PRÓLOGO
Maya acorda com um barulho na janela. Ela sabia que seu melhor
amigo, Mike Cooper, príncipe de Dazzo, por quem era apaixonada, faria algo de
especial no seu décimo primeiro aniversário, mas não imaginava que seria às duas
horas da manhã.
Abaixo de sua varanda, a princesa avistou aqueles cabelos negros
selvagens que faziam seu coração bater mais rápido.
-Feliz aniversário!
-Mike, são duas da manhã! Não dava para esperar um pouco?
-Não é todo dia que se faz onze anos. E digamos que eu estava ansioso para te mostrar
a surpresa que preparei.
Maya riu.
-E qual é essa surpresa tão empolgante que nem te deixou dormir?
-Desça aqui, te levarei até lá e voltaremos a tempo de não sermos pegos, prometo.
Apesar do desespero para ir de encontro ao príncipe, a garota fingiu
estar pensando na sua resposta.
-Está bem, me convenceu. Espere um minuto.
. . .
Fazia 10 minutos que os dois andavam, mas pareciam horas. A floresta
ficava assustadora naquele horário, mas se Maya dissesse isso à Mike, com certeza ele
iria chamá-la de covarde como havia feito muitas outras vezes.
-Estamos chegando?
-Na verdade, já chegamos. Feche os olhos.
A princesa cumpriu o pedido do amigo.
-Já pode olhar.
A vista era linda, a luz do luar refletia no lago e o som dos animais
noturnos, juntamente da vegetação, deixavam o cenário ainda mais belo.
-É lindo...
-E vai ser todo nosso. Um dia.
-O que quer dizer?
-Você vai entender.
1
Eu não sou covarde. Era o que precisava repetir para mim mesma todas as
vezes que saía com Mike e seu espírito aventureiro que podia ser confundido com
imprudência ou burrice. Infelizmente, ele sempre fazia com que eu me rendesse e o
acompanhasse, graças ao seu sorriso hipnotizante. Maldito sorriso.
-Vamos, Maya! Nem é tão alto assim.
-Para ser sincera, eu preferia quando você me chamava para treinar arco e flecha.
-Só que você ficou muito boa e perdeu a graça.
-E se essa corda arrebentar?
-Não vai arrebentar, agora pega impulso e pula!
-Se eu morrer a culpa vai ser sua!!
-Tá bom.
Tudo bem, aquilo ia dar certo, eu já havia feito coisas piores com ele, como
atravessar um lago cheio de crocodilos. Pelo menos assim podia me sentir livre da
prisão que era viver naquele castelo.
-Deixa de ser molenga, princesa de Hollard!- Disse ele em tom de provocação com um
risinho de deboche.
Aquilo havia me atingido nos nervos. Era sempre a mesma história, se meus
sentimentos forem correspondidos, teremos de entrar em um consenso para mudar
isso, caso contrário, me tornarei viúva no meu primeiro dia de casada.
Não havia percebido que já estava do outro lado quando senti o toque
cuidadoso do príncipe em minha cintura.
-Eu disse que não ia arrebentar.
-Engraçadinho.
Mike riu.
Nossos reinos eram aliados, o que me levava a acreditar que, para
fortalecer essa aliança entre Dazzo e Hollard, nós dois já estávamos predestinados à
sermos noivos. Pelo menos nos dávamos bem desde a infância, seria uma tortura me
casar com quem odeio. Apesar das situações que ele me fazia passar, preferia estar
com ele do que em casa. Sentia pena de William, meu irmão mais velho e príncipe
herdeiro, a rigidez dos nossos pais comigo não era nada comparado ao que ele precisa
aguentar.
Mike sempre me permitiu fazer tudo aquilo que me era proibido. Após o
meu aniversário de onze anos, ele passou a se penetrar em meu quarto
frequentemente durante a noite e ficávamos conversando até o amanhecer.
-Entregue em casa, a salvo.
-Acho melhor você começar a pegar leve com essas saídas, imagine o escândalo que
seria se o príncipe herdeiro de Dazzo fosse o responsável pela morte da princesa de
Hollard.
-Eu nunca deixaria nada acontecer com você, sabe disso.
-É, eu sei.
Com um sorriso de canto de boca, o príncipe toma minha mão e se
despende dando-lhe um beijo.
2
A luz atinge meus olhos com força. Quero voltar a dormir, mas minha
mãe está me encarando com aquela mesma cara de indiferença, a única que ela
mostra todos os dias.
-Levante-se
-Algo aconteceu para que vossa majestade se lembre que tem uma filha?
-Agora não é hora para suas crises de rebeldia, Maya. Mas sim, algo aconteceu. VIsta-
se de preto e me encontre lá embaixo.
Vista-se de preto... Essa não, de novo não.
. . .
-Aí está você, pequena rosa!
-O que foi dessa vez?
O rosto de William se tornou sério.
-Um garoto de 7 anos foi pego roubando comida.
7 anos... Era apenas uma criança.
- E qual será o preço?
-Vinte chibatadas e o polegar direito arrancado.
Eu não deveria sentir medo do meu pai, mas ele é um louco. Sua justiça é
violenta e cruel, até mesmo com seus próprios filhos. Minhas cicatrizes das vezes que
saí da linha permanecem em minhas costas e com elas, as lembranças desses
momentos de terror.
Hollard é um reino muito rico, porém, apenas a corte pode desfrutar
disso, enquanto os mais pobres morrem de fome. Conto cada minuto como se fosse
mais próximo da coroa ser passada para William e termos a chance de um recomeço.
O povo o ama, talvez seja a esperança de seu governo que impediu o início de uma
revolução.
Desejo me sentar ao lado do meu irmão para suportar a cena que terei de
assistir a seguir, no entanto, os lugares já estavam definidos e minha única companhia
era minha mãe.
-Acusado de roubo, por ordem do Rei Carter Howard, esse será o seu preço a ser pago.
Meu pai se levanta.
-Agradeça por não perder a mão inteira, sua ação é inadmissível no meu reino e que
isso sirva de exemplo para os outros. Comecem.
Fecho os olhos com força, com o desejo de tapar os ouvido. Os gritos do
garotinho são de despedaçar a alma. Sinto um toque frio no meu braço.
-Não feche os olhos, irá demonstrar fraqueza.
Os cabelos loiros sujos caem sobre o rosto sardento do menino. Cada
chibatada traz à tona memórias da dor agonizante de quando estive sofrendo o
mesmo castigo. Lembro-me de ouvir o choro de William e seu desespero para que meu
pai não me machucasse, mas para o rei, não importava se eu era uma dama, somente
na hora de usar os terríveis vestidos desconfortáveis.
O sofrimento no rosto da criança é evidente. Ele não tinha culpa de nada, se
meu pai não usasse toda a renda para fins supérfluos, o garotinho não precisaria ter
agido de tal forma. Ouvir seu choro de lamento era uma tortura.
Os gritos se cessam e tudo que vejo é a criança ajoelhada, olhando para sua
mão, agora com um dedo faltando, chorando baixinho .
Não consegui dormir naquela noite.
3
A floresta é minha única companhia. Acordei cedo para treinar o arco, um hobby
que me foi apresentado através de Mike.
Se de alguma forma o rei descobrisse que estou aqui, com certeza seria punida.,
mas não consigo esquecer o rosto sardento da criança do dia anterior e preciso
extravasar. Não vou permitir que as regras idiotas deles tirem esse direito de mim.
Quando puxo o arco, nada mais importa, só acertar o alvo. Eu solto, mas não
acerto o centro do alvo.
-Alguém está precisando praticar
Esse imbecil resolve aparecer justo agora.
-Que bom ver você também, Archie.
-Faz quanto tempo que não toca em um arco e flecha?
-Não sei se já percebeu, mas sou uma princesa e é quase um milagre arranjar um
momento para praticar.
-Eu havia me esquecido desse detalhe, é muito tarde para me curvar e fazer
reverência, minha rainha?
-Odeio quando me chama assim.
-Sei disso.
-Idiota.
Archie é bonito, com seus cabelos loiros, olhos castanhos e altura imponente,
mas sua beleza é equivalente à sua ignorância.
-Fiquei sabendo que a realeza puniu uma criança ontem por ter pego um único pão da
burguesia para acabar com sua fome.
-Odeio isso tanto quanto você.
-Será mesmo?
-Como é que é?
-Vocês são todos iguais. Egoístas. O dinheiro que usam para bancar seus luxos daria
uma alimentação farta à todo o povo, mas isso não importa tanto quanto suas joias e
vestidos.
Se ele soltar mais uma palavra, darei um murro tão forte em seu rostinho lindo
que precisará de um novo.
-Quer saber? Vou para casa, quem precisa de treino, não é?
Ele riu com deboche.
-É claro.
-Eu te odeio.
-Eu te odeio mais.
4
Minha dama de companhia, Emma, está me ajudando nos toques finais do meu
vestido. É tão apertado que não consigo respirar.
-Tem certeza que vai conseguir usá-lo por mais de meia hora?
-Acho que não tenho muita escolha.
Solto um riso desconcertado na esperança de amenizar o clima, mas o olhar de
pena que Emma me oferece prova que não tive sucesso.
-Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar.
-Obrigada, Emma.
. . .
Desço as escadarias e encontro o rei Klaus, de Dazzo, com Mike ao seu lado, que
surpreendentemente estava com os cabelos penteados. Senti alívio ao perceber que a
reunião super importante do dia seria com eles.
-Você está atrasada, Maya.
O rosto de minha mãe, pela primeira vez, não estava indiferente. Estava
raivoso. Considerei isso um avanço.
-Não se preocupe com isso, Rainha Amelly, foram pouquíssimos minutos.
Mike tinha sorte por ter o rei Klaus como pai. Após a morte da esposa, o
homem jurou que faria de tudo para oferecer uma vida boa ao filho.
-Peço perdão pelo atraso, tive problemas com o vestido.
Meu pai finalmente se pronunciou:
-Pois bem, agora que a princesa está aqui, podemos retomar o assunto que estava
sendo discutido.
-Oh sim! O baile!
-Comemoraremos os 16 anos de amizade entre Dazzo e Hollard, que gerou
prosperidade à todo o povo, e também o aniversário de 17 anos da princesa Maya.
O fato do meu pai acreditar que seu reinado era próspero me causou um nó no
estômago. Ele se fazia de cego. O povo tinha de comer das migalhas que sobravam de
nossos luxos. Tinha que admitir que Archie estava certo.
-A corte sente falta dos nossos bailes, isso com certeza irá animá-los.- Disse minha
mãe.
-E se abríssemos o baile não apenas para a corte, mas para todo o reino?
O olhar que meus pais lançaram para mim fez com que meu sangue gelasse. Por
sorte, Mike argumentou ao meu favor:
-Apoio a princesa Maya, afinal, a aliança favoreceu todo o povo, todos podem
comemorar essa dádiva.
Discretamente, ele piscou para mim de modo cúmplice.
O rei Klaus, por fim, disse:
-Talvez não seja uma ideia tão ruim.
-Certo, então o baile será aberto para todos os cidadãos.
A sensação de ter vencido e poder ver o rosto dos meus pais naquele momento,
era um prazer que nem todo o ouro do mundo poderia pagar.
. . .
Minhas costas ardiam e William gritava para meu pai parar. Sufoquei toda a
minha agonia, não daria a ele a satisfação de me ver implorar por sua misericórdia.
Mesmo tendo o apoio de Mike, não foi o suficiente para conter a ira do rei.
Para ele, foi indisciplina, o que me fez ganhar mais cicatrizes para a minha coleção.
A raiva percorria todo o meu corpo, eu queria assassiná-lo com minhas próprias
mãos.
Mais um rasgo foi aberto nas minhas costas e conti o grito. Quando acabou,
lancei-lhe um sorriso provocativo e selvagem. Duvido que Mike fosse me chamar de
covarde agora.
5
Emma está cuidando de meus machucados. Ela aplica os remédios e cada toque faz
meu corpo se retrair.
-Não deveria provocar a ira de seu pai, isso só te machuca.
-Só queria ter a chance de ser ouvida, pelo menos uma vez.
-Sei disso, apenas me preocupo com você.
Ela começa a aplicar os curativos.
- Você comparecerá ao baile não é, Emma?
O rosto da jovem corou.
-Como poderia? Não possuo roupas apropriadas para o evento.
-Posso lhe emprestar um de meus vestidos.
-Obrigada, mas não é necessário que se preocupe com isso, vossa alteza.
-Não me chame assim.- odiei a angústia que transpareceu em minha voz- Emprestar-
lhe um vestido não me fará mal algum, mas sua ausência sim. Você é uma das pessoas
que mais gosto neste castelo, sua presença seria importante para mim. Por favor, vá.
Emma pareceu pensar um pouco, mas finalmente cedeu.
-Será uma honra, Maya.
. . .
Durante o banho, enquanto lavava o meu corpo, duras crostas de sangue se diluíram
na água, dando-lhe um tom avermelhado.
Passei a mão pelos cabelos que haviam sido lavados no dia anterior, mas já estavam
sujos novamente. Tomei minha mão de volta e encontrei mais sangue.
Senti raiva, amargura, todos os tipos de sentimentos de uma só vez. Ele iria pagar por
tudo e um dia, todo o sofrimento valeria a pena.
Pela primeira vez em muito tempo, me permiti chorar.
6
Mike usava suas roupas de caça, que não importava quantas vezes usava, sempre
tinham aspecto de novas, e eu estava usando um traje de couro e botas pretas, com o
cabelo preso em um rabo de cavalo.
Após muita insistência de minha parte para que treinássemos a pontaria, meu amigo
finalmente cedeu. Eu me empolgava ao chegar perto de um arco e flecha, usá-lo era
uma das coisas que mais gostava de fazer. Era como se a arma e eu nos
conectássemos, nos tornando um só ser.
Sempre que vínhamos à floresta para praticar, o príncipe me contava histórias de
feras sanguinárias que habitavam o lugar, o que me proporcionou o hábito de sempre
trazer comigo uma adaga aos treinos, que ficava escondida em minha bota, como
precaução e de vez em quando também usava para atirar.
No início minha mira era vergonhosa, já houveram vezes em que quase acertei
Mike por acidente, que sempre ria da minha cara, no entanto, com o passar do tempo
minhas habilidades se tornaram muito superiores às dele.
O príncipe tentou acertar uma maçã no topo de uma árvore, mas falhou
miseravelmente, o que me gerou risadas, que cessaram assim que a fruta foi atingida
por uma flecha vinda da direção oposta.
O silêncio reinou por longos minutos, até que algo se moveu entre as vegetações.
Não algo, alguém. Archie.
-Minha rainha, se deseja um guarda-costas, precisa no mínimo garantir que tenha uma
boa pontaria -disse em tom de deboche.
Meu pesadelo havia se tornado real, o que havia de pior do que Archie e Mike no
mesmo espaço?
Não soube identificar se era ofensa ou ciúmes o que vi no rosto de meu amigo.
- E quem sugere que ela chame para o serviço? Você, um mero plebeu que vive de
migalhas?
Em questãode segundos, Archei desferiu um soco no rosto de Mike, que revidou
o golpe, se tornando um ciclo.
O nariz do príncipe sangrava, assim como o lábio do caçador.
Archie ergueu o príncipe encostado na árvore mais próxima, de modo que suas
penas não tocavam mais o chão.
-Não preciso de suas sobras.- ele disse em um sussurro ameaçador.
-Já chega, vocês dois! -gritei.
Golpeei as panturrilhas do loiro, o que fez com que o mesmo perdesse o
equilíbrio e caísse no chão. Eu estava por cima dele com a adaga já não mais em minha
bota, mas em minha mão e apontada para sua garganta.
-Se ousar encostar um dedo que seja nele mais uma vez, irei arrancar suas tripas e usá-
las como enfeites para meu quarto. Me entendeu bem?
Ele respirava ofegante, mas seu olhar se suavizou e aquele sorriso irritante surgiu
em seu rosto
-Quem sou eu para desafiar a rainha?
Me levantei xingando o garoto. Ele era um babaca. Também quis esganar Mike
por não saber ficar calado.
-Está na hora de voltarmos, ou irão perceber que saímos.
Mike apenas assentiu, e enquanto partíamos, podia sentir o olhar de Archie em
nós.
7
Eu estava correndo, algo me perseguia. Não sabia o que era aquela monstruosidade,
mas tinha certeza de algo, me queria morta.
Não havia nada por perto que eu pudesse usar para que a besta me perdesse de vista
ou para me esconder.
Meu corpo estava se tornando pesado, a fera se aproximava. Eu não conseguiria fugir
naquele ritmo.
Tropecei em alguma coisa e prendi a respiração ao ver um cadáver. O meu próprio.
Próximo do defunto havia um bilhete. A mensagem estava escrita em kasteneano, um
reino vizinho do meu povo. Por sorte, aprendi o idioma para que pudesse realizar
visitas políticas com minha família.
"Você tem uma escolha."
Uma adaga surgiu em minhas mãos.
O monstro agora estava em frente a mim, havia algo familiar nos seus olhos, mas nada
acolhedor.
Não havia uma escolha, só me restava uma única alternativa.
Lutar.
Então, como nos velhos tempos, fui acordada por um barulho na janela.
8
-Vem comigo.
Não quero me levantar da cama, minhas costas ainda doem do meu castigo,
mas me forço a ir atrás de Mike, devo isso a ele depois da ajuda que ele me deu.
-Você pode ir um pouco mais devagar? Não consigo te acompanhar assim.
-Dramática.
Ignorei o comentário e continuei atrás dele.
A grama fazia minhas pernas coçarem e os insetos me picavam, mas isso não
me impediu de segui-lo. Queria descansar, porém só conseguia correr.
-Chegamos.
Meu coração gelou, estava em frente a uma cachoeira com a companhia de
Mike, o que quer que acontecesse em seguida, não seria coisa boa.
Com dificuldade para recuperar o fôlego, perguntei, temendo a resposta:
-O que estamos fazendo aqui?
-Espero que não esteja resfriada.
-Isso não tem graça, não vou pular daqui.
-Medrosa.
Antes que eu pudesse responder, ele me empurrou. O desespero tomou
conta de mim e comecei a gritar. Era um turbilhão de sentimentos. Ele me empurrou.
A adrenalina e a raiva se misturaram, até eu não saber identificar mais o que sentia.
O contato com a água causou um choque que percorria todo o meu corpo.
Não conseguia respirar, estava sendo puxada para o fundo. Mike nem se deu ao
trabalho de perguntar se eu sabia nadar.
Meu fôlego se esgotava e meus pulmões se enchiam de líquido. Tentei me
impulsionar para cima, mas jmeu corpoe estava cansado da corrida de poucos minutos
atrás. Lutei com todas as minhas forças, até tudo ficar escuro.
. . .
-Maya, acorda! Por favor, por favor fica comigo!
Foram essas as primeiras palavras que ouvi quando minha consciência voltou.
Tentei lembrar do que havia acontecido, mas mal abri os olhos e Mike estava me
abraçando com força.
-Eu sou um idiota, burro, podia ter perdido você , me perdoa.
-Calma, está tudo bem, apenas não me jogue do topo de uma cachoeira sem perguntar
se eu sei nadar, por favor.
Minha risada foi cortada quando me engasguei com mais água. Foi a vez do
príncipe rir.
-Eu deveria ter escutado o seu conselho da nossa última aventura.
-Mas você nunca deixaria nada acontecer comigo, lembra?
Sorri para ele. Seu olhar era contemplativo e de repente seus lábios estavam
junto aos meus lábios. O beijo era terno, mas desesperado, seu toque me causava
arrepios e borboletas no estômago.
Sua boca era macia e quente. Os movimentos de nossas línguas eram
sincronizados. O príncipe se afastou, com a expressão sombria.
-Vou te levar de volta para casa.
A confusão tomou conta de mim, mas não o questionei.
9
Quando éramos crianças, William e eu éramos cúmplices. Eu cuidava dele e ele
de mim.
Além de Mike, era o único que sabia das minhas fugas do castelo. Era como uma
troca de favores, ele me ajudava quando eu precisava sair e eu fazia o mesmo por ele.
Nossos pais nunca poderiam descobrir sobre nossos segredos, ou seríamos
gravemente punidos.
Em certas ocasiões, nós dois partíamos para a floresta escondidos. Em uma
dessas fugas, nos deparamos com uma roseira, e William disse que assim como a rosa
com seus espinhos, eu era delicada, mas jamais indefesa. Desde então, para ele, o
nome da flor se tornou o meu.
Faltavam dias para o baile e o castelo estava uma bagunça, todos agitados com
os preparativos.
Emma me aconselhava nas minhas escolhas para a decoração, ela sempre teve
muito bom gosto.
Mike não apareceu depois daquela noite. Não tive tempo para pensar no que
aconteceu, mas ainda podia sentir o gosto dele.
Avisto meu irmão mais velho e vou ao seu encontro.
-O principe herdeiro de Hollard, William Howard!
-Você está com um ótimo humor para quem passou o dia inteiro escolhendo cores de
toalha de mesa.
-Já que tocou no assunto, você tem até o final dessa conversa para descobrir a cor que
Emma e eu escolhemos
William sorriu confiante.
-Isso por acaso é um desafio?
Lhe respondo com a mesma confiança:
-Pode ter certeza.
-Até o final dessa conversa então.
Sorrio e mudo de assunto:
-A mamãe está te pressionando para encontrar uma noiva o mais rápido possível,
estou certa?
-Está. Devo encontrar uma moça para me casar ainda hoje.
Meu sorriso já havia desaparecido.
-Como acha que vão reagir quando descobrirem?
A voz dele se tornou um sussurro:
-Ele não vão descobrir. Marcos e eu estamos sendo cuidadosos, ele entende que é
perigoso demais contar sobre a nossa relação.
-Você gosta mesmo dele, não é?
Ele sorriu pensativo.
-Sim, eu gosto.
Meu irmão tivera diversos namorados no decorrer dos seus 19 anos de vida,
mas quando falava sobre o seu atual, seus olhos brilhavam lindamente.
Ouvimos alguém chamar pelo meu nome para definir mais coisas sobre o baile,
estou prestes a partir quando William diz:
-Eu sabia que escolheria vermelho, pequena rosa.
Ele sempre acertava.
10
Fui forçada a aprender a história dos reinos, é um dos critérios do meu pai. Ele
escolhe, aleatoriamente , um dia de cada mês para realizar um prova oral. Temos que
responder cada pergunta corretamente, caso contrário somos trancados em nossos
quartos durante o restante do dia, apenas com os livros de estudo, sem comida ou
bebida. Após o castigo, temos outra prova, a qual meu irmão e eu nunca quisemos
pagar para descobrir o que aconteceria se fôssemos reprovados.
A prova desse mês já havia sido feita, por isso o motivo da minha visita à
biblioteca era a busca por um livro de lazer. A leitura já havia muitas vezes me
impedido de enlouquecer naquele pesadelo.
Caminhava pelos corredores em busca de um título interessante, mas um livro
em especial chamou minha atenção. Eu não havia o percebido antes. A capa estava
gasta e empoeirada, parecia que não o tocavam há anos, talvez até décadas, o que
tirou de cogitando a hipótese de que o objeto teria sido adicionado na estante
recentemente.
Abri o conteúdo de páginas amareladas. Era mais um livro sobre a história dos 7
reinos: Hollard, Dazzo, Pryan, Kasten, Erord, Gondor e Follark. Quase deixei-o de lado e
voltei ao meu objetivo inicial, já conhecia aquela história de trás para frente, no
entanto havia algo de diferente naquela narrativa. O modo que contava os fatos não
era o mesmo que haviam me ensinado.
“Antigamente, os 7 reinos eram um só. O povo vivia com base na solidariedade.
Havia equilíbrio, fartura, o egoísmo estava quase extinto, mas como é de se esperar da
natureza humana, nunca se tornou inexistente.
Um império contra seis. Parecia que não teriam chance alguma, mas a
ganância de Hollard fez com que se tornasse uma das maiores potências. O governo já
não se preocupa a com as várias mortes da classe baixa de seu próprio povo. Se
tornaram absurdamente poderosos e declararam guerra, que só se encerraria se os
outros reinos partissem para as terras mais pobres, deixando toda a terra fértil para
Hollard.”
Meu coração batia com força. Essa versão absolutamente não era a que eu
havia aprendido. Diferente desse ponto de vista da história, os livros que li sobre a
divisão dos reinos diziam que foi tudo por questão de necessidade, pois a terra não
estava mais suportando tantas pessoas na mesma região, se tornando infértil, então
foi preciso que cada representante tomasse uma parte do povo e partisse.
Continuei lendo.
“Os reinos abortaram, era a única forma de sobreviverem à ira de Hollard,
que foi vitoriosa e encerrando a guerra com um mundo destruído. Por gerações,
Hollard governou os outros reinos através de ameaças, mas a dívida será paga, o fim
dos maus está próximo.
Aquela que nasceu do sangue
Aquela que foi rasgada
Aquela de fúria ardente
Aquela que perdeu tudo
Essa será a esperança do recomeço
Terminará onde se iniciou
A sua ruína virá de um dos seus
Os aliados serão inimigos
E os inimigos, aliados
Um há de se sacrificar
E tudo se resolverá antes do último raio de sol desaparecer
Uma jovem guerreira
Que fará as cinzas renasceram
O tempo é curto
Rápido
Rápido
Antes que seja tarde.”
O que isso queria dizer?
Fiquei intrigada, mas faltavam poucas horas para o baile e precisava me
apressar.
Escondi o livro em minhas roupas e parti em direção aos meus aposentos
11
O vestido era lindo. As mangas caídas de forma a mostrar os ombros
acrescentavam delicadeza à peça, o vermelho demonstrava força e a cor fazia
contraste aos meus cabelos escuros e olhos verdes.
Emma vestia um rosa suave, seus cabelos ruivos estavam presos para trás e
seus olhos azuis tornavam seu rosto ainda mais angelical.
-Foi muita gentileza sua sugerir que o baile fosse aberto à todos, vossa alteza.
-Isso é o mínimo, minha dívida com o povo não está nem perto de ser quitada.
Inclusive, nós já conversamos sobre essas suas formalidades, não precisa agir comigo
assim.
Ela sorriu radiante.
-É claro. Acredito que já esteja na hora de irmos, Maya.
-Então vamos.
. . .
Durante a noite, foi elogiada diversas vezes: pela decoração, aparência,
gentileza e outras características. Recebi presentes e agradeci pela presença de todos.
A primeira dança ia começar e meu par seria William. Ele usava um terno
azul marinho, com seus cabelos cacheados ameaçando se rebelarem. Seu rosto
possuía uma expressão alegre.
-Será uma honra dançar com uma moça tão bela. - disse ele de modo brincalhão.
- Que gentileza a do senhor, permita-me dizer que está magnífico nesta noite.
-Ouvi dizer que hoje é o aniversário de 17 anos desta belíssima senhorita , por sorte
ando sempre preparado.
Ele tira do bolso uma caixinha envolta em veludo preto. Ao abri-la, me
deparo com um delicado colar de ouro com um pingente de rosa, provavelmente foi
escolhido em homenagem ao apelido que o meu irmão me dera.
-Eu amei! É lindo!
William sutilmente toma a joia de minhas mãos e prende em meu pescoço.
Agradeço ele tantas vezes que ele suplica para que eu pare.
Ele me guia ao centro do salão, e durante nossa caminhada avisto Mike
usando um smoking chumbo e exibindo aquele seu sorriso galante à Emilly, uma das
damas da corte, que é apaixonada por ele há anos, assim como eu.
Estou fervendo de ciúmes , mas finjo não perceber que os dois estavam ali.
A música tocava e trocávamos de parceiros, fui simpática com cada um deles.
Eu amava dançar, meus pés se moviam por conta própria, a energia que
emanava do salão naquele momento era contagiante, o ritmo me inundava, parecia
que não havia mais ninguém presente. Subitamente eu paro ao ver quem seria meu
parceiro da vez.
-Você?!- Tentei conter a indignação em minha voz.
Parado de frente a mim estava Archie, que vestia um terno todo preto que
parecia ser antigo, mas o deixava irritantemente mais bonito do que já era. Eu sabia
que ele odiava a realeza, mas seu ódio parecia sempre dirigido a mim, algo que nunca
entendi o motivo . Se as circunstâncias fossem outras, eu poderia facilmente me
perder em seus profundos olhos castanhos.
-É uma honra dançar com minha futura rainha.
Vindo da boca de qualquer outro convidado daquele salão, eu consideraria
um elogio, mas quando se tratava de Archie, aquela era a mais vulgar das ofensas.
-Ficaria lisonjeada se o dono da frase não fosse você.
Ele sorriu de lado, provocando. Eu quis esganá-lo.
Possuíamos uma estranha harmonia enquanto dançávamos, tive que admitir
que ele era bom naquilo. Sentia sua respiração quente em minha orelha e o cheiro
absurdamente bom de seu hálito, por um minuto, quase me esqueci que ele era um
idiota. A tensão pairava entre nós, estávamos perigosamente próximos, então os gritos
começaram.
Nos afastamos abruptamente. Haviam corpos no chão e sangue por toda
parte. Estava confusa sobre o que estava acontecendo até notar quem estava
causando tudo isso. Soldados dazzeanos. Iriam tomar o poder.
Comecei a correr. Havia tumulto, todos estavam desesperados para que suas
vidas e as de quem amavam fossem salvas. Ao longe, avistei uma mulher sendo
transpassada por uma espada e cair dura no chão. Senti um ácido subir pela minha
garganta.
Pessoas lamentavam suas perdas e crianças choravam de desespero. Como a
noite havia tomado esse rumo? Pensei no rei Klaus sendo gentil comigo e me enchi de
fúria, era tudo falsidade. Alguém próximo a mim foi golpeado de modo a espirrar
sangue em meu rosto, o que me fez correr mais rápido ainda, sem olhar para trás.
Pisei em algo mole. Sufoquei o grito ao ver o corpo sem vida de meus pais no
chão. E o de Emma. Tomei minha amiga morta nos braços e a abracei com força, os
olhos azuis ainda estavam abertos. Era tudo culpa minha, ela nem queria vir à essa
festa idiota, se eu tivesse lhe dado ouvidos ela estaria viva e bem. As lágrimas
embaçaram minha visão. Não queria deixá-la, mas os gritos se aproximavam. Dei-lhe
um beijo na testa e tornei a correr, mas fui puxada.
Minha boca foi coberta por algo que não consegui identificar o que era.
Desferi diversos golpes em quem quer que estivesse me segurando, mas luta corpo a
corpo nunca fui boa em luta corpo a corpo e a pessoa era mais forte que eu.
Então, tudo ficou escuro.
. . .
Mike estava parado de frente a mim, seus olhos azuis estavam sem aquele
calor que eu conhecia, estavam frios. Congelantes.
Ainda assim, senti uma pontada de alívio ao vê-lo.
-Mike! Ainda bem que está vivo!
Tentei me mover, mas algo me impedia. Estava amarrada.
-Sinto muito, Maya, não queria que tivesse que ser assim.
Antes que eu pudesse questioná-lo sobre qualquer coisa, vi William com as
mãos atadas. A adaga na mão do meu melhor amigo roçava a garganta do meu irmão.
-Cadê o livro?
O livro.
Será que estava se referindo ao que encontrei mais cedo?
Eu podia sentir o peso do objeto entre as várias camadas do meu vestido,
mas não entendia por qual motivo Mike iria querê-lo.
-Não entregue a ele, Maya!
-Ou ele, ou o livro!
A adaga começava a rasgar a pele. Entrei m pânico.
Por que William não queria que eu entregasse o livro?
-Tudo isso pode ser nosso, meu amor, lembra? Só precisa colaborar comigo.
-Maya me escuta! Esse livro não pode cair nas mãos erradas.
-Cala a boca!!!
-Confio em você. Eu te amo, pequena rosa.
Meu irmão então afundou o pescoço na lâmina e seus olhos perderam a
vida.
-NÃO!!
Mike xingava.
Eu iria matá-lo!! Só conseguia pensar em como queria estraçalha-lo com
minhas próprias mãos, faria com que se arrependesse de ter tirado de mim quem eu
mais amava. E por ter me usado.
Ele imploraria por misericórdia.
-Seu traidor desgraçado!! Eu te amava!!!
-Eu gosto de você, Maya, mas como príncipe, tenho prioridades. Casar com você não
me garantiria o trono de Hollard, de qualquer forma, William era o herdeiro, seu
destino já estava traçado.
Meu Deus, como vai ser prazeroso quando eu acabar com ele.
-Não me olhe assim, os hollardianos que iniciaram essa guerra, sabe disso. Só foi um
erro pensarem que havia acabado.
Ele fez uma pausa.
-Já que você não vai me entregar o que quero, infelizmente não poderei deixá-la viver,
Últimas palavras?
-Eu serei sua ruína, Mike, osso eu te juro.
Ele tomou uma expressão dura. Olhava-me nos olhos.
-A janta de hoje está garantida para os lobos. Levem-na.
E então me deu as costas.
. . .
Eu estava cercada, não havia como fugir, eles me demorariam viva.
Tentei correr, mas já estava ferida demais. Os lugares onde havia sido
atacada ardiam, era como se eu estivesse sendo corroída lentamente.
A última visão que tive antes de perder a consciência de vez, foi uma
silhueta lutando contra as feras.
. . .
A dor lancinante penetrou minhas costelas.
-Não se mova, vai aumentar a dor.
A voz era grave e familiar.
-Sinto muito por não haver um cômodo apropriado o bastante para a senhora, minha
rainha.
Droga.
De todas as pessoas no mundo para me salvarem milagrosamente, tinha de
ser justo ele.
-Archie.
-Pode me explicar o que estava fazendo no meio dos lobos?
-Eu só queria lhes oferecer companhia, eles são muito carinhosos, como dá para
perceber- eu disse, sendo sarcástica.
E então as lembranças voltaram como um soco no estômago. Toquei o
presente de meu irmão ainda em meu pescoço. Archie disse algo, mas não prestei
atenção.
-Estão mortos. Todos eles.
A dor em meu coração era pior que a física. Tirei o livro de seu esconderijo.
-E tudo graças a essa coisa maldita.
O rapaz arregalou os olhos.
-O que isso está fazendo com você?
-Eu o encontrei na biblioteca hoje de manhã e de repente todos o queriam.
-Talvez seja porque ele possui a chave para controlar todos os 7 reinos.- ele disse como
se fosse óbvio, mas notou minha expressão confusa e continuou- Há muitos anos, os
antigos reis reuniram os magos mais poderosos que todas as terras para um único
objetivo: forjar uma espada que lhes proporcionassem capacidades sobre-humanas,
logo, quem a possuísse poderia ter o poder para salvar ou destruir a todos. Eles
conseguiram cumprir a meta, e nomearam a espada de Phoenix. No entanto, a arma se
tornou tão cobiçada que foi preciso parti-la e escondê-la. Eles criaram um mapa com
uma profecia, onde também colocaram as coordenadas para encontrar os pedaços da
espada para que ela pudesse ser forjada novamente. Se esse poder fosse alcançado
por pessoas de má intenção, todos estaríamos perdidos.
-Então era esse o motivo de William protegê-lo tanto assim...
Uma criança entrou no quarto. Eu reconheci os cabelos loiros, e o polegar
direito faltando havia confirmado minhas suspeitas. Era o menino que havia sido
punido por roubar comida.
-David, o que foi?
-Perdi meu ursinho. Quem é essa?
Archie fez uma cara emburrada quando respondi primeiro que ele:
-Sou Maya, muito prazer.
-Maya, esse é o meu irmão mais novo, David.
A realidade me atingiu como um balde de água fria. Como não havia
reparado na semelhança dos dois antes? Eu não deveria estar surpresa com essa
afirmação.
-É isso que está procurando?-perguntou Archie olhando pra o irmão com um urso
marrom de pelúcia em uma das mãos.
O menino sorriu alegremente.
-Isso mesmo! Obrigado, Archie.- ele disse e saiu do quarto.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que finalmente me pronunciei:
-Vamos atrás da Phoenix.
-Você tá maluca? É uma sentença de morte.
-Se encontrarem primeiro, todos nós pagaremos. Eu poderia ir sozinha, mas não sei
nada sobre a profecia, preciso de sua ajuda.
Seu rosto estava impassível, mas continuei:
-Não faça isso por mim, faça por David. Por favor.
Ele deu um suspiro.
-Provavelmente vou me arrepender de concordar com isso. Certo, vá dormir, amanhã
iremos acordar cedo para treinar, não podemos ir para uma missão desse nível sem
nenhum tipo de preparo.
Sorri vitoriosamente.
Algo que Mike não sabia, era que havia uma motivação muito mais poderosa
que a coragem:
Vingança.