Responsabilidade Civil de Provedores Online
Responsabilidade Civil de Provedores Online
RESUMO
Desde sua implementação no Brasil na década de 1990 até hoje, a internet já
está presente no domicílio de mais de 90% dos brasileiros, segundo a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios realizada em 2021. Tal dado expressa que
atualmente grande parte, se não a maioria, das interações humanas acontece no
meio virtual. Nesse sentido, esse aumento vertiginoso na quantidade e velocidade
de tais interações também aumentou exponencialmente a nocividade de eventuais
condutas maliciosas, pelo grande alcance que passaram a possuir e a dificuldade de
rastrear e neutralizar a fonte causadora dos danos. Desta feita, o presente estudo
objetivou analisar as características da responsabilidade civil dos provedores de
conteúdo e aplicações de rede virtual em casos de danos gerados por terceiros,
considerando ainda as novas tecnologias de algoritmo e inteligência artificial; seus
fundamentos e consequências; as alterações temporais realizadas pela lei Brasileira;
utilizando de comparação entre normas de diferentes países que tratam o assunto,
bem como e revisões bibliográficas sobre o tema. Concluiu-se que após a adoção
tardia do Marco Civil da Internet, a escolha legislativa de eximir os provedores de
uma maior responsabilização, em momento que o paradigma de proteção da
liberdade para não obstrução do desenvolvimento das tecnologias já era substituído
por um cenário de monopólio das empresas digitais, resultou em um desequilíbrio
entre os direitos e deveres de tais corporações, que perceberam grandes bônus sem
os devidos ônus, violando princípios constitucionais como isonomia, direito de
resposta e inviolabilidade da vida privada, visto que tais empresas apenas poderiam
ser responsabilizadas nos casos de descumprimento de ordem judicial específica, o
que por muitas vezes ocorre em momento que o conteúdo nocivo já circulou
ostensivamente, criando um meio perverso no qual conteúdos danosos circulam
muitas vezes livremente e de forma monetizada, gerando lucro indireto para a
empresa omissa em face da diminuição da proteção de direitos da parte
consumidora hipossuficiente.
1
Palavras chave: Responsabilidade Civil; Provedores de internet; Marco Civil da
Internet; Isonomia, Inteligência Artificial;
ABSTRACT
Since its implementation in Brazil in the 90’s until today, the internet is already
present in the households of over 90% of Brazilians, according to the National
Household Sample Survey conducted in 2021. This data expresses that currently a
large portion, if not the majority, of human interactions take place in the virtual realm.
In this sense, this vertiginous increase in the quantity and speed of such interactions
has also exponentially increased the harmfulness of potential malicious conduct, due
to the broad reach they have acquired and the difficulty in tracing and neutralizing the
source causing the damage. Therefore, the present study aimed to analyze the
characteristics of civil liability of content providers and virtual network applications in
cases of damages caused by third parties, also considering the new technologies of
algorithms and artificial intelligence; their foundations and consequences; the
temporal changes made by Brazilian law; using comparisons between norms of
different countries addressing the issue, as well as bibliographic reviews on the topic.
It was concluded that after the belated adoption of the Brazilian Internet Civil Rights
Framework, the legislative choice to exempt providers from greater accountability, at
a time when the paradigm of protecting freedom to not obstruct technological
development was already being replaced by a scenario of digital companies
monopoly, resulted in an imbalance between the rights and duties of such
corporations. They realized significant bonuses without the corresponding burdens,
violating constitutional principles such as equality, the right of reply, and the
inviolability of private life, given that such companies could only be held accountable
in cases of specific judicial orders being disregarded, which often happens after
harmful content has already circulated extensively, creating a perverse environment
in which damaging content often circulates freely and monetarily, generating indirect
profit for the negligent company at the expense of diminished protection of rights for
the disadvantaged consumer party.
Keywords: Civil responsibility; Internet providers; Civil Rights Framework for the
Internet; Isonomy, Artificial Intelligence.
2
INTRODUÇÃO
Criada em 1969 no contexto da Guerra Fria, a rede mundial de computadores
foi patrocinada pelo Departamento de Defesa norte americano com intuito de
integrar comunicações entre laboratórios de pesquisa, tinha como objetivo acelerar a
agilidade e garantir a segurança no compartilhamento de informações internamente
(FEATHERLY, 2024). Por conseguinte, somente em 1987, quase duas décadas
depois de sua criação, é que houve a liberação comercial do sistema, momento em
que o cidadão pode acessar tal ferramenta por intermédio de empresas privadas
provedoras da conexão. Momento em que surge a figura dos provedores.
Nesse contexto, a ampliação e aceleração das interações humanas
promovidas pela revolução digital impulsionou paralelamente a ocorrência de crimes
e violações de direitos, que agora prescindem do mundo físico para se concretizar e
passam a possuir um novo meio de maior agilidade e alcance, sendo necessária
análise minuciosa sobre a extensão da responsabilidade dos provedores que
conectam e fornecem ao usuário essa gama infinita de informações.
O conteúdo virtual possui principalmente a característica da viralidade,
palavra que remete ao termo ‘vírus’, pela sua alta taxa de multiplicação e
espalhamento, facilitados pela imensa e rápida rede de interconexões, o que
potencializa os efeitos negativos de atos lesivos que antes dificilmente atingiriam
tantas pessoas de forma orgânica.
Essa característica somada à corriqueira utilização de identidade diversa ou
do anonimato, que passam a sensação de impunidade para os que utilizam a rede
para tais fins maléficos, contribuem para a crescente adoção do meio digital para a
ação danosa. Vale ressaltar ainda que o momento atual da rede, de ampliação e
inserção de novas tecnologias de inteligência artificial e refinados algoritmos,
também abre espaço para criação e ocorrência descontrolada de novos delitos e
danos das mais diversas naturezas, visto a ausência de regulação efetiva.
Portanto, com o passar do tempo, neste contexto de aceleradas inovações
tecnológicas, houve uma ampliação das lacunas jurídicas presentes na norma
brasileira para com esse novo ambiente, visto que o Código Civil e o Código de
Defesa do Consumidor não possuem ferramentas típicas para o enfrentamento
dessa nova realidade, para sanar efetivamente os danos causados pela má
utilização da rede. Dessa forma, pela patente necessidade de regulação específica
3
do meio virtual, foi criada em 2014 a Lei 12.965, conhecida como Marco Civil da
Internet.
A citada Lei, tem como objetivos assegurar a proteção da liberdade de
expressão e regular condutas neste meio, a fim de evitar a censura e diminuir os
obstáculos para o desenvolvimento de novos serviços e ferramentas virtuais. Nesse
sentido, o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que regulamentou a matéria relativa à
responsabilidade civil dos provedores de aplicações de internet por conteúdos
gerados por terceiros, optou pelo regime subjetivo de responsabilização, tratando os
provedores como intermediários neutros, inteligência semelhante à da legislação
americana, disposta na seção 230 da norma americana (Lei de Decência nas
Comunicações).
Para o fim que este trabalho se destina, será analisada, principalmente, as
figuras dos Provedores de Serviços Online, com enfoque nos provedores de
aplicações de internet, mormente da figura das redes sociais e ferramenta de busca,
grupo que engloba grandes empresas multinacionais como Google e Facebook, que
são ainda provedores de hospedagem, informação e conteúdo, e, atualmente, tem
ganhado cada vez mais uma função estruturante da rede e representam os
ambientes onde ocorrem a maioria das interações entre usuários.
O presente trabalho analisará de forma descritiva os fundamentos e as
consequências de tal opção normativa, com escopo nas tendências atuais da
matéria, utilizando como método de pesquisa a revisão bibliográfica e o método
dedutivo, na tentativa de se fazer das regras gerais, a solução para casos
específicos. A fim de se verificar se o modelo de responsabilização subjetivo
resultou em maior garantia de direitos ou retrocesso na garantia e promoção dos
direitos dos consumidores, bem como dos princípios constitucionais da isonomia, da
personalidade, e mais recente, a proteção dos dados pessoaI, inserida no inciso
LXXIX do art 5º da CRFB, frente aos novos desafios colocados pela inovação
tecnológica atual.
5
Nessa guisa, têm-se os primórdios da web 1.0, um ciberespaço estático de
hipertextos e hiperlinks que de acordo com o próprio autor seria uma “rede somente
de leitura” (BERNERS-LEE, 1998, p.1), caracterizada pela existência de uma
pequena quantidade de escritores e uma grande gama de leitores, era pouco
frequente maiores interações e contribuições de conteúdo. Foi a primeira ampla
experiência de compartilhamento de dados on-line e as informações eram obtidas
pelos usuários direto das fontes.
Diante de tal cenário, os Estados Unidos da América, berço da tecnologia em
comento, aprovaram a Lei de Decência nas Comunicações , contida no Capítulo 5
do Título 47 do Código dos Estados Unidos, de caráter liberal em fomento à
inovação e livre desenvolvimento das tecnologias virtuais. Tal norma, em sua Seção
230, assim dispõe: No provider or user of an interactive computer service shall be
treated as the publisher or speaker of any information provided by another
information content provider.1, sacramentando assim o paradigma de isenção de
responsabilidade aferido a tais provedores, que posteriormente também fora
adotado pela lei brasileira.
A esta época, pela ausência de maiores interações tanto entre usuários como
empresas, não se fazia urgente uma regulação detalhada da matéria, motivo que
corrobora a redação da seção 230. Entretanto, com o decorrer da história e evolução
do ciberespaço, este cenário sofreu drásticas alterações.
1
Nenhum fornecedor ou utilizador de um serviço informático interactivo será tratado como editor ou
orador de qualquer informação fornecida por outro fornecedor de conteúdos de informação.
6
quase instantâneas, o que representa a maior e mais rápida transformação social
promovida pela tecnologia na história humana. De acordo com pesquisa do Banco
Mundial2, de 1990 até 2020 o ambiente virtual cresceu exponencialmente em
número de conectados, passando de menos de 1% da população mundial para
cerca de 60%.
No Brasil, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)3,
a internet já é presente em 90% dos lares, e ainda “Entre os 183,9 milhões de
pessoas com mais de 10 anos de idade no país; 84,7% utilizaram a internet no
período de referência da Pnad TIC, em 2021.”
Ou seja, praticamente 85% dos brasileiros já tiveram contato com a rede, e 3
em cada 4 utilizam o serviço diariamente, de acordo com pesquisa do Centro
Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação
([Link]), órgão ligado ao Comitê Gestor da Internet do Brasil ([Link]).
Essa nova realidade pode ser explicada pelo conceito da aldeia global
cunhado por Marshall McLuhan, nas palavras da autora Patrícia Peck:
Segundo o canadense Marshall McLuhan, um dos mais importantes teóricos
das comunicações, havia uma contraposição entre a sociedade fortemente
baseada na palavra escrita, surgida com o advento da Imprensa, pela
invenção de Gutemberg no século XV, e uma sociedade eminentemente
visual, em que cinema e TV desempenham o papel principal. A linearidade
da primeira McLuhan opõe o caráter dinâmico dos segundos e prega sua
universalidade: cinema e TV seriam os responsáveis pelo surgimento de
uma Aldeia Global, onde toda a humanidade estaria interligada. O problema
é que a teoria de McLuhan foi elaborada na primeira metade do século XX e
trazia, implicitamente, uma questão terrível: os veículos definidos por ele
como pontas de lança de uma nova era têm caráter essencialmente
massificante. McLuhan já previa uma “aldeia global”, com um número cada
vez maior de pessoas conectadas a uma única rede. Mas o que temos hoje,
além de um universo conectado, é uma grande diversidade, causada pela
individualização e pelo que Tofler chama de overchoice — um mundo em
que as possibilidades de escolha são infinitas. Esse cenário transcende a
previsão do teórico canadense. Ou seja, se para McLuhan o meio era a
mensagem, hoje, a mensagem é o meio. Isso determina uma forma distinta
de enxergar a própria aplicação do Direito. (PINHEIRO, 2021. 18 p.)
7
com que o usuário interage com a rede hodiernamente. Nesse ponto, observa-se
que a individualização e personalização de conteúdos para a experiência pessoal do
consumidor estão no cerne da questão.
Por meio da implementação da coleta e análise de dados, bem como o
mapeamento de hábitos de consumo, surgiu a possibilidade de veiculação de
publicidade de maneira mais efetiva, ou seja, personalizada à experiência do
usuário. Empresas que se especializaram nestes mecanismos, como Google e
Facebook, criaram verdadeiro modus operandi dos provedores de serviços da rede e
hoje exercem oligopólio da estrutura do mundo virtual, visto a existência de poucas
companhias que dominam grandes parcelas do mercado, e que, conforme o
professor Martin Eifert, estão no topo da pirâmide pela qual funciona a rede:
Nesse sentido, é evidente que a web se tornou o meio mais utilizado para
comunicação e troca de informações, mas também houve crescimento no seu uso
para transações financeiras, comércio eletrônico, educação e acesso a serviços
públicos. O que demonstra a cada vez maior penetração da rede na vida social, e,
consequentemente, no Direito, atualmente, é comum passar a maior parte do dia
conectado, vide a enorme quantidade de serviços e entretenimento fornecidos
on-line, situação que abriu espaço para um novo espectro de possibilidades no que
se refere às relações jurídicas. Sendo, portanto, matéria altamente relevante para os
órgãos legislativos.
9
Devido à importância de se garantir o direito à informação e a proteção da
liberdade de expressão, foi promulgada uma lei específica no Brasil para
tratar de algumas destas questões chamada de Marco Civil da Internet. A
análise deste recente marco legal demonstra a difícil missão de legislar
sobre a matéria. Com pouco mais de 30 artigos, tentou-se estabelecer uma
carta de princípios para uma Internet mais inclusiva e justa para os
brasileiros. São eles: neutralidade, acesso à Internet como direito essencial
para o exercício da cidadania, liberdade de expressão e permanência do
conteúdo e sua remoção só em casos excepcionais e com ordem judicial,
privacidade (com vedação para monitoração não acordada de forma prévia
e expressa com o internauta), proteção dos dados pessoais, transparência
com exigência de regras claras de provedores de conexão e de aplicações
na web, segurança da rede, educação em ética digital, uso preferencial de
códigos abertos e responsabilidade dos agentes. (PINHEIRO, Patrícia Peck.
Direito Digital. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2021. 31p.)
10
Quanto aos provedores de conexão, por serem de fato meros intermediários
da transmissão de dados entre diversos usuários conectados à rede, dificilmente
haveria de se falar em responsabilização por casos de conteúdo publicado por
terceiros, visto que estes sequer podem acessar o teor da publicação em questão, e
ainda, é vedado qualquer tratamento diferenciado de pacote de dados pelos
responsáveis por sua transmissão, conforme § 1º do artigo 9 do Marco Civil.
Para os provedores de aplicação de internet, o MCI ventila também
inteligência semelhante à da legislação americana, postulada na Seção 230 da Lei
de De Decência nas Comunicações. Tal norma, relativa à isenção total de
responsabilidade dos provedores quanto ao conteúdo publicado por terceiros,
inspirou a lei pátria igualmente a eximir os provedores de quaisquer
responsabilização quanto a conteúdo publicado por terceiros, tratando estes como
meios neutros, que não interferiram no gerenciamento da atividade dos usuários.
Ressalvada somente a disposição contida no art. 21 da Lei nº 12.9654, que
excetua a regra geral estabelecendo responsabilidade subsidiária ao provedor de
aplicação de internet em caso de não remoção de conteúdo de caráter íntimo e
sexual após simples notificação do indivíduo lesado.
Portanto, ao privilegiar a liberdade de expressão como paradigma da
normatização da internet, a lei nacional reproduziu o que já se observava
mundialmente, uma espécie de laissez-faire virtual, ao estimular a mínima
intervenção e promover um ambiente de maior liberdade de circulação de ideias
possível ao usuário.
Entretanto, a legislação brasileira já nasce, no mínimo, desatualizada, visto
que o contexto de sua criação e da lei a americana, que serviu mundialmente como
modelo, são diversos, e a figura dos provedores de aplicação on-line atualmente
passou a ser vista não como meio neutro, mas sim como um agente ativo no meio
virtual, como será demonstrado.
4
Art. 21. O provedor de aplicações de internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros será
responsabilizado subsidiariamente pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem
autorização de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo cenas de
nudez ou de atos sexuais de caráter privado quando, após o recebimento de notificação pelo
participante ou seu representante legal, deixar de promover, de forma diligente, no âmbito e nos
limites técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse conteúdo.
11
3 - ANÁLISE DO MODELO DE RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES
DE APLICAÇÃO DE INTERNET
3.1 - Os provedores de internet
A dinâmica pela qual opera a World Wide Web, de integração entre usuários e
redes, tornou imperiosa a figura dos provedores, visto que somente através destes é
possível conectar dispositivos à Internet e acessar os serviços e conteúdos
existentes nesta.
Sendo assim, é oportuno diferenciar aqui os tipos de provedores e suas
funções, de acordo com o próprio Marco Civil da Internet, estão presentes
basicamente cinco espécies de provedores, quais sejam: provedores de backbone;
provedores de acesso; provedores de correio eletrônico; provedores de
hospedagem; e provedores de conteúdo, vejamos a caracterização destes no
julgado da Ministra Nancy Andrighi:
12
As demais espécies de provedores seriam derivadas de algum dos dois grupos
majoritários.
14
A discussão sobre a matéria é complexa e concerne principalmente sobre
dois pontos, o primeiro, relativo a mudança de paradigma, de estímulo à inovação,
necessário em outrora, para análise da realidade fática atual, em que sete
corporações denominadas Big Tech’s (Alphabet, Apple, Meta, Nvidia, Amazon,
Microsoft e Tesla) representam quase 90% de todo valor de mercado do setor de
tecnologia, e o segundo, à dificuldade de se estabelecer um regime de
responsabilidade proporcional, que não condicione empresas à falência nem
promova um ambiente virtual sem leis efetivas contra abusos e possibilite a eficaz
reparação de danos.
15
as empresas de tecnologia e acarretam em fragilização da proteção da dignidade da
pessoa humana e do princípio da equidade.
Sobre isso, leciona de forma notável o professor Guilherme Magalhães
Martins
Por fim, cabe ressaltar que, conforme dito anteriormente, em regra aquele que
fornece serviço auferindo lucro, responde por eventuais danos, conforme Código de
Defesa do Consumidor e vasta jurisprudência, e não há motivos para a não
aplicação de tal lógica para os provedores de aplicação de internet, que têm auferido
lucros bilionários sem qualquer responsabilização ou, no mínimo, dever de
cooperação com a justiça para resolução da grande quantidade de abusos
presentes em suas plataformas.
Ainda que os provedores não sejam diretamente responsáveis pela criação do
conteúdo danoso em si, estes facilitam sua propagação de maneira imensurável, e
nesse escopo, é válida a proposta de retorno ao sistema de notificação e retirada,
16
que se verificava jurisprudencialmente antes do advento do MCI, não obstante, com
os devidos aperfeiçoamentos, na forma semelhante à vislumbrada pela Lei Aplicável
às Redes (NetzDG).
Destaca-se a lei germânica pela seu entendimento atualizado da questão, que
a enfrenta pela utilização de um sistema que protege os direitos da personalidade
sem incidir em censura da livre manifestação do pensamento, estabelecendo regime
de responsabilização às empresas de tecnologia mais acertado à realidade atual,
com o devido encargo a estas de maior dever de moderação de conteúdo ilegal e de
informação pública de relatórios periódicos sobre a saúde dos ambientes virtuais.
Dessa forma, redes sociais com mais de 2 milhões de usuários são
compelidas a remover, de forma local, o conteúdo evidentemente ilegal em até 24
horas após a notificação. E em casos em que não seja possível perceber de plano a
ilegalidade, o prazo é estendido para sete dias para devida análise.
Por fim, estabelece também obrigações de transparência aos provedores,
pela publicação a cada 2 anos de relatório que informe a quantidade e os tipos de
atos ilegais presentes em suas plataformas, bem como as providências tomadas
para evitá-los, o que se entende como uma forma de ajustar os ônus suportados
pelos grandes provedores.
17
analisada, possibilitam a criação de novas mídias com sua imagem e voz de forma
totalmente artificial, uma verdadeira falsificação de identidade no meio digital.
Nesse sentido, a margem para os mais diversos danos é ampla, que vão
desde danos individuais à imagem e à honra das pessoas, mas também atingem a
esfera pública, visto a possibilidade de disseminação de informações falsas
utilizando da imagem de autoridades ou pessoas públicas.
Nesse escopo, apesar da preocupação com a pornografia de vingança,
contida no Marco Civil da Internet na forma da exceção à regra geral contida no
artigo 21, já mencionado, a nova tecnologia em questão criou situação em que,
mesmo com a notificação da parte lesada, os esforços individuais para remoções
pontuais de tais conteúdos não são suficientes para frear a enxurrada de
falsificações de imagem.
Como exemplo o caso da influenciadora Kaitlyn Siragusa, conhecida como
Amouranth, que frequentemente tem sua imagem utilizada em conteúdo
pornografico, ainda que não tenha participado de vídeos de tal natureza. Vejamos
reportagem do caso:
“Siragusa, alvo frequente de criadores de deepfake, disse que cada vez que
sua equipe encontra algo novo no mecanismo de busca, eles registram uma
reclamação no Google e preenchem um formulário solicitando que o link
específico seja removido da lista, um processo que esgota tempo e energia.
“O problema”, disse Siragusa, “é que é uma batalha constante”.”
De igual forma, em recente episódio ocorrido no site “X”, antigo Twitter, houve
a necessidade de bloqueio à toda pesquisa realizada por usuários que contivesse o
nome da cantora Taylor Swift, visto a ocorrência de disseminação em massa de
imagens de cunho sexual falsificadas por deepfake da artista. Entretanto, tais
reações da plataforma foram tardias e, portanto, falhas, visto que quando o bloqueio
se iniciou, algumas mídias já possuíam mais de 47 milhões de visualizações. Para
dimensionar o ocorrido, podemos observar os dados de pesquisas fornecidos pelo
Google, maior buscador e indexador de links da atualidade, em sua plataforma
18
Google Trends5, que mostram que enquanto em 2020 o termo Deepfake atingiu
pontuação máxima de 37 entre todas pesquisas de usuários, após o acontecimento
envolvendo a cantora Taylor Swift em 2023, o termo chegou a atingir pontuação 100,
a maior possível. O que aumentou a penetração do termo na rede e por conseguinte
as buscas por tais conteúdos, criados por inteligência artificial, que tiveram um
aumento na média de buscas e têm se tornado cada vez mais populares.
O que evidencia a hipossuficiência da vítima em casos como este, no Brasil,
pela redação do artigo 19 da Lei 12.965/2014, seria necessário enviar notificação
extrajudicial contendo todos os URL’s de tais vídeos falsos para que para que só
então houvesse a possibilidade de responsabilização subsidiária do site, caso este
não tomasse providências. O que demonstra o grande onûs que recai para a vítima
em tais casos, visto que:
5
Google Trends [Link]
19
direitos da personalidade, entretanto, englobam outros aspectos da pessoa
que não estão diretamente vinculados à sua dignidade. Nessa categoria
incluem-se também os chamados novos direitos da personalidade: a
imagem, o bom nome, a reputação, sentimentos, relações afetivas,
aspirações, hábitos, gostos, convicções políticas, religiosas, filosóficas,
direitos autorais. Em suma, os direitos da personalidade podem ser
realizados em diferentes dimensões e também podem ser violados em
diferentes níveis. Resulta daí que o dano moral, em sentido amplo, envolve
esses diversos graus de violação dos direitos da personalidade, abrange
todas as ofensas à pessoa, considerada esta em suas dimensões individual
e social, ainda que sua dignidade não seja arranhada.” CAVALIERI FILHO
(2013, p. 89)
CONCLUSÃO
De análise ao Marco Civil da Internet, de imediato percebe-se que a norma é
anacrônica, visto trazer em 2014, período em que já vigente a web 2.0, basicamente
o mesmo entendimento da lei americana promulgada em 1996, momento da
existência da web 1.0, apesar de bastante diversos os paradigmas sociais e
normativos de cada momento histórico, como, por exemplo, o vertiginoso
crescimento do acesso ao mundo virtual e a criação de ferramentas de inteligência
artificial. E ainda, é dissonante com o ordenamento jurídico brasileiro, pois relativiza
a aplicação de conceitos presentes no Código de Defesa do Consumidor, ao
privilegiar os provedores em face dos usuários consumidores, tradicionalmente mais
protegidos por restarem como parte hipossuficiente da relação econômica,
invertendo a lógica da teoria do risco da atividade pela adoção de um sistema de
isenção de responsabilidade. E ainda, destoa axiologicamente com a Constituição
Federal, ao promover tratamento especial e facilitado aos direitos patrimoniais frente
aos da personalidade protegidos pelo artigo 5º.
Nessa guisa, a fragilização dos direitos da personalidade é patente pelo
condicionamento da existência de dano à decisão judicial, ou seja, para além de
remover da figura do provedor qualquer responsabilidade, ainda que de moderação,
quanto ao conteúdo veiculado em sua plataforma, deposita ao consumidor o ônus de
acionar a justiça, processo que por muitas vezes é moroso, o que por si só já
prejudica a possibilidade da vítima em retirar conteúdo danoso do ar. E ainda, tal
20
condição contribui também com o problema pátrio de judicialização demasiada e de
alta quantidade de demandas.
Portanto, é manifesta a necessidade de adoção de novo modelo de
responsabilização dos provedores, abandonando a sistemática da isenção total pela
adoção de um sistema que preze pela segurança do patrimônio jurídico dos usuários
consumidores, que restam muitas vezes impotentes.
Nesse sentido, a adoção do modelo anterior de notice and take down e uma
nova sistemática de maior responsabilização dos provedores de aplicações pelo
conteúdo que circula em seus ambientes externos, em linhas similares à Lei Alemã
NetzDG, especificamente no que tange a necessidade das redes sociais com mais
de 2 milhões de usuários em moderar minimamente e remover, de forma local, o
conteúdo evidentemente ilegal após a notificação. Bem como a estipulação de
obrigações de transparência aos provedores, pela publicação a cada relatório
periódico que informe a quantidade e os tipos de atos ilegais presentes em suas
plataformas, bem como as providências tomadas para evitá-los.
REFERÊNCIAS
BERNERS-LEE, Tim, The World Wide Web: A very short personal history, 1998,
Disponível em:
[Link]
Acesso em 18 jan.2024
BRASIL. Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014. Brasília: Senado Federal, 2014.
Disponível em:
[Link]
Acesso em: 18 jan.2023
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília:
Senado Federal, 1988.
Disponível em:
[Link]
Acesso em: 18 jan. 2024.
22
International Telecommunication Union (ITU) World Telecommunication/ICT Indicators
Database, Individuals using the Internet (% of population), publicado em 2023 Disponível
em: [Link]
Acesso em 20 fev. 2024.
LEMOS, Ronaldo. Direito, tecnologia e cultura. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
MARTINS, Guilherme. Responsabilidade civil por acidente de consumo na
internet. 2. ed. São Paulo:Revista dos Tribunais, 2014.
NAIK, Umesha. Comparative Study of Web 1.0, Web 2.0 and Web 3.0, 2009,
Disponível em:
[Link]
Acesso em: 15 jun.2024.
PINHEIRO, Patrícia. Direito Digital. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2021.
SAUL, Derek. These 7 Tech Stocks Command Almost 90% Of The S&P 500’s
Gains—Signaling Market Rally May Not Be So Healthy, Forbes, 2023 Disponível em:
[Link]
most-90-of-the-sp-500s-gains-signaling-market-rally-may-not-be-so-healthy/
Acesso em: 20 jun. 2024.
SANER, Emine. Inside the Taylor Swift deepfake scandal: ‘It’s men telling a powerful
woman to get back in her box’, The Guardian, 2024 Disponível em:
[Link]
-scandal-its-men-telling-a-powerful-woman-to-get-back-in-her-box
Acesso em: 24 jun. 2024.
STJ, Resp 1316921/RJ, rel. Min. Nancy Andrighi, j. em 26.6.2012
Acesso em: 19 fev. 2024.
TOURINHO, Fernando. Manual de Processo Penal, 17° edição, São Paulo-SP:
Saraiva, 2017.
SCHREIBER, Anderson. Marco Civil da Internet: avanço ou retrocesso? A
responsabilidade civil por dano derivado do conteúdo gerado por terceiro. In:
Direito & Internet III - Tomo II: Marco Civil da Internet (lei 12.965/2014). DE LUCCA,
Newton; SIMÃO FILHO, Adalberto; LIMA, Cíntia Rosa Pereira de (coords.). São
Paulo: Quartier Latin, 2015.
Google Trends
[Link]
Acesso em: 20 jul. 2024.
23