Me chamo Valor, mas esse nem sempre foi meu nome.
Meu nome de
nascença é Ettrian. Minha mãe escolheu esse nome pois significava “nascido da
esperança e da forja” em alguma língua que não o comum, ou algo assim. Não me
importava com o significado, mas gostava do nome. Tinha uma pronúncia rápida e
fluida, e ainda assim possuía um certo charme.
Ela, Esperança, achava que, como diz a cultura e as tradições do nosso povo,
os tieflings devem possuir um “nome honrado” em algum momento de sua vida,
para representar algum feito marcante que tenha feito, um dogma a que se prende
ou até mesmo algo que busque se tornar. Ainda assim, para ela, esse nome deveria
ser dado por outros que presenciaram seus feitos, e então seria adotado pelo
tiefling, como forma de demonstrar a grandeza - seja ela física, espiritual ou
conceitual- de um povo.
Como forma de representar isso, ela dizia que, através do “Caminho”, que
era uma trilha que deveria ser percorrida sozinha, em algum momento eu seria
digno de receber um nome como o dela. A questionei diversas vezes sobre O
Caminho, mas o máximo que sei é que ela ter adotado o estilo de vida nômade fazia
parte dele. Ela dizia que cada um tem o seu próprio Caminho, eu só precisava
descobrir o meu.
Meu pai, por outro lado, não gostava tanto de nomes que representavam
eventos passados marcantes. Achava que os nomes tinham um propósito, que era
de dar conceito àquilo que é nomeado, e nada mais. Homem simples, de fato. Kellen
era humano, velho, aposentado. Tinha uma pequena forja em uma cidadezinha (sua
casa após sua saída do exército), e tirava um bom sustento dela vendendo
armamento para os militares de Celt e Vorgin’hal.
Tinha um certo amor por isso devido à sua carreira militar. Passou boa parte
da vida servindo Vorgin’hal no exército, e, após se aposentar, não queria largar tudo
isso para trás. Foi assim que virou ferreiro e armeiro das duas cidades, já tinha uma
certa fama ganha com o tempo, e seus companheiros confiariam nele o suficiente
para brandirem armas e vestirem armaduras forjadas por ele. Homens sábios, o
velho sabia o que estava fazendo.
Tinha passado um bom tempo aprimorando suas habilidades na arte de criar
armas e armaduras. Tempo suficiente para se tornar bom naquilo que fazia. Dizia
que eu deveria me tornar bom naquilo que fosse fazer, pois era esse o propósito da
prática incansável. E, quando fosse bom, praticasse para me tornar esplêndido. E,
quando fosse esplêndido, treinasse para me tornar o melhor. E, quando fosse o
melhor, treinasse para aprimoramento próprio e para elevar o nível máximo.
Gostava dessa sua parte. Lembro-me de ver anotações e estudos feitos sobre
quantos centímetros acima de 1 metro seria ideal para uma espada longa (variava
entre sete e onze, ele nunca conseguiu se decidir sobre), e como seria possível
reduzir seu peso sem alteração no material da lâmina, apenas no da empunhadura.
Estudos sobre quantos centímetros a mais um escudo circular poderia ter sem
afetar diretamente a performance do usuário, sobre qual formato ideal de um
escudo levando em consideração o estilo de arma que o combatente estaria
portando, ou sobre quantos centímetros a mais poderia ter uma flecha sem precisar
de um treino específico para seu uso. Eu, como boa criança chata e inquieta, sempre
notei essas coisas, e fiz ele me ensinar a lutar desde cedo.
Minha mãe, por outro lado, era nômade. Sendo ela algo que flerta entre a
druida e a barda, gostava de andar por pequenos vilarejos, ajudando-os com
conhecimentos diversos, normalmente sobre agricultura, arte e arquitetura.
Seu nome, Esperança, foi dado por várias pessoas de vilinhas aleatórias, pois,
muitas vezes, seu poder místico provindo da natureza e da música conseguia fazer
as plantações prosperarem ou sobreviverem ao inverno. Antes disso, até algo
próximo dos seus 23 anos, seu nome era Talisa.
Não sei bem porquê uma nômade gostaria de ter um filho. Ela dizia que era
porque queria passar o legado dos tieflings para frente. Nunca me contou porque
escolheu Kellen para ser meu pai ou algo assim, mas não acho que o motivo
realmente importe.
Não posso falar que era a mais presente das mães, mas ela largou um pouco
essa vida de nômade após dar à luz. Até por volta dos meus 8 anos, ela sempre
morou sob o mesmo teto de meu pai, sem sair andando sem rumo por aí. Durante
esse tempo, ela foi uma ótima mãe, então não posso reclamar de sua criação. Ela me
ensinou coisas importantes que duvido que Kellen teria ensinado, como a tocar
flauta, a amar a vida em todas suas formas, ajudar os necessitados, e várias outras
incontáveis coisas. Sempre gostei muito dela, apesar de sentir sua falta quando ela
partiu sem rumo novamente.
Tenho certeza de que listar todos os acontecimentos marcantes de minha
vida aqui seria tedioso e cansativo, como a vez em que minha flauta caiu em um
lago, o dia em que fiz amizade com um urso ou quando minha mãe me levava à
natureza para me ensinar silvestre. Mas, certamente, alguns valem uma certa
atenção especial.
Entre a causa e a razão
Certa vez, por volta dos meus 12 anos, estava eu perambulando por mais uma
floresta qualquer. Sim, gostava de andar por florestas, talvez fosse um dos meus
passatempos favoritos. Não sei exatamente o que, mas algo me atrai na natureza.
Talvez seja a presença da vida natural, talvez seja o cheiro da madeira em harmonia
com o bálsamo das flores locais, talvez seja o ar puro presente, talvez sejam os três.
Não importa. Gostava de passar tempo andando sem rumo na grama, subindo em
árvores e jogando pedras em riachos.
Enquanto tocava minha flauta doce por aí, avistei um homem encostado em
uma árvore tentando sentar. Parecia machucado, pois havia bastante sangue em sua
armadura. Nessa armadura, um símbolo. Algo que parecem correntes prateadas se
entrelaçando, envolvendo um círculo que parece de bronze. Símbolo esse que não
reconheci na hora, mas que, agora, tenho certeza do que representava: era a
flâmula dos guerreiros de Vorgin’hal. Talvez fosse um guarda, talvez lutasse na
guerra.
Largou sua espada de lado, protegendo seus ferimentos com uma de suas
mãos, enquanto a outra estava ocupada tentando se apoiar no tronco para
conseguir sentar sem se machucar mais ainda. Era um humano, traços simples,
cabelo militar, por volta dos 40 anos. Parecia levemente familiar. Tinha ar de
experiência, então fiquei com medo de ir ajudá-lo e acabar em confusão, porque, se
algo foi capaz de machucar ele, o que não seria capaz de fazer comigo? Esse
pensamento interrompeu a melodia e me passou por um momento na cabeça, mas
deixei-o de lado. Não podia deixar uma pessoa necessitada de ajuda ali,
desamparada. Dando pequenos e cautelosos passos, enquanto me aproximava,
falei:
- No que posso ajudar? - perguntei com a voz trêmula.
- Se saísse correndo o mais rápido possível para a cidade, estaria me fazendo o
maior dos favores. - retrucou o soldado. Tinha voz grossa, mandatória.
- Eu sei me virar, relaxa aí. - disse desleixadamente. - Só quero ajudar.
- Não garoto, você não está entendendo. Apenas deixe-me aceitar o destino e a
morte certa. Corra enquanto pode, ele não terá dó de você! - exclamou.
- Não posso deixar alguém que precisa de ajuda assim! - disse, enquanto
rapidamente virava as costas, indo procurar algumas ervas medicinais para
fazer alguma espécie de curativo improvisado.
Ouvi gritos de repulsos ao fundo. Não entendi o que estava dizendo, e, mesmo que
tivesse entendido, não teria feito nada a respeito
Fiquei com medo de quem poderia ser “ele”, mas nada podia fazer.
Enfiei-me floresta adentro, então, procurando por plantas e ervas medicinais.
Passei uns 10 minutos procurando, e, por sorte minha, não muito longe, avistei um
punhado de flores amarelas plantadas em um local isolado, onde tinham uma
exposição ao sol constante.
Pareciam perfeitas demais para nascerem ali espontaneamente, e tinham
alguns galhos de carvalho e pétalas de íris rosa dispostos em sua volta. Pareciam
alguns dos ritos estranhos que via minha mãe fazendo, mas que davam bons
resultados. Mas nada disso importava. Juntando os fatos, lembrei de Esperança na
hora:
- Essa planta é muito importante filho, ela tem vários usos medicinais. Ela
ajuda a cicatrizar feridas e é usada em vários estágios da recuperação de
machucados graves. Os médicos que vão para guerra até usam ela para tratar
os soldados que voltam machucados! - dizia ela.
- Nossa mãe, sério? Como você sabe de tudo isso? - perguntei, entusiasmado e
impressionado com seu conhecimento natural.
- Ah filho, se aprende muitas coisas quando se viaja por aí. - disse ela, em um
tom materno.
Não tinha dúvidas. Algumas calêndulas estavam ali, plantadas. Sem pensar duas
vezes, peguei um punhado e voltei correndo para o homem ferido. Quando cheguei,
ele estava lá, com uma mão sobre os ferimentos no peito e com dedos sobre a testa.
- Sentiu minha falta? - perguntei, em um tom irônico, tentando quebrar a
tensão e deixá-lo mais à vontade.
- Garoto, escute aqui - disse em um tom sério -. Se você não correr daqui
agora mesmo, vai morrer, assim como eu. Você é apenas uma criança, não
deve se sacrificar para ajudar um velho rabugento como eu. - disse.
- Jamais poderia deixar alguém que precisa de ajuda na mão, ainda mais você,
um soldado. Deve ser alguém importante, então decidi te ajudar. Não
reclame! - falei.
Deu apenas uma breve risada. Acho que tinha entendido meu ponto, ou talvez tenha
lembrado de alguma coisa, pois ficou pensativo por um momento. De qualquer
forma, não tinha como me impedir. Preparei, então, para aplicar as flores de
calêndula em seu peito. Tinha um rasgo lateral na armadura, como se feito por
garras, e tinham ferido seu peito. Não foi um corte profundo, mas foi suficiente
para fazê-lo parar por um tempo.
- Ok, talvez arda um pouco, mas tente não gritar muito alto. - disse para ele,
enquanto aplicava as flores de calêndula sobre o ferimento.
- Você é filho de um druida, xamã ou algo assim? - perguntou.
- Porque a pergunta? - questionei. Como tinha adivinhado?
- Você trouxe da boa. Poucas pessoas sabem da boa. - disse.
- Da boa? - perguntei.
Não obtive resposta. Talvez estivesse tentando segurar o grito, talvez estivesse
pensando em alguma coisa, parecia contemplativo.
- Acho que essa sua armadura já era hein? A propósito, qual seu nome? - disse,
enquanto levemente esfregava as pétalas amarelas sobre seu peito.
- Fenn. - respondeu - Acho que já era mesmo, infelizmente.
- Porque infelizmente? Sabe, meu pai é um ferreiro, talvez ele possa te fazer
uma armadura nova. Talvez você até já tenha ouvido falar dele! - disse.
- Quem é seu pai, garoto? - disse, curioso.
- Seu nome é Kellen. Ele servia ao exército de Vorgin’hal quando era mais
novo.
- Hum, então o velho Kel ainda trabalha com isso? Achei que já tivesse deixado
isso de lado. Sim garoto, conheço seu pai. Éramos uma ótima dupla no
exército. Inclusive, foi ele que forjou essa armadura, há uns 3 anos atrás.
Diga-me garoto, ele não tem planos para parar de vez?
Falou bastante quando mencionei meu pai, talvez realmente fossem bons
amigos.
- Ele parece empolgado em melhorar como ferreiro ainda, não o vejo largando
o caneco na mesa tão cedo. - respondi, levemente orgulhoso.
- Ah, sim. Kel e suas dedicações por melhorar. Certa vez, ele-
A fala foi subitamente interrompida por um olhar desesperado, e esse olhar
por um uivo. Uivo esse que, quando olhei, estava materializado em minha frente
como um lobo. Mas não era um lobo comum. Era um lobo grande, gigante talvez.
Muito maior que a maioria dos lobos que já tinha visto, talvez fosse o maior. Tinha
quase certeza que era mágico ou sobrenatural. Seus pelos frutacor e seus
gigantescos caninos afiados quase me entregavam esse fato.
Ainda assim, reparei em algo mais incomum ainda. Ele estava sozinho. Lobos
não andam sozinhos. Estão sempre acompanhados por suas matilhas, e caçam em
conjunto. Na hora, diria que dei sorte de esse estar sozinho.
Rapidamente, disse para Fenn que apenas segurasse as pétalas de calêndula
onde estavam, e deslizei para a direita, empunhando a espada que tinha sido jogada
de lado. Era minha primeira vez empunhando uma espada de aço de verdade. Antes,
tinha apenas treinado com espadas de madeira com meu pai. Ela era mais pesada do
que eu imaginava, e parecia levemente difícil de manejar, mas eu senti que pegava o
jeito na hora.
O lobo não parecia querer me dar a chance de me acostumar com a arma, e foi
o que fez. A luta durou dois piscares de olhos. No primeiro, o lobo saltou para cima
de mim, abrindo uma boca maior que ele. Por sorte, consegui desviar rolando para a
direita, mas suas garras feriram meu braço direito. No outro, estava realizando dois
cortes no lobo: um da barriga até metade das costas, e outro horizontal na lateral do
corpo. O corpo da besta, então, caía ao chão, ensanguentado, provavelmente já sem
vida.
O ex-companheiro de meu pai me olhava assustado, provavelmente estava
esperando o pior. Eu, no entanto, estava com os olhos fechados, e estava respirando
fundo. Não tive tempo de dar nem a segunda respirada para processar o que acabara
de acontecer, e então uma borboleta emergiu de dentro do lobo.
Suas asas tinham a mesma cor dos pelos da fera, e ela voou e flutuou alguns
metros, até pousar sobre o chão. Foi, então, que presenciei algo inesperado, talvez
maravilhoso: a borboleta começou a se distorcer e a ganhar uma forma estranha,
parecia estar se moldando. O que antes eram asas, agora tinham o formato de
braços. O que antes tinha o tamanho de uma borboleta, agora tinha o tamanho de
um humano. Suas asas frutacor agora se tornavam uma pele morena humana, e,
quando reparei, um homem estava à minha frente.
Suas roupas animalescas desgastadas escondiam algumas tatuagens,
provavelmente naturais. Parecia um pouco mais novo do que Fenn, talvez tivesse
por volta dos 33 anos. Seu cabelo curto tinha um tom castanho, e tinha uma barba
por fazer. Já tinha ouvido minha mãe falar sobre gente parecida com ela, que
podiam assumir formas de animais, mas nunca tinha presenciado algo assim.
Parecia fantástico, e olhei assustado.
- Olha só criança, será que pode me dar licença? Não quero te machucar, só
estou tentando acertar as contas aqui com meu amigo ladrão, então, por
favor, poderia ir para casa? - disse o humano que se apresentava à minha
frente.
- Você acabou de tentar me matar, claro que quer me machucar. Olha só
homem seja-lá-o-que-você-for, eu sei bem que contas você quer acertar,
mas não posso deixar que o mate. Ele não fez nada de errado, ainda que você
tenha o chamado de ladrão.
- Eu não ia te matar, realmente. Você não fez mal a ninguém, diferente dele. Só
ia te deixar inconsciente e te largar pra fora da floresta. - foi o que afirmou -
Então, além de roubar plantas ritualísticas, você ainda manipulou a mente de
uma criança inocente? Que sujo e deplorável da sua parte. - o homem
afirmou, olhando em direção ao soldado.
- Não sou uma criança, muito menos sou inocente - disse enquanto olhava
para minha espada ensanguentada -. Olha só, não to entendendo nada.
Porque ele é um ladrão? Queira, por favor, explicar o seu lado, para que eu
possa ouvir os dois antes de tomar alguma decisão? - falei, sem muita
esperança de que fosse fazer de acordo como propus. Ainda assim, empunhei
minha espada e me botei entre o homem-animal e o Fenn.
- Vejo que há razão no que fala, então, tiefling. Tudo bem, faremos de acordo
com sua vontade - disse, suspirando e se encostando em uma árvore -. Sou o
que chamam de druida, e esse homem tentou roubar algumas das plantas
que usamos em nossos rituais. Não sei o motivo, só sei que foi pego no flagra.
- dizia com um olhar de quem acreditava no que tinha presenciado.
Terei de assumir, não estava esperando que ele fosse de acordo com o que falei.
Olhei para Fenn, esperando uma resposta.
- Olha só, eu não tinha como saber que vocês iam usar isso pra algum ritual.
Me mandaram buscar essas plantas aí porque elas estão em falta pros nossos
médicos, e eles dizem que elas são boas para ajudar nos ferimentos. - disse,
enquanto ainda segurava as pétalas de calêndula sobre o peito. Cuspiu um
pouco de sangue para o lado após sua afirmação.
Senti verdade em suas palavras.
- E são, de fato. Mas você acha mesmo que elas cresceriam em um lugar tão
perfeito assim? Você quer convencer-nos de que não faz a menor ideia de que
usamos calêndulas em alguns de nossos rituais?! - indagou o druida,
exaltado.
- E eu lá tenho cara de quem entende de planta, porra? Me mandaram vir aqui
pegar umas dessas tal de calêndulas aí, e eu vim. Só isso!
De fato, ele não parecia alguém extremamente versado nas artes naturais.
- Bom, meu trabalho é te matar para garantir que não vá mais interferir em
rituais importantes como esses. Mas, ainda assim, estou disposto a ouvir
uma última palavra do tiefling. - disse.
- Então seu trabalho é garantir que ele não interrompa mais os rituais, certo? -
indaguei.
- Sim.
- Então porque simplesmente não vai embora? Digo, você já explicou a
situação, tenho certeza de que ele nunca mais vai querer pisar nessa floresta.
Os dois saem vivos, todos saem felizes, ainda que Fenn deverá dar um jeito
de arrumar calêndulas em algum outro lugar. Talvez comprar seja uma boa
da próxima vez. - falei, olhando para ele.
- Uma mente pensante, então. Sim, devo apenas garantir que isso não
aconteça mais, a morte é apenas a mais certa das garantias.
Olhei para Fenn, esperando uma resposta.
- Bom, eu com certeza nunca mais piso nessa floresta, pode ficar tranquilo
quanto a isso. Mas não sei se temos estoque desse tipo de planta na cidade
ainda… - disse.
Eu e o druida olhamos feio para ele, que logo respondeu:
- Tá bom, tá bom. Eu vou dar um jeito. Melhor isso do que a morte. - disse,
cabisbaixo.
- Então, perfeito. - disse, enquanto largava a espada ao lado - Está resolvido.
Um certo clima de tensão ficou suspenso no ar, mas que logo foi quebrado pelo
druida, que parecia interessado.
- Sabe, nunca tinha visto um tiefling da sua idade assim. Normalmente são
apenas crianças insuportáveis. Vejo que aplicou corretamente as flores de
calêndula nos ferimentos, e possui uma habilidade marcial notável. Onde
aprendeu isso? - disse o druida.
- Minha mãe me ensinou a parte natural da coisa, enquanto meu pai cuidou da
marcialidade. - respondi.
- Quem era sua mãe? - perguntou, curioso.
- Esperança, uma tiefling como eu! - disse, levemente empolgado.
- Espere aí, como é o nome da sua mãe? - disse. Parecia confuso.
- Esperança!
- Há, um filho da Esperança! - exclamou. - Imaginei que ela iria ensinar esse
tipo de conhecimento pro filho, típico dela. - continuou.
- Você conheceu minha mãe?! - perguntei, entusiasmado.
- Claro garoto! De vez em quando ela aparecia no nosso círculo druídico para
conversar, trocar histórias e fazer uns rituais. Gente fina, figura única. Como
ela anda? - disse, enquanto fazia uma pequena flor desabrochar no chão.
- Não faço a menor ideia. - disse em um tom baixo - Não a vejo já fazem uns 4
ou 5 anos.
- Ah, é, lamento por isso. - disse ele, também abaixando o tom,
provavelmente entendendo onde tinha tocado. - Já vou indo, eu acho. Passe
bem, e, você, não venha mais à essa floresta. - disse à Fenn, enquanto seguia
floresta adentro.
Em reação olhei para Fenn. Estava lá, estendendo o braço para que eu o
ajudasse a levantar, e foi o que fiz.
- Sabe garoto - dizia enquanto cuspia um pouco mais de sangue -, acho muito
digno da sua parte ter feito o que fez. Acho válido perguntar: qual seu nome?
- Ettrian. - respondi.
- Hum, curioso. Porque não tem um nome como o da sua mãe, Esperança? Se
bem me lembro, é normal dos tieflings terem esses nomes. - disse.
- É sim, mas ainda não tenho um. Ela dizia que eu devo conseguir um nome
desses através dos meus atos e suas consequências.
Ele, então, disse que eu era merecedor de receber o nome “Valor”. Gostei do
nome, então, adotei-o em seguida. Agora, sentia que valor era não só mais um
conceito moral que algumas pessoas tinham ou buscavam. Eu tinha demonstrado
valor em uma situação de perigo, portanto, portava essa moralidade. Me senti no
dever, então, de fazer juz ao nome que me fora dado, não apenas para adicionar
sentido ao nome, mas sentia que isso era o correto. Talvez minha mãe sentisse o
mesmo com o nome Esperança, nome esse pelo qual tinha muito carinho. Talvez eu
tivesse encontrado o Caminho.
Alguns dias depois, parei e refleti sobre o acontecido, se não tinha feito algo
errado. Tinha salvado uma pessoa que, potencialmente, iria matar outras mais, e
minha “conta” não ficaria positiva, pois teria salvo uma que iria matar trinta,
então, valeu a pena? Ou, então, deveria eu tê-la deixado morrer para preservar a
vida de outros mais, apenas pela quantidade? Ou talvez isso não seja pelos números,
mas sim pelo ato e pela possibilidade de ajudar necessitados a se recuperarem de
qualquer que seja seu problema. Mas, se for isso, não deveria usar eu esse poder
com sabedoria, e “selecionar” quem ajudar para fazer valer a pena no final?
Não tinha a resposta para nenhuma dessas questões, e, potencialmente,
nunca as terei. Seria isso um problema? Acho que não. E, mesmo que fosse, não
tenho uma maneira de solucioná-lo, então apenas aceito os fatos como eles são
dados para mim. De qualquer forma, gosto de matutar isso na cabeça de vez em
quando, estimula meu pensamento criativo e sinto que consigo criar músicas e
poesias mais interessantes e complexas à medida que faço isso.
Entre a floresta e a floresta
Mais uma vez, lá estava eu, andando por mais uma floresta sem nome. Você
sabe o que eu digo agora, já fiz esse discurso antes, então abstenho-me desta vez.
Tinha por volta dos 17 anos na época. Estava lá, novamente, com minha flauta,
tocando sentado em um galho de carvalho. Estava improvisando na hora, e estava
gostando do resultado, sentia que estava progressivamente melhorando nisso.
Gostava daquele ponto específico onde estava. Era uma árvore de carvalho
que já tinha visitado antes, e já tinha sentado nessa mesma posição, nesse mesmo
galho. Escolhi ali pois gostava da vista que me era proporcionada. As flores das mais
diversas cores estavam espalhadas ao chão. Diversas árvores diferentes também
estavam ali dispostas, e um pequeno lago se encontrava a alguns metros dali, o que
dava um charme a mais pro local, pois era constantemente visitado por pequenos
animais.
Falando em pequenos animais, um passarinho tinha pousado em um galho a
minha frente, porém a alguns metros de distância, em outra árvore. Parei a música
para admirar o pássaro. Nunca tinha visto um como esse, e já tinha visto muitos
pássaros. Tinha penugem das mais diversas cores, não tinha uma definida ou
predominante, nem mesmo possuíam um padrão. Não lembro de minha mãe ter
comentado algo sobre, e considerei ser um daqueles druidas que encontrei certa
vez. Pouco provável, no entanto.
Encarei o pássaro por um tempo, e, lá pelas tantas, ele me encarou de volta.
Parecia estar me analisando, mas provavelmente não estava. Essa trocação de
olhares durou poucos segundos, quando decidiu sair voando para a esquerda, para
mais dentro da floresta. Eu, que fantasiei sobre o passarinho estar me olhando
atentamente, queria saber para onde ia o encara-bico. Desci da árvore e o observei
voar.
Enquanto observava sua direção exata, percebi um esquilo parado na frente
de uma árvore próxima. Tinha pelos rosas, o que tambem achei esquisito. Como
haviam tantos animais que não conhecia ainda? Estava ele, me encarando, com seus
dentes de fora. O encarei de volta, obviamente, e ele decidiu cortar contato,
correndo para a esquerda, para a mesma direção do passarinho. Agora não estava
seguindo apenas um pássaro colorido, mas também um esquilo rosa.
Andei poucos metros, seguindo a direção para onde iam o encara-bico e o
encara-dente, e algo me chamou a atenção. Um macaco com pelos roxo escuro me
encarava, agarrado em um galho. Nos encaramos por um tempo, e ele partiu, de
galho em galho, na mesma direção que o passarinho e o esquilo foram. Agora,
estava seguindo o encara-bico, o encara-dente e o encara-cara.
Como se não fosse o suficiente, o vento, que antes soprava contra mim, agora
estava soprando para a esquerda. Ou eu estava delirando, alucinando, ou algo estava
acontecendo. Foi, então, que tive a certeza perante a dúvida. Tudo parecia estar indo
para a esquerda. As árvores se moviam, sem sair da terra, para a esquerda, as folhas
dançantes as acompanhavam. O curso das águas de uma lagoa que agora conseguia
avistar iam para a esquerda também. A própria terra sob meus pés parecia se
moldar para a esquerda, como se quisesse me levar a algum lugar.
Considerei, por um momento, estar sob o efeito de algum alucinógeno, mas
não era possível. Não tinha ingerido nada além do usual. Isso durou alguns poucos
minutos, enquanto eu apenas observava, admirado. Então, após um tempo,
algumas coisas estavam, pelo menos, coerentes, se é que essa é a palavra certa.
A folha das árvores tinha assumido a cor dos pelos do esquilo. O tronco, por
sua vez, assumido a cor do macaco, e, por último, a água da lagoa tinha assumido a
cor da penugem do passarinho. Diversas borboletas e passarinhos das mais diversas
cores sobrevoavam o local, juntamente com as flores, que as acompanhavam na
paleta cromática. Foi então, nesse ponto, que concluí: eu não faço a menor ideia do
que está acontecendo. Mas gostei da mudança. As cores distorcidas caíam bem onde
estavam.
Tudo parecia místico e fantástico. Se alguém me contasse o que eu estava
vendo, jamais acreditaria. O céu, no entanto, continuava azul, o que achei curioso.
Não sabia exatamente o que fazer no momento, estava levemente desconcertado.
Não sabia se queria observar a dança das folhas rosas, subir no galho das árvores,
levar os pés à água ou apenas observar as flores, as borboletas e os passarinhos.
Decidi, então, fazer um pouco dos 3. Primeiro, fui me molhar na água.
Enquanto me aproximava, andava admirado, olhando para todos os lados, ainda
sem crer muito bem no que se dispunha à minha visão. Chegando à beira da lagoa,
encarei a água cristalina. Conseguia ver o fundo perfeitamente, possuía diversos
recifes de corais das mesmas cores das borboletas, dos passarinhos e das flores.
Alguns peixes, um pouco menos chamativos, também populavam o pequeno lago.
Tudo isso, em conjunto, proporcionavam uma vista como nenhuma outra.
Ouso dizer que já vi pinturas naturais fantásticas menos fantasiosas do que o que
estava presenciando. Talvez as de Gilliane chegassem perto. Era uma ótima pintora,
ia fundo na sua proposta fictícia de pintar as coisas comuns com diferentes
tonalidades. Infelizmente, eu apenas apreciava. Não tinha o jeito da coisa, mas
também nunca tinha tentado. Talvez devesse dar uma chance para isso um dia.
Mas as pinturas podem ficar de lado por um momento. O que importa, agora,
era a sensação que sentia ao, calmamente, depositar os pés sobre as doces águas
multi-cromáticas. Era quase como se a lagoa acolhesse meus pés, agora submersos.
A água estava fria, mas não o suficiente para estar desagradável. Parecia perfeita,
no ponto certo. A água parecia saber o quão frio ela tinha que estar para se tornar
um gelado agradável, e não um frio detestável.
Hoje me arrependo, mas na época não queria me molhar completamente,
então não mergulhei na lagoa. Péssima decisão, hoje em dia teria feito diferente.
Provavelmente perdi a chance de ter uma experiência única em uma floresta
mística. Acontece.
Passei bons minutos apenas aproveitando a sensação do curso da água sob
meus pés, contemplando o local enquanto isso. Era tranquilizante. O soprar do
vento dava uma brisa confortante no local, e o canto dos pássaros harmonizava com
o fluxo da água. Ainda assim, após um tempo, o curso começou a mudar para a
direita, e eu resolvi ir fazer outra coisa.
Fui, então, subir no galho das árvores, almejando uma vista bonita. Na
verdade, duvido que “bonita” seja a palavra certa. Duvido, ainda, que exista uma
palavra que possa descrever o que estava vendo. Na hora ignorei esse fato, e apenas
me aproximei de uma árvore oportuna, e comecei a escalá-la.
Enquanto subia nos galhos das árvores, um pensamento me veio à mente.
Por que não registrar tudo aquilo que estava presenciando? Tinha a sensação de não
ter tempo suficiente para tal, então, o que decidi fazer, foi escrever uma poesia, em
homenagem ao momento único. Na época, não sabia que seria realmente único.
Tive de fazer a poesia apenas na cabeça, pois não tinha instrumentos de
escrita em mãos, muito menos papel. Mas mentalizá-lo devia ser o suficiente. E,
mesmo que não fosse, duvido que não conseguiria imaginar a cena depois para
escrevê-lo, ainda que não fosse a mesma coisa. Nada era.
O transcrevi quando cheguei em casa, e o intitulei de: A dança das folhas
rosas. Duvido que tenha ficado tão bom quanto os de minha mãe, mas ruim não
estava. Pelo menos eu não achava.
Quando acabei de mentalizar o idílio, o que foram mais alguns bons minutos
- talvez tenha se passado mais de uma hora, apenas não reparei -, encarei a floresta
novamente. Em meio às árvores, o encara-bico estava lá, me encarando de volta.
Mas, dessa vez, o encara-dente e o encara-cara também estavam presentes, todos
na mesma árvore, mas um estava sentado no chão e o outro pendurado em um
galho, respectivamente. O vento, também, como de costume (aparentemente),
começou a soprar para a direita, e assim os três animais fizeram. Seguiam para a
direita juntos, harmoniosos, mas cada um em seu espaço.
Eu, que já havia seguido eles uma vez, pensei: por que não de novo? Se
outrora os seguia, e me mostravam um lugar maravilhoso, por que não iria fazer o
mesmo novamente? Não estava em condições mentais na hora de pensar: se para a
esquerda me levaram, para a direita guiarão a saída.
Apenas segui-os, confiante de que iam me levar a algum outro lugar. E
levaram, de fato. Estavam me guiando de volta, para onde tinha vindo. Na hora não
fui capaz de reconhecer isso, estava encantado demais, com inúmeras coisas.
Após andarmos por alguns minutos, o mesmo ocorreu, mas agora ao
contrário. As folhas rosas estavam se esverdeando e os troncos roxos estavam
ficando marrons. A floresta parecia estar ganhando sua cor comum de sempre
novamente. Não era feia, de maneira alguma. É que a outra era muito bonita.
No que ia acompanhando o processo, olhei para os três animais. Achei que
iam me encarar novamente, mas não. Dessa vez, os três animais começaram a se
desfazer em uma nuvem tremulante, cada uma com a respectiva cor do animal.
Acho que já tinha presenciado coisas surreais demais por um dia, e aquilo não me
impactou da mesma forma que deveria - o encontro com o druida talvez tenha
ajudado -.
A primeira coisa que fiz foi encarar de volta a realidade, e me perguntar o que
realmente aconteceu. Como já é usual, não tinha uma resposta para essa pergunta.
Estava meio triste de não poder ter ficado mais lá, mas tinha aceitado isso.
Cabisbaixo, porém empolgado, decidi voltar para casa.
O céu já tinha escurecido, e meu pai ficaria preocupado. Não tinha a menor
ideia do que iria inventar para ele, mas, se não me falha a memória, tudo ocorreu
bem. Transcrevi a poesia na mesma noite, e ainda fiquei matutando o acontecido
muito tempo na cabeça. Acho que dormi nessa noite pensando em uma música que
poderia compor para tentar passar, provavelmente sem sucesso, a sensação do
momento.
Cheguei a voltar àquele mesmo local em situações futuras. Nada inusual
acontecia, enquanto eu ficava apenas na expectativa. Acho que a palavra “singular”
descreve bem o ocorrido. Ou talvez não. Eu diria que foi uma experiência surreal, e
até hoje não tenho certeza se vivi tudo aquilo mesmo ou se apenas sonhei com
aquilo na floresta.
Entre o fogo e a moralidade
Sim, a mesma situação. Por volta dos 20 anos. Mas, desta vez, estava voltando para
casa. Caminhava por uma pequena trilha de pedras e folhas que se formava de um
ponto da floresta até a entrada. Sempre me guiava por essa trilha para voltar para
casa, era bem útil.
Não tenho certeza de como tinha se formado, mas a trilha estava lá, sempre
esteve. Talvez alguém a tenha feito há muito tempo atrás? Era uma possibilidade.
Será que, se alguém a fez, fez com o propósito de conseguir sair da floresta?
Na época, meu pai já havia morrido de velhice. Sua forja ficou sob minha
responsabilidade, mas ainda não sabia o que queria. Estava vendendo apenas o que
ele já tinha forjado, não sabia se queria continuar com isso ou não. Assim, eu sei
forjar armas e armaduras - talvez não tão bem quanto o velho, mas eu me virava -,
mas não tinha certeza se queria dar continuidade ou não para aquilo.
Na época, por mais que gostasse da profissão do meu pai e a admirasse, não
gostava tanto da ideia de passar o resto da vida em uma cidadezinha, sozinho com
uma forja. Talvez gostasse mais da vida que minha mãe tinha adotado no momento.
Ainda agora, acho que a prefiro.
Caminhava, então, até chegar em casa. A estrada era curta, confortável, e a
noite, levemente fria. À medida que chegava perto da cidade, avistei muita fumaça
saindo de uma casa, que logo reconheci como minha .
Logo que vi isso, apertei o passo. O que estava acontecendo? Quanto mais
próximo chegava, mais clara as coisas ficavam: pessoas reunidas em volta da casa,
alguns guardas, fumaça, cheiro de queimado - só pode ter ocorrido um incêndio.
Mas o que poderia ter causado um incêndio? Nada que fugisse do padrão nunca
aconteceu nessa casa. Pelo menos não até agora. Quando me aproximei o suficiente
e vi minha casa e a forja consumida por chamas e labaredas de fogo, isso meio que
confirmou a teoria. E entrei em desespero.
Rapidamente perguntei o que havia acontecido para as pessoas em volta, e a
maioria falava que não sabia ou que provavelmente foi algum acidente na forja. Eu,
sabendo de minhas limitações como tiefling, pensei em entrar no meio do fogo para
ver o que havia acontecido. E foi o que fiz, sem mal pensar uma vez, que dirá duas.
Mesmo com várias pessoas gritando para não entrar na casa, eu fui. Não
tinha como deixar tudo que construímos ir ao chão sem ao menos tentar ajudar,
salvar ou recuperar alguma coisa. Passei rapidamente pela porta e pelas labaredas
de fogo que ali se projetavam, e, quando avistei a sala, entendi a real situação.
Não sentia tanto o efeito do fogo assim por ser um tiefling, mas estar no
meio de um incêndio não era exatamente agradável. Além disso, o estado da sala já
me indicou como o resto da casa estava: destruída, incinerada e arruinada. Quando
vi tudo reduzido a nada pelo fogo, vi também que nada mais poderia ser feito,
independente de eu ser um tiefling ou não.
Saí da casa e tentei, então, junto de quem estava ajudando, apagar o fogo da
casa como podíamos. Depois de um bom tempo, o fogo parecia ir baixando, e, à
medida que ele a fumaça iam descendo e acabando, as pessoas iam sumindo. No
final, restava eu e um projeto de casa tomada pelo fogo. Entrei nela para ver se
alguma coisa poderia ser salva, mas já tinha decidido: iria virar alguém que vive
como minha mãe.
Tomei essa decisão rápido por alguns motivos: eu estava entre viver como
minha mãe ou continuar com o negócio do meu pai. Eu, particularmente, preferia a
primeira opção, mas ainda ia pensar e refletir sobre. Agora, com o incêndio, a
decisão mais óbvia era a que eu mais tinha apreço por, pois não tinha mais casa e
nem forja. A escolha foi, de certa forma, retirada de mim, e felizmente pendeu para
onde preferia.
Entrei em casa, então. De cara, parecia completamente destruída. Móveis
queimados, cômodos completamente incinerados e forja dizimada. O estranho era
que, na forja, onde supostamente tinha ocorrido o acidente, tudo parecia intocado.
A fornalha estava como sempre, bancada de trabalho também. Nenhuma
ferramenta fora do lugar, e nada tinha acontecido com o estoque. Não me parecia
um cenário de um acidente, era mais provável que alguém tivesse feito isso. Mas
quem faria isso? Ou melhor, por quê alguém faria isso? E, se alguém fez isso, como
não deixou pistas? Usou magia? Obviamente, não tinha a resposta para nenhuma
dessas perguntas.
Após uns bons minutos - ou horas - procurando e analisando o que restou,
ela continuava parecendo completamente destruída. Nada conseguiria tirar ou
salvar dali, tudo se foi. Meu próximo passo era perguntar na taverna local se alguém
tinha visto algo e pagar um quarto para dormir, mas antes, tinha algo a fazer.
Já que ia adotar a vida de minha mãe, decidi estabelecer seus conceitos em
forma de um juramento. Juramento moral, com dogmas a serem seguidos para não
desviar do Caminho. Posteriormente iria se tornar um juramento divino também,
mas eu não sabia disso ainda.
Fui, então, para a floresta mais próxima. Ia fazer o juramento lá, pois era um
local que gostava bastante, passava um bom tempo lá com minha mãe e porque
queria tentar imitar os rituais que ela fazia às vezes. Não lembrava muito bem como
eram e nem para que serviam, mas sentia que a ocasião pedia um deles.
Andei até chegar em um lugar com algumas árvores. Estava escuro, ouvia-se
apenas o canto das cigarras. Procurei ao redor por algumas plantas, flores, vinhas,
coisas que lembrava que eram usadas em rituais. Como não conhecia nenhum,
improvisei um eu mesmo, unicamente pela simbologia.
Peguei algumas prímulas, alguns galhos e vinhas de diferentes árvores e
poucas folhas, e comecei a depositá-las no chão em algum tipo de padrão, talvez
aleatório, talvez lembrando vagamente dos rituais que Esperança fazia.
Com um pouco das vinhas fiz um colar, e com o restante elas formavam um
pequeno círculo no chão. As folhas iam nas posições de 0, 90, 180 e 270 graus do
círculo, enquanto os galhos iam nas posições de 45, 135, 225 e 315 graus. As pétalas
das prímulas iam no centro do círculo, em formato de uma flor, e os pedúnculos
ficavam em sua volta.
Após poucos minutos, recitando algumas palavras, o juramento estava feito.
Após me levantar para voltar à vila, sentia um peso a mais no que fazia. Parecia que
algo tinha mudado, só não sabia o que. Quando pensei que precisava pensar nos
dogmas, eles me vieram à cabeça. Não sei como ou por que, mas senti os dogmas no
momento em que parei pra pensar neles. Não só isso, mas também sentia a vida
presente na floresta, e parecia que conseguia “curar”, ou algo assim, com minhas
mãos. Provavelmente era só o peso do juramento misturado com o choque de
perder a casa.