradas inovações
tecnológicas, houve uma ampliação das lacunas jurídicas presentes na norma
brasileira para com esse novo ambiente, visto que o Código Civil e o Código de
Defesa do Consumidor não possuem ferramentas típicas para o enfrentamento
dessa nova realidade, para sanar efetivamente os danos causados pela má
utilização da rede. Dessa forma, pela patente necessidade de regulação específica

3
do meio virtual, foi criada em 2014 a Lei 12.965, conhecida como Marco Civil da
Internet.
A citada Lei, tem como objetivos assegurar a proteção da liberdade de
expressão e regular condutas neste meio, a fim de evitar a censura e diminuir os
obstáculos para o desenvolvimento de novos serviços e ferramentas virtuais. Nesse
sentido, o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que regulamentou a matéria relativa à
responsabilidade civil dos provedores de aplicações de internet por conteúdos
gerados por terceiros, optou pelo regime subjetivo de responsabilização, tratando os
provedores como intermediários neutros, inteligência semelhante à da legislação
americana, disposta na seção 230 da norma americana (Lei de Decência nas
Comunicações).
Para o fim que este trabalho se destina, será analisada, principalmente, as
figuras dos Provedores de Serviços Online, com enfoque nos provedores de
aplicações de internet, mormente da figura das redes sociais e ferramenta de busca,
grupo que engloba grandes empresas multinacionais como Google e Facebook, que
são ainda provedores de hospedagem, informação e conteúdo, e, atualmente, tem
ganhado cada vez mais uma função estruturante da rede e representam os
ambientes onde ocorrem a maioria das interações entre usuários.
O presente trabalho analisará de forma descritiva os fundamentos e as
consequências de tal opção normativa, com escopo nas tendências atuais da
matéria, utilizando como método de pesquisa a revisão bibliográfica e o método
dedutivo, na tentativa de se fazer das regras gerais, a solução para casos
específicos. A fim de se verificar se o modelo de responsabilização subjetivo
resultou em maior garantia de direitos ou retrocesso na garantia e promoção dos
direitos dos consumidores, bem como dos princípios constitucionais da isonomia, da
personalidade, e mais recente, a proteção dos dados pessoaI, inserida no inciso
LXXIX do art 5º da CRFB, frente aos novos desafios colocados pela inovação
tecnológica atual.

1 - O MUNDO VIRTUAL COMO MAIOR MEIO DE INTERAÇÃO DA ATUALIDADE


1.1 - Breve histórico dos primórdios da internet (WEB1.0)
No início da década de 60, impulsionados pelos recentes sucessos
tecnológicos soviéticos, os Estados Unidos da América iniciam um projeto para
compartilhamento célere de informações entre bases militares e departamentos de
4
pesquisa, a primitiva ARPANet, acrônimo para Advanced Research Projects Agency
Network, com intuito de retomar a superioridade tecnológica militar. Com isso,
deu-se o início ao complexo e ubíquo emaranhado de conexões presente nos dias
atuais, nas palavras de Castells:

A Arpanet não passava de um pequeno programa que surgiu de um dos


departamentos da ARPA, o Information Processing Techniques Office
(IPTO), fundado em 1962 com base numa unidade preexistente. O objetivo
desse departamento, tal como definido por seu primeiro diretor, Joseph
Licklider, um psicólogo transformado em cientista da computação no
Massachusetts Institute of Technology (MIT), era estimular a pesquisa em
computação interativa. Como parte desse esforço, a montagem da Arpanet
foi justificada como uma maneira de permitir aos vários centros de
computadores e grupos de pesquisa que trabalhavam para a agência
compartilhar on-line tempo de computação.
(CASTELLS, 2003. 16 p.)

O sistema funcionava pela integração do acesso de computadores


geograficamente próximos, numa mesma conexão chamada LAN (Rede de Área
Local), com outras redes de computadores mais distantes WAN (Rede de Área
Larga), esse esforço de interligação entre LAN’s e WAN’s ficou conhecido por
Internet, abreviatura de internetwork.
Em continuidade, a linha do tempo segue com a adoção do protocolo TCP/IP
na década de 1970, que foi responsável por padronizar as transmissões de dados
entre máquinas conectadas à rede, colocando-as em sintonia operacional, pela
incorporação do Protocolo de Controle de Transmissão (TCP), com o Protocolo de
Internet (IP), que identifica os computadores e servidores conectados.
Entretanto, a revolução digital como se conhece atualmente iniciou-se
somente em 1990, com a criação da World Wide Web (WWW), segundo Castells:
O que permitiu à Internet abarcar o mundo todo foi o desenvolvimento da
www. Esta é uma aplicação de compartilhamento de informação
desenvolvida em 1990 por um programador inglês, Tim Berners-Lee, que
trabalhava no CERN, o Laboratório Europeu para a Física de Partículas
baseado em Genebra. Embora o próprio Berners-Lee não tivesse
consciência disso (Berners-Lee, 1999, p.5), seu trabalho continuava uma
longa tradição de ideias e projetos técnicos que, meio século antes, buscara
a possibilidade de associar fontes de informação através da computação
interativa.(...)Ele definiu e implementou o software que permitia obter e
acrescentar informação de e para qualquer computador conectado através
da Internet: HTTP, MTML e URI (mais tarde chamado URL). Em
colaboração com Robert Cailliau, Berners-Lee construiu um programa
navegador/editor em dezembro de 1990, e chamou esse sistema de
hipertexto de world wide web, a rede mundial. O software do navegador da
web foi lançado na Net pelo CERN em agosto de 1991.(CASTELLS, 2003.
20 p.)

5
Nessa guisa, têm-se os primórdios da web 1.0, um ciberespaço estático de
hipertextos e hiperlinks que de acordo com o próprio autor seria uma “rede somente
de leitura” (BERNERS-LEE, 1998, p.1), caracterizada pela existência de uma
pequena quantidade de escritores e uma grande gama de leitores, era pouco
frequente maiores interações e contribuições de conteúdo. Foi a primeira ampla
experiência de compartilhamento de dados on-line e as informações eram obtidas
pelos usuários direto das fontes.
Diante de tal cenário, os Estados Unidos da América, berço da tecnologia em
comento, aprovaram a Lei de Decência nas Comunicações , contida no Capítulo 5
do Título 47 do Código dos Estados Unidos, de caráter liberal em fomento à
inovação e livre desenvolvimento das tecnologias virtuais. Tal norma, em sua Seção
230, assim dispõe: No provider or user of an interactive computer service shall be
treated as the publisher or speaker of any information provided by another
information content provider.1, sacramentando assim o paradigma de isenção de
responsabilidade aferido a tais provedores, que posteriormente também fora
adotado pela lei brasileira.
A esta época, pela ausência de maiores interações tanto entre usuários como
empresas, não se fazia urgente uma regulação detalhada da matéria, motivo que
corrobora a redação da seção 230. Entretanto, com o decorrer da história e evolução
do ciberespaço, este cenário sofreu drásticas alterações.

1.2 - O alcance e as novas ferramentas da rede mundial de computadores na


atualidade (WEB2.0)
Com o acelerado desenvolvimento das tecnologias digitais paralelo à
popularização dos computadores pessoais e a crescente mercantilização do acesso
ao mundo virtual para a população, iniciou-se uma nova fase da rede, se a anterior
era limitada ao acesso e leitura de dados, a nova WEB 2.0 é caracterizada por uma
maior interatividade e compatibilidade do sistema, o que permitiu um drástico
aumento na participação e criação de conteúdo pelo usuário, possibilitando novas
formas de expressão e consumo (Naik,2009).
Atualmente, a fase 2.0 da rede já constitui o mais amplo meio de
compartilhamento de dados e informações entre as pessoas, tornando as interações

1
Nenhum fornecedor ou utilizador de um serviço informático interactivo será tratado como editor ou
orador de qualquer informação fornecida por outro fornecedor de conteúdos de informação.
6
quase instantâneas, o que representa a maior e mais rápida transformação social
promovida pela tecnologia na história humana. De acordo com pesquisa do Banco
Mundial2, de 1990 até 2020 o ambiente virtual cresceu exponencialmente em
número de conectados, passando de menos de 1% da população mundial para
cerca de 60%.
No Brasil, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)3,
a internet já é presente em 90% dos lares, e ainda “Entre os 183,9 milhões de
pessoas com mais de 10 anos de idade no país; 84,7% utilizaram a internet no
período de referência da Pnad TIC, em 2021.”
Ou seja, praticamente 85% dos brasileiros já tiveram contato com a rede, e 3
em cada 4 utilizam o serviço diariamente, de acordo com pesquisa do Centro
Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação
([Link]), órgão ligado ao Comitê Gestor da Internet do Brasil ([Link]).
Essa nova realidade pode ser explicada pelo conceito da aldeia global
cunhado por Marshall McLuhan, nas palavras da autora Patrícia Peck:
Segundo o canadense Marshall McLuhan, um dos mais importantes teóricos
das comunicações, havia uma contraposição entre a sociedade fortemente
baseada na palavra escrita, surgida com o advento da Imprensa, pela
invenção de Gutemberg no século XV, e uma sociedade eminentemente
visual, em que cinema e TV desempe­nham o papel principal. A linearidade
da primeira McLuhan opõe o caráter dinâmico dos segundos e prega sua
universalidade: cinema e TV seriam os responsáveis pelo surgimento de
uma Aldeia Global, onde toda a humanidade estaria interligada. O problema
é que a teoria de McLuhan foi elaborada na primeira metade do século XX e
trazia, implicitamente, uma questão terrível: os veículos definidos por ele
como pontas de lança de uma nova era têm caráter essencialmente
massificante. McLuhan já previa uma “aldeia global”, com um número cada
vez maior de pessoas conectadas a uma única rede. Mas o que temos hoje,
além de um universo conectado, é uma grande diversidade, causa­da pela
individualização e pelo que Tofler chama de overchoice — um mundo em
que as possibilidades de escolha são infinitas. Esse cenário transcende a
previsão do teórico canadense. Ou seja, se para McLuhan o meio era a
mensagem, hoje, a mensagem é o meio. Isso determina uma forma distinta
de enxergar a própria aplicação do Direito. (PINHEIRO, 2021. 18 p.)

Por conseguinte, a ampla utilização de novas tecnologias de algoritmos, de


inteligência artificial e aprendizado de máquina está umbilicalmente ligada a forma
2
International Telecommunication Union (ITU) World Telecommunication/ICT Indicators Database,
Individuals using the Internet (% of population), publicado em 2023 Disponível em:
[Link]
3
IBGE. PNAD TIC Contínua, 2021: 90% dos lares brasileiros já tem acesso à internet no Brasil,
aponta pesquisa. Brasil. Publicado em: 19 set 2022. Disponível em:
[Link]
sso-a-internet-no-brasil-aponta-pesquisa

7
com que o usuário interage com a rede hodiernamente. Nesse ponto, observa-se
que a individualização e personalização de conteúdos para a experiência pessoal do
consumidor estão no cerne da questão.
Por meio da implementação da coleta e análise de dados, bem como o
mapeamento de hábitos de consumo, surgiu a possibilidade de veiculação de
publicidade de maneira mais efetiva, ou seja, personalizada à experiência do
usuário. Empresas que se especializaram nestes mecanismos, como Google e
Facebook, criaram verdadeiro modus operandi dos provedores de serviços da rede e
hoje exercem oligopólio da estrutura do mundo virtual, visto a existência de poucas
companhias que dominam grandes parcelas do mercado, e que, conforme o
professor Martin Eifert, estão no topo da pirâmide pela qual funciona a rede:

As mídias sociais confundiram a linha entre a comunicação de massa e a


comunicação individual. Eles criaram uma rede de usuários que geram e
consomem conteúdo nas redes sociais plataformas que permitem fácil
acesso e alta conectividade. Para fins analíticos, é útil concentrar-se na
estrutura triangular que está subjacente às comunicações da plataforma.
Temos um grande número de usuários, todos capazes de produzir e
consumir conteúdo - mas em cada único ato de comunicação, cada usuário
é remetente ou destinatário do conteúdo. As plataformas de mídias sociais
estão fornecendo a infraestrutura para todas as comunicações. Ele permite
que os usuários se comuniquem online, proporcionando fácil acesso,
disponibilizando ferramentas para produção de conteúdo e geração
oportunidades de se conectar com outros usuários. À medida que as mídias
sociais promovem a geração de conteúdo e conectividade, eles também
amplificam todos os efeitos do conteúdo do usuário. A infra-estrutura de fácil
acesso criou um espaço de comunicação que contém uma quantidade de
discurso sem precedentes. Além disso, a persistência, o alcance e a
dinâmica da fala online permitiram efeitos de longo alcance. (EIFERT, 2021)

Nesse sentido, é evidente que a web se tornou o meio mais utilizado para
comunicação e troca de informações, mas também houve crescimento no seu uso
para transações financeiras, comércio eletrônico, educação e acesso a serviços
públicos. O que demonstra a cada vez maior penetração da rede na vida social, e,
consequentemente, no Direito, atualmente, é comum passar a maior parte do dia
conectado, vide a enorme quantidade de serviços e entretenimento fornecidos
on-line, situação que abriu espaço para um novo espectro de possibilidades no que
se refere às relações jurídicas. Sendo, portanto, matéria altamente relevante para os
órgãos legislativos.

2 - MARCO CIVIL DA INTERNET


2.1 - Princípios norteadores da lei e modelo de responsabilização civil
8
Elaborado com participação da sociedade civil, por meio de sugestões
coletadas e compiladas, o Projeto de Lei 2126 de 2011 passou por tramitação
positiva no Congresso Nacional e fora promulgado em 23 de abril de 2014 pela
então presidente Dilma Rousseff sob a Lei Nº 12.965, conhecida como Marco Civil
da Internet. Que trouxe em sua inteligência direitos, deveres e princípios norteadores
para o uso da rede, na intenção de trazer maior segurança jurídica e estipular os
parâmetros legais para o ambiente virtual.
De aspirações liberais, a norma possui escopo na defesa da liberdade de
expressão, vedação da censura no meio digital, equidade no fornecimento de
serviços, neutralidade da rede e garantias de privacidade ao usuário, por meio da
regulação da coleta, do armazenamento e do tratamento de dados de usuários.
Logo de início, o MCI elenca em seu artigos 2º e 3º os fundamentos e a série
de princípios orientadores a serem observados:

Art. 2º A disciplina do uso da internet no Brasil tem como fundamento o


respeito à liberdade de expressão, bem como:
I - o reconhecimento da escala mundial da rede;
II - os direitos humanos, o desenvolvimento da personalidade e o exercício
da cidadania em meios digitais;
III - a pluralidade e a diversidade;
IV - a abertura e a colaboração;
V - a livre iniciativa, a livre concorrência e a defesa do consumidor;
VI - a finalidade social da rede.

Art. 3º A disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princípios:


I - garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de
pensamento, nos termos da Constituição Federal;
II - proteção da privacidade;
III - proteção dos dados pessoais, na forma da lei;
IV - preservação e garantia da neutralidade de rede;
V - preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por
meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo
estímulo ao uso de boas práticas;
VI - responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos
termos da lei;
VII - preservação da natureza participativa da rede;
VIII - liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que
não conflitem com os demais princípios estabelecidos nesta Lei.

De plano se percebe a preocupação, normativamente expressa, quanto à


proteção da livre manifestação do pensamento, direito fundamental de primeira
geração, conforme a Constituição pátria nos artigos 5, IV e 220, que aparece tanto
como fundamento da norma, no Caput do artigo 2º, como princípio no rol não
exaustivo do artigo 3º. Nesse sentido, nas palavras da autora Patrícia Peck:

9
Devido à importância de se garantir o direito à informação e a proteção da
liberdade de expressão, foi promulgada uma lei específica no Brasil para
tratar de algumas destas questões chamada de Marco Civil da Internet. A
análise deste recente marco legal demonstra a difícil missão de legislar
sobre a matéria. Com pouco mais de 30 artigos, tentou-se estabelecer uma
carta de princípios para uma Internet mais inclusiva e justa para os
brasileiros. São eles: neutralidade, acesso à Internet como direito essencial
para o exercício da cidadania, liberdade de expressão e permanência do
conteúdo e sua remoção só em casos excepcionais e com ordem judicial,
privacidade (com vedação para monitoração não acordada de forma prévia
e expressa com o internauta), proteção dos dados pessoais, transparência
com exigência de regras claras de provedores de conexão e de aplicações
na web, segurança da rede, educação em ética digital, uso preferencial de
códigos abertos e responsabilidade dos agentes. (PINHEIRO, Patrícia Peck.
Direito Digital. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2021. 31p.)

Um dos pontos mais importantes é o da responsabilidade pelo conteúdo.


Considerando que é o conteúdo o principal fator que atrai as pessoas para a
Internet e que ele deve estar submetido aos valores morais da sociedade e
atender aos critérios de veracidade, é importante determinar os limites de
responsabilidade dos provedores, dos donos de websites, das produtoras
de conteúdo, dos usuários de e-mail e de todos os que tenham de algum
modo participação, seja em sua produção, seja em sua publicação ou
compartilhamento. Deveriam os provedores de conexão responder pelo
conteúdo que trafega em suas redes? Ou, por outro lado, os provedores de
aplicação deveriam responder por conteúdo do qual não tinham prévio
conhecimento? São justamente estas questões que foram tratadas pela Lei
do Marco Civil da Internet, que determinou, em sua redação final, a
exclusão completa da responsabilidade dos provedores de conexão e o
afastamento da responsabilidade solidária dos provedores de aplicação,
incorrendo apenas em responsabilidade subsidiária na hipótese de, após
ciência por ordem judicial, manter-se omisso ou [Link] fato, a Lei do
Marco Civil da Internet acabou por elevar como direito mais importante,
acima de todos os outros, o da liberdade de expressão, na medida em que
passou a proibir a remoção de conteúdo da Internet sem ordem judicial,
trazendo com isso uma nova fórmula jurídica no tocante ao custo social e
judicial a ser pago para gerenciar os excessos e abusos que são cometidos
na web. (PINHEIRO, 2021. 181 p.)

Dessa forma, para enfrentar a difícil missão de regular a matéria do Direito


Digital, o legislador adotou parâmetro similar ao sistema americano, tanto na parte
principiológica da Lei, quanto em relação a regra geral do modelo de
responsabilização dos provedores de conexão e aplicações de internet, vejamos os
artigo 18 e 19 do MCI:

Art. 18. O provedor de conexão à internet não será responsabilizado


civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros.

Art. 19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a


censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser
responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por
terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para,
no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo
assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente,
ressalvadas as disposições legais em contrário.

10
Quanto aos provedores de conexão, por serem de fato meros intermediários
da transmissão de dados entre diversos usuários conectados à rede, dificilmente
haveria de se falar em responsabilização por casos de conteúdo publicado por
terceiros, visto que estes sequer podem acessar o teor da publicação em questão, e
ainda, é vedado qualquer tratamento diferenciado de pacote de dados pelos
responsáveis por sua transmissão, conforme § 1º do artigo 9 do Marco Civil.
Para os provedores de aplicação de internet, o MCI ventila também
inteligência semelhante à da legislação americana, postulada na Seção 230 da Lei
de De Decência nas Comunicações. Tal norma, relativa à isenção total de
responsabilidade dos provedores quanto ao conteúdo publicado por terceiros,
inspirou a lei pátria igualmente a eximir os provedores de quaisquer
responsabilização quanto a conteúdo publicado por terceiros, tratando estes como
meios neutros, que não interferiram no gerenciamento da atividade dos usuários.
Ressalvada somente a disposição contida no art. 21 da Lei nº 12.9654, que
excetua a regra geral estabelecendo responsabilidade subsidiária ao provedor de
aplicação de internet em caso de não remoção de conteúdo de caráter íntimo e
sexual após simples notificação do indivíduo lesado.
Portanto, ao privilegiar a liberdade de expressão como paradigma da
normatização da internet, a lei nacional reproduziu o que já se observava
mundialmente, uma espécie de laissez-faire virtual, ao estimular a mínima
intervenção e promover um ambiente de maior liberdade de circulação de ideias
possível ao usuário.
Entretanto, a legislação brasileira já nasce, no mínimo, desatualizada, visto
que o contexto de sua criação e da lei a americana, que serviu mundialmente como
modelo, são diversos, e a figura dos provedores de aplicação on-line atualmente
passou a ser vista não como meio neutro, mas sim como um agente ativo no meio
virtual, como será demonstrado.

4
Art. 21. O provedor de aplicações de internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros será
responsabilizado subsidiariamente pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem
autorização de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo cenas de
nudez ou de atos sexuais de caráter privado quando, após o recebimento de notificação pelo
participante ou seu representante legal, deixar de promover, de forma diligente, no âmbito e nos
limites técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse conteúdo.
11
3 - ANÁLISE DO MODELO DE RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES
DE APLICAÇÃO DE INTERNET
3.1 - Os provedores de internet
A dinâmica pela qual opera a World Wide Web, de integração entre usuários e
redes, tornou imperiosa a figura dos provedores, visto que somente através destes é
possível conectar dispositivos à Internet e acessar os serviços e conteúdos
existentes nesta.
Sendo assim, é oportuno diferenciar aqui os tipos de provedores e suas
funções, de acordo com o próprio Marco Civil da Internet, estão presentes
basicamente cinco espécies de provedores, quais sejam: provedores de backbone;
provedores de acesso; provedores de correio eletrônico; provedores de
hospedagem; e provedores de conteúdo, vejamos a caracterização destes no
julgado da Ministra Nancy Andrighi:

Os provedores de serviços de Internet são aqueles que fornecem


serviços ligados ao funcionamento dessa rede mundial de
computadores, ou por meio dela. Trata-se de gênero do qual são
espécies as demais categorias, como: (i) provedores de backbone
(espinha dorsal), que detêm estrutura de rede capaz de processar
grandes volumes de informação. São os responsáveis pela
conectividade da Internet, oferecendo sua infraestrutura a terceiros,
que repassam aos usuários finais acesso à rede; (ii) provedores de
acesso, que adquirem a infraestrutura dos provedores backbone e
revendem aos usuários finais, possibilitando a estes conexão com a
Internet; (iii) provedores de hospedagem, que armazenam dados
de terceiros, conferindo-lhes acesso remoto; (iv) provedores de
informação, que produzem as informações divulgadas na Internet; e
(v) provedores de conteúdo, que disponibilizam na rede os dados
criados ou desenvolvidos pelos provedores de informação ou pelos
próprios usuários da web. (STJ, Resp 1316921/RJ, rel. Min. Nancy
Andrighi, j. em 26.6.2012)

Nesse mesmo sentido, Ronaldo Lemos em sua obra Direito, Tecnologia e


Cultura (2005), entende que há ainda a divisão dos citados provedores em 2
principais gêneros, os Provedores de Serviço de Acesso (PSA’s) e Provedores de
Serviços Online (PSO’s), que dizem respeito, respectivamente, às pessoas jurídicas
fornecedoras do serviço de acesso à rede per si, como os provedores de backbone
e de acesso, e aos fornecedores de serviços que se utilizam da internet para sua
realização, de natureza de pessoa jurídica ou física nas formas de organização ou
grupo, grupo que abrange os provedores de hospedagem, informação e conteúdo.

12
As demais espécies de provedores seriam derivadas de algum dos dois grupos
majoritários.

3.2 - O modelo de responsabilização dos provedores


Inicialmente, a responsabilidade civil consiste na obrigação de reparar dano
decorrente de ato ilícito ocasionado a outrem, basicamente, tal instituto consiste na
imposição normativa da abstenção de se provocar dano ao patrimônio jurídico
alheio. É derivada do conceito latino Neminem laedere, que significa “a ninguém
ofender”, nas palavras do jurista Fernando da Costa Tourinho Filho “neninem
laedere significa que "a ninguém é lícito causar lesão ao direito de outrem"”, princípio
postulado no artigo 927 do Código Civil.
No mesmo sentido, temos que: “A obrigação de indenizar (CC, arts. 186 e
927) é a consequência jurídica do ato ilícito (CC, arts. 944 a 954). (...) É de ordem
pública o princípio que obriga o autor do ato ilícito a se responsabilizar pelo prejuízo
que causou, indenizando-o.” (DINIZ, 2004, P.469).
Nessa guisa, é certo que o Marco Civil da Internet postula em seus artigos 18
e 19 tão somente quanto a isenção da responsabilidade dos provedores de conexão
e aplicações de internet quanto ao conteúdo criado por terceiros, não tratando de
demais situações juridicamente relevantes e tampouco explicitando a própria
espécie de responsabilização passível a estes, se objetiva ou subjetiva.
Tais disposições acarretam em claro descompasso com a norma que
consuetudinariamente regulava a matéria, qual seja o Código de Defesa do
Consumidor, em termos que, apesar da natureza consumerista da relação entre
usuário e provedor, o MCI abandona, ou no mínimo relativiza, a teoria do
Risco-Proveito da Atividade Negocial, consagrada no artigo 14 do CDC. Isto pois, ao
promover maior defesa aos provedores, há uma inversão da lógica padrão
consumerista, que ocasiona na fragilização do direito dos usuários eventualmente
lesados, visto que, na ótica do CDC, para responsabilização exige-se tão somente a
existência do fato danoso, enquanto o MCI traz a necessidade do usuário em
promover ação judicial, ou notificar os provedores no caso específico da regra
especial contida no artigo 21, nos casos de pornografia de vingança.
Portanto, para além do enfraquecimento da equidade entre o usuário, parte
hipossuficiente, e as grandes corporações de tecnologia, a norma optou ainda pelo
caminho da judicialização para resolução de eventuais imbróglios relativos exclusão
13
de conteúdos nocivos publicados por terceiros, desconsiderando a sobrecarga de
demandas existente no Poder Judiciário brasileiro.
Conforme dito, o modelo americano de isenção de responsabilidade dos
provedores foi criado na década de 90, momento embrionário da internet em que
não haviam as superestruturas que conhecemos atualmente, e de fato havia a
necessidade de fomento à inovação. A lei brasileira, no entanto, datada de 2014,
surge em momento completamente diverso, em que poucas empresas dominavam o
mercado e já era presente uma tendência de se estabelecer maior ônus às mesmas.
Nesse sentido, o lecionador Martin Eiffert:

“Desde o início de qualquer regulamentação específica de serviços


intermediários, as limitações de responsabilidade têm sido uma
característica proeminente. No início dos serviços de Internet, os privilégios
de responsabilidade eram a quase totalidade dos regulamentos
promulgados. Os legisladores temiam que a responsabilidade pudesse
sufocar a inovação e estavam ansiosos por facilitar o rápido
desenvolvimento de serviços como plataformas de redes sociais, um
objetivo partilhado pela famosa Secção 230 da Lei de Decência nas
Comunicações nos EUA e, mais importante para nós, pelas Artes. 14 e 15
da Diretiva sobre Comércio Eletrónico na UE. Todas as isenções de
responsabilidade, no entanto, não conseguiram excluir todos os tipos de
responsabilidade. Embora qualquer obrigação geral de monitorizar
conteúdos gerados pelos utilizadores armazenados ou transmitidos seja
explicitamente excluída pelo artigo 15.º da Diretiva sobre comércio
eletrónico, a isenção de responsabilidade para conteúdos gerados pelos
utilizadores no artigo 14.º da Diretiva sobre comércio eletrónico está
condicionada. Mais precisamente, está condicionado à remoção expedita de
conteúdos ilegais mediante o conhecimento dos mesmos. Do ponto de vista
das partes lesadas, isto se resume a uma medida cautelar após notificação,
mas nenhuma compensação por qualquer dano ocorreu. Coloquei tanta
ênfase nas isenções de responsabilidade porque, como regra geral, elas
foram mantidas em qualquer regulamento europeu geral desde então . À
primeira vista, isto é surpreendente, porque pelo menos as plataformas
atualmente dominantes definitivamente já não precisam de uma “renúncia à
inovação”. Outra justificativa para esta abordagem (ainda) é válida. As
comunicações nas redes sociais são feitas em grande escala. Estamos
falando de bilhões de itens gerados por usuários por dia nas grandes
plataformas como o Facebook ou o Twitter. Considerando a grande
quantidade de fala, o monitoramento requer meios automáticos. Os meios
automáticos – pelo menos por enquanto – não conseguem lidar com muitas
das avaliações sensíveis ao contexto que determinam, por exemplo,
discurso difamatório. Contudo, se a monitorização tivesse de ser feita por
seres humanos, tornar-se-ia muito dispendiosa, se não impossível. Portanto,
uma obrigação de devida diligência para monitorar todo o conteúdo tornaria
o negócio não lucrativo ou mesmo inviável. Seria o fim da internet como a
conhecemos. Por outras palavras: a limitação da responsabilidade sobrevive
como resultado de um teste de proporcionalidade. O direito fundamental dos
fornecedores de exercerem atividades comerciais é limitado por regras de
responsabilidade e um regime de responsabilidade que não condicione a
responsabilidade ao conhecimento ou conhecimento de um conteúdo ilegal
específico não seria proporcionado, uma vez que, de facto, encerraria os
operadores.(EIFERT, 2021)

14
A discussão sobre a matéria é complexa e concerne principalmente sobre
dois pontos, o primeiro, relativo a mudança de paradigma, de estímulo à inovação,
necessário em outrora, para análise da realidade fática atual, em que sete
corporações denominadas Big Tech’s (Alphabet, Apple, Meta, Nvidia, Amazon,
Microsoft e Tesla) representam quase 90% de todo valor de mercado do setor de
tecnologia, e o segundo, à dificuldade de se estabelecer um regime de
responsabilidade proporcional, que não condicione empresas à falência nem
promova um ambiente virtual sem leis efetivas contra abusos e possibilite a eficaz
reparação de danos.

Nessa guisa, ao se considerar a crescente concentração de poderes por tais


empresas no decorrer do tempo, visualizamos que não houve um aumento
adequado em seus deveres perante a sociedade, estas continuam a se beneficiar de
uma legislação que as mantém como plataformas neutras, o que não é mais a
realidade, visto que passaram a possuir uma função estruturante da comunicação
moderna, que passou a ser moderada majoritariamente pela lógica de mercado.
Atualmente, plataformas como Facebook, Twitter e Youtube, lucram pela
monetização das inúmeras espécies de conteúdos postados por seus usuários,
através da veiculação de anúncios e venda de seus dados a terceiros, bilhões de
usuários utilizam diariamente as mídias sociais, e na maioria dos casos não
percebem qualquer vantagem, financeira ou não, pela venda de seus dados ou
pelos anúncios promovidos em suas postagens. O que se percebe é a existência de
rígida moderação de conteúdo apenas quando este viola diretrizes estabelecidas
pela lógica mercantil, como por exemplo, os algoritmos existentes nestas
plataformas para remoção e bloqueio de conteúdo que viole a justa utilização de
material protegido por direitos autorais.
Por isso, não é absurdo afirmar que de forma mundial atualmente o direito
autoral goza da maior proteção no ambiente virtual. Isto pois a sistemática adotada
por grande parte dos sites, de remoção ou bloqueio de arrecadação financeira de
postagens que se utilizam de conteúdo de terceiros, atende aos interesses das
corporações digitais, que muitas vezes são patrocinadas pelas empresas detentoras
de tais conteúdos e, dessa forma, lucram pela proteção destes. Este cenário de
promoção de direitos patrimoniais em face dos direitos da personalidade, favorece

15
as empresas de tecnologia e acarretam em fragilização da proteção da dignidade da
pessoa humana e do princípio da equidade.
Sobre isso, leciona de forma notável o professor Guilherme Magalhães
Martins

A partir da premissa da neutralidade, o Marco Civil abrange vários pontos


polêmicos, em especial o seu art. 19, que prevê que o provedor de
aplicações da internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por
danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiro se, após ordem judicial
específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos
do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo
apontado como infringente. Em plena era dos meios alternativos de solução
de conflitos, como a mediação e a arbitragem, o Marco Civil judicializa
questões que já se encontravam resolvidas através de outros instrumentos
mais ágeis, como Termos de Ajustamento de Conduta (TACs). Tal
dispositivo obstaculizar termos de ajustamento de conduta firmados entre os
principais provedores, como a Google, e o Ministério Público Federal e os
Ministérios Públicos de diversos Estados, como Rio de Janeiro e São Paulo,
possibilitando o livre acesso às informações acerca dos usuários para fins
de persecução criminal. Trata-se de uma tentativa de imunizar os
provedores, mas sem discriminar claramente quais modalidades de
prestadores de serviços Internet seriam abrangidos por tal regra (de
conteúdo, de hospedagem, ou de backbone), que vai de encontro aos meios
alternativos de solução de conflitos, como arbitragem e mediação. Ao optar
pela via judicial, a Lei 12.695/2014 impõe mais um ônus à vítima, que agora
precisa provocar o Judiciário para requerer a retirada do conteúdo ofensivo,
além de facilitar o aumento da extensão do dano, visto que aquele material
ficará mais tempo disponível na rede. O projeto ameaça conquistas
alcançadas de maneira gradual, em detrimento do interesse público,
especialmente em matéria de responsabilização dos provedores, onde se
visualizam hoje os maiores problemas decorrentes dos vícios e acidentes de
consumo nas redes virtuais, sobretudo haja vista a abrangência da norma
do art.17 da Lei 8.078/1990, que equipara aos consumidores todas as
vítimas do evento (bystanders). Espelhando uma ótica patrimonialista, o
legislador demonstra preocupação apenas com as infrações a direitos
autorais ou direitos conexos, que na forma, do artigo 19, parágrafo
segundo, tem o requisito da ordem judicial condicionado à previsão legal
específica. (MARTINS. 2014, p. 328-330)

Por fim, cabe ressaltar que, conforme dito anteriormente, em regra aquele que
fornece serviço auferindo lucro, responde por eventuais danos, conforme Código de
Defesa do Consumidor e vasta jurisprudência, e não há motivos para a não
aplicação de tal lógica para os provedores de aplicação de internet, que têm auferido
lucros bilionários sem qualquer responsabilização ou, no mínimo, dever de
cooperação com a justiça para resolução da grande quantidade de abusos
presentes em suas plataformas.
Ainda que os provedores não sejam diretamente responsáveis pela criação do
conteúdo danoso em si, estes facilitam sua propagação de maneira imensurável, e
nesse escopo, é válida a proposta de retorno ao sistema de notificação e retirada,
16
que se verificava jurisprudencialmente antes do advento do MCI, não obstante, com
os devidos aperfeiçoamentos, na forma semelhante à vislumbrada pela Lei Aplicável
às Redes (NetzDG).
Destaca-se a lei germânica pela seu entendimento atualizado da questão, que
a enfrenta pela utilização de um sistema que protege os direitos da personalidade
sem incidir em censura da livre manifestação do pensamento, estabelecendo regime
de responsabilização às empresas de tecnologia mais acertado à realidade atual,
com o devido encargo a estas de maior dever de moderação de conteúdo ilegal e de
informação pública de relatórios periódicos sobre a saúde dos ambientes virtuais.
Dessa forma, redes sociais com mais de 2 milhões de usuários são
compelidas a remover, de forma local, o conteúdo evidentemente ilegal em até 24
horas após a notificação. E em casos em que não seja possível perceber de plano a
ilegalidade, o prazo é estendido para sete dias para devida análise.
Por fim, estabelece também obrigações de transparência aos provedores,
pela publicação a cada 2 anos de relatório que informe a quantidade e os tipos de
atos ilegais presentes em suas plataformas, bem como as providências tomadas
para evitá-los, o que se entende como uma forma de ajustar os ônus suportados
pelos grandes provedores.

4 - DIREITO E O IMPACTO DAS QUESTÕES RELATIVAS ÀS NOVAS


TECNOLOGIAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Neste último capítulo serão abordadas algumas das situações ocasionadas
pelas novas tecnologias em ascensão no meio virtual, especialmente as de
inteligência artificial e derivadas, e como a falta de regulação pertinente e atualizada
pode ser condescendente com a ocorrência de graves lesões a direitos da
personalidade, irreparáveis caso não esteja presente uma figura de provedor de
aplicações de internet com deveres de moderação de conteúdo e cooperação
pública mais adequados.
Nesse sentido, é certo que as tecnologias como o deepfake abriram espaço
para violações de direitos antes juridicamente inimagináveis, com consequências
imensuráveis para as vítimas. Explica-se que tal tecnologia, que se utiliza de
ferramentas de inteligência artificial para análise de mídias (áudios, vídeos e fotos)
no intuito de se criar de um “molde” virtual com as características da pessoa

17
analisada, possibilitam a criação de novas mídias com sua imagem e voz de forma
totalmente artificial, uma verdadeira falsificação de identidade no meio digital.
Nesse sentido, a margem para os mais diversos danos é ampla, que vão
desde danos individuais à imagem e à honra das pessoas, mas também atingem a
esfera pública, visto a possibilidade de disseminação de informações falsas
utilizando da imagem de autoridades ou pessoas públicas.
Nesse escopo, apesar da preocupação com a pornografia de vingança,
contida no Marco Civil da Internet na forma da exceção à regra geral contida no
artigo 21, já mencionado, a nova tecnologia em questão criou situação em que,
mesmo com a notificação da parte lesada, os esforços individuais para remoções
pontuais de tais conteúdos não são suficientes para frear a enxurrada de
falsificações de imagem.
Como exemplo o caso da influenciadora Kaitlyn Siragusa, conhecida como
Amouranth, que frequentemente tem sua imagem utilizada em conteúdo
pornografico, ainda que não tenha participado de vídeos de tal natureza. Vejamos
reportagem do caso:
“Siragusa, alvo frequente de criadores de deepfake, disse que cada vez que
sua equipe encontra algo novo no mecanismo de busca, eles registram uma
reclamação no Google e preenchem um formulário solicitando que o link
específico seja removido da lista, um processo que esgota tempo e energia.
“O problema”, disse Siragusa, “é que é uma batalha constante”.”

“No momento, qualquer usuário da Internet que digitar o nome de uma


mulher conhecida na Pesquisa do Google junto com a palavra “deepfake”
pode receber dezenas de links para sites deepfake. Entre julho de 2020 e
julho de 2023, o tráfego mensal para os 20 principais sites deepfake
aumentou 285%, de acordo com dados da empresa de análise da web
Similarweb, sendo o Google o maior impulsionador de tráfego. Em julho, os
motores de busca direcionaram 248 mil visitas todos os dias para o site
mais popular, [Link] – e 25,2 milhões de visitas, no total, para os
cinco principais sites. Similarweb estima que a Pesquisa Google é
responsável por 79% do tráfego de pesquisa global.”

De igual forma, em recente episódio ocorrido no site “X”, antigo Twitter, houve
a necessidade de bloqueio à toda pesquisa realizada por usuários que contivesse o
nome da cantora Taylor Swift, visto a ocorrência de disseminação em massa de
imagens de cunho sexual falsificadas por deepfake da artista. Entretanto, tais
reações da plataforma foram tardias e, portanto, falhas, visto que quando o bloqueio
se iniciou, algumas mídias já possuíam mais de 47 milhões de visualizações. Para
dimensionar o ocorrido, podemos observar os dados de pesquisas fornecidos pelo
Google, maior buscador e indexador de links da atualidade, em sua plataforma

18
Google Trends5, que mostram que enquanto em 2020 o termo Deepfake atingiu
pontuação máxima de 37 entre todas pesquisas de usuários, após o acontecimento
envolvendo a cantora Taylor Swift em 2023, o termo chegou a atingir pontuação 100,
a maior possível. O que aumentou a penetração do termo na rede e por conseguinte
as buscas por tais conteúdos, criados por inteligência artificial, que tiveram um
aumento na média de buscas e têm se tornado cada vez mais populares.
O que evidencia a hipossuficiência da vítima em casos como este, no Brasil,
pela redação do artigo 19 da Lei 12.965/2014, seria necessário enviar notificação
extrajudicial contendo todos os URL’s de tais vídeos falsos para que para que só
então houvesse a possibilidade de responsabilização subsidiária do site, caso este
não tomasse providências. O que demonstra o grande onûs que recai para a vítima
em tais casos, visto que:

A verdade é que, muito ao contrário de proteger a vítima com um sistema


mais eficiente de tutela dos seus direitos fundamentais, o art. 19 tutela as
empresas que exploram a rede, pois ainda exige que a ordem judicial seja
“específica” – abrindo espaço para alegações de falta de especificidade que
autorizariam o seu descumprimento – e restringe a necessidade do seu
cumprimento a providências que devam ser adotadas “no âmbito e nos
limites técnicos do seu serviço” – abrindo mais uma porta à entrada de
argumentos que afastariam a necessidade de cumprimento da ordem
judicial, aqui com a circunstância agravante da remissão às questões
técnicas, que os réus nessa espécie de ação judicial costumam conhecer
com maior detalhamento que os membros do Poder Judiciário, já que dizem
respeito aos meandros do próprio negócio desenvolvido pela empresa.
(SCHREIBER, p. 293-294)

Ou seja, o ponto central da questão reside na estipulação de um modelo de


responsabilização mais objetivo, com a criação e delimitação dos deveres das
grandes plataformas digitais no combate a abusos como o citado. Isto pois o modelo
atual, de isenção de responsabilidade aos provedores de aplicação de internet, não
tem se mostrado apto a resolver os complexos novos conflitos gerados pelo avanço
da tecnologia, sendo necessária atualização normativa para adequar o direito à nova
realidade fática.
Portanto, diante do exposto, há de se conferir maior proteção para os direitos
do consumidor e da personalidade frente aos direitos patrimoniais, pois:
É a dignidade humana, não é privilégio apenas dos ricos, cultos e
poderosos, que deve ser por todos respeitados. Os bens que integram a
personalidade constituem valores distintos dos bens patrimoniais, cuja
agressão resulta no que se convencionou chamar de dano moral. (...)Os

5
Google Trends [Link]
19
direitos da personalidade, entretanto, englobam outros aspectos da pessoa
que não estão diretamente vinculados à sua dignidade. Nessa categoria
incluem-se também os chamados novos direitos da personalidade: a
imagem, o bom nome, a reputação, sentimentos, relações afetivas,
aspirações, hábitos, gostos, convicções políticas, religiosas, filosóficas,
direitos autorais. Em suma, os direitos da personalidade podem ser
realizados em diferentes dimensões e também podem ser violados em
diferentes níveis. Resulta daí que o dano moral, em sentido amplo, envolve
esses diversos graus de violação dos direitos da personalidade, abrange
todas as ofensas à pessoa, considerada esta em suas dimensões individual
e social, ainda que sua dignidade não seja arranhada.” CAVALIERI FILHO
(2013, p. 89)

Dessa forma, algum grau de responsabilidade na moderação do conteúdo


veiculado em seu ambiente interno é inerente ao risco da atividade desempenhada
pelos provedores de aplicações de internet, e, portanto, deve ser considerado pela
legislação.

CONCLUSÃO
De análise ao Marco Civil da Internet, de imediato percebe-se que a norma é
anacrônica, visto trazer em 2014, período em que já vigente a web 2.0, basicamente
o mesmo entendimento da lei americana promulgada em 1996, momento da
existência da web 1.0, apesar de bastante diversos os paradigmas sociais e
normativos de cada momento histórico, como, por exemplo, o vertiginoso
crescimento do acesso ao mundo virtual e a criação de ferramentas de inteligência
artificial. E ainda, é dissonante com o ordenamento jurídico brasileiro, pois relativiza
a aplicação de conceitos presentes no Código de Defesa do Consumidor, ao
privilegiar os provedores em face dos usuários consumidores, tradicionalmente mais
protegidos por restarem como parte hipossuficiente da relação econômica,
invertendo a lógica da teoria do risco da atividade pela adoção de um sistema de
isenção de responsabilidade. E ainda, destoa axiologicamente com a Constituição
Federal, ao promover tratamento especial e facilitado aos direitos patrimoniais frente
aos da personalidade protegidos pelo artigo 5º.
Nessa guisa, a fragilização dos direitos da personalidade é patente pelo
condicionamento da existência de dano à decisão judicial, ou seja, para além de
remover da figura do provedor qualquer responsabilidade, ainda que de moderação,
quanto ao conteúdo veiculado em sua plataforma, deposita ao consumidor o ônus de
acionar a justiça, processo que por muitas vezes é moroso, o que por si só já
prejudica a possibilidade da vítima em retirar conteúdo danoso do ar. E ainda, tal

20
condição contribui também com o problema pátrio de judicialização demasiada e de
alta quantidade de demandas.
Portanto, é manifesta a necessidade de adoção de novo modelo de
responsabilização dos provedores, abandonando a sistemática da isenção total pela
adoção de um sistema que preze pela segurança do patrimônio jurídico dos usuários
consumidores, que restam muitas vezes impotentes.
Nesse sentido, a adoção do modelo anterior de notice and take down e uma
nova sistemática de maior responsabilização dos provedores de aplicações pelo
conteúdo que circula em seus ambientes externos, em linhas similares à Lei Alemã
NetzDG, especificamente no que tange a necessidade das redes sociais com mais
de 2 milhões de usuários em moderar minimamente e remover, de forma local, o
conteúdo evidentemente ilegal após a notificação. Bem como a estipulação de
obrigações de transparência aos provedores, pela publicação a cada relatório
periódico que informe a quantidade e os tipos de atos ilegais presentes em suas
plataformas, bem como as providências tomadas para evitá-los.

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